Prévia do material em texto
BIOQUÍMICA DOS ALIMENTOS Priscila Souza Silva Cereais e leguminosas: definição e composição química Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Identificar a composição química e a funcionalidade dos cereais e das leguminosas. Reconhecer a importância dos cereais e das leguminosas na ali men tação. Listar os métodos de cocção e as alterações enzimáticas nas leguminosas. Introdução Cereais são alimentos de origem vegetal, constituídos de grãos. Os prin- cipais cereais cultivados são: arroz, trigo, milho, aveia, centeio, cevada e triticale. São amplamente consumidos em razão da facilidade de conser- vação e transporte e do rendimento, por serem de baixo custo, em razão do alto valor nutritivo e da grande variedade nas formas de utilização. Já as leguminosas são grãos contidos em vagens ricas em tecido fibroso. Os feijões são os principais representantes desse grupo. Os cereais e as leguminosas são fundamentais na alimentação, pois fornecem energia proveniente de carboidratos e proteínas (PHILIPPI, 2012). Neste capítulo, você vai estudar a composição química dos cereais e das leguminosas, bem como sua funcionalidade na alimentação. Além disso, você vai compreender os métodos de cocção e as alterações en- zimáticas presentes nas leguminosas. U N I D A D E 4 Cereais e leguminosas: composição química e funcionalidade Cereais Os cereais consistem em grãos que provêm das gramíneas, cujas sementes dão em espigas. Pode-se citar nesse grupo os seguintes exemplos: arroz, trigo, cevada, centeio, aveia, milho, quinoa. Além desses, existem formas híbridas como o triticale, o qual é proveniente do cruzamento entre o trigo e o centeio. Estrutura dos cereais Os cereais contêm uma camada de envoltório e películas ou tegumentos que, em algumas espécies como o trigo, o milho, o centeio, a aveia e a cevada, separam-se com facilidade do grão. Em outras espécies, chamadas de grãos nus, como no arroz, o grão não se destaca de seus envoltórios (ORNELLAS, 2007). Os constituintes químicos não se distribuem uniformemente pelo grão. O pericarpo é rico em pentosanas, celulose, cinza e proteína. A aleurona é uma camada rica em cinza (fósforo e fi tato), proteína, lipídios, vitaminas (niacina, tiamina e ribofl avina) e enzimas. O endosperma é composto basicamente de amido, mas sua parte mais externa contém mais proteínas que a porção interna. O germe tem alto conteúdo de proteína, lipídios, açúcares redutores e cinzas (ORNELLAS, 2007). Composição química dos cereais Os cereais, de forma geral, têm valor nutricional semelhante. Têm cerca de 70% de carboidratos e 10% de proteínas. Eles têm proteínas simples e carboidratos complexos, principalmente o amido. Os grãos integrais são ricos em fi bras, vitaminas e minerais (ORNELLAS, 2007). Veja o Quadro 1. Cereais e leguminosas: definição e composição química2 Fonte: Adaptado de Ornellas (2007). Cereal Umidade (%) Proteínas (%) Carboidratos (%) Lipídios (%) Fibra (%) Arroz 11 8 65 2 9 Trigo 11 13 69 2 3 Milho 11 10 72 4 2 Aveia 13 10 58 5 10 Cevada 14 12 63 2 6 Centeio 11 12 71 2 2 Quinoa 6,3 13,1 68,9 5,8 5,9 Quadro 1. Composição média de umidade, proteína, carboidrato, lipídios e fibras dos ce- reais Proteínas Os cereais contêm cerca de 1 a 13% de proteína. As proteínas são compostas de alto peso molecular, formadas por aminoácidos ligados entre si por liga- ções peptídicas que têm diversas estruturas. São encontrados quatro tipos de proteínas: albumina, globulina, prolamina e glutelina, sendo as predomi- nantes as prolaminas (gliadina no trigo) e as glutelinas (glutenina no trigo). Elas representam cerca de 85% da proteína total. A qualidade nutricional da proteína depende da biodisponibilidade dos aminoácidos, da digestibilidade e da presença de fatores antinutricionais. Devem ser consumidas combinadas com proteínas de origem animal ou vegetal. Quando servida junto com as leguminosas, constituem alimento completo (ORNELLAS, 2007). Carboidratos O cereal é uma excelente fonte de carboidratos complexos, sendo o mais importante o amido. Por ser de absorção lenta, o amido fornece energia ao organismo por tempo prolongado. O amido é a reserva glicídica dos cereais e consiste em 70% do peso total do grão. 3Cereais e leguminosas: definição e composição química No Brasil, existem os termos fécula e amido. A diferença entre eles está na parte de obtenção. Fécula é quando o material é proveniente de partes subterrâneas das plantas, como mandioca, cará, batata e araruta. Amido é quando o material é proveniente de partes aéreas, como arroz, milho, trigo e sorgo (ORNELLAS, 2007). O amido é um polímero de elevado peso molecular, formado de moléculas de glicose unidas entre si por ligações glicosídicas. Além disso, o amido é um polissacarídeo composto por cadeias de amilose e amilopectina. A amilose é formada por unidades de glicose unidas por ligações glicosídicas α(1→4), originando uma cadeia linear. Já a amilopectina é formada por unidades de glicose unidas em α(1→4) e α(1→6), formando uma estrutura ramificada. As diferentes proporções de amilose e amilopectina no grão irão caracterizá-lo em suas diferentes origens: o amido de mandioca apresenta cerca de 18% de amilose, enquanto o milho apresenta aproximadamente 25%, conferindo assim características tecnológicas diferentes aos amidos desses cereais. Os cereais que têm maior quantidade de amilopectina são denominados cerosos e os que são ricos em amilose são denominados não cerosos, como trigo, milho e arroz (ORNELLAS, 2007). Fibras A quantidade de fi bras pode variar de acordo com os cereais. As fi bras mais encontradas são: celulose (farelo de trigo), hemicelulose (farelo e grãos in- tegrais), lignina (trigo) e gomas (aveia e cevada). As fi bras são utilizadas na indústria de alimentos como estabilizantes, impedindo que os ingredientes suspensos se sedimentem (ORNELLAS, 2007). Lipídios Nos cereais, observa-se de 2 a 5% de lipídios. Estes são glicerídeos de ácido graxo, sendo os principais: os ácidos plamíticos, oleicos e linoleicos. Também estão presentes cerca de 4% de fosfolipídios, como lecitina. Os ácidos graxos saturados constituem de 11 a 26% do total, e os insaturados, 72 a 78%. Por estar Cereais e leguminosas: definição e composição química4 concentrado no germe e na parte periférica do grão, à medida que o grão vai sendo polido, a riqueza lipídica vai diminuindo. Eles têm papel fundamental na qualidade de preparações, oferecendo características como maciez e volume (ORNELLAS, 2007). Vitaminas e minerais Os cereais apresentam quantidades signifi cantes de vitaminas, como tia- mina, ribofl avina, niacina, ácido pantotênico, vitamina E e minerais como potássio, fósforo, ferro, magnésio e cálcio. Grande parte desses nutrientes está concentrada no gérmen e no farelo dos cereais. O conteúdo de vitaminas e minerais pode ser afetado por condições ambientais e práticas de cultivo. Durante o transporte, em razão de condições não favoráveis, a estabilidade e a biodisponibilidade podem ser alteradas. Por isso, o controle de umidade, temperatura e embalagem são fatores essenciais para prevenção de perdas (ORNELLAS, 2007). Características funcionais dos cereais Os cereais apresentam importantes características funcionais, uma vez que fornecem energia para as células do organismo, particularmente para o cére- bro, pois são fontes de carboidratos. Além disso, eles têm papel importante na qualidade das preparações. Dentre as características mais importantes, estão as seguintes. Elasticidade: o glúten é uma proteína presente no trigo, na aveia, na cevada e no centeio. Composto de gliadina e glutenina, quando misturado com água, forma um complexoelástico responsável pela elasticidade na produção de pães. O glúten faz com que a massa tenha liga e possibilite a retenção de gás carbônico para seu crescimento; portanto, quanto maior a proporção de glúten na farinha, melhor é a sua qualidade para fabricação de pães (PHILIPPI, 2012). O amido, presente nos cereais, pode sofrer modificações por meio de processos, como gelatinização e dextrinização. A gelatinização é a dilatação dos grânulos de amido quando submetidos à água aquecida, com consequente aumento de volume. O máximo de gelatinização é atingido a 95 °C, quando há formação de uma massa translúcida que constitui a goma do amido. Essa propriedade pode ser observada em preparações como mingau de aveia, papa de amido de milho e arroz cozido. A dextrinização é a hidrólise do amido e 5Cereais e leguminosas: definição e composição química ocorre no aquecimento prolongado, quando há um rompimento gradativo das membranas que envolvem os grãos de amido, liberando dextrina, uma subs- tância semissolúvel. Essa propriedade pode ser observada na farofa (farinha de mandioca aquecida) (PHILIPPI, 2012). Leguminosas Leguminosas são grãos contidos em vagens. Pode-se citar nesse grupo exem- plos como feijões, ervilhas, sojas, lentilhas, grãos-de-bico e amendoins. São alimentos ricos em proteínas (ORNELLAS, 2007). Estrutura As leguminosas são grãos (frutos) contidos em vagens ricas em tecido fi broso. Algumas espécies podem ser consumidas quando ainda verdes (ervilha e vagens). Os grãos secos apresentam uma envoltura de celulose que representa de 2 a 5% de sua estrutura e contêm no seu interior cotilédones com 50% de carboidrato e cerca de 23% de proteínas. As sementes leguminosas são classifi cadas em dois grupos: oleaginosas — soja e amendoim; grãos — feijão, lentilha, ervilha e fava (ORNELLAS, 2007). Composição química e funcionalidade das leguminosas As leguminosas oferecem proteínas de baixo valor biológico, que não as- seguram crescimento e desenvolvimento normal. A combinação correta de feijão e arroz corrige o aminograma, fornecendo a quota normal diária de proteínas e metade do consumo energético. A proporção deve ser de um para três, ou seja, para 100 g de feijão, 300 g de arroz. As leguminosas contêm minerais como ferro, zinco e potássio, bem como uma boa quota de vitaminas do complexo B, ácido fólico e ainda 50% de glicídios (ORNELLAS, 2007). De maneira geral, na composição química das leguminosas encontram-se proteínas, poucos lipídios, carboidratos (principalmente o amido) e fi bras por meio da celulose, além de micronutrientes e fi toquímicos. São também ricas em saponinas e fruto-oligossacarídeos, que podem apresentar ação antioxidante. O ácido graxo predominante nas leguminosas é o ácido linoleico (ômega 6). As leguminosas contêm carboidratos na forma de amido, celulose e outros, inclusive alguns oligossacarídeos indigeríveis para os seres humanos, como Cereais e leguminosas: definição e composição química6 a rafi nose e a estaquiose. A rafi nose é composta de três moléculas de monos- sacarídeos (galactose-glicose-frutose) e a estaquiose, de quatro moléculas de monossacarídeos (galactose-galactose-glicose-frutose). Pela defi ciência da enzima alfa-galactosidade na mucosa intestinal, as ligações entre esses monossacarídeos não são quebradas e, assim, chegam ao intestino grosso, onde são metabolizados por bactérias normais da fl ora intestinal. Nesse processo, são liberados gases (hidrogênio, dióxido de carbono e metano) responsáveis pela fl atulência característica da digestão das leguminosas. Com relação aos micronutrientes, as leguminosas são consideradas fontes de folato e fósforo. Os feijões são também fontes de ferro, no entanto, têm baixa biodisponibilidade desse nutriente. São excelentes fontes de fi bra alimentar e tem baixo índice glicêmico, normalmente associado ao conteúdo de fi bras, taninos e ácido fítico presentes nas leguminosas (PHILIPPI, 2012). Importância dos cereais e das leguminosas na alimentação Cereais O grupo dos cereais constitui a base da alimentação e fazem parte do há- bito alimentar brasileiro, exercendo papel signifi cativo na alimentação. Eles têm como nutriente predominante em sua composição o carboidrato, que é a principal fonte de energia alimentar no mundo. A participação no percentual energético da dieta pode variar de 40 a 80%. O carboidrato é a principal reserva de energia dos vegetais, além de garantir a integridade das estruturas ou células na forma de algumas fi bras alimentares. Os vegetais realizam, na presença de luz, a conversão do gás carbônico e da água em carboidrato e oxigênio. Esse processo é denominado de fotossíntese, processo responsável pela produção de oxigênio necessário à sobrevivência de diversas espécies. O principal elemento desse processo é a clorofi la. A quantidade de carboidrato produzido depende do vegetal e da oferta de gás carbônico e água no ambiente. Alguns vegetais como arroz, batata e mandioca especializaram-se em produzir carboidrato na forma de amido. A importância dos cereais na alimentação se dá em função da composição nutricional presente nesse grupo. Por serem fonte de carboidratos, oferecem energia para as células do organismo, particularmente para o cérebro, único órgão dependente exclusivamente de carboidratos. As recomendações die- téticas para prevenção de doenças crônicas não transmissíveis estabelecem 7Cereais e leguminosas: definição e composição química que a participação dos carboidratos no valor energético total de uma dieta normocalórica deve ser entre 55 e 75%. Sendo assim, considerando-se o planejamento de uma dieta de 2.000 kcal, os carboidratos disponíveis pelo grupo dos cereais, representados por arroz, pão e massa, devem contribuir diariamente com 225 a 325 g (PHILIPPI, 2014). Escolhas alimentares adequadas As recomendações enfatizam a importância do papel dos cereais na alimentação e encorajam o consumo de alimentos integrais para garantir o aporte energético dentro dos limites recomendados para uma dieta saudável (55 a 75% do valor energético total da dieta), além de veicularem outros nutrientes importantes como vitaminas, minerais, proteínas e fi bras alimentares. Alimentos como arroz, pães, massas, batata-inglesa, batata-doce, man- dioquinha (batata-baroa), mandioca, cará ou inhame devem ser os principais componentes da maioria das refeições e a mais importante fonte de energia. Para atingir a necessidade de 2.000 kcal para um indivíduo adulto, recomenda- -se o consumo de seis porções diárias desses alimentos. Dar preferência às formas integrais dos alimentos é garantir a manutenção do teor de vitaminas, minerais, ácidos graxos essenciais e fibras do produto original. O grau de processamento a que o alimento é submetido pode reduzir a quantidade de nutrientes presentes, como no caso do arroz branco polido, o pão branco, a fa- rinhas e as massas comuns refinadas. O pão integral pode apresentar diferentes teores de farinha de trigo integral, dependendo do processo de fabricação, o que resulta em teores variáveis de fibras no produto final (PHILIPPI, 2014). Cereais integrais Os cereais integrais são alimentos cuja estrutura não foi alterada e, portanto, manteve-se a integridade de seus nutrientes, sem perda de valores qualitativos e quantitativos. Assim, os cereais integrais são mais nutritivos do que os refi nados, na medida que contêm maiores quantidades de fi bras, vitaminas e minerais, nutrientes retidos nas estruturas removidas com a refi nação. Os cereais integrais são importantes fontes de carboidratos, fi bras alimentares, proteínas e vitaminas (como tiamina, ribofl avina e niacina) e minerais, prin- cipalmente o ferro. Dentre os cereais integrais estão o arroz integral e o trigo integral, com destaque para seus derivados: farinha de trigo integral,pão integral, massa integral, biscoito integral e cereal matinal integral. O grão de arroz é constituído de casca, película, germe e endosperma. As vitaminas e os Cereais e leguminosas: definição e composição química8 minerais estão concentrados na película e no germe (Quadro 2). O processo de refi nação, para a produção de arroz branco convencional remove essas estruturas do grão, restando apenas o endosperma, que contém basicamente amido. O trigo é um dos cereais mais utilizados e cultivados em todo o mundo, sendo o grão de trigo integral representado pelo grão completo. É composto principalmente de amido e glúten (PHILIPPI, 2014). Fonte: Adaptado de Philippi (2012). Parte Nutrientes Casca e película Celulose, minerais e vitaminas Endosperma Amido, proteínas de baixo valor biológico Germe Fonte de gordura, proteína de baixo valor biológico e vitaminas lipossolúveis Quadro 2. Estrutura do grão dos cereais e seus respectivos nutrientes Aplicação dos cereais na gastronomia Os cereais podem ser utilizados de diversas maneiras na gastronomia. São alimentos que devem fazer parte das refeições diariamente e constituem o maior número de preparações existentes. Os cereais podem ser consumidos “ao natural”, cozidos ou em preparações sob a forma de farinhas (PHILIPPI, 2014) (Quadro 3). “Ao natural”: cereais matinais, aveia em flocos, tabule, entre outros. Cozidos: arroz cozido e milho cozido. Preparações: pães, biscoitos e macarrão. 9Cereais e leguminosas: definição e composição química Cereal Consumo direto Preparações Milho (espiga) Cozido ou assado, em conversa e grãos refogados Canjica, pamonha, curau, sorvete, pipoca, doce, pães, bolos, biscoitos, cuscuz, polenta, creme de milho e petiscos Arroz Acompanhamento Arroz-doce, mingau, bolo, baião de dois, arroz carreteiro, bolinho de arroz, risoto e sopa Trigo Bolos, massa para tortas e doces, pão-de-ló, biscoitos, pizzas, tortas, pães e bolinhos Trigo para quibe Tabule (salada) Massa para pizza, torta e quibe Aveia Grãos, farinhas e flocos finos Mingaus, biscoitos, bolos, cremes, pão, sopa e torta Quadro 3. Tipos de cereais, formas de consumo e preparações Leguminosas O grupo das leguminosas é fonte de proteínas, ácidos graxos insaturados, vitaminas e minerais antioxidantes, fi toquímicos e fi bras. Ele encontra-se no terceiro nível da pirâmide dos alimentos. Os feijões, as lentilhas, as ervilhas, as sojas, o grão-de-bico, a alfarroba (conhecida por chocolate saudável, com baixo teor de gordura, é muito utilizada na indústria alimentícia) e os amendoins representam os principais exemplos desse grupo. Eles são fonte de proteínas de origem vegetal cujo valor biológico é melhorado quando ocorre o consumo concomitante de cereais, pois as proteínas desses alimentos combinados são complementares. Recomenda-se o consumo diário de pelo menos uma porção de qualquer alimento desse grupo. A porção fornece 55 kcal e, em relação às leguminosas, equivale a uma concha de feijão cozido com caldo, a duas colheres de sopa somente dos grãos do feijão, a duas colheres de sopa de lentilha cozida ou a uma colher e meia de grãos de soja cozidos. As legumi- nosas fornecem diversos nutrientes e compostos bioativos, que podem atuar na redução do risco de doenças crônicas não transmissíveis, principalmente as fi bras alimentares. Tendo em vista a importância nutricional desse grupo e as recomendações de consumo, sabe-se que não são substitutos de nenhuma Cereais e leguminosas: definição e composição química10 outra fonte de proteínas de origem animal, mas que a ingestão regular traz benefícios para a saúde humana (PHILIPPI, 2014). Aplicação das leguminosas na gastronomia As leguminosas podem ser utilizadas de diversas maneiras na gastronomia, sendo que as mais comumente vistas são os feijões. Existem diversos tipos de feijões utilizados no Brasil, com tamanho, cor e sabor diferentes (PHILIPPI, 2014; ORNELLAS, 2007): feijão-preto — utilizado em sopas e feijoadas; feijão-roxinho — utilizado em saladas, sopas e como acompanhamento; feijão-fradinho — também conhecido como feijão de corda, é usado no preparo de acarajé; feijão-mulatinho — utilizado em acompanhamentos; feijão-branco — usado em sopas e saladas; feijão-jalo — usados em sopas e saladas; feijão-carioca — variedade mais cultivada e consumida pelos brasileiros; feijão-verde ou rajadinho — utilizado para preparação do baião de dois (arroz com feijão). Veja o Quadro 4 a seguir. Fonte: Adaptado de Philippi (2012) e Ornellas (2007). Leguminosas Preparações Ervilha Saladas, recheio (torta e empadinha), omelete e sopa Lentilha Sopas, cozida, salada e acompanhamento de arroz Grão-de-bico Refogado, purê, massa de croquetes e bolos, salada, cozido, sopa, torrado e em pasta Fava Cozida, salada e com arroz Amendoim Pé de moleque, frango xadrez, torrado, pavê e pasta ou manteiga de amendoim Alfarroba* Aditivos em pudins e substituto do chocolate Soja* Almôndegas, hambúrguer, leite de soja e óleo de soja Quadro 4. Leguminosas e preparações 11Cereais e leguminosas: definição e composição química Leguminosas: métodos de cocção e alterações enzimáticas As leguminosas mais frequentemente consumidas são as secas. Durante o processo de cocção, as leguminosas secas absorvem água e tornam-se macias, o sabor acentua-se e a digestibilidade aumenta. Dependendo das condições e do tempo de armazenamento, as leguminosas sofrem endurecimento, aumen- tando seu tempo de cocção. As leguminosas secas necessitam fi car algumas horas de remolho antes de serem submetidas à cocção, devendo ser lavadas anteriormente para serem fervidas na própria água em que fi caram de remo- lho; do contrário, poderá acontecer a perda de substâncias e pigmentos que tenham se dissolvido durante o remolho, tornando a preparação mais pobre e com coloração mais clara. No entanto, apesar de a água do remolho conter substâncias importantes, recomenda-se que se despreze ela em razão do alto teor de compostos que podem causar gases (ORNELLAS, 2007). Em determinadas indicações dietoterápicas, quando há indicação de redução de potássio, por exemplo, em doenças renais, a água de remolho deve ser desprezada, a fim de garantir uma baixa ingestão desse mineral, visto que se concentra na água em que a leguminosa ficou de molho (ORNELLAS, 2007). O tempo de cocção varia com a temperatura, a forma de cocção e o tipo de grão usado. A quantidade de água necessária para intumescer o grão varia segundo os diferentes tipos de leguminosas. Veja alguns exemplos a seguir. Lentilha, ervilha seca e feijão-branco: proporção de 4:1 (4 de água e 1 de leguminosa). Feijão-preto, mulatinho e fradinho: 3:1 (3 de água e 1 de leguminosa). Na fervura inicial das leguminosas, formam-se camadas superficiais de espuma, que diminuem com o acréscimo de sal de cozinha e gordura. A presença de sal, gordura e outros alimentos interfere no cozimento do grão. O sal endurece os grãos, interferindo na gelatinização do amido e impedindo o abrandamento das fibras, o que torna as leguminosas duras. Por isso, as Cereais e leguminosas: definição e composição química12 leguminosas devem ser salgadas e temperadas após o cozimento (ORNELLAS, 2007). Para a cocção das leguminosas, pode ser empregado calor úmido ou calor seco (ORNELLAS, 2007). Calor seco: o amendoim é a única leguminosa que pode ser submetida ao calor seco, pois tem características muito individuais, como o alto teor de gorduras. Calor úmido: o tempo de cocção varia com a temperatura e a variedade do grão usado. O método de ebulição simples (cozimento) leva de duas a três horas. Já o uso da panela de pressão reduz o tempo de cocção para 20 a 30 minutos. A quantidade de água necessáriapara intumescer o grão difere de acordo com a variedade da leguminosa; geralmente varia de duas a três xícaras de chá de água para cada xícara de leguminosa. Alguns fatores podem infl uenciar a cocção de leguminosas, veja a seguir. Período de armazenamento: quanto maior o tempo de armazenamento, mas difícil é a cocção do grão, em razão de a perda de umidade ser maior. Temperatura e grau de umidade do local de armazenamento: quanto maior a temperatura e menor a umidade do local, maior será a perda de umidade, dificultando a cocção do grão. Variedade da leguminosa: lentilhas e ervilhas secas são mais tenras e levam menos tempo para cozinhar do que o grão-de-bico, por exemplo. Presença de minerais na de água de cocção: torna o grão endurecido, dificultando, portanto, a cocção. Alterações enzimáticas nas leguminosas Entre os vegetais, as leguminosas constituem uma boa alternativa de proteí- nas e carboidratos, sendo um dos principais suprimentos proteicos em áreas em que fontes de proteína animal são escassas. Dentre as leguminosas mais utilizadas, temos os feijões (ESTEVES et al., 2002). A preferência do consu- midor brasileiro é pelo produto de colheita mais recente, já que a qualidade do feijão é afetada no decorrer do tempo de armazenamento. Essa perda de qualidade é manifestada pelo aumento no grau de dureza do feijão, causando aumento no tempo de cozimento, além de alterações no sabor e escurecimento do tegumento. O parâmetro bioquímico mais utilizados em estudos do fenômeno de endurecimento tem sido o conteúdo de lignina e pectatos, enquanto para o 13Cereais e leguminosas: definição e composição química estudo do fenômeno de escurecimento tem-se determinado o conteúdo de fenóis totais e a atividade enzimática de oxidorredutases (SIQUEIRA, 2013). Endurecimento dos grãos O endurecimento dos tecidos vegetais da bainha das vagens de muitas espécies de leguminosas, que acontece pouco depois da colheita, está relacionado com a biossíntese dos compostos da parede celular, entre eles a lignina. A lignifi - cação das membranas celulares lhes proporciona uma considerável resistência e rigidez. A formação de lignina em razão da polimerização de fenóis está relacionada com a enzima peroxidase (POD). Essa enzima está envolvida no processo de lignifi cação da lamela média dos cotilédones. A contribuição dos polifenóis no endurecimento dos feijões pode também estar associada com a formação de complexos de proteína. Os polifenóis são os responsáveis pelo endurecimento dos feijões por meio de dois mecanismos: por sua polimerização na casca ou pela lignifi cação dos cotilédones, ambos afetando a capacidade de hidratação das sementes. O primeiro difi culta a penetração da água e o segundo limita a capacidade de embebição, ou seja, a capacidade de absorção de água e de permeabilidade do tegumento (ESTEVES et al., 2002). O processo de endurecimento do grão de feijão tem sido relacionado a diferentes mecanismos, mas principalmente à atuação enzimática. Durante o envelhecimento, o calor e a umidade elevada causam a ativação de determinadas enzimas presentes nos cotilédones, desencadeando inúmeras reações. Várias enzimas são citadas como responsáveis pelo processo de endurecimento, como fitase, polifenoloxidase (PPO), proteases, lipases e POD. Suas reações contribuem para esse processo provocando alterações no meio extracelular, danificando membranas e alterando a estrutura dos componentes da parede celular e lamela média. A lignificação consiste na principal teoria que enfa- tiza o envolvimento de enzimas no processo de endurecimento. Essa teoria relaciona o desenvolvimento do endurecimento com a polimerização dos compostos fenólicos, provenientes principalmente das cascas que são ricas nessas substâncias, mediadas por enzimas oxidorredutases e pela formação de ligações cruzadas entre os compostos fenólicos e as proteínas da parede celular das células dos cotilédones (SIQUEIRA, 2013). Cereais e leguminosas: definição e composição química14 Escurecimento dos grãos A oxidação enzimática de compostos fenólicos pela POD e pela PPO resulta, reconhecidamente, no escurecimento de tecidos vegetais. A POD é um membro da família das enzimas chamadas oxirredutases, que catalisam a oxidação de aminas aromáticas e fenóis pelo peróxido de hidrogênio. Ela catalisa a reação geral: ROOH + AH2 ‡ H2O + ROH +A, em que ROOH pode ser HOOH ou outro peróxido orgânico, como éter peróxido, peróxido de hidrogênio etílico ou peróxido butílico (ESTEVES et al., 2002). O escurecimento pós-colheita está relacionado a mudanças bioquímicas durante o armazenamento. À medida que os grãos vão envelhecendo, compostos presentes no tegumento podem sofrer oxidação ou outras mudanças químicas que levam a novos compostos, mudando a cor deles. O escurecimento é acelerado pela exposição à luz, pela alta temperatura e pela umidade durante o armazenamento. Estudos têm demonstrado que os compostos fenólicos estão relacionados ao escurecimento dos grãos quando na presença de oxigênio, fato ocasionado por oxidações enzimáticas mediadas por oxidorredutases, presentes no tegumento (MARLES; VANDENBERG; BETT, 2008). Dentre essas enzimas, destaca-se a PPO, enzima que contém cobre no centro ativo e catalisa dois tipos de reações, ambas envolvendo oxigênio. A primeira reação corresponde à hidroxilação de monofenóis formando ortodifenóis e a segunda à oxidação de ortodi- fenóis formando ortoquinonas. As quinonas formadas, subsequentemente, sofrem uma série de reações não enzimáticas para formar pigmentos escuros denominados genericamente de melaninas. Outra enzima responsável pelo processo de escurecimento em vegetais é a POD. Essa enzima, do mesmo modo que a PPO, tem atividade típica na reação de oxidação de compostos fenólicos, porém requer a presença de peróxido de hidrogênio. Essa classe de enzimas também forma quinonas como produto. Esses compostos formados são bastante instáveis e, após a oxidação não enzimática na presença de O2, polimerizam-se formando as melaninas (SIQUEIRA, 2013). 15Cereais e leguminosas: definição e composição química ESTEVES, A. M. et al. Comparação química e enzimática de seis linhagens de feijão (Phaseolus vulgaris L.). Ciência e Agrotecnologia, v. 26, n. 5, p. 999-1005, set./out. 2002. MARLES, M. A. S.; VANDENBERG, A.; BETT, K. E. Polyphenol oxidase activity and diffe- rential accumulation of polyphenolics in seed coat of pinto bean (Phaseolus vulgaris L.) characterize postharvest color changes. Journal of Agricultural and Food Chemistry, v. 56, p. 7049-7056, 2008. ORNELLAS, L. H. Técnica dietética: seleção e preparo de alimentos. 8. ed. São Paulo: Atheneu, 2007. PHILIPPI, T. S. Nutrição e técnica dietética. 2. ed. Barueri, SP: Manole, 2012. PHILIPPI, T. S. Pirâmide dos alimentos: fundamentos básicos da nutrição. 2. ed. Barueri, SP: Manole, 2014. SIQUEIRA, B. S. Desenvolvimento dos fenômenos de escurecimento e endurecimento em feijão carioca: aspectos bioquímicos e tecnológicos. 2013. Dissertação (Mestrado em Ciência e Tecnologia de Alimentos)- Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2013. Leitura recomendada DOMENE, S. M. A. Técnica dietética: teoria e aplicações. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2011. Cereais e leguminosas: definição e composição química16 Conteúdo: