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PROBLEMA 1 1- Definir refluxo. A doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) foi definida pelo Consenso Brasileiro da DRGE (2007) como “uma afecção crônica decorrente do fluxo retrógrado de parte do conteúdo gastroduodenal para o esôfago e/ou órgãos adjacentes a ele, acarretando um espectro variável de sintomas e/ou sinais esofagianos e/ou extra-esofagianos, associados ou não a lesões teciduais”. A doença do refluxo gastresofágico (DRGE) foi definida objetivamente, no consenso internacional realizado em Montreal (2006), como “condição na qual o refluxo do conteúdo gástrico causa sintomas que afetam o bem-estar do paciente e/ou complicações ”. A DRGE pode ser classificada em doença do refluxo erosiva (DRE), pelo encontro de erosões ou evidências de suas complicações na mucosa esofagiana, na presença de sintomas típicos e doença do refluxo não erosiva (DRNE) quando existem os mesmos sintomas, porém sem as lesões acima referidas, ao exame endoscópico. É importante ressaltar que cerca de 50%-70% dos pacientes que procuram auxílio médico têm DRNE, também denominados de pacientes endoscopicamente negativos. O refluxo gastroesofágico (RGE) é definido como o retorno passivo do conteúdo gástrico para o esôfago, independentemente de sua etiologia. Tal fenômeno pode ocorrer em circunstâncias fisiológicas ou patológicas e em qualquer indivíduo, seja criança ou adulto. Quando não está associado a sintomas, doenças ou complicações, é denominado RGE fisiológico. O RGE patológico, ou doença do refluxo gastroesofágico (DRGE), possui prognóstico mais grave, além de abordagens diagnóstica e terapêutica diferentes. É frequente em lactentes, sendo autolimitada e isenta de complicações. Quando acompanhada de repercussões clínicas como anemia, hemorragia digestiva, dificuldade em ganhar peso ou perda ponderal, manifestações respiratórias e otorrinolaringológicas, atraso do desenvolvimento, entre outras, passa a ser caracterizada como doença do refluxo gastroesofágico (DRGE). 2- Epidemiologia, fatores de risco e etiologia. EPIDEMIOLOGIA Atualmente, a DRGE é considerada um problema de saúde pública em razão de sua elevada prevalência, evolução crônica, recorrências frequentes e comprometimento da qualidade de vida. A prevalência estimada da DRGE baseia-se apenas na presença de sintomas clássicos . Existe uma quantidade crescente de informação sobre manifestações extraesofágicas da DRGE, com evidências de que a DRGE pode ser mais comum do que estimado atualmente. Dados epidemiológicos baseados na presença de pirose como indicador da DRGE revelam que 15 a 44% dos adultos norte-americanos têm este sintoma pelo menos uma vez por mês, e 14 a 17,8%, diariamente. No Brasil, foi realizado um estudo populacional que avaliou a frequência de pirose, entrevistando quase 14.000 pessoas em 22 cidades, que conclui que 12% da população urbana tem a DRGE. A DRGE afeta todos os grupos etários , mas os idosos procuram tratamento mais frequentemente. O impacto negativo da DRGE na qualidade de vida é significativo, maior do que em pacientes com diabetes melito e hipertensão arterial, com rápida melhora após resposta favorável ao tratamento. A prevalência da DRGE depende, diretamente, da maneira pela qual será feito o diagnóstico. Apresenta grandes variações em apresentação clínica, endoscópica e pela pHmetria. Quando o critério de diagnóstico é a endoscopia alta, observamos que cerca de 3 a 4% da população geral é vítima de DRGE. 40-60% dos pacientes sintomáticos apresentam alterações à endoscopia. A afecção acomete em proporções semelhantes ambos os gêneros, embora as complicações sejam mais frequentes no masculino. Idade superior a 45 anos constitui fator de alto risco. A doença se relaciona, ainda, com fatores genéticos, obesidade (IMC >30) e infecção por Helicobacter pylori. O uso de fármacos específicos melhora em 50% o estilo de vida dos mesmos. Uma variação nos graus de refluxo pode ser observada de acordo com o ritmo circadiano, sendo que, no meio da tarde e no início da noite, os episódios de refluxo são preponderantes. A grande diferença entre os métodos de diagnóstico acarreta uma ausência de classificação formal para a DRGE. O primeiro consenso brasileiro da DRGE, publicado em 2000, elaborou uma classificação baseada em sintomatologia, endoscopia e phmetria para a doença. (Tabela 1) A necessidade de manutenção de uma linguagem única entre os profissionais médicos foi determinante para tal classificação, que é nacional e favoreceu a abordagem terapêutica da afecção da pouco conhecida transição esofagogástrica. ETIOLOGIA E FATORES DE RISCO A causa da DRGE é multifatorial e depende da barreira antirrefluxo (esfíncter esofagiano inferior e diafragma crural), da depuração esofagiana (ação da gravidade, peristalse e salivação), da resistência da mucosa esofágica e/ou do esvaziamento e pressão intragástricos. O esfíncter esofagiano inferior (EEI) é composto de músculo liso e está sob controle não colinérgico e não adrenérgico. Ele é mantido em estado de contração constante, principalmente devido à atividade miogênica extrínseca, mas seu tônus de repouso é afetado por vários fatores neurais e hormonais. O tônus do esfíncter aumenta em resposta às pressões intra-abdominais aumentadas e durante as contrações gástricas. A ideia de que a obesidade possa ser uma das causas da DRGE é plausível do ponta de vista fisiopatológico. O excesso de peso tem sido associado a aumento da pressão intra- -abdominal, o que por sua vez, aumenta o gradiente de pressão gastroesofágico, a pressão intragástrica e a chance de se desenvolver hérnia hiatal. Outro fator sugerido é o possível papel da dieta no aparecimento ou agravamento da DRGE nos obesos, que frequentemente abusam da quantidade e qualidade dos alimentos. Refeição rica em gorduras leva à diminuição da pressão basal do esfíncter esofagiano inferior, aumento na frequência dos relaxamentos transitórios e retardo do esvaziamento do estômago. Se a ingestão for volumosa ou feita de forma muito rápida, ocorrerá distensão do fundo gástrico, aumentando o refluxo pós-prandial. Em suma, vários fatores contribuem para tornar o refluxo patológico: número excessivo de episódios de refluxo, depuração esofágica prolongada ou deficiente, menor resistência da mucosa ao conteúdo refluído, ou pela interação do refluxo ácido com co-fatores dietéticos, comportamentais e emocionais. A tabela mostra alguns fatores de risco para a DRGE. 3- Fisiopatologia, quadro clínico e evolução. FISIOPATOLOGIA Tanto os sintomas quanto as lesões teciduais resultam do contato da mucosa com o conteúdo gástrico refluxado, decorrentes de falha em uma ou mais das seguintes defesas do esôfago: barreira antirrefluxo, mecanismos de depuração intraluminal e resistência intrínseca do epitélio . -Barreira antirrefluxo A barreira antirrefluxo, principal proteção contra o RGE, é composta por: esfíncter interno(ou esfíncter inferior do esôfago – EIE – propriamente dito) e esfíncter externo (formado pela porção crural do diafragma). O EIE mantém-se fechado em repouso e relaxa com a deglutição e com a distensão gástrica . O relaxamento não relacionado com a deglutição é chamado relaxamento transitório do EIE (RTEIE), sendo considerado o principal mecanismo fisiopatológico associado à DRGE, responsável por 63 a 74% dos episódios de RGE. Em pacientes com formas graves de DRGE, a pressão de repouso do EIE está diminuída. Muitas substâncias afetam a pressão do EIE: a colecistocinina (CCK) é responsável pela diminuição da pressão de EIE observada após a ingestão de gorduras; outros neuro- transmissores estão envolvidos, entre os quais se destacam o óxido nítrico (ON) e o peptídio intestinal vasoativo (VIP). O comprimento total e o comprimento abdominal do EIE são outros parâmetros usados para avaliar a função do EIE, e que são valorizados quando estão diminuídos . A presença de hérnia hiatal contribui para o funcionamento inadequado da barreira antirrefluxo através da dissociação entre o esfíncter externo e o interno e do refluxo sobreposto (fluxo retrógrado do conteúdo refluxado preso no saco herniário para a porção tubular do esôfago). A distensão gástrica , principalmente após as refeições, contribui para o refluxo gastresofágico. O retardo do esvaziamento gástrico , o aumento da pressão intragástrica (ambos presentes quando há obstrução ou semiobstrução antropilórica) e a alteração da secreção gástrica (como a hipersecreção da síndrome de Zollinger-Ellison) são fatores que podem estar presentes, mas são pouco frequentes. -Mecanismos de depuração intraluminal A depuração (ou “clareamento”) do material refluxado presente na luz do esôfago decorre de uma combinação de mecanismos mecânicos (retirando a maior quantidade do volume refluído, através do peristaltismo e da gravidade) e químicos (neutralização do conteúdo residual pela saliva ou pela mucosa). A alteração do peristaltismo pode ser primária (no caso dos distúrbios motores do esôfago, como na motilidade esofágica ineficaz) ou secundária (nas doenças do tecido conjuntivo, como esclerodermia, síndrome CREST ou doença mista do tecido conjuntivo). A diminuição do fluxo salivar pode ser secundária à síndrome de Sjögren ou ao uso de diversos medicamentos. A depuração do ácido pela saliva não é instantânea e, sob ótimas circunstâncias, requer 3 a 5 min para restaurar o pH após um único episódio de refluxo. Cada 7 ml de saliva é capaz de neutralizar 1 ml de HCl 0,1 N. Episódios de refluxo ocorridos durante a noite, na posição supina, são duradouros e têm grande chance de causar lesão mucosa devido à diminuição do fluxo de saliva, que ocorre normalmente à noite, associada à falta de ação da gravidade. -Resistência intrínseca do epitélio A resistência intrínseca da mucosa é constituída pelos seguintes mecanismos de defesa, normalmente presentes no epitélio esofágico: •defesa pré-epitelial (composta por muco, bicarbonato e água no lúmen do esôfago, formando uma barreira físico-química, que é pouco desenvolvida no esôfago, quando comparada à mucosa gástrica e duodenal); •defesa epitelial (junções intercelulares firmes, características do epitélio estratificado pavimentoso, o que dificulta a retrodifusão de íons, e substâncias tamponadoras inters- ticiais, como proteínas, fosfato e bicarbonato); •defesa pós-epitelial (suprimento sanguíneo, responsável tanto pelo aporte de oxigênio e nutrientes quanto pela remoção de metabólitos). O defeito mais comum da resistência epitelial é o aumento da permeabilidade para-celular. A esofagite ocorre quando os fatores de defesa são sobrepujados pelos fatores agressivos. Outro constituinte do material refluxado, que tem sido correlacionado com maior agressividade para a mucosa do esôfago, é o conteúdo duodenal (bile e secreções pancreáticas), que atinge o estômago, através do piloro e, subsequentemente, chega ao esôfago. O refluxo duodeno-gastresofágico é um fenômeno fisiológico, de composição variada, que lesa a mucosa esofágica pela ação das enzimas proteolíticas , potencializando a lesão provocada pelo ácido. A variabilidade da composição do conteúdo refluxado é uma das possíveis explicações para os diferentes graus de esofagite observadas em pacientes com a mesma quantidade de refluxo ácido demonstrado por exames pHmétricos. O mecanismo responsável pelas manifestações extraesofágicas da DRGE, como tosse e broncospasmo, nem sempre é a aspiração com lesão da mucosa de vias respiratórias por contato direto. Pode ser via reflexo vagal por acidificação da mucosa esofágica distal. No caso de granulomas de cordas vocais e estenose subglótica, é necessário, provavelmente, o contato direto com a mucosa das vias respiratórias. QUADRO CLÍNICO Os sintomas clássicos da DRGE são a pirose e a regurgitação, intitulados de sintomas típicos. A pirose consiste na sensação de queimação retrosternal que se irradia do osso esterno à base do pescoço. A regurgitação significa o retorno do conteúdo ácido ou alimentos para a cavidade oral. Os pacientes podem relatar alívio dos sintomas com uso de medicamentos antiácidos. Estes sintomas são mais frequentes após as refeições ou quando o paciente está em decúbito supino ou em decúbito lateral direito. Existem também as manifestações atípicas como a dor torácica (o estímulo de quimiorreceptores da mucosa esofágica pelo refluxato desencadeia essa dor, visto que a inervação do esôfago e do miocárdio é a mesma), sintomas respiratórios e otorrinolaringológicos, os dois últimos considerados manifestações supra-esofágicas, uma vez que são provocadas pelo efeito do conteúdo gástrico refluído em regiões que ultrapassam o esôfago. Manifestações extraesofágicas pulmonares (tosse crônica, asma, bronquite, fibrose pulmonar, aspiração recorrente, dentre outras), otorrinolaringológicas (rouquidão, globus, roncos, pigarro, alterações das cordas vocais, laringite crônica, sinusite e erosões dentárias) estão associadas à DRGE, mas não são específicas. A maioria dos pacientes com sinais e/ou sintomas extraesofágicos não apresenta sintomas típicos concomitantes. Na realidade, a DRGE pode ser apenas uma das diversas causas destes sintomas. Portanto, nos pacientes com sintomas extraesofágicos, é necessária a confirmação da existência de DRGE, através de exames complementares ou de resposta ao tratamento com antissecretores potentes, para concluir que a causa é a DRGE. As manifestações de alarme, que sugerem formas mais agressivas ou complicações da doença, são: odinofagia, disfagia, sagramento, anemia e emagrecimento. Os sintomas relacionados à doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) são extremamente comuns, visto que aproximadamente 20% dos adultos apresentam pirose e/ou regurgitação pelo menos uma vez por semana e 40%, mensalmente. Se forem consideradas as manifestações extra-esofágicas estima-se que a real prevalência de refluxo patológicopossa estar subestimada. A denominação sintomas atípicos serve de sinônimo para os sintomas extra-esofágicos relacionados à DRGE. Consequentemente, um caso de DRGE pode apresentar sinais e sintomas como faringite, dor de ouvido, erosão do esmalte dental, laringite, bronquite, tosse crônica, asma e pneumonia por aspiração. A hérnia hiatal ressurgiu nos últimos anos como importante fator patogênico na DRGE, estando associada a maior exposição ácida esofagiana e sempre presente nas formas mais graves e complicadas da doença. O mecanismo pelo qual a hérnia hiatal se associa à DRGE mais grave estaria relacionado a maior alteração na função esfincteriana (aumento dos relaxamentos transitórios do esfíncter inferior do esôfago (EIE), à promoção do refluxo ácido e, principalmente, à redução da depuração esofágica observadas sobretudo em hérnias volumosas e não redutíveis. Embora raramente a DRGE cause morte, essa doença reduz a qualidade de vida e tem um preocupante percentual de morbidade (10% a 15%) por causa de ulceração, sangramento, constrição, esôfago de Barret (substituição do epitélio escamoso lesionado pelo refluxo no esôfago distal por um epitélio colunar especializado metaplásico do tipo intestinal) e adenocarcinoma. Além disso, a DRGE pode ocorrer como consequência de outras condições, como síndrome de Zollinger-Ellison (síndrome clínica causada por um tumor endócrino secretor de gastrina), diabetes mellitus, intubação nasogástrica e gravidez. Os portadores de DRGE não constituem uma população homogênea . Apesar das controvérsias existentes na literatura atual, estes grupos representariam subpopulações com diferentes respostas ao mesmo fator comum, ou seja, exposição do epitélio esofágico ao refluxo ácido, mais estudado do que o refluxo não ácido. -Sintomas típicos com endoscopia digestiva alta (EDA) normal Estudos realizados junto à comunidade indicam que aproximadamente 60% dos pacientes com DRGE têm endoscopia normal. A maior parte dos pacientes com sintomas de refluxo não apresenta evidências de esofagite ou de suas complicações à endoscopia, mas manifestam sintomas com a mesma intensidade e o mesmo impacto na qualidade de vida do que os que têm esofagite. De acordo com o resultado da pHmetria, os portadores de DRGE com endoscopia normal podem ser subdivididos em dois grupos: doença do refluxo não erosiva e pirose funcional. *Doença do refluxo não erosiva Trata-se de condição na qual o paciente apresenta sintomas típicos da DRGE e o exame endoscópico não evidencia alterações da mucosa esofágica . Baseados na resposta terapêutica com IBP e pHmetria esofágica prolongada, esses pacientes podem ser classificados em: •pacientes com exposição ácida anormal (que têm resposta terapêutica semelhante à dos pacientes com esofagite endoscópica); •pacientes com exposição ácida normal e com correlação positiva entre sintomas e episódios de refluxo (estimado pelo índice de sintomas, que é positivo) e resposta ao uso de inibidores da bomba de prótons (IBP). *Pirose funcional Segundo os critérios conhecidos como Roma III, é a pirose com todos os parâmetros pHmétricos normais e ausência de resposta ao uso de inibidores da bomba de prótons . Segundo Martinez et al., corresponde a menos de 10% dos portadores de pirose avaliados por gastrenterologistas. A sobreposição entre os distúrbios gastrintestinais funcionais é amplamente aceita como uma realidade clínica. Existe sobreposição entre a pirose funcional e a dispepsia funcional, que poderia ser explicada pela íntima relação fisiológica e fisiopatológica entre o EIE e a porção superior do estômago. A distensão do fundo gástrico é o mecanismo primário de indução dos RTEIE. Alterações semelhantes da motilidade, como, por exemplo, esvaziamento gástrico retardado, têm sido descritas na DRGE e na dispepsia funcional. A alteração da acomodação do fundo gástrico é reconhecida como uma importante característica da dispepsia funcional. -Esofagite erosiva O grupo mais facilmente identificável e com alterações fisiopatológicas mais claras é o dos portadores de esofagite erosiva. A visualização endoscópica de erosões esofágicas sela o diagnóstico de DRGE. Apesar disso, ainda cabem diagnósticos diferenciais, como lesão esofágica induzida por comprimido e esofagite eosinofílica, dentre outros. 4- Diagnóstico e tratamento (mecanismo de ação). DIAGNÓSTICO O diagnóstico, quase sempre clínico, é confirmado por meio de exames complementares, destacando-se endoscopia, cintilografia, manometria, phmetria e teste terapêutico. O diagnóstico de DRGE é suspeitado a partir de anamnese e exame físico criteriosos. Na criança, as queixas mais comuns são dor abdominal, altamente sugestiva se associada às refeições, regurgitações, vômitos frequentes ou intermitentes, queimação retroesternal, faringodinia matinal, saciedade precoce e raramente disfagia. Irritabilidade e choro frequente durante a ingestão de alimentos, bem como ingestão diminuída de alimentos, dificuldade em ganhar peso, anemia e fraqueza são indicativos de DRGE e merecem investigação mais detalhada. O primeiro passo para o diagnóstico adequado da DRGE é o conhecimento do conceito atual da afecção e das suas várias formas de apresentação clínica. Apesar dos sintomas clínicos típicos (pirose e regurgitação) sugerirem a presença da afecção, vale salientar que outras doenças (como úlcera péptica, gastrites e eventualmente neoplasias) podem cursar com um deles. Contudo, quando tais queixas co-existem, a possibilidade do paciente ter DRGE é superior a 90%. O diagnóstico clínico da DRGE é bastante sensível, pois a maioria dos pacientes apresenta os sintomas clássicos da doença. Todavia, outros sintomas podem ser referidos pelos refluidores, tais como rouquidão, pigarro, tosse crônica, crises de asma e precordialgias, classificados como atípicos. Tais sintomas podem se apresentar associados aos anteriores ou isoladamente. A história clínica orienta a origem da afecção esofágica. A intensidade e a frequência dos sintomas e sinais são informações que devem ser avaliadas, visto que podem predizer, com precisão, não só a presença, como também as prováveis complicações da DRGE. Torna-se indispensável o diagnóstico diferencial com a acalasia da doença de Chagas, dor da coronariopatia, úlcera péptica duodenal perfurada, distúrbios da motilidade esofágica e os carcinomas esofágicos. Infelizmente, o exame físico do esôfago é acessível apenas em seu trajeto cervical, limitando a abordagem ambulatorial. Na possibilidade de doença avançada, observações especiais identificam a origem do refluxo. A ingestão copiosa de água durante as refeições, ou mesmo durante uma consulta médica, oferece sinais de refluxo ou obstrução orgânica. A posição sentada reclinada para frente e a insuflação pulmonar com a capacidade quase que vital é uma tentativa de manter o diafragma achatado, com diâmetro ântero-posterior do hiato estreitado e conseqüente elevação do esfíncter esofágicoinferior e diminuição do refluxo patológico. O exame físico é útil na suspeita de carcinomas esofágicos e gástricos, importantes no diagnóstico diferencial com DRGE. Inspecção e palpação de linfonodos supraclaviculares são sinais de mau prognóstico. É notório salientar que a investigação da DRGE, no período neonatal, reveste-se de importância significativa, já que esta entidade pode ocasionar sintomas graves em recém- -nascidos (RNs), sobretudo nos prematuros, tais como crises de apneia, bradicardia, cianose e vômitos. A DRGE também tem sido associada a complicações tais como pneumonias por aspiração e apneias com aparente risco de vida, prolongando de maneira significativa a internação destes RNs. O primeiro exame a ser solicitado na suspeita de DRGE é a endoscopia digestiva alta (EDA), pela qual avalia-se a mucosa esofágica, a presença de hérnia hiatal e investiga-se outras afecções do tubo digestivo superior. O avanço tecnológico dos exames endoscópicos permitiu que o diagnóstico da DRGE fosse além dos doentes com hérnia hiatal. Apesar deste avanço, muitos doentes não apresentam esofagite erosiva, úlcera ou esôfago de Barrett (EB). Esses doentes são definidos como “endoscopia negativa” ou portadores de doença do refluxo não erosiva. Os métodos de avaliação funcional do esôfago esclarecem estes casos e aumentam o espectro de apresentação desta complexa afecção. A esofagogastroduodenoscopia possui alta sensibilidade e expressiva especificidade, quando se trata de análise de pacientes com DRGE na presença de erosões, úlceras ou esôfago de Barrett, decorrentes da agressão esofágica. A estenose péptica constitui achado de grande importância. As classificações endoscópicas de Savary-Miller e de Los Angeles são instrumentos importantes para o diagnóstico da DRGE (Tabelas 4 e 5). Ausência de alterações endoscópicas não exclui o diagnóstico de DRGE. Em cerca de 25%-40% dos pacientes sintomáticos, o exame endoscópico é normal. O achado de uma hérnia de hiato não implica, necessariamente, a presença de DRGE. É conveniente que um mesmo endoscopista avalie a evolução da afecção, pois exames realizados por profissionais diferentes podem ser divergentes. A realização de biópsias endoscópicas, exame cintilográfico, phmétrico e manométrico tem indicações específicas. O controle ambulatorial da phmetria por 24h é o melhor exame para caracterização do RGE com manifestações atípicas. O estudo é feito com a introdução de um cateter nasal contendo três eletrodos espaçados de 5 a 10 centímetros, que detecta variações de pH de 2 a 7, apresentando, portanto, um valor limitado aos casos de refluxo duodenal. Os eletrodos são conectados a um gravador de dados que o paciente utiliza durante o período de observação, a ocorrência de pirose e regurgitação requer anotação em agenda para posterior comparação de dados. No esôfago proximal, a exposição ao ácido deve ocorrer em menos de 1% do tempo; no esôfago distal, em menos de 4%. Percentuais mais elevados são bastante sugestivos de refluxo patológico. O teste terapêutico, outra modalidade diagnóstica, pode ser utilizado em pacientes abaixo de 40 anos de idade que apresentam manifestações típicas da DRGE com frequência inferior a duas vezes por semana e história clínica não superior a quatro semanas. Administram-se inibidores da bomba prótons, em dose plena, juntamente com medidas comportamentais. Resposta satisfatória permite inferir o diagnóstico de DRGE. TRATAMENTO O tratamento clínico visa o alívio dos sintomas, a cicatrização das lesões e a prevenção de recidivas e complicações. Do ponto de vista prático, objetiva-se reduzir o potencial agressivo do conteúdo gástrico, minimizando a agressão representada pelo ácido clorídrico do suco gástrico. Pode-se classificar a abordagem terapêutica em medidas comportamentais e farmacológicas, que deverão ser implementadas simultaneamente. As medidas comportamentais para se evitar a exacerbação do refluxo patológico estão indicadas a todos os pacientes com suspeita de DRGE e sintomas atípicos. Estas medidas estão apresentadas na tabela 2. O tratamento do RGE pode ser medicamentoso através de bloqueadores de hidrogênio, agentes procinéticos e inibidores de bomba de próton. Os bloqueadores de hidrogênio atuam na diminuição do ácido gástrico. Os agentes procinéticos aceleram o esvaziamento do esôfago e estômago, produzindo maior pressão no esfíncter inferior e os inibidores de bomba de próton promovem a inibição da produção do ácido gástrico. A intervenção cirúrgica também pode ser necessária em pacientes com sintomas crônicos e que não respondem satisfatoriamente ao tratamento medicamentoso. Os bloqueadores H2 se ligam de modo reversível aos receptores H2 da célula parietal, inibindo a resposta secretória ácida desses receptores. Apresentam efetividade comprovada e são usados por milhões de pessoas no mundo. A eficácia clínica da droga depende da inibição gástrica desejada e de aspectos inerentes a essa inibição. Essa classe de drogas é mais eficiente em inibir a secreção ácida basal, particularmente a secreção ácida noturna. No mercado estão disponíveis cimetidina, ranitidina, famotidina e nizatidina. Dentre essas drogas, a ranitidina é a mais prescrita no nosso meio. No manejo do RGE e da DRGE, procinéticos têm sido usados há muitos anos. São drogas que estimulam a motilidade do aparelho digestivo por ação direta sobre o músculo liso entérico ou por interação com os neurônios do sistema nervoso entérico. Os inibidores da bomba de prótons (IBP) são substâncias que inibem seletiva e completamente a bomba de prótons H+ K+ ATPase (bomba de prótons) na membrana da célula parietal. A secreção gástrica ácida é suprimida em resposta a todos os agentes estimulantes até que novas moléculas da bomba sejam sintetizadas. Estas drogas reduzem a secreção de ácido clorídrico em cerca de 90% (contra 65% dos inibidores H2 ). Também melhoram a proteção da barreira mucosa pelo aumento da produção de muco e do fluxo sanguíneo na mucosa gástrica. Os IBP em uso clínico no mundo são omeprazol, lansoprazom, pantoprazol, rabeprazol e esomeprazol. Embora semelhantes em sua estrutura, os IBP apresentam diferenças em relação ao metabolismo. Os IBP, principalmente omeprazol, são metabolizados em graus variados pelo sistema enzimático hepático P450. Estudo baseado em revisão sistemática de literatura avaliando a eficiência de IBP e antagonistas dos receptores H2 em adultos com sintomas típicos da DRGE sem esofagite ao estudo endoscópico, conclui que os agentes anti-secretores são eficientes no controle da queixa clínica desses pacientes e que os IBP apresentam resultados melhores que os antagonistas dos receptores H2. O tratamento objetiva o alívio dos sintomas, cicatrização das lesões, prevenção das recidivas e complicações. Cerca de 10% dos pacientes com DRGE procuram tratamentomédico. O tratamento clínico baseia-se em dois pilares fundamentais. O primeiro é caracterizado pela adoção de medidas comportamentais como a elevação da cabeceira da cama em 15 centímetros; moderação de ingesta de alimentos gordurosos, cítricos, alcoólicos, gasosos, a base de chocolate e cafeína; cuidados com fármacos anticolinérgicos e bloqueadores do canal de cálcio; evitar deitar duas horas após as refeições; suspensão do fumo e redução do peso corpóreo. O segundo consiste em terapia farmacológica baseada no uso de agentes antiácidos ou alcalinos, bloqueadores de receptores H2 da histamina, inibidores da bomba de prótons e procinéticos. A identificação endoscópica de esofagite indica a utilização de inibidores de bomba de prótons ou bloqueadores dos receptores H2 da histamina como segunda escolha, por razões financeiras. Não se considera o uso de procinéticos concomitantemente aos inibidores de bomba de prótons. A terapia farmacológica deve durar cerca de seis semanas, sendo que, em doze semanas, deverá ser feita uma reavaliação endoscópica do paciente. Cerca de 80% dos pacientes com melhoras endoscópicas mostram uma recidiva seis meses após o término da terapia farmacológica. O tratamento cirúrgico depende do resultado do tratamento clínico e das complicações. Em pacientes submetidos a tratamento clínico bem orientado, com resultados insatisfatórios, a intervenção cirúrgica deve ser considerada. O êxito do tratamento depende da melhor indicação, momento oportuno e técnica operatória. A fundoplicatura total de Nissen é a mais comumente utilizada, a qual é frequentemente realizada por via laparoscópica. As contra-indicações baseiam-se em distúrbios da motilidade à manometria e maior risco cirúrgico, com perigo de óbito. No entanto, hipocontratilidade do esôfago inferior e hipotonia do EIE, com pressão inferior a 5mmHg, geralmente requerem tratamento cirúrgico. -Medidas higienodietéticas A ingestão de alimentos nas três horas precedentes ao horário de deitar contribuiria para reduzir a frequência dos episódios pós-prandiais de refluxo, especialmente na posição de decúbito. Foi demonstrado que, imediatamente após a ingestão de chocolate, a pressão do EIE diminui. O suco de laranja teria efeito irritativo direto na mucosa esofágica independente do pH, o que poderia ser explicado pela elevada osmolaridade dos sucos concentrados, também presente em comidas apimentadas que geralmente são preparadas com muito sal. A hiperosmolaridade dos alimentos pode também ser responsável pela pirose, comparativamente mais frequente em pacientes com teste de Bernstein positivo (esôfago sensível ao ácido) do que naqueles com teste negativo (p < 0,01). Em relação ao café, existem estudos conflitantes na literatura quanto ao seu efeito sobre o EIE, mas o café descafeinado diminui em 85% a exposição ácida observada à pHmetria quando comparado com o café tradicional. A queixa de pirose após ingestão de bebida alcoólica é frequente em pacientes com DRGE. Embora não totalmente esclarecidos, os mecanismos responsáveis seriam o efeito direto do álcool sobre a mucosa, redução da pressão do EIE e prolongamento da exposição ácida noturna, sugerindo efeito deletério nas defesas contra o refluxo patológico. A obesidade é considerada, hoje, fator de risco para DRGE, principalmente a gordura intra-abdominal medida pela circunferência abdominal. A perda de peso deve ser estimulada nos pacientes obesos, sendo comumente observada melhora subjetiva dos sintomas. O tabagismo tem influência negativa na DRGE devido a: diminuição da pressão do EIE, diminuição do volume e da secreção de bicarbonato salivar, e aumento do risco de desenvolvimento de adenocarcinoma do esôfago distal e cárdia. A elevação da cabeceira da cama é questionável, pois a maioria dos pacientes apresenta episódios de refluxo durante o dia, e esta medida beneficiaria apenas um reduzido grupo de pacientes com sintomas noturnos que tem, por exemplo, intensa regurgitação. Existem evidências de que o decúbito lateral esquerdo deve ser recomendado para pacientes com DRGE pela observação de redução do ácido no esôfago, uma vez que o volume alcançado pelo suco gástrico não chega a atingir a JEG. Tratamento medicamentoso -Inibidores da bomba de prótons A terapia com antissecretores potentes é capaz de aliviar os sintomas mais rapidamente e cicatrizar as lesões na maior parte dos pacientes. Doses padronizadas dos inibidores da bomba de prótons (IBP) (omeprazol, 20 mg; lansoprazol, 30 mg; pantoprazol, 40 mg; rabeprazol, 20 mg; e esomepra- zol, 40 mg) são capazes de tratar a esofagite e aliviar sinto- mas em 80 a 90% dos casos em 8 semanas. A resposta inicial ao uso dos IBP é fator preditivo do sucesso do tratamento a longo prazo. Estes medicamentos devem ser sempre tomados antes das refeições. A adoção inicial da terapia mais potente, seguida de redução da dose suficiente para obter controle sintomático (“step-down”), parece ser a melhor opção em termos de resolutividade e de custos, estratégia recomendada pelo Consenso de Genval. Os IBP são eficazes e seguros quando usados na terapia de manutenção , que deve ser individualizada de acordo com a gravidade e resposta ao tratamento. Se o paciente apresenta sintomas pouco frequentes, o uso do medicamento pode ser feito de acordo com demanda própria. Porém, nos pacientes com esofagite grave (classificação de Los Angeles C e D), deve-se iniciar com a dose-padrão e mantê-la. Caso os sintomas ou as lesões endoscópicas persistam, acrescenta-se uma segunda dose à noite. Estes pacientes frequentemente desenvolvem complicações da doença. O controle dos sintomas atípicos é mais difícil do que o controle da pirose, necessitando frequentemente do uso de dose dupla de IBP. São considerados pacientes refratários aqueles que necessitam usar IBP mais que 2 vezes/dia, sem controle dos sintomas associados ao refluxo e/ou com alterações mucosas significativas após 12 semanas ou mais de tratamento. A recorrência dos sintomas após interrupção do IBP não é considerada refratariedade, pois a DRGE é condição crônica ou recidivante. As principais preocupações sobre as consequências da inibição da secreção gástrica incluem: •Hipergastrinemia, reversível com a interrupção do tratamento e não relacionada com desenvolvimento de carcinoides ou displasia. •Progressão da gastrite do corpo gástrico induzida pela infecção pelo H. pylori. Nos pacientes que necessitam de uso continuado de IBP, é recomendável a pesquisa e erradicação do microrganismo. Quanto à controversa relação entre DRGE e H. pylori, se aceita atualmente que a erradicação do microrganismo não exacerba a DRGE e que, na maioria dos indivíduos, a erradicação não está associada ao desenvolvimento de DRGE. •Possível interferência na absorção de nutrientes, devido à hipocloridria resultante do uso prolongado de IBP. Existem controvérsias na literatura sobre a necessidade de dosar periodicamente os níveis séricos de ferro e de vitamina B12,de acordo com poucos estudos publicados a respeito, sendo todos com pequeno número de pacientes. Com relação à absorção do cálcio, existem alguns estudos observacionais que sugerem um possível aumento do risco de fraturas ósseas em usuários crônicos de IBP. Atualmente, vários aspectos desta possível relação não estão resolvidos, devendo-se aguardar a realização de novos estudos, para o esclarecimento adequado. A terapia antiácida com IBP é capaz de diminuir drasticamente o refluxo duodeno-gastresofágico , o que pode ser explicado pela diminuição do ácido e do volume da secreção gástrica. A proteção da mucosa esofágica ocorre também pela eliminação do sinergismo negativo entre o ácido, a pepsina e a bile. É recomendável, no entanto, usar a menor dose do IBP para obtenção do efeito terapêutico desejável. Os objetivos do tratamento do esôfago de Barrett incluem, idealmente, o controle dos sintomas da DRGE, a cicatrização de lesões associadas e a prevenção da progressão para neoplasia do epitélio metaplásico e/ou displásico. Estudos recentes corroboram o conceito de que a exposição ácida persistente no esôfago de Barrett associa-se com a precipitação de todos os estágios de progressão molecular do desenvolvimento do adenocarcinoma. O refluxo ácido crônico pode predispor ao câncer por lesar as células epiteliais metaplásicas, aumentando sua proliferação e diminuindo sua diferenciação. Sendo assim, a tendência atual é que seja feito um controle rigoroso do refluxo gastresofágico em portadores de esôfago de Barrett, através de uma abordagem clínica ou cirúrgica. O tratamento clínico do esôfago de Barrett consiste na utilização de inibidores de bomba protônica em doses definidas por monitoramento por pH esofagogástrico, visando a abolir a secreção ácida gástrica e, dessa forma, a impedir o refluxo gastresofágico. Vale salientar que essas drogas também controlam o refluxo biliar provavelmente por diminuírem o conteúdo do refluxato. O uso de drogas anti-inflamatórias parece ter um papel profilático no desenvolvimento do adenocarcinoma esofágico, e sua utilização rotineira em portadores de esôfago de Barrett tem sido defendida por alguns autores. -Antagonistas H2 Os antagonistas dos receptores H2 (AH2) – cimetidina, ranitidina, famotidina, nizatidina – são drogas seguras e bem toleradas, mas têm curta duração de ação (entre 4 e 8 h, con- forme o regime empregado) e resultam em inibição incompleta da secreção ácida. Consequentemente, para o tratamento da DRGE, são necessárias doses múltiplas . Além disso, observa-se declínio da inibição da secreção ácida quando usada por mais que duas semanas, fenômeno conhecido como taquifilaxia ou tolerância , que limita a eficácia terapêutica. Dentre os AH2, cimetidina e ranitidina foram os mais estudados no tratamento da DRGE, com boa resposta após 8 semanas de tratamento em aproximadamente 50 a 66% dos pacientes. Os melhores resultados foram obtidos em pacientes com esofagite leve a moderada, tratados com doses elevadas. A ranitidina foi menos eficaz em manter a remissão na DRGE (45%) do que o omeprazol em diferentes doses (62 a 72%) em pacientes com esofagite erosiva ou ulcerada. A dose diária de 10 mg de omeprazol parece ser superior à dose padrão de ranitidina (150 mg 2 vezes/dia). A eficácia limitada dos AH2 pode ser explicada pelo efeito insuficiente na inibição ácida após refeições . No entanto, os AH2 têm eficácia comprovada na inibição da secreção noturna. -Procinéticos As alterações fisiopatológicas responsáveis pela DRGE poderiam ser corrigidas por drogas que aumentassem a pressão do EIE, melhorassem o peristaltismo do esôfago e o esvaziamento gástrico. Os medicamentos procinéticos atualmente disponíveis no mercado não corrigem estas alterações, e são eficientes apenas quando usados em pacientes com sintomas dispépticos associados. A metoclopramida não é considerada boa escolha no tratamento da DRGE, pois atua no sistema nervoso central, causando efeitos colaterais como sonolência, irritabilidade, tremores e discinesia. A domperidona, antagonista da dopamina apenas em nível periférico, é útil, mas observa-se hiperprolactinemia em 10 a 15% dos seus usuários crônicos. Outro eficaz procinético, a cisaprida, foi retirado do comércio por induzir arritmias cardíacas principalmente quando associada a outras drogas. -Novas drogas Algumas drogas de diferentes perfis farmacológicos têm sido testadas, apresentando resultados iniciais limitados. Resultados promissores têm sido obtidos com o baclofeno, agonista dos receptores B do ácido gama-aminobutírico (GABA). Seu uso em pacientes com DRGE mostrou redução do número de episódios de refluxo e o percentual de tempo de exposição ácida após uma única dose de 40 mg. Seu mecanismo parece ser a supressão dos RTEIE. Como seus efeitos colaterais são frequentes, impedindo provavelmente o uso rotineiro, o baclofeno tem sido considerado um protótipo para o desenvolvimento de novas drogas anti-RTEIE. Tratamento cirúrgico O tratamento cirúrgico da DRGE consiste no reposicionamento do esôfago na cavidade abdominal associado à hiatoplastia e fundoplicatura . Conforme o II Consenso Brasileiro da Doença do Refluxo Gastroesofágico, realizado em 2003, o tratamento cirúrgico da DRGE não complicada deve ser considerado quando: houver razões que impossibilitem a continuidade do tratamento clínico (de ordem pessoal, econômica ou intolerância) e nos casos em que for exigido tratamento contínuo de manutenção com IBP, especialmente naqueles com menos de 40 anos de idade, que optem pelo tratamento cirúrgico . Está recomendado também nas formas complicadas da DRGE (i. e., estenose e/ou úlcera) e quando houver adenocarcinoma. A falta de resposta ao tratamento clínico não é atualmente considerada como indicação de tratamento cirúrgico , pois a falha terapêutica pode ser devida à incorreção do diagnóstico. Neste caso, deve-se sempre reconsiderar o diagnóstico e reavaliar a terapia. A resposta favorável ao tratamento cirúrgico foi ob-servada apenas em pacientes rigorosamente selecionados, portadores de tosse crônica e de asma , associadas à DRGE. Outra vantagem do tratamento cirúrgico é o controle do refluxo não ácido (componente biliar e pancreático) e seu controverso impacto nas alterações metaplásicas e displásicas do epitélio esofágico. Sintomas pós-operatórios como disfagia, incapacidade de eructar, plenitude pós-prandial, síndrome do ar preso (gas bloat) e flatulência ocorrem em 0 a 40% dos casos e devem ser informados previamente ao candidato à cirurgia. 5- Complicações e diagnóstico diferencial A DRGE apresenta complicações que podem requerer tratamento cirúrgico. A primeira é representada pelo esôfago de Barrett, afecção potencialmente maligna, mais comum em homens e presente em cerca de 20% dos casos. Esta, quando apresentar displasia epitelial de alto grau, requer esofagectomia devido à alta prevalência de adenocarcinoma (43%). A segunda é o sangramento que,caso não responda à reposição volêmica, obriga uma intervenção cirúrgica baseada na evolução do paciente. A terceira é a perfuração esofágica livre, que compromete o mediastino ou região subdiafragmática, exigindo cirurgia de urgência. A última é a complicação crônica e estenosante, caracterizada por obstáculo orgânico à transição esofagogástrica, estando presente em, aproximadamente, 10% dos pacientes com DRGE e requer, na grande maioria dos pacientes, uma intervenção dilatadora, endoscópica, videolaparoscópica ou mesmo a céu aberto. A experiência da equipe médica constitui atitude obrigatória. -Estenose péptica A incidência de estenose péptica caiu muito após a introdução dos IBP. Não existem fatores que possam predizer sobre a tendência evolutiva para estenose esofágica, pois a gravidade da DRGE não se associa com essa tendência. A DRGE é responsável por 70% das estenoses esofágicas. Outras causas incluem ingestão de cáusticos, sequela de radioterapia ou esclerose de varizes, epidermólise bolhosa, doença de Crohn, tumores, sífilis, tuberculose e citomegalovírus, dentre outras. O sintoma mais frequente de apresentação da estenose péptica é a disfagia esofágica . Cerca de 30% dos pacientes não referem sintomas prévios de pirose e regurgitação ácida. Na propedêutica desses pacientes, utilizamos habitualmente o estudo radiológico e a endoscopia digestiva. A radiologia do esôfago tem alta sensibilidade na detecção das estenoses esofágicas, muitas vezes não visualizadas pela endoscopia. A endoscopia digestiva é um exame imprescindível, pois, além de visualizar a estenose, permite a coleta de biopsias para estudo histopatológico. -Esôfago de Barrett O esôfago de Barrett é uma condição em que um epitélio colunar associado à metaplasia intestinal substitui o epitélio escamoso normal que recobre o esôfago distal. Trata-se, na grande maioria das vezes, de uma sequela da DRGE de longa evolução . O exame histopatológico do epitélio de Barrett geralmente evidencia uma forma incompleta de metaplasia intestinal. A grande preocupação causada pelo esôfago de Barrett é a predisposição de suas células sofrerem alterações genéticas associadas ao adenocarcinoma. Essa doença é diagnosticada principalmente em homens brancos, na sexta década de vida, sendo pouco frequente em mulheres, negros e asiáticos. Sua real prevalência é desconhecida, mas dados americanos sugerem que ela está presente, em sua forma clássica, em 6 a 12% dos pacientes submetidos à endoscopia digestiva devido a sintomas de DRGE. �A DRGE em pacientes com esôfago de Barrett Pacientes com a forma clássica do esôfago de Barrett parecem apresentar anormalidades fisiológicas que contribuem para a gravidade da DRGE. A função motora esofágica está frequentemente comprometida nesses indivíduos, traduzindo-se por baixa amplitude das ondas peristálticas associada a uma maior frequência de contrações anormais. Essas anormalidades comprometem o clareamento esofágico do material refluído, aumentando o tempo de contato do refluxato com epitélio esofágico. Em mais de 90% dos pacientes, observam-se alterações do esfíncter esofágico inferior, como hipotonia e pequeno comprimento intra-abdominal, além de uma alta incidência de hérnia hiatal. Esses fatores favorecem o refluxo gastresofágico , inclusive durante o período noturno. Estudos utilizando pHmetria esofágica prolongada mostram que, em portadores de esôfago de Barrett, o refluxo ácido gastresofágico é mais intenso e duradouro que em portadores de DRGE não complicada. Além disso, o refluxo de secreções duodenais (bile e suco pancreático) parece desempenhar um importante papel na patogênese do esôfago de Barrett. �Quadro clínico Uma história clínica detalhada dos portadores de esôfago de Barrett geralmente identifica sintomas de longa duração que incluem pirose, regurgitação e disfagia esofágica. Existe também uma maior associação do esôfago de Barrett com outras complicações da DRGE, como estenose, ulcerações e sangramentos. Entretanto, quando ocorre o desenvolvimento da doença, a maioria desses pacientes apresenta uma grande melhora dos seus sintomas, tornando-se mesmo oligossintomáticos . Essa melhora é explicada pela maior resistência do epitélio de Barrett à agressão ácida. � Diagnóstico Atualmente, propõe-se a seguinte classificação para o epitélio colunar de Barrett: •Segmento longo do esôfago de Barrett (metaplasia intestinal ≥ 3 cm). •Segmento curto do esôfago de Barrett (metaplasia intestinal < 3 cm). •Tecido cárdico com metaplasia intestinal. Essa classificação é importante, pois, até o momento, o risco de degeneração maligna somente está bem estabelecido no seg- mento longo do esôfago de Barrett. A presença de metaplasia intestinal em tecido cárdico não se relaciona à DRGE e sim à infecção pelo Helicobacter pylori e, dessa forma, não se associa patogeneticamente com o adenocarcinoma de esôfago. O diagnóstico do esôfago de Barrett baseia-se no aspecto endoscópico do epitélio colunar recobrindo o esôfago (Figura 10.3) e no exame histopatológico desse epitélio, que evidencia a presença de metaplasia intestinal incompleta. Esse diagnós- tico é fácil quando se trata de segmento longo de epitélio colu- nar que se inicia no estômago e se estende até o esôfago médio ou proximal. Entretanto, em segmentos curtos de esôfago de Barrett, nem sempre é fácil esse diagnóstico, pois, às vezes, é difícil determinar onde se situa a junção esofagogástrica (JEG). O epitélio colunar normal pode ser identificado em esôfago dis- tal de indivíduos sadios, além da possibilidade de existência de metaplasia intestinal na cárdia. Na tentativa de aprimorar o diagnóstico do esôfago de Bar- rett curto, várias técnicas têm sido utilizadas, como a cromo- endoscopia e magnificação endoscópica, além da avaliação do padrão de citoqueratinas na diferenciação da metaplasia intes- tinal de cárdia e do epitélio de Barrett. A cromoscopia é uma técnica que consiste na utilização de corantes sobre a mucosa do esôfago, com o objetivo de facilitar a visualização do epi- télio displásico ou metaplásico. São utilizados vários corantes, como o azul de metileno, que cora a metaplasia intestinal de azul; o lugol, que cora o epitélio esofágico de marrom; o azul de toluidina, que facilita a visualização do epitélio. Outro recurso utilizado é a magnificação endoscópica de imagem, que per- mite a visualização da superfície vilosa do epitélio metaplásico intestinal (Figura 10.4). Entretanto, estudos que avaliaram a cromoendoscopia e magnificação não observaram a obtenção de informações adicionais com o emprego dessa técnica, o que não justifica sua utilização rotineira. Citoqueratinas são proteínas estruturais encontradas no citoplasma de células epiteliais. Estudos envolvendo citoquerati- nas sugerem que a metaplasia intestinal do epitélio de Barrett é precursora de células escamosas que não existem no estômago. Sendo assim, o padrão de citoqueratinas 7/20 (CK7/20) estaria presente na metaplasia intestinaldo esôfago de Barrett, mas não na metaplasia intestinal gástrica, o que facilitaria a confirmação do diagnóstico do segmento curto de Barrett. DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL: acalasia, angina pectoris, úlcera péptica, dispepsia funcional e câncer de esôfago; http://fmj.br/Docs/ManualCirurgia/20.DRGE.doc http://web.unifoa.edu.br/cadernos/edicao/18/93.pdf http://rmmg.org/artigo/detalhes/1357 Gastroenterologia essencial