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Fundamentos do ensino superior Brasília-DF. elaboração Eder Alonso Castro Paulo César Moreira Denise Maria dos Santos Paulinelli Raposo organização, atualização e revisão Angela Maria Vilas Bôas Marlem Haddad Rocha supervisão Suzana Maria Santos de Assis produção Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração SUMÁRIO apresentaÇÃo ..................................................................................................................................... 5 orGaniZaÇÃo do Caderno de estudos e pesQuisa ................................................................................. 6 introduÇÃo ......................................................................................................................................... 8 unidade i Educação SupErior: da concEpção à atualidadE ................................................................................... 11 Capítulo 1 concEpçõES da Educação no Mundo contEMporânEo .............................................................. 13 Capítulo 2 naSciMEnto daS univErSidadES .............................................................................................. 16 Capítulo 3 HiStória do EnSino SupErior no BraSil ................................................................................... 22 Capítulo 4 Educação SupErior BraSilEira na atualidadE ......................................................................... 26 Capítulo 5 SaBErES nEcESSárioS para a Educação no Século XXi .............................................................. 37 unidade ii atuação pEdagógica no EnSino SupErior ............................................................................................. 45 Capítulo 6 prática docEntE no EnSino SupErior ...................................................................................... 47 Capítulo 7 currículo: FundaMEntal para o procESSo pEdagógico ............................................................ 57 Capítulo 8 ética do docEntE univErSitário .............................................................................................. 64 unidade iii EnSino SupErior BraSilEiro contriBuiçõES atuaiS ................................................................................. 69 Capítulo 9 curSoS SEquEnciaiS E ForMação tEcnológica ......................................................................... 71 Capítulo 10 Educação SupErior a diStância .............................................................................................. 75 para (nÃo) FinaliZar ......................................................................................................................... 79 reFerênCias ..................................................................................................................................... 81 5 APRESENTAÇÃO Caro aluno A proposta editorial deste Caderno de Estudos e Pesquisa reúne elementos que se entendem necessários para o desenvolvimento do estudo com segurança e qualidade. Caracteriza-se pela atualidade, dinâmica e pertinência de seu conteúdo, bem como pela interatividade e modernidade de sua estrutura formal, adequadas à metodologia da Educação a Distância – EaD. Pretende-se, com este material, levá-lo à reflexão e à compreensão da pluralidade dos conhecimentos a serem oferecidos, possibilitando-lhe ampliar conceitos específicos da área e atuar de forma competente e conscienciosa, como convém ao profissional que busca a formação continuada para vencer os desafios que a evolução científico-tecnológica impõe ao mundo contemporâneo. Elaborou-se a presente publicação com a intenção de torná-la subsídio valioso, de modo a facilitar sua caminhada na trajetória a ser percorrida tanto na vida pessoal quanto na profissional. Utilize-a como instrumento para seu sucesso na carreira. Conselho Editorial 6 ORGANIZAÇÃO DO CADERNO DE ESTUDOS E PESQUISA Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos básicos, com questões para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam a tornar sua leitura mais agradável. Ao final, serão indicadas, também, fontes de consulta, para aprofundar os estudos com leituras e pesquisas complementares. A seguir, uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos Cadernos de Estudos e Pesquisa. Provocação Pensamentos inseridos no Caderno, para provocar a reflexão sobre a prática da disciplina. Para refletir Questões inseridas para estimulá-lo a pensar a respeito do assunto proposto. Registre sua visão sem se preocupar com o conteúdo do texto. O importante é verificar seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. É fundamental que você reflita sobre as questões propostas. Elas são o ponto de partida de nosso trabalho. Textos para leitura complementar Novos textos, trechos de textos referenciais, conceitos de dicionários, exemplos e sugestões, para lhe apresentar novas visões sobre o tema abordado no texto básico. abc Sintetizando e enriquecendo nossas informações Espaço para você, aluno, fazer uma síntese dos textos e enriquecê-los com sua contribuição pessoal. 7 Sugestão de leituras, filmes, sites e pesquisas Aprofundamento das discussões. Praticando Atividades sugeridas, no decorrer das leituras, com o objetivo pedagógico de fortalecer o processo de aprendizagem. Para (não) finalizar Texto, ao final do Caderno, com a intenção de instigá-lo a prosseguir com a reflexão. Referências Bibliografia consultada na elaboração do Caderno. 8 INTRODUÇÃO . Unidade na diversidade Com o propósito de acertar as diferenças, as ferramentas de uma marcenaria fizeram uma assembleia. Foi, basicamente, uma reunião para ouvir as observações dos companheiros de trabalho. O martelo estava exercendo a presidência, mas os companheiros exigiram que ele renunciasse. Os argumentos foram: fazia demasiado barulho e, além do mais, passava todo tempo golpeando os objetos. O martelo aceitou sua culpa, mas pediu que não fosse nomeado o parafuso, alegando que ele fazia muitas voltas para atingir seus objetivos. Diante da colocação do martelo, o parafuso concordou, mas, por sua vez, pediu que não indicassem a lixa para a presidência, pois ela era muito áspera no tratamento com os demais, gerando muitos atritos. A lixa acatou, com a condição de que não se nomeasse o metro, que sempre media os outros segundo a sua medida, como se fosse o único perfeito. Neste momento, entrou o marceneiro, juntou todas as ferramentas e iniciou o seu trabalho. Utilizou o martelo, a lixa, o metro, o parafuso... E a rústica madeira se converteu em belos móveis. Quando o marceneiro foi embora, as ferramentas voltaram à discussão. Mas o serrote adiantou-se e disse: Prezados companheiros, ficou demonstrado que temos defeitos, mas o marceneiro trabalhou com nossas qualidades, ressaltando nossos pontos valiosos. Portanto, em vez de pensarmos em nossas fraquezas, devemos nos concentrar em nossos pontos fortes. Então a assembleia entendeu que: o martelo era forte; o parafuso unia e dava força; 9 a lixa era especial para limpar e afinar asperezas; e o metro era preciso e exato. Sentiram-se como uma equipe, capaz de produzir com qualidade todos os móveis, e perceberam que o respeito, a aceitação e o acolhimento das diferenças são elementos indispensáveis para o trabalho em equipe [...] Extraído do texto de RAMOS, Paulo. Educação Inclusiva: histórias que (des)encantam a educação. Blumenau-SC: Odorizzi. 2008, p. 57-580. Este Caderno tem como foco o estudo da Educação Superior desde o seu surgimento até a situação atual do Brasil, com o objetivode contextualizar os acontecimentos, auxiliando-nos na compreensão da contemporaneidade. Em cada unidade, discorreremos sobre assuntos que favorecem o aprofundamento de conhecimentos direcionados às reflexões acerca dos fundamentos da Educação nesse nível de ensino. Nele, serão enfocados estudos que indicam as concepções de educação no mundo contemporâneo, o nascimento das Universidades, os fundamentos legais que regem o Ensino Superior e, considerando a importância de preservar os aspectos definidos por lei e o seu reflexo na prática docente, os novos parâmetros para a prática pedagógica oriundos de saberes necessários para a educação no século XXI. Serão discutidas, também, as ações docentes instrutivas transformadas em educativas, de modo a possibilitar reflexões sobre olhares e práticas educacionais que reverberam no trabalho pedagógico, e a formação e a ética do profissional que atua no espaço universitário. E, ainda, serão abordadas duas conquistas da Educação Superior brasileira: os cursos tecnológicos e a Educação a Distância, destacados como fonte de inovação e de democratização ao acesso de saberes institucionalizados. [...] e aprendi que se depende sempre de tanta, muita, diferente gente. Toda pessoa sempre é as marcas das lições diárias de outras tantas pessoas. E é tão bonito quando a gente entende que a gente é tanta gente onde quer que a gente vá. É tão bonito quando a gente sente que nunca está sozinho por mais que pense estar [...] (Gonzaguinha) Os estudos relacionados aos fundamentos da Educação no Ensino Superior serão abordados de modo que tenhamos bases pedagógicas que auxiliem no entendimento do processo de ensino-aprendizagem do docente universitário. Nesse sentido, podemos dizer que os fundamentos perpassam as concepções de Educação no mundo contemporâneo, a legislação, os saberes, o currículo, a formação e a ética docente. Vamos iniciar, portanto, um mergulho nos fundamentos da Educação no Ensino Superior em uma perspectiva que atenda às especificidades da prática docente em sala de aula em cursos de bacharelado, de licenciatura e tecnológicos. 10 objetivos » Conhecer os fundamentos da Educação Superior – sua concepção e sua história. » Conhecer a legislação brasileira de Educação Superior. » Refletir sobre as tendências atuais da Educação Superior e suas implicações na formação dos docentes. » Compreender as diretrizes da Educação Superior e suas implicações na prática docente. » Analisar concepções e políticas atuais da Educação Superior. » Avaliar o papel da Educação Superior no atual cenário brasileiro. IeduCaÇÃo superior: da ConCepÇÃo à atualidadeUNIDADE 13 CAPíTUlO 1 concepções da Educação no Mundo contemporâneo . “Toda educação varia sempre em função de uma concepção de vida, refletindo, em cada época, a filosofia predominante, que é determinada, a seu turno, pela estrutura da sociedade [...]”. (Andréa Studart Corrêa Galvão) Você concorda com essa ideia? Em quê? Tratar das concepções de Educação no mundo contemporâneo é tratar de concepções de vida e de sociedade; é conhecer e compreender os alicerces do processo educativo. Para tal, é necessário refletir sobre questões filosóficas, históricas, sociológicas, econômicas, teóricas e pedagógicas da Educação, com vistas à atuação objetiva na realidade educacional. Vamos, então, continuar nossa reflexão, respondendo às seguintes questões. » Educar para quê? » Educar quem? » Educar para que tipo de sociedade? » Educar a partir de quais princípios e valores? educação e sociedade De acordo com Silva (2001), a Educação tem como finalidade formar o ser humano desejável para um determinado tipo de sociedade. Dessa forma, ela visa a promover mudanças relativamente permanentes nos indivíduos, de forma a favorecer o desenvolvimento integral do homem na sociedade. Portanto, é fundamental que a Educação atinja a vida das pessoas e da coletividade em todos os âmbitos, visando à expansão dos horizontes pessoais e, consequentemente, dos sociais. Além disso, ela pode favorecer o desenvolvimento de uma visão mais participativa, crítica e reflexiva dos grupos nas decisões dos assuntos que lhes dizem respeito, se essa for a sua finalidade. 14 Como abordado anteriormente, a concepção de Educação está diretamente relacionada à concepção de sociedade. Sendo assim, cada época irá enunciar as suas finalidades, adotando determinada tendência pedagógica. Na história da Educação brasileira, podem-se identificar várias concepções, tendo em conta os ideais da formação do homem para a sociedade de cada época. Silva (ibidem) afirma que as principais correntes pedagógicas identificadas no Brasil são: a tradicional, a crítica e a pós-crítica. A partir do desenvolvimento da consciência crítica e participativa, o educando será capaz de emancipar- se, libertar-se das opressões sociais e culturais e atuar no desenvolvimento de uma sociedade justa e igualitária. A concepção pós-crítica foca temas relacionados a identidade, a diferenças, a alteridade, a subjetividade, a cultura, a gênero, a raça, a etnia, a multiculturalismo, a saber e poder, de forma a acolher a diversidade do mundo contemporâneo, visando ao respeito, à tolerância e à convivência pacífica entre as diferentes culturas. A ideia central é a de que, por meio da Educação, o indivíduo acolha e respeite a diferença, pois “sob a aparente diferença há uma mesma humanidade”. (SILVA, 2001, p. 86) Assim, por meio de um conjunto de relações estabelecidas nas diferentes formas de se adquirir, transmitir e produzir conhecimentos, busca-se a construção de uma sociedade. Isso envolve questões filosóficas, como valores e questões histórico-sociais, econômicas, teóricas e pedagógicas, que estão na base do processo educativo. Antes de continuar, reflita sobre alguns elementos que envolvem as concepções da Educação. » Quais são as concepções do Ensino Superior? » Será que seus elementos diferem dos da Educação de modo geral? » Há questões específicas? Quais? Vejamos, como exemplo, o inciso III do art. 1o da Constituição Federal de 1988, que, ao tratar dos fundamentos essenciais, privilegia a Educação, apontando-a como uma das alternativas para a formação da dignidade da pessoa humana. Outro texto jurídico que analisa as finalidades da Educação no Brasil é a Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que trata das Diretrizes e Bases da Educação Brasileira, mais conhecida como LDB. Em seus primeiros artigos, há a seguinte notação: “a Educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, a seu preparo para o exercício da cidadania e a sua qualificação para o trabalho.” (BRASIL, 1996) Como vimos, qualquer que seja o ângulo pelo qual observamos a Educação, encontram-se fundamentos para o desenvolvimento do ser humano, de acordo com a concepção de vida e com a estrutura da sociedade. As concepções atuais de Educação apontam para o desenvolvimento do ser humano como um todo, reafirmando seu papel nas transformações pelas quais vêm passando as sociedades contemporâneas e assumindo um compromisso cada vez maior com a formação para a cidadania. UNIDADE I | Educação SupErior: da concEpção à atualidadE 15 Gil (2008) considera três principais perspectivas educacionais aplicadas ao Ensino Superior. perspectivas educacionais em contraste PersPectiva clássica PersPectiva Humanista PersPectiva moDerna » Adaptação dos alunos aos objetivos da escola » Certeza » Competição » Autocracia » Disciplina » Reprodução » Orientação para o conteúdo » Ênfase no ensino » Adaptação da escola às necessidades dos alunos » Dúvida » Cooperação » Laissez-faire » Liberdade » Descoberta » Orientaçãopara o método » Ênfase na aprendizagem » Harmonização entre as necessidades dos alunos e os valores sociais » Probabilidade » Crescimento » Participação » Responsabilidade » Criatividade » Orientação para a solução de problemas » Ênfase no processo de ensino- aprendizagem Fonte: Gil (2008, p. 27) Torna-se imprescindível, portanto, que façamos uma conexão entre Educação e desenvolvimento, pensando no desenvolvimento que educa e em uma Educação que desenvolve, a fim de vislumbrarmos uma sociedade mais democrática e justa. Uma Educação que carrega em seu bojo a utopia de construir essa sociedade, como forma de vida, tem como tema constitutivo o desenvolvimento integral do ser humano. GADOTTI, Moacir. Perspectivas atuais da educação. São Paulo Perspectivas.São Paulo, v. 14, n. 2, 2000. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.hp?script=sci_ arttext&pid=S0102-88392000000200002&lng=es&nrm=iso>. Reflita sobre as concepções estudadas e procure relativizar sua formação acadêmica. Educação SupErior: da concEpção à atualidadE | UNIDADE I 16 CAPíTUlO 2 nascimento das universidades » O que você entende por universidade? » Em que momento da história da humanidade você acha que as universidades surgiram? » Quais os objetivos da educação universitária? » Em sua opinião, a universidade se organizou antes ou depois da Educação Básica? Ao nos propormos a refletir sobre as primeiras universidades, não podemos deixar de levar em consideração os aspectos que contribuíram para o seu florescimento. A universidade, nos moldes que a conhecemos hoje, é uma instituição de ensino com a função de ministrar, produzir e divulgar conhecimentos, agrupando várias escolas e ou faculdades. Constitui, portanto, um órgão no sistema educacional, que tem por finalidade preservar a cultura, transmitir conhecimentos e fazer ciência, contribuindo para a transformação social. As universidades nasceram na Idade Média e, no princípio, eram redutos exclusivos dos clérigos. Com o passar dos anos, os conhecimentos produzidos exigiram uma nova dimensão e outros modelos de universidades foram surgindo até chegar aos que temos hoje. Por mais estranho que pareça, as instituições de ensino começaram a ser organizadas de forma inversa à que se apresenta na atualidade. As primeiras escolas de que se tem notícia no mundo ocidental foram: a Academia (dirigida por Platão) e o Liceu (criado por Aristóteles), na Grécia antiga. Esses dois modelos serviam aos ensinamentos gerais, denominados filosóficos, e destinavam-se a atender pessoas adultas. Neste sentido, a educação do adulto foi a primeira forma institucionalizada de escola que a cultura ocidental conheceu. Isso, porque a educação das crianças era realizada por preceptores, que as acompanhavam individualmente, nas próprias residências, introduzindo-as no mundo das letras. As universidades nasceram na Idade Média sob o domínio cultural e econômico da Igreja Católica. Foram criadas com base nos modelos gregos – platônico e aristotélico, para aprimoramento do saber dos clérigos (classe privilegiada na escala social) e manutenção do poder e da dominação exercida por essa instituição religiosa. 17 Nesse sentido, as primeiras universidades acolhiam estudantes de vários países, dando-lhes proteção e formação. Como exemplo, citamos as universidades de Salermo e de Bolonha, criadas no século XI. A importância cultural e o número de pessoas que se juntavam nesses centros de estudos obrigaram-nos a se transformarem em corporações organizadas e administrativamente bem definidas. O modelo de administração da universidade era muito parecido com os modelos das organizações eclesiais; por isso, os termos reitor, cátedra, decanato de graduação, herdados da estrutura organizacional da igreja, ainda permanecem até nossos dias. As primeiras universidades foram surgindo, a partir do século XI, em torno do poder central da Igreja Católica, nas cidades de Bolonha, Salermo, Pádua, Nápoles, Siena e Pisa, pois, em princípio, necessitavam do reconhecimento do Papa para obter legitimidade. O ensino, por exigências sociais, foi, gradativamente, acolhendo os leigos, filhos da aristocracia. Em 1170, surge a Universidade de Paris, no início do século XII, a de Oxford e, em seguida, a de Cambridge, sendo essas as mais antigas instituições que passaram a dar forma ao novo conceito de universidade. Ao pensarmos a Idade Média, não podemos perder de vista as fundamentações filosóficas que sustentaram esse longo período. Existem dois momentos bastante distintos que devemos ponderar: um primeiro pautado pela Patrística, que representou os primeiros séculos e tem como maior representante Santo Agostinho, graças à originalidade de sua obra. À visão agostiniana, fundamentada no pensamento platônico, permaneceram fiéis a maioria dos pensadores medievais. Um segundo momento ficou marcado pela Escolástica. Nesse período nasceram as primeiras universidades. A filosofia de Aristóteles, por meio das ideias de Santo Tomás de Aquino, entre outros clérigos, ganha, neste momento, um certo apreço para os cristãos. Suas obras são resultado de leituras e de comentários realizados sobre as principais obras do filósofo, cujo objetivo era o de demonstrar a primazia da filosofia sobre qualquer outro tipo de saber. Em outras palavras, sua preocupação era a de comprovar que a sabedoria humana não dependia da revelação divina, nem estava subordinada às experiências empíricas, próprias das ciências e das artes. Tomás de Aquino, representando uma parte dos pensadores que leram Aristóteles por meio das interpretações de Averróis, posicionava-se como primeiro defensor integral e autêntico do aristotelismo, baseando-se nos seguintes princípios. » A lógica tem um caráter propedêutico e instrumental. » O conhecimento humano tem valor universal. » O ente concreto tem como raiz construtiva o conceito de substância. » As noções de sabedoria e de felicidade estão vinculadas à vida ética do filósofo. Na segunda metade do século XII, a Universidade de Paris foi agitada por novas ideias, que, lideradas pelos não clérigos e surgidas na faculdade de artes, ficaram conhecidas como averroísmo latino. Esse movimento tinha como reivindicação a total independência da filosofia em relação à teologia, e seus integrantes se declaravam seguidores incondicionais de Aristóteles. Foram chamados de averroístas, por lerem Aristóteles apoiados nos comentários de Averróis. O líder do movimento era o professor Singer de Barbant, que defendia o direito a uma postura laica na transmissão e na produção dos conhecimentos. Educação SupErior: da concEpção à atualidadE | UNIDADE I 18 O averroísmo latino passou a ser sinônimo de heresia e de impiedade, por força das acusações de seus opositores, os clérigos. Mesmo assim, essa filosofia expandiu-se pela Europa. Na Itália, as Universidades de Pádua e de Bolonha tornaram-se importantes centros de sua irradiação, ficando claro que ele apontava, para uma mentalidade aberta, buscando uma ciência desatrelada da fé e uma sociedade civil separada da Igreja. Buscou dentro da razão construir os conhecimentos, independentemente da revelação divina. O averroísmo muito contribuiu para o nascimento das universidades e para a desvinculação entre religião e conhecimento; propiciou o acesso de um maior número de pessoas e criou outras formas de produção científica que extrapolaram os ditames da Igreja. Nesse sentido, o pensamento aristotélico/averroísta proporcionou a laicização do conhecimento. Desde então, a universidade passou a ser o local de produção, transmissão e divulgação dos novos saberes. Como uma instituição que deixou de ser exclusivamente de domínio religioso para assumir o domínio público, procurou assegurar a todas as pessoas a possibilidade de contato com conhecimento. Embora essa ideiafosse muito mais ideal do que real, esse foi o objetivo e a razão de existência das universidades. O declínio do averroísmo começou a delinear-se por volta do final do século XVI, como consequência da superação definitiva do aristotelismo pelo despontar de uma nova filosofia da natureza fundada em outro método de pesquisa: a lógica da experiência. A concepção estreita de Aristóteles sobre o universo não resistiu às novas teorias apresentadas por Giordano Bruno. Pesquise e procure diferenciar os termos: universidade e faculdade Sugestão: consulte enciclopédias, dicionários ou a Internet e elabore um texto de, aproximadamente, dez linhas, diferenciando os termos. Na modernidade, as universidades se expandiram por toda a Europa, formalizando e criando novos cursos em variadas faculdades, como Artes, Filosofia, Direito, Ciências Naturais e Biológicas. Cada uma dessas grandes áreas passou a ter novas subdivisões, ganhando especificidades exclusivas, que, até nossos dias, continuam se reorganizando. Entre as subdivisões adotadas pela modernidade, podemos identificar a sugerida por Bunge (apud Locato, 1991), como uma das mais próximas de nosso tempo: Ciências Factuais Naturais Sociais Física Química Biologia e outros Atropologia Cultural Direito Economia Política Psicologia Sociologia Formais Lógica Matemática UNIDADE I | Educação SupErior: da concEpção à atualidadE 19 Segundo informações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Capes, órgão responsável pelo controle e pelo credenciamento de cursos de pós-graduação (mestrados e doutorados), do Ministério da Educação – MEC, a classificação das áreas do conhecimento tem finalidade eminentemente prática, objetivando proporcionar aos órgãos que atuam em ciência e tecnologia uma maneira ágil e funcional de agregar suas informações. A classificação permite, primordialmente, sistematizar atos referentes ao desenvolvimento científico e tecnológico, especialmente aqueles concernentes a projetos de pesquisa e a recursos humanos. Antes de continuar a leitura do texto, faça uma consulta ao sítio da Capes para identificar as áreas de conhecimento classificadas, hoje, pelo MEC. <http://www.capes.gov.br/avaliacao/tabela-de-areas-de-conhecimento>. Com o passar dos séculos, as universidades foram se estruturando e conquistando ideologias próprias. Adotaremos aqui as concepções de Castanho (2006, p. 13 a 48) e de Rossato (2005). » Modelo imperial napoleônico: a universidade se apresenta como um dos aparelhos de formação dos intelectuais da antiga classe dominante – o local de preparação dos novos intelectuais. Foi com esse intuito que o Decreto de 1808, que criou a Universidade da França, subordinou a ela todas as instituições de ensino do país, mesmo as de ensino elementar e os liceus. O Decreto dizia: “nenhuma escola, nenhum estabelecimento qualquer de instrução pode formar-se fora da universidade imperial e sem autorização de seu chefe”. Pelo mesmo instrumento normativo, criaram-se a Escola Politécnica e as Faculdades de Ciências e Letras, e promoveram- se a faculdades as antigas Escolas de Medicina e Direito. Esse modelo conservou a ideia de universidade, na leitura pré-positivista dos enciclopedistas. Quando de sua chegada ao Brasil, D. João VI instituiu cursos superiores, segundo seus padrões, que continuam presentes na Educação Superior: o monopólio estatal, a conservação da laicização trazida pela Revolução Francesa, a divisão em faculdades e o valor conferido à colação de grau e ao diploma, como exigências para o exercício de uma profissão. Além disso, destaca-se a sua conotação ideológica: toda a educação a serviço exclusivo do Estado imperial. » Modelo idealista alemão: os alemães procuravam separar a universidade do jugo estadual, tornando-a um reduto por excelência de liberdade. A base teórica do modelo universitário alemão foi dada pelos filósofos idealistas, a começar pelos seus mais expressivos pensadores: Kant, Hegel, Schelling, Fitche, Schleiermacher e Humboldt. Embora haja discordância entre eles, os ideais de liberdade estão presentes em todos. » Modelo elitista inglês: a universidade é um lugar de ensino do saber universal. O seu objetivo é a difusão e a extensão do saber. Visa à descoberta científica e filosófica. As universidades têm por objetivo ensinar a juventude, e não produzir livros, artigos ou fazer alguma descoberta científica, filosófica ou artística. » Modelo utilitarista norte-americano: rejeita o modelo inglês de uma universidade voltada para o saber, para a busca incessante de novos conhecimentos. Apresenta a Educação SupErior: da concEpção à atualidadE | UNIDADE I 20 universidade como um centro de progresso que forma cidadãos ativos, empenhados no desenvolvimento da nação. Busca ampliar seu raio de ação, para atingir toda a comunidade. » Modelo democrático-nacional-participativo: justifica-se como democrático, porque a universidade deveria se definir como um espaço da livre manifestação do espírito. Nacional pelo fato de a universidade se apresentar como um espaço para que a cultura se manifeste e se produza em nível superior. Participativo, porque seria na própria prática da vida universitária que se formariam gerações capazes de compreender, assumir e empreender as mudanças necessárias para o desenvolvimento. No Brasil, esse modelo não se cristalizou integralmente na primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, promulgada em 1961, mas foi empregado intensamente nas universidades, passando a predominar desde a metade do século XX. Mesmo considerando que a universidade deve ser mantida pelo Estado, não aceita que tenha ingerência sobre ela, que necessita preservar sua autonomia frente ao estabelecimento governativo e pensar a realidade social, econômica e política do país, agindo para sua transformação, mas sem se confundir com uma agência de governo ou mesmo com um partido político. » Modelo neoliberal-globalista-plurimodal: embora já constituído nos Estados Unidos, em outros países esse modelo ainda está disputando o espaço público com o modelo democrático-nacional-participativo. Uma vez que a ideologia neoliberal mantém a forma globalizada de produção do capitalismo, em que os Estados perdem a governabilidade sobre sua economia, a universidade é, também, neoliberal, além de globalista e plurimodal. Neoliberal, porque, como um empreendimento, com preferência pela iniciativa privada, não pública, volta-se para as exigências do mercado, constituindo-se espaço em que os indivíduos procuram instrumentos para o sucesso na sociedade. Globalista, porque está voltada para o mundo e não somente para a nação; plurimodal, porque adota mil formas de acordo com as exigências e as necessidades do mercado. Neste século XXI, vivemos o momento em que a emergência do modelo neoliberal- -globalista-plurimodal de universidade expandiu-se no Brasil após a Nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei nº 9.394, de dezembro de 1996, que veremos posteriormente. » Referencial crítico-cultural-popular: a universidade há de ser crítica, cultural e popular. Sua função é melhorar a qualidade de vida da comunidade, livrando-a da miséria social e cultural, evitando que ela própria se deixe arrastar pela mediocridade. Essa postura enfatiza sua competência cultural, que há de ser forte. Não de uma força qualquer, como a simples força econômica de uma elite de proprietários. Mas, a força que provém da grande massa de trabalhadores excluídos de seus muros por perversão social. Por isso será popular. E tendo como parâmetro de sua força cultural o povo, a universidade será crítica, não no sentido de agudeza de pensamento, UNIDADE I | Educação SupErior: da concEpção à atualidadE 21 mas no sentido de engajamento na transformação social.Pode-se afirmar que esse modelo é mais um ideal do que uma realização, colocado por Sérgio E. M. Castanho para promover uma nova reflexão a respeito dos tipos de universidade. Após esse resgate histórico do nascimento da universidade, percebe-se que a Educação Superior tem suas raízes nas organizações sociais, priorizando o aprendizado e as novas descobertas. Buscando uma nova dimensão da vida e consciente do poder que o conhecimento pode proporcionar às pessoas, devem ser consideradas, também, as questões políticas que envolvem a Educação. Por esse motivo, no próximo texto, serão apresentadas questões relacionadas à Educação Superior brasileira e suas relações com a política nacional. Nas universidades, há, hoje, uma disputa ideológica entre os vários modelos aqui apresentados. O que devemos fazer: voltar aos modelos anteriores ou buscar uma nova realidade? Para saber mais sobre o assunto aqui tratado, sugerimos a leitura dos livros de CASTANHO, S. E. M. A Universidade entre o sim, o não e o talvez. In: VEIGA, Ilma Passos Alencastro. Projeto político-pedagógico da escola: uma construção possível. São Paulo: Papirus, 2004. CASTANHO, Maria Eugênia L.M. (Orgs.) Pedagogia universitária: a aula em foco. Campinas: Papirus. 2006. Veja o filme Em Nome de Deus – Abelardo e Heloisa: uma História de Amor, que conta a história de Abelardo e Heloisa, retratando a Idade Média e a força da Igreja nas relações pessoais. Observe nesse filme as aulas na Universidade de Notre Dame e perceba como surgiram as aulas e os debates na Educação Superior. Educação SupErior: da concEpção à atualidadE | UNIDADE I 22 CAPíTUlO 3 História do Ensino Superior no Brasil » O que você sabe sobre a história do Ensino Superior no Brasil? » Como surgiram as universidades brasileiras? » Quais os objetivos da universidade brasileira? » Em sua opinião, a universidade, no Brasil, contribui para o desenvolvimento das pessoas? Em que sentido? Todas são beneficiadas? » Qual é a relação da universidade com a política? Pouco tempo depois da chegada de Cabral ao Brasil, em 1549, vieram os padres jesuítas, para catequizar e ensinar os índios. Já com a educação dos filhos dos imigrantes europeus os cuidados eram outros. Os jesuítas formaram várias escolas com cursos preparatórios, o que equivalia ao Ensino Médio hoje. Era uma espécie de propedêutico para aqueles que pretendiam seguir os estudos universitários. Durante o período jesuítico, desenvolveu-se no Brasil uma educação gratuita. As atividades educacionais eram levadas a cabo nos colégios, nos seminários e nos cursos de Humanidades, Artes e Teologia. Em sua maioria, os alunos eram preparados para o sacerdócio, mas existiam, também, jovens que não pretendiam seguir a carreira religiosa. Os cursos de Artes (Ciências) preparavam os alunos para a Universidade de Coimbra, onde poderiam cursar Filosofia, Direito ou Medicina, refletindo, assim, a situação de dependência cultural da colônia em relação aos colonizadores. Em 1759, com a reforma pombalina e a expulsão dos jesuítas, formou-se um vácuo na Educação brasileira. Somente em 1772, surgem as aulas de matérias isoladas e os cursos superiores com novas estruturas, no Rio de Janeiro e em Olinda. Em 1776, os frades franciscanos criaram um curso superior no Convento de Santo Antonio, no Rio de Janeiro, organizado conforme os moldes da Universidade de Coimbra, que havia sido renovada com as ideias do Marquês de Pombal. Com a transferência da família real portuguesa para o Brasil, de 1808 a 1821, surgiu a necessidade urgente de se transformar o Ensino Superior, para atender às demandas sociais e econômicas daquele momento. O novo ensino apresentava, mais uma vez, as influências da dependência cultural, às quais Portugal estava preso. A partir de 1808, foram criados os cursos e as academias destinados a formar burocratas para o Estado e especialistas na produção de bens simbólicos. Os estudos de Matemática, Física, Química, Biologia e Minerologia juntaram-se aos cursos médicos, sofrendo a influência das teorias francesas. O modelo de universidade francesa foi adotado como inspiração nesse momento da história. 23 As primeiras faculdades criadas por D. João VI, a Academia Real da Marinha e, depois, a Academia Real Militar, localizavam-se no Rio de Janeiro. Nessa época, foram instaladas, também, a Escola Politécnica e a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, a Faculdade de Medicina da Bahia, a Faculdade de Direito de São Paulo e a Escola de Minas, em Outro Preto, formando-se, assim, o núcleo de Ensino Superior que deu origem às estruturas existentes até hoje, com ampliações e diferenciações, sob a influência do modelo imperial napoleônico, baseado nas ideias positivistas. Volte ao texto anterior e faça um estudo sobre o modelo francês (Imperial Napoleônico) de universidade. Procure identificar, na instituição em que você estudou (faculdade, centro universitário ou universidade), elementos que confirmem a existência ou não desse modelo. Sugestão: Procure em documentos da instituição ou converse com pessoas que possam lhe esclarecer algumas dúvidas sobre esses pontos da pesquisa. Essas instituições permaneceram durante todo o Império, mas as universidades eram um privilégio da metrópole portuguesa e não de suas colônias, pois, mesmo com a criação dos cursos, eles acabaram se organizando como institutos ou faculdades isoladas, não havendo interesse na formação de universidades. Assim, na época de nossa independência, existiam, na América espanhola, 27 universidades, enquanto que, no Brasil, havia somente faculdades isoladas, devido à dependência econômica e cultural de Portugal. No final do Império, o Ensino Superior se reduzia às seguintes áreas: Medicina, Engenharia, Direito e Agronomia. Na Primeira República, o número de áreas aumentou consideravelmente. Apareceram as primeiras instituições particulares, que seguiam o modelo das escolas alemãs, com o ideal de liberdade mencionado no texto anterior. A expansão do número de universidades públicas e particulares provocou mudanças qualitativas na Educação. No período de 1891 a 1910, foram criadas, no Brasil, 27 escolas superiores: nove de Medicina, Obstetrícia, Odontologia e Farmácia, oito de direito, quatro de Engenharia e seis de Agronomia. Em 1925, foi realizada a última reforma da Primeira República, a Reforma Rocha Vaz, que objetivou o controle ideológico do Estado sobre o aparelho escolar, numa tentativa de esvaziar as crises políticas e sociais que desembocaram na revolução, que pôs fim ao regime, em 1930. Em 1931, Francisco Campos elaborou o Estatuto das Universidades Brasileiras, que vigorou por 30 anos, e adotou para o Ensino Superior o regime universitário. A partir dele, a ideia de universidade começou a tomar forma no Brasil. Não demorou muito e surgiram críticas que punham a nu a falsidade de atribuir o nome de universidade a um mero conglomerado de escolas que continuavam tão isoladas quanto antes, mantendo o mesmo currículo de quando eram apenas faculdades, sem nenhum vínculo entre si. Na verdade, apesar da organização da universidade do Rio de Janeiro, a primeira universidade a ser criada e organizada, segundo as normas do Estatuto das Universidades, foi a Universidade de São Paulo, surgida em 25 de janeiro de 1934. As demais universidades, até então, tinham se organizado pela simples incorporação dos cursos existentes e autônomos. A Universidade de São Paulo foi criada, segundo as Educação SupErior: da concEpção à atualidadE | UNIDADE I 24 normas do Decreto e apresentava a novidade de possuir uma Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, que, segundo Fernando Azevedo, passou a ser a medula do sistema, tendo por objetivos a formação de professores para o magistério secundário e a realização de altos estudos desinteressados e a pesquisa. (ROMANELLI,2005, p. 132) Em março de 1932, foi lançado o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, assinado por 25 educadores e escritores interessados em problemas educacionais. O manifesto expressava um movimento de renovação educacional iniciado após a Primeira Guerra Mundial. Trazia elementos para uma nova política educacional e para o Ensino Superior e recomendava a criação de universidades que pudessem exercer uma tríplice formação: pesquisa, entendida como elaboração da ciência; ensino, ou transmissão da ciência; e extensão universitária, no intuito de promover a popularização da ciência. Faça uma pesquisa sobre as diferenças existentes entre ensino, pesquisa e extensão. Em seguida, elabore um texto, diferenciando os termos sugeridos acima e identificando o papel do professor do Ensino Superior. Em 20 de dezembro de 1961, foi promulgada a primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei no 4.024, que manteve a organização do sistema de ensino, de acordo com as reformas educacionais anteriores, em Ensino Pré-Primário, Ensino Primário, Ensino Médio e Ensino Superior. A Educação brasileira passava por mais uma crise de indefinição e o Ensino Superior continuava quase que exclusivamente público, oferecendo um número de vagas muito menor que a demanda do Ensino Médio. Grande parte da população permanecia fora da escola primária e média e uma pequena elite chegava aos cursos superiores. Após o golpe militar em 1964, na tentativa de minimizar a crise educacional, o governo militar estabeleceu vários acordos entre Brasil e Estados Unidos. Entre eles, o mais famoso foi o realizado entre o MEC/ USAID3. Das ações adotadas pelos militares, a reforma universitária foi uma das mais complexas, pois buscava reduzir os gastos com o Ensino Superior e empreender um ideal empresarial nas universidades que mantinham uma estrutura muito rica, apresentando poucos resultados. Uma das ações mais contestadas foi a criação de departamentos que reuniam disciplinas afins, concentrando, assim, as áreas de ensino e de pesquisa e economizando recursos. Outro documento polêmico, na época, foi o Decreto-Lei no 252, de 28 de fevereiro de 1967, limitando a participação dos estudantes na vida universitária. As ideias de desenvolvimentismo, eficiência e produtividade atreladas à repressão militar fizeram com que esse modelo de universidade fosse bastante criticado, pelo policiamento na construção do conhecimento e pela falta de liberdade nas ações docente e discente. A Lei no 5.540, de 1968, reafirmou os princípios adotados na legislação anterior, definindo, em seu artigo 2º, que o Ensino Superior fosse ministrado em universidades e, excepcionalmente, em estabelecimentos isolados, organizados como instituições de direito público ou privado, provocando uma concentração do conhecimento em centros geopolíticos estabelecidos pelo governo militar. Determinou, ainda, que as universidades poderiam oferecer cursos de graduação, pós-graduação, extensão, aperfeiçoamento, especialização e outros. UNIDADE I | Educação SupErior: da concEpção à atualidadE 25 Assim, a universidade, durante o período do governo militar, passou a ser mais burocrática. Embora, aparentemente, fosse mais moderna e funcional, não ampliou o número de vagas nem democratizou o acesso ao Ensino Superior público, acentuando a exclusão social e privilegiando a burguesia. Nesse período, percebe-se um certo incentivo para que a iniciativa privada assuma uma parcela maior do Ensino Superior, aumentando o número de cursos e de faculdade particulares, fato que ampliou o número de vagas do Ensino Superior, sem, no entanto, ter havido uma preocupação com a qualidade dos serviços prestados por essas instituições. Após o governo militar, a universidade pública foi retomando suas funções e rearticulando-se, até a década de 1990, quando passou a ser influenciada por uma onda de neoliberalismo, como veremos no próximo texto. Economicamente, a universidade pública tem funcionado como fornecedora de pessoal qualificado para as grandes empresas. Qual investimento social essas empresas realizam para compensar esse esforço? ROMANELLI, Otaiza. História da Educação no Brasil. Petrópolis: Vozes. 2005 Veja o filme Cabra-Cega, dirigido por Toni Venturi, que estreou em abril de 2005. Ele traz à tona a ditadura militar, época em que a censura passou a fazer parte do cotidiano dos artistas de todo o País, e o cinema, como ferramenta de contestação social, foi alvo da repressão dos governos militares. Com a retomada da democracia e com o crescimento do cinema nacional, muitos filmes sobre o assunto estão sendo produzidos, como é o caso de Cabra-Cega. Após assistir ao filme, elabore um texto, mostrando as razões pelas quais a Educação, nesse período, deixou de formar pessoas críticas. Educação SupErior: da concEpção à atualidadE | UNIDADE I 26 CAPíTUlO 4 Educação Superior Brasileira na atualidade » O que você entende por Lei de Diretrizes e Bases da Educação? » Em que sentido você acha que essa Lei pode interferir na vida do cidadão comum? » Quais são os objetivos desse tipo de lei? Após a publicação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei no 4.024, de 1961, foi realizada uma grande reforma na Educação Nacional, mas não houve uma mudança por inteiro na legislação. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1971, Lei no 5.692, reorganizou a Educação Básica em primeiro e segundo graus, não apresentando mudanças estruturais no Ensino Superior. O foco dessa lei, que apresentava fortes traços de tecnicismos e uma séria tendência de submissão ao sistema capitalista, era a formação técnica e profissionalizante. A exclusividade do ensino profissionalizante durou pouco e foi alvo de contestações das corporações educacionais brasileiras. A grande mudança na Educação ocorreu na década de 1990, com a promulgação de uma nova LDB. Em 26 de dezembro de 1996, foi promulgada a Lei no 9.394, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB, que tinha um capítulo inteiro dedicado à Educação Superior (do art. 43 ao 57). Em alguns artigos, as implicações referiam-se a todas as instituições de Educação Superior; em outros, o direcionamento dava-se na perspectiva das universidades públicas, como passaremos a discutir: Art. 43. A Educação Superior tem por finalidade: I – estimular a criação cultural e o desenvolvimento do espírito científico e do pensamento reflexivo; II – formar diplomados nas diferentes áreas do conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua formação contínua; III – incentivar o trabalho de pesquisa e investigação científica, visando ao desenvolvimento da ciência e da tecnologia e à criação e difusão da cultura, e, desse modo, desenvolver o entendimento do homem e do meio em que vive; IV – promover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o saber por meio do ensino, de publicações ou de outras formas de comunicação; 27 V – suscitar o desejo permanente de aperfeiçoamento cultural e profissional e possibilitar a correspondente concretização, integrando os conhecimentos que vão sendo adquiridos numa estrutura intelectual sistematizadora do conhecimento de cada geração; VI – estimular o conhecimento dos problemas do mundo presente, em particular os nacionais e regionais, prestar serviços especializados à comunidade e estabelecer com esta uma relação de reciprocidade; VII – promover a extensão, aberta à participação da população, visando à difusão das conquistas e dos benefícios resultantes da criação cultural e da pesquisa científica geradas na instituição. Ao se reportar às finalidades da Educação Superior, a LDB enfatizou que o papel da universidadeera estimular a cultura e o desenvolvimento da ciência e do pensamento reflexivo. Nesse sentido, a formação profissional, sendo um dos maiores objetivos da Educação Superior, devia estar atrelada a um pensar de qualidade, respeitando a diversidade cultural de nosso país e, ao mesmo tempo, contribuindo para seu engrandecimento. Um segundo ponto importante a ressaltar é a valorização da pesquisa como forma de desenvolvimento tecnológico e humano. Visto que uma das finalidades da Educação Superior era divulgar os conhecimentos produzidos e instigar o conhecimento como forma de prestação de serviços à comunidade, identificamos uma forte relação com o modelo norte-americano, que visava à ligação direta da universidade com a comunidade por meio da extensão. Art. 44. A Educação Superior abrangerá os seguintes cursos e programas: I – cursos sequenciais por campo de saber, de diferentes níveis de abrangência, abertos a candidatos que atendam aos requisitos estabelecidos pelas instituições de ensino; II – de graduação, abertos a candidatos que tenham concluído o Ensino Médio ou equivalente e tenham sido classificados em processo seletivo; III – de pós-graduação, compreendendo programas de mestrado e doutorado, cursos de especialização, aperfeiçoamento e outros, abertos a candidatos diplomados em cursos de graduação e que atendam às exigências das instituições de ensino; IV – de extensão, abertos a candidatos que atendam aos requisitos estabelecidos em cada caso pelas instituições de ensino. Os cursos sequenciais são cursos superiores de curta duração. A maioria deles tem a duração de dois anos e não gradua o concluinte: apenas certifica sua conclusão. Esses cursos, embora sejam de nível superior, não são cursos de graduação e não permitem a continuidade de estudos na pós-graduação. São voltados para a obtenção de qualificação profissional específica, em diferentes áreas do conhecimento, em curto período de tempo. As Portarias MEC nº 482, de 7 de abril de 2000; 606, de 8 de abril de 1999; 612, de 12 de abril de 1999; e a Resolução CES/CNE nº 1, de 27 de janeiro de 1999 disciplinam a matéria. Nesse sentido, é salutar destacar que os cursos de graduação são oferecidos em três modalidades: bacharelado (profissional/pesquisador), licenciado (magistério) e tecnólogo (profissional). Há muitas questões que envolvem os cursos de tecnólogos, especialmente a que se refere à dúvida quanto aos cursos superiores de Educação SupErior: da concEpção à atualidadE | UNIDADE I 28 tecnologia serem ou não de graduação. A “Resolução CNE/CP 3, de 18 de dezembro de 2002, menciona que os cursos superiores de tecnologia são de graduação, com características especiais, e obedecerão às diretrizes contidas no Parecer CNE/CES 436/2001 e conduzirão à obtenção de diploma de tecnólogo”. Disponível em <http://portal.mec.gov.br/sesu/index.php?option=com_content&task=view&id=842> e acessado em 17 de dezembro de 2008. Graduação de bacharéis e licenciados Os cursos que preparam para uma carreira acadêmica ou profissional, e que podem estar ou não vinculados a conselhos específicos, são aqueles que conferem diploma com o grau de bacharel ou título específico (ex.: bacharel em Biologia), licenciado (ex.: licenciado em Pedagogia), tecnólogo (ex.: Tecnólogo em Telecomunicações) ou título específico referente à profissão (ex.: Odontólogo ou Dentista). O grau de bacharel ou o título específico referente à profissão é conferido àqueles que irão exercer uma profissão de nível superior, como os médicos, os administradores, os advogados, os bacharéis em ciências da computação e os engenheiros, de forma geral. O grau de licenciado habilita o portador para o magistério no Ensino Fundamental e Médio, como é o caso de todos os cursos de formação de professores, como Pedagogia ou Normal Superior, que habilita o professor da Educação Infantil a atuar nos anos iniciais do Ensino Fundamental; licenciaturas em Letras, Matemática, História, Geografia, Artes, Ciências Físicas e Biológicas e Educação Física, que habilitam o professor do Ensino Fundamental a atuar nos anos finais; e aquelas outras licenciaturas, que se direcionam para o Ensino Médio, como é o caso da Física, da Biologia, da Filosofia e da Química, em especial. Existem cursos em que é possível obter o diploma de bacharel e o de licenciado, cumprindo os currículos específicos de cada uma dessas modalidades. Além das disciplinas de conteúdo da área de formação, a licenciatura requer, também, disciplinas pedagógicas e horas de prática de ensino. » Você sabe diferenciar a formação do bacharel da do licenciado? » Sua formação é bacharelado ou licenciatura? » Faça uma lista das atividades do bacharel e do licenciado. Aponte as diferenças e as semelhanças. Os cursos de pós-graduação, cujas normas para funcionamento foram estabelecidas pela Resolução CNE/ CES nº 1, de 3 de abril de 2001, e pelas alterações instituídas pela Resolução CNE/CES nº 5, de 25 de setembro de 2008, podem ser: lato-sensu, que são destinados às especializações e devem ter duração mínima de 360 horas (trezentos e sessenta horas), não computado o tempo de estudo individual ou em grupo sem assistência docente, e o reservado, obrigatoriamente, para o trabalho de monografia ou trabalho de conclusão de curso (Resolução CNE no1, de 8 de junho de 2007; e stricto sensu, que são os cursos oferecidos nos níveis de mestrado e doutorado, enfocando a pesquisa e a produção de conhecimentos para as áreas específicas. Os cursos de extensão podem ser oferecidos para os próprios alunos ou para a comunidade em geral. Esses cursos não precisam cumprir carga horária mínima nem são submetidos à legislação específica. UNIDADE I | Educação SupErior: da concEpção à atualidadE 29 Art. 45. A Educação Superior será ministrada em instituições de Ensino Superior, públicas ou privadas, com variados graus de abrangência ou especialização. Art. 46. A autorização e o reconhecimento de cursos, bem como o credenciamento de instituições de Educação Superior, terão prazos limitados, sendo renovados, periodicamente, após processo regular de avaliação. § 1º Após um prazo para saneamento de deficiências eventualmente identificadas pela avaliação a que se refere este artigo, haverá reavaliação, que poderá resultar, conforme o caso, em desativação de cursos e habilitações, em intervenção na instituição, em suspensão temporária de prerrogativas de autonomia ou em descredenciamento. § 2º No caso de instituição pública, o Poder Executivo, responsável por sua manutenção, acompanhará o processo de saneamento e fornecerá recursos adicionais, se necessários, para a superação das deficiências. Percebe-se uma abertura para a ampliação do número de instituições de Educação Superior. Essas instituições (faculdades, centros universitários ou universidades) particulares são credenciadas e fiscalizadas pelo MEC, para que possam oferecer um serviço de qualidade; já as instituições públicas (municipais, estaduais ou federais) são credenciadas e fiscalizadas pelos sistemas que as sustentam. Art. 47. Na Educação Superior, o ano letivo regular, independente do ano civil, tem, no mínimo, duzentos dias de trabalho acadêmico efetivo, excluído o tempo reservado aos exames finais, quando houver. § 1º As instituições informarão aos interessados, antes de cada período letivo, os programas dos cursos e demais componentes curriculares, sua duração, requisitos, qualificação dos professores, recursos disponíveis e critérios de avaliação, obrigando- se a cumprir as respectivas condições. § 2º Os alunos que tenham extraordinário aproveitamento nos estudos, demonstrado por meio de provas e outros instrumentos de avaliação específicos, aplicados por banca examinadora especial, poderão ter abreviada a duração de seus cursos, de acordo com as normas dos sistemas de ensino. § 3º Éobrigatória a frequência de alunos e professores, salvo nos programas de educação a distância. § 4º As instituições de Educação Superior oferecerão, no período noturno, cursos de graduação, nos mesmos padrões de qualidade mantidos no período diurno, sendo obrigatória a oferta noturna nas instituições públicas, garantida a necessária previsão orçamentária. No art. 47, a lei estabelece o número mínimo de dias letivos, obrigando as instituições de ensino a informar, por meio de seu catálogo anual, todas as regras e as normas existentes. Permite, ainda, redução do tempo de estudos, quando o aluno apresentar notório saber, e reafirma a necessidade de frequência mínima de professores e alunos. O § 4º refere-se, quase que especificamente, às universidades federais, que, a partir dessa LDB, passaram a criar os cursos noturnos, até então inexistentes no Ensino Superior público federal. Educação SupErior: da concEpção à atualidadE | UNIDADE I 30 Art. 48. Os diplomas de cursos superiores reconhecidos, quando registrados, terão validade nacional como prova da formação recebida por seu titular. § 1º Os diplomas expedidos pelas universidades serão por elas próprias registrados e aqueles conferidos por instituições não universitárias serão registrados em universidades indicadas pelo Conselho Nacional de Educação. § 2º Os diplomas de graduação expedidos por universidades estrangeiras serão revalidados por universidades públicas que tenham curso do mesmo nível e área ou equivalente, respeitando-se os acordos internacionais de reciprocidade ou equiparação. § 3º Os diplomas de mestrado e de doutorado expedidos por universidades estrangeiras só poderão ser reconhecidos por universidades que possuam cursos de pós-graduação reconhecidos e avaliados, na mesma área de conhecimento e em nível equivalente ou superior. Os diplomas de graduação expedidos por faculdades e centros universitários são registrados, geralmente, por uma universidade federal. Os diplomas de cursos de especialização são registrados na própria instituição. Os diplomas de graduação ou de pós-graduação expedidos por universidades estrangeiras deverão ser revalidados por uma universidade brasileira. Art. 49. As instituições de Educação Superior aceitarão a transferência de alunos regulares, para cursos afins, na hipótese de existência de vagas, e mediante processo seletivo. Parágrafo único. As transferências ex officio dar-se-ão na forma da lei. As transferências ex officio a que se refere o parágrafo único dizem respeito a servidores públicos, militares e seus dependentes, que, por motivos involuntários, são obrigados a se mudar e, nesse caso, têm o direito adquirido de vaga (Lei nº 9.536/1997). Art. 50. As instituições de Educação Superior, quando da ocorrência de vagas, abrirão matrícula nas disciplinas de seus cursos a alunos não regulares que demonstrarem capacidade de cursá-las com proveito, mediante processo seletivo prévio. Esse artigo refere-se à situação do aluno especial, que não está matriculado, mas que cursa determinada disciplina com a autorização do setor competente da instituição. Art. 51. As instituições de Educação Superior credenciadas como universidades, ao deliberar sobre critérios e normas de seleção e admissão de estudantes, levarão em conta os efeitos desses critérios sobre a orientação do Ensino Médio, articulando-se com os órgãos normativos dos sistemas de ensino. Refere-se esse artigo ao processo de seleção dos candidatos, enfatizando que cada sistema de ensino (municipal, estadual ou federal) poderá criar critérios próprios de seleção para admissão de alunos, levando em conta os estudos realizados no Ensino Médio. Como exemplo desse artigo, podemos citar o caso do Programa de Avaliação Seriada – PAS, realizado pela UnB. Pesquise, no sítio da Universidade de Brasília (UnB), como funciona o PAS. UNIDADE I | Educação SupErior: da concEpção à atualidadE 31 Disponível em: <http://www.unb.br> Art. 52. As universidades são instituições pluridisciplinares de formação dos quadros profissionais de nível superior, de pesquisa, de extensão e de domínio e cultivo do saber humano, que se caracterizam por: I – produção intelectual institucionalizada, mediante o estudo sistemático dos temas e problemas mais relevantes, tanto do ponto de vista científico e cultural, quanto regional e nacional; II – um terço do corpo docente, pelo menos, com titulação acadêmica de mestrado ou doutorado; III – um terço do corpo docente em regime de tempo integral. Parágrafo único. É facultada a criação de universidades especializadas por campo do saber. A lei traz, nesse artigo, a definição de universidade, que a diferencia de centros universitários e de faculdades. As universidades, obrigatoriamente, necessitam preencher todas as dimensões da Educação Superior, ou seja, necessitam manter o ensino, a pesquisa e a extensão funcionando concomitantemente, além de atender às regras de número mínimo de docentes pós-graduados e com carga horária determinadas. Os artigos que se seguem, em sua maioria, dizem respeito a universidades públicas, buscando exaltar a sua autonomia e criar alternativas de sobrevivência para projetos e programas específicos. Art. 53. No exercício de sua autonomia, são asseguradas às universidades, sem prejuízo de outras, as seguintes atribuições: I – criar, organizar e extinguir, em sua sede, cursos e programas de Educação Superior previstos nesta Lei, obedecendo às normas gerais da União e, quando for o caso, do respectivo sistema de ensino; II – fixar os currículos dos seus cursos e programas, observadas as diretrizes gerais pertinentes; III – estabelecer planos, programas e projetos de pesquisa científica, produção artística e atividades de extensão; IV – fixar o número de vagas, de acordo com a capacidade institucional e com as exigências do seu meio; V – elaborar e reformar os seus estatutos e regimentos, em consonância com as normas gerais atinentes; VI – conferir graus, diplomas e outros títulos; VII – firmar contratos, acordos e convênios; VIII – aprovar e executar planos, programas e projetos de investimentos referentes a obras, serviços e aquisições em geral, bem como administrar rendimentos, conforme dispositivos institucionais; Educação SupErior: da concEpção à atualidadE | UNIDADE I 32 IX – administrar os rendimentos e deles dispor, na forma prevista no ato de constituição, nas leis e nos respectivos estatutos; X – receber subvenções, doações, heranças, legados e cooperação financeira resultante de convênios com entidades públicas e privadas. Parágrafo único. Para garantir a autonomia didático-científica das universidades, caberá aos seus colegiados de ensino e pesquisa decidir, dentro dos recursos orçamentários disponíveis, sobre: I – criação, expansão, modificação e extinção de cursos; II – ampliação e diminuição de vagas; III – elaboração da programação dos cursos; IV – programação das pesquisas e das atividades de extensão; V – contratação e dispensa de professores; VI – planos de carreira docente. Art. 54. As universidades mantidas pelo Poder Público gozarão, na forma da lei, de estatuto jurídico especial, para atender às peculiaridades de sua estrutura, organização e financiamento pelo Poder Público, assim como dos seus planos de carreira e do regime jurídico do seu pessoal. § 1º No exercício da sua autonomia, além das atribuições asseguradas pelo artigo anterior, as universidades públicas poderão: I – propor o seu quadro de pessoal docente, técnico e administrativo, assim como um plano de cargos e salários, atendidas as normas gerais pertinentes e os recursos disponíveis; II – elaborar o regulamento de seu pessoal, em conformidade com as normas gerais concernentes; III – aprovar e executar planos, programas e projetos de investimentosreferentes a obras, serviços e aquisições em geral, de acordo com os recursos alocados pelo respectivo poder mantenedor; IV – elaborar seus orçamentos anuais e plurianuais; V – adotar regime financeiro e contábil que atenda às suas peculiaridades de organização e funcionamento; VI – realizar operações de crédito ou de financiamento, com aprovação do poder competente, para aquisição de bens imóveis, instalações e equipamentos; VII – efetuar transferências, quitações e tomar outras providências de ordem orçamentária, financeira e patrimonial necessárias ao seu bom desempenho. UNIDADE I | Educação SupErior: da concEpção à atualidadE 33 § 2º Atribuições de autonomia universitária poderão ser estendidas a instituições que comprovem alta qualificação para o ensino ou para a pesquisa, com base em avaliação realizada pelo Poder Público. Art. 55. Caberá à União assegurar, anualmente, em seu Orçamento Geral, recursos suficientes para manutenção e desenvolvimento das instituições de Educação Superior por ela mantidas. Art. 56. As instituições públicas de Educação Superior obedecerão ao princípio da gestão democrática, assegurada a existência de órgãos colegiados deliberativos, de que participarão os segmentos da comunidade institucional, local e regional. Parágrafo único. Em qualquer caso, os docentes ocuparão setenta por cento dos assentos em cada órgão colegiado e comissão, inclusive nos que tratarem da elaboração e modificações estatutárias e regimentais, bem como da escolha de dirigentes. Art. 57. Nas instituições públicas de Educação Superior, o professor ficará obrigado ao mínimo de oito horas semanais de aulas. No art. 56, a lei assegura a possibilidade da gestão democrática e a participação representativa na composição dos colegiados e dos conselhos universitários. O art. 57 apresenta uma das questões que, na época da aprovação da lei, foi bastante polêmica: a necessidade de todos os professores estarem na sala de aula. Esse artigo fez-se necessário pelo fato de alguns pesquisadores se negarem a exercer a função docente, por terem se especializado em pesquisa. Parafraseando Pedro Demo, ao analisarmos os ranços e os avanços da LDB nº 9.394/96, pode-se afirmar que ela possibilitou um aumento explosivo do número de instituições de Educação Superior particulares, que oferecem um produto que deveria ser mais bem cuidado e não tratado pelo mercado como um bem de consumo qualquer. Por outro lado, essa expansão do Ensino Superior proporcionou o aumento no número de vagas, democratizando, de certa forma, o acesso à Educação Superior. Percebemos, com isso, que o governo passa a disponibilizar às instituições particulares aquilo que, em primeiro plano, era obrigação do serviço público. Podemos concluir que essa lei está de acordo com o modelo neoliberal-globalista-plurimodal, pois, ao mesmo tempo em que busca ampliar o número de instituições de Ensino Superior privadas, coloca o mercado como regulador da sobrevivência dessas instituições; da mesma forma que possibilita a um número maior de pessoas a conclusão do curso superior, deixa para o mercado a tarefa de definir a sobrevivência desses profissionais e sua empregabilidade. a avaliação da educação superior A avaliação da Educação Superior, que teve início na década de 1980, realizada por diversos programas e propostas era, segundo o Ministério da Educação, somente uma avaliação burocrática, quantitativa, que tinha por objetivo autorização de novos cursos de graduação e alterações do número de vagas oferecidas. As instituições, uma vez credenciadas por intermédio de um processo meramente burocrático, tinham autorização para funcionar permanentemente, desde que cumprissem a lei. Não havia qualquer avaliação institucional. Era uma licença permanente que não atingia a universidade como um todo, uma vez que Educação SupErior: da concEpção à atualidadE | UNIDADE I 34 as atividades de pesquisa eram avaliadas por agências financiadoras e o ensino de pós-graduação era avaliado bianualmente pela Capes. As que não efetuavam pesquisas e nem desenvolviam um sistema de pós-graduação não eram submetidas a qualquer avaliação institucional. Esse era o caso da extensa maioria das instituições privadas não universitárias. Nessa década, foram instituídos os seguintes programas e propostas: o Programa de Avaliação da Reforma Universitária – PARU, em 1983; o relatório da Comissão de Notáveis, em 1985; a proposta de avaliação no anteprojeto do Grupo Executivo da Reforma da Educação Superior – Geres, em 1986. Essa situação começou a mudar após a Constituição Federal de 1988, que, em seu artigo 209, estabeleceu ser a Educação livre à iniciativa privada, com a condição de se submeter ao cumprimento das normas gerais da Educação Nacional: a autorização e a avaliação da qualidade pelo poder público. Em 1993, foi criado o Programa de Avaliação Institucional das Universidades Brasileiras – Paiub. Financiado pelo MEC, era uma reação ao quantitativismo, tendo como cunho o voluntariado, a autorregulação, a autoavaliação e a participação dos integrantes da instituição avaliada. Utilizado por poucas universidades, deu lugar, em 1997, ao Exame Nacional de Cursos – ENC (Provão), instrumento de avaliação privilegiado por grande destaque na divulgação oficial. Foram delineadas comissões de especialistas para a avaliação de cursos de graduação e a aplicação de testes padronizados aos concluintes. Atribuiu-se ao MEC a avaliação periódica dos cursos, submetendo o seu recredenciamento aos resultados do Provão e da Avaliação das Condições de Ensino. Apesar de estar prevista punição quando esses resultados fossem negativos, na prática ela não aconteceu. Após a promulgação da Lei no 9.394/1996, que, em seu artigo 46, já citado, estabeleceu ser temporário o credenciamento institucional, os atos de credenciamento passaram a fixar prazos de validade da credenciação. Esse sistema vem sendo empregado para as instituições novas ou para aquelas que se transformaram em universidades ou centros universitários desde 1996. A partir de 2002, foram implementados processos de avaliação institucional, para efeito de recredenciamento de centros universitários, que, posteriormente, deverão atingir as universidades e as instituições não universitárias de Educação Superior. No dia 15 de dezembro de 2003, foi editada a Medida Provisória – MP, no 147/2003, estabelecendo que o ensino, a aprendizagem, a capacidade institucional e a responsabilidade social seriam os quatro aspectos que comporiam a avaliação do sistema. Estabeleceu, ainda, para implantá-la, a formação de duas comissões ministeriais: uma executiva e outra deliberativa. Essa MP fortaleceu o MEC e o INEP como os principais agentes da avaliação, mas deixou uma lacuna em relação a pontos importantes, como a avaliação da pós-graduação e a definição de quem seria responsável pela divulgação dos resultados. Teve como destaque o seu artigo 11, que determinou que o resultado da avaliação fosse indicado nos níveis satisfatório, regular e insatisfatório. No início de 2004, foi aprovada, no Congresso Nacional, a Lei nº 10.861, alterando totalmente o conteúdo da MP no 147/2003. Sancionada pelo Presidente da República, em 14 de abril de 2004, foi, posteriormente, regulamentada pela Portaria do MEC no 2.051, de 9 de julho de 2004. UNIDADE I | Educação SupErior: da concEpção à atualidadE 35 A referida Lei instituiu o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior – Sinaes e deu outras providências: Art. 1o Fica instituído o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior – Sinaes, com o objetivo de assegurar o processo nacional de avaliação das instituições de Educação Superior, dos cursos de graduação e do desempenho acadêmico de seus estudantes, nos termos do art 9º, VI, VIII e IX, da Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996.§ 1o O Sinaes tem por finalidades a melhoria da qualidade da Educação Superior, a orientação da expansão da sua oferta, o aumento permanente da sua eficácia institucional e de sua efetividade acadêmica e social e, especialmente, a promoção do aprofundamento dos compromissos e das responsabilidades sociais das instituições de Educação Superior, por meio da valorização de sua missão pública, da promoção dos valores democráticos, do respeito à diferença e à diversidade, da afirmação da autonomia e da identidade institucional. § 2o O Sinaes será desenvolvido em cooperação com os sistemas de ensino dos Estados e do Distrito Federal. Art. 2o O Sinaes, ao promover a avaliação de instituições, de cursos e de desempenho dos estudantes, deverá assegurar: I – avaliação institucional, interna e externa, contemplando a análise global e integrada das dimensões, das estruturas, das relações, do compromisso social, das atividades, das finalidades e das responsabilidades sociais das instituições de Educação Superior e de seus cursos; II – o caráter público de todos os procedimentos, dados e resultados dos processos avaliativos; III – o respeito à identidade e à diversidade de instituições e de cursos; IV – a participação do corpo discente, docente e técnico-administrativo das instituições de Educação Superior, e da sociedade civil, por meio de suas representações. Parágrafo único. Os resultados da avaliação referida no caput deste artigo constituirão referencial básico dos processos de regulação e supervisão da Educação Superior, neles compreendidos o credenciamento e a renovação de credenciamento de instituições de Educação Superior, a autorização, o reconhecimento e a renovação de reconhecimento de cursos de graduação. Art. 3o A avaliação das instituições de Educação Superior terá por objetivo identificar o seu perfil e o significado de sua atuação, por meio de suas atividades, de seus cursos, de seus programas, de seus projetos e de seus setores, considerando as diferentes dimensões institucionais, entre elas, obrigatoriamente, as seguintes: V – a missão e o plano de desenvolvimento institucional; VI – a política para o ensino, a pesquisa, a pós-graduação, a extensão e as respectivas formas de operacionalização, incluídos os procedimentos para estímulo à produção acadêmica, as bolsas de pesquisa, de monitoria e demais modalidades; Educação SupErior: da concEpção à atualidadE | UNIDADE I 36 VII – a responsabilidade social da instituição, considerada especialmente no que se refere à sua contribuição em relação à inclusão social, ao desenvolvimento econômico e social, à defesa do meio ambiente, da memória cultural, da produção artística e do patrimônio cultural; VIII – a comunicação com a sociedade; IX – as políticas de pessoal, as carreiras do corpo docente e do corpo técnico- administrativo, seu aperfeiçoamento, desenvolvimento profissional e suas condições de trabalho; X – a organização e a gestão da instituição, especialmente o funcionamento e a representatividade dos colegiados, sua independência e autonomia na relação com a mantenedora, e a participação dos segmentos da comunidade universitária nos processos decisórios; XI – a infraestrutura física, especialmente a de ensino e de pesquisa, bibli oteca, recursos de informação e de comunicação; XII – o planejamento e a avaliação, especialmente os processos, os resultados e a eficácia da autoavaliação institucional; XIII – as políticas de atendimento aos estudantes; XIV – a sustentabilidade financeira, tendo em vista o significado social da continuidade dos compromissos na oferta da Educação Superior. [...] Para finalizar, reflita sobre a afirmação abaixo e, em seguida, elabore um texto que trate das vantagens e das desvantagens da ampliação da Educação Superior no país. Com a nova LDB, houve um aumento exagerado no número de instituições de Educação Superior no Brasil, o que pode contribuir para a democratização do Ensino Superior, mas, ao mesmo tempo, pode banalizar esse nível de ensino MEC/INEP/CNE Legislação da Educação Superior. Disponível em: <www.mec.gov.br>. UNIDADE I | Educação SupErior: da concEpção à atualidadE 37 CAPíTUlO 5 Saberes necessários para a Educação no Século XXi Você deve estar percebendo as mudanças na sociedade, que têm proporcionado à população vivenciar novas maneiras de acesso a conhecimentos, fundamentados em estudos disponibilizados nas diferenciadas redes de informações. A diversificação desses assuntos tem contribuído para a transformação da visão de mundo de pessoas que se interessam em compreender a realidade, bem como a trajetória histórica das concepções de mundo. Essa massificação de informações – ao disponibilizar saberes e saber-fazer, dentro da concepção pós- crítica, adequada à civilização cognitiva – fundamenta as bases das competências do futuro, de modo a aproveitar e explorar, ao longo da vida, as oportunidades de atualização, de aprofundamento, de enriquecimento de conhecimentos e de adaptação ao mundo em constante mudança. (DELORS, 2001) » Como você tem vivenciado essas mudanças em sua prática profissional? Antes de continuarmos nossas reflexões sobre as concepções de educação contemporânea, vamos buscar compreender, mais especificamente, o significado da noção de competências. Para Perrenoud (1999, apud RAMOS, 2008, p. 39), a competência profissional “implica a capacidade de mobilizar múltiplos recursos – entre os quais os conhecimentos teóricos e práticos da vida profissional e pessoal, para responder às diferentes demandas colocadas pelo exercício da profissão”. Para reforçar o entendimento do que vem a ser competência, Canabrava e Vieira (2006, p. 69) afirmam que: Competência é a capacidade do profissional de agregar conhecimentos, habilidades e atitudes, construídos resultados significativos, com qualidade e no prazo adequado, em que um grupo coeso, unido, uma equipe se esforça para alcançar os objetivos organizacionais. O profissional competente sabe o que fazer, como fazer, quando fazer e por que fazer. Agora que já conhecemos a origem e o significado da noção de competência, convidamos você a refletir sobre a seguinte questão: » Em quais ações você se considera mais competente no campo profissional? 38 Continuando as nossas reflexões acerca das mudanças na atualidade sobre saberes e saber-fazer dentro da concepção pós-crítica, consideramos importante recorrer ao Relatório Delors1, em que foram discutidos e definidos os quatro pilares da Educação. A proposta dos membros dos países signatários, países que assinaram o relatório e que participaram da Comissão Mundial sobre Educação, foi a de enfrentar os desafios para o século XXI e indicar novos objetivos direcionados à Educação. Propuseram, mais especificamente, “disponibilizar uma nova concepção sobre Educação, capaz de fazer com que todos pudessem descobrir, reanimar e fortalecer o seu potencial criativo – revelar o tesouro escondido em cada um de nós” (DELORS, 2001, p. 90). Deste modo, a visão de Educação ultrapassaria o sentido puramente instrumental e chegaria a sua plenitude, ao desenvolver a realização pessoal do indivíduo. Ao compilar os resultados das propostas de novos objetivos para a Educação, a Comissão compreendeu que ela deve estar organizada em quatro aprendizagens fundamentais denominadas os quatro pilares da Educação: “aprender a conhecer – isto é, adquirir os instrumentos da compreensão; aprender a fazer – para poder agir sobre o meio envolvente; aprender a viver junto – a fim de participar e de cooperar com os outros em todas as atividades humanas; e aprender a ser – via essencial que integra as três precedentes.” (DELORS, 2001, p. 90) Considerando a concepção de aprender a conhecer, primeiro pilar proposto, a aprendizagem do conhecimento é contínua, multifacetadae inacabada, visto que pode ser enriquecida à medida que interagimos com o mundo que nos cerca. A Comissão defende a concepção de que esse mundo é compreendido a partir do aumento de saberes que ampliam o nosso campo de conhecimento. Com isso, possibilita-se o desenvolvimento da capacidade de discernir, decorrente da autonomia para visualizar ambientes sob diferenciados aspectos, bem como o despertar da curiosidade intelectual, entre outros aspectos que permitem ao indivíduo compreender o real. Em sentido mais amplo, aprender a conhecer pode significar aprender a aprender, de modo a exercitar a atenção, a memória e o pensamento. A aprendizagem direcionada para esse foco está relacionada aos processos cognitivos por excelência. Ao despertar no aprendiz esse processo, pode-se desenvolver, também, a vontade de aprender, de modo a querer sempre saber mais e melhor. Para tanto, os educadores deverão ser competentes e sensíveis às necessidades, às dificuldades e à diversidade dos aprendizes, apresentando metodologias que proporcionem o desejo de conhecer, a capacidade de aprender a aprender e respeitando as estratégias, os ritmos e os estilos de aprendizagem de cada educando, de modo que possam construir suas próprias opiniões e seu pensamento crítico. Outro aspecto importante proposto pela Comissão para aprender a conhecer refere-se ao desenvolvimento da pesquisa científica como fonte de conhecimento. A combinação dos dois métodos científicos antagônicos – dedutivo e indutivo – aplicada aos processos relacionados à aprendizagem ao longo da vida pode ser pertinente ao conhecimento, na medida em que se observa que, na maior parte das vezes, ambos são necessários à organização do pensamento. 1 Relatório entregue à Unesco – Organização das Nações Unidas, para a Educação, a Ciências e a Cultura, elaborado na Conferência Mundial de Educação para o Século XXI, ocorrida em Jomtien, na Tailândia, em 1990, coordenada por Jacques Delors (2001). UNIDADE I | Educação SupErior: da concEpção à atualidadE 39 Ao iniciarmos o estudo do segundo pilar da Educação, o aprender a fazer, cabe uma reflexão. » O aprender a conhecer pode estar dissociado do aprender a fazer? É importante refletir sobre a questão anterior e elaborar uma síntese pessoal a esse respeito. Pense em um profissional que irá mediar saberes sobre determinado assunto e que não tenha conhecimento teórico que fundamente a sua ação docente. Imagine como seria essa aprendizagem. Partindo do pressuposto de que o aprender a fazer está intimamente ligado ao aprender a conhecer, vamos retornar ao relatório elaborado pela Comissão Mundial de Educação e identificar qual foi a linha de pensamento que embasou tal pilar. A referida Comissão distingue, no relatório, “as economias industriais, em que domina o trabalho assalariado, das outras economias, em que domina, ainda em grande escala, o trabalho independente ou informal” (DELORS, 2001, p. 93). A Revolução Industrial do século XX substituiu o trabalho humano por máquinas e provocou a necessidade de se desenvolver tarefas repetitivas para se atuar nas fábricas. Entretanto, a aprender a fazer não pode ser direcionado para práticas rotineiras que impossibilitem as pessoas de refletir sobre sua ação. As mudanças no campo profissional decorrentes de progresso técnico e tecnológico modificam as exigências de qualificação, em todos os níveis, pela busca do compromisso pessoal do trabalhador. Para atender a essas exigências, esse profissional deve ter competências “que se apresentam como uma espécie de coquetel individual, combinando a qualificação, em sentido estrito, adquirida pela formação técnica e profissional, o comportamento social, a aptidão para o trabalho em equipe, a capacidade de iniciativa, o gosto pelo risco”. (DELORS, 2001, p. 94) Agora, pense um pouco sobre a seguinte questão. » Como contribuir para aprender a viver junto com outras pessoas? Ao refletir sobre a questão posta anteriormente, torna-se fundamental pensar inicialmente em como o ensino e a aprendizagem influenciam no terceiro pilar, aprender a viver junto. A Comissão Mundial de Educação destacou que, na história da humanidade, sempre houve conflitos violentos, mais fortalecidos na atualidade em virtude do potencial de destruição evidenciado no século XX. As tentativas de ensinar a não violência nos espaços educativos foram consideradas uma maneira positiva de se lutar contra preconceitos que geram conflitos. Entretanto, do ponto de vista macro, as atividades econômicas desenvolvidas no interior de cada país, caracterizadas pelo clima de concorrência, reforçam a competição e, consequentemente, o sucesso individual, bem como as desigualdades sociais, que “dividem as nações do mundo e exarcebam as rivalidades históricas”. Educação SupErior: da concEpção à atualidadE | UNIDADE I 40 O que fazer para melhorar a situação? Parece, pois, que a Educação deve utilizar duas vias complementares. Num primeiro nível, a descoberta progressiva do outro. Num segundo nível e ao longo de toda a vida, a participação em projetos comuns, que parece ser um método eficaz para evitar ou resolver conflitos latentes. (DELORS, 2001, p. 97) Nessa perspectiva, a Educação deve aproveitar todas as possibilidades para que a aprendizagem ocorra a partir das descobertas de si, com e para o outro, iniciando pela família, perpassando a escola, a comunidade e os espaços educativos, de modo que crianças, adolescentes, adultos e pessoas da terceira idade desenvolvam atitudes de empatia, especialmente entre as pessoas com as quais convive, o que contribuirá, sobremaneira, para “comportamentos sociais ao longo de toda a vida”. (DELORS, 2001, p. 98) Portanto, quando tende a atingir objetivos comuns, o trabalho em conjunto minimiza as diferenças, que podem até desaparecer em alguns casos. O terceiro pilar reforça o propósito de aprender a conviver, como forma de minimizar conflitos no processo de aprendizagem e na convivência com os outros. Ao refletir sobre a afirmativa anterior, levantamos o seguinte questionamento. » Antes de aprender a conviver não temos de aprender a ser? Ao iniciar as discussões na Conferência Mundial de Educação, a Comissão de países signatários foi contundente no sentido de reafirmar que a “Educação deve contribuir para o desenvolvimento total da pessoa – espírito e corpo, inteligência, sensibilidade, sentido estético, responsabilidade pessoal, espiritualidade”. (DELORS, 2001, p. 99) Os membros participantes da Conferência consideraram que todo ser humano deve ser preparado, desde a juventude, para o desenvolvimento de pensamentos autônomos e críticos, para a formulação de juízos de valor, de modo a poder tomar decisões nas diferenciadas situações do cotidiano. Mencionaram, como preocupação para este século, a necessidade de fornecer às pessoas forças e referências intelectuais que permitam a elas compreender o mundo e comportar-se nele, como atores responsáveis e justos, ou seja, aprender a ser, o quarto pilar da Educação. Afirmaram, ainda, que o ser deve ter “liberdade de pensamento, discernimento, sentimentos e imaginação, para desenvolver seus talentos e permanecer, tanto quanto possível, dono do seu próprio destino”. (DELORS, 2001, p. 100) Deste modo, a Comissão postulou: O desenvolvimento tem por objeto a realização completa do homem, em toda a sua riqueza e na complexidade das suas expressões e dos seus compromissos: indivíduo, membro de uma família e de uma coletividade, cidadão, produto, inventor de técnicas e criador de sonhos. (DELORS, 2001, p. 101) UNIDADE I | Educação SupErior: da concEpção à atualidadE 41 Na perspectiva dos quatro pilares da Educação, a completude do ser humano ao longo do ciclo de vida apoia-se em um processo dialético, que parte do conhecimento de si e atinge a relação com o outro, a partir deuma construção social interativa. Portanto, o desenvolvimento dá-se em todo momento e em todos os lugares, de maneira multifuncional, complementar e multifacetada. pistas e recomendações » A Educação ao longo de toda a vida baseia-se em quatro pilares: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver junto, aprender a ser. » Aprender a conhecer, combinando uma cultura geral, suficientemente vasta, com a possibilidade de trabalhar em profundidade um pequeno número de matérias. Também significa: aprender a aprender, para beneficiar-se das oportunidades oferecidas pela Educação ao longo de toda a vida. » Aprender a fazer, adquirindo não somente uma qualificação profissional, mas, de uma maneira mais ampla, competências que o tornem apto a enfrentar numerosas situações e a trabalhar em equipe. Aprender a fazer, também, no âmbito das diversas experiências sociais ou de trabalho que se oferecem às pessoas, quer espontaneamente, fruto do contexto local ou nacional, quer formalmente, graças ao desenvolvimento do ensino alternado com o trabalho. » Aprender a viver junto, desenvolvendo a compreensão do outro e a percepção das interdependências – realizar projetos comuns e preparar-se para gerir conflitos – e respeitando os valores do pluralismo, da compreensão mútua e da paz. » Aprender a ser, para melhor desenvolver a personalidade e estar à altura de agir com cada vez maior capacidade de autonomia, de discernimento e de responsabilidade pessoal. Para isso, não negligenciar na Educação qualquer das potencialidades de cada indivíduo: memória, raciocínio, sentido estético, capacidades físicas, aptidão para comunicar-se. » Numa altura em que os sistemas educativos formais tendem a privilegiar o acesso ao conhecimento, em detrimento de outras formas de aprendizagem, importa conceber a Educação como um todo. Essa perspectiva deve, no futuro, inspirar e orientar as reformas educativas, tanto no que diz respeito à elaboração de programas quanto à definição de novas políticas pedagógicas. Fonte: Delors (2001, p. 101–102) Como vimos, os membros da Comissão pensaram em uma Educação que proporcione ao ser humano o desenvolvimento na sua integralidade. » Como podemos vivenciar as mudanças na concepção de Educação no ambiente universitário? Educação SupErior: da concEpção à atualidadE | UNIDADE I 42 É importante retornar à história da Educação para compreender o contexto no qual a escola está inserida e, consequentemente, as mudanças propostas no relatório da Unesco. A escola surgiu no século XVIII, na Inglaterra, no contexto da Revolução Industrial, dentro da complexidade de um mundo voltado para o trabalho repetitivo. Naquele contexto, para minimizar o tempo e aumentar os lucros, foi criado um sistema educacional que reunisse, em um mesmo espaço, massas de estudantes coordenadas por professores. Assim, o aprendizado foi hierarquizado em séries, de modo que todos os estudantes aprendessem as mesmas coisas, ao mesmo tempo, desconsiderando-se a individualidade e as diferenças dos alunos no que se refere aos ritmos, às estratégias e aos estilos de aprendizagem. Essa padronização de conteúdos e de metodologias de ensino, com carteiras enfileiradas em lugares predeterminados, ocorria com horários rígidos de início e fim dos momentos de estudo. » Será que estamos falando sobre a realidade educacional vivenciada no século XVIII ou no século atual? Como podemos observar, as mudanças na Educação ainda são incipientes, considerando que reaplicamos aquilo que nos parece familiar e o que, comumente, não exige de nós o confronto com novas situações cotidianas, inclusive no Ensino Superior, com o trabalho docente direcionado para pessoas na idade adulta. Mais uma breve reflexão. As concepções de Educação diversificaram-se ao longo da história da humanidade. Algumas ações dos educadores ainda persistem com o tempo. Entretanto, atualmente, vivenciamos a concepção pós-crítica. Neste contexto, qual seria o objetivo do trabalho docente: a Educação ou a instrução? No próximo tópico, abordaremos a relação educação x instrução, com o intuito de refletir sobre o trabalho docente e as possibilidades de mudanças no ambiente educativo. Lembre-se de que a proposta dos quatro pilares da Educação é decorrente de discussões que buscam ampliar as possibilidades de transformação de um ensino instrucional em uma Educação que busque o desenvolvimento integral de seus educandos. Para saber mais sobre os quatro pilares da Educação, sugerimos a leitura da obra: DELORS, Jacques (Org). Educação: um Tesouro a Descobrir. 6. ed. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2001. educação x instrução Antes de iniciar os estudos sobre a relação entre Educação e instrução, é fundamental compreender que há diversos conceitos de Educação, o que conduz a uma reflexão mais abrangente sobre esse fenômeno. Neste sentido, Delors (2001) menciona que a Educação não pode ser reduzida ao acúmulo de conhecimentos, UNIDADE I | Educação SupErior: da concEpção à atualidadE 43 para o desenvolvimento de projetos individuais e coletivos. Afirma que “... é, antes, necessário estar à altura de aproveitar e explorar, do começo ao fim da vida, todas as ocasiões de atualizar, aprofundar e enriquecer os primeiros conhecimentos e de se adaptar a um mundo em mudança”. » Você concorda com a afirmativa de Delors? Por quê? Voltemos ao contexto histórico em que os estudos foram direcionados à produção, para atender ao mundo capitalista. Trata-se do período pré-industrial, em que o clero era responsável pela Educação, não havendo previsão de Educação escolar para os filhos de trabalhadores. Entretanto, com a expansão do capitalismo e, consequentemente, do comércio e da indústria, tornou-se necessário preparar indivíduos que sustentassem o sistema econômico com mão de obra qualificada. A instrução, naquele contexto, passou a ser sinônimo de Educação. Demo (1994) ressalta que a habilidade obtida em processos direcionados apenas ao ensino e à aprendizagem mecânica pode ser configurada como uma cópia ou imitação. Acrescenta que os mestres desempenham o papel de executores de planos e projetos elaborados por outrem e, nesse contexto, o aluno é considerado “treinado”, ou seja, trabalhador capaz de realizar tarefas repetitivas com perfeição, visto que utiliza o reflexo condicionado. Contudo, as mudanças que ocorreram na sociedade nos últimos séculos trouxeram uma nova concepção de Educação. Gómez (1998) ajuda a reforçar a distinção entre instrução e Educação, quando afirma que a segunda trata de um processo para além da transmissão e da troca de conhecimentos, evidenciadas nas interações que ocorrem no ambiente escolar. Afirma que os conteúdos abordados oficialmente nos currículos comumente são destinados às avaliações escolares, direcionadas à identificação de indicadores de desempenho dos alunos, e podem ser rapidamente esquecidos. Embora determinada socialmente, a universidade pode contribuir para que o aluno construa sua autonomia como aprendiz e se prepare para atender ao mundo acadêmico e do trabalho. » Existem diferenças entre os termos educar, ensinar, instruir e treinar? Quais? Para fundamentar a distinção entre educar, ensinar, instruir e treinar, recorremos ao dicionário (FERREIRA, 1989) e encontramos as seguintes definições. » Educar v. t. e p. Promover a educação de (alguém) ou sua própria educação; instruir (se), educador (o) adj. e sm. (p. 185). » Ensinar v. t. 1. Ministrar o ensino de; lecionar. 2. Transmitir conhecimento a; instruir. 3. Treinar. 4. Castigar. Int. 5. V. Lecionar (2) (p. 199). » Instruir v. t. 1. Transmitir conhecimento a; ensinar. 2. Adestrar, habilitar. 3. Esclarecer, informar. 4. Adquirir conhecimento (p. 290). Educação SupErior: da concEpção à atualidadE | UNIDADE I 44 » Treinar v.t. 1. Tornar apto para determinada tarefa ou atividade; adestrar. Int. 2. Exercitar-se para jogos desportivos ou para outros fins. [Var.: trenar] treinamento sm. (p. 508). Ao observar a semântica dessas quatro palavras, consideramos que há entre elas aproximações, quanto aos fins, às especificidades e aos sentidos. Em uma concepção de formação “do professor como intelectual crítico, como profissional reflexivo, pesquisador e elaborador de conhecimentos, como participante qualificado na organização e na gestão da escola” (LIBÂNEO, 2003, p. 66), entendemos o papel fundamental da formação continuada desse profissional, com vistas a subsidiar a reflexão sobre prática docente. Foi nessa perspectiva que surgiu a Lei de Diretrizes e Bases, Lei nº. 9.394, de 20 de dezembro de 1996, como forma de superar a ruptura entre a formação do professor e a do aluno, focando na adequação de práticas pedagógicas voltadas à construção de competências e habilidades. Em um sentido mais amplo, a formação continuada de profissionais da Educação que atuam em diferenciadas áreas do conhecimento também integra estudos sobre currículos, de modo que suas práticas pedagógicas estejam em consonância com a construção de competências e habilidades. GIL, Antonio Carlos. Metodologia do Ensino Superior. São Paulo: Atlas, 2008. Antes de continuar, faça uma breve reflexão. Após os estudos, como você descreveria a distinção entre Instrução e Educação? Dentro desse contexto de constantes mudanças nas práticas pedagógicas, como podemos conceber o currículo na Educação contemporânea? UNIDADE I | Educação SupErior: da concEpção à atualidadE atuaÇÃo pedaGóGiCa no ensino superior UNIDADE II 47 CAPíTUlO 6 prática docente no Ensino Superior [...] a aprendizagem significativa não repousa nas habilidades de ensino do líder, nem no conhecimento erudito do assunto, nem no planejamento curricular, nem na utilização de auxílios audiovisuais, nem na aprendizagem programada que é utilizada, nem nas palestras e apresentações e nem na abundância de livros, embora qualquer um dos meios acima possa, numa ocasião ou noutra, ser utilizado como recurso de importância. Não, a facilitação da aprendizagem significativa repousa em certas qualidades de atitude que existem no relacionamento pessoal entre o facilitador e o estudante. (ROGERS, 1986, p. 127) A Educação Superior tem sofrido uma série de críticas e, por isso, necessita de avaliações constantes. Um dos argumentos refere-se à falta de qualidade, pois, a cada dia, as dificuldades enfrentadas pelos profissionais formados têm aumentado. As habilidades exigidas aos profissionais no mercado hoje têm feito com que os professores da educação superior repensem sua prática. » Você acha que a atuação do professor da Educação Superior deve ser diferente da do professor da Educação Básica? » Quais seriam os atributos próprios do professor da Educação Superior? O professor da Educação Superior deve estar em constante atualização, mobilizando múltiplos recursos, para ter competência profissional e responder às diferentes exigências provenientes do exercício da profissão. Para tanto, sua formação continuada é primordial, pois dela depende a própria validade do que ele ensina. É bastante valorizado o professor que não se limita, apenas, a “dar aulas”, mas que também contribui para a produção de conhecimento, colaborando para o desenvolvimento do graduando. Levando-se em conta o aprender a conhecer, sua aprendizagem deve ser contínua, multifacetada e inacabada. O perfil dos profissionais da Educação Superior na atualidade exige determinadas habilidades e competências próprias para a Educação de adultos, que, diferentemente das concepções de aprendizagem de crianças e adolescentes, visam à autonomia de pesquisa e à preparação para o trabalho. É importante que o professor goste de ensinar. Assim, ele será cúmplice do processo de aprendizagem. O professor universitário precisa ensinar a aprender, sobretudo, porque a universidade é um local de pesquisa e de produção de conhecimento. Ele deverá ser sensível às necessidades, às dificuldades e 48 às diversidades de seus alunos. As metodologias utilizadas devem propiciar a vontade de conhecer, a capacidade de aprender a aprender. No processo de ensino-aprendizagem, o professor deve estar preparado para ajudar a construir a ponte entre o que o aluno precisa saber e o que realmente sabe. É um processo andragógico, um caminho educacional para incentivar a aprendizagem pela experiência, que conduz à modificação do conteúdo, estimulando a assimilação. O professor é, portanto, o mediador de conhecimentos, fazendo com que o aluno possa aprender a ser, construindo seu próprio pensamento, suas próprias opiniões, conforme propõe a Comissão Mundial de Educação. O professor universitário precisa estar bastante sintonizado não só com o que o aluno sabe, mas com todas as necessidades, os anseios, as crenças, os sonhos e os medos da sociedade em que se insere o aluno adulto. O Ensino Superior tem, prioritariamente, a função de preparar profissionais para os mais diversos setores. O modelo universitário reproduz os mecanismos do sistema nos aspectos sociais, econômicos, políticos e culturais, além de, geralmente, apresentar-se por meio de uma pedagogia tradicional. Hoje em dia, não podemos mais ignorar os estudos que a andragogia tem nos mostrado. Andragogia vem do grego andra = aner andros (homem) + gogia = ago (fazer, iniciar, educar e construir). Logo, a andragogia tem o significado de construção do homem. A pedagogia (paidagogia), na Grécia, era função do paidagogo, aquele que conduzia (agogôs, derivado do verbo agein) as crianças (páides). Assim, na Educação Superior, a ciência da Educação do homem deve se chamar andragogia e não mais pedagogia, pois seu objetivo não é somente a formação da criança e do adolescente, mas do homem durante toda sua vida. Eduard C. Lindeman (apud ROMUALDO, 2002) é um dos maiores estudiosos do tema e afirma que a Educação do adulto deveria se dar por meio de situações e não por disciplinas. Na educação de adultos, o currículo deve ser constituído em função da necessidade do estudante. A fonte de maior valor na educação de adultos é a experiência do aprendiz. Se a Educação é vida, vida é Educação; portanto, a aprendizagem consiste na substituição da experiência e do conhecimento da pessoa. Na classe do estudante adulto, a experiência tem o mesmo peso que o conhecimento do professor. Ambos são compartilhados par a par, e é difícil distinguir quem aprende mais: se o professor ou o estudante. Essas ideias são compatíveis com as de Paulo Freire, que, ao justificar a alfabetização de adultos, afirma que “ninguém ensina ninguém e ninguém aprende sozinho”. Ensinar é um processo árduo em qualquer aprendizagem sistematizada; portanto, é necessário que o professor, um dos agentes desse processo, tenha determinadas habilidades e competências para o desempenho de um bom trabalho em sala de aula. O docente da Educação Superior deve se caracterizar como um especialista no seu campo de conhecimentos. Seu papel é o de facilitar, ajudar o aluno a aprender; não é o de transmitir informações, mas o de criar condições para que o aluno adquira saberes. Portanto, ensinar é instruir, fazer saber, comunicar conhecimentos ou habilidades, atendendo ao proposto pela Comissão Mundial de Educação quanto a “aprender a fazer”. UNIDADE II | atuação pedagógica no ensino superior 49 Adotaremos, aqui, os conceitos de habilidades, como o conjunto de comportamentos do professor, no que se refere ao plano do “saber fazer” e às competências, como sendo os agrupamentos de conhecimentos, habilidades e atitudes correlacionadas, ou seja, a aplicação das habilidades adquiridas em situações diversas. Partindo dessas definições, de acordo com PhelippePerrenoud (2000), para um bom desempenho do trabalho docente é preciso que o professor desenvolva certas habilidades que são consideradas de fundamental importância para a atuação docente. Entre elas podemos citar: » Habilidade de organizar o contexto: o professor estimula o aluno no que diz respeito a comportamentos de ensino, oportunizando condições viáveis para que ele desenvolva uma atitude de aprendizagem. » Habilidade de variar a situação estímulo: são as maneiras que o professor utiliza para despertar o interesse, ou seja, estimular o aluno. Podem ser utilizados gestos, formulações verbais, pausas, entre outros. Depende da criatividade do professor para chamar a atenção e estimular o aluno: » Habilidade de ilustrar com exemplos: o professor deve utilizar exemplos indutivos e dedutivos ligados à realidade do aluno, para facilitar a compreensão de conceitos e melhorar a qualidade da aprendizagem. » Habilidade de formular perguntas: tem como objetivo envolver e estimular o aluno na aula. Devem ser elaboradas desde as mais simples às mais complexas perguntas, para provocar o pensamento do aluno. » Habilidade de conduzir ao fechamento e atingi-lo: deve ser feita uma análise ao término da aula, para constatação da aprendizagem, correlacionando, por meio de verbalização, conhecimentos anteriores a conhecimentos adquiridos, o que, também, irá dinamizar a aula. » Habilidade de empregar reforços: o professor tem como compromisso reforçar o comportamento de ensino destinado a estimular o aluno no alcance de aprendizagens bem-sucedidas. » Habilidade de propiciar feedback: está intrinsecamente ligada à avaliação formativa, às técnicas e aos procedimentos específicos de verificar o nível de aprendizado do aluno. Como se pode observar, as habilidades mencionadas são relacionadas ao docente. No entanto, é preciso ressalvar que o ensino, como processo, também deve desenvolver habilidades que possibilitem a realização das atividades educacionais. Entre as diversas habilidades de ensino, podem ser destacadas: » habilidade de olhar para os alunos: o professor deve desenvolver a habilidade de perceber as necessidades do aluno; a habilidade de perceber se está sendo compreendido; a habilidade de perceber se existe interesse dos alunos e se está sendo correspondido em sua exposição; atuação pedagógica no ensino superior| UNIDADE II 50 » habilidade de introdução: é a maneira como o professor começa a aula ou inicia uma unidade didática. Nesse momento, ele deve ganhar a atenção do aluno e motivá-lo para o conteúdo que pretende ensinar. Todas essas habilidades exploradas por Perrenoud são fundamentais para que o processo de ensino- aprendizagem transcorra com sucesso. No entanto, nesse contexto, o aluno não pode ser esquecido, pois deve ser, constantemente, motivado a aprender. Por isso, o docente deve possuir habilidades específicas que atendam a essa necessidade do aluno. Quanto maior a variedade de estímulos, maior a atenção do aluno. Assim, de todas as habilidades citadas, o professor deve adequar sua prática de ensino à realidade com a qual esteja trabalhando, ou seja, deve ter competência para desenvolver habilidades específicas, de acordo com as necessidades dos alunos e da disciplina ministrada. Pense em um professor que o deixou encantado pelo conhecimento e relacione quais dessas habilidades estavam presentes na ação dele. Em sua totalidade, as habilidades do professor tornam-se a mola propulsora do ensino, sendo verdadeiras competências. Segundo Perrenoud (2000), é necessário domínio de competências para ensinar, enfatizando que cada competência é reconhecida como prioritária na formação do professor, focalizando-o como um ser reflexivo, capaz de desempenhar o seu papel sob as novas situações de aprendizagem. Portanto, o educador tem a “obrigação” de saber fazer da melhor maneira, pois a ele compete ensinar, ou seja, transmitir seus conhecimentos de forma clara e objetiva, para que a aprendizagem do aluno seja concreta e fundamentada. Assim sendo, entendemos o professor da Educação Superior como aquele que deve assumir uma postura reflexiva, com real capacidade de observação e inovação. É necessário que o professor desempenhe seu papel, buscando formar cidadãos críticos e conscientes, visando ao saber fazer bem. Dos professores da Educação Superior são requeridos conhecimentos e habilidades como saber pensar e escutar, saber lidar com a autoridade e com as tecnologias, ter iniciativa para resolver problemas, ter capacidade para tomar decisões, ter criatividade, autonomia e responsabilidade social. O professor é um educador com competência teórica, técnica e política, responsável pelo planejamento e pela organização no âmbito acadêmico. Para tanto, é necessário que conheça com profundidade a disciplina ministrada, sendo esse um fator importante para que possa ressaltar os seus aspectos fundamentais. O docente precisa dispor, também, de conhecimentos e habilidades pedagógicos, que podem ser obtidos e aperfeiçoados por meio de leituras e de cursos específicos. Além de ser especialista em determinada área, precisa possuir cultura geral essencial, pois as áreas do conhecimento se inter-relacionam. De acordo com as atuais diretrizes curriculares para os cursos de graduação, percebe-se que se faz necessária uma formação generalista sólida, com possibilidades de opção por aprofundamento em campos do saber educacional. Assim, a formação do docente para a Educação Superior não se esgota na graduação ou em uma especialização. É de responsabilidade do professor investir em uma Educação continuada, para assegurar as atualizações e os aperfeiçoamentos que se façam necessários. UNIDADE II | atuação pedagógica no ensino superior 51 O professor que se propõe a trabalhar com Educação Superior deve se preocupar com a constante construção do conhecimento do indivíduo, por saber que está trabalhando disciplinas necessárias, e que, por meio delas, é possível construir um campo reflexivo focalizado no ato educativo, devendo, assim, preparar os alunos para maiores possibilidades de sucesso na continuação de seus estudos. Dessa forma, eles poderão perceber o poder do instrumento curricular no seu cotidiano, sendo necessário, para isso, um bom relacionamento entre professor/aluno, atendendo ao que preconiza a Comissão Mundial de Educação sobre o terceiro pilar – aprender a viver junto. De acordo com o Parecer no 776/1997 do Conselho Nacional de Educação e o Edital no 4/1997do SESU/ MEC, as diretrizes curriculares devem: ser orientações para a elaboração dos currículos; assegurar às IES ampla liberdade na composição da carga horária a ser cumprida; apontar, apenas, indicações de tópicos ou campos de estudo e de demais experiências de ensino-aprendizagem, evitando ao máximo a fixação de conteúdos específicos, com cargas horárias predeterminadas; diminuir a duração dos cursos; incentivar uma sólida formação geral, permitindo variados tipos de formação e habilitações diferentes em um mesmo programa (flexibilidade). Pode-se verificar que, quando esse relacionamento é autoritário, o professor exerce controle firme e centralizado, dirige as ações dos alunos, faz o planejamento da aula, decide as direções a serem tomadas, diz aos alunos o que pensar e o que fazer. Nesse tipo de relação, os alunos são recebedores passivos da instrução. Contrariamente à relação autoritária, o professor deve explorar seu conhecimento pedagógico e suas habilidades e desenvolver competências, para obtenção de êxito no processo de ensino-aprendizagem. Deve procurar descobrir os talentos, estimular seu próprio progresso e tornar conhecidas as potencialidades dos alunos, desenvolvendo suas habilidades de forma eficaz, para que o objetivo do processo seja alcançado. É necessário que o professor tenha consciência de suas atitudes paraensinar, de forma a compartilhar seus conhecimentos de maneira criativa, tornando a aprendizagem o mais agradável possível. Deve, também, levar os alunos a participar de projetos comuns em busca de objetivos comuns. O bom professor é aquele capaz de atingir os objetivos educativos com o auxílio de soluções apropriadas, conseguindo, assim, captar o referencial pedagógico e indicar alternativas competentes e criativas para as mais diversas situações surgidas no contexto da aprendizagem. Sabendo-se que o processo de ensino-aprendizagem envolve a formação do indivíduo como um todo e não apenas a transmissão de conhecimento, percebe-se que a capacitação do docente de Educação Superior é importante, porque o professor, tendo sido formado num modelo mecanicista-reducionista, em que ele não tem muito a dizer sobre sua prática, geralmente repete em sala de aula os pressupostos mecanicistas e convencionais. PERRENOUD, Philippe. 10 novas competências para ensinar. Porto Alegre: Artmed, 2000. atuação pedagógica no ensino superior| UNIDADE II 52 Cabe ao educador superar a pedagogia da passividade. Cabe-lhe compreender seu papel e o de seu aluno, sabendo situar no plano social geral, o conteúdo específico de cada curso. Essa é uma parte importante do processo pedagógico da qual o professor raramente está consciente, porque ele hoje está diante de um desafio para o qual não está preparado. Como afirma Fusari (1993), o professor, a quem cabe a tarefa de ensinar, deixa de ser um mero transmissor de conhecimentos descontextualizados, para se tornar catalisador do conhecimento, mediador do processo de aprendizagem, responsável por preparar as condições para que ocorra a aprendizagem. O professor deve valorizar o conhecimento do aluno, ou seja, devem ser valorizadas sua concepção de mundo, sua vivência e experiência. A partir daí, deve-se dar oportunidade para que ele construa o conhecimento de forma significativa, atribuindo a esse novo conhecimento aplicabilidade em sua vida. Assim, para ensinar, é preciso ter rigorosidade metódica. Torna-se necessário que o professor mantenha uma postura crítico-construtiva, em que sejam abolidos o papel de instrutor ou professor de autômatos e a concentração na massificação de conteúdos. Deve estimular o desenvolvimento global do aluno e não apenas reduzir o processo de ensino-aprendizagem a mero desenvolvimento do intelecto. No Ensino Superior, não devemos distinguir a figura do professor da do pesquisador. O papel do professor, nos dias atuais, vai além de preparar aulas, supervisionar exercícios, checar resultados, ensinar comportamentos. Ele deve possuir características muito especiais, pois, no ensino, de um modo geral, todos os dias existem inovações, e aprimorar-se a cada dia. Cabe a ele uma visão de futuro, já que existe uma atitude voltada para o contexto social. Os estudos sobre as concepções da Educação no mundo contemporâneo, sobre os saberes necessários para a Educação e sobre o currículo nos instigam a compreender a formação docente de maneira continuada. De acordo com o entendimento de Libâneo, Oliveira e Toschi (2003, p. 189), a formação continuada consiste “[...] na condição para a aprendizagem permanente e o desenvolvimento pessoal, cultural e profissional”. Os autores acrescentam que é no contexto de trabalho que as pessoas envolvidas com o processo educativo têm a possibilidade de promover mudanças pessoais e profissionais, de resolver problemas, de criar e recriar procedimentos e estratégias. Fundamentados na sua visão de formação continuada, Libâneo, Oliveira e Toschi (2003, p. 189) reforçam a importância da formação inicial, que se refere ao ensino de conhecimentos teóricos e práticos destinados à formação profissional, frequentemente completado por estágios. Com isso, a prática articula-se com a teoria, em uma relação de complementaridade. Entretanto, a formação continuada, entendida como “prolongamento da formação inicial, visando ao aperfeiçoamento profissional teórico e prático no próprio contexto de trabalho e ao desenvolvimento de uma cultura geral mais ampla, para além do exercício profissional”, também se torna essencial para o acompanhamento das mudanças que ocorrem a todo momento, em diversos lugares e com diversas pessoas. O professor, especificamente, articula teoria e prática durante todo o processo de mediação de conhecimentos. É nesse contexto que a formação continuada torna-se fundamental, por tratar da reflexão sobre a prática, com embasamento teórico no contexto do trabalho pedagógico. Além disso, quando se compartilham experiências com profissionais que vivenciam situações semelhantes, torna-se imediatamente possível a prática reflexiva no ambiente de trabalho. UNIDADE II | atuação pedagógica no ensino superior 53 Libâneo, Oliveira e Toschi (2003) afirmam que o professor é um profissional que tem como prática sua atividade de ensino. Você concorda com a afirmativa dos autores? A profissionalidade é de fundamental importância para a formação continuada, na medida em que integra o desenvolvimento pessoal e profissional no ambiente de trabalho. Antes de tudo, a formação inicial favorece a construção de conhecimentos, atitudes e convicções que fazem parte da identidade profissional do sujeito. Entretanto, é na formação continuada que ocorre a consolidação dessa identidade, dentro do contexto do ambiente de trabalho. Segundo Libâneo, Oliveira e Toschi (2003, p. 66): A formação continuada é uma maneira diferente de ver a capacitação profissional de professores. Ela visa ao desenvolvimento pessoal e profissional mediante práticas de envolvimento dos professores na organização da escola, na organização e articulação do currículo, nas atividades de assistência pedagógico-didática junto com a coordenação pedagógica, nas reuniões pedagógicas, nos conselhos de classe etc. O professor deixa de estar apenas cumprindo a rotina e executando as tarefas, sem tempo de refletir e avaliar o que faz. Nessa perspectiva, ressalta-se que a formação continuada refere-se às ações de formação que ocorrem dentro da jornada de trabalho, no ambiente universitário, e fora dela, em congressos, cursos etc. Um ponto em comum entre essas ações é a possibilidade de o docente discutir e confrontar as experiências oriundas da prática profissional, refletir sobre elas e articulá-las às teorias que existem sobre o tema em foco. Além de ser papel da instituição proporcionar ao professor eventos de formação profissional, o próprio docente deve ser responsável por aprimorar sua formação. Para complementar nossas reflexões, extraímos um trecho do artigo publicado por Libâneo, Oliveira e Toschi (2003), em que mencionam os estudos de Abdalla (1999), que analisou, em sua tese de doutorado, o papel da escola como contexto de ação e de formação continuada do professor. o pensamento de abdalla As necessidades, as experiências subjetivas e as perspectivas dos professores afetam seu desempenho profissional, seu envolvimento com o trabalho. Essas características proveem das crenças, dos valores, dos significados, dos modos de pensar que vão se formando na vivência da cultura dos grupos dos quais fazem parte e se expressam em comportamentos e modos de agir. Isso significa que as próprias formas de organização da escola não só têm a ver com esses comportamentos ou habitus como a própria escola vai formando uma cultura própria a partir desses comportamentos. O sistema de organização e gestão, que faz parte da cultura da escola, é um espaço não apenas de relações de poder, mas também de todas as relações que derivam das características do grupo social que atua nela. Isso quer dizer que, nas escolas, há uma estrutura administrativa e pedagógica que é visível e outra estrutura não formalizada, não atuação pedagógica no ensino superior| UNIDADE II 54 visível, que éo conjunto das relações sociais, das maneiras de pensar e agir, dos interesses, das experiências subjetivas etc., obviamente articulado com a cultura da comunidade e da sociedade como um todo. Essa cultura interna influi no desenvolvimento pessoal e profissional do professor, positiva ou negativamente, mas os professores também podem produzir esse espaço cultural da escola. Isso acontece assim, porque, em todas as instituições, há sempre um campo de relações, um espaço de mudança e inovação, em que os professores podem desenvolver novas necessidades, novas perspectivas. Ou seja, nesse espaço é possível a criação e o desenvolvimento de novos comportamentos, novos habitus. Reaparece, aí, a necessidade de as escolas cultivarem momentos de prática reflexiva, pois dessa reflexão sobre a ação podem nascer mudanças na estrutura de relações vigente, visando a criar uma nova cultura organizacional. Fonte: Libâneo, Oliveira e Toschi (2003, p. 194-195) do conhecimento à sala de aula: concepções do professor Como conhecemos? À primeira vista, essa é uma questão fácil de ser respondida, mas, ao primeiro enfrentamento analítico, percebe-se que não há uma resposta que dê conta de todas as dimensões, e, sim, várias tentativas para explicar a origem e a essência do processo cognoscente. Esses modos de conhecer estão histórica e ideologicamente abrigados em três grandes correntes ou teorias, influenciando de forma direta os fazeres da sala de aula: empirismo, inatismo e construtivismo. As relações e concepções epistemológicas estabelecidas nos provérbios a seguir são de autoria da pesquisadora Mª Isabel F. P. Leite, Unicamp/SP. “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”. Esse conhecido provérbio representa bem o princípio do empirismo ou do behaviorismo, pelo qual se entende que o conhecimento está na realidade externa e é transmitido ao sujeito por meio de informações captadas pelos sentidos. Os empiristas acreditam que o conhecimento se dá porque vemos, tateamos, ouvimos etc., ou seja, pelo o que os sentidos podem captar e não por nossas ações. O indivíduo, nessa concepção, é considerado como “cera virgem”, “tábula rasa”, “folha de papel em branco”, em que os conhecimentos podem ser inscritos. “Pau que nasce torto, morre torto.” Esse segundo provérbio traduz a concepção denominada inatismo ou apriorismo ou racionalismo, segundo a qual o conhecimento acontece, porque o sujeito já o tem de forma inata ou hereditária, como um programa de capacidades determinadas, dependendo, apenas, da maturação para “aflorar espontaneamente”. Assim, os inatistas consideram que o conhecimento está no sujeito, bastando apenas ser “despertado”. A abordagem empirista opõe-se visivelmente à inatista quanto à relação estabelecida entre sujeito e objeto. Enquanto a primeira anuncia a supremacia do objeto sobre o sujeito – o indivíduo conhece a partir da realidade existente –, a segunda preconiza que é o sujeito quem possui supremacia sobre o objeto – o indivíduo apresenta capacidades inatas e conhece por meio da razão. Ambas, porém, propõem uma visão passiva do conhecimento, para o qual as condições de ocorrência estão previamente determinadas, independentemente da atividade do indivíduo. UNIDADE II | atuação pedagógica no ensino superior 55 “O mesmo risco que corre a lenha de ser cortada, corre o machado de perder o fio.” Esse provérbio revela o entendimento de como se conhece, segundo o construtivismo. Nessa concepção, o conhecimento é o resultado de uma construção a partir das interações contínuas que se estabelecem entre o sujeito e o mundo que o cerca. Não há supremacia do sujeito ou do objeto, mas uma relação de interação entre eles, por meio da qual o conhecimento se constrói. O que essas relações têm a ver com a prática pedagógica? A concepção de conhecimento que o professor adota para si, mesmo que de forma inconsciente, determina, em grande parte, sua prática em sala de aula. Ou seja, a forma como ele entende que o indivíduo, no caso, seu aluno, conhece, tende a direcionar o seu fazer pedagógico, no sentido de que a aprendizagem ocorra. Assim, podemos identificar, a todo tempo, os pressupostos que embasam a ação docente, por meio das falas e das práticas dos professores na escola. A partir daí, faz-se necessário retornar às clássicas perguntas: Que indivíduo queremos formar? Em que escola? Para que sociedade? Apoiados nessas reflexões, ousamos afirmar que o construtivismo é, no momento histórico em que vivemos, no limiar de um novo século, a concepção epistemológica que, com maior adequação, atende a essas e a outras questões, posto que não as responde, mas indica amplos caminhos, para que se possam forjar as próprias trilhas. Aprender a ser um professor construtivista significa, pois, conceber uma visão transformista do universo, da vida, do conhecimento sobre as coisas, do outro e de si mesmo, de forma a estabelecer relações contínuas e dialógicas entre esses elementos, em busca do conhecimento em todos os espaços educativos, entre eles e, principalmente, a tão cantada sala de aula. Assim, conhecemos à medida que construímos relações significativas com o objeto de conhecimento e, melhor o faremos, à medida que nos reconhecermos incompletos, como arte por terminar. refletindo com larrosa... Larrosa (1999, p. 53) faz-nos refletir sobre a transitoriedade do conhecimento, o dinamismo da nossa história e a incerteza das nossas verdades. O homem se faz ao se desfazer: não há mais risco, o desconhecido que volta a começar. O homem se diz ao se desdizer: no gesto de apagar o que acaba de ser dito, para que a página continue em branco. Frente à autoconsciência como repouso, como verdade, como instalação definitiva na certeza de si, prende a atenção ao que inquieta, recorda que a verdade costuma ser uma arma dos poderosos e pensa que a certeza impede a transformação. Perde-te na biblioteca. Exercita-te no escutar. Aprende a ler e a escrever de novo. Conta a ti mesmo a tua própria história. E queima-a, logo que a tenhas escrito. Não sejas nunca de tal forma que não possas ser, também, de outra maneira. Recorda- te de teu futuro e caminha até a tua infância. E não perguntes quem és àquele que sabe a resposta, nem mesmo a essa parte de ti mesmo que sabe a resposta, porque a resposta poderia matar a intensidade da pergunta e o que se agita nessa intensidade. Sê tu mesmo a pergunta. atuação pedagógica no ensino superior| UNIDADE II 56 Você estudou a relação entre Educação e instrução, na qual foram suscitados elementos que apontam para uma nova concepção: a formação. Freire (1996, p. 23) menciona que formar não é “transferir conhecimentos, conteúdos, nem é ação pela qual um sujeito criador dá forma, estilo ou alma a um corpo indeciso e acomodado”. Desse ponto de vista, a aprendizagem ocorre tanto no discente como no docente. E, ao ser aprendente, o professor tem a possibilidade de ressignificar sua prática educativa, de modo que aprenda a partir da reflexão com o outro, o aluno, e que tenha a oportunidade de refletir sobre o que media na relação com o aluno. Nesse sentido, podemos entender como práxis pedagógica a ação – reflexão – ação do professor. Para saber mais sobre a práxis pedagógica, sugerimos a leitura da seguinte obra: FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1997. Veja o Filme Sociedade dos Poetas Mortos e faça uma reflexão sobre as ações do professor e sua postura diante do ambiente de Educação Superior em que estava envolvido. UNIDADE II | atuação pedagógica no ensino superior 57 CAPíTUlO 7 currículo: Fundamental para o processo pedagógico . O currículo deve representar uma sequência de conhecimentos significativos para a vida presente, desenvolvendo habilidades, fornecendo princípios e diretrizes que possam ser úteis à vida futura do indivíduo. Deve relacionar,de forma gradual, todas as experiências que possam ser desencadeadas e promovidas no ambiente escolar. Deve, ainda, evidenciar todas as oportunidades de integração e correlação dos conhecimentos, para que o educando possa promover a aplicação do aprendido na vida prática. (MENEGOLLA; SANT’ANNA, 1993, p. 54) Concepção do currículo Partindo do princípio de que o currículo não se limita à estruturação dos conteúdos das disciplinas, é importante ampliar o campo de visão e agregar elementos que integrem a ação educativa. Tyler (1902 – 1994), na década de 1970, influenciou os currículos no Brasil ao contribuir com a organização curricular do antigo ensino de 1º Grau, com ênfase no tecnicismo. Naquela época, o currículo era reduzido à definição de conteúdos, ao estabelecimento de objetivos educacionais e à avaliação do processo de aprendizagem. Em 1986, na IX Reunião da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação – ANPEd, o Grupo de Trabalho – GT de Currículo iniciou discussões acerca da pedagogia dos conteúdos e da educação popular, o que evidenciou a influência das análises sociológicas inglesas e americanas no currículo brasileiro. (MOREIRA, 1999) as diferenciadas Fases de concepções curriculares Fase DÉcaDa concePÇÕes De currÍculo 1ª FASE 1970 » Base em análises. » Reprodução das desigualdades sociais. » Distribuição de poder na sociedade. » Reprodução, correspondência, ideologia, hegemonia, cultura e poder representam as categorias centrais empregadas. 2ª FASE 1980 » Rejeição e oposição presentes no cotidiano escolar, bem como importância da ação humana na produção de significados e de práticas culturais. » Caráter reprodutor ou transformador das práticas escolares visto como uma questão política, dependente de como elas são trabalhadas pedagógica e politicamente e de como se articulam com outras lutas na escola e fora dela. 58 Fase DÉcaDa concePÇÕes De currÍculo 3ª FASE PÓS–1980 » Insistência na associação da linguagem da crítica à linguagem da possibilidade. » Apelo ao professorado para atuarem como intelectuais transformadores. » Proposta de que o currículo para a formação de professores inclua discussões sobre poder, linguagem, cultura e história. » Estímulo à participação de lideranças críticas na construção de políticas e propostas emancipatórias. 4ª FASE PÓS–1990 » Modernidade – ciência, razão e progresso – núcleo de análises neomarxistas que focalizam o caráter político do currículo. » Compromisso da teoria crítica com a justiça social, a democracia, a libertação e os direitos humanos. Fonte: Raposo e Pinho (2005, p. 297) No ano de 1990, Tomaz Tadeu da Silva (1995) contribuiu com estudos oriundos de vinte anos de lições aprendidas sobre uma teorização crítica de currículo, ao inserir, nas reflexões, o currículo para a construção de uma sociedade democrática. Nessa perspectiva, a ênfase tinha como foco a cultura do aluno no processo de seleção dos conteúdos. É importante considerar, na reflexão sobre a seleção cultural, que o currículo não assume uma neutralidade, pois os conteúdos e as disciplinas escolares definidas como legítimas – a serem ensinadas nas escolas – são organizadas sofrendo fortes determinações políticas, econômicas, sociais e culturais. Por isso, a seleção do conhecimento escolar não é um ato desinteressado e neutro. Ela é resultado de lutas, de conflitos e de negociações. (RAPOSO; PINHO, 2005, p. 299) Nesse contexto de propostas ousadas, o trabalho pedagógico buscou implantar novas metodologias que agregassem o eixo longitudinal do sistema educacional, composto por conteúdos curriculares tradicionais, e, em torno desses conhecimentos, perpassassem transversalmente temas vinculados ao cotidiano da sociedade. » Com todas essas mudanças, você considera que o currículo atende aos grupos dominantes ou às camadas populares? Justifique. Como podemos observar, as discussões em torno da concepção de currículo perpassam um desafio para o educador: o de transformar o formal em um real que atenda aos acadêmicos, por estar focado em suas realidades. A esse respeito, as teorias críticas do currículo reforçam a natureza social do conhecimento e denunciam a distribuição desigual desse conhecimento dentro de ambientes universitários. Além da sua adequação às necessidades do educando, as teorias do currículo crítico buscam compreendê- -lo numa dimensão teórico-prática abrangente, que atenda ao conhecimento a ser abordado, ao processo de ensino-aprendizagem dentro dos microespaços sociais da ação. Adapta, assim, as possibilidades do educador ao desenvolvimento do seu próprio trabalho docente, de maneira a converter o currículo em cultura real para o educando. UNIDADE II | atuação pedagógica no ensino superior 59 Observe o que Sacristán (2000 p. 46) afirma a esse respeito: O currículo aparece, assim, como o conjunto de objetivos de aprendizagem selecionados que devem dar lugar à criação de experiências apropriadas, com efeitos cumulativos avaliáveis, de modo que se possa manter o sistema numa revisão constante, para que nele se operem as oportunas reacomodações. Sacristán (2000, apud Raposo e Pinho, 2005) apresenta uma visão dinâmica do currículo, que envolve desde o prescrito até o realizado, ao mencionar a dimensão conceitual – em que ele constitui, dentro da Educação, um campo de estudo teórico que busca compreender as suas determinações e o seu funcionamento dentro das universidades; e a dimensão pragmática – em que o termo currículo traz implícitas pretensões pragmáticas, práticas que sugerem sua execução. Mas, como podemos pensar o currículo de maneira que atenda à articulação entre teoria e prática? » Ao elaborar um planejamento, olhamos para quem ensinamos ou para que ensinamos? Os currículos escolares estão formados por uma soma de disciplinas selecionadas sob relativos critérios de importância e organizadas sob parâmetros estritamente disciplinares. Seleção que, na maioria dos planos de estudos oficiais do mundo, concretiza-se em um conjunto de disciplinas isoladas em que se dá mais ênfase a umas do que a outras e em que a estrutura interna de cada uma delas sempre segue a lógica disciplinar. (ZABALA, 2002, p. 18-19) Observe que há grandes desafios a serem superados, referentes ao currículo. A esse respeito, podemos apresentar duas vertentes, que, embora distintas, estão intimamente relacionadas. Trata-se do currículo prescrito e do currículo oculto. O primeiro é estabelecido por meio de políticas educacionais na dimensão da esfera federal, estadual e municipal e abrange três áreas fundamentais: a sociedade, o sujeito em processo de aprendizagem e o universo de conhecimento (cultura). A integração das três áreas, decorrentes do sistema valorativo, está relacionada às opções das políticas educativas definidas pelos governos. Nessa perspectiva, o prescrito pode ser um excelente instrumento de reprodução. Em contraposição/complementaridade ao prescrito, o currículo real traz como foco fatores de cunho moral, político e ético. É importante ressaltar que o currículo real reforça a socialização, provocando mudanças sociais no espaço educativo, visto que se refere a situações que o aluno vive, dentro e fora do ambiente educativo evidenciado ao longo do processo de aprendizagem. (SACRISTÁN, 2000) Para superar essa dicotomia entre a teoria e a realidade do educando, é necessário que o educador procure agregar as mudanças de um mundo em constante transformação, trazendo para os educandos fatos da realidade de um mundo globalizado. O que não se pode fazer é distanciar o currículo prescrito do currículo real, construído no ambiente educativo (RAPOSO; PINHO, 2005). A esse respeito, recorremos à concepção de currículo globalizado e interdisciplinar de Santomé (1998 p. 27): [...] o currículo globalizado e interdisciplinar converte-se,assim, em uma categoria “guarda-chuva”, capaz de agrupar uma ampla variedade de práticas educacionais desenvolvidas nas salas de aula. É um exemplo significativo de interesse em analisar atuação pedagógica no ensino superior| UNIDADE II 60 a forma mais apropriada de contribuir para a melhoria dos processos de ensino e aprendizagem. Para favorecer o processo de aprendizagem no currículo globalizado, a pesquisa no Ensino Superior é amplamente utilizada com o intuito de trazer a problemática suscitada entre os educandos e, a partir de alternativas evidenciadas para a resolução do problema, possibilitar a construção de conhecimentos, por meio de reflexões, descobertas e ação no cotidiano em que estão inseridos. Em se tratando de cotidiano, há uma noção de currículo que abarca discussões referentes ao aprendizado de atitudes, de valores, de comportamentos, entre outros aspectos. Trata-se do currículo oculto. De acordo com Silva (2001, p. 78), o currículo oculto “é constituído por todos aqueles aspectos do ambiente escolar que, sem fazer parte do currículo oficial, explícito, contribuem, de forma implícita, para aprendizagens sociais relevantes”. O autor acrescenta que: Na teorização crítica, a noção de currículo oculto implica, como vimos, a possibilidade de termos momentos de iluminação e lucidez, em que identificamos uma determinada situação como constituindo uma instância de currículo oculto. A ideia é que uma análise baseada nesse conceito permite nos tornarmos conscientes de alguma coisa que, até então, estava oculta para nossa consciência. A coisa toda consiste, claro, em desocultar o currículo oculto. Parte de sua eficácia reside, precisamente, nessa sua natureza oculta. O que está implícito na noção de currículo oculto é a ideia de que se conseguirmos desocultá-lo, ele se tornará menos eficaz, ele deixará de ter os efeitos que tem pela única razão de ser oculto. Supostamente, é essa consciência que vai permitir alguma possibilidade de mudança. Tornar-se consciente do currículo oculto significa, de alguma forma, desarmá-lo. (SILVA, 2001, p. 78–80) Como vimos até o momento, o currículo, um dos elementos da organização da prática pedagógica, permite ao professor universitário ressignificar seu trabalho docente, de maneira a desconstruir e construir ações voltadas para o ensino e a aprendizagem. Deve ser concebido como um caminho a ser percorrido, de modo a transformar o currículo prescrito em realidade no cotidiano em sala de aula. as diretrizes curriculares As Diretrizes Curriculares Nacionais são instrumentos normativos elaborados pelo Conselho Nacional de Educação, com base nos princípios emanados da Constituição e da LDB. Organizadas de acordo com os níveis e as modalidades de ensino, indicam diretrizes curriculares para: a Educação Infantil, o Ensino Fundamental, o Ensino Médio, a Educação de Jovens e Adultos, o Ensino Especial, o Ensino Indígena, a Educação a Distância e o Ensino Superior, este último com diretrizes específicas de formação por tipo de curso e área de saber. O objetivo principal das Diretrizes Curriculares é estabelecer diretrizes e princípios para a organização curricular e para a prática pedagógica de cada nível/modalidade de ensino, de maneira a assegurar formação básica comum e o respeito aos valores culturais e artísticos, nacionais e regionais. Com base nessas diretrizes, as Secretarias de Educação e as Instituições de Ensino Superior organizam seus currículos e orientam suas práticas pedagógicas. Outra função reside no fato de servirem de parâmetro à realização das diversas modalidades de avaliações institucionais promovidas pelo Ministério da Educação. UNIDADE II | atuação pedagógica no ensino superior 61 O Plano Nacional de Educação – PNE, Lei no 10.172, de janeiro de 2001, define, em seus objetivos e metas, a necessidade de elaboração das diretrizes para os cursos de graduação, da seguinte forma: [...] 11. Estabelecer, em nível nacional, diretrizes curriculares que assegurem a necessária flexibilidade e diversidade nos programas oferecidos pelas diferentes instituições de Ensino Superior, de forma a melhor atender às necessidades diferenciais de suas clientelas e às peculiaridades das regiões nas quais se inserem [...] De acordo com o Parecer CNE/CES no 776/1997, as diretrizes curriculares constituem orientações para a elaboração dos currículos e devem ser, necessariamente, respeitadas por todas as instituições de Ensino Superior. Assim, visando a assegurar a flexibilidade e a qualidade da formação oferecida aos estudantes, as diretrizes curriculares dos cursos de graduação devem observar os seguintes princípios. » Assegurar às instituições de Ensino Superior ampla liberdade na composição da carga horária a ser cumprida para a integralização dos currículos, assim como na especificação das unidades de estudos a serem ministradas. » Indicar os tópicos ou campos de estudo e demais experiências de ensino- aprendizagem que comporão os currículos, evitando, ao máximo, a fixação de conteúdos específicos, com cargas horárias predeterminadas, que não poderão exceder 50% da carga horária total dos cursos. » Evitar o prolongamento desnecessário da duração dos cursos de graduação. » Incentivar uma sólida formação geral, necessária para que o futuro graduado possa vir a superar os desafios de renovadas condições de exercício profissional e de produção do conhecimento, permitindo variados tipos de formação e habilitações diferenciadas em um mesmo programa. » Estimular práticas de estudo independente, visando a uma progressiva autonomia profissional e intelectual do aluno. » Encorajar o reconhecimento de conhecimentos, de habilidades e de competências adquiridos fora do ambiente escolar, inclusive os que se referem à experiência profissional julgada relevante para a área de formação considerada. » Fortalecer a articulação da teoria com a prática, valorizando a pesquisa individual e coletiva, assim como os estágios e a participação em atividades de extensão. » Incluir orientações para a condução de avaliações periódicas que utilizem instrumentos variados e sirvam para informar a docentes e a discentes acerca do desenvolvimento das atividades didáticas. Segundo o referido Parecer, assim se posiciona o CNE/CES. A orientação estabelecida pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, no que tange ao ensino em geral e ao ensino superior em especial, aponta no sentido de assegurar maior flexibilidade na organização de cursos e de carreiras, atendendo atuação pedagógica no ensino superior| UNIDADE II 62 à crescente heterogeneidade tanto da formação prévia como das expectativas e dos interesses dos alunos. Ressalta, ainda, a nova LDB, a necessidade de uma profunda revisão de toda a tradição que burocratiza os cursos e se revela incongruente com as tendências contemporâneas de considerar a boa formação no nível de graduação como uma etapa inicial da formação continuada. Entende-se que as novas diretrizes curriculares devem contemplar elementos de fundamentação essencial em cada área do conhecimento, campo do saber ou profissão, visando a promover no estudante a capacidade de desenvolvimento intelectual e profissional autônomo e permanente. Devem, também, pautar-se pela tendência de redução da duração da formação no nível de graduação. Devem, ainda, promover formas de aprendizagem que contribuam para reduzir a evasão, como a organização dos cursos em sistema de módulos. Devem induzir a implementação de programas de iniciação científica nos quais o aluno desenvolva sua criatividade e análise crítica. Finalmente, devem incluir dimensões éticas e humanísticas, desenvolvendo no aluno atitudes e valores orientados para a cidadania. Os cursos de graduação precisam ser conduzidos, por meio das Diretrizes Curriculares, a abandonar as característicasde que muitas vezes se revestem, quais sejam as de atuarem como meros instrumentos de transmissão de conhecimento e informações, passando a orientar-se para oferecer uma sólida formação básica, preparando o futuro graduado para enfrentar os desafios das rápidas transformações da sociedade, do mercado de trabalho e das condições de exercício profissional. Um dos pontos relevantes das Diretrizes Curriculares Nacionais – DCN é a indicação dos tópicos ou dos campos de estudo e das demais experiências de ensino-aprendizagem que comporão os currículos, evitando, ao máximo, a fixação de conteúdos específicos, com cargas horárias predeterminadas. Após a aprovação da LDB, criou-se uma cultura de evitar o prolongamento desnecessário da duração dos cursos de graduação, sem, no entanto, deixar de valorizar e incentivar uma sólida formação geral, necessária para que o futuro graduado possa vir a superar os desafios de renovadas condições de exercício profissional e de produção do conhecimento, permitindo variados tipos de formação e habilitações diferenciadas em um mesmo programa. Aos cursos de graduação compete estimular práticas de estudo independente que incentivam a formação além do espaço da sala de aula, visando a uma progressiva autonomia profissional e intelectual do estudante; compete, ainda, encorajar o aproveitamento do conhecimento, das habilidades e das competências adquiridas fora do ambiente escolar, inclusive dos que se referem à experiência profissional julgada relevante para a área de formação em foco. Fortalecer a articulação da teoria com a prática é mais uma das orientações contidas nas DCN. Essa postura valoriza a pesquisa individual e coletiva, assim como os estágios e a participação em atividades de extensão, que poderão ser incluídas como parte da carga horária que compõe o curso. Encontramos, nas DCN da maioria dos cursos de graduação, uma orientação para a condução de avaliações periódicas que utilizem instrumentos variados e que sirvam para informar aos docentes e aos discentes os resultados acerca do desenvolvimento das atividades didáticas. UNIDADE II | atuação pedagógica no ensino superior 63 Como citamos, as DCN visam a manter a autonomia das instituições de Ensino Superior na definição dos currículos de seus cursos, a partir da explicitação das competências e das habilidades que se deseja desenvolver, por meio da organização de um modelo pedagógico capaz de adaptar-se à dinâmica das demandas da sociedade, em que a graduação passa a ser uma etapa de formação inicial no processo contínuo de educação permanente. Assim, o significado de “formatura”, que era tido como finalização dos estudos, passa a ser entendido como parte de um processo que se prolonga por toda a vida. Consulte o sítio do MEC (www.mec.gov.br) no intuito de identificar as diretrizes da Educação Superior. Em seguida, procure identificar as diretrizes do curso em que você atua ou pretende atuar como docente. Tente fazer uma comparação entre seus conhecimentos e o que está estabelecido nelas. Para se aprofundar nas questões relacionadas ao currículo, sugerimos que você consulte o site http://portal.mec.gov.br e conheça as orientações curriculares do MEC para cursos de graduação, de bacharelado e de licenciatura, na Educação Superior, e para cursos de tecnólogo, no link de Ensino Técnico e Tecnológico. As práticas pedagógicas podem ser transformadas a partir do compromisso docente de oferecer um espaço de desenvolvimento integral para o aluno. Independentemente do lugar em que o professor trabalhe, suas ações reverberam e ecoam na vida dos acadêmicos. Entretanto, para propor e executar práticas inovadoras, o professor necessita de um ambiente escolar que lhe permita ter autonomia para a proposição de mudanças significativas. Necessita, também, que as práticas propostas tenham sucesso. Nessa perspectiva, estudaremos, no próximo capítulo, a ética do docente universitário. Reflita sobre essa questão, fundamental no trabalho docente. atuação pedagógica no ensino superior| UNIDADE II 64 CAPíTUlO 8 ética do docente universitário Conhece-te a ti mesmo! (Sócrates) » Você concorda com essa frase, oriunda dos ensinamentos de Sócrates? » Qual a relação dessa afirmativa com a Ética? » As questões éticas estão relacionadas ao bem e ao mal? » Como avaliar as situações que se referem aos procedimentos, às condutas e aos valores que estão velados na sociedade? Esses questionamentos nos conduzem a pensar se pequenas atitudes podem nos ajudar a ter uma conduta ética na vida. O filósofo Sócrates, considerado o pai da Ética, afirmava que, a partir da compreensão racional, o ser humano poderia agir de forma correta. Mas, o que é agir de forma correta? Ao nosso redor, as transformações aceleradas no campo da tecnologia e da informação demonstram claramente uma mutação no conhecimento humano e, principalmente, nas formas de utilização desse conhecimento. O surgimento e desenvolvimento das Tecnologias de Informação e Comunicação, as criações da web, a expansão do ciberespaço, resultando numa cibercultura, causaram transformações culturais que repercutem nas relações sociais de maneira extensa e profunda. Estamos em um momento de mudança de paradigma: antigos valores estão sendo questionados; novos valores impõem-se. Em tempos como os nossos, é preciso considerar o que permanece e o que precisa ser transformado. Quais valores já não servem mais? Quais outros precisam ser acatados? Quais os valores perenes e universais que, se desconsiderados, nos levam a dissentir de um modelo humano possível e aceitável para a realidade que vivemos? Todos sentem as consequências dessas transformações e sua influência em nossos conceitos e relações. Já não podemos mais viver “como nossos pais”. Entretando, a questão maior é “como viverão nossos filhos?” Há questões éticas que precisam ser definidas e respondidas, frente às condutas a serem assumidas em todas as instâncias de relacionamentos. » O que você entende por Ética? 65 Para compreender o significado de Ética, recorremos ao dicionário de Soares (1968), que apresenta 33 definições para a palavra Ética e para a palavra Ética relacionada a outros aspectos, tais como: Ética dos Valores, Ética e Moral, Ética e Dever, entre outras explicações. Entretanto, é importante compreender a origem da Ética descrita pelo referido autor. Origem da Ética – Rigorosamente, não há problema com a origem da Ética, que é uma teoria; o problema é o da genealogia da moral. Trata-se de saber se a Moral é um dado a priori, seja impositivo universal, seja fenômeno da essência do homem, ou um dado da experiência, absolutamente empírico. Nas Éticas antigas, encontram-se rasgos apriorísticos: o “sentido do verdadeiro”, como algo de universal, de Sócrates; o “puro bem”, forma de arquétipo, de Platão; a “essência da natureza humana”, de Aristóteles. As Éticas teológicas, quer a pitagórica, quer a medievel, são apriorísticas. Dá-se o mesmo com as Éticas de Descartes, Spinoza, Leibniz. Kant, para quem todas as leis morais são imperativos categóricos, é o moderno defensor da Ética apriorística. Fichte, Schopenhauer e outros pertencem a esse círculo ético. Também na Antiguidade assinalam-se Éticas empíricas, como a dos cínicos, cujo objetivo moral era considerar o trabalho um bem e ver no bem todo significado da virtude. A adiaforia cínica é uma “consequente”. A maioria das Éticas atuais é empírica, encontrando a origem da Moral num dado experimental: Ética intelectualista, que se caracteriza pela reflexão, pela compreensão e pela deliberação racionais e que não nega o sentimento, mas proclama o predomínio da reflexão científica, Ética de função, que impõe deveres adstritos à função do cientista de trabalhar pelo conhecimento, processando estudos e descobertas, independentemente de considerações morais, evolucionista,segundo a qual os instintos morais são variações fortuitas conservadas e aprofundadas pela seleção natural etc. Como concepção histórica da origem de uma obrigação moral, a suposição de que originariamente determinações sociais, políticas ou religiosas a causaram parece muito aceitável. Também da posição de uma concepção pedagógica, pode-se admitir que influências heterônomas, ensino e exemplos de outros, são meios indispensáveis para desenvolver disposições e orientações volitivas morais. (KULPE, Introd., 314) Fonte: Soares (1968, p. 94) A origem da Ética descrita por Soares (1968) possibilita uma visão das correntes de pensamento de filósofos de todas as épocas. Entretanto, o que significa Ética? “[...] A Ética tem por objeto, não um ato de procedimento, mas os princípios que constituem a razão de ser da Moral, sua origem, suas funções e seus fins. É uma ciência” (p. 94). » Em que situações você considera que os sujeitos não tenham agido com postura ética? Ao refletir sobre essas atitudes, não podemos esquecer situações do nosso cotidiano, que, às vezes, não compreendemos facilmente. Por exemplo, o caso dos jovens rapazes que atearam fogo em um índio da tribo Pataxó que descansava em um ponto de ônibus em Brasília. A atitude desses adolescentes pode ser considerada como a de sujeitos que deixaram de se comportar com ética ou que negaram a condição de sujeitos morais? A esse respeito, Nascimento e Olbrzymek (2007, p. 45) ressaltam: “O que está em jogo, em episódios dessa natureza, é toda uma visão de mundo construída sobre hábitos, costumes, crenças e atuação pedagógica no ensino superior| UNIDADE II 66 valores que permitem colocar o outro, o diferente, na situação de brinquedo manipulável por quem se julga superior a ele”. Conhecer pessoas, grupos, diferenciadas culturas e processos com os quais se relacionam é essencial para que as relações humanas ocorram de maneira harmoniosa e com autonomia moral. Mas será que todas as pessoas reconhecem essa diversidade e a importância da cultura, das crenças e dos valores para determinados grupos e para o grupo no qual estão inseridos? Em face do que foi abordado “acerca das caracterizações de Ética e de Moral, cabe perguntar até que ponto a distinção entre elas adquire importância social, tendo em vista os maiores interessados: os sujeitos concretos que agem no mundo”? (NASCIMENTO; OLBRZYMEK, 2007, p. 45) As autoras contribuem, destacando a distinção entre Ética e Moral. Embora os termos Ética e Moral, por vezes, sejam usados como sinônimos, há uma distinção entre eles. A Ética é uma das áreas da filosofia que investiga sobre o agir humano na convivência com os outros e a moral que surge. A palavra Ética provém do grego ethos, que significa hábitos, costumes, e refere-se à moradia de um povo ou de uma sociedade. A palavra Moral provém do latim moralis e significa costume, conduta. Moral é o conjunto de normas e condutas reconhecidas como adequadas ao comportamento humano por uma dada comunidade humana. A Moral estabelece princípios de vida capazes de orientar o homem para uma ação moralmente correta. O homem é um ser moral, um ser que avalia sua ação a partir de valores. Fonte: Nascimento; Olbryzmek (2007, p. 45) Imbert (2002) faz uma clara distinção entre Ética e Moral. Para o autor, a Moral refere-se à aquisição de bons hábitos e de um conjunto de regras prescritas, consideradas válidas para uma determinada realidade. A Ética, por sua vez, diz respeito às proposições fundadoras das condutas humanas, podendo opor-se às regras e aos seus efeitos. Diz Imbert (2002, p. 14): A questão da Ética motiva-nos a pensar sobre os princípios que são de natureza diferente das ‘necessidades’ ou ‘pseudonecessidades’ enfatizadas pela Moral. O engajamento ético difere da obediência às regras; ele se situa em uma vertente que não é a mesma das prescrições, das exortações e das práticas morais, a ponto de não ter receio de transgredir tais prescrições e práticas. O autor afirma que a Ética “situa-se antes de qualquer conformidade moral; ela a precede na ordem do fundamento”. (Imbert, 2002) A anterioridade da Ética em relação à Moral refere-se ao fato de que a primeira é própria da condição humana, regida por leis simbólicas e a segunda, é incorporada pelo indivíduo por meio da Educação, regida por regras sociais. O processo de Educação é profundamente afetado por todas essas mudanças e, por isso, precisa ser questionado. Nesse âmbito, iniciando-se, principalmente, com a Educação formal, há urgência em conhecer desde as definições gerais da Filosofia da Educação, até as condutas do dia a dia: atitudes, ações, procedimentos, formas de relacionamento. É fundamental estabelecer com clareza o que se espera da Educação formal, definir o papel da universidade, suas funções nesses novos tempos, para, consequentemente, elaborar um modelo ético de UNIDADE II | atuação pedagógica no ensino superior 67 relação educativa, entendendo-se a Ética como uma construção resultante da dialética entre o ideário e a vivência. O processo educativo foi, tradicionalmente, pautado pelos contatos primários, pessoais, diretos, com base emocional, em que as pessoas envolvidas compartilhavam suas experimentações, principalmente as iniciais. A partir da Revolução Tecnológica, passaram a prevalecer os contatos secundários, impessoais, formais, utilitários, calculados mais como um meio para se atingir um fim. Intensificou-se o uso da modalidade denominada Educação a Distância – EaD. Essa alteração nos tipos de contatos sociais mudou os atributos necessários para preservar a Ética nas relações educativas. Imbert (2001) concebe a lei simbólica como constituinte do desejo e da palavra. Seu desafio é a existência do sujeito e o reconhecimento de sua liberdade e singularidade. Ao fazer referência à lei simbólica, que rege o princípio da Ética, o autor reconhece a capacidade do indivíduo de ter percepção crítica do mundo, de forma a discernir sobre valores e regras sociais que não se coadunam com o princípio da vida e da dignidade humana. Nessa perspectiva, o indivíduo é livre para fazer suas escolhas e responsável por elas. Sobre esse assunto consulte a LDB nº 9.394/1996, art. 80. É imprescindível avaliar as alterações nos contatos sociais e identificar os seus efeitos. A Ética, entretanto, não pode ser aprendida de fora para dentro. Ética é uma construção pessoal, uma síntese elaborada pelo próprio indivíduo, forjada de forma refletida e consciente, a partir da experiência de vida. É nessa perspectiva que a afirmativa de Sócrates “Conhece-te a ti mesmo” é compreendida, pois a Ética não pode ser delegada ao outro, ou seja, a construção da Ética está mais na dimensão humana do que na dimensão social ou política. No contexto escolar, a preparação de profissionais educadores deve estar pautada em referenciais éticos construídos a partir de reflexões acerca de situações do cotidiano, de discussões sobre valores, crenças, atitudes que desencadearam tais situações, de maneira incessante, para que essa construção se enraíze e proporcione ao educando uma referência ética e moral. Há uma evolução, um processo de transformação qualitativa em direção à excelência humana, que se inicia com o aprendizado da Moral e tem continuidade com a formação da Ética. Aprende-se a Moral; assume-se a Ética. Pode-se dizer que ao aluno, como aprendiz, cabe exercitar a Ética; quanto ao professor, compete a assunção da Ética. Um professor pode marcar a história de um aluno, pode ser um referencial, para o resto da vida. Quanto mais suas relações estão fundadas no campo afetivo, maior a impressão que causa na vivência do educando. Essas impressões podem ter efeitos agradáveis ou desagradáveis, serem determinadas por fixação ou por rejeição, terem um grau maior ou menor de consciência, mas pautam a conduta da individualidadeque se forma. A indiferença não constrói coisa alguma. O professor possui uma dupla função: como instrutor, tem de mediar a construção de conteúdos, técnicas e habilidades, para desenvolver o potencial de cada aluno; como educador, tem a responsabilidade atuação pedagógica no ensino superior| UNIDADE II 68 sobre o modelo de ser humano que apresenta ao aluno. Ele se oferece como paradigma, não para ser apreendido em sua personalidade, mas para ser um referencial e servir como modelo vivo de maturidade e autorrealização. A Ética está ligada ao que é imprescindível. Meios e métodos podem ser alterados por condições circunstanciais. Metas e finalidades podem ser ajustadas; entretanto, há princípios dos quais não podemos prescindir, porque são inerentes à própria essência daquilo a que se referem. É preciso reconhecer o essencial; a qualidade do que faz com que a Educação eduque, o professor ensine, o aluno aprenda. Que se formem seres humanos pertinentes, aptos, favoráveis ao planeta em que vivemos. Todos os questionamentos aqui evidenciados têm sido foco de discussões por interessados no assunto, no sentido de encontrar caminhos éticos que sejam percorridos ao longo da vida. Essa busca incessante tem se agravado a partir das situações conflituosas de pessoas que representam as sociedades em que vivem e que, apesar disso, não se comportam eticamente. » Como a prática pedagógica pode contribuir para a formação de cidadãos que saibam se conduzir diante de situações que envolvem questões éticas? Para saber mais sobre Ética, sugerimos a leitura dos artigos disponíveis em: < w w w . i c p g . c o m . b r / h p / r e v i s t a / d o w n l o a d . e x e c . p h p ? r p a _ chave=d9ce46773524d0ac4408>. <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-73302001000300016&script=sci_ arttext>. <http://www.hottopos.com/vdletras7/monica.htm>. Lembramos que os fundamentos da Educação no Ensino Superior perpassam as concepções de Educação no mundo contemporâneo – dos saberes necessários para a Educação no século XXI, do currículo, da formação docente e dos seus fundamentos legais. Para ampliar seus conhecimentos acerca dos fundamentos da Educação no Ensino Superior, na próxima Unidade trataremos das contribuições atuais do Ensino Superior brasileiro, com ênfase na formação tecnológica e na utilização da Educação a Distância nesse nível de ensino. UNIDADE II | atuação pedagógica no ensino superior UNIDADE IIIensino superior Brasileiro ContriBuiÇões atuais 71 CAPíTUlO 9 cursos Sequenciais e Formação tecnológica » O que você entender por cursos sequenciais? » O que você entende por formação tecnológica? » Quais as diferenças primordiais entre ensino tecnológico e ensino de graduação? Quando se fala em Educação Tecnológica, logo pensamos em cursos profissionalizantes. Dificilmente atribuímos a eles um caráter de curso superior. Os cursos superiores de tecnologia já existem há muito tempo em outros países. No Brasil, passaram a ser assim designados a partir da atual LDB e regulamentados pelos Decretos nos 5.773/2006 e 6.303/2007. São cursos que focam a formação de profissionais que atuarão nas diferentes áreas de tecnologia. Precisam ser diferenciados dos cursos sequenciais, pois graduam seus estudantes com o intuito de que eles atuem em setores profissionais que necessitam dessas modalidades tecnológicas. Os cursos sequenciais foram criados a partir da nova LDB (1996) e, de acordo com as interpretações adotadas pelo MEC, constituem uma modalidade do Ensino Superior na qual o aluno, após ter concluído o Ensino Médio, pode ampliar seus conhecimentos ou sua qualificação profissional. Destinam-se à obtenção ou à atualização de qualificações profissionais ou acadêmicas. Geralmente são definidos por “campo do saber” e, por isso, não podem ser confundidos com cursos e programas tradicionais de graduação, pós-graduação ou extensão. Devem ser entendidos como uma alternativa de formação superior destinada a quem não deseja fazer um curso de graduação de longa duração. O curso sequencial apenas confere um certificado que atesta conhecimento acadêmico em determinado campo do saber. Um curso dessa natureza deve ser oferecido como uma oportunidade diferenciada para a formação superior do indivíduo que deseja se inserir mais rapidamente no mercado de trabalho. De acordo com a legislação em vigor, cabe aos órgãos de classe e aos conselhos profissionais a regulamentação das profissões e a habilitação para o exercício profissional. Assim, as atribuições profissionais dos egressos de cursos sequenciais de áreas cujas profissões são regulamentadas serão definidas pelos respectivos órgãos reguladores do exercício da profissão. Um exemplo disso é o órgão regulador dos corretores de imóveis, que decide lançar um curso de preparação para profissionais que desejam ingressar na área. Assim, podemos afirmar que existem dois tipos distintos de cursos sequenciais: I) o de formação específica, como o exemplo dado acima; II) o de complementação de estudos, criado com o intuito de formar uma turma em uma determinada área do conhecimento que ficou deficitária em sua formação anterior. Nos 72 dois casos, esse tipo de curso não atribui título ao profissional, apenas o capacita em determinada área, sem graduá-lo para o exercício da profissão. Os diplomas de cursos sequenciais de formação específica capacitam seus portadores a participar de concursos públicos apenas naqueles casos em que o edital indique como exigência a posse de “diploma de nível superior”, sem discriminar se o diploma deve ou não ser de graduação. Com base na legislação que vigora na Educação brasileira, os órgãos de classe e os conselhos profissionais são responsáveis pela regulamentação das profissões e pela habilitação para o exercício profissional. “Assim, as atribuições profissionais dos egressos de cursos sequenciais de áreas cujas profissões são regulamentadas serão definidas pelos respectivos órgãos reguladores do exercício da profissão”. (CASTRO, MOREIRA, 2007, p. 34) Faça uma pesquisa nas instituições de ensino que você conhece e indique quais delas oferecem cursos sequenciais. Identifique, também, as áreas às quais esses cursos se direcionam. Diferentemente dos cursos sequenciais, os cursos de formação de tecnólogos buscam a especialização de pessoas em determinada área profissional, tornando-as aptas para a inserção em setores profissionais, nos quais haja utilização de tecnologias. A Resolução do Conselho Nacional de Educação – CNE/CP nº 3, de 18 de dezembro de 2002, que institui as Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a organização e o funcionamento dos cursos superiores de tecnologia, menciona que “os cursos superiores de tecnologia são de graduação, com características especiais, que obedecerão às diretrizes contidas no Parecer CNE/ CES no 436/2001 e que conduzirão à obtenção de diploma de tecnólogo. Essa Resolução fundamenta-se, entre outras legislações, no Parecer CNE/CES no 436/2001 e no Parecer CNE/CP no 9/2002, e institui: Art. 1º A Educação profissional de nível tecnológico, integrada às diferentes formas de Educação, ao trabalho, à ciência e à tecnologia, objetiva garantir aos cidadãos o direito à aquisição de competências profissionais que os tornem aptos para a inserção em setores profissionais nos quais haja utilização de tecnologias. Art. 2º Os cursos de Educação profissional de nível tecnológico serão designados como cursos superiores de tecnologia e deverão: I – incentivar o desenvolvimento da capacidade empreendedora e da compreensão do processo tecnológico, em suas causas e efeitos; II – incentivar a produção e a inovação científico-tecnológicas e suas respectivas aplicações no mundo do trabalho; III – desenvolver competências profissionais tecnológicas, gerais e específicas, para a gestão de processose a produção de bens e serviços; IV – propiciar a compreensão e a avaliação dos impactos sociais, econômicos e ambientais resultantes da produção, da gestão e da incorporação de novas tecnologias; UNIDADE III | ensino superior brasileiro – contribuições atuais 73 V – promover a capacidade de continuar aprendendo e de acompanhar as mudanças nas condições de trabalho, bem como propiciar o prosseguimento de estudos em cursos de pós-graduação; VI – adotar a flexibilidade, a interdisciplinaridade, a contextualização e a atualização permanente dos cursos e seus currículos; VII – garantir a identidade do perfil profissional de conclusão de curso e da respectiva organização curricular. Diante dessa fundamentação, os cursos de formação tecnológica passam a ter o mesmo status dos cursos superiores, que, de acordo com a Resolução nº 3 CNE/CP/2002, devem ter como critérios para sua oferta: I – o atendimento às demandas dos cidadãos, do mercado de trabalho e da sociedade; II – a conciliação das demandas identificadas com a vocação da instituição de ensino e as suas reais condições de viabilização; III – a identificação de perfis profissionais próprios para cada curso, em função das demandas e em sintonia com as políticas de promoção do desenvolvimento sustentável do país. Dessa forma, os cursos de formação de tecnólogos deverão estar em sintonia com as demandas sociais e com as políticas de desenvolvimento social do país. Pelo fato de serem cursos superiores, a carga horária mínima dos cursos de tecnologia será acrescida do tempo destinado ao estágio profissional supervisionado, quando requerido pela natureza da atividade profissional, assim como de eventual tempo reservado para o trabalho de conclusão de curso, de acordo com o projeto pedagógico. Pela sua especificidade, esses cursos poderão ser organizados em módulos que correspondam às qualificações profissionais identificáveis no mundo do trabalho. O concluinte de módulos correspondentes a qualificações profissionais fará jus ao respectivo Certificado de Qualificação Profissional de Nível Tecnológico. Os cursos de formação tecnológica são os responsáveis pelo aperfeiçoamento e pelo desenvolvimento das áreas de formação específica, por isso sua elevação para o nível superior ajuda no aprimoramento da mão de obra especializada em determinadas áreas do fazer humano. A organização curricular dos cursos superiores de tecnologia deverá contemplar o desenvolvimento de competências profissionais e será formulada em consonância com o perfil profissional de conclusão do curso, que define sua identidade e caracteriza o compromisso ético da instituição com seus alunos e com a sociedade. A organização curricular desses tipos de cursos compreenderá as competências profissionais tecnológicas, gerais e específicas, incluindo os fundamentos científicos e humanísticos necessários ao desempenho profissional do graduado em tecnologia. As competências serão atribuídas de acordo com a área predominante dos cursos: Art. 7º Entende-se por competência profissional a capacidade pessoal de mobilizar, articular e colocar em ação conhecimentos, habilidades, atitudes e valores necessários ensino superior brasileiro – contribuições atuais | UNIDADE III 74 para o desempenho eficiente e eficaz de atividades requeridas pela natureza do trabalho e pelo desenvolvimento tecnológico. Os planos ou projetos pedagógicos dos cursos superiores de tecnologia deverão ser submetidos à devida aprovação da Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica – Setec, do MEC, que instrui os processos de credenciamento e recredenciamento das instituições de Educação Superior Tecnológica. De acordo com o art. 12 da Resolução CNE/CP no 3/2002, para exercer o magistério nos cursos superiores de tecnologia, o docente deverá possuir a formação acadêmica exigida para a docência no nível superior, nos termos do art. 66 da Lei no 9.394 e do seu parágrafo único: Art. 66 A preparação para o exercício do magistério superior far-se-á em nível de pós- graduação, prioritariamente em programas de mestrado e doutorado. Parágrafo único. O notório saber, reconhecido por universidade com curso de doutorado em área afim, poderá suprir a exigência de título acadêmico. De acordo com esse artigo da LDB, o professor, para ministrar aulas em curso de formação de tecnólogos, tem, no mínimo, que ser especialista, com capacitação para docência superior. Consulte no sítio do MEC (www.mec.gov.br) as especificidades e a legislação da Educação Superior Tecnológica. UNIDADE III | ensino superior brasileiro – contribuições atuais 75 CAPíTUlO 10 Educação Superior a distância A Educação a Distância é um caminho que já está traçado, e no qual não podemos mais retroceder. Existem vantagens e desvantagens nesse método, que se coloca como fonte de inovação e de democratização do acesso a saberes institucionalizados. Ao pensarmos o Ensino Superior a Distância, muita coisa precisa ser levada em consideração. O ponto mais crítico seria a criação de uma cultura de autodisciplina que favoreça o aproveitamento satisfatório dessa situação de aprendizagem. » Como você encara a Educação a Distância? » Você acha que um curso de graduação a distância tem o mesmo efeito que um curso presencial? » Você tem a mesma opinião da resposta anterior em relação aos cursos de pós-graduação? A educação a distância é empregada desde o século XIX como uma alternativa de educação não formal com a utilização dos correios, em cursos por correspondência, para transmitir instruções aos alunos e receber deles as respostas. Usada, também, para tornar o ensino convencional acessível às pessoas que moravam em locais de difícil acesso e/ou que não tinham cursado o ensino regular na idade própria. Atualmente, o advento das tecnologias de informação e comunicação trouxe novas perspectivas para a educação a distância, devido às facilidades de produção sofisticada, emissão e distribuição de conteúdos de forma rápida, com grandes possibilidades de interação de informações, recursos e pessoas. Dessa forma, escolas, universidades, organizações empresariais, entre outros, oferecem cursos a distância, utilizando recursos dos ambientes virtuais que porpiciam a gestão da informação, segundo as características de cada curso, rompendo com distâncias espaço-temporais e viabilizando a interatividade por meio de fórum, bate-papo, conferência, banco de dados. A Educação a Distância é uma metodologia de ensino que está se estruturando de forma acelerada no Brasil. Por ser uma concepção de Educação diferenciada, necessita de uma incorporação cultural pelo fato de demandar do sujeito que dela usufrui uma autodisciplina e, ao mesmo tempo, uma correta administração do tempo de estudo e da elaboração dos saberes. Existe uma discussão sobre a Educação a Distância em que alguns autores defendem que ela seja uma metodologia com a qual qualquer tipo de Educação possa ser efetivada. Por outro lado, existem os que a 76 defendem como modalidade de ensino. Aqui adotaremos o que está descrito na nova LDB, ou seja, que a Educação a Distância é uma metodologia diferenciada de ensino e que modalidades são aquelas formas específicas de Educação como a Educação Especial e a Educação de Jovens e Adultos. O MEC, por meio da Secretaria de Educação a Distância – Seed, tem atuado como um agente de inovação tecnológica nos processos de ensino e aprendizagem, fomentando a incorporação das Tecnologias de Informação e Comunicação – TICs e das técnicas de Educação a Distância aos métodos didático-pedagógicos. O atual governo tem como meta a democratização e a divulgação da Educação e, nesse sentido, procura investir na Educação a Distância e nas novas tecnologias como uma das estratégias para democratizar e elevar o padrão de qualidade da Educação brasileira. A Seeddesenvolve vários programas e projetos, cujos objetivos são: » Formular, fomentar e implementar políticas e programas de Educação a Distância – EAD, visando à universalização e à democratização do acesso à informação, ao conhecimento e à Educação. » Fomentar a pesquisa e a inovação em tecnologias educacionais, por meio da aplicação de TICs aos processos didático-pedagógicos. » Desenvolver, produzir e disseminar conteúdos, programas e ferramentas para a formação inicial e continuada a distância. » Difundir o uso das TICs no ensino público, estimulando o domínio das novas linguagens de informação e comunicação junto aos educadores e aos alunos das escolas públicas. » Melhorar a qualidade da Educação. » Propiciar uma Educação voltada para o progresso científico e tecnológico. » Preparar os alunos para o exercício da cidadania, mediante ações de inclusão digital. » Valorizar os profissionais da Educação. Nesse sentido, o papel do MEC, por meio da Seed, é proporcionar as condições de acesso e as políticas de difusão e propagação dessa nova forma de divulgação do conhecimento. O grande desafio está no controle da oferta dos cursos e na sua regularização como meio de acesso à Educação escolarizada. Um dos maiores problemas que se constata nessa forma de Educação é o acesso aos meios digitais, principalmente devido aos altos índices de pobreza da população. Ainda hoje é muito grande o número de pessoas que não têm acesso aos computadores e, consequentemente, à Internet, instrumentos indispensáveis na maioria dos cursos de Educação a Distância. Vale ressaltar que a Educação a Distância já tem uma longa caminhada na Educação brasileira e que, mesmo sem as TICs, ela acontece por meio de materiais impressos e por correspondência. Ainda hoje essas técnicas são utilizadas e nem por isso se pode atribuir a elas menor valor. UNIDADE III | ensino superior brasileiro – contribuições atuais 77 O desafio de educar e educar-se a distância é grande e, por isso, requer o estabelecimento de referenciais de qualidade que subsidiam a autorização de cursos de graduação utilizando esse recurso tecnológico. Para cursos de nível fundamental e médio, inclusive técnico, esses indicadores são definidos pelos Conselhos Estaduais de Educação, órgãos responsáveis pela normatização, autorização e supervisão desses níveis de ensino, conforme Decreto no 2.561, de 27 abril de 1998. Para os cursos superiores, cabe ao MEC o papel de regulamentar, autorizar e reconhecer o seu funcionamento. Compete, portanto, ao MEC orientar alunos, professores, técnicos e gestores de instituições de Ensino Superior que podem usufruir dessa forma de Educação. Pense sobre as vantagens e as desvantagens da Educação a Distância e elabore um pequeno texto no qual você avalie sua formação neste ou em outros cursos a distância de que tenha participado. Para o Ministério, a base principal das práticas de qualidade nos projetos e nos processos de Educação Superior consiste em garantir, continuamente, melhorias na criação, no aperfeiçoamento, na divulgação de conhecimentos culturais, científicos, tecnológicos e profissionais que contribuam para a superação dos problemas regionais, nacionais e internacionais e para o desenvolvimento sustentável dos seres humanos, sem exclusões, nas comunidades e nos ambientes em que vivem. No intuito de direcionar as propostas de EAD, a Secretaria responsável aponta indicadores que, embora não tenham força de lei, servem para orientar as instituições e as comissões de especialistas que forem analisar projetos de cursos de graduação a distância. O princípio-mestre, apontado pelo MEC, é o de que não se trata apenas de tecnologia ou de informação: o fundamento da graduação é a educação da pessoa para a vida e para o mundo do trabalho. Por isso, são apresentados, na página da Seed, na Internet, os dez itens básicos que merecem a atenção das instituições na preparação de seus programas de graduação a distância: » integração com políticas, diretrizes e padrões de qualidade definidos para o Ensino Superior como um todo e para o curso específico; » desenho do projeto: a identidade da Educação a Distância; » equipe profissional multidisciplinar; » comunicação/interatividade entre professor e aluno; » qualidade dos recursos educacionais; » infraestrutura de apoio; » avaliação de qualidade contínua e abrangente; » convênios e parcerias; » edital e informações sobre o curso de graduação a distância; » custos de implementação e manutenção da graduação a distância. ensino superior brasileiro – contribuições atuais | UNIDADE III 78 Além desses aspectos, a instituição proponente poderá acrescentar outros mais específicos e que atendam a particularidades de sua organização e a necessidades socioculturais de sua clientela, ou cidade, de acordo com cada região. O fato de ter sido instituída muito recentemente, faz com que ainda tenhamos a aprender com essa modalidade de atendimento. Muitas são as questões que se colocam, entre as quais destaca-se o papel do professor da Educação Superior a distância. Na bibliografia de Educação a Distância, esse profissional pode desempenhar o papel de: » conteudista: professor que escreve os materiais; » tutor: professor que acompanha os alunos; » monitor: professor que presta assessoria aos estudos e tira dúvidas dos alunos. O professor da Educação a Distância precisa estar capacitado com metodologias e formas de conhecimentos próprias dessa modalidade de atendimento. Há muito, ainda, a ser construído na busca da identidade desse profissional, em todos os níveis de ensino e, em especial, na Educação Superior. A oferta da Educação a Distância, no caso dos cursos de graduação de tecnologia, deve ser pensada criteriosamente. Em algumas áreas não é viável a realização de cursos a distância. Por exemplo: será que alguém teria coragem de passar por uma cirurgia em que o cirurgião tivesse sido formado na modalidade a distância? UNIDADE III | ensino superior brasileiro – contribuições atuais 79 PARA (NÃO) FINAlIZAR Há uma cultura vivida, traduzida em práticas, na qual acontece o educativo, tanto nas famílias, nas igrejas, no trabalho e nas ruas quanto nas escolas. Quando se olha para essa concretude e para essa prática, os objetivos sempre proclamados para a escola [...] deixam de ser aspirações vagas ou meros discursos para ser guias de práticas, para ser prática vivida. (ARROYO, 1998, p. 156) Parabéns! Você chegou ao final do Caderno de Estudos da disciplina Fundamentos do Ensino Superior. Neste momento, refletimos sobre o que foi dito, o que poderíamos dizer e, especialmente, se tudo o que foi mencionado contribuiu para o seu aprendizado. Cada conteúdo abordado foi cuidadosamente pensado, com o intuito de atender às especificidades de formação e de opção para aprofundamento de estudos relacionadas ao curso no qual você está matriculado. Esperamos que, com os conteúdos aqui abordados, você tenha ampliado seus conceitos sobre Educação Superior. Procuramos situar a questão das universidades e seus precedentes filosóficos, identificando a filosofia aristotélica como a grande responsável pela ampliação e laicização da ciência para além dos muros da Igreja Católica. Nessa mesma linha de fundamentação, buscamos, na história da Educação, os elementos que influenciaram a construção da Educação brasileira e, em especial, do Ensino Superior e seus altos e baixos na história de nosso País. Destacamos, na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, o capítulo destinado ao Ensino Superior. Identificamos nesse estudo uma ampliação da liberdade de ação das universidades e uma legislação específica sobre os institutos de Educação Superior, as faculdades e os centros universitários. Complementando esse tema, entramos na discussão sobre a necessidade de preparar melhor os professorespara atuar nesse nível de ensino. Essa preocupação dá-se, primordialmente, pelo caráter estrito deste curso, cujo objetivo maior é capacitá-lo para atuar como docente no Ensino Superior. Temos consciência de que nosso texto não esgota a questão, que será trabalhada, também, em outras disciplinas do curso. Procuramos situá-lo nas diferentes nomenclaturas contemporâneas adotadas no curso superior. Acrescentamos, ainda, a Educação a Distância, como uma metodologia que tem sido difundida pelo País e para a qual os professores da Educação Superior devem se preparar. 80 Esperamos que os textos venham a suscitar a curiosidade e o envolvimento investigativo na busca de aprofundamento sobre os temas aqui apresentados. O sucesso de seu estudo vai depender de dedicação e de autodisciplina. Use suas potencialidades e faça um bom trabalho. Enfim, esta disciplina fecha a primeira parte do Curso Especialização em Docência no Ensino Superior. Esperamos ter atendido as suas expectativas e fazemos votos de que você continue se esforçando nos estudos, para prosperar neste curso. PARA (NÃO) FINALIZAR | 81 REFERêNCIAS ABREU, Maria Cecília de; MASETO, Marcos Tarciso. O professor universitário em aula: prática e princípios teóricos. São Paulo: Associados, 1985. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DAS ESCOLAS de EDUCAÇÃO SUPERIOR – ABNES. Disponível em: <www.abnes.br>. BRASIL. 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