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INOVAÇÃO E TECNOLOGIA EM ALIMENTAÇÃO Jeison Fernando Schmitz Alimentos funcionais e as perspectivas de inovação Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Definir alimentos funcionais, seu histórico e suas perspectivas. � Relacionar a importância dos alimentos funcionais na prevenção de doenças. � Desenvolver produtos alimentícios inovadores com propriedades funcionais. Introdução Desde antigamente, atributos medicinais eram atribuídos aos alimentos, uma crença normalmente repassada entre as gerações. Mesmo desconhe- cendo a palavra, essa transmissão de informação se refere aos alimentos funcionais, que, além de propriedades nutritivas, apresentam compostos bioativos responsáveis por influenciar as funções fisiológicas humanas, o que promove benefícios para a saúde. A interação entre o alimento funcional e a gastronomia é conhecida como gastronomia funcional, aliando a saudabilidade ao sabor e prazer que aquela refeição proporcionará, bem como atuando principalmente no resultado que a utilização dos alimentos funcionais terá no organismo dos consumidores, respeitando as diferenças biológicas de cada indivíduo. Neste capítulo, você vai aprender sobre o conceito de alimentos funcionais e compostos bioativos, conhecendo seu histórico, legislações e perspectivas para a indústria de alimentos. Ainda, entenderá a impor- tância dos alimentos funcionais para a saúde humana, principalmente na prevenção de algumas doenças, e reconhecerá produtos inovadores no mercado de alimentos, com a alegação de alimentos funcionais. 1 Histórico, conceitos básicos e mercado Há mais de 2.500 anos, o grego Hipócrates, com sua famosa frase “Faça do seu alimento seu medicamento”, já sugeria que o alimento tem propriedades terapêuticas. Porém, a terminologia “alimento funcional” é mais recente, originária do Japão na década de 1980. Em virtude do interesse em explorar as potencialidades dos alimentos em prevenir algumas doenças, os alimentos funcionais se assemelhavam aos convencionais, porém, além de suas caracte- rísticas nutricionais já conhecidas, demonstravam algum benefício fisiológico e/ou minimizavam o risco de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) (GIUNTINI, 2018; SOUZA; MARTÍNEZ, 2017). Ainda no Japão, em 1991, de maneira pioneira, foi definida a expressão FOSHU ( foods for specied health use) para regulamentar os alimentos para uso específico de saúde. Aprovados pelo Ministério da Saúde e Previdência Social do Japão, esses alimentos apresentam um selo em suas embalagens, por serem comprovadamente capazes de produzir um efeito específico sobre a saúde pelo fato de conterem determinados compostos bioativos (SOUZA; MARTÍNEZ, 2017; VIZZOTTO; KROLOW; TEIXEIRA, 2010). Na Europa, entre os anos de 1998 e 1999, foi criado o Functional Food Science in Europe — FUFOSE (Projeto Ciência dos Alimentos Funcionais na Europa), que relacionou as alegações de alimentos funcionais a evidências científicas, classificando as alegações em dois tipos: melhora da função e redução de risco. E, nos Estados Unidos, foi a partir dos anos 1990 que os alimentos funcionais se tornaram mais conhecidos pela criação do programa Designer Food Program (Programa de Alimentos Projetados), que financiava pesquisas sobre os componentes fitoquímicos presentes nos alimentos. Atualmente, os norte-americanos não dispõem de nenhuma legislação específica para esses alimentos, porém a Food and Drug Admistration (FDA) orienta os consumidores por meio das seguintes categorias de alegação (GIUNTINI, 2018; SOUZA; MARTÍNEZ, 2017): � conteúdo de nutrientes: caracterizando o nível de nutrientes, utilizando expressões como “boa fonte de”, “livre de”, “alto teor de”, entre outras; � saúde: descrevendo o papel de determinado nutriente sobre a redução do risco de uma determinada doença, como “o cálcio pode reduzir o risco de osteoporose”; � estrutura ou funcionalidade: descrevendo a função de determinado nutriente na manutenção da estrutura funcional de humanos, por exem- plo, “o cálcio é importante para o desenvolvimento de ossos fortes”. Alimentos funcionais e as perspectivas de inovação2 No Brasil, a Secretaria de Vigilância Sanitária sempre foi precavida, posicionando-se contra a aprovação de diversos produtos alimentícios com pedidos de registros desde o início da década de 1990. Após diversas pes- quisas e contribuições de instituições, em 1998 foi aprovada a regulamenta- ção técnica para análise de novos alimentos e ingredientes, incluindo nesse grupo “alimentos com alegações de propriedades funcionais e ou de saúde”. E, no dia 30 de abril de 1999, foi publicada a Resolução nº. 18, que estabelece as diretrizes básicas para análise e comprovação de propriedades funcionais e/ou de saúde alegadas em rotulagem de alimentos. Ainda em 1999, constituiu- -se a Comissão Técnico-Científica de Assessoramento em Alimentos Funcio- nais e Novos Alimentos (CTCAF), que, ao longo de cinco anos, colaborou em decisões sobre o assunto, com a realização de eventos e a criação de informes técnicos (GIUNTINI, 2018; SOUZA; MARTÍNEZ, 2017). Não há um consenso mundial sobre o conceito de alimento funcional, pois cada país tem uma regulamentação específica, com critérios para aprovação. Para os europeus, por exemplo, é considerado alimento funcional apenas aquele consumido de modo habitual na alimentação, excluindo aqueles consumidos em formas farmacêuticas, como cápsulas ou comprimidos. Já para o Interna- tional Life Sciences Institute of North America (ILSI), um alimento funcional fornece benefícios à saúde, além de sua nutrição básica, em decorrência de seus compostos bioativos. Nos Estados Unidos, não existe reconhecimento legal para um alimento funcional, mas a American Dietetic Association (ADA) inclui no rol de alimentos funcionais os alimentos fortificados e modificados, por suas propriedades funcionais relativas às ações metabólicas ou fisiológicas promovidas por alguma substância, com efeitos potencialmente benéficos para a saúde (GIUNTINI, 2018; CAÑAS; BRAIBANTE, 2019). E, no Brasil, não há uma definição sobre a expressão “alimento funcional”, mas, por meio da Resolução Anvisa/MS n.º 18, em 1999, definiu a alegação de propriedade funcional, relacionada ao papel metabólico ou fisiológico que algum componente tem sobre as funções normais do organismo, e a alegação de propriedade de saúde, que implica a existência de uma relação entre o alimento ou algum componente com alguma doença ou condição relacionada à saúde, sem alegar propriedades de cura ou prevenção (BRASIL, 1999). Para entender um pouco melhor esses aspectos, veja o esquema apresentado na Figura 1. 3Alimentos funcionais e as perspectivas de inovação Figura 1. Alegações de propriedade funcional. Alimento funcional Propriedades funcionais Propriedades nutricionais Alegação de propriedade funcional Alegação de propriedade de saúde “As �bras alimentares auxiliam na redução da absorção de colesterol.” “As �bras alimentares auxiliam o funcionamento do intestino.” Assim, alimento funcional pode ser considerado um alimento ou bebida com alegações de causar algum benefício à saúde, comprovado cientifica- mente e aprovado pela autoridade responsável. Já os compostos bioativos são componentes não nutrientes, encontrados em pequenas quantidades nos alimentos, capazes de influenciar o organismo humano e promover efeitos metabólicos e fisiológicos benéficos para a saúde. Os compostos bioativos não são indispensáveis para o funcionamento das células, como os macro- nutrientes, mas atuam otimizando e corrigindo diversas funções, inclusive reduzindo o risco do desenvolvimento de DCNT, como o câncer e problemas cardiovasculares (GIUNTINI, 2018; CAÑAS; BRAIBANTE, 2019; SOUZA; MARTÍNEZ, 2017). Os alimentos funcionais devem ser consumidos regularmente para que os benefícios esperados sejam alcançados, e não de forma esporádica. Como a maior parte doscompostos bioativos estudados está presente em frutas, vegetais e cerais integrais, o ideal é incluir esses alimentos na alimentação habitual. Estudos sobre a relação entre a ingestão de alimentos funcionais e doenças crônicas têm aumentado significativamente, o que faz aumentar o interesse das indústrias de alimentos por produtos com alegações de propriedades fun- cionais e/ou de saúde. Ainda, o envelhecimento da população, as mudanças no enfoque das diretrizes alimentares, o crescimento de doenças crônicas e o fato de o consumidor estar cada vez mais interessado em sua saúde são alguns dos diversos fatores que favorecem a expansão do mercado mundial de alimentos funcionais (GIUNTINI, 2018; SOUZA; MARTÍNEZ, 2017). Alimentos funcionais e as perspectivas de inovação4 Para que um alimento seja funcional, a sua alegação de propriedade funcional deve ser comprovada cientificamente. Portanto, devemos ter cuidado com os diversos alimentos citados na mídia como funcionais, como o óleo de coco, indicado para melhorar a saúde cardiovascular, contudo para o qual não há nenhuma evidência científica, incluindo-se, na verdade, a sugestão de sua substituição por óleos vegetais com lipídeos insaturados. É notória a preocupação dos governos com a relação alimentação-saúde pela implantação de projetos e programas de longo prazo, visando à mudança de hábitos alimentares e à sensibilização da indústria alimentícia para a cria- ção de produtos com algum diferencial. Porém, como o consumidor final é o responsável pela aceitação ou não de um novo alimento funcional no mercado, cabe aos órgãos governamentais difundir informações essenciais e à indústria de alimentos disponibilizar um produto que seja sensorialmente aceitável (SOUZA; MARTÍNEZ, 2017). Entretanto, alguns alimentos ricos em compostos bioativos não têm um consumo elevado pela população, por questões de acesso (como a raiz da chicória que é rica em uma fibra alimentar chamada inulina), alta perecibilidade (como os peixes ricos em ômega 3) e a cultura alimentar de cada região, o que torna interessante que sejam extraídos e utilizados em outros alimentos consumidos popularmente. Porém, para que um alimento funcional seja promissor no mercado, seus benefícios devem ser devidamente comprovados e de domínio público, o que somente pode ser alcançado por meio de um trabalho multidisciplinar entre indústria, academia e governo. No contexto apresentado, o segmento de iogurte funcional é um dos mercados mais promissores no que tange aos alimentos funcionais, com diversas marcas que lançaram no mercado mundial iogurtes com probiótico, como o Activia da Danone. Além da adição de probiótico, algumas indústrias de produtos lácteos criaram iogurtes com ingredientes que reduzem o colesterol. 5Alimentos funcionais e as perspectivas de inovação Até recentemente, a expressão “alimento funcional” era exclusiva aos profissionais da área da saúde, como os nutricionistas. Entretanto, com a re- percussão midiática, o assunto ganhou notoriedade entre a sociedade, tendo se destacado em restaurantes pelo mundo com clientes que buscam uma associação entre o prazer da gastronomia e uma melhor qualidade de vida por meio de alimentos funcionais. Com isso, no início do século XXI, surgiu a expressão “gastronomia funcional”, cujo objetivo consiste em elaborar preparações culinárias pela adição de alimentos funcionais, otimizando seus valores nutri- cionais e promovendo a qualidade de vida por meio dos aspectos funcionais. O uso de alimentos funcionais na gastronomia pode se dar, por exemplo, por uma simples especiaria como a cúrcuma, que atua como antibactericida, ou pela adição de biomassa de banana-verde, que auxilia no funcionamento do intestino, a uma feijoada. 2 Benefícios dos alimentos funcionais para a saúde Diabetes melito, doenças cardiovasculares, câncer, obesidade, dislipidemias, osteoporose e hipertensão são as principais DCNT. Consideradas silenciosas, por se desenvolverem ao longo da vida e poderem levar a óbito, podem ocorrer por fatores de risco não modificáveis, como sexo, idade e condição genética, e modificáveis, como inatividade física, abuso de bebidas alcóolicas, uso do tabaco e hábitos alimentares inadequados. Portanto, na sociedade mundial atual, o estudo sobre os alimentos funcionais e seus compostos bioativos é necessário e potencial para a redução de risco de determinadas DCNT. Os alimentos funcionais podem ser classificados de acordo com a sua origem em vegetal ou animal, sendo a maioria do reino vegetal, em razão da presença dos compostos bioativos. No Quadro 1, você pode conhecer um pouco sobre os principais grupos de compostos bioativos dos alimentos, suas ações no organismo humano e algumas fontes alimentares. Alimentos funcionais e as perspectivas de inovação6 Classe Composto bioativo Funções Fontes Carote- noides Betacaroteno Atividade antioxidante, estimulante para o sistema imunológico e essencial para o sistema ocular Vegetais e frutas de coloração amarela a ver- melha, como cenoura, abóbora, goiaba e ma- mão, além de vegetais folhosos verde-escuros, como o brócolis Licopeno Atividade antioxidante, redução dos níveis de colesterol e do risco de alguns cânceres, como o de próstata Tomate e derivados, goiaba, mamão e melancia Luteína e zeaxantina Atividade antioxidante e proteção contra doenças oftalmológicas Folhas verdes, como couve, acelga, espinafre e rúcula, além de pequi, laranja, nectarina e milho Flavonoi- des Antociani- dinas (ciani- dina, mal- cidina e delfinidina) Atividade antioxidante e anti-inflamatória e redução do risco de cânceres Amora, açaí, acerola, batata-doce, berinjela, cebola-roxa, jabuticaba, jambolão, morango, repolho-roxo e uva roxa Flavanóis (catequina, epicatequina e procianidina) Atividade antioxidante e anti-inflamatória, me- lhora do perfil lipídico e redução do risco de do- enças cardiovasculares Chá-verde, cereja, amora, mirtilo, uva roxa e vinho tinto Flavanonas (hesperidina e naringerina) Melhora do perfil lipídico e redução do risco de doenças cardiovasculares Frutas cítricas (laranja, limão, nectarina e tangerina) Flavonóis (quercitina e rutina) Atividade antioxidante e anti-inflamatória, me- lhora do perfil lipídico e redução do risco de do- enças cardiovasculares Brócolis, cebola, chá-preto, couve, goji berry, maçã, morango e uva Quadro 1. Principais compostos bioativos e suas funções no organismo (Continua) 7Alimentos funcionais e as perspectivas de inovação Classe Composto bioativo Funções Fontes Flavonoi- des Isoflavonoi- des (daidzeín, genisteína e gliciteína) Redução do risco de doenças cardiovasculares, cânceres (mama e próstata) e osteoporose. Auxílio nos sintomas de menopausa Soja e inhame Microbi- óticos Probióticos (bifido- bactérias e lactobacilos) Equilíbrio da flora intestinal, prevenção de constipação, modulação do sistema imunológico e redução do risco de câncer de cólon Leites fermentados, iogurtes e outros produtos lácteos enriquecidos Prebióticos (oligossaca- rídeos – FOS, lactulose e rafinose; polissacarí- deos – inu- lina e amido resistente) Fornecimento de substrato para a microbiota do cólon e modulação do cresci- mento de microrga- nismos, mantendo a saúde da flora intes- tinal, modulação do sistema imunológico Alho, alcachofra, cebola, chicória, aveia, biomassa de banana-verde, feijão cozido, batata yacon e fécula de mandioca Simbióticos Combinação de probióticos com prebióticos Iogurtes, bebidas lácteas fermentadas, fármacos e suplementos alimentares Fibras alimen- tares Fibras alimentares Melhora do funcionamento intestinal, da atividade hipocolesterolêmica e atividade hipoglicemiante, redução do risco de câncer de cólon Vegetais folhosos, frutas (com casca e bagaço), legumes, leguminosas (soja, feijão, lentilha), cereais integrais (aveia, centeio, cevada) Quadro 1.Principais compostos bioativos e suas funções no organismo (Continuação) (Continua) Alimentos funcionais e as perspectivas de inovação8 Fonte: Adaptado de Giuntini (2018) e Souza e Martínez (2017). Classe Composto bioativo Funções Fontes Ácidos graxos e lipídeos Ácidos gra- xos monoin- saturados Redução do risco de doenças cardiovasculares, redução do LDL e aumento do HDL Azeite de oliva, abacate, açaí, buriti e oleaginosas (nozes, amêndoas, castanhas) Fitoesteróis (sitoesterol, campesterol e estigmaes- terol) Atividade hipocolesterolêmica, reduzindo a absorção do colesterol plasmático Óleos vegetais, oleaginosas e margarinas enriquecidas Ômega 3 Redução do risco de doenças cardiovasculares, anti-inflamatório, anti-hipertensivo e redução do LDL Linhaça e peixes de água fria (atum, arenque, sardinha, salmão) Ômega 6 Redução do risco de doenças cardiovasculares e redução do LDL Azeite de oliva, óleos vegetais, sementes de gergelim e oleaginosas Com- postos sulfora- dos Alicina Antiaterogência, antibactericida, anti-hipertensiva, antiviral, redução do risco de câncer (principalmente de estômago) e dos níveis de colesterol Alho e cebola Isotiocianato e indóis Antibactericida, desintoxicação hepática e redução do risco de carcinogênese (principalmente de mama) Vegetais crucíferos (alcaparra, brócolis, couve-flor, couve- -de-bruxelas, couve, rabanete e repolho) Quadro 1. Principais compostos bioativos e suas funções no organismo (Continuação) 9Alimentos funcionais e as perspectivas de inovação Além de verificar a comprovação da eficácia por meio de pesquisas cientí- ficas, é importante ressaltar para os consumidores que os alimentos funcionais devem fazer parte de uma alimentação equilibrada. Por exemplo, para que um alimento funcional que atua na redução da absorção do colesterol tenha o resultado esperado, sua ingestão deve estar associada a uma alimentação com baixos teores de gordura saturada e colesterol (SOUZA; MARTÍNEZ, 2017). Ocasionalmente, os alimentos funcionais são confundidos com os nutracêuticos, porém são expressões distintas. Os primeiros são alimentos convencionais ou modificados (enriquecidos/fortificados), enquanto os segundos compreendem produtos isolados ou purificados de alimentos e são vendidos na forma de fármacos (comprimidos, pós, cápsulas, pastilhas, etc.). Para a indústria de alimentos, os alimentos funcionais têm deixado de ser um nicho de mercado e se tornado uma categoria de consumo muito impor- tante. O corante alimentício, por exemplo, representa a principal utilização dos carotenoides por essas indústrias, substituindo os corantes artificiais, como no caso da empresa BASF®, que dispõe de um portfólio de carotenoides para conferir colorações que vão do amarelo aos tons avermelhados, passíveis de aplicação em alimentos como margarinas, bebidas e massas alimentícias. Já os flavonoides, além de utilizados como pigmentos (antocianidinas em sucos de frutas e vinhos), são empregados como aromatizantes, principalmente aqueles encontrados na cebola e na maçã. Alimentos funcionais e as perspectivas de inovação10 3 Desenvolvimento de produtos com alegação funcional Nos últimos anos, os consumidores foram testemunhas do surgimento de diversos produtos nas prateleiras dos supermercados, principalmente alimen- tares com a promessa de contribuir na busca por uma vida mais saudável. E isso a partir da demanda por ingredientes funcionais, pelo uso de ingredientes e insumos sustentáveis e pelo comportamento atual dos consumidores, que necessitam de produtos inovadores. Para a indústria de alimentos, há 20 anos a percepção de inovação era muito mais simplória do que as necessidades atuais, em geral como a criação de um sabor diferente e o prolongamento da vida útil dos produtos, enquanto hoje a inovação esperada pelos consumidores consiste na elaboração de um produto melhor e que promova uma melhor qualidade de vida. A inovação é a chave do sucesso das empresas de alimentos nos dias atuais. Com a mudança do perfil de consumo, optando por alimentos mais saudáveis, as grandes empresas foram pegas de surpresa, e a participação de seus produtos que figuravam na liderança do segmento alimentício no mer- cado sofreu um declínio, perdendo espaço para produtos naturais e pequenas empresas (SILVA, 2014). A necessidade dos consumidores por alimentos mais saudáveis vem es- timulando o desenvolvimento de novos produtos com melhores qualidades nutricionais e ingredientes com alegações funcionais, cenário em que os ali- mentos funcionais se tornam uma tendência, em breve suprindo o mercado com uma maior diversidade de alimentos com alegações funcionais possíveis, para atender aos diversos segmentos existentes de consumidores (idade, condições de saúde, objetivo almejado, entre outras características). Entre os principais alimentos funcionais encontrados nos supermercados, podemos citar iogurtes, leites fermentados, margarinas, cereais e águas minerais. No mercado bra- sileiro, um segmento com potencial desenvolvimento é o de bebidas prontas para o consumo e bebidas lácteas, como leites fermentados e iogurtes, aos quais normalmente são adicionados de probióticos, como visto no Quadro 2. 11Alimentos funcionais e as perspectivas de inovação Fonte: Adaptado de Oliveira et al. (2002). Categoria Marca Denominação de venda Probiótico adicionado Leite fermentado Yakult Yakult L. casei Shirota Nestlé Chamyto L. johnsonii L. helveticus Parmalat Leite fermentado L. casei B. lactis L. acidophilus Vigor Vigo L. casei L. acidophilus Batavo Batavinho L. casei Iogurte Batavo Iogurte Biofibras L. lactis L. acidophilus Parmalat Dietlac L. lactis L. acidophilus Danone Activia B. animalis Quadro 2. Produtos lácteos funcionais Entre os alimentos funcionais, um dos que mais vêm ganhando destaque no desenvolvimento de novos produtos na indústria de alimentos é a biomassa de banana-verde, rica em amido resistente e que auxilia no controle da glicose sanguínea. A empresa Fruto das Mãos, por exemplo, criou um nhoque de bio- massa de banana-verde pronto para o cozimento, e a rede de lojas por franquia Mundo Verde elaborou uma farinha de banana-verde (Figura 2). Alimentos funcionais e as perspectivas de inovação12 Figura 2. Nhoque de biomassa de banana-verde ela- borado pela empresa Fruto das Mãos. Fonte: Nhoque... (2020, documento on-line). Outra tendência de uso de alimentos funcionais na indústria alimentícia e na gastronomia são as plantas alimentícias não convencionais (PANCs), mais reconhecidas como daninhas ou “mato”, mas que apresentam uma ampla utilização na alimentação, normalmente com maiores teores de nutrientes que as plantas convencionais. Uma das representantes das PANCs mais utilizadas é a ora-pro-nóbis, que, além do alto teor de proteínas, é rica em fibras e tem atividade antioxidante. O consumo de suas folhas pode ser in natura ou em receitas como refogados, omeletes, molhos e bolos. Já na indústria, sua farinha tem maior uso, podendo ser adicionada a diversas preparações. A indústria alimentícia precisa ser inovadora em seus produtos funcionais e, para que isso ocorra de maneira satisfatória, torna-se imprescindível acom- panhar as tendências do mercado atual de seus consumidores. Como algumas tendências, podemos citar as seguintes. 13Alimentos funcionais e as perspectivas de inovação � Cura no alimento: além de nutrir os seus consumidores, o alimento deverá estar adequado às novas demandas do envelhecimento, corro- borado com DCNT como a obesidade. � Mesmo produto, mas diferente: a reformulação dos alimentos já exis- tentes é fundamental, substituindo ingredientes não muito desejáveis, como açúcares e gorduras trans, e adicionando outros que agreguem benefícios, como proteínas. � Menos proteína animal: uma forte tendência atual consiste no flexi- tarianismo, que propõe a redução no consumo de produtos de origem animal, como acampanha “Segunda sem carne”. Porém, a indústria de alimentos funcionais também enfrenta algumas dificuldades, principalmente no que tange ao estabelecimento de novos nichos de mercados, à dificuldade na obtenção de novos ingredientes em quantidade industrial e à morosidade na liberação do uso e da reivindicação de alegações funcionais junto aos órgãos competentes. Ainda assim, a questão essencial da viabilidade de um alimento funcional reside em sua aceitação consciente de consumo. Em países da Europa, por exemplo, o mercado de bebidas lácteas funcionais está saturado e os consumidores têm se deslocado para produtos como bebidas proteicas e águas funcionais (BALDISSERA et al., 2011). BALDISSERA, A. C. et al. Alimentos funcionais: uma nova fronteira para o desenvolvimento de bebidas proteicas a base de soro de leite. Semina: Ciências Agrárias, Londrina, v. 32, n. 4, p. 1497–1526, out./dez. 2011. Disponível em: http://www.uel.br/revistas/uel/index. php/semagrarias/article/view/5094. Acesso em: 19 out. 2020. BRASIL. 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