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Nutrição escolar

Compêndio sobre nutrição escolar: introdução; alimento no contexto social; hábitos na adolescência; transtornos alimentares; educação nutricional escolar; alimentação e desempenho (macronutrientes, ácidos gordos, hidratos de carbono); deficiências (ferro, zinco, iodo, B12) e suplementação; padrão alimentar, café da manhã, lanches, excesso de peso e atividade física.

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 Nutrição escolar 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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 Nutrição escolar 
SUMÁRIO 
 
INTRODUÇÃO À NUTRIÇÃO NO AMBIENTE ESCOLAR ................................. 3 
O ALIMENTO NO CONTEXTO SOCIAL ...................................................... 6 
HÁBITOS ALIMENTARES NA ADOLESCÊNCIA ............................................ 9 
TRANSTORNOS ALIMENTARES ........................................................... 12 
A ESCOLA E A EDUCAÇÃO NUTRICIONAL .............................................. 16 
ALIMENTAÇÃO, FATORES SÓCIO-ECONÓMICOS E DESEMPENHO ESCOLAR . 19 
Alimentação e função cerebral – mecanismos de ação ................................... 22 
Macronutrientes e desempenho escolar .................................................... 25 
Ácidos gordos ................................................................................... 25 
Hidratos de carbono ........................................................................... 27 
Micronutrientes e desempenho escolar ..................................................... 28 
Deficiência em ferro ............................................................................ 28 
Deficiência em zinco ........................................................................... 30 
Deficiência em iodo ............................................................................ 32 
Deficiência em vitamina B12 .................................................................. 33 
Outras deficiências nutricionais .............................................................. 34 
Suplementação em micronutrientes ......................................................... 35 
PADRÃO ALIMENTAR E DESEMPENHO ESCOLAR .................................... 36 
Pequeno-almoço ............................................................................... 37 
Efeitos da quantidade e qualidade ........................................................... 40 
Lanches ......................................................................................... 41 
EXCESSO DE PESO E DESEMPENHO ESCOLAR ...................................... 41 
ATIVIDADE FÍSICA E DESEMPENHO ESCOLAR ........................................ 42 
REFERÊNCIAS ................................................................................ 44 
 
 
 
 
 
 
 
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 Nutrição escolar 
 
INTRODUÇÃO À NUTRIÇÃO NO AMBIENTE ESCOLAR 
 
 
 
A alimentação é uma necessidade básica do ser humano e o ato de 
alimentar-se, embora possa parecer comum, envolve uma multiplicidade de 
aspectos que influenciam a qualidade de vida do indivíduo. Mais do que em 
qualquer época da história da humanidade, existe recentemente, uma gama 
enorme de informações sobre a alimentação adequada para o crescimento e 
desenvolvimento da criança e para a garantia de uma boa saúde futura 
(McBEAN; MILLER, 1999) e, no entanto, a obesidade constitui-se hoje num sério 
problema de saúde pública. O hábito alimentar de um indivíduo é de natureza 
bastante complexa e o seu estabelecimento implica numerosos fatores; porém, 
de um modo geral, o tipo de alimentação baseia-se na disponibilidade de 
alimentos, nos recursos econômicos e na capacidade de escolha das pessoas 
(ARANCETA, 1995). É principalmente na infância que os hábitos alimentares 
são formados. Esses hábitos, que tendem a se manter ao longo da vida, são 
determinados principalmente por fatores fisiológicos, sócio-culturais e 
psicológicos (PESSA, 2008). Existem vários outros fatores que influenciam o 
comportamento alimentar, entre eles, fatores externos como a unidade familiar 
e suas características, as atitudes de pais e amigos, os valores culturais e sociais 
e a influência da mídia. Há também os fatores internos tais como as 
necessidades e características psicológicas, a imagem corporal, os valores e 
experiências pessoais e as preferências alimentares (MELLO, et al., 2004). 
 
 
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 Nutrição escolar 
A família, primeira referência da criança, é a responsável pela transmissão 
da cultura alimentar. Em seu processo de socialização, a criança aprende sobre 
a sensação de fome e saciedade, desenvolve a percepção para os sabores e 
estabelece as suas preferências, iniciando a formação de seu comportamento 
alimentar (RAMOS; STEIN, 2000). O papel da família é fundamental, mas, as 
mudanças que vêm ocorrendo na dinâmica familiar e aquelas causadas pelo 
ritmo de vida moderno têm afetado a formação dos hábitos alimentares dos 
filhos. O costume, até há pouco tempo, da família reunida diariamente ao redor 
da mesa para o almoço ou jantar, parece ser cada vez mais raro. O fim das 
refeições em família leva à erosão do próprio conceito de refeição numa 
sociedade em que nas casas vigora o domínio dos microondas e no trabalho, na 
rua ou na diversão expandem-se as práticas de “fast food”, de beliscar petiscos 
e de lanches em lanchonetes, tais fenômenos simbolizam esta nova relação com 
os horários e os rituais da comida. (CARNEIRO, 2003). A consideração de tais 
aspectos é bastante relevante uma vez que a aquisição dos hábitos ocorre à 
medida que a criança cresce e vai até o momento em que ela própria escolhe os 
alimentos que farão parte da sua alimentação. Quando pequena, seu universo 
geralmente se restringe aos pais e a eles cabe determinar que alimentos serão 
ofertados à criança. 
À medida que passa a frequentar a escola e a conviver com outras 
crianças, a criança conhecerá outros alimentos, outras preparações e outros 
hábitos. Os adultos são modelos, delineando as preferências alimentares das 
crianças. Os vínculos afetivos poderão influenciar positiva ou negativamente na 
fixação dos padrões de consumo alimentar (FISBERG, et al., 2000). Os fatores 
externos interagem com as necessidades e características psicológicas, com a 
imagem corporal, com os valores e experiências pessoais e com as preferências 
alimentares (MELLO, et al., 2004). Outra importante influência sobre os hábitos 
alimentares é exercida pela mídia que, de maneira geral, também procura 
determinar comportamentos e escolhas alimentares de crianças e jovens. Assim 
algumas propagandas veiculadas utilizam vários recursos para conseguir ditar 
uma verdadeira “cultura alimentar” (SILVA; PIPITONE, 1994). Em relação à 
televisão, por exemplo, pode-se observar que ela exerce impacto decisivo nos 
hábitos de consumo. A televisão é considerada o meio de comunicação com 
maior capacidade de influência sobre os adolescentes, não só pela sua 
 
 
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 Nutrição escolar 
popularidade como também pelo tempo que os jovens despendem junto ao 
aparelho de TV. Pesquisas têm apontado um aumento perceptível do tempo 
gasto com o hábito de assistir TV. Nos Estados Unidos, adolescentes assistem 
em média 22h de televisão por semana, sendo o tempo gasto com a TV muitas 
vezes maior do que o tempo utilizado com qualquer outra atividade de lazer 
(REATO, 2001). No Brasil, estudo realizado por Silva e Malina (2000) aponta 
para dados ainda mais preocupantes – cerca de 4,4 a 4,9 horas por dia são 
gastas pelos adolescentes diante da televisão, um valor bem acima da média 
americana. Pelo tempo despendido pode-se avaliar a quantidade de 
propagandas a que esses jovens assistem, entre as quais aquelas que podem 
influenciar comportamentos relacionados com a alimentação. 
De acordo com Boog 
(1999), a educação nutricional 
tem grande importância em 
relação à promoção de hábitos 
alimentares saudáveis desde a 
infância. Nesse contexto, é 
imperativo o estabelecimento 
de uma educação alimentar, 
que deveter início desde a infância, como forma de oferecer elementos que 
permitam ao indivíduo avaliar suas verdadeiras demandas. A educação 
alimentar é especialmente relevante quando se considera outra questão de 
extrema importância, muito discutida nos últimos anos; a realidade do aumento 
da obesidade infantil e juvenil, que determina muitas complicações de saúde 
tanto na infância quanto na idade adulta (MELLO, et al., 2004). Porém, não só a 
obesidade infantil e juvenil é motivo de preocupação. Atualmente tem ocorrido 
um grande aumento de outros casos de transtornos alimentares tais como a 
anorexia nervosa e a bulimia nervosa que são definidos como doenças 
psiquiátricas caracterizadas por graves alterações do comportamento alimentar 
e que afetam, em sua maioria, adolescentes e adultos jovens do sexo feminino 
e podendo originar prejuízos biológicos, psicológicos, morbidade e mortalidade 
(BORGES, et al. 2006). Por todas estas questões, a relação entre alimentação 
e saúde atualmente tem se destacado, como objeto de pesquisa e de debate em 
áreas ligadas à saúde, considerando-se os grandes riscos que uma alimentação 
 
 
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 Nutrição escolar 
incorreta representam para a qualidade de vida das pessoas (SANTOS, 2002). 
O papel da educação alimentar e nutricional está vinculado à produção e 
assimilação de informações que sirvam de subsídios para auxiliar a tomada de 
decisões dos indivíduos (SANTOS, 2005). A educação alimentar e nutricional 
assume especial relevância principalmente na adolescência, período no qual os 
fatores externos e internos interagem fortemente e o indivíduo começa a exercer 
com mais autonomia as suas escolhas alimentares. Buscando aprofundar as 
questões suscitadas na pesquisa de mestrado “Consumo alimentar de alunos 
nas escolas de ensino fundamental em Ribeirão Preto (SP)”, realizada pela 
pesquisadora em 2004, no Departamento de Medicina Social da Faculdade de 
Medicina de Ribeirão Preto (USP), este estudo pretende discutir aspectos 
relacionados à educação alimentar e nutricional, analisando como essa 
educação pode ser realizada dentro da escola, por meio da implementação de 
um Programa de Educação Alimentar e Nutricional. A escolha do espaço escolar 
se justifica por ser a escola um local com finalidades educativas e formadoras, 
pelo qual passam todas as crianças e jovens do país e no qual permanecem um 
período de seu dia e grande parte de sua vida. Nas escolas os estudantes, na 
sua maioria, consomem alimentos, refletindo e compartilhando hábitos, 
preferências, modismos e comportamentos alimentares. 
 
O ALIMENTO NO CONTEXTO SOCIAL 
 
A discussão sobre alimentação no contexto social é importante para a 
compreensão da dimensão que ela assume na vida das pessoas, uma vez que 
o ato de se alimentar inclui não apenas a ingestão alimentos, mas está 
relacionado, entre outros, a aspectos sociais, emocionais e culturais. Vários 
autores abordaram as relações entre os diferentes aspectos que fazem parte do 
ato de se alimentar. De acordo com Carneiro (2003), o ato de se alimentar - 
primeira necessidade do homem - também é considerado um prazer, o que 
revela a dupla natureza da alimentação. Como a respiração e o sono, o alimento 
faz parte das necessidades humanas mais básicas e é também a expressão dos 
nossos desejos. Além de ser uma necessidade biológica, a alimentação inclui 
um complexo sistema simbólico de significados sociais, políticos, religiosos, 
 
 
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 Nutrição escolar 
éticos, entre outros. Para Alvarenga (2004), nas diferentes sociedades o 
alimento é cheio de simbologias e carregado de significados diversos para as 
culturas, famílias e indivíduos. O ato de comer envolve muito mais do que 
selecionar o mais saudável, o mais acessível, o mais barato; envolve também o 
prazer, a lembrança, a relação com algo ou alguém. Assim, é preciso entender 
a alimentação dentro de um contexto muito mais amplo e compreender as razões 
para as pessoas comerem além da sensação de fome. Por exemplo, nem 
sempre o alimento é oferecido ou ingerido para saciar uma necessidade 
biológica. Em várias culturas existem comemorações que incluem momentos de 
compartilhar alimentos juntamente com outras emoções. Segundo Cobelo 
(2004), os alimentos e o ato de comer estão associados a múltiplas 
circunstâncias significativas do ponto de vista emocional. O processo de 
alimentação e nutrição tem importância não só nos aspectos fisiológicos, mas 
também no desenvolvimento psicossocial do indivíduo, interferindo nos 
conteúdos relacional e emocional. A questão emocional da alimentação também 
é apontada por Sant’anna (2003), em estudo enfocando o que ela chama de 
espetáculo contemporâneo da alimentação. Espaço de todos os medos e, 
também de todos os prazeres. Lugar de grandes compensações. A comida 
abriga hoje muitos amores e obsessões, mas também rancores e ódios 
inesgotáveis. Ela tanto divide e isola opiniões ou grupos, como ela pode 
reintegrar socialmente pessoas e povos. 
A alimentação não é um ato solitário, mas sim uma atividade social, 
envolvendo várias pessoas desde a produção de alimentos, passando pelo seu 
preparo e culminando no próprio ato de comer, ocasião para criar e manter 
formas ricas de sociabilidade. A dimensão afetiva da alimentação engloba a 
relação com o outro e está presente, por exemplo, nas refeições familiares, nos 
momentos de encontro, de troca de informações, de convívio. O aspecto estético 
da alimentação é outro fator importante observado na exposição da comida à 
mesa, na riqueza de formas, cores e odores (ROMANELLI, 2006). Garcia (1999), 
em trabalho realizado sobre mudanças na cultura alimentar, afirma que o 
comportamento alimentar inclui aquilo que comemos, como comemos, com 
quem comemos, onde comemos, quando comemos, por que comemos, em 
quais situações comemos e o que pensamos e sentimos com relação ao 
alimento. Assim, é necessário considerar que a manifestação do comportamento 
 
 
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 Nutrição escolar 
alimentar não é orientada exclusivamente pela razão, mas inclui componentes 
socioculturais e está intimamente relacionada aos aspectos psicológicos. 
Castell (2004) aponta que o comportamento alimentar do ser humano não 
se resume à mera ingestão de alimentos, ou seja, comer para o homem não é 
apenas nutrir o corpo. De acordo com este autor, comemos não apenas para 
manter as atividades vitais, mas recorremos às refeições como forma de obter 
prazer, propiciar a convivência e conter determinadas ansiedades. Por isso, a 
alimentação é um processo complexo, que ultrapassa a necessidade biológica e 
recebe influência de vários fatores sociais, culturais, geográficos, religiosos ou 
afetivos. Vista como necessidade e prazer, a alimentação reveste-se de 
significados múltiplos, passando a fazer parte de identidades regionais, 
nacionais, éticas e religiosas (CARNEIRO, 2003). Segundo Philippi e Alvarenga 
(2004), o homem tem uma importante relação emocional e social com o alimento, 
ou seja, o alimento apesar de 
ser fonte de energia e 
nutrientes não é apenas um 
“combustível” para o ser 
humano. Romanelli (2006), 
afirma ser a comida uma 
categoria relevante por meio 
da qual as sociedades constroem representações sobre si próprias, definindo 
sua identidade em relação a outras. Assim, a alimentação é usada como veículo 
de sociabilização, porque facilita a relação entre as pessoas. Qualquer evento 
social contém um componente alimentar conferindo-lhe relevância e identidade 
própria. Na cultura ocidental, não faltam docinhos nas festas de batizado, bolo 
de aniversário, peru e panetone no Natal e bacalhau na Sexta-Feira Santa. Todo 
acontecimento pode servir de motivo para reunir as pessoas ao redor de umamesa (CASTELL, 2004). É interessante observar que, no mundo todo, existem 
livros, filmes e músicas inspirados em simbologias e significados da comida, do 
preparo de alimentos e do ato de se alimentar. Como exemplo pode-se citar o 
livro Afrodite, (2002), da escritora chilena Isabel Allende, no qual a autora 
discorre sobre a alimentação e significados dos alimentos para as pessoas e 
culturas. Em um dos trechos do livro, a escritora diz que a comida também entra 
pelos olhos - há alimentos tão belos que não é preciso talento para preservar 
 
 
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 Nutrição escolar 
sua beleza; já outros, como um pedaço de fígado, precisam de ajuda para 
dissimular seu aspecto. No mesmo livro, a escritora avalia quão difícil é 
diferenciar um sabor de um aroma de um alimento porque eles estão 
relacionados a lembranças. Além disso, parte essencial do sabor reside em 
outros sentidos, como a visão, o olfato, o tato e até a audição. Outro exemplo é 
o filme A festa de Babete, no qual a câmera realiza um vai e vem entre a cozinha, 
local onde se preparam os pratos, e a sala de jantar, onde os rostos severos dos 
personagens vão mudando à medida em que o vinho e os alimentos se 
apoderam de seus sentidos. Estes exemplos e outros mostram a comida usada 
como um presente e até como estratégia de sedução. Ela transmite significados 
metafóricos e é por si só uma linguagem que expressa diferentes significados 
como carinho, atenção e afeto. Dessa forma, no enfoque social é difícil 
estabelecer, na análise da alimentação, uma separação entre os aspectos 
essencialmente sociais e aqueles que conferem dimensões simbólicas 
presentes ao ato de se alimentar. 
 
HÁBITOS ALIMENTARES NA ADOLESCÊNCIA 
 
A adolescência é o período de transição entre a infância e a vida adulta, 
marcado por intensas mudanças corporais da puberdade e pelos impulsos dos 
desenvolvimentos emocional, mental e social (EISENSTEIN et al., 2000). A 
puberdade, processo de desenvolvimento físico de uma criança em adulto, é 
viabilizada pela atuação de neurotransmissores (excitatórios e inibitórios) sobre 
o hipotálamo e inclui a maturação do corpo todo. 
É esse também é o momento em 
que a taxa de crescimento experimenta 
um grande aumento, com o adolescente 
chegando a ganhar cerca de 20% de 
altura e 50% do peso de adulto durante 
este período (SPEAR, 2002). Essa 
maturidade para a vida reprodutiva vem 
ocorrendo cada vez mais precocemente na história da humanidade e, dentre os 
fatores apontados como responsáveis por esse fenômeno, está a melhora do 
 
 
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aspecto nutricional (e de saúde) das populações no século XX. Outro fator que 
pode estar envolvido é a natureza dos alimentos consumidos pelas pessoas 
durante a infância: com o aumento do consumo de carne (“in natura” ou em forma 
de embutidos), as pessoas, eventualmente, poderiam apresentar uma ingestão 
elevada de hormônios esteróides nessa (e em outras) fase da vida. Segundo 
critérios propostos pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a adolescência 
é cronologicamente, o período da vida que vai dos 10 anos aos 19 anos, 11 
meses e 29 dias (CARVALHO et al., 2001). No que se refere ao desenvolvimento 
da personalidade, Salles (1998) aponta que, nessa fase, o jovem busca uma 
maior independência em relação à família e estabelece ligações mais fortes com 
o grupo de amigos, procurando definir novos modelos de comportamento e de 
identidade. Essa busca por maior independência tem reflexos em vários 
aspectos da vida dos adolescentes e nas escolhas que ele vai realizar, dentre 
as quais se destacam os amigos, o vestuário, o lazer e o seu comportamento 
alimentar. De acordo com Juzwiak et al. (2000), a escolha de alimentos é uma 
das situações nas quais os jovens podem mostrar sua determinação e expressar 
suas preferências. De acordo com Kazapi et al. (2001), o adolescente parece 
estar em conflito consigo e com o mundo e esse comportamento se reflete 
também no perfil alimentar. As grandes mudanças físicas que ocorrem com o 
adolescente levam a uma profunda valorização de sua imagem corporal, 
podendo até mesmo afetar os hábitos alimentares (ALBANO, 2000). 
No que se refere aos hábitos alimentares de adolescentes, estudos 
mostram que eles preferem uma alimentação rápida e monótona (“fast food”), 
constituída de alimentos bem difundidos no grupo e que são da “moda” (KAZAPI 
et al., 2001). A esse respeito, pesquisa realizada na Inglaterra, com 2672 
crianças e jovens com idades entre 4 a 18 anos, verificou que mais de 80% dos 
participantes referiu como os alimentos mais frequentemente consumidos o pão 
branco, a batata-frita, os biscoitos, o purê de batata e o chocolate. A pesquisa 
também revelou uma baixa ingestão de vegetais folhosos e de fontes de vitamina 
A, cálcio, magnésio, potássio e zinco (GREGORY et al. 2000). Outro problema, 
segundo Fisberg et al. (2000) é que alguns adolescentes costumam omitir 
refeições especialmente o café da manhã, o que pode influenciar no seu 
rendimento escolar. De acordo com os autores, há estudos demonstrando que 
no Brasil o almoço e o jantar são substituídos por lanches, principalmente 
 
 
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 Nutrição escolar 
quando esse é o hábito alimentar de muitas famílias. O adolescente, 
normalmente “preguiçoso”, não gosta de muitos esforços e isso o levaria a 
buscar uma alimentação facilitada, com excesso de comidas prontas, 
sanduíches, salgadinhos e bolacha. A esses maus hábitos alimentares pode-se 
acrescentar ainda o agravante de que muitos adolescentes não praticam 
nenhum tipo de atividade física, restringindo o seu lazer à televisão, ao 
videogame ou ao computador. Quando se considera a realidade de tal quadro 
diante das necessidades nutricionais nesse período da vida, pode-se avaliar as 
consequências a longo prazo para a saúde e para a constituição física do 
adolescente. De modo geral, existe diferença significativa entre o consumo 
alimentar ideal recomendado e o consumo alimentar efetivo dos adolescentes. 
A investigação das causas dessa diferença é uma questão extremamente 
importante porque ela parece não estar necessariamente relacionada à falta de 
informação sobre o assunto. Segundo Fisberg et al. (2000), uma grande 
porcentagem de jovens ingere regularmente “salgadinhos” e outros alimentos 
ricos em gordura e açúcares simples entre as refeições, em desacordo com as 
recomendações nutricionais, ou seja, apesar de estar bem informada sobre os 
princípios de uma alimentação equilibrada, tem atitudes que não correspondem 
ao conhecimento adquirido. Esses dados são corroborados por Cintra e Fisberg, 
(2004), que apontam como hábitos alimentares típicos dos adolescentes, nos 
últimos anos, o frequente apego à alimentação comprovadamente inadequada, 
assim como o uso de alimentos de fácil preparo e a omissão de refeições, 
aumentando o risco nutricional nessa faixa etária. Um outro aspecto a ser 
considerado, já apontado por Fisberg (2000), em trabalho citado anteriormente, 
é a relação entre alimentação inadequada e baixo rendimento na escola. Nesse 
sentido, estudo feito por Alaimo et al. (2001), em crianças e adolescentes até os 
16 anos de idade, aponta problemas relacionando alimentação e desempenho 
na escola, sendo que os alunos com deficiências alimentares em sua maioria 
eram também aqueles que tinham pior desempenho escolar e dificuldades no 
relacionamento com colegas da mesma idade. Para os autores as carências 
alimentares na infância podem causar deficiências de aprendizagem e 
problemas psicossociais nessa faixa etária. Como se vê, hábitos alimentares 
inadequados podem gerar sérias consequências tanto físicas quanto 
psicológicas, afetando a saúde e a qualidade de vida de crianças e jovens.Não 
 
 
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 Nutrição escolar 
só a deficiência alimentar representa um problema porquanto a obesidade e os 
transtornos alimentares também têm sido frequentemente reportados em 
estudos envolvendo esse segmento da população, o que vem ao encontro da 
necessidade de se conhecer melhor o assunto. Segundo Muller, (2001), a 
adolescência é apontada como um dos momentos críticos para o aparecimento 
da obesidade, não só pelo aumento de gordura no tecido adiposo, mas em 
função do próprio aumento do número de células que ocorre nesta fase da vida. 
Dados da década passada já apontavam o Brasil como um país em transição 
nutricional em razão da crescente prevalência de obesidade e de doenças 
crônicas (DOYLE; FELDMAN, 1997). Realmente, o aumento da frequência do 
excesso de peso é preocupante, pois está associado a vários fatores de risco 
para doenças metabólicas e cardiovasculares que afetam o indivíduo na fase 
adulta (GAMBA; BARROS FILHO, 1999). Tanto o consumo excessivo quanto a 
ingestão insuficiente de alimentos podem causar danos para a saúde e podem 
levar os adolescentes a desenvolverem uma série de doenças na idade adulta. 
A preocupação com uma boa alimentação na adolescência é fundamental para 
garantir uma boa saúde da população. Para Burgess-Champoux et al. (2006), o 
desenvolvimento de hábitos alimentares saudáveis na infância tem uma grande 
chance de se traduzir em hábitos alimentares saudáveis na vida adulta. Por isso 
é tão fundamental ensinar e incentivar a alimentação correta para as crianças e 
para os adolescentes. Como já mencionado anteriormente, além da obesidade, 
outras doenças como a anorexia nervosa e a bulimia nervosa também têm sido 
frequentes entre os jovens e têm causado muita preocupação por serem 
doenças graves com sérias consequências para a saúde. 
 
TRANSTORNOS ALIMENTARES 
 
Na época contemporânea, principalmente nas últimas décadas, 
aconteceram transformações globais nos padrões alimentares com importantes 
consequências sociais. Paradoxalmente, o aumento das populações subnutridas 
foi acompanhado pela ampliação da alimentação excessiva nas sociedades 
ocidentais. A obesidade tornou-se um problema de saúde pública, enquanto a 
anorexia nervosa e a bulimia nervosa são doenças que revelam explicitamente 
 
 
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a infelicidade em relação à alimentação. A prática de regimes alimentares é cada 
vez mais frequente nas populações que estão preocupadas obsessivamente 
com a imagem do corpo e com princípios de um comportamento alimentar 
saudável (CARNEIRO, 2003). Buscando esse novo ideal de corpo e a 
adequação à nova realidade alimentar, algumas pessoas chegam a extremos 
que podem levar a transtornos alimentares, nos quais o padrão e o 
comportamento alimentares estão seriamente comprometidos e são difíceis de 
serem clinicamente tratados e revertidos (ALVARENGA, 2004). De acordo com 
Cordás, et al. (2004), os transtornos alimentares são doenças psiquiátricas que 
afetam, na sua maioria, adolescentes e adultos jovens do sexo feminino, 
podendo levar a grandes prejuízos biológicos e psicológicos e aumento da 
morbidade e mortalidade. Entre os principais transtornos alimentares estão a 
anorexia nervosa e a bulimia 
nervosa. 
A anorexia nervosa, na 
maior parte dos casos, é 
caracterizada por grande perda de 
peso à custa de dieta 
extremamente rígida, pela busca desenfreada da magreza, pela distorção 
grosseira da imagem corporal e por alterações no ciclo menstrual. A bulimia 
nervosa, cuja principal característica psicológica é a excessiva preocupação com 
o peso corporal, é caracterizada por grande e rápida ingestão de alimentos com 
sensação de perda de controle alimentar, os chamados episódios bulímicos, 
acompanhados de métodos compensatórios inadequados para o controle de 
peso, como vômitos auto-induzidos, uso de medicamentos, dietas e exercícios 
físicos (CORDÁS, et al. 2004). Segundo Araújo (2004), a anorexia e a bulimia 
não são situações opostas, mas duas faces de um mesmo problema. 
Concordando neste aspecto, Borges et al. (2006), consideram que essas duas 
doenças estão intimamente relacionadas por apresentarem alguns sintomas 
comuns, como a idéia prevalente envolvendo a preocupação excessiva com o 
peso, distorção grosseira da imagem corporal e um enorme temor de engordar. 
Ainda, de acordo com os mesmos autores, existe uma tendência ao aumento da 
incidência dessas doenças, por um lado porque os diagnósticos realizados pelos 
profissionais da saúde têm sido mais precisos e, por outro, pela apologia atual 
 
 
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do culto ao “corpo perfeito”, um ideal inatingível para a maior parte das pessoas. 
Há um entendimento generalizado de que as causas da anorexia e da bulimia 
nervosas são decorrentes de origem multifatorial, uma vez que nenhum fator 
etiológico isolado parece ser suficiente para provocar o desenvolvimento da 
doença, ou ser capaz de explicar sua variação entre os indivíduos. O 
estabelecimento e a persistência da doença dependerão da ocorrência de 
circunstâncias que ativem a vulnerabilidade do indivíduo a fatores de risco e da 
atuação de fatores de proteção (NUNES; PINHEIRO, 1998). Para Romanelli 
(2006), nos dias atuais, a anorexia nervosa, a bulimia nervosa e a obesidade são 
doenças que explicitam que a relação das pessoas com a comida é mediada por 
um complexo sistema simbólico que organiza as escolhas alimentares. Embora 
os transtornos alimentares afetem principalmente adolescentes e adultos jovens 
do sexo feminino, o perfil dos portadores tem se tornado cada vez mais 
heterogêneo, com um número cada vez maior de adolescentes do sexo 
masculino apresentando sintomas da doença. A explicação para tal fato é a de 
que os adolescentes seriam muito mais vulneráveis às influências externas, 
apresentando, portanto, maior risco de apresentar distorção de imagem corporal 
e problemas graves relacionados à alimentação. Para a faixa etária dos 
adolescentes, o desenvolvimento de uma imagem corporal - a imagem do próprio 
físico que inclui um corpo adulto - é uma tarefa intelectual e emocional mesclada 
com considerações nutricionais. Nessa idade as pessoas frequentemente se 
sentem desconfortáveis com seus corpos e o desejo de alterar sua taxa de 
crescimento ou suas proporções corpóreas pode levá-los a manipular a 
alimentação causando consequências negativas para a saúde (SPEAR, 2002). 
Vilela et al. (2004) investigaram a frequência de possíveis transtornos 
alimentares e comportamentos alimentares inadequados em crianças e 
adolescentes de seis cidades do interior de Minas Gerais. A amostra final foi de 
1807 alunos de escolas públicas, entrevistados, sendo 887 (49,1%) do sexo 
masculino e 920 (50,9%) do sexo feminino, com idades entre 7 e 19 anos. Na 
análise dos dados foram aplicadas as auto-escalas BITE (Teste de Investigação 
Bulímica de Edinburgh), EAT (Teste de Atitudes Alimentares) e Teste de Imagem 
Corporal. De acordo com a auto-escala BITE, 1,1% dos estudantes apresentou 
escore compatível com bulimia nervosa. Segundo a auto-escala de EAT, 13,3% 
dos alunos apresentaram possíveis transtornos de alimentação, com 
 
 
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 Nutrição escolar 
predominância significativa naqueles do sexo feminino. Além disso, 59% dos 
participantes estavam insatisfeitos com sua imagem corporal. Poucos são os 
estudos sobre transtornos alimentares em crianças e adolescentes, 
principalmente em populações de países em desenvolvimento. Estudos dessa 
natureza são necessários porque os resultados obtidos até agora evidenciam 
que existe uma alta prevalência de possíveis transtornos, situação semelhante 
à encontradaem países considerados desenvolvidos. Tal situação precisa ser 
melhor investigada na busca de soluções que minimizem os efeitos causados 
por esses transtornos. Os transtornos alimentares são enfermidades muito 
complexas, sendo que o aumento dos casos de anorexia nervosa e bulimia 
nervosa nos últimos anos é atribuído basicamente a fenômenos sociais e 
culturais relacionados com valores estéticos de extrema magreza, difundidos 
pela indústria da moda e pela mídia. As mulheres, principalmente as 
adolescentes, se sentem pressionadas a castigar o próprio corpo para obter uma 
imagem delgada que se associe ao triunfo profissional e social, bem como ao 
sucesso entre os homens (CASTELL, 2004). Ainda de acordo com o mesmo 
autor, a mídia ensina e incentiva as adolescentes a ter um corpo magro, 
vendendo esse padrão como o ideal de beleza, e propagando diversas maneiras 
para obter um corpo perfeito por meio de dietas, prática de exercícios, uso de 
cosméticos e até a realização de cirurgias plásticas, banalizadas e oferecidas 
livremente na TV com pagamento em “suaves” prestações mensais. 
Já há algum tempo os pesquisadores têm afirmado que os transtornos 
alimentares constituem síndromes vinculadas à cultura e que não podem ser 
compreendidos fora de seu contexto cultural específico, principalmente porque 
as mulheres mostram-se muito preocupadas com sua aparência e com a 
aprovação dos outros. Em uma sociedade onde a magreza é valorizada e a 
mulher magra é considerada atraente, especialmente os jovens, na formação de 
sua identidade, são vulneráveis, a todos os estímulos para obter esse padrão de 
beleza em consequência de sua insatisfação com a própria aparência (NUNES; 
PINHEIRO 1998). De acordo com Alessi (2006), um forte papel nesse sentido 
vem sendo desempenhado pela televisão e por publicações direcionadas 
principalmente ao público feminino pela divulgação do consumo de alimentos 
light e diet, e adoção de dietas da moda propagandeadas por personalidades 
famosas. Veiculam um preocupante comportamento de resistência a certos tipos 
 
 
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 Nutrição escolar 
de alimentos, comportamento esse popularizado pela silhueta das modelos e 
manequins e pelas suas condutas orientadas pelo narcisismo que tem convertido 
o físico num símbolo de representação da própria personalidade. Nunes e 
Pinheiro (1998), entendem que, ao encorajarem dietas restritivas e a exclusão 
de determinados alimentos no consumo diário, os próprios pais podem aumentar 
o risco de que seu filho desenvolva transtornos alimentares. Como os transtornos 
alimentares se iniciam em geral na fase escolar, a prioridade deve ser 
desenvolver intervenções efetivas para esse grupo etário e nesse sentido, a 
educação alimentar e nutricional é fundamental para orientar e formar um 
comportamento alimentar sadio, principalmente entre os adolescentes, 
alertando-os sobre os sérios riscos dos transtornos alimentares e estimulando e 
valorizando a prática de comportamentos saudáveis. 
 
A ESCOLA E A EDUCAÇÃO NUTRICIONAL 
 
A educação nutricional e educação para o consumo são instrumentos 
específicos que possibilitam uma interpretação mais correta da oferta em favor 
de uma escolha racional para uma alimentação agradável, suficiente e adequada 
(FIELDHOUSE, 1986). Um indivíduo que tem conhecimento do que consome na 
sua alimentação e pode fazer escolhas que sejam mais conscientes, certamente 
será alguém mais saudável. Nesse sentido, existe uma relação muito estreita 
entre educação e saúde, sendo que os programas de educação em saúde 
direcionados para jovens são, em geral, realizados dentro das escolas. Embora 
educar para a saúde seja responsabilidade de diferentes segmentos, a escola é 
instituição privilegiada, que pode se transformar num espaço genuíno de 
promoção da saúde (BRASIL, 1998). 
 
 
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 Nutrição escolar 
 
Na escola, onde crianças e jovens passam grande parte de seu dia, as 
ações de orientação de promoção da saúde constituem importante meio de 
informação. A escola, local onde vivem, aprendem e trabalham muitas pessoas, 
é um espaço no qual programas de educação e saúde podem ter grande 
repercussão, atingindo os estudantes nas etapas influenciáveis de sua vida, 
quais sejam, a infância e adolescência (BRASIL, 2002). É também na escola que 
muitos alunos fazem suas refeições, realizando escolhas que revelam suas 
preferências e hábitos alimentares. A concepção da sociedade a respeito de 
saúde sempre esteve presente, de algum modo e em algum grau na sala de aula 
e no ambiente escolar (BRASIL, 1998). Assim, as questões relacionadas à saúde 
vinham sendo tratadas por diferentes disciplinas escolares até que, em 1971, a 
lei 5692 introduziu formalmente a temática de saúde no currículo escolar, como 
“Programa de Saúde”. De acordo com essa legislação, Programas de Saúde não 
deveriam ser trabalhados como disciplina, mas por meio de atividades que 
contribuíssem para a formação de condutas e para a aquisição de 
conhecimentos e valores capazes de incentivar comportamentos que levassem 
os alunos a tomar atitudes corretas no campo da saúde. (BRASIL, 1998). No 
final dos anos 90, época da elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais 
(PCN): temas transversais (BRASIL, 1998), a avaliação da situação do ensino 
de saúde considerou este tema como ainda predominantemente centrado nos 
seus aspectos biológicos. Os conteúdos de saúde foram então prioritariamente 
trabalhados dentro da disciplina Ciências Naturais, com uma abordagem focada 
 
 
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 Nutrição escolar 
na transmissão de informações sobre doenças, seus ciclos, sintomas e 
profilaxias. Nos dias atuais, passados mais de dez anos, da elaboração dos 
PCNs, estudos ainda comprovam que essa situação permanece inalterada. O 
ensino de saúde na escola ainda é centrado nos aspectos biológicos e também 
ainda é, principalmente, trabalhado nos conteúdos de Ciências Naturais. De 
acordo com os PCNs, os alunos vivenciam na escola situações que lhes 
possibilitam valorizar conhecimentos, práticas e comportamentos saudáveis ou 
não, o que indica que os espaços escolares e as atitudes cotidianas praticadas 
dentro da escola tanto podem desenvolver atitudes voltadas para a saúde como 
podem ignorá-las. Um Fórum Nacional sobre Promoção da Alimentação 
Saudável e Prevenção da Obesidade na Idade Escolar foi realizado em 2003 
pela Associação Brasileira para Estudo da Obesidade (ABESO), na cidade de 
São Paulo, reunindo representantes de entidades científicas, associações 
profissionais, especialistas na área de Nutrição e membros do poder legislativo, 
executivo e judiciário para discutir formas de melhorar a qualidade da 
alimentação da criança em idade escolar (HALPERN, 2003). Dentre as 
considerações e conclusões, os participantes apontaram a Escola como local 
onde o trabalho de prevenção pode e deve ser realizado, uma vez que as 
crianças fazem pelo menos uma refeição diária naquele espaço. Além disso, 
enfatizaram que a educação nutricional e alimentar pode ser trabalhada em 
todas as disciplinas escolares. 
Tal conclusão é coerente com a concepção da transversalidade desse 
tema, assumida pelos PCNs. Na concepção de Ochsenhofer et al. (2006), a 
escola deve ser o melhor espaço de oportunidades para prevenir a má-nutrição 
por uma série de motivos, dentre os quais a possibilidade de, nesse ambiente, 
ser viável o trabalho relativo à educação nutricional e alimentar e pela 
possibilidade de a criança e do adolescente se tornarem agentes de mudanças 
na família. Cabe destacar, ainda, que o papel da escola vem se tornando cada 
vez mais importante na formação de hábitos saudáveis. Nesse ambiente, deve 
haver espaço para educadores e alunos discutirem questõessobre alimentação 
e saúde. Quando entram para a escola as crianças trazem concepções e 
comportamentos relacionados à saúde, aprendidos na família, em seus grupos 
de relação direta e com a mídia. Torna-se, então, necessário que esses 
conhecimentos sejam levados em conta quando se trabalha com educação 
 
 
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 Nutrição escolar 
alimentar e nutricional, devendo essa prática ter início já na educação infantil, 
podendo a escola proporcionar uma alimentação balanceada e variada, 
introduzindo desde a infância hábitos saudáveis. No ensino fundamental, temas 
de nutrição podem ser trabalhados a partir do tema transversal Saúde, conforme 
apontam os PCNs, principalmente, nos anos finais do ensino fundamental, época 
em que os alunos são pré-adolescentes e iniciam suas escolhas pessoais tendo 
maior autonomia em relação aos alimentos que consomem. 
 
ALIMENTAÇÃO, FATORES SÓCIO-ECONÓMICOS E DESEMPENHO 
ESCOLAR 
 
A má nutrição está tipicamente associada a privações sociais e culturais, 
ocorrendo muitas vezes num contexto de pobreza – que por si só está associada 
a déficits no desempenho cognitivo e motor – de deficiência de prestação de 
cuidados e em famílias caracterizadas por múltiplos fatores de stress que podem 
interferir com o desenvolvimento saudável da criança. Assim, a etiologia dos 
problemas de desenvolvimento cognitivo e motor tem contribuições tanto de 
fatores nutricionais como ambientais, em sinergismo, mas ambos parecem ter 
impactos independentes no desempenho cognitivo. Há uma forte relação entre 
as carências alimentares e a classe sócio econômica, mas esta relação não é 
absoluta. Alguns estudos têm sugerido que a insuficiência alimentar tem efeitos 
no desenvolvimento educacional e psicossocial, independentemente da ingestão 
nutricional e da classe sócio econômica, e que está significativamente e 
consistentemente associada a problemas de saúde e comportamentais, a menor 
funcionamento cognitivo, a menor assiduidade e a menor sucesso escolar. 
 
ALIMENTAÇÃO E INTELIGÊNCIA 
 
 
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 Nutrição escolar 
 
O maior determinante do desempenho escolar é a inteligência. Esta 
componente, que pode ser medida pelo Quociente de Inteligência (QI), tem sido 
amplamente estudada há já vários anos, tendo-se mostrado que a inteligência é 
influenciada tanto por fatores genéticos como por fatores ambientais. A evidência 
demonstra que numerosos genes no cromossoma X afetam a inteligência, e que 
as principais capacidades mentais (verbais, espaciais, velocidade e precisão de 
percepção e memória) têm grandes influências hereditárias, sugerindo 
inclusivamente uma associação positiva entre o QI da criança e o QI da mãe. A 
influência ambiental parece ser mais modesta, mas também tem um impacto 
significativo na inteligência. A má nutrição, para além de interferir com a saúde 
em geral, interfere com os níveis de energia da criança e com a taxa de 
desenvolvimento motor e cerebral, pelo que o perímetro cefálico é a medida 
antropométrica mais sensível à subnutrição prolongada durante a infância e 
reflete o desenvolvimento cerebral. A subnutrição moderada pode mesmo ser 
suficiente para afetar negativamente o QI e os resultados acadêmicos a longo 
prazo. O tamanho cerebral e a inteligência parecem estar relacionados 
positivamente, embora os fatores genéticos e ambientais possam também afetar 
esta relação. A pobreza e a privação são outros fatores ambientais que parecem 
estar negativamente associados à inteligência, exacerbando os efeitos negativos 
da má nutrição supracitados, especialmente quando as mães têm baixos níveis 
de escolaridade. O peso à nascença também parece associar-se positivamente 
e significativamente ao QI das crianças mas não parece explicar a variação de 
QI. 
 
 
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 Nutrição escolar 
 
ALIMENTAÇÃO E COMPORTAMENTO 
 
As evidências sugerem fortemente 
que as deficiências nutricionais podem 
levar a problemas comportamentais, 
independentemente do ambiente social e 
de fatores psicológicos, pelo que, segundo 
estudos realizados em escolas que 
implementaram programas de alimentação 
escolar, a melhoria da ingestão nutricional 
das crianças parece resultar em benefícios bastante significativos no 
comportamento. Algumas crianças, mesmo de países industrializados, têm o seu 
comportamento afetado por carências nutricionais, predispondo-as a 
comportamentos anti-sociais(21), incluindo a disciplina na sala de aula, a 
interação com os colegas e o seu bem-estar emocional, inclusivamente ao nível 
da ansiedade, depressão e motivação. Parece haver também uma relação entre 
a má nutrição e os comportamentos de exteriorização, como a agressividade, 
problemas de conduta e a hiperatividade. Todas estas relações devem-se 
possivelmente ao fato de as deficiências nutricionais poderem comprometer o 
funcionamento cognitivo que afeta o controle dos impulsos ou a capacidade de 
aprender com os erros. Por outro lado, o fato de as deficiências nutricionais 
poderem levar ao insucesso escolar, por si só aumenta o risco de desenvolver 
estes comportamentos. A omissão do pequeno-almoço pode também ter efeitos 
negativos discutidos adiante. Várias deficiências de nutrientes ou de 
combinações de nutrientes podem ter efeitos no comportamento. A deficiência 
em ferro é talvez a mais investigada e tem vindo a ser associada a problemas de 
aprendizagem e de comportamento, incluindo a hiperatividade. A deficiência em 
ácidos gordos poliinsaturados também parece estar associada a violência, sendo 
que a sua suplementação, inclusive durante a gravidez e os primeiros anos de 
vida, diminui os níveis deste comportamento, efeito também conseguido com a 
suplementação de vitaminas e minerais. O pressuposto que o açúcar tem efeitos 
adversos no comportamento das crianças é frequente, mas não parece haver 
qualquer evidência de que o consumo de sacarose seja responsável por esses 
 
 
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 Nutrição escolar 
efeitos, embora se saiba que a tendência a desenvolver níveis baixos de glicose, 
não necessariamente hiperglicêmicos, está associada a irritabilidade, violência 
e agressão e que uma melhor tolerância à glicose parece estar associada a 
melhor humor. Evidências sugerem que algumas crianças tenham intolerâncias 
alimentares sub-clínicas, inclusivamente a alguns aditivos, como a tartrazina e o 
conservante benzoato de sódio, que resultam em problemas comportamentais. 
Os aditivos alimentares têm sido bastante investigados no sentido de se 
detectarem os seus efeitos no comportamento das crianças. 
 
DESEQUILÍBRIOS NUTRICIONAIS E DESEMPENHO ESCOLAR 
 
O cérebro, como qualquer outro 
órgão, é composto por substâncias 
presentes na alimentação, algumas 
exclusivamente, como vitaminas, minerais, 
aminoácidos e ácidos gordos essenciais. No 
entanto, nem sempre foi completamente 
aceite que a alimentação pudesse influenciar a estrutura cerebral e 
consequentemente as suas funções, incluindo as cognitivas e intelectuais. 
Inicialmente começaram por serem estudados os efeitos negativos da ingestão 
protéicos energética inadequados, mas nos últimos anos tem-se dado 
importância a outras deficiências alimentares e padrões alimentares que, para 
além de terem grandes impactos na saúde, têm efeitos ao nível do 
desenvolvimento neurológico e cognitivo, influenciando o desempenho escolar. 
 
Alimentação e função cerebral – mecanismos de ação 
 
A má nutrição, a subnutrição e o desequilíbrio nutricional podem afetar a 
aprendizagem e a memória por modificarem ou interferirem com a fisiologia e/ou 
a estrutura cerebrais, podendo os danos ser temporários, se prevalecerem 
enquanto o problema nutricional existir,ou irreversíveis, se ocorrerem num 
período crítico do desenvolvimento da criança. De acordo com Coutre e Schmitt 
(2008), o papel da alimentação na cognição pode ser dividido em duas 
 
 
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 Nutrição escolar 
propriedades principais dos alimentos: a percepção da comida de forma indireta, 
durante o consumo e a digestão, e os componentes intrínsecos da nutrição e os 
seus efeitos diretos no cérebro. Indiretamente a alimentação afeta a função 
cerebral através de mudanças a nível vascular, imunológico, metabólico, 
sensorial e hormonal, já que, tal como todos os outros órgãos, o cérebro está 
vulnerável aos processos fisiológicos extra-cerebrais. Segundo estes autores, a 
alimentação diária tem essencialmente 4 componentes com o potencial de afetar 
diretamente a função cerebral: a energia, os precursores celulares, os co-fatores 
e outros componentes psicoativos ou com efeitos na função cerebral. A energia 
é talvez a característica da alimentação que mais evidentemente afeta o 
desempenho neurológico. À nascença o cérebro da criança é responsável por 
44% da taxa de metabolismo basal, cerca do dobro da energia gasta pelo 
cérebro adulto, o que se deve parcialmente à elevada razão entre o tamanho 
cerebral e o tamanho corporal nas crianças. As necessidades energéticas 
cerebrais sob condições fisiológicas normais são conseguidas quase 
exclusivamente através da glicose, pelo que nos primeiros 10 anos de vida a 
utilização absoluta de glicose pelo cérebro das crianças chega a ser o dobro da 
dos adultos, devido aos elevados graus de conectividade sináptica durante a 
infância. Sendo o órgão do corpo mais metabolicamente ativo, o cérebro precisa 
continuamente de glicose, o seu combustível básico, o que sugere que em 
condições de necessidades cognitivas elevadas a disponibilidade de glicose 
possa tornar-se um fator limitativo para o funcionamento cerebral ótimo. Para 
além de energia, a alimentação fornece precursores essenciais para o cérebro, 
como ácidos gordos e aminoácidos. O papel dos ácidos gordos poliinsaturados 
de cadeia longa n-3 e n-6 têm adquirido muito interesse no contexto do 
desenvolvimento neurológico e de doenças neuropsiquiátricas, como a 
hiperatividade e a depressão, estando também sob investigação outros lípidos. 
A síntese de neurotransmissores importantes, incluindo a serotonina, a 
dopamina, a noradrenalina, a histamina e a glicina, pode ser modulada pela 
disponibilidade dos aminoácidos seus precursores, triptofano, tirosina, histidina 
e treonina, respectivamente, pelo que aqui a ingestão protéica tem um papel 
importante. A alimentação fornece ainda micronutrientes como ferro, zinco, iodo, 
magnésio, vitamina A, vitaminas B e vitamina C, que atuam como co-fatores em 
processos enzimáticos no metabolismo dos neurotransmissores, dos lípidos 
 
 
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estruturais e funcionais do cérebro, das proteínas, do DNA e do RNA, assim 
como no metabolismo energético. 
Há ainda outros componentes nutricionais específicos que são psicoativos 
ou têm outros efeitos importantes no funcionamento cerebral: a cafeína, que é 
um estimulante ligeiro e pode atenuar a diminuição do desempenho cognitivo 
devido à fadiga em adultos, mas em crianças parece diminuir a capacidade de 
concentração, embora os estudos ainda sejam controversos; e os polifenóis, 
como os flavonóides e o resveratrol, que têm mostrado exercer uma 
multiplicidade de ações relacionadas com o cérebro, incluindo modulação da 
expressão de genes, proteção neuronal, defesa antioxidante endógena e 
aumento do fluxo sanguíneo cerebral, efeitos ainda a comprovar em crianças. 
 
Estado nutricional e desenvolvimento neuronal 
 
O impacto da alimentação no 
desempenho escolar de uma criança 
começa muito antes de esta ingressar na 
escola, podendo o estado nutricional peri-
natal da mãe ter implicações a longo prazo 
no desempenho escolar do filho. A 
alimentação da grávida, e 
consequentemente a sua variação 
ponderal ao longo da gravidez, assim como o seu Índice de Massa Corporal 
(IMC) antes da gravidez, influenciam o desenvolvimento neurológico e cognitivo 
do seu filho, já que a disponibilidade nutricional adequada é fundamental para 
um correto desenvolvimento cerebral. O baixo peso à nascença (˂2,5 kg), 
relacionado com o baixo IMC antes da gravidez e/ou reduzido ganho de peso 
durante a mesma, está associado a morbilidades a longo prazo, inclusivamente 
a défices de crescimento, de desenvolvimento neurocomportamental e cognitivo, 
a problemas de aprendizagem e a um menor QI. 
Também a idade gestacional, negativamente associada ao ganho de peso 
inadequado durante a gravidez, está relacionada com a inteligência, em 
particular com o raciocínio não-verbal e o processamento de informação, e há 
uma maior incidência de doenças psiquiátricas e hiperatividade em crianças que 
 
 
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nasceram prematuramente. O cérebro humano desenvolve-se rapidamente no 
último trimestre da gravidez e nos primeiros 2 anos de vida, pelo que este é o 
período mais crítico do seu desenvolvimento. O peso do cérebro de um recém-
nascido representa cerca de 10% do total do seu peso – enquanto que o de um 
adulto representa apenas 2% – atingindo aos 2 anos de idade cerca de 80% do 
peso do cérebro de um adulto, terminando nesta altura grande parte do seu 
desenvolvimento, que continua até à adolescência. 
Esta elevada taxa de crescimento cerebral torna a criança vulnerável a 
inadequações nutricionais, com consequências no desenvolvimento cerebral, 
dependentes do nutriente em déficit, do estado de desenvolvimento da criança, 
do grau da deficiência e da sua duração, que nesta fase poderá mesmo derivar 
em déficit de cognição permanentes. A subnutrição nos primeiros anos de vida 
está associada a baixo QI, a fracos resultados acadêmicos a longo prazo, a 
déficit de atenção e a comportamento agressivo a longo prazo. Segundo estudos 
realizados em países industrializados, também a amamentação parece estar 
associada a melhor desenvolvimento cognitivo, mas como a decisão de 
amamentar é mais comum em mulheres com maior escolaridade, nível 
socioeconômico e inteligência, é difícil de distinguir os efeitos do leite materno 
de outros efeitos benéficos nesse desenvolvimento. Embora o período pré-
escolar não seja um período crítico de desenvolvimento, o cérebro continua a 
desenvolver-se, particularmente na área que se pensa ser responsável por 
atividades cognitivas como a atenção e resolução de problemas, pelo que 
qualquer dano que ocorra nesta fase pode ter resultados a longo prazo. 
Macronutrientes e desempenho escolar 
 
Ácidos gordos 
Os ácidos gordos são essenciais ao correto desenvolvimento e 
funcionamento cerebrais, pois possuem um papel estrutural importante nas 
membranas celulares, particularmente no seu estado físico. O estado físico ideal 
da membrana neuronal é o de gel, pois uma maior fluidez facilita a comunicação 
entre células, e o estado de saturação dos ácidos gordos está negativamente 
associado a essa fluidez. Para além dos ácidos gordos há ainda várias moléculas 
 
 
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capazes de alterar este estado, como o álcool, que aumenta a fluidez da 
membrana, e o colesterol, que a endurece. 
 
Os ácidos gordos essenciais, nomeadamente os n-3 e n-6, são os maiores 
componentes da mielina, induzem a mielinização e estão também envolvidos na 
produção de neurotransmissores. No entanto, apesar de o cérebro usar os 
ácidos linoleico (n-6) e α-linolénico (n-3) para muitas funções, os ácidos gordos 
polinsaturados de cadeia muito longa (PUFA), seus derivados, também são 
importantes.Vários estudos confirmaram que os níveis de PUFA na membrana 
neuronal são importantes e que a razão entre PUFA n3 e n-6 também, sendo a 
razão 1:4 (n-3:n-6) a mais efectiva na redução dos níveis de colesterol na 
membrana, na melhoria do desempenho da aprendizagem e na melhoria do 
sono. A deficiência em ácidos gordos essenciais é encontrada em crianças com 
hiperatividade, por vezes articulada com a deficiência em ferro. As deficiências 
em n-3 induzem uma redução das catecolaminas cerebrais, da capacidade de 
transporte e de utilização de glicose e da taxa de mielinização, podendo cada 
uma destas variáveis ser responsável por déficit de aprendizagem. O ácido α-
linolénico (ALA) e o ácido decosahexanóico (DHA), dois ácidos gordos 
polinsaturados n-3, são particularmente importantes pois condicionam as 
capacidades intelectuais. A deficiência em ALA altera o curso do 
desenvolvimento cerebral, induzindo modificações bioquímicas e fisiológicas que 
resultam em perturbações neuro-sensoriais e comportamentais, efeitos que 
também parecem ocorrer devido a mudanças nas concentrações cerebrais de 
DHA, segundo alguns estudos animais. Estudos sugerem uma associação entre 
a maior ingestão de pescado, fontes ricas de ácidos gordos essenciais, durante 
 
 
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a gravidez e melhor comportamento pró-social, melhor controlo motor e 
desenvolvimento social e maior inteligência verbal, e entre a sua baixa ingestão 
durante a gravidez e elevados riscos de menor desenvolvimento. Proteínas A 
atenção sobre o impacto da alimentação no desenvolvimento cognitivo iniciou-
se e incidiu durante muito tempo apenas na má nutrição protéico energética. 
Esta tem efeitos bem estabelecidos no atraso do desenvolvimento motor e 
cerebral, e consequências a curto e a longo prazo na cognição e no 
comportamento. No entanto é muito difícil separar os efeitos da deficiência 
energética e proteica dos efeitos das deficiências em micronutrientes que 
normalmente lhe estão associadas. Sabe-se que alguns aminoácidos essenciais 
presentes nas fontes alimentares proteicas participam na elaboração de 
neurotransmissores e neuromodeladores, podendo a sua deficiência afetar o 
funcionamento cerebral. 
 
Hidratos de carbono 
Durante muitos anos 
assumiu-se que no cérebro havia 
um único compartimento para a 
glicose, com uma concentração 
estável e que sob circunstâncias 
normais não limitava a atividade 
neuronal. No entanto, as últimas 
evidências têm demonstrado que as concentrações de glicose no cérebro variam 
entre áreas cerebrais e ao longo do tempo, sugerindo que a ingestão de glicose 
influencia os seus níveis extracelulares no cérebro. A glicose é essencial para a 
função cerebral pois a maioria do cérebro consome mais de 50% dos HC, 
aproximadamente 80% do qual é usado apenas para obtenção de energia, 
podendo assim a natureza do fornecimento de glicose ao cérebro afetar o 
desempenho cognitivo. 
A ingestão de alimentos com baixo índice glicémico assegura níveis 
baixos de insulina e regula a glicemia, fornecendo ao cérebro uma concentração 
suficiente e prolongada da glicose sanguínea, que consequentemente melhora 
a qualidade e a duração do desempenho intelectual. Nas crianças, adolescentes 
 
 
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 Nutrição escolar 
e idosos, assim como nos diabéticos, o mal controle glicémico está associado a 
baixo desempenho no momento de testes de memória e, como já foi referido, a 
tolerância à glicose está associada ao comportamento. 
 
Micronutrientes e desempenho escolar 
 O potencial genético das 
crianças para o crescimento e 
desenvolvimento mental pode 
ser comprometido devido a 
deficiências de micronutrientes, 
mesmo que sub-clínicas, pois o 
pobre estado nutricional conduz 
a alterações das funções 
mentais e comportamentais, 
imediatas ou a longo prazo. No 
entanto, ainda não se sabe muito acerca do impacto de várias deficiências em 
micronutrientes no desenvolvimento cognitivo, pois estas podem ocorrer 
simultaneamente, particularmente se os micronutrientes derivam da mesma 
fonte, dificultando a interpretação dos efeitos de um único micronutriente. A 
ingestão adequada de micronutrientes é uma medida básica necessária para 
promover o funcionamento cognitivo ótimo, mas as recomendações diárias de 
ingestão de micronutrientes não refletem necessariamente os valores ótimos no 
que diz respeito ao funcionamento cerebral, que podem variar com as 
características demográficas, como a idade e o sexo, com os estilos de vida e 
com fatores genéticos. As deficiências em ferro, iodo, zinco e vitamina A são as 
que têm um maior impacto no desenvolvimento das crianças em países sub-
desenvolvidos, que, apesar de alguma controvérsia, também podem ocorrer de 
forma subclínica nos países industrializados. 
 
Deficiência em ferro 
 
O ferro é fundamental para a imunidade, crescimento e desenvolvimento. 
Ele é essencial para o transporte de oxigênio pois participa na síntese de 
 
 
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hemoglobina, pelo que a sua deficiência é a principal causa de anemia, sendo 
responsável por 50% destas. O ferro atua ainda como co-fator enzimático, tendo 
um papel importante, na produção de energia no parênquima cerebral e na 
síntese de neurotransmissores e de mielina, modelando a fluidez da membrana 
neuronal. A deficiência em ferro é atualmente o problema nutricional mais 
prevalente no mundo, principalmente em mulheres e em crianças, sendo nas 
crianças em idade escolar a prevalência de anemia de 25%. Nos países 
desenvolvidos a prevalência de anemia por deficiência em ferro é menor, de 2 a 
8%, mas mesmo assim elevada. No entanto, quando se considera a deficiência 
em ferro sem anemia, as taxas de prevalência são ainda maiores. O maior risco 
de deficiência em ferro ocorre durante os períodos de rápido crescimento e de 
maiores exigências nutricionais, especialmente dos 6 aos 24 meses, na 
adolescência e na gravidez. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) 
e os dados de vários estudos, incluindo o estudo The National Health and 
Nutrition Examination Survey III (NHANES), desenvolvido nos Estados Unidos 
da América, há uma associação entre o estado nutricional em ferro e o 
desempenho escolar, havendo piores resultados nas crianças com deficiência 
em ferro, mesmo que sem anemia. 
O déficit de ferro é compensado utilizando preferencialmente o ferro 
cerebral para a síntese de eritrócitos pelo que é possível que os níveis cerebrais 
de ferro diminuam quando a ingestão deste é baixa, mesmo que não haja 
anemia. Assim, mesmo sem anemia, a deficiência em ferro está ligada a 
perturbações do desenvolvimento cerebral e das funções cognitivas. As crianças 
com deficiência em ferro 
apresentam frequentemente 
letargia, irritabilidade, apatia, 
fadiga. Vários estudos têm ainda 
associado esta deficiência a 
diminuição da atenção, das 
capacidades de aprendizagem e da 
memória, a dificuldades de 
concentração, a alterações de 
humor, a pica, a menor QI e a piores resultados escolares. Sabe-se ainda que a 
deficiência em ferro é encontrada frequentemente em crianças com déficit de 
 
 
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atenção/hiperatividade. A base biológica dos problemas comportamentais e do 
desenvolvimento cognitivo observados nas crianças com deficiência em ferro 
não está ainda completamente compreendida mas está possivelmente 
relacionada com o fato de a diminuição da síntese de hemoglobina, assim como 
da atividade das enzimas cerebrais que contêm ferro, afetar o funcionamento 
cerebral; com anomalias no metabolismo dos neurotransmissores, como da 
dopamina, que tem fortes efeitos na atenção, percepção,memória, motivação e 
controlo motor; com diminuição da formação da mielina; e com alterações no 
metabolismo energético cerebral. Mesmo as concentrações de ferro na artéria 
umbilical são críticas durante o desenvolvimento do feto, inclusive cerebral, e no 
QI da criança. O desempenho cognitivo de crianças com deficiência em ferro 
parece melhorar com a subsequente ingestão adequada de ferro, mesmo que 
haja anemia. No entanto, isso não parece acontecer quando a deficiência em 
ferro ocorre nos primeiros anos de vida, pois é nessa fase inicial de 
desenvolvimento cerebral que as células cerebrais aprovisionam ferro, e se isso 
não se suceder adequadamente ocorrem danos irreparáveis nas células que 
fazem com que os problemas persistam e que as crianças continuem com baixo 
desempenho escolar, mesmo que a ingestão subsequente de ferro seja 
adequada. Todos estes efeitos da deficiência em ferro supracitados são fortes 
argumentos para a detecção precoce e tratamento da deficiência em ferro, 
especialmente em grávidas, crianças e adolescentes. O sistema imunitário 
também é prejudicado pela deficiência em ferro, o que pode explicar o fato de a 
taxa de crianças com deficiência em ferro com doenças infecciosas ser muito 
maior do que a de crianças sem esta deficiência, podendo ter implicações no 
absentismo escolar. 
 
Deficiência em zinco 
 
O zinco está presente em elevadas concentrações no cérebro, onde se 
liga às proteínas, contribuindo para a estrutura e função cerebrais, e tem um 
papel central no crescimento celular, especificamente na produção de enzimas 
necessárias para a síntese de RNA e DNA. A prevalência global da deficiência 
em zinco parece ser de 31%, variando de 4 a 73% entre sub-regiões. Não se 
 
 
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sabe muito acerca da prevalência desta deficiência mas, com base nos níveis de 
ingestão, esta parece ser elevada nas crianças mais novas nos países em 
desenvolvimento, e comum mesmo em países desenvolvidos. A deficiência em 
zinco pode conduzir a déficits no funcionamento neuropsicológico e a atrasos no 
desenvolvimento cognitivo, prejudicando as respostas comportamentais e 
emocionais, parecendo estar associada a agressividade e a diminuição da 
atenção, da memória e da atividade e desenvolvimento motor da criança. Por 
sua vez, a redução de atividade pode ter consequências negativas no 
desenvolvimento motor e cognitivo da criança, pois crianças inativas que não 
exercitam as suas capacidades estão menos predispostas a adquirir 
capacidades novas ou mais complexas. No caso das crianças hiperativas, que 
têm elevados níveis de atividade indiferenciada, estas podem não atingir os 
benefícios cognitivos e motores que têm sido associados à atividade funcional e 
relacional. Para além disto, estudos animais sugerem que a deficiência em zinco 
pode afetar o estado emocional e a resposta ao stress da criança, mais do que 
o desempenho cognitivo por si só, pelo que crianças com esta deficiência podem 
ser mais susceptíveis ao contexto social e ao stress do ambiente que as rodeia. 
 
Segundo Black (1998), é possível que as crianças com deficiência em 
zinco demonstrem funcionamento cognitivo normal mas que mesmo assim se 
encontrem prejudicadas por déficits no funcionamento neuropsicológico, por 
exemplo de atenção, que enfraquecem o desempenho escolar. Esta autora 
sugeriu ainda que a relação entre a deficiência em zinco e o desenvolvimento 
 
 
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cognitivo pode variar com a idade da criança, já que as crianças estão 
particularmente vulneráveis à deficiência em zinco durante períodos de rápido 
crescimento e desenvolvimento, como os primeiros anos de vida e a 
adolescência, o que poderá explicar que em alguns estudos a suplementação 
com zinco em crianças de baixa idade melhore a atenção e a memória mas o 
mesmo não aconteça com a suplementação de crianças mais velhas, assim 
como a ausência, em vários estudos, de qualquer associação entre a deficiência 
em zinco e o desempenho cognitivo em crianças nem de melhoria desse 
desempenho com a suplementação em zinco. A suplementação tem mostrado 
ainda ter efeitos benéficos no crescimento, na incidência de diarréia e 
pneumonia, e na mortalidade em bebês com deficiência em zinco, mas os 
resultados em mulheres grávidas são controversos no que diz respeito à 
melhoria do desenvolvimento e do funcionamento cognitivo dos seus filhos. As 
evidências de melhorias do desempenho neuropsicológico em crianças 
suplementadas com zinco têm vindo a crescer, mas é necessário mais trabalho 
para clarificar o seu efeito no desempenho escolar. 
 
Deficiência em iodo 
 
A deficiência em iodo é também um dos problemas nutricionais mais 
prevalente por todo o mundo, e tem implicações sérias na escolaridade e no 
desenvolvimento económico das regiões onde a ingestão de iodo é baixa. 
 
 
 
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Na Europa, a prevalência de ingestão insuficiente de iodo nas crianças 
em idade escolar é a maior do mundo (59,9%), maior ainda do que em regiões 
subdesenvolvidas. Estes valores são preocupantes, pois a deficiência em iodo é 
a maior causa de atraso mental prevenível, podendo nestas idades levar, entre 
outras consequências, a diminuição da função cerebral e do desenvolvimento 
neuro-intelectual, reduzindo as capacidades intelectuais, de trabalho e o 
desempenho escolar No entanto, embora a deficiência em iodo seja bastante 
prevalente mesmo em países desenvolvidos, uma revisão bibliográfica recente 
(Taras, 2005) não revelou qualquer associação entre a deficiência em iodo e 
diminuição do desempenho cognitivo em escolas dos EUA, mas isto poderá 
dever-se à fortificação dos alimentos muito utilizada neste pais. A deficiência em 
iodo pode provocar hipotiroidismo, já que é essencial para síntese das hormonas 
tireóideas, que assumem um papel importante no metabolismo de todas as 
células e no crescimento de muitos órgãos, em particular do cérebro. Assim, o 
défice de iodo e/ou hormonas tiroideias durante o período crítico da gestação e 
no período pós-natal pode resultar em défices irreversíveis no desenvolvimento 
cerebral que, embora apenas em 5-10% dos casos conduza a cretinismo, 
prejudicam o funcionamento psicológico, mesmo nas crianças que parecem 
normais. Vários estudos têm mostrado uma maior taxa de déficits no 
funcionamento cognitivo, inclusivamente de déficit na escrita e leitura, em 
crianças que vivem em regiões deficientes em iodo, áreas que abrangem 30% 
da população mundial. A repleção do iodo em crianças em idade escolar com 
deficiência moderada em iodo parece melhorar as funções cognitivas e motoras, 
mas isto parece acontecer apenas nas crianças residentes em áreas deficientes 
em iodo. Os resultados dos estudos do impacto da suplementação no 
desempenho cognitivo destas crianças são inconsistentes, principalmente no 
que se refere à deficiência pós-natal em iodo, pelo que é ainda necessária mais 
investigação. 
 
Deficiência em vitamina B12 
 
A vitamina B12 é uma das vitaminas envolvidas diretamente na síntese 
de alguns neurotransmissores e é essencial na formação dos eritrócitos, na 
 
 
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síntese de DNA e na manutenção da saúde do sistema neural, já que intervém 
no metabolismo dos ácidos gordos necessários à produção da mielina. Não se 
sabe muito acerca da prevalência da deficiência em vitamina B12, mas a nível 
mundial parece ser bastante elevada, particularmente em crianças vegetarianas 
estritas ou que são amamentadas por mulheres com esse tipo de alimentação. 
Esta deficiência pode causar anemia perniciosa, e consequente cansaço, falta 
de ar e fadiga,e neuropatia, por danos cerebrais irreversíveis e degeneração 
das fibras nervosas, e provoca irritabilidade, anorexia, menor crescimento, 
inclusive cerebral, diminuição da inteligência e alterações cognitivas. Alguns 
estudos sugerem que esta deficiência está associada a mais comportamentos 
delinquentes e a uma pior percepção, memória, raciocínio e atenção, o que 
diminui o desempenho cognitivo e escolar. A ingestão adequada de vitamina B12 
é particularmente importante em crianças e em mulheres grávidas, pois se os 
danos cerebrais ocorrerem durante a gestação e o primeiro tempo de vida podem 
ser irreversíveis. 
 
 
Outras deficiências nutricionais 
 
A deficiência em vitamina A, para além de ser uma das principais causas 
de cegueira e xeroftalmia em crianças dos países em desenvolvimento, parece 
afetar a memória. Esta deficiência tem também implicações a nível do sistema 
 
 
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imunitário, o que poderá explicar que a suplementação em vitamina A de 
crianças tenha aumentado a assiduidade em alguns estudos. As deficiências em 
vitamina A, vitamina B12 ou folato, assim como a malária, HIV ou outras doenças 
infecciosas, são responsáveis pelos restantes 50% de anemias, podendo por 
isso também ter efeitos no desempenho escolar devido às consequências 
associadas à anemia. A colina é um precursor do neurotransmissor acetilcolina 
e é essencial enquanto o feto está em desenvolvimento, pois influencia a 
proliferação celular e a apoptose, influenciando a estrutura e função cerebrais e 
a memória a longo prazo. Também são importantes para o desempenho 
cognitivo a vitamina B1, necessária para a utilização da glicose para produção 
de energia pelas células nervosas, e a vitamina B9, que preserva o cérebro 
durante o seu desenvolvimento. 
 
Suplementação em micronutrientes 
 
 
Embora uma grande parte das pessoas dos países industrializados use 
suplementos, incluindo as crianças, não há evidências de que a suplementação 
em vitaminas e minerais da população em geral leve a um aumento do 
desempenho escolar, pois embora haja vários estudos, inclusive em países 
industrializados, que demonstrem que a suplementação de crianças com 
multivitamínicos tenha efeitos positivos na inteligência, memória e atenção, 
somente uma pequena parte das crianças responde a essa suplementação, 
possivelmente apenas aquelas com uma depleção do estado nutricional. A 
maioria das crianças dos países desenvolvidos tem um aporte adequado de 
micronutrientes, o que faz com que o seu desempenho intelectual não melhore 
com a ingestão adicional de micronutrientes, mas uma parte das crianças tem 
 
 
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um aporte de micronutrientes tão baixo que impossibilita a sua função cerebral 
ótima, pelo que quando consomem suplementos de micronutrientes o seu estado 
nutricional melhora e o seu QI aumenta. 
 
PADRÃO ALIMENTAR E DESEMPENHO ESCOLAR 
 
A nutrição, para além de afetar a arquitetura cerebral, pode influenciar o 
seu funcionamento de um momento para o outro. Dado que o cérebro precisa 
continuamente de glicose, assim como de vários nutrientes que intervêm nos 
processos metabólicos, coloca-se a questão de como a natureza da alimentação 
e o padrão do consumo de refeições pode influenciar o funcionamento cerebral 
nas horas seguintes à ingestão, pelo efeito agudo dos nutrientes. 
 As crianças parecem ser mais 
vulneráveis à omissão de refeições, 
uma vez que se encontram numa fase 
de rápido crescimento e 
desenvolvimento. Os estudos acerca 
dos efeitos a curto prazo da omissão 
de uma refeição ou da ingestão de um 
alimento particular têm encontrado resultados pequenos e inconsistentes entre 
a generalidade das crianças bem nutridas, pois dada a importância de um 
funcionamento ótimo da cognição para a sobrevivência, este é fortemente 
protegido de alterações alimentares a curto prazo. No entanto, estudos em 
países em desenvolvimento sugerem que as crianças mal nutridas são mais 
prejudicadas pelo jejum (saltar uma refeição) do que as bem nutridas, 
provavelmente por terem menores capacidades de compensar a falta de uma 
refeição, já que não têm reservas para utilizar. Há muita literatura acerca dos 
efeitos a curto prazo do jejum e da ingestão de macronutrientes particulares no 
desempenho cognitivo a curto prazo, por exemplo a nível da memória, da 
atenção, de habilidades espaciais, de tempo de reação e de capacidades de 
cálculo. No entanto, os resultados das investigações a este nível são 
controversos. 
 
 
 
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Pequeno-almoço 
 
Efeitos do consumo ou da omissão 
 
Nos últimos anos vários estudos associaram a omissão do pequeno-
almoço a consequências negativas quantificáveis na atividade acadêmica, bem 
como na saúde física e mental, da população infanto-juvenil, e o seu consumo a 
benefícios nos vários grupos etários, demográficos e socioeconômicos. No 
entanto, a omissão desta refeição continua a ser muito comum, mesmo em 
países desenvolvidos, principalmente devido à falta de tempo. A prevalência 
desta omissão varia muito de acordo com a definição de pequeno-almoço, 
havendo inclusivamente um estudo que encontrou uma variação de 8 para 29% 
de omissão de pequeno-almoço em crianças de acordo com as definições de 
pequeno-almoço, de consumir alguma coisa ou consumir pelo menos alimentos 
de 2 grupos de alimentos e um teor energético correspondente a pelo menos 
10% da RDA, respectivamente. Para além disso, a variação de definição de 
pequeno-almoço também torna muito difícil a comparação de resultados entre 
os vários estudos realizados neste âmbito. 
 
 
 
A importância do pequeno-almoço para o sucesso escolar é refletida nos 
seus efeitos no desempenho cognitivo. Esta refeição pode afetar as funções 
cognitivas através de 2 mecanismos: modulação das respostas metabólicas a 
 
 
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curto prazo ao jejum prolongado, de forma a que o organismo consiga manter o 
aporte regular de nutrientes ao sistema nervoso central; ou através de efeitos a 
longo prazo na ingestão nutricional, e consequentemente no estado nutricional, 
cuja adequação afeta a cognição. O pequeno-almoço parece ter efeitos positivos 
em várias capacidades cognitivas a curto prazo, mas é ainda pouco conhecido 
o seu impacto a longo prazo no desempenho escolar, pois a sua avaliação torna-
se mais complexa devido à influência dos vários indicadores socioeconômicos e 
educacionais neste desempenho. Vários estudos, desde observacionais a 
experimentais, em centros de investigação ou em ambiente escolar, têm 
investigado os efeitos do consumo e da omissão do pequeno-almoço, 
associando o consumo de pequeno-almoço a melhor desempenho escolar, a 
melhor desempenho cognitivo, nomeadamente ao nível da memória, quer a curto 
quer a longo prazo, e da aritmética, das tarefas de resolução de problemas e do 
raciocínio lógico, assim como a uma melhor aprendizagem, a um melhor estado 
de alerta, a maior concentração, a diminuição do sono e fadiga durante as aulas 
e a uma melhor função psicossocial. No entanto, há também vários estudos que 
não encontraram qualquer efeito do consumo ou da omissão do pequeno-
almoço. Os efeitos positivos do pequeno-almoço supracitados poderão ser 
atribuídos à melhoria das concentrações de glicose com o pequeno-almoço, que 
diminuem durante o jejum noturno levando a alterações na função cerebral. O 
declínio gradual de insulina e de glicose pode determinar uma resposta de stress 
que interfere com diferentes aspectos da cognição, como a atenção e a memória, 
afetando o desempenho cognitivo, resposta que poderá ser intensificada por 
baixosníveis de ferro. Caso as alterações metabólicas transitórias da omissão 
do pequeno-almoço ocorram frequentemente, poderão ter um efeito adverso 
cumulativo que pode colocar o progresso escolar da criança em risco. No 
entanto, vários estudos têm mostrado não haver uma associação significativa 
entre os testes de desempenho e as concentrações de glicose sanguínea, 
sugerindo que haja outros mecanismos responsáveis pelos efeitos do pequeno-
almoço no desempenho cognitivo, possivelmente alterações nas concentrações 
de neurotransmissores. O impacto positivo do consumo de pequeno-almoço no 
desempenho cognitivo também poderá dever-se ao facto de este aliviar a fome, 
situação bastante prevalente mesmo em países desenvolvidos e que tem sido 
associada a problemas emocionais, comportamentais e escolares em crianças 
 
 
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e adolescentes. As crianças que saltam o pequeno-almoço mas que comem 
mais tarde podem conseguir satisfazer as suas necessidades nutricionais diárias 
mas não são capazes de se concentrarem nas aulas da manhã pois têm fome. 
As crianças nutricionalmente em risco parecem ser aquelas que beneficiam mais 
dos efeitos positivos do consumo do pequeno-almoço, embora isto se verifique 
mais em intervenções de curto prazo do que nas intervenções a longo prazo. O 
consumo de pequeno-almoço não parece melhorar significativamente o 
desempenho em crianças normalmente bem alimentadas, a não ser ao nível da 
atenção. No entanto, Pollitt et al (1998) encontraram um efeito negativo da 
omissão do pequeno-almoço na função cognitiva de crianças bem nutridas em 
países desenvolvidos, o que, segundo estes, não se observa nas crianças bem 
nutridas dos países em desenvolvimento, pelo que colocaram a hipótese de isto 
acontecer por as crianças dos países desenvolvidos estarem habituadas a tomar 
o pequeno-almoço e quando não o fazem isso é algo estranho e respondem 
negativamente, enquanto que as crianças dos países em desenvolvimento não 
costumam consumir esta refeição e por isso adaptaram-se a essa situação. 
Também se têm realizado vários estudos acerca dos efeitos dos programas de 
pequeno-almoço escolar nos estudantes, que têm mostrado que estes, para 
além de aumentarem os níveis de consumo do pequeno-almoço, melhoram o 
estado nutricional, a concentração e o desempenho, aumentam a assiduidade e 
a pontualidade, e provavelmente diminuem as taxas de abandono escolar. Cueto 
et al (2001) sugerem que o efeito positivo dos programas de pequeno-almoço 
escolar na assiduidade, tanto em países desenvolvidos como em 
desenvolvimento, não está relacionado diretamente com consequências 
nutricionais mas com benefícios econômicos. As famílias enviam as crianças 
para a escola como forma de poupar dinheiro, tendo ao mesmo tempo confiança 
na qualidade da alimentação destas na escola. A função psicossocial também 
melhorou significativamente nas crianças participantes em programas de 
pequeno-almoço escolar cujo estado nutricional melhorou com essa participação 
ou cuja participação aumentou, tendo melhorado também nestas as alterações 
a nível da hiperatividade, da depressão e do humor(20), incluindo no estado de 
alerta e no contentamento. No entanto, não parece haver efeitos significativos a 
nível de tranquilidade ou ansiedade. O consumo regular de pequeno-almoço 
também contribui significativamente para a adequação nutricional da 
 
 
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alimentação em geral, o que também poderá ter efeitos positivos no desempenho 
escolar por diminuir a probabilidade de ocorrerem deficiências nutricionais e os 
efeitos negativos no desempenho escolar a estas associados. 
 
Efeitos da quantidade e qualidade 
 
O fato de nem todos os estudos mostrarem efeitos positivos do consumo 
de pequeno-almoço no comportamento cognitivo poderá ser explicado em parte 
pelas diferenças na composição do pequeno-almoço, já que também a 
quantidade e a qualidade do pequeno-almoço influenciam o desempenho das 
crianças em idade escolar. Os benefícios do pequeno-almoço não se limitam ao 
seu simples consumo, devendo a contribuição energética e nutricional dos 
alimentos nele incluídos também ser tida em consideração. Pequenos-almoços 
de baixo teor energético parecem estar associados a uma maior demora no 
desempenho de determinadas tarefas escolares, a menor empenho, 
concentração, atenção e interação com o professor, e a pior fluência verbal e 
menor criatividade, capacidades de cálculo, memória a curto prazo e resistência 
física. No entanto, pelo menos a maior demora no desempenho de determinadas 
tarefas escolares parece ser revertida pelo consumo de um lanche a meio da 
manhã. Num estudo realizado por LópezSobaler et al (2003) para determinar as 
relações entre o consumo de pequeno-almoço e o desempenho intelectual num 
grupo de crianças bem nutridas de Madrid, o consumo habitual de um pequeno-
almoço inadequado (<20% da ingestão energética diária total) mostrou-se 
associado a piores resultados nos testes de desempenho intelectual. 
Quanto à composição do pequeno-almoço, há muita literatura que sugere 
que as crianças podem beneficiar do consumo de um pequeno-almoço com uma 
baixa carga glicêmica, havendo evidências de que este está associado a melhor 
desempenho ao nível da memória, da percepção visual e da vigilância auditiva, 
a maiores capacidade de manter a atenção, a menos sinais de frustração e a 
maior dedicação de tempo na realização de tarefas individuais nas aulas. Estes 
efeitos benéficos da menor carga glicêmica do pequeno-almoço devem-se 
possivelmente ao fornecimento gradual de glicose ao sangue por um maior 
período de tempo. No entanto, alguns autores colocam a possibilidade que os 
 
 
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benefícios do consumo de pequeno-almoço se devam à frequente ingestão de 
cereais de pequeno-almoço, muitas vezes fortificados nos países onde foram 
realizados muitos dos estudos. Ainda relativamente à composição do pequeno-
almoço, há estudos que sugerem que um pequeno-almoço rico ou equilibrado 
em proteínas resulte num melhor desempenho cognitivo durante a manhã. O 
horário do consumo do pequeno-almoço também parece ter um papel importante 
no desempenho cognitivo. Num estudo de Vaisman et al (1996), o consumo por 
rotina de pequeno-almoço 2 horas antes do início dos testes não melhorou as 
funções cognitivas, mas o consumo alimentar 30 minutos antes da realização de 
um teste melhorou notavelmente os resultados. 
Lanches 
 
Embora seja frequentemente recomendado que se façam várias refeições 
ao dia, de forma a diminuir a fadiga e a manter a atenção, há muita gente que 
não o faz. As crianças que fazem refeições regulares e que têm uma ingestão 
adequada de nutrientes parecem ter melhores resultados escolares do que 
aquelas que saltam refeições e têm uma ingestão nutricional inadequada. A 
distribuição da ingestão energética ao longo da manhã, pelo consumo de um 
lanche a meio desta, em vez do consumo de pequeno-almoço exclusivamente 
durante a manhã parece melhorar o desempenho nas crianças com menor 
classe socioeconômica, mesmo quando o total de energia consumido na manhã 
não é alterado, o que parece dever-se ao fato de a ingestão energética ao 
pequeno-almoço não ser suficiente para suportar o desempenho físico e mental 
ao longo da manhã em crianças fisicamente ativas, pois o desempenho cognitivo 
começa a diminuir 2 a 3 horas após o pequeno-almoço. Assim, tanto as crianças 
bem nutridas como as mal nutridas provavelmente beneficiarão de um lanche a 
meio da manhã. 
 
EXCESSO DE PESO E DESEMPENHO ESCOLAR 
 
O excesso de peso e a obesidade em crianças em idade escolar estão 
associados a baixos níveis de desempenho escolar. A causae o efeito para esta 
associação não foram ainda estabelecidos, mas sabe-se que a obesidade não 
 
 
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afeta apenas a saúde física das crianças mas também a sua saúde mental e os 
seus resultados psicossociais e que as crianças com excesso de peso ou obesas 
estão mais susceptíveis a ter baixa auto-estima e maiores taxas de ansiedade, 
depressão e outras psicopatologias, pelo que estas condições de saúde mental 
poderão ser os fatores mediadores para que estas crianças apresentem baixos 
níveis de sucesso escolar. De acordo com Von-Amann (2006), da Divisão de 
Saúde Escolar da Direção Geral de Saúde, as consequências psicossociais do 
excesso de peso estão ainda relacionados com problemas de comportamento e 
de aprendizagem(58). No entanto, há autores que consideram que o excesso de 
peso é um marcador mas não um fator causal de insucesso escolar, já que em 
alguns estudos esta associação desaparece quando se ajusta para vários 
fatores sócio econômicos e comportamentais, sugerindo que os piores 
resultados das crianças com excesso de peso podem ser explicados por outras 
características individuais, como a educação dos pais e o ambiente em casa(56). 
Outra perspectiva é que o insucesso escolar pode aumentar o risco de 
obesidade, pois os problemas de saúde mental supracitados e outros fatores 
podem predispor as crianças a ter excesso de peso ou obesidade e baixo 
desempenho escolar, sem qualquer associação entre o peso e o sucesso 
escolar. 
ATIVIDADE FÍSICA E DESEMPENHO ESCOLAR 
 
Alguns estudos encontraram um 
aumento da aprendizagem, da saúde mental 
e da concentração no período imediatamente 
seguinte à atividade física e uma associação 
entre a atividade física e a redução da adoção 
de comportamentos de risco. No entanto, há 
muitos estudos que não encontraram 
qualquer associação ou cujos resultados são controversos, pelo que são 
necessários mais estudos para se poderem tirar conclusões acerca dos efeitos 
da atividade física no desempenho escolar. É possível que os benefícios da 
atividade física em crianças e adolescentes sejam subtis e apenas possam ser 
detectados a longo prazo, quando se estudam grandes populações ou quando 
 
 
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os programas de atividade física são suficientemente aeróbios. De fato, a 
atividade física melhora a circulação e aumenta o fluxo cerebral de sangue e os 
níveis de norepinefrina e endorfinas, efeitos que podem reduzir o stress, 
melhorar o humor, induzir um efeito relaxante depois do exercício e talvez, como 
resultado, melhorar o desempenho escolar. A atividade física nas escolas 
também traz benefícios sociais que podem resultar em melhores resultados 
escolares, uma vez que as crianças que aprendem a cooperar, a partilhar, a 
obedecer a regras de atividade física em grupo e a descobrir e a testar as suas 
capacidades físicas, provavelmente sentem-se mais conectadas com a escola e 
a comunidade. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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