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<p>ZOOLOGIA DE</p><p>INVERTEBRADOS</p><p>OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM</p><p>> Analisar comparativamente a morfofisiologia dos diferentes reinos</p><p>inverte-brados: Protozoa e Monera.</p><p>> Avaliar a importância médica que os Protozoa e os Monera podem ocasionar</p><p>em animais e seres humanos.</p><p>> Correlacionar as doenças e profilaxias dos Protozoa e dos Monera.</p><p>Introdução</p><p>Diversos são os agentes que causam doenças infecciosas em humanos e ani-</p><p>mais, como os protozoários e as bactérias, seres unicelulares com uma grande</p><p>diversidade de espécies e características. O conhecimento sobre esses seres</p><p>microscópicos é necessário a diversas áreas da ciência, especialmente àquelas</p><p>relacionadas à saúde. Saber onde encontrá-los, como atuam (de forma benéfica</p><p>ou maléfica ao ambiente e ao seu hospedeiro), quais processos realizam de acordo</p><p>com as suas necessidades, entre tantas outras características, são ferramentas</p><p>que auxiliam a compreender a dinâmica desses microrganismos.</p><p>Invertebrados</p><p>metazoários não</p><p>artrópodos</p><p>reinos: Protozoa</p><p>e Monera</p><p>Francihele Cardoso Müller</p><p>Neste capítulo, você vai conhecer as principais características morfológicas</p><p>e fisiológicas de protozoários e bactérias, assim como a sua relação patogênica</p><p>com seres humanos e animais e como podemos controlar e prevenir as doenças</p><p>causadas por eles.</p><p>Protozoa e Monera: morfofisiologia</p><p>Nesta seção, vamos conhecer as principais características dos protozoários e</p><p>das bactérias quanto a sua estrutura celular (interna e externa), seus hábitos,</p><p>seu metabolismo energético e sua reprodução.</p><p>Protozoa</p><p>Os organismos agrupados no reino Protista, ou Protozoa, estão distribuídos em</p><p>diferentes grupos taxonômicos (PECHENIK, 2016). São poucas as características</p><p>gerais dos protistas que podem ser citadas sem que haja exceções, já que estes</p><p>exibem ampla diversidade morfológica e filogenética quando comparados aos</p><p>demais eucariotos (animais, plantas e fungos) (MADIGAN et al., 2016; REECE et</p><p>al., 2015). Quanto às características morfológicas gerais dos protistas, ainda</p><p>que sejam os seres mais antigos, a única célula que possuem atua como um</p><p>organismo completo, realizando todas as funções vitais que animais multice-</p><p>lulares realizam (BRUSCA; MOORE; SHUSTER, 2018; PECHENIK, 2016).</p><p>A área superficial dos corpos dos protozoários é relativamente grande quando</p><p>comparada ao seu volume corporal, facilitando trocas de gases e resíduos</p><p>solúveis em toda a superfície corporal exposta. Outro benefício da grande área</p><p>de superfície é a captação ativa de nutrientes que se encontram dissolvidos</p><p>nos fluidos que os circundam. Seu corpo é limitado por uma membrana celular</p><p>(plasmalema) química e estruturalmente igual à dos eucariotos multicelulares.</p><p>No citoplasma, dividido em ectoplasma (região externa gelatinosa e clara) e</p><p>endoplasma (região interna fluida), estão localizados núcleo, nucléolo, cromos-</p><p>somos, aparelho de golgi, retículo endoplasmático (liso e rugoso), centríolos,</p><p>lisossomos, mitocôndrias e, em alguns protozoários, cloroplastos. Alguns tam-</p><p>bém apresentam organelas inexistentes em outros eucariotos, como vacúolos</p><p>contráteis, tricocistos e toxicistos (PECHENIK, 2016; REECE et al., 2015).</p><p>Os vacúolos contráteis (Figura 1a) auxiliam na eliminação dos resíduos</p><p>metabólicos e excesso de água para o meio externo, de forma mais ou menos</p><p>controlada, atuando para contrabalançar os gradientes de difusão entre o</p><p>meio externo e o meio interno da célula (BRUSCA; MOORE; SHUSTER, 2018). Os</p><p>tricocistos (Figura 1b) desenvolvem-se dentro de vesículas no citoplasma e</p><p>Invertebrados metazoários não artrópodos reinos: Protozoa e Monera2</p><p>situam-se na periferia do protozoário. São cápsulas alongadas estimuladas</p><p>a ejetar um filamento longo e delgado. Sua importância está, possivelmente,</p><p>relacionada à proteção contra predadores ou à ancoragem do protozoário</p><p>durante a alimentação. Outras estruturas relacionadas são os toxicistos,</p><p>envolvidos com a predação. Filamentos carregados de toxicistos atuam pa-</p><p>ralisando a presa e dando início à digestão (PECHENIK, 2016).</p><p>Figura 1. (a) Vacúolo contrátil do Paramecium caudatum. (b) Tricocistos de Pseudomicrothorax</p><p>dubis estendidos.</p><p>Fonte: Adaptada de Reece et al. (2015) e Pechenik (2016).</p><p>A membrana plasmática pode aparecer sozinha, conferindo flexibilidade e</p><p>plasticidade na forma. Entretanto, é possível que os protozoários apresentem</p><p>uma forma mais constante quando ocorre o espessamento da membrana para</p><p>formar a teca (película rígida ou semirrígida, em geral de celulose, carbonato</p><p>de cálcio ou dióxido de silício) (BRUSCA; MOORE; SHUSTER, 2018).</p><p>A capacidade de locomoção dos protozoários está relacionada às inte-</p><p>rações da superfície da célula com o meio em que está inserido. Veremos a</p><p>seguir as estruturas utilizadas pelos protozoários de vida livre.</p><p>1. Cílios: a movimentação dos cílios permite a locomoção, a coleta do</p><p>alimento e a liberação de resíduos do entorno, além de colocar o</p><p>corpo em contato com a superfície da água oxigenada. Os cílios podem</p><p>recobrir todo o corpo do protozoário ou encontrar-se em tufos ou</p><p>fileiras (Figura 2a). Os ciliados movimentam-se mais rapidamente que</p><p>os demais tipos de protozoários (MADIGAN et al., 2016; PECHENIK, 2016).</p><p>2. Flagelos: são semelhantes aos cílios em estrutura e função, mas os</p><p>flagelos são mais longos e encontram-se em menor quantidade (Figura</p><p>2b). A locomoção dos protozoários que têm flagelo pode ser muito</p><p>rápida, mas, ainda assim, é cerca de 10 vezes mais devagar do que</p><p>daqueles que têm cílios (PECHENIK, 2016).</p><p>Invertebrados metazoários não artrópodos reinos: Protozoa e Monera 3</p><p>Figura 2. (a) Cílios em Paramecium sp. (b) Flagelos em Trichomonas vaginalis (microscopia</p><p>eletrônica de varredura colorida).</p><p>Fonte: Adaptada de Madigan et al. (2016) e Reece et al. (2015).</p><p>3. Pseudópodes: característicos de amebas e utilizados para loco-</p><p>moção e alimentação, podem ocorrer em diferentes formas (Figura</p><p>3). Os lobópodes são largos e têm extremidade arredondada. Os</p><p>filópodes são finos e podem se ramificar. Os reticulópodes têm</p><p>ramificações de finos filamentos. Os axópodes têm espinhos finos</p><p>utilizados na coleta de alimento (BRUSCA; MOORE; SHUSTER, 2018;</p><p>PECHENIK, 2016).</p><p>Figura 3. Diferentes formas de pseudópodes: (a) lobópode em Amoeba proteus; (b) filópodes</p><p>em Pseudodifflugia sp.; (c) reticulópodes em Allogromia laticollaris.</p><p>Fonte: Adaptada de Pechenik (2016).</p><p>A obtenção de energia dos protozoários ocorre de forma autotrófica ou</p><p>heterotrófica. A heterotrofia se dá pela digestão intracelular, e podem re-</p><p>ceber compostos orgânicos por difusão, pinocitose ou fagocitose. Naqueles</p><p>que realizam pinocitose ou fagocitose, as partículas são envolvidas por</p><p>uma membrana, formando um fagossomo. Tais estruturas são formadas em</p><p>praticamente toda a área superficial da célula ou em locais associados ao</p><p>Invertebrados metazoários não artrópodos reinos: Protozoa e Monera4</p><p>citóstoma, um tipo de “boca celular”. A digestão do conteúdo vacuolar ocorre</p><p>pela ação de enzimas. Resíduos não digeridos são eliminados por uma abertura</p><p>na membrana plasmática (citoprocto) (PECHENIK, 2016).</p><p>A reprodução dos protozoários ocorre assexuadamente (em todos os</p><p>grupos) e sexuadamente (na maioria dos grupos). A reprodução assexuada</p><p>acontece por (BRUSCA; MOORE; SHUSTER, 2018; PECHENIK, 2016):</p><p>a) fissão binária: o protozoário divide-se em dois indivíduos por mitose;</p><p>b) fissão múltipla: ocorrem muitas divisões do núcleo, precedendo a</p><p>diferenciação do citoplasma em muitos indivíduos;</p><p>c) brotamento: uma região da célula-mãe de separa, diferenciando-se e</p><p>dando origem a um novo indivíduo;</p><p>d) plasmotomia: em espécies multinucleadas, a célula-mãe se divide em</p><p>duas novas células sem passar por mitose.</p><p>A reprodução sexuada, por sua vez, pode acontecer por (BRUSCA; MOORE;</p><p>SHUSTER, 2018):</p><p>a) conjugação: permuta de material genético entre dois protozoários;</p><p>b) autogamia (autofecundação): reformulação de um núcleo dentro de</p><p>um único indivíduo.</p><p>Nos protozoários ciliados, encontram-se dois tipos de núcleos diferentes,</p><p>os micronúcleos, que são pequenos, sem nucléolo e com cromatina dispersa;</p><p>e os macronúcleos, que são grandes, têm nucléolos proeminentes e cromatina</p><p>condensada (BRUSCA; MOORE; SHUSTER, 2018).</p><p>Em virtude de sua ampla diversidade morfológica e filogenética, além de</p><p>serem amplamente distribuídos na natureza, os protozoários são organizados</p><p>em grupos, como veremos a seguir (BRUSCA; MOORE; SHUSTER, 2018; MADIGAN</p><p>et al., 2016; PECHENIK, 2016).</p><p>Flagelados</p><p>Flagelados são de vida livre ou parasitas. Habitam ambientes aquáticos e</p><p>alimentam-se de bactérias ou parasitam animais. Podem causar doenças</p><p>em vertebrados, como os indivíduos dos gêneros Trypanossoma, Giardia ou</p><p>Trychomonas (Figura 4).</p><p>Invertebrados metazoários não artrópodos reinos: Protozoa e Monera 5</p><p>Figura 4. (a) Giardia intestinalis. (b) Trichomonas vaginalis.</p><p>Fonte: Madigan et al. (2016, p. 547).</p><p>Alveolados</p><p>Alveolados caracterizam-se pela presença de bolsas (alvéolos), que auxi-</p><p>liam no equilíbrio osmótico (Figura 5). Nesse grupo, encontram-se os cilia-</p><p>dos (utilizam cílios para locomoção), os dinoflagelados (móveis e com dois</p><p>flagelos) e os apicomplexos (parasitas de animais). Algumas espécies de</p><p>ciliados vivem em simbiose no rúmen de animais ruminantes e auxiliam na</p><p>digestão do animal. Como exemplo de dinoflagelados, há espécies tóxicas</p><p>como Gonyaulax sp. (marés vermelhas), que estão associadas à mortalidade</p><p>de peixes e ao envenenamento de humanos. Já os apicomplexos, parasitas</p><p>obrigatórios que causam doenças em humanos, formam esporozoítas que</p><p>atuam na transmissão do parasita a um novo hospedeiro. Como exemplo, há</p><p>as espécies de Plasmodium sp. (malária) e Toxoplasma sp. (toxoplasmose).</p><p>Figura 5. Alvéolos.</p><p>Fonte: Reece et al. (2015, p. 598).</p><p>Invertebrados metazoários não artrópodos reinos: Protozoa e Monera6</p><p>Ameboides</p><p>A maioria dos Ameboides são de vida livre; poucos parasitam vertebra-</p><p>dos e invertebrados. Reproduzem-se assexuadamente. A formação de</p><p>cistos é comum. Para locomoção e movimentação, utilizam pseudópodes</p><p>(Figura 5). Exemplo desse grupo é a espécie Entamoeba histolytica, que</p><p>causa a disenteria amebiana.</p><p>Figura 6. Amoeba proteus, ameba de água doce com pseudópodes.</p><p>Fonte: Pechenik (2016, p. 61).</p><p>Monera</p><p>Os indivíduos do reino Monera são procariotos, atualmente classificados nos</p><p>domínios Bacteria e Archaea (REECE et al., 2015). Nesta seção, vamos tratar</p><p>sobre as características gerais desses seres.</p><p>No citoplasma das bactérias, encontram-se DNA cromossômico (em fita</p><p>circular única e na forma de plasmídeos, que são fragmentos menores de</p><p>DNA), RNA mensageiro, ribossomos (diferentes dos ribossomos de eucariotos),</p><p>proteínas e metabólitos. A membrana que envolve o citoplasma é semelhante</p><p>à de células eucarióticas, constituída por uma bicamada lipídica, mas sem</p><p>esteroides.</p><p>Considerando que o citoplasma das células procarióticas apresenta alta</p><p>concentração de solutos dissolvidos, gerando uma pressão osmótica signifi-</p><p>cativa, a maioria das bactérias e arqueias tem uma estrutura que as protege</p><p>contra a lise celular, além de conferir rigidez à célula. Essa estrutura é a</p><p>parede celular (Figura 7).</p><p>Invertebrados metazoários não artrópodos reinos: Protozoa e Monera 7</p><p>Figura 7. Estrutura externa das bactérias: parede celular e cápsula bacteriana em Strepto-</p><p>coccus sp.</p><p>Fonte: Madigan et al. (2016, p. 49).</p><p>Na maioria das vezes, essa estrutura é composta por um peptideoglicano,</p><p>envolvendo a célula inteira (arqueias, micoplasmas e clamídias não os têm).</p><p>O peptideoglicano consiste em uma malha de exoesqueleto que permite a</p><p>difusão de metabólitos até a membrana plasmática, além de conferir rigidez</p><p>e auxiliar na determinação da forma de cada bactéria. A estrutura da parede</p><p>celular de uma bactéria torna possível a sua classificação em gram-positivas</p><p>(com parede celular mais simples e grande quantidade de peptideoglicano) e</p><p>gram-negativas (com menos peptideoglicano e uma membrana mais externa</p><p>de lipopolissacarídeos) (MADIGAN et al., 2016; REECE et al., 2015).</p><p>A coloração de Gram é um método amplamente utilizado em micro-</p><p>biologia e valioso na medicina, pois permite determinar rapidamente</p><p>se uma infecção é causada por bactérias gram-positivas ou gram-negativas. As</p><p>bactérias gram-negativas têm porções de lipídios em sua parede celular que</p><p>podem causar febre ou choque, além de serem mais resistentes aos antibióticos</p><p>quando comparadas às bactérias gram-positivas (MADIGAN et al., 2016; REECE</p><p>et al., 2015).</p><p>Externamente à membrana, as bactérias e arqueias podem ter outras</p><p>camadas ou estruturas. A cápsula (Figura 7) é uma camada de polissacarídeos</p><p>não fixados à célula, cuja função é permitir que esses organismos possam</p><p>aderir a um substrato ou a outros indivíduos na colônia, protegendo-o contra</p><p>Invertebrados metazoários não artrópodos reinos: Protozoa e Monera8</p><p>a desidratação ou o ataque pelo sistema imune do hospedeiro. As fímbrias e</p><p>os pili consistem em projeções de proteínas filamentosas na superfície celular.</p><p>As fímbrias (Figura 8a) são mais curtas e estão relacionadas à capacidade</p><p>de adesão das células ou à formação de biofilmes. Já os pili (Figura 8b) são</p><p>mais longos do que as fímbrias e atuam, dentre outras formas, na troca de</p><p>material genético entre duas células (conjugação) (REECE et al., 2015).</p><p>Figura 8. Estruturas externas das bactérias: (a) fímbrias de Salmonella typhi; (c) pili de</p><p>Escherichia coli em conjugação.</p><p>Fonte: Adaptada de Reece et al. (2015).</p><p>Algumas raras bactérias desenvolveram um método de resistência</p><p>às condições desfavoráveis: os endósporos. Eles são formados após</p><p>a célula produzir uma cópia de seus cromossomos, envolvidos por múltiplas</p><p>camadas resistentes (TORTORA; FUNKE; CASE, 2017).</p><p>Invertebrados metazoários não artrópodos reinos: Protozoa e Monera 9</p><p>Os flagelos (longos e finos) são as estruturas mais comuns para locomoção,</p><p>presentes por toda a superfície ou nas extremidades das células. Algumas</p><p>bactérias não têm flagelos e locomovem-se por deslizamento (MADIGAN et al.,</p><p>2016). A reprodução dos procariotos pode ocorrer rapidamente em condições</p><p>favoráveis. O mecanismo é a fissão binária, semelhante ao que ocorre com os</p><p>protozoários, quando uma célula se divide em duas. O tempo para que uma</p><p>célula se divida em duas novas células é chamado tempo de geração, variável</p><p>entre as diferentes espécies de bactérias. Considerando que esse processo</p><p>é assexuado, as bactérias utilizam métodos de transferência de genes para</p><p>garantir a variabilidade genética: recombinação, transformação, transdução</p><p>e conjugação (MADIGAN et al., 2016; REECE et al., 2015).</p><p>A forma como as bactérias obtêm energia é muito diversa, podendo ser</p><p>fotótrofa, quimiotrófica, autótrofa ou heterótrofa. Além disso, o metabolismo</p><p>das bactérias varia de acordo com o oxigênio, conforme a seguinte classifi-</p><p>cação (MADIGAN et al., 2016; TORTORA; FUNKE; CASE, 2017):</p><p>a) aeróbias: crescem em grandes tensões de O2, utilizando-o em seu</p><p>metabolismo;</p><p>b) microaerófilas: utilizam O2 em baixos níveis;</p><p>c) aeróbias facultativas: podem crescer na presença de O2;</p><p>d) anaeróbias aerotolerantes: não utilizam O2, mas vivem na presença dele;</p><p>e) anaeróbias obrigatórias: inibidos ou mortos na presença de O2.</p><p>Protozoa e Monera de importância médica</p><p>Muitas espécies de protozoários e bactérias são de grande importância</p><p>médica. Para que você conheça algumas espécies, nesta seção vamos citar</p><p>algumas causadoras de doenças em humanos e animais, bem como suas</p><p>características (LEVINSON et al., 2022; TORTORA; FUNKE; CASE, 2017).</p><p>Giardia intestinalis</p><p>Giardia intestinalis (Figura 4a) é um protozoário sem mitocôndrias, que pode</p><p>ser chamado de Giradia lambia ou Giardia duodenalis. Pode ser encontrado</p><p>parasitando o intestino delgado de humanos e outros mamíferos. Por ser</p><p>eliminado na forma de cisto pelas fezes de seus hospedeiros, é capaz de</p><p>sobreviver no ambiente até que entre em contato com outro hospedeiro que o</p><p>ingira. A doença que ele causa é a giardíase, diagnosticada pela identificação</p><p>de cistos</p><p>nas fezes.</p><p>Invertebrados metazoários não artrópodos reinos: Protozoa e Monera10</p><p>Trichomonas vaginalis</p><p>Trichomonas vaginalis (Figura 4b) é um protozoário que causa a tricomoníase.</p><p>Assim como Giardia intestinalis, não tem mitocôndrias, mas uma membrana</p><p>ondulante. Por não formar cistos, precisa ser transferido entre hospedeiros</p><p>de maneira rápida, pois corre o risco de dessecação. Pode ser encontrado no</p><p>trato urinário masculino ou na vagina. Sua transmissão acontece sexualmente,</p><p>mas pode ocorrer pelo compartilhamento de toalhas ou banheiros.</p><p>Gênero Trypanosoma</p><p>No gênero Trypanosoma, estão incluídos os agentes causadores da doença</p><p>do sono (Trypanosoma brucei) e da doença de Chagas (Trypanosoma cruzi).</p><p>São transmitidos ao seu hospedeiro pela picada de insetos que se alimen-</p><p>tam de sangue (hematófagos). Para que consigam sobreviver, seus corpos</p><p>são alongados e finos e têm uma membrana ondulante. Observe a Figura 9.</p><p>As células roxas em forma de fita entre as hemácias são os tripanossomos.</p><p>Figura 9. Trypanosoma brucei (microscopia eletrônica de varredura colorida).</p><p>Fonte: Reece et al. (2015, p. 594).</p><p>Entamoeba histolytica</p><p>Entamoeba histolytica é a única espécie de ameba causadora de doenças</p><p>relacionadas ao intestino de humanos. Protozoário causador da disenteria</p><p>amebiana, é transmitida entre humanos pela ingestão de seus cistos elimi-</p><p>nados pelas fezes de hospedeiros. Outras amebas podem causar doenças</p><p>Invertebrados metazoários não artrópodos reinos: Protozoa e Monera 11</p><p>em outros locais do corpo humano e não são transmissíveis entre humanos,</p><p>como é o caso da Acanthamoeba, que se desenvolve na água e pode causar</p><p>cegueira, e da Balamuthia, que tem sido associada à abcessos cerebrais</p><p>(encefalite amebiana granulomatosa).</p><p>Plasmodium falciparum</p><p>Plasmodium falciparum (Figura 10a) é a espécie de protozoário que causa</p><p>a malária. Tem ciclo de vida envolvendo a transmissão entre diversos hos-</p><p>pedeiros, o que dificulta o desenvolvimento de uma vacina. Reproduz-se</p><p>sexuadamente no organismo de mosquitos (Anopheles sp.), que, ao picar um</p><p>ser humano, injeta o protozoário, que passa a se reproduzir assexuadamente.</p><p>Toxoplasma gondii</p><p>Toxoplasma gondii (Figura 10b) pertence ao mesmo grupo do Plasmodium. Seu</p><p>ciclo de vida passa pelos gatos domésticos, onde se reproduzem de forma</p><p>sexuada e assexuada e, posteriormente, são eliminados pelas fezes. Caso</p><p>sejam ingeridos por humanos ou outros animais, reproduzem-se no tecido</p><p>dos seus hospedeiros.</p><p>Figura 10. (a) Gametócito de Plasmodium falciparum (estágio de vida que infecta o mosquito).</p><p>(b) Esporozoíta de Toxoplasma gondii.</p><p>Fonte: Madigan et al. (2016, p. 551).</p><p>Cryptosporidium sp.</p><p>Cryptosporidium sp. é um protozoário que habita células de revestimento</p><p>do intestino delgado, podendo ser transmissível via fecal-oral aos humanos</p><p>pelas fezes de cachorros, bovinos, roedores e gatos, causando diarreia.</p><p>Invertebrados metazoários não artrópodos reinos: Protozoa e Monera12</p><p>Balantidium coli</p><p>Balantidium coli é um protozoário ciliado que causa disenteria grave após</p><p>ingestão de cistos pelo hospedeiro, alcançando o intestino delgado. Seus</p><p>cistos são eliminados pelas fezes do hospedeiro.</p><p>Gênero Leishmania</p><p>A espécie de protozoário L. donovani, que causa a leishmaniose visceral,</p><p>envolve em seu ciclo de vida um mosquito como vetor e mamíferos como</p><p>reservatório. Os humanos são infectados após a picada do mosquito vetor. As</p><p>espécies L. tropica e L. mexicana causam a leishmaniose cutânea. A espécie</p><p>L. braziliensis causa a leishmaniose mucocutânea. Todas têm o mesmo ciclo</p><p>de vida da L. donovani.</p><p>Gênero Staphylococcus</p><p>Bactérias do gênero Staphylococcus são gram-positivas e têm formato es-</p><p>férico. São responsáveis por uma grande diversidade de doenças sistêmicas</p><p>na pele, em tecidos moles, ossos e trato urinário. As principais espécies são</p><p>S. aureus, que pode causar abscessos, intoxicação alimentar, pneumonia</p><p>hospitalar, foliculite, entre outras, S. epidermidis, que causa endocardite, e</p><p>S. saprophyticus, que pode causar infecções urinárias.</p><p>Gênero Streptococcus</p><p>Bactérias do gênero Streptococcus são gram-positivas e têm formato esférico,</p><p>organizando-se em duplas ou cadeias, consideradas patógenos humanos de</p><p>grande importância. S. pyogenes e S. pneumoniae são patógenos respiratórios</p><p>de humanos. S. agalactiae é a principal espécie causadora de sépsis e da</p><p>meningite neonatais.</p><p>Enterococus faecalis</p><p>Enterococus faecalis é uma bactéria causadora de infecções do trato urinário</p><p>e endocardite.</p><p>Gênero Bacillus</p><p>As bactérias do gênero Bacillus têm forma de bacilo. B. anthracis é comum</p><p>em animais e raro em humanos, causando o antraz. B. cereus produz toxinas</p><p>que podem causar intoxicação alimentar.</p><p>Invertebrados metazoários não artrópodos reinos: Protozoa e Monera 13</p><p>� Giardíase: pode ser controlada e prevenida com a ingestão de água</p><p>fervida, filtrada ou ionizada em regiões de incidência da doença. Não</p><p>há vacina ou fármacos profiláticos.</p><p>� Tricomoníase: o controle dessa doença pode ser realizado com higiene</p><p>pessoal adequada, mantendo-se o pH vaginal baixo, evitando-se o</p><p>compartilhamento de roupas e toalhas e adotando-se práticas sexuais</p><p>seguras. Não há vacina ou fármacos profiláticos.</p><p>� Doença de Chagas: a melhoria nas condições de moradia e a erradicação</p><p>dos ninhos do seu vetor são as formas de controle que têm demostrado</p><p>mais eficácia. Não há vacina ou fármacos profiláticos.</p><p>14 Invertebrados metazoários não artrópodos reinos: Protozoa e Monera</p><p>Gênero Clostridium</p><p>Clostridium inclui bacilos gram-positivos anaeróbios que produzem espo-</p><p>ros. Podem causar tétano (C. tetani), botulismo (C. botulinum), intoxicação</p><p>alimentar, entre outros.</p><p>Gênero Mycobacterium</p><p>Mycobacterium inclui bactérias gram-positivas que podem causar tuberculose</p><p>(Mycobacterium tuberculosis) e hanseníase (Mycobacterium leprae).</p><p>Corynebacterium diphtheriae</p><p>Corynebacterium diphtheriae é um bacilo gram-posistivo aeróbio que causa</p><p>difteria.</p><p>Bordetella pertussis</p><p>Bordetella pertussis é um cocobacilo gram-negativo aeróbio que causa a</p><p>coqueluche, além de poder causar grave doença respiratória em adultos.</p><p>Gênero Neisseria</p><p>O gênero Neisseria inclui bactérias em forma de coco gram-negativas e ae-</p><p>róbias obrigatórias. N. meningitidis causa a meningite e a meningococcemia,</p><p>e N. gonorrhoeae causa gonorreia.</p><p>Doenças e profilaxia</p><p>Nesta seção, vamos discutir as formas de prevenção das principais doenças</p><p>tratadas na seção anterior (LEVINSON et al., 2022; TORTORA; FUNKE; CASE, 2017).</p><p>� Doença do sono: o controle pode ocorrer pela utilização de mosqui-</p><p>teiros, vestimentas protetoras e inseticidas. A erradicação de locais</p><p>de reprodução em pastos ou no mato também é uma alternativa. Não</p><p>existe vacina.</p><p>� Disenteria amebiana: a prevenção consiste em evitar a contaminação</p><p>fecal dos alimentos e da água. A cloração e a filtração dos suprimentos</p><p>de água podem limitar a disseminação desse tipo de infecção por</p><p>protozoários entéricos, assim como a lavagem de mãos e o cozimento</p><p>de vegetais em regiões endêmicas.</p><p>� Malária: como os mosquitos que transmitem o Plasmodium se alimen-</p><p>tam entre o anoitecer e o amanhecer, é importante que sejam utilizados</p><p>mosquiteiros, repelentes, telas nas janelas e roupas protetoras. Além</p><p>disso, é importante a redução populacional de mosquitos, assim como</p><p>dos locais de reprodução, como áreas com águas paradas de pântanos.</p><p>Não existe vacina.</p><p>� Toxoplasmose: para prevenir essa doença, recomenda-se evitar a</p><p>ingestão e o manuseio de carnes cruas ou malcozidas. Além disso,</p><p>evitar exposição às fezes de gatos.</p><p>� Criptosporidiose: assim como para os demais protozoários que parasi-</p><p>tam o intestino, os métodos de controle consistem na higiene pessoal e</p><p>no saneamento, além do tratamento da água com cloração e filtração.</p><p>� Balantidiose: tem como métodos de prevenção aqueles semelhantes</p><p>aos da disenteria amebiana, sendo recomendadas a higiene pessoal</p><p>e a manutenção das condições sanitárias.</p><p>� Leishmaniose: a forma de prevenção e controle das diferentes</p><p>formas</p><p>de leishmaniose consiste no tratamento imediato das infecções, con-</p><p>trole dos hospedeiros/reservatórios e do inseto vetor. A utilização de</p><p>métodos contra a picada dos mosquitos (mosquiteiro, telas, roupas</p><p>protetoras e repelentes) também é uma forma de prevenção.</p><p>� Doenças causadas por espécies do gênero Staphylococcus: não exis-</p><p>tem vacinas contra esses patógenos, por isso, como forma de evitar a</p><p>contaminação, recomenda-se a lavagem frequente das mãos.</p><p>� Doenças causadas por espécies do gênero Streptococcus: para todas as</p><p>diferentes doenças causadas pelas diversas espécies de estreptococos,</p><p>o recomendado é a quimioprofilaxia, ou seja, utilização de fármacos.</p><p>� Doenças causadas por espécies do gênero Bacillus: para controle do</p><p>antraz em humanos, é necessário que se faça o controle da doença</p><p>em animais com a vacinação do rebanho ou a incineração de animais</p><p>mortos por antraz, evitando que o solo seja contaminado por esporos.</p><p>Invertebrados metazoários não artrópodos reinos: Protozoa e Monera 15</p><p>Por produzirem esporos, essa doença possivelmente nunca será erra-</p><p>dicada. A intoxicação alimentar por B. cereus pode ser evitada com o</p><p>consumo do alimento após o cozimento e sua refrigeração adequada.</p><p>� Doenças causadas por bactérias do gênero Clostridium: a prevenção</p><p>do tétano (C. tetani) ocorre pela imunização. Quando há um ferimento,</p><p>este deve ser limpo, e a pessoa deve receber um reforço do imunizante.</p><p>O botulismo (C. botulinum) pode ser evitado com a esterilização ade-</p><p>quada dos alimentos enlatados e embalados a vácuo, com o cozimento</p><p>dos alimentos para inativar a toxina produzida pela bactéria e com o</p><p>descarte de latas estufadas.</p><p>� Doenças causadas por bactérias do gênero Mycobacterium: a pre-</p><p>venção da disseminação da tuberculose depende, especialmente, da</p><p>identificação rápida e do tratamento de pacientes que expelem essa</p><p>bactéria pela tosse. Outra forma de controle é a utilização de vacina.</p><p>A hanseníase pode ser prevenida pelo isolamento de pacientes que</p><p>tenham a doença, associado à quimioprofilaxia. Não existe vacina.</p><p>� Difteria: o controle dessa doença pode ser realizado pela imunização</p><p>por vacina e doses de reforço em populações suscetíveis.</p><p>� Doenças causadas por espécies do gênero Neisseria: a prevenção</p><p>da meningite é realizada com quimioprofilaxia e com a utilização de</p><p>vacina meningocócica. A gonorreia pode ser prevenida com a utilização</p><p>de preservativos e tratamento rápido de pacientes que apresentem</p><p>sintomas e de seus parceiros.</p><p>A partir do que foi tratado neste capítulo, podemos observar sob uma nova</p><p>óptica esses pequenos seres que habitam diferentes ambientes e parasitam</p><p>humanos e animais. É de grande importância reconhecermos, como estudantes</p><p>e indivíduos, as características de cada um dos grupos estudados — Protozoa</p><p>e Monera —, suas similaridades e diferenças e como eles podem interferir em</p><p>nosso cotidiano e na nossa saúde.</p><p>Referências</p><p>BRUSCA, R. C.; MOORE, W.; SHUSTER, S. M. Invertebrados. 3. ed. Rio de Janeiro: Guana-</p><p>bara Koogan, 2018.</p><p>LEVINSON, W. et al. Microbiologia médica e imunologia: um manual clínico para doenças</p><p>infecciosas. 15. ed. Porto Alegre: Artmed, 2022.</p><p>MADIGAN, M. T. et al. Microbiologia de Brock. 14. ed. Porto Alegre: Artmed, 2016.</p><p>16 Invertebrados metazoários não artrópodos reinos: Protozoa e Monera</p><p>PECHENIK, J. A. Biologia dos invertebrados. 7. ed. Porto Alegre: AMGH, 2016.</p><p>REECE, J. B. et al. Biologia de Campbell. 10. ed. Porto Alegre: Artmed, 2015.</p><p>TORTORA, G. J.; FUNKE, B. R.; CASE, C. L. Microbiologia. 12. ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.</p><p>Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos</p><p>testados, e seu funcionamento foi comprovado no momento da</p><p>publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas</p><p>páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores</p><p>declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou</p><p>integralidade das informações referidas em tais links.</p><p>Invertebrados metazoários não artrópodos reinos: Protozoa e Monera 17</p>