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AULA 5 TOMADA DE DECISÃO E INTUIÇÃO Prof. Fábio Eduardo da Silva 2 CONVERSA INICIAL Olá, bem-vindo(a) a mais uma nova experiência! Nela vamos nos aventurar na intuição aplicada ao empreendedorismo. Você vai compreender os estilos intuitivo e reflexivo da mente e descobrir, se ainda não sabe, que o melhor estilo são os dois juntos, ou seja, uma mente ambidestra. Liderança e empreendedorismo intuitivos também estão em nossa trilha. E, deixando o melhor para o final, vamos conhecer um modelo de aplicação da intuição para visionar o futuro. Onde sua empresa ou empreendimento pretende chegar em cinco, dez anos? É possível antever e/ou criar uma visão de futuro integrando intuição e razão? Qual o poder de uma visão, para uma empresa? Relaxe seu corpo, prepare sua emoção, aguce sua razão e, principalmente, libere sua intuição... TEMA 1 – INTUIÇÃO E EMPREENDEDORISMO 1.1 O empreendedor A expressão empreendedor tem origem na palavra francesa entrepreneur e acredita-se que tenha sido usada pela primeira vez pelo economista francês Jean Baptiste Say (1767-1832). Para ele, significava “[...] alguém com a capacidade de estimar e prever o resultado potencial de uma ideia de negócio, assumir a empreitada (como aventureiro) e consequentemente – como todos os aventureiros –, correr riscos” (Sadler-Smith, 2011, p. 239). Parece não haver consenso científico sobre os conceitos de empreendedor, empreendedorismo ou, mais recentemente, comportamento empreendedor. Estudos buscaram distinguir aqueles considerados empreendedores daqueles não empreendedores considerando características físicas, psicológicas, fatores demográficos, entre outros. Há também proposições de caráter funcional, relacionando o empreendedorismo à criação de novas empresas. Outros ainda, buscaram ampliar o escopo, incluindo características do comportamento do empreendedor, a questão do reconhecimento das oportunidades, da escolha do modelo da organização e também a importância social do comportamento empreendedor, ou seja, a função do empreendedor na sociedade. Aspectos cognitivos, em maior escala, e também afetivos foram também estudados em relação ao comportamento do empreendedor, sugerindo 3 que essas duas categorias são indissociáveis e devem ser estudadas em conjunto para melhor se compreender tal comportamento (Nassif, 2014). 1.2 O empreendedorismo intuitivo A análise é infalível apenas quando todas as variáveis são conhecidas, quantificadas com precisão e o cálculo é realizado com perfeição. Como um participante apontou, se todas as informações fossem perfeitamente conhecidas, não haveria realmente uma decisão a ser tomada. Na vida real, isso raramente é o caso. As universidades não preparam as pessoas para um mundo tão complexo e incerto: “Quando fui para a universidade, todos os problemas foram apresentados de uma maneira bem organizada – esse é o problema e é assim que você o resolve. Minha experiência foi que minha vida sempre foi confusa e os problemas apresentados a mim e meu trabalho sempre foram confusos” [...] (Robson, 2015, p. 24, tradução nossa). O empreendedorismo ocorre no ambiente da vida real (não ideal) e é marcado por elevada competitividade, incerteza e mudanças muito rápidas; as decisões são tomadas em condições de informação imperfeita e risco contínuo. A natureza dos processos empreendedores implica a capacidade das pessoas de formar impressões e lidar com problemas e oportunidades que não têm soluções fáceis ou evidentes. Por isso a intuição empreendedora tem uma função importante (Kickul; Gundry, 2011). O empreendedorismo pode ser pensado em estágios que incluem a descoberta de oportunidades, o planejamento para o lançamento do empreendimento, a obtenção de recursos e a efetivação do que foi planejado. Tais fases não são lineares nem repetitivas e podem ser percebidas pelos empreendedores mediante diferentes perspectivas cognitivas (Kickul; Gundry, 2011). Os empreendedores aspirantes, cujas habilidades intuitivas são fortes, têm maior probabilidade de descobrir novas oportunidades, observando informações desconhecidas e muitas vezes desorganizadas e, em seguida, sintetizando essas informações para ajudar-lhes a tomar decisões [...]. Esse uso da heurística ajuda os empreendedores a reduzir a complexidade com que são confrontados e permite que eles façam conexões e se concentrem no que consideram crítico [...]. Os instintos [ou intuições] não são infalíveis, no entanto, e existem armadilhas que os empresários devem evitar, como confundir reações (baseadas na emoção e irracionalidade) com decisões intuitivas (baseadas no instinto e na experiência) [...] (Kickul; Gundry, 2011, p. 88-89, tradução nossa). As habilidades intuitivas podem ser muito eficazes na descoberta de ideias e oportunidades e também nas fases posteriores, por exemplo quando se busca inventar a organização ou importar novos produtos, serviços, tecnologias e 4 processos. A intuição empreendedora permite a identificação de oportunidades viáveis quando outras pessoas nada percebem (Kickul; Gundry, 2011). A intuição emergiu como um fator crítico de sucesso no empreendedorismo [...]. Portanto, no contexto empresarial, ela está intimamente relacionada às competências criativas dos empreendedores e à sua capacidade de navegar a frente [pelo front end], [o que é] muitas vezes confuso, da inovação e formação da organização (Kickul; Gundry, 2011, p. 89). 1.3 Estilo cognitivo intuitivo e empreendedorismo Empreendedores intuitivos descobrem oportunidades percebendo sinais, por meio de informações desconhecidas ou desorganizadas, que são processadas por eles de forma sintética e holística. A intuição é um modo de pensamento para aqueles que são especialistas em gerar ideias. São pessoas que não gostam de regras ou rotinas diárias; preferem ambientes flexíveis, voltados para atividades, em vez de estruturas rígidas. Os estudos de Allinson e Hayes (1996, 2012); Allinson, Chell e Hayes (2000); e Kickul e Gundry (2011), da Universidade de Leeds, na Inglaterra, os levaram à criação e validação do índice de estilo cognitivo (CSI, do inglês cognitive style index) e à descoberta de que as pessoas empreendedoras tendem a pontuar mais no polo intuitivo do que naquele analítico, dessa escala. Na literatura, existem vários instrumentos que buscam avaliar os estilos cognitivos nas áreas organizacional, educacional e psicológica, como segue (Verdinelli et al., 2016, p. 4): [...] Grupo Incorporado de Testes de Figuras (GITF) proposto por Witkin (1971); o Kirton Inventário de adaptação-inovação (KAI) elaborado por Kirton (1976), Inventário de Estilo de Pensamento (TSI) proposto por Sternberg e Wagner (1991), o Índice de Estilo Cognitivo (CSI) de Allinson e Hayes (1996), Inventário Racional-Experimental (REI) de Epstein et al. (1996), o Indicador do Tipo de Myers-Briggs (MBTI) proposto por Myers et al. (2003), Estilo e Perfil de Pensamento não-linear/linear de Vance et al. (2007) e o Indicador de Estilo Cognitivo (COSI) sugerido por Cools e van den Broeck (2007). Entre esses instrumentos, três têm sido frequentemente utilizados nos estudos de gestão e negócios: MBTI, KAI e CSI. Cada pessoa tem uma predisposição singular para buscar, processar e analisar informações. Tal preferência influencia a forma como aprendemos, resolvemos questões e tomamos decisões. O CSI se baseia numa perspectiva polar em que os extremos de cognição intuitiva e cognição analítica representam um contínuo de uma única dimensão. O questionário traça o modelo cognitivo e 5 de aprendizagem voltado principalmente para os ambientes organizacionais. Foi projetado especialmente para gerentes e grupos de profissionais, mas também tem sido utilizado com eficácia em estudantes e colaboradores que não ocupam cargos de gestão. Suas 38 perguntas são respondidas com 3 alternativas (verdadeiro,incerto e falso) e a pontuação máxima de 76 indica um estilo analítico, enquanto que a pontuação mínima, próxima de zero, indica seu oposto, o estilo cognitivo intuitivo. Entre os extremos são possíveis vários graus de um processo contínuo, conforme mostram as cinco categorias possíveis e seus escores (Allinson; Hayes, 2012; Kickul; Gundry, 2011): 1. intuitiva: de 0 a 28 pontos; 2. quase intuitiva: de 29 a 38 pontos; 3. adaptativa: de 39 a 45 pontos; 4. quase analítica: de 46 a 52 pontos; 5. analítica: de 53 a 76 pontos. Estudos utilizando essa escala também evidenciaram que a preferência cognitiva de intuição se correlaciona de forma positiva com alta eficácia e intenções empreendedoras. As pessoas com estilo cognitivo intuitivo “[...] estavam mais confiantes em sua capacidade de identificar e reconhecer novas oportunidades de empreendedorismo” (Kickul; Gundry, 2011, p. 90, tradução nossa). Brigham e Sorenson (citados por Kickul; Gundry, 2011) desenvolveram um modelo para investigar o estilo cognitivo intuitivo que sugere que esse estilo serve como atração ou empurrão que influencia as pessoas com esse estilo para que reconheçam novas oportunidades empreendedoras. No entanto, tais indivíduos fracassam ou obtêm resultados psicossociais negativos em organizações não favoráveis ao empreendedorismo. Ou seja: se, por um lado, temos uma propensão para a inovação, por outro precisamos de um ambiente favorável para que ela ocorra. Os fatores de atração incluem a oportunidade de buscar uma ideia ou oportunidade de mercado ou um incentivo financeiro e de desempenho, em oposição aos fatores de pressão mais negativos, como baixa satisfação no trabalho ou demissão. Tanto os fatores de atração quanto de empurrão, especialmente em combinação, podem ser vistos como ‘forças impulsoras’ [...] que funcionam como um papel fundamental na decisão de um indivíduo de deixar sua organização existente e embarcar em sua própria, nova. Assim, a intuição exerce um papel fundamental e essencial na motivação de indivíduos (em uma perspectiva de puxar e empurrar) para considerarem uma carreira empreendedora (Kickul; Gundry, 2011, p. 90, tradução nossa). 6 1.4 Intuição e liderança É possível haver liderança sem empreendedorismo, mas o contrário é bem mais difícil, visto que, para empreender, é necessário liderar um empreendimento, o que é praticamente sinônimo de liderar pessoas. Passemos então a adicionar alguns elementos relacionados à intuição na liderança, considerando a pesquisa realizada por Martin Robson (2015), em seus estudos de pós-graduação com 38 líderes australianos de elite, entre eles presidentes, diretores, chief executive officers (CEOs) e executivos seniores de empresas públicas e privadas. Também participaram um advogado, dois políticos e um chefe de defesa aposentado. A maioria dessas pessoas foi selecionada por seus pares e por eles citadas como verdadeiras líderes. Entre os resultados dessa pesquisa, verificou-se que os participantes consideram que o processo intuitivo pode lidar com mais incerteza que o processo racional. Por essa razão, a intuição é muito importante para o exercício da liderança, nas organizações. Essa sensação ou sentimento de saber se algo ou alguém vai funcionar bem permite um certo direcionamento crucial ao processo de liderança (Robson, 2015). Esses líderes consideraram a intuição mais voltada a julgamentos de pessoas e de fatores qualitativos em suas empresas. No entanto, também indicaram que, quando precisavam fazer avaliações quantitativas, ou seja, de caráter racional, também utilizavam a intuição, por exemplo refletindo sobre mudanças futuras de rumo em face da análise de dados numéricos. Em complemento, relataram ainda que as informações objetivas não podiam ser totalmente separadas daquelas pessoas que as forneciam, visto que estas poderiam ter também suas tendências de interpretação, que contagiavam quem as recebia. Por exemplo, uma pessoa com forte aversão a riscos pode contaminar aquele que recebe dados a considerá-los com esse viés. A intuição também lhes servia para detectar a possibilidade de dados ausentes, incorretos ou enviesados de alguma forma (Robson, 2015). Como líder, você obtém informações filtradas e isso não é intencional, é apenas a natureza humana. Todo mundo tem suas próprias perspectivas e acho que uma das principais coisas na tomada de decisão é avaliar quais são os principais fatores, intenções e desejos das pessoas que estão fornecendo essas informações, para que você possa recalibrá-las adequadamente antes de tomar a decisão. Eu acho que esse é um passo fundamental [...] (Robson, 2015, p. 25, tradução nossa). 7 Os participantes da pesquisa também consideraram a intuição indispensável para realizar a interseção entre dados objetivos e subjetivos (pessoas e informações) (Robson, 2015). Uma utilidade especial da intuição é fazer julgamentos sobre pessoas, porque estas são usualmente complexas, incertas e, dessa forma, imprevisíveis, até enganosas e maquiavélicas. Por isso, os participantes da pesquisa revelaram depositar uma alta prioridade nesse tipo de julgamento, visto que percebem as pessoas diretamente relacionadas ao sucesso de todos os aspectos da estratégia organizacional. A intuição é a única ferramenta para alcançar fatores intangíveis e qualitativos, em uma tomada de decisão. Talvez seja, ainda, a única defesa contra pessoas disfuncionais, enganosas, corruptas ou psicopatas organizacionais (Robson, 2015): [...] e então eu o conheci e disse aos meus colegas diretores e ao diretor administrativo que tenho um péssimo senso sobre esse homem. Eu disse: “ele não pode se relacionar comigo [...] ele me dá a sensação de ser escorregadio, meloso, tanto faz”. E não sei por que senti isso [...]. Eu disse [...] “mas esse homem me dá arrepios, esse homem tem problemas escrito em cima dele”. E, posteriormente, tivemos muitos problemas [...] (Robson, 2015, p. 27, tradução nossa). Os participantes do estudo também descrevem a intuição como muito importante nos processos interpessoais, ou seja, nos relacionamentos humanos, especialmente aqueles relacionados às organizações. A intuição parece permitir a percepção de agendas ocultas, incluindo humores, atitudes, desejos, necessidades, motivações e tensões entre as pessoas, envolvendo, por vezes, situações afetivo-sexuais. E todas essas situações podem não ser ditas ou mesmo contradizerem o que é falado, o que está sendo vivido. Nesses casos, a intuição é sensível a sinais sutis como a linguagem corporal, a entonação de voz e os gestos, que podem revelar como as pessoas estão de fato se sentindo em relação aos seus processos pessoais, interpessoais ou mesmo em relação à organização. A intuição permite ouvir o que não é dito e esses julgamentos qualitativos podem ser cruciais para os líderes. Interessante notar que esses(as) líderes não entendiam a intuição como infalível. Ela é falível, porém confiável, principalmente nas áreas em que eles ou elas têm experiência (Robson, 2015). Alguns disseram que a fé em sua própria intuição havia crescido com o uso e posterior reflexão: vendo os resultados. Assim, os participantes indicaram um uso reflexivo da intuição que contribuiu para o seu desenvolvimento como líderes, ao longo dos anos: “Para mim, ouvir a voz, mas ter a experiência para validá-la, há uma razão para confiar nela 8 […] minha experiência como líder, na verdade, se aprofundou – evoluiu” (Robson, 2015, p. 28, tradução nossa). Outra temática muito considerada em relação à intuição é quando esta indica algum sinal de alerta sobre alguma coisa que não está correta ou que não é como parece ser. Nesses casos, os participantes indicaram que buscam informações adicionais para verificar e talvez confirmar seus sentimentos intuitivos (Robson, 2015). “Se minha intuição me dissesse que algonão iria funcionar da maneira que as pessoas me apresentavam com base em evidências, eu não ignoraria totalmente minha intuição. Eu não lançaria completamente um plano de ação que negasse minha intuição. Eu provavelmente daria algumas concessões e daria passos menores” [...]. Assim, em vez de usar a intuição como um substituto da análise, os participantes usariam a intuição de mãos dadas com a análise (Robson, 2015, p. 28, tradução nossa). Como pôde ser visto nesse último relato e também já deve ter ficado evidente, pelos conteúdos anteriores, o uso da intuição não exclui o uso da razão ou da análise. Ambas – intuição e razão – são falíveis e, portanto, podem auxiliar mutuamente numa tomada de decisão. Vários participantes indicam que verificam suas impressões intuitivas por meio de pesquisas e análises detalhadas, quando isso é possível, o que está relacionado à natureza do problema, a se ele é de ordem mais qualitativa ou quantitativa e ao seu contexto. “Eu nunca diria que iria apenas com intuição. [...] Eu sempre tentava entender cognitiva ou intelectualmente, usando as evidências disponíveis, e tentava vincular isso ao que minha intuição está me dizendo”. Consequentemente, quase todas as tomadas de decisão foram percebidas como várias misturas de análises e intuição (Robson, 2015, p. 28-29, tradução nossa). A Figura 1 indica uma matriz condicional elaborada com base nos dados da pesquisa (Robson, 2015). Ela descreve as condições que suprem os cenários de tomada de decisão que influenciam o modo cognitivo, se mais intuitivo ou analítico. A tomada de decisão pode ser feita mais de um modo que de outro, com mais intuição ou mais análise, mas praticamente nunca esses processos se excluem um do outro. É provável que as decisões qualitativas invoquem a intuição nos casos em que há alto precedente e, portanto, um alto nível de experiência, baixa informação “dura” [detalhada, precisa], alta urgência, alta complexidade e ambiguidade e baixa gravidade percebida, enquanto o inverso normalmente seria verdadeiro para análise. Os participantes tiveram intuições sobre suas análises; por outro lado, eles também analisaram suas intuições. Os participantes procuraram alinhar suas intuições e análises. Assim, a maioria das tomadas de decisão era vista como uma mistura de intuição e análises, na medida em que a diferença 9 entre elas se tornava indistinta: uma “quase racionalidade” [...]. “Acho que agora, depois de todos esses anos, não há margem definida. Para mim, é um processo borrado” (Robson, 2015, p. 29, tradução nossa). A mensagem retirada desse estudo é que tanto a análise como a intuição são cruciais para a tomada de decisão e o exercício da liderança. No entanto, ele também evidencia que a intuição é mais frequente, ainda que não explicitamente assumida, graças às culturas organizacionais que a desvalorizam, dando mais importância aos métodos analíticos (Robson, 2015). Figura 1 – Matrix condicional de tomada de decisão intuitiva/analítica Fonte: Adaptado de Robson, 2015, p. 29. Se ambos os modos – intuitivo e analítico – parecem ser complementares e cruciais para o empreendedorismo e o exercício da liderança, mas há tendências tanto individuais como contextuais em seus usos, seria possível desenvolver ambos e usá-los de forma mais apropriada, conforme demande cada situação? TEMA 2 – A MENTE AMBIDESTRA 2.1 Introdução ao modo ambidestro É possível que a maior parte das pessoas confie mais em um estilo cognitivo, aquele de sua preferência, seja ele intuitivo, seja analítico. No entanto, na liderança, na administração e no empreendedorismo os dois estilos são Qualitativa Natureza da decisão Quantitativa Intuição Combinação análise/ intuição Análise Precedente Pessoal ou negocial Ambiguidade Complexidade Nível de experiência Gravidade percebida Informação adequada Urgência Contexto da decisão Chave: Condição contextual Condição da decisão Consequência 10 necessários. Então, podemos pensar se existem caminhos para alcançar uma mente ambidestra e também se seria benéfico aprender a trabalhar com pessoas com modo diferente de pensar do nosso (Sadler-Smith, 2008, 2010, 2011). Importante notar que existem quatro aspectos que influenciam a nossa tendência e, por conseguinte, a nossa confiança na intuição ou no processo mais analítico: 1. nossa personalidade, com base na qual podemos preferir a estabilidade, a rotina e o detalhismo ou, de forma complementar, quadros mais amplos, experiências abertas, novas e, naturalmente, mais arriscadas; 2. nosso ambiente familiar e, especialmente, alguma pessoa que nos é muito importante e que tem um estilo cognitivo muito forte, intuitivo ou racional; 3. a educação e a capacitação que tivemos, pela qual podemos ter sido treinados a sermos mais analíticos e objetivos, por exemplo se nos desenvolvemos na engenharia, na matemática ou mesmo em diferentes áreas de pesquisa científica; ou, de forma complementar, podemos ter sido treinados a sermos mais subjetivos, intuitivos, a explorarmos mais a liberdade, em áreas como as de arte, psicologia, sociologia; 4. nossa ocupação profissional, se os diretores, clientes ou acionistas que dirigem a organização valorizam e até estimulam que a gestão seja mais intuitiva, criativa, inovadora ou o contrário, que seja mais conservadora, menos arriscada e, por conseguinte, mais racional e lógica (Sadler-Smith, 2008, 2010, 2011). Outro aspecto bastante importante, que diz respeito ao aprendizado e sua avaliação é que indivíduos com preferências por um dado estilo (intuitivo ou analítico) vão aprender mais facilmente e mostrar melhor rendimento naquela área de sua propensão; em contrapartida poderão ter mais dificuldade na sua área menos desenvolvida, na qual poderão ter fracassos e ser avaliados de forma ríspida ou severa. Perceber, respeitar e valorizar a propensão do(a) estudante ou colaborador(a) favorece que não cometamos erros em julgamentos e também que possamos estimular de forma respeitosa a contraparte menos evoluída da pessoa (Sadler-Smith, 2008, 2010, 2011). Tomar decisões e resolver problemas no mundo real implica conseguir avaliar a situação, requer mais análise ou intuição, por isso estimular ambos os processos são importantes e oportunos, quando feito de forma apropriada e 11 habilidosa. Por exemplo, se você estiver preparando a sua declaração do Imposto de Renda, qual o estilo que lhe parece mais apropriado? Ao se encontrar com uma pessoa pela primeira vez ou se for necessário que você tome uma decisão profissional de maneira rápida, que estilo você utilizaria (Sadler-Smith, 2008, 2010, 2011)? Considerar o estilo cognitivo pode ser muito útil e até mesmo crucial para: a. recrutar, selecionar novos funcionários, buscando pessoas com estilos apropriados à função que elas irão exercer; b. definir o estilo adequado às diferentes tarefas, em que a concepção de novos produtos precisa ser feita principalmente por pessoas intuitivas; mas, são as pessoas de mente analítica aquelas mais indicadas para o seu desenvolvimento; c. desenvolver e orientar carreiras de funcionários, de modo que sejam coerentes com seus estilos, “[...] por exemplo, a capacidade de fazer avaliações intuitivas é necessária para os executivos, portanto, o desenvolvimento da intuição é indispensável para aspirantes essa posição” (Sadler-Smith, 2008, 2010, 2011, p. 46); d. treinar e apoiar colaboradores(as) para que desenvolvam sua contraparte menos preferida; e. estimular que funcionários com preferências diversas ou semelhantes possam trabalhar em conjunto, como uma equipe, aprendendo a aproveitarem as diferenças de uma forma funcional e criativa. O tenista espanhol Rafael Nadal, vencedor do torneio Wimbledon de 2008, é naturalmente destro, seu treinador oensinou a jogar com o braço esquerdo por considerar que isso lhe traria vantagens sobre os demais tenistas, que, quase sempre, também são destros. Apesar de ser muito desconfortável no início, existem potenciais compensações pela alternância entre diferentes modos quando as circunstâncias exigem, e com a prática e treinamento é possível tornar-se cognitivamente mais versátil (Sadler-Smith, 2011, p. 47-48). Gestores e gestoras precisam fazer uso de ferramentas analíticas para lidar com problemas quantitativos e objetivos; por outro lado, nas situações incertas e não quantificáveis, que requerem avaliações subjetivas, as habilidades intuitivas precisam estar presentes (Sadler-Smith, 2008, 2010, 2011). 1. Gestores com mente analítica - planejadores por natureza - costumam ser muito bons na realização de tarefas e na implantação de ideias, porém, tem as ideias para serem implementadas, suas mentes analíticas não teriam muita aplicação prática. 12 2. Gestores com mente intuitiva - inovadores por natureza - costumam ser muito bons em ter ideias, mas sem ajuda de alguém que possa planejá-las e implementá-las, suas mentes intuitivas não teriam grande uso prático (Sadler-Smith, 2011, p. 48). Ou seja: Para que o negócio seja eficiente, é vital que ele, seus líderes e gestores mesclem “clareza lógica e poderosa intuição”. Empresários e executivos precisam conseguir inovar, criar estratégias e liderar, assim como comunicar e enfatizar tudo isso junto às suas equipes; e, para ser eficiente na imensa variedade de problemas enfrentados e decisões tomadas no atual mundo dos negócios, é necessário ser cognitivamente ambidestro (Sadler-Smith, 2011, p. 48). Se, por um lado, podemos passar uma vida inteira sem nos incomodarmos com a mão que mais utilizamos, se a direita ou a esquerda, o mesmo não é válido para o mundo dos negócios, no qual não teremos sucesso se não desenvolvermos ambos os lados de nossa mente (intuitivo e analítico). Isso ocorre porque “[...] tanto na vida pessoal quanto profissional, e seguramente no mundo dos negócios e da administração, é muito difícil alcançar o sucesso operando com a mente em apenas um módulo” (Sadler-Smith, 2011, p. 48). 2.2 Modo analítico Dois marcos do nascimento do gestor analítico devem ser considerados: Frederick W. Taylor (1856-1915) e Henry Ford (1863-1947). O avanço dessa abordagem se deu nos anos 1950 e 1960, quando o desenvolvimento dos computadores permitiu a econometria e as pesquisas operacionais que serviram de base para análises quantitativas, que passaram a ser aplicadas na administração de negócios. Esta se aproximou de se tornar uma ciência precisa, naquele momento. A eficácia desse método é indubitável quando: 1. Todos os atributos podem ser identificados de maneira rápida, fácil e inequívoca; 2. Atribuição dos pesos é objetiva [por exemplo, quando se criam colunas de vantagens e desvantagens sobre uma determinada decisão e se atribui peso a cada uma delas] 3. É possível obter um acordo se mais ou uma pessoa estiver envolvida no processo; 4. Os cálculos puderem ser feitos de modo automático (por exemplo, com o uso de algoritmo ou computador), evitando o cansaço e a possibilidade de erro humano (Sadler-Smith, 2011, p. 53-54). Essa situação não é muito comum e o modelo racional que usualmente fornece uma resposta definitiva e clara pode ser insuficiente quando o processo de escolha envolve a construção de um modelo que será avaliado, visto que a 13 própria construção será feita sobre uma base de subjetividade. Também não é interessante quando a listagem de prós e contras de uma determinada situação pode se dar de forma indefinida. É igualmente inválido que os pesos dados a um dos atributos não possam ser mensurados de forma objetiva, se aproximando mais de uma opinião. Por fim, se esses pesos variarem de acordo com o estado de espírito de quem os está avaliando ou ainda por força de novas informações que podem emergir, o processo racional também não é o mais indicado, de forma isolada. Como processos mais racionais estão, a princípio, conectados àqueles de caráter mais afetivo, uma boa prática para descobrir qual a propensão emocional por detrás de uma determinada avaliação racional (quando isso não é evidente) é, segundo Eugene Sadler-Smith (2009, 2011), o lançamento de uma moeda, sendo que a cara e a coroa representarão escolhas para a situação em foco. Após lançar a moeda e um dos resultados for identificado, o autor sugere que observemos nosso corpo, ou melhor, nossa reação corporal diante do resultado. Sentimo-nos aliviados ou desconfortáveis com o que se apresenta? Essa reação instantânea surge sem nenhum controle e pode ser percebida, indicando qual nossa preferência emocional diante de uma determinada a escolha, ou seja, o que estamos querendo e do que estamos fugindo. Perceber essa preferência pode ser muito útil para se evitar vieses não conscientes na avaliação racional dos fatos. Em complemento, se estabelece uma linha direta com nossos próprios sentimentos e também com a mente intuitiva. A subjetividade e os sentimentos estão presentes em tudo, até mesmo na mais elegante das escolhas que fazemos, o que quer dizer que, gostemos ou não, há uma dimensão intuitiva no pensamento humano e em sua maneira de tomar decisões. Como já foi mencionado várias vezes, desenvolver a “inteligência intuitiva” não quer dizer ignorar as escolhas racionais, mas sim aprender a balancear intuição e análise. Porém, como quase todas as pessoas têm preferências por um modo de raciocinar – intuitivo ou analítico –, tornar-se intuitivamente inteligente representa, quase sempre, deixar sua zona de conforto cognitivo e explorar o mundo desconhecido de sua mente humana (Sadler-Smith, 2011, p. 55). As questões-chave do gestor analítico incluem: a. ser deliberativo e fazer as coisas passo a passo; b. buscar ser imparcial, buscando se manter frio, calmo e racional – mostrar sentimentos não é interessante ou importante; c. procurar ser detalhista, procurando as particularidades das coisas – “[...] concentrar-se na árvore, em vez da floresta” (Sadler-Smith, 2011, p. 55). 14 2.3 Modo intuitivo O ápice da gestão analítica ocorreu na metade do século 20. No entanto, sempre houve perspectivas divergentes. Em 1938, Chester Barnard, executivo da AT&T e autor de um best-seller sobre administração – As funções do executivo – reconhece que, em paralelo ao processo mental lógico, ocorre um flash de experiência, uma sensação da medula ou ainda um processo, também mental e lógico, que protege o indivíduo da frieza da mente analítica, referindo-se obviamente ao processo intuitivo. Dez anos mais tarde, Herbert Simon (1916-2001), o economista norte- americano que ganhou o prêmio Nobel, propôs, em seu livro Administrative Behavior (Comportamento administrativo), que a razão era limitada. Para ele, os gestores buscam mais satisfação do que maximização. Logo que encontram uma solução que os satisfaça, param de procurar outras. Propôs, ainda, que os gestores tanto planejam e analisam como fazem avaliações intuitivas rápidas, as quais foram desenvolvidas depois de muitos anos de treinamento e experiência. Mas, foi na década de 1980 que a intuição começou a ser seriamente considerada tanto por pesquisadores como por gestores. Isso ocorreu em função de uma pesquisa que levantou a opinião de dezenas de executivos norte- americanos de alto escalão, descobrindo que eles usam a intuição para tomar decisões importantes, mas também que não se baseiam exclusivamente ou na análise ou na intuição. Na década seguinte, um levantamento internacional, que considerou mais de mil executivos, evidenciou que a intuição é considerada muito importante pelos gestores de estratégia corporativa, recursos humanos e marketing. Mas, foi em 2006 que a intuição ganhou sua popularidade mundial, por meiodo livro Blink: a decisão num piscar de olhos, o qual trazia a síntese de pequenos artigos publicados na revista New Yorker, realizados por Malcom Gladwell. Com esse movimento crescente, “[...] no começo do século XXI, hoje estou intuitivo finalmente emergiu do armário onde estava escondido (ou mantido encoberto) para revelar-se” (Sadler-Smith, 2011, p. 58). Entre as principais características de um indivíduo intuitivo, encontram-se: a. espontaneidade: ou a confiança necessária para apostar em seus palpites, usualmente baseados na especialização e na experiência; 15 b. holismo: ou a capacidade de perceber a situação na sua totalidade, sem ficar preso às análises; c. afetividade: ele reconhece e presta atenção nos sentimentos como informações sutis que são tão importantes quanto aquelas obtidas pelos fatores objetivos; d. conhecimento de que é falível: gestores e gestoras intuitivos(as) sabem que a intuição não acerta sempre; mesmo assim, com ela eles(as) obtêm mais acertos do que erros; e. capacidade de se manter informado: com anos de experiência, feedback e aprendizado, gestores e gestoras intuitivos(as) sabem instintivamente o que fazer, mesmo sem poder explicar de forma exata as razões desse saber (Sadler-Smith, 2009, 2011). Não coincidentemente, essas características são inestimáveis ao empreendedorismo, aos recursos humanos, às áreas de estratégia e de liderança, entre outras. Mas, como comentado antes, a mente intuitiva não é suficiente para se ter eficácia no complexo e dinâmico mundo organizacional e, se você é uma pessoa que tem propensão mental intuitiva, precisará também sair da segurança de seu território usual e avançar no território da mente analítica, o que possivelmente lhe causará desconforto e insegurança, mas, em compensação, lhe abrirá portas para novas e estimulantes possibilidades, tanto pessoais como profissionais. Interessante notar que, mesmo para as pessoas altamente intuitivas, desenvolver a intuição continuará sendo um projeto de vida, visto que o conhecimento intuitivo “É uma jornada e não um destino” (Sadler-Smith, 2009, p. 61). Um estudo conduzido nas últimas duas décadas mapeou situações nas quais gestores e gestoras tendem a utilizar sua intuição: 1. alto grau de incerteza: não é possível saber o que exatamente está acontecendo e não há informações a respeito, ou não há tempo para se obter mais informações; 2. poucos precedentes: em águas desconhecidas, nas quais pouco ou ninguém navegou anteriormente, e não existem mapas disponíveis, a intuição pode ser a única fonte de informação possível; 3. variáveis imprevisíveis: ninguém sabe como a situação vai evoluir, as projeções do computador não ajudam e tudo o que o gestor pode fazer é ir em frente, baseando-se em suas experiências e palpites; 4. necessidade de escolha entre diversas soluções: [se é] preciso avaliar diversas soluções diferentes, escolha uma delas e tomar uma decisão (ao contrário do que ocorre quando as opções são similares e as escolhas não trazem grandes consequências, mas paralisam muitos gestores); 16 5. prazo limitado para tomar uma decisão: diante de uma possibilidade, é necessário decidir rápido; do contrário, um concorrente poderá obter vantagem agindo antes que você (Sadler-Smith, 2011, p. 51). Após observarmos características de ambos os modelos mentais (analítico e intuitivo), passemos a pensar em ambos, juntos. 2.4 Modo ambidestro e quando usar intuição ou análise Estar ciente de qual é nossa propensão mental importa tanto a nível profissional como pessoal, porque podemos compreender nosso aspecto mais forte e aquele mais frágil. Isso também é importante para que possamos perceber que certas circunstâncias podem demandar mais um ou o outro tipo mental. Fatores como personalidade, história e educação influem a forma de pensar do(a) executivo(a), assim como o nível de sua função e o seu grau de experiência: Os dados mostram que os altos executivos experientes são definitivamente mais inclinados a obedecer seus palpites do que gestores em posição inferior na hierarquia. Os gestores de nível intermediário, por sua vez, são mais intuitivos que os que estão começando na carreira. O fato de os mais experientes serem mais intuitivos pode estar relacionado a vários motivos: 1. ser mais intuitivo confere ao indivíduo o que lhe falta para ser bem- sucedido e alcançar promoções; 2. estar em um cargo mais alto exige que a pessoa seja mais intuitiva; 3. estar em uma posição de poder permite ao executivo lidar com a sua intuição (às vezes até de maneira despreocupada) e ser visto como alguém que “administra com intuição” (Sadler-Smith, 2011, p. 61). É possível que esses três fatores contribuam para que os gestores experientes sejam mais intuitivos. Em complemento, aqueles(as) que não são tão intuitivos(as) precisarão desenvolver essa mentalidade ou habilidade para ascenderem, na organização. Nos escalões mais altos das organizações, as decisões e os problemas enfrentados pelos executivos e empresários são mais complexos, amplos e determinantes para o futuro. Para lidar com esses tipos de decisão, os altos executivos e líderes precisam ser mentalmente intuitivos. Observe o que afirmou no Harvard Business Review um importante executivo de uma indústria farmacêutica situada entre as maiores do mundo: Frequentemente as pessoas têm um desempenho brilhante nos níveis intermediários de gerência onde há um volume grande de decisões a serem tomadas. Então, elas ascendem a cargos mais altos, em que os problemas se tornam mais complexos e ambíguos, e descobrimos que a sua capacidade de avaliação, ou intuição, não é como deveria ser. E, 17 quando isso acontece, temos nas mãos um grande problema (Sadler- Smith, 2011, p. 63). Mas, se ser intuitivo(a) é necessário para se exercer altos cargos gerenciais, ser apenas intuitivo(a) não é suficiente. Certas tarefas são mais bem realizadas por pessoas com a mente analítica, como quando é necessário lidar com um grande volume de dados concretos. Outras atividades necessitam mais de mentes intuitivas, como aquelas em que é necessário lidar com pessoas. Por essa razão, gestores e gestoras, empresários e empresárias precisam adequar seu modo de pensar às diversas situações com que se deparam. Tarefas que requerem mente analítica tendem a ser bem estruturadas, objetivas, quantitativas e envolver cálculos complexos (muitas vezes mais bem executados por máquinas do que por pessoas, especialmente nos casos em que a fadiga ou o erro humano podem retardá-las, como na garagem manual resmas de dados financeiros). Essas são tarefas sistemáticas e perfeitamente “computadorizáveis”. No outro extremo, estão desde os trabalhos que exigem escolhas morais e éticas até as decisões sobre investimentos em negócios de risco. Estas exigem uma avaliação intuitiva, baseada em estudo, experiência e instinto. São tarefas “de julgamento” e possuem uma ou mais características específicas (Sadler-Smith, 2011, p. 63). Groves et al. (citados por Sadler-Smith, 2011) realizaram um estudo no qual compararam o modo de pensar de empreendedores experientes com outros dois grupos bem diversos: de contadores e de atores. O que encontraram é que o perfil dos empreendedores é mais equilibrado do que aquele dos outros dois grupos, como pode ser visto na Tabela 1. Tabela 1 – Comparação de perfis: contadores, atores e empreendedores linear/analítico criativo/intuitivo diferença Contadores 82 54 -28 Atores 51 80 +29 Empreendedores 72 67 -5 Fonte: Sadler-Smith, 2011, p. 6. Divergindo do senso comum de que o empreendedor ou a empreendedora se ocupa principalmente com a criatividade, com as novidades, esse estudo mostrou que esse tipo de pessoa confia tanto na sua mente intuitiva como na sua mente analítica, com intensidade praticamente igual. Daí a necessidadede se adaptar o modo de pensamento ao tipo de tarefa ou atividade. Para tanto, é necessário praticar aquele modo que não é o nosso 18 preferido. Com exercício sistemático e avaliação dos resultados, é possível que nos tornemos ambidestros cognitivos. Vale sempre ressaltar: saber quando alternar o modo de operação, estar apto a alternar entre a mente analítica e a intuitiva é um dos atributos fundamentais da inteligência intuitiva. Existem pouquíssimos trabalhos que envolvam exclusivamente dados objetivos ou exclusivamente fatores humanos, ou que possam ser realizados com sucesso usando unicamente a mente intuitiva ou analítica – na maioria dos trabalhos, é essencial que ambas estejam combinadas (Sadler-Smith, 2011, p. 66). TEMA 3 – O EMPREENDEDOR INTUITIVO 3.1 A mentalidade empreendedora O que pode parecer caos, contradições e confusões é matéria-prima para empreendedores farejarem oportunidades, em particular nos períodos de mudança, quando mais prosperam (Sadler-Smith, 2009, 2011). Ousadia, proatividade, inovação e até uma certa teimosia na busca de oportunidades: essas podem ser as características de empreendedores e empreendedoras. Insatisfeitos com o presente, são quase sempre muito ligados(as) ao futuro, ao que está por vir. Vinod Khosla é cofundador da Sun Microsystem. Esse indo-americano representa a criatividade, a inovação e o empreendedorismo tecnológico característicos do Vale do Silício, na Califórnia. Com formação em engenharia, sabe do valor e muito utiliza a mentalidade analítica, tecnológica. Mas, também conhece as desvantagens dessa forma de pensar, indicando que “[...] uma mentalidade muito mecânica pode ferir” (Khosla, citado por Sadler-Smith, 2011, p. 240). Antes, empreendedores(as) precisavam planejar os negócios para, no mínimo, dois anos e garantir segurança em relação a sua execução. Hoje, a necessidade é de adaptação, não de planejamento. Acredita ele: Que o melhor que se pode fazer é ter uma noção de direção a ser seguida – uma intuição [de] onde estão as grandes oportunidades. Em segundo lugar, desde o início, é preciso criar um “conflito controlado” de modo a garantir que a intuição também faça parte do mix que compõe o mecanismo do DNA do negócio. Mas não precisa ser uma intuição compartilhada por todos – uma mentalidade crítica, que administra o conflito entre o criativo e o construtivo é essencial na concepção de um novo negócio (Sadler-Smith, 2011, p. 241). 19 3.2 Planejar ou simplesmente fazer? Uma controvérsia muito válida no campo do empreendedorismo é a questão do planejamento ou da ação exploratória imediata. Planejar consome tempo precioso, que pode ser usado na ação. O meio no qual o empreendedorismo ocorre é caracterizado por uma dinâmica que faz com que o planejamento perca sua validade em pouco tempo e, para complementar, a intuição parece se constituir numa forma de planejamento. Em contrapartida, para que não se perca tempo e dinheiro com erros concretos, suposições podem ser pensadas e testadas previamente. O planejamento também permite que processos sejam mais bem geridos, como na escassez de recursos e nos gargalos operacionais (Sadler-Smith, 2009, 2011). Talvez um meio-termo seja possível: Não se engane: o planejamento formal é inestimável para um negócio, especialmente quando sua implementação exige capital de risco ou algum “anjo” investidor. O planejamento deve ser feito de maneira habilidosa, deixando espaço para outras possibilidades complementares na condução do empreendimento. Planeje, mas não se sinta obrigado a obedecer cegamente ao planejado; tenha a presença de espírito de fazer adaptações quando necessário (Sadler-Smith, 2011, p. 244). Constitui um mito pensar que intuição e planejamento se excluem mutuamente. Possivelmente isso seja defendido por aqueles fervorosamente favoráveis ou à intuição ou à análise. Mas, os fatos mostram, por exemplo, que: É perfeitamente possível planejar a execução de uma ideia intuitiva. Aliás, isso é o que muitas grandes e modernas empresas fazem em seu dia a dia, em uma atividade normal da gestão de projetos inovadores. Essa opinião tem o apoio de Akio Morita, da Sony, o fundador de uma companhia conhecida por sua agilidade em disponibilizar produtos inventivos no mercado. Ele disse: “a intuição espontânea é parte vital do mix criativo da inovação e do desenvolvimento de novos produtos” (Sadler-Smith, 2011, p. 244). Pouca dúvida existe sobre que a percepção e a avaliação intuitivas são características determinantes de vários empreendedores corporativos. TEMA 4 – PRONTIDÃO, EXPERTISE E CRIATIVIDADE Explorarei os aspectos intuitivos da mente empreendedora e como a intuição permite aos empreendedores reconhecer e julgar a viabilidade de oportunidades de negócios que outras pessoas podem ignorar. Além da prontidão, os empreendedores intuitivos também têm o conhecimento profundo que lhes permite entender as oportunidades e o estilo de pensamento criativo para estabelecer novas conexões. Os três elementos que se reforçam mutuamente do DNA empreendedor são prontidão, expertise [experiência e conhecimento] e criatividade (Sadler-Smith, 2011, p. 239, grifos do original). 20 4.1 Prontidão Prontidão pode ser concebida como “[...] uma atitude de receptividade para avaliação de oportunidades (desapercebidas, até o momento)” (Sadler- Smith, 2011, p. 245), não de conhecimento, ao menos consciente, do que se está buscando. Tampouco se usam técnicas estruturadas para tanto. A ideia básica é manter o radar ligado no amplo horizonte, esperando alguma coisa nova, uma surpresa. Não há uma busca deliberada, apenas uma abertura, uma atenção. Coco Chanel, que produziu a fragrância de maior sucesso no mundo dos cosméticos, o Chanel no. 5, não se considerava uma mulher de negócios no sentido de alguém que entende os aspectos técnicos e numéricos da função. Em compensação, tinha sensibilidade tanto para fazer dinheiro como para interpretar os desejos femininos, como contou em uma entrevista à revista Vogue: “moda não é uma questão de roupas. A moda está no ar, é levada pelo vento. Intuímos sobre ela. Está no céu e nas ruas” (Sadler-Smith, 2011, p. 245-246). Óbvio que empreendedores(as) de grande intuição, como Coco Chanel, têm grande experiência, aprendizado e habilidades; eles “[...] não inovam no vazio” (Sadler-Smith, 2011, p. 245). A prontidão percebe padrões relativamente ocultos à maioria das pessoas e ainda estabelece conexões inéditas. Tal habilidade, se por um lado parece não estar à disposição de qualquer pessoa, por outro acaba sendo produto da experiência prática e de aprendizados com os resultados obtidos. Enxergar padrões que outros não percebem é como qualquer outro tipo de especialização, e leva-se anos para desenvolver. Por exemplo, o sucesso de Bill Gates pode ser atribuído a vários fatores, incluindo o seu passado, sua personalidade, as circunstâncias em que vivia e as motivações. Creditar o sucesso dele, ou de qualquer outro grande empreendedor, a apenas um motivo (como a intuição) seria uma simplificação grosseira (Sadler-Smith, 2011, p. 246). Por outro lado, se naturalmente não podemos atribuir à intuição todo o crédito, ela parece estar presente em muitas realizações. Em uma entrevista à CNN, perguntaram a Gates no que confiava para avaliar suas ideias. A resposta rápida que ele deu foi: “intuição”. “‘Se eu acho que uma coisa vai funcionar, confio na minha intuição’”. Gates sabe bem que palpites podem falhar, e reconhece: ‘erro várias vezes, mas o meu ritmo é bom o suficiente para que me mantenha alerta sempre que uma nova oportunidade surge’” (Sadler-Smith, 2011, p. 247). 21 4.2 Criatividade e expertise Contar com experiência e conhecimento para perceber e avaliar oportunidades e, ainda, se adaptar às mudanças e desafios (ter prontidão) é crucial no empreendedorismo, mas nãosuficiente. Outro elemento crucial é a criatividade, que pode surgir de diferentes formas, como ao acaso, em sonhos e em brainstorms (Sadler-Smith, 2009, 2011). Independente do caminho tomado, empreendedores criativos conseguem conectar pontos que estavam desconectados, e criar laços que, após estabelecidos, parecem óbvios, mas que, no momento de sua concepção, exigiram imensas doses de imaginação. [...] fazer novas conexões é algo fácil e natural para algumas pessoas (os chamados “pensadores divergentes”). Elas são capazes de formar livres associações, muitas das quais se mostram redundantes. Contudo, é mais provável que uma nova ideia apareça na mente fértil de alguém que produza grande volume de combinações do que na cabeça de um indivíduo que insiste em fazer sempre associações convencionais (Sadler-Smith, 2011, p. 247-248). Esses pensadoras e pensadoras divergentes são extremamente criativos(as); enxergam o novo no que é familiar. Gostam do desconhecido. Pessoas curiosas “por natureza”, abertas e desejosas de novas experiências, conseguem encontrá-las e/ou criá-las e ainda costumam desfrutar de grande sensibilidade. Novamente, não o fazem sem uma base, sem matéria- prima. Um exemplo é Charles Darwin, cujas conexões criativas produziram uma das teorias científicas mais impactantes já vistas. Mas, para conseguir chegar a essas conexões e a uma ideia original, dedicou décadas ao estudo e observação do mundo natural. Ou seja, a área em que intuiu era também a de sua expertise (Sadler-Smith, 2009, 2011). Aliás, processos intuitivos podem contribuir para processos criativos: Qual é o papel da intuição no processo criativo? Afinal, quando uma solução clara para um problema repentinamente emerge, ela já não é uma impressão ou um palpite; não há nada de vago ou indefinido, já que a solução (ou insight) é nítida e fácil de ser compreendida. A intuição pode não ser uma solução, mas pode indicar uma direção (Sadler-Smith, 2011, p. 250). Direção essa que pode contribuir com diferentes áreas. Como indicado, a ciência é uma delas. William Shockley ganhou o Prêmio Nobel em Física em 1956, por inventar o transmissor. Ele foi descrito por um colega como uma pessoa extremamente intuitiva, como se pudesse enxergar os elétrons ou ter a capacidade de sentir o que acontecia dentro do silício. Outra sumidade científica, Albert Einstein, declarou que a única coisa que realmente tem valor é a intuição, 22 se referindo às descobertas científicas. Se é válido para a ciência, também o é para a administração de negócios e para o empreendedorismo. A visão periférica da intuição permite que empreendedores e empreendedoras sintam as tendências antes que elas se tornem em foco (Sadler-Smith, 2009, 2011). [Entre] As habilidades fundamentais na administração estão: a fina sintonia com sinais mais sutis; a capacidade de distinção entre sinais em relação ao alvoroço geral; a percepção do que tais vestígios indicam e a atuação adequada sobre elas. As pesquisas de Shoemaker apontam que menos de 20% das empresas têm o ângulo de visão necessário para detectar ameaças e oportunidades. [...] Visão periférica é algo que gestores podem desenvolver. Para isso esses profissionais precisam: manter-se abertos a novas experiências; ler bastante; cultivar relacionamentos profissionais e sociais; explorar as fronteiras da empresa em busca de novas informações; escutar clientes e fornecedores; estudar as tendências que estão além da atividade principal da companhia; observar aonde os concorrentes estão indo; e incutir o espírito de curiosidade dentro da organização (Sadler-Smith, 2011, p. 250-251). TEMA 5 – APLICANDO A INTUIÇÃO: VISÃO E VISIONAMENTO 5.1 Missão, visão e valores Um passo primordial para o desenvolvimento de uma empresa é a elaboração do planejamento estratégico, que se inicia com as diretrizes organizacionais: missão, visão e valores. A missão é o sentido ou razão de existência da empresa, é a resposta para o quê, para quê, para quem, onde e como a empresa deve fazer, bem como com qual responsabilidade social. Os valores são com quais padrões éticos ela deve fazer e quais deve seguir. E a visão é aonde pretende chegar (O que, 2019; Carvalho; Santos, 2016). Se perguntarmos “o que você quer ser quando crescer?” para uma empresa, teremos sua visão de futuro ou visão empresarial. Trata-se de seu destino em cinco, dez ou mais anos. Essa visão tem influência crucial tanto para as novas empresas como tem potencial para revitalizar aquelas mais maduras (Parikh; Neubauer; Lank, 2003; Closs, 2019). 5.2 O poder de uma visão “Não há máquina mais poderosa para direcionar uma organização para a excelência e o sucesso duradouro do que uma visão atraente, compensadora, realizável e amplamente compartilhada” (Nanus, citado por Closs, 2019). Esse 23 aspecto de motivação, implícito e explícito na visão de futuro, ocorre porque essa visão integra as pessoas. Por exemplo: o que queremos criar juntos? Essas visões têm o poder de, literalmente, “criar futuros”! Em 1928, William Paley, na época com 27 anos, assume à frente da CBS. Nesse momento a companhia estava tendo prejuízos, não tinha emissoras de rádio próprias e tampouco estava entre as maiores do ramo. David Halberstam (citado por Parikh; Neubauer; Lank, 2003, p. 142) descreve que o que Paley tinha desde o início era uma visão, uma percepção daquilo que poderia ser. Era como se ele, em Nova York, sentado no pequeno escritório de uma empresa quase falida pudesse ver não apenas a sua escrivaninha e uma série de anunciantes em potencial, ao longo da avenida Madison, milhões de americanos no interior, muitos deles em casas ainda sem eletricidade, pessoas solitárias para as quais o rádio era praticamente a única forma de diversão. O que tornou diferente foi a sua percepção, sua confiança de que poderia chegar até elas e de que tinha algo para lhes oferecer. Ele pode ver uma audiência onde, de fato, não havia audiência alguma. Ele não apenas teve uma visão como também soube aproveitá-la. De forma semelhante, Steve Jobs, que fundara a Apple Computer Company, assim descreveu a seu staff a visão de seu novo computador NeXT: [...] Assim, nossa visão é de que uma revolução do software está agora ocorrendo em faculdades e em cada campus universitário. Você não pode dar a um estudante de biologia um laboratório de DNA recombinante ao custo de cinco milhões de dólares; mas você pode simular essas coisas, pode fazer isso no computador poderoso. Os alunos não podem comprar essas máquinas, nem tampouco a maioria dos professores universitários. Assim, se considerarmos aquilo que melhor sabemos fazer, que é descobrir uma tecnologia realmente boa e colocar lá no mercado a um preço que as pessoas possam pagar, e se pudermos fazer o mesmo para esse tipo de computador, que poderá ser dez vezes mais poderoso do que um computador pessoal, então acho que poderíamos exercer uma influência significativa sobre a maneira como as experiências de aprendizado vão ocorrer ao longo dos próximos cinco anos. E é isso que estamos tentando fazer… Um de meus maiores desejos é o de que possamos construir o NeXT. Eu também ficaria feliz se as pessoas que estão pensando em trabalhar para nós, ou comprar os nossos produtos, ou que querem nos vender algo, sentissem que estamos fazendo isso com paixão. Fazemos isso porque realmente nos importamos com a educação superior e não por dinheiro (Gates, citado por Parikh; Neubauer; Lank, 2003, p. 143). A citação anterior é um exemplo de como uma visão pode ser inspiradora, estimulante, excitante o suficiente para tirar uma organização da sua rotina. Com visões como essa, empresas podem dar um salto para frente. Elas não trabalham rumo àquela visão, mas com base nela, como se ela já existisse. Isso gera um alinhamento entre as pessoas, uma identidade comum, uma direção, um propósito compartilhado portodos, que passam a trabalhar em função dela. “Visões 24 poderosas são declarações de intenção que criam na empresa toda uma obsessão pela vitória” (Parikh; Neubauer; Lank, 2003, p. 144). E é interessante notar que esses visionários confiam em suas intuições mesmo sem ter dados concretos, no momento que elas surgem. Quando Steve Jobs tentou convencer empresas de computação a investir em sua ideia, de viabilizar computadores a uma grande parcela da população, recebeu como resposta, de muitas, que, com base em dados de pesquisa, não havia mercado para computadores pessoais. Isso também exemplifica que essas visões e esses visionários interpretam um ambiente de uma forma diversa daquela obtida pela maioria e, por estarem submersos nessa visão, acreditando totalmente nela, também se dispõem a correr os riscos e a experimentarem (Parikh; Neubauer; Lank, 2003). 5.3 Praticando o visionamento “Os bons líderes empresariais criam uma visão, articulam essa visão, possuem-na com paixão e, implacavelmente, levam-na a cabo” (Welsh, citado por Parikh; Neubauer; Lank, 2003, p. 159). Parikh, Neubauer e Lank (2003) propõem uma prática de visionamento (o modelo Parikh e Neubauer – PN) que, em essência, é realizada de uma forma individual, reflexiva (analítica) e intuitiva e socializada por meio de uma visão partilhada. As abordagens analíticas e intuitivas são assim integradas numa única visão. Junta-se essa visão com a realidade objetiva criando uma tensão criativa, com base na qual surge um plano de ação circular em contínua revisão ou atualização. Vamos explorar esse modelo? A Figura 2 apresenta um esquema completo do modelo PN, que tem nove etapas, as quais passamos a apresentar. 25 Figura 2 – Processo de construção da visão: o modelo PN * Na entidade organizacional em consideração, tal como uma corporação, divisão, departamento, unidade. Fonte: Parikh; Neubauer; Lank, 2003, p. 161. 5.4 Etapa 1: visionamento reflexivo Um primeiro aspecto que deve ser comentado sobre a proposta de visionamento reflexivo é que ela é uma atividade coletiva de que participa o grupo geral de administração superior de uma empresa ou mesmo de uma subdivisão sua, uma subsidiária, desde que tenha relativa independência. O processo também pode ser aplicado a departamentos, áreas de caráter mais funcional, por exemplo aquelas ligadas à pesquisa e desenvolvimento ou de recursos humanos (RH), entre outras. Inicialmente o conceito de visionamento é apresentado, para que o grupo tenha a noção teórica necessária a respeito e para que não caiam na perspectiva de encontrar rotinas já conhecidas de planejamento estratégico tradicional. Uma visão de futuro se apoia em dois princípios: “[1] Uma quebra ou descontinuidade no ambiente e/ou uma nova maneira de interpretar esse ambiente, e [2] a capacidade de criar ‘uma nova imagem de um estado Oportunidades no ambiente Visionamento reflexivo Uma nova forma de ver o mundo Visão intuitiva individual Etapa 1 Acentuamento da intuição Visionamento intuitivo Aplicação da intuição na construção de visões Visão intuitiva partilhada* Visão reflexiva individual Visão reflexiva partilhada* Etapa 2 Etapa 3 Etapa 4 Etapa 5 Planos de ação Revisão permanente Etapa 7 Etapa 8 Etapa 9 Revisão permanente Etapa 9 Etapa 6 Visão integrativa* Realidade do momento Tensão criativa 26 organizacional desejável futuro’ da unidade em consideração” (Parikh; Neubauer; Lank, 2003, p. 160). A etapa 1 vai explorar justamente esses princípios e, para ofertar subsídios aos integrantes do grupo, são oferecidas rápidas palestras com especialistas sobre temáticas relacionadas ao contexto econômico, tecnológico, social e político no qual a empresa ou unidade está inserida. Nelas são apresentadas possíveis descontinuidades, convergências ou tendências possíveis. Busca-se que, ao final dessa etapa, tenham emergido ideias empresariais estimulantes e inovadoras. “Para fazer descobertas não necessita novas paisagens, mas novos olhos” (Parikh; Neubauer; Lank, 2003, p. 162). Para estimular esses novos olhos e olhares, trabalham-se técnicas baseadas na criatividade. Parikh, Neubauer e Lank (2003) indicam as técnicas de criatividade criadas por Edward de Bono. Edward Charles Francis Publius de Bono, 86 anos, é médico, psicólogo, autor, inventor e consultor maltês. Foi e é professor em várias universidades. Escreveu 57 livros, que foram traduzidos para 34 idiomas. Ele criou o termo pensamento lateral, bem como técnicas para desenvolver a criatividade, buscando também compreendê-la. No entanto, é criticado por não testar cientificamente suas perspectivas ou a eficácia de suas técnicas e abordagens. Seu livro Six Thinking Hats (Seis chapéus para pensar, em tradução livre) é um dos seus mais conhecidos trabalhos (Bono, 2016). Nele, o autor propõe a representação, com seis chapéus coloridos, de seis diferentes formas de pensar, a saber: 1. chapéu branco, no qual busca-se uma objetividade e neutralidade o mais livre possível de preconceitos; em síntese, procuram-se fatos concretos, sem avaliações sobre eles; 2. chapéu preto, em que se faz uma avaliação lógico-negativa dos fatos, explorando aquilo que pode dar errado ou resultar diferente das nossas melhores expectativas; 3. chapéu verde, aquele que representa o pensamento lateral, a originalidade criativa, a inovação, o conseguir o impossível; 4. chapéu vermelho, da emoção, da paixão, do sentir, do perceber e do viver com base no coração; pensamento que expressa subjetividade, liberdade e também compreensão das emoções dos outros; 27 5. chapéu amarelo, pensamento que se opondo ao preto e representa o pensamento lógico-positivo, cujo enfoque é otimista, construtivo, mas com lógica e raciocínio; 6. chapéu azul, o primeiro e último chapéu, com o qual se representa a estrutura, o equilíbrio, o autocontrole e a tranquilidade – por isso, as práticas devem iniciar e terminar com ele (Bono, 2016; A técnica, 2018; Edward, 2019). 5.5 Etapa 2: visão reflexiva individual Baseados no que aprenderam na primeira etapa, é solicitado aos(às) participantes que criem, individualmente, suas visões pessoais para a empresa, pensando em um futuro de cinco anos. Para auxiliar nesse processo, os autores utilizam uma pergunta: “O que você gostaria que a revista Fortune escrevesse sobre sua empresa daqui a cinco anos?” (Parikh; Neubauer; Lank, 2003, p. 163). Se essa revista não for oportuna ao contexto, utiliza-se outra que seja de conhecimento e gosto dos participantes. Em nossas instruções, solicitamos explicitamente aos participantes que escrevam um relato inteligente e de caráter jornalístico que eles usariam a fim de atrair para sua organização a nata dos formandos das melhores universidades. Essa solicitação obriga os participantes a deixar de lado o estilo conciso e esquemático que costumam usar quando fazem uma exposição para os seus colegas ou superiores. Também solicitamos explicitamente que deem asas à imaginação e escrevam uma história isenta de fatores limitantes. [...] numa etapa posterior do processo, fazemos com que eles trabalhem a partir de suas visões, ou seja: que se ponham mentalmente no estado futuro descrito por sua visão e perguntem o que precisariam fazer hoje para chegar a esse estado (Parikh; Neubauer; Lank, 2003, p. 163). Essa atividade costuma gerar resistência por parte de alguns participantes, indicam os pesquisadores (Parikh; Neubauer; Lank, 2003), em função de sua crítica sobre os hipotéticos resultados, ao que lhes é indicado aguardar que eles aconteçam, efetivamente. Uma abordagem semelhante a essa da Fortune é a do visionamento ideal, que Tuchy (citado por Parikh; Neubauer; Lank, 2003) exemplifica com o caso da fusão da empresaClark Michigan com a divisão BM da Volvo. Clark estava em dificuldades financeiras, sem expectativas de futuro. Para sair da crise, adotou uma perspectiva incomum: a. solicitou a seus executivos que criassem livremente um projeto ideal que pudesse competir com os das duas maiores empresas no ramo (Caterpillar e Komatsu); 28 b. ainda no plano da imaginação sem limites, esses executivos foram solicitados a selecionar, dentre as empresas do ramo associadas à Clark Michigan, aquela que mais se aproximasse da empresa ideal que eles haviam planejado, experiência que resultou em três empresas selecionadas; c. seguindo essa visão e arriscando muito, a Clark adquiriu a subsidiária Euclid Truck, empresa especialista em veículos pesados, voltada a ambientes abertos. Após isso, propuseram uma joint venture (empreendimento em conjunto) à Volvo BM, esta relacionada a equipamentos de construção. A ideia foi bem acolhida e, após várias equipes analisarem a proposta, em outubro de 1984 a parceria foi firmada. É curioso notar que aqueles executivos da Clark Michigan compararam os resultados reais com aqueles que haviam visionado e tiveram que admitir que a maior parte deles havia sido conseguido. “O que aconteceu com a Clark dificilmente teria conseguido através do planejamento convencional” (Parikh; Neubauer; Lank, 2003, p. 164). Parikh, Neubauer e Lank (2003) indicam que, com a experiência, passaram a integrar os dois métodos: a escrita do artigo para a Fortune com a imaginação de como seria a empresa se fosse a ideal competidora no seu ramo de atuação. E, novamente, aqueles pesquisadores apresentam questões para estimular a construção imaginária desejada: Imagine a versão ideal de seu produto como seria? Em circunstâncias normais, o tempo só nos permite solicitar a opinião dos participantes. Se o processo fosse estendido por um período mais longo, poderíamos até mesmo apresentar essa pergunta aos principais clientes e distribuidores e fazer o uso da reação dessas pessoas quando estiverem escrevendo o produto ideal. O mesmo é válido, por exemplo, para os serviços que uma empresa oferece. O “avião para o agrado do passageiro”, criado por Jan Carlzon, é um exemplo. A visão de Carlzon é um avião de design não ortodoxo, com 75-80% do volume interno da fuselagem dedicado ao conforto do passageiro e à cabina onde são guardadas as bagagens, comparado aos 35% tradicionalmente alocados para esses fins. [...] Para a década de 90, partimos do princípio que precisamos de um avião que os passageiros queiram, só então acrescentamos os motores e a Carlinda, não o contrário (Parikh, Neubauer, Lank, 2003, p. 164-165). Questionando seus próprios clientes, Jean Carlos conseguiu retomar o crescimento da Scandinavian Airlines, que fora dramaticamente abatida pela crise do petróleo iniciada em 1973 e que desencadeou o aumento dramático do preço do combustível. As aeronaves foram todas redesenhadas para atenderem à visão de seus principais usuários, os executivos, que continuavam a viajar, em 29 contraponto aos turistas, que reduziram seu consumo em função da crise (Albuquerque, 2011). Os autores acrescentam outras questões (Parikh; Neubauer; Lank, 2003, p. 165-167): Qual seria o sistema de distribuição [de serviços e produtos] ideal em seu ramo? Se você pudesse começar tudo de novo, como você organizaria? [...] Qual seria a estrutura ideal para sua empresa? Ou: em sua opinião, qual seria o modelo ideal de administração? (A resposta para essa última questão também expressaria uma opinião sobre uma cultura desejável e sobre os valores básicos em que ela se apoia.) [...] Se pudéssemos começar tudo de novo, qual seria o sistema administrativo ideal para nossa empresa? Em qual etapa da cadeia de valores deveríamos nos concentrar? Poderíamos eliminar etapas que não aumentam o valor agregado? Parikh, Neubauer e Lank (2003) exemplificam a situação indicando que Ingvar Kamprad, o fundador da empresa sueca Ikea, sonhou com uma forma diferente de organização empresarial, na qual eliminava as atividades que elevavam o custo de seus produtos, podendo ofertar móveis mais baratos, com elevado design e em grande quantidade. Os móveis são modulares e podem ser levados para casa de carro. Isso fez com que, na década de 1980, ela se tornasse a maior empresa de móveis do mundo, status que ostenta até hoje, estando presente em mais 40 países. Observe trechos retirados do site da empresa, que naturalmente explora muito bem sua vantagem competitiva: Na IKEA, há sempre mais — por menos do que imaginam. A lógica é simples: se todos temos direito ao design, então todos temos de conseguir pagá-lo. É por isso que, na IKEA, passamos tanto tempo a perceber como podemos baixar os preços, mantendo tudo o resto: qualidade, funcionalidade, sustentabilidade e estilo. Todos temos direito ao design. Na IKEA, acreditamos que todos temos direito ao design. E quem diz design, diz uma casa de sonho. Mas de que serve sonhar se não podemos pagar? É por isso que, na IKEA, trabalhamos dia a dia para baixar os preços — sempre mantendo a qualidade, funcionalidade, sustentabilidade e estilo. Ou, se preferir, mantendo o design. Para todos, claro (Ikea, [S.d.]). 5.6 Etapa 3: visão reflexiva partilhada Para que uma visão possa realizar a sua função, ela precisa ser partilhada. E é disso que trata essa etapa. A partilha entre os todos os participantes é feita numa reunião em que as declarações individuais de visão são expostas e discutidas em profundidade. Facilitadores experientes orientam esse processo, no qual características comuns e ideias fundamentais são levantadas para que possam ser integradas, ou seja, para que possa se formar uma visão partilhada reflexiva, com todas as especificidades necessárias. No caso de essas 30 especificidades representarem as divisões heterogêneas de uma empresa, o processo prossegue no nível divisional, buscando-se chegar a uma visão partilhada dessas unidades. Posteriormente, procura-se então a integração dessas diversas visões numa perspectiva total para a empresa (Parikh; Neubauer; Lank, 2003). Como pode ser observado, as três primeiras etapas se situam no espaço da racionalidade, ambiente com o qual os participantes estão familiarizados. Isso facilita o início dessa jornada, permitindo-lhes conforto e confiança, antes que a proposta de ruptura seja efetivada, mediante processos intuitivos não racionais, que vão permitir o benefício total do processo de visionamento, segundo o modelo de Parikh, Neubauer e Lank (2003). 5.7 Etapa 4: visionamento intuitivo O visionamento reflexivo pode ser indicado pela resposta a uma pergunta: “O que eu posso conseguir?”. Trata-se da expansão racional em direção ao futuro, uma imaginação, naturalmente restrita pela realidade. Em contraste, o visionamento intuitivo responde a outra pergunta: “O que eu quero realmente?”. A resposta a essa pergunta busca soltar as referências de realidade em relação ao presente e ao futuro (Parikh; Neubauer; Lank, 2003): Ela implica uma total ressonância com o que quer que o indivíduo queira fazer na vida, com os impulsos básicos, quaisquer que sejam eles, e com os seus sonhos interiores mais puros. Em outras palavras, depois de o indivíduo estender ao máximo – intelectual, racional ou realisticamente – sua imaginação no contexto das possibilidades do mundo real, isto é, no desenvolvimento da visão reflexiva, ele deve passar para outro nível de atividade mental – o nível intuitivo – e ganhar acesso ao seu mundo interior através de alguns processos mentais para criar uma visão intuitiva (Parikh; Neubauer; Lank, 2003, p. 168-169). Essa atividade se caracteriza por um salto em relação ao pensamento linear, lógico, racional, permitindo diferentes conexões, ideias inovadoras ou aplicações que não poderiam ser consideradas no nível anterior. Nossa educação e nossa experiênciamoldam nossos cérebros, nos proporcionando adquirir certos tipos de conhecimento e habilidades; por outro lado, podem restringir nossa imaginação, criatividade e sensibilidade. Em complemento, ser realista significa também manter-se coerente e adaptado ao paradigma do que é a realidade, no mundo dos negócios (Parikh; Neubauer; Lank, 2003). Quando usamos o processo intuitivo para nos aprofundar dentro de nós mesmos, libertamos esses fatores limitantes. Em outras palavras, esse 31 processo nos permite ir além do nosso estado mental comum, consciente, lógico, racional e um tanto simplista, e começar a explorar os padrões mais profundos e complexos nos níveis subconscientes. Isso facilita a expansão ou a ampliação do contexto de nosso pensamento, tornando-o mais realista, macroscópico e sintetizador (Parikh; Neubauer; Lank, 2003, p. 169). Para Parikh, Neubauer e Lank (2003), um estado de profundo relaxamento e receptividade, um estado modificado de consciência pode retirar as barreiras do pensamento, permitindo que sejam acessadas informações com base em fontes externas, especificamente a percepção extrassensorial (PES). Eles indicam, especificamente, a prática da telepatia (capacidade de interação direta mental entre pessoas sob isolamento sensorial); da clarividência (capacidade de percepção sensorial do ambiente físico sem a utilização dos meios sensoriais e/ou tecnológicos); e da precognição (capacidade de acessar diretamente o futuro sem a mediação de processos dedutivos baseados em informações presentes ou por puro acaso). Ou seja, eles se referem ao tipo de intuição indicado como anômala. Existem evidências de que estados modificados de consciência podem ser favoráveis à percepção PES ou a experiências anômalas; no entanto, essa é uma questão cientificamente controversa, bem como a própria existência das experiências de PES (Silva, 2002, 2006, 2009; Cardenã; Lynn; Krippner, 2014). Independentemente da controvérsia científica, sigamos com o modelo de Parikh, Neubauer e Lank (2003), os quais sugerem que é possível utilizar tais habilidades no processo de visionamento, expandindo as fontes de informação, proporcionando que introvisão e conexões inovadoras possam se tornar conscientes, por meio da intuição. Mas, os autores indicam também que, embora o processo de visionamento intuitivo possa e deva envolver a intuição, isso não necessariamente exclui a influência de processos racionais e emocionais, os quais, segundo Parikh, Neubauer e Lank (2003), são distintos do processo intuitivo. “Trata-se de uma síntese de todas as três coisas (intuição, razão e emoção), que resulta numa espiral virtuosa de análise, imaginação e inovação” (Parikh; Neubauer; Lank, 2003, p. 171). A Figura 3 representa essa síntese, com base na qual é possível criar uma visão intuitiva, tanto de forma individual como compartilhada. A experiência de partilhar uma visão intuitiva individual pode favorecer, em uma organização, o sentimento de união, de pertença que pode estimular as ações necessárias para se concretizar a visão intuída. 32 Figura 3 – O trabalho como visão tornada visível Fonte: Parikh; Neubauer; Lank, 2003, p. 171. Sobre a etapa 4, os autores apresentam uma sequência de três atividades voltadas a criar a visão intuitiva individual: “Relaxamento: o primeiro e mais importante passo é estar relaxado em termos de corpo, mente e emoção. Há processos de relaxamento específicos que permitem a pessoa passar pela experiência de estar ‘concentrada’” (Parikh; Neubauer; Lank, 2003, p. 172). Os pesquisadores apresentam técnicas específicas, que podem ser obtidas em diferentes manuais, incluindo aquelas de caráter mais ativo, como o relaxamento progressivo de Jacobson; até técnicas mais passivas, nas quais o controle respiratório e comandos mentais produzem o relaxamento físico e mental. Como segunda atividade, tem-se a “Formação de imagens: [...] a pessoa entrega-se ao processo de formação de imagens e vai até um nível mais profundo de consciência, o qual a conduz a um retiro imaginário, afastado e desligado do ambiente externo” (Parikh; Neubauer; Lank, 2003, p. 172). Com essa atividade, os autores indicam a indução de imaginação ativa, podendo os leitores recorrer a textos específicos sobre essas práticas. No item seguinte, dão detalhes dessa imaginação dirigida. Cabe apenas lembrar que existem diferenças individuais em termos da facilidade ou não para a criação e manutenção de imagens mentais. Segue-se à terceira atividade: Simbolização: (a) vida pessoal: Recebendo: depois de ser totalmente absorvido pelo seu próprio eu interior, você começa a sonhar e a criar uma imagem daquilo que realmente quer em sua vida pessoal, facilitar, em suas relações de 33 amizade e em outras atividades sociais. Deixe a mente pensar de forma cognitiva a respeito de sua vida e, intuitivamente, criar imagens visuais. Analisando: então, identifique os principais elementos dominantes dessas imagens ou cenários com que você sonhou para sua vida pessoal. (b) vida profissional: Recebendo: então, enquanto permanece nesse estado de profundo relaxamento e numa espécie de zona de transição entre o consciente e o subconsciente, comece a fazer perguntas sobre o tipo de atividade ou trabalho que você gostaria de ocupar-se. Em outras palavras, responda à pergunta: “o que eu realmente desejo fazer em minha vida pública e profissional?” e desenvolva um sonho articulado na forma de uma visão: uma imagem visual ou um símbolo. Analisando: assim como foi feito para a vida pessoal, identifique os elementos do cenário ou quadro com que se sonhou. Verbalização: seguindo a mesma sequência, articule uma declaração verbal que expressa uma visão que você tem de sua vida profissional. (Parikh; Neubauer; Lank, 2003, p. 172-173, grifos do original). As sugestões gerais permitem a uma pessoa ou grupo com certa experiência conduzir uma prática; no entanto, é possível que outras pessoas/grupos, sem experiência, possam ter dificuldade de realizar essa atividade sem orientação de um(a) facilitador(a). De qualquer forma, segundo os autores, a prática descrita aqui é parte de um processo maior, orientado por facilitadores(as) (Parikh; Neubauer; Lank, 2003). O resultado da prática apresentada pode ser um símbolo ou uma imagem considerado(a) pelos autores como útil e estimulante, em particular por: a. permitir tomar consciência de um processo interior, o que pode gerar surpresa, em especial a respeito daquilo que as pessoas realmente desejam para suas vidas; b. treinar o desenvolvimento do pensamento total, que, segundo os autores, possibilita integrar a linguagem visual da criação de imagens e símbolos com a linguagem lógica, racional e analítica, processo considerado agradável e energizante, conforme pode ser visto na Figura 4. 34 Figura 4 – Construção intuitiva da visão Fonte: Parikh; Neubauer; Lank, 2003, p. 173. Após a criação de uma visão e de uma declaração verbal sobre a vida pessoal e a vida profissional, a fase final da etapa 4 é a comparação e a síntese das duas. Essa atividade faz emergir aspectos convergentes e divergentes dessa polaridade: Embora o indivíduo, no mais das vezes, esteja consciente dessa situação, ele na maioria das vezes não iniciou um processo sistemático e consciente de identificação, cristalização e balanceamento dessas complementaridades e divergências. Essas, portanto, muitas vezes se manifestam na forma de tensão e, mesmo, de conflito entre a vida pessoal e familiar, de um lado, e a vida profissional e empresarial, de outro. Conquanto essa tensão e conflito não possam ser totalmente evitados ou resolvidos, pode-se sim certamente minimizá-los através de um esforço consciente e deliberado para produzir um alinhamento entre as duas visões e, até mesmo, transformar essa tensão em energia criativa e, dessemodo, as negativas em positivas (Parikh; Neubauer, Lank; 2003, p. 174). Parikh, Neubauer e Lank (2003) entendem que essa prática pode transformar a postura mais profunda de uma pessoa, permitindo que ela seja menos reativa e mais ativa, favorecendo-a tanto em seu aspecto profissional como pessoal. Em síntese, os autores apresentam assim as três fases da etapa 4: 1. desenvolvimento de uma visão pessoal intuitiva; 2. desenvolvimento da visão profissional da pessoa; 3. desenvolvimento de uma visão intuitiva individual harmoniosa através do equilíbrio entre os dois estágios mencionados acima. (Parikh; Neubauer, Lank; 2003, p. 174). 35 5.8 Etapa 5: visão intuitiva partilhada Na etapa 5, o grupo avança de uma visão intuitiva individual para uma visão intuitiva partilhada ou consensual, que se completará com uma declaração verbal que represente o máximo alcançado em um processo de discussão e partilha grupal. Trata-se de um dos processos que mais recompensam as pessoas e que mais eficazmente as aglutinam em torno do processo organizacional. Isso é obtido com base na partilha das visões intuitivas individuais harmonizadas quanto ao aspecto profissional e pessoal, de cada participante, por meio de pequenos grupos, até que se alcancem instâncias mais completas da organização. No entanto, é raro que a visão seja partilhada em todas as partes da organização, o que, inclusive não deve ser um objetivo essencial; é mais corriqueiro que se atinja um consenso amplo e profundo sobre os principais elementos da visão, bem como seu sentido. O processo é muito rico e divertido e permite que as introvisões ressoem entre os colegas, mediante articulações verbais. Como se tratam de elementos profundos e importantes de cada participante, o resultado é uma sintonia grupal profunda e sutil, um tipo de alinhamento das diversas forças e influências internas da organização, permitindo-lher chegar a um direcionamento comum (Parikh; Neubauer; Lank, 2003). Resumindo, em toda visão – visão pessoal de vida, visão profissional de vida, visão intuitiva individual e visão intuitiva partilhada – existem três aspectos: 1) uma imagem, quadro ou símbolo; 2) os principais elementos desses componentes visuais; e 3) uma declaração verbal incorporando esses elementos (Parikh; Neubauer; Lank, 2003, p. 175). 5.9 Etapa 6: visionamento integrativo O objetivo agora é alcançar a visão integrativa, que incluirá as visões partilhadas (reflexiva e intuitiva), numa síntese equilibrada, resultando inclusive em um processo motivador forte e também no direcionamento para atividades e prioridades de um futuro de curto prazo. Trata-se de um processo de intenso aprendizado, de uma cultura de aprender a partir de si mesmo, da família e da organização. O desenvolvimento da visão reflexiva estimula características de análise e de imaginação, porém de uma forma responsável em relação à realidade e suas limitações. Em complemento, a visão intuitiva permite liberar os(as) participantes 36 desses limites, favorecendo um salto criativo. A integração entre esses dois níveis é um grande desafio, visto se constituir em um contínuo aprendizado, considerando-se que, usualmente, há preferências individuais e também culturais (no caso da cultura ocidental, a preferência é pelo processo reflexivo). Inclui-se nessa dificuldade o fato de que tal integração produz contínua tensão criativa, o que também ocorre em outras integrações, como entre a visão intuitiva pessoal e a profissional (Parikh; Neubauer; Lank, 2003). 5.10 Etapa 7: realidade do momento em tensão com a visão integrativa Por falar em tensão criativa, a etapa 7 propõe um choque ou o contraste da visão integrativa com a realidade do momento, o que naturalmente produz nova tensão. O objetivo aqui é utilizar o processo de revisão integrativa como um propulsor para a realidade, no sentido de que ela seja dirigida para conquistar o futuro desejado, visionado. Esse processo envolve três estágios de simbolização: 1. Símbolos do futuro desejado (que chamamos de visão); 2. Símbolos da realidade corrente; 3. Símbolos dos vários estados intermediários, cada um dos quais indicando mudanças em cada estágio ao longo do tempo, através das quais a realidade corrente poderia ser impedida rumo ao estado visionado. (Parikh; Neubauer; Lank, 2003, p. 176). Cada estágio é marcado por uma estrutura temporal e o objetivo é partilhar “[...] esse processo para todos os níveis da organização, como por exemplo, equipes, unidades, divisões ou departamentos” (Parikh; Neubauer; Lank, 2003, p. 176). Tal processo produz uma forte energia ou impulso em toda a organização, com o único propósito que é concretizar a visão corporativa elaborada. Os pesquisadores chamam esse princípio organizador de visionância, entendendo-o como algo de extrema relevância e até mesmo urgência no contexto atual da administração de empresas e, ainda, que sua característica mais importante é a excelência sustentável. Em outras palavras, ela gera uma ressonância (sintonização) com o indivíduo, e uma congruência (alinhamento entre a vida pessoal e profissional de um indivíduo e sua partilha com os colegas) na família e/ou no trabalho. Ela também cria a base para a delegação de poderes dentro da organização, conduzindo a um melhor desempenho e senso de realização (Parikh; Neubauer; Lank, 2003, p.179). A Figura 5 mostra exemplos de construção de símbolos de transformação. 37 Figura 5 – Construção de símbolos de transformação Fonte: Parikh; Neubauer; Lank, 2003, p. 177-178. Já a Figura 6 ilustra a sequência do desenvolvimento de uma visão integrativa. Figura 6 – Desenvolvimento de uma visão integrativa Ressonância (sintonização) Congruência (alinhamento) Governação (delegação) Desempenho (realização) Fonte: Parikh; Neubauer; Lank, 2003, p. 179. 38 5.11 Etapa 8: planos de ação A tensão criativa gerada pela união da visão partilhada integrada com a realidade do momento produz um plano de ação, o qual deve discriminar de forma detalhada o que deve ser feito, por quem, quando e com quais recursos, se constituindo então na etapa mais importante, aquela na qual todas as ideias e inspirações se convertem uma direção prática. É crucial que seja conduzida com o máximo de participação e dedicação, em todos os níveis (Parikh, Neubauer, Lank, 2003). 5.12 Etapa 9: revisão permanente Essa etapa é muito importante porque apresenta a mudança contínua como forma de atualização sistemática do processo, que implicará possíveis alterações nos planos de ação. A construção de uma visão partilhada deve ser vista como o elemento central da atividade diária dos líderes. Trata-se de um processo permanente e que nunca tem fim. [...] Uma visão, essa jornada para o interior de um território desconhecido e não mapeado, tem de ser recalibrada vezes e vezes seguidas. Isso requer tino comercial, força de caráter e coragem. Isso é o que tem demonstrado os desbravadores através dos tempos (Parikh; Neubauer; Lank, 2003, p. 180). 5.13 Reflexões finais Como todo processo novo, a proposta de Parikh, Neubauer e Lank (2003) pode parecer desafiadora, complexa e até mesmo despertar receio. No entanto, naqueles que se aventurarem nessa exploração a prática produzirá seu efeito de automatismo, após o desenvolvimento dessas novas capacidades. Naturalmente que isso requer tempo e esforço, que ao final produzirão uma forma natural de ser e de pensar. Como indicado anteriormente nesta aula, integrar o visionamento reflexivo ao visionamento intuitivo é explorar e desenvolver a habilidade de uma mente ambidestra, capaz de permitir um desenvolvimento ótimo e sustentado, sonho de qualquer organização que busca o sucesso continuado. Essa perspectiva ambidestra permite que cada participante e o grupo tenham uma interação com o mundo externo menosreativa e mais (cri)ativa. Em complemento, conseguir guiar- se ou, mesmo, que um grupo seja guiado por uma visão de futuro permite um nível excelente de motivação. Uma metáfora conhecida exemplifica esse fato: 39 Num canteiro de obras, onde vários trabalhadores estavam cortando pedra, um operário comum diria “estou portando pedra”; um outro trabalhador, mais inteligente, mais bem treinado e mais especializado, diria “estou convertendo a pedra em blocos com formas específicas”; um trabalhador visionário diria “estou construindo uma catedral” (Parikh; Neubauer; Lank, 2003, p. 182). Não é difícil imaginar a diferença de motivação e desempenho entre alguém que corta pedras e aquele que está construindo uma catedral. A visão da catedral dá a uma atividade monótona e árdua um sentido completamente diverso. Outra metáfora intensifica e amplia essa perspectiva: [...] é a conhecida história de Michelangelo e da estátua de Davi, de sua autoria. Quando lhe perguntaram como havia conseguido criar uma obra-prima a partir de um simples bloco de mármore, consta que ele disse que isso foi muito simples: ao olhar para o mármore ele teve uma visão de Davi e, depois, tudo que fez foi tirar o que “não era Davi”. (Parikh; Neubauer; Lank, 2003, p. 182). Essa última metáfora aborda, em complemento, a ideia de que, para alcançarmos a realização de uma visão, precisamos também lapidar aquilo que não é essencial, para que o essencial possa vir à tona. Nesse processo de visionamento, intuitivo, produz-se uma absorção e uma identificação do sujeito com o grupo de tal forma que ele ou mesmo o grupo se torna a própria visão. O estado visionado já existe e, tanto no nível pessoal como no coletivo, ocorre um movimento de alcançá-lo. Não se trata de agir rumo à visão, mas, antes, trabalhar com base nela, como se já existisse aquele estado almejado. Trata-se de uma mudança transformativa que deixa de lado uma cultura organizacional e convencional voltada para a solução de problemas, e que fica presa no ciclo problema/solução e a substituir por uma cultura impulsionada por uma visão em que os problemas aparecem como oportunidades para ampliação do contexto – em certo sentido, fazendo com que as limitações ou adversidades trabalhem a seu favor (Parikh; Neubauer; Lank, 2003, p. 182-183). Outro ponto muito interessante é que a própria percepção da realidade atual é moldada pela visão de futuro. O bloco de pedra guarda um significado especial porque, a cada lasca dele retirada, mais próximo estamos de Davi (da visão de futuro). 40 REFERÊNCIAS ALBUQUERQUE, A. Estudo de caso: o reposicionamento da Scandinavian Airlines durante a crise do petróleo. Administradores.com, 24 jun. 2011. Disponível em: <https://administradores.com.br/artigos/estudo-de-caso-o- reposicionamento-da-scandinavian-airlines-durante-a-crise-do-petroleo>. Acesso em: 16 nov. 2019. ALLINSON, C. W.; CHELL, E.; HAYES, J. Intuition and entrepreneurial behavior. European Journal of Work and Organizational Psychology, v. 9. n. 1, p. 31- 43, 2000. ALLINSON, C. W.; HAYES, J. The cognitive style index: a measure of intuition- analysis for organizational research. Journal of Management Studies, v. 33, n. 1, p. 119-135, 1996. _____. The cognitive style index: technical manual and user guide. Londres: Pearson, 2012. A TÉCNICA dos seis chapéus para pensar, de Edward Bono. A mente maravilhosa, 20 jun. 2018. 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