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OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Definir critérios de aprovação físico-químicos para medicamentos, cosmé- ticos e alimentos. > Estabelecer a conduta necessária para a solução de desvios de qualidade físico-químicos > Recomendar padrões de controle de qualidade para a comercialização do produto acabado. Introdução O desempenho terapêutico dos fármacos deve ser constante e previsível. Para alegar que um produto farmacêutico é um medicamento de qualidade, ele deve atender a certos padrões e especificações. O controle de qualidade (CQ) é um processo histórico por meio do qual é obtida a prova de que o nível apropriado de qualidade foi alcançado. Todo produto farmacêutico acabado tem um dossiê de registro, em que se encontra a completa descrição qualitativa e quantitativa dos ingredientes ativos (ou não). Dessa forma, o CQ deve garantir que todos os produtos acabados apresentem características semelhantes às descritas no dossiê. Controle de qualidade físico-químico em produtos farmacêuticos Maria Alice Maciel Tabosa Os livros que contêm os padrões para medicamentos e outras substâncias relacionadas são conhecidos como “farmacopeias”. As farmacopeias oferecem uma lista de medicamentos e outras substâncias relacionadas apresentando sua origem, sua descrição, os testes a que devem ser submetidos, suas fórmulas de preparação, sua ação e suas utilizações, suas doses, suas condições de armaze- namento, entre outras informações. Neste capítulo, você conhecerá os testes de CQ realizados em produtos far- macêuticos acabados e os respectivos critérios para sua aprovação, segundo as recomendações da Farmacopeia brasileira. Além disso, você poderá compreender procedimentos usados para solucionar possíveis desvios na qualidade dos pro- dutos farmacêuticos. CQ: definições e critérios para aprovação de produtos farmacêuticos, cosméticos e alimentícios Além da eficácia, da segurança e do acesso, a qualidade é um dos quatro pilares da fabricação de medicamentos estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como indispensáveis para qualquer produto para a saúde (STÁVALE; LEAL; FREIRE, 2020). Qualidade é a sustentabilidade dos medicamentos para o uso desejado, medida por sua eficiência, segurança e consistência com a declaração do rótulo, ou endossada sua conformidade com as especificações relativas à identidade, à força, à pureza e a outras características (UDDIN et al., 2017). De acordo com a Organização Interna- cional de Padronização (ISO), CQ são as técnicas operacionais e atividades utilizadas para cumprir os requisitos de qualidade (LACK, 2001). Portanto, qualquer atividade de controle ou garantia de qualidade pode ser parte das atividades de CQ. Uma vez que a qualidade de um produto pode divergir do padrão exigido, realizar uma análise é importante para determinar a sua qualidade. Para tanto, o teste de um produto farmacêutico envolve avaliação ou teste químico, físico e, algumas vezes, microbiológico. A qualidade e a segurança dos medicamentos devem seguir as especifica- ções descritas nos compêndios oficiais, entre os quais estão as farmacopeias. Os medicamentos não podem conter impurezas ou outras substâncias que colocam em risco a saúde do paciente. Para que sejam garantidas a segurança, a eficácia e a qualidade dos produtos manuseados, são necessários cálculos Controle de qualidade físico-químico em produtos farmacêuticos2 corretos, medidas exatas, bem como condições e procedimentos adequados de preparação. Os padrões de CQ são definidos pela Farmacopeia brasileira (BRASIL, 2019a), que teve a sua sexta edição publicada em 2019 pela Agência Nacio- nal de Vigilância Sanitária (Anvisa). Também em 2019, a Anvisa, por meio da Resolução RDC nº 301, de 21 de agosto de 2019, atualizou os regulamentos de boas práticas de fabricação (BPFs), incorporando a eles as recentes diretrizes da OMS — o que reflete a intenção de se alinhar aos padrões internacionais. Essa resolução determina a implantação de política de qualidade em um sis- tema de qualidade farmacêutica. A política de qualidade envolve programas, políticas e processos de padrão de qualidade autorizados pela direção da empresa. Ademais, o documento também estabelece a garantia de qualidade, que envolve não apenas as BPFs, mas também o projeto e o desenvolvimento do produto (BRASIL, 2019b). O processo de produção de um medicamento deve ser meticulosamente controlado desde o recebimento das matérias-primas até o produto far- macêutico que será comercializado, sendo todas as etapas desse processo regulamentadas pela RDC nº 301/2019. Os métodos físicos, químicos, físico- -químicos e microbiológicos estão descritos nos compêndios oficiais, que, no caso do Brasil, é a Farmacopeia brasileira (BRASIL, 2019a). Na ausência de monografia oficial da forma farmacêutica e de métodos gerais nesse com- pêndio, poderá ser adotada a monografia oficial de códigos farmacêuticos estrangeiros. No que se refere ao CQ físico-químico em produtos farmacêuticos, a RDC nº 301/2019 afirma que o acompanhamento da estabilidade de produtos far- macêuticos é um requisito de BPF (BRASIL, 2019b). Nesse sentido, monitorar o produto durante sua vida útil é fundamental para verificar se ele permanece dentro das especificações. Ademais, a resolução também especifica que: [...] os produtos acabados devem possuir a composição qualitativa e quantitativa em conformidade com o descrito no registro ou na autorização para uso em ensaio clínico; os componentes devem ter a pureza exigida, devem estar em recipientes apropriados e devidamente rotulados (BRASIL, 2019b, p. 66). Em relação aos produtos cosméticos, o Guia de controle de qualidade de produtos cosméticos (BRASIL, 2007) aborda os ensaios físicos e químicos a serem realizados nesse tipo de produto. Quanto às formas farmacêuticas sólidas, vários métodos devem ser aplicados para a avaliação da qualidade do produto, a saber: descrição; peso médio; dureza; friabilidade; desintegração; dissolução, ou cinética de Controle de qualidade físico-químico em produtos farmacêuticos 3 dissolução; e teor e uniformidade de doses unitárias. Todos esses testes, detalhados a seguir, têm critérios de aprovação descritos nos métodos gerais da Farmacopeia brasileira (BRASIL, 2019a). O teste de peso médio se aplica a formas farmacêuticas sólidas em dose unitária (comprimidos não revestidos, comprimidos revestidos, pastilhas, cápsulas duras e moles, e supositórios), formas farmacêuticas sólidas acon- dicionadas em recipientes para dose unitária (pós estéreis, pós liofilizados, pós para injetáveis e pós para reconstituição de uso oral) e formas farma- cêuticas sólidas e semissólidas acondicionadas em recipientes para doses múltiplas (granulados, pós, géis, cremes, pomadas e pós para reconstituição) (BRASIL, 2019a). Para produtos em dose unitária, devem-se pesar 20 unidades e determi- nar o peso médio. Para os produtos em doses múltiplas, devem-se pesar 10 unidades farmacotécnicas. As especificações, descritas nos métodos gerais da Farmacopeia brasileira, levam em consideração as formas farmacêuticas e as faixas de peso, sendo necessário o uso de uma balança analítica devi- damente calibrada (BRASIL, 2019a). Considerados oficiais dentro do contexto legal da Farmacopeia brasileira, os testes de resistência mecânica, como dureza e friabilidade, são elementos úteis na avaliação da qualidade integral dos comprimidos, visando a demons- trar a resistência dos comprimidos à ruptura provocada por quedas ou fricção. De modo a garantir a estabilidade física dos comprimidos, o teste de dureza consiste na medição da sua resistência à ruptura quando é a ele aplicada uma força radial (expressa em unidades de pressão) no sentido de maior raio da forma farmacêutica. É necessário que o comprimido atinja um limite mínimo de dureza de 45 N. Já o teste de friabilidade objetiva avaliar a perda de material da superfície dos comprimidos. Para essa análise, 20 comprimidos são pesadose transferidos para um equipamento chamado “friabilômetro”, que submete os comprimidos a quedas e impactos durante 5 min, com uma rotação de 20 rpm. Os comprimidos que, ao final do teste, apresentarem perdas superiores a 1,5% do peso inicial são rejeitados (BRASIL, 2019a). Aplicada a comprimidos e cápsulas, a análise do tempo de desintegração é realizada com auxílio do desintegrador. Essa análise consiste na avaliação do tempo necessário para que seis unidades do lote de comprimidos ou cápsulas percam a sua forma inicial quando submetidas a ciclos de imer- são — em água, HCl 0,1M ou tampão fosfato pH 8 (37°C) — intermitentes e contínuos em um cesto com uma malha na extremidade inferior. O tempo de desintegração corresponderá ao tempo necessário para que não restem partículas no interior do cesto, sendo os critérios de aceitação específicos Controle de qualidade físico-químico em produtos farmacêuticos4 para as formas farmacêuticas utilizadas. A finalidade desse teste é garantir que, após a administração, o comprimido perderá sua forma inicial e as partículas entrarão em contato com o fluido biológico para posterior solu- bilização (BRASIL, 2019a). A dissolução, ou cinética de dissolução, é um dos parâmetros in vitro mais importantes na avaliação da qualidade de formas farmacêuticas sólidas. Os testes devem ser procedidos de acordo com a monografia individual de cada produto, respeitando as condições experimentais descritas (BRASIL, 2019a). Já os ensaios de teor e de uniformidade de doses unitárias têm por fi- nalidade verificar, respectivamente, se a quantidade de ativo presente nos medicamentos é condizente com a quantidade declarada em bula e se não existe variação de uniformidade (BRASIL, 2019a). Para a avaliação da qualidade das formas farmacêuticas líquidas e se- missólidas, devem ser aplicados os seguintes métodos: descrição; peso ou volume médio; densidade; viscosidade; pH; umectabilidade; teor; aspiração e extrusão; esterilidade; pirogênio; e contagem microbiológica (BRASIL, 2019a). Seguindo o mesmo princípio das formas farmacêuticas sólidas, o teste de avaliação de peso ou volume médio serve para verificar a uniformidade de envase das unidades farmacotécnicas, visto que, na maioria dos casos, são formas farmacêuticas de doses múltiplas. As especificações são determinadas por faixas de volume dos frascos. Para determinar a densidade de uma substância, avalia-se a relação entre a sua massa e o volume ocupado por ela. Esse procedimento é realizado utilizando-se um instrumento chamado “picnômetro”, que, na avaliação de líquidos, pode ser de vidro e, na de produtos semissólidos, pode ser metálico (BRASIL, 2019a). Em formas farmacêuticas líquidas e semissólidas, a análise da viscosidade é importante porque ela pode indicar a facilidade de extrusão da formulação a partir do recipiente de embalagem e, em suspensões, porque ela interfere diretamente na velocidade de sedimentação das partículas. Os ensaios podem ser realizados com diferentes técnicas. Entre elas, a que fornece o maior número de informações reológicas é o uso do viscosímetro rotativo para a medição do torque requerido para rodar um fuso imerso em um dado fluido. Para ensaios de produtos cosméticos, o Guia de controle de qualidade de produtos cosméticos (BRASIL, 2007) descreve os conceitos pertinentes à qualidade total e ao CQ especificamente. O documento trata de assuntos que vão desde as atividades inerentes ao CQ até os aspectos técnicos de especi- ficação de produtos, amostragem, tratamento de amostra, bem como uso e armazenamento de reagentes. Há, ainda, a descrição de métodos analíticos, Controle de qualidade físico-químico em produtos farmacêuticos 5 como características organolépticas, métodos físicos e métodos de análise. Em seu anexo A da parte 1, esse guia apresenta uma lista de produtos cos- méticos e os relaciona com os ensaios sugeridos quando aplicáveis, quando possivelmente aplicáveis de acordo com as características dos produtos e quando não aplicáveis. De acordo com a Resolução RDC nº 216, de 15 de setembro de 2004, todas as empresas da indústria de alimentos e serviços alimentícios devem ado- tar as BPFs, visando a garantir a qualidade, a conformidade e a segurança dos alimentos (BRASIL, 2004). Ter a BPF implementada significa atender às seguintes legislações: � Portaria nº 326, de 30 de julho de 1997, que estabelece os requisitos gerais das condições de higiene sob o ponto de vista sanitário e de BPFs para produtores e indústrias de alimentos (BRASIL, 1997); � Resolução RDC nº 275, de 21 de outubro de 2002, um ato normativo que é complementar à Portaria nº 326/97 e que introduz o controle contínuo dos manuais e do seu conteúdo, promovendo a harmonização das inspeções sanitárias (BRASIL, 2002); � Portaria nº 1.428, de 26 de novembro de 1993, que estabelece as dire- trizes para o estabelecimento das BPFs na área de alimentos (BRASIL, 1993). Em 2008, o Instituto Adolfo Lutz (IAL) lançou, em parceria com a Anvisa, o livro Métodos físico-químicos para análise de alimentos (ZENEBON; PASCUET; TIGLEA, 2008). Referência para a elaboração de normas na área de alimentos, a obra contribui para a melhoria do desempenho de laboratórios dos setores público e privado ao apresentar as metodologias analíticas utilizadas no IAL para o CQ de bebidas, águas, embalagens e equipamentos, além de contami- nantes de alimentos, como as micotoxinas, resíduos de pesticidas e metais pesados. A publicação conta, ainda, com capítulos dedicados à segurança química e à implantação de sistema de qualidade em laboratórios. Portanto, para assegurar alimentos aptos para o consumo, é preciso que o estabelecimento instrumente os controles de laboratório com metodologia analítica reconhecida que se considere necessária. Controle de qualidade físico-químico em produtos farmacêuticos6 Desvios de qualidade na fabricação de medicamentos Pressupõe-se que o fabricante do medicamento dispõe de um sistema de gestão da qualidade que lhe exige ter processos de documentação para garantir a segurança e a eficácia dos medicamentos colocados no mercado. Para esse propósito, o fabricante estabelecerá processos e definirá controles apropriados para medição e análise a fim de identificar tanto não conformi- dades quanto potenciais não conformidades. Além disso, o fabricante deverá estabelecer processos definindo quando e como devem ser realizadas as correções e as ações corretivas ou preventivas. A capacidade de corrigir problemas existentes ou implementar controles para prevenir problemas potenciais é essencial para a satisfação contínua do cliente e para práticas comerciais eficientes (TASHI; MBUYA; GANGADHARAPPA, 2016). Segundo a RDC nº 301/2019, que dispõe sobre as diretrizes gerais de boas práticas de fabricação de medicamentos, o “[...] não cumprimento de re- quisitos determinados pelo sistema de gestão da qualidade farmacêutica ou necessários para a manutenção da qualidade, segurança e eficácia dos produtos” caracteriza-se como desvio (BRASIL, 2019b, p. 64). Para corrigir esse desvio, podem ser tomadas medidas de dois tipos: medidas de ação corretiva e medidas de ação preventiva. As ações corretivas e preventivas (Capas, do inglês corrective and pre- ventive actions) são uma parte muito importante dos sistemas de qualidade da indústria farmacêutica. Assim que for descoberta a existência de desvios, incluindo falhas na produção e/ou no teste de medicamentos, devem ser ini- ciadas as investigações sobre a sua causa, ou as suas causas. Então, devem-se realizar ações para corrigir a não conformidade do produto existente ou os problemas de qualidade (ações corretivas) e para prevenir a recorrência do problema (ações preventivas) (RAJ, 2016). A Capa é uma ferramenta de gestão fundamental, devendo ser utilizada em todo sistema de qualidade, pois fornece um processo passo a passo simples para concluir e documentar ações corretivas ou preventivas. O resultadoserá uma investigação completa e bem documentada, bem como uma solução que vai satisfazer os requisitos regulamentares e formar a base para um plano de melhoria contínua eficaz para qualquer empresa (TASHI; MBUYA; GANGADHARAPPA, 2016). A indústria farmacêutica deve ter um sistema para implementar ações corretivas e preventivas resultantes da investigação de reclamações, rejeições de produtos, não conformidades, recalls, desvios, auditorias, inspeções regu- Controle de qualidade físico-químico em produtos farmacêuticos 7 latórias e suas descobertas, e as tendências indicadas pelo monitoramento do desempenho do processo e da qualidade do produto (Quadro 1). É neces- sário utilizar uma abordagem estruturada para o processo de investigação a fim de determinar a causa raiz, devendo o nível de esforço, formalidade e documentação da investigação ser proporcional ao nível de risco. Assim, a Capa deve resultar em melhorias de produto e processo, além de melhorar a compreensão de produto e processo. Uma correção, ação para eliminar uma não conformidade detectada, pode ser, por exemplo, retrabalho ou reclassificação (INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION, 2005). Quadro 1. Objetivos das ações corretivas e das ações preventivas e exemplos de motivos para implementá-las Objetivos Motivos Ação corretiva � Prevenir a reincidência. � Eliminar a causa, ou as causas, de uma não conformidade detectada ou outra situação indesejável. Desvios de fabricação, reclamações, resultados de auditoria, recalls, etc. Ação preventiva � Prevenir a ocorrência. � Eliminar a causa, ou as causas, de uma não conformidade potencial ou outra situação indesejável. Tendência de dados em processo, de dados analíticos, de resultados de auditoria; tendência de causas raiz para não conformidades ou reclamações, de análises anuais de produtos, de análises de risco de qualidade, etc. Fonte: Adaptado de International Conference on Harmonisation of Technical Requirements for Registration of Pharmaceuticals for Human (2005). A implementação de uma ação corretiva ou preventiva eficaz, capaz de satisfazer os requisitos de garantia de qualidade e documentação regula- tória, é realizada em sete etapas básicas, descritas a seguir (TASHI; MBUYA; GANGADHARAPPA, 2016). 1. Identificar o problema, a não conformidade ou o incidente; ou o poten- cial problema, a potencial não conformidade ou o potencial incidente. A etapa inicial consiste em definir claramente o problema, descrevendo Controle de qualidade físico-químico em produtos farmacêuticos8 de forma precisa e completa a situação como ela existe no momento. Isso deve incluir a fonte da informação, uma explicação detalhada do problema e a evidência disponível de que existe um problema. 2. Avaliar a magnitude do problema e o impacto potencial na empresa. 3. Desenvolver um procedimento de investigação com atribuições de responsabilidade. 4. Executar uma análise completa do problema com a documentação apropriada. 5. Criar um plano de ação listando todas as tarefas que devem ser con- cluídas para corrigir e/ou prevenir o problema. 6. Implementar o plano. 7. Realizar um acompanhamento completo, com verificação da conclusão de todas as tarefas e uma avaliação da adequação e eficácia das ações tomadas. A análise dos dados pode ser feita utilizando-se técnicas estatísticas e técnicas não estatísticas. Para classificar áreas e selecionar itens com maior impacto, ou seja, relacionados a produtos ou processos, poderá ser utilizada uma abordagem baseada em risco. Quando necessário, deve ser empregada metodologia estatística apropriada para detectar problemas recorrentes de qualidade. São exemplos de técnicas estatísticas: � gráficos de controle estatístico de processo (SPC, do inglês statistical process control); � análise de Pareto; � tendências de dados; � análise de regressão linear e não linear; � projeto experimental (DOE, do inglês design of experiments) e análise de variância; � métodos gráficos (histogramas, gráficos de dispersão, etc.). São exemplos de técnicas não estatísticas: � avaliações de gestão; � resultados de reuniões de qualidade; � comitês de segurança (internos/externos); � análise de modo e efeito de falha (FMEA, do inglês failure mode and effect analysis); Controle de qualidade físico-químico em produtos farmacêuticos 9 � análise da árvore de falhas (FTA, do inglês fault tree analysis); � diagrama de Ishikawa. A FMEA depende da compreensão do produto e do processo. Ela divide metodicamente a análise de processos complexos em etapas gerenciáveis, fornecendo uma avaliação dos modos de falha em potencial para processos e seu provável efeito no desempenho do produto. Podendo ser aplicada a equipamentos e instalações, a FMEA pode ser usada para analisar uma ope- ração de fabricação e seu efeito no produto ou no processo (TASHI; MBUYA; GANGADHARAPPA, 2016). A FTA pressupõe falha na funcionalidade de um produto ou processo. Os resultados são representados pictoricamente na forma de uma árvore de modos de falha. Isso pode ser usado para investigar reclamações ou desvios, a fim de compreender totalmente sua causa raiz e garantir que a melhoria pretendida resolverá os problemas e não causará nenhum outro problema diferente (TASHI; MBUYA; GANGADHARAPPA, 2016). O diagrama de Ishikawa, também chamado “diagrama espinha de peixe”, é uma ferramenta para identificar as causas raízes dos problemas de qualidade. É uma ferramenta de análise que fornece uma maneira sistemática de obser- var os efeitos e as causas que criam ou contribuem para esses efeitos. Por causa da sua função, o diagrama espinha de peixe pode ser referido como um diagrama de causa e efeito. Alguns dos benefícios de construir um diagrama espinha de peixe são que ele ajuda a determinar as causas de um problema ou característica de qualidade usando uma abordagem estruturada; incentiva a participação do grupo e utiliza o conhecimento do grupo do processo; e identifica áreas onde os dados devem ser coletados para um estudo mais aprofundado (TASHI; MBUYA; GANGADHARAPPA, 2016). Pode-se concluir, então, que ações corretivas e preventivas são caminhos importantes para a melhoria e a eficácia do sistema de gestão da qualidade, desempenhando um papel importante no sistema de gestão de riscos da qualidade. Uma vez que a análise da causa raiz de qualquer problema ou desvio pode ser feita facilmente com o uso da Capa, as indústrias farma- cêuticas devem aderir estritamente à implementação dessa ferramenta em sua organização. Controle de qualidade físico-químico em produtos farmacêuticos10 Critérios para aprovação de produtos farmacêuticos Nesta seção, serão descritos os testes de CQ para produtos farmacêuticos com base em padrões e especificações encontradas na Farmacopeia brasileira (BRASIL, 2019a). Esses testes visam a analisar os produtos em relação ao peso, à dureza, à friabilidade, à desintegração, à dissolução, ao teor do princípio ativo e à uniformidade das doses unitárias. Determinação de peso Para os comprimidos não revestidos ou revestidos com filme, os limites de variação permitidos são (BRASIL, 2019a): � ± 10%, se o peso médio for menor ou igual a 80 mg; � ± 7,5%, se o peso médio for maior que 80 mg e menor que 250 mg; � ± 5%, se o peso médio for maior ou igual a 250 mg. Para os comprimidos com revestimento açucarado (drágeas), os limites de variação permitidos são (BRASIL, 2019a): � ± 15%, se o peso médio for menor ou igual a 25 mg; � ± 10%, se o peso médio for maior que 25 mg, até 150 mg; � ± 7,5%, se o peso médio for maior que 150 mg e menor que 300 mg; � ± 5%, se o peso médio for maior que 300 mg. Para as cápsulas duras, os limites de variação permitidos são (BRASIL, 2019a): � 10%, se o peso médio for menor que 300 mg; � ± 7,5%, se o peso médio for maior ou igual a 300 mg. Teste de dureza O teste de dureza do comprimido é uma técnica de laboratório usada pela indústria farmacêuticapara determinar o ponto de ruptura e a integridade estrutural de um comprimido e para descobrir como ele muda sob condições de armazenamento, transporte, embalagem e manuseio antes do uso. O re- Controle de qualidade físico-químico em produtos farmacêuticos 11 sultado desse teste é apenas informativo, sendo expresso como uma média dos valores obtidos nas determinações (BRASIL, 2019a). Teste de friabilidade O teste de friabilidade é usado para testar a durabilidade dos comprimidos durante os processos de embalagem e transporte. Para tanto, submete-se uma amostra de comprimidos a repetidas quedas, em um tempo fixo, usando um tambor rotativo com defletor. O resultado é inspecionado para verificar se há comprimidos quebrados e qual é a porcentagem da massa do comprimido perdida por lascamento. Quando os comprimidos tiverem um peso médio igual ou inferior a 0,65 g, devem-se retirar 20 comprimidos para a realização do teste. Para comprimidos com peso médio superior a 0,65 g, utilizam-se 10 comprimidos. A diferença entre o peso inicial e o peso final (perda) do material submetido ao teste deve ser igual ou inferior a 1,5% do seu peso ou a porcentagem estabelecida na monografia específica (BRASIL, 2019a). Teste de desintegração O teste de desintegração é usado para mostrar a rapidez com que o com- primido se quebra em partículas menores, permitindo uma maior área de superfície e disponibilidade do medicamento quando tomado pelo paciente. Os testes de desintegração também são úteis para avaliar a importância potencial das variáveis de formulação e processo nas propriedades biofar- macêuticas do comprimido e como um procedimento de controle para avaliar a reprodutibilidade da qualidade (BRASIL, 2019a). Para comprimidos não revestidos, o limite de tempo estabelecido como critério geral para a sua desintegração é de 30 minutos, a menos que haja uma recomendação específica na monografia. Para drágeas ou comprimidos revestidos com filme, esse limite é de 60 minutos, a menos que haja uma recomendação específica na monografia (BRASIL, 2019a). Teste de dissolução Requisito para todas as formas de dosagem oral sólidas, o teste de dissolução é usado ao longo de todo o processo de desenvolvimento para liberação do produto e teste de estabilidade. Trata-se de um teste analítico fundamental, cujo objetivo é detectar alterações físicas em um ingrediente farmacêutico Controle de qualidade físico-químico em produtos farmacêuticos12 ativo e produto formulado. Nos estágios iniciais do processo de desenvolvi- mento do medicamento, o teste de dissolução in vitro sustenta a otimização da liberação do medicamento a partir de uma determinada formulação. A eficácia de uma forma de dosagem oral depende da capacidade intrínseca do fármaco para se dissolver nos fluidos do trato gastrointestinal antes de ser absorvido pela circulação. Portanto, a taxa de dissolução do comprimido ou da cápsula é fundamental para esse processo. Entre os critérios de aceitação do teste de dissolução de formas farmacêu- ticas de liberação imediata, são descritas três etapas. Nas especificações, Q corresponde à quantidade dissolvida de fármaco, especificada na monografia individual e expressa como porcentagem da quantidade declarada. Para atingir o primeiro estágio (E1), são utilizadas seis unidades. Se os comprimidos submetidos à dissolução não estiverem de acordo com os critérios E1 (Q + 5%), deve-se prosseguir para a segunda etapa (E2), em que deverão ser testadas mais seis unidades. Nesse contexto, a média das 12 unidades (E1 + E2) deve ser igual ou superior a Q, e nenhuma unidade deve ter resultado inferior a Q – 15%. Caso os critérios do estágio E2 não sejam atendidos, é necessário testar mais 12 unidades no estágio final (E3), em que 24 unidades (E1 + E2 + E3) devem ser iguais ou maiores que Q, com no máximo duas unidades sendo menores que Q – 15% e nenhuma unidade sendo menor que Q – 25% (BRASIL, 2019a). Teor do princípio ativo O doseamento do princípio é de suma importância para fornecer um resultado exato, que permite uma declaração precisa do conteúdo ou da potência do analito em uma amostra. Os métodos empregados na identificação e no doseamento de princípios ativos podem ser divididos em métodos não seletivos (métodos clássicos e métodos de identificação) e métodos seletivos (instrumentais). Embora sejam métodos não seletivos, a titulação e a espectrofotometria ultravioleta- -visível (sendo esta comumente baseada em reações de cor) são métodos encontrados com frequência nas farmacopeias. Esses métodos são chamados “não seletivos” porque a maioria das potenciais impurezas provavelmente contêm as mesmas funções químicas que o fármaco, ou seja, grupos funcionais ácidos ou básicos e cromóforos. Apesar de serem métodos rápidos, baratos e reprodutíveis, sua precisão é baixa (GÖRÖG, 2008). Uma possibilidade para resolver o problema da não seletividade dos métodos de ensaio titrimétricos e espectrofotométricos é substituí-los por métodos seletivos (instrumentais). Dentre as técnicas, destacam-se como Controle de qualidade físico-químico em produtos farmacêuticos 13 principais a espectrofotometria de absorção no ultravioleta, a espectroscopia na região do infravermelho próximo combinada com técnicas quimiométricas e as cromatografias gasosa e líquida. A cromatografia líquida de alta eficiência (CLAE) é o principal método — juntamente com a cromatografia de camada delgada (CCD) — para a de- terminação de impurezas orgânicas relacionadas, sendo o método de ensaio indicador de estabilidade para formas farmacêuticas. Isso contribui muito para melhorar a segurança dos medicamentos. Para a quantificação, é necessária uma medida relativa em que amostra e substância química de referência (SQR) sejam comparadas após terem sido analisadas de acordo com o mesmo método analítico. De uma forma geral, a quantidade de princípio ativo deve estar entre 90% e 110% da quantidade declarada. Entretanto, deve-se dar atenção à monografia do produto para verificar a faixa específica para determinado princípio ativo. Uniformidade das doses unitárias A uniformidade do conteúdo é um parâmetro de análise farmacêutica para o CQ de cápsulas ou comprimidos. Várias cápsulas ou vários comprimidos são selecionados aleatoriamente, e então um método analítico adequado é aplicado para analisar o conteúdo individual do ingrediente ativo em cada cápsula ou comprimido. Para comprimidos não revestidos ou revestidos com filme e cápsulas duras, faz-se a uniformidade por variação de peso quando a dose do fármaco é maior ou igual a 25 mg ou quando a proporção do fármaco é maior que 25%. Por outro lado, se a dose é menor que 25 mg ou a proporção é menor que 25%, a uniformidade é feita por meio da uniformidade de conteúdo (BRASIL, 2019a). Neste capítulo, você pôde compreender que os aspectos técnicos dos métodos físicos e físico-químicos são de fundamental importância para o funcionamento de laboratórios produtores de medicamentos. Entender os princípios, a aplicação e a análise dos resultados de cada método é crucial para a liberação de produtos para o mercado, sejam eles medicamentos, cosméticos ou alimentos. Isso porque todo produto farmacêutico deve ter segurança e eficácia comprovados por meio das análises de CQ, que devem estar devidamente documentadas de modo a garantir a rastreabilidade dos procedimentos. A qualidade final dos produtos é garantida pelo atendimento às especificações farmacopeicas e pela observância dos procedimentos Controle de qualidade físico-químico em produtos farmacêuticos14 descritos. Na ausência de métodos descritos em compêndios oficiais, os laboratórios devem ter seus métodos validados dentro de procedimentos específicos para que seus resultados sejam confiáveis e rastreáveis. Referências BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Farmacopeia brasileira. 6. ed. Brasília, DF: Anvisa, 2019a. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/farma-copeia/farmacopeia-brasileira/arquivos/7985json-file-1. Acesso em: 13 maio 2021. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Guia de controle de qualidade de produtos cosméticos. Brasília, DF: Anvisa, 2007. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução de Diretoria Colegiada n. 216, de 15 de setembro de 2004. Diário Oficial da União, Brasília, DF, ano 141, n. 179, seção 1, p. 25–28, 16 set. 2004. Disponível em: https://pesquisa.in.gov.br/imprensa/ jsp/visualiza/index.jsp?data=16/09/2004&jornal=1&pagina=25&totalArquivos=176. Acesso em: 13 maio 2021. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução de Diretoria Colegiada n. 275, de 21 de outubro de 2002. Diário Oficial da União, Brasília, DF, ano 139, n. 206, seção 1, p. 126–130, 23 out. 2002. Disponível em: https://pesquisa.in.gov.br/imprensa/jsp/ visualiza/index.jsp?jornal=1&pagina=126&data=23/10/2002. Acesso em: 14 maio 2021. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução de Diretoria Colegiada n. 301 de 21 de agosto de 2019. Diário Oficial da União, Brasília, DF, ano 157, n. 162, seção 1, p. 64–74, 22 ago. 2019b. 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Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. Controle de qualidade físico-químico em produtos farmacêuticos16