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PROCESSOS PSICOLÓGICOS BÁSICOS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Identificar as principais teorias da atenção. > Explicar gargalo, seleção inicial e tardia. > Distinguir teorias do gargalo das teorias modulares. Introdução Compreender como os mecanismos da atenção funcionam demandou muitos estudos ao longo do tempo, e diversas teorias surgiram para dar sentido a essa função cognitiva. Entre as teorias proeminentes, podemos encontrar aquelas que estabelecem filtros ou gargalos para a seleção da informação, como as teorias de Donald Broadbent, de Anne Treisman e de J. A. Deutsch e D. Deutsch. Há, além disso, teorias que tentam dar sentido a outros tipos de atenção, entendendo-a com uma visão mais ampla, como as teorias modulares. Neste capítulo, você vai ler sobre os diferentes tipos de atenção com base nas teorias mais conhecidas que estudam esse processo. Vai também conhecer as teorias que tratam de gargalo e seleção de informações. Por fim, irá distinguir essas teorias do gargalo das teorias modulares, que oferecem outra visão para a atenção dividida. Principais teorias da atenção Atenção é um processo psicológico essencial à nossa sobrevivência. Ima- gine se, na pré-história, nossos antepassados não dispusessem de tal processo. É bem provável que não tivéssemos evoluído até aqui, pois, para que sobrevivêssemos aos perigos, precisamos prestar atenção e Teorias da atenção Tainá Siqueira Thies nos preparar para ataques de predadores. Além disso, por a atenção estar associada a outros processos básicos, como consciência, memória e emoção, compreender como ela funciona nos seres humanos é de extrema importância para a psicologia. A atenção é comumente estudada como a capacidade de selecionar estí- mulos para processamento. É a possibilidade de o indivíduo focar no que é mais importante para ele em certo momento. Esse processo está associado à memória de trabalho, isto é, memória que armazena informações por um período para que alguma tarefa seja executada (EYSENCK; KEANE, 2017). Hoje, há muitas teorias que pretendem explicar a atenção, não apenas uma que concentre todos os experimentos como uma única verdade. Por isso, nesta seção, exploraremos algumas teorias que tentam compreender os processos subjacentes à atenção: teoria da detecção de sinais e teoria da integração de características. A teoria da detecção dos sinais identifica como as pessoas conseguem detectar estímulos importantes em seu ambiente. Essa detecção pode ocor- rer de duas formas principais: vigilância ou busca (STERNBERG; STERNBERG, 2017). A vigilância é a habilidade de estarmos atentos aos estímulos por um período longo, tentando identificar se um estímulo específico surge ou não no ambiente. Em termos práticos, podemos ver a vigilância nos salva-vidas, por exemplo. Uma pessoa trabalhando como salva-vidas na praia precisa estar sempre vigilante à procura de um estímulo, que, no caso, seria alguém em perigo no mar. Assim, sua atenção está sempre varrendo a área da praia à procura de um sinal de perigo. Isso exige bastante energia do aparelho psíquico. Com o tempo, a capacidade de atenção diminui, porque não se sabe se, de fato, o estímulo vai aparecer, isto é, se alguém vai precisar de ajuda ou não. A vigilância é, de certa forma, passiva, já que é como passar o dia esperando que o estímulo vá aparecer. Já a busca é um procedimento ativo, em que o indivíduo procura por um estímulo específico em meio a outros tantos estímulos. A dificuldade da tarefa está na quantidade de outros estímulos que distraem o indivíduo no momento de encontrar a informação correta, além de suas características, isto é, se os estímulos distratores são muito parecidos com o que se busca ou não. Esse processo depende amplamente da percepção visual, que diminui com a idade. A atenção consegue organizar os estímulos que recebemos por meio da sensação, possibilitando a realização de ações a partir desses estímulos (FICHMAN, 2021). Teorias da atenção2 Muitas vezes, mudanças passam despercebidas por nós no nosso dia a dia, como quando, ao passar pelo nosso trajeto diário, nota- mos, por exemplo, um prédio que não tínhamos visto antes. Estamos sempre selecionando os estímulos a serem olhados ou escutados, sustentando nosso foco de atenção no que julgamos mais importante. Que tal um teste para ver como seu processo atencional seleciona os estímulos? Ao fazer seu costumeiro trajeto, tente prestar atenção de forma a verificar se algum estímulo passou despercebido recentemente. Outra teoria relevante para entendermos os processos da atenção é a teoria da integração de características, de Anne Treisman. De acordo com essa teoria, há em nosso cérebro um mapa mental que consegue identificar cada característica do estímulo: tamanho, cor, orientação, posição e forma. Assim, quando identificamos visualmente um estímulo apenas por suas carac- terísticas, elas são rapidamente processadas nesse mapa, não necessitando de um funcionamento mental complexo. Entretanto, em algumas situações, precisamos realizar uma busca conjunta pelas características do objeto, o que pede da atenção a união de mais de uma característica, necessitando de maior investimento de recursos (STERNBERG; STERNBERG, 2017). Digamos que uma caixa de canetas coloridas tenha caído no chão e que, agora, todas estejam espalhadas. Você quer encontrar apenas a caneta azul em meio a tantas canetas. Tal tarefa não exige tanto de você, pois é uma busca por uma característica apenas: cor azul. Mas, se na caixa também houver lapiseiras, lápis de cor e canetinhas permanentes, a busca por “caneta esferográfica de cor azul” fica mais complicada, pois a atenção precisa juntar essas duas características para encontrar o ob- jeto pretendido. De acordo com a teoria da integração de características, nessa procura pela caneta, há uma inibição das características dos outros estímulos que não são relevantes, como material de madeira, cor sólida, tamanhos pequenos, materiais emborrachados, entre outras que estejam concorrendo com a caneta esferográfica azul. Essa teoria, como muitas outras, recebeu diversas críticas, pois, posteriormente, compreendeu-se que o cérebro processa cada uma das características em vez de selecionar apenas uma. Como você pode perceber, não é simples definir como a atenção acon- tece de fato. De toda forma, precisamos nos lembrar de que estar atento, em qualquer uma das funções da atenção, requer sempre a seleção de um Teorias da atenção 3 estímulo entre outros. Isso acontece a todo momento em que estamos acordados, mas nem sempre de forma totalmente consciente. Ocorre tão rapidamente que nem percebemos que estamos selecionando diferentes estímulos do ambiente. Conforme vimos nesta seção, a teoria de detecção de sinais tem por objetivo explicar como as pessoas selecionam estímulos importantes por meio de busca e vigilância. Já a teoria da integração de características, de Treisman, postula que é possível identificar rapidamente as características de um estímulo como em um mapa mental. A seguir, estudaremos as diversas maneiras como selecionamos estímulos para focar nossa atenção. Selecionando estímulos Até aqui, entendemos que estamos constantemente selecionando estímulos em que prestar atenção. Como essa seleção acontece? Como nosso cérebro interpreta que um estímulo é mais importante do que outro para que pos- samos direcionar nossa atenção? As teorias que vamos ver nesta seção entendem que há um filtro, ou um gargalo, que restringe o processamento de dois ou mais estímulos ao mesmo tempo, como uma ampulheta de areia, que só permite certa quantidade de areia passando pelo gargalo por vez. Vamos estudar a teoria do filtro, de Broadbent, a revisão dessa teoria por Moray, o modelo de atenuação, de Treisman, o modelo do filtro posterior, de J. A. Deutsch e D. Deutsch, e, por fim, a síntese das teorias do filtro, empreendida por Ulric Neisser. Lembre-se da palavra “processar”. Ela é o motivoprincipal de não pres- tarmos atenção profunda a duas situações ao mesmo tempo. Primeiramente, os estímulos nos chegam pelo sistema sensorial e, depois de encaminhados por uma via inicial de entrada das informações, precisam ser percebidos, isto é, interpretados, processados. Os principais modelos foram formulados entre as décadas de 1950 e 1970, sendo o primeiro deles o modelo de Broadbent, ou teoria do filtro, de 1958, que identificava um filtro no início do processamento dos estímulos. Dois ou mais estímulos sensoriais enviam suas informações físicas (cor, cheiro, tamanho, frequência, etc.), mas esses estímulos passam por um filtro logo após sua entrada no cérebro, havendo a seleção de um dos estímulos para ser enviado ao processamento. O estímulo excluído do processo, caso o Teorias da atenção4 indivíduo volte a dar atenção a ele, acaba ficando armazenado por um tempo; caso contrário, é excluído do sistema (EYSENCK; KEANE, 2017; LIMA, 2005; STERNBERG; STERNBERG, 2017). Imagine que você está com sua família ou seus amigos. Alguém está mos- trando a você um jogo no celular de que gostou muito e quer saber a sua opinião. Ao mesmo tempo, bem próximo dali, uma pessoa está contando uma fofoca para alguém. Você quer prestar atenção no jogo, mas não quer perder a fofoca. Entretanto, seu cérebro não consegue processar os dois estímulos ao mesmo tempo. Nessa situação, é bem provável que você selecione o estí- mulo da conversa enquanto fala algo genérico como “Aham” ou “Que legal!” para a pessoa que está mostrando o jogo. Tal situação demonstra o modelo de Broadbent. Duas informações acabam entrando em suas vias sensoriais: o jogo pela via visual, e a conversa pela via auditiva. Porém somente uma delas, de acordo com esse modelo, será levada à próxima etapa ao passar pelo filtro, a etapa de processamento e compreensão das informações que você está escutando. A fofoca parece geralmente nociva, não é mesmo? Porém pes- quisadores como Yuval Harari, autor do livro Sapiens: uma breve história da humanidade, acreditam que ela tenha um papel importante na evolução humana. Para saber mais sobre diferentes visões sobre a fofoca, leia o artigo “O DNA da fofoca”, do professor Mauro Gaglietti, publicado no blog Caos filosófico. Em 1959, Moray propôs uma revisão do modelo de Broadbent. De acordo com o pesquisador, há mensagens que são tão fortes que acabam forçando sua entrada no processamento. Por exemplo, na situação anterior, digamos que você escolheu prestar atenção na explicação do jogo, mesmo se inte- ressando pela fofoca, mas talvez pergunte sobre o que as outras pessoas estavam conversando. Você deixou de prestar atenção na conversa e está processando as informações do jogo, mas, em certo momento, seu nome é citado. Essa é uma mensagem muito poderosa e faz com que as informações do estímulo que estava apenas armazenado (a conversa) venha à tona e entre no processamento. Assim, você automaticamente muda sua atenção para a fofoca, pois seu nome foi citado. Para Moray, isso significa que “o filtro seletivo bloqueia a informação no nível sensorial, mas algumas mensagens muito destacadas são tão poderosas que também passam pelo mecanismo de filtragem” (STERNBERG; STERNBERG, 2017, p. 136). Teorias da atenção 5 Outro modelo que teve grande relevância foi o modelo da atenuação, de Treisman, de 1964. Para a pesquisadora, o filtro, ou gargalo, é mais flexível. Pode-se separar a entrada e o processamento das informações em três etapas: 1. reconhecimento das propriedades físicas do estímulo; 2. análise do estímulo para identificar um padrão e, se não há um padrão, a informação é excluída; 3. avaliação da informação e construção de um sentido. No nosso exemplo do jogo versus fofoca, de acordo com o modelo da atenuação, as informações das duas atividades são reconhecidas em suas propriedades físicas. Na sequência, há uma análise de padrão. Porém digamos que, nessa etapa, a fofoca estivesse sendo contada em uma língua que você não compreende. A fala não tem um padrão para você e, mesmo com curiosi- dade, esse estímulo não passa pelo filtro, pois não será possível interpretá-lo na terceira etapa. No entanto, todas essas etapas só acontecem se houver uma reserva atencional suficiente para processar as informações. Para entender melhor, digamos que a situação do exemplo esteja ocorrendo enquanto você dirige por uma rodovia muito movimentada e cheia de caminhões. É muito provável que sua atenção não tenha reserva alguma para poder processar qualquer um dos dois, jogo ou fofoca. Então, em resumo, para Treisman, o filtro não exclui um dos estímulos, apenas o atenua, diminui sua intensidade. Quando você escolhe prestar atenção à fofoca, mas continua tentando prestar atenção no jogo, os dois estímulos ainda estão concorrendo, e você provavelmente flutuará entre um ou outro a depender do momento, não excluindo completamente um dos estímulos (EYSENCK; KEANE, 2017; STERNBERG; STERNBERG, 2017). Entre as teorias que compreendem um gargalo para as informações, temos também o modelo do filtro posterior, de J. A. Deutsch e D. Deutsch, de 1963. Para esses pesquisadores, os estímulos são analisados por completo, mas o estímulo mais importante é que determinará a resposta do indivíduo, isto é, a ação que irá tomar. Assim, pode-se dizer que a seleção do estímulo mais importante é tardia, pois acontece mais próxima ao fim do processo. Caso a informação não gere uma percepção, ela será descartada (STERNBERG; STERNBERG, 2017). Veja na Figura 1 as teorias dos filtros para compreender melhor o fluxo das informações advindas dos estímulos sensoriais. Teorias da atenção6 Figura 1. Teorias sobre filtros atencionais. Fonte: Adaptada de Eysenck e Keane (2017). Como você pode ver pela imagem, todas as teorias têm um filtro. Na de Broadbent, ele está no início do processo, logo após a entrada da informação sensorial. Na de Treisman, o filtro age como atenuador (onde se lê “capacidade limitada”). Na de J. A. Deutsch e D. Deutsch, o filtro está no final do processo, na memória de curto prazo. A partir dos estudos citados aqui, outros estudiosos conduziram suas pesquisas sobre a atenção. Um deles foi Ulric Neisser, que, em 1967, realizou uma síntese das teorias do filtro, compreendendo que a atenção é coman- dada por dois tipos de processos: os atencionais e os pré-atencionais. Os pré-atencionais, ou automáticos, ocorrem no início ou no meio do processo para identificar as características sensoriais e físicas, ocorrendo em paralelo para cada estímulo. Já os atencionais, ou controlados, são realizados após o discernimento das informações sensoriais iniciais, necessitando de maior recurso de atenção e de tempo. Essa atenção se dá no processamento das informações, comparando características e ligando-se à memória de trabalho (STERNBERG; STERNBERG, 2017). Nesta seção, conhecemos os estudos de Broadbent, Treisman e J. A. Deutsch e D. Deutsch, que tentam explicar como acontece a seleção dos estímulos mais importantes para receberem a atenção. Esses estudos têm sido revisitados Teorias da atenção 7 ao longo do tempo, como na revisão de Moray. Além disso, vimos que Neisser sintetizou as teorias do filtro e propôs uma em que a atenção é dirigida por processos pré-atencionais e atencionais. São muitas as teorias, e todas ajudaram a identificar como selecionamos as informações mais importantes para prestarmos atenção. Até aqui, vimos que há processos que requerem uma atenção automática, que analisam infor- mações sensoriais e suas características e que podem selecionar estímulos por meio de filtros. Além disso, percebemos que estímulos mais complexos requerem um processo atencional controlado, que já se dá no processamento de informações, com a alocação dos recursos atencionais em tal atividade. Na sequência, vamos entender melhor algumas teorias que procuram explicar como ocorre essa alocação dos recursos, como a energia é dirigida para os processosde atenção quando há situações complexas que demandam a divisão de nosso foco atencional. Buscando recursos e semelhanças As teorias levantadas na seção anterior são agrupadas sobre a ideia de que há um filtro, seja inicial, seja tardio, para que as informações sensoriais passem para o processamento. No entanto, para os críticos, as teorias do filtro desconsideraram a plasticidade da atenção, ou seja, a capacidade que ela tem de ser flexível. Esse conjunto de teorias, portanto, consegue explicar os cenários em que são necessárias a atenção seletiva e a focalizada, mas não a dividida (SIMÕES, 2014). É nessa lacuna que se inserem as teorias entendidas como modulares, em oposição a um filtro ou gargalo único, pois elas acabam por explicar melhor as situações em que se requer que a atenção seja distribuída entre diferentes estímulos. As teorias modulares estudadas nesta seção são as teorias baseadas em recursos atencionais, a teoria da semelhança, de Duncan e Humphreys, e a teoria da busca guiada, de Cave e Wolfe. Diversos pesquisadores têm se afastado das ideias sobre filtros atencio- nais por perceberem que a localização do gargalo depende tanto do tipo de tarefa a ser realizada quanto do estímulo apresentado ao indivíduo. Algumas hipóteses se agrupam sob um guarda-chuva de teorias baseadas em recur- sos atencionais, que entendem que os recursos da atenção são limitados (STERNBERG; STERNBERG, 2017). Esses recursos são alocados em seleção de estímulos diferentes, como no exemplo que demos antes em que sua Teorias da atenção8 atenção ficou dividida entre a direção, a fofoca e o jogo. Como há um limite dos recursos da atenção, não há como realizar as três atividades ao mesmo tempo. Segundo Robert Sternberg e Karin Sternberg (2017, p. 140): As teorias dos filtros e gargalos da atenção parecem ser metáforas mais adequadas para tarefas concorrentes que possam ser incompatíveis em termos de atenção, como as de atenção seletiva ou de atenção simples dividida […]. Para esses ti- pos de tarefas, parece que alguns processos pré-atencionais podem ocorrer de forma simultânea, mas os processos que requerem atenção devem ser tratados sequencialmente, como se passassem um a um pelo gargalo da atenção. Contudo, a teoria dos recursos parece ser uma metáfora melhor para explicar os fenômenos da atenção dividida em tarefas complexas. […] Segundo essa metáfora, à medida que as tarefas complexas tornam-se mais automatizadas, o desempenho em cada uma delas exige menos dos recursos limitados da atenção. Tarefas mais simples podem ser facilmente explicadas pelas teorias dos filtros, pois necessitam muitas vezes de processos pré-atencionais. No en- tanto, as tarefas complexas exigem maior esforço da atenção, sendo mais bem explicadas pela alocação dos recursos atencionais. Quando temos estímulos concorrentes que pertencem a tipos sensoriais distintos, há maior facilidade na realização de duas tarefas, como ouvir música (tipo sensorial auditivo) e escrever (tipo sensorial visuomotor) (STERNBERG; STERNBERG, 2017). Há ainda a teoria da semelhança, de Duncan e Humphreys. Para eles, não há a inibição dos estímulos concorrentes, como sugeriu Treisman em sua teoria da integração das características, que vimos anteriormente. O que há é maior dificuldade de encontrar o estímulo-alvo, pois todas as características muito próximas acabam por concorrer com aquilo que estamos buscando. Voltemos ao exemplo dado antes sobre a caixa de canetas e outros materiais de escrita. Nesse caso, não vamos inibir cores iguais, ou materiais iguais. Essas caracte- rísticas próximas acabarão dificultando nossa busca pela caneta esferográfica azul. Então, para facilitar a busca, acabamos por unificar as características daqueles que são diferentes. Por exemplo, na nossa caixa caída, unificamos materiais e utilizamos essa unificação para excluir os estímulos concorrentes. Classificamos entre “cera”, “colorir”, “marcar”, “outros materiais”, entre outras possibilidades, diminuindo a busca pelo material “plástico transparente com cor azul dentro”. Segundo a teoria da semelhança, portanto: […] buscar estímulos-alvo em um fundo de fatores de distração relativamente uniforme (bastante semelhantes) é bem fácil, mas buscá-los em um fundo de fatores de distração altamente diversificados é muito difícil (STERNBERG; STER- NBERG, 2017, p. 130). Teorias da atenção 9 Finalmente, a teoria da busca guiada, de Cave e Wolfe, de 1990, descreve uma alternativa aos achados de Treisman e de Neisser. Todas as teorias entendem que há um estágio paralelo em que os estímulos são recebidos pelos sentidos e identificados em um plano mental (em suas pesquisas, geralmente a visão) e uma etapa serial que analisa cada estímulo repre- sentado nesse plano mental. Nas palavras de Robert Sternberg e Karin Sternberg (2017, p. 132): O modelo de busca guiada sugere que todas as buscas sejam por características ou buscas conjuntas, que compreendem duas etapas consecutivas. A primeira é uma etapa paralela, na qual o indivíduo, ao mesmo tempo, ativa uma repre- sentação mental de todos os alvos potenciais. A representação se baseia na ativação simultânea de cada uma das características do alvo. Em uma etapa serial posterior, o indivíduo avalia sequencialmente cada um dos elementos ativos, conforme o grau de ativação. Em seguida, escolhe os verdadeiros alvos a partir dos elementos ativados. Para Cave e Wolfe (1990), a busca guiada tem um primeiro estágio (paralelo) na identificação das diferenças do estímulo, e um segundo estágio (serial) nas operações complexas de uma parte limitada do estímulo. No segundo estágio, a busca pelo estímulo se torna mais rápida, porque o cérebro já discriminou as características do estímulo. Então, a busca é guiada pelo estágio paralelo, que forneceu ao cérebro todas as características dos estímulos, permitindo discriminar aquilo que queremos. O estágio paralelo é capaz de providenciar um guia para a busca por meio de informações retiradas dos vários elementos, identificando características mais próximas do estímulo que se quer encontrar. Essas informações não são sempre precisas e, por isso, não conseguimos identificar o alvo com tanta facilidade, mas elas possibilitam a busca guiada por características conjuntas no segundo estágio, facilitando o processo (CAVE; WOLFE, 1990; STERNBERG; STERNBERG, 2017). Retornando ao exemplo da caixa de canetas, na hipótese de Cave e Wolfe, inicialmente nossa visão recebe as informações das canetas: cores, tamanhos, formas, materiais, disposição no chão, proximidade com outras, defeitos, etc. Na sequência, as informações são encaminhadas para uma representação mental que analisa cada uma dessas características e seleciona as mais parecidas com a caneta que buscamos, formando uma base para que o pró- ximo estágio possa acontecer e buscar o alvo, isto é, a caneta esferográfica azul. No segundo estágio, de posse de todas as características separadas Teorias da atenção10 e categorizadas naquelas mais próximas do alvo, o foco vai se voltar para apenas uma parte desses aspectos dos materiais espalhados pelo chão. Assim, talvez sua atenção categorize as canetas por azul versus outras cores, facilitando e guiando a busca a partir de um par de características apenas, não de todas. Veja na Figura 2 como ocorre a busca guiada, de acordo com Cave e Wolfe (1990). Figura 2. Busca guiada. O estágio serial está sempre se alimentando dos mapas gerados pelo estágio paralelo para realizar suas buscas pelo estímulo-alvo, retornando a ele sempre que necessário. Tudo isso — recepção do estímulo, montagem do mapa e escolha do recorte a ser empregado para a busca — ocorre de forma muito rápida e inconsciente. Somente depois de esses processos pré- -atencionais ocorrerem é que nos daremos conta de que estamos prestando atenção na tarefa. Teorias da atenção 11 Embora as teorias modulares deem conta de explicar a divisão da atenção, também não deixaramde sofrer críticas. De acordo com outros pesquisadores, as teorias modulares acabaram sendo amplas demais, tornando-se vagas, sem dar conta de explicar os processos atencionais por completo (STERNBERG; STERNBERG, 2017). Até hoje, o estudo sobre atenção suscita muitos debates e pesquisas. Ao longo deste capítulo, estudamos teorias que tentam explicar, ao menos, como fazemos a seleção dos estímulos a que prestaremos atenção. Cada uma delas foi sendo remodelada e ressignificada por pesquisadores poste- riormente. Vimos que as teorias do filtro e as modulares podem ser comple- mentares, uma vez que descrevem processos distintos da atenção: seletiva, focalizada e dividida. Lembre-se de que não existe uma noção singular ou superior a outras; elas tentam dar sentido a partes do processo atencional. As teorias baseadas em recursos atencionais, a teoria da semelhança e a teoria da busca guiada objetivam compreender como a atenção dividida funciona e possibilita a seleção de estímulos-alvo. A primeira explica que a atenção tem recursos limitados de uso e só pode dar conta de certa quan- tidade de estímulos por vez. Já a segunda compreende que características muito próximas dos estímulos acabam por dificultar a busca. Por fim, a de Cave e Wolfe postula que se forma um mapa com todas as características dos objetos semelhantes, com agrupamento de características, facilitando a busca do estímulo-alvo na segunda etapa da busca guiada. Referências CAVE, K. R.; WOLFE, J. M. Modeling the role of parallel processing in visual search. Cognitive Psychology, v. 22, n. 2, p. 225-271, 1990. EYSENCK, M. W.; KEANE, M. T. Manual de psicologia cognitiva. 7. ed. Porto Alegre: Art- med, 2017. FICHMAN, H. C. Neuropsicologia clínica. Santana de Parnaíba: Manole, 2021. LIMA, R. F. Compreendendo os mecanismos atencionais. Ciências e Cognição, v. 6, n. 1, p. 113-122, 2005. SIMÕES, P. M. U. Análise de estudos sobre atenção publicados em periódicos brasileiros. Psicologia Escolar e Educacional, v. 18, n. 2, p. 321-330, 2014. STERNBERG, R. J.; STERNBERG, K. Psicologia cognitiva. São Paulo: Cengage Learning, 2017. Teorias da atenção12 Leituras recomendadas KANDEL, E.R. SCHWARTZ, J.; JESSEL, T.; SIEGELBAUM, S.; HUDSPETH, A. J. Princípio de neurociências. Porto Alegre: AMGH, 2014. DALGALARRONDO, P. A evolução do cérebro. Porto Alegre: Artmed, 2011. Teorias da atenção 13