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33 TERAPIA COMPORTAMENTAL DIALÉTICA Ricardo Wainer “Do rio que tudo arrasta., diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem * Bertolt Brecht INTRODUÇÃO O Transtorno Borderline de Personalidade (TBP), desde sua primeira definição, em 1938 (Stern, 1938), passando por sua apresentação formal no DSM-III (American Psychiatric Association [APA], 1980), até os numerosos e sistemáticos estudos das últimas décadas, tem sido uma psicopatologia de enigmática e difícil compreensão e tratamento. Os trabalhos desenvolvidos por Marsha Linehan, sobretudo a partir do início da década de 90 (Linehan, Armstrong, Suarez, Allmon, & Heard, 1991; Linehan & Heard, 1993; Linehan, Heard, & Armstrong, 1993), representaram uma revolução, tanto no entendimento teórico quanto na abordagem psicoterápica da população clínica que sofre deste transtorno. Linehan, ao criar a Terapia Comportamental Dialética (TCD), formulou o primeiro tratamento psicoterápico com robustas comprovações empíricas de eficácia para pacientes internados e em ambulatório (Barlow, 1999, 2009; Swenson, Sanderson, Dulit, & Linehan, 2001; Roth &: Fonagy, 2005; Brazier et al., 2006; McMain etaL, 2009). Estes resultados estavam circuns- critos inicialmente ao quadro do TBP. Nos últimos anos, porém, estudos estão mostrando a potencialidade desta abordagem psicoterápica para outras patologias, como abuso e dependência de substâncias (Harned et al., 2008) e para a redução de comportamentos violentos e antissociais (Evershed et al., 2003; Arciero, Gaetano, Maselli, & Gentili, 2004; Linehan, McDavid, Brown, Sayrs, & Gallop, 2008). Embora originalmente cunhada para lidar com os comportamentos suicidas e parassuicidas comuns aos pacientes borderlines, a TCD também se vem demonstrando como ferramenta útil ao tratamento de outros transtornos mentais que apresentem funcionamentos impulsivos ou autoinjurioso, sejam do eixo I ou do eixo II (Hunt, 2007; Linehan et al., 2006; Lynch &: Cheavens, 2008;). Neste capítulo apresenta-se a estrutura geral da terapia comportamental dialética no formato caracterís- tico em que é utilizada para o tratamento do transtorno borderline de personalidade. Portanto, apresentam-se, inicialmente, os aspectos característicos desta disfunção, permitindo, assim, a explicação do modelo teórico biossocial subjacente ao protocolo da TCD. Para ilustrar este texto, algumas vinhetas de casos reais1 de clientes com TBP serão apresentadas ao longo do capítulo. i Os dados de identificação dos casos foram modificados para impedir a identificação dos pacientes e, desta forma, preservar o sigilo profissional. 554 Ma n u a l Pr á t ic o d e Ter a pia Co g n it iv o -Co mpo r t a men t a l TRANSTORNO BORDERLINE DE PERSONALIDADE (TBD) O TBP é um modo de funcionamento altamente disfuncional da personalidade, caracterizado por desregulação e instabilidade cognitiva, emocional e comportamental expressas por altas taxas de impulsi- vidade, ansiedade, raiva, pensamento dicotômico e ideações e atos suicidas ou parassuicidas (Linehan & Dexter-Mazza, 2009; APA, 2002; Arntz, Bernstein, Oorschot, & Schobre, 2009). Segundo o DSM-IV-TR (APA, 2002), os critérios diagnósticos necessários para o TBP são pelo menos cinco dos seguintes: 1. Tentativas insistentes de evitar abandono real ou imaginário. 2. Instabilidade nos relacionamentos interpessoais, os quais são caracterizados pela alternância entre extremos de idealização e desvalorização. 3. Disfunções no senso de identidade pessoal, havendo ausência de uma identidade do self. 4. Impulsividade em pelo menos duas áreas potencialmente perigosas a si próprio. 5. Recorrência de comportamentos, gestos ou ameaças suicidas ou de automutilação. 6. Instabilidade afetiva constante devido à grande reatividade do humor. 7. Sentimentos crônicos de vazio. 8. Dificuldade no manejo da raiva, com incapacidade de controlar seus impulsos agressivos. 9. Ideação paranoide transitória relacionada a situações estressantes. A quantidade de critérios diagnósticos possíveis para o TBP é bastante grande como pode ser visto (nove no total). Considerando-se que se necessite de pelo menos cinco critérios destes nove para o diagnóstico, chega-se a um total superior a duzentas subapresentações possíveis do transtorno. Isto fez com que alguns dos principais pesquisadores da área postulassem que há um continuum, ou subtipos, no TBP (Linehan, 2010; Critchfield, Clarkin, Levy, & Kernberg, 2008; Lenzenweger, Clarkin, Yeomans, Kernberg, & Levy, 2008; Millon, Grossman, Millon, Meagher, & Ramnath, 2004). Basicamente, faz-se a distinção em três grupos fenotipicamente diferentes de pacientes borderlines: • os pacientes do grupo 1, caracterizados por baixos níveis de características antissociais, paranoides e agressivas; • os pacientes do grupo 2, caracterizados por elevadas características paranoides; e • os pacientes do grupo 3, possuidores de elevadas características antissociais e paranoides. Tal distinção, feita através de análises estatísticas de populações de pacientes internados e de ambula- tório, é bastante semelhante aos tipos de TBP postulados na teoria biossocial de Theodore Millon (Millon et al.y 2004), expressos na figura a seguir: Ter a pia c o mpo r t a men t a l d ia l é t ic a 555 Estas diferentes configurações de apresentação do transtorno são importantes de serem conhecidas para que se possam gerar intervenções psicoterápicas mais fundamentadas teoricamente e experimentalmente e, portanto, mais objetivas e precisas. Epidemiologia Um dado epidemiológico de considerável relevância no campo dos Transtornos de Personalidade (TP), no qual, evidentemente, o TBP está inserido, é que provavelmente não há outro campo na área da Saúde Mental em que tantos recursos sejam alocados para tratamento, sobre o qual tantos livros sejam escritos, sobre o qual tantos workshops sejam realizados, mas sobre o qual tão poucas pesquisas empíricas sejam con- duzidas para a validação dos constructos teóricos como é o caso dos TP (Arntz, 1999). Talvez, isto tenha relação com a ideia, muito divulgada entre os clínicos, de que é praticamente impossível (ou pelo menos muito difícil) tratar pacientes com TP, ou com transtornos do eixo I, quando há comorbidade com o eixo II (Linehan, 2010; Arntz, 1999; Beck, Freeman, & Davis, 2004; Beck & Pretzer, 2005). A prevalência de TP na população geral é muito pouco estudada sistematicamente, inclusive pela dificuldade em se adotar um conjunto de critérios diagnósticos unificado. Os estudos mais validados (Mag- navita, 2004; Lenzenweger & Clarkin, 2005) apontam taxas em diferentes populações que vão de 6,7% a 33,3% em populações gerais. Já a prevalência do TBP é estimada em 2% da população geral. Em pacientes ambulatoriais, têm-se taxas de aproximadamente 10% e, em pacientes internados, este valor sobe para índices superiores a 20%. Dos pacientes com diagnóstico de TP, os pacientes com TBP são, indiscutivelmente, a maioria, beirando 50% a 60% deles (APA, 2002; Magnavita, 2004). As taxas de mortalidade no TBP são elevadíssimas, motivo pelo qual há tantos pesquisadores interes- sados em tratamentos eficazes e que, assim, diminuam a perda humana vinculada a esta patologia (Krueger & Tackett, 2006). As taxas de tentativas de suicídio ou atos parassuicidas em pacientes com TBP oscilam entre 30% e 70%, sendo que o suicídio consumado ocorre em de 8% a 10% destes (APA, 2002; Linehan & Dexter- Mazza, 2009; Linehan, 2010; Meleiro, Teng, & Wang, 2004; McQuillan et al., 2005;). 556 Ma n u a l Pr á t ic o d e Ter a pia Co g n it iv o -Co mpo r t a men t a l Tais dados apontam a importância do investimento em formas mais eficazes e rápidas para o trata- mento do TBP, já que a gravidade é evidenciada tanto pelos dados epidemiológicos quanto pela percepção de qualquer terapeuta que já tenha tratado deste tipo de paciente (Rizvi & Linehan, 2001). Comorbidades O TBP, assim como a grande maioria dos transtornos de personalidade,raramente aparece sem estar associado a outros quadros comórbidos. Salienta-se, entretanto, que, enquanto que nos demais TP a queixa principal quando da procura de um profissional de saúde mental é relacionada aos sintomas de patologias comórbidas do eixo I, o paciente borderline busca atendimento por causa do enorme sofrimento inerente ao próprio TBP. Vários são os estudos que buscam identificar os principais quadros comórbidos ao TBP. Inclusive percebe-se constantemente uma tentativa de redução do TBP a uma subforma de apresentação de algum outro transtorno do eixo I. Isto pode ser observado em diversos artigos científicos das últimas duas décadas, em que se conjecturou que o TBP seria uma subapresentação do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) e, mais contemporaneamente, um dos diversos subtipos do extenso espectro do transtorno bipolar, mas uma análise mais meticulosa das apresentações do TBP e de suas comorbidades demonstrou que ele é uma psicopatologia distinta (Swenson &Torrey, 2002). O TBP é uma desordem caracterizada por desregulação afetiva intensa, instabilidade das relações interpessoais (principalmente as afetivas), impulsividade e instabilidade de identidade pessoal. Sua gênese só pode ser compreendida dentro de um enfoque de multideterminação, onde temos desde fatores genéticos, passando por défices ou falhas nas relações de apego, até chegar às distorções cognitivas (Hunt, 2007). Tais fatores etiológicos, também estão presentes em outros transtornos mentais (tanto do eixo I quanto do II) e, portanto, a comorbidade tende a ser a regra, e não a exceção. As comorbidades mais frequentes ao TBP são: • Os transtornos de ansiedade, sendo o TEPT a comorbidade mais frequente ao TBP; • Os transtornos alimentares; • Os transtornos de humor, com predomínio do transtorno depressivo maior, seguido pelo trans- torno bipolar; • Abuso e dependência de substâncias (Magnavita, 2004). A identificação dos quadros comórbidos ao TBP é considerada muito importante, inclusive por haver modelos específicos para o atendimento mais eficiente de pacientes com algumas destas comorbidades (Beck, 2005). Além disto, como o diagnóstico de TBP não é simples de ser feito, o histórico de ocorrência de algumas patologias comumente associadas ao transtorno podem facilitar o diagnóstico precoce do TP. Modelos explicativos Existem diversos modelos explicativos para a personalidade borderline. Desde conceitualizações que consideram o paciente borderline como não tendo uma personalidade formada, sendo uma anestrutura (visão da psicanálise francesa), até os modelos mais biológicos, que entendem o TBP como um transtorno do eixo I, causado sobretudo por desregulações da neurotransmissão. Ter a pia c o mpo r t a men t a l d ia l é t ic a 557 Desde os anos noventa, o TBP tem sido alvo de vasta investigação científica, sendo consideráveis os avanços no conhecimento da gênese, curso e prognóstico desta psicopatologia. Destaca-se ainda que os dados experimentais apontam para uma etiologia multifatorial do TBP. Como já dito anteriormente, as causas do TBP são de diversas ordens, podendo-se listar: • Suscetibilidade biológica', demonstraou-se que há predisposição para impulsividade e agressividade filogeneticamente herdadas, sendo que pesquisas genéticas e de neuroimagem demonstram a diminuição significativa no tamanho das estruturas cerebrais responsáveis pelo controle central da reatividade emocional (hipocampo e amígdala) em comparação com grupos controles (Nunes et ai, 2009). Outros dados também demonstram certas tendências de temperamento, como altos níveis de neuroticismo e de introversão, como sendo fatores de risco para o TBP, além da alta sensibilidade a estímulos emocionais (Crowell, Beauchaine, & Linehan, 2009). Ainda são iden- tificados padrões perceptivos, como a diminuição na sensitividade à dor em pacientes borderlines com história de automutilação (Ludascher et al., 2009). • Padrões de apego (attachment styles);, o medo sistemático do abandono, real ou imaginário, fez com que se consolidasse uma área de pesquisa que busca as associações entre os padrões de apego e o desenvolvimento do TBP (Bowlby, 2004). Os principais estudos expõem uma elevada correlação positiva entre um modelo misto de apego preocupado e ansioso com o TBP. Este tipo de apego aumenta de três a vinte vezes a chance do diagnóstico deste TP (Choi-Kain, Fitzmaurice, Zanarini, Laverdiere, & Gunderson, 2009). • Ambiente social: em termos de fatores ontogenéticos, ou seja, de influência do ambiente sobre a construção da personalidade borderline, os principais dados mostram que as crianças que apresentam as vulnerabilidades biológicas já citadas, quando expostas a ambientes e famílias estres- santes, acabam tendo as desregulações emocional, comportamental e cognitiva potencializadas. Estes ambientes são caracterizados por não suprirem as crianças e os adolescentes de suas neces- sidades fundamentais em cada etapa de um desenvolvimento sadio, como o senso de aceitação, competência, limites realistas e expressão emocional segura (Young, Klosko, & Weishaar, 2008). Ambientes abusivos (com destaque especial ao abuso sexual) e violentos são os mais correlacio- nados ao aparecimento do TBP, assim como ao aparecimento do transtorno de personalidade antissocial (Crowell et al., 2009). • Processamento cognitivo', os pacientes borderlines apresentam, como nenhuma outra classe de pacientes, maciça utilização do pensamento dicotômico em suas interpretações dos estímulos, tanto internos quanto externos. Num processo de retroalimentaçáo, as crenças disfuncionais típicas de inaceitabilidade, vulnerabilidade e impotência são reforçadas pela dicotomizaçáo, e vice-versa. Tudo isto leva a outra forte característica cognitiva do TBP que é o pensamento absolutista, o qual é fonte de grande “resistência” no tratamento dos pacientes borderlines. Os modelos explicativos que se mostram mais valiosos em termos de elaboração de tratamentos eficazes são os que abordam todas estas múltiplas variáveis na compreensão do transtorno. Neste sentido, pode-se dizer que os trabalhos mais relevantes e citados na atualidade são os vinculados à teoria biossocial — modelo integrativo de Millon (2004) e terapia comportamental dialética de Linehan - e a teoria dos esquemas (Young et al.y 2008). 558 Ma n u a l Pr á t ic o d e Ter a pia Co g n it iv o -Co mpo r t a men t a l A criatividade, bem como a compreensão dos défices dos pacientes borderlines, permitiu a Marsha Linehan formular um dos modelos explicativos mais significativos no entendimento do TBP. A originalidade do trabalho de Linehan encontra-se em adaptar a psicoterapia aos pacientes borderlines, e não o inverso. Para tanto, agrupou conhecimentos de diversos campos (budismo, filosofias orientais, dialética, psicologia comportamental e cognitiva), gerando uma interface altamente produtiva para a diminuição ou mesmo restabelecimento dos três grandes fatores considerados deficientes ou inadequados no paciente borderline: a regulação emocional, a persuasão dialética e os ambientes invalidantes (Linehan, 2010). Na persuasão dialética, o paciente borderline vê a realidade de uma única maneira, não admitindo a possibilidade de que existam outras explicações para uma mesma coisa - é o mundo do tudo ou nada. Esta questão dos défices na persuasão dialética é diretamente correlata ao erro de processamento informacional postulado por Beck como pensamento dicotômico. A desregulação emocional é descrita como a dificuldade do paciente na modulação e na expressão de suas emoções que frequentemente leva a problemas nos relacionamentos interpessoais, devido à limitação das pessoas em lidar com as emoções extremas manifestadas pela personalidade borderline. Finalmente, a etiologia deste transtorno, fortemente associada a estressores psicossociais na infância e adolescência, faz com que o paciente borderline conviva desde cedo com ambientes perigosos e ameaça-dores ou carentes de estabilidade e estrutura para suprir suas necessidades. A tendência por se manter, ou mesmo desejar, ambientes da mesma natureza mostra-se uma constante, sendo um dos principais fatores de reforço das crenças do paciente quanto a sua inaceitabilidade, vulnerabilidade e impotência para lidar com um ambiente tão aversivo. Por conseguinte, é nestes ambientes invalidantes que as condutas suicidas e parassuicidas tornam-se comuns. Na figura 33.2, vislumbra-se o modelo causai proposto por Linehan para o TBP. Ter a pia c o mpo r t a men t a l d ia l é t ic a 559 TRATAMENTOS A terapia comportamental dialética e a terapia dos esquemas são, na atualidade, os tratamentos de escolha inicial para oTBP (Brazier et al.> 2006; Davidson et ai, 2006; Roth & Fonagy, 2005). Antes de explicitar toda a estrutura da terapia comportamental dialética, vale a pena expor algumas considerações sobre o tratamento combinado. O tratamento combinado (psicoterapia e farmacoterapia) pode ser vantajoso para os transtornos de eixo II, a despeito da ineficácia dos fármacos em modificar padrões de personalidade. Os medicamentos, entretanto, têm um papel adjuvante significativo, na medida em que possibilitam um controle ou redução de alguns sintomas associados ao transtorno, como a impulsividade e a instabilidade de humor dos pacientes borderlines (Zanarini, 2009). Outro aspecto a salientar é a elevada predisposição dos pacientes com transtorno da personalidade para o desenvolvimento de transtornos de eixo I, cujo tratamento far- macológico atuaria como um facilitador para a abordagem psicoterápica dos sintomas de eixo II. Sendo assim, a avaliação psiquiátrica desses pacientes, visando à possibilidade de tratamento combinado, deve ser estimulada. Salienta-se, contudo, que em todas as revisões sistemáticas e metanálises já feitas não há resultados significativos do uso exclusivo de tratamento medicamentoso para o TBP (Wenzel, Chapman, Newman, Beck, & Brown, 2006; McMain et al.> 2009; Zanarini, 2009; Paris, 2009). TERAPIA COMPORTAMENTAL DIALÉTICA Hierarquicamente, os objetivos terapêuticos da terapia comportamental dialética são melhorar a per- suasão dialética, diminuindo o pensamento dicotômico, melhorar a regulação emocional, ou seja, ensinar ao paciente como lidar com suas emoções de uma maneira adequada, e promover modificações em seu ambiente, bem como quebrar o condicionamento de procura de contextos reforçadores de sua psicopato- logia, estimulando a busca por ambientes mais saudáveis. O tratamento proposto pela TCD inclui quatro itens fundamentais: 1 1) Auxiliar o paciente a desenvolver novas habilidades, principalmente, habilidades de enfrentamento (copingskills). Entre as habilidades a serem desenvolvidas pelo paciente, encontram-se a tolerância ao estresse e às dificuldades, a regulação na expressão das emoções e a assertividade interpessoal; 2) Vencer obstáculos motivacionais do paciente para que ele efetivamente utilize as novas habilidades. Por causa de todo o histórico de sofrimentos e de ambientes em que a expressão de emoções negativas tenha sido punida, há uma tendência de que os pacientes utilizem as mesmas estratégias de resolução de problemas que viriam aplicando até então, independentemente da possibilidade de novos resultados mais positivos; 3) Favorecer a generalização das aprendizagens ocorridas em terapia para os diversos contextos de sua vida fora do setting terapêutico. O que o paciente aprende na terapia não necessariamente se generaliza nos demais contextos. A proposta de telefonemas para o terapeuta entre as sessões busca esta generalização, fazendo o paciente perceber e “checar” com o terapeuta situações do cotidiano onde as novas habilidades podem ser utilizadas e de que maneira. O terapeuta, neste sentido, funciona como uma espécie de coach. 560 Ma n u a l Pr á t ic o d e Ter a pia Co g n it iv o -Co mpo r t a men t a l 4) Manter o terapeuta motivado e utilizando ao máximo suas habilidades no manejo de pacientes tão complexos e difíceis. Considerando-se que o paciente com TBP é extremamente sensível aos sinais de rejeição interpessoal e, paradoxalmente, provoca este tipo de reação por suas condutas usuais, é de crucial importância que o terapeuta realize supervisões sistemáticas quando atende este tipo de paciente, podendo o terapeuta ter auxílio no processo de automonitoramento de suas emoções e ativação esquemática. Os supervisores buscam que o terapeuta mantenha-se em postura Zen de observação e de não julgamento, tendo um equilíbrio ótimo entre aceitação e implementação de estratégias de mudança. As técnicas daTCD subdividem-se em grupos, conforme seus objetivos estratégicos. Têm-se assim os seguintes focos estratégicos (Magnavita, 2004; Linehan, 2010): • Resolução de problemas: primeiramente, uma análise comportamental das situações mais proble- máticas do paciente é levada a cabo, para que a díade terapêutica consiga identificar o contexto, o comportamento e as consequências que mantêm a disfuncionalidade, e a partir deste “diag- nóstico comportamental” utilizam-se então grupos de técnicaspara a reversão dos prejuízos e, principalmente, o ensino de novos modos de enfrentar os contextos de dificuldade. Os grupos de técnicas são: Treino de habilidades; Manejo de contingências ambientais, que estejam reforçando comportamentos patológicos do paciente; Exposição a situações que o paciente patologicamente esteja evitando; Modificação cognitiva de crenças, atitudes e pensamentos automáticos do paciente que estejam interferindo em sua competência pessoal. • Validação: é utilizada naTCD para equilibrar a resolução de problemas do paciente, simplesmente por meio da comunicação da díade terapêutica sobre se as habilidades utilizadas fazem sentido, são eficazes e válidas. Na validação, o terapeuta aceita ativamente o paciente como ele é, sem dar descontos, explicar pela patologia, trivializar, ou mesmo interpretar as resposta deste. • Dialéticas: a filosofia dialética influencia todo o tratamento na TCD. O princípio da dialética é levar o paciente a aceitar o seu jeito de ser e descobrir caminhos para mudar o que pode ser mudado. Pela revelação de opostos em si mesmo, vislumbra-se a possibilidade de um melhor equilíbrio pessoal. O terapeuta tenta levar o paciente a desconsiderar o pensamento dicotô- mico (“ou isto ou aquilo”) e passar a utilizar a relativização (“não só isto, mas aquilo também”). Algumas das principais técnicas da TCD encontram-se neste escopo estratégico, por exemplo: Uso do Paradoxo: o terapeuta apresenta o paradoxo, sem o explicar, e ressalta as contradições paradoxais. Os clientes não são considerados responsáveis por serem do jeito que são, mas são responsáveis pelo que se tornaram e o que podem vir a ser. Fazer dos limóes uma limonada', os problemas terapêuticos são vistos como oportunidades para o terapeuta ajudar o paciente a relativizar o dano de situações vividas. As dificuldades são transformadas em oportunidades para a prática das habilidades de enfrentamento apren- didas na terapia. Ter a pia c o mpo r t a men t a l d ia l é t ic a 561 Advogado do diabo: exagerar a parte negativa da situação apresentada pelo cliente, a fim de esti- mulá-lo a contra-argumentar, levando-o a ver os pontos desconsiderados em suas conclusões. Alongar-se: o terapeuta aumenta a carga emocional e suas consequências, para que o paciente perceba o absurdo da expressão emocional vivida por ele. É uma espécie de versão emocional do advogado do diabo. • Estilo Comunicacional (estilística): o comportamento dialético do terapeuta faz, estrategicamente, com que seu estilo comunicacional varie entre recíproco (aceitação) e irreverente (mudança). Estas técnicas no estilo de se comunicar com o paciente têm como objetivos permitir uma maior amplitude comunicacional por parte do paciente e, assim, diminuir sua sensibilidade a mudanças ambientais e levá-lo mais ainda rumo ao funcionamentodialético tão afetado nestes pacientes. • Manejo de caso: a fim de auxiliar os pacientes a lidarem com maior sucesso em seus contextos de relacionamento social e profissional, o terapeuta busca um equilíbrio entre as seguintes estratégias: Consultoria ao paciente, mostrando-lhe como agir nas mais diversas situações, através de treinos, role-playings etc. Intervenções ambientais, nas quais o terapeuta auxiliará o paciente em situações de vida em que este está desprotegido ou incapacitado. Através desta última intervenção, pode-se perceber o caráter altamente ativo do terapeuta na TCD e que não há uma postura distante ou impessoal, mas muito pelo contrário. A implementação de todos estes objetivos terapêuticos é organizada numa estrutura de três etapas terapêuticas, além de uma fase de pré-tratamento. A Tabela 33.1 sintetiza a sequência lógica da TCD. 562 Ma n u a l Pr á t ic o d e Ter a pia Co g n it iv o -Co mpo r t a men t a l PRÉ-TRATAMENTO (FASE DE COMPROMISSO) A fase de pré-tratamento pode levar de seis meses a um ano, uma vez que deve haver um consenso muito bem firmado entre terapeuta e paciente quanto aos objetivos da terapia. Este consenso só é obtido a partir de uma forte aliança terapêutica, que se vai dar pela convivência e pela diminuição das defesas paranoides por parte do paciente. A constituição de uma boa aliança terapêutica inclui uma grande disponibilidade do terapeuta em dar atenção e esperança às sistemáticas instabilidades do paciente. Um exemplo disso são as combinações que se fazem necessárias a respeito da frequência e do formato dos telefonemas para o terapeuta. Estes são parte crucial no início do tratamento, e o seu bom uso tende a fazer com que sua frequência tenda a diminuir com o passar dos primeiros meses. Percebe-se, pois, a necessidade de disponibilidade de tempo extra por parte do terapeuta para lidar com os clientes com TBP, seja para a atenção aos telefonemas, seja para consultas extras. Na determinação das metas do tratamento, um objetivo básico é o de que o paciente deve permanecer em terapia, controlando o comportamento suicida e parassuicida. Se esta meta não ficar suficientemente compreendida e claramente definida, o tratamento subsequente será comprometido. Io ESTÁGIO (FASE DE ESTABILIDADE, RELACIONAMENTO E SEGURANÇA) Neste estágio, busca-se reduzir os comportamentos que interferem na terapia (por exemplo, atrasos, faltas, comparecer drogado ou alcoolizado às sessões), ou seja, os sérios boicotes que são realizados no intuito de confirmar suas crenças de que os outros são malvados e não se importam com ele. A redução dos comportamentos que interferem na qualidade de vida, tais como adições e condutas promíscuas, também é focada neste momento, tornando o paciente mais adaptado ao seu entorno. Além disso, uma melhoria na qualidade de vida é um importante fator para a redução do sofrimento subjetivo frequentemente experienciado (sensações de vazio). O pensamento dicotômico é abordado através da dialética, fazendo com que o paciente considere outras possíveis relações causais para um mesmo fato. Esta tendência de dicotomização é trabalhada siste- maticamente ao longo de todos os estágios da terapia. Contudo, ao final deste primeiro estágio, espera-se que o paciente esteja utilizando as habilidades de pensar dialeticamente e, portanto, conseguindo suportar melhor o sofrimento e pensar em hipóteses alternativas para as ocorrências negativas de sua vida cotidiana. Ilustrando o atendimento neste primeiro estágio, apresenta-se o exemplo clínico de Ana, 33 anos, solteira, desempregada, diagnosticada com transtorno borderline de personalidade. A paciente, que havia mais de sete meses que estava em psicoterapia, sente intensa raiva de um atraso do terapeuta para iniciar uma sessão, tendo o pensamento de que o terapeuta teria sentimentos de preocupação mais intensos para com a paciente anterior e, portanto, estaria abandonando-a. Na sessão, percebendo o afeto raivoso da paciente, o terapeuta utiliza a persuasão dialética para auxiliá-la e listar outras possibilidades que poderiam estar associadas ao seu atraso. Na medida em que isto ocorre, surgem explicações mais racionais para o ocorrido, provocando uma mudança significativa nas suas emoções. Ter a pia c o mpo r t a men t a l d ia l é t ic a 563 2° ESTÁGIO (FASE DE EXPOSIÇÃO E PROCESSAMENTO EMOCIONAL DO PASSADO) Grande parte dos pacientes borderlines apresenta história de maus tratos na infância e adolescência, sendo o abuso sexual pontuado como o mais frequente e importante fator etiológico desta psicopatologia (Ogata, Silk, Goodrich, Lohr, & Western, 1989). Assim sendo, estes pacientes apresentam elevadas taxas de transtorno de estresse pós-traumático, que muitas vezes não é tratado, por ficar camuflado pelos sintomas de eixo II (Gunderson & Elliott, 1985). É justamente nestes sintomas que a segunda etapa do tratamento atua, sendo que se passa diretamente para a terceira fase do tratamento quando não se torna possível o acesso às vivências de maus-tratos. O trabalho nesta fase é realizado dentro dos protocolos típicos para o tratamento cognitivo-compor- tamental do TEPT. Ou seja, depois de o cliente conseguir dessensibilizar-se para as situações relacionadas ao trauma, busca-se que ele faça uma ressignificação de suas memórias a respeito deste, pela recuperação minuciosa da situação original do trauma (sempre se tendo o cuidado para não favorecer a formação de falsas memórias, o que tende a ocorrer se o terapeuta fizer questionamentos fechados e indutivos). Exemplificando o trabalho neste segundo estágio, pode-se citar o exemplo de Maria, 19 anos, solteira, estudante do Ensino Médio, diagnosticada com transtorno borderline da personalidade, dependência de substâncias e transtorno depressivo maior recorrente. Após cerca de um ano de remissão do uso de drogas, ideação e tentativas de suicídio, aceitou abordar suas experiências traumáticas anteriores. Os traumas envol- viam repetidos abusos sexuais por parte de um tio e de um primo, além de abusos físicos por parte da mãe e do padrasto. A técnica consistia na elaboração de relatos escritos pela paciente de cada uma das situações, com o máximo de detalhes, além de pensamentos e emoções que afloravam da revivência das memórias traumáticas. Verificou-se, durante o processo, que várias das interpretações da paciente sobre a sua partici- pação ou responsabilidade nos eventos eram passíveis de ressiginificaçáo, visto terem sido estruturadas sob um prisma infantil e não serem embasadas em evidências realistas. Ela se responsabilizava pelos traumas sofridos, mas sempre dizia “não” nas situações e não tinha força física para reagir às investidas. 3o ESTÁGIO (FASE DE SÍNTESE) A grande maioria dos pacientes submetidos à terapia comportamental dialética acaba por abandoná-la antes que se chegue ao terceiro e último estágio (Magnavita, 2004; Linehan, 2010). Um importante fator associado aos altos índices de desistência precoce consiste no fato de os pacientes sentirem uma grande melhora no momento em que a terapia encaminha-se para o seu final. Isto se deve a uma série de ganhos obtidos ao longo do processo, como o esbatimento dos sintomas mais proeminentes. Este terceiro e último estágio é caracterizado por uma busca de respeito pelo selfçov parte do paciente. Ele é auxiliado a rever sonhos e expectativas futuras até então deixados de lado em função de suas crenças acerca de sua impotência e incompetência. É notória a incapacidade da maioria dos pacientes com TBP em ter projetos de vida definidos, pois seu sentimento de vulnerabilidade perante a vida e os outros é de tal monta que suas perspectivas temporais são curtas ou curtíssimas. Um exemplo clínico de processo desta última etapa de tratamento é o caso de Ronaldo, 32 anos, solteiro, representante comercial. Após aproximadamente três anos de psicoterapia, encontrava-se estável no 564 Ma n u a l Pr á t ic o d e Ter a piaCo g n it iv o -Co mpo r t a men t a l seu relacionamento afetivo e na sua atividade profissional, pois pela primeira vez em sua carreira conseguia manter-se na mesma empresa por mais de um ano. Nas últimas sessões do tratamento, inicia um planeja- mento acerca de casamento e de constituir família. Também desenvolveu um plano para abrir um negócio próprio, algo que era considerado impensável no início do processo terapêutico, devido às suas crenças de incapacidade. Estas crenças eram embasadas em experiências de relacionamentos inconstantes, de ter tido um filho não planejado e de sucessivas demissões. CONSIDERAÇÕES FINAIS E DESENVOLVIMENTOS FUTUROS Finalizada a exposição da sequência lógica contida na TCD, pode-se identificar a complexidade da terapêutica, bem como a enorme quantidade de técnicas utilizadas para acessar o paciente em todos os processos e habilidades que necessitam ser aprimorados. A Figura 33.3 apresenta as principais técnicas da TCD, demonstrando o constante processo dialético que se faz presente no estilo de intervir. Em um momento, o terapeuta deve demonstrar firmeza e convicção, sendo mais confrontativo com o paciente; em outro momento, este mesmo terapeuta deve esboçar postura de flexibilidade empática a fim de o paciente não se sentir julgado ou menosprezado. A terapia comportamental dialética é um processo psicoterápico complexo e que se utiliza de inúmeras estratégias comportamentais, cognitivas e experienciais para acessar e modificar o funcionamento global dos clientes, como pode ser visto no diagrama da figura 33.4. Para isto, muitas vezes é paradoxal no seu modo de ação, embora para todas as suas intervenções tenha uma sólida base filosófica, teórica e empírica. Ter a pia c o mpo r t a men t a l d ia l é t ic a 565 Figura 33.4 - O Processo Dialético das Intervenções em TCD, adaptado de Linehan, 2010 Fluxograma da Terapia Comportamental Dialética Todas as grandes estratégias utilizadas para se atingir os objetivos terapêuticos propostos na TCD são explicitadas na Figura 33.4. Pode-se entender a elevada demanda que os terapeutas acabam por assumir ao tratar clientes com TBP, na medida em que o equilíbrio entre os componentes de cada uma das estratégias e do momento de aplicar cada uma das estratégias também é sutil e dinâmico.