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Giulia Grala ATM 29/1 Farmacogenética Introdução: ………………………..………………………………………………………………………………………………………… - Quando se estuda o efeito de um fármaco em indivíduos de uma mesma população, verifica-se que nem todos os indivíduos respondem da mesma maneira ao mesmo tratamento; - Existem diferenças que interferem na dose administrada ou, até mesmo, no impedimento de utilizar um tratamento específico; - Fatores que influenciam a ação do medicamento: ↳ Patogênese/Severidade; ↳ Idades, sexo e estado nutricional do paciente; ↳ Função do órgão-alvo; ↳ Função renal e hepática; ↳ Interações medicamentosas; ↳ Genética do paciente. - A farmacogenética investiga o impacto das variações genéticas no metabolismo e na resposta aos medicamentos, ou seja, é o estudo de como a variabilidade genética influencia na variação interindividual da resposta ao uso de fármacos; - É o ramo da Medicina Personalizada que, através da análise do DNA, é capaz de prever o risco de reações adversas e a probabilidade de eficácia durante o uso de um determinado medicamento → Para cada indivíduo. - O termo farmacogenética foi cunhado por Vogel (1959), em uma época em que a compreensão da estrutura e função dos genes ainda eram desconhecidos. Entretanto, já era observada antes por A. Garrod em 1931 quando ele estava estudando pacientes com alcaptonúria (diferenças na resposta ao medicamento); - Mais recentemente, com os avanços proporcionados pelo Projeto Genoma Humano, emergiu a Farmacogenômica, que se refere ao estudo concomitante das funções e interações de todos os genes distintos que influenciam na resposta aos medicamentos; - Farmacogenética: É o estudo da variabilidade na resposta à medicação devido a hereditariedade → Genes específicos; Giulia Grala ATM 29/1 - Farmacogenômica: Estuda o genoma - tentativa de identificar “novos” genes ou regiões genômicas que podem influenciar na resposta ao fármaco → Usado também como alvo para novos fármacos; - Os objetivos da farmacogenética é um atendimento personalizado, diminuindo os efeitos adversos (diminuir o máximo possível), aumentar a eficácia (aumentar o máximo possível) e otimizar os custos (com menor custo possível para o paciente ou instituição); Farmacocinética/Farmacodinâmica: …………………………………………………………………………………………… - A farmacocinética e farmacodinâmica possuem efeitos dos genes; - Transportadores: transporte dos fármacos nos tecidos (distribuição); - Metabolizadores: enzimas de metabolização (ativação de pró-fármacos, inativação e/ou conjugação do fármaco para eliminação); - Receptores: alvo para ação dos fármacos (ligação = efeito); - A farmacogenética/farmacogenômica se baseia na seleção do medicamento adequado (individual) para prevenir, reverter ou atenuar um processo patológico; - Para isso, é necessário: Atingir o órgão (sítio-alvo), concentração adequada e intervalo de tempo correto; - Exemplo: Impacto para os transtornos psiquiátricos. ↳ Alto custo: Custo global gerado pelos distúrbios mentais, relacionados com o tratamento, em 2010: US$ 2,5 trilhões. Estimativa em 2030: US$ 6 trilhões; ↳ Produtividade: Perda de qualidade de vida e de produtividade devido às diversas mudanças de medicação antes de atingir a remissão dos sintomas; ↳ O tratamento tradicional demonstra eficácia somente em um subgrupo específico. No restante, apresentam apenas uma resposta parcial, presença de efeitos adversos ou pouca/nenhuma resposta; ↳ Taxa de resposta inicial ao primeiro tratamento (tentativa e erro): 49,6% (estimativa para todos transtornos); Giulia Grala ATM 29/1 ↳ Não respondedores ao tratamento para depressão (1 ou + tratamentos) tem 15% de probabilidade de ideação suicida. Já os respondedores, apresentam 6%; ↳ Só 30% dos pacientes com depressão, transtorno bipolar e esquizofrenia mantêm a aderência ao tratamento e chegam à remissão completa; ↳ Estima-se que, em média, 25.000 pacientes vão à emergência nos EUA (por ano) devido a efeitos adversos causados por antidepressivos. - As reações do metabolismo dos fármacos são divididas em duas fases, I (Citocromo P450 e genes CYPs) e II (genes Glutadiona-S-transferase [GSTs], UDP-glucoronil transferase [UGTs], Sulfotransferase [SULTs], N-acetiltransferase [NATs] e Metiltransferase [MTs]); Citocromo P450 - CYPs: …………………………………………………………………………………………………………… - Mais importante grupo de enzimas de metabolização que apresenta variantes genéticas com relevância clínica; - Responsáveis pela metabolização (fase I) de fármacos, nutrientes, toxinas e outras substâncias; - São encontradas principalmente no nosso fígado, mas algumas estão no intestino delgado; - Há 57 genes identificados → 15 envolvidos no metabolismo de fármacos. Giulia Grala ATM 29/1 - Há variantes nos genes dos metabolizadores, pela diversidade de alelos na população, ou seja, há diferentes polimorfismos (SNPs, deleções, inserções e VNTRs); - Dependendo do alelo, pode gerar mudanças na funcionalidade da proteína (Aumento de função/Perda de função). - A mesma dose e diferentes efeitos → De acordo com a funcionalidade dos metabolizadores; - Exemplo: Clopidogrel. ↳ Antiplaquetário usado para prevenir eventos aterotrombóticos, como infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral e morte vascular, especialmente em pacientes com histórico desses eventos ou com doença arterial periférica. Giulia Grala ATM 29/1 - PharmVar: Parmacogene Variatio Consortium ↳ Catalogar as variações alélicas dos genes que influenciam o metabolismo, a disposição e a resposta aos medicamentos; ↳ Fornece um sistema unificado de designação (nomenclatura = Nº) para a comunidade farmacogenômica global; ↳ Indicar a funcionalidade de cada alelo; ↳ Assim, se consegue estimar a funcionalidade de cada metabolizador em um indivíduo pela composição alélica existente nos genes CYPs. Acetiladores: ………………………………………………………………………………………………………………………………… - O metabolismo de fase 2 de muitos fármacos envolve a N-acetilação; - Duas enzimas: NAT1 e NAT2 (nome dos genes); - NAT1 – Pouco polimórfica; - NAT2 – Diversidade de alelos com diferentes atividades enzimáticas; - Ex: Medicamento para tuberculose – isoniazida. ↳ Mesma dose, disponibilidade diferente do medicamento por mais tempo no organismo → Diferença na excreção; Glutationa S-transferases: ……………………………………………………………………………………………………..… - Família de enzimas que estão envolvidas na detoxificação de uma variedade de xenobióticos e carcinógenos; - Fazem a conjugação dessas substâncias para que sejam excretadas, eliminadas do organismo; - Muitos genes envolvidos → GSTM1 e GSTT1 os mais estudados; - A conjugação com glutationa neutraliza compostos reativos, como xenobióticos, que poderiam danificar proteínas, DNA ou membranas celulares; - Alguns fármacos, em altas doses, também são conjugados para neutralizar sua potencial toxicidade → Sua funcionalidade é protetora contra danos celulares que podem levar ao câncer. Na prática: ………………………………………………………………………………………………………………………………..… - A oncologia e a psiquiatria são as áreas médicas que mais concentram medicamentos com bulas já contendo informações farmacogenéticas para orientar a prescrição; - Oncologia: ↳ A farmacogenética na oncologia pode ser dividida em 2 áreas: Variantes germinativas e somáticas; Giulia Grala ATM 29/1 ↳ Variantes somáticas: Encontradas no processo neoplásico – nas células do tumor. Geralmente é o alvo terapêutico. Variantes usadas para selecionar o tratamento mais adequado; ↳ Variantes germinativas: Encontradas em todas as células do paciente. Normalmente associadas à farmacocinética dos medicamentos. Segue o mesmo raciocínio da metabolização de outros fármacos; ↳ Tratamento com anticorpos monoclonais: - Análise de perfil molecular do tumor; - Identificação de marcadores terapêuticos - quais proteínas estão em excesso, ativadas ou alteradas; - Escolha do anticorpomonoclonal - Específico para aquele grupo de células; - Os anticorpos monoclonais (mAb) podem combater as células cancerígenas de diferentes maneiras; - Pode ativar o sistema de defesa do corpo para destruir a célula do tumor; - Ou facilitar a "marcação" da célula tumoral para que ela seja engolida por células fagocíticas, num processo chamado opsonização; - Os anticorpos também podem agir diretamente sobre as células cancerígenas com sua ação direta; - Por exemplo, se o receptor das células tumorais estão recebendo sinal para crescimento, bloquear esse sinal, impedir que o receptor “funcione” através da ligação do anticorpo traz benefícios; - Também pode estimular diretamente sinais que levam a apoptose; - A escolha do tratamento monoclonal vai depender do tipo de câncer e do seu perfil genético; - Câncer de mama - HER2 positivo → Pertuzumab e Trastuzumab-DM1 (T-DM1): Atuam de forma complementar: ↳ Pertuzumab: impede que o HER2 forme pares com outros receptores e envie sinais de crescimento; ↳ T-DM1: bloqueia o sinal do HER2, ativa o sistema imune e reduz a presença do receptor na célula; - Psiquiatria: ↳ CPIC: Consórcio internacional de implementação de farmacogenética clínica → Grupo de especialistas que cria, faz a curadoria e disponibiliza de forma gratuita diretrizes com recomendações relacionadas à farmacogenética para a utilização na prática clínica; ↳ Antidepressivos Tricíclicos: - Amitriptilina: Para depressão, insônia e dor crônica - Ativo; - Nortriptilina - Metabólito ativo da amitriptilina; - Metabolizadores muito rápidos: Inativa mais rápido e menor efeito; Giulia Grala ATM 29/1 - Metabolizadores muito lentos: Inativa mais devagar – efeito potencialmente tóxico → Efeitos adversos; ↳ Antidepressivos inibidores seletivos da recaptação de serotonina: - Metabolizadores muito rápidos: Inativa mais rápido e menor efeito. - Metabolizadores muito lentos: Inativa mais devagar – efeito potencialmente tóxico → Efeitos adversos. ↳ Genes da Farmacodinâmica: - Genes candidatos: Genes que codificam proteínas receptoras ou transportadoras de neurotransmissores nos neurônios → Alvos dos tratamentos psiquiátricos; - Diversos resultados contraditórios: variantes nos genes do receptor de serotonina tipo 2A (HTR2A), transportador de norepinefrina (SLC6A2), proteína de ligação ao receptor de glicocorticoides 5 (FKBP5), receptor de dopamina tipo 2 (DRD2), e catecol-O-metiltransferase (COMT), entre outros; - As variantes genéticas associadas à farmacodinâmica parecem exercer efeitos discretos, que, isoladamente, podem não resultar em benefício clínico significativo. ↳ TDAH: - Proteína COMT: Atua na degradação das catecolaminas na fenda sináptica; - Ritalina/Metilfenidato: Inibe transportadores, aumentando catecolaminas na fenda sináptica → Aumenta sinal; - COMT faz o sentido inverso → Degrada as catecolaminas; - Se a COMT estiver mais ativa (dependendo dos alelos do gene COMT), poderia potencializar ou diminuir o efeito do fármaco; - Mas na literatura, os resultados são muito controversos; - Não há recomendação farmacogenética.