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🧸 Desnutrição em Pediatria Feito por Evelyn Autran Medicina 154 em 2025.1 Foram usadas como referências: a aula do Drª Mara Alves e a aula do MedCurso 2024. É um desequilíbrio entre a necessidade e a ingestão de nutrientes, resultando em déficits cumulativos de energia, proteína ou micronutrientes que podem afetar negativamente o crescimento, o desenvolvimento e outros resultados relevantes Para ser desnutrição, precisa ser um desequilíbrio negativo, ou seja, ter déficits, se não, é definido como magreza extrema apenas. 🧸 “Failure to thriveˮ FTT, em português geralmente traduzido como “falha no crescimentoˮ ou “incapacidade de prosperarˮ, é um termo clínico usado, principalmente em pediatria, para descrever uma criança cujo ganho de peso e crescimento são significativamente inferiores ao esperado para sua idade e sexo. Por que eu devo estudar desnutrição? O número estimado de crianças abaixo do peso é de 101 milhões (ou 16%. A desnutrição é subdividida entre subnutrição e supernutrição, o foco da aula de hoje será subnutrição. Essa condição se apresenta tanto pelo baixo peso/desnutrição aguda como pelo failure to thrive/ baixa estatura/desnutrição crônica. Além dessas formas, tem-se a deficiência de micronutrientes, baixo peso ao nascer e crescimento intrauterino restrito, as quais não serão abordadas durante a aula/resumo. Desnutrição em Pediatria 1 165 milhões de crianças com 5 anos de idade (ou 26% têm desnutrição crônica em 2011. 20 milhões de criancas com menos de 5 anos estão gravemente desnutridas (prevalência global de 2,9% Crianças com escore z de peso/altura menor que 3 DP tinham um risco 9 vezes maior de morte do que crianças com escore z de 1. Estima-se que contribua com aproximadamente 45% de todas as mortes infantis. Entre os que sobrevivem, é comum o comprometimento do desenvolvimento intelectual ou cognitivo e motor. Pode levar infecções, disfunção imunológica, má cicatrizaçao de feridas e permanência hospitalar prolongada Definições e Mecanismos Antropometria: São os parâmetros medidos: peso, altura, IMC, dobras cutâneas, circunferência braquial, etc. São comparados com referências padrão (curvas WHO MGRS ou CDC usando escores-Z. Mostram se a criança está abaixo, dentro ou acima do esperado para a idade. Etiologia e Cronicidade: A desnutrição pode ser: RELACIONADA À DOENÇA ILLNESS RELATED: Aguda: infecções, traumas, queimaduras. Esse infográfico representa uma forma moderna de entender a desnutrição pediátrica, destacando que ela não é causada apenas pela falta de comida, mas por vários fatores interligados, dependendo da etiologia (causa), cronicidade, mecanismos envolvidos e desfechos esperados. Desnutrição em Pediatria 2 Crônica: doenças crônicas como fibrose cística, câncer, doenças cardíacas ou pulmonares. NÃO RELACIONADA À DOENÇA NONILLNESS RELATED: Causas comportamentais, socioeconômicas ou ambientais, como pobreza, falta de acesso a alimento, negligência, distúrbios alimentares. Iatrogenia médica também entra nesse critério. Além disso, pode haver inflamação associada, que aumenta as demandas ou altera o metabolismo. Mecanismo: Mostra como a desnutrição ocorre: Ingestão inadequada STARVATION Fome real, anorexia, restrição alimentar, pobreza, intolerância alimentar. Má absorção MALABSORPTION Problemas no intestino, fígado, pâncreas. Perda de nutrientes NUTRIENT LOSS Perdas excessivas (diarreia, vômitos, fístulas). Hiper metabolismo HYPERMETABOLISM Aumento da demanda energética (infecção, trauma grave). Alteração na utilização de nutrientes Inflamação altera como o corpo usa proteínas, carboidratos, lipídios. Desequilíbrio de nutrientes: Quando a ingestão é menor que a necessidade, ocorre: Desequilíbrio de energia/proteína. Deficiências de micronutrientes. Isso resulta em desnutrição. Desfechos: A consequência da desnutrição é: Perda de massa magra Fraqueza muscular Déficits no desenvolvimento ou atraso Infecções frequentes Diminuição da imunidade Cicatrização mais lenta Prolongamento de internações Etiologia Principais causas da desnutrição primária: Pobreza Má nutrição das gestantes Doenças infecciosas Saneamento básico Água potável Alimentação complementar inadequada Desmame Desnutrição em Pediatria 3 RCIU Insegurança alimentar familiar Pobreza Essa desnutrição leva a uma atrofia vilositária, a um atapetamento dos enterócitos e a uma piora nas imunoglobulinas. Desnutrição prejudica crescimento e reparo de tecidos. Isso leva a baixa imunidade, deixando a criança vulnerável a infecções. Além das infecções visíveis (overt infection), há infecções subclínicas (sem sintomas claros) e inflamação intestinal crônica, que afetam a microbiota intestinal. Isso prejudica ainda mais a absorção de nutrientes, fechando o ciclo: menos nutrientes ➜ mais desnutrição FIGURA 1 Cortes histológicos de biópsias do duodeno distal de pacientes zambianos com EED. Obs. EED Enteropatia Ambiental Environmental Enteric Dysfunction) FIG. 1. A. Visão histórica do ciclo vicioso entre desnutrição e infecção. B. Nossa compreensão atual também envolve infecção subclínica, inflamação intestinal e alteração da microbiota intestinal. Jones et al. Childhood malnutrition: Toward an understanding of infections, inflammation, and antimicrobials. Food Nutr Bull. 2014 Desnutrição em Pediatria 4 O problema é intergeracional A criança desnutrida acaba sendo um adulto disfuncional com redução da capacidade cognitiva Desnutrição Secundária/ Relacionada à doença: Categoria Exemplos Diminuição da ingestão alimentar - restrição de líquidos - anorexia - tolerância à alimentação Aumento das necessidades - aumento do metabolismo - aumento do esforço respiratório - aumento do débito cardíaco Aumento das perdas de nutrientes - diarreia crônica - enteropatia perdedora de proteínas - queimaduras - proteinúria Falha em assimilar os nutrientes - má absorção (proteína como primeira opção de caloria, por isso, os pacientes perdem muita musculatura) - insuficiência pancreática - síndrome do intestino curto Desnutrição grave: Alterações metabólicas e hormonais Alterações imunológicas Alterações neurológicas Alterações gastrointestinais Alterações cardiovasculares e renais A inflamação altera todo o metabolismo Desnutrição em Pediatria 5 Consequências Fisiopatologia Delicado equilíbrio homeostático, limítrofe ao colapso endócrino-metabólico Não há calorias, logo, não há ATP. O sódio fica normal, mas há uma falsa hiponatremia, pois ele fica intracelular. O principal distúrbio eletrolítico é a hipocalemia. Mudanças intensas em múltiplos sistemas: endócrino, imune, nervoso central, gastrointestinal, cardiovascular e renal. Alterações secundárias no eixo da insulina Cortisol alto e insulina baixa Alterações na via tireoidiana Alterações nas bombas iônicas da membrana celular Alterações morfofuncionais do SNC Alterações gastrointestinais Formas Clínicas Marasmo Resultado de severas restrições na ingestão de energia, ou seja, da deficiência nutricional total. Mais comum em 1 ano (lembrando que o peso da criança ao fim do primeiro ano precisa triplicar, ou seja, demanda bastante energia) Perda de tecidos corporais, particularmente músculos e gordura subcutânea, provocando um emagrecimento acentuado, com hipotrofia e hipotonia, junto ao desaparecimento da bola de bichat (caracterizando uma face senil) Cadavéricas, fracas e letárgicas e apresentam bradicardia, hipotensão e hipotermia associadas Sua pele é xerótica, enrugada e frouxa devido à perda de gordura subcutânea kwashiorkor Resultado da ingestão de proteína inadequada, mas calórica razoavelmente normal O edema é a característica principal, sendo multifatorial: Desnutrição em Pediatria 6 A falta de albumina leva a um edema, devido à diminuição da pressão oncótica. Tem-se um aumento da permeabilidade vascular, devido ao processo inflamatóriosistêmico Instalação rápida: Edema, hepatomegalia, abdome destenddo apatia, hipoatividade, anorexia, dermatoses: flaky paint (descamação), cabelos apresentando discromias (sinal da bandeira) e quebradiços e peso quase normal para a idade; 🧸 O mecanismo de ação é decorrente da falta de proteínas, a qual está muito relacionada ao desmame em crianças em situação de vulnerabilidade paralelamente à introdução de leites em pó integral com farinha, por exemplo. “Doença do primeiro filho quando nasce o segundoˮ Mais comum a partir do segundo ano de vida Marasmo X Kwashiorkor A disbiose dessa síndrome leva a uma inflamação de mucosa intestinal, o que aumenta os índices de mortalidade. Desnutrição em Pediatria 7 Desnutrição relacionada a doenças: Como o caso dos renais crônicos e cardiopatas Na imagem ao lado, por exemplo, as crianças apresentam a mesma idade, mas crescimentos diferentes, devido ao menor ser renal crônico. Como diagnosticar a desnutrição? Baseado em medidas antropométricas: Qual é o padrão normal de crescimento? Comparar as medidas de cada indivíduo com as de seus pares Analisar a evolução Screening: Avaliação Nutricional Global Subjetiva Risco nutricional: Uma melhor definição de desnutrição deve incluir metas de identificação precoce de crianças em risco de desnutrição e o desenvolvimento de limiares para intervenção Criança de risco Condições sociais Condições de risco psicossociais Portadora de doença crônica Ingestão calórica Velocidade de crescimento Desnutrição em Pediatria 8 Peso/idade Acompanhamento do ganho de peso Não diferencia o comprometimento nutricional atual (ou agudo) dos pregressos (ou crônicos) Não diferencia as variações anatômicas IMC/idade Indicador para desnutrição aguda Pode: Superdiagnosticar em crianças altas Subdiagnosticar em crianças baixas Não reflete a composição corporal Estatura/idade Crescimento linear da criança Indicador de desnutrição crônica As causas não nutricionais devem ser descartadas Perímetro braquial Ferramenta independente em crianças de 6 a 59 meses de idade Útil em crianças com ascite ou edema 🧸 Por si só o PB dá o diagnóstico de desnutrição quando 12,5 cm para menores de 6 anos e, desnutridos graves 11,5 cm Desnutrição em Pediatria 9 Tabela 1. Indicadores Primários de Declaração de Consenso para Desnutrição Pediátrica Quando Apenas Um Ponto de Dados Está Disponível. Indicador Desnutrição Leve Desnutrição Moderada Desnutrição Grave Escore z peso-para-altura 1 até 1,9 escore z 2 até 2,9 escore z 3 escore z ou abaixo Escore z IMC-para-idade 1 até 1,9 escore z 2 até 2,9 escore z 3 escore z ou abaixo Escore z altura/comprimento-para-idade Sem dados Sem dados 3 escore z ou abaixo Circunferência do braço MUAC 1 até 1,9 escore z 2 até 2,9 escore z 3 escore z ou abaixo Nota: IMC Índice de Massa Corporal. Adaptado com permissão de Becker PJ, Carney LN, Corkins MR, et al. Declaração de consenso da Academy of Nutrition and dietetics/American Society for Parenteral and Enteral Nutrition: indicadores recomendados para identificação e documentação de desnutrição pediátrica (subnutrição). Nutrition in Clinical Practice 2015;301147161. Tabela 2. Indicadores Primários de Declaração de Consenso para Desnutrição Pediátrica Quando Há 2 Pontos de Dados Disponíveis. Indicador Desnutrição Leve Desnutrição Moderada Desnutrição Grave Velocidade de ganho de peso 2 anos de idade) 75% do “normalˮ para o ganho de peso esperado 50% do “normalˮ para o ganho de peso esperado 25% do “normalˮ para o ganho de peso esperado Perda de peso 220 anos de idade) 5% do peso corporal usual 7,5% do peso corporal usual 10% do peso corporal usual Desaceleração no escore z peso/altura/comprimento Queda de 1 escore z Queda de 2 escores z Queda de 3 escores z Ingestão inadequada de nutrientes 51%75% da necessidade estimada de energia/proteína 26%50% da necessidade estimada de energia/proteína 25% da necessidade estimada de energia/proteína Notas: Os dados de referência para ganho de peso e comprimento nos primeiros dois anos de vida são de Pediatrics Guo et al., 1991. Para pacientes 2 anos, as referências de crescimento são da OMS. Tabela 3 Classificação do estado nutricional de crianças e adolescentes Valores críticos Peso para idade 0 a 5 anos) Peso para estatura 0 a 5 anos) IMC para idade 0 a 5 anos) Estatura para idade 0 a 5 anos) IMC para idade 5 a 10 anos) Estatura para idade 5 a 10 anos) 1 e ≤ 2 Risco de sobrepeso Risco de sobrepeso Risco de sobrepeso — Risco de sobrepeso — percentil ≥ 97escore z > 2 — Sobrepeso Sobrepeso — Sobrepeso — Desnutrição Grave: Em crianças de 6 a 60 meses de idade o uso dos seguintes parâmetros: Desnutrição em Pediatria 10 Peso para Estaturaaos riscos de infecção. 🧸 A criança com desnutrição grave tem uma hiponatremia e uma hipocalemia, porém o sódio corporal está normal, pois este se encontra no compartimento intracelular, devido à disfunção da bomba de sódio-potássio. Hipoglicemia Tratar: Glicose oral/Intravenosa: letárgica, inconsciente ou com convulsões Hipotermia Tratar e prevenir: manter a criança aquecida (termogênese está prejudicada) Desidratação: Choque: oxigenoterapia, fluidos intravenosos RLSG5% ou SFSG5% e glicose e antibióticos de amplo espectro. Desidratação: ReSoMal 5 mL/kg VO ou SNG a cada 30 min nas primeiras 2 h, depois em 510 mL/kg/ h em horas alternadas por até 10 h); A preferência da via é sempre a oral, menos quando a criança está em estado de choque. Isso ocorre devido à insuficiência miocárdica. ReSoMal Solução de Recomposição do Mal nutrido Trata infecção Sem complicações: amoxicilina VO por 5 dias; Se com aparência doente ou apresentar complicaçoes ampicilina + gentamicina por 7 dias; Se nao ha melhora em 48 h ou piora após 24 h: ceftriaxona e gentamicina Não iniciamos a reposição de ferro, pois é substrato para bactérias gram-negativas 🧸 Nessa fase, estamos preocupados em fazer com que a criança não morra e não fazer a estabilização nutricional, por incrível que pareça. Desnutrição em Pediatria 13 Reabilitação: A via de prioridade é oral Objetivo: Recuperação nutricional Dieta Hiperproteica Hipercalórica Reposição de ferro Preparação para a alta Acompanhamento Prevenção 1.000 dias Antes da concepção Pré natal adequado Puericultura Identificação das crianças de risco Identificação precoce da desnutrição Manejo adequado e individualizado Desnutrição em Pediatria 14