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TECNOLOGIA DE ALIMENTOS AULA 4 Profª Suelen Ávila 2 CONVERSA INICIAL Para o processamento de alimentos existem aspectos bioquímicos e microbiológicos específicos que precisam ser verificados para a possível ampliação da vida útil dos alimentos (conservação) e o abastecimento (transformação dos alimentos). Nesta etapa, descreveremos os tratamentos aplicados para conservação e/ou transformação dos alimentos de origem animal. Abordaremos o estudo do leite e dos produtos lácteos. Veremos as características gerais e sensoriais da carne, sua tecnologia e a de seus produtos derivados. Estudaremos o pescado e os produtos derivados da pesca, o ovo e os seus produtos. TEMA 1 – TECNOLOGIA DE ALIMENTOS DE ORIGEM ANIMAL Os alimentos de origem animal são fontes básicas de proteína para o homem, em função do seu alto valor biológico e incluem leite (de vacas, cabras e ovelhas), carne de monogástricos (suínos e aves), ruminantes (bovinos, ovinos), peixes de criação, ovos de galinhas e mel. 1.1 Leite Segundo a Instrução Normativa n. 51 (2002), “entende-se por leite, sem outra especificação, o produto oriundo da ordenha completa e ininterrupta, em condições de higiene, de vacas sadias, bem alimentadas e descansadas. O leite de outros animais deve denominar-se segundo a espécie de que proceda” (Brasil, 2002). De acordo com Ordonez et al. (2005): Do ponto de vista biológico, o leite é o produto da secreção da glândula mamária de fêmeas mamíferas, cuja função natural é a alimentação dos recém-nascidos. Do ponto de vista físico-químico, o leite é uma mistura homogênea com grande número de substâncias (lactose, glicerídeos, proteínas, sais, vitaminas, minerais, enzimas, etc.), das quais algumas estão em emulsão (a gordura e as substâncias associadas), algumas em suspensão (as caseínas ligadas a sais minerais) e outras em solução (lactose, vitaminas hidrossolúveis, proteínas do soro, sais, etc.). Considerando a mistura de substâncias que compõe o leite, a gordura é o componente que mais varia, entre 3,2 a 6%. A gordura do leite ocorre como glóbulos de pequenos diâmetros suspensos em água e é composta por uma 3 mistura de triglicerídeos formados pela ligação de glicerol e ácidos graxos, que conferem propriedades físicas e organolépticas importantes para alguns produtos lácteos, como manteigas e sorvetes (Ordonez et al., 2005). As proteínas do leite de vaca de elevada qualidade e quantidade significativa são constituídas por 20% de proteínas do soro (α-lactoalbumina, β- lactoglobulina, albumina de soro bovino e imunoglobinas) e 80% de caseína (α1, α2-, β- e κ-). A caseína é comumente utilizada na fabricação de produtos lácteos, como queijos e iogurtes e pode ser obtida por acidificação (precipitação no pH isoelétrico da caseína, são insolúveis a pH 4,6) ou por coagulação enzimática (Ordonez et al., 2005). A lactose é o principal carboidrato e mais constante em proporção (45 e 50 g/litro) encontrado no leite. É um dissacarídeo formado pela união das moléculas de glicose e galactose por uma ligação β-1,4-glicosídica. Além de seu sabor doce ser mascarado no leite pelas caseínas, seu poder dulcificante é seis vezes menor que o da sacarose. Ela apresenta menor solubilidade em água que os outros açúcares, mostrando uma tendência à formação de cristais durante o resfriamento, propriedade que pode conferir uma textura arenosa em determinados produtos lácteos como no caso de doces de leite, sorvetes e leite condensado. A lactose pode ser obtida a partir de sua cristalização ou do soro de leite de vaca como subproduto da indústria de manteiga e queijo (Ordonez et al., 2005). Para diminuir a cristalização da lactose em produtos lácteos industrialmente (sorvetes e leites concentrados), realiza-se a hidrolise enzimática da lactose. É um método que viabiliza a fabricação de produtos para consumidores intolerantes à lactose e que possibilita a melhora de qualidades sensoriais e tecnológicas da lactose em produtos lácteos aumentando o seu poder adoçante, aumentando a solubilidade, diminuindo a higroscopicidade (produtos lácteos desidratados) e reduzindo o período de fermentação (queijo). A lactose é hidrolisada principalmente pela enzima beta-galactosidase ou lactase, que catalisam a quebra da ligação β-1,4 liberando seus monômeros glicose e galactose (Ordonez et al., 2005). 1.2 Características gerais e microbiologia do leite O leite é uma fonte de nutrientes e possui elevada atividade de água, constituindo um meio de cultura ideal para o desenvolvimento de vários 4 microrganismos. Alguns microrganismos que ocorrem no leite trazem benefícios ao homem, protegendo contra microrganismos patogênicos ou beneficiando a produção de derivados lácteos. Como exemplo, temos os probióticos e as bactérias lácteas. Entretanto, alguns microrganismos tornam o leite impróprio para o consumo humano, como é o caso das bactérias psicotrópicas e esporuladas e os microrganismos patogênicos que tornam o produto prejudicial à saúde. Para obtenção de leite cru de alta qualidade microbiológica, em toda etapa produtiva do leite e dos derivados lácteos devem ser adotadas ações de higiene, limpeza e controle da temperatura (próxima a 4°C) criando um meio desfavorável à sua deterioração (Bobbio; Bobbio, 2001; Ordonez et al., 2005). 1.3 Leites de consumo Em nossas refeições diárias, o leite aparece de várias maneiras. Na Tabela 1 são descritas as características dos leites disponíveis no mercado. Existem os leites que têm um prazo curto para o consumo e devem ser mantidos de três a seis dias sob refrigeração (4°C): • leite cru; • leite pasteurizado; • leite concentrado pasteurizado. E temos os leites que foram submetidos a processos térmicos para manter sua qualidade microbiológica e possibilitar o armazenamento em temperatura ambiente por um prazo maior, de meses: • leite esterilizado (HTST – alta temperatura curto tempo, LHT – tempo longo alta temperatura, UHT – temperatura ultra alta); • leite evaporado (leite em pó); • leite parcialmente evaporado e adicionado se sacarose (leite condensado) (Ordonez et al., 2005). A pasteurização não produz alterações significativas na proteína e nos lipídios do leite, enquanto a esterilização produz alterações que podem resultar na formação de gás sulfeto de hidrogênio e na diminuição do teor de lisina (aminoácido essencial). No caso dos leites concentrados, há um aumento da reação de Maillard e para o produto que foi adicionada a sacarose haverá mais possibilidade de caramelização. Nos leites concentrados pela evaporação da água e armazenados a temperaturas baixas, podem ocorrer a cristalização 5 parcial da lactose e sua precipitação; no leite em pó, o baixo teor de água favorece a rancidez oxidativa (Bobbio; Bobbio, 2001). Tabela 1 – Descrição dos leites de consumo Leites Processo Objetivo Características Pasteurizado HTST - 72 a 78°C, 15s) ou LHT (62 a 65°C, 30min) Destruição dos microrganismos patogênicos e provocam destruição importante da flora banal Propriedades sensoriais são quase idênticas às do leite cru Esterilizado e UHT Esterilizado- 120°C por aproximadame nte 20 minutos ou UHT – 140°C por 2 a 4 segundos Destruição dos microrganismos mais termorresistentes (os esporulados) para conseguir um produto microbiologicamente estável que possa ser armazenado em temperatura ambiente Provoca modificações sensíveis da qualidade sensorial e nutritiva Concentrado Evaporadores com pressões inferiores à atmosférica para que o ponto de ebulição do leite (pasteurizado e esterilizado) seja inferior a 100°C Prolongar a vida útil; reduzir custos de armazenamento, comercialização e transporte; matéria- prima para sorvetes, doces e outros alimentos. A quantidade de água eliminadanão chega a reduzir a atividade de água o suficiente para obter a estabilidade microbiológica. Microbiologia e conservação idênticas às dos leites pasteurizado e esterilizado Condensado Adição de sacarose (em torno de 41%) Diminuição da atividade de água a valores incompatíveis com o desenvolvimento de quase todos os microrganismos Produto considerado microbiologicamente estável. É necessário controlar a cristalização da lactose mediante semeadura de cristais desse dissacarídeo para evitar a consistência arenosa que se produz em caso de não ser feito esse procedimento durante o processamento Fonte: Bobbio; Bobbio, 2001; Ordonez et al., 2005). Outra classificação dos tipos de leites varia conforme a quantidade de gordura disponível: • integral tem no mínimo 3% de gordura; • semidesnatado tem entre 0,6% e 2,9% de gordura; 6 • desnatado tem no máximo 0,5% de gordura (Brasil, 2018). O mercado ainda dispõe de leites adicionados de inóculo que promovem a sua fermentação modificando suas características sensoriais. Os leites fermentados se classificam de acordo com os microrganismos responsáveis por sua fermentação. Podem ser leites fermentados por leveduras, bactérias lácticas, mofos, lácticas mesófilas e termófilas e produtos lácteos probióticos (Ordonez et al., 2005). TEMA 2 – DERIVADOS LÁCTEOS Muito importantes para nossa saúde e presente na alimentação diária da população, denominados também de laticínios, os derivados lácteos são produtos que contêm leite fermentado ou não como principal ingrediente da sua composição. Como veremos a seguir, o leite após o processo de fermentação por microrganismos nos fornece derivados lácteos como queijo, iogurte e probióticos e o leite após processos tecnológicos, como o desnate, possibilita a obtenção de derivados lácteos como a nata, manteiga e sorvetes. 2.1 Queijos De acordo com a portaria n. 146 de 1996, temos como definição de queijo: Produto fresco ou maturado que se obtém por separação parcial do soro do leite ou leite reconstituído (integral, parcial ou totalmente desnatado), ou de soros lácteos, coagulados pela ação física do calho, de enzimas especificas, de bactéria específica, de ácido orgânicos, isolados ou combinados, todos de qualidade apta para uso alimentar, com ou sem agregação de substâncias alimentícias e/ou especiarias e/ou condimentos, aditivos especificamente indicados, substâncias aromatizantes e matérias corantes. Entende-se por queijo fresco o que está pronto para consumo logo após sua fabricação. Entende-se por queijo maturado o que sofreu as trocas bioquímicas e físicas necessárias e características da variedade do queijo. (Brasil, 1996). A coalhada se forma com a adição de coalho ou enzimas coagulantes e/ou pelo ácido láctico produzido pela atividade de determinados microrganismos presentes normalmente no leite ou adicionados intencionalmente (Ordonez et al., 2005). A fabricação do queijo compreende diversas etapas descritas na Figura 1. 7 Figura 1 – Processo geral de elaboração de queijo Crédito: Shutterstock; christian gufler/Adobe Stock; christian gufler/Adobe Stock. 2.2 Nata, manteiga e outros derivados lácteos A nata é elaborada a partir do creme de leite e a manteiga é produzida a partir da nata. A nata é considerada como leite enriquecido em gordura (12 a 60%) e a manteiga possui no mínimo 80% de gordura. A nata é obtida em desnatadeiras centrífugas cujo interior dispõe de pratos sobre os quais depositam-se os glóbulos de gordura que deslizam até o eixo central; a nata e o leite desnatado são escolhidos por cada um dos condutos localizados na parte superior da desnatadeira, incorporando, se necessário, leite desnatado (Ordonez et al., 2005). Temos uma Instrução Normativa n. 23 de 2012 que define a nata como: Produto lácteo relativamente rico em gordura retirada do leite, que apresenta a forma de uma emulsão de gordura em água, homogeneizado ou não, e submetido a processo de pasteurização, mediante tratamento térmico e procedimentos tecnologicamente adequados, suficientes para destruir todos os microrganismos patogênicos. (Brasil, 2012). A Portaria n. 146 de 1996 define manteiga como: Produto gorduroso obtido exclusivamente pela bateção e malaxagem, com ou sem modificação biológica de creme pasteurizado derivado exclusivamente do leite de vaca, por promessa tecnologicamente adequados. A matéria gorda da manteiga deverá estar composta exclusivamente de gordura láctea. (Brasil, 1996). 8 As sobremesas lácteas são elaboradas com leite e misturas de ingredientes e aditivos, entre os quais destacam-se extratos de frutas e agentes espessantes e estabilizantes que lhes conferem textura característica. As batidas são elaboradas basicamente com os mesmos ingredientes, embora a quantidade de leite seja maior, apresentando consistência líquida. Além disso, uma sobremesa láctea que tem sido consumida há muitos anos é o sorvete. Este apresenta quantidades de gordura e/ou proteína total ou parcial de derivados do leite, que são misturados e batidos com outros ingredientes alimentares e em seguida a mistura é levada ao resfriamento até seu congelamento (Ordonez et al., 2005). TEMA 3 – CARNE E PRODUTOS CÁRNEOS As carnes mais consumidas são as bovinas, suínas e avícolas. Suas trajetórias compreendem três momentos distintos: produção, industrialização e comercialização. A industrialização consiste na transformação das carnes em produtos cárneos, utilizando os processos de curar, cozinhar, secar, defumar e fermentar para conferir estabilidade microbiológica e de vida de prateleira, além de melhorar a palatabilidade e proporcionar o aproveitamento de carnes menos nobres (Prache et al., 2022; Terra, 1998). 3.1 Características gerais A carne possui característica organolépticas excepcionais que, associadas ao seu valor nutritivo, convertem-na em um dos alimentos de origem animal mais valorizado pelo consumidor. É um alimento altamente proteico (15 a 25%), composto também por água (65 a 80%, que é seu componente principal) e gordura (cujo conteúdo é muito variável 93 a 13%). Existem, ainda, pequenas quantidades de outras substâncias, como as nitrogenadas não proteicas (aminoácidos livres, peptídeos, nucleotídeos e creatina), carboidratos, ácido láctico, vitaminas e minerais. As proteínas da carne podem ser divididas em sarcoplasmáticas (mioglobina e enzimas) miofibrilares (actina, miosina, tropomiosina, troponina, actinas, titina, nebulina e outras em menor quantidade) e proteínas insolúveis do estroma (colágeno, elastina e reticulina) (Bobbio; Bobbio, 2001; Ordonez et al., 2005). 9 A carne contém, em proporções muito pequenas, uma serie de componentes minoritários, como aminoácidos livres, peptídeos, creatina, creatinina, vitaminas e nucleotídeos. Alguns (p.e., os nucleotídeos) degradam- se nos processos post-mortem (modificações bioquímicas e estruturais, que ocorrem após o sacrifício e é denominada de “transformação do músculo em carne”), contribuindo para as características finais da carne, enquanto outros (como os açucares residuais e aminoácidos) são o substrato inicial dos microrganismos presentes que, ao proliferar-se, serão os responsáveis pela alteração da carne (Ordonez et al., 2005). Após a morte do animal, a circulação sanguínea cessa e ocorrem alguns processos bioquímicos: perda do suprimento de oxigênio, decréscimo do pH, degradação do glicogênio (é transformado em ácido pirúvico e este é convertido em ácido lático) e do ATP (adenosina trifosfato) e o aparecimento do rigor mortis. Do ponto de vista físico, ocorre, primeiro, a rigidez cadavérica, devido à formação do complexo actomiosina e depois, a resolução do rigor mortis devido à atuação de enzimas endógenas. Os principais processos post-mortem anômalos do músculo resultam em carnes PSE – pálidas,mole e exsudativas, e DFD – escuras, firmes e secas (Ordonez et al., 2005).O processo, do qual resulta o “rigor mortis”, se dá da seguinte forma: no animal abatido, cessa a circulação sanguínea e, com isso, cessa o transporte de oxigênio e retirada dos produtos do metabolismo celular. Entretanto, os sistemas enzimáticos ainda continuarão ativos por algum tempo. Assim, a glicólise continua, porém, em lugar da transformação aeróbica do glicogênio em CO2 e H2O, a transformação é agora predominantemente anaeróbica, formando-se ácido lático. A formação de ácido lático produz abaixamento do pH (7,5 a 5,1) e a actina e miosina se unem formando a actomiosina com contração dos músculos estriados, o que corresponde ao “rigor mortis” e, consequentemente, a um alto grau de enrijecimento. O abaixamento do pH próximo do ponto isoelétrico reduz a capacidade de hidratação da actina e miosina, e a falta de oxigenação provoca alterações na cor da carne que se torna escura (Bobbio; Bobbio, 2001). A carne contém um pigmento, a mioglobina, cujas propriedades espectrais influem na sua cor. Dependendo do estado químico do ferro da mioglobina, distinguem-se três formas básicas do pigmento: mioglobina que proporciona à carne cor vermelho-púrpura (pouco apreciada pelo consumidor) a mioglobina oxigenada ou oximioglobina, que confere à carne cor vermelho- 10 brilhante (a preferida pelo consumidor) e mioglobina oxidada ou metamioglobina que dá à carne a cor parda (recusada pelo consumidor). Entre as três formas, estabelecem-se interações que permitem converter-se uma em outras até que, com o tempo, a mioglobina se oxida irreversivelmente (Ordonez et al., 2005). O aquecimento da carne resulta em escurecimento pela reação de Maillard e pelas transformações da mioglobina (Bobbio; Bobbio, 2001). A dureza da carne está ligada a múltiplos fatores, tanto independentes do sacrifício (idade, porção anatômica da carcaça), como decorrentes do fenômenos post-mortem (glicólise post-mortem e desenvolvimento do rigor mortis – músculo fica rígido), e à forma do processamento e à preparação culinária. Muitos procedimentos foram utilizados para reduzir a dureza da carne; entre eles, cabe mencionar os métodos mecânicos (aplicação de pressão), enzimáticos (enzimas proteolíticas) e químicos (aumentando a forca iônica do meio, a aplicação de elevadas pressões (superiores a 1Mpa) e ao estímulo elétrico das carcaças (Ordonez et al., 2005). O sabor e o aroma da carne se devem tanto a compostos não voláteis como voláteis. As características sensoriais finais de um produto cárneo dependem do tipo e da proporção de precursores presentes na matéria-prima, dos ingredientes que se acrescentam na elaboração e da forma como o processamento ou cozimento (temperatura e grau de umidade) afeta os componentes da carne (Ordonez et al., 2005). A alta perecibilidade da carne e dos seus derivados exige uma manipulação extremamente higiênica, buscando manter uma contaminação microbiana baixa e com ausência de patogênicos. A carne fresca é um alimento altamente perecível e industrialmente é sempre submetida à refrigeração até chegar ao consumidor ou à indústria transformadora (Ordonez et al., 2005; Terra, 1998). 3.2 Produtos cárneos Os produtos à base de carne são elaborados total ou parcialmente de carne fresca, miúdos ou gorduras, e partes comestíveis das diferentes espécies de animais de açougue, podendo ser acrescidos de adição de condimentos e temperos e submetidos a processos físico, químico ou biológico ou à combinação desses métodos (Ordonez et al., 2005). 11 Os produtos cárneos podem ser divididos em cinco grupos: frescos, crus temperados, tratados pelo calor, embutido crus curados e produtos cárneos salgados, conforme elucidado na Figura 2. Figura 2 – Classificação dos produtos cárneos Crédito: Ordonez et al., 2005. / Goskova Tatiana / Shutterstock. https://www.shutterstock.com/pt/g/Goskova+Tatiana 12 TEMA 4 – PESCADO E PRODUTOS DERIVADOS DA PESCA Sob o nome de pescado e marisco, engloba-se grande variedade de peixes, crustáceos e moluscos de origem marinha ou água doce. O pescado é uma das principais fontes de proteínas na alimentação humana (Ordonez et al., 2005). A composição nutricional da carne de pescado varia de acordo com o gênero, fase de vida, localização de captura e época do ano. A água é um dos componentes do peixe que apresenta maiores variações relacionadas às espécies e às épocas do ano, e pode compreender de 53 a 80% do total (Ordonez et al., 2005). A estrutura da fibra muscular dos peixes é similar à dos animais de abate. O componente em que há mais diferença em relação aos animais de abate é a gordura. Sua quantidade pode variar de menos 2% (pescados magros e mariscos) até valores superiores a 15% (pescados gordos). A variedade dos ácidos graxos dos lipídeos do pescado é muito maior do que na carne. Além disso, esses caracterizam-se por conter elevada concentração de ácidos graxos poli-insaturados e grande riqueza daqueles pertencentes à família n-3 (Ordonez et al., 2005). O grau de frescor do pescado normalmente é determinado examinando- se suas propriedades sensoriais. O pescado é um dos alimentos mais perecíveis e participam da alteração do pescado fenômenos enzimáticos, oxidativos e bacterianos. A rapidez com que se desenvolve cada um desses processos durante o armazenamento do pescado, depende, em primeiro lugar, da aplicação dos princípios de conservação de alimentos e, em segundo lugar, do tipo de pescado e dos métodos da captura. A ação microbiana é o fator que sempre adquire maior relevância na alteração do pescado fresco, devido aos elevados valores de pH e atividade de água e à riqueza de nutrientes disponíveis para o crescimento microbiano (Ordonez et al., 2005). Após a captura do pescado em alto-mar, é necessária uma correta e higiênica manipulação a bordo. A operação mais crítica é o resfriamento rápido do produto, que normalmente é feito mediante adição de escamas de gelo que recobrem o produto até seu desembarque. Os peixes de tamanho grande podem ser eviscerados a bordo para retardar a contaminação de origem intestinal e evitar a atuação de enzimas autolíticas de mesma origem. Quando o pescado é desembarcado, deve-se manter a temperatura sob refrigeração até sua venda 13 ou industrialização. O congelamento acarreta importante ampliação da vida útil do alimento. Às temperaturas de armazenamento entre -25 e 30°C são conseguidos tempos de armazenamento de 12 a 18 messes para o pescado magro. De 7 a 10 meses para o gordo e de 9 a 12 meses para o marisco (Ordonez et al., 2005). 4.1 Salga e/ou dessecação do pescado Para a elaboração de pescado salgado ocorre sua imersão em sal ou salmoura (sistema salmoura-sal-pescado) e, consecutivamente, acontece a maturação. Nesse processo ocorrem as mudanças sensoriais no pescado. Podemos relembrar os quatro tipos de salga que podem ser aplicados: salga seca, salga seca para formar salmoura, salga úmida e salga com fermentações (Ordonez et al., 2005). A dessecação é um método eficaz de conservação quando a umidade é inferior a 10% e quando as condições de armazenamento são adequadas. Então, a dessecação, em muitos casos, complementa algum outro processo de conservação, e tem papel de destaque na fabricação de produtos salgados- dessecados e defumados (Ordonez et al., 2005). A defumação do pescado confere ao produto características sensoriais muito apreciadas pelos consumidores. Há duas principais formas de defumação: a frio (temperatura do ar não ultrapassa 30°C) e a quente (temperatura da fumaça chega a alcançar 120°C e no centro do pescado, 60°C). Em ambas são realizadas salga, dessecação mais ou menos intensa e defumação (Ordonez et al., 2005). Com o emprego de um molho de vinagre e, em muitos casos, de louro,para conservação do pescado e de outros alimentos de origem animal, obtemos o Escabeche. O efeito conservante reside na ação combinada de leve perda de água durante o processo, de queda do pH devido à ação do ácido acético do vinagre, da leve ação do sal (NaCl) e das especiarias adicionadas e, nos escabeches fritos e cozidos, da ação do calor. São três produtos distintos: frios, cozidos e fritos (Ordonez et al., 2005). Algumas espécies de pescado são enlatadas como conservas tipo salmão, o que implica acondicionamento do produto cru acompanhado de uma salmoura; outras são preparadas tipo atum, em que o produto é pré-cozido antes de encher e fechar a lata (Ordonez et al., 2005). 14 TEMA 5 – OVOS E PRODUTOS DERIVADOS Os ovos de galinha são utilizados quase que exclusivamente para o consumo humano, como fonte de nutrientes. Aproximadamente 74% do ovo é água, 13% proteína e 11% é constituído de lipídeos; os hidratos de carbono constituem cerca de 1% e o restante são minerais e vitaminas. As proteínas do ovo estão na clara e na gema, que equivalem a cerca de 59 e 30%, respectivamente, do peso total do ovo (Bobbio; Bobbio, 2001; Ordonez et al., 2005). A casca do ovo funciona como uma capa protetora, constituída externamente por uma cutícula de natureza proteica. A clara é, basicamente, uma solução aquosa de proteínas constituídas por quatro camadas de viscosidade distinta. A proteína majoritária é a ovoalbumina, seguida da conalbumina e do ovomucoide (Ordonez et al., 2005). A gema pode ser considerada uma dispersão de partículas ou grânulos em uma solução proteica denominada plasma, é uma emulsão de gordura e água. Sua coloração é devida, principalmente, à presença de carotenoides (Bobbio; Bobbio, 2001; Ordonez et al., 2005). Os produtos derivados do ovo podem ser preparados a partir do ovo inteiro, da gema ou da clara separadamente. O tratamento mais comum é a pasteurização, que deve ser feita com muita preocupação (temperaturas relativamente baixas em tempos muito precisos) para não alterar suas propriedades funcionais e seu valor nutritivo. O congelamento pode ser feito quase sem alterar a funcionalidade da clara, contudo, a gema pode sofrer geleificação parcial, o que leva ao aumento da sua viscosidade. Por isso, incorporam-se substâncias que evitam a formação do gel (Ordonez et al., 2005). NA PRÁTICA Vamos aprender um pouco sobre as etapas de produção da linguiça. O primeiro processo é o de picagem ou moagem da carne. Nessa etapa, a carne é picada ou moída com o auxílio de equipamentos de moer e que tem como objetivo auxiliar na homogeneização das carnes e dos condimentos. Para a realização desse processo, a carne deve estar em uma temperatura entre 0 e - 3o C ou pelo menos devem estar resfriadas, pois, ao moer a carne, aumenta-se 15 a superfície de contato com bactérias. A segunda etapa é da mistura da carne com ingredientes da formulação. Dentre os ingredientes, adiciona-se sal para conservar as carnes por mais tempo frescas, o nitrato e o nitrito que atuam como sais de cura, o ácido ascórbico como antioxidante que serve como adjuvante para os sais de cura, glutamato monossódico para potencializar o sabor, corantes opcionais e naturais como o urucum, açúcar como a sacarose, glicose ou dextrose que confere um aspecto caramelizado ao produto e tem papel no combate contra adstringência e água gelada para facilitar o embutimento e especiarias como cebola, alho, louro, orégano, canela, pimenta. Após o procedimento de mistura, os ingredientes formarão uma massa que estará pronta para ser embutida. Passando para etapa de embutimento, a mistura pronta é transferida para a embutideira inserida em tripas própria para os tipos de linguiças formuladas. Após o embutimento, as linguiças frescais permanecem em câmeras de cura com temperatura média de 6° C. No caso de linguiças cozidas e defumadas, logo após o embutimento, elas são levadas para câmera ou estufas de cozimento com temperaturas em torno de 55° C e finalizando o cozimento com 82°. FINALIZANDO Nesta etapa, discutimos sobre a tecnologia dos produtos de origem animal. Abordamos as características gerais e tecnológicas do leite e dos derivados lácteos, da carne e dos produtos cárneos, dos ovos e seus produtos derivados. Conhecemos alguns dos tratamentos aplicados na conservação e/ou transformação dos produtos de origem animal. 16 REFERÊNCIAS BOBBIO, P. A.; BOBBIO, F. O. Química do processamento de alimentos. 2001. p. 1-143. BRASIL. Portaria n. 146 de 7 de março 1996. Regulamentos Técnicos de Identidade e Qualidade dos Produtos Lácteos. Ministério da Agricultura do Abastecimento e da Reforma Agrária, 1996. BRASIL. Instrução Normativa n. 51, de 18/9/2002. Regulamentos Técnicos de Produção, Identidade e Qualidade do Leite. 2002. BRASIL. Instrução Normativa Mapa n. 23 de 30/8/2012. Regulamento Técnico de Identidade e Qualidade de Nata. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, 2012. BRASIL. Instrução Normativa n. 76, de 26 de novembro de 2018. Regulamentos Técnicos que fixam a identidade e as características de qualidade que devem apresentar o leite cru refrigerado, o leite pasteurizado e o leite pasteurizado tipo A. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Diário Oficial da União, 2018. ORDONEZ, J. A. et al. Tecnologia de Alimentos. Alimentos de Origem Animal. 2005, p. 1-279. v. 2. PRACHE, S. et al. Review: Quality of animal-source foods. Animal, v. 16, p. 100376, 2022. TERRA, N. N. Apontamentos de tecnologia de carnes. 1998, p. 1-216.