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e-Book 3 Simone Negrão Moerman NEGOCIAÇÃO E GESTÃO DE CONFLITOS Sumário INTRODUÇÃO ������������������������������������������������� 3 NEGOCIAÇÃO NA CONTEMPORANEIDADE ��� 4 PREPARAÇÃO E ETAPAS DA NEGOCIAÇÃO 12 VARIÁVEIS NA NEGOCIAÇÃO ����������������������21 RESULTADOS DAS NEGOCIAÇÕES ��������������28 PERFIS DO NEGOCIADOR ����������������������������35 CONSIDERAÇÕES FINAIS ����������������������������35 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS & CONSULTADAS ��������������������������������������������42 3 INTRODUÇÃO Neste e-book você poderá aprender sobre a ne- gociação na contemporaneidade, que aborda os tipos de negociação praticados no mercado. Irá conhecer também as etapas da negociação e como se preparar para realizar uma boa negociação. Para aprofundar o estudo, você conhecerá uma abordagem específica, chamada Modelo de Ne- gociação do Ciclo Vital (NCV), além de conhecer as principais variáveis que se deve levar em conta em um processo de negociação. Em sequência, apresentaremos os possíveis re- sultados das negociações, a depender do objetivo que se almeja. Por fim, você estudará o perfil ideal de um bom negociador. 44 NEGOCIAÇÃO NA CONTEMPORANEIDADE Antes de tudo, é importante que você conheça a definição do que é um processo de negociação hoje. Intuitivamente, pode ser que você pense que já conhece esse conceito no sentido de duas partes chegarem a um acordo sobre um tema específico, mas no âmbito organizacional é um processo social bem mais complexo do que essa simples defini- ção. Aliás, algumas negociações fora do mundo empresarial também são complexas. Imagine um casal em processo de divórcio tentando negociar a guarda do filho menor de idade. Sarfati (2010) lembra que a negociação (ou bar- ganha) é uma prática que remonta ao tempo das grandes expedições, quando os navios portugueses chegaram às terras onde havia povos indígenas e utilizaram a barganha para trocar seus produtos por bens e conhecimento indígena. Os povos ára- bes utilizam até hoje a barganha para sustentar as suas relações comerciais e podem, inclusive, se ofender caso o potencial comprador não tenha a intenção de se envolver na negociação. Segundo Lewicki, Saunders e Barry (2014, p. 3), uma negociação “é uma forma de tomada de decisão na qual duas ou mais partes discutem um assunto no 55 esforço de resolver as diferenças relativas a seus interesses”. Na verdade, muitos autores concei- tuaram negociação, havendo divergências entre alguns pontos, mas concordância entre outros. Por exemplo, Robbins, Judge e Sobral (2010, p. 477) conceituaram negociação como “o processo pelo qual duas ou mais partes interdependentes, com algum conflito aparente, decidem como alocar recursos escassos. O fato é que, independentemente de quem concei- tua negociação, ela faz parte da nossa vida diária. Praticamente todos os dias negociamos algo, seja com um membro da família, com amigos e colegas, com os professores e outros. Na organização isso não é diferente, negociamos constantemente com nossos superiores, com os colegas de trabalho ou com os subordinados, no caso dos gestores. Há, inclusive, cargos da empresa em que negociar faz parte de suas atribuições, como é o caso dos compradores e dos vendedores. Para os profissio- nais que ocupam esses cargos, ter conhecimentos aprofundados e habilidades de negociação faz toda a diferença e define o sucesso da empresa, pois irá garantir bons contratos fechados que trarão vantagens e lucratividade para a organização. Matos (2014) ressalta que a negociação é basi- camente um processo de gerenciar as emoções e que elas estão presentes em todas as esferas da 66 organização, sendo responsáveis, muitas vezes, pelo bom andamento do fluxo do trabalho, seja uma negociação, melhoria da produtividade ou do clima organizacional: É comum constatarmos nas organizações con- temporâneas que, apesar de intensos esforços, da aplicação de uma teoria correta, de reestruturações bem-intencionadas, e de tecnologia e instrumental administrativos de presumível eficiência, os resul- tados das negociações podem ser frustrantes. Isso ocorre, em geral, em razão de os indivíduos ignorarem a realidade de que administrar é, essencialmente, gerenciar emoções (MATOS, 2014, p. 3). Convém você observar que a boa gestão das emoções no trabalho traz mais resultados do que a implementação de programas gerenciais sofisti- cados e requintados. O autor salienta, ainda, que quando a empresa não fomenta a interação afetiva entre os colaboradores, o ambiente fica favorável para a manipulação e opressão, além de adoção de estilos autoritários de gestão. Nesse contexto, a empresa abre espaço para a revolta das pessoas e qualquer sucesso que a organização venha a ter se torna temporário aos olhos dos colaboradores. Agora que você já compreendeu o conceito de ne- gociação e sua importância na vida das pessoas, vamos conhecer os tipos existentes de negociação. 77 Lewicki, Saunders e Barry (2014) apontam duas estratégias de negociação: a negociação (ou bar- ganha) distributiva e a negociação (ou barganha) integrativa� Vamos conhecer essas duas técnicas: Negociação distributiva Lewicki, Saunders e Barry (2014) definem a negocia- ção (ou barganha) distributiva, também chamada de negociação competitiva ou negociação ganha-perde, aquela em que o objetivo de uma das partes está conflitante com o objetivo da outra parte. Além disso, o que está em jogo são recursos limitados com os quais as duas partes querem maximizar seus ganhos e utilizam estratégias para conseguir a maior vantagem, pois a condição de ganho de uma parte implica a condição de perda da outra. Sarfati (2010) afirma que “na negociação distributiva haverá ́sempre um ganhador e um perdedor, sendo o ganhador aquele que chegar mais próximo ao seu objetivo”. O autor salienta que é crucial nesse tipo de negociação o estabelecimento de um pre- ço-alvo e conhecer o limite daquela negociação. Para que as partes possam explorar qual o limite da negociação, é preciso se basear no ponto-alvo e no limite em que se pode chegar, chamado ponto de resistência, que é o pior resultado aceitável. Robbins, Judge e Sobral (2010) indicam que se for para obter valores abaixo do ponto de resistência 88 é melhor abandonar a negociação, porque o re- sultado será muito desfavorável. Para que você compreenda melhor, observe a Figura 1: Figura 1: Demarcação da área de negociação. Margem negocial de A Margem negocial de B Zona de possível acordo Ponto-alvo de A Ponto de resistência de B Ponto de resistência de A Ponto-alvo de B Fonte: adaptado de Robbins, Judge e Sobral (2010, p. 449). Esse esquema representa dois negociadores que já possuem um valor-alvo da negociação, que seria o melhor valor para cada lado. Há também o ponto de resistência de cada lado, que é o valor mínimo aceitável e a área de intersecção é um espaço de manobra em que os desejos de cada parte podem ser atendidos. Como uma medida preparatória antes da negociação, as partes de- vem tentar obter o maior número de informações possível na tentativa de conhecer melhor a zona de possível acordo, aumentando as chances de sucesso na negociação. Um ponto que Sarfati (2010) salienta ser bastante importante é o fator tempo de negociação para que não chegue ao ponto de o contrato (ou o acordo) 99 ter que ser fechado porque o tempo destinado à negociação findou. Isso pode ser ruim para as partes, pois o objeto do acordo pode ser definido no valor limite e isso nenhuma das partes deseja. Como você já pôde notar, antes de se estabelecer uma negociação, é fundamental que as partes sondem o tempo que elas têm disponível para a negociação. Por outro lado, um dos negociadores poderá utilizar estrategicamente a “falta” de tempo para justamente forçar a outra parte a fechar o acordo próximo ao seu ponto-alvo ou em um ponto que o favoreça. Negociação integrativa A negociação integrativa é aquelaem que, confor- me Daychoum (2016), “as partes cooperam para alcançar o máximo de benefícios integrando seus interesses em um acordo”. Essa modalidade de negociação também é conhecida como ganha-ga- nha. Na barganha integrativa há muitos itens para serem negociados e cada parte irá aportar valores para si mesmo e para a outra parte, e cada lado faz concessões para obter valores que interes- sam muito para os dois lados. Nesse sentido, os interesses de ambas as partes estão garantidos. De acordo com Robbins, Judge e Sobral (2010), no ambiente organizacional, a negociação integrativa tem preferência à distributiva em condições nor- 1010 mais, porque constrói relacionamentos de longo prazo. Nesse tipo de acordo, ambos os lados saem da mesa de negociação se sentindo vitoriosos. Os autores, ainda, levantam a questão de que se a barganha integrativa é mais benéfica, então por que as organizações não a utilizam mais? Bom, há algumas premissas para que a empresa possa usar essa modalidade de negociação: as partes precisam ser francas, ter sensibilidade quanto às necessidades da outra parte, confiar nas pessoas e se mostrar flexíveis. Essas características são muito raras de serem encontradas no ambiente organizacional, infelizmente. O que mais encon- tramos são empresas querendo ganhar o acordo a qualquer custo, predominantemente uma barganha distributiva. Para melhor análise, na Tabela 1 você encontra uma comparação entre os dois tipos de negociação – distributiva e integrativa: Tabela 1: Comparação entre a negociação distributiva e a integrativa. Características Negociação Distributiva Negociação Integrativa Objetivo Conseguir o máximo possível do montante em disputa Aumentar o mon- tante em disputa para que ambas as partes fiquem satisfeitas Atitude principal Eu ganho, você perde Ambos ganhamos 1111 Foco Posições (“não posso ir além desse ponto nessa questão”) Interesses (“Você pode me explicar por que essa ques- tão é tão importan- te para você?”) Troca de informações Baixa (compartilhar informação só fará com que a outra parte fique em vantagem) Alta (compartilhar informação permiti- rá que cada parte encontre formas de satisfazer os interesses próprios e da outra) Duração do relacionamento Curto prazo Longo prazo Fonte: Robbins, Judge e Sobral (2010, p. 449). 12 PREPARAÇÃO E ETAPAS DA NEGOCIAÇÃO De acordo com Robbins (2010), o processo todo da negociação envolve cinco etapas: preparação e planejamento, definição de regras básicas, es- clarecimentos e justificativas, barganha e solução de problemas e conclusão e implementação. A Figura 2 ilustra essas etapas para facilitar sua compreensão: Figura 2: O processo de negociação. Preparação e planejamento Definição das regras básicas Esclaracimentos e justificativas Barganha e solução de problemas Conclusão e implementação Fonte: adaptado de Robbins, Judge e Sobral (2010, p. 452). Vamos conhecer, de forma resumida, as cinco etapas da negociação segundo esses autores: a) Preparação e planejamento – há questões que precisam ficar claras, como a natureza da negociação, quem irá se sentar à mesa para ne- gociar, quais são suas margens de negociação e suas metas. Também é importante avaliar o que a outra parte pretende na negociação. Martinelli, Nielsen e Martins (2010) chamam essa etapa de “preparar-se para o sucesso”, que consiste em le- vantar o maior número de informações a respeito do objeto da negociação e da outra parte, além 13 de verificar “agendas ocultas” e comportamentos manipulativos. Fazer um check-list de todos os pontos críticos é importante nessa fase para nada ficar esquecido e ter-se todos os dados para se elaborar a melhor estratégia de abordagem; b) Definição das regras básicas – definição das regras e procedimentos que irão guiar a negocia- ção, como o local da negociação, que tempo as partes têm para a barganha, que questões serão abordadas durante a conversa e o que fazer se houver um impasse. Nessa fase os lados expõem uma primeira proposta. Essa fase é chamada de “Planejar a primeira fase” por Martinelli, Nielsen e Martins (2010), que consiste em uma definição do ambiente de negociação, quem irá negociar, a agenda, a preparação psicológica e como causar uma boa impressão. Como você pode notar, há pontos semelhantes com a fase anterior; c) Esclarecimentos e justificativas – é a fase de barganhar as demandas iniciais, na forma de expli- cação, esclarecimentos, ampliação dos conceitos e justificativa das primeiras demandas. Nessa fase não necessariamente há confronto. Essa etapa é definida por Martinelli, Nielsen e Martins (2010) por “estabelecer limites e respeitá-los” e sugerem utilizar técnicas (como o BATNA ou MAANA) que permitem definir um objetivo ideal, bem como as outras opções possíveis e o ponto de ruptura ou 14 retirada. Proporciona segurança durante a nego- ciação e na solução obtida; d) Barganha e solução de problemas – é a ne- gociação, a barganha propriamente dita, o “toma lá dá cá” com o objetivo de se chegar a um acordo. Nessa fase, o acordo pode acontecer caso as partes façam algum tipo de concessão visando ao seu fechamento. Martinelli, Nielsen e Martins (2010) consideram importante nessa fase definir uma meta factível e realista a ser atingida na ne- gociação. A questão da meta deve ser esclarecida, nem sempre se trata de valor. Por exemplo, escrever um livro best-seller não é uma meta, mas escrever um bom livro é uma meta alcançável; e) Conclusão e implementação – é a última eta- pa do processo de negociação, só acontece após fechado o acordo. É a fase de se implementar os procedimentos necessários para a viabilização e monitoramento do acordo, podendo ser a elabo- ração de um contrato formal. Essa formalização depende muito do tipo de acordo feito, por exemplo, em grandes negociações, como é o caso da ne- gociação trabalhista entre sindicatos e empresas, há necessidade de se formalizar tudo o que foi acordado em um documento (contrato, atas etc.), mas em negociações mais informais, um simples aperto de mãos sela o acordo firmado. 15 Matos (2014) nos apresenta o Modelo NCV de Negociação, onde o “N” significa negociação e o “CV” significa ciclo vital. A Figura 3 ilustra as eta- pas desse modelo, que consistem em seis passos: abordagem, argumentação, superação de objeções, acordo, reforço e reabordagem. Vamos conhecer esse estilo de negociação de forma resumida, apresentado por Matos (2014): Figura 3: O modelo NCV de negociação. 1 ABORDAGEM Prevenir o eles e nós 2 ARGUMENTAÇÃO Levantar os prós e contras 3 SUPERAÇÃO DE OBJEÇÕES Evitar o ganhar x perder4 ACORDO Motivar o ganhar-ganhar 5 REFORÇO Formar o nós 6 REABORDAGEM Estabelecer o nós permanente Fonte: Matos (2014, p. 87 1º passo: Abordagem 16 Essa primeira fase é a de prevenção de criar lados, como o “eles e nós”, que acentuam diferenças e divergências, superioridades e rejeições, compe- tição e desistência, agressão e revanche e muitas outras situações e sentimentos. É a típica situa- ção de ganhar ou perder. Buscando a prevenção do “eles e nós” os negociadores podem chegar a uma confrontação positiva, em que as fases da negociação podem acontecer mais fluidamente e as partes chegam a acordos favoráveis para todos. 2º passo: Argumentação É o momento de levantar os prós e os contras da situação. É o conhecimento da situação para poder utilizar a linguagem adequada, levando em consi- deração o equilíbrio ente o sentimento e a razão. Somente por meio do conhecimento e da análise da situação de forças e fraquezas é que se constroem os argumentos adequados à negociação eficaz. Se uma das partes entra na negociação utilizando-se somente de frias reinvindicações, podem estar implícitos preconceitos e ressentimentos muitas vezes não aparentes. 3º passo: Superação de objeções É baseada em uma mudança de ênfase. Na nego- ciação ganha x perde a ênfase está centradaem abismos, ou seja, na diferença e distâncias, o que estimula tensões e conflitos. Mesmo que cheguem 17 a um acordo, o resultado desse modelo gera insa- tisfação da parte perdedora, criando um resíduo de hostilidade e conflito potencial não resolvido, podendo estourar a qualquer momento. No modelo ganha x ganha de negociação, ambas as partes podem perder um pouquinho, mas no resultado do acordo todos ganham muito, pois conseguem fechar um acordo mutuamente compensador. Portanto, o terceiro passo consiste em centrar-se no esclarecimento de posições, em dar ênfase ao equilíbrio entre afirmações e concessões, gerando um resultado positivo para ambos. Para contornar os obstáculos, pode-se utilizar a técnica de focar as vantagens substanciais da pro- posta frente às desvantagens apresentadas. Você pode observar que essa técnica pode ser utilizada para qualquer tipo de negociação, principalmen- te quando a outra parte apresenta resistências baseadas em desculpas ou objeções fictícias. A técnica de mudança de dar foco exclusivamente nas vantagens anula essas resistências. 4º passo: O acordo É a fase de dar foco na negociação positiva do ganhar x ganhar. Isso exige o consenso, que é o esforço cooperativo e a busca de soluções acei- táveis por ambas as partes, o que não ocorre na competição. Note que o consenso, que é a situação 18 ideal em uma negociação ganha x ganha, somente acontece quando há convergência de interesses. Um negociador experiente sabe como identificar esses interesses e pontos de identificação e os usa para fazer uma proposta, focando na resolução de problemas. As partes podem chegar a um acordo pelas seguintes formas: y Aceitação plena da proposta; y Concessão de parte dos itens, podendo ser até os essenciais; y Omissão, que é a aceitação passiva em virtude da indiferença, do medo ou da não conscientização. O ideal em uma negociação ganha x ganha é que as partes consigam chegar a um acordo pela aceitação plena da proposta. 5º passo: Reforço É a fase da formação do “nós” no sentido de con- junto, pois não existe uma parceria sólida com baixo nível de integração e alto nível de conflitos e divergências. Repare que sempre haverá algum tipo de resistência por diversos motivos como diferenças pessoais, motivações, pontos de vista, crenças etc., mas utilizando a técnica descrita no 3º passo é possível lançar mão de estratégias in- dividuais para contornas as resistências em prol de manter um relacionamento positivo entre as partes. Isso pode ser útil para a continuidade do 19 processo e reforça o sentimento de equipe e uma parceria próspera. 6º passo: Reabordagem É o foco na certeza de que a negociação não é um episódio único, mas sim leva em consideração o ambiente, a convivência humana, a educação, a gestão e administração, entre outros, tudo isso objetivando a sustentabilidade organizacional. Nesse sentido, a empresa pode assumir dois papéis divergentes: ser a força impulsionadora, capaz de formar indivíduos conscientes de que a harmonização de interesses gera maiores benefícios mútuos, ou ser a camisa de força, um organismo burocrático que restringe e inibe a negociação. Cabe à empresa decidir onde focar seus esforços e preparar seu corpo gerencial adequadamente caso queira obter bons frutos com negociações produtivas. Você acha que grandes negociadores já nascem prontos? De forma nenhuma, eles se preparam ao longo do tempo, realizam treinamentos específicos, estudam, praticam ao longo do tempo. Com resultados de erros e acertos, vão se forjando em grandes negociadores. REFLITA 2020 VARIÁVEIS NA NEGOCIAÇÃO Você já reparou que algumas pessoas negociam melhor do que outras? Por que será que isso ocorre? De acordo com Martinelli, Nielsen e Martins (2010), há variáveis que interferem diretamente na nego- ciação, são eles: o poder, o tempo e a informação. Vamos compreender melhor essas variáveis: O poder O poder está presente em qualquer tipo de nego- ciação, desde as mais simples e individuais às grandes negociações coletivas como as sindicais e políticas. O poder precisa ser considerado em uma negociação, porque, de certa forma, as pessoas que têm poder possuem capacidade de provocar os resultados que desejam. Por outro lado, o poder também pode estar relacionado à habilidade de ser persuasivo e influenciar pessoas, características muito utilizadas pelos líderes. Martinelli, Nielsen e Martins (2010) advertem que é preciso separar o poder usado em uma negociação dos processos de influência, que são usados mais em relações interpessoais. Na Tabela 2 estão listados os fatores que merecem atenção pelas pessoas envolvidas no processo de negociação: 2121 Tabela 2: Fatores a serem observados pelos negociadores. Reconhecer a discrepância do poder entre as partes Modificar os desequilíbrios no sentido de igualar os níveis de poder Reconhecer o risco pelo uso do poder e direcionar a negocia- ção para a barganha distributiva Evitar o uso de argumentos baseados no poder Evitar a manipulação, pois certamente será percebida pela outra parte Usar ferramentas lógicas que são neutras em sentimentos Fonte: Martinelli, Nielsen e Martins (2010, p.89). Os autores classificam, ainda, o poder em tipos, vamos conhecê-los: y Poderes pessoais – são os poderes inatos de uma pessoa, que são refletidos em qualquer situação em que a pessoa se encontre, indepen- dentemente do papel que esteja representando na situação e as habilidades que tenha. Poderes pessoais podem ser: poder da moralidade, da ati- tude, da persistência e da persuasão; y Poderes circunstanciais – é um tipo de poder provido pela situação, pelo momento e pelo tipo de negociação. Pode ser classificado em: poder do especialista, de investimento, da posição e da legitimidade, entre outros. O tempo Pode ser usado como uma estratégia para retardar o processo de negociação, por exemplo, realizan- 2222 do-se um intervalo oportuno para que as partes pensem sobre o processo e as oportunidades ge- radas durante a negociação e tomem as decisões mais acertadas, como: y Ser paciente, porque as concessões só ocorrem no final dos acordos; y Não revelar o limite de tempo em negociações litigiosas ou conflituosas; y Considerar que a outra parte, ainda que apa- rentemente calma, pode ocultar pressão e tensão; y Ações precipitadas devem ser tomadas somen- te quando a situação apresente uma vantagem garantida, do contrário, é sensato considerar o tempo e a perseverança. Além disso, as partes devem considerar que ambas têm um prazo-limite, contudo, uma parte sempre tenta aparentar indiferença com relação a essa variável, porque sabem que o tempo é um fator de pressão na outra parte. Quando um dos lados sabe o prazo-limite do outro certamente irá usar esse fator a seu favor. A informação “Quem tem a informação tem o poder”, já ouviu essa expressão? Pois bem, é exatamente o que ocorre em uma negociação, ou seja, a informação pode abrir as portas do sucesso em um acordo, assim como a falta de informação pode prejudicar 2323 o lado menos informado. É certo que dificilmente os oponentes entram em uma negociação com todas as informações possíveis sobre o outro lado, porém você pode observar que se os negociadores desejam ter sucesso em seus acordos é altamente recomendado que levantem o maior número de informações possíveis sobre a outra parte, como: situação financeira, prioridades, o tempo que tem, prazos de pagamento e necessidades reais, entre outras. Como um processo de negociação passa, necessa- riamente, pela troca de informações, é importante fornecer informações de forma cautelosa em um primeiro momento da negociação, isso para dimi- nuir a expectativa do outro lado. Caso uma das partes negue ou omita informações iniciais, isso poderá gerar desconfiança e um comportamento negativo da outra parte e prejudicar o andamento do acordo. Robbins, Judge e Sobral (2010) também abordaramas variáveis que interferem na negociação, porém com um foco diferente. Essas variáveis seriam: a personalidade das pessoas envolvidas na negocia- ção, o humor / emoções e as diferenças de gênero. Vamos aprofundar esses conceitos a seguir: Personalidade 2424 Pessoas extrovertidas, que são mais sociáveis e amigáveis, tendem a fechar negociações distributivas, pois falam muito e até passam mais informações do que deveriam. Além disso, as pessoas amigáveis têm preferência em fechar acordos cooperativos do que confrontar o outro lado. Em uma primeira análise, você pode achar que esse tipo de acordo é o melhor a ser feito, mas reflita o seguinte: e quando os interesses são muito opostos? Será que a negociação teria êxito com essa abordagem amistosa e agradável? Segundo os autores, quando a negociação tende a ser distributiva, o perfil de negociador mais adequado é a pessoa introvertida, que está mais interessada em obter resultados positivos da negociação do que agradar a outra parte. Há negociadores que tendem a evitar o conflito e cedem rapidamente no início do processo em virtude da ansiedade em ter que enfrentar um possível conflito. Nesse caso, pessoas com essa tendência devem evitar se envolver em negociações importantes, princi- palmente em grandes corporações, por inabilidade em lidar com o conflito, que não necessariamente é um aspecto negativo. Por outro lado, todos podem aprender a ser melhores negociadores, basta esforço e dedicação no aprendizado da arte de negociar. Humor / emoções 2525 Tanto o humor quanto as emoções podem influenciar nas negociações. Por exemplo, nas negociações distributivas o negociador que demonstrar raiva parece que obtém melhores resultados, mas isso depende da posição hierárquica que ele tenha. Para que você compreenda melhor, iremos dar um exemplo hipotético: se o negociador “A” ocupa um cargo de liderança com poder e está negociando algo com o negociador “B”, que ocupa um cargo do mesmo nível ou inferior, “A” terá melhores chances de obter êxito e conseguir o que deseja. Contudo, se “B” também demonstrar raiva nessa relação, terá grandes chances de sair prejudicado. Quando se trata de negociação integrativa, de- monstrar humor e emoções positivas podem levar a acordos de ganhos mútuos, pois o humor está relacionado à criatividade, fator importante nas negociações integrativas. Diferenças de gênero Homens e mulheres não negociam de formas di- ferentes, porém, o resultado da negociação pode ser influenciado por conta do gênero diferente dos negociadores. Há um estereótipo que envolve as mulheres, de que são mais cooperativas e amigáveis do que os homens, porém, a realidade não comprova essa crença. A fama de “boazinha” das mulheres se deve à confusão entre o gênero e a falta de poder que geralmente elas têm na maioria das grandes empresas. Parece que a crença popular já espera 2626 que as mulheres sejam “boazinhas” e os homens sejam “durões” e quando esses papéis não corres- pondem à realidade as mulheres são criticadas, ou seja, se elas são “duronas” nas negociações são criticadas pela violação do estereótipo de gênero; se são “boazinhas” isso irá reforçar o estereótipo e serão exploradas exatamente por terem esse comportamento. Talvez por essa situação complexa os homens têm tido resultados mais positivos nas negociações. Além disso, as mulheres têm um alto nível de au- tocobrança e isso tem um impacto no resultado das barganhas. Mesmo que tenham resultados positivos, as mulheres acham que poderiam ter tido um desempenho melhor. Os autores sugerem que as mulheres são menos propensas a ver uma situação ambígua como uma oportunidade para negociação e isso faz com que elas se penalizem desnecessariamente, deixando de se envolver em barganhas quando isso seria de seu maior interesse. 27 RESULTADOS DAS NEGOCIAÇÕES Todas as estratégias, planejamento e etapas des- critas até este ponto visam à obtenção do êxito na negociação e chegar a um acordo satisfatório no sentido de as partes conseguirem obter o mais próximo do que tinham em mente quando iniciaram a negociação. Vanin (2013) sugere que se as etapas anteriores foram bem conduzidas, a negociação pode acontecer, mesmo que tenha havido discussões, conflitos e impasses. Sabemos que isso faz parte da arte de negociar. A partir desse ponto da negociação é momento de baixar as tensões, porque as partes já conseguiram chegar a um acordo final, conforme ilustra a figura a seguir. Por isso, os nervos podem ficar mais re- laxados e os negociadores tratarem de revisar os itens da barganha e cada parte, individualmente, fazer um balanço de suas vantagens e desvanta- gens resultantes da negociação. 28 Figura 4: Curva da tensão de acordo com as etapas da negociação. Nível de Tensão Abertura Teste Convicção Fechamento Fonte: Mello (2005). Como o processo ainda não foi finalizado, uma das partes pode utilizar uma estratégia final, oferecen- do uma vantagem, ou fazer uma concessão para influenciar a outra parte a fechar o acordo mais rapidamente. Isso é feito observando-se os sinais do oponente, se dá sinais favoráveis de que está propenso a fechar a proposta, mas ainda não a verbalizou. Caso contrário, a barganha deve pros- seguir, pois você deve lembrar que a paciência e a persistência devem estar presentes durante toda a negociação. Você pensa que uma boa negocia- ção é fácil de ser fechada? Nem sempre, leia o seguinte trecho: O acordo é fechado quando os negociadores percebem que as condições são aceitáveis para todas as partes, e aqui existe um ponto importante: a percepção pode mudar com o tempo! O acordo é percebido como aceitável naquele momento e 29 pode não ser considerado aceitável por uma das partes no momento seguinte (MELLO, 2015 apud VANIN, 2013, p.72). Como pode perceber, mesmo que um dos negocia- dores perceba que a outra parte dá sinais de que deseja fechar o acordo, isso pode não acontecer se uma das partes, por algum ponto ou porque entende que sairá da barganha com muitas des- vantagens, não quiser fechar o acordo e o processo pode ficar emperrado. Para evitar que isso ocorra, Vanin (2013) sugere que assim que o acordo for verbalizado, a fase imediatamente posterior é do- cumentar tudo e torná-lo oficial, de preferência ao final do acordo verbal, para que seja um processo bem rápido. Se não for possível, as partes podem documentar posteriormente, mas lembrando que a formalização deve ser tão rápida quanto possível. Mas a que se deve essa rapidez? Além de evitar que uma das partes desista do acordo fechado, serve para evitar que pessoas alheias à barganha deem palpites de que o acordo poderia ser melhor ou que na empresa X ou Y há produtos ou serviços melhores do que aquele acordo fechado. Além de não acrescentar nada, pode ser frustrante para os envolvidos na negociação ouvir esse tipo de coisa. 30 A implementação do acordo Agora que foi tudo negociado, o acordo formaliza- do e selado, é o momento de preocupar-se com a entrega do que foi negociado, sejam produtos ou serviços. Nessa fase a empresa deve preocupar-se não somente com a qualidade do que entrega, mas principalmente com o tempo. Você já imaginou ter todo o trabalho da preparação, planejamento e execução de todo o processo de negociação e, posteriormente, a empresa não entregar o produto ou entregar com atraso, ou se o serviço objeto de contrato for mal realizado? Não há coisa pior para uma empresa! Nesse sentido, considerando-se que, geralmente, profissionais da área de vendas são quem negociam junto aos clientes, não é incomum que essa área, por exemplo, tenha reuniões frequentes com a área de produção ou de logística para discutir problemas de qualidade ou de entrega de produtos e serviços. A área de vendas é que está à frente do cliente e quando há algum problema é para vendas que os clientes irão reclamar. O mesmo pode ocorrer com a área de compras, mas em sentido inverso.Caso os profissionais de compras, depois de passar pela tensão de todo o processo de negociação, detecte que os produtos chegaram com defeitos ou com atraso, ou que os serviços negociados não estão sendo feitos conforme o acordado, os 31 profissionais da área de compras certamente irão reclamar, não com as pessoas que realizaram a entrega dos produtos, mas com as pessoas que venderam tais produtos. Foram usados exemplos de vendedores e compradores, mas na realidade o exemplo serve para qualquer pessoa que tenha realizado ou fechado a negociação. Vanin (2013) lembra que quando se trata de nego- ciação integrativa, remediar a situação de entrega de produto ou serviço que não atende ao acordo pode ser mais fácil e ocorrer sem maiores traumas. Se a estratégia utilizada na negociação foi a distri- butiva, aí a situação se complica um pouco mais, visto que a emoção que envolve as partes não é das mais amistosas, principalmente naquela que saiu em maior desvantagem. Garbelini (2016) ressalta que os processos de negociação podem resultar em três situações e seus respectivos fechamentos: y Negociação ganha-ganha – trata-se da bar- ganha integrativa, quando ambos os lados têm suas expectativas atendidas e estão confortáveis com o acordo final. Neste tipo de negociação to- dos saem ganhando. As emoções que envolvem esta modalidade de negociação são amistosas, portanto, havendo problemas de qualidade e entrega, as partes, muito provavelmente, podem chegar a combinar a melhor forma de resolver os 32 problemas de modo não conflituoso, embora essas inconveniências não contribuam para a imagem da empresa que gerou o problema; y Negociação ganha-perde – é a barganha distributiva, quando uma das partes utiliza o poder para impor suas vontades, não abrindo espaço para que a outra se manifeste ou obtenha vantagens, obviamente saindo insatisfeita da negociação. Quando isso ocorre, as emoções envolvidas nesse processo não são das melhores e resolver proble- mas pós-acordo fica mais complicado, uma vez que a raiva, a rispidez e a frieza podem ter estado presentes nas relações durante a negociação. Após tentativas de comunicação para solucionar problemas de qualidade e entrega, se não houver predisposição na pronta solução é possível uma das partes acionar juridicamente a outra para não se sentir lesada; y Negociação perde-perde – Garbelini (2016) explica que é quando há conflitos na negociação e ambos os lados acabam cedendo e não se alcança resultados satisfatórios para nenhum dos lados. Neste caso, você já pode imaginar como é com- plicado quando um dos lados entrega produtos ou serviços com problemas de qualidade ou entrega. Na negociação perde-perde ambos os lados têm sentimentos de se sentirem em desvantagens e podem querer aproveitar a oportunidade para 33 obter a vantagem que não conseguiram durante a negociação, muitas vezes por meios legais. Como você já pôde perceber, fazer uma boa gestão da fase pós-acordo é de crucial importância para que o processo de negociação seja finalizado a contento para ambas as partes, pois se houve conflitos durante a negociação, eles podem ser potencializados caso uma das partes não cumpra o acordado. Neste vídeo, o consultor Erik Guttrmann apresenta dicas de como tratar objeções em processos de negociação, conhecimento importante para o bom negociador, que sabe contornar esses obstáculos. Assista ao vídeo clicando aqui: https://www.youtube. com/watch?v=8rMT78QXwIo SAIBA MAIS 3434 PERFIS DO NEGOCIADOR Além de todos os cuidados da preparação e plane- jamento da negociação, você pode refletir sobre o que faz com que um negociador tenha mais êxito do que outro. De acordo com Martinelli, Nielsen e Martins (2010), a resposta para essa pergunta pode ser o talento, mas não do tipo inato e sim daquele talento aprendido por meio da experiên- cia, que desenvolveu habilidades e competências mediante a prática, a persistência e o aprendizado com os erros: O estilo de negociação de cada pessoa é, em grande parte, resultado dos sentimentos e atitudes expe- rimentados no início de suas vidas. As diferentes experiências “colecionadas” com o passar dos anos são fundamentais para a formação do perfil psicológico. Desse modo, negociadores experien- tes podem agir de maneira diferente durante um processo de negociação, mesmo que possuam as mesmas habilidades (MARTINELLI; NIELSEN; MARTINS, 2010, p. 102). Com isso, podemos concluir que o uso correto das competências durante a negociação pode ser o fator principal para o êxito do processo. Negociadores profissionais, especialmente aqueles que ocupam cargos nas áreas de vendas e compras e se sentam 3535 nas mesas de negociações frequentemente, devem estar altamente qualificados porque os objetos dos acordos são, em sua grande maioria, grandes quantias financeiras. Por isso, convém você refletir que eles não podem cometer erros básicos ou to- mar decisões baseadas apenas em sentimentos ou no ego. Desenvolver suas competências como negociadores profissionais é imprescindível para o sucesso do negócio. Na Tabela 3 são apresenta- das as habilidades necessárias aos negociadores, segundo Martinelli, Nielsen e Martins (2010): Tabela 3: Algumas habilidades utilizadas por negociadores na negociação. Negociadores convencionais Negociadores não convencionais Para obter informações, uso de questões que terminam abertamente, evitando res- postas somente com “sim” ou “não”. Uso de equívocos: compreen- der mal a outra parte, proposi- tadamente, para forçar o outro lado a esclarecer sua posição e a acrescentar informações. Uso da paráfrase ou re- formulação daquilo que o outro negociador disse, com o intuito de demons- trar interesse, verificar sua compreensão, ganhar tempo e proporcionar à outra parte oportunidade de acrescentar algo à discussão. Exagero: ampliar tudo aquilo que o outro negociador diz para questionar uma posição extrema, a qual se sabe que a outra parte está pronta a tomar. Uso do silêncio para forçar a outra parte a compartilhar informações. Mudança inesperada: dizer ou fazer algo, repentinamen- te, para criar um efeito de surpresa. 3636 Sumarização para medir o progresso da negociação e construir acordos prévios. Sarcasmo: utilização de zom- barias para provocar reações emocionais. Confirmação de sentimentos e emoções para aliviar a ten- são e reforçar a confiança. Sufocamento: sufocar a outra parte com excesso de ques- tões e informações para tentar enfraquecê-la. Fonte: Martinelli, Nielsen e Martins (2010, p. 104). As competências necessárias ao bom negociador que deseja dominar a arte de negociar, apresenta- das por Garbelini (2016), têm outro foco. Vamos conhecer algumas delas: y Inteligência emocional: sabemos que as emo- ções fazem parte da negociação e ter domínio dos sentidos é fator crucial para o êxito do processo e para evitar emoções descontroladas e atitudes impensadas, podendo levar o negociador a decidir de forma desvantajosa. É preciso praticar a inteli- gência emocional usando disciplina e paciência, de forma consistente e frequente, até que se domine as emoções adequadamente; y Assertividade: é ter certeza das próprias con- vicções durante a negociação, assim como conhe- cer os pormenores do processo, ser congruente e expor suas ideias de forma consciente, visando a convencer a outra parte. Lembro que negociar passa pelo convencimento do outro, trazê-lo para o seu lado. Sem a assertividade não há como ter sucesso na negociação; 3737 y Bom senso: deve haver coerência de propo- sições, nada de ideias mirabolantes ou soluções pouco pragmáticas. Em barganhas distributivas, parece que o bom senso é deixado de lado no afã de se obter mais vantagens; é complicado, mas é possível ter bom senso até nessas situações. Já na barganha integrativa (ganha-ganha), o bom senso é mais comum; y Confiança: para aqueles que desejam ter su- cesso nanegociação, principalmente a integrativa, é necessário estar desprovido de egos inflados, vaidades e outros vícios que só prejudicam a confiança na hora de dar a palavra final. Caso a vaidade impere, dificilmente haverá um acordo satisfatório para ambas as partes e dificilmente a pessoa que se sentiu lesada volta a criar vínculos (mesmos os profissionais) com a outra parte e o relacionamento passa a ser uma barreira; y Empatia: é o colocar-se no lugar do outro para compreender que, naquele momento, aquela é a condição a se cumprir, talvez seja a melhor maneira para se obter o consenso. Como você viu anterior- mente, essa é a forma de se conseguir vínculos e formar um relacionamento duradouro que poderá dar frutos no futuro; y Pensamento sistêmico: uma negociação envolve diversos elementos, fatores, pontos de vista e interesses, e todos se cruzam e precisam ser levados em consideração. Negociar tem a sua 3838 complexidade e, se não fosse assim, não haveria necessidade de negociação, apenas uma combi- nação básica de regras; y Resistência à frustração: é necessário que os negociadores não se deixem abater caso a negociação não tenha alcançado o consenso, uma proposta final. Nem sempre se consegue na primeira tentativa, mesmo na barganha integrativa. Por isso, é preciso persistir até que todos ganhem. É interessante conhecer a abordagem de outros autores, dessa forma amplia-se, também, o seu conhecimento e você pode formar o seu próprio ponto de vista. Daychoum (2016) lista outros tipos de competências necessárias ao bom negociador. Vamos conhecê-las: y Domínio do tema: é crucial conhecer com profundidade o assunto objeto da negociação, isso implica em dominar o tema, os jargões, a terminologia e a regra do jogo. Não há nada mais decepcionante do que entrar em uma negociação quando a outra parte desconhece os detalhes do assunto negociado, por isso não consegue tomar uma posição e decidir; y Planejador: saber realizar um bom planejamento é melhorar as chances de sucesso. O planejamen- 3939 to permite articular pontos de recuo e pensar em alternativas, opções e planos contingenciais; y Manter o raciocínio sob pressão: refere-se a manter a racionalidade em condições de pressão e incerteza e ser capaz de entender, calcular e deduzir rapidamente em condições adversas, mantendo sob controle principalmente a inteligência emocional; y Transparência de emoções: o descontrole de emoções, além de não ajudar nada na negociação, também afeta a outra parte. É importante saber demonstrar ou não as emoções, a depender do momento e do tipo de negociação envolvida; y Capacidade de ouvir: se não ouvimos, como iremos compreender quais são as demandas da outra parte? E mais: se não ouvimos atentamente o outro, como vamos concordar ou discordar da proposta dele? Você já deve ter percebido que a capacidade de ouvir é uma das mais importantes na negociação. Para finalizar, na Tabela 4 encontra-se o resultado de uma pesquisa realizada com mais de seiscen- tos pesquisadores espalhados por todo o país, apresentada por Daychoum (2016). No quadro estão hierarquizadas as competências que os negociadores entendem ser mais importantes no processo de negociação, vamos conhecê-las: 4040 Tabela 4: Competências de um negociador brasileiro eficaz. 1 Conhecimento do tema / assunto que está abordando 2 Capacidade de raciocinar clara e rapidamente sob pressão e incerteza 3 Capacidade de planejamento e preparação 4 Capacidade de debater: formular perguntas e respos- tas, argumentar 5 Capacidade de persuasão / convencimento 6 Percepção das necessidades e reações ocultas – próprias e do outro 7 Persistência e determinação 8 Capacidade de ganhar o respeito e a confiança da outra parte 9 Habilidade para escutar Fonte: Daychoum (2016, p. 30). 41 CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste e-book você aprendeu o conceito de negocia- ção atualmente, os tipos de negociação praticados, que são a integrativa e a distributiva, bem como a diferença e características de cada uma delas. Observamos, ainda, quais as cinco etapas da ne- gociação e como se preparar adequadamente para conseguir o objetivo previsto na negociação. Você estudou também o Modelo NCV de Negociação, que contempla seis fases: abordagem, argumen- tação, superação de objeções, acordo, reforço e reabordagem. Na sequência, você aprendeu sobre outras variáveis que podem interferir no processo de negociação que devem ser consideradas, pois o negociador, além de sentar-se à mesa para negociar, deve se preparar e levar em conta outros fatores. Finalizamos com uma reflexão sobre as compe- tências exigidas para o negociador, competências essas que direcionam o desenvolvimento para quem deseja se tornar um bom negociador em qualquer situação. Referências Bibliográficas & Consultadas DAYCHOUM, M. Negociação: conceitos e técnicas. Rio de Janeiro: Brasport, 2016. [Biblioteca Virtual]. DIAS, R. Cultura Organizacional: construção, consolidação e mudanças. São Paulo: Atlas. [Minha Biblioteca]. GARBELINI, V. M. P. 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