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Elisabeth Lukas
PAULUS
 
 
A Zogoterapia
de Viktor E. Frankl
Síntese de uma psicologia espiritual
O século XX registrou um aumento de alterações
WSIUICâ,'F.W_ñ_f-que0 vertlgmoso cresc1mento a popu-
lação mundial, fazendo a proporção entre indivíduos
psiquicamente estáveis e instáveis inclinar-se a favor dos
últimos. SkundoaOrganização NMÊdial da_Sa7ú7d_e,7irs›svor
se deve . r. x ._ -nCIpalmente a tres fatore _ d7\__g__ç__esmteraaoda
amíliaãruptura das tradíções e a solidão do indivíduo
 
na massa*.__fT_-Jánoinaos anos 50 0 psiquiatra e neurolo-
glstav1'_'-'enense Viktor E. Frankl expressou idéias seme-
lh~_«ñ'____antes,ao falar da perda de instintos e tra 1ções que
adewa a o omem. De acordo com ele a perda dos instin-
 
tos priva o omem da perccpção 1'nler_'Ê_-_-_ioro que deve
razer no interesse da sua existência naturaL enquanto a
perda das tradições o priva daquele apoío extemo, que
atravesdatransmlf"ssão de regras milenares de jogo lhe
indica como é a vida.
Mas, como disse Friedrich Hõlderlin, onde ameaça
o perigo também surge a salvação. Dc fato, neste “século
em que se multiplicou o número de indivíduos afetados
por problemas psíquicos", desenvolveu-se viçosamente
um novo ramo da ciência: a psicologia e, Com ela, a
psicoterapia. Continua, porém, duvidoso se estas duas
irmãs podem trazer a salvação desejada. Apesar das múl-
7
que o tempo está esfriand0, até mesmo nos países privi-
legíados, até há pouco acostumados ao bem-estar. Os W
computadores tomam-se cada dia mais eficíentes e ti- ¡
uma densa rede de assistência psicológica como na Amé- ram 05 empregos de cada Vez mais trabalhadorc5_ A mo-
rÍCâ dO Norte e na Europa centraL ral dobra-se ao tremendo poder da sedução e da facti-
COHSÍdemda Superñcmmemer a eSCOIa de FrankL b1'lidude. Já faz tempo que começou o "admirável mundo
chamadalogoterapia, é apenas uma variante das mencio- novo" de Aldous Huxley_ Em reação a tudo ¡'550_ muítas
nadas Írmã5› PSÍCOlOgÍWPSÍCOÍCTaPÍa _Examinada mais pessoas estão procurando antígos ou novos níchos de
de Penor é uma eSCOIa que Oferece UTTWPOSSlllae refúgio,embuscadeorientaçãoeconfortoesp1'n'tual. Mas
WpemaesavaçaaSiaoirirlenaaparaarñaJm1›5131Í“'0 as antigas linguagens rituais e simbólicas se lhes torna-
CWFÍPara a reCOHCllação emre 35 PeSSOâS e a Pr,es,eIV_aÇa,~0, ram estranhas, como códigos esquecidos. Não abrem
do vínculo matrimoniaL cultiva as trad1'ções_, no sentido mais as portas para um estado de espírito confiame que
de que representa› POF aSSÍm dizelí um a__\CBI'va0Áde 5abe' descortine um horizonte de esperanças para além da rea~
l doría humana› e PromOVe aS relaÇÕeS h_um›_a___n_as VaÕVaéStaV lidade presente. Apesar de buscare__g__m,asessoa§ não en-
I car a convivência e a solidariedade no am_or. Constitui, contram alívio para o peso que as oprimem. "
I assím, uma contraposição de inestimável valor às condi- A logoterapja de ViíktormEÍFraríkj é um convit_p_eara
L ÇÕCS deñCÍtárÍas enumeradas Pela Organízação Mundial avançaxrremmals na suauscaTemÍíJáraremos C;ódígos
da,sa_Úde› C0m0 as PrinCÍPaÍS causas de deseqUilíbrÍOS añt1"_r4_*~_gosem Iinguagem moderzha e descobrir_e_mpo_ssi_b_ili-
PSlquOS , dáñfhbse sentido no dia-a-dia concreta Mais que isso,
De que trata a logoterapia? E mais fácil falar do que m_,'_L_L“__L~elaeW_-_Jumforteimulso ara adotar_se essàswOSW
e____,__9\_____Pla›nao__Nr~_-ñ_ftrata-aoeumrocedlmentoSlcanaltlcone~~'""NãOéumrocedmpSÍCWl 713 Wjese sentido e aplicá-las fazerfrenas-
tfáifmãMeauto_salvaaonemumCUItoesencasuar~NpamoucoummewdoSICOÍCCHICQNaOeumaldew"'~'lr_°' p___gp___-p“51qu1caueecceraesperançAr_____LL_hegeneraçãodaror1"aestabílidade
g sua 0' pSIqu1ca guxe orre do aroveitamento e aplicação
PNWALOpssoasoemesÊLovensevelhosamdomae__g›pSOSÍaeabranente0155ed1rletamoaesoa,.“5 sa_dla..5 possíbilídades de sentido descobeñawsré unase uimi elfewirto
c a pessoas , 
n_a's' míTPPaisierentes sítuações de vida. SuaãpEretexnsãor é 4"'Esp____L__q_\ecialmenteessoas ue têm de carregar uma owã
multo SImplesznuer re arar O cammho para uma v1da necessitam de reflexão e reenraigamento no
prlena e sent1do. '. CÍÍOS vf1_10___sof1C"VOrS_,A Vm,___r_ved100"_r_5, fundo do ser que transcende o meramente físico. Não. ^ . - - ; - ' ~ ' _I'__-__'_-_,-___'._ ,PehginlC0$PSICQLÊEÂRÊUUCOS, P519==_UI3ÍF1COS› CSP.._1rltua15 preclsam estar pSIqmcamente doentes a pomo de se 1m-
típlas receitas que têm oferecído para as crises existen-
Ciais, até agora não conseguiram impedir o seu apareci-
mento entre a população, nem mesmo em regiões com
 
 
 
 
 
 
e outros. Mas ca_racteriza-se melhror como o elo faltante p~___i________wuma mlcaão méica de tratamento sicotera_
entre todasWssaspeças o que ra-ca eças __d›a_s rc1e'^_n_CiaS pêutíco. Muítas vezes a cruz a carregar é um membro da
 
 
humanammcomo uma sm esê"ve__rlógicalj Ou uma sábia verdade que caiu no es-
quecimento? E se assim for, como essa verdade se conCi-
lia com os resultados da pesquisa psicoterapêutíca atual?
Estudei essa questão e descobri uma surpreendente
compatibilidade do antiquíssimo ditado, no seu verda-
deiro sentido, com os dados estatísticos psicoterapêuticos
49
 
do século XX. Todavia, esta é uma verificação que só se
revela quando se observam os fatos na perspectiva da
"psicologia elevada"15 e não na da psicologia profunda.
Sobre isso observamos 0 seguintez
As pessoas psiquícamente doentes passam pela vída
com uma porcentagem espantosamente elevada de raiva,
discórdía, cn'tíca e acusação em relação a seus pais. Nos
vinte e cinco anos de prátíca psicoterapêutica em que ouvi
grandes e pequenas tragédias de milhares de pacientes
para, na medída do possíveL ajudá-los pelo método da
logoterapia, nove de cada dez pacientes faziam comentá~
rios cn'ticos de seus pais. Colegas da minha especialidade
sempre observaram a mesma coisa. Daqui costuma-se
deduzir que os pais dos doentes cometeram tantos erros
na educação dos filhos que acabaram provocando doen-
ças psíquicas em seus filhos. Mas também é possível tirar
uma conclusão diferente, isto é, que os doentes psíquicos
com muita freqüência são pessoas que rejeitam seus pais,
não perdoam as faltas que estes (como mais ou menos
todos os pais) cometeram e os culpam pelos seus própríos
fracassos e perdas. Que não “honram” seus pais e que ao
mesmo tempo a vída na terra não lhes corre bem...
Inserção
Neste ponto vamos inserir dois aspectos que funda-
mentam de maneira eminente a versão logoterapêutica
do 4° Mandamento.
a) O poder de despedida do perdão
A vida é um contínuo avançar, de uma hora para
0utra, de uma fase da vída para 0utra, e conseqüente-
mente um constante ter de despedir~nos, se quisermos
50
pertencer totalmente à hora seguinte ou à seguínte fase
da vida. Quem entra no presente voltado para o passado
está inibido e enrijecido na sua energia psíquica e física,
como a mulher de Lot. Assim as deSpedídas têm que ser
contínuas e não só no fim da vída. Mas, independente-
mente de quem ou do que nos despedimos, só há real-
mente despedida se esta for feita em bons termos. Caso
contrário não há despedída. O que não foi apaziguado
não consegue descanso. É arrastado através do presente
como uma carga pesada e envenena também ainda o fu-
turo. ”Está sempre presente", encontra-se como que
“su5penso no ar” e não liberta o ser humano para o que
lhe é próprio. Príncipalmente hostilidades, conflitos e
rixas familiares prendem, por assim dizer, as suas per-
nas e ímpedem-no de avançar naquilo que é especifica-
mente seu.
O que ajuda aqui não é uma interminável busca de
quem foi 0 primeiro a ofender quem. As raízes profun-
das do ódio estão muito ramificadas para poderem ser
escavadas do solo da história. E mesmo que pudessem
ser expostas à luz do dia através de complicadas aná1i-
ses, ainda assim continuariam 0perantes. Também não
adianta fazer as contas de quem ficou devendo tanto a
quem ou quem foi prejudicado em quê e por quem. Em
príncípio o desamor não pode ser justificado pelos atos
de desamor dos 0utros. Quem tenta isso engana-se a si
mesm0. Não. O que ajuda aqui é muito mais simples e
grandioso2 9Lerdãa Neste caso, “simples" não quer di-
zer "fácil", mas no máxímo portador de alívio repentino.
Pois quem perdoa de coração e sinceramente põe um
ponto final e limpa todo um período da sua vída das ra-
mificações da erva daninha do ódio. Finalmente pode
festejar a despedida dela, e continuar a seguir o próprio
caminho livre de pesos. Os fardos eliminados das pernas
caem na insigniñcância da qual um dia nasceram.
51
 
Admira, pois, sob este aspecto, que pessoas psiqui-
camente doentes sejam na maíoria índivíduos inibidos,
que ficaram presos, infantis, que não se libertaram da
sua infància ou de fases anteriores da vida? Seu proble-
ma principal não é que têm tanto a perdoar (coisas que
outros lhes fizeram), mas que não estâo dispostos a per-
doar a ninguém (sobretudo não aos seus genitores)!
b) Toda decisâo é decisão própria
Um antígo ditado bíblico reza: "_L__LOue toma imuro
n__c¡_____ãa_d___a__aTãoé o ue entra na boca, mas o que saí da boca..." Em
ve___p__g__________q____________rsãosicolóica diríamos: “O ue ecie a íentiae
d__p_____g____________L_euma essoa não é o ue os outros decidem sobre ela
m__J_______aso ue ela mesma decide". Uma pessoa que é amada
pode - por causa dísso ou apesar disso - ser tudo o que
quiser. Uma pessoa que ama é uma pessoa amorosa. Uma
pessoa que é odíada, também ainda pode ser tudo o que
quiser. Mas uma pessoa que odeia, é inevitavelmente uma
pessoa odienta. Em conversa no consultório disse-me cer-
ta vez um homemz “Minha mãe mora na mesma casa em
que minha famüia e eu, mas totalmente separada de nós.
Não temos necessidade de vê-la". “O senhor não quer vê-
la?" perguntei. “Bem, a senhora sabe, não gosto da minha
mãe. Antigamente, quando ela ainda era fone e minha
mulher trabalhava fora, ela cuidava dos nossos filhos, co-
zinhava, lavava e passava a roupa. Quando agora sobe a
escada arquejando me dá um sentimento de culpa".
Pobre mãe? De maneira algumal Pobre homem! Tor-
nou~se um fílho ingrato. Está prejudícando a sua pró-
pria identidadel Nem precisa encontrar sua mãe para
sentir 1'sso. Basta olhar para o espelho da sua consciên-
cia. Como se sentirá um dia, não só diante da sepultura
dela, mas também diante de si mesmo? Como alguém
que abandonou sua mãe na velhice. Como se sentirá sua
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mãe? Como alguém que amou, que ajudou, que serviu.
Que não abandonou seus filhos e seus netos, quando es-
tes estavam precísando. Foi ricamente abençoada pela
colheita da vida e pode estar satisfeita com a sua ídenti-
dade. O comportamento íngrato do fílho não pode tirar-
lhe nada disso, absolutamente nada.
Naturalmente também há exemplos contrários. Pais
que são bn'guentos, vivem critícando, cobrando, são des-
póticos etc. Apesar disso é a atitude dos fílhos para com
eles que determinará o bem-estar desses filhos. Se os fi-
lhos se omitirem, serão hípo'cn'tas, se aceitarem a tirania,
favorecerão a tirania, e se permanecerem interiormente
firmes e exteriormente mísericordiosos, serão pessoas es-
táveis e bondosas. Novamente se poderá objetar que isso
não é fácíl. É verdade. _L___p__Exatamenteor isso a doença sí-
g_______p______________¡____uicaconstitui o onto final de um caminho fácil dema-
s______,__g__g___g_g_____iadamenteconfortável no ual se foe de ualuer desa-
fLQL_______p___L_'obstáculo e resonsab1'lidade, a exemlo____pdo__aciwente
____'_________g________anten'ormentemencionado, ue evita até encontrar_-se com
 
psu______,_p___p_-p___\amãe na escada ara ouar-se sentimentos de culpa.
 M
_g_B__J_LL_P___-_aorque naE ue recisa de a'uda sicoteraêutíc E o es't'á
satisfeito consigo mesmo e com a sua ident1'dade.
 
Que resumo podemos fazer do que acabamos de
expor? Com base na minha experiência de muítos anos
como psicoterapeuta, ouso afirmar que o 4° manda-
mento é verdadeíro mandamento do amorpara os fílhos.
É válido para eles, os filhos, a geração que surge, para
que viva bem, para que possa ser protegida contra ran-
cores e sofrimentos desnecessários e esteja livre das hi-
potecas do seu futuro. Mas os filhos só podem alcan-
çar isso por meio de "dúplice ato", isto é, agradecendo
sinceramente aos seus pais pelo que deles receberarn no
processo da educação e, pelo menos com a mesma since-
ridade, perdoando-lhes o que não foi bom. Dificilmen-
53
 
te outro conceito geral pode subsumir melhor em si os
dois atos que o conceito de “honrar", que numa dimen-
são está muito acima do simplcs “pagar" ou "retribuir".
Quando as pessoas estão díspostas a isso, abrem-se no-
vas possibilidades e muitas recordações tristes podem
ser definitivamente deixadas de lado, de modo que o
mundo se mostre como éz penetrado pelo Espírito.
Sobre o 5° mandamento
Afirmarás incondicionalmente o sentido da vida
Há uma espécie de crime que como nenhum outro
atinge o coração.Este é a destruição sem sentido. Van-
dalismo sem sentido, assassínios sem sentido. Reflexo
de uma vida vivida sem sentido. Por que não destruir?
Numa vida vivida sem sentido não há resposta a esta
perguntzL O que quer que façamos, dá tudo no mesmo,
tudo está perdido, tudo é ruim, estamos enterrados na
lama, ninguém nos ajuda _ por que não destruir? Por
que pelo menos não gr1'tar, lançar a dor do tudo igual
sobre este mundo maldito? Pisotear o que nos rodeia para
aumentar o número dos revoltados que proclamam a sua
negação ao mundo?
Naturalmente é fácil afirmar a vida, enquanto tudo
for agradável e confortáveL quando se está bem. Mas o
que vem depois da felicidade? Considerando bem as coi-
sas, para nós seres ñnitos neste mundo ñnito só exístem
duas alternativas. Ou procuramos convencer-nos de que
a vida tem um sentido incondicional que ela não perde
em nenhuma circunstância - o credo da logoterapia -
ou nada tem sentido e, nesse caso, nem mesmo com toda
boa vontade se pode encontrar um motivo contra a (auto)
destruíção.
54
Sobre o 6° mandamento
Consentirás que a tua satisfação seja o cfeito secundário
de um ato de amor
"Quanto mais buscamos nossa própria satisfação
tanto mais ela nos escapa", escreveu repetidamente
Viktor E. FrankL apontando com isso para um mcca-
nísmo espontâneo de justiça vigente no relacionamen-
to pessoaL que geralmente passa despercebido. Quem
usa um parceiro para obter calor, proteção, vantagcns
pessoais e satisfação dos seus desejos, com grande pro-
babilidade vai perdê-lo e fícará de mãos vazias. Quem
ama para ser amado, não é alguém que ama de vercla-
de, Quem anda à caça de reconhecimento, sucesso, auto-
realização, auto~afirmação não alcançará a presa. Com
certeza colherá rejeição, fracasso e alíenação. O efeilo
secundário tomado com objetívo se revela um objetivo
inatingíveL O presente que se busca foge de quem o
busca. Por isso só há um conselho que se pode dar a
quem busca prazerz entregar~se com amor e deixar que
tudo o mais aconteça e quando acontecer recebê-lo com
gratidão.
Sobre o 7” mandamento
Só tomara5' para ti e assumirás o que te for destinado
Todo ser humano é importante porque tem uma de-
terminada missão. Mas não se trata apenas de uma mis-
são e sím de uma missão continuamente mutável de ti-
rar o melhor possível de cada situação da vida. O ser
humano tem a função de um "co-criador". Foí-lhe confe-
rida a dignidade da participação na criação.
55
 
Todavia essa função e dignidade impóchhe o de-
ver de discemir cuídadosamente o que se espera dele, o
que lhe é atribuída o que se refere a ele ...“Meaning is
what is meant" -sentido é o que se refere a uma pessoa,
deñne Viktor E. Frankl. Uma definição quase metafísíc2L
O que é que se refere a uma pessoa, o que é que a chama?
Suponhamos que nas minhas férias eu esteja estendido
numa cadeira na praia, tomando banho de sol e de re-
pente passa correndo um menino chamando sua mãe.
Será que isso se refere a mím, será que eu estou sendo
chamado? Estou sendo chamado a levantar-me, ir ao
encontro dele, consolá-lo e conduzí-lo à sua mãe? Se es-
tiver apenas brincando, se sua mãe estiver por perto,
acompanhando-o com o olhar, não estou sendo chama-
do. Em tal caso minha interferêncía não teria sentido.
Mas se o menino estiver perdído e seu coração de cn“an-
ça estiver convulsionado de desespero, então eu estou
sendo chamado. Mesmo que eu esteja em férias e o me-
nino não seja meu filho. Então, apesar de tudo, estou
sendo chamado.
Quem tiver desenvolvido sensibilidade para reconhe-
ícer o que lhe compete, o que o chama, não rouba e não
se omíte. Não toma para si a cn'ança que não lhe penen-
ce, mas também não deixa abandonada a criança que
vai ao seu encontro. Não toma a moeda que não lhe per-
tence, mas também não rejeita a mào do amigo que lhe
dá uma moeda. Não assume tarefas que não são para
ele, porque são destinadas a outros ombros, mas tam-
bém não se esquíva de tarefas que pode assumir como
talvez nínguém mais.
Quem tem consciência de que é “chamado", não sem-
pre, mas repetidamente, encontra sua missão, a missão
da sua vida nas suas tarefas parcíais de cada dia e cada
hora, da qual ela se compõe. Esse descobre porque é bom
ele existín
56
 
 
Sobre o 8° mandamento
Não multiplz'caras' o sofrimento entre as pessoas
no mzmdo
Deixemos de lado a questão se o índivíduo psiquica-
mente doente é de fato um indivíduo ferido na sua alma,
embora freqüentemente se afirme isso. Será difícil pro-
var cientificamente que o fenômeno é devido exclusíva-
mente a isso. Contudo há algo de verdadeiro nisso. As
ofensas costumam propagar-se com incrível facilidade,
passando como uma bola de um para outro. Mal uma
ofensa ou humilhação atingiu uma pessoa, esta já come-
 
íwa_ traaar na sua revancez aoaeev0v1a,a551m
c_'____m_____________g~omofoi recebí a. Com essa rapl ez e compreenswe ue
m›______________________,____u1tasvezes a o a não acerte 0 seu alvo o emitente
________________g___originale a “ofensa-revanche" acabe atinindo uma pes-
soa que não tem nada que ver com isso e que, por sua
Mas só aparentemente, poxs e possível pegar e reter
abolawqu_g___g_áFT_andocea.eura-a.uportar,aoea
 
áhumilhaão, a mágoa, sem passá-la ad1'ante. Deener-se
d____p___5_r1_5_emaneiraacífica,conversar, reconciíliàrlseê com ISSO
1
segu___Lp__q_L_hrarabolaaraue0eetuumm°1605'°1'
mÉMMTFVemOe'a aralisado numa das suas inúmeras pon't"ãs.xsu-
ficientes para limitar.consideravelmente 0 ódio e a falsi-
dade na sua tendência de propagação automática e final-
mente dar 0 testemunho certoz 0 testemunho do homem
tão livre, que é lívre até para pagar 0 mal com o bem.
57
Sobre o 90 mandamento
Respeitarás e preservarás a unidade da família
A família é a Célula germinal da vida humana - e
vida humana é existência responsáveL Como a família
é o lugar do primeiro encontro de um ser humano em
desenvolvimento com a sua responsabilidade, se- a sua
família não for boa, esse encontro será deficiente. Esta
é a razào por que na logoterapia, com base no anLiquís-
simo mandamento, formulamos um “critério de priori-
dade".IÓ Tal critério afirma que cada um é lívre para
____,__f_T'______t_T___LL“
constituir sua rónaaml 1a ou nao, mas que o 0
ag___q________p___a___ueleue fundou uma famí1ia, em rimeiro luoar deve
_________çL__q______________m_s§:_cumprira fun ão ue lhe cabe na família e só e -
g___g__________ç__q___undoluar assumir outras funões, mesmo ue dota-
das de sentido.
Função não é a mesma coisa que papel. Não falamos
do papel de mãe ou paí, esposo ou esposa na forma tradi-
cionaL mas da tarefa funcíonalmente insubstituível de
detemünada mãe ou de determinado pai, de determinado
marido ou de detelminada mulher numa determinada si-
tuação, na qual ela ou ele se encontra. TraLa-se daquílo
que é necessário para a preservação da famílízL Trala-se
da declicação do tempo e das forças que nos é exigida em
nome da família. Há muitos valores aos quais um indiví-
duo pode servír: valores proñssionais, artísticos, com-
templativos, esportivos, caritativos etc. Todos enrique-
cem a existência humana. Mas perderiam sentido se a
dedicação a eles fosse às custas e em detrimento do bem-
estar dos famüiares que assumimos pelo “sim" que em
certo momento lhes demos. Um “sim” que deve ser defini-
tivo, se quiser ser responsável.
 
58
Sobre o 10° mandamento
Não aspirarás a ten mas a ser
Todo ser humano tem o seu próprio none, o seu ideal
._ uma vísualização da sua esperança e dos seus desejos.
Mas cada um também tem a sua interrogação fundamen-
tal que o acompanha por toda a vida e a intervalos regu-
lares brilha no horízonte, exígindo uma resposta. São
sempre momentos de parada, às vezes também de trope-
ço e de queda, em que se acende a ínterrogaçào-chave. A
resposta que dermos será o caminho escolhido por onde
continuará nossa viagem.
A resposta depende, predom1'nantemente, da pergun-
ta feíta, assim como o encontrado depende do procura-
do. Se a pergunta forz “O que eu ganho com isso?" a res-
posta será diferente do que se a pergunta forz "O que soueu, afinal?" No pn'me1'ro caso predomina a cobiça de bens
terrenos, no segundo a busca de bens existencíais.
O caminho escolhido do ponto dc vista do ter apre-
senta-se sob 0 aspecto da vantagem ou desvantagem.
Se for suave e cômodo, é vantajoso. Se for difícil e ín-
greme é desvantajoso. Não se pergunta para onde con- _
duz. O caminho escolhido sob o aspecto do ser, pelo
contrário, revela a sua direção. Revela quem seremos,
se o segu1'rmos. Rcvela onde Chegaremos quando ele ter-
minar. Se conduz à luz do mundo superior ou se se move
em círculo no vale das trevas. "Na morte o homem não
tem mais a sua vida, tomou-se a sua vida", escreve Viktor
E. FrankL Isto é, 'no momento da morte torna-se ir-
relevante se um camínho foi íngreme ou agradáveL sua-
ve ou dífícíL mas para onde conduziu. Ali o homem se
eternizou.
59
Expulsos do pamíso
Considerações sobre a história prímeva
1. O testemunho de Abel
Uma teoria da psícologia profunda sustenta que to-
alguma forma foram traídos pelos seus pais, o que os fez
tomarem-se espiões. Certa ocasíão passou na televisão
um filme, no qual foi dada a palavra a espiões. Sem hesi-
tar falaram das suas experíências de vítímas de traição
na infância (0u talvez, foram escolhidos somente es-
piões que podiam relatar tal experíência). Os espectad0-
res que víram o filme não poderiam escapar da conclu-
são final de que em todos os Casos de espionagem do
mundo os culpados são os pais dos envolv1'dos.
Na teoría acima omite-se que já poderia existir um
ser querido (do verbo querer) primordíal do homem an-
tes de um ser querido pelos pais. _O_4p____o_essalssa"rt1]_tza"dosr 4
Como seres todo-poderosos, que decidem sobre o amory e
o_'ã'_'_ñ___'_ÍÊ-__-._01o,aconançaeatra1çao. É como se estivessem
mSentaoSIaneelan e e u,Tn'a*d'o“r
W. __ ________ \
dlante do seu compu,§ê'ü progra-
m~__ü__“ñTlT_"anosangueosseusos.
 
sofrem traições reais ou supostas na sua ínfânc1'a. Poste~
 
60
7
riormcmc divídem-se em dois gruposz o grupo dos que
pe________q_____*_r_doa_mAcLWuees que__(T___T*nãoperoam. Do grupo os que
não perdoam surgem, entre outros, csp10~'-__H'_csque p
W__"__'_Akechlo
 
 
 
 
fazê-lo novamente.
 
Tolalídade das pessoas
que na sua infâncía
sofreram traíção
Decisâo pelo
/\,r negalivo
Pessoas que
não perdoam
essa traição
Pessoas que
perdoam essa
traíção
/\Deci5ão pelo
negativoz
Pcssoas que
eslão dispostas
a cometer
uma traição
Pessoas que apesar
de ludo não estão
dispostas a comeler
uma traíção
O filme que só Considerou os subgrupos à direita,
abreviou a questão conforme abaixoz
Tolalidade das pessoas
que na sua infância
sofreram traição
Aqueles que também
estão dispostos
a cometcr
uma traição
61
 
Os elementos da decisão ”posítiva" e do perdão não apa-
recem mais no resumo. O ser humano é declarado nâo res-
ponsável pelos seus atos. Para diversão transcrevo um aIT1'-
go de jomal de Fred Huck publicado em novembro de 1990.
CAIM MATOU ABEL _ AGORA HAVERÁ
UM PROCESSO POR HOMICÍDIO
“E como estavam no campo, Caím se lançou sobre
seu innão Abel e o matou" (Gn 4,8).
Veneza. Em dezembro 0 advogado italiano Domenico
Caponi Schittar (50) promoverá o processo do primeíro
caso de homicídio da históría da lzumanidada Acredita
que Caz'm, o primogêniro de Adão e Eva, não é a_ssassino e
pedirá a absolvição do re'u.
O advogado preparou o prooesso duramfe quatro anos.
Convocará um tribzmal completo _ juiz, quatro jurados,
promotor e teólogos como peritos.
Schittar confidenciou sua estratégia a um repórter
inglês. Argwnentará que Caím provinha de uma família
abalada. AfmaL foi sua mãe, Eva, que por sua fraqueza de
caráter cometeu o pecado origínaL
Caím cresceu sozinho num jardim, cujas condições
paradisíacas não tardaram a desaparecer. Além disso, no
momento da ação não era responsável por seus atos, pois
bebera na celebração do sacrifícía
Um ponto importame da defesa: o desencadeamento
do cn'me Ieria sido provocado por mudanças climáticas.
Abe1, nômade, não teria mais encontrado pastagens para o
seu rebanho de ovelhas. Por ísso invadira as terras cultiva-
das pelo agricultor Caim, uma provocação para Caim, con-
sidera 0 seu advogada
Além di550, Sch1'tta›; aduz que naqueles tempos havia
uma inveia muural entre pastores e agricultores. A socie-
62
dade até ten'a tolerado certas fbrmas de morticínia O dra-
ma, que na Bíblia é referido de maneira muito imprecisa,
teria ocorrido na região da atual Indía ou Iraque.
O artigo, além de engraçado, é característico da
mentalidade sobre espiões, muíto difundído em nossos
dias. Pobrc Caim, que vem de um lar arruinado, que não
é responsável pelos seus atos porque bcbe, que é trans-
formado em assassino por mudanças Clímálicas e revo-
luções socioculturais... Nada dísso vale para Abel!
Não deveríamos começar a encarar a verdadc sobre
Abe1? A compreender o legado que Abel deixou à huma-
nidade? Isto é, que é possível ser e permanecer honesto,
mesmo que se provenha de uma família abalada, mesmo
que a tentação (do vinho) nos seduza e circunstâncias
externas agravem a situação. Mesmo que ísso nos traga
sofrimento e morte. Esta possíbilidade é o nosso bem
mais precioso, o documento da nossa dignidade huma-
na. Pensemos nisto: ambos, tanto Caím como Abel, eram
livres, “declarados livres" por Deus. E foi justamente esta
liberdade - o grau de liberdade concedido - que lhes
deu a possibílidade de ser pastor pacíñco ou fratricida,
p___p__p______p____orrória escolha e resonsabilidade. Nínguém pode
declarar-nos mais livres a nós livres, nenhum tribunal
deste mund0. Nós somos livres. Ou nas palavras de
Frankl: Não “temho"aierae _ como se fosse um
objeto que poderia perder -_ "eu sou" a 11'berdade.17
,/
2. A'árvore do conhecimento
O ____p___g_mitodo ecado oriinal geralmente é considera-
do o relato do prímeiro “ato anti-sentído" na terra. E a
_____L_____hístóriada culabilidade e do desterro do ser humano.
Mas esta história pode ser lida com muíto mais esperan-
63
 
f
ça: como saga de uma oferta divina a seres vivos supe-
riores___ñr_'_____r_T-h_\para transporem 01m1ar ao especnc~nmeneu-
 
mano.
Como fundamentareí esta afírmação ousada? Come-
cemos com uma pergunta digna de reflexãoz "P0de ser
tomada uma decisão errada ames que se conheça o qué
é certo e o que é errado?" _
Segundo a concepção da logoterapia, culpabilidade
 
H_er__rre_con_'ñêCET'O-que~tcm-senndo-momodeiem','aHe
 
culpadouDoís exemplos.
Exemplo .° Um iñfeliz salta díretamentediante de
um trem que se aproxima, e o condutor da locomotiva,
que não pode mais frear a tempo, atropela'-0. O condu-
tor da locomotiva é culpado? Nào, plois não tinha nenhu-
ma liberdade de escolha em relação à salvação do ínfe-
liz. Frear ou desviar o trem era impossível.
Exemplo 2: Uma criança acha um vidro com um lí-
quido esbranquiçado na cozínha. Pensa que 0 conteúdo
é leite e, imitando a mãe, coloca-0 na boca do nene^. Como
se trata de um detergente muito fone, o bebê passa mal e
tem de ser levado à unidade de terapia intensiva. A crian-
ça é culpada pelo que aconteceu ao irmãozínho? Es-
tamos novamente diante de um acidente trágíco, mas não
de uma culpa da criança. Embora tivesse possibilídade
de escolha, não tínha conhecímento do perígo e, portan-
to, que seu ato era contrário a qualquer sentido.
Em termos geraís podemos dizer que a capacidade
TTW...__..._ _-v-v-de CL____/___p__“1paeum ser e eneasualeraeeeasao
e do reconhecimento de sentido de um ato, o que consti-
tu"_l_'ñ___h_-_a______1a go espec1 camente umano, e que carecem plan-
 
64
pelo menos potencialmente - dependendo do seu grau
de desenvolvimento.
Liberdade de decisão
(= há possibílidades de escolha)
l
Reconhecinzento de sentido
(= entre as possíbílidadcs de escolha sc reconhecem
as que têm semido)
l
Possibílidade de ton1a›-'se culpado
(= entre as possibílídades de escolha se escolhem
as que são contrárias ao sentido)
Leiamos o mito do pecado original tendo presentes
esses argumentos. O que sabemos sobre os “protagonis-
tas" da história? Sem dúvida eram seres livres, podería-
mos dizer osprimeiros seres “Iibertados" da críação. Pois
um mandamento ou uma proibição sempre se dirige a
alguém capaz de uma decisão. Não se impõem proibi-
ções a pedras ou minhocas. "P0deís comer de todas as
áwores, mas desta não...” equivale a dízcrz "Podeis deci-
dir (lívremente), mas (com igual liberdade) deveis deci-
dir desta e daquela maneira..."
Passemos à reflexão seguinte. Os primeiros seres "li-
bertados" também podiam reconhecer se tínha sentido
obedecer ao mandamento ou respeitar a proibição? Pro-
príamente díto não', pois ainda não tinham comido da
árvore do conhecimento!
Para complicar as coísas, veio rastejando a serpente
que aconselhou a comer a fruta. Com isso estavam agora
díante de duas afirmações diferentesz "Se dela comerdes,
tereís de morrer" - "Se dela comerdes, sereis como
65
Deus". Duas afirmações, mas ainda nenhuma capacida-
de de diferenciação entre bem e mal, entre certo e erra-
do. Nessas circunstâncías é possível concluir que é
culposa a escolha de comer da frutaP Podc-se agir contra
o semido, se não se conhece o sentido? Do pomo de vista
teológico se argumentará que Adão e Eva deviam con-
fiar e obedecer cegamente (= sem conhecimento do sen-
tido) a Deus. Mas sem conhecimento do sentido tarnbém
não se pode entender o sentido de uma Confiança cega e
de uma obediência absoluta, o que nos propõe novamente
a questâo formulada.
Considerando que à pergunta não se deu resposta,
tentarei uma explicação insólita do antigo mit0.
No começo lzavia plamas e animais no paraíso (= na
natureza). Estes víviam na inocência paradisíaba (= além
do bem e do mal, como ainda hoje) e nada sabiam da m0›-'
te (= da transitoriedade da vida, como também ainda hoje).
Mais tarde Lmza espécíe animal recebeu Lun presente divi-
n0: foi-lhe insuflado o espíríto (= o número de bilhões de
neurônios do cérebro deu um salto, o que pennitiu o “espi-
n'tual"). Mas como por definição o espírito é o “livre”, que
pode tomar posição em relação a tudo e a cada Coisa e
confonná-la criativamente, essa espécie animal "foi liber-
tada" e recebeu algo que nunca existira: a possibilidade de
escolha.
Agora podia escolher, especialmente escolher entre
conzimtar a viver como animal (= permanecer no paraíso)
ou continuar seu desenvolvimento humano (= comer da
árvore do conheciment0). Posicionada diante da escolha,
lambém se encontrou diante das corzseqüências da esco-
Zha. Pois 0 Conhecimemo do sentido e com ele o desenvol-
vimento humano só podiam ser alcançados ao preço da
perda da inocência (animal) e da aquisição do conheci-
mento (pouco ConforZador) da própria morte.
66
Continuemos um pouco mais a análise.
Os seres “libertados" daquele tempo ainda não tinlzam
um padrão de orientação (= o ó›g'ão de scnlido chamado
conscíéncia nas palavras de Frankl), exceto um: o espírito
que lhes fora insuflada o espírito, que era imagem de um
espúito inimagináveL impossível de Conhecer. Desde 0 prin-
cípio sentiam-se atraídos para esse InconcebíveL para esse
modelo, cuja imagem traziam em si mesmos (“Sereis Como
Deus"). Por isso essas criaturas, que pela primeira vez po-
díam escolhen escolheram o seu desenvolvimento lzuma-
n0, escolheram a ascensão para o próximo grau mais alto
(= comeram do frut0), talvez na inconscíente e errônea es-
perança de que bastaria não serem mais animais para $e-
rem semelhames a Deus.
O que se seguiu foi uma Conseqüência inevitável.
Quanda à liberdade de decisão que já possuíam, se juntou
o conhecimemo do sentido (= se aguçou a percepção da
consciência), caiu sobre seus ombros 0 peso da re5p0n5a-
bilidade e entrou a culpabilidade na sua vida. Agora podiam
tomar-se Culpados, e não só eles, mas também seus des-
cendentes (= culpa oríginal), pois a todo momento podem
agora decidir-se contra o sentid0. Caim expen'mentou-o
Zogo...
Todavia não foram expulsos apenas do 'p'araíso da
ínocência", mas também do paraíso do desconhecimenta
do não-sabe›: Com a lransfomzação em humano veio ine-
vitavelmente 0 Conhecimento da morte e da própria tran5i-
toríedade ("Se dele comerdes, devereis morrer"). Com isso
Caiu um segundo peso sobre o ombro dos "expulsos”: a car~
ga de ter de delfnir o sentido da vida e de aceitar a vida à luz
da sua finitude. O que isso signifíca manifesta~se no fato de
que em toda a terra os primeiros "sinais da humanidade"
são restos de sepulturas: o que aponta para uma intensa
preocupação espiritual com a morte desde 0 pn'nczp”io.
67
 
_
Concluind0, resumo a mínha insólita explicação da
seguínte formaz
Comemos da áwore do conhecimmtq tomamo~nos
não só livre, mas também responsáveis. Deus ofereceLHwS
essa opção- não sem advertência _, e nós a escolhemos.
Agora temo-lo, não só o grandioso, mas também 0 abissal
da condição de seres humanos. Talvez o tenhamos escolhi-
do por uma esperança (errônea). Pode ser que a esperança
airzda exista (numa forma revista). Isto e', a esperança de
que o espíríto, que nos foi insufladq após a nossa morte
terrena, volte para aquele que o insquOLL Para onde a cul-
pa cai no esquecimento do perdão, onde é superada a tran-
sitoriedada Para onde permanece todo o bem, e as Conse-
qüências negativas da nossa escolha são anula›das.
3. A volição tem prioridade?
Relativamente à minha insólíta interpretação do pe-
cado originaL disse-me um teólogo amigo meu: “Há uma
longa tradição que dá prioridade ao saber e ao reconhe-
cimento, e uma tradição igualmente longa que atribui a
primazia à voh'ção". A seguir explicou que a minha posi-
ção se baseava na tradiçâo do reconheciment0, mas que
era igualmente concebível que a culpa se fundamentasse
simplesmente em um não-querer, um recusar-se, pelo qual
o capricho de um sacrifica a relação com o outro. Mas
contra isso deve-se objetar que um recusar-se, tomado
em si mesmo, aínda não tem valor, nem mesmo negati-
vo. Só adquire valor pela relação Com 0 sentido. Por exem-
plo, se me recuso a envolver-me num adultério ou a par-
ticipar de uma fraude Contra seguros, trata-se de uma
recusa totalmente honesta. Naturalmente sempre depen«
derá distoz a quem a pessoa se recusa e os mandamentos
68
dc quem nega, e no caso da história do pecador original
trata-se do mandamento do Allíssima Mas, que se trata
disso, já pressupõe o Conhecímento do sentido, alé a vi-
são de um sentido supremo e último, ou pelo menos dos
seus mandamentos soberanos.
Com relação à questão de uma posição príoritária
da volição, desejo recuar para o terreno, para mim mais
conhecido, da psicologia. Psicologícamente “a liberdade
de escolher” é uma conquísta que ocorre muíto cedo, tan-
to no caso de Adão e Eva como no desenvolvimento de
toda criança (tanto sob o aspecto filogenético como sob
o aspecto ontogenétíco). Mas acontece algo estranho com
a "volição do escolhido". Quase poderíamos pensar que
há duas espécies de quererz um desejo brando e um que-
rer com um propósito determinada O prímeiro nem de-
veria ser chamado de volição. Entretanto, como mostra
a prática psicoterapêutica, muitos pacientes o fazem, o
que leva às maís estranhas complicações e equívocos na
sua vida. Apresento a seguir uma seqüência de qualro
variantes muito freqüentes desse querer, que não é um
querer.
VARIANTE I
Um operârio de fábrica tem oportunidade de subir
profissionalmente e fàzer carreira. Mas para isso precisa
freqüentar dois anos de um curso notumo e nos fins de
semana estudar as matérias passadas em aula, se quiser
passar nas provas _exigidas. Naturalmente também pode
permanecer simples operário, contentar-se com essa con-
díção e passar o seu tempo livre como quiser.
Perguntand0-lhe qual das duas altemativas prefere, res~
ponde que querfazer carreira. Depois de alguns me$e$, per-
ngtado se está freqüentando as aulas do curso notuma
responde que ainda não teve ânimo para fazer a inscriçãa
69
 
V
Esse modelo é muito Comum. No fundo o operário
nem escolhe entre altemalivas realista5, mas emre reali~
dadc e desejo. Dá príoridade ao Clesvio, mas por fim a
realidade vencc. No exemplo em questão, o operário de~
ñniu, resum1'dameme, assim as suas alternatívasz
b) fazercarreiraa) permanecer operário
Emre a) e b) ele escolheu b, quer dizer, ñngíu querer
fazer carreira. Se tivesse definido realisticamente as alter-
natívas, elas ter-se-iam apresentado da seguime formaz
b) fazcr caxreira e dia-
riamente cstudar até
tarde da noite, além dis-
so fins de senñana sem
distrações, etc.
a) permanecer operário
e ter noites agradáveís
na frente da televísão,
praticar esportes nos
fins de semana, etc.
Considerando as alternativas realistas, talvez tives-
se reconhecido desde o início que quer escolher a a), o
que para ele e para o seu meio não teria despertado fal-
sas expcctativas. EsclarecêJo sobre isso, ou seja, que o
seu querer fazer carreira não é um querer, pode ser tare-
fa dc uma conversa terapêutica.
VARIANTE II
Um engenlzeiro aceita a proposta zle um emprego, que
Ihe agrada muito, mas sua mullzer opõe-5e decididanzente.
Ela receia que o marido fíque mais freqüentemenlc ausen-
te do que azé agora, e os lelzos quase não veriam mais 0
pai. Assim o cngenheiro retira sua Candidatura com a ale-
gação de não querer 0 posta
Tempos depois passa a lamentar~se Constantemenm
Estaria muiw melhor no emprego recusada Tem inveja de
70
zodos os engenlwiros que estão na condição feliz de ter um
emprego como o que ele recusou.
Também este modelo é muito comum. Alguém diz
não, mas quer dízcr sím, como no caso descrito ou vice-
versa. O que Lal pcssoa quer dc fato? Qucr o quc tcncío-
na ínteriormenle ou o que exprcssa exlcrnamenteP Uma
pergunta à qual não se pode responder imediatamente a
favor do que a pessoa intenciona. Primciro será necessá-
rio investigar o vcrdadciro motívo da pessoa, que deverá
ser esclarecido pelas conseqüências do dízer “sim" ou
“não”. Se for um motívo da seguínte naturezaz
a) Receio (no caso acímaz medo das repreensões e
díscussões da mulher).
b) Busca de aprovação (no caso acimaz o desejo dc
ser elogiado, aparecer Como "mártir”).
O Verdadeiro querer é 0 inlencionado e não 0 que é
dito. As Conseqüências são clarasc 21 pessoa não cumpre
o que disse, não é fiel ao que disse. Se for um motivo do
tipo seguintez
a) Amor (r10 caso acimaz desistêncía por amor à mu-
lher).
b) Compreensão (r10 caso acimaz compreensão de
que as ponderações da mulher estão certas).
O verdadciro querer é o que a pessoa diz, não o que
intenciona. As Conseqüências são igualmcnte clarasz a
pessoa é fiel ao que disse. Pode permaneccr o desejo da-
quilo que foi recusado, mas apcsar disso não ocorrerá
lamentação e inveja permanente, como no caso do enge~
nheiro. Discutir Com ele os verdadciros motivos para o
esclarecimento do que realmente quer pode ser tarefa de
uma sessão de terapia.
71
 
V
VARIANTE III
Um estudante apaixona-se por uma Colega de classe.
Querestarcom ela todo o tempo possíveL O pai da menina
teme que isso aszste a filha do estudo e proíbe 0 namora
Furioso o rapaz abandona a escola e a partir daquele
momento relaxa a sua vida. Com isso perde defmitivamente
a namomda e além disso destrói sua carreira de estudame.
Se tivesse tranqüilamente concluído o sengdo grau e
depois traballzado na sua carreira profíssionaL durante todo
esse Zempo conservarzdo a fidelidade à namorada, o seu
amor iuvenil sempre tería uma chance no futura
Este é o modelo neurótico tal como aparece nos
manuais. O neurótico exaspera a situação. Não se empe-
nha por uma realidade melhor, mas se queixà de uma
realidade mim e aínda a piora com a sua lamentação
(Célia manda lembranças...). Quando alguém lhe díz isso,
freqüentemente sua reação lacônica éz "Sei tudo isso, mas
não posso mudar nada”. Que alegria para os familiares e
acompanhantes! É mais ou menos 0 ponto ñnal para to-
dos os scus csforços.
Consideramos a situação do ponto de vísta do que-
rer. O que quer o neurótico, quando afirma saber algo
mas não poder? O “saber" é um sinônimo do reconheci-
mento do deven e o não-poder é um sinônimo de que é
mais fácil fazer 0 que não se deve. Está ele procurando
0 que deve fazer ou um jeíto mais fácil de fazer o que
deve fazer _ que no fundo da sua consciência conhece
- ou está procurando uma desculpa para fazer o que
não deve?
Talvez uma boa maneira de ajudá-10 seja desemba-
raçarjunto com ele do emaranhado da Sua defesa aquilo
que ele que,r conscicntizando-o dísso, para depois num
segundo ou tcrceiro passo volLar ao que deve fazelz No
72
Caso do nosso ex-estudante, já poderia ser benéfíco ar-
rancar dele a admissão de que na verdade ele não queria
continuar o namoro com a colega de classe, mas achar
um pretexto para abandonar a escola...
VARIANTE IV
Um pregador reúne uma grande multidão de seguid0-
res entusiastas com a ajuda de um tema, cujo teor princi-
pal e': "Creia para vencer o medo ancestral". Um imperati-
vo sedutor, mas absolutameme errado do ponto de vista
logoterapêutica Uma fev que funciona Como "meio para
um fim", isto e', no caso, para conseguir o próprio bem-
estarl É dífícil aqui não ouvir antigas ressonáncias
farisaica$: “Faze boas obras para garantira tua entrada no
ce'u./"A qualidade das ações não tem importáncia. Se más
obras abrissem as portas do ce'u, seriam recomendadas mas'
obras. Se a descrença libertasse do medo ancestraL seria
pregada a descrença...
Este modelo não está muito longe do modelo neuró-
tico. Eventualmente é um pouco mais hipócrita, mas não
é menos paradoxaL Sabemos muito bem que a busca de
um efeito secundáño ímpede o seu aparecímento. Quem
realmente crê para superar o medo ancestral, aínda ñca~
rá com seus medos por um bom tempo. Mas quem crê
pondo-se a serviço do que é "digno de fé", sem preocu-
par-se com seus temores, este realmente será libertado
deles.
Não podemos levantar Críticas maiores ao mencio-
nado pregador, pois ele é fílho do nosso tempo. E o nos-
so tempo é um tempo de protetores desamparados, de
crentes que duvidam. Um tempo dominado pela idéia
errada de que tudo pode ser usado como meio para um
ñm. O que se quer no fundo sempre tem como objetivo o
73
 
próprio bem-estar. Todavia é um querer decadente, de.
generado, pois os atos de ajudar ou de crer exigem um
querer bem diferente - o aulêntico querer 5en›ír, não em
sewilismo mas também nâo com Calculismo. Levar os
homens do nosso tempo a entender isso é tarefa de qua-
se toda sessão de psicoterapia.
Voltemos ao nosso discurso inicíal. Eu seria a últL
ma 21 negar um papel central da vontade na vida huma-
na. Mas uma coisa é Certaz o querer não se encontra bem
no começo do despertar da líberdade. No Começo está o
desejo brando, a busca de orientação, a tentativa e erro,
a luta Com o que já se sabe c com o que ainda é objeto de
en~o; e finalmente da mistura de emoções e cogniçõcs
nasce algo especifícamente humanoz o querer. Os efcilos
é que mostrarão se é autêntíco, se é bom.
Assim o querer não é Começo e também não é fim.
Encontra-se por assim dizer no meio do ser humano, fir-
memente Vinculado com o que antecede - 0 problema
da orientação, e Com o que lhe segue - o resultado con-
creto. É curíoso que algo tão firmemente amarrado aos
dois extremos possa ser de tal modo movido como o que-
rer do ser humano.
Uma ídéia final. Existem pressentímentos reais, dig-
nos de fé, iluminações ("a segunda visão"), nas quais se
nos revela algo que ocorrerá no futuro. Como tais pres-
sentímentos se compatibilizam com o querer e poder do
homem?
A contradição poderia ser apenas aparente. Pressen-
timentos são rápidas visões pontuais de uma dimensão
que não é própria do ser human0. Como devemos supor
que, com respeito a uma dimensão supra~humana, esta
existe além do contínuo espaço-tempo, o que nela repousa
- e que costumamos chamar de "etemo" - não pode
durar etemamente. Melhor, não pode durar em nenhu-
ma forma de duração, mas deve existir atemporalmente,
74
V
isto é, existir simultaneamenta Atemporalidade é idêntí-
ca a 51'multaneidade, sem “antes” e sem "depoís".
Isso signíficaria que nessa dimensão supra-huma-
na, que Iñño somos capazes de Concebe,r tudo o que na
nossa experiência terrena de espaço-tempo se divíde em
passad0, presente e futur0, está, esteve e estará justapos-to_ (Nem nossa linguagem é capaz de expressar Coisas
atemporais!) Portanto, seria possível que com a supres-
são do contínuo espaço-tempo, ver ao lado do agora, algo
que no contínuo espaço-tempo só será escolhido muito
maís tarde por vontade livre e por isso não está pré-de-
terminado. (Aqui a palavra “ao lado" também é apenas
tomeío espacíaL por nos faltarem palavras para o que
não tem espaço!) Bem, mas quando nos faltam palavras,
está na hora de parar...
75
Histórias que podem curar
A promessa oculta
Com freqüêncía se fala do “poder curativo da leitu-
ra". Todavía, esse poder tem um certo encanto pelo fato
de não se poder prever os seus efeitos. Não se pode pres-
crever um texto, por melhor que seja, da mesma forma
como se prescreve um medicamento, prevendo os seus
efeitos. É preciso que a pessoa esteja aberta à sua men-
sagem num momento de particular receptívidade para
que ele possa exercer o seu poder de cura. E nesse caso
podem acontecer coisas surpreendentesz começam a bro-
tar fontes de uma vída cheia de sentíd0. Seguem algu-
mas considerações de autores competentes.
LUDWIG MUTH:18
Quando nos indagamos sobre o poder de cura da leitu-
ra descobrimos que 0 livro ainda tem outras funções: rir e
chorar, eomparrilhar de experiências e fantasias, identífzcar~
se com destinos de outras pessoa$, voltar ao próprio passa-
do, sair da distração voltando a si mesmo, ganhar profun-
didade, meditar. Quando se ultrapassa o processo banal da
informação, manifesta-se o sentído mais profundo da cul-
tura da leitura. Difícilmente há uma autobiografza em que
05 livros não tenham um papel decisiva Mas o que parece
76
digno de nota para os autores, o que é signifzcalivo para a
sua biografia? Não o fàto de que nessa ou naquela ocasião
adquiriram conhecimenros úteí5, que aumemaram o conhe-
cimento profíssional ou que satisfzzeram uma curiosidadc
superfíciaL mas que pela leitura algmna coisa se pôs em
movimento no seu interion vencendo o esclerosamenta A
leitura tem algo que ver com 0 desafío que Angelus Silesius
propõe, quando diz: "Amigo, se és alguma coisa, nâo pe›-'
maneças parado, avança de uma luz pam outra".
Isso também nos fàz apreender a surpreendente
fi__q___ga_*consta_ñ__T_a-__taãodeue
mais felizes. Certamente não o são por Ierem rece i o me-
leítura aprenderam a integraras contrañedadaç na sua vid_a
dando-lhes um sentida Porque em constante diálogo com
Wm________g________unoas iéias e as imaens os ivros se tran$/o'r-
 
 
be'»_E___L___________L_mse ode de mir a cultura da leitura como tera )ia coti-
_________Ldianasem teraeuta,
UDO KITTLER:19
Com base na sua longa experiência de psiquiatra Vzktor
E. Frankl afírmm “O livro certo na hora certa já salvou
muita gente do suicíã_b_-_b___io,issosaemosmuitoemnós,
a_'____________[_______lm_a,¡quiatra5.Nesse sentido o livro o erece uma aulénf '
a para viver _ e para morrer".
O efeito curativo ofeârecida que mana de livros e lzistó-
n'as, tem sido atestado reiteradamente. Atualmente se ofere-
cem ao leitor numerosos livros com receitas para viver me-
lhore programas terapêuliam Mas já uprendemos que hLS'tórias
de vídas tocam muíto mais ao leitorque programas de auto-
ajuda "sem alma", descritos nos mínimos detalhes. Daqui
se conclui: histórias de vídas produzem muilo mais efàitos
porque atingem os estrazos profundos do ser humana
 
 
77
 
PETER RAAB:2°
Todo lerapeuta sabe quão grande e difundido é o medo
da autonomia e da responsabilidade própria. Muitas vezes
um texto e' apropriado para tiraro medo: medo de eslruturar
a própria vida de maneira autônoma, medo da vida enz
geraL mcdo do fím da vida. Mostra experiéncias de que a
vida pode ter semido e alcançar éxito, apesar da sua im-
perfeiçãa A Ieitura de textos adequados mostra ao leitor o
caminho que leva à plena seriedade da vida. Uma leitura a
que eu me dedicar existencialmente oferece-me a oportu~
nidade de colocar em andamento um profundo processo
existencial de amadurecimenta um processso de cons-
cientização, que fínalmente pode levar a uma feliz tranqüzl
lídade e até à redenção e à libertaçã0...
O que é decisivo e realmente terapêutico na leitura de
textos apropriados é o seguinte: a participação na expe-
riência de vidas bem-sucedida5, sem a ajuda das velhas
muletas, sem enganar-se a si mesmo, sem as ineptas estra-
tégias de sobrevivéncia. O leitor recebe um tesouro de ex~
perie^ncias, cheío de estímulos e reforços, que conduz mai-
to além da estreiteza do seu mundo individuaL
DIETRICH VON ENGELHARDZIÊ21
Desde a Antiguidade me'dicos, filósofos e escritores
fonnularam experiências e pensamemos sobre textos lite-
rários como terapia e ajuda, como instrumentos da
psicoterapia e da medicina, importantes para a prevençãa
reabilitaçã0, Cura, mas também como diagnóstico e como
meio de melhorar a relação com 0 médico ou com os fami-
liares e amigos, enfim como ajuda a todo ser humano para
saber lidar com doenças e crises, sofrt"mento e morte.
Um texto pode significar distração ou 0rientaçã0, sez=
vir como modelo ou dissua5ão, estar relacionado com a
78
própria vida ou uma dumça ou allxstar dc lais siluaço'es,
gsmr compromelido com objelivos prálicos ou lrmwmitir
um semido merafísica Como quer que scja, segundo Kalka7
deve “ser o machado para romper o mar congelado do nos-
so interior".
OTTO BETZ:22
A maioria dos contos de fàda são hislórias que falam
de caminhos. Quem quiser conhecer o mundo prccisa pôr-
Se a caminho para descobrir o desconhecida O mundo e'
maior do que tínhamos pensado. Quem fbr muito como-
dista e tiver medo da separaça'o, quenz só quiser fzcar na
situação que recebeu não contribuirá para o desenvolvi-
mento da Cn'açâu. Sem uma participação interior e entw
siasmo, poderíamos até dizen sem um vibrante prazer na
aventura, não se consegue pôr nada em movimema Mas
quem parte para o desconhecido deve levar em conta que
alguns caminhos se revelarão falsos ou em todo caso como
desvios. Ou encontrará fíguras que o exortam a volta›; por-
que a vereda trilhada poderá levar à perdição...
Sempre e' delicado explicarem fórmulas simplifzcadas
quais são as intenções de um “Conto de fada", mas talvez
podemos dízer que a maioria deles visa a dar espaço à /e'li-
cidade e à realização do potencial humano: pretende reve-
lar melhor tudo o que há no ser humana No fundo das
narrativas encontra-se a confzança de que também as di-
fzculdades que parecem obstáculos podem ser superadas.
Acabamos, as'sím, de apresentar as opiniões de pes-
soas que estudaram mais profundameme o poder cura-
tivo de textos. Ensínam-nos que o "príncípio esperança",
que ímpregna toda a cultura da humanidade, também
permeia as fábulas, mítos, contos de fada e lendas de
todos os tempos. Especialmente as narrativas populares
79
 
que se desenvolveram espontaneamcnta p. ex., as histó-
rias de caravanas e as parábolas religiosas, revelam ca-
ractcrísticas semelhames: contêm um ensinamento e uma
promessa. O ensinamento é simplesmente uma lição so-
bre a arte de viver. Fala de algum aspecto das atitudes e
comportamentos humanos que promove ou inibe a sa-
tisfação com a vida. Com relação à promessa a coisa é
mais difíciL De um lado está relacionada com 0 pólo
positivo do ensinamento, justamente o prenúncio de que
tudo sairá bem, se cultivarmos o aspecto positivo da vida.
De outro lado, através de sutis alusões, a promessa vai
maís além do ensinamento e se toma uma autêntica p0r-
tadora de esperança, ao prometer um resultado funda-
mentalmente bom, que até mesmo uma vida limitada
ainda encerra. 1
Hoje em día tanto os ensinamemos como a promes-
sa perderam prestígío. Tomamo~nos suscetíveis em rela-
ção às "pretensões" e aos bons conselhos de autor1'dades.
Apenas o testemunho da própria vida ainda tem autori-
dade e este é raro. Também nos tomamos desconfiados
em relação a promessas que poderiam acabar mostran-
do-se 1'rrealistas. A fé em um ”mundo são e salv0" e na
possibilidade de que ainda possa vir a sê-lo caiu para
zero. Com essa hipersuscetibílidade e essa desconfiança
perderam-se as chances de asnarrativas populares atua-
rem como o que de fato são: fontes de ajuda e de conso-
lo, guia e orientação nas crises.
Como exemplificação apresentarei oito breves tex-
tos, analísarei sua capacidade de ensino e os relacíona-
rei com métodos terapêuticos, visando à redução de dis-
túrbios psíquicos. Além disso, tentareí extrair deles a
promessa oculla no seu duplo aspectoz como o dever que
reluz no "arco de tensão entre o ser e o dever" (Frankl),
em que se move continuamente a nossa existêncía, e como
referência a um ”sentido supremo" (Frankl), uma espé-
80
V
cic dc "último" no quzll nossus Cs.'pcmnças zninda podcm
¡-e'1.lizar-sc, mcsmo qunndo o dcvcr Ínlh(›u. É como disse
0 pintor Paul Klee ncstas bclas palavmsz "A artcjoga com
as coisas suprcmas um jogo quc nào conhccc e conludo
as alcança".
1. A cova (Michael 7i'tze):23
Outro exempzo ofcrece-nos a seguinle lendu da vida
do grande doutor da Igreja Agostinlza Quando ainda era
¡^ovem, assim reza a lenda, estava caminhando numa praia
deserta. A imenm fbrça do mar bravio levou a especular
sobre as misteriosas forças que mantêm o Lmiverso em
movimenta Enquanto assim quebrava a cabeça, viu de
repente uma criança que com uma concha pegava dgua
do mare a colocava numa cova aberta rza areia. Agostinho
deteve-Se, observou a criança por algum tempo e pe›g'un-
tou~lhe o que estava faãzenda A resposta fbi risivelmente
absurda: "Estou colocando todo o mar na cova!" E quan-
do o grande sábio, sorrindo, replicou que isso era totalmen-
te impossíveL a criança revidou que era mais fãcil colocar
a água de todos os mares numa pequena cova que a razão
humana compreender 0 místério da Criaçãa
A lição do texto é clara. “Inclina-te diante do misté-
rio", diria Viktor E. FrankL24 “Não queiras pegar as es-
trelas", "não discutas com o destino", “não quciras pedir
explicação dos caminhos de Deus!”
Lembro-me de uma paciente de 63 anos atormenta-
da por terríveis medos. Quando estava para fazer uma
viagem passava semanas pensando no que faria se adoe-
cesse no exter1'0r. Lembrava-se de artigos de jomais que
falavam de comida estragada, e na ímaginação se vía
desamparada num mofado quarto de hotel, atormenta-
81
da por cólícas, scm condiçõcs de scr trunspurluda dc \'(›l«
ta para casa. Com pânico scmelhanIc rcugiu u outms
acomecimentos ou progmmas incomuns dn vida c só sc
scntía maís ou menos bem no estreito mundo do dia-a-
día na sua própria casa. Tudo isso para grande desgosto
do seu marido, que, ao comrário dela, apesar de já ap(›-
sentado, cra um homem empreendedor e atívo.
Por que a pacíente sempre e em toda parte vía o lado
negativo da vida? Teria sofrido experiências amargas que
alimemavam os seus medos? Só em parte. Seu paí m(›r-
rera na gucrra, não se entendía com o padrasto, fugíra
do extemato para a casa de uma irmã mais velha. Certa-
mente este não era o melhor "prelúdio" para a composi-
ção do seu desenvolvimento pessoal. Mas depois veío um
período de tranqüilídade. Seguiram 18 anos produtivos
como assistente de Iaboratório e, ainda que seus relacio-
namentos fossem mutáveis e um tanto insat1'sfatón'os,
desenvolveu de forma constante a sua personalidade.
Fínalmente veío 0 casamento, que continuava até o pre-
sente. Tudo somad0, não havia motivos suficíentes para
a sua crônica visão pessimista da vida.
Mas havia outro pont0. A pacíente recebera uma rí-
gida educação religiosa. Mais tarde qcompanhou a ten~
dência predominantemenle anti-relig10'sa dos anos 60 e
70 e entrou na onda da “aulo-realização". Já se havia liber-
tado disso, sem todavia conseguir fixar-se numa nova
crença. No diálogo soltouz "Não consigo aceitar que haja
tanto mal no mund0. Isso me deixa muíto triste. Milha-
res de pessoas inocentes sofrem, morrem de fome. Sería
melhor que não tivessem nascido. Em toda pane destrui-
ção e ruínas, discórdias e violência, aumentam as catás~
trofes naturais e não há perspectiva de que a miséria um
dia acabe. Não pode existír um 'bom' Deus que assista a
tudo ísso de braços cruzados. Ou Deus não exíste, ou está
irado e deixa o mundo entregue à sua própria ruína".
82
O quc podcriu cu rcsponch Pmcchiu zx Ivlnçuu cn›
trc o fulo dc u pncicnlc nàn conscguir inlcgmr ns lmlos
sombrios du vidu com 21 imugcm LlU mundn c dc I)cus., U
0 pânico que scx 'iu, rcccundo quc cssus sombms sc ulxr
tesscm sobrc suu próprin VÍdLL Mus cu nuo linhu umu
explicação 21 (›íCl'cccr-lhc. Tudo (› quc cu tinhzl c Icnho
em relação a isso é cnnfíunçzL Ern possívcl "lrun.smili-
]a”? Tomci o lcxlu Lln lcndzl dc Agoslinlm c coloqucLo
sobre a meszL “() mzlr não cabc nu cnva nbcrtu nu 11rcin.)'"
perguntei cm voz baisz
A paciente pcrmancccu .s'ilcnci(›su. Algo ngin nn ~scu
íntím0. Depois dc alguns momcnlos lcvumou 0 ollmr c
sorriuz “Poís dissc, ”com ccrlczzl minhu mlxño é comn
uma pequena C()va. Há muíta coísa quc não cabc nclzL
Talvez eu devessc parzlr dc indagar coisas que não com-
preendo". "E tírar conclusõcs disso", complclci cu. A
paciente ría. "A senhora lcm I'azã(›". Vollou a assumír
um ar de seriedade. "Mas em que enlão devo acrcdilzu?"
"O que lhe diz seu coração?" "Ainda sonha comdcsviairrpor
nenhuma dificuldade! Vá sem hesilaçào e sem medo!"
der iITeHetidamente aos desejos do momenlo? Ccrtamem
te nã0. Aqui não se trata da chance rcal de sobrevivência
de insetos que procuram alimento em auto-eslradas. O
símbolo põe a lagarta diante do maravilhoso vcrde co-
mestíveL da mesma forma Como o ser humano se encon-
tra frente a um objetivo que o chama profundamenlc,
cuja visão antecipada lhc dá forças. O desejo de alimen~
to da lagarta é o correspondeme animal da busca dc sen-
tido por parte do homem. Por isso, guiada pela inluíção,
"ela" ("ele"), Lem que ir para lá, atmvessando a zonn de
perigo, de desvíos e possível fracasso...
Recordo-me de uma pacíeme dc ló zmos dc idade
que recebera alta àpós uma intemação dc 8 mcses numa
clínica psiquiátríca, sem progressos significalivos. Dcvc~
ria tcr melhorado no sentido da normalização do scu
comportamento alimentan Mas em vez disso, ocorreram
retroccssosz abandonam a cscola, pcrdcra amigas, o rc-
lacionamento Com a mãe estava pior que nunca, deixaru
85
de lado os lzobbies e a auto-estíma da moça era extrema-
mente baixa. "Para mim não há maís solução", foi uma
 
__L_____g_____dasrimciras fáñhasesue dela ouvi.ezessels anos e ne~
n___L_p__*humaers ectíva de futuro?
_Não m%=elccrdi t_p__emocwomoatewa
 
 ;cartaqo me OTesvaTñuo Weaaalomeses e
muíto tempo para a reconstrução de uma tragédia. Prí-
meiro o horror de uma relação triangular e o dívórcio
dos pais, depois a mãe profissionalmente sobrecar-
regada e a freqüente solidão da filha adolescente. Pou-
co mais tarde a "compensação" da comida, que levou a
um enorme excesso de peso da moça, e as consequ"en-
tes zombarias dos colegas da escola. Para fugir do ape-
lido de “porca gorda”, depois de cada refeição enfíava o
dedo na goela e vomitava. A bulímía seguia o s'eu curso.
Jejuns extremos eram altemados com gula voraz, a cir-
culação oscilava, a mãe xingava, o paí divorciado dis-
tanciava~se, ela perdeu o curso, aproximava-se o colap-
so. Os professores preocupados aconselharam uma
terapia, o psicólogo recomendou uma intemação em
Clíníca, os médicos da clínica prescrevíam sedativos e
pediam disciplina. A disposição da moça oscilava entre
depressão e rebelião. Algumas manifestações de amea-
ça de suicídío levaram fínalmente a um longo confína-
mento em estabelecímento fechado e uma total apatia.
Nada adiantava e a paciente sem perspectivas foi devol-
vida à superocupada mãe.
E agora a jovem de 16 anos estava sentada à minha
frente e lia a poesía de Otto Wiemer, que eu acabara de
passar-lhe. "Seis metros de asfalto... 20 automóveis por
minuto...Tu com pequenos tocos de pés... é isso 0 que
sentes?" Ela chorava e chorava. "Sim, exatamente isso...”
pude ouvir. Continueí a esperar. As lágrimas não para-
vam de cair, mas dei-lhe o tempo de que ela precisava.
Lentamente voltou ao normal. "Escuta", disse eu, “eu
86
 
L_____________ucrovcr o verde. Dcscrcve-me o vcrdc no outro lado
dos 6 metros dc asfalto!" "Ali não há vcrdc. Somcmc cin-
 
conseguírmos chegar a um ucordo sobre o vcrdc. Então
veio Claramente a visãoz C()I]ClUSãO do curso escolar,am1'-
gos, ser reconhecida, dançar com vestidos cleganles, uma
viagem de férias com o paí.
“Ótímo", respondi. "Agora começa a andar! Passo a
passo. Hesitar e parar não são pcrmitidos. Nem olhar
para a direita e para a esquerda. _______p__Euvou tc acomanhar
WMMQ ' dQ ." Foi um penoso trabalho de
detalhamento: transferência para outra escola com pers-
pectiva de progresso nos estudos, integração num grupo
de “vigilantes do peso" com ínformações sobre dieta e
alímentação racionaL reconciliação com a mãe e conta-
to regular com o pai, aulas de esportc, música e dança.
As primeiras notas boas e redução do peso sem prejuízo
da saúde levantaram a auto-estima da moça. Conseguiu
um emprego nas férias, com 0 qual ganhou o seu prímei-
ro dinheiro e dois rapazes paqueraram com ela. Tudo
isso também lhe foí de grande ajuda. Ainda leve uma
recaída e por poucos centímetros 0 "Camínhão" não a
atropelou. Mas ela chegou ao destin0.
Nesse caso o texto cumpriu a sua promessa OCLlltZL
A promessa de chegada, mesmo que à prímeira vista pa-
recesse não haver chances. A promessa de chegada, des-
de que haja perseverança e coragem. Não ousaría julgar
a dimensão dessa promessa em toda a sua amplitude. É
possível que no “j0go poético com as últimas coisas" seja
maior do que pxensamos Pois se a lagarta simboliza o ser
humano na sua dígnidade indeclináveL ela chega ao seu
destino mesmo que seja atropelada e morra.
87
, 3. A corrente de ar (Anthony de Mello):26
O salão esrava apinhado de gente, a maioria senhoras
idosas. Tratava-se de uma conferência sobre uma espécie
de rzova religião ou seita. Apresentou-se um dos oradores,
só de turbante e calção. Falou eloqüentemente sobre o po~
der do espírito sobre a matéria, da psique sobre o corpa
Todos ouviam atentamente. Finalmente tenninou a sua
fala e voltou a sentar-se no seu luga›: O vizinho dirigíu-se a
ele eperguntou-lhe num sussurro: "O Senhor realmente acre-
dita naquilo que disse, que o corpo não sente nada, que tudo
acontece no espírito e o espírito pode ser conscientemente
influenciado pela vontade?" O Charlatão respondeu com
piedosa convicção: “É claro que acredito". Ao que retrucou
o vizinho: "Emã0, por favor, troque de lugar comigo, pois
estou sentado justamente no meio da corrente de ar".
A sabedoria do texto é transmitida através do hu-
mon Mas não se deve subestimá-la. A advertência é sé-
riaz “Não te afastes do chão, mantém teus pés sobre a
terral Nos altos vôos dos teus sublimes pensamentos não
esqueças que a competência e a Capacidade dependem
de um 'instrumento' intato do espírito human0, que tam-
bém pode negar o seu serviço".27 Ou ainda mais seria-
mentez "Não esqueças que és pó e ao pó hás de tomar..."
Idealismo é bom, entrelaçado com realísmo é melhor
aínda.
Lembro~me de um paciente de 33 anos de idade,
desempregado, diagnosticado como um caso-limite. Sua
doença, que beirava a esquizofrenía, manifestava-se em
estranhas idéias supersticiosas. Tinha de fazer penitên-
cia pelos muitos abonos pratícados pela populaçã0, rea-
lizando trabalhos que não Ihe agradavam e doando obje-
LOS da casa de campo dos pais, onde vivía. Achava que
linha de fazer penitências tais como autoñagelação, pas-
88 
ívsardias sem beber nada para aplacar os podcrcs cclcstcs
irados e afastar a desgraça do mundo. Scm dúvida uma
imagem imimidantc dc Deus estava conjugada com a
predisposição doenlia do pacícnle para idéias fixas, des-
proporcionais e isso o catapultava num mundo amcaça-
dor de idéias distorcidas.
Eu sabia que de nada adíamariam argumcnlos. Ex-
plicações bem-intencionadas para combatcr as sombras
de um delírio em ascensão era percla dc tempo. Dírigi-
me aos pais do rapaz que, depois dc váños anos dc tcnta-
tivas frustradas em busca de ajuda para o fílho, estavam
cansados e resígnados, e dei-lhes o texlo de Anlhony de
Mello. "Não é a mente do seu h"'lho quc cstá confusa",
expliquei. “Seu ñlho está, por assim dizer, scntado na
corrente de ar, ele sofre de distúrbios no mctabolismo
das células newosas e precisa de remédios apropriados.
Isso é absolutamente prioritário. Só depois que 1ivcr sído
eliminado a 'corrcme de ar' e o tu~ncíonamcnlo dc seu
organísmo estiver de alguma forma equilibrado, é que
poderemos discutir com ele assuntos religiosos, entre
outras coisas." Os pais replicaram que alé cnlão clc ti-
nha boicotado todas as receitas médicasx Ponzxnto scria
necessário admin1'strar-lhe os medicamentos scm 0 seu
conhecimento e cooperação. Como passava dias scm
beber nada, isso era difíciL '*›davia, ;. mãe cncontrou
uma soluçã0. Místurava os Comprimidos triluradus na
refeíção matínal de Ccreaís que lhc prcpzuuva.
Doís meses e meio mais tarde reví 0 pac1'en1c. Havia
pouco tempo começara a trabalhar numa floricullurLL
na confecção de coroas e gostava da nova alividadc. Até
planejava cultivar coníferas no jardim que fazia parlc du
casa de campo de seus pais para confcccionar cnfcilcs c
coroas de sepultura a seremvcndidas no Dia dc Fínados
e no NataL Encorajei-o no seu plan0, registrando com
salisfação que elc agora sc dedicava scm hesitação a um
89
_-..._..___'
trabalho que lhe agradava. "C0mo é que vo~ê chcgou a
esse trabalho na floricultura?" “Bem", sorriu 0 pac1'ente,
“eu sou guiado". Não era conveniente discutir essa pro-
fissão de fé. Mas por segurança insistiz “Bem guiado?" O
seu rosto tom0u-se sombri0. "Somente se eu nzío come-
tcr nenhum pecado..." O medo reaparecera. Mas ele não
eslava mais sentado no meio da "Corrente de ar". Os
medicamentos linham fortalecido 0 seu sistema newo-
so. Agora era Capaz de enfrentar seu medo com meíos
espiriluaís. "Por que quer saber isso?" replicou. "Parcce-
me que precisamos ser guíados quando estamos extra-
víados. Sc 0 camínho for reto e simples não há neccssi-
dadc de guía." Ele comprccndeu. No decorrer dc nossa
intensiva análise de diferentes modos de ver passou a
adotar um modo mais indulgente. E acabou tomando
uma limonada comig0!
Passaram mais doís meses e meio até convencê-lo
da necessidade de tomar regularmentc os medicamen-
tos. Inicialmcme resistiu, mas depois Começou a traba-
lhar como ajudanle num caminhão de uma firma ataca-
dista de Horicultura e não queria pôr em jogo o seu
emprego. Assim acabou ccdendo ao ineviláveL o que lhe
valeu uma melhora substancíal de qualídade de vída.
O ser humano é "multiplicidade apesar da unidade"
(Frankl) e quem esquece isso não conhece o homem. In-
l'___!+T_í_Lg_cll”/memea sícologia, Com sua rigorosa preocuaa_'o
_T_r_____r_a_í__'___g_descr cíentífica, tende a suprimir a ama e o lado cs írí-
tua no omem, enquanto os í eres e scítas, benzedores,
d___g_g______g______qgma_cma nelienciar a rcalidade orâníca c fisíol" do
homem Todavia na história acima ressoa uma promes-
szl consoladora: o§r__'_lr_'#___g__queé válid0, o que é Certo a arecer_7_á.
0 quc é falso e ílegllmocomoosOlelosdoorad0'"""r de
rurbamc" um dia, desmascarado pelo bom senso, se re~
velará absurd0.
90
 
 
4. A mão léchada (N0ssrat Peseschkíankm
0 mulá queria pcgar nozes para a sua csposm pois
esta lhe pramcrera làzwtllze fescnjan, um pram que c' prc~
parado crmz nozasz No amegozo da xua cmnida ¡›rcdileta.
o mulá cnfíou a mâo no /L'md(› da vasiUza de nozes c pc-
gou toda a quantidude de nozes que cabia na sua mã0.
Quando lemou rctirar a mu'(›, não conseguizL Por nzais
que puxasxçe e Io›'cessc, 0 gmgalo da vasillza não libcrava
a sua mã0. Gemia, bufkwa e ¡n'aguejava, e nada. Sua
mullzer segurou a vasillza e puxou-a com loda a Iowrça do
seu peso, mas também sem resultada A mão eslava pre-
sa no gargalo da WISÍÍÍHL Dcpois dc muitas tenlativas i›1-
frutíférasy Chanzaram os vizinhos. Todos observavam Com
o maior interesse 0 espetáculo que sc llzes aprcsentava.
Mas um deles dissc ao descsperado mulá: “V0u ajudáJo
se você fíàerexatameme aquilo que eu disser". "Farei tudo
o que você dissen se você me livrar dessa nzaldita va$i-
lha!" "Emão enfíe novamentc a mão no limdo da vaszl
lha." O mulá achou isso muito estranho~ Porque deveria
novamente enfíar a mão no fzwmdo da vasilha, se queria
exatamente lira'-la? Mas féz o que o vizinho lhe ordenou.
Este continuou: "Abra a sua máo e deixe cair lodas as
nozes que você está seguram10". Essa e.\'igéncia dcsper~
tou a indignação do mulá, pois queria tiraras nozes para
a sua comida predileta e agora devia deixa'-las Cair/ Relu-
tante seguiu as instruções do seusalw1dor. Este ins_s'e-Ílze:
"Estreíte bem a sua mão e devagarpuxe para fbra E scnz
difículdade o mulá puxou a mão para fbra da vasilluL
Mas não estava tota_lmente satisféiIQ ”Agora nzinlza mão
está livre, mas onde fícaram as noze$?" O vizinho mnzou
a vasilha, virou-a de boca para baixo e deixou Cairqzumlas.'
nozes o mulá queria. O mulá fítozbo com assombro c
murmur0u: "Você é um mágico?"
91
àk A história gira em torno do antíquíssimo tema do Tenta sem parar. Com o crescimento da fome, a galinha
redobra seus esforços, agita-se, bate as asas e dá bicadas
para todos os lados. Tudo em vão. A grade resiste. Se
ninguém a ajudar, a galinha morrerá de fome. Contudo
bastaria que "agisse paradoxalmeme", ou seja, virar-se e
rodar no sentido contrárío do alimento para sair da gaio-
 
ídade tanto mais ela nos foge. O que desejamos possuir a
 
 
, ¡ t_____a_5*odocusto subtrai-se a nós. Há pessoas que urante oa
34 ' pane da vida andam atrás d'-_l"__rT'arealzaça e mmesq
ÊWn-___-___b_.uncao alcançam. As coisas não se sumetemú à Força _'
e_Q__L_____uamomais reciosas tanto menos. O maiis belo, o mais
 
›_q____________*uen'do,o mais sublime encontra-se fora do alcatnrcre de'
qua_g__luerfact1'bi]idade. pú V V "
Mas essas mesmas coisas se nos oferecem em momen-
to de graça. De maneira totalmente inesperada entram com
passos suaves em nossa vida e a envolvem de bn'lho. Re-
pentinamente a ventura penetra num coração inquíeto e
o recompensa de todos os soñ1'mentos. Uma onda de _afe-
LO interior inunda uma pessoa que sabe não mereCê-la. O
que não se deixa aganan encomendar ou fazer apresenta-
se sem mais e anínha-se em nossa mão vazía, abena.
Na psicoterapia muitas vezes temos de tratar não
com a mão aberta, mas com a mão fechada da parábola.
Com as garras em nozes que a vasilha não libera. Víktor
E. Frankl, Paul Watzlawick, Milton Erickson e outros
pesquisadores pioneiros descreveram de forma impres-
síoname esse fenômeno que pode ser demonstrado até
alravés de experimentos com animais. Toma-se uma ga-
linha faminta que se coloca numa gaiola composta de
apenas três paredes de grade de arame. Do lado de fora
da parede do meio coloca-se uma tigela com comida.
:GALINHA)> \
Naturalmente a galinhaquer correr em direção ao
alimento que vê através da grade. Corre contra a grade.
92
\\
la, dar a volta e chegar à tígela de comida sem nenhuma
dificuldade.
A galinha não tem acesso a esse conhecimento. In-
felizmente muitas pessoas, apesar do seu horizonte de
conhecimento essencialmente mais amplo, enredam-se
num processo semelhante, tentando passar com a cabe-
ça pela parede. Por isso a lição dada ao mulá da história
é estaz "_1_____q________A'acomo se você uisesse o contrário do seu
obstinado desejo!” Concretamentez “Enfie o braço na
vasilha! Abra a mão! Solte as nozes!" E: “Não se agite,
pois o que tem valor lhe será dado!" Concretamente: "As
nozes caem por si mesmas do vaso virado para baixo,
caem ao seu encontr0!”
Recordo-me de uma paciente de 41 anos, que passa-
ra por uma mastectomia. Por ocasião do tratamento
psicoterapéutico pós-operatório contou-me os dissabo-
res da sua vida. Sempre quis ter um marido. Já quando
moça jovem devorara principalmente romances de amor.
Sempre sonhara com uma relação româmica Cheía de
temura, juras de fidelidade e uma fascinante vida a dois.
Mas não apareceu o homem certo. Passaram décadas de
frustrantes malogros. De repente, como por milagre, de-
senhou-se o an51'ado~romance com R., um corretor de
seguros. E justamente entâo, quando finalmente lhe sor-
ria a felicidade, veio o golpe do destino sob a forma de
um diagnóstico de câncer. No meio da vida foi necessá-
rio que lhe retirassem os dois seios.
Qual foi a reação de R.? Inseguro, hesitante, reser-
vado. Ela não suportou isso. Bombardeou-o com cartas
93
 
e telefonemas, evocou as belas horas passadas com ele e
que1'xava-se da sua ínfelícidade. Ele começou a dístan-
ciar-se. Suas queíxas de que ele a visitava pouco leva~
ram-no a tomar ainda menos freqüentes as suas visitas.
Suas queíxas de que ele não a compreendia provocaram
uma compreensão ainda menor da parte dele. O relacio-
namento cessou.
Quando a pacíente leu a meu lado a hjstóría de Pesesch-
kian, exclamou indignada: "O que é que a senhora quer
sugerir com ísso? Que eu deíxe R.? Devo renunciar à
minha felicidade? Não tenho maís díreito a nenhum
amor?" “A senhora leu a história até o fim?” replíquei.
Ela voltou a aprofundar-se no texto. Seguiu uma pausa
em silêncio. Mais tranqüila dírígiu-se a mím, "Então o
que a senhora me aconselha?" "O que seria o oposto da-
quilo que a senhora deseja para si?" Sua resposta veioprontamentez "Que R. procure uma oulra mulher, boni-
ta, saudável e eu esteja novamente sozinha”. "Talvez a
senhora. devesse oferecer-lhe exatamente isso", reHeti em
voz alta, "pelo menos liberá-lo para uma eventual nova
amizade, parceria, se quiser." "E eu? Onde fico eu?" repli-
cou a pacíente.
Fui tomada de profunda compaixão pela senhora,
mas isso não a ajudava em nada. Somente o soltar, dei-
xar de agarrar-se podía ajudá-la. Por isso continuei argu-
mentandoz “Se R. só fica com a senhora por pressão, a
senhora já o perdeu há muito tempo. Se tentar acorrentá-
lo a si, fazendo-o sent1'r-se culpado, vai afungentáJo com
toda a certeza. Mas se honesta e sinceramente deixar que
ele tome suas decisões futuras, conforme as suas verda-
deíras ínclinações, isso de qualquer maneira será útil à
senhora. Em vez do contínuo tormento pelo medo de
que ele a deixe, serão possíveis duas coisas: ou uma se-
paração amigável ou um cauteloso recomeço". "Uma se-
paração não agüento", gemeu a pacíente. "Agüenta sim",
94
 
›
i
K
repliquei. “A senhora tcm as suas próprias pemas. Nã\0
depcnde dc um homcm que a namore ou nã0. Está na
hora de a senhora tomar consciência das forças quc tcm
no seu interioxt" Apontei para a históría. "A vida ofcrccc
muitas Oportunidades Cheias dc semido. Para todosz Para
casaís e para solteiros, para pcssoas sãs e para pessoas
doentes. As nozes crescem em toda partc. Mas alençãoz
a mão deve saír da vasilha.' Caso contrário, cm lugar ne-
nhum conseguirá pegar nozes!"
Com muito sofrimento a pacíente seguíu o meu con-
selho. Depois de uma sofrida fase de transição o amor de
R. para com ela resístiu à prova.
Até aqui a lição da história. Sua promessa supera-a
em poder de cura. Uma pessoa fixa-sc em algo. Fica pre-
sa. Esforça-se ínutilmentc. Chama outros em seu auxí-
Iio. Estes olham com imeresse. Um modelo que já conhe-
cemos...E entâo a promessaz existe alguém que ajuda.
Tenha certeza disso! Alguém que o salva. Quem é ele?
Um vizinhoP Um mágico? Não importa em que forma se
apresenta. Ele está presente e ajuda.
5. As almofadas de seda (Nossrat Peseschkian):29
Um califa gravemente doente estava deitado entre suas
almofadas de seda. Os médicos do país que o cercavam
finalmente concordaram entre si que só uma coisa podia
salvá-lo: a camisa de um homem fevliz, a qual devia ser
colocada debaixo da cabeça do caliíkL Partiram enulssánbs
em todas as direções e em cada Cidade, em cada aldeia, e
em cada cabana procuraram um homem fe'1iz. Mas todas
as pessoas abordadas só tinham preocupações e afliçõe5.
Finalmente encontraram um pastor que cuidava do seu
rebanho rindo e cantanda Perguntado se era fe'lz'z, respo›z-
deu: "Eu não posso imaginar ninguém mais fàliz que eu".
95
dt
 
"Entã0, da'-nos a tua camisa", Támmos emissários. O
paslor respondeu: "Não tenho nenhuma”.
Esta fiuslrante notícia de que o único homem feliz
encontrado pelos emissários não tinha camisa, fez O califa
refletin Durame três dias e três noites recolheu-se na solzl
dão. No quarto dia, finalmente, mandou distribuir entre o
povo as suas almofadas de seda e suas pedras preciosa$, e
desde aquele momento, diz a lenda, voltou a gozar de saú~
de e felicidade.
Esta parábola continua a líção da anterior. A felici-
dade não é algo exterior, não pode ser adquirida por meio
do ler (ter uma camisa). É algo interior, faz parte do ser
do homem. O símbolo do homem feliz é ser “nu".
Que aqui não se trata da glorifícação da pobreza é
expresso pelo simbolismo da figura do pastor que tem
emprego, talvez até seja dono de uma cn'ação de ovc-
lhas. Ele tem uma tarefa que desempenha "rindo e can-
tandoP__Th_-__T____equee garante o sustemo a sua vida. O impor-
t______Lp_______J______ç_~a_Í__T_'___-b-Hq_ã_cr\neeestaaerla ura no seu traaoaeícaao ao
se__ç__q_____p_____p___rvioue realiza e a simlicidade de não recisa_r clc
maís nada.
Um contraste com isso, o rico califa entre suas al-
 
 
se__1_'f_d_d__â_t_'5__d°'§prewemasamoaasesea,amemsuaspera'-
c1________p_______un__&e_'o_m_-CTT___-Wsase suorinaose ouco lhe adíana xuñtzv
11_que
podem acometer um indivíduo, constituem obstáculos
psíquicos extremos, que, além da necessária terapia
medicamentosa, requerem a ajuda de díálogos de apoio
e reabilitação. Nesses casos falamos de “cura médica de
almas" na logoterapia.
É curioso que situações dc vida positivas e até exce-
lentes também podem desencadear "distúrbios de adap~
tação”, fato que Reinhard Tausch estudou sob a denomjll
nação de "pr0blema dos objetivos alcançados". Quem tem
muito (nã0 só bens materiais), quem conseguiu realizar
grande parte do que desejava e se propunha, "corre o ris-
co do vazio", com referência ao vazio existencial descri-
to por Viktor E. Frankl. Quer dizer, está ameaçado por
uma crise de sentido. A vida fácil torna o indivíduo pre-
guiçoso, indeciso, ínsensível. Alastram-se tendências nar-
cisistas que ímpedem uma inserção construtiva neste
mundo e a sensibilídade pelas necessidades dos outros.
As conseqüências pessoais são catastróficas e exigem for-
ças contrárias que sacudam a pessoa. Isso pode ser feit
através de uma intervenção logoterapêuticar
Finalmente cabe ainda mencíonar aquelas pessoas
qmmm__I/__p___ueemN_T__-boranão tenham que arcar com o eso e__uma
c____&gâ_______,§nas_udasruz,sentem a ta ea o essencialem ' .Dese-
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
jam fonalecer sua personalidade, fundamentar sua iden-___/
11
 
tidade, buscam padrões e pontos de referênc1'a. Em prin-
cípio são pessoas que estão procurando a Deus. Inda-
gam-se sobre as “coisas supremas", buscam uma causa
digna de fé que possam abraçar. Às vezes as suas pergun-
tas são feitas indíretamente e só depois de algum tcmpo
revelam-se as suas inquietações ocultas. Certamente a
logoterapía não podre oferecer respostas teológicas, mas
pode lançar um_'a püoinwte para que se possam ouvir aque-
las respostas que brotam da espiritualidade inconscien-
te do ser mais profundo (ou mais elevado) dos própríos
interrogantes. Para cumprir tal função de ponte, dispõe
de "ferramentas" como nenhuma outra psicoterapia.
Wãçtelivro tratará desses Wroemasndamentais d
s”e4'r humano, em como da v1sa0 e os meto os terapêu~
tícos da logoterapia. Nosso objetivo não é opor uma es-
cola de psicoterapia contra outras correntes, mas discu-
tir 0 dilema da pretensão da psicologia e psicoterapia,
corno um todo, de trazer a salvação e apresentar uma
nltcmativa.
Vamos primeiro discutir o dilema. Este consiste nu-
mhzr____a_____p_§___lainsolúvel tensão entre a retensão vinda “de cima_"
d____/_dçj_e_msnm1ç\_p_aparte as universi a ' ' ' ões es eciaáliizadas
Adeconferir a tais disci linas um caráter C_iern_t_1›'fico,_e.r a
busca de um substituto da religião, vinda “de baixo", da
pafrrteeâmruitaüspçs§Qa__s_d_arñVnossyaiépocari qureÀrpeVrderam
to'd'#os os vínculoí metafísicos. As irmãs psicologia-psí-
cbÍeArapia oscilam exatamenfe éhtre esses dois reclamos.
Mas não é confortável sentar-se "entre duas cadeiras".
De um lado, desde o tempo de Freud a psicología-psico-
terapia namora as ciênc1'as___naturais e conquístou na psi-
cologia e na terapia do comportamento uma base sólida,
com a qual, protegida por um estríto empirismo conse-
guiu finalmente livrar-se do incômodo estigma de Char-
1atanismo. De outro lado, sujeito ao critério endeusado
do controle estatístico, o objeto de estudo ficou mais ou
12
 
D
menos a meio caminho. Tornou-se lugar comum falar da
“psícologia sem alma", expressão que com razão foí crí-
ticamente ampliada por Viktor E. Franld, ao falar de uma
"psicologia sem espírit0". Nesta brecha entraram então
os mercadores do espírito e de e_p_________Wíritosde toda soe, e
sob 0 manto da psicologia passaram a vender tudo o que
se pode imaginar no mercado das concepções do mun-
do: seilas, superstições, castelos no ar, mundos imaginá-
rios. Em todos os tempos, foi florescente o comércio com
o sofnm“e“tnoea1gnoranc1a.-___*_\_--4'
N_VeAssré singAúÍawrr espaço entre ciência e religião e, den-
tro da Ciência, entre as ciências naturais e as ciências
humanas ou do espírit0, e___g_____ntreo em írico e o fenomeno-
lógico, entre demonstração e evidêncía e, paralelamente
a isso, no plano comercial, entre ajuda e fraude, encon-
tra-se a psicologia-psicoterapía lutando por uma imagem
positíva. É, pois, de admiran que os seus resultados tar-
dem a aparecer? A ambigüídade de pertença das duas
disciplinas é a sua desvantagem. Nem mesmo as normas
legais conseguem tirá-las da terra de ninguém ou de to-
dos em que se vêem lançadas.
EmWface do dilema descrito, a linha de ensamento
d_fg______'_g_lemsbesenv'ov1 aor 1 or . ran é eníalO'r-
ma exatamente a desvantagem numa obra magistraL
FWnoca lzou a sua o otera ia aramentmeTno omem.
E4M#all'ue deve concentrar-se, este é o seu lugar p__rg_fu_nrdo
e indíscurtríveL Mas cáomo o Vhromrem é um ser pluridimen-
 
 
sional, embora não necessariamente um ser intermedÍáÍ
rí___________g\ív__q___o,tambémumadoutrinainteral do homem, como a
logoterapia, deve ter u . -
eve dar o devialor a a, añopsoj
J v a._01_e_v_a\r“a_ serlo 1g_uvarlm7enrtñe a _he7rarnça
animal do omem e a sua niewóéssaidade religiosa, sem
darjmogoterapia no diagnóstico e na terapia é a sua margkc
_ -~\_'_~ 7 x
13
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 ___
MW
m O-antr0p010'gica apesar das diferenças
Ww diferenças entre os diversos modos cgre
M,'
WL
A sua capacidade de unir as Ciências naturais e as ciên-
cias humanas e, mais do que isso, de transcendê-las ao
uni-las, é o seu selo de qua11'dade. Em 1965, por ocasião
da comemoraçâo dos 600 anos da fundação da Universi-
dade de Viena, Viktor E. Frankl explícou isso nos seguin-
tes termos:l
Sabidamerrte a arte foi definida como a unidade na
multiplicidade. E eu proponho definir o homem como
Lmidade apesar da multiplicidade. Pois há umañunidade
o ologmzcñwga
Jársen A característica
da existência humanaeacoexzstencazfm da unidade antro-
pológica com as diferenças ontolo'gicas, do ser unitário do
MPML homem com 05 diferentes modos de ser, de que participa...
Naturalmente o cientista precisa manter a ficção de agir
como se tratasse de uma realidade unidimensionaL Mas
mmbém deve saber 0 que faz, quer dizer, deve estar cons-
ciente das fontes de erros, dos quais deve desviar a sua
pesquisa...
Se eu, por exemplo, projetar personalidades como Fe-
dorDostoievski ou Bemadette Soubirous no plano psiquiá-
trico, então para mim Dosloievski não passa de um epile'p-
tico como qualquer 0utro epile'ptico, e Bemadette e' apenas
uma histérica com alucinações visionária$. O que essas
personalidades são além disso não aparece no plano p$i-
quiátrica Pois tamo o valor artístico de um como o
encontro religioso da outra encontra-se fora do plano psi-
quiátrico, no qual tudo permanece ambíguo até que se tor-
ne transparente em relação a outra realidade, que pode es-
tar por lrás ou por cima... T__f___g______q\_odapatolo ia re uer um
diagnóstico, na diagnose, um ver atrave's, uma rLeer7ê_ncia
a'0'T~_--\_ogosque se encontra por tra'$_d'0 páthos, 0 sentido que
_T_____-___~r___~_r
/
 
o sonmento Iem.
'7
 
14
( vÉ
mras M/
Jmo
Í
/
Portanto, figuradamente faland0, a logoterapía não
está sentada “entre” duas cadeiras, mas "sobre" duas ca-
deiras que transformou numa base íntegrada. E este é o
seu grande mérito. Não ignora, de forma alguma, a base
psicofísica, sujeita a distúrbios, da existêncía humana e
para tanto desenvolveu um receituário de prescrições
médico-terapêuticas. Mas tampouco ignora a personali-
dade espíritual do ser human0, a “centelha divina” na
"argila”, que dá testemunho de uma indômita força cria-
dora. É uma cura de almas, mas uma cura médica de
almas, é uma psicologia, mas uma psícología espiritual
- as duas cadeiras fundiram-se numa unidade sólida. A
terra limítrofe, a terra de ninguém entre doís reinos, tor-
nou-se uma “terra de promessas..."2
Antes de percorrer no espírito essa terra, ouçamos a
palavra de algumas pessoas abalizadas na matériaz
CITAÇÃO I (Han5 Urs von Balthasar)3
Como está estruturado o homem? O esquema do ho-
mem de Descarte$: um corpo que funciona simplesmente
como umasar disso, na sua forma mais branda também é "en-
contrável". Onde? No simples e diário cumprimento da
tarefa que nos foi confíada. No dizer "sim", no sorríden-
te, cantante, “descamisado" (=incondicional) dizer “sim"
àquilo para o qual somos chamadosv
98
6. A garçonetc (Anthony de MelIo):3°
Uma fàmília senla-se mmz restauranlc para almoçart
A garçonere anota primeiro os pedidos dos adultos e de-
pois se dirige ao menino de sele anos. "O que qucres co-
mer?" pergu›1t0u. O menino ollzou tímído os Circunstan-
¡gs e disse: "Eu gostaria de um hot-dog". Ainda antes que a
garçonete pudesse anotar 0 pedid0, a mãe interronzpeu:
wada de hot-dog; traga-lhe unz bifé Com purê de balatas e
cenoura A garçonete não prestou atenção â mãe. "Quere5
ketchup ou mostarda no teu hot-dog?"pergunrou ao me-
nina "ketchup". “Em um minuto serás servido", respon-
deu a garçonete e fbi à cozinha.
Todos silenciaram perplexos, depois que ela saiu. O
menino olhou para os presentes e disse: "Querem saber de
uma coisa? Ela pensa que eu realmente exist0!"
OL_____L____g____ue0 texto ensina é alo essencial. O ue interes-
sa e slempre o indivíduoz na sociedade humana, na co-
m_____p___,_p__________g____unidadeolítica rofissional ou reliiosa e naturalmen-
te também na família. É 0 indivíduo que decíde sobre o
q_p_________,________gj,l_111_a_uearte dele e dele irradia e isso de maneira al
_______________q_____J_Â_mfluçn_automaticamentecomo Conse üência e rea ão ' ^
cias que a partir do ambiente atuam sobre ele. Não, nada
 
______p_p_______p___-________1_acontecesem assar or uma zona ca sua eSI'n'__T_tLIa1'dade,
dr____________p__,______emaneira maravilhosa torna ossível ou levianamente
ma________________isde humanídade no mund0.
Se definirmos a educação como missâo humanitá-
ria, 0 que é perfeitamente possível, é novamente do edu-
cador individual que tudo depende, no bem e no mal. Na
históría a mãe e a garçonete representam as duas alter-
nativas. Não pretendemos atribuír nenhuma má inten-
99
 
ção à mãe. Todavía a sua dominação e tutela impedem o
desenvolvímento do menino na direção de um ser huma_
no consciente de si, com um "eu forte". O_s seus sentL
m_____q________\entosainda reHetem o ue lhe é oferecido. Se não for
levado a sério também ele não se leva a sério, se não for
 
__-__)___I\. , .__ - T _
_L_¡_____R______reseltadotambem nao reseltara a Sl mesmo.sso
\
Y
m_____________p____J_À§_pg_d_kudarácom 0 seu amadurecimento esiritual m pgde
R_L__LL__I'e'udl'Cá-IOor lono temp0.
A garçonete representa a correção do comportamen-
to educacionaL Ela abre o espaço em que pode realizar.
se o desenvolvimenta Não se trata de satisfação de dese-
jos - embora essa possa ser uma ínterpretação errônea
do texto - mas do espaço para uma escolha responsável
em vez da estreiteza de uma obediêncía determinada por
outros. Trata-se da oportunidade da pessoa poder ser e
tomar-se ela própria. No ato da garçonete ignorar o im-
pedimento, o menino ouve _ talvez pela primeira vez _
a sua própria voz em si mesmo.
Lembro-me de um paciente de 50 anos de idade. De
acordo com o seu relato, durante toda a sua vida fora
dominado. Pn'meíro sofreu sob a sua mãe despótica, de-
pois casou com uma mulher de caráter semelhante e foi
oprimido por ela. Até do leito de enferma ela ainda o co-
mandava. _ Por que nunca reagiu? Dobrar-se à vontade
das mulheres tornara-se uma segunda natureza para ele.
Então, pela morte da sua esposa ficou livre dessa tortu-
ra? Sob 0 aspecto superfíciaL sim, pensava o paciente. E
sob 0 aspecto mais profundo? Ele hesitou. “Nem eu sei
bem o que quero", admitiu. "Parece ridículo, mas eu qua-
se prefíríria que alguém me impusesse um programa fixo.
No trabalho sei o que devo fazer, mas depois em casa
não me decido por nada. Para que também? Não há mais
ninguém que precise de mim para alguma coisa."
Pedi que lesse o texto de Anthony de Mello. Achou
muito engraçado. “É minha mãe tal e qual!" exclamou.
100
"E1a sempre sabia tudo melhor que eu! Nunca pude ter
minha própría vontade. Ela é Culpada por eu ter-me tor-
rlaclo tão inseguro e dependente!" “Na verdade eu queria
conversar com o senhor sobre a garçonete", repliquei._ O
paciente ficou estupefata "Que garçonele?" “A garçone-
te da históña da sua vida." "Não estou entendendo." "Deve
ter existido na sua vída. Em algum tempo e em algum
lugar", expliquei. "O senhor se lembra? Em que ocasião
lhe foi oferecida a oportunidade de sentir-se claramente
a si mesmo e defender seu interesse profundameme pró-
prio?" O paciente não sabia responder, razão pela qual 0
despedi com o pedido de pensar sobre o assunto.
Na sessão seguinte informou som'dente que tinha
descoberto a “garçonete". Era até uma mulherz uma ex-
professora na escola supeñor de comércio. Na época não
gostava de contabilidade e ela não o repreendeu nem um
pouco por isso. Só estava interessada em saber o que ele
quericL Em conversa pessoal teve a coragem de confi~
denc1'ar-lhe o seu interesse pelo direito. Resultadoz ela
conseguiu que os pais dele aceitassem uma carreira de
consultor tributário e jurídico para 0 filho. Era muito
grato a ela, mas, como tantas vezes acontece, esquecera,
não as imposíções da mãe, mas a sabedoria da antiga
professora.
“Depois que a 'garçonete' voltou novamente à sua
memória, recomendo-lhe manter de tempos em tempos
um diálogo com ela", prossegui. "Quando em casa o se-
nhor estíver em perígo de cair na passividade, na sua
imaginação f_aça a professora entrar pela sua porta e con-
verse com ela. Ela é a pessoa que pode extrair do senhor
aquilo que é autenticamente seu: a sua vontade, os seus
desejos, seus objetivos, sua paíxão, sua esperança, sua
imagem do homem que o senhor gostan'a de se1:" O pa-
ciente concordou. "Uma idéia magníñca. Vou experimen-
tar isso", disse despedindo-se.
101
 
V
A tentativa valeu a pena. Com SO anos o homem C()-
meçou a ser "realmente", a ser realmente ele mesmo.
Dissemos acima que o indivíduo de maneira admL
rável possibilita ou impede que se realizem missões e haja
um pouco maís de humanidade no mundo. Entre os
incontáveis indivíduos que encontramos na vida, há os
dois tipos. Ninguém de nós víve ou Cresce só com indivL
duos que prejudicam a nossa vída. Esta é a promesm
especial da presente história. O que uma mãe, um pai,
um antípedagogo estraga, permite-o novamente uma
garçonete, uma antiga professora, um bom amigo. Não
devemos esquecer esses ímpulsos que a vida nos ofere-
ceu e continua a oferecer-nos, independentemente e além
do nosso ambiente fam1'liar.
7. A ilha (Anthony de Mello):31
Um homem tinha passado a maior parte da sua vida
numa ilha que era considerada uma das mais belas do
munda Agora voltara para, após a sua aposentadon'a, vi-
ver numa grande cidade. Alguém lhe disse: "Deve ter sido
maravilhoso víver tantos anos numa ilha que está entre as
maravilhas do mund0". O velho reHetiu por alguns mo-
mentos e respondeu: "Para ser honesto se eu soubesse que
ela é tão famosa eu teria observado melhor".
O ensinamento da história é evidente: não perca as
maravilhas deste mundo! Aprecie-as no seu devido tem-
po, não ande de olhos fechados, viva intensamentel Seja
agradecido pela bela ilha na qual você encontrou um
hálito de felicidade em meio ao mar bravio dos impon-
deráveis existenciais. Se você notar a sua beleza apenas
após a sua partida, será tarde demais.
102
Rcc0rd0-mc dc uma religiosa de 58 anos dc idadc,
Cheia de amargura. E.\'crcer.'1 o magistério durantc ccrca
dc trinla zmos. Algumas scmanas antes do scu jubíleu
sohtm um amquc dc apoplexirL Depois clc um ano de
tmmmenlo e reabilitaçào cstava novamcnte quasc n0r-
maL Podia Camínhar e falar, apenas 0 scu rítmo era um
pouco mais lento. Fora liberada do magistério c ofcrccc-
ram-lhe uma atívidade maís leve, que fossc do scu agra-
do na Casa-mãe da ordem assim que se sentissc disposta
para isso. Também lhc deram um quarto grandc com vista
para o jardim, coisa que clesejava havia muito tcmpo.
Então qual era o problema? Em minha profissão
aprende-se a escutar atentamentc. Mas Com tocla a mi-nha empatia e atenção não consegui descobrir em quc
consistia o problema. Por fim fiz-lhe a perguma direta-
mente. Em reSposta recebi uma dura Crítica. "Como pode
perguntar isso? Por acaso um ataque de apoplexia é brin-
cadeira de Criança? Toda a minha vída está anuínadzL
Não sou mais a mesma de antes. Não sirvo para mais
nada! Também estou afastada das aulas. Sugeríram-mc
ocupações como pôr a mesa, atender a portaria, cuidar
das flores -uma lástima! Tería sido melhor se eu tivesse
morrid0. As outras irmãs dizem que eu estou com boa
aparência e que só preciso poupar-me um pouco e re-
pousar - esta conversa fíada para me consolar me dei-
xa com os nervos à flor da pele! E de que me adianta o
grande quano, se ali fico jogada Como um móvel descar-
tado no sótão?"
Depois de_ssa explosão de protesto estava claro 0 díag-
nóstico. A paciente, uma mulher Cheia de energia e al-
tamente ativa, por natureza, já havia bastante tempo
sentia-se exigida abaixo da sua CapaC1'dade, o que a le-
vou a uma depressão noóngL32 A vida tinha um gosto
insípido para ela; sem os devidos desafios e ocasiões de
provar sua capacidade, perdera 0 tempero. Sua depres-
103
 
são noógena também podia estar relacionada com uma
depressão orgâníca míníma, freqüentemente ocasiona-
da por hemorragias cerebrais. Mas em primeiro plano
estava a frustração espiritual de não sentir-se realizada e
de ser inútil na atividade de convalescente que lhe ha-
viam atríbuído.
Pedi que lesse a história de Anthony de Mello e no-
vamente fui criticada. “Se a senhora está querendo com-
parar-me com o homem da ilha, está enganada!" protes~
tou a pac1'ente. “Durante 30 anos olhei a minha ilha e
experimentei todos os altos e baixos da profissão do en-
sino. Apesar das revoluções sociais que mudaram e difi-
cultaram extremamente a situação das escolas, foi um
tempo bonito e frutífero." “Eu sei" respondi, "mas não é
a esta ilha que estou me referindo. Penso ha ilha na qual
a senhora está vivendo hoje. Minha preocupação é que,
depois de ter que deixá-la, olhando para trás, a senhora
poderia dizer: 'Talvez eu tivesse que tê-la olhado mais de
perto...' "
“Mínha ilha atual?" A paciente estava perplexa. "Mas
será que estou vivendo numa ilha?" “Sim, com certeza",
confirmeí, "e é uma das maravilhas deste mundo. Mi-
lhões de mulheres morrem antes de alcançar a idade da
senhora. Milhões sofrem fome e não têm teto. Milhões
nunca puderam exercer uma atividade profissional
satisfato'ria. Milhões de mulheres de mais de 50 anos vi-
vem solitárias e sem ajuda. Centenas de mílhares nâo
sobrevivem a um ataque de apoplexia, outras centenas
de mílhares sobrevivem com seqüelas que resistem a
qualquer terapia ou com paralisia. Mas a sua maravilho~
sa ilha encontra-se longe dessa imensa multidão de pes-
soas sofridas da mesma idade e do mesmo sexo, habi-
tando a mesma terra e apresentando histórico de doença
semelhante ao seu. Se essa não é uma ilha especial... E
cheia de mistérios! Nela há espaço para movimento, se-
104
r
 
gurança na convivência com as outras irmãs, liberdade
para novos projetos de vida. Como faz pouco tempo que
a senhora desembarcou nela, ainda não a explorou. Se
eu estivesse em seu lugar faria o seguintez iria explora'-la
até os mínimos detalhes para conhecer os seus lados mais
atraentes e suas vistas mais bonitas".
“Posso levar a h1'stón'a?" indagou a paciente com uma
Voz que tinha perdido todo 0 tom de protesto. "Para que
nenhum dia esqueça de contemplar mais de perto a ma-
ravilha que foi realizada em mim." “Com certeza", disse
eu e lhe tírei uma cópia. E assim aconteceu que a religio-
sa descobriu num canto da sua "ilha pós-ataque" uma
tarefa perfeitamente ajustada ao seu corpo (melhor, à sua
alma). Assumiu a tarefa de coletar dados históricos e com
eles escrever uma extensa história da ordem - um tra-
balho meticuloso e que exigía ampla cultura geral, que
só podia ser dominado por uma ex-diretora de escola,
exercitada na paciência, mas ao mesmo tempo cheia de
energia.
Será que além do seu profundo ensínamento, essa
história também encerra uma promessa? Acredito que
5im, mas receio que seja um pouco menos consoladora
que as anteriores. “Algum dia entendereis", poderia ser a
promessa, “mesmo que seja no fim da nossa v1'da, quantas
maravilhas cobríram o chão da vossa existência, sobre o
qual tanto tempo caminhastes sem prestar atenção". Tal-
Vez a graça consista em entender isso pelo menos no fi-
nal de vossas vidas, em vez de não entendê-lo nunca".
8. O incêndio (Léon-Joseph Suenens):33
Certa noite irrompe um incêndio numa ca5a. Enquan-
to as chamas sobem, pais e filhos precipitam~se para fora
da casa. Estarrecidos olham 0 espetáculo do incêndia De
105
 
repente notam que está faltando o caçula de cinco anos_
que no momento da fítga fzcou com medo da fumaça e das
chamas e subiu para o andar de cima. Todos se entreo_
lham. Impossível Iançar-se dentro daquilo que se está trans-
formando cada vez mais num fo'mo.
Então abre-$e uma janela em Cima. A Criança grila
por socorro. Seu pai a vé e grita-lhe: “Pula!" A críança só
vê fumaça e Iabaredas. Mas ouve a voz do pai e responde:
"Pai, eu não vejo o senhor!" O pai replica: "Mas eu te vejo
e isso basta. Pula!” A Críança salta e cai sã e salva nos
braços do pai que a pegou.
O pedido de socorro de uma pessoa é o ponto de
partida da mobilização de toda m1'sen'córdía. Ao mesmo
tempo é a condição ínicial para qualqúer íntervenção
psicológica, terapêutica, médica. Todavia nem sempre se
articula através da voz. Também sintomas Corporais e
psíquicos podem constituir pedidos de socorro; também
podem sê-lo comportamentos inadequados, anormais,
agressivos, numa palavra, “loucos".
As possíbilidades daqueles aos quais o pedido é diri-
gido oscilam numa faixa muito larga entre impotência e
poder de salvação. Na maíoria das Vezes ocorre sem dú-
vida uma combinação das duas coisas: os outros podem
fazer alguma coisa para o salvamento e proteção da pes-
soa necessítada de socorro, mas por outro lado também
este precisa fazer a sua parte, que ninguém pode assu-
mir. Esta combinação é característíca para a ajuda mé-
dica, que depende do estílo de vída sadío do paciente e
de maneira geral da sua Vontade de viver; ígualmente para
as intervenções psicoterapêuticas, que precisam até ain-
da mais da cooperação e "disposição para a Conversão"
do paciente. Sem contribuição própria - no sentído de
auto-educação, autocontrole, autocorreção etc. - não é
possível a cura físíca e psíquica.
106
JY
l
Nossa história ilustra muito concrctamemc essa
interdependênCia. Em face do perigo dc o filho morrer
queimado no incêndío, o pai não é nem totalmente im-
poteme nem totalmente capaz de salvaxz Pode reccbcr o
menino nos seus braços fortes, mas não retirá-lo da for-
nalha do incêndio. O menino precisa pular. Esta é a par-
te da sua contribuíçãa E ele tem que pular primeiro an-
tes que o pai possa apanhá-lo. Tem que pagar um
adiantamento de confiança, sem o qual a fomalha ar-
dente o tragará. Assim, em reação ao pedido de socorro
do menino segue a instrução sobre a sua contribuição
para a salvação, comprimida na palavra "pula!".
É dessa maneira que sc realízaria a ação de ajuda, se
não se inserisse um obstáculo entre a instrução e a sua
execução. Conhecemos muito bem o obstáculo na prática
médico-psicoterapêutica. Tem um lado emocíonal e um
lado cognitivo. Emocionalmente aumenta o medo da pes-
soa necessitada e cognitivamente coloca uma venda sobre
seus olhos. Tremendo e cego, o necessitado de ajuda vaci-
la entre seguir a ínstrução e entregar-se à própria ruína.
Em nossa hístóría o medo da criança aparece indireta-
mente, enquanto a limitação do seu campo vísual é men-
cionada díretamentez ela só Vê fumaça e chamas. A quem
esta imagem não lembra pessoas sofredoras de toda sorte
que também só Conseguem ver "fumaça e Chamas" ao seu
redor? Aqui, no ponto de virada extremamente sensíveL
em que a vída está em perigo iminente, entra a liçâo do
relato de Suenens, com uma guinada para o plano do alémz
"Quando não vês mais nada, Alguémte vê, e isto basta.
Quando não amas mais ninguém, Alguém te ama, e isto
basta. Quando não acreditas em mais nada, Alguém acre-
dita em ti, e isto basta. Não obstante o medo e a cegueira,
salta na confiança primordial!"
Recordo-me de uma paciente de 29 anos de idade
que estava com uma crise de fé. "Vou à igreja”, declarou,
107
 
"e não sinto nenhuma ressonãncia em mim. Os velhos
ritos litúrgicos são por assim dizer vazios de sentido para
mim. Saio da igreja e busco o princípio energético su_
premo nos cimos das árvores, nas nuvens, nas estrelas...e
não encontro nenhuma relação com ele. Energía, força,
big-bang... tudo isso me parece demasiado abstrata O
velho de longas barbas, o Filho na cruz são demasiada~
mente antropomórficos para mim. Não consigo mais oran
E isso me faz falta. A quem orar, o que adorar? Igrejas
são edifícios de pedra. Cimos de árvores, nuvens, estre-
las são o que são. Não vejo nada além delas”. “Talvez a
senhora deseje falar com um diretor espirítual?", sugeri
com a íntenção de orientá-la para a pessoa apropn°ada.
“Não", replicou, “há uma razão psicológica para as mi-
nhas dúvidas. Eu venho da Europa OrientaL No tempo
do comunismo a Igreja era para mim o mais firme apoio
na resistência inteñor ao marxismo. Depois que não existe
mais necessidade de tal resistência, também perdi o
ap0io..."
“Conheço uma histoñnha que poderia ser apropría-
da para a senhora", comecei minha tentativa de ajudá-1a
e pedi que lesse o texto acima. Ficou emocíonada. “A
senhora acha que eu também devo confiar de alguma
forma? Mas como e em quem?" "Para uma recomenda-
ção concreta preciso saber mais sobre a senhora", res-
pondi e pedi-lhe que falasse do seu ritmo de vida. Era
uma mulher inteligente e esforçada, que durante o día
trabalhava num escritório e à noite estudava seguindo
um telecurso, para concluir um curso superior que não
tinha completado. Diñcilmente dormia antes da meia-
noite, visto que na cama ainda gostava de assistir um
pouco à televisão. "Ponanto o seu día se encerra com o
apagar da Iâmpada de cabeceira ao lado da sua cama?"
indaguei, e ela fez que sim. Depois disso juntas elabora-
mos uma situação ímaginária. Toda vez que apagasse sua
108
lâmpada de cabece1'ra, devería dizcr (para si?): "Agora
escureço meu quarlo - e Tu iluminas minha alma!" O
tmtamento “Tu” deveria representar o numinoso sem
nome para o qual lhe faltava a palavra.
A paciente prometeu que pronunciaria a frasc ela-
borada ao deitar-se para dormixt Dc fa(o, pcnctrou cada
vez mais profundamente nela e tornou-sc uma oração
interi0r. Ela que não conseguia mais rezar não tardou a
reviver iluminada pela Sua presença. Saltara cegamentc
e o pai a acolheu em seus braços.
A promessa desta história está inteiramente ligada a
esta Verdadez “Quando não vires mais nenhuma saída,
não esqueçasz Alguém te ve^. E isso basta' "
109
 
Caminhos de saída do medo
O que ímporta não é a causa,
mas o objeto das nossas preocupações
A logoterapia de Víktor E. Frankl separou-se de um
“eixo axiomático" da psicoterapia e em seu lugar estabc-
leceu outro. '
Sobre a concepçâo que deixou
A logoterapia não parte de mecanismos psíquicos
automátícos que atuam no homem adoecendo-o e, como
um parafuso, afundam~no cada vez mais na sua doença.
E isso sem a sua participaçãq seu conhecimento e sua
responsabilidade. Mecanismos que têm uma ou várias
causas (traumas, condicíonamentos errados...) e uma ou
várias conseqüências (neuroses, depressões...) e que es-
tão situadas entre elas como transformadores automátí-
cos de uma em outra. A logoterapia abandonou essa C0n-
cepção de "bombas-relógio inconscientes", que fariam
tique~taque na vida afetiva de pessoas dos doentes.
Sobre a nova concepção
Esta parte do núcleo sadio, transmórbido (da "di-
mensão espiritual") do ser humano, que não cessa de
manifestar-se espontaneamente e assume formas concre-
110 L
tas na consciência, na busca de sentido, nos questio-
namentos éticos/relígiosos. Nele se conjugam dois fato-
res cspecíñcosz o fator especificamente humano, em dis-
tinção dos seres vívos não-humanos e o fator pessoaL
que dístingue uma pessoa dos outros seres humanos.
O especificamente humano - ainda que com espan-
tosa míopia, mas com a presciêncía que entrevê o além
.. permite olhar por sobre a cerca do não-humano. Lá
fora estende-se o incomensurável campo do sentido e do
valor da Criação. Os modelos entrelaçados do belo, do
verdadeiro e do bem cristalizam-se em prenúncios de um
longínquo mundo do além, em que todas as coísas in-
compreensíveís desta terra encontrarão solução. Toda~
via ao olhar humano só se apresenta o que é próximo, o
que prenuncia, mas apesar disso como realidade trans-
subjetiva e transconstnniva sob a forma de valores pró~
prios, do que é “seu". Somente os seres humanos são ca-
pazes de apreciar pelo valor que encerram em si, por
exemplo, a obra de arte natural que há na ramíñcação
de uma árvore, a delicada grandeza de uma escultura
antíga, a genialidade de uma descoberta científica ou a
obra socíal de um caridoso samaritano.
O pessoal, por sua vez, liga esse olhar por sobre a
cerca com fatos concretos da vida individual e toma de-
cisões importantes com relação a ambas as coisas. Aqui,
Viktor E. Frankl não postula, como o faz Abraham
Maslow, uma natureza boa do homem a partir da sua
base biológica com correspondente auto-realização, des-
de que o crescimento não sofra perturbações, mas a li-
berdade do homem possíbílitada pela sua realídade es-
piritual, com a correspondente responsabilidade, se
houver um desenvolvimento normal. No elemento
condensa-se o que é “meu”, tudo o que me determina e
depende de mim; minha unicidade e singularidade, meu
agir e minha dignidade.
111
Portanlo também no novo “eixo axiomático" da
logoterapia há uma instância que faz tique-taque no ho_
mem. Não uma bomba-relógio que pode explodír cau-
sando uma doença psíquica, mas um chamamento vin-
do da presciêncía que entrevê o além, para configurar
livremcnte a vida promovendo valores. Quem se fecha a
esse chamamento como que recua para trás da cerca e,
ao trair a sua humanidade e a sua personalidade, corre o
risco de perder a sua saúde psíquica.
Ainda no final da década de 80, no círculo dos cole-
gas, éramos objeto de zombaria, quando afírmávamos
que pacientes com deficiências psíquicas' tinham cerla
pane nos seus problemas. Ainda predominava a fantasía
de que as inHuências negativas da infância condicionam
defínitívamente a pessoa. Depois disso pesquisas longi-
tudinais conñrmaram as teses de Viktor E. Frankl. Por
exemplo, o estudo de crianças de peito, realizado em
meados da década de 90, mostrou quão autônomos e
criativos já sâo os bebês. Sobre isso escreveu Hilarion
Petzold, membro da equipe intemacional de pesquisa-
dores.34
Os psicanalistas precisam repensar e reformular sua
imagem do homem... Bebês são incrivelmente flexíveis, com
grandes recursos reversívei$, altamente comunicativos de$-
de o primeiro dia de vida. Dispõem de capacidades de pro-
teção, em muitas áreas podem proteger-se por si mesmos...
Os teoremas sobre "distúrbios da primeira infáncia" preci-
sam ser revistos, pois se constata cada vez mais diferencia~
damente que traumas ou déficits do começo da vida de
forma alguma têm como conseqüência direta distúrbios
neuróticos ou psicóticos. Aqui parece ocorrer um desenvol-
vimento semelhante ao que se dá na medicina: os especia-
listas começaram a admirar-se por que tantas pessoas são
sadias, continuam ou voltam a sê-lo sem ajuda...
112
Exatamente estudos que sc cstendcm por Iumgos anos
mostram que, em prinzeiro lugan os scres humanm sc de-
senvolvem continuamente (e, dc fbrma algun1a. com o jím
da /a'se da adolescéncia, permanecem /Íxad(›s nas suas
possibilidades para os próximos 70 anos) e, em scgzmdo
Iugar, que são "makers oftheir own developn1e›1¡", portan-
to que estão em condições de defínir muito mais fbrzemen-
te o seu destino do que muitos quereriam... A fíxação ideo-
lógica do determinismo não zune só nas cabeças dos
terapeutas, mas se percebe tambémnas lamenzações de
pessoas de cinqüenta anos de idade, que continuanz a cul-
par seus velhos pais e não percebem que São eles próprios
que se bloqueiam.
Perguntemo-nos como se pode conceber uma
psicoterapia que, como a logoterapia, abandonou a
etiologia traumático-causal, e em lugar dela postula um
núcleo sadio, transmórbido da pessoa em que refulge o
momento da liberdade e do conhecímento do sentido,
incluindo a possibilidade da recusa e do autobloqueio
pessoal. Onde e como se situa tal tipo de psicoterapia?
Hoje mais do que nunca é válida uma resposta que Viktor
E. Frankl deu em 1949 em relação à sua doutrinaz35
Alguém poderá objetarque a logoterapia e' apenas uma
terapia sintomática ou paliativa, mas não-causal. A ve›-'
dade é exatamente 0 contrário. Basta refletir sobre o que
afzrmamos antes: a predisposição psicofísica e, além da
predisposição vitaL a situação social constituem iuntas a
posição natural de uma pessoa, mas isso não é o fator de-
ci5iv0. O decisivo fznal é a pessoa espiritual - a atitude
pessoal tomada frente ao contexto naturaL Quando se tra-
za de uma atizude sempre é possível Luna mudança exis-
tenciaL A logoterapia concentra-se basicamente nesta. To-
davia, ao fazé~lo não se ocupa das primeiras causas, mas
113
da causa última do someema Não se preocupa com as
causas imprópria5, isto e', as condições, mas com a verda-
deira causa de um sofrimenta Mas essa verdadeira causa
encontra-se na pessoa do doente, que toma posições em
relação a todas as condições (intemas e externas). E é a ela
como inszância última, que tem a última palavra, a pa1a~
vra decísiva, que recorre e apela a logoterapia. Por aíse vé
que e' exatamente a logoterapia que, em certo sentido, cons-
titui "a" terapia causaL iszo e', aquela terapia que é a única
a incluira última e verdadeira causa no seu campo de açãa
A resposta de Frankl é inequívoca: o psicoterapeuta
deve apelar à instância última, decisiva no paciente. Se
quíser ter êxito, deve provocar uma "mudança exísten-
cial" no pacíente. Pois a verdadeira causa do sofrimento
está à disposição... Aqui nos afastamos do modelo tradi-
cional de doença da psícoterapia geral. O que se busca
nâo é que 0 paciente melhore seu estado de saúde, mas
que se tome são a partir de dentr0; não que analise seu
passado, mas que continue o seu desenvolvimento no
melhor sentido da palavra. A logoterapia penetra no ter-
reno da pedagogía. Esta é também a opinião de Winfried
Bõhm que, em 1991, numa excelente conferência apre-
sentada na Divisão de Pedagogia da Go"rres-Gesellschaft
na Unvíersidade de Freiburgo, afirmouz36
que no momento uma reflexáo expressa sobre o pe-
dagógico da pedagogia curiosamente é feita por um dos
mais respeitados terapeutas do mund0,
refen°ndo-se a Viktor E. FrankL Inteiramente na li-
nha de pensamento deste continuou:
Quando a psicanálise fala do processo pelo qual a
criança chega a ser ela mesma e a psicologia humanista
114
se refkre a unz impulso natural para realizar-sc a "si mes-
mo", tal “si mesmo" não é entendido de maneira menos
determinada social que 0 da terapia behaviorista do com-
porramenta que Skinne›; .s'abidamente, situa além da li-
berdade e da dz'gm'dade. A única diférença está em que,
em um caso a detenninação vem de demro (da ”nature-
za"), e, no outro, de fora (o ambieme, a socicdade)... O
discurso educacional só ganha uma dimensão pcdago'-
gica quando o homem é concebido como aulor da histo'-
ria da sua própria vida, que através de escolhas c deci-
sões em situações 11istón'co-existenciais confígura sua
vida e conseqüentemente a si mesmo, o que fàz “¡ogando"
com as possibilidades dadas na situação concreta, isto e',
com aquelas que a natureza lhe conferiu e aquelas que o
mundo lhe oferece.
...O ser lzumano realmente só o é quando não permize
que a história da sua vida lhe seja ditada ou até (pre'-) es-
cr7'ta, mas a escreve ele mesmo... O conceito pedagógico de
aut0-formação signifíca, portant0, algo bem diferente de
um devir natural e um produto passiva É um processo
permanente, e em princzp'io intemzináveL de autotranscen-
dência: no processo da sua educação o lzomem está cons-
tamemente transcendendo-se a si mesmo.
Com as palavras "auto-afirmação" e "autotrans-
cendência”, on'ginárias da nomenclatura logoterapêutica,
Winfried Bóhm sublinhou expressamente o seu consen-
so com Viktor E. Frankl.
O que significa tudo isso na prática? Que a logo-
terapia ímroduziu algo distintamente pedagógico-edu-
cacional na psicoterapia. A logoterapia ajuda as pessoas
a escreverem a história da sua vída. A escrevercm-na
como tentativa bem-sucedida de encontrar sentido nes-
ta vída ou aceitá-la sob 0 aspecto de um sentido íncondí-
cional. Não é por acaso que Viktor E. FrankL na sua
115
 
casuística. prioriza o diálogo socrátíco como esquema
de argumentação. Pois também Sócrates, o mestre da
Antiguidade, conduzíu diálogos com seus díscípulos
menos para a cura que para fins de educação. Os discí-
pulos deviam "formar-se" com base nas suas próprias
respostas, depois que perguntas apropríadas tinham ex-
traído deles as respostas certas. Analogamente, a arte do
logoterapeuta consiste em propor não quaisquer pergun-
tas, mas perguntas salvíficas que provoquem no pacíen-
te respostas que o façam descobrir o sentido da vida, e 0
levem a contínuar a educação no sentído de uma mu-
dança existencial. Ao faZê-lo, a logoterapia trabalha com
uma instância no ser humano que é capaz de reconhecer
certas respostas como "coeremes em si mesmas", e não
apenas para o paciente ou para o terapeuta, com base
naquela presciência ínata que vem da profundidade es-
piritual ínconscieme.
O exposto será demonstrado pelo inesgotável tema
da superação do medo,
Exemplo I
Uma professora procura 0 nosso Instítuta Queria
um atestado médico por causa de acessos de pánico que
a acometiam nas suas atividades escolares. A psicote-
rapeuta, com a qual se tratava havia mais de cinco an05,
encontrava-se em viagem à Índia e por isso não podia
atendê-la. Perguntei à paciente se havia um motivo grave
para pedir um atestado me'dico. Respondeu que $im. E5-
tava prevista uma excursão de alunos à Inglaterra. A pa-
ciente era a professora de ínglés e também a coordenad0-
ra da classe em questâa Por isso deveria acompanhar o
grupo na excursão. Por medo de que poderia acontecer
alguma desgraça às crianças sob a sua guarda, já havia
116
várias semanas quase não conseguia pregar oll1o. Ao Ie-
vantar-$e de manhã já se sentia mal e não conseguia con-
centrar-se em mais nada.
Informou que desde sempre sofHa de imaginações de
períga Que, por exemplo, sempre era um tormento para
ela dar notas aos alunos. Ao dar notas boas remwa que
estivesse exigindo muito pouco dos alunos, e nn caso de
notas baixas logo imaginava os dramas dos alunos em casa.
Também sempre receava não ter transmitido a matéria de
fomza sufzcientemente clara. Mas mmca se sentiu tão mal
como agora, às vésperas da excursão à 1nglaterra. Nas noi-
tes de insônia via diante de si uma criança caindo sobre os
trílhos eletrifícados de uma estação do metrô rIe Londres,
ou outra criança, confusa por causa do tráfego pela mão
esquerda, atropelada por um carro, e outras desgraças se-
melharztes. Tudo lhe aparecia em imagens plásticas de hor-
ror encobrindo-a como uma ne'voa.
“Se a estou entendendo bem, a senhora quer um ates-
tado médico para não ter que ir na excursão à Inglaterra, e'
isso?" procurei certificar-me. E novamente a paciente dis-
se que sim.
Vamos interromper a história do caso para estabe-
lecermos algumas relações com o que foi dito acima.
Em primeiro Iugar o seguintez é fácil diagnostícar o pro-
blema da professora como neurose de med0. Típico é a
desproporcionalidade dos seus temores em relação à
realidade bem como seu intenso esforço para fugír das
situações a qualquer preço. Também o reflexo físico da
sua crise psíquica é característico. Mas, feito o diag-
nóstico, os camínhos psicoterapêuticos se bifurcam. A
pergunta: "POR QUE a paciente se preocupa de forma
tão extremada?" pertence àquilo que na logoterapiaé
"deixado de lado". A discussão do “POR QUE levaria a
especulações acerca de uma etiologia traumática da
117
doença?" Isso, por sua vez, nos levaria ao PORQUÊ. A
paciente estaria excessivamente angustiada porque vi-
venciou isso ou aquilo, porque teve esse ou aquele m0-
delo, porque vivenciou muitas ou poucas experiências
de algo determinado etc. O PORQUÊ seria a Chave atrás
da qual se ocultaria o determinismo. Sería o código com
o qual foi ditada a hístóría da sua vida - e não escrita
por ela mesma. Naturalmente se descobriríam muitos
PORQUÊS. A coitada acabaria aparecendo como um
produto do acaso e de erros humanos condenada a aces-
sos de pânico.
Passemos agora à "nova concepção" introduzida pela
logoterapia. A paciente tem sintomas, rnas é uma pessoa
sadia e transmórbida, e como tal é capaz de lançar um
olhar, por cima da cerca, ao mundo cheio de sentido e de
valores. Cabe a ela com exclusivídade pessoaÍ contribuír
para essa plenitude com a sua parte. Ela é, por assim
dizer, convidada a participar da Criação no lugar em que
vive e trabalha. Quaís são os valores da esfera da sua
percepção que maís aprecia? Quais são os objetos do seu
"respeitoso" amor? “Respeitoso" no sentido de que se
preocupa em que sejam honrados, considerados e pre-
servados esses objetos de valor e - porque se preocupa
com eles - se empenha por eles com todas as ñbras do
seu ser. O QUE maís preocupa a paciente? Esta é uma
pergunta terapêutica importante. Poís para o QUÊ do
nosso amor e para o OBJETO da nossa preocupação re-
cebemos de presente todas as forças de que precisamos,
caso necessário, até para, apesar das nossas fraquezas,
mudar a história da nossa vida.
Pois bem, a paciente tinha formulado um claro O
QUE das suas preocupaçõesz seus alunos. Temia pelo
bem-estar deles. Mas será que era isso mesmo? Estava
ela realmente preocupada com eles? Agora vou assumir
o papel de Sócrates.
118
"Se a estou emendendo bem, a senhom quer zun ales-
mdo médico para não ter quer ir à 1nglaterra, é isso?" Esta
foi a minha última pergunta e a pacientc Iinha confír›na-
do. Depois prossegui: "mas mesmo que a senhora não vá
¡unto, algum aluno pode sofrer um acidente. Mesmo sem
a sua presença um aluno pode cair nos trilhos dc uma
estação do metrô de Londres ou ser atropelado por um
ônibus na rua. Sua ausência não exclui tais acidentes. De
que serve o atestado me'dico?" A paciente reagiu espoma-
neamente: "Bem, se eu não estiver jumo, não será culpa
mínha. Ninguém poderá acusar-me de desleixo no dever
de cuídan se eu estiver doente em casa". Esza resposta me
deixou tn'ste. "Quer dizer que 0 acidente de uma criança
lhe é indifereme, se a senhora não for responsabilizada por
isso?" "Sim..."guague¡ou. "Não, isso nãa Mas então não
será problema meu, não é verdade?"
"A senhora quer dizer que 0 principal é que a senhora
fique bem, que não se possa acusá-la de nada e que a sua
imagem de professora permaneça limpa?" Notei que algu-
ma coisa estava mexendo com a paciente. “O principal...?
Pode ser que a senhora de alguma forma tenha razão.
Embora, pensando bem, eu quase me envergonlzo disso... "
Interrompemos maís uma vez a história, para inse-
rir alguns comentários. Sabemos que se nos concentrás-
semos na questão do POR QUÊ das excessivas preocu-
pações da paciente traríamos à superfície apenas
condíções arcaicas dos seus temores habituais. Pelo com-
Lrári0, a pergunta sobre o QUE preocupa princípalmen-
te a paciente revelou rapidamente a verdadeira causa do
seu sofrimento, que, segundo Frank], se encomra na pes-
soa que toma posição em relação a todas as condições
intemas e extemas. Isso ocorre também em nosso caso.
A atitude da pacíente em relação a si mesma e ao mundo
ao seu redor não é saudável nem para ela nem para o
119
mundo. Uma atitude que não é “sincera", tema sobre o
qual ainda voltaremos a falan Seu temor pelos alunos
desmascara-se como pura ilusão. Em princípio os alu-
nos são-lhe indiferentes. Os valores no mundo são
irrelevantes, a menos que contribuam com algo positivo
ou negativo para o bem-estar da paciente. O principal é
o seu bem-estar. O principal é que os outros estejam sa-
tisfeítos com ela, que gostem dela, que a valorizem como
professora perfeita. O principal é que ela não tenha
incomodações nem sentimentos de culpa.
É exatamente isso o que a paralisa. O egocentrismo
é um processo autocastigante. Como a preocupação res-
peitosa com os objetos do nosso amor aumenta a nossa
coragem e nossas forças, assim a fixação egocêntrica em
nossas próprias vantagens despoja-nos de força~e confian-
ça. Pois o egocentrismo nos deixa à mercê de um inter-
minável "temor pelo nosso pequeno eu", que poderia so-
frer prejuízo e - pelo menos como possibilidade - está
constantemente ameaçado de destruição. Quem se Ior-
nou a coisa principal para si não Consegue mais sair do
receio por sí mesmo. Usando a metáfora da paciente,
existencialmente tateia em meio à bruma que o envolve.
Em tais casos está em perigo de perder-se o especifí-
camente humano. Isso é explicado por Herbert Huber
do Instituto Estadual de Pedagogia Escolar e Pesquisa
Educacional de Munique, nos seguintes termosz37
A honestidade Consiste em não vermos o mundo so-
mente dentro da perspectiva do nosso próprio interesse,
mas respeitarmos aquilo que algo ou alguém e' em si mes-
mo. A pessoa honesta respeila o ser próprio do outro (se;'a
uma pessoa ou uma coisa) e não apenas a si mesmo.
Assim entendida, honestidade não e' nada mais que 0 es-
forço para ser justo para com aquilo ou aquele com que
tratamos.
120
Aristóteles diz que na justiça eslão incluídas lodas as
outras vírtudes. O justo não se interessa só por si mesmo,
mas também pelo outra Todos nós estamos sempre inte-
ressados em outras coisas e seres humanos. Mas muitas
vezes só porque são úteis para nós. Em tais casos propria-
mente não amamos e respeitamos o outro ou a outra COl-
sa, mas apenas a nossa própria vamagem. Agostinho cha-
ma isso de "amor concupiscentiae", ou seja, um amorque
é apenas egoísma A isso se opõe, por exemplo, a uzitude
que pais sadios assumem em relação a seus fílhos. Amam-
nos não porque lhes são úteis, mas alegram-se quando os
filhos tém vantagem. Leibnitz Chamou isso de “amor
benevolentiae", o amor do querer bem. Quando assumi-
mos tal atitude, queremos não o nosso bem através do
outr0, mas o bem do outro. Goetlze chama essa atitude de
“respeito”. O fato de podermos ver nos outros seres huma-
nos e nas outras coisas mais do aquilo que nos e' útil é o
que nos distingue dos am'mai5, que só notam o que lhes é
biologicamente útiL Não percebem o resto da realidade,
pois não faz parte do seu mund0...
Não faz parte do mundo dos animais, mas faz parte
do mundo da paciente. Era necessário falar disso com
elaz sobre o "resto da realidade”.
“Embora, pensando bem, eu quase me envergonhe
disso..." foái a última coisa que a paciente disse. Isso foi
bom. Já se manifestara a parte sadia, transmórbida dela.
"Por favor, diga-me com toda a franqueza o que na sua
fàntasia seria a pior coisa que lhe poderia acontecer no
exercício da sua profissão de professora", pedi à senhorcL
Ela fícou alguns momentos em silência “Bem", admitiu
fznalmente, “seria 0 meu fraca550. Se os pais dos meus alu-
nos me apontassem com 0 dedo; se os meus colegas cocl1i-
chassem a respeito de mim nas minhas costas e eu por fím
121
envergonhada tivesse que delx'ar o carga Isso seria o pi0r"_
“Compreendo", disse eu. "E agora uma pergunta conzp[i_
cada. A senhora poderia imaginar algo píor, que temeria
›nais, mas que não a envergonharia tant0?"
Vl brilhar uma centelha nos olhos da paciente. "Se fosse
verdade aquilo de que tento Convence›-'me, se de fàto eu me
preocupasse com a sorte dos alun05, eu não me envergo~
nharia por isso. " Precisei apenas Cominuar a sua línha de
pensamenza "A senhora também não dormiria maL não
teria difzculdade de concentrar-se nem tentaria esquivar-se
de uma excursão!" Ela me olhava incre'dula. "Posso prova'-
lo", acrescentei. "T0memos o seu pesadelo da estação do
metrô de Londres. Se a suapreocupação fosse a de que
nenhum aluno sofresse um acidente, a senhora pensaria
numa pessoa à qual os alunos obedeceriam melho,r Cujas
recomendações para terem cuidado seguiriam Com menos
relutáncia. Quem seria esta pessoa? Presumivelmente uma
professora muito ligada com eles, p. ex., uma professora
que lhes dé aulas e também seja a coordenadora da Clas-
se... " "Sim", confinnou a paciente, “eles têm uma boa rela-
ção comigo". “Exatamente", prossegui, "por isso, se a sua
única preocupação fossem os alunos, a senhora fària ques-
tão de acompanha'-Zos à Inglaterra para exercersua z'nfluên-
Cia de maneira positiva, em eventuais situações crítica5. E
interiormente estaria Concentrada na preparação de inle-
ressantes visitas à cidade e atividades recreativas para o
tempo livre. Tão concentrada que de noite cairia exausta
na cama, incapaz de qualquer pensamento, nem mesmo
de temores. "
"Certamente preciso aprender a pensar diferente", su5-
surrou a paciente. “Um pouco", encorajei-a. "Assim que a
senhora considerar como secundário aquilo que conside-
rava como prirzcipaL estará livre para o que é realmente
principaL que Consiste em que seus alunos e alunas des-
frutem de uma bela viagem ao exterior e retornem sãos e
122
n u
ísalwí Mas se acontecer alguma Coisa? Sc a viagem frt*a-
caSSar?" perguntou recaindo no seu amigo padrão de preo-
Cupações. "Nesse caso a senhora terá feilo 0 melhor possí-
vel e isso é suficiente", respondi com convicção. "l$$0 basta
perante Deus e perante os homens. "
A professora deixou o nosso Instituto sem o atestado
médico, mas levando em sua bagagem uma nova “priori-
dade" e realizou com entusiasmo a excursãa Quando a
sua terapeuta regressou da Índia, explicou-lhe que não pre-
císava mais de sessões de terapia porque havia conseguido
sair da bruma do seu egocentrisma
Poderíamos multiplicar à vontade exemplos como o
que acaba de ser apresentado, nos quais uma mudança
existencial privou dc sustemo medos antigos quc domi-
navam uma vida (Frankl). Para entender isso melhon
esboçaremos mais duas variantes sobre 0 nosso tema.
Exemplo II
Um homem contou~nos que sua mulher o oprimia:
“Sempre flz o que ela quen'a, até que há algumas semanas
recebi a Conta. Ela está me traindo Com outro homem.
Quando nos Casamos, há cinco anos, eu tinha orgulho dela,
porque era segura de si, tinha sua profíssão e seu Círculo
de amizades. Mas dentro de pouco tempo começou a criti-
car-me por Causa da minha aparência externa. Meus ter-
nos estavam fbra de moda, meus sapatos eram trastes de
plástico etC. Por isso Concordamos que de erztão em diante
ela escolherid minha roupa e determinaria meu corte de
cabela Mas depois começou a mandar cada vez mais em
minha vida. Determinava meus hobbies, quem devería-
mos convidar ou não e como passaríamos os fíns de se-
mana. Eu tinha que fazer os serviços de Casa quando ela
123
não eszava disposla e nem me agradecia por i$50. Com o
tempo passei a sentir-me um escravo. Apesar disso não
protestei por amor à paz. Mas agora não agüento mais ~
a humilhação que me impôs com a sua relação extrama-
IrinzoniaL simplesmeme não consigo aceitar".
Admitamos que é tentador perguntar pelo PORQUÊ.
Por que um homem se deixou rebaixar sucessivamente?
Qual é a figura matema ou patema subsconscientemente
responsável pela desgraça? Em que solo infantil se fixa-
ram as raízes masoquistas da sua inibição? Basta disso.
Vamos exerc1°tar-nos na abstinência logoterapêutica e
apressar-nos em tratar do QUE. Qual é o interesse prin-
cipal do nosso paciente? À semelhança da professora do
Exemplo I, ele coloca suas intenções na mesa_ com ingê-
nua falta de sinceridade. Nunca reagiu por amor à paz.
Portanto temos que falar sobre a paz.
"Por favor, pode defmir o que o senhor entende por
paz?" "Ausência de bn'ga", retrucou prontamente o pacien-
te. "Isso é suflcienteP Há realmente paz entre as pessoas
quando elas não brigam entre si?” insisti. "Pois e', paz e'
alguma coisa a mais", admitiu ele. “Da paz também parte
harmom'a, tolerância e aceitação mútua. Que cada qual
possa ser ele mesmo e viver segundo a sua maneira." "O
que o senhor diz soa muito bonito", concordei. "Ma$ lzá
uma coisa que me surpreende. O que 0 senhor acaba de
descrever não foi alcançado de fonna alguma pela sua ati-
tude de ceder sempre em tudo. Com isso 0 senhor só con-
seguíu que a sua mulher o aceitasse e tolerasse cada vez
menos e que o senhor mesmo pudesse cada vez menos vi-
ver à sua maneira." "Isso mesmo", suspirou, “minha mu-
lher...". "Não", eu o inlerrompi, ”estou falando do senlzon
Evidentemente o senhor não fez nada do que segundo a
sua própria defmição teria estabelecido a paz!"
124
O paciente reagiu inilada "A senlwra eslá mc ucu-
5and0?" "Apenas quero junlo com o senhor encontrar a
mzão do seu problema. Quero reconheccr o Ierreno ondv
pôde crescer o drama conjugaL Convenhamos: a sua 5ub-
missão servil não trouxe paz. Ou o senhor não vé ass¡m?"
0 pacieme sacudiu a cabeça. "Apesar disso o senhm não
mudou 0 seu Comportamenta Por que não?" "Eu Iullza
medo de perdê-la. Sou um homem inseguro, dependeme e
não sei 0 que fàzer sem ela... "
Agora emergiu a verdadeira causa com a QUAL o
paciente se preocupa. Ele não tem a menor preocupação
com a paz entre os dois. Só lhe ínteressa a sua própria
segurança intema. Em psicologia esse fcnômeno de re-
lacionamento se chama ambívalência. Isto é, ele ama a
sua mulher no sentido de precisar dela (como eslímulo,
orientaçãa apoio para tomar decisõcs no dia-a-dia) e ao
mesmo tempo a odeia porque sob 0 aspecto em que ne-
cessita dela lhe é superi0r. Eu já suspeitava que estava
ocorrendo algo dessa natureza, pois se assím não fosse,
de boa Vontade teria cedido a “d0na de escravo" a um
outro. Mas não, por mais que falasse mal dela, quen'a
mante^-la.
"Eu tinha medo de perdê-la", admitira o paciente. "O
senhor receava por si mesmo", retiftquei e ele não protestou.
Assumi emáo o papel de Sócrates: "Agora convido-o para
um 'brainstonning'. Suponha teoricamente que o senhoré
uma pessoa segura de si mesma e consegue administrarsua
vida da melhor maneira possíveL Mas por motivos mais
elevados quer levar a paz à sua ca5a. Para isso o senhor
teria que agir de maneira pacífzca e também ajudar a sua
mulher (que segzmdo a sua infonnação tem uma lendéncia
para brigar) a ser mais amante da paz. Como o senhor de-
veria proceder?” Pensativo o paciente franziu a tesla. Dei-
125
lhe papel e lápis e o encorajeí a fazer anotações. Duranzc
meia hora eu só ouvia o ruído do lápis sobre o papeI.
"Hu»z" pigarreou e, enquanto eu esperava, Começou
a ler o resultado das suas notas. "Bem, se eu mesmo qui-
sesse ser paczf1'co, teria que conceder a minha mulher a
liberdade de escolher emre mim e seu amiga Também de-
veria dar-lhe a chance de um recomeço conciliador, CaSO
ela optasse por voltar a mim. " Duas lágrimas desprende-
ram-se dos camos dos olhos do pacíente, mas ele conti-
nuou a Ieitura. “Mas para educá-la para a paz eu deveria
preservar a minha identidade, quer isso lhe agradasse ou
não. Quando me critícasse deveria delicadamente fazê-la
entender que cada um tem o seu modo de ser e suas prefe~
réncias e que pelas diferenças podemos completar-nos
maravilhosamente, desde que um não fíra o's valores do
outro. " O paciente fztava-me Como um aluno que apresen-
za a sua lição ao professor. De fato, ele executou muito
bem a tarefa. Quase pude encerrar a nossa conversa tera-
péulica com as palavras fmaís da santa míssa: “Excelente!
Não há nada a acrescentan Leve isso à prátich Vá e leve a
paz à sua casa! "
No fim do ano recebi um cartão de boas-festas desse
homem. Em baixo havía acrescentado: "Nosso casamemo
continuou e ganhou uma nova qualz'dade. Grato... "
Apesar da mínha experiêncía proñssionaL 0 que sem-
pre me surpreende é, no ser humano, a exatídão da pres-
ciêncía que entrevê 0 além, que lhe dá uma norma como
não pode dá-la nem a lógíca da razão nem a falta de lógi-
ca dos sentimentos. No exemplo acíma a razão do ho-
mem dizia: “A mulher tem a culpa de tudo". O seu senti-
mento dizia: “Dobre-seao mal para não perdê-la". Mas
no centro maís íntimo da sua realídade espírítual sabia:
"Está em mim mudar-me. A mím e ínclusíve a minha
submissão".
126
O exemplo do último caso quc aprcsemaremos a
seguir mostra com que veemência cssa prcsciênc1'a, mcs-
mo sem um impulso terapêutico, pode manifcmarnse de
maneira autodidática e através de linguagem figuradzL
Exemplo III
Uma paciente idosa estava em tratamento cnz nosso
Instituto já havia longo tempa Sofha de desesperados te-
mores em relação ao fuTrabalhava
desesperadamente, mas por causa da situação política da
época enfrentava grandes resistências dos editores para
publicarem suas obras literárias. Nos últimos anos as
preocupações com dinheiro e dívidas quase sem cessar o
levaram a becos-sem-saída, de onde não vÍa mais saída e
repetidamente fazia alusões ao seu completo colapso exis-
tenciaL Suas carlas, particularmente as dirigidas a Stefan
Zweig, formam uma longa corrente de pedidos de socorro
materiaL
"Há meses e meses estou com a corda no pescoço _ e
se ainda não morri sufbcada é que sempre apareceu uma
pessoa bondosa para permitir que eu colocasse um dedo
entre a corda e o pescoço. E logo depois a corda volta a
apertar. Com esta corda no pescoço trabalho de 6 a 8 horas
por dia. Peço-lhe, suplico-lhe, salve-me, poís com certeza
vou me afúndan não posso mais ser vendido com pele e
cabelos e lodos os direitos, não posso mais acordar noiíe
após noite com terTível medo do amanha', do locad0r, do
correio; quando o senhor me encontra não pense que eu
vivo como me apresento, minha vida é horríveL horríveL
Vivo escondendo-me como um criminoso procurad0, mi-
nhas mãos e meus pés tremem e só me sirzto um pouco
mais seguro depois de ter bebid0."
132
As duas citações ilustram um fato intcrcssante, islo
é, que tanto as Circunstâncias favoráveis da vida como as
desfavoráveis podcm ser motivo para o vício. O "amig0
Tunda” da citação é saudáveL um homem jovem, forlc,
dmado de muitos talentos. Possui tcsouros de saúde, ju-
ventude e aptidões. A isso acresce que ele não vive à
margem, mas no meio da capital do mundo, ou seja, num
ambiente cheio de chances e 0p0rtunidades. Mas nada
faz com tudo isso e sucumbe, num pretenso vazio de scn-
tido da sua existêncía, dominado por um sentimento de
absoluta ínutilidade.
Na Citação II, Joseph Roth encontra~se numa situa-
ção de real miséria. Exilado, sem qualquer apoio, tenta
com escasso resultado conseguir a publicação das su.: -
obras literárias, para poder subsistir. Mas a insegurança
dessa situação, ou melhor, o sentimento de ínsegurança
dela resultante, transforma-se na sua ruína. Pois esse
sentimento pode ser ilusoríamenle mitigado durante bre-
ves períodos por meio do álcooL o que a longo prazo
acaba destruindo 0 resto da segurança da sua vida.
Se, portanto, tanto circunstâncias de vida favoráveis
como desfavoráveís podem dar motívo para o vícío, se-
gue-se que as respectivas Circunstâncias de uma pessoa
não podem ser o fator verdadeiro e decisivo do pr0b1e-
ma do vício. Talvez seja mais fácil descobrir esse fator, se
deixarmos de perguntar o que leva ao vício e inversa-
mente indagarmos o que faz sair clo víCio. Assim, vamos
pensar no que espontaneamente desejaríamos ou acon-
selharíamos aos protagonistas das duas cítações para
encontrarem o caminho de uma vida sadia e Cheia de
scntído. Qual seria a porta de saída?
Não há uma resposta simples para isso, pois consi-
derando bem as coisas, tal porta na verdade consíste em
quatro portas, que precisam ser atravessadas, passadas
(se deixarmos de lado o acompanhamento de uma assis-
133
tência médica, tal como, sem dúvida, teria sido indicadía
no caso de Joseph Roth). São as seguintesz
a) começar com pequenos passos;
b) confiar no sentido desses passos;
c) aceitar as sensações desagradáveis durante os pe-
quenos passos; e
d) perseverar nos pequenos passos.
As portas a) e d) refletem o antigo reconhecímento
de que só podemos chegar a uma meta se dermos o pri_
meiro passo e se a este seguirem outros. "Começar e per_
severar" é o segredo de todo sucesso.
As portas b) e c) permitem avançar ainda mais pro-
fundamente no segredo do sucesso. Começamos muitas
coisas, mas não as contínuamos se não estivermos con-
vencidos de que elas têm sentido. Viktor E. Frankl ex-
pressou isso com muita elegância na frasez “O sentido é
o marcapasso, é o que dá os passos do ser". Consequ"en-
temente, 0 sentido precede cada passo, caso contrário
não será dado mais nenhum outro passo com sentído.
Mas para que também possa ser feito 0 que deve ser
feito com sentido é necessárío que a pessoa aceite o de-
sagradável que forçosamente está ligado com isso: por
exemplo sentimentos de inutilidade e insegurança, como
no caso dos protagonístas das duas cítações ou, em ter-
mos bem gerais, os desconfortos que acompanham a
abstenção, nervosismo, sentimentos de inferiorídade, de
culpa e de vergonha que durante muito tempo ainda co-
brírão o caminho, até que ele um dia ascenda para um
plano existencial que não conhece mais esses sentimen-
tos, por não serem mais apropríados.
Isso significa que não se deve só confiar no sentido
dos pequenos passos na díreção do objetivo. Em cada
pequeno passo também é preciso renunciar aos ectoplas-
mas psíquicos que alivíam 0 desconforto do moment0,
mas retardam ainda mais a chegada à meta. "Confiança
134 
e renúncia" é, por assim d1'zer, 0 segredo mais profundo
da superação do vício, qucr dizer a confiança num senti-
do e a renúncia a desfazer-nos do que nos desagrada.
Sem b) e C) não há ponte de a) a d), não há maneira de
manter-se no bom Caminho, não há possibílidade de fran~
quear a porta para encontrar a saída.
Depois que assim verificamos o que é indispensável
pam a superação do vício, podemos com razão ousar a
afirmação de que os mesmos fatores, mas com sinal ne-
gativo, têm um papel importante no surgimento dos ví
cios. Quem não confia na vida e quem não quer renun-
ciar a nada corre mais risco de se tornar mais viciado
que outras pessoas. Examinemos esta tese à luz de um
texto tirado de uma publicação do Minístério da Saúde
da Alemanha de 1988 - levando em conta que a situa-
ção atual se tornou ainda mais dramática (basta pensar
na modema forma de droga “ecstasy").
"Cresce 0 número de viciados. No caso da forma de
vício mais conhecida, o alcoolismo, 0 número de envolví-
dos só na [então] República Federal Alemã é da ordem de
I,5 milhõe$. Particularmente alannante é 0 fàto de que a
idade dos que se iniciam nesse vício está caindo continua-
nzer1[e. Crianças dependentes de álcool na idade de 10 e 11
anos não são nzais casos excepcionais. Muitas vezes o co-
meço e' uma p'rova de coragem' dianle do grupa Ou um
acesso excessivameme fácil ao bar de casa. Ou aínda uma
coca-cola conz mm no bar da esquina no intervalo das
aulas."
Começa com utma "prova de coragem"... Aqui se re-
vela a falta de confiança, confiança em si mesmo, nas
amizades, nos pais e seus conselhos, na vida em geral.
Pois quem precisa demonstrar a sua coragem, não se
sente muito corajoso, é tudo menos corajoso; é na verda-
135
V
de medroso c fraco. E aindaz "Ou um accsso excessíva.
mentc fácil ao bar dc casa..." Aqui temos o não querer
renuncian quando algo está à disposiçãa Em nossa so.
ciedade (ainda) de bem-estar, ínfelizmente, há coisas dis.
poníveis demais. Mas nem toda oportunidade precisa ser
aproveilada. Todos nós temos ocasióes de consumo ex-
cessivo, alé para furlo e fraude, mas isso não é razão
para aproveitar essas oponunidades. Também podemos
renunciar a elas.
Pergumemosz Se o desenvolvímento de uma Confian.
ça fundamemal e de uma alilude de renúncia dotada
de sentído é de imponância decisiva tanto para vencer
como para prevenir vícios, o que promove e fortalece
essas capacidadcs? No acewo das ídéias da logolerapia
de Viktor E. Franld encontran1-se respostas que vale a
pena relacionar com a problemática do vício. São eslasz
1) Confiar supõc algo "acima dc si mesmo", algo que
não é idêmico ao eu. Algo em que alguém confia,
em que alguém crê, a que o cu de uma pcssoa podc
dirigir~se e entrcgar-se, ao qual pode dizer "sím".
2) Renunciar supõe algo “dcntr0 da pessoa", algo que
não se ídentifíca com os impulsos e estados de âni~
mo variáveis do eu, que pode afastar-se e tomar dis-
tância de lais impulsos e dísposições, eventualmen-
te dizer "nã0" a ela, porque é íntegro "em si”.
O que a confiança em algo não próprio do eu Coloca
no primeiro plano da esperança e do anseio, a renúncia
a coisas próprias do eu coloca no segundo plano da von-
tade e do desejo.A Confiança permite que aceitemos nos-
sos limites diante da perspectiva de que além desses li-
miles pode haver algo que confere sentido a essa
limitaçã0. Por sua vez a renúncia estrutura esse âmbíto
Iimítado, dando-lhe sentido díante da perspectíva de que
136
dentro dcsses limitcs há algo quc a própria pessoa Confi~
gurZL Na logoterap1'a, com rcfcréncia ao primciro caso
fa]a-se da capacidade de auwtransccndümria do scr hu-
mano, islo c'. de ultrapassagcm do limilc em dircção a
algo em que crê e que ama. Com referência ao scgundo
Caso, fala~sc da sua capacidudc de aumdislanciamema
ou seja, dzl sua Capacidade dc formar-se a si mesmo sob
0 aspecto da credíbilidadc e da valorização do amon
As duas capacidades, a da aulolranscendéncia c a
do autodistancíament0, cstão cstrcilamcntc ligadas cn-
tre si, o que de acordo com o gráfico da ilustração a se-
guir significa que as duas setas crescem proporcional-
mente entre si. AfinaL só renuncíamos a alguma Coisa
por causa de alguma coísa, e cstc por Causa dc sc mani~
festa na renúncia em favor de um scntido no qual acredi-
tamos.
 
Esta é a relação decisiva entre a confiança e a re-
núncia, que simplesmente diz que uma renúncia dotada
de sentido sempre é feita a favor de algo de valor mais
alto, que confere valor à renúncia, mas no qual é neces-
137
V
sário cren Pessoas quc não conhecem valores, quc não
crêcm em nada do que lhes poderia dar orientaçâo eSp¡.
ritual e apoío psíquico, dificilmente vêem a neccssidade
de uma renúncia ao prazer ou à eliminação do desprazen
Pois quando o princípio da vida não amadurece, trans-
formando-se em princípio de sentido, ficou alolado no
princípio do prazer.
Um dos exemplos mais assustadores que confirmam
essa relação é uma estatística dos países da ex-União
Soviética, segundo a qual mais de 40 mílhões de habi_
lantes (aproximadamente 16%) são alcoo'latras. Só de
cada seis crianças russas uma nasce com embriopatia
alcoólica (uma elevada deficiência da criança devído ao
consumo de álcool por parte da mãe durante a gravi-
dez). Qual a explicação para isso? Não pode estar relacio-
nado com a dureza da vida- durante o comunismo ou o
pós-comunismo, poís tal condição de precariedade tam-
bém se encontra em díversos países mediterrâneos, como,
p. ex., Grécia e PortugaL onde o alcoolismo é compara-
velmente menos epidêmico. Em oposição a isso, é pre-
sumível que a repressão da vida religiosa por mais de
quatro gerações e a religião da auto-salvação do marxis-
mo imperante não deixaram de ter a sua parte no estado
crítico da saúde da população. O que Viktor E. Frankl
escreve sobre a causa primordial da neurose, pode ser
aplicado analogamente à causa primordial da doença do
vício:38
...como causa do modo de exístêrzcia neurótico não
raramente se constata que a pessoa neurótica apresenta
uma deficiência: foi perturbada a sua relação com a
transcendéncia. Sua relação com a transcendência está
reprimida. Mas do fundo do seu inconsciente transcendente
manifesta-se de quando em quando essa transcendência
reprimida por uma "inquietude do coração", que ocasi0-
138
nalmente pode levar a uma sintomalologia ncurótica apa-
rente. Neste sentido apIica-se lambám à relígiosidadc in-
consciente o que vale para todo inconçcienta podc ser
patogênica. Portanto tambüm a religiosidade reprimída
pode ser "reprimida para sua ínfélicidcule
Com a religiosidadc rcprimida dcsaparecc a confian-
ça na vida e no seu sentido. Com isso atrofia~se também
a disposição para renunciar a alguma c0isa, quando isso
é necessárío. Para que renunciar?
A indústria, com sua máquina public1'ta'n'a, quc cm
nossos países ocidemais faz de tudo para promover os
vícios legais como o cigarro e 0 álcooL sabe muito bem
que para isso precisa descer do nível do sentido para o
do prazer e ali lançar os seus produtos. Os anúncios pu-
blicitários são: “Gost0 de fu*mar", “O prazer contagia",
“O prazer prolongad0", "Para os quc buscam o prazer",
etc. “P0r quc renunciar?" sussurram aos ouvidos do ho-
mem e da mulher que são consumidores normaís. "Use
o que lhe dá prazer. Nós o fomeccmos a você..."
Para concluir analisemos o que o alimentador do
vício realmente oferece ou, o que 0 faz Lão sedulor para
pessoas com pouca capacidade de renu'ncia. É apenas
uma sensação agradável de curta duraçâo, nada mais. O
prazer faz com que seja desejado e a breve duração gera
a dependência dele. Pois assim que cessa a sensação agra-
dáveL será precíso rapidamente repetir a dose, caso con-
trário a sensação agradável passa a ser uma sensação
desagrada'vel.
Até aquí 0 mecanismo é muito claro. O espantoso é
que por uma sensação agradável passageira uma pessoa
seja capaz de jogar tudo foraz sua saúde, seus amigos,
sua profissa'o, sua vida... No VI Simpósio Científico do
Centro Alemão sobre Perigos de Vícios em Tulzing foi
constatado como única unanimidade de todas as teorias
139
V
correntes sobre vícios, que os viciados sempre procuram
um determinado estado de vivência. Querem senlir algo
determinado; se essa sensação coincide com a realídade
ou não lhes é completamente indiferentel Vejamos a va-
lidade dessa afírmação confrontando-a com as persona-
gens das duas citações. O "amigo Tunda" sente-se inútil
no mundo. Procura ele sentir-se mais importante ou ser
importante para alguma coisa? Joseph Roth sentia-se
inseguro e ameaçado. Esforçava-se para sentir-se menos
inseguro ou para ganhar mais segurança?
Como vemos, não se consegue evitar a questão de
um objetivo com sentido, mais que isso, um objetívo que
transcende os limites. É ao mesmo tempo a questão da
atitude fundamental do víciado, a questão que decide
entre vida ou deñnhamenta Se o “amigo Tunda" quíser
sentir-se menos inútil, basta lançar mão de haxixe ou
cocaína que logo terá uma sensação de alívio. Mas se
quiser ser menos inútil, precisa assumír uma tarefa que
tenha sentido e fazê-la sua, ainda que seja apenas ajudar
uma mulher com dificuldade de andar a carregar a sua
sacola de compras na "praça da Madeleine" até a casa
dela. Quando Joseph Roth queria sentir-se menos inse-
guro bastava pegar a garrafa, que logo recuperava certo
sentimento de segurança. Mas se tivesse desejado ganhar
mais segurança, como primeira medida deveria ter re-
nunciado à bebida para poupar 0 seu parco dinheiro e
evitar danos à sua saúde.
Nesta perspectiva os viciados são pessoas que se sa-
tisfazem com algo que não é autêntico em vez de buscar
o autêntico. O que lhes ínteressa não é a realidade tal
como ela é, mas como Chega aos seus sentidos. Muitas
vezes se envergonham, mas apenas fazem alguma coisa
para eliminar (temporariamente) seus sentimentos de
vergonha, em vez de elíminar (a longo prazo) a causa da
sua vergonha. Antoine de Saint-Exupery descreveu isso
140
com precisão no encomro do Pequcno Príncipe com 0
beberrãoz
“Eu bebo", respondeu o beberrão com scnzblame
sombria
"P0r que bebes?"pe›ov'znztou-Ihe 0 Pequcno Príncipe.
“Para esquecer", respondeu 0 beberrãa
“Para esquecer o quê?" indagou o Pequeno Príncipe,
que já tinha pena dele.
"Para esquecer que tenha vergonha', adnutiu o beber-
rão e baixou a cabeça.
FI » -
"P0r que tens vergonhaP pergulou o Pequeno PrmCL-
pe que desejava ajudá-lo.
"Por que eu bebo!" explicou-lhe o beberrão e fechou-
se definitivamente no seu siléncio.
É certo que o álcool ajuda a eliminar sentimentos de
vergonha, mas quem recorre a esse meio assemelha-se a
um homem que desliga o alarme de incêndio de uma casa
que está pegando fogo e na qual se encontra porque este o
perturba. O sentímento de inulilidade, de insegurança, de
vergonha, a fruslração e o desespero existencial de uma
pessoa são chamados S.O.S. da alma, apelos ao espíríto
humano para que este fínalmente empreenda algo que
tenha sentido, pedidos de SOCOITO da conscíência, que não
pode mais ficar de costas para a realidade de uma vida
vivída. Feliz de quem não desliga artificialmente esse cha-
mado, mas o suporta com tudo o que tem de desagradá-
vel. Feliz daquele que renuncia a iludir-se com sentimen~
tos mais agradáveis e prefere escutar os sinais doseu
núcleo sadio, mais íntimo. Sinais que transmitem a men-
sagem numa freqüência transcendentalz o que importa não
é que o que fazemos nos dê uma sensação boa, mas que
seja bom. Mas se for bom, em última instância nos dará
um sentimento melhor que tudo o mais no mundo..."
141
-':”r
.-À
:.
.a-mwt:21
a
4¡*
J.m.;
..
v
'A']'uda-me,Senhordamz'nhavz'da"Comecei minhas considerações sobre a problema'ti-
ca do vício com duas citações de Hans Jürgen Skorna e
quero encerrá-las com uma poesia do mesmo autorz
142
Interpretação logoterapêutíca de uma canção
ESPEMNÇA
- dedicado a um alcoólatra -
mesmo das ruínas
do teu sofrimento
0 teu eu melhor envia
sinais
para recomeçar
O texto da seguinte canção de Gustav Lohmann
(1962; terceira estrofe de Markus Jenny, 1970) poderia
ser entendida como o pedido a Deus de uma pessoa feliz,
psíquicamente estável e agradável aos que com ela com-
vívem para conservar essas boas qualidades.
capta-os.
A¡'uda-me, Senhor da minha vida,
para que eu não passe em vão
por este munda
Ajuda-me, Senhor de meus dias,
para que eu não seja “um peso"
para o meu próximo.
Ajuda-me, Senhor das minhas horas,
para que eu não fíque preso
a mim mesmo.
Ajuda-me, Senhor da minha alma,
para que eu não falte
onde sou necessária
Quais são, sob o aspecto psicológico, os elementos
sadios dos pedidos expressos nesta canção?
143
V
Uma existéncia humana "não inúlíl”. Se não for inú_
til, supérñua, então lcm um sentido mais profundo ~ 0
seu sentido que lhe é 1'nerente. Então também é muito
bom, sem segundas intenções, que exista essa pessoa e
estcja enlre nós no mundo.
Não ser “um peso" para o próximo. Isso poupa ao
próximo toda nccessidade de proteger-se e defender-se,
suportar ou engolir sofrimentos e cobrir-se com uma ar-
madura de bronze. Lívra-o da necessidade de qualquer
defesa. Um magnífico presente para ele!
Não estar preso a si mesmoz a pessoa libertada de si
mesma não se agarra à sua própria vantagem, não se
aferra à sua própría felícidade, não passa por cima dos
cadáveres dos outros para obter sucesso,'não se vende
para receber um pouco de afeição e não vive preocupada
com receber atenção dos outros. É autêntica e idêntica a
si mesma.
E finalmente "r1ão faltar", "não estar ausente" onde
for necessário. A pessoa, atenta, de espírito presente, que
sabe o que tem que fazer e quando é preciso descansar,
que entra na brecha se for necessário e se retira para dar
lugar a outros, que não age importunamente, mas com
grandeza de alma - na retaguarda.
Nenhum outro catálogo de critérios descreveria
melhor uma vida psíquica saudáveL E inversamente as
formas básicas dos distúrbios psíquicos dificilmente p0-
dem ser resumidos de forma mais adequada que os con-
trários do que se pede no texto. "Ser inútil no mundo" é
a expressão perfeita do estado depressívo. "Ser um peso
para o próximo" é uma fórmula abreviada para o tipo de
vida neurótica. "Estar preso a si mesmo" é a característi-
ca mais destacada de todo egoísmo indíferente e brutal.
E "faltar, estar ausente quando é necessário", é o deno-
minador comum do fracasso e da perda das ocasiões ofe-
recidas pela vida.
144
Assim scndo, dedicaremos uma considcração espe-
cial a cada estrofe da canção.
1_ Ajuda-me, Senhor da mínha vida, para que eu não
passe em vão por este mundo
No consultório de psicnterapia uma mulher conta
fatos da sua vída. Teve um fílho ilegítimo, o que naquele
tempo ainda era caso de discriminaçãa Depois lutou com
muitas dificuldades, mas apesarde Iudo criou 0 filho com
grandes sacrifícios. Finalmente, jâ em idade mais madu-
ra, conhecera um homem e com ele construíra uma bela
moradia. Essa casa própria com móveis valiosos fora um
antigo sonho dele, que com muito esforço os dois realiza~
ram juntos. Infelizmente seu companheiro só pôde usu-
fruir a casa por um breve período de tempo, pois morreu
cedo. Depois disso ela passou a viver bastante solitaria-
mente.
O relato tem uma conotação melancólíca. Mas a si-
tuação também pode ser interprctada de outra maneira.
Numa época em que mães solteiras eram menospreza-
das e não recebiam apoio, era preciso muita coragem
para assumir a gravidez e críar o filho. Esta mulher fez
isso. E ainda maís. Ajudou um amado companheíro a
realizar o sonho da sua vida de morar numa bela casa, o
que não teria conseguido sem ela. Com seu sacrifício fez
duas pessoas serem felizes. Isso não é nada?
A mulher não viveu em vã0. Quando isso lhe fícou
claro mz sessão de psicoterapia, teve novamente a coragem
de sair da sua solidão, disposta a assumir uma nova tare-
fa. Esta não tardou a bater à sua porta. Na vizinhança
enforcara-se um rapaz de 1 6 anos. A mãe estava completa-
145
V
mente desolada. A mulher passou a visita'-la diariamemel
sentava-se silencíosamente ao seu lado, acompanlzava-a
ao ce›nite'n'o, levando flores. Quando a mãe chorava, cho-
rava com eIa. Depois de alguns meses a mãe recuperozl-se,
principalmente graças à bondosa perseverança dessa mu-
lher ao seu lado. Uma mulher tranqüila, modesta, que nâo
está em vão neste mundo...
Para viver uma vida com sentído neste mundo é ne-
cessário certo cuidado. Estar atento ao uso cuídadoso
do tempo, dos bens, das próprias forças, das possibi-
lídades etc. Quem não souber economizar e concentrar-se
no essencíal, perde-se no desperdício e no esbanjamenta
A mulher descrita tomou o tempo suficie_nte para críar
seu filho. Investíu os seus modestos recursos numa bela
morada. Teve perseverança e dedicação pessoal para as-
sistir a vízinha no seu luto. Aproveitou com sentido as
possibilídades que a vida lhe ofereceu.
Por mais diferentes que sejam as condições de par-
tida de cada ser humano, em um ponto são iguais para
todos: o día tem 24 horas para todos. É espantoso obser-
var o que cada qual faz com elas. "As pessoas que nunca
têm tempo para nada são as que menos realízam", já
observou no século XVIII o arguto literato Georg Chris-
toph Lichtenberg. "Quem deixa que o tempo lhe escape
das mãos deixa a vida escapar-lhe das mãos”, disse Victor
Hugo. Há muito de verdade nesses af0r1'smos. Quem não
sabe usar bem o seu tempo geralmente não é confiáveL
não é pontual, é inquieto e agítado, vive sob pressão in-
tema e com "má conscíência". Está sempre repetindo que
não tem tempo, mas se o observarmos de perto, veremos
que não sai do lugar.
Por que acontece isso? O uso correto do tempo su-
põe uma ordem de valores. É necessário que tenhamos
consciência do grandepara quê de cada momento da vida,
146
do quc tem importância n10dcrada, média, pequcna e
mínima. Para que vivcmos? O que vcvm cm primciro lu-
gar? Em segundo lugar? O que é realmcntc importante?
0 que se perde irrecupcravelmente se não for fcito em
determinado tempo? A mulher do excmplo acima teria
podído criar seu filho dcz anos depois? Teria podido aju-
dar seu amigo a montar a casa após a morte dc|c? Tcria
podido consolar sua vizinhu um ano mais lardc? Não! A
frase de Goethez "Em comparação com a capacidadc de
ordenar o trabalho de um único dia, todo o resto é brin-
cadeira de criança", certamentc poderia ser ampliada
para uma semana, um mês, a vida inteira.
Pode ser ampliada também em outra direção. Quem
não toma o tempo necessán'o para executar ordenadamcn-
te as suas tarefas, muitas vezes causa prcjuízo e caos. Para
mencionar apenas um exemplo com'queiro, ao fazer um
trabalho de anesanato não se coloca um papel sobre a
mesa de trabalho e depois se perde horas para remover a
cola da mesa. Coisa análoga vale em relação ao gasto de
dinheiro bem como ao uso das próprias forças. Quem es-
banja dinheiro também desperdiça seus recursos físicos e
esp1'n'tuais. Alimenta-se mal e de foxma irregular, não se-
gue um ritmo saudável de sono e deixa que seus planos se
frustrem. Joga fora as suas brilhantes possibilidades. Pois
as possibilidades (da mesma forma como o dinheiro) em
si mesmas são ineficazes e só se tomam eficazes pela sua
realização. Necessitam de alguém que as tome realidade.
Nossa possibilidade de assassinar alguém não mata nin-
guém. Nossa possibilídade de fazer companhia amáquina que se relacíona pontualmente com
uma alma puramente espiritual é certamente faalguém
não tira ninguém da solidão. Somente as possíbílidades
de sentido aproveítadas e levadas à prática no tempo cer-
to realízam o sentido.
"Ajuda-me, Senhor da minha vida, para que eu não
passe em vão por este mund0..." é um pedido para reco-
nhecer a ordem dos valores que está ligada com tudo o
147
v
que sou e tcnho. Para reconhecer o grande para qué do
meu tempo, das minhas posses, das mínhas forças físi-
cas e intelectuais no dia de hoje. Se eu souber isso no
fundo do meu coração, posso dispensar os pequenos va-
lores e “poupar" em favor do que necessito para o gran~
de para qué.
IL Aiuda~me, Senhor de meus dias,
para que eu não seja “um peso” para o meu próximo
Um homem compra para a sua mulher uma lâmpada
de aparador que precisa ser instalada sob uma estante.
Começa a montagem, mas sem resultada Como não e' ele-
tricista por profissão nem por hobby não sabe por que as
partes da lâmpada não se ajustam.
Se o homem for psiquicamente equilibrado, acaba-
rá suspendendo as tentativas ma1-sucedidas de instala-
ção e comunicará a sua mulher que não consegue fixar a
lâmpada. A seguir pedirá a um amigo que o ajude ou
chamará um eletricista profissional.
Se não for psiquicamente equilibrado, se sofrer de
sentimentos de insufíciência e de inferioridade e talvez
já muitas vezes na vída fracassou em outras tarefas, para
decepção das pessoas do seu círculo, o problema da lâm-
pada será mais difícíL Jamais admitírá que não conse~
gue instalá-la. Poís cada "eu não consigo" agravaria a
ferida da sua suposta inferioridade Assim é obrígado a
suspender a montagem sem as palavras “não consigo", o
que só é possível mediante o recurso a um bode
expiatórío. Isso acontece mais ou menos assím:
Primeíro resmzmga sobre a construção da estúpida lám-
pada. Hoje em dia não se faz mais nada direito! Na socieda-
148
de do descarte todos só querem ganhardinheiro rapidan1en-
te sem trabalharz Depois da condenação global da sociedade
amoral ele se torna mais conrreta Também não tem a ferra~
menta adequada em casa. E naturalmente em casa se gasta
em tudo menos naquilo que ele precisa. Se a mulher não
reagir à indireta por conhecer o marido que 1em, este preci-
sa tomar=se mais Concreto. Além disso, para esse tipo de
montagem é neceSSáIiO um pedaço de fío para extensãa
Antigamente ele sempre tinha líos guardados numa caLx'a.
Mas Como há algum tempo sua mulher invemou de limpar
o sótã0, não sobrou mais nada. Por isso ela mesma e' culpa-
da por que a instalação da lámpada vai demorar.
Para um homem sem equilíbrio psíquico esta retíra-
da é ídeaL Pode largar a lâmpada e a ferramenta, não
precisa provar que se tivesse 0 fio de reserva conseguiria
fixar a lâmpada, e além disso ainda Conseguíu prevenir
qualquer comentário potencialmente crítico da sua mu-
lher, que, ou assumirá a culpa ("Tens razão...") ou tenta-
rá sua defesa (“Eu não podia guardar todos aqueles tras-
tes..."). Em resumo, o homem ganhou tempo para
arranjar uma ajuda de fora, sem aparecer como quem
“não sabe".
O único lado feio do procedimento é que é preciso
arranjar um bode expiatório. E este é o ponto doloroso,
pois nínguém gosta de sê-lo. Qualquer que seja a reação
à qual a mulher possa 1'nclinar-se, tristeza, ressentimen-
to, indiferença ou tolerância, interiormente ela se afas-
tará um pouco mais dele. O marido cai na sua estima.
Não porque não Conseguiu montar a lâmpada, mas p0r-
que fugiu mesquinhamente do problema. A mulher dífi-
cilmente tomará a pedir-Ihe um favon Estará contente
se não precisar recorrer a ele. Ele sentirá isso - mesmo
que não se toque no assunto entre os dois. A ferida do
seu sentimento de inferioridade não cicatr1'zará.
149
i
 
Para não sermos um peso para os outros precisa-
mos de uma boa medida de equílíbrio psíquico. Da mes-
ma forma como dificilmente alguém pode amar o próxí-
mo se não se amar a si mesmo, assim também facilmente
inflíge sofrimento ao próximo, se ele mesmo estiver so-
frenda Isso vale príncipalmente para modelos de com-
portamento neurótic0. Apresentaremos dois modelos
desse tipo porque muitas vezes levam a complicações
humanas insolúveis.
Modelo básíco I:
Procedimento histérico de solução de problemas
X (= o indívíduo com distúrbios neuróticos) em pn'n-
cípio não resolve nenhum problema da vida por si
mesmo. (Por causa da complexidade da questão, dei-
xamos de lado a pergunta “por quê”, mas em princí-
pio sempre está envolvido um fator de medo exage-
rado.)
X leva uma pessoa do seu círculo a procurar e en-
contrar uma solução para ele. Os meios que usa para
tal são van'antes diretas e indiretas de pressão, como
sinais de desamparo, lamentações, recusas, sintomas
de doenças, depressão, ameaça de suicídio.
Se a pessoa do seu Círculo familiar ou um amigo
resolver o problema para X, está tudo bem. A ação
do ponto de vista de X foi bem concluída. Se a pes-
soa não resolver satisfatoriamente o problema, ela é
culpada. Também isso está bem, segundo o ponto
de vísta de X, pois:
Através dos sentimentos de culpa gerados na pessoa
que o ajuda (e exacerbados pelas crítícas ou pelo de-
Sespero ostensivo de X), leva-a procurar uma nova
solução. As vantagens desse comportamento para X
são evidentes.
1)
2)
3)
4)
 
Í
Não precisa esforçar-se para resolver seus proble-
mas, 0 que é extremamente Cômodo. Nunca é culpado
por fracassos na solução de problemas, o que é muito
tranqüilizante. E de ccrto modo ainda tem na mão e
manipula a pessoa que 0 ajuda, o que lhe proporciona
um secreto prazer. Todavia também há desvantagens.
Repetidamente X precisa exercer pressão sobre os que
com ele convivem, e cada vez mais é empurrado para o
papel de um índívíduo desamparado, depressivo e can-
sado da vida. Passa a depender cada vez mais da pessoa
que lhe está próximo, incapaz de resolver sozínho os
seus problemas. E acaba 0diando-a porque dela neces-
sita desesperadamente e 0diand0 a sí mesmo por não
ser capaz de fazer nada. Não é difícil imaginar o que
tudo isso signifíca para a pessoa que lhe está próximo,
pai, esposa, írmão ou filha. O envolvido deve resolver
tudo para X, sente-se sobrecarregado, mas não ousa
“abandonar” X, por causa da preocupação Qustificada)
com a sobrevívência deste e, por fim, como agradeci-
mento, recebe o ódio de X.
Modelo básíco II:
Insegurança como causa de problemas
1) X não é capaz de formar uma opinião própria por-
que se sente inseguro na avaliação de pessoas e coi-
sas. (Novamente omitimos a questão do “por quê".
Em pr§incípio igualmente aqui o fator decisívo é um
medo exagerado.)
Sem opinião própria, X depende da opinião de ou-
tros. Está constantemente de olho neles, mas como
as opiniões de outras pessoas não coincidem, cresce
a sua insegurança. O que X promete sob a influên-
Cia de A, deixa de cumprir sob a influência de B.
Não se compromete com nada.
2)
151
V
3) É possível sugerir juízos vísivelmente falsos a X. Por
exemplo, pode-se convencê-lo que um colega de tra-
balho muito aplicado é preguiçoso e 1'ndolente. X
imediatamente está pronto a acredítar nisso, a repe-
ti-lo e a espalhá-lo sem uma avalíação crítíca.
A insegurança de X manifesta-se escancaradamente
quando precísa tomar uma decisão 1'mportante. Ge-
ralmente esquiva-se a dar um claro “sim" ou um cla-
ro “não". Ou simplesmente deixa as coísas como es-
tão, mesmo que isso seja insuportáveL
4)
Embora pareça estranho, também esses mecanismos
oferecem vantagens para X. Sem exceção, refere-se a
outros. Os outros o teriam informado, instmído ou diri-
gido erroneamente. Se seguíu a opínião de outros, a res-
ponsabilidade foi deles. Se ao seguir a opinião de outros
fracassou, porque terceiros falararn o contrário, é res-
ponsabilidade destes. Díante do sucesso de outras pes-
soas, X afirma que ele teria alcançado o mesmo sucesso,
se alguém o tívesse estimulado. Díante do fracaso de ou~
tras pessoas, X afirrna que tinha previsto tudo, mas não
o impediu porque de qualquer forma ninguém lhe teria
dado ouvido. Por mais grotescas que sejam as formas
com que se manifeste seu temor de assumír responsabi-
lidades próprias, sempreterá a vamagem das pretensas
“mãos limpas". Mas as desvantagens são grandes: quem
não aprende a testar de forma independente o seu juízo,
confrontando-o com a realidade, se tomará cada vez mais
alheío à mesma. Suas aprecíações errôneas se acumula-
rão e não raro desembocarão num colapso físico, psíqui-
co e social. Para os que com ele convivem a crônica inse-
gurança de X é um pesadelo. Nunca podem confiar nele
e freqüentemente são abandonadas por ele. Devido à sua
falta de opiniões próprias, não é possível entrar em acor-
do com e1e, pois a cada acordo díz “sim" e “amém", mas
152
 
com a mcsma facilidade também desfaz o que disse. Fe-
cha-se num mundo sem valor, baseado em juízos falsos.
Protege-se com suus "mãos limpas" e deixa aos outros
que se encarreguem do resto da vida do dia-a-dia. "Aju-
da~me, Senhor, para que eu nâo me tome um peso..." é,
portanto, um pedido de não só reconhecer a ordcm dos
valores, mas também de ter a coragem de comprometer-
se com ela, de assumi-la. Comprometer-se, com o ínevi-
tável risco inerente a todo autêntíco "sim" e o modesto
reconhecimento das próprias limitações. Todavia, com-
prometer-se com apaixonada dedicação às soluções pla-
nejadas e aos progressos que devem ser alcançados no
modesto campo daquilo que nos cabe - o campo de res-
ponsabilidade próprio de cada um.
III. Ajuda-me, Senhor das minhas horas,
para que eu não fique preso a mim mesmo
Uma mulher de 24 anos queria minha oriemação por
causa de um "sentimento estranhamente desagradável do
qual queria que eu a livrasse mediante terapia. Contou que
durante três anos morou com um homem. Depois conhe-
ceu outro homem, que era mais atraente e pela sua perso-
nalidade mais interessante e alegre que o primeiro. Sem
pensar muito decidiu fazer suas malas e mudar-$e para a
casa do segundo homem. Quanto a isso, tudo bem. Só que
às vezes é assaltada por um "semimento estranhamente
desagradáve'l", quando se lembra do primeiro homem,
quando o encontra na rua ou está em lugares onde esteve
junto com ele. Perguntei à mulher como o primeiro com-
panheiro reagiu à sua inesperada partida. "Oh", respon-
deu ela, ”ele ficou triste. Gostava muito de mim. Por isso
recomendei-lhe que também ele procurasse um psico-
terapeuta".
153
A__›__._. ________._____._
Yí
Será que esse pequeno episódío é sintomático da
nossa época? A mulher não é capaz de nomear o seu sen-
timento, não tem palavras para ÍdenlifÍCá-10. Há Cem anos
a sua relação de três anos com o primeiro homem tería
sido um casamento normal, do qual com toda probabili-
dade teriam surgido filhos. A relação com o segundo
homem teria sido classificada Como “infidelidade” ou
"adultério". Essas tradições foram abolidas, mas há algo
que faz parte da essência do ser humano e que não pode
ser abolíd0. Há no ser humano um sentimento - de f0r-
rna alguma dependente de tradições - pelo qual as pes-
soas não se deixam trocar arbitrariamente e o amor não
pode ser revogado. Alguma coisa no ser humano, uma
pequena voz que Contradiz redondamente a afirmação
racional de que tudo está "ok”. Será que esta pequena
voz, que se eleva imperturbavelmente, não é a melhor
coisa que há no homem? A sua consciência? No caso da
nossa paciente não podia tratar-se de um superego im-
posto por normas antiquadas. Nada mais longe dela que
padrões antígos. Apesar disso ouvia a pequena voz inte-
rior que a irritava. Mas que conclusão tirava disso? O
funíleiro da alma (o psícoterapeuta) devia reprimir a
pequena voz a um baixo limiar da audição (também isso
sintomático do nosso tempo?). Extirpar toda culpa e tris-
teza - será esta a função de nós, psicoterapeutas? O
homem, com a sua consciência do eu, tem um oposto, 0
nã0-eu, o tu, o mundo. Como para nenhuma outra cria-
tura, para ele o ser está radicalmente cindido. As crian-
ças fazem essa experiência ontológica no momento em
que, em veZ do seu nome, usam a palavra "eu", p. ex., em
vez de “Pedro está com sede”, "eu estou com sede". 0 se-
guinte passo do desenvolvimento é o passo imagínário
para o que não é “eu". Se “eu", Pedro, tenho sede. tam-
bém “tu”, Wilfrído, poderias ter sede. Como ao eu se opõe
0 mundo, às necessidades do eu opõem~se as necessida-
154
 
 
des do mundo. Ao tomar consciôncía disso, o homem
libel'la-$e de si mesm0, solto da mônada dc uma cons-
ciência ausente m muda, e capaz de vcnccr a cisão radi-
cal do ser através de um intcresse (inlcr = cntre, essc =
ser!) Comum em si c no outro. Sc não o fizen sc amarrará
novamente a si mesmo, deslizará para dcntro da mônada
do pré-humano c correrá 0 risco de ouvir O prolesto da
sua Consciência, "o guarda da sua human1'dade”.
Em todo caso, expliqzwi à nzullzer o enorme benefício
psico-lzigiénico de uma atuação Conjunta da desculpa e do
perdáo. Unza nâo é possível sem 0 outra E senz nenhum
dos dois pralicamemc não e' possível unza despedida. Per-
gzmtei-llze se isso tinlza ocorrido entre ela e o primeiro ho-
mem. Ela aITegalou os ol¡zos. "Como assinz?” se isso não
foi feit0, continuei com fírmeza, ela não se tinlza despedi-
do dele, o que se manifestava no seu mal-es[w; senzpre que
se lembrava dele. Por isso seria necessário que ela faálasse
mais uma vez com ele. Que em Casa refletisse tranqüila-
mente sobre as coisas dc que devia pedit=lhe desculpa e
sobre o que ela devia pe›'d0a»'llze, e depois entrasse em COil-
tato com ele. Infélizmente o homem rzâo estava mais di$-
posto para nenhum diáloga Mas a paciente ainda llze es-
creveu uma carta no qual lamentava té-Io felito soñer e Ihe
assegurava que entendia 0 seu Comportamento magoado e
não o levava a maL Se ao fím de tudo alguma Coisa a aju-
d0u, fbi esta carla que na realidade foi escrita para ajudar
0 homem...
Para não ficarmos presos a nós mesmos, precisa-
mos olhar e escutar para além de nós mesmos, sentir e
pensar Com 0(s) outro(s), enfim precisamos inCluir a ne-
Cessidade do mundo. Se nos limitarmos a cuidar das
nossas próprias necessidades, seremos Catapultados para
fora da comunídade humana, ou melhon nem consegui-
155
í
remos entrar nelaz a ponte permanece levantada como
uma ponte levadiça medievaL Os dados a seguir apre-
sentados ilustram os detalhes em que isso se manífesta.
De acordo com estatístícas dos Estados Unidos, automó-
veis alugados acabam transformados em sucata com mais
freqüência que os outros. Todavia entre os carros de alu-
guel devolvidos há uma proporção de carros sem qual-
quer arranhão acima da média em comparação com os
outros carros. Como se explica isso? Os motoristas que
transformam os carros em sucata pensam assim: "De
qualquer maneira 0 carro não é meu" e sentam-se na
mônada dos egocêntrícos. O que lhes diz a pequena voz?
Podemos imaginar que a anestesiam com toda sorte de
excessos para não ter que ouvi-la. Os motoristas “sem
qualquer arranhão”, pelo contrário, pensam assim: “O
carro não me pertence, por isso tomarei um cuidado es-
pecial", e com isso mostram a sua caneira de ídentidade
de seres humanos. Como homens que levam em consi-
deração 0 na'o-eu, em harmonia com a sua consciência.
“Ajuda-me, Senhor das minhas horas, para que eu não
fique preso..." é, portanto, um pedído de intensificação
de sensibilidade pela ordem dos valores, que se estende
além do pro'pn'o horizonte; um pedido para sermos acom-
panhados na ponte em direção ao mundo. Pois nessa
ponte entre o eu e o não-eu somos fortes. Tão fortes que
permanecemos fiéis a nós mesmos, aos nossos queridos
e às tarefas por nós assumídas, e, se falharmos, que sai-
bamos pedir desculpas e perdoar-nos reciprocamente.
Que não transformemos ern sucata aquilo que nos foí
conñado e possamos ouvir claramente a pequena voz
dentro de nós!
156
IV. Aiuda-me, Senhor da minha alma,
para que eu não fàlte onde sou necessário
Um homem vem ao consullório psicoterapéutico em
busca de ajuda para o seu vício do computadorz Pern'1ane-
cia horas e horas a fío Lliante do seu computadon ocupado
com seus programas e não conseguia libertar-$e. Em 25
sessões sua psicoterapeuta analisou a pre'-história do pa-
ciente e em conclusão esclarecewlhe que seu vícioconsti-
tuía uma fltga dos seus amigos colegas. Certa vez estes
caçoaram dele em clima de brincadeira e o paciente consi-
derou isso como humílhaçãa Para evitar a repetição do
fato, desde então o paciente inconscientemente estaria
entrincheirado atrás do seu conzputadou O paciente com-
cordou com a interpretaçãa mas não viu nenhuma solu-
ção para o seu vício do computado›:
Na logoterapia a reconstrução do problema não ocu-
pa o primeiro plano. O principal cabe ao sentido do mo-
mento, o “único necessário" (Frank1).
Um homem veio consultar-me por causa do seu taba-
gisma Ele e a filha eram os fimzantes da /a'mí1ia. A fílha
fízera um tratamento por hipnose, sem resultado. Depois
de uma grave pneumonia não recuperara mais a sua 5aú-
de. Sofria de catarro nos br0^nquios, uma tosse crônica e
ingeria elevadas doses de cortisona. O pai insistia com ela
para que parasse de fuman Ela retrucava-lhe que ele tam-
bém não era capaz de parar. Vi um maço de cigarros já
aberto no bolso do paletó do pacieme e pedi que passasse a
mim. "O senhor tem uma fbto da sua fílha consigo?"per-
guntei e ele fez que "sim". Eu a pedi a ele que a tirou da sua
carteira. Com alguns clipes fixei-a no maço de cigarros.
"Leve sempre consigo somente este maço de cigarr(›s", re-
comendei-lhe. "Quando tiver vontade de fúman pegue o
157
W
maço e durame alguns momentos contemple a foto da sua
ftlha. Tente ouvir o seu interior, se o senhor realmeme quer
fumar ou devolver o maço ao bolso, aquilo que Sincera-
mente tiver mais valor para o senhor!" Já faz um ano e
meio que 0 homem está curado do seu vício. Libertou-se
com a aiuda da foto. Na noile de São Silvestre do seu pri-
meiro ano completo sem fúman recebeu um maravilhoso
presente da sua leha, ou seja, a promessa de também pa-
rar de fumart Por amor a si mesma e a ele. Já conseguiu
cumprir a promessa por dois meses.
Para não estarmos ausentes quando somos necessá-
rios, precisamos de uma consciência aten_ta. Atenta no
sentido de que o importante não acabe submergido em
nosso comportamento rotineiro e regular, mas que este-
jamos atentos a ele e o integremos em nossa rotína. Há
uma diferença entre não reparar em algo e inconscieme.
O psícoterapeuta que tratou o paciente viciado em com-
putador añrmou que pelo vício ele queria proteger-se "in-
conscientemente” de humilhações. Seja como f0r, em
todo caso, não reparar algo segue outro caminho, obede-
ce a outro mecanismo. Ninguém, por exemplo, deixa de
praticar esporte porque "inconscientemente" quer ter
articulações enrijecidas na velhice. É preguiçoso para as
atívidades desportivas porque durante longo período não
repara que suas articulações se tomam cada vez mais
enríjecídas e difíceis de mover. Quando finalmente o per-
cebe geralmente já é Larde demais. Agimos com consciên-
cia não-alena, quando agimos de uma maneira que a lon-
go prazo não teríamos desejado fazê-lo. Acostumamo-nos
a comportamentos nocivos à saúde, preguiçosos, indo-
lentes, indignos que, depois que se tomaram hábitos, são
difíceis de abandonar e acabam dominand0-nos. Há 1'r1-
divíduos que nunca vão dormir antes da meia-noite, e
com o passar do tempo colhem os fnltos da falta de sono.
158
Outros. enquanto vêcm tcl'(,visào, cslào conslantcmcnlc
comendo doces, c dcpois sofrcm os pmblcmas típicos dc
uma má alímentaçaa Outros, por sua vc7., nào tôm âní-
mo de alelizar sua cullura, c dcpois dc alguns anos sur-
preendem-se com sua íncapacidadc de acompanhar qual-
quer conversa. Outms a1'nda, cm qualqucr discus.s'ã(›, logo
se põem a gritar como sc voz zllla fossc 0 mclho * zlrgu~
memo, e acabam em gélido isolamcnlo. Tais pessoas não
agem inconscientcmcmc na dircção do quc qucrcm al-
cançar, mas inadvcrtidameme na dircção do quc não
querem alcançalz No seu futuro não qucrcm tcr dificul-
dade de dorm1'r, ser gordos, incullos c solitários, cmbora
trabalhem exatamente nessa dírcção porque não regis-
tram o que fazem. O hábíto é um podcroso tirano.
Para transformar esse tirano cm sewo é nccessário
passar pela vida com consciência alerta. Quem sc acos~
tuma a tomar um copo de álcool a cada contraricdade,
não tardará a não suportar mais nenhuma contran'eda-
de sem álcool. Quem se acosluma a fazcr uma breve
medítação logo de manhã, passará automaticamente a
encarar com serenidade cada novo dia. O posítivo c sem-
sato que integramos em nossos hábilos ajuda-nos, da
mesma forma como o negativo c- irracional nos prejudi-
ca. É característico do hábito ser conservado "como no
sono", a menos que sobrevenha - cm caso de mau cos-
tume - um doloroso "despertar”. Então a pcssoa aprcn-
derá (infelizmente tarde demais!) 0 que faltow a peque-
na varíante na rotina diária que teria mudado tudo.
Menos álcool, mais meditação, 0 que quer que seja, um
pequeno detalhe, continuamente cultívado teria levado
a vida a outras praias. E não só 0 que faltou, mas tam-
bém onde nós mesmos falhamos manifesta-se mais tar-
de em dimensão amplíada à consciência despertadzL Mas
de que adianta isso? De que servirá ao homem viciado
em computador saber em que lugares, em que comuní-
159
í
dade e em que ocasiões importantes para o futuro fa_
lhou, enquanto fitava os efêmeros sinais da tela? No lei-
to de morte não é maís possível recuperar o que se pe1-.
deu na vida. "Ajuda-me, Senhor da minha alma, para que
eu não falte quando..." é, portanto, um pedido de ínten_
sifícação do grau de atenção da nossa consciência. To_
dos os valores precisam de cuídados, quer se trate de
valores do eu (saúde, mobilidade, cultura), ou de valores
do tu (relações, altruísmo, sociabilidade). Requerem cuí-
dados diários da mesma forma que os dentes necessitam
de limpeza. Ora, o que é diário automatiza-se numa roti-
na irreflexa, "natural". Por isso pedimos a Sua assistên-
cía à nossa vigilância, para que em nossa rotina introdu-
zamos o cultivo de valores e não de antivalores. Pois o
que adquirimos como hábitos, aquela mesmice cotidia-
na, acumulada, quase ímperceptível no trato conosco
mesmos e com os outros, algum dia decidirá se estiver-
mos espiritualmente presentes ou ausentes.
160 j
Um motivo para viver?
Momentos de questionamento sobre o sentido
da vida e comportamento suicida
O comportamento suicicla leva a pesquisa causal
aos seus limítes maís que qualquer outro fenômeno, pois
praticamente qualquer um de nós tem a qualquer mo-
mento um motivo para suicidar-se. Uma única vida hu-
mana que tenha ultrapassado 0 período da infância é
comparável a toda uma história mundiaL Está cheia de
tragédias e comédias, ilusões e desilusões, tentações e
erros, ocasionais momentos luminosos e uma grande
quantidade de sofrimentos comuns, cotidianos. O fato
de que, apesar disso, cominuamos a viver nào significa
que conscientemente consideremos que vale a pena fazê-
lo. O instinto de conservação, inato em nós, oculta-se
atrás de uma irrefletida falta de questionamento do
sentido da nossa existência, pelo que os assuntos do
momento prevalecem sobre reflexões existenciais de
grande estilo. Sem dúvida é determinação da natureza
que o melro só se preocupe com a lagarta que possa
comer no próximo moment0, sem perguntar-se se so-
breviverá ao inverno e para que isso lhe serviria. E da
mesma forma, que o ser humano se concentre nos seus
afazeres e não se pergunte constantemente se com isso,
à moda de Sísifo, está construindo algo que tornará a
perder-se.
161
V
Assim, a pergunta sobre o sentído que transcende
todo ínslinto, normalmente não é proposta de forma ex-
plícita, mas dá-se lhe resposta “de fato" através da ação
concreta. Realização de semido, ainda que indireta e
incons-Cieme, e relativo bem-estar confluem numa espé-
cie de "satisfação média" e harmonia intema, mesmo com
as difículdadcs cotidianas, porque, pelo menos aparen~
temente, sabemos para que lutamos.
Há, porém, desvios da vida normal que fazem emer-
gir ímpetuosamente a questão do sentido.
1) Fases particularmente fáceis da vida em que díspo-
mos de quase tudo o que desejamos, mas não temos
nenhum objetivo para viver, nenhuma necessídade
de esforçar-nos por algumacoisa e nenhuma valori-
zação da felicidade preseme.
2) Fases parricularmerzte difíceis da vida, em que é pre-
Ciso despedir-se de pessoas queridas ou de 0p0rtu-
nidades de realízação de valores essenciais, e a vida
sem elas parece totalmente vazia.
3) Tempos de conflito, nos quais 0 que é percebido como
dotado de sentido e o que é visto como prazeroso se
opõem 1'nconcih'avelmenle, e a pessoa fica dividida
entre o dever e suas ínclínações, entre a culpa e os
prazeres da vida, entre o cobiçado e o permitido.
Esses três "tempos de questionamento sobre 0 sem-
tído da vida" são impulsos fundamentais para indagar
por motivos autênticos para a vida e para a sobrevivên-
Cia e, no caso de encontrá-los, dizer conscíentemente
"sim" à vída, um "sím apesar de tudo”, um “sim" ao ins-
tinto de conservação (que como qualquer instínto tam-
bém pode ser negado), e assim finalmente dar uma res-
posta explícita à questão do sentído.
162
 
 
Se isso não ocorren isto é, se a pcssoa não cncontrar
um semido autêntico para v1'ver, aumenlnrá rapidamen-
te o perígo de suicídi0, sob qualquer forma quc seja, nào
porque subitamente apareceu um motivo grave para
morren mas porque no estado acordado c estimulado da
conscíência do ser humano falla a razão para viver. En-
tâo não pode mais comlnuar Vivendo irreflelidamentc
como antes, sem questíonar 0 sentido da ex1'stêncía. Foi,
por assim dizer, lançado fora das ocupações cotidianas e
catapultada para um nívcl cxístencial mais alto, a partir
do qual a totalidade do seu próprio ser c devir “espera
solução". Como realizo a missão da mínha vida? Sou
importante para alguma coisa? Sou inútil? Estou disposlo
a assumir mínha vida nas condições existentesP Tenho
chance de que alguma vez mínha vída se mudará? Vivi
erradamente e joguei fora a mínha vida? Arruínei-a t0-
talmente? Estas são pergumas que pedem resposta e le-
vam ao desespero aquele em cuja alma elas não encon-
tram resposta. Mas como seriam respostas quc salvam a
vida _ por salvarem o sím à vída? Consideremos nova-
mente as três fases críticas.
A fase particularmente fãcil da vida. É curioso que
esta nos possa trazer diñculdades. Todo sonhamos com
uma existência agradável, sem preocupações. Todavia é
somente o sonho que não oferece perigos. A realidade da
vida cômoda é extremamente problemátíca. O ser hu-
mano fica.asfixiado como num vácuo sem conteúdo.
Quando tem tudo à disposição, não é desafiado para nada,
não sofre pressão, não precisa exigir nada de si mesmo.
Sem limitação a liberdade é um tormento. Setenta por
cento de todos os suicidas vivem em condições extemas
positivas, sem falta de dinheiro, com lugar onde morar,
formação profissional concluída e oportunidades de car-
reira correspondentes. Têm amigos e diferentes tipos dc
163
apoio. O que lhcs taklla é escutar o chamadoíama confi-
gumção cn'ativa c conslrutiva do mundo. O chamado cai
no vazio.
Por i›s*o sc cntrcgam a pmzeres duvidosos, scnsaçóes
excitantcs pam atügentar o tédio e malar o tempo dc for~
ma intsponsáveL Se ludo é índ1'fcrcnte, também a moral
cai e o que não tem sentido assume maís espaço que o que
realmente o tem. Contudo a voz do sentido continua pre-
sente. Ecoa nas profundezas da consciência e insistente~
menlc convida a usar todas as condições favoráveís da
fase facil para o bem daqueles que são menos beneficia-
dos. Modéslia. auto~limitação, iniciativa própña e amor
ao próximo, eis as receitas que também nas fases reple-
tas de confona sucesso, saúde e, infelizmente, também
de tentações, oferecem respostas à queslão do sentido
da vida. que permitem víver e continuar a viven
Vejamos agora as fases parziculannenre difíceis da
vida. Uma experiência de sofrimento assemelha-se ao
desprendimemo de uma pedra da ladeira de uma mon-
tanha. Pode transformar-se numa avalanche que acaba
soterrando toda uma aldeia, ou 0 pedregulho fragmcn-
tado e arrastado pode vir a ser apenas um motivo pura
reHorestar a ladeira, e com a nova Horesta oferecer pr0-
teção e um reservatório de ar puro para os moradores cla
aldeia. Qual das duas coísas acomecerá depende do sen-
tido dado ao sofrímenta Se for interprelado como "l\ím
do mundo", aumentará o perigo de um colapso psíquíco,
ilustrado pela imagem da avalanche. Se for interpretado
como missão e prova, aumentarão as forças para supc-
rar 0 sofrimento e para a "ressurreição" psíquica, ílus-
trado pela imagem do reflorestamenta
Quando ocorre prenúncio de “fím do mundo"? Sem-
prc que perdemos valores a que julgamos ter direito, como
se fôssemos os seus possuidores, e eles fossem nossa pos-
164 
sc. Valorcs não cxislcm no espaço do lcnz lilcs vém c vào,
locanbnos e movem-nos cm cslbram cspirilum's, acompa~
nham-nos na caminhada ulrnvés das difcrcnlcs faixas
etárias c nos falam das muravillms do mundo. Nào é scm
razão que Viktor E. Franld os chama "rcprcs.'cmamc5 do
Senhor". Mzmifcstam-se no rostu dc uma pcssoa amada.
da mesma forma como na alcgria produzida por uma
bela música ou n.1 fascinação cxercida por uma nção con-
vincente. Contudo não nos pmícnccnm O amaclo não nos
pertence, n m'tc, o tmbalho também nào nos pcrtcnccm.
O amado nos dcixa ou m0n*c. A música não sc rcvcla
mais a ouvidos surdos e o trabalho nos é tirado o maís
tardar na velhice, às vezes, cm ópocas clc crisc cconómi-
ca, até já antes. Motivos suficicnlus para a sinislm atitu-
de de muitos suicidas? Ou nmgnífico motivo para agm-
decer o que reccbcmmn c campo abcrlo para futuras
oportunidadcs de valorização? Avalanchc ou rcflorcstm
mento, esta é a qucslão...
Tratemos, finalmemc, dos tempos de co›1/Iz'to, cm quc,
mais que em quaisquer oulros casos, imporla dar uma
única resposta, a rcsposta CCFÍLL Algo cslá cm pcrigo.
Talvez eslejam em jogo vulorcs, mzls nào é possível
conciliá-los entre si. Talvez a felicicladc cslcja accnando
do lado de algo que nào é um valon Não é possívcl lílgír
de uma decisão. Até o não fazer nada já é uma dccísãu E
qualquer decisâo tem Conseqüôncias. Muilas pcsmas scn-
tem medo diante de tais situuçõcsz Não é muis poaxsível
conciliar o poder, o qucrer e o dcvch c só 21 morlc, ussim
pensam, as libena do dilcmu. Mas u morlc não rcsolvc
os problemas, apcnas os transfere dc uma pcsson pam
0utras. Os sobrevívcntcs reccbem sobrc os ombros 21 car~
ga que o suicida alij0u. Uma herança nada '1.gradávcl!
O que é necessário é Coragem. A Coragcm de vcnccr-
se a si mesmo e de renunciar, sc for nccessária A cora-
165
 
A
 
gem de tomar uma decisão na incertezadlresultado e
na certeza do coração. Por contraditórío que possa pare-
cer, faz parte das cun°osídades da vida o fato de perceber-
mos o semído da vída, com maís força, quando ele nos
parece maís incompreensível e estranho. Sim, é preciso
coragem para passar são e salvo entre os escolhos dos con-
Hitos, mas Iambém confiança na revelação do sílêncio.
Poís é no silêncío que percebemos as suaves instruções
do coração, que nos indicam o camínho de volta à vída.
O que acabamos de dizer pode ser aplicado às socíe-
dades humanas. Todas as culturas, tanto as de bem-es-
tar. como as de pobreza e as de mudança de valores, cor-
rem rísco de suícídio coletívo. A prosperidade é o desvío
excessivamente fácíl da sadía condição médía, gerando
excesso e tédío, com tendências para formas de vída per-
versas. A de pobreza é o desvio demasiadamente difícil
da saudável sítuação média favorecendo a corrupção e a
apatia, com fortes tendências para a volla a formas pri-
mítivas, animalescas de vida. E a mudança de valores,
que sempre começa com uma decadência dos valores
exístentes (e nem sempre avança para o renascimento
destes) constitui 0 desvio conHítivo da estabilidade, em
que são questionados valores tradícíonais. Desejo mos-
trar como se apresema uma combínação das três cultu-
ras ameaçadas com o exlrato da utopia de Karl Michael
Armer, que em 1982 ganhou com ela 0 concurso líterário
da Editora Luchterhand sobre o tema: "Como vivere-
mos?"39
No relato ocorre um suicídia Mas não é a descrição
do salto para a morte de uma mulher anôníma que con-
vida à reñexãa É a reação dos circunstantesque fala de
uma mone de outro tipo - a mone do humano. O que é
enterrado aquí são os delicados ensínamentos do cora-
ção, mortos num ambieme de prosperidade extema, de
miséría ínterior e de desmontagem moral. Para que essa
166
utopía não sc torne uma amarga rculidade, cada um de
nós é inslado a aprovcilar os “tcmpos dc qucstinnamcmo
de sentido", qualqucr quc scja o sinal que os camctcri/.'c,
para exlrair de si mesmo as melhorcs respostas dc quc é
capaz à queslão do sentido.
EXTRATO D.' UTOPIA DE K.M. ARMER
...O que F. está dizendo já me parece um pouco de~
mais. Aínda bem que inesperadamente vamos ter açãa
Uma nzullzer do 25° andar subiu no parapeilo da sacada.
Agora está parada lá em cima com seu avenlal floreado,
segzuu-se com uma mão e olha para bazx'o.
"Olha Ia', vai liberar um apartament0", ri P. sarcâslica
“P0rque será que eIa vai entregara ficha?"perg'unto-me.
"Vai ver que usou o detergente errado e não conseguiu
tirar as manchas da camisa do velho dela", diver1c-5e E.
"Ele olhou atravessado para ela e caiu todo o pequeno
mundo dela. "
"Assim termina a vida de uma honrada dona-de-casa",
geme P. “C0m0veme! É de partir o coração."
Nesse meio tempo juntou-se uma multida'o. Também
as sacadas e janelas vizinhas estão api›1hadas. Risadas as“
soltas. O maior clima. Finalmente vai acontecer alguma
coisa.
"Esta tem um bom público", diz F.
Foi só /adlar e já apareccu o pessoal da televisãa Olho
o relógia Trés minutos, nada maL Bem, mas são os rapa-
zes do Canal 16. Só tinham que dobrar a esquinm
“V0cé faz a tomada total", grita o diretor ao seu
cinegrafista n° l. "Como fbrmiguinha na selva de concre-
to. Isso dá impacto. E a câmara lenta vem bem de bazx'o.
Vá diretamente para baixo da sacada. Deve parecerque ela
cai direto na câmara. Afmal quando esta vaca imbecil vai
saltar? "
167
 
yu
~ ñ.'|'
“Pula logo!”grita um dos espectadores. "Mostra o que
você sabe fazerJ ”
“Vamos, queremos ver alguma coisa!" berra outro na
sacada ao lado com sua Instamatic engatilhada.
A mulher olha perturbada ao redor de si. Na mora-
dia atrás dela podem-se observar movimentos apressa-
dos. Parece que alguns espertos iá se apressam a catar os
despoios.
De repente, algumas casas adiante se ouvem as sirenes
dos bombeiros. O que e' que estes caras querem aquiP Mal-
ditos, não queremos ver uma ação de resgate, mas um belo
salto com muita massa de came e 5angue. Rapidamente
alguns carros estacionados são usados para barrar o ca-
minho. Mas estes brutanzontes com seu veículo pesado
empurram os carros para os lados.
Mas isso ainda não quer dizer que vão passar. Garra-
fas voam sobre a pista e se estilhaçam na frente das rodas
do caminhão vermelha Pó/t', póft, os pneus estouram unz
após outro e o caminhão pára. Os bombeiros saltam lotal-
mente nervosos. Apesar disso lentam estender a lona dc
salvamema Mas de uma janela voa um coquetel mololov
para dentro dela. É o fiml
"Ma1dítos, vocês ficaram todos loucos?" vocifera 0
chefe dos bombeiros.
Não consegue entender que eles estejam estragando 0
espetâcula Afínal todos tém direito a um pouco de diver
são, ou não?
No meio da confusão quase nínguém repara que fí~
nalmente a mulher se ¡'ogou. Felizmente vai aparecer na
lelevisão hoje à noite. Em câmara lenta.
168 
Recordando com raiva?
O erro do olhar rctrospcctívo
e seu signífícado para a psicotcrapia
Na prática psícoterapêutica é comum enconlrar pes-
soas que recordam o passado com raiva. Raiva dc quê?
Em parte, dos enos cometidos por seus pais ou outras
pessoas na sua educaçãa Culpam csscs outros pclos seus
próprios defeitos psíqu1'cos. Há toda uma classc de bíblío-
grafia psicológica que os apóia nisso. Por outra parte,
também se lembram com raiva dc situaçócs sociais e
políticas adversas, reínantes quando cram jovens e que
seriam responsáveis pela infclicídade da sua vida. Uma
série de teorias sistêmicas e sociológicas ajuda a alimen-
tar tais juízos. Se 0 "olhar retrospectivo com raiva" nâo
retrocede até a infância e a pr1'meirajuvcmude, mas se
restringe à fase maís jovem da idadc adulla, lerá como
alvo principal os empregadores ou colegas dc trabalho,
cônjuges ou companheíros, que com scu comportamen-
to lhes teriam criado problcmas insuperávcis, estresse e
tensões de toda sorte.
Não discutirei a situação convulsionada e confusa
da vida psíquica e espiritual de uma pcssoa que perma-
nentemente olha para o passado com senlimenlos de rai-
va. A fantasia não conhece limites nesse camp0. Em vcz
disso, investigarei uma outra questão, isto é, até que ponto
são objetivas e justificadas tais recordações canegadas
169
de ressentimento. A pesquisa psicológica empírica co-
nhece, de há muito, erros de julgamento e de recordação
os assim chamados “enganos cognitivos", entre os quais
o interessantíssimo fenômeno do "erro do olhar retros-
pectivo”. Este foi descríto pela primeira vez na década
de 70 por B. Fischhoff e G. Wood, e no início dos anos
90, analisado em minucíosos estudos pelos cientistas J.J.
Christensen-Szalanskí & C.F.W1'llham, S.A.Hawkins & R.
Hastie, R. Pohl e C.Schmidt. Todavia a relevância dos
resultados das suas pesquisas até agora praticamente não
teve reHexos nos conceitos de psicoterap1'a.
O erro do olhar retrospectivo é a falsificação da re-
cordação de estados de conhecimento, opiníões e juízos
do passado, provocada por informações recebidas de-
pois. Os norte-americanos também a definem como
"bia$ed judgements ofpast events after the outcomes are
known" ou "the knew-it-all-along-effect”. Em geral trata-
se de idéias distorcidas acerca de fatos passados. Ru"-
diger Pohl, professor da Universidade de Eichsta"tt, de-
monstrou o fenômeno com um método de pesquisa
bastante símples.40
Pede-se a várias pessoas que respondam a perguntas
difíceis de conhecimento geraL p. ex., 0 comprimento do
rio Danúbio. Depois de certo tempo recebem as respostas
certas e são solicitadas a lembrarem-se das suas próprias
respostas. Uma corzstatação tzp'ica é que as respostas lem-
bradas estão em média próximas demais das respostas
certa$. No exemplo do rio Danúbiop_Líeriaser que uma
pessoa inicialmente lenha respondido "2.200 km.", a se-
guir recebe a resposta certa (2.852 km.) e depois se lem-
bra de ter respondido "2.400 km.". Esse fenômeno e' de-
nominado erro de olhar retrospectivo. É um dado muito
sólido que depois foi confirmado por numerosas outras
pesquisa5.
170
Em suas obras Rüdiger Pohl chama a atenção para
o perigo de engano rcsultante desse fenômeno. O olhar
retrospectivo ímplica que quem olha retrospcctivamcntc
já é mais velho que quando aconteceu aquilo que recor-
da. Ora, momentos posteriores da vida aumentam su-
cessívament \ o conhecimento dos resultados de acon-
tecímentos anteriores. Assim, por exemplo, se um
homem que agora tem 34 anos, com trinta anos se
candidalou a uma vaga de um curso de aperfeiçoamen-
to, enlã0, aos 30 anos, não sabia se conseguiria a vaga.
Atualmente, porém, com seus 34 anos de idade sabe per-
feitamente se a conseguiu ou não e quais foram as
conseqüências que disso lhe advíeram nos últimos qua-
tro anos. O conhecimento por ele adquirido nesse pe-
ríodo influencia sua recordação da avalíação que en-
tão fez da situação e o índuz a um juízo falso que se
manifesta em frases do típoz “tinha que acontecer ísso";
“ísso eu já podia saber"; "não se poderia esperar outra
coisa" etc.
O mesmo falseamento de juízo pela retrospecção
também pode ser transferido a outras pessoas envolvi-
das num acontecimento passado, por exemplo, na recor-
dação de um acidente. Uma reconstrução posterior da
seqüência de um acidente permite entender como pôde
ocorren Mas esse conhecimento posteríormente coligí-
do é enganoso, porque sugere que na ocasião o acidente
podia ser controlado ou até evitado, o que não é necessa-
riamente verdade. Esse juízo ainda é acompanhado de
críticas às pessoas env01v1'da's (“Vocês emão não enten-
deram...?"; “como foi que vocês puderam...."; "eu teria
agido dc maneira totalmente diferente...!” etc). Rüdiger
Pohl cita especialmente a historiograña como um exem-
ploperfeito de processos sociais e políticos facilmeme
comprecnsíveis a posteri0n', que devido ao erro do olhar
retrospectivo de gerações posteriores aparecem como “já
171
 
então prevísíveis e devidamente corrígíveis", 0 que com
certeza nunca foram.
O que surpreendeu os cientistas é que experimentos
de uma redução manipulada de erro em laboratório re-
sultaram praticamente sem êxilo. Por isso foram aban-
donadas as “explícações motivacionais" do erro de olhar
retrospectivo apresentadas na década de 70. Dizia~se que
as pessoas tínham motivos (inconscientes?) para querer
melhorar ou ocultar coisas passadas. No exemplo do
Danúbio se poderia especular que os participantes do
experímento quen'am aparecer mais inteligentes diante
de si mesmos ou dos seus experimentadores, aproximan-
do “fraudulentameme" as suas respostas origínais sobre
o comprimento do rio ao seu comprimento real. Mas o
mesmo erro também ocorria quando deviam responder
o que outras pessoas d1'n'am sobre o comprimento do
Danúbio e lembrar as suas respostas depois de saberem
a resposta certa. Neste caso uma imagem positiva de si
mesmos e outros prestígios sociais desejáveis não po-
diam exercer a menor influêncía.
No inícío da década de 90, as "explicações motiva~
cionais" foram substituídas por “explícações cognitivas".
Sabemos hoje que o fenômeno "ref1ete nossa capacidade
quase ilimitada de aprender" (Pohl). Toda nova informa-
ção sobre um fato é imediatamente registrada pelo Cére-
bro humano no acervo de conhecimentos que a pessoa
já possuí. Isso atualiza, quer dizer, altera tais conheci-
mentos. O que pela sua denominação e descriçâo é nega-
tivo no erro do olhar retrospectivo, por ser errôneo e en-
ganoso, na verdade tem um sentido emínente, dado pela
natureza, uma vez que para 0 nosso bem-estar e nossa
sobrevivência é mais ímportante sempre seguir o estado
mais recente de interpretação e de julgamento, que ar-
mazenar exatamente na memóría coisas que já passa-
ram há muito tempo.
172
í1
 
Voltemos maís uma vez ao exemplo do Danúbía Sim-
plificando as coisas, podemos dizer inicialmcnte quc sob
o aspecto neuronal há sulcos de memória separados para
a resposta original e para a resposla verdadeira reccbi-
da. Quamo mais forte for o sulco da resposta recebida
tamo mais forte será posten'ormente o erro do olhar re-
trospectivo, conforme mostraram sobretudo as mcdições
feitas por W. Hc'|.'“ Portanto, quanto mais intensamenle
for trabalhada uma informação tanto maior será a sua
inHuênCia sobre a recordação reconstruída - o sulco da
resposta recebida terá cada vez mais peso. A coexistên-
cia dos dois “sulcos" dificulta o acesso ao sulco amígo da
memória, até que este ñnalmente seja substituído pelo
novo.
Reflítamos acerca da importância, pouco conside-
rada, do fenômeno para a psicoterapía. A forma de diá-
logo usual na psícoterapia consiste numa retrospectiva
conjunta do pacíente e do psicoterapeuta sobre o histó-
rico da vida daque1e. Isso decorre da necessidade de o
paciente contar o que o oprime. Afinal de contas, os pro-
blemas têm uma gênese. Embora hoje em dia a retros-
pectíva tenha um caráter mais dialogal que antes, conti-
nua evidente que o psicoterapeuta não possuí uma
recordação própria da vida passada do paciente, e preci-
sa extrair a totalidade dos conhecimentos ncccssários da
recordação do paciente. Se a recordação deste for
distorcida pelo erro do olhar retrospectivo, o conheci-
mento do psicoterapeuta será igualmente dislorcído. Aqui
se impõe a grave pergunta se um psicoterapeuta, com
base em informações distorcidas, pode realmente ofere-
cer uma ajuda adequada. Ou se talveL ao contrário, a
ajuda mais adequada do psicoterapeuta seja justamente
uma cautelosa “contra-distorção" de informações.
Para Chegarmos a uma resposta, vamos primeiro
recapitular quando aumenta no paciente o perigo (ou a
173
rh
chance) de um erro de retrospectiva. Vimos que isso ocor-
re quando um segundo sulco de memória, com novas
informações, ínterfere com o sulco antig0. Quem ou o
que grava segundos sulcos na memória dos pacientes?
Voltando ao nosso exemplo, quem lhes diz qual é o C0m-
primento real do Danúbio? Entre as muitas variantes pos-
síveis, discutirei duas, as mais freqüentemente observa-
das e as mais infrutíferas
Variante I: Novo sulco gravado a partir de fora
O pacieme procura ajuda em livros de psicologia, e
lê sobre as relações entre uma infância carregada de Con-
Hitos emocionais e os distúrbios psíquicos da idade adul-
ta. Vai ao consultório de um psicoterapeuta, que o enco-
raja a examinar sob uma lupa os fatores de distúrbio que
possa ter sofrido na sua infâncía. Sob a lupa - o vidro
de aumento no sentido mais verdadeíro do termo -- in-
lensif1'ca-se a lembrança de experiências tristes e dolor0-
sas da sua vida. Ao lado do antígo sulco da memória,
onde estava e ainda estão cronologícamente ordenadas
todas as experiências, boas e más, que comovem e agi-
tam a pessoa, é gravado um segundo sulco na memória
através da seleção e do destaque dado exclusivamente às
experiências negativas (que sào consideradas cons-
titutívas dos distúrbios atuais). Este sulco lembra (nã0 0
comprímento do Danúbi0, mas) quão horrível a ínfância
"realmente" foíl
Aos poucos acontece o que, de acordo Com as medí-
çóes de W. Hell, de fato deverá acontecerz quanto mais se
fortalecer 0 segundo sulco (uma ou duas sessões por se-
mana com “díssecação da infâncía" intensificam pr0p0r-
Cionalmeme a sua fixação!), tanto maior será o erro de
retrospectiva do paciente. Na recordação reconstruída
174
ele faz uma avaliação cada vez mais negativa e sofrída
da sua vida. E não só isso. Também considera Cada vez
mais que o “sofrimento da sua vida" podia ser previsto e
prevenido por aqueles que o causaram Os pais, paren-
tes, professores já teriam sabido o mal que lhc fariam
Com seu comportamento. No próximo passo crê que fi-
zeram isso 1'ntencionalmente. Está pré-pr0gramada uma
recordação permancnte carregada de raiva. Cabc aqui
uma advertência de Peter Fiedlen professor da Universi~
dade de Heidelberg, que sobre "dístúrbí05 de idcmídade
dissociativa" (antigamente: palologias histérícas) escre-
ve o seguintez42
A Ieoria de muitos terapeutas de que "dislúrbios de
identidade dissociativa" se devem necessariamente a m-
cestos ocorridos na fase inicial da vida pode levar a diag-
rzószicos erróneos. Como pacientes dissocíativos se carac-
terizam por uma alta sugestionabilídade hâ o risco de que
o terapeuta "construa” realidades com os pacientes, por
exempla quando tenta trazerà tona (muita$ vezes sob hip-
n05e) supostas lembranças Zraumáticas inconsciente$, para
subnzeté-las a uma análise. Recomendo a máxima prudên-
cia em manifestar Iais suposições a pacientes que, da sua
parte, não fazem alusões a experiências de abuso sexual
ou incesta Não são tentativas de reconslrução lzipotética
de supostas experiências traumáticas que devem detemzi-
nar o processo terapêutico, mas o esforço para integrar 05
diferentes papéis e ajudar o paciente a novamente reco-
nhecer um contexto de sentido na sua vida anterion
A última frase da citação de Peter Ficdlcr é inspira-
da nas ídéias pioneiras de Viktor E. Frankl, sobrc as quais
ainda voltaremos a falan Por ora quercmos apenas cons-
tatar que, conlra toda intenção terapêulica, é possível
gravar literária ou terapeuticamente um novo sulco na
175
mcmória do paciente que, pela leí da natureza, o leva a
vcr a sua história e o seu passado de forma mais infeliz
do que realmente foi.
Van°ante II: Novo sulco gravado na memória
a partir de dentro
Suponhamos que uma pessoa está conscíeme de uma
culpa pnr algo que fe7.. Como se costuma dízer, tem má
consciéncia. Na verdade a sua consciência não é má, mas
alé excclcnte, vislo que ainda sinaliza mal-estar quando
foi cometida uma fílllZL Ela representa o “compromisso
ético" cm nós implantado, que nos insta a reparar, a re-
conciliar-nos c a aprender. Mas suponhamos também que
a dita pessoa quer desligar da sua alma esse mal-estar
que funcionou como advertência. Em vez de apagara
culpa, quer livrar-se do sentimento de culpa. Para isso
exíste 0 expediente simples da repressão e da anestesia.
Todavía, a consciência é tão persistente que, mesmo em
tais condições, ocasionalmente se manifesta.
Há. todavia, um meio mais complicado de tranqüi-
lizar a consciência. É o recurso ao compartilhamento
de culpa ou a cumplicidade de outras pessoas no caso.
Suaviza-se 0 “Compromisso ético" com “Circunstâncias
atenuantes", que se expressam maís ou menos nas se-
guíntes palavrasz "É verdade que eu fiz isso e aquilo,
mas o culpado principal por eu tê-lo feilo é o outro". Na
maioria dos casos 0 auto-engano funciona muito bem.
Por quê? Porque 0 erro de recordação comribui para
isso. Poís se a pessoa seguir esse camínho, passará a
lembrar somente coisas negativas com relação ao outro
que foi escolhido. O “registro de pecado" do outro, for-
mado por essa escolha torna-se um novo sulco na me-
mória, que com 0 lempo se sobrepõe ao prímeiro. Não
176
 
tarda 'á que não haja mais ncnhuma dúvida dc quc n
culpa é do outro - não há mais ncnhum scntimcnlo
próprio de culpal
Um excelente campo dc (›b*.sewnção da siluaçào quc
acabnmos de aprcscntar é 0 das rclaçõus do triângulo
amorosa Nele, como se sabe, estão entrclaçados cmrc
sí, para a sua desgraça, os dcstinos de três vidas. O dcsli-
no do "parceiro fiel” que sente vergonha, dcscspcro c Ciú-
mes. O destino do "parcciro infiel” que, dividido. sc scnlc
incomodado e na defensiva. E o dcslino do “inlmso", quc
se sente inseguro, receoso e insalisfeita Uma conslcla-
ção que certamente não é nada invejáveLl Mas qucr sc
acalmem as tempestades ou se consumem as ssparações,
um fator é o mais penoso de todos, 0 fàtor da desva10riza-
ção de tudo o que alé então foi vivido em parccria. Na
maioria de todos os triângulos amorosos essa desvalori-
zação parte do parceíro inficL cuja (má) consciência é a
maís ativa. Ele anulou o sim que pronunciou em ccrto
momento da~ vida. Agora sente-se (diante dc si mesmo)
forçado a demonstrar que não o fez sem boas razÕes para
isso. Uma tarefa -dífícil, especialmente sc houver filhos
envolv1'dos. Mas a solução está ao alcance da sua mão. O
outro deve ter cometido o crro que o levou a revogar o
seu sim. Com o passar do tempo, o olhar retrospectivo
que o parceiro infiel lança sobre o tempo da sua parceria
se concentrará nos lados negativos do parceiro fiel.
Não surpreende a ninguém que cle os encontre. Em
cada um de nós mora um diabinho _oculto. Se o parceiro
ínfiel revolver a sua memória, destaczmdo todas as horas
vividas em comum, nas quais houve crises c problemas
entre ele e o seu parcciro (ignorando as horas bonitas
vividas emre os dois), grava na sua memória um novo
sulco extremamente favorável para os fins de livrar-se da
culpa. Então, em analogia com o experimemo dc labora-
tório, a solução será - em vez de “O Danúbio não tem
177
2.200 km., mas 2.852 km. de comprimento" - “Teu ma-
rido (ou tua mulher) não é um que11'do(a) companheiro(a)
com seus defeitos, mas um monstro abominável, imp05-
sível de agu“entar." A ínfidelídade já pode ser apresenta-
da como conseqüência lógica.
Até aqui coube príoridade ao aspecto motivacionaL
mas os elementos cognitivos dão mais umas voltas no
parafusa Do citado experimento sabemos que depois que
o segundo sulco se aprofundou na memória, a pessoa
com toda a seriedade acredita ter respondido que o
Danúbio lem 2.400 km. de comprimento. Da mesma for-
ma o parceiro infieL por força da seleção negativa dos
fatores da sua vida conjugaL ao avaliar retrospectivamen-
te a sua primeíra relaçào, acreditará sínceramente que
desde 0 princípio esta foi mal e estava fadada ao fracas-
so. Que por isso sempre quis terminá-la etc.
E o que acontece com o parceíro fiel? Se cometeu
erros, estes já foram quase totalmente expiados, tama~
nho é o seu sofrimenta Pois sofre duplamentez não só
pela infídelidade do parceiro, mas também pela desvalo-
rização de tudo o que com alegre esperança para o futu-
ro foi construído junto, de tudo 0 que foi suportado e
vencido a doís. Será que de repente tudo foi em vão e
insignífícante desde o início? Em tal situação quem não
tem um bom controle dos seus nervos, facilmente se dei-
xa levar a atos condenáveis, que agravam ainda mais as
coisas. E isso ainda ajuda a reforçar a posição do parcei-
ro infieL distorcida pelo erro do olhar retrospectivo, de
que esteve acorrentado a um monstro... 0 resto será uma
recordação com raiva permanente dos doís lados.
Os exemplos referidos podem ser aplicados às maís
variadas situações, por exemplo a conHitos sociais ou a
atn'tos no mundo do trabalho. O erro do olhar retrospec-
tivo como “inevitável subproduto de uma constante adap-
178
tação e atualização neuronaL dc nalurwa biol(›'gica, dos
conhecimenlos, dc acordo com as 1'nfommçócs, julgamcm
tos e avaliações mais recentes" podc provocar cstragos
de toda espécie no campo das rclaçócs humanzxs. Scrá
que pode ser proveiloso também tcmpculicamcnlc?
Volto à indicação de Peter Ficdlcr dc que o psicotc-
rapeuta deve ajudar os seus pacientes a rcconhecer um
contexto de sentido na sua vida passada. Nunca valori-
zaremos suficientememe a genialidadc dc Víktor E.
Frank], em cuja idéia cenlral se inspirou Ficdlcn Nenhum
dos três pais vienenses da psicotcrapm podizl, na sua ép0-
ca, ter ímaginado o fenómeno do erro do olhar rclros-
pectivo, cujo enigma só foi descoberto nos anos 90. Não
se pode acusar nem Sigmund Freud ncm Alfred Adlcr dc
terem desenvolvido conceilos terapêuticos, em virlude
dos quais pessoas psiquicamenle doentes são sistcmati-
camente confrontadas com recordaçõcs cmocionalmen-
te negativas da história do scu descnvolvimento, quc de-
pois são registradas cognitivamcntc na sua vida e
auto-avaliação presente, e futuramcntc originam uma
avaliação da vida e de si mesmos ainda mais negatisz
Evidentemente nenhum dos dois tinha essa inlcnçña Se
é certo que não se pode acusá-los disso, ígualmente cer-
to é que devemos atríbuir ao tcrceiro pai, Viklor E. Frankl',
0 mérito de a partir de uma imuiçào por assim dízcr pro-
fética, desde o início praticou o contrário.
Nunca expunha os scus pacientes ao risco de, olhan-
do retrospectivamente seu passada vercm-sc como cn'a-
turas prejudícadas pelo meio, de maneira cada vez mais
enganosa, como hoje sabemos. E como tcrapeuta, não
se expunha ao risco de tirar conclusões diagnosticamente
válidas dos clamores de autocomiseração de tais (supos-
tas) pobres criaturas. Por assim dizer, trocou o tema
terapêutico e com isso também o material a scr registra-
do. Também o seu método muda o enfoque que o doente
179
v
psíquico dá a sua vida e a si mesmo. Mas como? Na logo-
terapia é confrontado com a colheíta imperdível da sua
vida, armazcnada nos celeiros do passado, o que, usan-
do 0 erro do olhar retrospectivo, o faz ver mais rica e
plenamente a sua vida. Na lotboterapia é confrontado
com a sua dígnidade humana na liberdade e espiri-
tualídade, o que, com o erro do olhar retrospectivo, lhe
permite achar que o seu eu é mais autêntico e mais valío.
so. Na logoterapia são confrontados com sua genuína
resísténcia as dificuldades e sua própria responsabili-
dade, o que, com o “erro do olhar retrospectivo", o leva a
julgar que suas relações humanas são mais conciliado~
ras. Na logoterapia é confrontado com o sentido pessoal
concreto de cada momento, o que, Com o “erro do olhar
retrospectivo", que o leva a perceber as circunstâncias que
o destino lhe oferece como mais aproveitáveís e ricas de
oportunidades.
A enumeração podería cont1'nuar, mas quero deter-
me no seguínte aspectoz o segundo sulco na memória,
que na logoterapia é sistematicamente instalado nos pa-
cientes (e aos poucos substituí o primeíro), é 0 próprio
corretivo da doença psíquica! Pois em príncípio as doen-
ças estâo relacionadas com avaliações erróneas, quase
sempre na direção da "negativização" e da "falta de seu-
tido", que idealmente podem ser contrabalançadas atra-
vés de uma reavaliação caso necessário, até por uma leve
acentuação dos aspectos posítívos e da plenitude de sen~tido. É exatamente isso o que acontece na Conversa
logoterapêut1'ca, tanto no nível da consciência e da emo-
ção do paciente, como também imperceptível e paralela-
meme no nível neuronaL a partír do qual 0 paciente pau-
latinamente vê as coisas a uma luz mais suave (= mais
próximas da realídade!) que ames. Seu olhar retrospec-
tivo Com raiva é “sobregravado" cognítivamente na
logoterapia com um "olhar de conñança no futuro”. Dei-
180
_r“
xo à ímaginação dc cada um o que isso significa para a
disposição geml de uma pcssoa.
Concluind0, desejo assinalar o seguintc. O que vi-
bra de uma pcssoa para outra é uma realidade espíriluaL
A busca de sentído pclo pacicntc, na qual a logoterapia
o acompanha, é um ato espíriluaL Todavia a rcalidadc
espirítual humana tcm o seu Corrclato Íisiológica E
somente quando as duas coisas se harmonizam é possí-
vel uma cura integraL O fato de que a cficiência dc uma
“Psicoterapia que parte do cspirilual e sc dirigc ao espi-
ritual",43 concebida na década de 30, rcccbe uma expli-
cação adicional pela pesquisa do cérebro dos anos 90,
não díminui 0 seu mén'to, mas revela ainda melhor o scu
brilho.
181
Tensão emocional como superteste
Ou: o poder da oração
Passou o tempo da mania dos testes. Ainda no início
dos anos 70 podia-se encontrar quase sem exceção em
cada fascículo de revistas um teste psicológico, que pro-
melia ao leitor a revelação de um ângulo da sua vída psí-
quica. Os métodos de testes ensinados e treinados nas
universidades para psicólogos iníciantes eram mais sé-
rios, ainda que muitas vezes a sua validade também fos-
se superestimada. Isso valia sobretudo em relação aos
"testes projetivos", que se assemelhavam a jogos de adi-
vinhação engenhosamente arquitetados. Bem mais ím-
pressionantes eram os testes de aptídão cognitíva, que
Conseguiam fazer medições mais eñcazes. Mas a desvan-
tagem era que com os seus resultados acabavam, por
assim dizer, carimbando as pessoas testadas. Formavam-
se clubes para~r-_T/osorgulososportaoresdeQIs elevados,
que mais tarde, para surpresa geraL se mostravam pou-
co capazes de enfrentar a vida cotidiana.
No início dos anos 90, grande parte desses testes
estava obsoleta. É verdade que foram criados outros tes-
tes que, com o auxílio do computador, podem captar com
precisão cenas capacídades e deficiências das pessoas
testadas. Todavia a grande esperança de um psicograma
dedutível de dados não se realizou. O enigma "ser huma-
182
n0” não pode ser resolvido na sua totalidade por meio de
códigos numér1'cos.
Assim, se a seguir vcnho a falar de um "supc1Tcste",
não me reñro a estatísticas, mas a um fenômcno que Cada
um de nós pode observar em si mesmoz sob tensão
emocional mostram0-nos diferentes do quesomosem*__
MWCIWmunsanaastccñc-
Xylxwmwamememenoscommadamenteemenosmascala*'-
damente. Nosso verdadeiro roslo aparece scm d1'sfarce,____,__
surgíndo por trás da nossa socialização. Como aparece?
Quem consegue vê-lo terá diante de si o resultado factual
de um "superteste”. Simbolicamcnte se poderia dízer que
a tensão emocíonal raspa algo do vemiz que nos cobrc c
então aparece a cor originaL 0 ser autêntico do objeto,
neste caso o ser-assim de um ser humano. Aparece com
clareza ou escuridão, independentememe da cor do ver-
mz.
 
 
O cr fD D 5 .... C
É possível objetar que uma forte tensão emocional
pode distorcer o ser humano de uma pessoa. Em tomo
disso agrupam-se numerosas teorias psicológicas. "O
amor é Cego", se diz, ou “o medo faz perder a cabeça", “a
frustração torna as pessoas agressivas”, "a pressâo do
instinto gera violência", "a tristeza imobiliza". Mas é exa~
tamente nisso que consiste a prova do testez o que deter-
minada Carga emocional pode fazer com queTm.mter--
uma pessoa sob máxima tensão emocionaL e a que ape-
sar da máxima tensão emocional não está disposta? Esta
é a pergunta-chave! A dimensão do negativo para a qual
não está disposta, nem mesmo sob pressão extrema, re-
vela a ética do seu coração. O limite até o qual resiste
espíritualmente aos embatcs do sofrimemo psíquíco.- Este
limite mede a grandeza do seu desenvolvimento mm '
Friedrich Nietzsche levou a "idéia do testc" n"
crueldadez
Precisamos ser capazes de pn'var-nos sem tolerância.
Ãs pessoas que aprecio desejo sofn'nzwto, abandono, doen-
ça, maus-tratos, humilhações - desejo que não lhes seja
desconhecido o profimdo autodesprezo, o martírio da des-
confíança de si mesma$, a miséria do derrotada Não te-
nho compaíxão delas, porque lhes desejo a única coisa que
pode mostrar se alguém tem valor ou nâo - que é capaz
de resistz'›:..
Na prática o teste nem sempre precisa ser tão cruel
como o que descreve Níetzsche. Mas sabemosz a vída não
conhece escrúpulos. Sem 0 merecermos e sem o esperar-
mos lança~nos nas situações mais absurdas e diante dos
fatos mais inconcebíveis.
1) Uma mãe vai ao parque com seus dois filhos pe-
quenos. Enquanto bríncam, uma corda pendente
do tobogã enrosca-se ao redor do pescoço de uma
das críanças e a enforca. O médico do pronto-so~
corro imediatamenle chamado não pode mais salvá-
la. A mãe e o irmãozinho sofrem um choque emo-
c1'onal.
Numa associação profissional que reúne colegas de
profissão em tomo de ínteresses comuns há um mal-
entendido, em decorrêncía do qual um dos mem-
bros é caluniado. Dizem que ele usou dinheíro da
associação para fins pessoais. Apesar de prestar con-
tas dos movimentos comábeís, fíca a suspeita.
Durame muitos anos um homem vive sexualmente
frustrado em seu casamenta A união acaba. Alguns
meses depois contrai novo matrimônía A nova es-
posa tem uma ñlha. O homem não tarda a sentir-se
sexualmente atraído pela enteada, como nunca acon-
tecera antes na sua vida. O seu desejo aumenta a
cada dia
184
2)
3)
 
O filho único de um casal aprendeu desde cedo a res-
peítar as várias doenças dos seus pais. Já adulto dcdi-
ca-lhes muito tempo, acompanhando sua mãe no lra-
tamento médico c procurando afastar seu pai do
álcool e ajudar ambos em casa. Um belo dia os pais o
deserdam porque não gostam da sua namorada.
Uma mulher estrangeira vive em condiçõcs muito
precárias na Alemanha. Depende financeiramcnte do
dono de uma firma, que várias vezcvs ameaçou do-
miti-la. Um dia o concorrcme do patrão oferccc-lhc
uma elevada soma em dinheiro se copiasse certos
documentos do escritório da firma.
4)
5)
Estes são alguns exemplos entre milhões. Todas as
pessoas dos casos mencionados encontram-se sob fortc
pressão emocionalz tristeza, horron raiva, decepção, pres-
são dos instimos e medo incítam o seu ânimo. A tenta-
ção para uma ou outra ação precipítada é fortíssima. Sua
margem de livre decisão é reduzidzL O “verniz" desapa-
receu. A situação é tensa, as condições de teste estão pos-
tas. Cedo ou tarde os “verdadeiros rostos" dessas pessoas
se destacarão com claridade cada vez maior cntre o caos
dos sentimentos. Com relação a:
1) Talvez a mãe que perdeu o filho de mancira tão trá~
gica perca todo ínteresse pela vida, fique paralisada
na sua amargura e só “funcione" mecanicameme.
Essa reação seria psicologicamente compreensíveL
Mas há mães que perderam filhos, e todavía não es-
tão dispostas a préjudicar os seus filhos vivos com a
dor do seu lut0. Elas dizem a si mesmasz "Não, para
meu filho vivo quero manter-me víva e de pé!" Mães
que superam gloriosamcnte a prova.
Talvez o membro se vingará da injustiça sofrída.
Sairá da associação e por toda partc espalhará coi-
185
2)
3)
4)
5)
186
sas ruins sobre ela. Cortará todos os comatos com
os colegas. Também isso seúa psicologícanwme com-
preensíveL Mas há pessoas que não estão dispostas
a revidar com as mesmas armas. Dizem a sí mes-
masz "Nã0, não quero descer ao baixo nível de uma
vingança indígna!" Pessoas que superam gloriosa-
mente a prova.
É possível que o homem ceda à tentação abusando
da sua enteada. Procurará lísonjeá-la, comprar seus
sentimentos ou induzi-la a jogos sexuais, dando como
desculpa os seus longos anos de problemas conjugais.
Tal comportamento seria psicologicamente explica'-
vel. Apesar disso há homens que resistem ao impulsodo desejo, quando a sua satisfação se opõe ao que lhe
impõe a consciência. Mesmo com a renúncia ao sexo.
Homens que superam gloriosamente a prova.
Talvez o filho passe a odiar seus pais. Talvez o cálice
da sua mágoa transborde e ele erga a mão contra
eles. Ou corte os laços familiares com a tesoura da
indiferença. Sob o aspccto psicológico isso não se-
n'a de adm1'rar. Mas há filhos adultos que não estão
dispostos a desprezar e a descuídar dos seus país
idosos, o que quer que aconteça. São agradecidos
pela vida que os país lhes deram. São filhos que su-
peram gloríosamente a prova.
Pode ser que a mulher aceile a proposta desonesta.
Executará atos fraudulentos, espionagem, para au-
mentar o seu magro salário. Por temor do seu futu-
ro e diante dc uma situação sem esperança. Do pon-
to de vista psicológico seria compreensível. Contudo
há mulheres honradas, que estão dispostas a perder
tudo menos a sua honra. Quc não se deíxam levur a
nenhum ato desoneslo pela fomc e situação de de-
samparo longe da pátria. Mulheres que superam glo-
riosamente a prova.
Rcsumamos. Exíste um superteste que não é prepa-
mdo por nenhuma equipc dc profcssorcs, mas pela vida.
Somos submetidos a cle sempre que nos encontmmos
cm grave tensão cmocíonaL Nessas circunstâncias é
muito humano c psícologicamcntc compreensívcl quc nos
desvíemos espiritual c momlmentc. Mas sc não o fizer-
mos, a vida dará a nota "muito bom" para o resultado da
nossa prova. Viktor E. Frankl mostrou isso magnifica-
mentc no seguimc textoz44
Sigmund Freud disse certa vez: "Experimenle expor um
certo número de pessoas as mais diferenciadas à mesma
prova da fome (= expora uma forte lensão emocionaL nota
da autora). Com o aumento da imperiosa necessidade de
alimentaçáo se apagarão todas as diferenças individuais e
em seu lugar aparecerão as expressões Lmifbrmes do instin~
to não satisfeito (= todos fraquejam moralmente, nota da
autora).45 Na verdade e' exatamente o contrário que aconte-
ce. Nos campos de concentração as pessoas tomavam~se
nzais diferenciadas (= apareceram os seus ”verdadeiros ros-
tos", nota da autora). Desmascaravam-se os porcos. A mes~
ma coisa acontecia com os santos. A fome tirou-Ihes as
ma'scaras. E a jowme era a mesma, tanto para Lms como para
0utr05. Mas as pessoas se diferenciavam (= fr"acassaram ou
brilharam no superteste, nota da autora).
Não queremos, mais uma vez, rotular as pessoas
pelos resultados dos seus testes, como acontecia no pas-
sado com os quociemcs dc 1'ntcligência. Aqucles que fra-
cassam no supcrtcstc sào os que prccisam de ajuda espe-
Cial. Ajuda no nível psicolerapêutico, espimual e humana
E a ajuda sempre eslá prcsemc. Na bcla poesia dc Rudolf
Otto Wiemer sobre os anjos rcssoa a promessa de que os
mensageiros da ajuda vêem ao nosso encontro sob as
formas mais incsperadas e surprecndcnte.~;:
187
Não precisam ser homens com asas,
Os anjos.
Andam silenciosamente, não precisam gritar,
Muiras vezes são velhos e féios e pequenos,
Os anios
Não tém espada nem túnica branca,
Os anjos.
Talvcz seja alguém que te dá a mão
Ou mora ao teu lad0, parede-meia,
O anio.
Ao faminto trouxe o pão,
O an¡o.
Para 0 doente fcz a cama,
Ele escuta quando o chamas durante a noite,
O an¡0.
Ele está de pé no caminho e diz: Na'o,
O anjo.
Alto como um poste e duro como uma pedra,
Não precisam ser homens com asas,
Os anjos.
“Ele está de pé no caminho e dizz Nã0, o anjo". Não,
apesar da cxtrema tensão emocíonal. Diz não à amargu-
ra, à vingança, à entrega aos instintos, ao ódio, ao ato
criminoso. É "alto como um poste e duro como uma pe-
dra", 0 anjo. Ele nos ajuda na provaçãa Basta prestar-
lhe atenção...
E se não estiver presente no momento, o anjo? Se
não houver um terapeuta, um padre espírítuaL um pró-
ximo ao nosso lado, que nos alcance, quando soar a hora
mais 50h'tária, mais sombría, de maior abandono da nossa
vida? “Esqueceste-te de mím, tu lá de Cima?" díz a can-
ção do Volga, que também dá a resposta certaz "Manda
188
também tu alguóm (um anjo) a mim!” Sim, a fonle su-
prcma, da qual vívcmos é n 0raçà0.
Em autubm dc 1996 uma scnhora aposcnlada dc 91
anos de idude sohru um acidcnle nas proximidadcs dc
Augsburgo. Foi alropcladu por um caminhãa que lhe cs-
magou as duas perna5. Qua›zd0, após a ampmaçâo na cli~
nica, volrou a si, suas primeiras palavras Ibranu "Ouc hmn
que ainda estou viva! " Os médicos fícaram comovidosu No
dia seguinle sentia íbrles dores, mas disse: "Oue sorlc que
não estou paraplégical " Uma semana depois alegmwse com
as próteses que lhe apresemaram: "Fantâsticas lodas essas
ajudas técnicas que hoie se produzem", exclamou quando
viu o modelo que lhe moslraranL "Temos que agradecer
aos engenheiros que projetaram essas coisas maravilho-
sas!" Na cadeira de rodas recebeu visila›1tes, vizinlzos,
amigos. Muitos saíram mais lélizes que quando vieram.
Despertou a atenção dos jomalistas, que passaram a
entrevistá-la. Quando fmalmente pôde expen'mentar as suas
próteses teve diftculdade para adaptar-se. Contudo exc1a-
mou admirada: "Estas são muito mais flexíveis que as
minhas velhas pernas de anles.'" Abraçou a sua físioterw
peuta e agradeceu-lhe a dedicaçãa "Como estou bem! " re-
petiu várias vezes. "Tanta gente amâvel ao meu red0r, e
minhas novas pemas, tão ágeis, e a prcvidéncia social paga
tudo isso. O bom Deus de /aBolschaftAmL Ergebnissc
empírischer Forschungen, ediçâo especial do Psychologischen Instilul
III der Universitàt Hamburg, l997.
l2Viktor E. FrankL Das Leiden am sinnlosen Leben, Frciburg,
Neuausgabe, 1995, p. 40.
13Vlktor E. FrankL Der unbewussre Golt, Münchcn (dtv), 7. Ausgabc
von 19881'mdez. 1992, p. 40.
191
'~.
Í
___›
l4Víktor E. FrankL Das Leiden am simzlosen Leben, Freiburg,
Ncuausgabe, 1991, p. 29.
'5Em cfrculos cspecializados a "Terceira Escola de Psícolerapía
de Vicna", isto é, a logolerapía de Viktor E. Frankl lambém é chama-
da "Psicologia Elcvada", por tratar menos dos abismos da psique hu-
mana que dos cimos da espirítualidade humana.
'°Pela prímeira vez formulado no livro Auch deine Familie braucht
Sinn, de Elisabeth Lukas, Freiburg, 1981, p. 203. Incluído no livro
Sirm in der Familie, Frciburg, l995, p. 161.
”V1ktor E. ankl, Ãrzlliche Seelsorge, Wien l982, p. 247.
'5Pelcr Raab (Hg.), Heilkraft des Lesens, Freiburg, l988, pp. 33-34.
l9Udo KjtllerlFriedhelm MunzeL Was Iese ich, wcnn ich trawig bin,
Frciburg, l984, p. 11
2°Peter Raab, Die Heilkrafl des Lesens entdecken, arlígo de uma
revista escolar, l990.
nDietrich von Engelhardt, "Bibliotherapie", in: TW Neurologie
Psychíahie ó, pp. 447-450, Karlsruhe, junho de 1992.
22Otto Betz, Die Schõpfwzg geht weiter, edição especíaL 1995.
23Michael Titze, Hez'lkraf! des Humors, Freiburg, 1985, p. 65.
24Viktor E. FrankL Logotherapie und Exislenza›zalyse. Qu1'ntessenz,
München, 1994, p. l38.
25Rudolf Otto Wiemer, "Chance der Bãrenraupe, über die Strasse
zu kommen”. Poesia emz Bibliotherapie, hemusgegeben von der Robert
Bosch Stiftung im Bleicher~Verlag, Stuttgart, 1987.
ZÓAnthony de Mello, Warum der Vogel singL Weisheítsgeschichten,
Freiburg, 199l, p. 72.
27Viktor E. Frankl, Der leidende Mensch, Bem, NeuauHage, l996,
p. 107.
28Nossrat Peseschkian, Der Kaufmamz und der Papagei, Frankfurt
a.M., 1985,pp. 58-59.
29Nossrat Peseschkian, Der Kaufmann und der Papagei, Frankfun
a.M., 1985, pp. 70-71.
30Anthony de Mello, Wer bringt das Pferd zum Fliegen? Weisheíts-
gesch1'chten, Freiburg, l99l, p. 43.
31Anthony de Mel|o, Wer bringt das Pferd zum Flíegen? Weisheíts-
geschichten, Freiburg, 1991, p. 46.
32Viktor E. FrankL Theorie und Therapie der Neurosen, capítulo
"Logotherapic als spezifische Therapie noogener Neurosen”, UTB 457,
München, 1993.
33LéonJoseph Suenens, Tâglich Chns'tlich Ieben, Salzburg, 1963, p.45.
34Hil:m'on Petzold (Hg.), Psychotherapie und Babyforschung, 2 Bde.,
Paderborn, 1994/l995.
35Víktor E. FrunkL Der Ieidende Mensch, Bern, 1996, p. 151.
“'Winfricd B('›'hm, "Uber die Unvereinbarkeít von Erziehung und
Thcmpic", in. Vierteljahresschnft für Wissenschaftliche Pâdagogik 68
Jg.. 1992.
192
37Herben Hubcr, Sinlichkeil und Sinn, DonauwonlL l996, pp. 33-
34.
JWiklor E. ankL Der unbcwussle GoIL Mu"nchcn. 1979, pp. 61-62.
39Karl Michael Armer, “Die Eingeborenen dcs Betondschungcl§.
in: Der Aufstand der Radfahrer, herausgegcben von Ann Anders,
Dannsladt. l982.
4°Rüdiger Pohl. “Der Rückschaufehler - eíne systematischc
Verfãlschung der Erinnemng", in: Reporl chhologie 21 (8/9ó), BDP,
Bonn.
“W. Hell, "Geda"chtnisla"uschungen", in: W. Hell/K. FícdlcrlG
Gigerenzer (Hg.), Kognitive Tâuschungen, Spektrum der
Wissenschaften, pp. 13-18.
42Peler Fiedler, "Dissoziative Indentitãtsstórung, multiplc
Persõnlíchkeil und sexueller Missbrauch in der Kíndheit", in: G.
Amman/R. Wipplinger, Saxueller Missbrauc¡1, Tu"bíngen. l996.
43Viktor E. FrankL Der Ieidende Mensch, Bem, Ncuausgabc. l996.
44Viktor E. FrankL Der Ieidende Mensch, Bem, l996, p. 158.
455igmund Freud, Gesammelte Werke, Band V, p. 209.
46Peter Wust, Gestalten und Geda›zken, München, 1950, pp. 266-
267.
193
 
Índice
7 A logoterapia dc Viktor E. Frankl
23
28
43
60
76
110
131
143
161
Síntese de uma psicologia espiritual
O vaJor e seus dcsvíos
Uma interpelação crítíca à zflosolía da polaridade
Mas o maior é o amor...
Uma abordagem crítica da doutrina das neuroses
Para quc scjas fclíz sobrc a Tcrra
O decálogo em versão logolerapêutica
Expulsos do pamíso
Considerações sobre a hisrória primeva
Histórias que podcm curar
A promessa oculta
Caminhos de saída do medo
O que importa não é a Causa, mas o obieto das nossas
preocupações
Caminhos para sair do vício
Renúncia e conlíança como porlas para a Iiberdade
"Ajuda-me, Scnhor da minha Vída"
lnterpretação logoterapêutica de uma Canção
Um motivo para vivcr?
Momentos de quesrionamemo sobre o senlido da vida e
comportamento suicida
169 Recordando com raiva?
O erro do oIhar retrospectivo e seu signiflcado para a
psicoterapia
182 Tensão emocional como superteste
Ou: o poder da oração
3
t 191 Referências Bíblíográficasna sua derrota. Em face do
absurdo reencontra novamente o sentido, no seu fracasso
19
redescobre sua responsabílidade, na morte _ sua última e
maior derrota - triunfá definitivamente sobre a sua ci-
sa'0. Ao decidir para sempre o seu perfil na "memória do
ser"- sem remmciar a nada da sua “alteridade" - volta
ao seio do ser integraL
O homem vence principalmente nas suas derrotasz
em face do absurdo reencontra o sentído, no seu fracas-
so redescobre a sua responsabilidade, na morte triunfa
definitívamente sobre sua cisão. É exatamente a essa vi-
tória em todas as derrotas que a logoterapia quer levar.
CITAÇÃO IV (Hans Küng)ó
Todos nós a conhecemos, essa sociedade cujo centro
não é mais ocupado pelo trabalho, mas pela constante
busca de novas experiências. A experiência ou vivência
transformou-se, em grande medida, um fim em si mesm0.
Há muitas coisas de que não precisamos, mas gostaría-
daWomenos pe 0 tra a o _q_ue pwea u,§_c_a_daum,a expe-V 7 _
rzenczaa“gra-dr_____L_ávele ela “estet_;_g__iaão"do cotr_i~diano_. Tudo
deve serfmaz'7s_g_z_\raeroso, mais bonito, mais divertid0, e “o
qHLãouêldvfertedeve ser e $7" """"""" *
aosurpreende,pois, que nessa sociedade ao lado do
mercado de trabalho o mercado da vivência tenha-5e tran$-
formado num fator dominante da nossa vida cotídiana,
em que a oferta é Cada vez mais refinada mas também nós
Consumidores somos cada vez mais rotim'zad05... Portan~
to: "Viva a sua vida! " Será este o sentido da vida? E, estamos
mais satisfeitos agora? Parece que nãol O socíólogo
Gerhard Shulze constat0u: "Fim-de-semana e férias, mas
também as relações com parceiros, a vida profissional e
20
 
 
outros setores da vida estão suieitos a pressões de expecta-
tivas que causam frustrações. Quanto mais incondicio-
nalmente se faz das experiências o sentido da vida, tanto
maior é 0 medo de que estas não se realizem... ”
Diante disso o bom conselho custa literalmente car0,
Como o conselho de muitos psicólogos e psicoterapeutas que
nos dizem: em face de todas as revoluções e relativizações
cz'entzfz'cas, políticas e religiosas deves buscar 0 sentido em
ti mesmo; esgota o teu potencial, desenvolve tu mesmo, os
teus objetivos, a tua moraL descobre 0 leu sentido da vida.
Defme segundo que princzp'i05 queres víver... Portanto: "Rea-
f7/_5\___Ziza-tea ti mesmo!" É este o entido da nossa vma'.s_soá
vwwwa e aquz 0 que pretendem oferecer sicólo os e_pp_ü_sícotç-
rçqpawuaoecoeremaeesmblhdadeuetambeme___,__ape“ta$›lsoe›lentlaedadeessoal›'“um,,_a_sen_:
s e coerencía e , wiñÀ wnpite su-
pwãosmesmosaOdarsennhçeMrszuaoeszzcezsPNam"'~'~oes~t_rairelmr'os exigindno demyarirs __d~e 7
n , ao dar senti a~7L_~_nnaH'__vzd7ra“:d;mess;a ámhannenzj'a?
Wgznaresposta.N05'" human0$, e somente nós, somos
seres em busca de um sentid0. Mas só encontramos um
sentido mais profundo da vida, ao abrirmos nossa vida a
uma dimensão profunda, se em toda a nossa vida e expe-
n'e^ncia, em tudo o que fazemos e realizamos em primeira e
última instáncia nos entregarmos a algo cuia fonte não
somos nós me5m05. Só encontraremos um sentido que a
tudo supera e abarca na vida se em meio a todo 0 trabalha
em meio a todas as experiência5, com boas razões, colo-
Carmos confiança nessa realidade oculta: uma confiança
absolutamente racional n__q_'):_\_____aueleundamento primeiro e
último de todo sentid0, caçyazde nos sust_,_g.emr, de n_os im-
Yv.__...._,..'--vpregnar, /__"__q_enos condúzir eue chamamolFselotã0_abusa-/4
 
 
 
 
FOe vilipendijadonomedeDeus
Mas só encontraremos um sentido mais profundo
da Vida, se abrirmos nossa vida a uma dimensão profun~
21
da... Exatamente isso é o que interessa à logoterapia,
embora redefina a “profur1didade" como "elevaça'0" c con-
seqüentemente se entenda a si mesma como "psicologia
elevada".
As citações acima indicaram as fontes das quais ví-
vemos. Busquemos estímulo numa psicologia realmente
espiritual para redefinir o acesso a essas fontes e caso
necessário desobstruí-lo tanto para nós mesmos como
para OS outros.
22
O vaZor e seus desvios
Uma ínterpelação crítíca à filosofía da polaridade
Entre os enfoques filosóficos c rcligiosos dc hoje há
um que foí proposto e desenvolvido por importantes pen-
sadores, isto é, a filosofia da polaridade. O último a
formulá-la genialmente foi Bijan Aminí,7 que tenta deri-
var dela novos argumentos para uma pedagogia da crise
por ele desenvolv1'da. Ao fazê-lo, refere-se entre oulras,
às ídéias de Viktor E. Frankl. Todavia, a logoterapía não
segue Conceitualmente a filosofia da polaridad0. Uma
discussão dos prós e contras mostrará as razões dessa
posição.
Inicialmente alguns esclarecimentos sobre a filoso-
fia da polar1'dade. De acordo Com ela, todo fenômeno de
representações humanas tem duas metades polares, que
se fundamentam e se condicionam recíprocamente.
Começando pela inspiração e expíração ou pela tensão
e distensão até a verdade e 0 erro, ou a vida e a mortc,
tudo oscila dentro dessa “dualidade”, à qual se chegou
- e aqui começa a crença - pela divisão de uma unida-
de primordial. “A estrutura e a dinâmica polares atestam
a dor da divisão do uno primordial e o desejo da reuní-
fícação. No princípio existiu a unidade primordíal e no
fim está ou deve estar a reunificação das duas metades
polares numa totalidade. Entre ambas, no meio disso,
23
/
/
Í
3
encomra-se a polarídade, em que se desenrola o horí-
zonte do nosso ser e do nosso conhecimento", escreve
Bijan Amini. Daqui deduz que também toda crise da vida
te, pode ser enfrentada com surdo desespero ou com um
c~r__f-__T\-re'sc1mentoorientao para um sen"t"'ãlo da v1d'_a,7 depernil
dífWuaóloestqawm_#m_1__ra.SegundorAminL a
pggeaomda'crise v1'sa"considerar o processo (crítico)
como apenas uma das metades polares do processo da
vida. O amadurecimento consíste em buscar, ínterpretar
e encontrar a outra metade. O ideal é que a própria pes-
soa envolvida complete e conclua a história".
Bijan Amini ilustra as suas teses com um exemplo
comovente. Quando Gandhi estava agonizando, aproxi-
ma-se dele um hindu que tinha matado uma criança
muçulmana em vingança da morte do seu filho, que os
muçulmanos tinham assassinado anteriormenta O cír-
culo vicioso entre sofrimento padecido e i_nfligido no ema-
ranhado de dor e culpa parecia não ter fim. A crise era
perfeita. Contudo aínda havia uma cha'nce. Um Iado to-
talmente diferente, um “pólo 0posto" coÁmo pensa Amini.
Gandhi utilizou-o no seu conselho ao hindu: “Eu conhe-
ço um camínho que te líbertará do tormento. Procura
uma criança órfã, cujos pais foram mortos, um meni-
no... e trata-0 como se fosse teu filho. Deve ser muçul-
mano, estás ouvindo? E educa-o como tal"!
No contexto do exemplo Bijan Amini remete a Víktor
E. Frankl, que na sua vída e na sua obra mostrou que
não há golpe do destino, por mais duro que seja, no qual
o homem não possa descobrir um sentido. "Quanto mais
difícil for solucionar 0 enigma do sentido, tanto maior
será o desafio para a conscíéncia, isto é, tanto maior será
a oportunidade de amadurecimento (do homem)", díz
Amini. Naturalmente não há nada a objetar contra isso.
Nossas objeções não são contra a solução do enigma de
24
en_______p__g___L*____/g__cen'aem si WWPMHÍOe oorturu a e e, conseu"enteme_n_- _
 
sentído acima, que parece até um caso clássico de
logoterapia, quando comparado com as obras de Frankl
e seus discípulos sobre a T__p_g_g_temátícadasue1a'ãodcares-
/soes.'8 A restríção refere-se' ao ndamento teórico daquela
excelente solução pela filosofia da polaridade. Pois, em
termos bem simplificados, esta sugere uma justaposição
de dois pólos de valor iguaL duas metades em que foi
rompida a unidade primordial. Como uma noz que se
parte em duas partes quando se pisa sobre ela. Encon-
trando a metade que saltou ou se perdeu, podemos no-
vamente um'-la com a primeira, formando uma unidade
e tudo estará "bem", porque corresponde ao estado ori-
ginaL
Evidentemente existe tal justaposição de dois pólos
de ígual valor. Exemplos são os já mencionados casos de
ínspíração e expiraçào ou o ritmo de tensãoe distensão.
Dia e noite, homem e mulher, calor e frío constituem
outros pares de pólos entre muítos mais. Mas não é este
o caso de conservação e destruição da vida, verdade e
erro, amor e ódio. Pares desta categoría não são justa-
postos. Encontram-se numa relação de sobreposíção e
por ísso na verdade não se trata de pares e muito menos
de pólos. Aqui se aplica a famosa frase de Spinoza: “A
verdade é a norma de si mesma e do err0", o que 51'gniñ-
ca que nestes casos se trata de um único valor, que exíste
em si e por si. Não se orígina, portanto, no contraste com
um não-va10r como pólo opost0, mas é a “sua própría
norma", possui sua própría realidade, ou seja, o seu pró-
prio valor. O homem não é 0 valor maior em relação à
mulher, mas a vida é 0 valor maior em relação à sua des-
truição. A naturéza inspirou a todos os seres vivos um
sentimento dísso sob a forma de uma vontade índomá-
vel de sobrevivêncía. Analogamente, a verdade é o valor
mais alto em relação ao erro, e 0 amor o valor mais alto
em relação ao ódio. O valor que exíste por si mesmo é,
25
por assim dizcn o pólo fzworecido, eticamcme justificá-
veL o pólo marcado pelo Iogos, o “dcv0", para o qual aflui
todo ser. E o que é o outro pólo? Nada. Não é nada por si
mesmo. É apenas 0 desvio do Valor, a latilude de oscila-
ção com que um valor se desvia. O dcsprezo da vida é 0
desvio da valoração da vida que nos foi confiada e de nós
é exigida. 0 eITO é a verdade desviada. O ódio é o amor
fmcassada O anti-sentido é o não ao sentido. “Pólos opos-
tos" desse tipo nâo sâo pólos, acabam revelando-se me-
ros "nãos" dos pólos. São as partes podres das nozes e
não suas metades. Se não existir o valor também nâo
existe o desvio dele. Se nâo existe 0 desvi0, o valor ainda
existe.
Baruch Spinoza ilustrou muito bem o exposto com
a inconversibilidade das afirmações. O erro é 0 desvio da
verdade, mas a verdade não é 0 desvio do err0. O conhe-
cimento do erro não nos diz nada sobre a verdade. O
conhecimento da verdade, ao contrário, também nos diz
Ludo sobre o erro. Se alguém sabe que um caminho é
errado (que não leva à meta), ainda eslá longe de conhe-
cer o caminho certo (que leva à meta). Se alguém conhe-
ce o caminho certo, conhece também todos os caminhos
errados. O conhecimento do caminho verdadeiro é mais
abrangente. Como o certo e o errado poderiam ser C0n-
ceitos polares? O ceno é a medida do errado e não o in-
verso.
Exatameme a mesma coisa acontece com as crises
da vída. Elas são perigo e Chance, mas perigo e chance
não estão justapostos. A chance é superior. A Chance é o
verdadeir0, o essencial para o qual está ordenada toda
crise. A grandeza do Valor que está adormecido, oculto
I na crise. Quem conhece a chance também entende 0 pe-
› rigo do qual escapa ao optar pela chance. Quem conhece
0 perigo ainda está longe de ter entendído a Chance de
escapar. O perigo de perecer psiquícamente numa crise
26
é 0 dcsvio doFT__-_]-_____b___-_3_L_q__~morueeeBor mesmo receeu muito pouco _a\mi_ro_r, se-
rila simplíñcar demais as coisas. Muitos especialistas já
escorregaram na geleira desTáÊseÇ vencidos por provas
contrárías. Estaria envolvida uma predisposição heredi-
tária? Também sobre isso não há provas Cabais. Talvez
seja melhor adotar uma atitude de modéstia. __L___Osicól -
Mñfãosabe tud0. O antigo postulado de uma radiogra-
_p__u_________fmsmolowauerevelanaaswscemsaamauman'-"'Qsicológica a
p____g___L______odeser tranüílamente '0gado na sucat__a.
Assim poupo-me o trabalho de elaborar hipóteses
para explicar porque o neurótico carece de uma disposi-
ção para amar e concluo que, pelo fato de que esta lhe
falta, também perdeu 0 que seria mais importante que 0
med0, isto e', 0 que merece ser amado. Por assim dizer,
perdeu-o de vista. Uma ídéia revolucionária! Pois dispen-
saria a maior parte dos métodos psicoterapêuticos que
concentram toda a atenção nos medos fantasiosos do
neurótico. E o que dize,r se nem se trata de líbertá-lo dos
seus medos? Pensava-se que uma vez banidos os medos,
o amor voltaria. E se fosse exatamente o contrárioc que
prímeiro precisa vir 0 amor porque só ele é capaz de ba-
nir os medos? Então deveríamos seguir a linha do pen-
samento de Viktor E. FrankL
Uma pequena história9 exemplificará o que quero
dizer. Descreve a cena clássíca de um exasperado proces-
30
 
so neurólico melhor que qualquer manual. Durante uma
excursão a uma montanha na França, em companhia do
pai e do irmão mais velho Cirilo, uma menina chamada
Célia experimenta um trauma psíquico c debate-se de-
sesperadamente, dominada por grandes temores. Ou não
é assim...?
Um dia disse-Zhe o pai: “Que tal escalamlos aquele
monre?" E apontou uma montanha que se erguia atrás do
hoteL
"Eu, papai? Até lá em cima?"
“Sim, lambém poderás monlar em uma mula".
“O que é uma mula, papai?"
O pai explz'cou-lhe que uma mula não era benz Lmz
burro rzem um cavalo, mas algo entre os dois. Célia estava
muito excilada porque iria fàzera aventura de escalar wna
montanha. A mãe, porém, maniféstou algumas dúvida5.
Seria suficientemente seguro para Célia? O pai riu dela,
dizendo que ela era medrosa, que a excursão era absoluta-
mente Segura.
Célia e seu irmão Cirilo iriam participar da excursão
com 0 pai. Cirilo disse indignado: “O qué? Também a pe-
quena vai jumoP Ela só vai dar trabalho”. Ele gostava de
Célia, mas sentia seu orgulho masculino atingid0, se tanL-
bém a Criança já podia participa›: Criança$, principal-
mente nrzem'nas, não tinhanz nada a ver com excursões de
homen5.
Ao amanhecer 0 grande dia, Célia estava na sacada do
lzotel e viu a chegada das mulas. Trotavam dobrando a es-
quina e eram mais parecidas com cavalos que com bur-
ros. Entusiasmada, Célia desceu correnda Um homem
baix0, de Cor escura, fàlava com o pai, dizendo-lhe que ele
pessoalmente cuidaria da 'p'eti[e demoiselle". O pai e Cirilo
montaram em suas mulas. O guia ergueu Célia e colocou-
a Sobre a sua mula. Ficou impressionada com a altura em
31
 
que estava. Mas estava encantada. Começamm a cavalgar.
Partiram. A mãe fícou acenando-lhe5 da sacada. Célia não
cabia em si de o›g'ulho. Agora era grande, participando de
tal aventura. O guia caminhava sempre ao seu Iado e con~
versava com ela, mas ela não entendia quase nada do que
dizia, porque ele Iinlza um fbrte sotaque espanhoL
Era zmza cavalgada maravilhosa. A trilha sinuosa tor-
nava-se cada vez nzais íngreme e fínalmente tinham de um
lado uma parede rochosa vertical e de outro um abismo
igualmente abrupta A mula de Célia tinha o estranho cos-
tume de andar sempre na beira do abismo e coicear com
as pemas traseiras a cada curva do caminha Para Célía
era um anímal muito inteligente. Só achava esquisito o
seu nome, que era Anisette.
Em torno do meio-dia chegaram ao cume da monta-
nha. Alí havia apenas uma cabana com uma mesa diante
dela. Sentaram-se e pouco depois uma senhora servz'u-lhes
um delicioso almoço: omelete, trutas fritas, queijo cremo-
so e pão. E Célia pôde brincar com um cachorro grande e
muito peluda
“C'est presque un anglais", disse a mulher. "Il
s'appelle Milor". Milor era muito bonachão e Célia podia
fazer com ele 0 que queria.
Opai de Célia olhou o relógio e concluiu que era tem-
po de se prepararem para a descida. Chamou 0 guicL Este
veio sorridente e trazia alguma coisa na mã0. "Ve¡a o que
nacabei de pegar , disse. Era uma grande borboleta
multicolor.
“C'est pour Madem01'selle", acrescentou.
Antes que ela pudesse entender o que pretendia fazer,
puxou um alfinete do bolso e jeitosamente prendeu a bor-
boleta no alto do Chapéu de palha de Célia. “Voilà que
Mademoiselle est Chic", disse, elogiand0-a, e deu um pas-
so atrás para admirar sua obra de arZe.
Montaram suas mulas e começaram a descida.
32
Célia sentia-se inléliL A borbolcta ainda estava viva e
ela sentia suas asas balercm no chapézL Alravessada por
uma agulhal Pensar nisso Iàziwlhe ma1. Sentia-se 1em'vel-
mente infe'1íz. E grossas lágrimas começaram a rolar-Ihe
pelas faáces.
“O que é que há, minha bonequinha?", pe›g'untou preo-
cupado 0 pai, quando percebeu 0 que estava acontecenda
“Esta's cansada? Estás sentindo dores? Eslás com dor de
cabeça?"
Célia só negava com a cabeça e seu soluços dilacera-
vam 0 coração dos acompanhantes.
“Ela estâ cansada", opinou Cirilo. "Ou tem medo do
cavala " Célia sacudia a cabeça ainda com mais fo'rça. "En-
tão me diz por que clzoras tantol "
“La petite demoiselle est fatiguée", aventou o guia.
As lágrimas de Célia corriam cada vez mais torren-
ciais. Todos estavam de olhos fíxos nela e fazian1-Zhe todo
tipO de perguntas, mas ela simplesmente não podia dizer
por que estava tão z'nfe'liz.
Insistiram para que dissesse 0 que é que tinha, mas
ela era incapaz de fa'ze^-lo. O guia tentara fàzerJhe uma ale-
gria e ela não podia entristecê-lo. Ele mostrara-5e tão 0rgu-
lhoso da sua idéia de espetar a borboleta no seu chapéLL
Não podia admitir abertamente que não lhe agradava a
borboleta no seu ChapéLL Assim ninguénu ninguém mes-
mo podia compreendé-la. As asas da pobre borboleta ba-
tíam cada vez mais forte no vento. Célia chorava como se
nunca mais pudesse parar. Com certeza mmca ninguém
se sentiu tão infeliz como ela no moment0.
"O melhor é v_oltarmos o mais rapidamente possível",
disse o pai. Não entendia mais nada. “Vamos leva'-la à mãe.
Minha mulher tinha toda a razã0. A excursão estava aci-
ma das fbrças da criança!"
Célia teria preferido gritar: “Nã0 é verdade! Realmente
não é verdadel Eu choro por outro motivo!". Mas não disse
33
nada, pois se o fízessa tomaliam a pergzmtar=lhe: "Mas por
que clzoras, então?" Por isso atordoada só sacudia a Cabeça.
Chorou durame toda a descida. Sentia-se cada vez
mais mal. Tudo Ilze parecia negro e desesperadorz
Ainda Continuava Clzorando quando, diante do hotel,
a Iiraram da nzomaria. Seu pai levou-a para cima, onde a
mãe estava esperand0. “Tu tinhas razão, Miriam", disse
ele, “f0i demais para a bonequinha. Não sei se lhe dói algu-
ma Coisa ou se apenas está demasiadamente cansada".
“P0r que então não abriste a boca?" repreendeu-a
Ciríla
“Ach0 que ela não queria entristecer o guia", disse a
mãe. "Oh, mamãe!" grítou Ce'lia. Nestas palavras estava
tudo - seu ulívia seu amo›; sua gratidã0, sua admiraçã0.
Sua mãe a tinha Compreendida
Até aqui a história. Podemos supor que quase todo
"Nã0 est0u", soluçou Ce'lia.
"Ela teve medo, porque o caminho era muito íngre-
me", disse Cin°lo.
“Nã0 tive", afirmou ela Choranda
“Ma$ então o que tens?", insistiu 0 pai.
Como que anestesiada, Célia fo'ou os olhos em sua
mãe. Sabia que nunca poderia falar sobre o seu grande
50frimenta Este tinha que permanecer profundamente
oculto no seu íntima
Ela queria dizé-lo, mais que isso, teria querido grita'-
Zo, lançá-lo ao rosto de t0d05. Mas não conseguiu fawzê-lo.
De maneira misteriosa sentia-se obrigada a silenciar -
como se alguém lhe tivesse selado os lábios. Ah, se pelo
menos a mamãe soubesse porque estava tão indizivelmente
tristel Mamãe enzenderia, mas ela não podiadeclará-Zo.
Todos a fitavam e esperavam que de alguma fomw justz'fz"-
casse seus lamentos. Tudo nela se Contraía dolorosamen-
te. Só olhava para a mãe com um olhar suplicante: ajuda-
me, por /a'vor!
Miriam retribuiu o olhar.
“Acho que ela não gostou da borboleta no seu cha-
péu", disse a mãe. “Quem a espetou ali?"
Oh, como esrava aliviada agora. Como a mamãe era
admirável! Quase sentia dor de tanto alívia
"Eu a odeio, eu a odeio!" gFiÍOLL "Ela airzda está viva e
bate com as asas. Machucaram-na muito!"
34
leitor dirá espontaneameme: coitada da menina! O leí-
tor versado em psicologia possivelmcntc tirará outras
conclusões interessantes do caso narrado. Uma experiên-
cia psíquica de horror que deixa marcas e dificilmente
pode ser trabalhada... Também a autora do romance pen-
sava assím e coerentemente desenvolveu a hístóría até
uma hístérica tentativa de suicídio de Célia aos 38 anos
de idade.
Mas agora desejo acrescentar alguns elementos que
mostram a bcm descrita imagem sob outra luz. Pois a
realidadc do relalo é outra. O que aconteceu concreta-
mente? Algumas pessoas esforçaram~se para fazer felíz
uma menína. O pai alugou uma mula para que sua ñlha
pudesse participar de uma excursão à montanha, sem se
cansar muito. A dona da cabana da montanha preparou
um delicioso almoço. E o guia encontrou uma borboleta
colorida para enfeitar o chapéu da menina. Admitindo
que não foi uma idéia panicularmente feliz, podemos
contudo perguntar: O que fez a menina? Estragou total-
mente a excursão para o pai, o irmão e 0 guia e sem pie-
dade abandonou a borboleta à sua sorte. Naturalmente
não quero acusa-lá. É uma Criança. Contudo não se pode
ignorar o fato de que o sofrimento que ela causou foi
maior do que o que ela mesma sofreu. Será que aqui não
pusemos a nu uma raiz primordial da neurose?
Como se teria comportado na mesma situação uma
Criança sadia, não inclinada para a neurose? No momento
35
em que o guia estava a ponto de espetar a borboleta no
Chapéu, teria protestado. Teria manifesmdo o seu desa-
grado e pedído que deíxasse o bichinho livre. Talvez até
teria aceito inicialmeme por Cortesia a borboleta espeta-
da Como "presente", mas depois, ao perceber a batida
das suas asas e lhe surgissem lágrimas nos olhos, teria
conñado a sua preocupação ao pai.
No primeiro Caso, numa criança sadia, sem disposi-
çâo neuro'tica, o amor ao animal teria superado o medo.
O medo ou inibiçào de reagir contra um adulto estra-
nho, existiria da mesma forma, estaria preseme na mes-
ma medida como em Célia, mas aquílo que é mais ímpor-
tante que 0 medo, isto é, o amor ao animal ameaçado,
teria motívado para a resistência. No segundo caso, numa
criança sadia, sem disposição neurótica, o amor ao paí
teria superado o medo. O constrangimento por chorar pelo
fato de ter uma borboleta no chapéu, o sofrimento da con-
fissão seriam absolutamente normais, existiriam da mes«
ma forma Como no caso de Célia, mas aquilo que é maís
importante que o medo, ísto é, o amor ao pai preocupado,
que não consegue entender o que está acontecendo, te-
ria ajudado a vencer a situação constrangedora.
No fundo tería custado tão pouco à menina aliviar e
desdramatizar a situação. A frasez "Não qucro isto" teria
impedido que 0 guia espetasse a borboleta. Ele, que não
era mau, mas apenas um homem rústíco e simples, teria
sorrido e respondid0: ”Como Mademoiselle deseja”. A fra-
se: “Tenho dó da borboleta” teria levado o pai a entender.
Num minuto teria devolvido a liberdade à borboleta e
enxugado as lágrimas que Corriam pelas faces da filhi-
nha. O pequeno grupo de excursionistas teria novamen-
te podido gozar da visão panorâmica do alto da monta-
nha, o Cheiro dos pastos, o dia ensolarado, a agradável
sensação de passear pela maravilhosa natureza de Deus.
Mas nada disso aconteceu. A frase salvadora não é pro-
36
P____
nunciada. A "pobre scnsível menína" com íncrívcl dure-
za e indifcrença deixa o animal morrer e pai, irmão c
guia desccram a momanha na maior tristeza. Nenhum
segundo Chora pela borboleta, não tem uma centelha dc
verdadeira compaixâo, o que é percebido pela sábia mãe
(“Acho que ela não gosta da borboleta...”) e aparecc tam-
bém na hora da verdade (“Odeio-a..."). Chora unicamen-
te por si mesma, por autocompaixão, chora por causa do
mal-estar que lhe provoca o bater das asas da borbolctzL
É uma pobre criança, não há dúvida, mas não porque
tem tanto medo e sim por ser tão grande a sua falta de
am0r. Sua indiferença em relação ao ambiente e aos que
com ela convivem é tão grande que não é capaz de opor
nada ao seu medo, absolutamente nada.
Até o fím três pessoas tentam descobrír c quebram a
cabeça sobre a causa do fracasso da excursão. Por con-
centrarem toda a atenção no evídente mal-eslar da me-
r1ina, passou-lhes despercebido o aspecto secundário
"chapéu”. Até o fim, o pai culpa-se a si mesm0, mas no
coração da filhinha nada se move. Entra então em cena
a mãe, que será testada. Será ela capaz de adivinhar o
problema? Se sim, poderá ser poupada, se não, Certa-
mente será castigada com a continuação do drama de
Choro. Mas a mãe conhece a filhinha, com habilidade de
uma clarividente percebe o jogo e leva~0 ao lzappy end.
Um ponto positivo para a mãe, um ponto negativo para
a filha. Esta então sabe imediatamente falar sem proble-
mas. O jogo termín0u, a borboleta está morta, a excur-
são fracassou defin1'tivamente, no futuro pai e mãe se
esforçarão ainda mais que antes para ler nos olhos os
desejos da filhínha e levá-los em conta. Não há nada mais
a fazen a obra do desamor está completa. O medo e a
inibição alcançaram 0 seu objetivo.
Já nos anos 20 Alfred Adler e Viktor E. Frankl díscu-
tiram se os Comportamentos dos neurótícos sempre têm
37
 
um "Caráler intencional" no sentido de Adler, isto é, se
consciente ou inconscientemente represemam um slzow
histéríco com o objetivo secreto de Chamar a atenção c
consideração dos outros (o que no caso de Célia, se foí
esta a sua intcnçã0, obteve êxito total), ou se os compor-
tamentos neuróticos também podem ter simplesmentc
um “0aráter de expressão", tese defendida por Viktor E.
FrankL Na avaliação da nossa história também estou ir1-
clinada a considerar os processos psíquicos da menina
como expressâo de alguma coisa. Mas não primariamen-
te expressão de medo, ainda que esta versão me fosse
maís simpática. Todavia não posso excluir a possíbilida-
de de que aquilo que ocorreu com a criança foi antes ex-
pressão de um "bu1'aco", de um déficit de amor e de disp0-
sição para o amor. De um "buraco" que foi "tapado" com
medo e lágrimas.
Se assim for, será simplesmeme vã a pretensão das
muitas Célías adultas existentes no mundo de que os
outros lhes tragam a palavra justa, reconfortadora, salva-
dora, antes de elas mesmas se decidirem a pronunciá-la.
Igualmente vãos serão os métodos terapêuticos basea-
dos na teoria das neuroses que culpa a falta de uma pnla-
vra reconfortadora na fase decisiva do paciente ou sus-
tenta que esta lhe deve ser dada depois. Pelo contrárioz a
antiga sabedoria da experiência concorda com a concep-
ção da logoterapia de que o homem pode dar o que não
recebeu. Que ele não é uma cópia, uma estação de passa-
gem, que o homem pode gerar o que nunca lhe foi dado
antes. porque nele habita o “espírito”, que é criativamen-
te ativ0. Quem ensínou Beethoven a compor? Quem
mostrou a Michelangelo como se constroem monumen-
tos? Quem ensinou aos irmãos Wright a projetar aviões?
Por que conñança e amor ao paciente devem necessar1'a-
mente preceder a sua própria autoconfiança e seu pró-
prio amor ao mundo?
38
Lembro~me de uma paciente, com a qual falci sobre
isso. Ela ficou adm1°racla, mais aincla, comovida, sadia-
menle comovida. Sua qucixa girava em torno da vclha
cantilemaz ciúme, inveja, mágoa. A pessoa e seu valor
próprio abatido. O ser humano que csquece que seu va-
lor é “indobrável". A idosa senhora, viúva sem fílhos, co-
nhecera um homem idoso também viúvo. Os dois entc-n-
díam~se bem e passaram a viver juntos, para não ficarem
sozinhos. O homem tínha um filho casadoque morava
com doís filhos em outra cidade. Este ñlho rejeitava a com-
panheira de velhice do pai, a qual de maneira pouco ha'-
bil e diplomática repentinamente surgira no “lugar da
falecída mãe", que “tir0u" o avô dos seus netos, que ames
freqüememente aparccía com pequenos prescntes no bol-
so e passeava com eles e agora _ também não muito dí-
plomaticamente - dedicava seu tempo à companheira.
A velha senhora "naturalmente" reagíu a essa clara
rejeição com a sua própria rejeição. “Não vou me raste-
jar atrás dessa gente", prorrompeu entre 1ágrimas. “Não
preciso pedir licença a eles para sair com meu amig0.
Eles já exploraram bastante o pai deles...” Ninguém que-
ria ceder, ninguém queria perder. Quando o pai convida-
va o filho, este respondiaz “Nós só o visitaremos se o se_
nhor estiver sozinho". Quando o filho telefonava para o
pai e quem atendia era a senhora, esta sem dízer pala-
vra, colocava o fone no gancho. Todos sofríam com a
hostilidade a quem ninguém punha um fim.
Agora, pois, estava sentada à minha frente a senho-
ra banhada em lágrimas. A simplicidade da "solução da
vida" era mais para rir que para chorar: ir, estender a
mão, ser boa. Mas exatamente isso parecia impossível.
Ou não?
Em todo caso falei~lhe da velha sabedoria da expe-
riência da Vida. Expliquei-lhe que tudo 0 que partia dela
era escolhido por ela, escolhida de maneira totalmente
39
 
livre. Que nenhum poder deste mundo podía forçá-la a
uma determinada reação. Faleí-lhe de índios que nos
demonstraram que de nenhuma pessoa, mesmo no
pelourinho da t011ura, se pode extorquir uma reação para
a qual não está disposta. De relatos de tortura de todo o
mundo atestando que se pode esquartejar uma pessoa
sem que ela traia uma outra a qual não quer trair. Disse-
1he: “O que irradia de uma pessoa, suas palavras, suas
ações, é determínado por ela mesma e por maís ninguém.
A mesma coisa vale para a senhora também. A senhora e
unicamente a senhora determinou quanta amabilidade
e quanto ódio irradia da sua pessoa. Nào o determina o
seu amigo, nem o filho do seu arnigo e muito menos os
filhos do filho".
"Mas se me tratam com ódio, não posso ser amá-
vel", objetou a senhora. “Pode sim", insisti, “com certeza
pode. A senhora possui sem limitações a possibilidade
de um comportamento amáveL Ainda que cem pessoas
lhe mostrassem ódio, a senhora teria a possibilidade de
ser cem vezes amável e cordial. Agora, se a senhora quer
isso, se a senhora escolhe isso, é uma outra questão. Se é
racional, se é certo retribuir cordialidade ao ódio é ainda
uma outra questão. Só Chamo a atenção para a liberda-
de que é sua. Uma líberdade grandiosa, poderosa, a de
decidin índependentememe de tudo 0 que vem a seu en-
contro, o que írradia da sua pessoa".
A velha senhora ficou pensando nos meus argumen-
tos, enquanto suas Iágrimas cessaram Ientamente. "Eu
até posso ser amável", acabou concordando comigo, “mas
o que é que eu ganharia sendo amável para com os pa-
rentes do meu amigo?"
Eu havia pressentido que v1'n'a essa objeção. Ouvi-a
com ouvido intemo antes de aflorar aos seus lábios. “O
que é que eu ganho com ísso?” Esta é a questão central
em torno da qual gira a mentalidade de hoje. As coisas
40
precísam trazer vantagem. Precisam ser compensadoras
para a pessoa. Chegamos a um nível tão baíxo? Só faze-
mos alguma coisa quando com isso ganhamos algo ou
esperamos ganhar algo? Não. Esta é apenas a superfície.
Abaixo dela há outra realidade. Em cada um de nós há
algo maís - existe a centelha que tudo renova.
Meu olhar caiu sobre um broche delicadamente cin-
zelado, que a pacíente trazia sobre o colarinho do seu
vestido. Apontei para ele. "Este broche é uma peça de
herança ou a senhora mesmo o escolheu?” “Eu mesmo
escolhi", disse a senhora, não sem um assomo de orgu-
lho. “É um dos meus maís bonitos”. "_g________euoD1a-mmac1"-
L____,_________p____a"continuei "se antes da comra a senhora tivesse
engQ____LJ_L______-___“~ntrad0al uém ue ortasse um broche feio, gros-
s_____________________g_eíroa senhora teria escolhido um broche feío, rossei-
z.e_g________g_rueobrocheecomoomeucomOnamem0?ESeeu'
namm____p_______P_______eonentoelosbrochesdeoutras550›"eastam"
büHmnão devo or1'entar-me elocomportamento das ou-
 
tras pessoas?" "Quero dízer maís ainda", competei. a
mesm_-_____1Taforma como o seu maravilhoso broche, tamݎm
os__p______p______*eu______hcomortamento ode enfeitar a senhraÍTúHóÁo
gy______,___________2_____ea senhora decide decide-o ao mesmo temq 0 sobre si
mesma. Se a senhora tratar mal alguém, a senhora é uma
mrrulherr mmaí Se as_enwh0vra for matemal para com alguémí
a______j___T_senhoraé uma mulher materna. SC a senora tratar
_____h____lh_a_g__p_r_*h__d__luémcomreensivelmente,aSenoraéumamuer
omreen51va.Espqemreobrocenoseuvestlouea'
Éxmwaseñro-~
Seguíu um sílêncio. Demorou e eu já estava fêceam
do que a tivesse melindrado. Não deveria antes ter-Ihe
explicado em que difícil sítuação colocou 0 seu amigo,
espremendo-o entre o seu filho e a companheira da sua
velhice? Deveria eu ter falado dos netos que tinham o
41
 
 
 
 
direito de aínda terem o avô por algum tempo e depois
permanecer na grata memória deles? Mas ísso não teria
despertado a suspeita de “moralização" e finalmente não
aumentaria aínda mais a sua resistência?
"Eu poderia fazer uma Coisa”, ouvi finalmeme a voz
da paciente ínterrompendo as minhas preocupações. "Eu
poderia telefonar ao filho do meu amígo, pedir descul-
pas por ter desligado o telefone da última vez e colocá-10
na Iinha com o pai." Coloca'-Zo em comalo com o seu pai.
Esta era a centelha espiritual e eu pude ver literalmente
como um broche horroroso, grosseiro sobre a veste psí-
quíca de uma senhora idosa se transformou num broche
douradol Só me restou apertar-lhe a mão na despedida e
desejar-lhe tudo de b0m.
Lwser humano recisa arender a suerar-se elo
amor em vez de tremer ante o medo de não ser amado_.
Esta é a fórmula número um da cura da neurose. Consi-
dero lamentável o fato de nenhuma outra p51'coterapía,
 
 
 
tão radicalt
42
Para que sejas feliz sobre a Terra
O decálogo em versão logoterapêutica
Acabamos de falar do sentido último da vida huma-
na, que poderia consístir no "progresso em direção ao
amor". Mas o "sentido último” pode ser definido ainda
com mais abrangência do que o fizemos, ou seja, Como
um sentido do todo que está acima de tudo, em chave
teológica§ “Deus”. E a “v0ntade de encomrar o scntido
último”, a que se refere Víktor E. Frankl em suas obras,
significa então que, m___________a¡_d§,__m_dgL§_eLaisCedo ou mais t' LQdQ '
h_______________Lm[LmLalumanoestende as mãos em busca de un "1' Lgml
d________________gma_uma_o_mqu_eívin0,uma harmonia transcendente ' -
de pior e mais ______gwweíono mundo está de 311 ' '-
cl________________g____uído.Mas este "último" se subtrai à comreensão do
homem.
As reTlgiões desenvolveram diversas linguagens e sím-
bolos para visualizar o que é absolutamente invisíveL
Criaram comparações do incomparável e tentaram de-
monstrar 0 indemonstráveL ____L,____*_Desua arte Viktor E. Frankl
__g_;__f_d__#recorrea um anti o ar umento filosófico, segundo o qual
d___]_ese'ada. “No fundo do nosso ser há um desejo tão insa-
ciáWbumerir-se a outra COlsa senao aeus
(Frankl). A___g_______g__._L\sedeé a rova da existência da áua g olho a
43
 
 
 
mgxwva de existência do sol, a “vor1tade de sentído" a p1'o-
vadaexlsten01adosentl'"^"o.amaovem anesoamõlz
Em analogia com o célebre Cogita ergo szun de Descar-
tes, podcríamos dizerz "Amo (deum), ergo (deus) est".__Se
________________p___íncontáveisseres humanos de todos os ovos e culturas,
d___i_____________esdeue há memória humana, amam a Deus, então
Deus é.¡° Também quando se trata do sentído último da
tota11'dade, o amor “é o maior", isto é, o argumento maíor
e mais forte...
Psicoterapia e teologia são duas disciplinas limítro-
fes. A linha de demarcação entre as duas é constituí-
da pelo Huxo do tempo que separa 0 transitório, de que
ocupa a psicoterapía, do eterno, de que trata a teolog1'a..
 
m\"______T__l-_Tasestreitamentejunto à
 
margem o rio, ai onese
e__“_]__.ncontramos pílares da ponte que evam o arco paramoá
"__I_d_"_______*__outroao
As pesquisas recentes de Reinhard Tausch (profes-
sor de psicologia na Universidade de Hamburgo) conñr-
mam o acerto da posição de Frankl'. Entre outras coisas
escreve Tausch:
 
 
o Uma arzálise de mais de 200 pesquisa5, na maioria
norte-amen'canas, leva à conclusão de que pessoas que tém
a idéia de um Deus que as ama e ampara, com uma fé
interiorízada, e pessoas com uma clara corzcepção espiri-
tual da vida
-- vêem mais sentido na vida, estão mais satisfeitas
com a vida, têm mais esperança e experimentam menos
desmoralização;
7 - estão mais dipostas a ajudar os outros, participam
mais de campanhas de ajuda, têm menos preconceitos;
514
/ - são psiquicamente mais sadias, dominam melhor
as crise5, usam menos nicotina, álcool e drogas;
- têm menos relações sexuais pré e extra-malrimo-
Lniais, são mais agradecidas e perdoam mais facilmenle;
- tomam-se cn'minosas com menos fr'eqüência que
pessoas sem convicções religiosa$. “
Estimulada por esses dados e pelas minhas próprias
experiências com pacientes, __¡___ç__dese'oavanar alguns pas-
s______L___d_j_ossobre aonte construída por Viktor E. FrankL acres-
centando uma interpretação logoterapêuticaoDeCáUocro
Wndoteóloga, ao fazê-lo estou sujeíta a uma justificada
cn't1'ca. Por outro lado, esta ínterpretação pode ofereccr
uma nova visão do Decálogo numa época em que muitas
pessoas procuram refúgio em ilusões esotéricas, porque
as fórmulas Vazias de uma tradição fossilízada não têm
mais apelo. Q__g________Decáloo não é vazio. Visto através da len-
_______L______p________“7_?_rmesmoreleto de orientações ara uma via sala e e-
____P_______q___________p______liz.Esecialmente o uarto mandamento arece-me cons-
tikñáññtuiruma edra angular para a conquísta da estabilida-
d__p_gL________p____,___p_g__esíuica e amadurecimento essoa , razao e a ua
o tratareí maís detalhadamente.
 
O DECÁLOGO EM VERSÃO LOGOTERAPÊUTICA
1° mandamento: Manterás a relação com a transcen-
dência.
2° mandamento: Conservarás tua receptividade aos
valores.
3° mandamento: Periodicamente recolher-te-ás para
dialogar com a tua consciéncia.
45
 
Perdoarás aos teus pais os erros que
cometeram contra ti.
Afirmarás incondicionalmente o
sentido da vida.
Consentirás que a Zua satisfação
seja o efeito secundário de um ato
de am0r.
Só tomarás para ti e assumirás o
que te for destinado.
Não multiplicarás 0 sofrimento en-
tre as pessoas no mundo.
Respeitarás e preservarás a um°da-
de da famílicL
Nâo aspirarás a te,r mas a ser.
4° mandamentoz
5° mandamento:
6° mandamentoz
7° mandamentoz
8° mandamento:
9° mandamento:
10° mandamentoz
Sobre o 1° mandamento
Manterás a relação com a transcendência
Viktor E. Frankl chamou a atenção para o fato de
que não se pode querer crer. A fé é um ato intencional
que, ele próprio e de sua parte, não pode ser objeto de
um ditame da Vontade. Quer dizer: ou se crê em algo ou
não se crê. Nâo se pode crer por uma ordem da Vontade.
Pelo contrárí0, uma relação com algo pode ser culti-
vada, promovida e mantida voluntariamente, ou seja, por
um ato de vontade. Uma relação “primordíal" não preci-
sa perder-se. Todavia por relação não entendo realização
ou consumação. Não sou adepta da tese de que a realiza-
ção da fé é mais importante que o conteúdo da fé. A fé
quando se realiza só se realíza em relação a um conteú-
do merecedor de fé. Mas se um conteúdo é merecedor de
fé ou não, por sua vez só se esclarece no contexto de uma
relação ainda existente com tal conteúdo.
46
Por isso o 10 mandamento na perspectiva logotera-
pêutíca diz que o ser humano podc e deve contribuir com
sua parte para não perder sua relação inata com a
transcendência, a fim de dar uma chance ao fcnômeno
intencional da fé de realizar-se como que por si mesmo e
sem intervenção da vontade
Sobre o .2° mandamento
Conservarás tua receptividade aos valores
O nome de Deus é inefável e 1'nomináve1. Não só não
podemos ter uma imagem de Deus, mas também não
podemos ímaginar-nos um nome para ele. Todavia para
nós, homens, é difícil venerar um ser sem nome. A solu-
ção parece estar simplesmente em conservar 0 respeito
pelo ser, pela plenítude de Valor do ser, pela natureza,
pelas coisas, pelas plantas, pelos animais e pelos seres
humanos. Com isso não pretendo aderir ao panteísmo
que distribuí diluidamente o sentido do sagrado. A afir-
mação de Víktor E. Frankl de que nenhum rio construiu
sua própria usina elétrica12 (com o que Frankl quer pôr
limítes ao instíntivo frente ao espiritual no homem) pode
ser aplicado a toda corrente do ser no mundo que tam-
bém não pode ter dado a si mesmo o seu próprio desen-
volvimento e estrutura.
O que quero dizer com isso é que o observador que
com assombro e veneração está diante das poderosas
ondas que movem a central elétrica, estará mais dispos-
to a dobrar os joelhos diante daquele inominado e invisí-
vel construtor da central, que só pode ser concebido como
um ser pessoal.
47
Sobre o 30 mandamento
Periodicamente recolher-te-a's para dialogar
com a tua consciência
Viktor E. FrankL num período de rnais de 10 anos,
definiu a consciência de maneiras diferentes. Origina-
riamente definiu-a como “o órgão que escuta a voz da
transcendência".13 Depoís definiu-a como "o órgâo que é
capaz de descobrir 0 sentido único de uma situação úni-
ca de vida”.“ Quem conhece o conceito de sentido na
logoterapia sabe que a diferença entre as duas definí-
ções éinsign1'ficante, pois trata-se sempre de algo trans-
subjetivo, que só pode ser escutado ou descoberto por
uma consciência subjetiva.
Este processo do escutar ou detectar necessita de
horas de reflexão, de uma pausa de meditação, de um
tempo de recolhimento e silêncio. Sem tal separação oca-
sional do ruído externo, nosso "órgâo do sentido" se
atrofiaria paulatinamente. Na agitação do dia-a-día sua
capacidade de escuta diminuiria e em meio à agitação
do trabalho perderia sua capacidade de detecção. Em
resumo, são tantas as coisas subjetivamente importan-
tes que acabam enfraquecendo a presença do trans-
subjetivamente essencial. Não desejo especular sobre as
conseqüências no sentido metaclínico, pois bastam as
conseqüências no sentido clínico. Estas acabam no co-
lapso do organismo, fato que entrementes também a so-
Cíedade industriaL cegada pela obsessão da produtivída-
de, descobriu e procura compensar com toda sorte de
métodos artificiaís de distensã0. Mais símples e mais
natural seria voltar ao "dia do Senhor", ao dia em que
todo o organismo descansa, com exceção de um órgão
-- a conscíência.
48
Sobre 0 4° mandamento
Perdoarás aos teus pais 05 erros
que cometeram contra ti
A psicologia profunda parte de uma idéia fundamen-
tal que diz mais ou menos o seguintez Se os pais "honra-
rem" seus filhos, em palavras modemas, os educarem de
maneira pedagogicamente correta, atenderem carinhosa-
mente às suas necessidades, os filhos viverào bem (no sen-
tido modemoz não experimentarão traumas que deixam
recalcar, não desenvolverão neuroses nem depressões) e
terão longa vida (no sentido modemoz estarão imuniza-
dos contra males psicossomáticos). Coisa semelhante
acontece com o inverso. Se os filhos adultos “honrarem"
seus pais (no sentido moderno: não os hostilizarem, não
os ignorarem e, em vez disso, os visitarem freqüentemente
e lhes prestarem assistência quando necessitarem), então
os pais viverão bem e longamente (no sentido modemo:
superarão a crise da idade madura, a síndrome do ninho
vazio, o choque da aposentadoria, as enfermidades da ve-
lhice). Partindo dessa consideração, o 4° mandamento do
Decálogo é geralmente (mal) interpretado como se se tra-
tasse da assistência à velhice de outrora, numa época em
que não havia ca1x°a de aposentadon'a nem seguro-saúde.
Pelo contrán'o, a autêntica relação "se-então" do 4°
mandamento tomou-se algo muito estranho para nós. Se
os filhos honrarem, respeitarem e amarem seus pais, eles,
filhos, estarão bem. Os fílhos, não os pais honradosl Uma
contradição

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