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Conceitos • Crise epiléptica: expressão clínica decorrente de descarga anormal e excessiva do tecido cerebral • Crise aguda sintomática (ou crise provocada): Crise epiléptica decorrente de uma causa imediata identificada e que tendem a não mais recorrer após a eliminação do fator desencadeante. Principais causas são distúrbio metabólico (hidroeletrolítico ou acidobásico), intoxicação exógena por drogas que rebaixem o limiar convulsígeno, abstinência de drogas sedativas ou insulto neurológico agudo (vascular, infeccioso, etc.) • Crise única (isolada): uma ou mais crises que recorrem no período de 24h. Pode corresponder a uma crise aguda sintomática ou à primeira manifestação de epilepsia • Epilepsia: doença neurológica caracterizada por predisposição persistente que leva ao aparecimento de crises epilépticas e suas consequências neurobiológicas, cognitivas e psicossociais. O paciente deve apresentar pelo menos duas crises espontâneas sem evidência de desencadeantes agudos ou uma crise espontânea associada à evidência de predisposição à ocorrência. Epidemiologia A probabilidade de um indivíduo apresentar uma crise epiléptica ao longo da vida é estimada entre 5 e 10%. Em cerca de 25% das crises, um fator causal desencadeante pode ser identificado. É uma das doenças neurológicas mais comuns, com incidência ajustada de 3,1% até a idade de 80 anos (EUA). Estudos de base populacional estimam prevalência entre 0,9 e 57 casos/1.000 habitantes e incidência entre 26 e 90 casos/100.000 hab. Estudos brasileiros indicam prevalência de 16,5/1.000 em Porto Alegre e 11,9/1.000 em São Paulo. A prevalência de epilepsia ativa é estimada em 0,5% nos EUA e 1,5 a 2% na América Latina. Crises isoladas são ainda mais comuns, com incidência cumulativa de 9-11%. A maioria dos pacientes que apresenta a primeira crise epiléptica não tem epilepsia. A epilepsia pode se manifestar em qualquer fase da vida. Nos países industrializados observam-se dois picos: primeiro ano de vida e após a sétima década, sendo essa com incidência e prevalência 2 a 3 vezes maior. Avaliação Inicialmente caracterizar o evento, procurando diferenciar crise epiléptica de outros eventos paroxísticos de origem não epiléptica. Em seguida, diferenciar a manifestação como crise aguda sintomática, crise única ou epilepsia. É necessária caracterização semiológica detalhada da crise. A realização do EEG é fundamental em todos os casos para realizar a correlação clínico-eletrográfica e definir o tipo de crise. Em seguida, é necessário estabelecer a etiologia pelos dados clínicos, eletrográficos e de neuroimagem. A identificação do tipo de crise e da etiologia determina a seleção de drogas e os fatores prognósticos quanto à resposta terapêutica e à duração do tratamento. Anamnese É fundamental detalhar os eventos, caracterizando os sintomas iniciais e a sequência em que eles ocorrem. O paciente deve descrever os fenômenos conscientes da crise, enquanto acompanhantes descrevem os fenômenos ocorridos durante o período de arresponsividade. Nas crises focais, os sintomas iniciais indicam a região cortical inicialmente acometida pelas descargas e são fundamentais para a localização das áreas para seu início. Muitos pacientes não consideram esses sintomas como crise (referindo como auras) e tendem a não valorizá-los. Deve-se questionar ativamente a presença de sensação visceral ascendente, descrita como sensação de opressão iniciada em abdome que ascende e que é característica de crises originadas no lobo temporal mesial. Taquicardia, sensação de medo e sintomas experienciais ou dismnésicos são também comuns nesse tipo de crise. Podem ocorrer alterações sensitivas como parestesia, alterações visuais, olfativas, auditivas e gustativas. Pacientes com crises focais associadas à perda de consciência descrevem inicialmente suas crises como “ausências” pelo fato de não se lembrarem dela. O acompanhante pode descrever olhar vago, automatismos manuais e mastigatórios. Nas crises focais motoras, pode ocorrer o fenômeno de marcha jacksoniana, em que os movimentos clônicos se iniciam na mão e de forma progressiva acometem o antebraço, braço e face, podendo evoluir com generalização secundária. Alterações motoras como abalos musculares repetitivos (clonias), postura distônicas e tônicas assimétricas também devem ser caracterizados. O desencadeamento de crises pela hiperpneia é característico de crises de ausência e pelo estímulo luminoso característico de mioclonias. Crises Neurologia: epilepsia Igor Mecenas tônico-clônico generalizadas que ocorrem após o despertar, frequentemente associadas a mioclonias e desencadeadas por privação de sono e uso de álcool sugerem epilepsias generalizadas de início na adolescência, de etiologia genética ou provavelmente genética. Ocorrência de crises tônico-clônico generalizadas durante o sono sugere crises de início focal. A duração das crises, especialmente as generalizadas, é superestimado, pois os acompanhantes incluem também a duração do período pós-ictal. Dados como idade de início, estado cognitivo, antecedentes pré, peri e pós-natais, fatores desencadeantes, antecedentes neurológicos, clínicos e psiquiátricos, história familiar de epilepsia e reposta prévia a medicamentos são importantes para o diagnóstico do tipo de crise e etiológico da epilepsia. Exame Físico O exame deve incluir avaliação clínica completa. O retardo mental é um dos achados mais frequentes. Deve ser classificado em leve, moderado, grave ou profundo e investigada a presença de sinais focais. Estigmas cutâneos podem sugerir doenças neurocutâneas, dismorfismos podem indicar cromossomopatias e hemissomatoatrofia pode revelar doença hemisférica. Pacientes com epilepsia apresentam frequentemente queixas cognitivas (especialmente memória, linguagem, atenção e concentração). Comorbidades psiquiátricas são mais frequentes que na população geral. Exames Complementares Eletroencefalograma As posições dos eletrodos são determinadas por convenções internacionais e denominadas por letra que indicam a localização e números que indicam os lados. • FP = Frontopolar; F = Frontal; C = Central; P = Parietal; O = Occipital; T = Temporal; A = Auricular. • Números ímpares = Esquerda; Pares = Direita • Quando colocados na linha média recebem a letra “z” de zero. Os ritmos de base se modificam de acordo com o estado de vigília e sono. Durante a vigília, em repouso: • Regiões anteriores: Ritmos rápidos (Frequência na faixa alfa, >14Hz) de baixa amplitude. • Regiões posteriores: ritmo dominante posterior (faixa alfa, 8,5-13Hz) que desaparecem com a abertura ocular. Nos estágios superficiais de sono (estágio 1): • Maior contingente de ondas lentas, na faixa teta (4-8Hz) com fragmentação do ritmo dominante posterior. No estágio 2: • Aparecimento de fusos de sono e complexos K Nos estágios 3 e 4. • Predominam ondas lentas nas faixas delta (<3,5Hz) e teta (4-8Hz). Na avaliação de pacientes epilépticos, pode reconhecer descargas epileptiformes que podem indicar a ocorrência de determinados tipos de crise epiléptica, mesmo em períodos sem manifestação clínica. Deve ser obtido em períodos de vigília, sono e despertar, além do emprego de métodos de estimulação (manobras de hiperpneia por 3 a 5 minutos, fotoestimulação intermitente com baixas frequências [1 a 22Hz]). Há aumento na positividade do exame na realização de até 3 exames. A atividade epileptiforme pode ser constituída por ondas lentas com morfologia aguda (duração >70ms), complexos onda aguda/onda lenta, espículas isoladas ou agrupadas (atividade paroxística de curta duração <70ms) e complexos espícula-onda ou de multiespícula onda ritmados. A monitorização por vídeo-EEG é extremamente útil no diagnóstico diferencial de fenômenos paroxísticos, na caracterização clínico-eletrográfica de crises epilépticas, na avaliaçãopré-cirúrgica da epilepsia e também na quantificação de crises e detecção de crises subclínicas. É particularmente útil nos casos de dúvida diagnóstica e na epilepsia de difícil controle. Ressonância Magnética Permite o diagnóstico da esclerose de hipocampo e dos distúrbios de desenvolvimento cortical, além de outras pequenas lesões dificilmente visualizadas na TC. É o método de imagem de escolha para investigação de epilepsia, indicado na avaliação da grande maioria dos pacientes em que se suspeite de epilepsia sintomática. Os exames de RNM podem não demonstrar lesões na faixa etária pediátrica (enquanto o processo de mielinização ainda não se completou). Tomografia por Emissão de Pósitrons (PET) Permite o estudo do metabolismo cerebral e pode demonstrar áreas de hipometabolismo regional em casos de epilepsia focal. É empregado principalmente em epilepsia de difícil controle, no contexto da avaliação pré-cirúrgica. Tomografia por Emissão de Fóton Único (SPECT) Os estudos ictais baseiam-se no fato de que crises focais se associam a hiperfluxo na região de início da crise. Os ligantes mais empregados utilizam isótopos de tecnécio, com injeção bem próxima do início da crise. É bastante preciso para localizar o foco em casos de epilepsia focal temporal ou extratemporal. Injeções no período pós-ictal podem demonstrar padrão de hipoperfusão ou hiperperfusão. Os exames interictais apresentam baixa sensibilidade, demonstrando hipoperfusão regional em 30-50% dos casos de epilepsia de difícil controle. Tipos de Crise Epiléptica Primariamente Generalizadas Caracterizam-se por alteração elétrica que acomete um ponto determinado de uma rede neural, com rápido acometimento de amplas redes neurais em ambos os hemisférios cerebrais, podendo incluir estruturas subcorticais. Podem ou não cursar com perda de consciência. • Nas epilepsias associadas a crises primariamente generalizadas observam-se surtos ritmados, de duração mais prolongada e projeção generalizada. Podem ser observados complexos de espícula-onda ou de multiespícula-onda. Tônicas Caracterizam-se por perda abrupta de consciência, contração tônica habitualmente simétrica dos membros com elevação dos braços, anteflexão da musculatura do pescoço e supraversão ocular. A duração média é de 20 segundos. Tendem a ocorrer durante o sono, podendo se manifestar de forma sutil, com abertura das pálpebras e supraversão ocular. Quando ocorrem em vigília podem levar a queda abrupta e ferimentos. Ocorrem de modo praticamente exclusivo em pacientes com comprometimento neurológico e em síndromes epilépticas graves. • Nas crises tônicas observa-se atividade rápida de projeção generalizada nas frequências 14- 20Hz (atividade paroxística rápida ou ritmo recrutante). Atônicas Caracterizam-se por perda abrupta do tônus axial e por queda abrupta da cabeça, cabeça e tronco ou toda a musculatura axial. Curta duração e frequentemente leva à queda com ferimentos. Praticamente exclusivas de pacientes com comprometimento neurológico e síndromes graves. • Nas crises atônicas pode ser observado padrão de complexos espícula-onda generalizados ou atenuação difusa da atividade elétrica. Tônico-Clônicas Tendem a ocorrer em vigília, em períodos próximos ao despertar. Ocorre perda abrupta da consciência, queda, seguida de fase tônica caracterizada por contração tônica em extensão dos membros, da musculatura do pescoço e supraversão ocular, geralmente associada a grito devido a expulsão forçada do ar pela contração do diafragma. O componente tônico dura cerca de 30 segundos e é seguido de abalos musculares clônicos ritmados dos quatro membros, por um período de cerca de 90 segundos, associado a apneia e à sialorreia. Pode ocorrer mordedura de língua e liberação esfincteriana (5-10% dos casos). Ao final da crise, ocorre relaxamento muscular e respiração ruidosa, com recuperação gradual da consciência, por vezes associada à intensa agitação (período pós-ictal), que pode durar vários minutos. • Nas crises tônico-clônicas é observado na fase tônica uma atividade rítmica generalizada, de frequência >10Hz, bilateral, síncrona e simétrica, evoluindo para poliespículas generalizadas. Na fase clônica seguem complexos poliespícula-onda lentos e intensa depressão da atividade elétrica cerebral no período pós-ictal, com lenta recuperação dos ritmos de base. Mioclônicas Caracterizam-se por abalos musculares rápidos, em choque, simétricos ou assimétricos, síncronos ou assíncronos, que podem envolver tanto as extremidades quanto a porção mais proximal dos membros. Mioclonias maciças podem levar à queda por perda do controle postural. São descritas como choques, tremores e, por vezes, os pacientes não conseguem interpretá-las corretamente (referindo que são desajeitados e que deixam as coisas caírem das mãos ou descrevem como perda de controle motor e que as coisas “pulam das mãos”). Não cursam com prejuízo da consciência, exceto quando as crises ocorrem de modo reiterado, podendo haver comprometimento parcial. Podem ser desencadeadas por estímulo luminoso repetido, privação de sono ou uso de bebidas alcóolicas. • Nas crises mioclônicas frequentemente são vistos complexos poliespícula-onda de frequência >3Hz que podem ser desencadeados por fotoestimulação intermitente. Crise de Ausência Caracterizam-se por breve perda de contato com o meio (10 segundos em média), pro vezes associadas a automatismos discretos, como piscamentos. Em crises mais prolongadas podem ocorrer automatismos mais complexos, alterações discretas do tônus e fenômenos autonômicos. Crises de ausência típica têm curta duração, início e término abruptos e ocorrem em indivíduos neurologicamente normais. Podem ocorrer nos padrões picnoléptico na ausência da infância (extremamente frequentes, até 200 crises ao dia) ou espanioléptico na ausência da adolescência (intervalos mais espaçados, no máximo algumas crises por dia). As crises típicas podem ser desencadeadas pela manobra de hiperpneia. • Na crise de ausência típica ocorrem descargas de complexos espícula-onda ritmados a 3Hz concomitantes à manifestação clínica. Ausências atípicas ocorrem em indivíduos neurologicamente comprometidos, geralmente em síndromes epilépticas mais graves, com início e fim menos abruptos e maior duração. Pode ocorrer confusão pós-ictal. • Nas ausências atípicas o padrão é de complexos espícula-onda mais lentos (1,5 a 2,5Hz). Focais Nas crises focais, as descargas elétricas anormais ocorrem em áreas circunscritas de um hemisfério cerebral levando a manifestações decorrentes da disfunção da região cerebral acometida. Crises focais podem propagar-se levando ao acometimento de outras áreas do córtex cerebral, podendo levar ao acometimento de grande parte ou da totalidade do córtex (crise secundariamente generalizada). Podem ocorrer com ou sem perda de contato com o meio (nas sem perda de consciência é descrita aura). • Nas epilepsias associadas a crises focais, podem ser observadas crises focais, atividade ritmada de frequência lenta ou rápida, de projeção localizada em uma região cerebral. Pode haver presença de ondas agudas, complexos onda aguda/onda lenta, ou menos frequentemente espículas, multiespículas ou complexos espícula-onda. Com Sintomas Motores Motoras simples: abalos musculares rápidos envolvendo a face ou membros unilateralmente, que podem assumir a característica de marcha (acometimento seriado). Indica envolvimento da área motora primária. Motoras negativas: perda abrupta e transitória do tônus muscular nos grupos da face, braço, mão e perna (fenômeno negativo da crise motora simples). São mais raras que as simples e também indicam acometimento da área motora primária. Crises posturais ou tônico-posturais: acometimento motor bilateral com posturas bizarras, geralmente com elevação em abdução assimétricados MMSS e versão da cabeça (postura do espadachim). Por vezes acometem também os MMII, levando a queda. Podem ocorrer com ou sem perda de consciência e sugere acometimento da área motora suplementar. Crises versivas: versão forçada da cabeça e dos olhos para um dos lados. Pode ocorrer com consciência preservada ou comprometida. Mais frequentemente decorre de acometimento da região frontal imediatamente anterior ao giro central contralateral à versão e pode decorrer de regiões occipitais ou temporais. Crises automotoras: automatismos oromastigatórios ou manuais que podem ser peseverativos (continua a fazer o que estava fazendo) ou de novo (iniciam com a crise). Os oromastigatórios são mais frequentes e os de membros geralmente envolvem extremidades e sem propósito definido. Habitualmente ocorre perda de consciência e sugere envolvimento do lobo temporal. Crises Hipermotoras: automatismo vigoroso proximal dos membros, com movimentos amplos dos braços e pernas, movimentos de pedalar, de balanceio do corpo, de propulsão do quadril e outros movimentos complexos. Ocorre com ou sem acometimento da consciência e sugere envolvimento do lobo frontal, mas também é descrita em casos do lobo temporal. Crises hipomotoras ou hipocinéticas: parada da atividade em curso e perda de contato, geralmente de curta duração. Podem se assemelhar a crises de ausência, porém com padrão encefalográfico completamente distinto, com descargas de natureza focal. Com Sintomas Somatossensitivos Somatossensitivas: sintomas somestésicos (formigamento, dormência) em face, mão, braço ou perna unilateralmente. Pode apresentar fenômeno de “marcha” como nas motoras. Habitualmente sugerem acometimento do córtex sensitivo primário. Visuais: alucinações visuais elementares (pontos luminosos, por exemplo) ou complexas (formas geométricas ou cenas). Surgem do acometimento do córtex occipital nas vizinhanças do córtex visual primário contralateral ao sintoma ou do córtex de associação occiptotemporal nas complexas. Auditivas: Alucinações simples ou complexas sugerem acometimento de regiões vizinhas ao giro temporal superior. Olfatórias ou Gustatórias: relativamente incomum. Envolvimento de estruturas temporais mesiais (úncus) ou frontais-basais. Com Sintomas Autonômicos Sensação visceral ascendente, mais comumente epigástrica, ou sensação de opressão no peito ou garganta (sufocamento). Podem ocorrer outras sensações ascendentes, por vezes somáticas, acompanhadas de sintomas autonômicos como piloereção, taquicardia, palidez e sudorese. Sugere acometimento de estruturas límbicas e paralímbicas, especialmente temporais mesiais (amígdala, hipocampo e giro parahipocampal). Com Sintomas Psíquicos Sintomas experienciais, dismnésicos ou afetivos que podem ou não ser acompanhados por sintomas autonômicos e caracterizam-se por sintomas de desrealização, despersonalização, sensação de medo, pânico. Mais raramente bem-estar, sentimento de catástrofe iminente ou sensações dismnésicas de estranheza (jamais-vu ou jamais-vécu) ou de familiaridade (déjà-vu ou déjà-vecu). Sugere acometimento de estruturas límbicas e paralímbicas. Não Classificadas Espasmos Epilépticos Idade-dependente, iniciando-se na faixa dos 3 aos 12 meses de vida. Após esse período pode evoluir para outro tipo (geralmente tônica ou atônica, ou focal). Caracteriza-se por abalos musculares abruptos com contração por alguns segundos da musculatura flexora ou extensora, de duração maior que uma mioclonia e menor que uma crise tônica. Tende a ocorrer em salvas, com espasmos repetidos a intervalos regulares, de intensidade crescente dos abalos, por períodos de 5 minutos. Após isso os espasmos diminuem de intensidade, aumentam os intervalos e finalmente cessam. Durante a salva, a criança mostra-se irritada e chorosa. Tendem a ocorrer em períodos logo após o despertar. Pode manifestar-se também como episódios repetidos de queda abrupta da cabeça, mais evidentes se a criança está sentada, lembrando crises atônicas. Por vezes associam-se a fenômenos de contração dos membros com perda de tônus em outros segmentos musculares, como pescoço. • Nos espasmos epilépticos observa-se concomitantemente aos espasmos clínicos, um padrão eletrodecremental, constituído por onda lenta de grande amplitude seguida de intensa depressão da atividade elétrica generalizada (dessincronização difusa) por vezes com atividade rápida (>14Hz superposta) Crises Gelásticas e Dacríticas São extremamente raras e quando ocorrem sugerem hamartoma de hipotálamo. Crises gelásticas são crises de riso espontâneo com característica de reisada ou mesmo gargalhada, que ocorre de modo natural. Em alguns casos, é descrita como manifestação menos intensa, como vontade de rir e não devem ser confundidas com crises de contração forçada de um dos lados da boca que lembram riso forçado e artificial (focal motora). Crises dacrísticas são crises de choro e não devem ser confundidas com o choro voluntário que habitualmente ocorre em crises não epilépticas de origem psicogênica. Relacionada a Situações Especiais Crises Febris Ocorrem em uma faixa etária específica (3 meses e 5 anos de idade), com pico de incidência antes dos 2 anos, em vigência de febre e ausência de infecção do SNC (meningite ou encefalite). Pode ocorrer imediatamente antes da elevação da temperatura ou no contexto de doença infecciosa aguda sem febre (crise febril “afebril”). Têm forte fator genético associado. Podem manifestar-se com abalos motores generalizados ou principalmente, em crianças abaixo de 1 ano, sem abalos motores e de forma arresponsiva, hipotônica e com olhar fixo. Podem ser simples, com abalos de duração <15 minutos, ou complicadas, duração >15 minutos, crises reentrantes, ou com sinais focais (abalos ou enrijecimento muscular unilateral, paresia unilateral pós-ictal). É importante excluir infecção do SNC e preciptantes como traumatismo craniano e intoxicação medicamentosa. Acomete crianças sem antecedentes neurológicos e com antecedentes familiares de crise febril, sem maior risco de desenvolvimento futuro de epilepsia, mas com risco de recorrência da crise febril. Quando ocorrem em crianças com antecedentes neurológicos significativos, não devem ser classificadas como crises febris e sim como crises associadas à febre, com maior risco de posterior epilepsia. Tratamento crônico com antiepilépticos não está indicado na maioria dos casos, apenas em casos selecionados. Devem ser instituídas preventivas como controle rigoroso da febre e administração precoce de antitérmicos. Nas crises prolongadas pode ser administrado Diazepam por via retal. Crises Reflexas Desencadeadas espontaneamente e por estímulos específicos. Os estímulos podem ser simples (estimulação luminosa intermitente, estímulos táteis, auditivos, etc.) ou complexos (alimentação, padrões visuais complexos, leitura, atividades mentais complexas, ou mais específicos como mergulho em água de certa temperatura). Tanto crises primariamente generalizadas quanto as focais podem ocorrer de modo reflexo. Etiologia da Epilepsia Após a correlação dos dados clínicos e eletrográficos, pode se classificar a epilepsia. • Nas epilepsias focais ocorrem crises focais com ou sem generalização secundária. • Nas epilepsias generalizadas ocorrem apenas crises generalizadas, de um ou mais tipos, dependendo do tipo de epilepsia. As epilepsias podem ser classificadas segundo a etiologia em: • Epilepsia de causa estrutural-metabólica • Epilepsia de causa genética ou provavelmente genética • Epilepsia de causa desconhecida As epilepsias focais, em sua quase totalidade, se constituem de epilepsias de etiologia estrutural- metabólica ou de causa desconhecida (exceção das focais benignas da infância, provavelmente genética). As epilepsias generalizadas são constituídas em grande parte por epilepsias genéticas ou provavelmente genéticas,representando 10% de todos os casos de epilepsia. Estrutural-metabólica Identifica-se no exame de neuroimagem uma lesão estrutural que determina a ocorrência de epilepsia, ou existe condição metabólica em que ocorre inequívoca associação com epilepsia. As epilepsias focais estruturais-metabólicas são caracterizadas por crises focais, com ou sem generalização secundária. • Epilepsia temporal associada à esclerose de hipocampo A esclerose consiste em perda neuronal em setores específicos do hipocampo (CA1, CA3 e hilo do giro denteado), com preservação relativa dos neurônios de CA2. É a forma mais comum de epilepsia focal de difícil controle medicamentoso em adultos. O quadro ocorre com crises focais e autonômicas ou psíquicas, sem perda de consciência, mais frequentemente manifestadas por sensação visceral epigástrica ou torácica ascendente que pode se associar a outros sintomas autonômicos, sensações psíquicas de desrealização ou despersonalização, medo, ou a fenômenos dismnésicos, seguidos de perda de contato com o meio, reação de parada, olhar vago e fixo e automatismos oromastigatórios e manuais. Crises secundariamente generalizadas são raras. Inicia na infância tardia e na adolescência, podendo iniciar na idade adulta. Em muitos casos, é reconhecido um evento precipitante inicial como crise febril complicada antes dos 4 anos de idade. Outros insultos cerebrais precoces como meningite, meningoencefalite ou traumatismo craniano grave podem agir como precipitante inicial. Após o evento inicial o paciente permanece anos sem crises (período silencioso). O EEG mostra descargas de ondas agudas na região temporal anterior, o que geralmente não aparece quando a crise não tem perda de consciência. Nesta o padrão mais característico é a de atividade ritmada na frequência teta (4-8Hz), de maior amplitude nos eletrodos temporais anteriores e inferiores. O diagnóstico é confirmado por RNM em T1 e IR com cortes perpendiculares ao eixo maior do hipocampo, observando perda volumétrica do hipocampo que pode envolver diferentes regiões, mais frequentemente a cabeça e o corpo, aparecendo afilado e com perda das digitações. Em T2 e FLAIR pode-se observar aumento de sinal e perda da arquitetura interna. Em alguns casos também se observa alterações volumétricas e de sinal na amígdala e giro para-hipocampal ou redução de volume de todo o lobo temporal ipsilateral. Em alguns casos de esclerose de hipocampo, observa- se mais de uma lesão potencialmente responsável pelas crises (distúrbio de desenvolvimento cortical, tumores de baixo grau, lesões glióticas ou císticas adquiridas por possível insulto pré ou perinatal) que pode estar no lobo temporal ou em estruturas extra- temporais, em qualquer hemisfério. Há boa resposta inicial ao tratamento, mas apresenta altos índices de refratariedade (30 a 85%) mesmo com tratamento adequado. Muitos apresentam dificuldade de memória recente, comorbidade psiquiátrica (transtornos ansiosos e depressivos). É passível de tratamento cirúrgico e 80% se livram de crises com a cirurgia. • Epilepsia focal associada a distúrbios do desenvolvimento cortical (displasia cortical focal, hemimegalencefalia, heterotopias nodulares periventriculares, polimicrogiria, esquizencefalia, esclerose tuberosa) Esses distúrbios englobam anormalidades de desenvolvimento embrionário nos períodos em que ocorre a proliferação de células neuronais primitivas na região periventricular (8ª à 12ª), migração radial para a superfície do cérebro (12ª à 16ª) e organização cortical em suas 6 camadas (16ª à 20ª). Perturbações no período de proliferação originam as displasias corticais focais, que se caracterizam por espessamento cortical localizado, que pode ser visto pela RNM e associar-se ao aumento de sinal na substância branca adjacente. Frequentemente associam-se à epilepsia de difícil controle medicamentoso de início precoce. Histologicamente há perda da laminação cortical e presença de neurônios imaturos, dismórficos ou gigantes, e, por vezes, células em balão. Pode ser tratada com ressecção cortical focal. A hemimegalencefalia é uma malformação hemisférica extensa com perda da laminação e da orientação neuronal cortical, presença de neurônios imaturos/dismórficos ou gigantes, células em balão, e pode se associar a heterotopias neuronais e alterações dos giros. Frequentemente se associa a epilepsias de difícil controle e início precoce, associada à disfunção hemisférica e hemiparesia contralateral. A RNM mostra hemisfério malformado, que pode ter diminuição do ventrículo lateral. Pode ser feita uma hemisferectomia funcional. O complexo paquigiria-lissencefalia-heterotopia cortical em banda associa-se a graus variáveis de deficiência mental e à epilepsia generalizada, de manifestação precoce, com espasmos epilépticos, crises tônicas, atônicas e ausências atípicas. Pode, ter herança genética autossômica dominante ou ligada ao X. Observa-se malformação cortical difusa com espessamento e simplificação de giros, mais localizada e menos intensa na paquigiria e mais intensa e difusa na lissencefalia. Na heterotopia é observada substância cinzenta heterotópica subcortical, formando um segundo córtex, e há associação com epilepsias focais e generalizadas sintomáticas. Perturbações no período de organização cortical originam as polimicrogirias e a esquizencefalia. Nas polimicrogirias observa-se córtex formado por múltiplos pequenos giros, frequentemente bilaterais. Quando esse córtex se comunica com o sistema ventricular, há esquizencefalia. Estas são associadas à epilepsia de menor gravidade que outros distúrbios de desenvolvimento cortical. • Epilepsia associada a tumores de baixo grau de malignidade É frequente a ocorrência de tumores de linhagem neuronal ou mista (neuronal-glial) de baixíssimo grau de malignidade e crescimento extremamente lento em uma população de epilépticos crônicos. Os tipos mais comuns são os gangliocitomas, gangliogliomas e tumores disembrioplásticos primitivos, astrocitomas e oligodendrogliomas. Esses tumores apresentam como epilepsia focal de graus variáveis de controle medicamentoso. Não há padrão típico nos exames de imagem que permita diferenciar os tipos histológicos, habitualmente apresentando hipossinal em T1 e hipersinal em T2/FLAIR, com mínimo ou nenhum realce à administração de contraste de gadolínio. Podem apresentar componente cístico e se associar a distúrbios do desenvolvimento cortical. Nesses casos o tratamento oncológico e cirúrgico nem sempre é necessário quando há controle das crises epilépticas. • Epilepsia associada a lesões sequelares Lesões sequelares de AVC são causa importante de epilepsia em todas as faixas etárias, especialmente em idosos. Lesões hemorrágicas conferem maior risco. Sequelas de processos infecciosos do SNC de qualquer etiologia podem causar epilepsia. Crises epilépticas ocorridas no período agudo do quadro infeccioso devem ser interpretadas como crises agudas sintomáticas, com maior risco de desenvolvimento da epilepsia. Formas ativas e transicionais de neurocisticercose, principalmente associadas a cistos e degeneração se associam a crises agudas sintomáticas. O achado de pequenas calcificações puntiformes sugestivas de neurocisticercose inativa na TC em paciente epiléptico não deve automaticamente levar à interpretação do achado como fator causal. • Epilepsia associada a lesões degenerativas O diagnóstico de doença de Alzheimer ou de outro tipo de demência associa-se ao aumento de até 6 vezes na ocorrência de crises não provocadas. 10 a 22% dos pacientes com Alzheimer podem ter crises epilépticas que ocorrem preferencialmente nos estágios mais avançados da doença e são mais comuns nos casos de demência pré-senil. • Epilepsia associada a malformações vasulares As mais associadas à epilepsia são os angiomas cavernosose as MAVs. Nos angiomas a imagem típica é a de uma lesão vascular de pequenas dimensões circundada por um halo de hemossiderina, que se apresenta como área de hipossinal em T2 e que indicam hemorragias perilesionais prévias com papel relevante na epileptogenicidade. • Epilepsia pós-traumatismo crânio-encefálico Pacientes com TCE grave (hemorragia intraparenquimatosa, fratura de crânio com afundamento, lesões cerebrais penetrantes, coma ou alteração de comportamento por um período >24h) apresentam maior risco de apresentar crises no período agudo e têm risco 15 vezes maior que a população geral de desenvolverem epilepsia. Crises que ocorrem logo após o TCE leve a moderado (crises de impacto) não representam maior risco para epilepsia, embora sejam frequentemente referidos por pacientes epilépticos. • Encefalite de Rasmussen • Síndrome de Sturge-Weber Genéticas (ou provavelmente genéticas) Não existe lesão estrutural e ocorre como resultado de um defeito genético conhecido ou presumido no qual as crises epilépticas representam a manifestação fundamental desse defeito. Observam-se anormalidades de sistemas que regulam a excitabilidade neuronal ou de circuitos neurais. • Proteínas associadas a canais iônicos de neurônios (Ca, K, Na) • Proteínas estruturais de receptores GABAérgicos e de outros neurotransmissores • Proteínas de função ainda desconhecida • Sem mecanismo genético definido Há ocorrência de tipos determinados de crise, que se manifestam de forma idade-dependente, habitualmente com boa resposta terapêutica e bom prognóstico a longo prazo (especialmente em algumas epilepsias da infância, com desaparecimento das crises após a adolescência). Focais • Epilepsia benigna da infância com descargas centro-temporais (rolândica) É a forma mais comum de epilepsia da infância (1/5 delas). Manifesta-se em crianças sem antecedentes neurológicos, com desenvolvimento neuropsicomotor normal, geralmente entre 5 e 10 anos, com predomínio em meninos (1,5:1). As crises ocorrem tipicamente à noite, despertando a criança que fica incapaz de articular as palavras e aponta para a boca, onde estão presentes abalos hemifaciais frequentemente acompanhados de sialorreia. A duração é geralmente curta (2 minutos) e pode haver envolvimento ocasional do braço e perna ipsilaterais. Crises generalizadas secundárias são raras. O EEG mostra descargas focais de ondas agudas na região centro-temporoparietal (porção inferior do giro pré-central), geralmente bilaterais, com maior frequência de descargas em sonolência e sono. O tratamento com drogas antiepilépticas nem sempre é necessário e é reservado a crianças com crises frequentes ou que ocorram em vigília. A evolução natural é de completa resolução na adolescência. • Epilepsia da infância com paroxismos occipitais (início precoce e tardio) Generalizadas • Epilepsia de ausência da infância Início entre os 4 e 8 anos, acomete crianças sem antecedentes neurológicos, com desenvolvimento neuropsicomotor normal. História familiar de epilepsia (geralmente generalizada) está presente em cerca de metade dos casos. O tipo predominante de crise são as ausências típicas com padrão picnoléptico. Por serem sutis, podem ser interpretadas como desatenção. Crises de ausência típica são facilmente desencadeadas pela manobra de hiperpneia e apresentam ao EEG padrão característico de complexos ritmados de espícula-onda regulares a 3Hz. São controladas na maioria dos casos com drogas antiepilépticas como valproato, etossuximida ou lamotrigina. Podem ser agravadas ou desencadeadas por carbamazepina e oxcarbazepina. Na maior parte dos casos desaparecem na adolescência e o tratamento pode ser suspenso. • Epilepsia generalizada de início na adolescência com fenótipos variáveis A epilepsia mioclônica juvenil é uma síndrome relativamente comum (5-10% das síndromes epilépticas), porém até 80% dos pacientes não recebe o diagnóstico correto. Manifesta-se tipicamente entre 13 e 18 anos, sendo descrita também entre 8 e 26 anos e ocasionalmente após essa faixa etária. História familiar está presente em cerca de 1/3 dos casos. O tipo principal de crise são as mioclonias, predominantemente no período matinal, próximo ao despertar. Os pacientes queixam-se de incoordenação ou tremores (derrubam objetos) no período matinal, por períodos que podem ser prolongados. Crises podem ser desencadeadas por privação de sono, estimulação luminosa repetitiva ou uso de álcool. Podem ocorrer crises tônico-clônicas generalizadas e crises de ausência típica com padrão espanioléptico. Em até 30% dos casos o EEG pode mostrar anormalidades focais, o que leva a erro diagnóstico e terapêutico. A maioria dos pacientes consegue controle completo com uso de antiepilépticos como valproato, levetiracetam, topiramato ou lamotrigina, porém a retirada leva à recidiva em cerca de 85%. Carbamazepina, oxcabazepina e fenitoína podem agravas as crises. A ausência da juventude e a epilepsia com crises tônico- clônicas generalizadas do despertar compartilham características clínicas e eletrográficas com a mioclônica juvenil. Na ausência da juventude ocorrem crises de ausência típica e padrão espanioléptico que podem ser provocados pela hiperpneia. As crises da TCG do despertar podem ser desencadeadas por privação do sono. Essas três síndromes são agrupadas pela superposição de diversos fatores. • Epilepsia generalizada com crises febris- plus (GEFS+) De herança autossômica dominante, com mutações em genes que codificam proteínas integrantes de subunidades de canis de Na (SCN1A, SCN1B, SCN2A) ou de uma proteína componente da subunidade do receptor GABA-A (GABRG2). Os membros da família apresentam diferentes fenótipos de epilepsia generalizada primária além de crises febris, incluindo casos em que elas persistem após a idade habitual da resolução espontânea (6 anos). Desconhecida Os exames de neuroimagem não revelam a etiologia e tampouco podem ser classificadas como genéticas. • Epilepsias focais de causa desconhecida Não se encontram lesões causais nem se encaixam nos padrões clínico-eletrográficos das epilepsias focais de causa genética ou provavelmente genética. Esses casos são definidos pela localização do foco epileptogênico através da localização clínico- eletrográfica. As epilepsias do lobo temporal são as mais frequentes desse grupo, seguidas das do lobo frontal, occipital e parietal. • Epilepsias generalizadas de causa estrutural metabólica e de causa desconhecida Caracterizam-se por epilepsias de difícil controle associadas a múltiplos tipos de crises generalizadas, frequentemente associadas a declínio cognitivo ou involução do desenvolvimento neuropsicomotor. Pode ser reconhecido, ou não, um fator estrutural-metabólico causal e algumas têm sido consideradas encefalopatias epilépticas. O mecanismo subjacente ao declínio cognitivo nas síndromes epilépticas ainda não está completamente elucidado. o Síndrome de West (espasmos epilépticos) A síndrome de West é definida pela tríade espasmos epilépticos + deterioração neurológica ou psicomotora + hipsarritmia (padrão caótico, de alta voltagem, com descargas multifocais). Pode ser causada por etiologias pré, peri ou pós-natais, incluindo esclerose tuberosa, lissencefalia-paquigiria, displasia cortical focal, anóxia perinatal grave, lesões isquêmicas, tumorais e erros inatos do metabolismo (piridoxina). Pode também ser de causa desconhecida. O quadro inicial pode ser sutil e confundido com outras doenças do lactente (cólicas, refluxo). Com a evolução, observa-se parada no desenvolvimento neuropsicomotor ou perda de aquisições cognitivas e motoras. Nas fases iniciais, nota-se descargas epileptiformes multifocais, que podem predominar nos quadrantes cerebrais posteriores e em fases mais avançadas pode mostrar padrão de hipsarritmia. O diagnóstico deve ser estabelecido precocemente,de preferência nos estágios iniciais, antes de se observar deterioração neurológica e eletrencefalográfica. O tratamento precoce pode influenciar o prognóstico, porém ele também depende da etiologia. É feito com ACTH ou vigabatrina (especialmente nos de esclerose tuberosa). A cirurgia é uma opção nos casos de lesão focal. o Síndrome de Lennox-Gastaut Caracterizada pela ocorrência de múltiplos tipos de crise, que incluem crises tônicas ou atônicas (crises de queda abrupta, drop-attacks). Ocorre habitualmente entre os 3 e 5 anos. Podem ocorrer também ausências atípicas e crises tônico-clônico generalizadas. As crises são refratárias e observa-se deterioração intelectual. O tratamento envolve drogas de amplo espectro como valproato, lamotrigina, topiramato e feibamato. Por vezes são necessários tratamentos adicionais como dieta cetogênica, implate de estimulador vagal ou calosotomia. Diagnóstico Diferencial Crises devem ser diferenciadas de outros eventos paroxísticos. Eventos não epilépticos dividem-se em psicogênicos e fisiológicos. Os mais comuns são: • No RN, lactente e pré-escolar: tremores, spasmus nutans e opsoclonus, apneia, refluxo gastroesofágico, cólicas do lactente, comportamentos de autoestimulação, estereotipias, espasticidade e clônus, mioclonias não epilépticas, síncope, crises de perda de fôlego, mioclonias fisiológicas do sono, pesadelos, terror noturno, sonambulismo, narcolepsia-cataplexia. • No escolar, adolescente e adulto: distúrbios do movimento, tiques, distúrbios de atenção, enxaqueca, vertigem posicional paroxística benigna, crises de pânico e de hiperventilação, episódios isquêmicos transitórios, amnésia global transitória e pré-síncope, síncope, quadros confusionais agudos, mioclonias fisiológicas dosono, pesadelos, terror noturno, sonambulismo, narcolepsia-cataplexia, movimentos periódicos dos membros durante o sono, distúrbio comportamental do sono REM. Crises não epilépticas psicogênicas (CNEP) São frequentemente confundidas com crises epilépticas e não incomumente tratadas com medidas agressivas, até com indução de coma barbitúrico em casos diagnosticados erroneamente como estado de mal epiléptico. Crises epilépticas e não epilépticas psicogênicas podem coexistir em até 20% dos casos. A apresentação clínica inicial habitualmente ocorre após os 8 anos de idade. As crises habitualmente apresentam sintomas flutuantes, de duração prolongada, os quais podem ser interpretados erroneamente como crises subentrantes ou estado de mal epiléptico. A prevalência é maior em mulheres. A ocorrência de movimentos assíncronos dos MMSS e MMII, movimentos laterais repetitivos da cabeça, movimentos de opistótono e movimentos acentuados de propulsão da pelve sugerem crises psicogênicas. Não se iniciam durante o sono. Liberação esfincteriana e ocorrência de lesões podem ocorrer, mas a ocorrência de traumatismos graves é incomum. Deve sempre ser suspeitada em casos de epilepsia de difícil controle com exames de RM e EEG repetidamente normais. Na maioria dos casos, ocorrem no contexto de distúrbios conversivos ou dissociativos. Traços histriônicos de personalidade são comuns. Proporção significativa dos pacientes, especialmente do sexo feminino, relatam antecedentes de abuso sexual ou físico. Tratamento A conduta farmacológica com medicação antiepiléptica é reservada para casos selecionados, uma vez que a grande maioria das crises são autolimitadas. A conduta inicial é: • Estabilização clínica conforme preconizada pelos protocolos de suporte básico e avançado de vida • Exame clínico geral, incluindo parâmetros hemodinâmicos, temperatura, glicemia capilar, saturação de O2 • Exame neurológico completo com ênfase na pesquisa de sinais meníngeos, exame do fundo de olho e ao estudo de achados neurológicos focais • Exames laboratoriais para afastar os principais distúrbios hidroeletrolíticos relacionados a crises agudas sintomáticas: glicemia, ureia, creatinina, sódio, cálcio, fósforo e magnésio séricos, hemograma, gasometria arterial e níveis séricos das drogas antiepilépticas nos pacientes previamente epilépticos • ECG e enzimas cardíacas para afastar arritmias e síndrome do QT longo • Averiguação do efeito de drogas (medicamentos ou ilícitas) e da abstinência de drogas (principalmente sedativos hipnóticos ou outros depressores do SNC, incluindo álcool) • Obtenção de dados de história sobre lesão neurológica prévia ou epilepsia • Em epilépticos é importante obter dados sobre as medicações em uso e a possível não adesão ao tratamento • Exame de neuroimagem (RNM ou TC conforme disponibilidade, urgência e capacidade de cooperação do paciente). TC pode ser necessária para excluir lesões secundárias à crise, como traumatismo craniano • Exame do líquor é fundamental nos casos suspeitos de meningite ou encefalite e quando a etiologia das crises não foi elucidada • Investigação de foco infeccioso sistêmico em casos selecionados Crises Agudas Sintomáticas Antiepilépticos são geralmente pouco eficazes no controle de crises agudas sintomáticas decorrentes de distúrbios metabólicos. Nesse caso, o melhor tratamento é a correção da causa subjacente à crise. Não se deve administrar benzodiazepínicos se a crise já tiver cessado e o paciente estiver no período pós-ictal (pode acentuar a depressão do SNC e prolongar o período de recuperação). Além disso seu efeito é curto e não são eficazes para prevenir a recorrência de crises. Devem ser reservadas para o estado de mal epiléptico, em crises com duração >5 minutos. Em crises agudas secundárias a lesões neurológicas agudas, habitualmente se empregam antiepilépticos na prevenção de recorrência das crises. O mais indicado é a fenitoína, por não ser sedativa, passível de administração endovenosa em dose de ataque, com início rápido de ação. Recomenda-se a manutenção de antiepiléptico durante toda a fase aguda e, habitualmente, procede-se sua retirada a partir da 12ª semana. Valproato, levetiracetam e lacosamida são outras opções de drogas de ataque endovenoso. Crise Única Quando excluída a crise aguda sintomática, a introdução de antiepilépticos não está indicada na maioria dos casos, sendo restrita àqueles casos em que há alto risco de recorrência. Deve ser feita uma estratificação de risco, com o uso da neuroimagem e do EEG. Caso ambos sejam normais, o risco de recorrência é de aproximadamente 30%, sendo mais elevado nos primeiros meses após a crise. Quando ambos são anormais, o risco chega a 70%. A decisão de se iniciar tratamento crônico com antiepiléptico deve ser discutida com o paciente, ponderando o risco de recorrência e o impacto de uma nova crise em sua vida. Mesmo com risco baixo, convém iniciar profilaxia de crises em pacientes cujo impacto de uma nova crise seja muito grande. Pacientes com crise única de etiologia não esclarecida idealmente não dever receber alta até que se tenham dados completos de investigação que forneçam subsídios para decidir sobre a introdução ou não de medicação antiepiléptica. Em caso de alta, o paciente deve ser encaminhado para investigação ambulatorial o mais breve possível. Tratamento Medicamentoso O tratamento inicial deve ser feito com monoterapia em doses eficazes. A escolha da droga inicial deve levar em conta a eficácia da droga para o tipo de crise apresentado e os fatores relacionados a ele (tolerabilidade, comodidade posológica, potencial interação medicamentosa, desejo de engravidar, facilidade em adquirir o medicamento). A eficácia das drogas antigas e novas no controle de crises é semelhante. As novas são consideradas mais toleráveis, com menos efeitos colaterais e menor potencial de interação, mas seu custo ainda é maior. A medicação deve ser iniciada em doses baixas, e a dose deve ser ajustada até que se obtenha controle completo das crises ou que sobrevenham efeitos colaterais (dose máxima tolerada).10-15% dos pacientes que não tenham respondido à monoterapia podem obter controle com a troca do medicamento. A partir daí, apenas 5% dos pacientes vão obter controle com a terceira monoterapia. 20-30% dos pacientes com epilepsia permanecem com crises a despeito do tratamento com politerapia. 70-75% dos pacientes com epilepsia obtêm controle completo. O índice de sucesso é maior nas genérticas e menor nas generalizadas de causa estrutural- metabólica ou de etiologia desconhecida. Pacientes que não tenham obtido controle de crises após duas monoterapias com drogas adequadas para o tipo de crise e em doses adequadas devem ser considerados de difícil controle. Convém considerar tratamento cirúrgico. A monitorização dos níveis séricos é útil no tratamento pois existe variabilidade individual nos parâmetros farmacocinéticos para cada uma das drogas. O nível sérico deve ser colhido pela manhã, cerca de meia a uma hora antes da tomada habitual da medicação. O valor medido refere-se à concentração total das drogas (livre + ligado à proteína). Epilepsias Focais A escolha deve ser individualizada. As mais comumente empregadas em monoterapia são carbamazepina, fenitoína, oxcarbazepina, lamotrigina e levetiracetam. O fenobarbital tem sido menos indicado devido aos efeitos colaterais cognitivos. Nas epilepsias focais de origem genética ou provavelmente genética nem sempre é necessário o tratamento medicamentoso, pois em muitos casos as crises são raras e ocorrem apenas de modo esporádico. Quando necessário, pode ser introduzida droga eficaz para crises focais. Ocasionalmente ocorre piora clínica e eletrográfica com o uso de carbamazepina e oxcarbazepina. Epilepsias Generalizadas O valproato de sódio é a droga de escolha para estar epilepsias por sua eficácia em múltiplos tipos de crise, embora efeitos colaterais e potencial teratogênico limitem seu uso. Nas epilepsias que se manifestam apenas por crises de ausência, pode-se empregar etossuximida ou lamotrigina (menor eficácia). Nas epilepsias com crises tônico-clônico generalizadas, convém empregar lamotrigina, topiramato, levetiracetam ou zonisamida (não disponível no Brasil). Os benzodiazepínicos podem ser prescritos como drogas auxiliares, em terapêutica de associação. As epilepsias generalizadas de origem genética podem ser agravadas pelo uso de carbamazepina, oxcarbazepina, gabapentina, vigabatrina, pregabalina e, em menor grau, fenitoína. O uso destas é contraindicado ou deve ser feito com extrema cautela nesse grupo. As epilepsias generalizadas sintomáticas têm alto índice de refratariedade ao tratamento clínico, geralmente é necessário fazer associação. Associação de medicamentos Nos casos de difícil controle, é frequente a associação de drogas. Os antiepilépticos de 1ª geração (fenobarbital, fenitoína, carbamazepina e primidona) são potentes indutores enzimáticos da P450 e apresentam altas taxas de ligação proteica, por isso têm grande potencial de interação medicamentosa entre si e com outras drogas, devendo ser utilizadas com cautela quando em associação. O valproato apresenta efeito de inibição enzimática e alta ligação proteica. Deve ser evitada a associação de fenitoína com carbamazepina e valproato com fenitoína ou fenobarbital. A associação das drogas de primeira geração com benzodiazepínicos é bastante empregada nas epilepsias de difícil controle. As drogas de 2ª geração apresentam perfil farmacocinético mais favorável para associação, sendo bastante utilizadas em terapia de associação com drogas de 1ª ou 2ª geração. Topiramato, vigabatrina, gabapentina, levetiracetam, zonisamida têm nenhuma ou pouca interação com outros antiepilépticos. Embora a lamotrigna seja frequentemente empregada em associação com drogas de 1ª geração, essa associação sofre importantes interações. O nível sérico da lamotrigina é aumentado quando essa droga é associada ao valproato e diminuído com fenobarbital, fenitoína, cabamazepina ou pirimidona. A associação de valproato e lamotrigina deve ser induzida em doses baixas e com titulação extremamente lenta pelo risco de erupção cutânea grave. A dose máxima é menor, em torno de 100-200mg em adultos. A associação entre lamotrigina, carbamazepina ou oxcarbazepina e lacosamida (todas atuam com bloqueio de canal de Na) sofre também interação farmacodinâmica com potencialização dos efeitos colaterais, devendo-se diminuir a dose de uma das drogas. Gabapentina, pregabalina, levetiracetam e topiramato apresentam baixo potencial de interação. Convém evitar a associação de mais de 3 antiepilépticos, pois não há evidência de benefício adicional e há maior prevalência de efeitos colaterais. Os indutores e inibidores enzimáticos apresentam interações significativas com anticoncepcionais orais, anticoagolantes orais, antidepressivos, antipsicóticos, bloqueadores de canais de Ca, alguns antibióticos, AINEs, antiretrovirais, quimioterápicos e imunossupressores. Situações Especiais Mulher em idade fértil Fenobarbital, fenitoína, carbamazepina e primidona diminuem a eficácia dos anticoncepcionais orais. A mulher deve ser aconselhada a empregar outros métodos. Valproato, lamotrigina, topiramato, levetiracetam, vigabatrina e gabapentina não interferem no efeito dos anticoncepcionais. As drogas de 1ª geração aumentam para 4-6% o risco de malformações fetais. O valproato tem o maior risco (8-15%). É indicada a suplementação de ácido fólico 0,4-2mg ao dia para mulheres em idade fértil, mesmo antes da gestação. Na gestação, não se recomenda a retirada ou mudanças abruptas, pois crises tônico-clônico generalizadas levam a riso para gestante e feto. Recomenda-se USG de alta resolução entre a 12ª e a 16ª semana. Os níveis séricos devem ser monitorados pois há risco de queda a partir do 2º trimestre. Não há contraindicação para o aleitamento materno, mas deve- se atentar ao surgimento de efeitos colaterais no neonato. O uso prolongado de antiepilépticos indutores enzimáticos traz maior risco de osteoporose. Idosos Pacientes geriátricos são mais susceptíveis a efeitos tóxicos e recomenda-se doses mais baixas, titulação mais lenta e monitorização de níveis séricos. O potencial de efeitos colaterais cognitivos, principalmente em barbitúricos e benzodiazepínicos, deve ser considerado. Insuficiência hepática e renal Praticamente todos têm metabolização hepática. As que não têm, são restritas por eficácia limitada, toxicidade potencial e potencial sedativo. Carbamazepina, lamotrigina e oxcarbazepina com cuidadosa monitorização pode ser uma opção. Na insuficiência renal não dialítica, gabapentina, vigabatrina e pregabalina devem ser evitadas ou ter dose corrigida pela depuração de creatina. Nos dialíticos, gabapentina deve ser reposta no final da diálise. Duração do Tratamento A duração do tratamento e o risco de recorrência após a retirada das drogas (mínimo de 2 anos de uso) são individualizados. O perfil mais favorável para a retirada ocorre nas epilepsias generalizadas e focais da infância de causa genética, nas quais a totalidade de pacientes entra em remissão na adolescência. Nas generalizadas de origem genética de início da adolescência, apesar da facilidade de controle das crises, o índice de recorrência é alto (85%) com a retirada das drogas. Nesses casos o paciente deve manter o tratamento por toda a vida, mas em muitas situações é possível reduzir significativamente a dose. Nas epilepsias focais, devem ser considerados fatores de risco para a recorrência: • Idade de início da epilepsia: em adultos aumenta o risco • Presença de anormalidade epileptiforme ao EEG • Presença de anormalidade associada à epilepsia ao exame de imagem ou exame neurológico anormal (incluindo retardo mental) • Dificuldade inicial no controle de crises Os casos mais favoráveis (todos os fatores negativos) têm cerca de 20-30% de recorrência e para cadafator pode ser adicionado 15 a 20% a esse risco. O risco específico de cada paciente deve ser discutido levando em conta o estilo de vida e o impacto de uma crise recorrente. O maior risco de recorrência ocorre nos 6 meses iniciais e decresce após 2 anos, quando se estabiliza. Caso se opte pela retirada, ela deve ser feita de modo gradual, especialmente para barbitúricos (1mg/dia ou até intervalos maiores) e benzodiazepínicos. No período de desmame, o paciente deve ser instruído a evitar atividades em que a ocorrência de crise poderia representar risco de ferimento e morte, como natação, dirigir, esportes radicais, etc. Tratamento Cirúrgico O tratamento cirúrgico apresenta altos índices de sucesso (até 80% dos casos de epilepsia focal sintomática). Ainda é subutilizado pela falta de recursos especializados, noção infundada de que é reservado para casos desesperadores ou temor infundado de que tenha alto risco de sequelas neurológicas e cognitivas. Pacientes com epilepsia focal sintomática refratária ao tratamento medicamentoso e aqueles com síndromes hemisféricas podem apresentar elevadas taxas de sucesso cirúrgico e mínimas possibilidades de sequela ou sequelas previsíveis. Pacientes com epilepsia focal de causa desconhecida apresentam taxas mais baixas de sucesso. Nas epilepsias generalizadas de etiologia estrutural- metabólica ou desconhecida, o tratamento cirúrgico é limitado, e em casos de crises de queda a calosotomia pode ser um recurso paliativo. Recentemente têm surgido modalidades alternativas de neuroestimulação como o implante do estimulador do nervo vago e do estimulador talâmico profundo. São eficazes na redução da frequência de crises, mas em menos de 3% dos casos levam ao controle completo. Referência: NITRINI, R. A Neurologia que todo médico deve saber. 3. Ed. São Paulo: Atheneu, 2015.