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ASSESSORIA DE COMUNICAÇÃO AULA 2 Prof. Alexsandro Teixeira Ribeiro CONVERSA INICIAL Ao longo desta aula, vamos falar sobre algumas características e formatos de assessorias especializadas, partindo, antes, de um debate sobre como falar com a imprensa. Há um treinamento especializado que garante ao assessorado uma performance melhor em contato com a mídia e com os públicos, e isso é algo que podemos, na condição de assessores, ajudar nosso assessorado a aprender e a aprimorar. Com isso, entramos no primeiro tema da aula, sobre media training, que nada mais é que um treinamento para falar com a imprensa e com os públicos. Acha que é natural o porte, a performance e a entonação com que políticos, celebridades e empresários se comunicam diante das câmeras ou em palestras? Isso é fruto de uma série de técnicas, dicas e treinamento, que podem partir de um simples roteiro de perguntas e respostas para se antecipar aos questionamentos da imprensa, a um intenso trabalho de acompanhamento de fonoaudiólogos para desenvolver a fala. E depois? Voltaremos a ver as características de assessorias especializadas e como o cenário interfere na produção do comunicador e na forma de relacionamento com os stakeholders. Primeiro, falaremos sobre a assessoria política e como o assessor pode tanto atuar na imagem para o político ante a imprensa, quanto trazer para a assessoria conceitos de marketing com vistas a amplificar suas performances no processo eleitoral. Em assessoria de imagem, temos a lógica de manter a imagem do assessorado, empresa ou indivíduo. Assim, vamos nos aprofundar nos conceitos de imagem, projeção e percepção. Veremos como analisar e contemplar os cuidados com a imagem institucional ou pessoal do assessorado. Na sequência, vamos falar sobre as peculiaridades do mundo das celebridades e como o assessor pode colaborar para a manutenção e melhoria da imagem. Por fim, vamos discorrer sobre a assessoria organizacional, e sobre o modo como a somatória de comunicação institucional, mercadológica e administrativa pode colaborar para o bom desempenho e fluxo das organizações. 3 CONTEXTUALIZANDO Como fazer com que um diretor ou presidente de uma empresa, tímido e sem qualquer desenvoltura, seja o porta-voz da instituição em meio a um grande evento, como o lançamento de um produto ou serviço? Como treinar um gerente ou um técnico para que em um momento de crise consiga se comunicar de forma clara e transparente com a imprensa, sem complicar ainda mais a situação da organização? Não é apenas argumentação, é antes disso um grande exercício de fala, de comunicação, bem como um processo de familiarização com a mídia e com suas rotinas e manifestações. Quando o assunto é mídia, podemos ver que isso ocorre de duas formas. Uma delas é pela repetição com que a fonte ou assessorado vem a público se manifestar. A prática, nesse caso, pode levar à perfeição. A segunda, que complementa a primeira, é ter um bom treinamento. Saiba mais Que tal ver isso na prática? Um filme que ajuda a compreender como isso pode consolidar é Discurso do Rei, em que um integrante da realeza britânica tem sérias dificuldades para falar em público. Qual o problema? Oras, é que o personagem é nada mais nada menos que o príncipe da Inglaterra, que logo se tornaria rei e que deveria constantemente realizar discursos. A solução veio com um acompanhamento de um ator e fonoaudiólogo quee ministra exercícios ao nobre. O DISCURSO do rei. Direção: Tom Hooper. Reino Unido: Paris Films, 2010. 118 min. TEMA 1 – MEDIA TRAINING Mão na massa é algo que podemos trazer para a assessoria de comunicação quando o assunto é treinamento de mídia, ou media training. Em teorias do jornal e da notícia, uma perspectiva busca compreender o motivo pelo qual a realidade construída pelos meios de comunicação pode ser influenciada pela fonte de informação, ou seja, pelo especialista que fala nos meios de comunicação sobre um determinado assunto. 4 Chamam tal perspectiva de Teoria dos Definidores Primários. Na luta contra o relógio, o jornalista ou profissional da comunicação tende a buscar as mesmas fontes de informação, ou seja, as mesmas pessoas que falam sobre um determinado assunto nos jornais. Mas certamente não existe apenas um especialista sobre um determinado assunto. Com uma pesquisa simples em redes sociais, é fácil de encontrar economistas, cientistas, engenheiros e vários outros profissionais que podem falar sobre assuntos técnicos nos jornais. Por que então buscar sempre os mesmos? Um dos motivos é que geralmente as fontes viciadas já sabem falar a língua dos meios de comunicação. Ou seja, eles falam da forma que o comunicador precisa que ele fale, que seja direto, e que passe a informação num formato que comunique com a mídia. Crédito: picsfive/Shutterstock. O media training é a principal ferramenta para que o assessor consiga aprimorar seu assessorado na ambientação com os meios de comunicação. E o que vem a ser media training? É uma série de técnicas que em formato de curso ou treinamento buscam capacitar executivos e porta-vozes para se relacionarem com a imprensa. (Pimentel, 2018) Mas não oferecemos o mesmo curso ou a mesma capacitação para todos. Tudo depende do grau de relacionamento com a mídia, do tipo de mídia em 5 questão, do setor produtivo ou segmento que representa, e por aí vai. Ainda cabe ressaltar que o momento define o tipo de treinamento. Afinal de contas, não devemos cobrar a mesma postura de um porta-voz em meio a uma divulgação de um novo produto e de um outro porta-voz em meio a uma crise em que a empresa é acusada de participar de um grande esquema de desvio de dinheiro público. Cada um no seu quadrado. E por que falar com a mídia? Ora, nenhuma realidade hoje se constitui sem influência dos meios de comunicação. A mediação está presente em todas as construções do que é real e dos acontecimentos. Se o foco do assessorado é atuar na opinião pública, ser bem visto é fundamental. Com isso, não apenas de forma reativa, ou seja, quando a imprensa procura, mas também de forma ativa, procurando a imprensa, estar na mídia é “despertar interesse no público, conquistar a atenção do público-alvo, divulgar ideias, propostas, produtos e serviços” (Assad, 2009, p. 50). Isso significa, de alguma forma, fortalecer a imagem ante a opinião pública. Entendemos aqui a opinião pública como a opinião formada nas relações sociais, entre diversos públicos” (Assad, 2009, p. 51). Olhando por tal perspectiva, podemos chegar a uma equação em que visibilidade pode se igualar ou corresponder a divulgação; por conseguinte, representa público, depois vendas e por fim sucesso. A assessoria, sobretudo com o media training, busca justamente trabalhar nessa matemática, em que o sucesso é resultado da somatória ou das relações entre: meios de comunicação; imagem corporativa ou do assessorado; e opinião pública. Uma das primeiras formas para se constituir um bom treinamento junto de uma assessoria de comunicação é antes de tudo fortalecer a assessoria nos meios de comunicação. Ora, se por um lado o objetivo é de alguma forma construir a imagem do porta-voz e capacitar o assessorado para o relacionamento, por outro, não podemos desconsiderar que a imagem da assessoria interfere no olhar do jornalista ou do comunicador, da mídia para o seu assessorado. Assad aponta que, para manter uma relação sadia entre a assessoria e a imprensa, ter transparência, com um acompanhamento próximo e sistemático, é fundamental. Assad (2009, p. 54) recomenda o fornecimento de informações claras e verdadeiras à imprensa; reuniões e conversas constantes com os jornalistas e demais comunicadores; que o assessor faça o meio de campo entre 6 o assessorado/porta-voz e a imprensa,considerando que o representante da empresa ou organização deve creditar credibilidade; e ressaltar o interesse público nas abordagens à imprensa. Ou seja, deve-se buscar a notícia pelo viés institucional, mas sempre a notícia. Um outro passo, antes ainda de pensar na responsabilidade do assessorado, é criar mecanismos de alimentação do assessorado com conteúdo de qualidade para o aprimoramento do seu conhecimento. Ou seja, aqui vamos fazer uso de ferramentas de assessoria para qualificar e tornar o assessorado capacitado para ser porta-voz de um determinado assunto. A clipagem é uma forma de atualizar o assessorado sobre assuntos de interesse público. Clipar é buscar, analisar e agrupar informações que sejam de interesse do assessorado. Imagine que você é assessor de uma petroleira. Com isso, são de interesse do seu assessorado todas as notícias que falem sobre o mercado petrolífero, pertinentes a refinarias, economia internacional relacionada ao meio, políticas públicas do setor, movimentos sociais ou entidades sindicais que atuam no meio. É papel do assessor, portanto, ler, filtrar, analisar, sintetizar e produzir um boletim diário sobre tudo isso, de modo a atualizar o assessor. Definidas tais premissas, o media training começa com uma estrutura de dois blocos, um teórico e outro prático (Pimentel, 2018, p. 290). Num primeiro momento, o assessor ou um profissional externo contratado para realizar o treinamento passa as informações ao porta-voz ou aos porta-vozes da empresa: dados e informações sobre o funcionamento da mídia, sobre como se portar perante alguns tipos de mídias, sobre como se portar nas redes e em coletivas de imprensa, dentre outras informações. Nessa etapa, aponta Bona (2017, p. 286), o assessorado recebe informações sobre como funciona o veículo de comunicação, quais os horários de produção de TV, por exemplo, como se falar para a rádio, para o meio impresso e por aí vai. As fases da primeira etapa podem variar de curso para curso. Contudo, devem, de uma forma ou outra, debater sobre aspectos do comportamento do assessorado nos meios de comunicação e nas redes sociais. Se o indivíduo for porta-voz da empresa ou da organização, deve perceber que suas redes podem ser usadas como ferramentas de comunicação da empresa; portanto, o assessorado deve saber diferenciar as manifestações pessoais das oficiais, da 7 instituição. Outro aspecto, ainda dentro do comportamento, é a imagem pessoal, que se vincula à imagem da organização ou instituição. Outra fase é saber o processo de comunicação e como se expressar nos meios. Nessa fase, é preciso saber que a linguagem corporal é complementar à oral; que a tonalidade da voz pode influenciar no processo de comunicação como reforço da mensagem, dentre outras dicas. Por fim, a primeira etapa ainda deve contemplar informações sobre características dos meios. Por que motivo isso ajuda? Ora, primeiro, ao olharmos, por exemplo, para a TV, sabemos que o assessorado não deve usar camisas listradas, de que deve primar pela imagem, de que deve articular ideias com início meio e fim, e que se for interrompido pelo jornalista, deve retomar o pressuposto de não exagerar nas gesticulações, pois há um limite de corte, ao mesmo tempo em que não deve permanecer engessado, e por aí vai. Na rádio, por exemplo, deve-se manter a voz conectada à mensagem. Se a mensagem for enérgica, que a voz seja enérgica. Mas se a fala for para gerenciamento de crise, que a voz seja firme, mas não destoada da mensagem de apoio e conforto. São exemplos de como se portar ou como se manifestar especificamente nessas etapas. A etapa seguinte é realizada em dois momentos: primeiramente, com ações práticas, como exercícios de produção textual e de fala; depois, são simuladas situações de estresse e de constrangimentos, para conferir se o assessorado assimilou o conteúdo, e para compreender na prática como as dicas e a parte teórica se confirmam. TEMA 2 – ASSESSORIA POLÍTICA A assessoria política é um tema amplo e controverso. Primeiro, podemos debater a assessoria prévia ao campo político efetivo, ou seja, poderíamos nos ater somente à campanha, ao pleito eleitoral na assessoria de candidatos. Também poderíamos debater a assessoria do político, ou seja, do indivíduo que assume um cargo político, quer seja eletivo quer seja por indicação. Por fim, poderíamos ainda discorrer sobre a assessoria nas instituições políticas, quando traríamos um olhar tanto da administração do executivo quanto da administração do legislativo. 8 E para não deixarmos espaço sem abordagem, é exatamente esse caminho de três linhas que percorreremos. No primeiro momento, no caminho eleitoral, o assessor deve consolidar a imagem do candidato, trabalhar suas propostas, promover um media training para que o assessorado possa se manifestar e se portar em debates e em coberturas da mídia, com auxílio na produção de discursos, na gestão de redes sociais e por aí vai. Nesta etapa, o que se espera como foco é trabalhar a imagem do político, para que ele fortaleça a sua relação e a confiança perante o público-alvo, que são os eleitores. Suas ações devem reverter propostas em votos. Há um misto de assessoria de comunicação com marketing político sempre que a atuação está vinculada ao pleito eleitoral. Se o foco é converter imagem em voto, o papel publicitário está centrado em “firmar uma marca, uma ideia, um serviço ou um produto. No tocante à publicidade eleitoral, o consumidor é o eleitor” (Freitas, 2017, p. 84). Quadro 1 – Aspectos ultrapassados e novo modelo de publicidade eleitoral Fonte: Freitas, 2017, p. 84. Trata-se de mudança significativa: de um perfil mais voraz e voltado para o espetáculo eleitoral, com discursos vagos e recheados de lugar-comum, para um perfil que considere os indivíduos e que demonstre planejamento e visão estratégica com soluções para as demandas sociais. Esta é a alteração de cenário que vem se propondo no meio publicitário político, que também quer do assessor um novo perfil, que é o de quem busca pontes entre o eleitor e o político. Sites, portais, redes sociais e aplicativos estão 9 entre as principais ferramentas que cobram do assessor do político no sistema eleitoral proatividade e adaptação da fala, para se vincular com o leitor de forma direta. Se antes os panfletos, o discurso do alto de um carro de som ou ainda a campanha pela televisão ou rádio dominava o cenário político, a retirada de muitos veículos do meio de campo para uma relação mais corpo a corpo do político com seu público é o que domina agora o campo da comunicação política. Isso requer um perfil claro do assessor: deve estar em constante adaptação, com conhecimentos de ferramentas de comunicação, adaptando-se às regras do pleito eleitoral. Vide a mudança que tivemos entre as duas últimas eleições. Em 2016, nas votações para as câmaras municipais e para as prefeituras, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não havia liberado o uso de campanha nas redes sociais digitais. Dois anos depois, nas eleições presidenciais, para o governo, assembleias legislativas e para o Congresso Federal, a campanha em Facebook, Whatsapp e demais redes foi liberada com uma série de regras. Isso alterou sobremaneira as regras do processo e sobretudo os resultados, tanto que um candidato à presidência por uma coligação que concedeu um tempo irrisório de mídia convencional, como TV e Rádio no primeiro turno, liderou as pesquisas e conquistou a vitória em primeiro e em segundo turno. Saiba mais O TSE publicou uma cartilha ilustrada com recomendações e dicas de uso das redes sociais para as campanhas eleitorais. Nela, os leitores podem encontrar informações sobre como funcionam os impulsionamentos no Facebook e no Instagram pelas regras eleitorais. Confira: TSE – TribunalSuperior Eleitoral. Cartilha interativa orienta sobre propaganda eleitoral na internet. 12 jun. 2018. <http://www.tse.jus.br/imprensa/noticias-tse/2018/Junho/cartilha-interativa- orienta-sobre-propaganda-eleitoral-na-internet>. Acesso em: 9 fev. 2019. Uma vez eleito, muda a perspectiva do assessor, que foca em gerenciar a imagem do assessorado considerando uma carreira política. Isso, contudo, sem perder de vista que de quatro em quatro anos o processo eleitoral volta à 10 agenda política, e que o percurso do político altera seu resultado como candidato. Durante a carreira, se o assessorado for do legislativo, a figura é sempre de dois aspectos. Em um primeiro, trata-se de manter a conexão com seu público, promovendo uma legislação que atenda as necessidades dos seus eleitores. Isso, claro, é o que ocorre via de regra. Ao assessor, cabe tanto reforçar o contato das bases com o político durante o processo legislativo, quanto criar ferramentas de comunicação que promovam um relatório das ações. Esse relatório pode ser endereçado diretamente ao público, por meio dos canais do político, ou ainda pode ser divulgado pelos meios de comunicação. Outro aspecto é o cenário político partidário dentro da legislatura, que coloca o político como situação ou como oposição ao governo. Em se tratando de oposição, cabe sempre ao político atuar como crítico, que busca visibilidade na imprensa para capitalizar os frutos da oposição. Nesse aspecto, a assessoria de imprensa é fundamental na gestão da imagem do assessorado. Se a posição do político for de situação, o esforço de comunicação é mostrar a adesão do político ao grupo político do governo, em um processo de comunicação que busca tanto mostrar a base do assessorado junto ao governo quando fortalecer a imagem junto ao grupo. Em todos os casos, ao assessor cabem duas obrigatoriedades. Uma delas é conhecer a fundo o histórico político e biográfico do seu assessorado. Não raras vezes terá o assessor que colaborar na produção de opinião, de artigos, de discursos e de roteiros de materiais publicitários. Isso só é possível quando o assessor sabe as linhas do pensamento e do comportamento do seu assessorado. Uma segunda obrigação é que o assessor conheça por completo o trâmite político e a burocracia do sistema em que seu assessorado está inserido. Ou seja, se é vereador, que saiba o papel e as regras de um vereador, a função, e também como funciona o município, seu orçamento, as leis que regulamentam suas receitas e despesas, e por aí vai. Por fim, quando o assessorado é do executivo, aí muda-se um pouco o foco da assessoria, que ora pode se confundir com o político, ora pode se conectar à gestão. Isso porque, diferente de assessoria de político do legislativo, no executivo o político representa um grupo no governo. Na outra situação, o político representa a própria legislatura. 11 Assim, se o assessor do legislativo se compromete com o candidato ou com o político, no poder público executivo, a preocupação recai também na continuidade dos programas, na imagem da gestão perante a opinião pública. Dependendo do departamento em que está inserida a assessoria, a gestão de crise se faz permanente. Em setores de saúde, educação e transporte urbano, por exemplo, sempre há a necessidade de atender a imprensa sobre questionamento que podem macular a imagem da instituição. Isso é cotidiano na administração pública. Se a gestão de crise é constante, na outra ponta, há de se fortalecer uma comunicação que seja informativa e didática, para que o cidadão possa acessar os serviços públicos e conhecer os avanços da gestão. Assim, o desejável “numa comunicação institucional pública é dar o tratamento ao assunto com linguagem simples, direta e clara, sem fugir do enfrentamento de temas complexos” (Assad, 2009, p. 67). A assessoria, nesse aspecto, tende a vincular o cargo no executivo, via de regra, como um cargo de confiança, que é não preenchido por um funcionário de carreira, mas por alguém que vem acompanhando o político ou o grupo no poder, visto que o vínculo e o viés pode ser do político como assessorado ou do projeto de governo que está no poder. TEMA 3 – ASSESSORIA DE IMAGEM Um dos principais patrimônios de uma empresa ou organização é a sua imagem. Ela pode interferir na forma como os consumidores vão interpretar a empresa, como eles vão projetar as suas relações e até interferir na identidade organizacional. Os termos identidade e imagem são muitas vezes usados como sinônimos ao debater a publicidade e a forma de comunicação de organizações. Contudo, há de se pontuar que existem diferenças, que não são poucas. Quando falamos em imagem, estamos nos referindo não ao que vemos, mas ao que percebemos de uma determinada marca ou empresa. Ou seja, imagem aqui é entendida como a projeção compreendida pelo público. Segundo Kunsch, a imagem “tem a ver com o imaginário das pessoas, com as percepções. É uma visão intangível, abstrata das coisas, uma visão subjetiva de determinada realidade” (2003, p. 171). 12 Nesse aspecto, a imagem é resultado da interação, de como as pessoas se relacionam com a marca ou empresa, como elas se apropriam dos serviços dispostos, do conjunto das campanhas publicitárias realizadas, dentre outros pontos. Dessa forma, a imagem é o que está no olhar do público da organização. A imagem é construída, assim, não apenas pelo que se projeta, mas sobretudo pelo significado que traz. Não basta, com isso, apenas projetar, pois é preciso se relacionar e construir significados junto ao público. Conforme aponta Jon Costa, citado por Kunsch (2003, p. 171), a imagem é a representação mental “no imaginário coletivo, de um conjunto de atributos e valores que funcionam como um estereótipo e determinam a conduta e opiniões desta coletividade”. E a identidade? É o que a empresa ou organização projeta. Ou seja, é a parte tangível ou visível do que a organização manifesta. Está na campanha que publica, nas ações que consolida ao longo dos dias, nos valores que executa. É a relação entre os valores publicados e expostos e o entendimento do público. A identidade consiste no que a “organização efetivamente é: sua estrutura institucional fundadora, seu estatuto legal, o histórico do seu desenvolvimento ou de sua trajetória, seus diretores, seu local, o organograma de atividades, suas filiais, seu capital e seu patrimônio” (Kunsch, 2003, p. 172). Consiste, portanto, na face objetiva da organização ou do assessorado, na personalidade formada por meio do conjunto de atributos manifestos. A identidade é manifestada por meio de elementos como comportamento, comunicação, simbolismo e personalidades. No tocante ao comportamento, podemos destacar o conjunto das ações que tornam visíveis os caminhos e valores escolhidos pela organização ou empresa. Sobre a comunicação, ressaltamos as diversas simbologias empregadas pelo assessorado para manifestar valores, o conjunto de signos empregados. Nos simbolismos, os elementos visuais são pontuados como fundamentais para a formação de uma identidade organizacional, que é a manifestação visual que dá continuidade ou a sensação de perenidade da instituição ao longo do tempo. Por fim, a personalidade, com relação à própria percepção da empresa sobre aquilo que emite. Kunsch (2003, p. 174) reforça que a consolidação de uma identidade vem do fortalecimento da imagem institucional, e que a formação de ambos passa 13 “por uma coerência entre o comportamento institucional e a sua comunicação integrada, por meio de ações convergentes da comunicação institucional, mercadológica, interna e administrativa” (Kunsch, 2003, p. 174). Assim, a imagem e a identidade de uma empresa não são fruto apenas de um conjunto de logos ou publicidade, mas de uma personalidade emitida e entendida pelopúblico. TEMA 4 – ASSESSORIA DE CELEBRIDADES O culto à imagem é algo muito forte no mundo das celebridades. A necessidade de se atualizar constantemente e de estar sempre na mídia faz com que o trabalho de assessoria seja focado em gerar conteúdo midiático, em manter o artista, o cantor ou o ex-integrante de reality show sempre nas timelines de redes sociais e nos portais de noticias. Uma vantagem é que, paulatinamente, o mercado de notícias de infotenimento vem ampliando seus espaços. Ou seja, para buscar novos mercados e atender a lógica do interesse do público, o que se vê é o fornecimento de conteúdos para grupos específicos com demandas específicas. É um grupo crescente que cobra entretenimento, que acaba por vir acompanhado de informação. “Esse conteúdo tem sido denominado jornalismo de INFOtenimento (uma das mais recentes especialidades jornalísticas). Agora, a informação e o entretenimento – até então vistos como antagônicos – são oferecidos ao mesmo tempo em uma notícia” (Dejavite, 2008, p.40). Essa demanda cobra conteúdos; as celebridades atuam de forma a produzir elementos de atualização de tal imprensa. Na outra ponta, essa imagem deve ser acompanhada de perto pela assessoria, uma vez que ela é, em muitos casos, o principal produto da celebridade. Ou seja, é essa mesma imagem que a celebridade usa para endossar marcas e produtos, tornando-se personagem ou imagem de empresas ou de determinados produtos. Há uma relação de retroalimentação. Ou seja, na medida em que a celebridade é veiculada constantemente na mídia, torna-se uma imagem de referência para determinados públicos. Ao mesmo tempo, cria-se uma aura de consumo e um ideal de estilo e de imagem almejável pelos fãs e demais pessoas. Com isso, o artista ou celebridade acaba por fortalecer sua imagem a ponto de conseguir transferir seu 14 capital simbólico para determinados produtos ou marcas. Analise, por exemplo, as fotografias abaixo, que mostram a versatilidade da imagem em várias marcas. Crédito: bukley/Shutterstock. Crédito: 360b/Shutterstock. Crédito: a.ricardo/Shutterstock. 15 Ou seja, ao aparecer em uma campanha dizendo que consome tal produto ou recomendando tal marca, a celebridade acaba por dar seu endosso, e isso tende a transferir sua impressão no público para a marca. A eficácia das celebridades para gestão de marcas vem da atenção que podem levar para a propaganda, na medida em que os consumidores ficam curiosos para saber se um determinado produto indicado por uma celebridade é de qualidade ou não. Outro aspecto é a atitude que a propaganda acaba por apreender da celebridade, que carrega a marca com sua personalidade, como uma espécie de animação ou fornecimento de personalidade. Além disso, ainda incide nessa relação a confiança, pois, mesmo sendo pagas para conduzir o público à marca, “as celebridades muitas vezes desenvolvem personalidades públicas fortes e verossímeis nas quais os consumidores confiam” (Mothersbaugh, 2018, 150). Um modelo proposto para se analisar o impacto da imagem da celebridade em uma campanha é o Tear, do inglês Trustwothiness, Expertise, Attractiveness, Respect, Similarity (Freire; Senise, 2011, p.222), dividido em cinco categorias de análise, busca compreender e medir as relações de endosso da celebridade por meio de incidência da credibilidade/confiabilidade; expertise; atratividade; respeito; e afinidade. TEMA 5 – ASSESSORIA ORGANIZACIONAL A assessoria organizacional é aquela que compreende a tríade comunicação administrativa, comunicação mercadológica e comunicação institucional. As formas de manifestação da comunicação organizacional contemplam “campanhas publicitárias, releases de assessoria de imprensa, e-mails, reuniões, jornais-murais, e-mails marketing, informativos, newsletters, entre outras” (Pereira, 2017, p. 22). A cultura da empresa é a base para a manifestação de tais comunicações por meio de estratégias. 16 Figura 1 – Composto da comunicação Fonte: Kunsch, 2003, p. 151. No composto de comunicação idealizado por Kunsch, as comunicações institucional mercadológica e interna ou administrativa acabam por se relacionar e efetivar trocas simbólicas e de fluxos de informação. Sobre a comunicação interna, o que se consolida são as formas administrativas da comunicação dentro das organizações. Nesse aspecto, a preocupação é a comunicação interna, ou seja, aquela que se propõe a falar para o público dentro da organização. A assessoria colabora nessa etapa ao estabelecer ferramentas que facilitem e que tornem transparentes os fluxos de informação entre os diferentes níveis hierárquicos na instituição e entre os pares. Todo intercâmbio de informação que passar por uma organização é de tarefa da comunicação administrativa. O endomarketing, a comunicação interna e a produção de organogramas de informação estão dentre as ferramentas de uso da comunicação administrativa. Um organograma de fluxos de informação, nesse aspecto, deve considerar os atores de fala e lideranças dentro da empresa ou organização, para assim determinar quais suas posições, entre serem receptores, emissores 17 ou os dois. Neste ponto, dentro de fluxos comunicativos, podemos destacar a comunicação ascendente, a descendente e a transversal. Figura 2 – A importância da comunicação interna para eliminar ruídos O fluxo descendente é o mais comum, e busca uma comunicação verticalizada de mão única em que a direção é de cima para baixo, ou seja, da presidência para a diretoria, da diretoria para as gerências, das gerências para as coordenações, das coordenações para os funcionários. Essa é uma comunicação informativa administrativa. Sua característica deve se adequar ao meio, mesmo que seja unidirecional. Mais raro é a comunicação ascendente, em que o fluxo é o contrário, ou seja, parte de baixo para cima. Isso pode ocorrer por meio de canais de ouvidoria ou de relacionamento, como pesquisas (Pereira, 2017, p.60). Contudo, quase sempre não é individualizada, sendo fundamental para que a cúpula tenha percepção da cultura estabelecida nas bases. Já a comunicação transversal é aquela em que os setores acabam se confundindo, ou seja, em que uma gerência de um determinado setor determina ordens para funcionários de outro setor. Esse é um dos principais gargalos dentro da comunicação interna, em que os ruídos da comunicação horizontalizada pode muitas vezes criar transtornos na gestão. Na comunicação institucional, parte desta preocupação é resolvida com o auxílio de uma assessoria especializada e integrada, com profissionais de várias áreas (Kunsch, 2003, p. 162). Nesse ponto, a criação de identidade da empresa ou organização, por meio de definição de valores, criação de uma imagem, o fortalecimento de uma propaganda institucional e realização de uma assessoria de imprensa, promovem uma forte cultura de relacionamento interno. 18 Para efetivar isso, a assessoria pode se valer de ferramentas de comunicação periódica, operacional, de eventos e de incentivo. Nas ferramentas periódicas, podemos destacar comunicados internos, newsletter, rádio interna, jornais murais e até house organ. Nas ferramentas, operacionais podemos destacar o uso de comunicações mais voltadas para informes, como quadro de avisos, manuais, relatórios, dentre outros. Nos eventos, podemos apontar como ferramentas de comunicação interna a realização de seminários, cursos, e também de eventos de integração de funcionários. Nesse momento, podemos fazer uso do elemento recreativo para fortalecer a imagem interna. Já nas ferramentas de incentivo, podemos destacar ações e marketing e de recursos humanos, como campanhas motivacionais, concursos internos e caixa de sugestões. Já a comunicação mercadológica é voltada para o público externo, mas comfoco em resultados. Se na comunicação institucional o foco está na imagem da organização, resultante de políticas de identidade, de fortalecimento dos valores na imprensa e na opinião pública, a mercadológica tende a buscar a reversão desses ganhos em resultados tangíveis de venda e de prospecção da empresa. A assessoria voltada para atendimento organizacional, portanto, deve ter em mente que as várias frentes estão no guarda-chuva de responsabilidade do setor, que deve buscar a equalização entre o bom funcionamento administrativo, o fortalecimento da imagem e da identidade externa, e o resultado em termos mercadológicos. TROCANDO IDEIAS Quais os problemas que o ruído pode ocasionar em uma organização sem ferramentas adequadas para fluxos de informação? O vídeo a seguir tem um recorte do filme Madagascar 2 em que os personagens executam o conhecido “telefone sem fio”. A mensagem que era para ser uma, por meio dos problemas dos canais informais, acarreta em uma informação totalmente diferente no final. 19 TELEFONE sem fio. Ricardo Leite, 12 jan. 2013. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=3nUk1pwcbso>. Acesso em: 10 fev. 2019. NA PRÁTICA Que tal retomarmos ao conteúdo de assessoria de celebridades para vermos na prática como pode consolidar o endosso da imagem para produtos? Isso é reforçado por valores e por estratégias cada vez mais fortes na internet. Como influenciadores digitais, celebridades arregimentam milhares de seguidores nas redes sociais, que cultuam suas imagens e replicam suas ações. Como exercício, acesse ao menos duas redes sociais de celebridades, e analise os padrões de comportamento e de vínculos da imagem com produtos. Descreva esse padrão em um texto de até 200 palavras. FINALIZANDO Treinar para falar em público e para se manifestar na mídia. Este é o foco do media training, que busca capacitar porta-vozes para empresas e organizações. O comportamento em redes sociais, vestimentas e até formas específicas de falar em determinadas mídias estão no rol de assuntos que os assessores devem abordar nos cursos. Cabe até um pouco de oratória. O foco é profissionalizar as fontes para que elas possam transmitir, de forma clara e firme, as informações necessárias, tanto em momentos de cenários positivos quanto em momentos de crise. Também abordamos na aula as especificidades da assessoria de celebridades, de imagem e de comunicação organizacional. Vimos que imagem é diferente de identidade. Enquanto a identidade está vinculada ao que é manifestado de forma tangível pela organização, ou seja, se a identidade é aquilo que vemos, a imagem é algo intangível e está no bojo do que percebemos. A identidade é emitida, enquanto a imagem é recebida e interpretada. 20 REFERÊNCIAS ASSAD, N. A. Media training: como construir uma comunicação eficaz com a imprensa e a sociedade. São Paulo: Gente, 2009. BONA, N. C. Assessoria de imprensa: ponte entre jornalistas e sociedade. Curitiba: InterSaberes, 2017. FREIRAS, T. L. Planejamento de campanha eleitoral. Curitiba: InterSaberes, 2017. FREIRE, O.; SENISE, D. Percepção de Celebridades do Esporte: um modelo de escolha, gestão e controle do seu uso em relação às marcas. Organicom, São Paulo, v. 8, p. 218-232, 2011. DEJAVITE, F. A. Infotenimento nos impressos centenários brasileiros. Estudos de Jornalismo e Mídia, ano V, n. 1, p. 37-48, jan./jun. 2008. KUNSCH, M. M. K. Planejamento de relações públicas na comunicação integrada. São Paulo: Summus, 2003. MOTHERSBAUGH, D. Comportamento do consumidor: construindo a estratégia de marketing. Rio de Janeiro: Elsevier, 2018. PEREIRA, C. Planejamento de comunicação: conceitos, práticas e perspectivas. Curitiba: InterSaberes, 2017. PIMENTEL, M. de O. Em pauta: manual prático de comunicação organizacional. Curitiba: InterSaberes, 2018. Conversa inicial Ao longo desta aula, vamos falar sobre algumas características e formatos de assessorias especializadas, partindo, antes, de um debate sobre como falar com a imprensa. Há um treinamento especializado que garante ao assessorado uma performance melhor e... Com isso, entramos no primeiro tema da aula, sobre media training, que nada mais é que um treinamento para falar com a imprensa e com os públicos. Acha que é natural o porte, a performance e a entonação com que políticos, celebridades e empresários se... E depois? Voltaremos a ver as características de assessorias especializadas e como o cenário interfere na produção do comunicador e na forma de relacionamento com os stakeholders. Primeiro, falaremos sobre a assessoria política e como o assessor pode ... Em assessoria de imagem, temos a lógica de manter a imagem do assessorado, empresa ou indivíduo. Assim, vamos nos aprofundar nos conceitos de imagem, projeção e percepção. Veremos como analisar e contemplar os cuidados com a imagem institucional ou pe... Na sequência, vamos falar sobre as peculiaridades do mundo das celebridades e como o assessor pode colaborar para a manutenção e melhoria da imagem. Por fim, vamos discorrer sobre a assessoria organizacional, e sobre o modo como a somatória de comunic... Contextualizando Como fazer com que um diretor ou presidente de uma empresa, tímido e sem qualquer desenvoltura, seja o porta-voz da instituição em meio a um grande evento, como o lançamento de um produto ou serviço? Como treinar um gerente ou um técnico para que em u... Não é apenas argumentação, é antes disso um grande exercício de fala, de comunicação, bem como um processo de familiarização com a mídia e com suas rotinas e manifestações. Quando o assunto é mídia, podemos ver que isso ocorre de duas formas. Uma dela... Saiba mais Que tal ver isso na prática? Um filme que ajuda a compreender como isso pode consolidar é Discurso do Rei, em que um integrante da realeza britânica tem sérias dificuldades para falar em público. Qual o problema? Oras, é que o personagem é nada mais n... Trocando ideias Na prática FINALIZANDO REFERÊNCIAS