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Prévia do material em texto

O	NEGRO	ARTIFICIAL
Mr.	 Head	 acordou	 e	 descobriu	 que	 o	 luar	 tinha	 inundado	 o	 quarto.	 Sentou-se	 na
cama	 e	 olhou	 as	 tábuas	 do	 assoalho	 —	 cor	 de	 prata	 —	 e	 depois	 o	 pano	 do
travesseiro,	provavelmente	de	brocado,	e	no	mesmo	instante	viu	metade	da	lua	no
seu	espelho	de	barba,	a	poucos	passos,	ali	parada	como	que	à	espera	de	permissão
para	entrar.	A	luz	que	ela	lançava,	ao	mover-se	para	a	frente,	dava	dignidade	a	tudo.
A	cadeira	reta	à	parede	parecia	decidida	e	atenta,	como	se	aguardasse	uma	ordem,
e	a	calça	de	Mr.	Head,	dobrada	no	espaldar,	tinha	um	ar	quase	nobre,	como	o	das
roupas	 que	 são	 jogadas	 aos	 servos	 por	 grandes	 homens.	 O	 semblante	 da	 lua	 era
porém	sisudo.	E	ela	transpunha	todo	o	quarto	com	seu	olhar,	para	ir	se	lançar	pela
janela;	 sobre	 a	 cocheira,	 flutuava	 como	 se	 contemplasse	 a	 si	 mesma	 com	 a
expressão	de	um	jovem	que	vê	sua	velhice	à	frente.
Mr.	Head	lhe	poderia	ter	dito	que	ter	idade	é	uma	bênção	e	que	só	com	o	passar
dos	anos	um	homem	alcança	a	tranquila	compreensão	de	vida	que	o	torna	um	guia
apropriado	aos	mais	jovens.	Essa,	pelo	menos,	tinha	sido	sua	experiência.
Sentando-se,	 ele	 se	apoiou	na	guarda	de	 ferro	da	cama	e	ergueu-se	um	pouco,
para	 ver	 o	 despertador	 colocado	 sobre	 um	 balde	 emborcado	 ao	 lado	 da	 cadeira.
Eram	duas	da	madrugada.	O	alarme	do	despertador	não	funcionava,	mas	ele,	para
acordar,	não	dependia	de	nenhum	meio	mecânico.	Seus	reflexos	estavam	bons,	não
haviam	entorpecido	com	os	sessenta	anos.	Suas	reações	físicas,	como	as	de	ordem
moral,	 eram	 comandadas	 por	 sua	 força	 de	 vontade	 e	 por	 um	 rijo	 caráter,	 ambos
claramente	 visíveis	 em	 sua	 fisionomia.	 Tinha	 o	 rosto	 comprido	 como	 um	 tubo,	 o
queixo	comprido	e	arredondado	e	o	nariz	para	baixo,	mas	comprido	 também.	Nos
olhos,	atentos	porém	tranquilos,	um	quê	de	autocontrole	e	milenar	sabedoria,	como
se	aqueles	olhos	fossem	de	um	grande	vulto	da	humanidade.	Bem	que	ele	poderia
ser	 Virgílio,	 chamado	 em	 plena	 noite	 para	 atender	 a	 Dante,	 ou	 então	 Rafael,
acordado	por	um	facho	de	luz	divina	para	ir	se	pôr	ao	lado	de	Tobias.	A	única	coisa
escura	no	quarto	era	a	caminha	de	Nelson,	embaixo	da	sombra	da	janela.
Nelson,	de	lado,	estava	todo	encolhido,	com	os	joelhos	no	queixo	e	os	calcanhares
na	 bunda.	 Seu	 terno	 novo	 e	 o	 chapéu	 continuavam	 nas	 caixas	 em	 que	 haviam
chegado,	as	quais	se	achavam	no	chão,	ao	pé	da	cama,	para	que	assim	ele	as	tivesse
ao	alcance	das	mãos	quando	acordasse.	O	urinol,	fora	da	zona	de	sombra	e	branco
como	a	neve	ao	 luar,	parecia	protegê-lo	como	um	anjinho	da	guarda.	Mr.	Head	se
esticou	de	novo	na	cama,	sentindo	plena	confiança	de	que	cumpriria	a	contento	a
missão	moral	programada	para	o	dia	vindouro.	Queria	se	levantar	antes	de	Nelson
para	 já	 estar	 com	 o	 café	 quase	 pronto	 na	 hora	 em	 que	 ele	 acordasse.	 O	 garoto
sempre	se	aborrecia	quando	era	Mr.	Head	quem	se	 levantava	primeiro.	Teriam	de
sair	de	casa	às	quatro,	para	estar	no	entroncamento	por	volta	das	cinco	e	meia.	O
trem	chegaria	às	cinco	e	quarenta	e	cinco,	e	não	podiam	se	atrasar,	pois	era	só	para
apanhá-los	que	faria	parada	ali.
Era	 a	 primeira	 vez	 que	 o	 menino	 iria	 à	 cidade,	 embora	 ele	 alegasse	 ser	 a
segunda,	já	que	tinha	nascido	lá.	Mr.	Head	procurou	convencê-lo	de	que	ao	nascer
lhe	 faltava	 inteligência	 para	 determinar	 onde	 estava,	 mas	 isso	 não	 lhe	 causou
impressão,	 e	 o	 menino	 continuou	 insistindo	 que	 seria	 a	 segunda.	 No	 caso	 de	 Mr.
Head,	era	a	terceira	ida	à	cidade.	Nelson	tinha	dito:	“Já	estive	lá	duas	vezes	e	tenho
apenas	dez	anos.”
Mr.	Head	não	concordou.
“Como	o	senhor	vai	conseguir	andar	por	lá	sem	se	perder,	se	há	quinze	anos	não
põe	 os	 pés	 na	 cidade?”,	Nelson	 perguntou.	 “Não	 acha	 que	 tudo	 deve	 ter	mudado
bastante?”
“Algum	dia”,	perguntou	Mr.	Head,	“você	já	viu	eu	me	perder?”
Nelson,	 por	 certo,	 não.	Porém,	por	 ser	uma	criança	que	nunca	 ficava	 satisfeita
antes	de	dar	uma	resposta	atrevida,	mesmo	assim	retrucou:	“Aqui	não	tem	onde	se
perder.”
“Há	de	chegar	o	dia”,	profetizou	Mr.	Head,	“em	que	você	vai	descobrir	que	não	é
assim	 tão	 sabido	 quanto	 acha	 que	 é.”	 Durante	 meses	 ele	 pensou	 nessa	 viagem,
tendo-a	concebido	principalmente	em	 termos	morais,	para	que	 fosse	uma	 lição	da
qual	 o	menino	nunca	mais	 se	 esquecesse.	Queria	que	a	 experiência	 lhe	 ensinasse
que	o	 fato	de	 ter	nascido	na	cidade,	por	 si	 só,	não	deveria	constituir	para	ele	um
particular	motivo	de	orgulho;	e	que	ele	aprendesse	que	a	cidade	não	era	 lá	essas
coisas.	 Mr.	 Head	 pretendia	 que	 Nelson,	 após	 ver	 tudo	 o	 que	 existe	 para	 ver	 na
cidade,	não	se	indignasse	com	a	ideia	de	passar	o	resto	da	vida	onde	morava.	E	ele
estava	pensando,	quando	voltou	a	pegar	no	sono,	em	como	iria	o	menino	descobrir
afinal	que	não	era	tão	sabido	quanto	ele	mesmo	se	achava.
Foi	acordado	às	três	e	meia	por	um	cheiro	de	bacon	frito	que	logo	o	fez	pular	da
cama.	Na	cama	de	Nelson	não	havia	ninguém,	e	as	caixas	de	roupas	estavam	todas
abertas.	Ele	vestiu	a	calça	e	correu	para	o	outro	cômodo.	O	menino,	fritado	o	bacon,
agora	 tinha	 um	 pão	 de	 milho	 no	 forno.	 Sentava-se	 à	 mesa,	 na	 semiescuridão,
tomando	café	frio	na	lata,	e	estava	com	o	terno	novo	e	o	novo	chapéu	cinzento	a	lhe
cair	sobre	os	olhos.	Era	grande	para	ele,	mas	de	propósito	tinham	encomendado	de
um	tamanho	maior,	ante	a	expectativa	de	que	sua	cabeça	ainda	viesse	a	crescer.	Se
nada	falou,	toda	a	sua	figura	dava	entretanto	a	entender	a	satisfação	que	ele	sentia
por	se	ter	levantado	antes	de	Mr.	Head.
Mr.	Head	foi	até	o	fogão,	trouxe	o	bacon	para	a	mesa,	na	frigideira,	e	disse:	“Não
precisa	se	apressar.	Chegar	lá,	você	chega	logo.	Se	vai	gostar	é	que	são	outras,	isso
ninguém	garante.”	Depois,	sentou-se	diante	do	menino,	cujo	chapéu	subiu	um	pouco
para	revelar	um	rosto	violentamente	desprovido	de	emoção,	muito	semelhante,	pelo
formato,	ao	do	velho.	Eram	avô	e	neto,	embora	fossem	tão	parecidos	que	poderiam
ser	 irmãos,	 e	 irmãos	não	muito	distantes	pela	 idade,	 pois	Mr.	Head,	 à	 luz	do	dia,
tinha	uma	expressão	jovial,	enquanto	a	do	menino	era	uma	cara	vetusta,	como	se,	já
sabendo	de	tudo,	ele	quisesse	se	esquecer	do	que	sabia.
Mr.	Head	tinha	tido,	noutros	tempos,	mulher	e	filha.	Quando	sua	esposa	morreu,
a	filha	fugiu	de	casa	e,	após	o	necessário	intervalo,	voltou	com	Nelson	nos	braços.
Ao	morrer	 também,	certa	manhã,	antes	de	se	 levantar,	ela	então	deixou	Mr.	Head
como	único	responsável	por	seu	menino	de	um	ano.	O	avô	cometeu	o	erro	de	dizer
ao	 netinho	 que	 ele	 era	 nascido	 em	 Atlanta.	 Não	 fosse	 isso,	 Nelson	 não	 viveria
insistindo	que	a	viagem	de	agora	seria	a	sua	segunda.
“Pode	 ser	 que	 você	 não	 goste	 de	 nada”,	 prosseguiu	 Mr.	 Head.	 “Tudo	 lá	 está
sempre	cheio	de	negros.”
O	menino	fez	cara	de	saber	lidar	com	negros.
“Pois	sim”,	disse	Mr.	Head.	“Eu	é	que	sei	que	você	nunca	viu	negro.”
“O	senhor	não	se	levantou	muito	cedo”,	Nelson	disse.
“Você	nunca	 viu	 um	negro	na	 vida”,	 insistiu	Mr.	Head.	 “Nunca	mais	 houve	um
negro	 aqui	 no	 condado,	 desde	 que	 expulsamos	 aquele,	 doze	 anos	 atrás,	 antes
portanto	 de	 você	 nascer.”	 Depois	 ficou	 olhando	 o	 menino,	 como	 se	 ele	 fosse	 se
atrever	a	sustentar	o	contrário.
“Como	sabe	que	eu	nunca	vi	um	negro,	se	antes	eu	vivi	lá?”,	Nelson	perguntou.
“Devo	ter	visto	muitos.”
“Se	viu,	nem	sabia	o	que	era”,	disse	Mr.	Head,	já	completamente	irritado.	“Uma
criança	de	seis	meses	não	sabe	que	diferença	existe	entre	um	negro	e	os	outros.”
“Pois	 eu,	 se	 tiver	 visto	 algum,	 garanto	 que	 vou	 saber”,	 o	 menino	 disse	 e	 se
levantou	e,	dando	uma	endireitada	no	seu	chapéu	novo	em	folha,	foi	até	o	banheiro.
Ao	 chegarem	 ao	 entroncamento,	 um	 pouco	 antes	 da	 hora	 prevista,	 os	 dois
puseram-se	à	espera	do	trem,	quase	colados	na	primeira	linha	de	trilhos.	Mr.	Head
levava	o	lanche,	uma	lata	de	sardinhas	e	as	bolachas	caseiras	que	iam	num	saco	de
papel.	Um	sol	alaranjado,	ainda	rudimentar	na	aparência,	vinha	por	trás	da	série	de
montanhas	 a	 leste,tornando	 o	 céu	 ao	 fundo	 uma	 vermelhidão	 chapada,	 muito
embora	 tudo	 continuasse	 cinza	 aquém	 delas	 e	 eles	 se	 vissem	 em	 face	 da	 lua
transparente	e	cinza,	já	nem	tão	forte	como	uma	impressão	digital	e	completamente
sem	luz.	A	chave	de	mudança	de	trilhos	e	um	tanque	preto	de	combustível	eram	os
únicos	sinais	a	indicar	que	ali	era	um	lugar	de	entroncamento;	as	linhas,	duplas,	não
voltavam	 a	 convergir,	 em	 ambos	 os	 extremos	 do	 descampado,	 senão	 depois	 de
desaparecerem	nas	curvas.	Os	trens,	quando	passavam,	pareciam	sair	de	um	túnel
de	árvores	para,	bruscamente	alarmados	com	o	céu	 frio,	desaparecerem	correndo
pela	mata	outra	vez.	Ao	comprar	as	passagens,	Mr.	Head	teve	de	combinar	com	o
agente	 para	 o	 trem	 parar	 ali,	 e	 agora	 tinha	 o	 secreto	 temor	 de	 que	 afinal	 não
parasse,	pois	sabia	que	Nelson,	nesse	caso,	diria:	“Nunca	pensei	que	um	trem	fosse
parar	pro	senhor.”	Sob	a	lua	sem	brilho,	a	lua	inútil	da	manhã,	os	trilhos	pareciam
brancos	e	frágeis.	Tanto	o	velho	quanto	o	menino	olhavam	fixamente	para	a	frente,
como	se	estivessem	à	espera	de	uma	aparição.
De	repente,	antes	de	Mr.	Head	poder	mudar	de	ideia	e	resolver	voltar	para	casa,
um	forte	apito	de	advertência	se	ouviu	e	o	trem,	quase	sem	fazer	barulho,	apareceu
a	deslizar	lentamente	pela	curva	do	arvoredo,	a	uns	duzentos	metros	dali,	com	seu
farol	amarelo	brilhando	muito	na	frente.	Mr.	Head,	ainda	em	dúvida	se	iria	ou	não
parar	mesmo,	sentiu	que	o	trem	bem	poderia	fazê-lo	parecer	ainda	mais	tolo,	caso
passasse	apenas	por	eles.	Mas,	se	prosseguisse	em	seu	rumo	sem	levá-los,	tanto	o
avô	quanto	o	neto	haviam	se	preparado	para	ignorar	o	comboio.
A	 máquina	 avançou,	 envolvendo-os	 com	 seu	 bafo	 de	 metal	 aquecido,	 e	 logo	 o
segundo	 vagão	 parou	 exatamente	 no	 ponto	 em	 que	 os	 dois	 estavam	 em	 pé.	 Um
condutor	 com	 cara	 de	 buldogue	 velho	 e	 pançudo	 já	 se	 encontrava	 nos	 degraus,
como	que	à	espera	deles,	apesar	de	demonstrar	por	seu	 jeito,	quer	embarcassem,
quer	não,	uma	indiferença	total	por	tais	destinos.	“Pra	direita!”,	ele	disse.
Seu	 embarque	 não	 durou	 mais	 que	 uma	 fração	 de	 segundo,	 e	 quando
ingressaram	 no	 vagão	 silencioso	 já	 o	 trem	 ia	 ganhando	 velocidade	 outra	 vez.	 A
maioria	dos	passageiros	ainda	estava	dormindo.	Uns	arriavam	a	cabeça	no	braço	da
poltrona,	outros	se	esticavam	a	ocupar	dois	lugares	e	outros	mais	se	esparramavam
bem	à	vontade,	 largando	os	pés	no	corredor.	Mr.	Head,	vendo	dois	 lugares	vazios,
para	lá	empurrou	Nelson.	“Fique	na	janela”,	disse	em	seu	tom	normal	de	voz,	que	já
era,	sendo	assim	ainda	 tão	cedo,	alto	demais.	 “Ninguém	vai	se	 incomodar,	porque
não	tem	ninguém	aí.	Senta,	vamos!”
“Já	ouvi”,	murmurou	o	menino,	“não	precisa	gritar	comigo.”	E	ele,	sentando-se,
virou-se	bem	para	o	vidro,	onde	deu	com	um	rosto	pálido,	algo	espectral	e	franzido,
que	o	olhava	sob	a	aba	de	um	chapéu	desbotado	e	algo	também	fantasmagórico.	O
avô,	 numa	 olhada	 rápida,	 viu	 por	 sua	 vez	 outro	 fantasma,	 que	 sorria,	malgrado	 a
palidez,	e	estava	de	chapéu	preto.
Sentado	e	acomodado,	Mr.	Head	apanhou	sua	passagem	para	ler	em	voz	alta	tudo
o	 que	 nela	 vinha	 impresso.	 Muitos	 passageiros	 acordaram,	 olhando-o	 com	 ar	 de
espanto,	e	todos	já	se	mexiam.	“Tire	o	chapéu”,	disse	o	avô	para	Nelson,	enquanto
tirava	o	seu,	que	pôs	no	colo.	Tinha	ele	apenas	um	pouco	de	cabelo	branco,	que	se
tornara	 cor	 de	 tabaco	 com	o	 tempo	 e	 se	 emplastrava	 atrás	 da	 cabeça,	 cuja	 parte
frontal	 nada	 mostrava	 além	 de	 uma	 calvície	 rugosa.	 Nelson	 obedeceu,	 pondo
também	seu	 chapéu	no	 colo,	 e	 ambos	 se	mantiveram	à	 espera	de	que	o	 condutor
viesse	conferir	as	passagens.
O	homem	do	outro	lado,	esparramado	em	dois	lugares,	com	os	pés	para	cima,	na
janela,	e	a	cabeça	caindo	para	fora,	a	sobressair	no	corredor,	usava	um	terno	azul-
claro	e	uma	camisa	amarela	desabotoada	na	gola.	Mal	acabara	de	abrir	os	olhos	e
Mr.	 Head	 já	 ia	 puxar	 conversa	 com	 ele	 quando	 o	 condutor	 o	 intimou,	 vindo	 dos
fundos:	“Suas	passagens.”
Partido	 o	 condutor,	 Mr.	 Head	 deu	 a	 Nelson	 seu	 tíquete	 de	 retorno	 e	 lhe	 disse:
“Põe	no	bolso,	guarde	bem	e	não	perca,	porque	sem	isso	você	vai	ter	de	ficar	lá	na
cidade.”
Como	se	a	ideia	não	fosse	nada	má,	Nelson	replicou:	“Talvez	eu	fique.”
Mas	Mr.	Head	nem	ligou	para	ele.	“É	a	primeira	vez	que	o	menino	anda	de	trem”,
explicou	ao	homem	do	outro	lado,	que	agora,	com	os	pés	no	chão,	já	estava	sentado
na	beirada	da	poltrona.
Nelson,	zangando-se,	voltou	a	pôr	o	chapéu,	de	um	modo	bem	insolente,	e	virou-
se	outra	vez	para	a	janela.
“Nunca	até	hoje	ele	viu	nada”,	prosseguiu	Mr.	Head.	“É	 tão	 ignorante	como	no
dia	 em	 que	 nasceu,	 mas	 espero	 que	 agora	 veja	 tanto	 até	 se	 encher	 de	 tudo	 para
sempre.”
O	menino	chegou-se	um	pouco	à	frente	e	se	debruçou	sobre	o	avô	para	se	dirigir
ao	estranho.	“Eu	nasci	na	cidade”,	disse.	“É	a	segunda	vez	que	viajo,	porque	foi	lá
que	eu	nasci.”	Disse-o	em	voz	alta	e	categoricamente,	mas	o	homem	do	outro	lado,
com	fundas	olheiras	roxas	nas	pálpebras,	nada	pareceu	entender.
Mr.	Head,	esticando-se	pelo	corredor,	deu-lhe	um	 tapinha	no	braço.	 “Mostrar	o
que	se	deve	mostrar,	sem	esconder	seja	o	que	for”,	disse,	a	deitar	sabedoria,	“é	o
melhor	modo	de	educar	um	menino.”
“É”,	disse	o	homem,	que	 tinha	suspendido	do	chão	os	pés	 inchados,	um	após	o
outro,	e	tardava	um	tanto	a	examiná-los.	Os	demais	passageiros,	pelo	vagão	afora,
ou	 bem	 estavam	 acordando,	 ou	 bem	 se	 remexiam	 inquietos,	 bocejando	 a
espreguiçar-se.	 Vozes	 isoladas	 faziam-se	 ouvir	 aqui	 e	 ali,	 antes	 de	 o	 zumbido	 das
falas	tornar-se	regra	geral.	Mas	de	repente	a	expressão	de	Mr.	Head,	que	até	então
era	serena,	se	alterou.	Sua	boca	se	fechou	repuxada,	vindo-lhe	aos	olhos,	no	mesmo
instante,	um	mesmo	traço	combinado	de	ameaça	à	vista	e	cautela.	Fixado	no	fundo
do	 vagão,	 ele	 pegou	 Nelson	 pelo	 braço	 e,	 sem	 nem	 sequer	 se	 virar,	 puxou-o	 um
pouco	para	a	frente	e	mostrou-lhe:	“Olha	lá.”
Um	homenzarrão	cor	de	café	se	aproximava	a	passos	lentos,	com	um	terno	leve	e
uma	gravata	amarela	de	cetim	que	trazia	um	pregador	com	um	rubi.	Uma	das	mãos
lhe	amparava	a	barriga,	que	sacolejava,	majestosa,	sob	o	paletó	abotoado,	e	a	outra
se	agarrava	ao	castão	de	uma	bengala	preta	que	ele	ora	erguia,	ora	abaixava	com
premeditada	 cadência	 a	 cada	 nova	 passada.	 Ao	 longo	 do	 vagaroso	 trajeto,	 seus
olhos	grandes,	castanhos,	pairavam	sobre	as	pessoas	sentadas.	Atrás	dele,	que	tinha
o	 cabelo	 crespo	 grisalho	 e	 um	 ralo	 bigode	 branco,	 vinham	 duas	 mulheres,	 ambas
novas	e	também	cor	de	café,	uma	de	vestido	amarelo,	outra	de	verde,	que	o	seguiam
no	mesmo	ritmo	e	tagarelavam	bastante,	mas	em	voz	contida	e	baixa.
Insistentemente	 a	 mão	 de	 Mr.	 Head	 apertava	 o	 braço	 de	 Nelson.	 Quando	 o
cortejo	 passou	 por	 eles,	 a	 luz	 provinda	 de	 um	 anel	 de	 safira,	 na	 mão	 escura	 que
empunhava	a	bengala,	refletiu-se	nos	olhos	de	Mr.	Head,	que	entretanto	não	olhou
para	cima,	como	também	o	enorme	homem	não	olhou	para	ele.	E	o	grupo,	seguindo
pelo	restante	do	corredor,	saiu	enfim	do	vagão.	Mr.	Head	já	não	comprimia	o	braço
de	Nelson	com	a	mesma	força	de	antes.	“O	que	era	aquilo?,	perguntou	ele.
“Um	 homem”,	 disse	 o	 menino,	 lançando-lhe	 um	 olhar	 indignado,	 como	 se
estivesse	cansado	de	ouvir	insultos	à	sua	inteligência.
“Mas	que	tipo	de	homem?”,	insistiu	Mr.	Head,	sem	expressão	na	voz.
“Um	homem	gordo”,	disse	Nelson,	que	a	essa	altura	sentiu	que	era	melhor	 ser
prudente.
“Você	não	sabe	de	que	tipo?”,	Mr.	Head	disse	em	tom	definitivo.
“Um	 velho”,	 disse	 o	 menino,	 com	 o	 súbito	 pressentimento	 de	 que	 não	 ia	 se
divertir	tanto	assim	naquele	dia.
“Pois	era	um	negro”,	disse	Mr.	Head,	recostando-se.
De	um	pulo,	Nelson	ficou	em	pé	na	poltrona	para	olhar	para	trás,	mas	o	negro	já
havia	sumido	lá	no	fim	do	vagão.
“Eu	 achava	 que	 você	 logo	 reconheceria	 um	 negro,	 já	 que	 viu	 tantos	 quando
esteve	pela	primeira	vez	na	cidade”,	prosseguiu	Mr.	Head,	que	depois	disse	para	o
homem	ao	lado:“Esse	é	o	primeiro	negro	dele.”
O	menino,	escorregando,	reinstalou-se	no	assento.	“O	senhor	falou	que	os	negros
eram	pretos”,	 disse	 com	 voz	 zangada.	 “Nunca	 falou	 que	 eles	 são	 pardos.	Como	 é
que	eu	vou	entender,	como	vou	saber	uma	coisa,	se	não	me	explica	direito?”
“Você	não	passa	de	um	ignorante”,	disse	Mr.	Head,	que	se	levantou	e	foi	sentar-
se	no	lugar	vazio	junto	ao	homem	que	estava	do	outro	lado.
Nelson	 se	 virou	 mais	 uma	 vez	 para	 trás	 e	 olhou	 para	 onde	 o	 negro	 tinha
desaparecido.	Sob	a	 impressão	de	que	 sua	passagem	pelo	 corredor	do	vagão	 fora
deliberada,	para	 levá-lo	a	 fazer	papel	de	bobo,	nutriu	por	ele	um	ódio	novo,	 forte,
furioso,	compreendendo	agora	o	porquê	da	aversão	de	seu	avô	pelos	negros.	Olhou
então	 para	 a	 janela	 e	 o	 rosto	 ali	 refletido	 parecia	 sugerir	 que	 ele	 talvez	 não
correspondesse	 às	 exigências	 do	 dia.	 Já	 nem	 sabia	 muito	 bem	 se	 reconheceria	 a
cidade,	quando	lá	chegassem.
Só	depois	de	contar	muitas	histórias,	Mr.	Head	se	deu	conta	de	que	o	homem	ao
qual	ele	falava	estava	dormindo,	e	assim	se	levantou	e	propôs	a	Nelson	que	fossem
dar	 uma	 volta	 pelo	 trem,	 para	 ver	 outras	 coisas.	 Sobretudo	 queria	 que	 o	 menino
visse	o	toalete.	Foram	pois	primeiramente	ao	banheiro	dos	homens,	onde	um	exame
do	 encanamento	 os	 deteve.	 Mr.	 Head	 fez-lhe	 uma	 demonstração	 do	 bebedouro,
como	se	se	tratasse	de	coisa	de	sua	própria	invenção,	e	exibiu	também	a	Nelson	a
cuba	com	uma	só	 torneirinha	onde	os	passageiros	escovavam	os	dentes.	Passando
por	diversos	vagões,	finalmente	eles	chegaram	ao	carro-restaurante.
Pintado	de	um	amarelo-ovo	berrante	e	com	um	carpete	cor	de	vinho	no	chão,	era
a	parte	mais	elegante	do	trem.	As	mesas	se	justapunham	a	janelões	panorâmicos	e
grandes	 trechos	 da	 vista	 que	 passava	 lá	 fora	 eram	 captados	 em	 miniatura	 nos
flancos	 dos	 bules	 de	 café	 e	 nos	 copos.	 Três	 negros	 retintos,	 de	 terno	 branco	 e
avental	 branco,	 corriam	 muito	 pelo	 corredor,	 de	 ponta	 a	 ponta,	 a	 equilibrar	 as
bandejas,	 a	 cumprimentar	 e	 curvar-se	 sobre	 os	 passageiros	 que	 tomavam	 sua
refeição	matinal.	Um	deles	se	precipitou	até	Mr.	Head	e	Nelson	e,	pondo	dois	dedos
para	cima,	exclamou:	“Lugar	para	dois!”,	mas	Mr.	Head	retrucou	em	voz	alta:	“Não,
nós	já	comemos	antes	de	sair	de	casa.”
O	 branco	 dos	 olhos	 do	 garçom,	 por	 trás	 de	 seus	 grandes	 óculos	 marrons,
aumentava	 de	 tamanho.	 “Por	 favor,	 deixem	 então	 o	 caminho	 livre”,	 disse	 ele,
ondeando	o	braço	no	ar	como	que	para	espantar	moscas.
Nelson	e	Mr.	Head	não	se	moveram	porém	nem	um	centímetro.	“Olha	ali”,	disse	o
avô.
O	 canto	 mais	 próximo	 do	 carro-restaurante	 continha	 apenas	 duas	 mesas
separadas	das	outras	por	uma	cortina	cor	de	açafrão.	Uma	delas	estava	posta,	mas
vazia;	 à	 outra,	 de	 costas	 para	 a	 cortina	 e	 de	 frente	 para	 eles,	 sentava-se	 o	 negro
enorme,	 que	 passava	 manteiga	 num	 pãozinho	 e,	 em	 voz	 cordata,	 falava	 às	 duas
mulheres.	 Seu	 rosto	 era	 triste,	 por	 demais	 triste,	 e	 sobras	 do	 pescoço	 grosso
pendiam,	 transbordando,	 por	 seu	 colarinho	 branco.	 “Eles	 têm	 de	 ficar	 cercados”,
explicou	 Mr.	 Head,	 que	 depois	 disse:	 “Vamos	 ver	 a	 cozinha”,	 e	 os	 dois	 foram
atravessando	o	vagão,	mas	atrás	deles,	e	às	pressas,	já	ia	o	mesmo	garçom.
“Não	 é	 permitida	 a	 entrada	 de	 passageiros	 na	 cozinha!”,	 disse	 ele	 com
arrogância.	“É	proibido,	não	pode!”
Mr.	Head	parou	onde	estava	e	se	virou.	“É,	e	há	um	bom	motivo	para	isso”,	gritou
na	cara	do	negro,	“porque	as	baratas	expulsariam	os	passageiros	de	lá!”
Todos	 os	 viajantes	 riram,	 e	 Mr.	 Head	 e	 Nelson,	 rindo	 também	 bastante,	 se
retiraram.	Mr.	Head	era	famoso	em	sua	terra	por	ter	presença	de	espírito	e	Nelson
bruscamente	sentiu-se	muito	orgulhoso	dele,	percebendo	que	o	velho	seria	o	único
arrimo	 com	 que	 poderia	 contar	 naquele	 estranho	 lugar	 do	 qual	 se	 aproximavam.
Irremediavelmente	sozinho	ele	estaria	no	mundo,	se	por	acaso	se	perdesse	do	avô,	a
cujo	paletó	quis	 então	 se	agarrar	 feito	 criança,	nisso	que	uma	 terrível	 comoção	o
abalou.
Pelas	janelas	por	que	passavam,	ao	voltarem	para	seus	lugares,	eles	puderam	ver
que	a	paisagem	rural	ia	aos	poucos	se	tornando	coalhada	de	barracões	e	casinhas	e
que	ao	longo	da	via	férrea	corria	uma	estrada	de	asfalto.	Por	ela,	pequenos,	velozes,
disparavam	os	carros.	Havia	agora	menos	ar	a	inalar,	pelas	sensações	de	Nelson,	do
que	meia	hora	antes.	Como	o	homem	do	outro	lado	não	se	achava	mais	lá,	Mr.	Head
já	 não	 tinha	 alguém	 por	 perto	 para	 puxar	 conversa.	 Assim,	 pôs-se	 a	 olhar	 pela
janela,	para	através	de	 si	mesmo	refletido	 ler	os	 letreiros	dos	prédios	pelos	quais
passavam.	Em	voz	alta,	ia	anunciando:	“Dixie,	Indústrias	Químicas!	Farinha	de	Trigo
Southern	 Maid!	 Portas	 Dixie!	 Produtos	 de	 Algodão	 Southern	 Belle!	 Pasta	 de
Amendoim	Patty!	Melado	de	Cana	Southern	Mammy!”
“Sossega,	vô!”,	Nelson	disse	como	se	dissesse	um	psiu.
Muitos	 já	 se	 levantavam,	 por	 todo	 o	 vagão,	 para	 alcançar	 os	 pertences	 no
bagageiro.	 As	 mulheres	 se	 arrumavam,	 pondo	 seus	 chapéus	 e	 casacos.	 Lá	 pelas
tantas	 o	 condutor	 enfiou	 a	 cabeça	 pela	 porta	 e	 gritou:	 “Primeeeeeeeira
paraaaaaaada!”	Nelson,	tremendo,	pulou	em	pé.	Mas	Mr.	Head	o	reteve	pelo	ombro,
instando-o	a	não	se	mexer.
“Continue	 em	 seu	 lugar”,	 disse	 ele	 em	 tom	 solene.	 “A	 primeira	 parada	 é	 na
periferia.	A	segunda	é	que	é	na	estação	central.”	Sabia	disso	porque,	tendo	saltado
na	 primeira	 parada,	 quando	 da	 primeira	 vinda	 à	 cidade,	 viu-se	 forçado	 a	 pagar
quinze	centavos	a	um	homem	que	o	levou	até	o	centro.	Nelson,	muito	pálido,	sentou-
se	novamente.	Pela	primeira	vez	na	vida	ele	estava	entendendo	que	o	avô	 lhe	era
indispensável.
O	trem	parou,	despejou	uns	poucos	passageiros	e	prosseguiu	deslizando,	como	se
nem	tivesse	deixado	de	se	mover.	Lá	fora,	por	trás	de	instáveis	casas	fuliginosas	em
fila,	erguia-se	uma	série	de	edifícios	azuis,	além	dos	quais	o	céu	bem	claro,	em	tons
de	 cinza	 e	 cor-de-rosa,	 dissolvia-se	 em	 nada.	 O	 trem,	 por	 fim,	 entrou	 no	 pátio	 da
estação.	 Olhando	 para	 baixo,	 Nelson	 viu	 linhas	 e	 mais	 linhas	 de	 trilhos	 a	 se
multiplicar	 e	 cruzar.	 Pensou	 em	 começar	 a	 contá-los,	 mas	 o	 rosto	 na	 janela	 o
encarou	antes	disso,	cinza	porém	perceptível,	e	ele	teve	de	se	virar	ao	contrário.	O
trem	já	estava	na	plataforma.	Correndo	logo	para	a	porta,	depois	de	se	levantarem
às	pressas,	nenhum	dos	dois	se	deu	conta	de	que	haviam	largado	para	trás	o	saco	de
papel	com	seu	lanche.
Andando	tensos	pela	pequena	estação,	saíram	por	uma	porta	 imponente	que	os
largou	por	sua	vez	na	barafunda	do	trânsito.	Gente	em	quantidade	se	precipitava	ao
trabalho,	 e	 Nelson	 nem	 sabia	 direito	 para	 onde	 olhar.	 Mr.	 Head,	 apoiando-se	 na
parede	do	prédio,	fitava	tudo	espantado.
Finalmente	 Nelson	 disse:	 “Como	 fazemos	 agora,	 para	 ver	 tudo	 o	 que	 há	 para
ver?”
Mr.	Head	não	respondeu.	Logo	depois,	como	se	a	visão	dos	passantes	já	lhe	desse
uma	pista,	ele	disse	porém:	“Vamos	andando”,	e	lá	se	foi	rua	abaixo.	Nelson	seguiu-
o,	 firmando	 bem	 seu	 chapéu.	 Tantas	 eram	 as	 cenas,	 tantos	 os	 barulhos	 que	 em
turbilhão	 o	 envolviam,	 que	 mal	 ele	 conseguia	 entender,	 ao	 transpor	 o	 primeiro
quarteirão,	 tudo	 o	 que	 tinha	 pela	 frente.	 Na	 segunda	 esquina,	 Mr.	 Head	 se	 virou
para	localizar	a	gare	de	onde	tinham	partido,	um	terminal	betuminoso	coroado	pelo
concreto	da	cúpula.	Parecia-lhe	que,	se	ele	pudesse	se	manter	sempre	avistando	a
cúpula,	não	lhe	seria	difícil	retornar	ali	à	tarde	para	pegar	o	trem	de	volta.
À	 medida	 que	 andavam,	 Nelson	 começou	 a	 perceber	 detalhes	 e	 a	 observar
detidamente	as	vitrines,	abarrotadas	dos	mais	diversos	produtos	—	tecidos	e	roupas,
ferragens,	rações	de	frango,	bebidas.	Passaram	por	uma	porta	para	a	qual	Mr.	Head
o	 fez	 olhar	 com	atenção.	Quem	por	 ela	 adentrava	 ia	 sentar-se	 numa	 alta	 cadeira,
com	 os	 pés	 em	 dois	 pontos	 de	 apoio,	 para	 que	 ali	 umnegro	 lhe	 engraxasse	 os
sapatos.	Desapressados,	eles	paravam	nas	entradas	das	lojas,	a	fim	de	que	o	menino
apreciasse	 o	 que	 se	 passava	 lá	 dentro,	 mas	 nunca	 ingressavam	 nelas.	 Mr.	 Head
tomara	 a	 decisão	 de	 não	 entrar	 em	 nenhuma,	 porque	 em	 sua	 primeira	 vinda	 à
cidade	ele	tinha	se	perdido	numa	loja	imensa,	onde	só	encontrara	a	saída	depois	de
ser	insultado	por	diversas	pessoas.
Lá	pelo	meio	do	quarteirão	seguinte	eles	chegaram	a	uma	loja	em	cuja	entrada
havia	uma	balança	na	qual	os	dois	se	pesaram,	ambos	introduzindo	nela	um	centavo
e	 recebendo	de	 volta	 um	papelzinho.	O	de	Mr.	Head	dizia:	 “Você	pesa	 sessenta	 e
cinco	quilos.	É	pessoa	correta	e	corajosa,	sempre	admirada	por	seus	amigos.”	Pondo
no	 bolso	 a	 informação,	 ele	 achou	 estranho	 que	 a	 máquina	 acertasse	 em	 cheio	 no
tocante	a	seu	caráter,	mas	errasse	no	peso,	porque	ao	subir	numa	balança	de	carga,
algum	tempo	antes,	tinha	verificado	estar	com	apenas	sessenta.	Já	o	papelzinho	de
Nelson	 dizia:	 “Você	 pesa	 cinquenta	 e	 cinco	 quilos.	 Tem	 um	 grande	 destino	 pela
frente,	 mas	 cuidado	 com	 as	 mulheres	 de	 cor.”	 Nelson	 não	 conhecia	 mulheres,
fossem	lá	quais	fossem,	e	só	pesava	trinta	e	cinco	quilos,	mas	a	Mr.	Head	pareceu
que	a	confusão	decorria	de	uma	impressão	imperfeita,	lendo-se	um	cinco	em	vez	de
um	três	no	papelzinho	da	máquina.
Continuaram	 andando	 em	 linha	 reta	 e,	 ao	 fim	 de	 cinco	 quarteirões,	 quando	 a
cúpula	do	terminal	sumiu	de	vista,	Mr.	Head	resolveu	dobrar	à	esquerda.	Bem	que
Nelson	poderia	ficar	toda	uma	hora	diante	de	cada	vitrine,	se	não	houvesse	sempre
ao	lado	uma	outra,	ainda	mais	interessante.	De	repente	ele	disse:	“Foi	aqui	que	eu
nasci.”	Mr.	Head	se	virou,	horrorizado,	e	olhou	para	o	neto,	cujo	rosto	brilhava	de
suor.	“É	a	minha	terra”,	ele	insistiu.
Mr.	Head	se	estarreceu	ainda	mais	e	percebeu	que	era	chegado	o	momento	de
tomar	medidas	drásticas.	“Deixa	eu	te	mostrar	uma	coisa	que	você	ainda	não	viu”,
disse	ele,	e	o	levou	até	a	esquina,	onde	havia	um	bueiro	aberto.	“Agache-se	e	enfie	a
cabeça	 aí.”	 Dada	 a	 instrução,	 segurou	 pelo	 paletó	 o	 menino,	 que	 se	 abaixara	 a
espiar	pelo	esgoto	adentro.	Rapidamente,	ao	ouvir,	sob	a	calçada,	os	borbotões	das
profundezas,	 Nelson	 porém	 retrocedeu	 espantado.	 Mr.	 Head	 explicou-lhe	 então
como	era	a	rede	de	esgotos,	como	toda	a	cidade	era	subterraneamente	percorrida
por	 ela,	 como	 essa	 rede	 continha	 em	massa	 os	 dejetos,	 estando	 cheia	 de	 ratos,	 e
como	 era	 possível	 alguém	 cair	 ali	 dentro	 e	 ser	 tragado	 sem	 demora	 por	 infinitos
túneis	escuros.	Na	cidade,	a	qualquer	hora,	o	esgoto	era	capaz	de	engolir	qualquer
pessoa	 e	 com	 ela	 desaparecer	 para	 sempre.	 A	 descrição	 foi	 tão	 bem-feita	 que
Nelson,	por	instantes,	ficou	de	todo	abalado,	ligando	as	galerias	de	esgoto	à	entrada
do	 inferno	 e	 pela	 primeira	 vez	 entendendo	 como	 o	 mundo	 se	 encaixava	 em	 suas
partes	mais	baixas.
Depois,	afastando-se	do	meio-fio,	ele	disse:	“Convém	então	não	se	aproximar	dos
buracos”,	e	seu	rosto	assumiu	aquela	obstinada	expressão	que	tanto	irritava	o	avô.
“Nasci	aqui	e	aqui	é	a	minha	terra”,	disse	mais	uma	vez.
Mr.	Head,	consternado,	limitou-se	a	murmurar:	“Pois	você	vai	ver	o	que	é	bom.”
Após	 mais	 dois	 quarteirões,	 retomada	 a	 caminhada,	 novamente	 ele	 dobrou	 à
esquerda,	convencido	de	andar	ao	redor	da	cúpula;	e	estava	certo,	pois	dentro	de
meia	hora	os	dois	passaram	outra	vez	pela	frente	da	estação	de	trem.	Nelson	nem
notou	a	princípio	que	revia	as	mesmas	lojas.	Logo	contudo	percebeu,	ao	chegarem	à
porta	do	engraxate	negro	que	se	dobrava	aos	pés	dos	outros	para	 lustrar	sapatos,
que	estavam	andando	em	círculo.
“Nós	já	estivemos	aqui!”,	gritou	então.	“Acho	que	o	senhor	não	sabe	onde	está.”
“É,	 eu	 me	 desorientei	 um	 pouquinho”,	 disse	 Mr.	 Head.	 Desceram	 por	 uma	 rua
diferente,	 mas	 ele,	 decidido	 como	 sempre	 a	 não	 se	 afastar	 demais	 da	 cúpula,
percorreu	 apenas	 duas	 quadras	 na	nova	direção	 e	 lá	 se	 foi	 dobrando	 à	 esquerda.
Eram	casas	de	madeira	de	dois	 ou	de	 três	andares,	 as	que	essa	 rua	 continha.	Da
calçada,	qualquer	passante	podia	ver	seus	quartos	por	dentro,	e	Mr.	Head,	ao	espiar
numa	 janela,	 deu	 com	 uma	 mulher	 deitada	 numa	 cama	 de	 ferro	 que,	 embaixo
apenas	 de	 um	 lençol,	 olhava	 por	 sua	 vez	 para	 fora.	 Seu	 olhar,	 sendo	 convidativo,
deixou-o	 bem	 transtornado.	 Um	 garoto	 de	 bicicleta,	 que	 descia	 ninguém	 sabe	 de
onde,	 com	 ar	 ameaçador,	 forçou-o	 a	 sair	 da	 frente	 de	 um	 pulo,	 para	 não	 ser
atropelado.	“Aqui,	não	se	 importam	com	nada,	nem	se	derrubarem	a	gente”,	disse
ele.	“É	melhor	você	ficar	mais	perto	de	mim.”
Andaram	 por	 ruas	 como	 aquela,	 por	 algum	 tempo,	 antes	 de	 lhe	 ocorrer	 que
convinha	 dobrar	 mais	 uma	 vez.	 Sem	 pintura,	 a	 madeira	 das	 casas	 pelas	 quais
passavam	 agora	 já	 parecia	 estar	 podre;	 e	 a	 rua	 era	 mais	 estreita.	 Nelson	 viu	 um
homem	de	cor.	E	depois	outro	e	mais	outro.	“São	negros	que	moram	nessas	casas”,
deduziu.
“Bem,	então	vamos,	e	vamos	logo,	para	um	novo	lugar”,	Mr.	Head	disse.	“Não	foi
para	ver	negros	que	nós	viemos	aqui.”	Enveredaram	assim	por	outra	 rua,	embora
continuassem,	por	toda	parte,	a	ver	negros.	Nelson	começou	a	sentir	certa	coceira
na	pele	e	ambos	apertaram	o	passo	para	sair	daquela	área	o	mais	depressa	possível.
Negros	de	camiseta	se	plantavam	às	portas,	negras	se	balançavam	em	despencadas
varandas	 e	 os	 negrinhos	 que	 brincavam	 nas	 sarjetas	 paravam	 o	 que	 estavam
fazendo	 para	 olhar	 para	 eles.	 Dali	 a	 pouco	 eles	 passaram	 por	 uma	 série	 de	 lojas
cujos	 fregueses	 eram	 negros	 também,	 mas	 nessas	 não	 se	 detiveram	 à	 entrada.	 E
iam	sendo	observados	sempre,	de	todas	as	direções,	por	olhos	negros	que	saltavam
de	tantos	negros	semblantes.	“Pois	é”,	Mr.	Head	disse,	foi	aqui	que	você	nasceu	—
bem	no	meio	dessa	negrada	toda.”
Nelson,	franzindo	a	testa,	disse:	“Acho	que	o	senhor	fez	a	gente	se	perder.”
Mr.	 Head,	 numa	 brusca	 meia-volta,	 procurou	 em	 vão	 pela	 cúpula,	 que	 não
avistava	em	parte	alguma.	“Eu	não,	não	fiz	ninguém	se	perder”,	disse.	“É	você	que
está	cansado	de	andar.”
“Cansado	 o	 quê,	 eu	 estou	 é	 com	 fome”,	 disse	 Nelson.	 “Quero	 uma	 bolacha
daquelas.”
Só	aí	se	deram	conta	de	ter	esquecido	o	lanche	no	trem.
“Estava	tudo	com	o	senhor”,	Nelson	disse.	“Eu	teria	tomado	mais	cuidado.”
“Se	você	quer	passar	à	frente,	vou	então	seguir	sozinho	e	te	deixar	aqui	mesmo”,
Mr.	 Head	 disse,	 contente	 por	 ver	 que	 o	 neto,	 com	 isso,	 tinha	 ficado	 branco.
Entretanto,	sabendo	muito	bem	que	de	fato	estavam	perdidos	e	que	assim	à	deriva
se	afastavam	cada	vez	mais	da	estação,	ele	também	já	tinha	fome	e	começava	a	ter
um	pouco	de	sede,	pois	ambos	suavam	muito	desde	o	 ingresso	na	comunidade	de
negros.	 Nelson	 estranhava	 os	 sapatos,	 aos	 quais	 não	 estava	 acostumado,	 e	 o
cimento	 das	 calçadas,	 que	 era	 tão	 duro	 de	 pisar.	 Todos	 dois	 queriam	 agora
encontrar	um	lugar	para	sentar-se,	mas	isso	era	impossível	e	continuaram	andando.
O	neto	sussurrava	consigo:	“Primeiro	ele	perde	o	lanche	e	depois	perde	o	caminho”,
ao	 passo	 que	 o	 avô	 resmungava,	 de	 quando	 em	 quando:	 “Quem	 quer	 mesmo	 ser
daqui,	não	me	amole	e	que	seja	desse	paraíso	de	negros.”
O	sol	já	ia	longe	no	céu	a	essa	altura.	O	cheiro	de	comida	no	fogo	era	trazido	pelo
vento	até	eles.	Todos	os	negros	se	postavam	às	portas	para	vê-los	passar.	“Por	que
não	pergunta	a	um	deles”,	Nelson	disse,	“já	que	o	senhor	fez	a	gente	se	perder?”
“Você	mesmo	pode	perguntar,	se	quiser”,	respondeu	Mr.	Head.	“Você	não	nasceu
aqui?”
Nelson	tinha	medo	dos	negros	e	não	queria	ser	motivo	de	riso	para	as	crianças	de
cor.	 Um	 pouco	 adiante,	 encostada	 numa	 porta	 que	 abria	 para	 a	 calçada,	 ele	 viu
porém	uma	negra	de	corpo	grande	e	viçoso.	Seu	cabelo	se	eriçava	ao	redor	de	toda
a	cabeça,	alteando-se	a	mais	de	dez	centímetros,	e	seus	pés	estavam	descalços	—
pés	que	por	baixo	da	escureza	se	tornavam	lateralmente	rosados.	O	vestido	que	ela
usava,rosa	 também,	 realçava-lhe	 as	 formas.	 Ao	 chegarem	 os	 dois	 à	 sua	 frente,
indolentemente	a	mulher	levou	uma	das	mãos	à	cabeça,	desaparecendo	seus	dedos
pela	cabeleira	abundante.
Nelson	parou.	Sentiu	 sua	 respiração	 ser	 tragada	pelos	 olhos	 da	negra	 e,	 numa
voz	que	não	soou	como	a	dele,	perguntou-lhe:	“Como	se	volta	pra	cidade?”
Ela	esperou	um	pouco	e	disse,	num	tom	grave	e	harmonioso	que	o	envolveu	como
um	borrifo	refrescante	a	despencar	sobre	ele:	“Mas	você	está	na	cidade.”
“Como	se	volta	pra	pegar	o	trem?”,	disse	ele	na	mesma	voz	esganiçada.
“Você	pode	ir	de	bonde”,	disse	ela.
Ele	achou	que	ela	 estava	 caçoando	dele,	mas	 sentia-se	 tão	paralisado	que	nem
sequer	 pôde	 fazer	 cara	 feia.	 Absorvia,	 ali	 plantado,	 cada	 detalhe	 da	 mulher.
Percorreu-lhe	o	corpo	com	os	olhos,	que	dos	seus	grandes	joelhos	subiram	até	o	alto
da	 testa,	 para	 a	 seguir	 descerem	 em	 triangulação	 por	 ali,	 indo	 do	 suor	 que	 lhe
brilhava	ao	pescoço	para	transpor	o	busto	avantajado,	chegar	à	parte	de	trás	de	um
dos	seus	braços	desnudos	e	afinal	desembocar	onde	os	dedos,	enfiados	no	cabelo,	se
mantinham	ocultos.	Um	súbito	desejo	o	invadiu;	e	ele	quis	que	ela	se	abaixasse,	que
o	pegasse	no	colo,	que	o	apertasse	bem	contra	si,	ansiando	por	tê-la	a	respirar	em
seu	rosto.	Queria	olhar	nos	olhos	dela,	e	olhar	cada	vez	mais	 fundo,	como	por	ela
queria	ser	agarrado,	cada	vez	com	mais	força.	Nunca	ele	havia	sentido	nada	assim,
sentindo-se	 agora	 como	 que	 em	 vertiginosa	 caída	 por	 um	 poço	 tão	 negro	 como	 o
breu.
“É	só	descer	para	lá,	mais	uma	quadra,	e	pegar	o	bonde	que	te	leva	à	estação	de
trem,	meu	amorzinho”,	ela	disse.
Nelson	teria	desabado	a	seus	pés,	se	Mr.	Head,	com	aspereza,	não	o	puxasse	logo
dali.	“Até	parece	que	você	perdeu	o	juízo!”,	grunhiu	o	velho.
Precipitaram-se	 então	 rua	 abaixo,	 mas	 Nelson	 não	 se	 virou	 para	 ainda	 olhar	 a
mulher.	Em	vez	disso,	pôs	seu	chapéu	bem	para	a	frente,	de	modo	a	encobrir-lhe	o
rosto,	que	 já	ardia	de	vergonha.	O	fantasma	zombeteiro	por	ele	visto	na	 janela	do
trem	e	todos	os	pressentimentos	que	havia	tido	a	caminho	lhe	voltaram,	levando-o	a
se	 lembrar	 do	 que	 dizia	 seu	 papelzinho	 da	 balança,	 para	 ele	 se	 precaver	 contra
mulheres	 de	 cor,	 e	 do	 que	 estava	 no	 do	 avô,	 descrito	 como	 corajoso	 e	 correto.
Agarrou-se	 pois	 à	 mão	 do	 velho,	 numa	 demonstração	 de	 dependência	 a	 que
raramente	se	dava.
Foram	 descendo	 a	 mesma	 rua	 até	 os	 trilhos	 do	 bonde,	 por	 onde	 já	 vinha	 um
deles,	amarelo	e	comprido,	a	chocalhar.	Mr.	Head,	que	nunca	tinha	andado	naquilo,
deixou	o	bonde	passar.	Nelson	estava	quieto.	Sua	boca,	de	vez	em	quando,	 tremia
um	 pouco,	 mas	 o	 avô,	 preocupado	 com	 seus	 próprios	 problemas,	 não	 lhe	 dava
atenção.	De	pé	na	esquina,	nenhum	dos	dois	olhava	para	os	passantes	negros,	que
estavam	indo	cuidar	de	seus	negócios	como	se	fossem	brancos,	mas	que	paravam	de
repente,	 quase	 todos,	 para	 espiá-los	 ali.	 Como	 o	 bonde	 corria	 em	 trilhos,	 pensou
então	Mr.	Head,	havia	uma	solução	muito	simples.	E	ele	explicou	a	Nelson,	dando-
lhe	um	empurrãozinho,	que	iriam	seguir	os	trilhos	a	pé,	e	lá	se	foram,	até	a	estação
de	trem.
Dali	 a	 pouco,	 para	 alívio	 dos	 dois,	 começaram	 a	 ver	 pessoas	 brancas	 de	 novo.
“Tenho	 de	 descansar	 um	 instante”,	 disse	 Nelson,	 encostando-se	 na	 parede	 de	 um
prédio	 para	 se	 sentar	 na	 calçada.	 “Como	 o	 senhor	 perdeu	 o	 lanche	 e	 errou	 o
caminho,	não	custa	nada,	agora,	esperar	que	eu	me	refaça.”
“Os	trilhos	estão	aí,	bem	na	nossa	frente”,	Mr.	Head	disse.	“Tudo	o	que	temos	a
fazer	 é	 não	 perdê-los	 de	 vista.	 Quanto	 ao	 lanche,	 você	 também	 podia	 ter	 se
lembrado,	tanto	quanto	eu.	Você	não	nasceu	aqui?	Então,	esta	cidade	é	a	sua	terra
natal.	Você	devia	saber	o	que	é	preciso	fazer,	já	que	é	a	segunda	vez	que	vem	cá.”
Agachando-se,	 ele	 continuou	 nessa	 linha.	 Mas	 o	 menino,	 tirando	 os	 sapatos	 para
desafogar	os	pés	que	ardiam,	não	lhe	deu	resposta	alguma.
“E	 ainda	 por	 cima	 arreganhando	 os	 dentes	 como	 um	 chimpanzé	 para	 aquela
negra	que	te	ensinava	o	caminho.	Meu	Deus!”,	disse	Mr.	Head.
“Nunca	falei	nada	de	mais,	só	que	nasci	aqui”,	disse	o	menino	com	a	voz	trêmula.
“Nunca	falei	se	ia	gostar	ou	não	da	cidade,	nem	que	queria	vir.	Falei	que	nasci	aqui
e	pronto,	não	tive	nada	a	ver	com	isso.	Quero	ir	para	casa.	Eu	não	queria	mesmo	vir,
a	ideia,	grande	ideia,	foi	sua.	E	como	é	que	o	senhor	sabe	que	não	está	seguindo	os
trilhos	na	direção	errada?”
Tal	hipótese	já	ocorrera	a	Mr.	Head	também.	“Todas	essas	pessoas	são	brancas”,
ele	disse.
“Nós	 não	 passamos	 por	 aqui	 antes”,	 disse	 Nelson.	 Achavam-se	 numa	 área
residencial,	cujas	casas	de	alvenaria	poderiam	ou	não	ser	habitadas.	Junto	ao	meio-
fio,	 havia	uns	poucos	 automóveis	 parados,	 e	 os	 transeuntes	por	 ali	 eram	 raros.	O
calor	 que	 subia	 da	 calçava	 traspassava	 o	 terno	 ralo	 de	Nelson.	 Suas	 pálpebras	 já
iam	baixando,	 e	 a	 cabeça	 só	 precisou	 de	 uns	minutos	 para	 tombar	 para	 a	 frente.
Seus	ombros	se	contraíram,	uma	ou	duas	vezes,	e	depois	o	corpo	exausto	 tombou
inteiro	de	lado,	esparramando-se	na	entrega	a	um	longo	espasmo	de	sono.
Mr.	 Head	 observou-o	 em	 silêncio.	 Ele	 também	 estava	 muito	 cansado,	 mas	 não
podiam	dormir	ao	mesmo	tempo.	A	ele,	aliás,	não	convinha	dormir	de	modo	algum,
pois	não	sabia	onde	se	achava.	Nelson	iria	acordar	em	breve,	revigorado	pelo	sono,
petulante	outra	vez,	e	logo	voltaria	a	acusá-lo	de	perder	o	lanche	e	errar	o	caminho.
Ah,	se	eu	não	estivesse	aqui,	pensou	Mr.	Head,	quanto	aperto	você	passaria!	Uma
nova	 ideia	 lhe	 ocorreu	 a	 seguir	 e	 por	 algum	 tempo	 ele	 ficou	 olhando	 a	 figura
estatelada	no	chão,	antes	de	se	reerguer.	Justificava	o	que	ia	fazer	dizendo-se	que	às
vezes	 era	 preciso	 dar	 a	 uma	 criança	 uma	 lição	 da	 qual	 ela	 jamais	 se	 esquecesse,
sobretudo	quando	a	criança	era	useira	e	vezeira	em	se	afirmar	com	insolências.	Pé
ante	pé,	andou	pois	até	a	esquina,	sem	fazer	o	menor	barulho,	e	na	entrada	de	um
beco	 sentou-se	num	 latão	de	 lixo	 tampado,	 onde	 ficou	 à	 espreita	para	 ver	Nelson
acordar	sozinho.
O	garoto	tirava	uma	soneca	 inquieta,	consciente	em	parte	de	ruídos	vagos	e	de
formas	negras	que	provinham	de	alguma	obscuridade	em	si	mesmo	para	ascender	à
luz.	Seu	rosto	se	contorcia	no	sono,	e	ele	se	encolhera	de	todo,	com	os	joelhos	quase
no	queixo.	Na	rua	estreita,	fria	e	frouxa	era	a	luz	que	o	sol	lançava;	tudo	parecia	ser
exatamente	 o	 que	 era.	 Mr.	 Head,	 curvado	 como	 um	 macaco	 velho	 na	 tampa	 da
lixeira,	 decidiu	 que,	 se	 Nelson	 custasse	 muito	 a	 acordar,	 ele	 iria	 fazer-lhe	 uma
zoeira	das	boas,	batendo	com	os	pés	na	lata.	Viu,	consultando	seu	relógio,	que	eram
duas	 horas	 agora.	 Seu	 trem	 partiria	 às	 seis,	 e	 a	 possibilidade	 de	 o	 perder	 o
horrorizava	 a	 tal	 ponto	 que	 ele	 nem	 quis	 aventá-la.	 Em	 vez	 disso,	 logo	 usou	 o
calcanhar	para	dar	uma	pezada	na	lata,	e	o	estrondo	reverberou	pelo	beco.
Nelson,	com	um	grito,	pulou	em	pé.	E	olhou,	pasmo,	para	onde	deveria	estar	o
avô.	Digamos	que	rodopiou	várias	vezes	antes	de	unir	ambos	os	pés	em	galope,	pois
disparou	pela	rua	como	um	potro	bravo	enfurecido,	com	a	cabeça	jogada	para	trás.
Mr.	 Head	 galopou	 atrás	 dele,	 saltando	 célere	 da	 lata,	 mas	 o	 menino	 já	 sumia	 de
vista.	Uma	quadra	adiante	ele	enxergou	qualquer	coisa:	um	mero	vestígio	cinza,	que
em	diagonal	se	desfez.	O	velho	correu	o	quanto	pôde,	olhando	para	todos	os	lados	a
cada	novo	cruzamento,	mas	nem	sinal	de	seu	neto.	Por	fim,	ao	passar	pela	terceira
esquina,	 já	completamente	sem	fôlego,	viu	a	meio	quarteirão	rua	abaixo	uma	cena
que	 o	 fez	 paralisar-se.	 Abaixou-se	 por	 trás	 de	 outra	 lixeira,	 a	 fim	 de	 observar	 e
esperar,	para	saber	como	procederia.
Era	Nelson	que	estava	ali	 caído	no	 chão,	 com	as	pernas	em	desalinho,	 e	 a	 seu
lado	jazia,	aos	berros,	uma	senhora	 idosa.	Pela	calçada	se	espalhavam	as	compras
de	 alguns	 pacotes	 desfeitos.	 Um	 monte	 de	 mulheres	 já	 se	 aglomerava	 ao	 redor,exigindo	 que	 se	 fizesse	 justiça,	 e	 Mr.	 Head	 pôde	 ouvir	 muito	 bem	 o	 que	 a	 velha
derrubada	gritava	lá	de	onde	estava:	“Você	quebrou	meu	tornozelo,	seu	pai	vai	ter
de	pagar!	Polícia!	Polícia!	E	vai	ter	de	pagar	tudo!”	Muitas	das	mulheres	pegavam
Nelson	pelo	ombro,	mas	o	menino	parecia	zonzo	demais	para	se	levantar.
Mr.	Head	sentiu	que	alguma	força	o	 impelia	a	sair	de	trás	da	 lixeira,	mas	a	um
passo	 muito	 arrastado.	 Nunca	 na	 vida	 ele	 tivera	 nada	 a	 ver	 com	 a	 polícia.	 O
mulherio	 rodava	em	 torno	de	Nelson,	 como	que	pronto	 a	 se	 atirar	 sobre	 ele	para
fazê-lo	 em	 pedaços,	 e	 a	 velhota	 insistia	 em	 dizer	 que	 estava	 com	 o	 tornozelo
quebrado	e	clamava	por	um	guarda.	Mr.	Head	se	aproximou	tão	lentamente	que	era
como	se	a	cada	passo	dado	ele	recuasse	outro	tanto.	Nelson	contudo	o	viu,	quando	o
avô	já	estava	a	uns	três	metros,	e	de	um	pulo	o	agarrou	pelas	pernas	para,	ofegante,
ali	manter-se	grudado.
O	mulherio	se	voltou	então	contra	o	velho,	e	a	que	tinha	se	machucado	sentou-se
para	continuar	reclamando:	“O	senhor	vai	ter	de	pagar	a	conta	do	médico,	pois	foi
seu	filho	que	fez	isso	comigo.	Chamem	um	guarda,	por	favor,	que	esse	rapaz	é	um
delinquente!	E	anotem	nome	e	endereço	do	responsável	por	ele!”
Mr.	 Head	 tentava	 se	 livrar	 das	 mãos	 de	 Nelson,	 cujos	 dedos	 lhe	 apertavam	 a
carne	da	barriga	da	perna.	A	cabeça	do	velho,	 retraída	como	a	de	uma	tartaruga,
encolhia-se	 no	 colarinho,	 e	 um	 brilho	 vítreo	 de	 cautela	 e	 medo	 se	 estampava	 em
seus	olhos.
“Seu	filho	quebrou	meu	tornozelo!”,	insistia	a	velha.	“Polícia!”
Mr.	Head,	ao	achar	que	um	guarda	vinha	chegando	por	trás,	postou-se	a	encarar
as	 mulheres	 ajuntadas	 em	 massa,	 como	 sólida	 muralha,	 para	 impedir	 que	 ele
fugisse.	“Nunca	vi	esse	garoto	na	vida”,	disse.	“Ele	não	é	meu	filho	não.”
E	sentiu	os	dedos	de	Nelson	a	despencar	de	sua	carne.
As	mulheres	recuaram,	olhando-o	horrorizadas,	como	se	aquele	homem	capaz	de
negar	sua	própria	imagem	e	semelhança	lhes	causasse	tanta	aversão	que	elas	nem
admitiriam	a	hipótese	de	meter-lhe	as	mãos	em	cima.	Mr.	Head	então	saiu	andando,
por	um	espaço	silenciosamente	aberto	por	elas,	e	deixou	Nelson	para	trás.	Nada	via
à	sua	frente,	a	não	ser	o	túnel	cavernoso	que	antes	havia	sido	uma	rua.
O	 menino	 permaneceu	 ali	 mesmo,	 com	 as	 mãos	 largadas	 a	 escorrer	 junto	 ao
corpo	 e	de	pescoço	 espichado.	Seu	 chapéu	estava	 tão	 apertado	na	 cabeça	que	os
vincos	 já	 não	 se	 viam.	 A	 mulher	 machucada	 levantou-se	 e	 de	 punho	 cerrado	 o
ameaçou,	 enquanto	 as	 outras	 agora	 o	 olhavam	 com	 certa	 pena,	 se	 bem	 que	 ele
mesmo	nem	desse	pela	sua	presença.	Na	realidade,	não	havia	guarda	nenhum	por
perto.
Logo	 porém	ele	 passou	 a	 se	mover	mecanicamente,	 sem	 fazer	 nenhum	esforço
para	 alcançar	 o	 avô.	 Limitava-se	 a	 segui-lo	 a	 muitos	 passos	 de	 distância,	 e	 desse
modo	 transpuseram	 cinco	 quarteirões.	 Mr.	 Head,	 de	 ombros	 bambos,	 tinha	 o
pescoço	tão	dobrado	para	a	frente	que	era	impossível	avistá-lo	por	trás.	O	medo	o
impedia	de	virar	a	cabeça.	Mas	ele	enfim	se	atreveu	a	um	olhar	de	relance,	rápido	e
esperançoso.	Vinte	passos	atrás	viu	dois	olhinhos	que	se	cravavam	como	os	dentes
de	um	garfo	em	suas	costas.
A	natureza	do	menino	não	era	dada	ao	perdão,	sendo	essa	a	primeira	vez	que	lhe
cabia	 perdoar	 qualquer	 coisa.	 E	 Mr.	 Head	 jamais	 se	 desonrara.	 Após	 mais	 dois
quarteirões,	 virou-se	 pois	 e	 gritou	 por	 cima	 do	 ombro,	 num	 tom	 de	 desesperada
alegria:	“Vamos	tomar	uma	Coca-Cola	nalgum	lugar	por	aí!”
Nelson,	 virando-se	 também,	 com	uma	dignidade	que	nunca	 demonstrara	 antes,
ficou	de	costas	para	o	avô.
Mr.	 Head	 começou	 a	 sentir	 a	 profundidade	 de	 sua	 rejeição.	 Retomada	 a	 longa
andança,	em	todo	o	seu	rosto	cavo	se	acentuavam	as	rugas.	Nada	ele	via,	por	onde
iam	 passando,	 muito	 embora	 notasse	 que	 tinham	 perdido	 os	 trilhos	 do	 bonde.	 A
tarde	 caía,	 mas	 também	 não	 se	 encontrava,	 em	 parte	 alguma,	 o	 menor	 sinal	 da
cúpula.	Se	a	escuridão	os	surpreendesse	na	cidade,	bem	sabia	ele	que	poderiam	ser
vitimados	por	ladrões	e	malfeitores.	Para	si	mesmo,	contava	apenas	com	a	presteza
da	justiça	de	Deus,	mas	não	podia	suportar	a	ideia	de	Nelson	ser	castigado	por	seus
próprios	pecados	e	de	ser	ele	quem	agora	o	levava	à	perdição.
Continuaram	a	andar	quadra	após	quadra,	por	uma	área	de	 casinhas	de	 tijolos
que	jamais	tinha	fim,	até	Mr.	Head	quase	levar	um	tombo	ao	tropeçar	no	esguicho
de	 um	 gramado	 que	 estava	 muito	 na	 beira,	 como	 um	 ressalto	 de	 seus	 quinze
centímetros.	Desde	cedo,	nem	sequer	um	gole	d’água	ele	tinha	bebido,	mas	não	se
julgou	merecedor	disso	agora.	Depois,	ao	pensar	que	Nelson	devia	estar	com	sede
também,	achou	que	os	dois,	bebendo	juntos,	logo	poderiam	voltar	às	boas.	Agachou-
se	então	e	meteu	a	boca	no	esguicho,	deixando	que	um	jato	frio	lhe	descesse	goela
abaixo,	e	a	seguir	chamou	o	neto,	com	uma	voz	desesperadamente	alta:	“Vem	beber
um	pouco	d’água!”
A	 criança	 o	 olhou	 fixamente,	 desta	 vez,	 por	 quase	 todo	 um	 minuto.	 Mr.	 Head,
como	se	fosse	veneno	o	que	tivesse	tomado,	reergueu-se	e	andou	em	frente.	Nelson,
apesar	de	não	beber	desde	o	 trem,	quando	num	copo	de	papel	 sorvera	uns	goles,
passou	direto	pelo	 esguicho,	 desdenhoso	de	 curvar-se	na	mesma	água	do	 avô.	Ao
perceber	 isso,	Mr.	Head	perdeu	toda	a	esperança.	À	 luz	da	tarde	em	declínio,	sua
desolação	 e	 desamparo	 eram	 visíveis	 no	 rosto.	 Podia	 sentir	 o	 inabalável	 ódio	 do
garoto,	que	 sem	mudar	de	passo	o	 seguia,	 e	 sabia	que	aquele	 sentimento	 (se	por
milagre	escapassem	de	ser	mortos	na	cidade)	perduraria	tal	e	qual	por	todo	o	resto
da	vida.	Sabia	também	que	agora	ele	ia	ao	léu	por	uma	estranha	e	obscura	paragem
onde	nada	voltaria	a	ser	como	era,	uma	prolongada	velhice	sem	respeito	e	um	fim
que	só	seria	bem-vindo	por	ser	o	termo	de	tudo.
Quanto	a	Nelson,	sua	mente	se	fixara,	congelando-se,	na	traição	do	avô,	como	se
ele	 quisesse	 preservá-la	 intacta	 para	 apresentá-la	 no	 Juízo	 Final.	 Se	 o	 menino
andava	 sem	 olhar	 para	 os	 lados,	 de	 vez	 em	 quando	 porém	 lhe	 vinha	 à	 boca	 um
esgar;	 nesse	momento	 ele	 sentia	 a	 presença	 de	 uma	misteriosa	 forma	negra	 que,
alçando-se	de	algum	remoto	lugar	dentro	de	si,	parecia	vir	disposta	a	agarrá-lo	para
derreter	com	calor	sua	visão	congelada.
O	sol	baixou	por	trás	de	uma	fileira	de	casas	e,	mal	percebendo,	os	dois	entraram
num	 bairro	 chique	 e	 distante	 cujas	 mansões	 muito	 afastadas	 da	 rua	 eram
precedidas	por	gramados	e	lagos	para	atrair	passarinhos.	Tudo	ali	se	mostrava	tão
deserto	 que	 nem	 mesmo	 um	 cachorro	 por	 várias	 quadras	 eles	 puderam	 ver.	 As
enormes	 casas	 brancas	 pareciam	 icebergs	 ao	 longe,	 imersos	 parcialmente.	 Não
havia	 calçadas,	 apenas	 entradas	 para	 carros,	 e	 essas	 faziam	 curvas	 incríveis,
compondo	 intermináveis	 e	 ridículos	 círculos.	 Como	 Nelson	 não	 se	 movia	 para
chegar	mais	perto	do	avô,	o	velho	chegou	a	achar	que,	se	desse	com	algum	bueiro
de	 esgoto,	 bem	 seria	 capaz	 de	 pular	 dentro	 para	 se	 deixar	 arrastar;	 e	 em	 sua
imaginação	punha	o	menino	ao	lado,	a	observá-lo	sem	maior	interesse	enquanto	ele
sumia	de	vista.
Um	 latido,	 e	 era	 um	 latido	 forte,	 despertou-lhe	 a	 atenção.	 Um	 gordão	 se
aproximava,	com	dois	buldogues.	Como	um	náufrago	numa	 ilha	deserta,	Mr.	Head
lhe	acenou	com	os	dois	braços.	“Estou	perdido!”,	gritou.	“Estou	perdido,	não	acho
meu	 caminho.	 Eu	 e	 esse	 menino	 temos	 de	 pegar	 um	 trem,	 e	 não	 sei	 mais	 como
chegar	à	estação.	Oh,	meu	Deus,	estou	perdido!	Por	favor	me	ajude!”
O	 homem,	 que	 usava	 roupa	 de	 golfe	 e	 era	 careca,	 perguntou-lhe	 que	 trem	 ele
precisava	 pegar.	 Mr.	 Head	 procurou	 pelas	 passagens,	 mas	 tremia	 tanto	 que	 mal
conseguiu	mostrá-las.	Nelson	afinal	se	achegara	e,	a	menos	de	cinco	metros,	ficou
ali	a	observar.
“Bem”,	disse	o	gordo,	devolvendo-lhe	as	passagens,	“já	não	dá	mais	para	voltar
ao	 centro,	 mas	 vocês	 podem	 embarcar	 na	 parada	 da	 periferia,	 queé	 a	 três
quarteirões	daqui”,	e	começou	a	explicar	como	chegar	até	lá.
Era	 como	 se	 Mr.	 Head,	 pela	 cara	 que	 fez,	 retornasse	 aos	 poucos	 de	 entre	 os
mortos.	 Quando	 o	 homem	 terminou	 e	 se	 foi,	 com	 os	 cachorros	 pulando	 em	 suas
pernas,	ele	se	virou	para	Nelson	e,	ofegante,	disse-lhe:	“Vamos	conseguir	chegar	em
casa.”
O	 menino,	 de	 rosto	 exangue	 sob	 o	 chapéu	 cinza,	 achava-se	 agora	 ainda	 mais
perto.	 Mas	 achava-se	 ali	 e	 isso	 era	 tudo:	 não	 havendo	 emoção	 nem	 luz,	 nem
qualquer	demonstração	de	interesse,	nos	seus	olhos	triunfalmente	frios,	resumia-se
a	ser	uma	figurinha	à	espera.	Casa,	para	ele,	não	significava	mais	nada.
Mr.	Head	se	mexeu	lentamente.	Supunha	agora	saber	como	seria	o	tempo	sem	as
estações,	como	seriam	o	calor	sem	a	luz	e	o	homem	sem	a	salvação.	Já	nem	ligava
muito	para	alcançar	o	trem,	e	se	não	fosse	por	algo	que	bruscamente	lhe	despertou
a	atenção,	 como	um	grito	na	escuridão	que	aumentava,	poderia	até	esquecer	que
havia	uma	estação	para	onde	estava	indo.
Não	 tinha	 andado	 nem	 quinhentos	 metros,	 descendo	 a	 rua,	 quando	 viu	 ao	 seu
alcance	a	estátua	em	gesso	de	um	negro,	pousada	numa	mureta	de	tijolos,	baixa	e
amarela,	 que	 circundava	 um	 amplo	 gramado.	 O	 negro	 era	 quase	 do	 tamanho	 de
Nelson	e	se	inclinava	para	a	frente	numa	curvatura	arriscada,	porque	a	massa	que	o
prendia	 ao	 murinho	 estava	 cheia	 de	 rachas.	 Um	 dos	 seus	 olhos	 era	 branco,	 todo
branco,	sendo	escura,	bem	escura,	a	fatia	de	melancia	que	ele	tinha	na	mão.
Mr.	 Head	 ficou	 olhando	 para	 a	 estátua	 em	 silêncio,	 até	 Nelson	 parar,	 já	 muito
perto.	Quando	os	dois	ali	se	postavam,	ele	então	sussurrou:	“Um	negro	artificial.”
Era	impossível	dizer	que	pretensão	o	criara,	se	o	negro	artificial	seria	jovem	ou
velho,	 pois	 ele	 se	 mostrava	 desditoso	 demais	 para	 ser	 isso	 ou	 aquilo.	 Tinham
querido,	sim,	que	parecesse	feliz:	sua	boca	se	repuxava	para	cima	nos	cantos,	mas	o
olho	lascado	e	o	ângulo	no	qual	se	assentava	davam-lhe	um	ar	de	atroz	desgraça,	e
não	de	felicidade.
“Um	negro	artificial”,	repetiu	Nelson,	bisando	o	tom	de	Mr.	Head.
De	 pescoço	 espichado	 quase	 na	 mesma	 posição,	 de	 ombros	 caídos	 quase	 do
mesmo	 modo,	 e	 ambos	 de	 mãos	 nos	 bolsos,	 tremendo	 identicamente,	 lá	 se
detiveram	os	dois.	O	avô,	como	uma	criança	vivida;	o	neto,	como	miniatura	de	um
velho.	 Ficaram	 contemplando	 o	 negro	 artificial	 como	 se	 se	 defrontassem	 com	 um
grande	mistério,	com	um	monumento	à	vitória	de	alguém	que	afinal	os	punha	juntos
na	 derrota	 em	 comum.	 Aquela	 estátua,	 agora,	 dissolvia	 suas	 diferenças,	 e	 ambos
podiam	sentir	isso	como	se	fosse	um	favor	do	céu.	Mr.	Head	jamais	soubera	qual	o
sabor	da	misericórdia,	pois	que	sempre	havia	sido	bom	demais	para	merecê-la,	mas
julgava-se	agora	em	condições	de	prová-lo.	Olhando	para	Nelson,	ele	entendeu	que
deveria	dizer	alguma	coisa	ao	menino,	para	mostrar	que	ainda	tinha	sensatez,	e	no
olhar	que	 lhe	 foi	 retribuído	pôde	ver	em	seu	neto	uma	necessidade	ansiosa	dessa
garantia.	Os	olhos	de	Nelson,	com	efeito,	pareciam	lhe	implorar	que	explicasse,	e	de
uma	vez	para	sempre,	todo	o	mistério	da	existência.
Mr.	Head	abriu	a	boca	para	 fazer	uma	declaração	grandiosa	e	apenas	 se	ouviu
dizendo:	 “Como	 se	 os	 verdadeiros	 não	 bastassem,	 ainda	 cismaram	 de	 ter	 um
artificial.”
No	instante	seguinte,	o	menino	balançou	a	cabeça,	com	um	tremor	estranho	nos
lábios,	e	disse:	“Vamos	logo	pra	casa,	antes	da	gente	se	perder	outra	vez.”
Ao	 alcançarem	 a	 parada	 fora	 do	 centro,	 o	 trem	 já	 vinha	 chegando	 e	 os	 dois
rapidamente	 embarcaram.	 Dez	 minutos	 antes	 do	 horário	 previsto	 para	 o
entroncamento,	foram	juntos	para	a	porta,	prontos	a	pular	de	qualquer	jeito	caso	ele
não	parasse;	o	trem	no	entanto	parou,	bem	quando	a	lua,	restaurando-se	em	todo	o
seu	 esplendor,	 saía	 de	 dentro	 de	 uma	 nuvem	 para	 banhar	 de	 luar	 o	 descampado.
Quando	eles	pisaram	no	chão,	o	capim	tremulava	em	tons	de	prata	e	nos	calhaus	a
seus	 pés	 já	 coruscava	 uma	 luz	 negra	 e	 viçosa.	 Os	 cimos	 das	 árvores,	 rodeando	 o
entroncamento	como	os	muros	de	proteção	de	um	jardim,	estavam	mais	escuros	que
o	céu,	onde	gigantescas	nuvens	brancas	pendiam	cheias	de	luz	como	lanternas.
Mr.	 Head,	 que	 se	 mantinha	 muito	 quieto,	 sentiu-se	 novamente	 tocado	 pela
misericórdia	 divina,	 mas	 sabendo	 dessa	 vez	 que	 no	 mundo	 não	 havia	 palavras
capazes	 de	 designá-la.	 Compreendeu	 que	 ela	 provinha	 da	 agonia,	 que	 a	 homem
nenhum	 se	 nega	 e	 que	 às	 crianças	 se	 revela	 das	 mais	 estranhas	 maneiras.
Compreendeu	que	sua	ação	era	tudo	que	alguém	pode	levar	para	a	morte	e	ofertar	a
seu	 Criador,	 ardendo	 bruscamente	 de	 vergonha	 por	 possuir	 tão	 pouco	 disso	 para
levar	 consigo.	 Julgando-se	 pela	 meticulosidade	 de	 Deus,	 mantinha-se	 estarrecido,
enquanto	a	ação	da	misericórdia	aderia	como	chama	a	seu	orgulho	e	o	queimava.	Se
jamais	 se	 tomara	 por	 grande	 pecador,	 via	 agora	 entretanto	 que	 sua	 corrupção
verdadeira	 só	 lhe	 fora	 ocultada	 para	 não	 lhe	 causar	 desespero.	 Deu-se	 conta	 de
estar	sendo	perdoado	por	pecados	que	vinham	do	começo	dos	tempos,	quando	ele
mesmo	concebera	no	seu	próprio	coração	o	de	Adão,	até	a	hora	presente,	quando
havia	negado	o	pobre	Nelson.	Viu	que	nenhum	pecado	era	monstruoso	demais	para
ele	reclamar	como	seu	e,	já	que	Deus	amava	na	mesma	proporção	em	que	perdoava,
sentiu-se	pronto,	naquele	instante,	a	ingressar	no	paraíso.
Nelson,	 contendo	 toda	expressão	à	 sombra	de	 seu	próprio	 chapéu,	 observava-o
com	 um	 misto	 de	 suspeição	 e	 fadiga.	 Porém,	 quando	 o	 trem	 passou	 por	 eles	 e
desapareceu	mata	adentro	qual	serpente	assustada,	seu	rosto	também	se	iluminou,
e	ele	disse	baixinho:	“De	ir	uma	vez,	até	gostei,	mas	nunca	mais	eu	volto	lá!”

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