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O NEGRO ARTIFICIAL Mr. Head acordou e descobriu que o luar tinha inundado o quarto. Sentou-se na cama e olhou as tábuas do assoalho — cor de prata — e depois o pano do travesseiro, provavelmente de brocado, e no mesmo instante viu metade da lua no seu espelho de barba, a poucos passos, ali parada como que à espera de permissão para entrar. A luz que ela lançava, ao mover-se para a frente, dava dignidade a tudo. A cadeira reta à parede parecia decidida e atenta, como se aguardasse uma ordem, e a calça de Mr. Head, dobrada no espaldar, tinha um ar quase nobre, como o das roupas que são jogadas aos servos por grandes homens. O semblante da lua era porém sisudo. E ela transpunha todo o quarto com seu olhar, para ir se lançar pela janela; sobre a cocheira, flutuava como se contemplasse a si mesma com a expressão de um jovem que vê sua velhice à frente. Mr. Head lhe poderia ter dito que ter idade é uma bênção e que só com o passar dos anos um homem alcança a tranquila compreensão de vida que o torna um guia apropriado aos mais jovens. Essa, pelo menos, tinha sido sua experiência. Sentando-se, ele se apoiou na guarda de ferro da cama e ergueu-se um pouco, para ver o despertador colocado sobre um balde emborcado ao lado da cadeira. Eram duas da madrugada. O alarme do despertador não funcionava, mas ele, para acordar, não dependia de nenhum meio mecânico. Seus reflexos estavam bons, não haviam entorpecido com os sessenta anos. Suas reações físicas, como as de ordem moral, eram comandadas por sua força de vontade e por um rijo caráter, ambos claramente visíveis em sua fisionomia. Tinha o rosto comprido como um tubo, o queixo comprido e arredondado e o nariz para baixo, mas comprido também. Nos olhos, atentos porém tranquilos, um quê de autocontrole e milenar sabedoria, como se aqueles olhos fossem de um grande vulto da humanidade. Bem que ele poderia ser Virgílio, chamado em plena noite para atender a Dante, ou então Rafael, acordado por um facho de luz divina para ir se pôr ao lado de Tobias. A única coisa escura no quarto era a caminha de Nelson, embaixo da sombra da janela. Nelson, de lado, estava todo encolhido, com os joelhos no queixo e os calcanhares na bunda. Seu terno novo e o chapéu continuavam nas caixas em que haviam chegado, as quais se achavam no chão, ao pé da cama, para que assim ele as tivesse ao alcance das mãos quando acordasse. O urinol, fora da zona de sombra e branco como a neve ao luar, parecia protegê-lo como um anjinho da guarda. Mr. Head se esticou de novo na cama, sentindo plena confiança de que cumpriria a contento a missão moral programada para o dia vindouro. Queria se levantar antes de Nelson para já estar com o café quase pronto na hora em que ele acordasse. O garoto sempre se aborrecia quando era Mr. Head quem se levantava primeiro. Teriam de sair de casa às quatro, para estar no entroncamento por volta das cinco e meia. O trem chegaria às cinco e quarenta e cinco, e não podiam se atrasar, pois era só para apanhá-los que faria parada ali. Era a primeira vez que o menino iria à cidade, embora ele alegasse ser a segunda, já que tinha nascido lá. Mr. Head procurou convencê-lo de que ao nascer lhe faltava inteligência para determinar onde estava, mas isso não lhe causou impressão, e o menino continuou insistindo que seria a segunda. No caso de Mr. Head, era a terceira ida à cidade. Nelson tinha dito: “Já estive lá duas vezes e tenho apenas dez anos.” Mr. Head não concordou. “Como o senhor vai conseguir andar por lá sem se perder, se há quinze anos não põe os pés na cidade?”, Nelson perguntou. “Não acha que tudo deve ter mudado bastante?” “Algum dia”, perguntou Mr. Head, “você já viu eu me perder?” Nelson, por certo, não. Porém, por ser uma criança que nunca ficava satisfeita antes de dar uma resposta atrevida, mesmo assim retrucou: “Aqui não tem onde se perder.” “Há de chegar o dia”, profetizou Mr. Head, “em que você vai descobrir que não é assim tão sabido quanto acha que é.” Durante meses ele pensou nessa viagem, tendo-a concebido principalmente em termos morais, para que fosse uma lição da qual o menino nunca mais se esquecesse. Queria que a experiência lhe ensinasse que o fato de ter nascido na cidade, por si só, não deveria constituir para ele um particular motivo de orgulho; e que ele aprendesse que a cidade não era lá essas coisas. Mr. Head pretendia que Nelson, após ver tudo o que existe para ver na cidade, não se indignasse com a ideia de passar o resto da vida onde morava. E ele estava pensando, quando voltou a pegar no sono, em como iria o menino descobrir afinal que não era tão sabido quanto ele mesmo se achava. Foi acordado às três e meia por um cheiro de bacon frito que logo o fez pular da cama. Na cama de Nelson não havia ninguém, e as caixas de roupas estavam todas abertas. Ele vestiu a calça e correu para o outro cômodo. O menino, fritado o bacon, agora tinha um pão de milho no forno. Sentava-se à mesa, na semiescuridão, tomando café frio na lata, e estava com o terno novo e o novo chapéu cinzento a lhe cair sobre os olhos. Era grande para ele, mas de propósito tinham encomendado de um tamanho maior, ante a expectativa de que sua cabeça ainda viesse a crescer. Se nada falou, toda a sua figura dava entretanto a entender a satisfação que ele sentia por se ter levantado antes de Mr. Head. Mr. Head foi até o fogão, trouxe o bacon para a mesa, na frigideira, e disse: “Não precisa se apressar. Chegar lá, você chega logo. Se vai gostar é que são outras, isso ninguém garante.” Depois, sentou-se diante do menino, cujo chapéu subiu um pouco para revelar um rosto violentamente desprovido de emoção, muito semelhante, pelo formato, ao do velho. Eram avô e neto, embora fossem tão parecidos que poderiam ser irmãos, e irmãos não muito distantes pela idade, pois Mr. Head, à luz do dia, tinha uma expressão jovial, enquanto a do menino era uma cara vetusta, como se, já sabendo de tudo, ele quisesse se esquecer do que sabia. Mr. Head tinha tido, noutros tempos, mulher e filha. Quando sua esposa morreu, a filha fugiu de casa e, após o necessário intervalo, voltou com Nelson nos braços. Ao morrer também, certa manhã, antes de se levantar, ela então deixou Mr. Head como único responsável por seu menino de um ano. O avô cometeu o erro de dizer ao netinho que ele era nascido em Atlanta. Não fosse isso, Nelson não viveria insistindo que a viagem de agora seria a sua segunda. “Pode ser que você não goste de nada”, prosseguiu Mr. Head. “Tudo lá está sempre cheio de negros.” O menino fez cara de saber lidar com negros. “Pois sim”, disse Mr. Head. “Eu é que sei que você nunca viu negro.” “O senhor não se levantou muito cedo”, Nelson disse. “Você nunca viu um negro na vida”, insistiu Mr. Head. “Nunca mais houve um negro aqui no condado, desde que expulsamos aquele, doze anos atrás, antes portanto de você nascer.” Depois ficou olhando o menino, como se ele fosse se atrever a sustentar o contrário. “Como sabe que eu nunca vi um negro, se antes eu vivi lá?”, Nelson perguntou. “Devo ter visto muitos.” “Se viu, nem sabia o que era”, disse Mr. Head, já completamente irritado. “Uma criança de seis meses não sabe que diferença existe entre um negro e os outros.” “Pois eu, se tiver visto algum, garanto que vou saber”, o menino disse e se levantou e, dando uma endireitada no seu chapéu novo em folha, foi até o banheiro. Ao chegarem ao entroncamento, um pouco antes da hora prevista, os dois puseram-se à espera do trem, quase colados na primeira linha de trilhos. Mr. Head levava o lanche, uma lata de sardinhas e as bolachas caseiras que iam num saco de papel. Um sol alaranjado, ainda rudimentar na aparência, vinha por trás da série de montanhas a leste,tornando o céu ao fundo uma vermelhidão chapada, muito embora tudo continuasse cinza aquém delas e eles se vissem em face da lua transparente e cinza, já nem tão forte como uma impressão digital e completamente sem luz. A chave de mudança de trilhos e um tanque preto de combustível eram os únicos sinais a indicar que ali era um lugar de entroncamento; as linhas, duplas, não voltavam a convergir, em ambos os extremos do descampado, senão depois de desaparecerem nas curvas. Os trens, quando passavam, pareciam sair de um túnel de árvores para, bruscamente alarmados com o céu frio, desaparecerem correndo pela mata outra vez. Ao comprar as passagens, Mr. Head teve de combinar com o agente para o trem parar ali, e agora tinha o secreto temor de que afinal não parasse, pois sabia que Nelson, nesse caso, diria: “Nunca pensei que um trem fosse parar pro senhor.” Sob a lua sem brilho, a lua inútil da manhã, os trilhos pareciam brancos e frágeis. Tanto o velho quanto o menino olhavam fixamente para a frente, como se estivessem à espera de uma aparição. De repente, antes de Mr. Head poder mudar de ideia e resolver voltar para casa, um forte apito de advertência se ouviu e o trem, quase sem fazer barulho, apareceu a deslizar lentamente pela curva do arvoredo, a uns duzentos metros dali, com seu farol amarelo brilhando muito na frente. Mr. Head, ainda em dúvida se iria ou não parar mesmo, sentiu que o trem bem poderia fazê-lo parecer ainda mais tolo, caso passasse apenas por eles. Mas, se prosseguisse em seu rumo sem levá-los, tanto o avô quanto o neto haviam se preparado para ignorar o comboio. A máquina avançou, envolvendo-os com seu bafo de metal aquecido, e logo o segundo vagão parou exatamente no ponto em que os dois estavam em pé. Um condutor com cara de buldogue velho e pançudo já se encontrava nos degraus, como que à espera deles, apesar de demonstrar por seu jeito, quer embarcassem, quer não, uma indiferença total por tais destinos. “Pra direita!”, ele disse. Seu embarque não durou mais que uma fração de segundo, e quando ingressaram no vagão silencioso já o trem ia ganhando velocidade outra vez. A maioria dos passageiros ainda estava dormindo. Uns arriavam a cabeça no braço da poltrona, outros se esticavam a ocupar dois lugares e outros mais se esparramavam bem à vontade, largando os pés no corredor. Mr. Head, vendo dois lugares vazios, para lá empurrou Nelson. “Fique na janela”, disse em seu tom normal de voz, que já era, sendo assim ainda tão cedo, alto demais. “Ninguém vai se incomodar, porque não tem ninguém aí. Senta, vamos!” “Já ouvi”, murmurou o menino, “não precisa gritar comigo.” E ele, sentando-se, virou-se bem para o vidro, onde deu com um rosto pálido, algo espectral e franzido, que o olhava sob a aba de um chapéu desbotado e algo também fantasmagórico. O avô, numa olhada rápida, viu por sua vez outro fantasma, que sorria, malgrado a palidez, e estava de chapéu preto. Sentado e acomodado, Mr. Head apanhou sua passagem para ler em voz alta tudo o que nela vinha impresso. Muitos passageiros acordaram, olhando-o com ar de espanto, e todos já se mexiam. “Tire o chapéu”, disse o avô para Nelson, enquanto tirava o seu, que pôs no colo. Tinha ele apenas um pouco de cabelo branco, que se tornara cor de tabaco com o tempo e se emplastrava atrás da cabeça, cuja parte frontal nada mostrava além de uma calvície rugosa. Nelson obedeceu, pondo também seu chapéu no colo, e ambos se mantiveram à espera de que o condutor viesse conferir as passagens. O homem do outro lado, esparramado em dois lugares, com os pés para cima, na janela, e a cabeça caindo para fora, a sobressair no corredor, usava um terno azul- claro e uma camisa amarela desabotoada na gola. Mal acabara de abrir os olhos e Mr. Head já ia puxar conversa com ele quando o condutor o intimou, vindo dos fundos: “Suas passagens.” Partido o condutor, Mr. Head deu a Nelson seu tíquete de retorno e lhe disse: “Põe no bolso, guarde bem e não perca, porque sem isso você vai ter de ficar lá na cidade.” Como se a ideia não fosse nada má, Nelson replicou: “Talvez eu fique.” Mas Mr. Head nem ligou para ele. “É a primeira vez que o menino anda de trem”, explicou ao homem do outro lado, que agora, com os pés no chão, já estava sentado na beirada da poltrona. Nelson, zangando-se, voltou a pôr o chapéu, de um modo bem insolente, e virou- se outra vez para a janela. “Nunca até hoje ele viu nada”, prosseguiu Mr. Head. “É tão ignorante como no dia em que nasceu, mas espero que agora veja tanto até se encher de tudo para sempre.” O menino chegou-se um pouco à frente e se debruçou sobre o avô para se dirigir ao estranho. “Eu nasci na cidade”, disse. “É a segunda vez que viajo, porque foi lá que eu nasci.” Disse-o em voz alta e categoricamente, mas o homem do outro lado, com fundas olheiras roxas nas pálpebras, nada pareceu entender. Mr. Head, esticando-se pelo corredor, deu-lhe um tapinha no braço. “Mostrar o que se deve mostrar, sem esconder seja o que for”, disse, a deitar sabedoria, “é o melhor modo de educar um menino.” “É”, disse o homem, que tinha suspendido do chão os pés inchados, um após o outro, e tardava um tanto a examiná-los. Os demais passageiros, pelo vagão afora, ou bem estavam acordando, ou bem se remexiam inquietos, bocejando a espreguiçar-se. Vozes isoladas faziam-se ouvir aqui e ali, antes de o zumbido das falas tornar-se regra geral. Mas de repente a expressão de Mr. Head, que até então era serena, se alterou. Sua boca se fechou repuxada, vindo-lhe aos olhos, no mesmo instante, um mesmo traço combinado de ameaça à vista e cautela. Fixado no fundo do vagão, ele pegou Nelson pelo braço e, sem nem sequer se virar, puxou-o um pouco para a frente e mostrou-lhe: “Olha lá.” Um homenzarrão cor de café se aproximava a passos lentos, com um terno leve e uma gravata amarela de cetim que trazia um pregador com um rubi. Uma das mãos lhe amparava a barriga, que sacolejava, majestosa, sob o paletó abotoado, e a outra se agarrava ao castão de uma bengala preta que ele ora erguia, ora abaixava com premeditada cadência a cada nova passada. Ao longo do vagaroso trajeto, seus olhos grandes, castanhos, pairavam sobre as pessoas sentadas. Atrás dele, que tinha o cabelo crespo grisalho e um ralo bigode branco, vinham duas mulheres, ambas novas e também cor de café, uma de vestido amarelo, outra de verde, que o seguiam no mesmo ritmo e tagarelavam bastante, mas em voz contida e baixa. Insistentemente a mão de Mr. Head apertava o braço de Nelson. Quando o cortejo passou por eles, a luz provinda de um anel de safira, na mão escura que empunhava a bengala, refletiu-se nos olhos de Mr. Head, que entretanto não olhou para cima, como também o enorme homem não olhou para ele. E o grupo, seguindo pelo restante do corredor, saiu enfim do vagão. Mr. Head já não comprimia o braço de Nelson com a mesma força de antes. “O que era aquilo?, perguntou ele. “Um homem”, disse o menino, lançando-lhe um olhar indignado, como se estivesse cansado de ouvir insultos à sua inteligência. “Mas que tipo de homem?”, insistiu Mr. Head, sem expressão na voz. “Um homem gordo”, disse Nelson, que a essa altura sentiu que era melhor ser prudente. “Você não sabe de que tipo?”, Mr. Head disse em tom definitivo. “Um velho”, disse o menino, com o súbito pressentimento de que não ia se divertir tanto assim naquele dia. “Pois era um negro”, disse Mr. Head, recostando-se. De um pulo, Nelson ficou em pé na poltrona para olhar para trás, mas o negro já havia sumido lá no fim do vagão. “Eu achava que você logo reconheceria um negro, já que viu tantos quando esteve pela primeira vez na cidade”, prosseguiu Mr. Head, que depois disse para o homem ao lado:“Esse é o primeiro negro dele.” O menino, escorregando, reinstalou-se no assento. “O senhor falou que os negros eram pretos”, disse com voz zangada. “Nunca falou que eles são pardos. Como é que eu vou entender, como vou saber uma coisa, se não me explica direito?” “Você não passa de um ignorante”, disse Mr. Head, que se levantou e foi sentar- se no lugar vazio junto ao homem que estava do outro lado. Nelson se virou mais uma vez para trás e olhou para onde o negro tinha desaparecido. Sob a impressão de que sua passagem pelo corredor do vagão fora deliberada, para levá-lo a fazer papel de bobo, nutriu por ele um ódio novo, forte, furioso, compreendendo agora o porquê da aversão de seu avô pelos negros. Olhou então para a janela e o rosto ali refletido parecia sugerir que ele talvez não correspondesse às exigências do dia. Já nem sabia muito bem se reconheceria a cidade, quando lá chegassem. Só depois de contar muitas histórias, Mr. Head se deu conta de que o homem ao qual ele falava estava dormindo, e assim se levantou e propôs a Nelson que fossem dar uma volta pelo trem, para ver outras coisas. Sobretudo queria que o menino visse o toalete. Foram pois primeiramente ao banheiro dos homens, onde um exame do encanamento os deteve. Mr. Head fez-lhe uma demonstração do bebedouro, como se se tratasse de coisa de sua própria invenção, e exibiu também a Nelson a cuba com uma só torneirinha onde os passageiros escovavam os dentes. Passando por diversos vagões, finalmente eles chegaram ao carro-restaurante. Pintado de um amarelo-ovo berrante e com um carpete cor de vinho no chão, era a parte mais elegante do trem. As mesas se justapunham a janelões panorâmicos e grandes trechos da vista que passava lá fora eram captados em miniatura nos flancos dos bules de café e nos copos. Três negros retintos, de terno branco e avental branco, corriam muito pelo corredor, de ponta a ponta, a equilibrar as bandejas, a cumprimentar e curvar-se sobre os passageiros que tomavam sua refeição matinal. Um deles se precipitou até Mr. Head e Nelson e, pondo dois dedos para cima, exclamou: “Lugar para dois!”, mas Mr. Head retrucou em voz alta: “Não, nós já comemos antes de sair de casa.” O branco dos olhos do garçom, por trás de seus grandes óculos marrons, aumentava de tamanho. “Por favor, deixem então o caminho livre”, disse ele, ondeando o braço no ar como que para espantar moscas. Nelson e Mr. Head não se moveram porém nem um centímetro. “Olha ali”, disse o avô. O canto mais próximo do carro-restaurante continha apenas duas mesas separadas das outras por uma cortina cor de açafrão. Uma delas estava posta, mas vazia; à outra, de costas para a cortina e de frente para eles, sentava-se o negro enorme, que passava manteiga num pãozinho e, em voz cordata, falava às duas mulheres. Seu rosto era triste, por demais triste, e sobras do pescoço grosso pendiam, transbordando, por seu colarinho branco. “Eles têm de ficar cercados”, explicou Mr. Head, que depois disse: “Vamos ver a cozinha”, e os dois foram atravessando o vagão, mas atrás deles, e às pressas, já ia o mesmo garçom. “Não é permitida a entrada de passageiros na cozinha!”, disse ele com arrogância. “É proibido, não pode!” Mr. Head parou onde estava e se virou. “É, e há um bom motivo para isso”, gritou na cara do negro, “porque as baratas expulsariam os passageiros de lá!” Todos os viajantes riram, e Mr. Head e Nelson, rindo também bastante, se retiraram. Mr. Head era famoso em sua terra por ter presença de espírito e Nelson bruscamente sentiu-se muito orgulhoso dele, percebendo que o velho seria o único arrimo com que poderia contar naquele estranho lugar do qual se aproximavam. Irremediavelmente sozinho ele estaria no mundo, se por acaso se perdesse do avô, a cujo paletó quis então se agarrar feito criança, nisso que uma terrível comoção o abalou. Pelas janelas por que passavam, ao voltarem para seus lugares, eles puderam ver que a paisagem rural ia aos poucos se tornando coalhada de barracões e casinhas e que ao longo da via férrea corria uma estrada de asfalto. Por ela, pequenos, velozes, disparavam os carros. Havia agora menos ar a inalar, pelas sensações de Nelson, do que meia hora antes. Como o homem do outro lado não se achava mais lá, Mr. Head já não tinha alguém por perto para puxar conversa. Assim, pôs-se a olhar pela janela, para através de si mesmo refletido ler os letreiros dos prédios pelos quais passavam. Em voz alta, ia anunciando: “Dixie, Indústrias Químicas! Farinha de Trigo Southern Maid! Portas Dixie! Produtos de Algodão Southern Belle! Pasta de Amendoim Patty! Melado de Cana Southern Mammy!” “Sossega, vô!”, Nelson disse como se dissesse um psiu. Muitos já se levantavam, por todo o vagão, para alcançar os pertences no bagageiro. As mulheres se arrumavam, pondo seus chapéus e casacos. Lá pelas tantas o condutor enfiou a cabeça pela porta e gritou: “Primeeeeeeeira paraaaaaaada!” Nelson, tremendo, pulou em pé. Mas Mr. Head o reteve pelo ombro, instando-o a não se mexer. “Continue em seu lugar”, disse ele em tom solene. “A primeira parada é na periferia. A segunda é que é na estação central.” Sabia disso porque, tendo saltado na primeira parada, quando da primeira vinda à cidade, viu-se forçado a pagar quinze centavos a um homem que o levou até o centro. Nelson, muito pálido, sentou- se novamente. Pela primeira vez na vida ele estava entendendo que o avô lhe era indispensável. O trem parou, despejou uns poucos passageiros e prosseguiu deslizando, como se nem tivesse deixado de se mover. Lá fora, por trás de instáveis casas fuliginosas em fila, erguia-se uma série de edifícios azuis, além dos quais o céu bem claro, em tons de cinza e cor-de-rosa, dissolvia-se em nada. O trem, por fim, entrou no pátio da estação. Olhando para baixo, Nelson viu linhas e mais linhas de trilhos a se multiplicar e cruzar. Pensou em começar a contá-los, mas o rosto na janela o encarou antes disso, cinza porém perceptível, e ele teve de se virar ao contrário. O trem já estava na plataforma. Correndo logo para a porta, depois de se levantarem às pressas, nenhum dos dois se deu conta de que haviam largado para trás o saco de papel com seu lanche. Andando tensos pela pequena estação, saíram por uma porta imponente que os largou por sua vez na barafunda do trânsito. Gente em quantidade se precipitava ao trabalho, e Nelson nem sabia direito para onde olhar. Mr. Head, apoiando-se na parede do prédio, fitava tudo espantado. Finalmente Nelson disse: “Como fazemos agora, para ver tudo o que há para ver?” Mr. Head não respondeu. Logo depois, como se a visão dos passantes já lhe desse uma pista, ele disse porém: “Vamos andando”, e lá se foi rua abaixo. Nelson seguiu- o, firmando bem seu chapéu. Tantas eram as cenas, tantos os barulhos que em turbilhão o envolviam, que mal ele conseguia entender, ao transpor o primeiro quarteirão, tudo o que tinha pela frente. Na segunda esquina, Mr. Head se virou para localizar a gare de onde tinham partido, um terminal betuminoso coroado pelo concreto da cúpula. Parecia-lhe que, se ele pudesse se manter sempre avistando a cúpula, não lhe seria difícil retornar ali à tarde para pegar o trem de volta. À medida que andavam, Nelson começou a perceber detalhes e a observar detidamente as vitrines, abarrotadas dos mais diversos produtos — tecidos e roupas, ferragens, rações de frango, bebidas. Passaram por uma porta para a qual Mr. Head o fez olhar com atenção. Quem por ela adentrava ia sentar-se numa alta cadeira, com os pés em dois pontos de apoio, para que ali umnegro lhe engraxasse os sapatos. Desapressados, eles paravam nas entradas das lojas, a fim de que o menino apreciasse o que se passava lá dentro, mas nunca ingressavam nelas. Mr. Head tomara a decisão de não entrar em nenhuma, porque em sua primeira vinda à cidade ele tinha se perdido numa loja imensa, onde só encontrara a saída depois de ser insultado por diversas pessoas. Lá pelo meio do quarteirão seguinte eles chegaram a uma loja em cuja entrada havia uma balança na qual os dois se pesaram, ambos introduzindo nela um centavo e recebendo de volta um papelzinho. O de Mr. Head dizia: “Você pesa sessenta e cinco quilos. É pessoa correta e corajosa, sempre admirada por seus amigos.” Pondo no bolso a informação, ele achou estranho que a máquina acertasse em cheio no tocante a seu caráter, mas errasse no peso, porque ao subir numa balança de carga, algum tempo antes, tinha verificado estar com apenas sessenta. Já o papelzinho de Nelson dizia: “Você pesa cinquenta e cinco quilos. Tem um grande destino pela frente, mas cuidado com as mulheres de cor.” Nelson não conhecia mulheres, fossem lá quais fossem, e só pesava trinta e cinco quilos, mas a Mr. Head pareceu que a confusão decorria de uma impressão imperfeita, lendo-se um cinco em vez de um três no papelzinho da máquina. Continuaram andando em linha reta e, ao fim de cinco quarteirões, quando a cúpula do terminal sumiu de vista, Mr. Head resolveu dobrar à esquerda. Bem que Nelson poderia ficar toda uma hora diante de cada vitrine, se não houvesse sempre ao lado uma outra, ainda mais interessante. De repente ele disse: “Foi aqui que eu nasci.” Mr. Head se virou, horrorizado, e olhou para o neto, cujo rosto brilhava de suor. “É a minha terra”, ele insistiu. Mr. Head se estarreceu ainda mais e percebeu que era chegado o momento de tomar medidas drásticas. “Deixa eu te mostrar uma coisa que você ainda não viu”, disse ele, e o levou até a esquina, onde havia um bueiro aberto. “Agache-se e enfie a cabeça aí.” Dada a instrução, segurou pelo paletó o menino, que se abaixara a espiar pelo esgoto adentro. Rapidamente, ao ouvir, sob a calçada, os borbotões das profundezas, Nelson porém retrocedeu espantado. Mr. Head explicou-lhe então como era a rede de esgotos, como toda a cidade era subterraneamente percorrida por ela, como essa rede continha em massa os dejetos, estando cheia de ratos, e como era possível alguém cair ali dentro e ser tragado sem demora por infinitos túneis escuros. Na cidade, a qualquer hora, o esgoto era capaz de engolir qualquer pessoa e com ela desaparecer para sempre. A descrição foi tão bem-feita que Nelson, por instantes, ficou de todo abalado, ligando as galerias de esgoto à entrada do inferno e pela primeira vez entendendo como o mundo se encaixava em suas partes mais baixas. Depois, afastando-se do meio-fio, ele disse: “Convém então não se aproximar dos buracos”, e seu rosto assumiu aquela obstinada expressão que tanto irritava o avô. “Nasci aqui e aqui é a minha terra”, disse mais uma vez. Mr. Head, consternado, limitou-se a murmurar: “Pois você vai ver o que é bom.” Após mais dois quarteirões, retomada a caminhada, novamente ele dobrou à esquerda, convencido de andar ao redor da cúpula; e estava certo, pois dentro de meia hora os dois passaram outra vez pela frente da estação de trem. Nelson nem notou a princípio que revia as mesmas lojas. Logo contudo percebeu, ao chegarem à porta do engraxate negro que se dobrava aos pés dos outros para lustrar sapatos, que estavam andando em círculo. “Nós já estivemos aqui!”, gritou então. “Acho que o senhor não sabe onde está.” “É, eu me desorientei um pouquinho”, disse Mr. Head. Desceram por uma rua diferente, mas ele, decidido como sempre a não se afastar demais da cúpula, percorreu apenas duas quadras na nova direção e lá se foi dobrando à esquerda. Eram casas de madeira de dois ou de três andares, as que essa rua continha. Da calçada, qualquer passante podia ver seus quartos por dentro, e Mr. Head, ao espiar numa janela, deu com uma mulher deitada numa cama de ferro que, embaixo apenas de um lençol, olhava por sua vez para fora. Seu olhar, sendo convidativo, deixou-o bem transtornado. Um garoto de bicicleta, que descia ninguém sabe de onde, com ar ameaçador, forçou-o a sair da frente de um pulo, para não ser atropelado. “Aqui, não se importam com nada, nem se derrubarem a gente”, disse ele. “É melhor você ficar mais perto de mim.” Andaram por ruas como aquela, por algum tempo, antes de lhe ocorrer que convinha dobrar mais uma vez. Sem pintura, a madeira das casas pelas quais passavam agora já parecia estar podre; e a rua era mais estreita. Nelson viu um homem de cor. E depois outro e mais outro. “São negros que moram nessas casas”, deduziu. “Bem, então vamos, e vamos logo, para um novo lugar”, Mr. Head disse. “Não foi para ver negros que nós viemos aqui.” Enveredaram assim por outra rua, embora continuassem, por toda parte, a ver negros. Nelson começou a sentir certa coceira na pele e ambos apertaram o passo para sair daquela área o mais depressa possível. Negros de camiseta se plantavam às portas, negras se balançavam em despencadas varandas e os negrinhos que brincavam nas sarjetas paravam o que estavam fazendo para olhar para eles. Dali a pouco eles passaram por uma série de lojas cujos fregueses eram negros também, mas nessas não se detiveram à entrada. E iam sendo observados sempre, de todas as direções, por olhos negros que saltavam de tantos negros semblantes. “Pois é”, Mr. Head disse, foi aqui que você nasceu — bem no meio dessa negrada toda.” Nelson, franzindo a testa, disse: “Acho que o senhor fez a gente se perder.” Mr. Head, numa brusca meia-volta, procurou em vão pela cúpula, que não avistava em parte alguma. “Eu não, não fiz ninguém se perder”, disse. “É você que está cansado de andar.” “Cansado o quê, eu estou é com fome”, disse Nelson. “Quero uma bolacha daquelas.” Só aí se deram conta de ter esquecido o lanche no trem. “Estava tudo com o senhor”, Nelson disse. “Eu teria tomado mais cuidado.” “Se você quer passar à frente, vou então seguir sozinho e te deixar aqui mesmo”, Mr. Head disse, contente por ver que o neto, com isso, tinha ficado branco. Entretanto, sabendo muito bem que de fato estavam perdidos e que assim à deriva se afastavam cada vez mais da estação, ele também já tinha fome e começava a ter um pouco de sede, pois ambos suavam muito desde o ingresso na comunidade de negros. Nelson estranhava os sapatos, aos quais não estava acostumado, e o cimento das calçadas, que era tão duro de pisar. Todos dois queriam agora encontrar um lugar para sentar-se, mas isso era impossível e continuaram andando. O neto sussurrava consigo: “Primeiro ele perde o lanche e depois perde o caminho”, ao passo que o avô resmungava, de quando em quando: “Quem quer mesmo ser daqui, não me amole e que seja desse paraíso de negros.” O sol já ia longe no céu a essa altura. O cheiro de comida no fogo era trazido pelo vento até eles. Todos os negros se postavam às portas para vê-los passar. “Por que não pergunta a um deles”, Nelson disse, “já que o senhor fez a gente se perder?” “Você mesmo pode perguntar, se quiser”, respondeu Mr. Head. “Você não nasceu aqui?” Nelson tinha medo dos negros e não queria ser motivo de riso para as crianças de cor. Um pouco adiante, encostada numa porta que abria para a calçada, ele viu porém uma negra de corpo grande e viçoso. Seu cabelo se eriçava ao redor de toda a cabeça, alteando-se a mais de dez centímetros, e seus pés estavam descalços — pés que por baixo da escureza se tornavam lateralmente rosados. O vestido que ela usava,rosa também, realçava-lhe as formas. Ao chegarem os dois à sua frente, indolentemente a mulher levou uma das mãos à cabeça, desaparecendo seus dedos pela cabeleira abundante. Nelson parou. Sentiu sua respiração ser tragada pelos olhos da negra e, numa voz que não soou como a dele, perguntou-lhe: “Como se volta pra cidade?” Ela esperou um pouco e disse, num tom grave e harmonioso que o envolveu como um borrifo refrescante a despencar sobre ele: “Mas você está na cidade.” “Como se volta pra pegar o trem?”, disse ele na mesma voz esganiçada. “Você pode ir de bonde”, disse ela. Ele achou que ela estava caçoando dele, mas sentia-se tão paralisado que nem sequer pôde fazer cara feia. Absorvia, ali plantado, cada detalhe da mulher. Percorreu-lhe o corpo com os olhos, que dos seus grandes joelhos subiram até o alto da testa, para a seguir descerem em triangulação por ali, indo do suor que lhe brilhava ao pescoço para transpor o busto avantajado, chegar à parte de trás de um dos seus braços desnudos e afinal desembocar onde os dedos, enfiados no cabelo, se mantinham ocultos. Um súbito desejo o invadiu; e ele quis que ela se abaixasse, que o pegasse no colo, que o apertasse bem contra si, ansiando por tê-la a respirar em seu rosto. Queria olhar nos olhos dela, e olhar cada vez mais fundo, como por ela queria ser agarrado, cada vez com mais força. Nunca ele havia sentido nada assim, sentindo-se agora como que em vertiginosa caída por um poço tão negro como o breu. “É só descer para lá, mais uma quadra, e pegar o bonde que te leva à estação de trem, meu amorzinho”, ela disse. Nelson teria desabado a seus pés, se Mr. Head, com aspereza, não o puxasse logo dali. “Até parece que você perdeu o juízo!”, grunhiu o velho. Precipitaram-se então rua abaixo, mas Nelson não se virou para ainda olhar a mulher. Em vez disso, pôs seu chapéu bem para a frente, de modo a encobrir-lhe o rosto, que já ardia de vergonha. O fantasma zombeteiro por ele visto na janela do trem e todos os pressentimentos que havia tido a caminho lhe voltaram, levando-o a se lembrar do que dizia seu papelzinho da balança, para ele se precaver contra mulheres de cor, e do que estava no do avô, descrito como corajoso e correto. Agarrou-se pois à mão do velho, numa demonstração de dependência a que raramente se dava. Foram descendo a mesma rua até os trilhos do bonde, por onde já vinha um deles, amarelo e comprido, a chocalhar. Mr. Head, que nunca tinha andado naquilo, deixou o bonde passar. Nelson estava quieto. Sua boca, de vez em quando, tremia um pouco, mas o avô, preocupado com seus próprios problemas, não lhe dava atenção. De pé na esquina, nenhum dos dois olhava para os passantes negros, que estavam indo cuidar de seus negócios como se fossem brancos, mas que paravam de repente, quase todos, para espiá-los ali. Como o bonde corria em trilhos, pensou então Mr. Head, havia uma solução muito simples. E ele explicou a Nelson, dando- lhe um empurrãozinho, que iriam seguir os trilhos a pé, e lá se foram, até a estação de trem. Dali a pouco, para alívio dos dois, começaram a ver pessoas brancas de novo. “Tenho de descansar um instante”, disse Nelson, encostando-se na parede de um prédio para se sentar na calçada. “Como o senhor perdeu o lanche e errou o caminho, não custa nada, agora, esperar que eu me refaça.” “Os trilhos estão aí, bem na nossa frente”, Mr. Head disse. “Tudo o que temos a fazer é não perdê-los de vista. Quanto ao lanche, você também podia ter se lembrado, tanto quanto eu. Você não nasceu aqui? Então, esta cidade é a sua terra natal. Você devia saber o que é preciso fazer, já que é a segunda vez que vem cá.” Agachando-se, ele continuou nessa linha. Mas o menino, tirando os sapatos para desafogar os pés que ardiam, não lhe deu resposta alguma. “E ainda por cima arreganhando os dentes como um chimpanzé para aquela negra que te ensinava o caminho. Meu Deus!”, disse Mr. Head. “Nunca falei nada de mais, só que nasci aqui”, disse o menino com a voz trêmula. “Nunca falei se ia gostar ou não da cidade, nem que queria vir. Falei que nasci aqui e pronto, não tive nada a ver com isso. Quero ir para casa. Eu não queria mesmo vir, a ideia, grande ideia, foi sua. E como é que o senhor sabe que não está seguindo os trilhos na direção errada?” Tal hipótese já ocorrera a Mr. Head também. “Todas essas pessoas são brancas”, ele disse. “Nós não passamos por aqui antes”, disse Nelson. Achavam-se numa área residencial, cujas casas de alvenaria poderiam ou não ser habitadas. Junto ao meio- fio, havia uns poucos automóveis parados, e os transeuntes por ali eram raros. O calor que subia da calçava traspassava o terno ralo de Nelson. Suas pálpebras já iam baixando, e a cabeça só precisou de uns minutos para tombar para a frente. Seus ombros se contraíram, uma ou duas vezes, e depois o corpo exausto tombou inteiro de lado, esparramando-se na entrega a um longo espasmo de sono. Mr. Head observou-o em silêncio. Ele também estava muito cansado, mas não podiam dormir ao mesmo tempo. A ele, aliás, não convinha dormir de modo algum, pois não sabia onde se achava. Nelson iria acordar em breve, revigorado pelo sono, petulante outra vez, e logo voltaria a acusá-lo de perder o lanche e errar o caminho. Ah, se eu não estivesse aqui, pensou Mr. Head, quanto aperto você passaria! Uma nova ideia lhe ocorreu a seguir e por algum tempo ele ficou olhando a figura estatelada no chão, antes de se reerguer. Justificava o que ia fazer dizendo-se que às vezes era preciso dar a uma criança uma lição da qual ela jamais se esquecesse, sobretudo quando a criança era useira e vezeira em se afirmar com insolências. Pé ante pé, andou pois até a esquina, sem fazer o menor barulho, e na entrada de um beco sentou-se num latão de lixo tampado, onde ficou à espreita para ver Nelson acordar sozinho. O garoto tirava uma soneca inquieta, consciente em parte de ruídos vagos e de formas negras que provinham de alguma obscuridade em si mesmo para ascender à luz. Seu rosto se contorcia no sono, e ele se encolhera de todo, com os joelhos quase no queixo. Na rua estreita, fria e frouxa era a luz que o sol lançava; tudo parecia ser exatamente o que era. Mr. Head, curvado como um macaco velho na tampa da lixeira, decidiu que, se Nelson custasse muito a acordar, ele iria fazer-lhe uma zoeira das boas, batendo com os pés na lata. Viu, consultando seu relógio, que eram duas horas agora. Seu trem partiria às seis, e a possibilidade de o perder o horrorizava a tal ponto que ele nem quis aventá-la. Em vez disso, logo usou o calcanhar para dar uma pezada na lata, e o estrondo reverberou pelo beco. Nelson, com um grito, pulou em pé. E olhou, pasmo, para onde deveria estar o avô. Digamos que rodopiou várias vezes antes de unir ambos os pés em galope, pois disparou pela rua como um potro bravo enfurecido, com a cabeça jogada para trás. Mr. Head galopou atrás dele, saltando célere da lata, mas o menino já sumia de vista. Uma quadra adiante ele enxergou qualquer coisa: um mero vestígio cinza, que em diagonal se desfez. O velho correu o quanto pôde, olhando para todos os lados a cada novo cruzamento, mas nem sinal de seu neto. Por fim, ao passar pela terceira esquina, já completamente sem fôlego, viu a meio quarteirão rua abaixo uma cena que o fez paralisar-se. Abaixou-se por trás de outra lixeira, a fim de observar e esperar, para saber como procederia. Era Nelson que estava ali caído no chão, com as pernas em desalinho, e a seu lado jazia, aos berros, uma senhora idosa. Pela calçada se espalhavam as compras de alguns pacotes desfeitos. Um monte de mulheres já se aglomerava ao redor,exigindo que se fizesse justiça, e Mr. Head pôde ouvir muito bem o que a velha derrubada gritava lá de onde estava: “Você quebrou meu tornozelo, seu pai vai ter de pagar! Polícia! Polícia! E vai ter de pagar tudo!” Muitas das mulheres pegavam Nelson pelo ombro, mas o menino parecia zonzo demais para se levantar. Mr. Head sentiu que alguma força o impelia a sair de trás da lixeira, mas a um passo muito arrastado. Nunca na vida ele tivera nada a ver com a polícia. O mulherio rodava em torno de Nelson, como que pronto a se atirar sobre ele para fazê-lo em pedaços, e a velhota insistia em dizer que estava com o tornozelo quebrado e clamava por um guarda. Mr. Head se aproximou tão lentamente que era como se a cada passo dado ele recuasse outro tanto. Nelson contudo o viu, quando o avô já estava a uns três metros, e de um pulo o agarrou pelas pernas para, ofegante, ali manter-se grudado. O mulherio se voltou então contra o velho, e a que tinha se machucado sentou-se para continuar reclamando: “O senhor vai ter de pagar a conta do médico, pois foi seu filho que fez isso comigo. Chamem um guarda, por favor, que esse rapaz é um delinquente! E anotem nome e endereço do responsável por ele!” Mr. Head tentava se livrar das mãos de Nelson, cujos dedos lhe apertavam a carne da barriga da perna. A cabeça do velho, retraída como a de uma tartaruga, encolhia-se no colarinho, e um brilho vítreo de cautela e medo se estampava em seus olhos. “Seu filho quebrou meu tornozelo!”, insistia a velha. “Polícia!” Mr. Head, ao achar que um guarda vinha chegando por trás, postou-se a encarar as mulheres ajuntadas em massa, como sólida muralha, para impedir que ele fugisse. “Nunca vi esse garoto na vida”, disse. “Ele não é meu filho não.” E sentiu os dedos de Nelson a despencar de sua carne. As mulheres recuaram, olhando-o horrorizadas, como se aquele homem capaz de negar sua própria imagem e semelhança lhes causasse tanta aversão que elas nem admitiriam a hipótese de meter-lhe as mãos em cima. Mr. Head então saiu andando, por um espaço silenciosamente aberto por elas, e deixou Nelson para trás. Nada via à sua frente, a não ser o túnel cavernoso que antes havia sido uma rua. O menino permaneceu ali mesmo, com as mãos largadas a escorrer junto ao corpo e de pescoço espichado. Seu chapéu estava tão apertado na cabeça que os vincos já não se viam. A mulher machucada levantou-se e de punho cerrado o ameaçou, enquanto as outras agora o olhavam com certa pena, se bem que ele mesmo nem desse pela sua presença. Na realidade, não havia guarda nenhum por perto. Logo porém ele passou a se mover mecanicamente, sem fazer nenhum esforço para alcançar o avô. Limitava-se a segui-lo a muitos passos de distância, e desse modo transpuseram cinco quarteirões. Mr. Head, de ombros bambos, tinha o pescoço tão dobrado para a frente que era impossível avistá-lo por trás. O medo o impedia de virar a cabeça. Mas ele enfim se atreveu a um olhar de relance, rápido e esperançoso. Vinte passos atrás viu dois olhinhos que se cravavam como os dentes de um garfo em suas costas. A natureza do menino não era dada ao perdão, sendo essa a primeira vez que lhe cabia perdoar qualquer coisa. E Mr. Head jamais se desonrara. Após mais dois quarteirões, virou-se pois e gritou por cima do ombro, num tom de desesperada alegria: “Vamos tomar uma Coca-Cola nalgum lugar por aí!” Nelson, virando-se também, com uma dignidade que nunca demonstrara antes, ficou de costas para o avô. Mr. Head começou a sentir a profundidade de sua rejeição. Retomada a longa andança, em todo o seu rosto cavo se acentuavam as rugas. Nada ele via, por onde iam passando, muito embora notasse que tinham perdido os trilhos do bonde. A tarde caía, mas também não se encontrava, em parte alguma, o menor sinal da cúpula. Se a escuridão os surpreendesse na cidade, bem sabia ele que poderiam ser vitimados por ladrões e malfeitores. Para si mesmo, contava apenas com a presteza da justiça de Deus, mas não podia suportar a ideia de Nelson ser castigado por seus próprios pecados e de ser ele quem agora o levava à perdição. Continuaram a andar quadra após quadra, por uma área de casinhas de tijolos que jamais tinha fim, até Mr. Head quase levar um tombo ao tropeçar no esguicho de um gramado que estava muito na beira, como um ressalto de seus quinze centímetros. Desde cedo, nem sequer um gole d’água ele tinha bebido, mas não se julgou merecedor disso agora. Depois, ao pensar que Nelson devia estar com sede também, achou que os dois, bebendo juntos, logo poderiam voltar às boas. Agachou- se então e meteu a boca no esguicho, deixando que um jato frio lhe descesse goela abaixo, e a seguir chamou o neto, com uma voz desesperadamente alta: “Vem beber um pouco d’água!” A criança o olhou fixamente, desta vez, por quase todo um minuto. Mr. Head, como se fosse veneno o que tivesse tomado, reergueu-se e andou em frente. Nelson, apesar de não beber desde o trem, quando num copo de papel sorvera uns goles, passou direto pelo esguicho, desdenhoso de curvar-se na mesma água do avô. Ao perceber isso, Mr. Head perdeu toda a esperança. À luz da tarde em declínio, sua desolação e desamparo eram visíveis no rosto. Podia sentir o inabalável ódio do garoto, que sem mudar de passo o seguia, e sabia que aquele sentimento (se por milagre escapassem de ser mortos na cidade) perduraria tal e qual por todo o resto da vida. Sabia também que agora ele ia ao léu por uma estranha e obscura paragem onde nada voltaria a ser como era, uma prolongada velhice sem respeito e um fim que só seria bem-vindo por ser o termo de tudo. Quanto a Nelson, sua mente se fixara, congelando-se, na traição do avô, como se ele quisesse preservá-la intacta para apresentá-la no Juízo Final. Se o menino andava sem olhar para os lados, de vez em quando porém lhe vinha à boca um esgar; nesse momento ele sentia a presença de uma misteriosa forma negra que, alçando-se de algum remoto lugar dentro de si, parecia vir disposta a agarrá-lo para derreter com calor sua visão congelada. O sol baixou por trás de uma fileira de casas e, mal percebendo, os dois entraram num bairro chique e distante cujas mansões muito afastadas da rua eram precedidas por gramados e lagos para atrair passarinhos. Tudo ali se mostrava tão deserto que nem mesmo um cachorro por várias quadras eles puderam ver. As enormes casas brancas pareciam icebergs ao longe, imersos parcialmente. Não havia calçadas, apenas entradas para carros, e essas faziam curvas incríveis, compondo intermináveis e ridículos círculos. Como Nelson não se movia para chegar mais perto do avô, o velho chegou a achar que, se desse com algum bueiro de esgoto, bem seria capaz de pular dentro para se deixar arrastar; e em sua imaginação punha o menino ao lado, a observá-lo sem maior interesse enquanto ele sumia de vista. Um latido, e era um latido forte, despertou-lhe a atenção. Um gordão se aproximava, com dois buldogues. Como um náufrago numa ilha deserta, Mr. Head lhe acenou com os dois braços. “Estou perdido!”, gritou. “Estou perdido, não acho meu caminho. Eu e esse menino temos de pegar um trem, e não sei mais como chegar à estação. Oh, meu Deus, estou perdido! Por favor me ajude!” O homem, que usava roupa de golfe e era careca, perguntou-lhe que trem ele precisava pegar. Mr. Head procurou pelas passagens, mas tremia tanto que mal conseguiu mostrá-las. Nelson afinal se achegara e, a menos de cinco metros, ficou ali a observar. “Bem”, disse o gordo, devolvendo-lhe as passagens, “já não dá mais para voltar ao centro, mas vocês podem embarcar na parada da periferia, queé a três quarteirões daqui”, e começou a explicar como chegar até lá. Era como se Mr. Head, pela cara que fez, retornasse aos poucos de entre os mortos. Quando o homem terminou e se foi, com os cachorros pulando em suas pernas, ele se virou para Nelson e, ofegante, disse-lhe: “Vamos conseguir chegar em casa.” O menino, de rosto exangue sob o chapéu cinza, achava-se agora ainda mais perto. Mas achava-se ali e isso era tudo: não havendo emoção nem luz, nem qualquer demonstração de interesse, nos seus olhos triunfalmente frios, resumia-se a ser uma figurinha à espera. Casa, para ele, não significava mais nada. Mr. Head se mexeu lentamente. Supunha agora saber como seria o tempo sem as estações, como seriam o calor sem a luz e o homem sem a salvação. Já nem ligava muito para alcançar o trem, e se não fosse por algo que bruscamente lhe despertou a atenção, como um grito na escuridão que aumentava, poderia até esquecer que havia uma estação para onde estava indo. Não tinha andado nem quinhentos metros, descendo a rua, quando viu ao seu alcance a estátua em gesso de um negro, pousada numa mureta de tijolos, baixa e amarela, que circundava um amplo gramado. O negro era quase do tamanho de Nelson e se inclinava para a frente numa curvatura arriscada, porque a massa que o prendia ao murinho estava cheia de rachas. Um dos seus olhos era branco, todo branco, sendo escura, bem escura, a fatia de melancia que ele tinha na mão. Mr. Head ficou olhando para a estátua em silêncio, até Nelson parar, já muito perto. Quando os dois ali se postavam, ele então sussurrou: “Um negro artificial.” Era impossível dizer que pretensão o criara, se o negro artificial seria jovem ou velho, pois ele se mostrava desditoso demais para ser isso ou aquilo. Tinham querido, sim, que parecesse feliz: sua boca se repuxava para cima nos cantos, mas o olho lascado e o ângulo no qual se assentava davam-lhe um ar de atroz desgraça, e não de felicidade. “Um negro artificial”, repetiu Nelson, bisando o tom de Mr. Head. De pescoço espichado quase na mesma posição, de ombros caídos quase do mesmo modo, e ambos de mãos nos bolsos, tremendo identicamente, lá se detiveram os dois. O avô, como uma criança vivida; o neto, como miniatura de um velho. Ficaram contemplando o negro artificial como se se defrontassem com um grande mistério, com um monumento à vitória de alguém que afinal os punha juntos na derrota em comum. Aquela estátua, agora, dissolvia suas diferenças, e ambos podiam sentir isso como se fosse um favor do céu. Mr. Head jamais soubera qual o sabor da misericórdia, pois que sempre havia sido bom demais para merecê-la, mas julgava-se agora em condições de prová-lo. Olhando para Nelson, ele entendeu que deveria dizer alguma coisa ao menino, para mostrar que ainda tinha sensatez, e no olhar que lhe foi retribuído pôde ver em seu neto uma necessidade ansiosa dessa garantia. Os olhos de Nelson, com efeito, pareciam lhe implorar que explicasse, e de uma vez para sempre, todo o mistério da existência. Mr. Head abriu a boca para fazer uma declaração grandiosa e apenas se ouviu dizendo: “Como se os verdadeiros não bastassem, ainda cismaram de ter um artificial.” No instante seguinte, o menino balançou a cabeça, com um tremor estranho nos lábios, e disse: “Vamos logo pra casa, antes da gente se perder outra vez.” Ao alcançarem a parada fora do centro, o trem já vinha chegando e os dois rapidamente embarcaram. Dez minutos antes do horário previsto para o entroncamento, foram juntos para a porta, prontos a pular de qualquer jeito caso ele não parasse; o trem no entanto parou, bem quando a lua, restaurando-se em todo o seu esplendor, saía de dentro de uma nuvem para banhar de luar o descampado. Quando eles pisaram no chão, o capim tremulava em tons de prata e nos calhaus a seus pés já coruscava uma luz negra e viçosa. Os cimos das árvores, rodeando o entroncamento como os muros de proteção de um jardim, estavam mais escuros que o céu, onde gigantescas nuvens brancas pendiam cheias de luz como lanternas. Mr. Head, que se mantinha muito quieto, sentiu-se novamente tocado pela misericórdia divina, mas sabendo dessa vez que no mundo não havia palavras capazes de designá-la. Compreendeu que ela provinha da agonia, que a homem nenhum se nega e que às crianças se revela das mais estranhas maneiras. Compreendeu que sua ação era tudo que alguém pode levar para a morte e ofertar a seu Criador, ardendo bruscamente de vergonha por possuir tão pouco disso para levar consigo. Julgando-se pela meticulosidade de Deus, mantinha-se estarrecido, enquanto a ação da misericórdia aderia como chama a seu orgulho e o queimava. Se jamais se tomara por grande pecador, via agora entretanto que sua corrupção verdadeira só lhe fora ocultada para não lhe causar desespero. Deu-se conta de estar sendo perdoado por pecados que vinham do começo dos tempos, quando ele mesmo concebera no seu próprio coração o de Adão, até a hora presente, quando havia negado o pobre Nelson. Viu que nenhum pecado era monstruoso demais para ele reclamar como seu e, já que Deus amava na mesma proporção em que perdoava, sentiu-se pronto, naquele instante, a ingressar no paraíso. Nelson, contendo toda expressão à sombra de seu próprio chapéu, observava-o com um misto de suspeição e fadiga. Porém, quando o trem passou por eles e desapareceu mata adentro qual serpente assustada, seu rosto também se iluminou, e ele disse baixinho: “De ir uma vez, até gostei, mas nunca mais eu volto lá!”