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UMA BREVE HISTÓRIA DA PANIFICAÇÃO A panificação é talvez uma das artes culinárias mais antigas e sua história permeia a própria história da humanidade. Os primeiros pães foram elaborados no período neolítico, cerca de oito mil anos atrás. O pão já era elaborado na antiga Mesopotâmia, no período que data de 8.000 a. C. a 600 d. C. Tinha o formato oval e achatado e era feito com grãos como aveia, cevada, trigo e gergelim, onde estes eram triturados rusticamente. Os cereais eram misturados com água e deixados sobre pedras quentes, onde levedavam grosseiramente e, então, eram assados, envoltos ou cobertos de brasas. Apesar do rápido progresso dos arqueólogos que, nos últimos 50 anos, recuperaram milhares de informações sobre os primitivos hominídeos, o que se sabe sobre suas habilidades no preparo dos alimentos ainda é muito pouco e, em boa parte, baseada mais em conjecturas do que em informações perfeitamente documentadas. As evidências arqueológicas são, portanto abundantes, mas insuficientes para descreverem com segurança onde e como se passou da simples coleta e do consumo in natura de grãos selvagens ao seu cultivo, moagem e panificação. O mais provável é que as primeiras formas um pouco mais elaboradas do consumo 2 de grãos tenham sido papas e mingaus obtidos a partir do cozimento na água. Quanto à panificação propriamente dita, aquela do pão fermentado e conseqüentemente mais macio, tudo indica que tenha acontecido por acaso, ou por engano. Bastou que alguém tivesse esquecido uma quantidade de farinha úmida por um pouco mais de tempo antes de leva- Ia ao calor para que essa massa de alguma forma fermentasse espontaneamente, produzindo bolachas ou focaccia bem mais macias e saborosas do que de costume. Focaccia é uma massa de origem italiana, achatada (com no máximo 2 cm de altura) e macia, em geral coberta com sal grosso, azeite e alecrim. Na Itália, é consumida tanto no desjejum, como aperitivo ou antepasto. Estava descoberto o princípio básico do pão. No século XVII, a França se tornou o centro de fabricação de pães de luxo, com a introdução dos modernos processos de panificação, apesar de desde o século XII já ser habitual o consumo de mais de vinte variedades de pães naquele país. Depois, a primazia no fabrico de pão passou a Viena, Áustria. Em Roma, o pão levedado se tornou popular por volta de 500 a.C., quando foram desenvolvidos moedores circulares, base de toda moagem até a Revolução Industrial do século XIX. Mas será com os gregos que o pão passará a desempenhar um papel relevante na história da gastronomia. No início do milênio anterior ao do calendário civil atualmente em uso, já se tinham descoberto e inventado todas as condições para o progressivo aperfeiçoamento do pão. Já se conhecia a técnica da moenda, mesmo que grosseira, para produzir farinha. Já se conhecia a peneira para separar as cascas e demais resíduos dos cereais e para a obtenção de diferentes tipos de farinhas. Também estava bem aperfeiçoado o forno e, finalmente, já estava desenvolvida a idéia de condimentar o pão com toda sorte de ervas aromáticas, frutas e azeite. O aparecimento da máquina ocorre somente no século XIX, com amassadeiras (hidráulicas ou manuais), com um custo muito alto e também com grande rejeição. Os consumidores mostraram-se “hostis” com o pão feito mecanicamente. Pouco tempo depois surge o motor elétrico e a reclamação passa a ser dos padeiros. Cada máquina substituía dois padeiros. A invenção de novos processos de moagem da farinha também contribuiu muito para a indústria de panificação. Os grãos de trigo, inicialmente, eram triturados em moinhos de pedra manuais, que evoluíram para o de pedra movido por animais e depois para os movidos pela água e, finalmente, pelos moinhos de vento. Apenas em 1784 apareceram os moinhos movidos a vapor. Em 1881 ocorre a invenção dos cilindros, que muito aprimorou a produção de pães. O Brasil conheceu o pão no século XIX. Antes do pão, o que se usava, em tempos coloniais, era o biju de tapioca no almoço e no jantar a farofa, o pirão escaldado ou a massa de farinha de mandioca feita no caldo de peixe ou de carne. Um cronista francês, L.F. Tollenare, viajando pelo interior pernambucano em 1816, registrou também que não era comum o uso do pão, sendo, por outro lado, prodigiosa a cultura do trigo principalmente em Campina Grande, Paraíba. Outras informações de viajantes estrangeiros em 1839 dão conta do completo desconhecimento da existência de pão pelos 3 moradores do sertão nordestino, havendo até uma curiosa história a esse respeito. Contam que um matuto resolveu satisfazer sua curiosidade com relação ao pão, considerado finíssima iguaria. Vindo a Aracati, cidade cearense, próxima de Fortaleza, entrou em uma padaria, encheu o chapéu de pães e sentou-se à sombra de uma árvore. Pôs-se então a descascá-los, como se fossem bananas ou laranjas, comendo-os em seguida. Não gostando do paladar atirou-os fora, exclamando frustado: “Isto não serve para nada.” No início, a fabricação de pão, no Brasil, obedecia a uma espécie de ritual próprio, com cerimônias, cruzes nas massas, ensalmos para crescer, afofar e dourar a crosta, principalmente quando eram assados em casa. A atividade da panificação no Brasil se expandiu com os imigrantes italianos. Os pioneiros da indústria de panificação surgiram em Minas Gerais. Nos grandes centros proliferaram as padarias típicas, sendo que na cidade de São Paulo até hoje existem, em alguns bairros, como por exemplo, no Bixiga, padarias que fabricam pães italianos muito apreciados. Acredita-se que a elaboração de bolos exista desde o Egito Antigo na forma de pães adoçados com xarope de frutas, tâmaras, passas. A real diferença entre pães e bolos só veio a ser caracterizada durante o Renascimento. A denominação teria vindo de bola e os bolos teriam formas associadas a lua, a cone. Na Inglaterra da Idade Média, os convidados de um casamento costumavam presentear os noivos com pequenos bolos, estes iam sendo empilhados até formarem uma montanha bem alta. Existia ainda uma lenda, de que os noivos eram colocados, um de cada lado da montanha dos bolos, e depois se beijavam por cima dela, para ter vida próspera. No ano 1600, no reinado de Carlos II; um chef francês, visitando Londres, participou de uma celebração de casamento e vendo o ritual do empilhamento dos pequenos bolos, inspirou-se e teve a feliz idéia de transformar o monte, em um único bolo, todo confeitado e decorado. Foi então que a partir do século XVII, os confeiteiros ingleses iniciaram seus trabalhos com bolos ornamentais. A denominação “biscoito” surgiu na França para descrever o pão que amassado e novamente cozido transformava-se em pasta dura, visando sua melhor conservação. “Biscoito” é justamente a junção dos termos “bis” e “cuit” que quer dizer “cozido duas vezes”. Em meados do século XVII com a popularidade do biscoito, a Europa começou a servi-lo para acompanhar o chocolate, o chá ou o café. O macarrão foi descoberto pelo explorador Marco Pólo, no século XIII, na China, em uma das suas das suas famosas viagens. De volta à Itália, difundiu o tipo de alimento, que teve a aprovação dos italianos, tendo em seguida se espalhado por toda a Europa. Inicialmente, as massas alimentícias eram preparadas de forma artesanal; só em 1800, na Itália, surgiram os primeiros processos mecânicos, aplicados ao fabrico das massas. Foi em Nápoles, por volta de 1850, que apareceram as primeiras prensas mecânicas, que possibilitaram a produção de massas a um custo mais baixo, contribuindo para que estas se tornassem um produto mais popular.4 Os elementos históricos disponíveis fazem com que, ainda hoje, se continue a associar as massas à Itália. Um fato perfeitamente compreensível, dado que foi o povo italiano quem, ao longo dos tempos, mais contribuiu para o desenvolvimento das massas e para as diversas formas de as confeccionar. No Brasil, a introdução do macarrão em nossos hábitos alimentares coube aos imigrantes italianos, principalmente na Região Sul. O crescente interesse fez surgir pequenas fábricas de macarrão no país, tendo sempre como mão de obra, a família italiana. Sendo uma produção rudimentar, de baixo volume e bem caseira, até começarem a surgir as primeiras indústrias de fabricação, possuindo nos dias atuais modernas máquinas de fabricação do macarrão. Hoje em dia a massa é uma estrela mundial da culinária, sendo utilizada na confecção dos mais variados pratos e fazendo parte das várias gastronomias mundiais. BERTONI, J. Panificação. Rio de Janeiro: SENAC – RJ, [s.d.]. BOLAFFI, G. A Saga da Comida - Receitas e História. Rio de Janeiro: Record, 2000. http://www.presenteparahomem.com.br/a-historia-do-pao-no-brasil/, acessado em 02/07/2013. Instituição Instituto Federal Sul-rio-grandense Campus Pelotas - Visconde da Graça Nome do curso: Técnico em Agroindústria Professora autora: Leticia Debli Pereira Lima Disciplina: Tecnologia de Panificação, Massas e Confeitaria PROJETO INSTRUCIONAL Ementa básica da disciplina: História da panificação. Matérias-primas utili- zadas. Instalações e equipamentos. Tecnologia de processamento de alimen- tos panificáveis, massas e produtos de confeitaria. Controle de qualidade na panificação. Legislação pertinente. Projeto instrucional Semana Aula Objetivos e aprendizagem Recursos Carga Horária (Horas) 1ª História da panificação Conhecer e identificar os principais fatores da evolu- ção na panificação. Ambiente virtual: Plataforma Moodle; Apostila didática; Recursos de apoio: links, exercícios. 10 2ª Matérias-primas. Conhecer as características e obtenção dos principais cereais. Identificar, reconhecer as características e proprie- dades dos principais ingredientes e matérias-primas utilizadas na panificação. Ambiente virtual: Plataforma Moodle; Apostila didática; Recursos de apoio: links, exercícios. 15 3ª Instalações e equipamentos Compreender os princípios dos principais equipamen- tos utilizados na panificação Ambiente virtual: Plataforma Moodle; Apostila didática; Recursos de apoio: links, exercícios. 10 e-Tec BrasilTecnologia de panificação, massas e confeitaria 15 4ª Tecnologia de processamento Identificar as etapas de processamento na elaboração de pães, bolos, biscoitos e massas alimentícias. Ambiente virtual: Plataforma Moodle; Apostila didática; Recursos de apoio: links, exercícios, vídeos 15 5ª Controle de qualidade na pani- ficação Conhecer os parâmetros de qualidade para a produção de pães e massas; Conhecer a legislação e normas pertinentes à indús- tria de pães e massas. Ambiente virtual: Plataforma Moodle; Apostila didática; Recursos de apoio: links, exercícios. 10 Técnico em agroindústriae-Tec Brasil 16 1 Principais matérias primas Objetivos da aula Conhecer as características dos principais cereais e matérias primas da tecnologia de panificação, massas e confeitaria. Cereais são as sementes ou grãos co- mestíveis das gramíneas. O nome cere- al se deriva de Ceres, a deusa romana da colheita e da agricultura. Os cereais mais utilizados na alimentação humana são o trigo, o milho, o arroz, a cevada, o centeio e a aveia. 1.1 Características dos principais cereais Os cereais são constituídos basicamente por casca, endosperma e germe, po- rém os grãos de cada um dos grupos apresentam suas características próprias. A composição química média dos principais cereais é a seguinte (Tabela 1): Tabela 1: Composição centesimal média dos principais cereais Constituintes Composição centesimal (%) Trigo Centeio Milho Cevada Aveia Arroz Água 13,2 13,7 12,5 11,7 13,0 13,1 Proteína 11,7 11,6 9,2 10,6 12,6 7,4 Lipídios 2,2 1,7 3,8 2,1 5,7 2,4 Amido 59,2 52,4 62,6 52,2 40,1 70,4 Outros carboidratos 10,1 16,6 8,4 19,6 22,8 5,0 Fibra 2,0 2,1 2,2 1,6 2,6 0,7 Minerais 1,6 1,9 1,3 2,2 3,2 1,0 Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Cereal e-Tec BrasilTecnologia de panificação, massas e confeitaria 17 1.1.1 Trigo O trigo é um dos mais importantes grãos para a humanidade. Os principais produtores mundiais são China, EUA, Índia, Canadá e Rússia. Entre os maiores produtores, EUA e Canadá destacam-se como os grandes exportadores. Entre os importadores destacam-se China, Ín- dia, Rússia, Japão e Brasil. O trigo é uma gramínea, cereal da fa- mília Gramínea e do gênero Triticum, possuindo diversas espécies. O tipo de maior interesse comercial é o Triticum aestivum L. (trigo comum) utilizado em panificação, produção de bolos, bis- coitos, massas e produtos de confeitaria. O tipo Triticum durum é mais espe- cialmente destinado ao preparo de massas alimentícias. Os grãos de trigo são de forma oval, arredondados em ambos extremos. Ao longo do centro do grão se encontra o sulco e no final do sulco tem uma zona vascular fortemente pigmentada. Estruturalmente o grão de trigo é consti- tuído, basicamente, por pericarpo (7,8 a 8,6%), endosperma (87 a 89%) e gérmen (2,8 a 3,5%), conforme ilustrado na figura 1. O pericarpo, que constitui a casca, é rico em fibras e sais minerais e contém uma pe- quena quantidade de proteínas. Constitui a camada mais externa e protetora do grão e detém de 14 a 18% do grão de trigo. A casca é incluída na farinha de trigo integral e também é encontrada separadamente, como no farelo de trigo e no remoído. O endosperma detém aproximadamente 80 a 83% do total do grão de trigo. É constituído principalmente por amido e proteína e é desta região que se extrai a farinha de trigo branca. Contém a maior parte da proteína do grão inteiro, onde se encontram as proteínas solúveis (globulinas e albuminas) e as Fonte: http://trigoearte.w ordpress. com /2011/05/29/estrutura-do-grao-de-trigo/ Figura 1: Estrutura do grão de trigo Técnico em agroindústriae-Tec Brasil 18 proteínas insolúveis (gliadina e glutenina), que são as proteínas formadoras do glúten. Contém ainda carboidratos complexos em forma de amido, assim como ferro e algumas vitaminas do complexo B. Como último constituinte há o gérmen, parte embrionária da planta, onde se encontra grande parte dos lipídeos e que constitui de 2 a 3% do peso do grão. Durante o processamento do grão, o gérmen é geralmente separado devido à quantidade de gordura que interfere na qualidade de conservação da farinha de trigo. Dos nutrientes do grão de trigo inteiro, o gérmen contém mínimas quantidades de proteínas, mas grande parte das vitaminas e traços de minerais. No Brasil, de acordo com a Instrução Normativa nº 7/2001 do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), as cultivares estão classifica- das de acordo com a Alveografia e o Índice de Queda em cinco classes. Essas diferentes classes de trigo são utilizadas para fins distintos, conforme segue: • Em trigo brando/fraco, são enquadrados os grãos de genótipos de trigo aptos para a produção de bolos, bolachas (biscoitos doces), produtos de confeitaria, pizzas e massa do tipo caseira fresca e com baixo teor protéico. • Na classe trigo pão, estão os grãos de genótipos de trigo com aptidão para a produção do tradicional pãozinho (do tipo francês ou d’água) consumido no Brasil. Esse trigo também pode ser utilizado para a produção de massasalimentícias secas, de folhados ou em uso doméstico, dependendo de suas características de força de glúten. • A classe de trigo melhorador, envolve os grãos de genótipos de trigo aptos para mesclas com grãos de genótipos de trigo brando, para fins de pani- ficação, produção de massas alimentícias, biscoito do tipo crackers e pães industriais (como pão de forma e pão para hambúrguer). • Na classe do trigo durum, especificamente os grãos da espécie Triticum Durum L., estão os grãos de genótipos de trigo para a produção de massas alimentícias. • Trigos para outros usos são os destinados à alimentação animal ou outro uso industrial. Alveografia: teste que analisa as propriedades de tenacidade e de extensibilidade da massa) Índice de queda: medida indireta da concentração da enzima alfa-amilase determinada em 7 gramas de trigo moído). Glossário e-Tec BrasilTecnologia de panificação, massas e confeitaria 19 1.1.2 Arroz O arroz (oryza sativa) é um dos cereais mais produzidos e consumidos no mun- do, caracterizando-se como principal alimento para mais da metade da popu- lação mundial. É uma excelente fonte de energia, de- vido à alta concentração de amido, for- necendo também proteínas (albumina, globulina, prolamina e glutelina), vita- minas (principalmente do complexo B e vitamina E, com concentrações insignificantes das vitaminas A, D e C) e minerais, e possuindo baixo teor de lipídios. Durante o processamento dos grãos de arroz, são gerados subprodutos que podem ser aproveitados. Entre estes subprodutos estão os grãos quebrados (14 a 60%) que podem ser destinados à produção de farinha de arroz, a qual possui propriedades funcionais características em produtos e formulações que a utilizam, seja como amido na forma nativa, como amido pré-gelatinizado. Atualmente a utilização da farinha de arroz como ingrediente em produtos indus- trializados é crescente. Um dos motivos é que a farinha de arroz tem sabor suave. 1.1.3 Milho O milho (Zea mays) é produzido em quase todos os continentes, onde cerca de 70% da produção mundial de milho é destinada a alimentação animal. O peso individual do grão varia, em média, de 250 a 300mg e é constituído em média (base seca) de 72% de amido, 9,5% proteínas, 9% fibra e 4% de óleo. O grão de milho é formado por quatro principais estruturas físicas: en- dosperma, gérmen, pericarpo (casca) e ponta. O endosperma representa aproximadamente 83% do peso seco do grão, consistindo principalmente de amido (88%), organizado na forma de grâ- nulos. O gérmen representa 11% do grão de milho e concentra quase a totalidade dos lipídeos (óleo e vitamina E - 83%) e dos minerais (78%) do grão, além de conter quantidades importantes de proteínas (26%) e açúcares Técnico em agroindústriae-Tec Brasil 20 (70%). O pericarpo representa, em média, 5% do grão, sendo a estrutura que protege as outras estruturas do grão da elevada umidade do ambiente, insetos e microrganismos. As camadas de células que compõem essa fração são constituídas de polissacarídeos. A ponta é a menor estrutura, 2% do grão, e é responsável pela conexão do grão ao sabugo, sendo a única área do grão não coberta pelo pericarpo. Sua composição é essencialmente de material lignocelulósico. Como produtos à base de milho têm-se o fubá comum, a canjica, o fubá mi- moso, a farinha de milho, o amido de milho, entre outros que são bastante utilizados em produtos de panificação como pães, bolos, bolachas e etc. Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), farinha de mi- lho é o produto obtido pela torração do grão de milho desgerminado ou não, previamente macerado, socado e peneirado. 1.1.4 Aveia A forma mais empregada para o consumo da aveia é a utilização em flocos. Apresenta um teor mais elevado de lipídios, porque quase todo o gérmen é mantido. É menos oxidável devido ao seu alto teor de vitamina E (antioxidan- te). O grão de aveia apresenta em média 13,3% de proteína, 6,2% de lipídios e 66,4% de carboidratos. A proteína da aveia distingue-se pelo seu alto teor de arginina em relação aos outros cereais. Rica em fibras, vitaminas do com- plexo B, vitamina E, cálcio, fósforo e ferro, pode ser ingerida sob a forma de flocos grossos, flocos finos ou farinha. 1.1.5 Centeio É transformado principalmente em farinhas para a utilização em panificação, o qual é preparado com o grão integral. No Brasil, a farinha de centeio é, ge- ralmente, misturada com a farinha de trigo. A massa preparada da farinha de centeio é compacta e rompe-se com facilidade, não possuindo a elasticidade que é encontrada na massa da farinha de trigo. Contém vitaminas do com- plexo B, ferro, manganês, zinco, cobre e potássio. 1.1.6 Cevada É o mais antigo cereal conhecido, sendo utilizado principalmente no preparo da cerveja e uísques, podendo também ser consumido cozido ou como min- e-Tec BrasilTecnologia de panificação, massas e confeitaria 21 gau. Muitos utilizam sua infusão com o grão torrado e moído em substituição do café. Os índices protéicos encontrados na cevada são inferiores aos do trigo, pobres em gorduras, porém ricos em vitaminas do complexo B, cálcio, fósforo e potássio. 1.2 Obtenção da matéria prima 1.2.1 Farinha de trigo A farinha de trigo é obtida através de um processo conhecido como moa- gem do trigo. O objetivo do processo de moagem pode ser resumido em duas etapas: a primeira, separação do farelo e do gérmen do endosperma; a segunda, a moagem das partículas do endosperma em farinha de tamanho reduzido. O processo de moagem do trigo inclui vários estágios: recepção e estocagem, limpeza, condicionamento, moagem propriamente dita e finalmente, estoca- gem e embalamento, conforme mostrado na figura 2. Fonte: A utora Figura 2 – Fluxograma de uma indústria moageira de trigo Técnico em agroindústriae-Tec Brasil 22 O trigo é usualmente recebido e estocado em silos, onde sua qualidade é analisada e registrada. O trigo selecionado é misturado para obter um pro- duto com características adequadas para a indústria de panificação. Essa é a operação vital de responsabilidade do moleiro. A qualidade pode variar grandemente dependendo da qualidade do trigo e da eficiência do processo de moagem. A mistura do trigo selecionado é então limpa numa parte especial do moinho, chamada de casa de limpeza. Vários métodos e equipamentos são usados para limpar os grãos. São usadas peneiras para remover as impurezas maiores e menores que o trigo; objetos metálicos são removidos por separadores de gravidade conhecidos como despedradores; os separadores de disco remo- vem os grãos de outras plantas, como por exemplo, cevada, aveia e centeio, bem como de outras matérias estranhas. São usadas escovas para remover a sujeira e as impurezas aderidas, enquanto que as impurezas leves retiradas são removidas por ar em aspiradores. O trigo é então condicionado, na maioria das vezes pelo ajuste do conteúdo de umidade para tornar o farelo mais quebradiço e, portanto, facilitar sua separação durante as etapas de moagem. O condicionamento do trigo inclui duas fases. A primeira consiste no aumento do conteúdo de umidade do trigo, atingindo de 14% a 17% (dependendo do tipo de trigo), com a adição de água sob agitação contínua do trigo. Posteriormente, deve haver um des- canso de 6h a 36 h em silos, promovendo a penetração da água no interior do grão. O tempo de descanso dependerá da avaliação do tipo de trigo. O grão mais duro deverá ser mantido por mais tempo neste silo para melhor absorver a água adicionada. Na moagem, o gérmen é separado, sendo destinado geralmente para fins dietéticos. Teoricamente todo o endosperma podeser extraído produzindo farinha, entretanto este teor de extração é possível apenas quando o farelo e o gérmen são facilmente removidos. Na prática, o limite de teor de extração é de 72 a 78%. A etapa da moagem é feita pela passagem dos grãos de trigo por dois rolos que giram em sentido opostos. Os rolos são ajustados para permitir a quebra do grão de trigo em suas partes sem que, no entanto, haja quebra excessiva dos grânulos de amido ou danificação do gérmen. Esta moagem é feita em dois estágios distintos: - o primeiro desses estágios é o de quebra, o qual compreende de 4 a 6 passagens dos grãos pelos rolos, cada uma delas seguida de peneiramento e-Tec BrasilTecnologia de panificação, massas e confeitaria 23 para classificar o produto moído. As partículas maiores (que compreendem o farelo com endosperma aderido) são enviadas para a fase seguinte da mo- agem. A operação é repetida de 3 a 5 vezes de modo que, ao atingir a fase final todo o endosperma foi separado do farelo. Por outro lado, as partículas menores (de endosperma e farelo), são separadas por equipamentos chama- do purificador. A segunda fase é o estagio de redução, onde as partículas de endosperma purificado são moídas gradualmente para reduzir seu tamanho de partícula ao da farinha. Este estágio é composto usualmente de 4 a 12 fases da moa- gem, todas seguidas de peneiragem para classificar as partículas de acordo com o tamanho e pureza. Cada fase da moagem, quebra ou redução, produz certa quantidade de farinha, que é separada por peneiragem. Cada fração de farinha é designada pelo nome da fase da moagem pela qual foi produzida, e cada uma delas tem características químicas, físicas e tecnológicas específi- cas. A mistura das frações diferentes de farinha permite a produção de vários tipos com qualidade tecnológica diferentes. Para a estocagem e embalagem da farinha, essa é peneirada e passa por uma maquina especial para matar os insetos e os seus ovos que, por ventura, estejam presentes na farinha. A farinha é então pesada e estocada em célu- las. Diferentes frações de farinha são misturadas para produzir uma farinha homogênea, que é estocada para posterior acondicionamento e distribuição. 1.2.2 Farinha de milho A obtenção da farinha de milho se inicia com o processo de maceração, em água fria, para amolecer os grãos. O milho moído é colocado num tacho ele- vado ao fogo. Durante o aquecimento, o milho começa a grudar formando placas granulosas que, depois de esfareladas, resultam na farinha. Nas fari- nhas de milho, a principal proteína encontrada é a zeína, que apresenta baixa capacidade de reter gases, no entanto, forma uma massa elástica, utilizada em produtos de panificação como pães, bolos, etc. O fubá comum (fubá de milho) é uma farinha fina obtida pela moagem direta dos grãos secos do milho amarelo, com ou sem gérmen. Como o gérmen provoca a rápida deterioração do produto, por ser muito gorduroso, o fubá encontrado no comércio geralmente é fabricado com o milho sem germe. Técnico em agroindústriae-Tec Brasil 24 O fubá mimoso, também chamado de fubá de canjica, é produzido pela mo- agem dos grãos de milho desgerminados, ou seja, pela moagem da canjica. Este fubá é um produto mais fino, por não estarem presentes a casca e o gér- men. O tempo de conservação é maior porque reduz a tendência ao ranço, é utilizado na indústria confeiteira e para uso culinário em geral. 1.2.3 Farinha de arroz A farinha de arroz apresenta uma textura suave com o cozimento e cor bran- ca. É um produto hipoalergênico e não é tóxico para portadores de doença celíaca (podendo ser utilizado como substituto do trigo na elaboração de produtos SEM GLÚTEN). A farinha de arroz pré-gelatinizada pode ser usada para obter espessamento e retenção de água. Dentre suas aplicações destacam-se embutidos, cremes para sobremesas, baby foods, preparados a frio, empanados, recheio de hambúrguer, maione- se, pudim instantâneo, misturas lácteas instantâneas e biscoitos. Os tipos básicos de farinha de arroz têm as seguintes características: • Farinha de arroz comum ou crua: Farinha obtida pela moagem pura e sim- ples de grãos quebrados de arroz. • Farinha de arroz estabilizada: É a farinha feita a partir de grãos quebrados de arroz recém beneficiado. Esta farinha passa por um processo térmico onde é processada a estabilização enzimática da mesma. É a farinha que a Nestlé utiliza em seus produtos. • Farinha de arroz pré-gelatinizada ou pré-cozida: É a farinha produzida a partir de grãos quebrados de arroz que sofrem processo de extrusão ou tratamento infravermelho que provoca a pré-gelatinização do amido. Esta farinha é utilizada como espessante e melhorador de aparência e textura de muitos alimentos como por exemplo molhos, sopas enlatadas, recheio de tortas etc., sendo favorecida por seu sabor neutro e aparência clara. e-Tec BrasilTecnologia de panificação, massas e confeitaria 25 1.3 Principais ingredientes utilizados no preparo de misturas e massas Os principais ingredientes em panificação dividem-se em dois grandes gru- pos: essenciais (farinha de trigo, água, fermento biológico e sal) e não essen- ciais (açúcar, gordura, leite e outros). 1.3.1 Farinha de trigo A farinha de trigo é a matéria-prima mais importante utilizada para a elabo- ração de pães, bolachas e massas, mas outras farinhas poderão ser utilizadas como farinha de centeio, milho, mandioca, entre outras. O que a torna tão bá- sica na indústria de panificação é que somente a farinha de trigo contém quan- tidade suficiente de proteínas (gluteninas e gliadinas), que quando misturadas com o líquido formam uma substância elástica chamada glúten, a qual retém o gás produzido na fermentação, conforme mostrado na figura 3 a seguir. Fonte: http://goo.gl/hY w ol Fonte: http://goo.gl/6X hnw Figura 3 – a) Proteínas do glúten; b) Rede do glúten A formação do glúten se dá em três etapas: 1) As proteínas encontram-se originalmente enroladas. 2) A energia mecânica introduzida na amassadura provoca a quebra de algu- mas ligações químicas mais frágeis e esses novelos vão-se desenrolando. 3) As cadeias “desenbaraçadas” estabelecem novas ligações entre si e for- mam uma espécie de rede, do tipo “teia de aranha”. E é essa rede que é chamada glúten, a qual é simultaneamente plástica, elástica e muito coesa. Técnico em agroindústriae-Tec Brasil 26 As gliadinas são as principais responsáveis pelo controle do volume do pão, enquanto que as gluteninas respondem pelos tempos de mistura e de desen- volvimento da massa, sendo essa fração a mais elástica e coesa. Além do glúten, que pode ser comparado ao “esqueleto” da massa, o amido desempenha papel importante na manutenção da estrutura do pão no co- zimento, ajudando a retenção dos gases produzidos durante a fermentação. Os lipídeos também participam das interações entre o amido e proteínas, e ainda das proteínas entre si. As características da farinha de trigo a ser utilizada dependem do produto a que se destinam. O teor de glúten classifica as farinhas para várias utilizações. A farinha de trigo duro (com 9% a 15% de glúten) produz um glúten forte, re- sistente à ruptura e com maior capacidade de absorção de líquidos, sendo uti- lizada para pães com fermento biológico. As farinhas de trigos duros exigem mais água, mais trabalho de amassamento e mais tempo de fermentação. As farinhas de trigo mole e branco (com 7% a 9% de glúten) produzem um glúten fraco, fácil de romper e exigem menor quantidade de líquido, menos amassamento e menos tempo de fermentação, sendo mais indicadas para bolos e biscoitos. As farinhas de trigo durum, que possui teor de glúten muito alto, são aconse-lhadas para produção de massas alimentícias, como o macarrão. 1.3.2 Sal O sal sempre foi usado na panificação, todavia, segundo historiadores, sua eficácia como melhorador foi descoberta por acaso. O sal tem 4 característi- cas importantes na massa. O sabor obviamente é uma delas. As demais são: • Realce de sabor: O sal ativa as papilas gustativas da língua, realçando o sa- bor, mesmo dos doces. Uma pitada de sal em um suco, por exemplo, dá a impressão de aumentar ainda mais a “doçura” do mesmo. Por isso que mes- mo as receitas doces acompanham uma quantidade insignificante de sal. • Controlador da fermentação: É sabido que o sal tem ação bactericida e fun- gicida. Como o fermento é um fungo, este também sofre ataque do sal, regulando o seu desempenho na massa. Todo padeiro deve ter o cuidado de não colocar o fermento em contato direto com o sal durante a mistura e-Tec BrasilTecnologia de panificação, massas e confeitaria 27 dos ingredientes, o que resultaria na destruição do próprio (evite utilizar mais do que 2,5% de sal em relação à farinha, o limite 3%, é prejudicial). • Fortalecedor do glúten da massa: Essa é a principal propriedade que explica o porquê da maioria das formulações de pães, doces ou salgados, adota- rem a quantidade de 2% de sal em relação à farinha. Abaixo deste valor as massas crescem achatadas, e com a incidência de bolhas, característica observada em farinhas fracas. Muito acima desta proporção, existe a in- terferência no desenvolvimento do fermento. Portanto, o limite adequado para o melhor fortalecimento da massa continua sendo 2%, ou seja, 20 gramas de sal para cada quilograma de farinha de trigo. 1.3.3 Água A água é um ingrediente imprescindível na formação da massa. A água é importante para a hidratação das proteínas e o desenvolvimento do glúten e ao mesmo tempo fornece meio propício ao desenvolvimento da atividade enzimática e, conseqüentemente, à fermentação do pão. Também na pa- nificação tem funções como: controlar a consistência da massa; controlar a temperatura da massa (aquecendo-a ou resfriando-a); dissolver os sais; sus- pender e distribuir os ingredientes que não a farinha de trigo; umedecer o amido, deixando-o mais digerível; possibilitar a ação das enzimas; e controlar a maciez e palatabilidade do pão. Produtos com falta ou excesso de água têm suas características prejudicadas. A quantidade ideal de água a ser adicionada em uma massa é função da farinha e dos ingredientes utilizados. Em panificação, costuma-se usar qualquer tipo de água, desde que seja po- tável. Entretanto, sabe-se que sua qualidade influi no produto final, uma vez que a mesma pode conter certos minerais, como cálcio e magnésio, respon- sáveis pela dureza da água, assim as características adequadas da água na panificação são: limpa, inodora, incolor e potável; dureza intermediária 50 – 100ppm; pH neutro a ligeiramente ácido. 1.3.4 Fermento Existem dois tipos de fermento, de aplicações distintas que são o fermento químico e o fermento biológico. O primeiro consiste em um produto de na- tureza mineral, que libera gás carbônico (CO2) a partir do aquecimento e/ou reação com os ingredientes da receita (a água, por exemplo). Técnico em agroindústriae-Tec Brasil 28 O fermento biológico é um concentrado de leveduras (saccharomyces cerevi- siae), que se constituem em seres vivos inertes em baixa temperatura (no caso do fermento em pasta) ou em baixa umidade (no caso do fermento seco). Ao submetê-lo em condições ideais de temperatura, umidade e alimento, este entra em atividade, ou seja, passa a se alimentar dos açúcares presentes na composição da massa e expele como subproduto de sua digestão, álcool e gás carbônico (fermentação alcoólica). O gás carbônico é retido pela massa dando o efeito do crescimento e o álcool, parte contribui no aroma, parte se perde no ar. A reação de fermentação alcoólica ocorre da seguinte forma: C6H12O6 (glicose) → 2CH3CH2OH (etanol) + 2CO2 (gás carbônico) + energia Do ponto de vista prático, existem no mercado dois tipos de fermento bioló- gico que são comercializados: o fermento prensado fresco (pasta) e o fermen- to biológico seco, conforme ilustrado na figura 4. Fonte: A utora Figura 3 – a) Fermento fresco; b) Fermento seco • Fermento Fresco (pasta): É o mais comum, usado normalmente nas pa- darias. Apresenta-se sob forma de blocos, com consistência compacta e homogênea, e com teor de umidade elevado (o que exige refrigeração para sua conservação, limitando o seu uso por períodos prolongados). Assim, quando armazenado a uma temperatura de 5ºC, sua vida de prateleira é de no máximo 12 dias. Qualquer alteração da cor e odor do fermento indica problemas de qualidade fermentativa. • Fermento Seco: Tanto o fermento seco ativo como o não ativo são obtidos através da secagem do fermento fresco a baixa temperatura, para não preju- e-Tec BrasilTecnologia de panificação, massas e confeitaria 29 dicas a qualidade fermentativa. A grande vantagem desse tipo de fermento é sua conservação que é longa devida principalmente à sua baixa umidade. Para quem usa o fermento em pasta, recomenda-se colocá-lo um pouco antes da massa estar completamente formada, pois o fermento entra em ati- vidade logo que assimila a temperatura da massa. No caso do fermento seco, a necessidade é de acrescentá-lo no início do processo, junto com a farinha, para que a umidade da farinha e a adição de água ativem o fermento. O fermento em pasta possui cerca de 70% de água, amido e açúcares, fora as colônias formadas por células de fermento, enquanto que o seco possui cerca de 4% de água e um produto antiumectante. Esta proporção de menos de 30% de colônias de fermento, contra quase 95% das colônias no fermento seco, fazem com que o fermento seco seja 3 vezes mais intenso que o pasta, assim, no lugar de 300 gramas de fermento pasta, convém utilizar 100 gra- mas de fermento seco. É importante cuidar para que, ao fazer a massa, o fermento não entre em contato direto com o sal, pois o mesmo tem ação bactericida e acabará ma- tando suas células. Como o fermento é o único ser vivo da massa, é ele que cita as regras de temperatura para a sua sobrevivência. Desta forma a massa sovada não deve ultrapassar 28ºC, pois à 30ºC favorece outros microorga- nismos que provocam fermentações indesejadas, dando sabor ácido e azedo ao pão, além de descontrolar a formação de gases na massa. A temperatura ideal de proliferação do fermento na massa é de 26 à 28ºC. Para acelerar a formação de gases no crescimento, alguns padeiros aquecem o ambiente de fermentação, mas é importante cuidar a temperatura excessiva, pois à 40ºC o fermento perde a atividade, e à 50ºC este morre de vez. Convém trabalhar em 35ºC sem preocupações, com oscilação para no máximo 37°C. 1.3.5 Açúcar O açúcar é o elemento fundamental para a reprodução e crescimento do fer- mento. Os açúcares utilizados são aqueles naturalmente presentes na farinha de trigo: a maltose, derivada do amido pela ação da enzima alfa-amilase; a lactose proveniente do leite; e os açúcares adicionados, geralmente sacarose. O açúcar tem as seguintes funções: • Ser utilizado pelas leveduras no processo de fermentação. • Conferir sabor doce aos produtos. Técnico em agroindústriae-Tec Brasil 30 • Conferir cor dourada (reação de Maillard e caramelização). • Aumentar a conservação e retardando o processo de envelhecimento. O açúcar usado em demasia retarda a ação do fermento biológico, confere textura grossa, crosta lustrosa e açucarada. No biscoito doce, o açúcar é em grande parte responsável pela textura crocante deste produto. O açúcar tam- bém tem papel importante no sabor, aroma ena coloração da crosta do bolo. A sacarose é o açúcar utilizado com mais freqüência na massa dos bolos, mas mel, glicose e açúcar mascavo também são frequentemente utilizados. A quantidade de açúcar adicionado às massas varia de acordo com o tipo de pão. No pão francês utiliza-se até 4% de açúcar, nos pães semidoces de 4 a 15% e nos pães doces de 15 a 25%. Sabe-se que quanto maior for a taxa de açúcar da formulação, mais corado fica o pão devido a caramelização das partículas existentes na superfície da massa, além do “amaciamento” da casca e do miolo, e prolongamento do tempo de conser- vação, proveniente de sua característica higroscópica (captação da umidade). 1.3.6 Gordura Compreendem as manteigas, margarinas, banhas, óleos e gorduras vegetais. A gordura tem a função de lubrificar o glúten formado na massa, deixando-a branda, uniforme e com elevado aumento da extensibilidade. Quanto mais o teor de gordura na formulação, maior é a maciez da casca e do miolo, além de prolongar a conservação do produto final. Recomenda-se que ao preparar uma massa de pão, seja adicionada a gordura somente quando toda a farinha de trigo estiver hidratada, pois caso contrário, a farinha terá dificuldades de hidratação, pois há uma tendência natural da gordura de não se misturar com a água. A adição deste ingrediente favorece a conservação do pão, pois uma vez que as camadas de gordura estejam bem distribuídas no miolo, a água presente no interior do pão terá dificuldades de ser expelida naturalmente, demorando mais para que o pão “seque”. Na fabricação de biscoitos, a gordura normalmente funciona como ama- ciador, contribuindo com aroma e sabor (margarina e manteiga), melhora a expansão e lubrifica a massa (óleo). Pode eventualmente funcionar como agente de crescimento pela retenção de ar. Reação de Maillard Caramelização http://www. mundodaquimica.com. br/2012/08/reacao-de- maillard-e-a-caramelizacao/ Saiba mais e-Tec BrasilTecnologia de panificação, massas e confeitaria 31 1.3.7 Outros ingredientes Com o objetivo de conferir aos produtos de panificação características espe- cíficas, outros ingredientes podem ser utilizados, como: • Leite: O leite se apresenta na forma líquida ou em pó, sendo que para fabri- cação de biscoitos, a forma em pó é a mais utilizada pela facilidade de ma- nuseio. Na fabricação de biscoitos é utilizado pelas seguintes propriedades: retenção de umidade, consistência da massa, redução de doçura, sabor e nutrição. Quando utilizado na produção de pães chega a aumentar em até 10% o volume do produto final, melhorando a cor da crosta, a estrutura do miolo e aumentando o tempo de conservação, além de aumentar seu valor nutricional. • Fécula de mandioca (amido de mandioca): É uma matéria-prima abundante, de fácil obtenção e com atributos funcionais. O amido de mandioca é uma pasta clara de sabor suave que pode ser usada para diversos fins na indús- tria de alimentos, possui baixo índice de rejeição por não possuir sabor nem odor característico quando adicionado aos produtos. Não contem glúten, assim pode ser utilizado na fabricação de produtos para celíacos. Os pães fabricados com teor máximo de 20% de fécula de mandioca apresentam um aumento na vida de prateleira de 3 para 6 horas, em relação ao produ- to contendo apenas farinha de trigo. • Farinha de soja: Essa farinha é obtida a partir da seleção do grão de soja integral, moído e tostado, sua obtenção é semelhante ao processamento da farinha de trigo. Possui propriedades funcionais, que a tornam um in- grediente alimentar versátil e de baixo custo. Comparativamente a farinha de trigo a farinha de soja é quatro vezes mais rica em proteína, vinte vezes mais rica em gordura e de três a cinco vezes mais pobre em carboidratos, sendo excelente alimento para vegetarianos e diabéticos. Esta farinha é muito indicada para elaborar pão misto e na elaboração de pão branco, 5% de farinha de soja elimina as dificuldades da fermentação e a ação do fermento processa-se suavemente, obtendo um produto com melhores ca- racterísticas de sabor, aumentando a umidade, diminuindo a tendência de esfarelar, melhorando o corte e prolongando a vida de prateleira. Técnico em agroindústriae-Tec Brasil 32 Atividades de aprendizagem 1) Relacione os tipos de trigo com as suas respectivas utilizações. (1) Trigo brando/fraco ( ) produção de biscoito cracker, pão de forma e pão de hambúrguer. (2) Trigo pão ( ) destinados à alimentação animal ou outro uso industrial. (3) Trigo melhorador ( ) produção de bolos, bolachas, produtos de confeitaria, pizzas e massa fresca. (4) Trigo durum ( ) produção de pão francês ou pão d´água. (5) Trigo para outros usos ( ) produção especificamente de massas alimentícias. 2) São respectivamente ingredientes essenciais e não essenciais na panificação: a) farinha de trigo e água. b) gordura e fermento biológico. c) água e sal. d) farinha de trigo e leite. e) açúcar e fermento biológico. 3) Marque V (Verdadeiro) e F (Falso). ( ) Um dos objetivos do processo de moagem é a separação do farelo e do gérmen do endosperma. ( ) Dentre os cereais utilizados na panificação, o Trigo é o que apresenta o maior teor de proteínas. ( ) Uma das vantagens do fermento fresco em relação ao fermento seco é seu tempo maior de conservação. e-Tec BrasilTecnologia de panificação, massas e confeitaria 33 Referências BERTONI, J. Panificação. Rio de Janeiro: SENAC – RJ, [s.d.]. BOLAFFI, G. A Saga da Comida – Receitas e História. Rio de Janeiro: Record, 2000. BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Instrução Normativa nº 7, de 15 de agosto de 2001. Estabelece o Regulamento Técnico de Identidade e Qualidade do Trigo. Diário Oficial da União. Brasília, Seção 1, p. 33-35, 21 ago. 2001. CAUVAIN, S. P. & YOUNG, L. S. Tecnologia da panificação. 2 ed. São Paulo: Editora Manole, 2009. MORETTO, E. Processamento e análise de biscoitos. São Paulo: Livraria Varela, 1999. QUESADA. Y. R. Os Cereais. Brasília: Instituto de educação superior de Brasília, 2012 LIMA. U. A. et al. Biotecnologia Industrial. 1 ed. São Paulo: Editora Edgard Blucher Ltda, 2001. http://www.wikipedia.org/, em 03/07/2013. http://portal.anvisa.gov.br, em 03/07/2013. http://www.presenteparahomem.com.br/a-historia-do-pao-no-brasil/, em 02/07/2013. Técnico em agroindústriae-Tec Brasil 34 Instituição Instituto Federal Sul-rio-grandense Campus Pelotas - Visconde da Graça Nome do curso: Técnico em Agroindústria Professora autora: Leticia Debli Pereira Lima Disciplina: Tecnologia de Panificação, Massas e Confeitaria PROJETO INSTRUCIONAL Ementa básica da disciplina: História da panificação. Matérias-primas utili- zadas. Instalações e equipamentos. Tecnologia de processamento de alimen- tos panificáveis, massas e produtos de confeitaria. Controle de qualidade na panificação. Legislação pertinente. Projeto instrucional Semana Aula Objetivos e aprendizagem Recursos Carga Horária (Horas) 1ª História da panificação Conhecer e identificar os principais fatores da evolu- ção na panificação. Ambiente virtual: Plataforma Moodle; Apostila didática; Recursos de apoio: links, exercícios. 10 2ª Matérias-primas. Conhecer as características e obtenção dos principais cereais. Identificar, reconhecer as características e proprie- dades dos principais ingredientes e matérias-primas utilizadas na panificação. Ambiente virtual: Plataforma Moodle; Apostila didática; Recursos de apoio: links, exercícios. 15 3ª Instalações e equipamentos Compreender os princípios dos principais equipamen- tos utilizados na panificação Ambiente virtual: Plataforma Moodle; Apostiladidática; Recursos de apoio: links, exercícios. 10 e-Tec BrasilTecnologia de panificação, massas e confeitaria 15 4ª Tecnologia de processamento Identificar as etapas de processamento na elaboração de pães, bolos, biscoitos e massas alimentícias. Ambiente virtual: Plataforma Moodle; Apostila didática; Recursos de apoio: links, exercícios, vídeos 15 5ª Controle de qualidade na pani- ficação Conhecer os parâmetros de qualidade para a produção de pães e massas; Conhecer a legislação e normas pertinentes à indús- tria de pães e massas. Ambiente virtual: Plataforma Moodle; Apostila didática; Recursos de apoio: links, exercícios. 10 Técnico em agroindústriae-Tec Brasil 16 2 Instalações e equipamentos Objetivos da aula Compreender os princípios dos principais equipamentos utilizados na panificação. Contaminação cruzada é a contaminação de um alimento para outro por substâncias ou agentes estranhos, de origem biológica, química ou física nocivos a saúde. Glossário 2.1 Generalidades Desde a origem da panificação até os dias atuais, as instalações, máquinas e equipamentos destinados para a produção de pão, biscoitos, bolos, massas e afins, sofreram grandes modificações em função das tecnologias de proces- samento e do aumento da diversidade de produtos. Em relação às instalações, a estrutura básica de uma indústria/empresa de panificação deve estar dimensionada em um projeto prático, com higiene rigorosa, segurança ocupacional, espaço e local agradável (iluminação e ven- tilação) para um atendimento diferenciado, ou seja, a organização do am- biente interno deve oferecer: • Condições físicas e processos de manipulação que respeitem as normas estabelecidas pelos órgãos fiscalizadores e • Condições de trabalho que propiciem fluxo contínuo de forma ergonômica e produtiva, ou seja, dando conforto e bem estar ao trabalhador. Deve-se atentar também para as dimensões dos equipamentos em relação ao espaço disponível, que deve ser sempre otimizado e contaminação cruzada. A figura 1 traz um exemplo de distribuição de áreas numa indústria de alimentos: [ figura na próxima página ] e-Tec BrasilTecnologia de panificação, massas e confeitaria 17 De maneira geral o projeto das instalações deve contemplar áreas para: re- cepção e depósito de matéria-prima, processamento, embalagem, armaze- namento, expedição, banheiros/vestiários, atividades administrativas e co- mercialização (quando for o caso). 2.2 Instalações O fluxo de produção tem início na área de recepção de matéria-prima, onde é realizado o recebimento e a conferência das mesmas, juntamente com os materiais de embalagem. A observação das características sensoriais, prazo de validade, integridade e empilhamento máximo recomendado para cada tipo de insumo são basicamente os cuidados que se sucedem. Procurar evitar sempre que a matéria-prima de uma padaria tenha algum contato com calor, fungos, bactérias, insetos e outras pragas é um objetivo fundamental no pro- cesso de recebimento e depósito/armazenamento. A área de processamento é onde ocorre a elaboração dos produtos. Os equi- pamentos a serem instalados nesta área deverão ser adequados de acordo com o tipo de alimento e processamento a serem realizados. Este ambiente pode ser considerado como uma área crítica, pois há grande risco de con- taminação. Para tanto, deve-se atentar com a climatização e com fluxo, que deve ser separado dos demais setores. Na área de embalagem o produto é acondicionado em embalagens próprias e identificado para posterior armazenamento e distribuição. Os produtos já elaborados e embalados devem possuir instalação exclusiva e adequada para o seu armazenamento/estoque. Os produtos armazenados em temperatura ambiente devem ser arrumados em estantes ou sobre estrados. Os estrados Fonte: M artello; K ato, 2011 Figura 1: Layout básico de uma indústria de alimentos Técnico em agroindústriae-Tec Brasil 18 não devem ficar encostados na parede, nem devem ter contato direto com o chão, para facilitar a limpeza e a circulação de ar. Os produtos devem ser arrumados de modo que os produzidos em primeiro lugar fiquem na frente e sejam os primeiros a sair para comercialização. Na área de expedição ocorre o processo de carregamento dos veículos que farão a distribuição dos alimentos. Essa é uma área com alta incidência de manuseio e grande probabilidade de danos à embalagem e ao produto, portanto quando possível deverá ficar segregada do armazenamento/estoque, tanto para otimizar as atividades logísticas quanto para garantir a preservação dos produtos. 2.3 Máquinas, equipamentos e utensílios Algumas panificadoras ainda trabalham artesanalmente, com o mínimo exigido para a fabricação de produtos como pães, bolos, cucas, etc., enquanto outras, mais modernas, contam com as novidades tecnológicas do mercado. Desta forma, abordaremos os equipamentos essenciais (imprescindíveis), necessários (agilizam e padronizam a produção) e opcionais, bem como de alguns utensílios. 2.3.1 Equipamentos essenciais 2.3.1.1 Balança As balanças servem para pesar os ingredientes, massas e produtos acabados, de forma a padronizar receitas e uniformizar os produtos. Tornou-se um equipamento imprescindível com os novos procedimentos de trabalho, onde se exige um controle rigoroso principalmente devido a incorporação de adi- tivos que influenciam direta, ou indiretamente na qualidade do pão. A figura 2 mostra alguns modelos deste equipamento. Fonte: http://w w w .jrom a.pt/ balancas_haccp.htm Figura 2: Modelos de balanças e-Tec BrasilTecnologia de panificação, massas e confeitaria 19 2.3.1.2 Masseira É também chamada de amassadeira ou ainda, misturadora. Sua função é misturar e sovar a massa. A masseira assemelha-se a uma batedeira domésti- ca com um tacho, ou bacia (onde são colocados os ingredientes) e garfos, ou braços, de forma espiral para misturar e sovar/cilindrar a massa. As masseiras mais modernas possuem um dispositivo de segurança chamada de grade de proteção com trava de acionamento, enquanto essa grade esti- ver levantada a máquina não funciona, preservando a saúde do trabalhador. Existem masseiras semi-rápidas, rápidas e convencionais, de acordo com a ro- tação do motor, conforme mostrado nas figuras 3a e 3b e geralmente estão disponíveis em capacidade de 15, 25 ou 50 kilogramas de farinha. Fonte: http://w w w .artigopr. com .br/m asseiras.htm http://w w w .forum depizzas.net/ Figura 3a: Masseira rápida Figura 3b: Masseira convencional A masseira semi-rápida tem duas velocidades: a primeira velocidade mistura os ingredientes, formando a massa e a segunda velocidade sova a massa, de- senvolvendo o glúten, dispensando assim a utilização do cilindro. Geralmente apronta a massa em torno de 10 a 15 minutos. As masseiras rápidas possuem uma única velocidade e o tempo de mistura nesse equipamento é mínimo, dispensando assim o cilindro. Devido ao atrito dos ingredientes com o equipamento, é necessário utilizar água gelada ao invés de água à temperatura ambiente, para que a temperatura da massa não se eleve a ponto de provocar a destruição do glúten. Técnico em agroindústriae-Tec Brasil 20 A masseira convencional apresenta alto consumo de energia. Como sua rota- ção é baixa, levando muito tempo para completar a mistura dos ingredientes, precisa do cilindro para completar a formação do glúten. 2.3.1.3 Forno Equipamento de grande importância na panificação. Sua finalidade é cozi- nhar e assar pães, bolos, biscoitos, etc. Podemos classificar os fornos quanto à fonte de energia e modelo. Quanto à fonte de energia, os fornos podem ser:• Forno elétrico: o sistema de aquecimento do forno elétrico funciona por meio de resistências que aquecem a parte interna superior e inferior do mesmo. O controle da temperatura é feito através do termômetro, cuja capacidade vai de 350ºC a 450ºC. Os fornos elétricos possuem algumas vantagens sobre os demais, como: au- sência de fumaça, cinzas e carvão; menor aquecimento do ambiente; menor contato do forneiro com o calor; tempo de aquecimento mais rápido; facili- dade em controlar a temperatura desejada; mas, em contra partida, gastam bastante energia elétrica. • Forno a lenha: o aquecimento do forno é obtido pela queima da lenha que é colocada em um compartimento embaixo da parte onde são colocadas as assadeiras (fornalha) e assim é feito o aquecimento. Um aspecto importan- te é a ação do abastecimento da lenha, que geralmente é feita pelo próprio profissional que manipula a massa de pão, destacando assim a importância do hábito de lavar as mãos. Este tipo de forno está quase extinto devido ao seu tamanho e dificuldade de controle. • Forno a gás: é mais econômico e prático. O aquecimento é produzido pela queima do gás e distribuição do calor através de tubos galvanizados em forma de serpentina. O tempo de aquecimento varia conforme o tamanho do forno. Quanto ao modelo, os mais comuns são: • Forno de lastro: Tem boa aceitação para pães de forma e produtos de con- feitaria. O forno de lastro é uma câmara comum, que recebe apenas uma única camada de pães por lastro, conforme mostra a figura 4 abaixo. e-Tec BrasilTecnologia de panificação, massas e confeitaria 21 • Forno turbo, abrange várias ca- madas de pães, numa única câ- mara, e assa por convecção, ou seja, o calor é circulado mecani- camente por uma ou duas turbi- nas, situadas no forno. Devido à boa distribuição de calor, o forno turbo vem sendo mais solicitado para a fabricação do pão francês, como mostra a figura 5. 2.3.2 Equipamentos necessários 2.3.2.1 Cilindro Usa-se o cilindro para facilitar a abertura da massa numa determinada espessu- ra ou quando a massa é preparada em masseira de baixa rotação, para desen- volver o glúten. Usa-se este equipamento também para a confecção de pizzas, biscoitos e bolachas, devido à disposição da massa em formato de lâminas. O equipamento constitui-se de dois rolos de aço dispostos verticalmente, que giram em sentido contrário e lançam a massa para dentro do espaço existen- te entre eles. A distância entre um rolo e outro pode ser regulado, de acordo com o produto que se deseja obter. A figura 6 mostra um modelo de cilindro. Fonte: http://w w w .praticafornos.com .br/ Figura 4: Modelo de forno de lastro Fonte: http://w w w .pontoequi- pam entos.com .br/ Figura 5: Modelo de forno turbo Técnico em agroindústriae-Tec Brasil 22 2.3.2.2 Divisora É um equipamento feito em aço inox ou ferro fundido, servindo para dividir a massa em partes menores, de mesmo volume e, consequentemente, de mesmo peso, o que padroniza o produto. A mais comum é a divisora que divide a massa em 30 porções, à medida que a alavanca é acionada manualmente, conforme mostra a figura 7: 2.3.2.3 Modeladora Tem o objetivo de modelar pedaços de massa crua em vários tipos de pães. Constitui-se de um sistema de rolos e lonas de feltro, onde inicialmente a massa é comprimida por dois cilindros reguláveis, e posteriormente é enrola- da entre dois feltros circulando em sentido contrário, o que completa o alon- gamento, enrolamento e selagem da massa. A figura 8 mostra um modelo de modeladora: [ figura na próxima página ] Fonte: http://w w w .equipam entoparapanificacao.com .br Figura 6: Modelo de cilindro Fonte: http://setelagoas.olx.com . br/divisora-de-m assa Figura 7: Modelo de divisora e-Tec BrasilTecnologia de panificação, massas e confeitaria 23 2.3.2.4 Armário e esteiras Os armários também são conhecidos por “carrinhos de esteiras”. Possuem rodinhas, o que facilita o movimento dentro do processo produtivo e tem o formato de um armário fechado, para que o pão fique protegido da corrente de ar, evitando desta forma que sua qualidade seja prejudicada. Cada carrinho tem, em seu inte- rior, suportes dos dois lados, para receber as assadeiras/esteiras de pães ou outros produtos. As estei- ras consistem em bandejas perfu- radas, onde os pães ficam dispos- tos em fileiras (geralmente de 4 a 5). A capacidade de cada armário depende de cada fabricante, mas geralmente comporta 20 esteiras dispostas verticalmente, uma so- bre a outra, conforme a figura 9: O armário armazena o pão pronto e podem servir como um substituto da câ- mara de fermentação, porém sem controle de temperatura, onde as massas fermentam em um ambiente livre de circulação de ar. Fonte: http://cozinheirovirtual.blogspot.com .br/ Figura 8: Modelo de modeladora Fonte: http://w w w .sbaequipa- m entos.com .br/ Figura 9: Modelo de carrinhos com esteiras Técnico em agroindústriae-Tec Brasil 24 2.3.3 Equipamentos opcionais 2.3.3.1 Câmara de fermentação Local usado para fermentar o pro- duto modelado cru. Constituem-se de “armários”, onde se colocam as assadeiras dispostas umas sobre as outras. Constam de um ambiente fechado, com uma porta, onde se mantém regulada a temperatura e a umidade de forma que estas permaneçam constantes e propor- cionem o desenvolvimento do fer- mento para que o produto cresça, conforme mostra a figura 10: Geralmente, a temperatura da câmara encontra-se na faixa entre 30-35ºC, e a umidade em torno de 75-80%. Assim, os produtos não perdem água e atingem o crescimento desejado. Algumas vantagens do uso da câmara de fermentação são: controle do pro- cesso fermentativo, não o deixando suscetível às mudanças climáticas diárias; processo fermentativo mais rápido, seguro, padronizado e constante; manu- tenção da qualidade do produto. 2.3.3.2 Fatiadora Máquina que corta em fatias os diversos tipos de pães. Seu fun- cionamento consiste na colocação de pães na rampa, e consequente compressão, pela ação de um pe- sinho, contra as lâminas dentadas e cortantes, que se movem alter- nadamente no sentido vertical, ob- tendo fatias uniformes, como mos- tra a figura 11: Fonte: http://w w w . acessoriospanificacao.com .br/ Fonte: http://w w w . acessoriospanificacao.com .br/ Figura 10: Modelo de câmara de fermentação Figura 11: Modelo de fatiadora e-Tec BrasilTecnologia de panificação, massas e confeitaria 25 2.3.3.3 Batedeira Instrumento de confeitaria. Muito utilizada para preparar massas, bolos, cre- mes e recheios. Constituída de tacho e garfo batedor, para a preparação do produto desejado, basta colocar o batedor adequado e ajustar a velocidade de rotação necessária. 2.3.4 Alguns utensílios 2.3.4.1 Estiletes É uma haste com lâmina na ponta, utilizada para cortar os pães no momento de colocá-los no forno. 2.3.4.2 Espátulas Usada para cortar a massa, aplicar recheios em produtos de confeitaria, lim- par formas e assadeiras. Podem ser de plástico ou de aço. 2.3.4.3 Facas e raspadores As facas servem para cortar a massa e os raspadores para raspar as massas grudadas nas formas, mesas e assadeiras. 2.3.4.4 Mesa de manipulação Local onde se coloca a massa para sovar, modelar, ou seja, é um móvel por onde passa toda a produção. 2.4 Maquinário para massas alimentícias, bolos, biscoitos e bolachas Muitos dos equipamentos estudados acima são utilizados também para a elaboração das massas alimentícias, bolos, biscoitos e bolachas. Outros equi- pamentos importantes para a produçãode tais produtos são: • Esfolhadeira: feita em aço inox e constituída por 2 pares de rolos, usada para laminar a massa alimentícia, conforme mostra a figura abaixo: [ figura na próxima página ] Técnico em agroindústriae-Tec Brasil 26 Essa lâmina, ainda é quebradiça e deve ainda ser trabalhada nos cilindros para tornar-se homogênea e elástica, a fim de ser modelada. • Extrusora: bastante utilizada para a produção de massas secas, nada mais é que a ação de forçar a massa a passar através de uma saída com pequenos orifícios (matriz/trefila) de diversas configurações, onde se dá a moldagem e a característica da massa, conforme mostram as figuras abaixo: Fonte: http://w w w .m aquindiana.com .br/ Figura 12: Modelo de esfolhadeira Fonte: http://w w w .dill.net.br/ Fonte: http://w w w .sarutil.com .br/ Figura 13a: Modelo de extrusora Figura 13b: Trefilas • Dosadora ou pingadeira: utilizadas para colocar a massa de bolos dentro das formas e elaboração de biscoitos, geralmente essas máquinas são acopladas a esteiras ou outros equipamentos volumétricos, assim deve-se ter muito cuidado com o peso nesta etapa, de forma que fique dentro do padrão. [ figura na próxima página ] e-Tec BrasilTecnologia de panificação, massas e confeitaria 27 • Laminadora: tem a função de uniformizar e homogeneizar a massa para a etapa de corte. A passa por cilindros lisos até atingir a espessura desejada, uniforme e não quebradiça. Utilizada para biscoitos e mas- sas alimentícias. A figura abai- xo mostra um modelo deste equipamento. • Corte: para cada tipo de biscoi- to é utilizado um equipamento diferente para o corte. Para bis- coitos semidoces e cream cra- cker usa-se a prensa estampa- dora; biscoitos amanteigados, recheados tipo sanduíche, en- tre outros se usa o método de corte por rolos; para biscoitos extrusados e outros tipos com consistência variada usa-se o Fonte: http://w w w .brasforno.com .br/ Figura 14: Modelo de dosador de massa Fonte: http://pr.quebarato.com .br/ Fonte: http://goo.gl/BlrsB Figura 15: Modelo de laminadora Figura 16: Sistema de corte por rolos Técnico em agroindústriae-Tec Brasil 28 sistema de fios (corte por fios-arame) e para biscoitos champanhe e wafers usa-se o método de sistema de deposição. A figura (última da página ante- rior) mostra exemplo do sistema de corte por rolos. Atividades de aprendizagem Marque a alternativa correta. 1) A organização do ambiente interno deve permitir: a) O aumento da diversidade do produto. b) O cruzamento de produtos de áreas sujas com as das áreas limpas. c) Condições físicas e processos de manipulação que respeitem as normas estabelecidas pelos órgãos fiscalizadores 2) A área de recepção de matéria-prima é onde se realiza: a) O recebimento e a conferência das matérias-primas e materiais de embalagem. b) O acondicionamento do produto embalado. c) O processo de carregamento dos veículos que farão a distribuição dos produtos. 3) São respectivamente equipamentos essenciais e necessários: a) balança e forno. b) forno e divisora. c) cilindro e câmara de fermentação. Relacione os tipos de equipamentos com as suas respectivas utilizações. (1) Divisora ( ) substituto econômico da câmara de fermentação. (2) Batedeira ( ) utilizada para preparar massas e cremes. (3) Armário ( ) tem o objetivo de modelar vários tipos de pães. (4) Modeladora ( ) sua função é misturar e sovar a massa. (5) Masseira ( ) função de uniformizar e homogeneizar a massa para a etapa de corte. (6) Laminadora ( ) fraciona a massa em partes menores padronizando o produto. e-Tec BrasilTecnologia de panificação, massas e confeitaria 29 Referências BERTONI, J. Panificação. Rio de Janeiro: SENAC – RJ, [s.d.]. CAUVAIN, S. P. & YOUNG, L. S. Tecnologia da panificação. 2 ed. São Paulo: Editora Manole, 2009. GUERREIRO, L. Dossiê Técnico - Panificação. Rede de Tecnologia do Rio de janeiro, 2006. Disponível em: <http://sbrt.ibict.br/dossie-tecnico/downloadsDT/NTA=>, acessado em 09/07/2013. GUERREIRO, L. Dossiê Técnico – Massas Alimentícias. Rede de Tecnologia do Rio de janeiro, 2006. Disponível em: <http://www.sbrt.ibict.br/dossie-tecnico/downloadsDT/ MjY=>, acessado em 09/07/2013. MARCELINO, J. & MARCELINO, M. Dossiê Técnico – Fabricação de bolachas e biscoitos. Instituto de Tecnologia do Paraná, 2012. Disponível em: <http://www. respostatecnica.org.br/dossie-tecnico/downloadsDT/NjExNg==>, acessado em 09/07/2013. MARTELLO, L. & KATO, N. Boas Práticas de Fabricação (BPF) para indústria de alimentos. Porto Alegre: Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial, 2012. MORETTO, E. Processamento e análise de biscoitos. São Paulo: Livraria Varela, 1999. SCHEUER, P. Estrutura física e funcional de padarias. Curso técnico de panificação, módulo I, 2009. Disponível em: <http://www.grupos.com.br/group/panificacao_ifsc/ Messages.html?action=download&year=09&month=10&id=1256996115517895&attach =apostila%20estrutura.doc>, acessado em 09/07/2013. Técnico em agroindústriae-Tec Brasil 30 Instituição Instituto Federal Sul-rio-grandense Campus Pelotas - Visconde da Graça Nome do curso: Técnico em Agroindústria Professora autora: Leticia Debli Pereira Lima Disciplina: Tecnologia de Panificação, Massas e Confeitaria PROJETO INSTRUCIONAL Ementa básica da disciplina: História da panificação. Matérias-primas utili- zadas. Instalações e equipamentos. Tecnologia de processamento de alimen- tos panificáveis, massas e produtos de confeitaria. Controle de qualidade na panificação. Legislação pertinente. Projeto instrucional Semana Aula Objetivos e aprendizagem Recursos Carga Horária (Horas) 1ª História da panificação Conhecer e identificar os principais fatores da evolu- ção na panificação. Ambiente virtual: Plataforma Moodle; Apostila didática; Recursos de apoio: links, exercícios. 10 2ª Matérias-primas. Conhecer as características e obtenção dos principais cereais. Identificar, reconhecer as características e proprie- dades dos principais ingredientes e matérias-primas utilizadas na panificação. Ambiente virtual: Plataforma Moodle; Apostila didática; Recursos de apoio: links, exercícios. 15 3ª Instalações e equipamentos Compreender os princípios dos principais equipamen- tos utilizados na panificação Ambiente virtual: Plataforma Moodle; Apostila didática; Recursos de apoio: links, exercícios. 10 e-Tec BrasilTecnologia de panificação, massas e confeitaria 15 4ª Tecnologia de processamento Identificar as etapas de processamento na elaboração de pães, bolos, biscoitos e massas alimentícias. Ambiente virtual: Plataforma Moodle; Apostila didática; Recursos de apoio: links, exercícios, vídeos 15 5ª Controle de qualidade na pani- ficação Conhecer os parâmetros de qualidade para a produção de pães e massas; Conhecer a legislação e normas pertinentes à indús- tria de pães e massas. Ambiente virtual: Plataforma Moodle; Apostila didática; Recursos de apoio: links, exercícios. 10 Técnico em agroindústriae-Tec Brasil 16 3 Tecnologias de processamento Objetivos da aula Identificar as etapas de processamento na elaboração de pães, bolos, biscoitos e massas alimentícias. 3.1 Processamento de pães As formas de preparo e as formulações dos pães são inúmeras, variando de acordo com a região, cultura e matérias-primas disponíveis, porém a produção da maioria dos pães apresenta características comuns. A seguir serão descritas as etapas, bem como os métodos utilizados para a fabricação de pão. 3.1.1 Etapas do processamento do pão De forma geral, o processo básico de produção de pão é composto pelas etapas descritas no fluxograma abaixo:• Pesagem de ingredientes: esta etapa deve seguir criteriosamente a receita, de forma a não implicar na qualidade final do produto e, até mesmo, causar danos à saúde do consumidor devido ao exces- so, por exemplo, de algum ingrediente. A pesagem garante uma uniformidade do produto em cada fornada. Atualmente em algumas empresas de pani- ficação existe uma área destinada à pré-pe- sagem, onde acontece a pesagem e a iden- tificação (nome e data) de cada ingrediente utilizado na receita e que serão encaminha- dos à área de produção. Dessa maneira os Fonte: autora Figura 1: Fluxograma do processamento de pão e-Tec BrasilTecnologia de panificação, massas e confeitaria 17 funcionários recebem as quantidades exatas para a fabricação dos produtos de cada dia. O sistema de pré-pesagem em confeitarias e padarias ajuda na estruturação da área de produção, controla e padroniza processos e receitas. A padronização constitui um método empregado nas empresas alimentícias para melhorar a qualidade e rendimentos na produção, com o intuito de au- mentar a lucratividade e satisfazer o consumidor. A padronização de receitas é um instrumento de qualidade, pois garante uni- formidade no aspecto físico e sensorial do produto, reduz falhas no processo produtivo, reduz desperdícios, possibilita analisar os custos da matéria prima bem como o rendimento final. A etapa de pesagem e a importância da pa- dronização é comum a todos os processos descritos nessa unidade. • Mistura: etapa que tem como objetivos misturar de forma uniforme todos os ingredientes; hidratar os ingredientes secos e desenvolver o glúten até obter uma massa com propriedades viscoelásticas. Sua aparência sofre alterações vi- síveis durante a mistura: de úmida e pegajosa no início, a massa passa a apre- sentar um aspecto firme, liso e homogêneo, conforme mostra a figura abaixo: Massa molhada, desuniforme, pegajosa e sem desenvolvimento do glúten. Massa com desenvolvimento ideal, lisa, uniforme, superfície semi-seca, não pegajosa e mudança da cor (branco/creme). A estrutura da massa está se transformando, começa a formar o glúten, hidratação dos ingredientes secos, incorporação dos ingredientes. Ponto ótimo de desenvolvimento da massa, onde se observa um ponto de véu (formação do glúten), que pode ser finamente esticado sem se romper. Figura 2: Etapa de mistura Fonte: autora Técnico em agroindústriae-Tec Brasil 18 A duração do tempo de mistura depende do tipo de masseira utilizado, confor- me já discutido na unidade II; da temperatura da massa (que é controlada pela temperatura da água), onde na massa quente ocorre a mistura mais rápida e na massa fria demora mais tempo; da qualidade da farinha, da fórmula e da ordem de adição dos ingredientes, por exemplo, o sal e a gordura devem ser adicionados por último, pois aumentam o tempo de mistura, dificultando for- mação da rede. Ao final da etapa de mistura, a temperatura adequada é em torno de 26°-28°C, pois inibe a fermentação e a produção excessiva de gases. • Cilindragem: a cilindragem tem por propósito também a homogeneiza- ção da massa, por meio de sucessivas passagens no cilindro, esmagando eventuais pedaços não totalmente dispersos. É feita somente quando o misturador é de baixa velocidade. • Divisão/boleamento: a divisão é feita dividindo a grande massa em pe- daços menores de peso apropriado aos pães que devem ser fabricados. A precisão e a uniformidade são importantes, já que o excesso representa perda econômica e a falta pode levar à violação da lei. O boleamento con- fere aos pedaços menores uma forma regular, ou seja, uma bola homo- gênea, proporcionando que a massa cresça uniformemente, eliminando a pegajosidade da massa e facilitando a posterior modelagem. As etapas são mostradas na figura abaixo: Fonte: G ERBER , M .; G ERBER , W .; LIM A , E. 20 07. Figura 3: Etapas de divisão e boleamento • Descanso ou fermentação intermediária: recupera a extensibilidade perdida durante a divisão e o boleamento. O objetivo do descanso é pro- duzir uma peça suficientemente macia, extensível e descansada, para pos- sibilitar um desempenho ideal na etapa de modelagem.w e-Tec BrasilTecnologia de panificação, massas e confeitaria 19 O descanso pode ser feito na superfície de trabalho, como por exemplo, uma mesa ou bancada de inox, neste caso deve-se cobrir a massa com um pano lim- po ou filme plástico evitando a formação de uma casca espessa e pouco nutriti- va; ou em câmaras de descanso. O tempo de descanso varia de 20-60 minutos. • Modelagem: o objetivo da modelagem é dar à peça de massa o formato desejado, e, ao mesmo tempo, produzir uma estrutura de massa que resul- tará na melhor textura, tanto do miolo quanto da casca do produto final. O processo deve ser feito de forma delicada e cautelosa, respeitando a elastici- dade particular de cada massa. Alguns tipos de pães, embora sofram o pro- cesso de modelagem, necessitam de manipulação, para ajustar o formato que o equipamento não consegue operacionalizar. A figura abaixo mostra o pão entrando na modeladora e saindo com a modelagem desejada: Fonte: SEN A I Figura 4: Modelagem • Fermentação: após os impactos sofridos nas etapas anteriores, na etapa de fermentação acontece o descanso da massa. São objetivos da fermenta- ção: crescimento da massa (produção de CO2), completar o desenvolvimen- to do glúten e a produção de sabor e aroma na massa do pão. A fermentação característica do pão é a fermentação alcoólica, onde há a con- versão do açúcar em álcool. Acontece pela ação da levedura Saccharomyces ce- reviseae, que consome os açúcares da massa, transformando-os em dióxido de carbono (CO2) e álcool. A formação de gás carbônico que irá expandir a massa, tornar mais aerada, leve e fazer o pão crescer. Usualmente leva cerca de 40 a 120 minutos, dependendo do tipo de pão, formulação e qualidade da farinha. O tempo excessivo de fermentação faz com que os pães apresentem casca de cor pálida, miolo aberto, textura ruim, sabor e aroma excessivamente ácidos. Tempo de fermentação abaixo do ideal produz pães de volume reduzido, ran- Técnico em agroindústriae-Tec Brasil 20 cifica mais rápido, falta de sabor e aroma, miolo fechado, crosta grossa. Outros defeitos podem aparecer nos pães devido à fermentação e outros fatores. • Cozimento/assamento: É o processo final de toda linha de pães, após pas- sar pelo período de crescimento. Durante essa etapa a massa sofre, pela ação do calor, mudanças físicas como: aumento de volume, perda de peso e formação de casca; e mudanças químicas como: desnaturação proteica, ge- latinização do amido, atividade enzimática e produção de cor, sabor e aroma. As condições de assamento dependem da formulação e das características do produto. O tempo varia entre 180-230°C, dependendo do tipo e tama- nho do pão. • Resfriamento: nesta etapa o pão baixa a temperatura próxima a ambiente, antes de serem submetidos ao fatiador (no caso de pães de fôrma) para posterior embalagem. O corte do pão quente pode causar deformação, en- quanto que a embalagem do mesmo morno resulta em condensação de umidade, com o subseqüente crescimento de fungos e outras deteriorações. • Embalagem: a embalagem pode ser feita manualmente, o que torna mais lento o processo ou por máquinas de embalagem de alta velocidade, es- pecíficas para produtos de panificação. As embalagem de polipropileno e polietileno são os mais comuns e considerados excelentes materiais para o empacotamento de pães em geral. 3.1.2 Métodos utilizados no processamento do pão Os métodos de panificação mais conhecidos e empregados atualmente dife- rem na etapa de mistura, sendobasicamente iguais nas demais etapas. Método direto convencional: O método direto é aquele em que os in- gredientes da massa são todos misturados de uma só vez, depois segue as etapas descritas no fluxograma estudado acima. Método esponja: No método esponja a massa é preparada em duas etapas. A primeira, chamada de estágio esponja, é preparada com parte da farinha, todo fermento e parte da água adicionada à masseira formando uma massa dura, nesta etapa o glúten não está totalmente desenvolvido. Esta mistura é deixada fermentando por longo período de tempo (de 3 a 16 horas) até atingir o crescimento. Outros defeitos em pães http://www.trigal.com.br/ padaria_saibamais01.html Saiba mais e-Tec BrasilTecnologia de panificação, massas e confeitaria 21 Na segunda, chamada de estágio massa, a esponja é colocada na masseira e misturada com os demais ingredientes completando o desenvolvimento do glúten. Após o desenvolvimento a massa é submetida às outras etapas. A grande desvantagem deste método é o tempo completo da produção, que pode durar mais de 24 horas. Entretanto, os pães assim elaborados têm a textura mais fina e uniforme e são muito mais saborosos. 3.2 Processamento de bolos Os bolos são produtos mais úmidos, apresentam textura mais fina e são mais doces que os pães. A massa de bolo, após a adição dos ingredientes é enfor- mada e assada. As etapas básicas para a produção de bolos estão representadas no fluxograma ao lado: Os ingredientes são pesados e logo mis- turados em um misturador/batedeira, que é responsável pela homogeneização dos produtos. Na mistura para uma me- lhor incorporação de ar na massa e obtenção de um bolo mais macio é aconselhável a divisão do batimento em duas etapas. Na primeira adiciona-se açúcar, gordura e ovos, que devem ser batidos até a obtenção de um creme branco. Na segunda etapa adiciona-se o restante dos ingredientes. A massa depois de pronta é colocada nas formas através de um dosador de massa ou pingadeira e deve-se atentar para as variações no peso. É impor- tante também que as formas sejam untadas com margarina e/ou farinha para facilitar a desenformagem. O forneamento do bolo deve ser feito em forno pré-aquecido a 220ºC a 240ºC por 40 minutos ou 180°C por 60 minutos aproximadamente. Essa eta- pa é responsável pelo assamento uniforme, maciez e coloração do bolo. Após é feito a desenformagem de maneira uniforme do bolo depois de pronto. O resfriamento é feito a temperatura ambiente de forma manual ou através de esteiras. Após os bolos são embalados manualmente ou através de equi- Fonte: autora Figura 5: Fluxograma do processamento de bolos Técnico em agroindústriae-Tec Brasil 22 pamentos, nessa etapa é controlado o peso de cada pacote, expulsando da linha de produção os que apresentarem peso inferior ao estabelecido. 3.3 Processamento de biscoitos e bolachas Biscoitos e bolachas são produtos obtidos pelo amassamento e cozimento conveniente de massas preparadas com farinhas, amidos, fermentada ou não e outras substâncias alimentícias. Podem apresentar cobertura, recheio, for- mato e textura diversos. Geralmente o produto é designado biscoito ou bolacha seguido de substân- cia que o caracteriza ou por nomes consagrados pelo uso. Ex: biscoito de polvilho, biscoito de milho, bolacha de côco, etc. Os agrupamentos para classificação são baseados em: textura dos biscoitos; modificação do formato no assamento; na extensibilidade da massa ou nos vários modos como a massa é manuseada antes da formação do biscoito. Em relação à característica da massa, podemos classificá-los como: • Biscoitos de massa dura ou estampados: o teor de proteína da farinha deve ser baixo. Exemplo: Maria®, Maisena®. • Biscoitos de massa mole: o teor de proteína da farinha deve ser médio, em torno de 9%. Exemplo: waffers, biscoitos amanteigados, recheados. • Biscoitos de massa fermentada: o teor de proteína deve ser mais elevado, em torno de 11%. Exemplo: cream cracker, água e sal, salgadinhos. A fabricação de biscoitos apresenta as eta- pas descritas no fluxograma ao lado: A pesagem dos ingredientes tem a mesma finalidade já descrita anteriormente e o pro- cesso de mistura tem a função de homo- geneizar os ingredientes para formar uma massa uniforme, desenvolver o glúten da farinha e aerar a massa, deixando-a menos densa. Após a massa é preparada para o corte (laminação), no qual o biscoito adqui- Fonte: autora Figura 6: Fluxograma do processamento de bolos e-Tec BrasilTecnologia de panificação, massas e confeitaria 23 re o formato desejado. O corte é feito usando equipamentos diferentes para cada tipo de biscoitos, conforme já estudado na unidade anterior. A etapa de cozimento tem como funções a remoção da água e alterar a coloração do produto, graças à caramelização dos açúcares, principalmente da superfície do produto, o que também ajuda a melhorar o sabor. O tempo de fornea- mento pode variar, dependo do tamanho do biscoito, do tipo de forno e da temperatura aplicada. Quando o biscoito é retirado do forno ainda se apresenta mole e com umi- dade, para um efetivo resfriamento deve-se ter um ambiente quente e sem circulação de ar frio para evitar que se formem trincas no produto e ele se quebre. Após o resfriamento os biscoitos ou bolachas são embalados. As principais funções da embalagem de biscoitos são: proteger contra insetos, poeira ou qualquer material estranho, proteger o produto contra danos me- cânicos, evitar contaminação microbiológica, evitar perda ou ganho de umi- dade e proteger contra o excesso de luz. 3.4 Processamento de massas alimentícias De acordo com a ANVISA, massa alimentícia é o produto não fermenta- do, apresentado sob várias formas, recheado ou não, obtido pelo empasto, amassamento mecânico de farinha de trigo comum e ou sêmola/semolina de trigo e ou farinha de trigo integral e ou farinha de trigo durum e ou sêmola/ semolina de trigo durum e ou farinha integral de trigo durum e ou derivados de cereais, leguminosas, raízes ou tubérculos, adicionado ou não de outros ingredientes e acompanhado ou não de temperos e ou complementos, isola- damente ou adicionados diretamente à massa. Em relação ao teor de umidade as massas alimentícias podem ser: Massa seca: são aquelas que passam por processo de secagem, de forma que o produto final apresente umidade de 13% no máximo. Massa fresca: produto que pode ou não ser submetido a um processo de secagem, apresentando umidade máxima de 35% no produto final. De acordo com o formato as massas alimentícias são classificadas em: massa longa: espaguete, talharim e massa curta: parafuso, concha, estrelinha, con- forme a figura a seguir: Classificação das massas alimentícias http://www.anvisa. gov.br/anvisalegis/ resol/2000/93_00rdc.htm Saiba mais Técnico em agroindústriae-Tec Brasil 24 Segundo sua composição pode ser classificada como: mista, quando prepa- rada com uma mistura de farinhas; glutinada, quando preparada com farinha de trigo acrescida de glúten e recheada, quando contém recheio, como por exemplo, ravióli e capelete. A fabricação de massas alimentícias apresen- ta as etapas descritas no fluxograma ao lado: Durante a mistura, os ingredientes são dosa- dos e misturados até formarem uma massa homogênea. A quantidade de água adicio- nada depende da qualidade e propriedades do trigo de acordo com o tipo de farinha e demais ingredientes utilizados. Normalmen- te a quantidade de água deve ser em torno de 25 a 30%, devendo ser adicionada aos poucos, onde pequenas variações no con- teúdo de água causam mudanças nas pro- priedades viscoelásticas do glúten, o quecompromete as etapas posteriores do processo. A temperatura durante a mistura influencia no processo, onde a temperatura ligeiramente elevada diminui o tempo de mistura e confere maior plasticidade à massa durante o amassamento. Na etapa do amassamento as proteínas do trigo absorvem água para a for- mação do glúten, que dará a massa elasticidade e resistência, aspectos im- portantes para a modelagem da massa. O amassamento pode ser realizado em esfolhadeira e é aconselhável que seja realizado a temperaturas próximas a 30°C para evitar degradação do produto. http://receitasdem inuto.com /os- varios-tipos-de-m acarrao / Figura 7: Alguns formatos de massas alimentícias Fonte: autora Figura 8: Fluxograma do processamento de massas alimentícias e-Tec BrasilTecnologia de panificação, massas e confeitaria 25 A moldagem ou trefilação ocorre quando o produto adquire a forma na qual será comercializado. É uma das etapas mais importantes na obtenção de um produto de boa qualidade. As massas frescas podem ser obtidas por proces- so de laminação no qual a massa é laminada (em laminadoras) e cortada na forma e tamanho desejado. As massas secas são obtidas por processo de extrusão (em extrusoras). É o método mais empregado atualmente e consiste em injetar a massa no equipamento que termina em uma matriz e molda o produto em configurações variáveis, conforme já descrito na unidade dos equipamentos. O processo de secagem da massa inicia na saída do processo de extrusão, quando ao sair da trefila é cortada sob ventilação, a qual provoca uma seca- gem superficial, impedindo a aderência entre os fios. Nessa fase a rede de glúten se estabiliza, tornando a estrutura rígida, evitando deformações. As condições de secagem variam de acordo com os diferentes tipos de massas e geralmente massas de formato longo requerem maior tempo de secagem que produtos curtos. As massas são embaladas geralmente em filmes de polietileno, em celofa- ne ou em papel cartão. A massa fresca é um produto perecível, portanto deve ser armazenada sob refrigeração. Uma boa embalagem e temperatura adequada fazem com que as massas frescas se conservem por até 45 dias. As massas secas podem ser armazenadas a temperatura ambiente, em local fresco e arejado, ou seja, livre de umidade. 3.5 Processamento de massas folhadas A massa folhada é um produto de confeitaria bastante consumido em todo o mundo e usada em doces e salgados. É uma massa leve, composta basi- camente por farinha de trigo, gordura (normalmente manteiga, margarina ou gordura vegetal especial para massa folhada), água, sal e não contém fermento, nem biológico nem químico. Os ingredientes são misturados até a obtenção de uma massa, esta é aberta através de rolos e coberta por uma camada de gordura. Quando se coloca a gordura sobre a massa é realizada a primeira dobradura (formando um san- duíche). A operação de dobradura se repete dando lugar a múltiplas camadas alternadas de massa e gorduras, conforme mostra a figura a seguir: Técnico em agroindústriae-Tec Brasil 26 O processo é realizado em etapas, com pequenos intervalos de descanso. Quando assada, a gordura funde e a massa libera umidade, dando ao produ- to final uma delicada estrutura quebradiça e com aspecto folhado. Fonte: http://paoecerveja.blogspot.com .br/20 0 8 /0 6 /tortas- de-m assa-folhada-com -recheio -de.htm l Figura 9: Processo de folhamento da massa e-Tec BrasilTecnologia de panificação, massas e confeitaria 27 A Resolução RDC nº 263, de 22 de setembro de 2005, aprova o “Regula- mento técnico para produtos de Cereais, Amidos, Farinhas e Farelos”, onde os produtos formulados são classificados em diversas categorias. Na categoria das farinhas, a legislação brasileira tornou obrigatória a adição de ferro e ácido fólico através da resolução RDC nº 344, de 13 de dezembro de 2002 - Regulamento Técnico para a Fortificação das Farinhas de Trigo e das Farinhas de Milho com Ferro e Ácido Fólico. Considerando os parâmetros de qualidade usualmente utilizados em pani- ficação, os objetivos específicos incluem: o desenvolvimento de formulação ideal, a busca de melhores condições de processo e também a avaliação da vida de prateleira do produto final. Os produtos de panificação devem ser submetidos a análises para verificar as características sensoriais, físico-químicas, microscópicas e microbiológicas e tais análises permitem averiguar o estado de higiene e sanidade dos produtos. O objetivo da microscopia é identificar corpos estranhos (insetos ou partes de- les), microrganismos, sujidades de natureza diversa (areia, terra, pedras, cascas, etc) que possam contaminar os alimentos de maneira acidental ou intencional. Em relação às características microscópicas os produtos devem apresentar au- sência de sujidades, parasitos e larvas. As análises microscópicas de alimentos estão baseadas na legislação da ANVISA- RDC nº175 de 08/07/2003, que estabeleceu o Regulamento Técnico de Avaliação de Matérias Macroscópicas e Microscópicas Prejudiciais à Saúde Humana em Alimentos Embalados. As características sensoriais dos produtos variam de acordo com o alimento preparado. O parâmetro de qualidade de maior importância para os consumi- dores nas massas alimentícias está associado ao comportamento do produto durante e após o cozimento, onde as diferenças na qualidade de cozimento das massas podem ser explicadas pela variação no teor e na composição da proteína de trigo. 4 Parâmetros de qualidade e legislação para panificação Microscopia http://goo.gl/VXsFSr Saiba mais e-Tec BrasilTecnologia de panificação, massas e confeitaria 29 Em relação ao aspecto sensorial do pão, este deve apresentar miolo poroso, leve, homogêneo, elástico, não aderente aos dedos ao ser comprimido e não apresentar grumos duros, pontos negros, pardos ou avermelhados. A casca deve ser crocante, não dura, com aparência de bem assada. Conforme visto anteriormente a maioria dos problemas apresentados nos pães está asso- ciado ao tempo de fermentação da massa, acarretando defeitos nos pães, ficando estes fora do padrão. No que se refere aos atributos cor, sabor e aroma os produtos de panificação devem apresentar com suas características próprias. As características físico-químicas das massas alimentícias estão intimamente relacionadas à umidade, onde a massa seca deve ter umidade máxima de 13% e a massa fresca umidade máxima de 35%. Outras características, que variam de acordo com o tipo de massa, com ou sem ovos, farinha integral, semolina ou farinha especial, estão baseadas na RDC nº 93, de 31 de outubro de 2000, que dispõe sobre o Regulamento Técnico para Fixação de Identida- de e Qualidade de Massa Alimentícia. Em relação aos padrões microbiológicos para alimentos, estes estão basea- dos na RDC n° 12, de 02 de janeiro de 2001 da ANVISA. Os produtos estu- dados estão na referida resolução no grupo de alimentos caracterizado como “FARINHAS, MASSAS ALIMENTÍCIAS, PRODUTOS PARA E DE PANIFICAÇÃO (INDUSTRIALIZADOS E EMBALADOS) E SIMILARES”. Apesar dos produtos secos de panificação, em geral, apresentarem baixo risco de veiculação de doenças, porque dispõem de baixo índice de atividade de água, o que dificulta a sobrevivência e multiplicação dos microrganismos, a incorporação de outros produtos e serviços pelas padarias tem exigido a implantação de estratégias preventivas na produção, como a implantação das Boas Práticas. Conforme a portaria nº 326 de 30 de julho de 1997 da ANVISA, é obrigatório aos estabelecimentos produtores/industrializadores de alimentos adotarem condições higiênico sanitárias e de Boas Práticasde Fabricação, a fim de que o produto não ofereça risco a saúde do consumidor e como garantia de qua- lidade higiênico sanitária. Características físico- químicas de massas alimentícias http://goo.gl/SZdq2Z Padrões microbiológicos http://goo.gl/WpmUJY Saiba mais Técnico em agroindústriae-Tec Brasil 30 Atividades de aprendizagem Marque a alternativa correta 1) A etapa de trefilação faz parte do processamento de a) pães. b) bolos. c) massas alimentícias. 2 A etapa de cilindragem é utilizada no processamento de pães a) sempre. b) apenas quando o misturador é de baixa velocidade. c) apenas quando o misturador é de alta velocidade. 3 O tempo excessivo de fermentação faz com que os pães apresentem a) casca de cor pálida, miolo aberto, sabor e aroma ácidos. b) casca de cor escura, miolo aberto, sabor e aroma alcalinos. c) casca de cor pálida, miolo fechado, sabor a aroma ácidos. 4 Nos biscoitos de massa fermentada o teor de proteína deve ser a) baixo. b) médio. c) alto. e-Tec BrasilTecnologia de panificação, massas e confeitaria 31 Referências ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária. 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O arroz apresenta efeito positivo na prevenção de diversas doenças crônicas devido a diferentes constituintes, e sua composição vem sendo melhorada através da genética, obtendo-se grãos com características nutricionais mais interessantes. Palavras-chave: arroz, composição, carboidratos, proteínas, lipídios, compostos fenólicos. ABSTRACT Due to the importance of rice in the diet, its composition and nutritional characteristics are related to human’s health. This cereal is a source of energy, due to its high starch content, also providing proteins, lipids, vitamins and minerals. The present review aimed at examining rice composition, its nutritional characteristics, and the improvement of these characteristics through genetic modification. Variations in rice composition are observed due to genotype and processing, affecting nutritional characteristics. Rice has a positive effect on the prevention of several chronic diseases due to different constituents, and its composition has been improved through genetic modifications, resulting in grains with more interesting nutritional characteristics. Key words: rice, composition, carbohydrates, proteins, lipids, phenolic compounds. INTRODUÇÃO O arroz (Oryza sativa) é um dos cereais mais produzidos e consumidos no mundo, caracterizando- se como principal alimento para mais da metade da população mundial. Sua importância é destacada principalmente em países em desenvolvimento, tais como o Brasil, desempenhando papel estratégico em níveis econômico e social. A produção anual de arroz é de aproximadamente 606 milhões de toneladas. Nesse cenário, o Brasil participa com 13.140.900t (2,17% da produção mundial) e destaca-se como único país não-asiático entre os 10 maiores produtores (FAO, 2006). Apenas uma pequena quantidade de arroz é consumida como ingrediente em produtos processados, sendo seu maior consumo na forma de grão. O arroz é uma excelente fonte de energia, devido à alta concentração de amido, fornecendo também proteínas, vitaminas e minerais, e possui baixo teor de lipídios. Nos países em desenvolvimento, onde o arroz -REVISÃO BIBLIOGRÁFICA- IPrograma de Pós-graduação em Agronomia, Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Santa Maria, RS, Brasil. IIDepartamento de Fitotecnia, Centro de Ciências Rurais (CCR), UFSM, 97105-900, Santa Maria, RS, Brasil. Email: emarchezan@terra.com.br. *Autor para correspondência. Arroz: composição e características nutricionais Melissa WalterI Enio MarchezanII* Luis Antonio de AvilaII Rice: composition and nutritional characteristics Recebido para publicação 24.04.07 Aprovado em 19.09.07 1185Arroz: composição e características nutricionais. Ciência Rural, v.38, n.4, jul, 2008. é um dos principais alimentos da dieta, ele é responsável por fornecer, em média, 715kcal per capita por dia, 27% dos carboidratos, 20% das proteínas e 3% dos lipídios da alimentação. No Brasil, o consumo per capita é de 108g por dia, fornecendo 14% dos carboidratos, 10% das proteínas e 0,8% dos lipídios da dieta (KENNEDY et al., 2002). Portanto, devido à importância do arroz na dieta de grande parte da população, sua qualidade nutricional afeta diretamente a saúde humana. Diversos componentes do arroz presentes no farelo e/ou no endosperma têm sido relacionados a diferentes efeitos no organismo. Pesquisadores relatam efeitos benéficos à saúde, como auxílio no controle da glicose sanguínea, redução dos lipídios séricos e da pressão arterial, entre outros, auxiliando na prevenção e no controle de doenças crônicas, como diabetes e doenças cardiovasculares (MILLER et al., 1992; KOIDE et al., 1996; QURESHI et al., 1997; RONG et al., 1997; XIA et al., 2003). Esses efeitos estão relacionados à presença dos compostos no grão, sendo portanto afetados por diferentes fatores, principalmente pela característica genotípica e pelo processamento. Pesquisas vêm sendo desenvolvidas a fim de melhorar a característica nutricional do arroz através do melhoramento genético, sendo que já foram obtidos grãos com maior teor de pró-vitamina A, ferro, zinco e alguns aminoácidos. Esta revisão bibliográfica objetivou examinar a composição do arroz, suas características nutricionais, e o melhoramento destas características através da genética. Estrutura e composição do grão O grão de arroz consiste da cariopse e de uma camada protetora, a casca. A casca, composta de duas folhas modificadas, a pálea e a lema, corresponde a cerca de 20% do peso do grão. A cariopse é formada por diferentes camadas, sendo as mais externas o pericarpo, o tegumento e a camada de aleurona, que representam 5-8%da massa do arroz integral. A camada de aleurona apresenta duas estruturas de armazenamento proeminentes, os grãos de aleurona (corpos protéicos) e os corpos lipídicos. O embrião ou gérmen está localizado no lado ventral na base do grão, é rico em proteínas e lipídios, e representa 2-3% do arroz integral. O endosperma forma a maior parte do grão (89-94% do arroz integral) e consiste de células ricas em grânulos de amido e com alguns corpos protéicos (JULIANO & BECHTEL, 1985). Através da descascagem, separa-se a casca da cariopse, obtendo-se o arroz integral. Este pode ser polido para remoção do farelo (pericarpo, tegumento, camada de aleurona e gérmen), que representa 8,5- 14,8% do arroz integral (JULIANO & BECHTEL, 1985), obtendo-se o arroz branco polido. Os grãos também podem ser submetidos à parboilização, processo hidrotérmico através do qual se obtém o arroz parboilizado, o qual pode ser consumido na forma integral ou polido. O arroz é constituído principalmente por amido, apresentando quantidades menores de proteínas, lipídios, fibras e cinzas (Tabela 1). Entretanto, a composição do grão e de suas frações está sujeita a diferenças varietais, variações ambientais, de manejo, de processamento e de armazenamento (ZHOU et al., 2002), produzindo grãos com características nutricionais diferenciadas. Além disso, os nutrientes não estão uniformemente distribuídos nas diferentes frações do grão. As camadas externas apresentam maiores concentrações de proteínas, lipídios, fibra, minerais e vitaminas, enquanto o centro é rico em amido. Dessa forma, o polimento resulta em redução no teor de nutrientes, exceto de amido, originando as diferenças na composição entre o arroz integral e o polido. Carboidratos Os carboidratos são os principais constituintes do arroz. Além do amido, que corresponde a aproximadamente 90% da matéria seca do arroz polido, também estão presentes açúcares livres e fibra. Enquanto o endosperma é composto principalmente por amido, o farelo e o gérmen apresentam principalmente fibra, contendo pequenas quantidades de outros carboidratos (JULIANO, 1993). O amido é um homopolissacarídeo composto por cadeias de amilose e amilopectina. As proporções em que estas cadeias aparecem diferem entre genótipos, podendo-se classificar os grãos como ceroso (1-2% de amilose), conteúdo de amilose muito baixo (2-12%), baixo (12-20%), intermediário (20-25%) e alto (25-33%) (JULIANO, 1993). O conteúdo de amilose é considerado um dos principais parâmetros para a qualidade tecnológica e de consumo do arroz. De forma geral, grãos com maior teor de amilose apresentam textura mais firme após o cozimento, sendo preferidos em diversos países, como o Brasil, e por isso essa característica é avaliada durante o desenvolvimento de cultivares. Entretanto, outros fatores, como a estrutura das cadeias de amilopectina e o teor de proteína também influenciam essa característica (ONG & BLANSHARD, 1995). A concentração de amido no arroz pode variar devido a fatores genéticos e ambientais, como observado por FREI et al. (2003), que obteve teores de amido entre 72 e 82% em arroz integral de diferentes cultivares. O processamento também influencia o percentual de amido, sendo este maior no arroz branco 1186 Walter et al. Ciência Rural, v.38, n.4, jul, 2008. polido (87,58%) e no parboilizado polido (85,08%) comparado ao integral (74,12%) (Tabela 1), devido à remoção do farelo. Além das variações na concentração, são observadas diferenças na taxa e extensão da digestão do amido, que podem ser influenciadas pela variação na proporção amilose:amilopectina, processamento do grão, propriedades físico-químicas, tamanho de partícula e presença de complexos lipídio- amilose (GODDARD et al., 1984), afetando significativamente algumas respostas metabólicas importantes no organismo. Dessa forma, embora normalmente o arroz seja classificado como um alimento de alta resposta glicêmica comparado a outros produtos amiláceos, são relatados índices glicêmicos variando de 54 a 121%, para o arroz branco polido (MILLER et al., 1992). Uma das principais características relacionadas à resposta metabólica ao arroz consumido é a relação amilose:amilopectina. O maior teor de amilose no arroz, assim como em outros alimentos amiláceos, resulta em menor resposta glicêmica e insulinêmica (GODDARD et al., 1984; MILLER et al., 1992). Essas diferenças fisiológicas são interessantes na prevenção e no tratamento de doenças, como o diabetes, pois a menor digestão e absorção de carboidratos auxilia na manutenção de níveis regulares de glicose no sangue (VELANGI et al., 2005). O consumo de alimentos com menor resposta glicêmica também tem sido associado à redução dos lipídios séricos em pacientes hiperlipidêmicos, diminuindo os riscos de desenvolvimento de doenças cardiovasculares (JENKINS et al., 2002). O arroz apresenta pequena quantidade de açúcares livres, localizados principalmente nas camadas externas do grão, sendo sua concentração afetada pela variedade, grau de polimento e processamento. Os principais açúcares no arroz são sacarose (aproximadamente 90%), glicose e frutose (MATSUO et al., 1995). TRAN et al. (2004) observaram para o arroz integral 685mg 100g-1 de sacarose e 40mg 100g-1 de glicose, ocorrendo redução significativa nos teores após o polimento, com valores de 142 e 20mg 100g-1 para sacarose e glicose, respectivamente. Os polissacarídeos não digeridos pelas enzimas no trato gastrintestinal, como celulose, hemiceluloses, amido resistente e pectinas, fazem parte da fração fibra alimentar, que pode ser dividida em solúvel e insolúvel. Sua concentração é maior nas camadas externas do grão e diminui em direção ao centro, resultando em baixa concentração desses componentes nos grãos submetidos ao polimento (Tabela 1). Além das diferenças nos teores de fibra total devido às características genotípicas e de processamento, LAI et al. (2006) observaram diferenças na proporção dos componentes da fibra entre arroz ceroso e não-ceroso. O arroz ceroso apresentou maior proporção de hemiceluloses (41,1%), com menor concentração de substâncias pécticas (31,9%) e celulose (26,9%). Já o não-ceroso apresentou maior quantidade de substâncias pécticas (43,7%) e menor de celulose (32,7%) e hemiceluloses (23,7%). A fibra alimentar exerce diferentes funções no organismo humano. Sua capacidade de retenção de água auxilia na prevenção da constipação (WARNER, 1981). Além disso, por não ser digerida, a fibra torna-se disponível para fermentação pela microflora no intestino grosso, com diferentes efeitos no organismo. O maior consumo de fibra na dieta tem sido associado à redução na pressão arterial, na concentração de colesterol total, colesterol LDL e triglicerídeos, e ao controle da glicose sanguínea (LI et al., 2003; BEHALL et al., 2006), auxiliando na prevenção e no controle de algumas doenças crônicas, como diabetes e doenças cardiovasculares. Entretanto, pesquisadores relatam que, em alguns casos, a fibra pode prejudicar a absorção de minerais devido a sua capacidade de ligação e/ou seqüestro destes. Proteínas O conteúdo de proteínas no arroz é considerado baixo, em média 7%. Entretanto, observa- se grande variação na concentração desse nutriente, Tabela 1 - Composição centesimal média (% na matéria seca) de arroz integral, branco polido e parboilizado polido. Constituinte Arroz integral Arroz branco polido Arroz parboilizado polido Amido total 74,12 87,58 85,08 Proteínas (N x 5,95) 10,46 8,94 9,44 Lipídios 2,52 0,36 0,69 Cinzas 1,15 0,30 0,67 Fibra total 11,76 2,87 4,15 Fibra insolúvel 8,93 1,05 1,63 Fibra solúvel 2,82 1,82 2,52 Fonte: Adaptado de STORCK (2004). 1187Arroz: composição e características nutricionais. Ciência Rural, v.38, n.4, jul, 2008. com valores entre 4,3 e 18,2% (LUMEN& CHOW, 1995), a qual é afetada por características genotípicas, adubação nitrogenada, radiação solar e temperatura durante o desenvolvimento do grão (JULIANO & BECHTEL, 1985). As proteínas podem ser classificadas em albumina, globulina, prolamina e glutelina, e estão organizadas em dois tipos de corpos protéicos no endosperma. Os corpos protéicos I são grandes estruturas esféricas, com anéis concêntricos, ricos em prolamina. Já os corpos protéicos II não apresentam a estrutura em anéis, e são ricos em glutelina e globulina (ZHOU et al., 2002). No endosperma, a glutelina forma a principal fração, correspondendo a aproximadamente 80% das proteínas, com menor concentração de albumina e globulina (15%) e prolamina (5-8%). Já o farelo apresenta aproximadamente 60% de albumina, seguido por prolamina e glutelina (27%) e globulina (7%) (JULIANO, 1993). Portanto, a composição em proteínas do endosperma difere do farelo. A composição em proteínas também é afetada pela característica genotípica. LIU et al. (2005b) observaram não só diferença na concentração total de proteínas (7,35-11,47%) entre genótipos, como também variação nos tipos de proteínas. A maior variação foi observada para a glutelina, com concentração no grão entre 5,9-9,8%, e correlação positiva com o teor total de proteínas, sendo menores as diferenças para prolamina (0,69-0,77%), globulina (0,37-0,52%) e albumina (0,38-0,49%). A qualidade da proteína depende de seu conteúdo em aminoácidos. Similar a outros cereais, o arroz apresenta a lisina como aminoácido limitante. Entretanto, entre os cereais, o arroz apresenta uma das maiores concentrações de lisina, resultando em balanço de aminoácidos mais completo (JULIANO, 1993). Assim como são observadas variações no teor total de proteínas, também existem diferenças na composição em aminoácidos das proteínas entre o arroz integral e o polido. Além dos aminoácidos protéicos, o arroz também apresenta pequena quantidade de aminoácidos livres, localizados principalmente no gérmen (594,9mg 100g-1) e no farelo (361,4mg 100g-1), com pequena concentração no endosperma (52,7mg 100g-1). Entre os aminoácidos livres, predominam aspartato e glutamato, que correspondem a aproximadamente 60% do total (SAIKUSA et al., 1994). Para melhorar o perfil de aminoácidos, pesquisas vêm sendo conduzidas visando a aumentar a concentração de certos aminoácidos, como lisina, metionina e cisteína, através de modificação genética. ZHENG et al. (1995) avaliaram a introdução do gene da β-faseolina, proteína de armazenamento do feijão com conteúdo de lisina relativamente alto (6%), observando aumento significativo no teor desse aminoácido nos grãos. SINDHU et al. (1997) relataram a integração, a síntese e o acúmulo de legumina, uma proteína de armazenamento da ervilha com maior proporção de lisina, enquanto KATSUBE et al. (1999) relataram a transferência e o acúmulo de glicinina, uma proteína da soja, melhorando a composição em aminoácidos no arroz transformado. Com o objetivo de aumentar o conteúdo de aminoácidos sulfurados (metionina e cisteína), LEE et al. (2003) avaliaram a introdução do gene da proteína 2S albumina de gergelim, rica nesses aminoácidos, observando aumento na concentração de metionina (entre 29 e 76%), cisteína (31 a 75%) e proteína total (0,64 a 3,54%) no arroz transformado. Lipídios Os lipídios podem ser encontrados organizados em corpos lipídicos (esferossomos) na camada de aleurona, no embrião e no endosperma, ou associados a grânulos de amido (LUMEN & CHOW, 1995). Entretanto, a maior concentração ocorre no gérmen (1/3 do conteúdo total) e na camada de aleurona. Dessa forma, a concentração de lipídios é maior no arroz integral, sendo reduzida com o polimento, geralmente observando-se concentrações inferiores a 1% no arroz polido (Tabela 1). O teor de lipídios no grão também é afetado pelas características genotípicas. TAIRA & ITANI (1988), avaliando grãos integrais de diferentes cultivares, obtiveram valores entre 2,3 e 3,2%, enquanto os resultados de MANO et al. (1999) variaram entre 2,2 e 2,6%. Na fração lipídica, foi observada proporção de 84-87% de lipídios neutros, 5-7% de glicolipídios e 7- 9% de fosfolipídios. Na fração lipídios neutros, 63-69% eram triglicerídeos. A fração de glicolipídios foi formada principalmente por esterilglicosídeos (31-35%), acilesterilglicosídeos (19-23%), cerebrosídeos (20-22%) e diglicosildiacilgliceróis (15-18%). Na fração fosfolipídios predominaram fosfatidilcolina (41-42%), fosfatidiletanolamina (31-33%) e fosfatidilinositol (15- 17%) (MANO et al. 1999). Os principais ácidos graxos no arroz são os ácidos palmítico (16:0), oléico (18:1) e linoléico (18:2), correspondendo a aproximadamente 95% dos ácidos graxos presentes nos lipídios totais (TAIRA & ITANI, 1988; MANO et al., 1999). Portanto, o arroz contém proporção significativa de ácidos graxos insaturados, que possuem papel importante em vários processos fisiológicos e que, por não serem sintetizados pelo organismo humano, devem ser supridos pela alimentação. O óleo do farelo de arroz apresenta uma fração conhecida como matéria insaponificável, 1188 Walter et al. Ciência Rural, v.38, n.4, jul, 2008. correspondendo a aproximadamente 4% do óleo, que consiste de fitosteróis, álcoois triterpênicos, ésteres do ácido ferúlico (γ-orizanol), tocóis (vitamina E, tocoferóis e tocotrienóis), entre outros compostos (QURESHI et al., 1997). Aproximadamente 50% da matéria insaponificável é constituída por γ-orizanol, um mistura de ésteres de ácido ferúlico com fitosteróis e álcoois triterpênicos (RONG et al., 1997). Estudos têm associado o óleo do farelo de arroz à redução no colesterol total e ao aumento do colesterol HDL, auxiliando na prevenção de doenças cardiovasculares. Esses efeitos são associados não somente à composição em ácidos graxos do óleo, mas também à matéria insaponificável presente, principalmente, γ- orizanol, tocotrienóis e esteróis, atuando de diferentes formas na redução do colesterol (QURESHI et al., 1997; RONG et al., 1997; VISSERS et al., 2000). Minerais A concentração de minerais difere nas frações do grão. Enquanto no arroz com casca o silício é componente dominante, no arroz integral e polido, destacam-se fósforo, potássio e magnésio. Ferro e zinco, dois minerais essenciais para a saúde humana, estão disponíveis em baixas concentrações no grão (JULIANO & BECHTEL, 1985). O conteúdo mineral é grandemente influenciado pelas condições de cultivo, incluindo fertilização e condições do solo, e pelo processamento. De forma geral, os minerais apresentam-se em maior concentração nas camadas externas do grão (Tabela 2), com aproximadamente 72% no farelo e 28% no grão polido. Entretanto, alguns minerais apresentam distribuição mais uniforme, como sódio e cálcio, permanecendo no arroz branco polido 63% do sódio e 74% do cálcio do arroz integral (ITANI et al., 2002). Embora o arroz integral tenha maior concentração de minerais do que o polido, isso não significa necessariamente maior quantidade de minerais absorvidos pelo organismo, visto que a biodisponibilidade pode ser afetada pela presença de maiores teores de fibra e ácido fítico no arroz integral (JULIANO, 1993). Com a parboilização, observa-se aumento no conteúdo mineral comparado ao arroz branco polido (Tabela 1), relacionado à migração de minerais das camadas externas para o endosperma durante o processo (JULIANO, 1993). Entretanto, avaliando-se individualmente os minerais, são observados comportamentos diferenciados. STORCK (2004) e HEINEMANN et al. (2005) relatam maiores concentrações de potássio e fósforo no arroz parboilizado polido comparado ao branco polido, sem efeito na concentração de magnésio. Por outro lado, as concentrações de manganês, zinco e sódio são menores, indicando que os mineraisapresentam diferentes padrões de migração durante a parboilização, afetando diferentemente sua concentração nos grãos. Além do processamento, o genótipo também afeta de forma expressiva o conteúdo de minerais. Estudos têm demonstrado maior concentração de alguns minerais em grãos de arroz com pericarpo vermelho e preto (ITANI et al., 2002; MENG et al., 2005). Devido à importância do arroz na alimentação, pesquisas vêm sendo desenvolvidas para aumentar a concentração de minerais no grão, principalmente ferro e zinco. Uma das formas utilizadas é o melhoramento convencional, a partir de genótipos com maior concentração destes minerais, visto que existe grande variação na concentração de ferro (2- 52μg g-1) e zinco (6-28μg g-1) entre genótipos (JULIANO, 1985). A transgenia também vem sendo utilizada com esse objetivo. VASCONCELOS et al. (2003) avaliaram a introdução no arroz do gene da ferritina da soja, uma proteína armazenadora de ferro. Foram observados aumentos de até quatro vezes na concentração de ferro, tanto no arroz integral (71μg g-1 vs. 15,7μg g-1) quanto no branco polido (37μg g-1 vs. 10 μg g-1). Segundo os autores, o consumo desse arroz pode suprir até 33% da recomendação diária de ferro com 300g de grãos. Entretanto, ainda são necessários mais estudos para avaliar a biodisponibilidade deste mineral. Além do aumento na concentração de ferro, VASCONCELOS et al. (2003) observaram também aumento na concentração de zinco nos grãos com ferritina. O arroz integral apresentou valores máximos de 55,5μg g-1, comparado ao controle contendo 33,6μg g-1. Embora não se saiba a razão desse aumento, sabe- se que a concentração de ferro e zinco no grão está correlacionada, isto é, alterações nos níveis de um afetam os níveis do outro, sugerindo um possível mecanismo regulatório comum. Vitaminas O arroz contém principalmente vitaminas do complexo B e α-tocoferol (vitamina E), com concentrações insignificantes das vitaminas A, D e C. A concentração é maior nas camadas externas do grão, sendo que, para tiamina, riboflavina, niacina e α- tocoferol, aproximadamente 78, 47, 67 e 95%, respectivamente, estão presentes no farelo (JULIANO, 1993). Dessa forma, o polimento reduz significativamente a concentração de vitaminas (Tabela 3). Pesquisas vêm sendo desenvolvidas para aumentar a concentração de vitaminas no arroz, 1189Arroz: composição e características nutricionais. Ciência Rural, v.38, n.4, jul, 2008. melhorando suas características nutricionais. Entre elas, destacam-se aquelas relacionadas à vitamina A devido à importância de sua deficiência, que atinge milhões de pessoas, e seus efeitos na saúde. As pesquisas levaram à obtenção do Golden rice, um arroz transgênico contendo carotenóides em seu endosperma, precursores da vitamina A. Para obtenção do Golden rice, os pesquisadores avaliaram a expressão no arroz de enzimas importantes na biossíntese da pró-vitamina A, como fitoeno sintase do milho ou de Narcissus pseudonarcissus, caroteno desaturase de Erwinia uredovora e licopeno β-ciclase de Narcissus pseudonarcissus (BEYER et al., 2002; PAINE et al., 2005). No trabalho desenvolvido por PAINE et al. (2005), foram obtidos grãos contendo 37μg g-1 de carotenóides totais, sendo aproximadamente 84% de β-caroteno (principal precursor). Segundo os autores, considerando uma concentração média de 25μg g-1 de β-caroteno, atinge-se 50% da recomendação diária de vitamina A para crianças com 72g desse arroz. Entretanto, são necessárias mais pesquisas para avaliar outros fatores, como absorção do β-caroteno e conversão em vitamina A. Compostos fenólicos Os compostos fenólicos, ou polifenóis, são metabólitos secundários dos vegetais com diferentes funções nas plantas. Eles podem ser classificados em diferentes grupos, sendo os ácidos fenólicos, os flavonóides e os taninos, os principais na dieta (KING & YOUNG, 1999). Diversos compostos fenólicos já foram identificados, destacando-se, no arroz, os ácidos fenólicos, principalmente, os ácidos ferúlico e ρ- cumárico (TIAN et al., 2004; ZHOU et al., 2004) e, no arroz com pericarpo vermelho e preto, as antocianinas cianidina-3-O-β-D-glicosídeo e peonidina-3-O-β-D- glicosídeo (MORIMITSU et al., 2002). Outros compostos identificados no arroz incluem os ácidos vanílico, siríngico, caféico, gálico, protocatéquico, hidroxibenzóico, sinápico e clorogênico, e os ésteres 6’-O-(E)-feruloilsacarose, 6’-O-(E)-sinapoilsacarose e γ-orizanol (TIAN et al., 2004; ZHOU et al., 2004). No arroz com pericarpo vermelho e preto, também foram identificadas as antocianidinas cianidina e malvidina, procianidinas poliméricas, siringualdeído, vanilina, ácidos ρ-cumárico, 4,7-dihidroxivanílico, protocatéquico metil éster, sinápico, ferúlico e caféico, 6’-O-(E)-feruloilsacarose, 6’-O-(E)-sinapoilsacarose e γ-orizanol (MORIMITSU et al., 2002; HYUN & CHUNG, 2004). Os polifenóis estão localizados principalmente no pericarpo, sendo a maior parte removida durante o polimento (TIAN et al., 2004), e sua concentração é maior no arroz com pericarpo vermelho e preto (NAM et al., 2005). Além de suas conhecidas funções nos vegetais, pesquisas têm demonstrado o efeito benéfico de compostos fenólicos de diferentes fontes, inclusive Tabela 2 - Concentração de minerais em arroz integral e branco polido. Mineral Arroz integral Arroz branco polido Macrominerais (mg g-1, com 14% de umidade) Cálcio 0,1-0,5 0,1-0,3 Magnésio 0,2-1,5 0,2-0,5 Fósforo 1,7-4,3 0,8-1,5 Potássio 0,6-2,8 0,7-1,3 Silício 0,6-1,4 0,1-0,4 Enxofre 0,3-1,9 0,8 Microminerais (μg g-1, com 14% de umidade) Alumínio 0,3-26,0 0,1-2,2 Cádmio 0,02-0,16 0,025 Cloro 210-560 200-300 Cobalto 0,03-0,04 0,017 Cobre 1-6 2-3 Iodo 0,03 0,02 Ferro 2-52 2-28 Manganês 2-36 6-17 Níquel 0,2-0,5 0,14 Selênio 0,3 0,3 Sódio 17-340 5-86 Zinco 6-28 6-23 Fonte: Adaptado de JULIANO (1985). 1190 Walter et al. Ciência Rural, v.38, n.4, jul, 2008. do arroz, na saúde humana. Este efeito decorre de sua ação antioxidante, auxiliando na prevenção de danos celulares e de doenças crônicas, incluindo doenças cardiovasculares, envelhecimento, diabetes e câncer (KOIDE et al., 1996; XIA et al., 2003; HYUN & CHUNG, 2004). No arroz, maior atividade antioxidante é observada nos grãos integrais e naqueles com pericarpo vermelho e preto, devido à maior concentração de polifenóis (NAM et al., 2005). Ácido fítico O ácido fítico (mioinositol hexafosfato, IP6) é uma forma de armazenamento de fósforo, constituindo aproximadamente 70% do conteúdo desse mineral em sementes. Ele pode ser encontrado na forma de fitato, ligado a cátions como potássio, magnésio, cálcio, ferro e zinco (LIU et al., 2005a). O teor é maior nas camadas externas do grão (aproximadamente 88%), estando associado principalmente à camada de aleurona. Dessa forma, o polimento resulta em redução significativa da sua concentração, como observado por HUNT et al. (2002), que obtiveram 0,065% de ácido fítico para o arroz branco polido, comparado a 0,78% para o arroz integral. Também são observadas diferenças genotípicas na sua concentração (LIU et al., 2005a). Devido a sua capacidade quelante, historicamente o ácido fítico tem sido considerado um composto com ação prejudicial à nutrição, contribuindo para a menor absorção de vários minerais importantes, como cálcio, ferro e zinco, podendo provocar deficiências (HURRELL et al., 2003). Entretanto, pesquisas têm demonstrado que esse composto pode auxiliar na manutenção da saúde. Devido a sua capacidade de quelar ferro, o qual participa de reações oxidantes, ele apresenta efeito antioxidante (GRAF & EATON, 1990). O ácido fítico também tem sido relacionado à redução nos riscos de desenvolvimento de diferentes tipos de câncer devido a sua ação antioxidante, redução da proliferação celular (GRAF & EATON, 1990), induçãoà diferenciação celular (SHAMSUDDIN et al., 1997) e à apoptose (VERGHESE et al., 2006). LEE et al. (2005) e LEE et al. (2006) relatam também a redução de lipídios no soro e no fígado e dos níveis sangüíneos de glicose em ratos diabéticos, podendo assim auxiliar no controle do diabetes. CONCLUSÕES As variações na composição do arroz, tanto devido ao genótipo quanto ao processamento, são interessantes para a alimentação, devido à diferença nas características nutricionais, podendo-se utilizar o arroz com diferentes fins na dieta. Por exemplo, grãos com menor índice glicêmico podem ser indicados para auxiliar na prevenção e/ou no controle do diabetes, grãos com maior teor de minerais podem ser indicados para pessoas em risco nutricional por deficiência da ingestão desses micronutrientes, entre outros. Deve- se salientar que a principal forma de consumo do grão, o arroz branco polido, apresenta redução na concentração da maioria dos nutrientes, afetando significativamente as características nutricionais. O arroz apresenta efeito positivo na prevenção de diversas doenças crônicas devido a diferentes constituintes, mas é deficiente em alguns nutrientes. Nos últimos anos, pesquisas vêm sendo desenvolvidas visando contornar esses problemas, utilizando tanto o melhoramento convencional como a transgenia, obtendo-se grãos com características nutricionais mais interessantes para o consumo humano. Cada vez mais, o arroz se destaca não somente como um dos principais alimentos para a população, mas também como um alimento de qualidade, que pode auxiliar na manutenção da saúde, devendo ser incentivada a produção desse cereal e a continuidade das pesquisas. Tabela 3 - Conteúdo de vitaminas (μg g-1 com 14% de umidade) em arroz integral e branco polido. Vitamina Arroz integral Arroz branco polido Retinol (A) 0-0,11 0-tr a Tiamina (B1) 2,9-6,1 0,2-1,1 Riboflavina (B2) 0,4-1,4 0,2-0,6 Niacina (B3) 35-53 13-24 Ácido pantotênico (B5) 9-15 3-7 Piridoxina (B6) 5-9 0,4-1,2 Biotina (B7) 0,04-0,10 0,01-0,06 Ácido fólico (B9) 0,1-0,5 0,03-0,14 Cianocobalamina (B12) 0-0,004 0-0,0014 Ácido ρ-aminobenzóico 0,3 0,12-0,14 α-tocoferol (E) 9-25 tr-3 atraços. Fonte: Adaptado de JULIANO & BECHTEL (1985). 1191Arroz: composição e características nutricionais. Ciência Rural, v.38, n.4, jul, 2008. AGRADECIMENTOS Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pelas bolsas de estudo e produtividade dos autores. REFERÊNCIAS BEHALL, K.M. et al. Whole-grain diets reduce blood pressure in mildly hypercholesterolemic men and women. Journal of the American Dietetic Association, v.106, p.1445-1449, 2006. BEYER, P. et al. Golden rice: introducing the β-carotene biosynthesis pathway into rice endosperm by genetic engineering to defeat vitamin A deficiency. Journal of Nutrition, v.132, p.506S-510S, 2002. FAO – Food and Agriculture Organization of the United Nations. Statistical databases. Capturado em 15 abr. 2006. Online. Disponível na Internet: http://www.fao.org. FREI, M. et al. Studies on in vitro starch digestibility and the glycemic index of six different indigenous rice cultivars from the Philippines. Food Chemistry, v.83, p.395-402, 2003. GODDARD, M.S. et al. The effect of amylose content on insulin and glucose responses to ingested rice. 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A composição química do grão de trigo (umidade, carboidratos, proteínas, lipídeos, minerais) afeta as características funcionais tecnológicas e, juntamente com as propriedades estruturais, define a qualidade da farinha de trigo. Dentre os constituintes do trigo as proteínas de reserva são o principal responsável pela funcionalidade do trigo, a fonte de destaque das propriedades viscoelásticas da massa, ou seja, o glúten, que tem papel fundamental na panificação. A composição química determina o comportamento reológico da massa que pode ser verificado através de análises reológicas, como: análise do glúten, farinografia, extensografia, análise da atividade α-amilásica e análise rápida de viscosidade. Palavras-chave: trigo, composição, panificação WHEAT: CHARACTERISTICS AND BAKING USE ABSTRACT Wheat is a cereal that has been used as raw material for the making of products like breads, cakes, cookies and pasta that are consumed on a daily basis. The functional and technological characteristics depend on the wheat grain chemical composition (moisture content, starch, proteins, lipids and ashes content). Its structural properties define the flour qualities. Proteins are responsible for the wheat functionality, which include its viscous-elastic properties, and the gluten that can be detected by baking technology tests. The dough can be determined by observing its rheological performance: farinography, extensography, analysis of α-amylase activity and rapid analysis of viscosity. Keywords: wheat, composition, baking Protocolo 12-2010-13 de 3 de maio de 2010 1 Professora Titular do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Santa Catarina – Mestre - Universidade Federal de Santa Catarina - Rod. Admar Gonzaga, 1346 – Itacorubi 88034-001 – Florianópolis, SC, Brasil – patriciamatosscheuer@hotmail.com – (48)37215369. 2 Professora – Doutora - Universidade Federal de Santa Catarina, Rod. Admar Gonzaga, 1346 – Itacorubi 88034-001 – Florianópolis – SC – Brasil – aliciadf@gmail.com – (48)37215369. 3 Pesquisadora – Doutora – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - Rod. BR 285, Km 294 – 99001-970 – Passo Fundo – RS – Brasil – marthaz@cnpt.embrapa.br – fone (54)33165800 – fax (54)33165802. 4 Doutoranda - Universidade Federal de Santa Catarina, Rod. Admar Gonzaga, 1346 – Itacorubi 88034-001 – Florianópolis, SC, Brasil – vlimberger@yahoo.com.br – (48)37215369 212 Trigo: características e utilização na panificação Scheuer et al. Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.13, n.2, p.211-222, 2011 INTRODUÇÃO Os cereais possuem papel fundamental na alimentação humana, a âmbito de saúde, como fonte de nutrientes e fibras e, tecnologicamente, devido às variadas formas que podem ser utilizadas para o consumo humano. O trigo ocupa o primeiro lugar em volume de produção mundial, sendo aplicado a uma enorme diversidade de produtos. Devido à importância mercadológica e à vasta aplicabilidade do trigo, pesquisas são cada vez mais incentivadas, com o propósito de implementar melhorias focadas em determinadas áreas de atuação,como nutrição e saúde, pesquisa e desenvolvimento de novos produtos e ciência e tecnologia O trigo é matéria-prima para a elaboração de alimentos consumidos diariamente, como hábito alimentar, na forma de pães, biscoitos, bolos e massas, alimentos que fazem parte da base da pirâmide alimentar e cujo consumo é incentivado pelo Guia Alimentar da População Brasileira, o que sinaliza um motivo de estudo relevante quanto ao entendimento da caracterização e aplicabilidade do trigo, já que é amplamente consumido e indicado à alimentação. Trigo Identidade A palavra ―trigo‖ provém do vocábulo latino triticum, que significa quebrado, triturado, numa referência à atividade que se deve realizar para separar o grão de trigo da camada que o reveste. O termo ―trigo‖ destina-se tanto à planta como às sementes comestíveis dela originadas (Léon, 2007). O trigo, pertencente à família Poaceae, subfamília Pooideae e ao gênero Triticum, é classificado em diferentes espécies, conforme o número de cromossomos: Triticum monococcum com 14 cromossomos, Triticum durum com 28 cromossomos e Triticum aestivum com 42 cromossomos (Popper et al., 2006), este último, o trigo comum. Segundo a legislação brasileira vigente em 2009, as cultivares de trigo estão classificadas em cinco classes, de acordo com valores de alveografia (força do glúten) e de número de queda: Trigo Brando, Trigo Pão, Trigo Melhorador, Trigo para Outros Usos e Trigo Durum e em três tipos: 1, 2 e 3, definidos em função do limite mínimo de peso do hectolitro e dos limites máximos percentuais de umidade, de materiais estranhos e impurezas e de grãos danificados (Brasil, 2001). As diferentes variedades se distinguem pela altura das plantas, produtividade, conteúdo de endosperma, proporção de proteínas na farinha, qualidade da proteína, resistência a diversas doenças e adaptabilidade a solos ácidos, requerimentos climatológicos e pela aparência física (Abitrigo, 2008). A relação entre esses diversos fatores ambientais e os diferentes genótipos, repercute nas propriedades funcionais (Georget et al., 2008) e, principalmente, na qualidade de processamento do trigo, como moagem e elaboração dos produtos (Carcea et al., 2006), mais especificamente com relação à variação do grau de elasticidade do glúten, o que afeta sobremaneira a fermentação dos pães (Shewry et al., 1998). O peso de mil grãos pode ser utilizado para classificar o trigo, já que grãos de tamanho excessivo não são desejados pela indústria, pois podem provocar perdas devidas às dificuldades de regulagem dos equipamentos de limpeza e moagem; em contrapartida, grãos pequenos podem passar pelas peneiras de limpeza e causar perdas na produção de farinha, pela diminuição da quantidade de trigo moído (Guarienti, 1996, apud Gutkoski et al., 2007). Estrutura Estruturalmente, o grão de trigo é um cariópside, ou seja, possui semente única (Hoseney, 1991), com 6 a 8 milímetros de comprimento e 3 a 4 milímetros de largura, em que o germen e os tricomas se encontram em extremidades opostas (Quaglia, 1991). A presença de um sulco ao longo de praticamente toda a extensão longitudinal da parte ventral (lado oposto ao germen) (Hoseney, 1991) dificulta a extração da farinha apenas com processo abrasivo, utilizado para eliminar as camadas externas ao endosperma e, por isso se Trigo: características e utilização na panificação Scheuer et al. 213 Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.13, n.2, p.211-222, 2011 opera com sucessivas triturações (Cheftel & Cheftel, 1992). O grão de trigo é constituído, basicamente, por pericarpo (7,8 a 8,6%), endosperma (87 a 89%) e gérmen (2,8 a 3,5%) (Quaglia, 1991), (Figura 1). Figura 1: Corte longitudinal de um grão de trigo Fonte: Adaptado de Wheat Flour Institute, apud Hoseney (1991) O pericarpo é rico em fibras e sais minerais (Atwell, 2001). Constitui a camada mais externa e protetora do grão (Popper et al., 2006). O endosperma consiste numa matriz proteica, no qual está inserido grande número de grânulos de amido (Haddad et al., 2001), ou seja, o endosperma constitui a farinha de trigo branca propriamente dita (Hoseney, 1991). Essa constituição estrutural anatômica do endosperma caracteriza a textura do trigo em duas propriedades: vitreosidade e dureza (Haddad et al., 2001). A vitreosidade é o fator visual determinado pelas condições de crescimento (como temperatura, água e nitrogênio disponíveis) e que se refere ao grau de compacticidade do endosperma. A dureza (grau de resistência à deformação) é o parâmetro físico definido por fatores genéticos (Greffeuille et al., 2007). A dureza é um aspecto muito importante a ser considerado no processo de moagem do grão, pelo fato de ser determinante das características de qualidade (Symes, 1961 apud El-Khayat et al., 2006), o que tem efeito subsequente em fatores como o condicionamento do grão pré-moagem, o tamanho da partícula da farinha, a quantidade de amido resistente, a absorção de água e a razão de extração durante a moagem (Hoseney, 1987, apud El-Khayat et al., 2006). Como último constituinte há o germen, que constitui de 2 a 3 % do peso do grão, a parte embrionária da planta, onde se encontra grande parte dos lipídeos e dos compostos fundamentais à germinação do grão (Atwell, 2001). Processamento A farinha de trigo, matéria-prima abundantemente utilizada para elaboração de diversos alimentos, como pães, biscoitos, bolos e massas, é o produto obtido a partir da espécie Triticum aestivum ou de outras espécies do gênero Triticum conhecidas (Brasil, 2005). O processo de moagem para obtenção da farinha de trigo branca pode ser definido como sendo a redução do endosperma à farinha, precedido da separação do farelo e do gérmen, com o objetivo de elaborar produtos mais palatáveis (Atwell, 2001) e com maior qualidade. Na farinha de trigo o tamanho da partícula, ou seja, a granulometria, é uma das propriedades físicas mais importantes que afetam seu escoamento, além de estar negativamente relacionado à coesividade (Kuakpettoon et al., 2001) e influenciar o processo tecnológico e as características do produto final (Stasio et al., 2007). Diferentes perfis granulométricos estão relacionados principalmente com o comportamento dos genótipos, durante o processo de moagem, já que diferentes genótipos submetidos às mesmas condições de moagem apresentam diferenças na distribuição e no tamanho das partículas implicando, assim, em variações características (Mousia et al., 2004). 214 Trigo: características e utilização na panificação Scheuer et al. Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.13, n.2, p.211-222, 2011 Composição química A composição química do grão de trigo afeta suas características funcionais e tecnológicas e, juntamente com as propriedades estruturais e a população microbiológica, define a qualidade da farinha de trigo (Mousia et al., 2004). De forma geral, a farinha de trigo é composta sobretudo de amido (70 a 75%), água (12 a 14%), proteínas (8 a 16%) e outros constituintes menores, como polissacarídeos não amiláceos (2 a 3%), lipídeos (2%) e cinzas (1%); assim, as quantidades e as diferentes características das composições apartir de diversas cultivares, influenciarão a qualidade da farinha de trigo (Morita et al., 2002). Por isso, como forma de facilitar a compreensão do comportamento do trigo nos processos tecnológicos é oportuno se conhecer os principais constituintes do grão. Umidade O teor de água do grão representa um índice comercial significativo, pois influencia seu peso específico, rendimento de moagem, conservação e características tecnológicas (Quaglia, 1991). Um exemplo disso é a influência que as condições climáticas exercem durante a colheita e a influência que as condições de umidade do ambiente exercem durante a estocagem, sobre a quantidade de água a ser adicionada na elaboração de determinado produto (Popper et al., 2006). A água disponível é, provavelmente, o fator mais relevante a afetar a germinação, o crescimento da planta e o desenvolvimento de fungos em substratos ricos em nutrientes (Magan & Lacey, 1988). Assim, os limites de umidade se caracterizam como aspectos imprescindíveis para conservação do grão e da farinha e para a respectiva comercialização (Miranda et al., 2008); o segundo fator mais importante é a temperatura. A influência da atividade da água e da temperatura no crescimento de fungos e na produção de micotoxinas (Noureddine et al., 2009) deve ser considerada uma forma de preservar as características dos grãos. Carboidratos Segundo o Guia Alimentar da População Brasileira, os carboidratos devem estar presentes na alimentação humana diária (Brasil, 2005), por serem os componentes que contribuem com 50 a 70% de energia da dieta (Copeland et al., 2009). Os carboidratos, ou glicídeos, constituem cerca de 72% do peso do grão de trigo (Quaglia, 1991) O amido é produzido nos amiloplastos e é constituído, basicamente, por polímeros: a amilose e a amilopectina (Hoseney, 1991). O amido de trigo comum está presente cerca de 25% na forma de amilose (Atwell, 2001). Isto a caracteriza como responsável pela absorção de água e pela formação de geis que originam redes tridimensionais (Cheftel & Cheftel, 1992), o que gera interesse para a indústria de processamento de alimentos, por ser grande potencial na modificação da textura e da qualidade dos produtos elaborados (Hung et al., 2006). A amilopectina é um polímero ramificado complexo. Está presente na maioria dos amidos, de 60 a 90% (Copeland et al., 2009). Quando um tratamento térmico é dado ao amido, dependendo das condições físicas (temperatura) e do conteúdo de água, as características e as propriedades dos grânulos são afetadas (Bogracheva al., 2002), o que repercute na reologia do produto (Copeland et al., 2009). Segundo Mestres (1996), as propriedades funcionais e nutricionais do amido são devidas, em grande parte, ao estado físico do alimento, que muda durante o preparo. Com a cocção, o amido nativo se transforma em uma pasta e depois, com o resfriamento e armazenamento, em um gel. Na presença de umidade e posterior resfriamento a maioria dos amidos consumidos sofre algum processo envolvendo aquecimento, durante o qual os grânulos de amido são gelatinizados, perdendo a cristalinidade e a organização estrutural. Com o resfriamento, a desagregação das moléculas forma um gel que Trigo: características e utilização na panificação Scheuer et al. 215 Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.13, n.2, p.211-222, 2011 retrograda gradualmente a um agregado semicristalino, diferente do grânulo inicial (Copeland et al., 2009). A gelatinização ocorre quando o amido é aquecido na presença de umidade suficiente; os grânulos absorvem água e incham e a organização cristalina é irreversivelmente rompida (Copeland et al., 2009). Retrogradação é um termo utilizado para descrever as mudanças que ocorrem no amido gelatinizado sujeito ao resfriamento e à estocagem, em que há um novo arranjo molecular favorecendo uma estrutura mais ordenada, podendo ser desenvolvida nova forma cristalina. O nome retrogradação é dado porque o amido volta à sua condição de insolubilidade em água fria (Mestres, 1996). As mudanças que ocorrem nos grânulos de amido durante a gelatinização e a retrogradação, são os principais determinantes do comportamento reológico desses amidos; elas têm sido medidas principalmente pelas mudanças de viscosidade durante aquecimento e resfriamento de dispersões de amido (Mestres, 1996). Propriedades do amido a) Gelatinização A gelatinização ocorre a partir da absorção de água pelo amido que, com o aquecimento do sistema, perde sua birrefrigência. O prolongamento da ação térmica resulta numa viscosidade maior, proporcionada pelo inchamento do grânulo, através da absorção de água. A continuidade deste processo leva à solubilização do amido. A gelatinização do amido do trigo ocorre em temperaturas entre 58 e 66 º C. Após total solubilização do amido e resfriamento do sistema, observa-se um aumento considerável na viscosidade da pasta formada, estágio que termina com a formação de um gel. b) Retrogradação Retrogradação consiste na cristalização das cadeias de amido gelatinizado. A pasta obtida no processo de gelatinização apresenta, quando resfriada, baixa energia nas cadeias de amido e fortalecimento nas pontes de hidrogênio, o que subsidia a formação de um corpo gelatinoso e firme. O envelhecimento do sistema resulta em uma interação mais energética das cadeias de amido que tendem a expulsar o excesso de água. A eliminação da água leva à formação de cristais. Proteínas Em meados de 1900 Thomas Osborne classificou as proteínas (Atwell, 2001), segundo a solubilidade (Osborne, 1924 apud Goesaert et al., 2005), em quatro categorias: albuminas, globulinas, prolaminas e glutelinas (Hoseney,1991). No trigo, as proteínas estão divididas em proteínas solúveis (albuminas e globulinas) e proteínas de reserva (gliadina e glutenina), ou seja, o gluten (Sgarbieri, 1966), o principal responsável pela funcionalidade do trigo, a fonte de destaque das propriedades viscoelásticas da massa (Osborne, 1924, apud Goesaert et al., 2005). A propriedade viscoelástica do glúten hidratado é caracterizada a partir da atuação plastificante da gliadina (Van der Borght et al., 2005), promovendo viscosidade, e da glutenina, propiciando resistência à ruptura da massa (Sgarbieri, 1996) ou seja, a gliadina tem boa extensibilidade e a glutenina, melhor elasticidade (Cheftel et al., 1985, apud Chiang et al., 2006). É a presença das proteínas do glúten na farinha de trigo que a torna apropriada à elaboração de produtos panificáveis levedados (Bushuk, 1998, apud Wang et al., 2007), pois é a rede proteica do glúten a responsável pela retenção de dióxido de carbono produzido durante o processo de fermentação, e de assamento nas massas levedadas (Goesaert et al., 2005); por isso, entender as propriedades mecânicas do glúten do trigo é entender o comportamento do processamento dos produtos elaborados com trigo (Belton, 2005). É a composição qualitativa e quantitativa das frações de glutenina e de gliadina que influenciam as propriedades reológicas da massa de trigo, mais especificamente a matriz 216 Trigo: características e utilização na panificação Scheuer et al. Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.13, n.2, p.211-222, 2011 viscoelástica do glúten(Pruska-Kedzior et al., 2008). Lipídeos Os lipídeos se originam de membranas e organelas de diferentes estruturas químicas (Goesaert et al., 2005). Eles participam da composição do trigo em percentual bem pequeno (1,5 a 2,0%) e se localizam principalmente no gérmen, rico em vitamina E (Quaglia, 1991), que é retirado no início do processo da moagem do grão, previamente à moagem do endosperma (Atwell, 2001). Minerais (cinzas) e vitaminas De forma geral, os cereais contêm cerca de 1,5 a 2,5% de minerais (Bock, 2000, apud Dewettinck et al., 2008), sendo que o mineral em concentração mais alta (16 a 22% do total do conteúdo de cinzas) é o fósforo. O trigo também é fonte importante de selênio, um micronutriente essencial aos humanos, com efeito anticancerígeno, antiviral (Lyons et al., 2005) e antioxidante (Yu & Zhou, 2004). Figura 2: Tipo de grãos de trigo com diferentes valores proteicos e indicação de produtos obtidos. Fonte: Moss, (1973), apud Hoseney, (1991) Influência do teor proteico e da dureza do grão na qualidade da farinha A qualidade da farinha de trigo utilizada na alimentação está diretamente relacionada com a qualidade do trigo propriamente dito, decorrente de aspectos genéticos e ambientais (Zhu & Khan, 2002); por isso, para suprir as expectativas do mercado consumidor é necessário entender a relação entre a qualidade Trigo: características e utilização na panificação Scheuer et al. 217 Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.13, n.2, p.211-222, 2011 da farinha oriunda de determinado grão e as características dos produtos elaborados com essa farinha (Kihlberg, et al., 2006). Os produtos elaborados com trigo possuem ampla diversidade; é então relevante ressaltar a indicação para o melhor resultado tecnológico com relação à caracterização físico- química do grão e da respectiva farinha. Assim, se indica o uso dos tipos de trigo com diferentes valores proteicos, recomendados para cada produto (Figura 2): O trigo mole proporciona farinha muito fina, de coloração branca, formada por fragmentos irregulares das células do endosperma e partículas planas que se aderem umas às outras (Léon, 2007) e com mais coesividade do que as de trigo duro (Kuakpetoon et al., 2001). Este tem, geralmente, baixo teor de glúten; por isso é utilizado para fabricação de biscoitos (cookies e crackers), bolos e tortas (Hoseney, 1991; Atwell, 2001). O trigo mole possui baixo conteúdo proteico; por isso, resulta em uma massa de glúten fraca e também com baixa absorção de água (Ching et al., 2006). O trigo durum possui alto teor protéico e tem a característica de difícil redução em farinha (Hoseney, 1991). É utilizado para fabricar sêmolas e semolinas utilizadas na produção de macarrão, espaguete e outras massas (Léon, 2007), por causa da coloração única (pigmentos amarelos) (Troccoli et al., 2000), sabor, aroma e qualidade de cozimento (Atwell, 2001). O trigo duro produz farinha com maior granulometria e de aspecto arenoso, composta de partículas de forma regular (Léon, 2007). Ele é indicado para a produção de pães e produtos fermentados (Atwell, 2001), pois define farinhas caracterizadas com alto conteúdo de proteína e qualidade de glúten desejável (Hoseney, 1991). Análises efetuadas no trigo A reologia, estudo do escoamento e deformação dos materiais, tem por objetivo obter a descrição quantitativa das propriedades mecânicas, a informação relacionada com a estrutura molecular e a composição do material; caracterizar e simular o desempenho dos materiais durante o processamento e controlar a qualidade do produto (Dobraszczyk & Morgenstern, 2003). As propriedades reológicas das massas são em geral, influenciadas basicamente pela dureza do grão, granulometria da farinha e hidratação da massa (Branlard et al., 2001). As propriedades reológicas da massa do pão são importantes, por dois motivos: primeiro, porque determinam o comportamento da massa durante o processo de manuseio mecânico e, segundo, porque afetam os processos que determinam o crescimento das cavidades celulares e a estabilidade da massa, durante o processo de elaboração (Stojceska et al., 2007). Isto é delineado pela participação do amido, das proteínas e da água, em que a parte proteica da farinha tem a habilidade para formar a rede viscoelástica contínua do glúten, desde que haja água suficiente para a hidratação e energia mecânica para efetuar a mistura (Gras et al., 2000). Análise do glúten Uma análise muito importante que serve para medir o teor de glúten úmido e, a partir da secagem (glúten seco), possibilitar o cálculo do índice de glúten de determinada amostra (Montenegro & Ormenese, 2008). O princípio do método consiste em fazer uma massa com farinha de trigo e água que, em seguida, deve ser lavada para remoção do amido e dos constituintes hidrossolúveis do glúten, obtendo-se o glúten úmido; após este procedimento o glúten é secado e pesado (Popper et al., 2006), possibilitando a determinação do teor de glúten seco. A determinação da quantidade e da qualidade do glúten na farinha é uma das melhores ferramentas para se conhecer suas potencialidades (Perten, 1990, apud Léon, 2007, p.41), já que o glúten é responsável pela retenção de gás na massa, o que confere leveza aos produtos fermentados (Bechtel et al., 1977), estando então relacionado à qualidade final dos produtos, com relação à textura, forma e expansão (Amemiya & Menjivar, 1992). Farinografia Na farinografia há determinação da 218 Trigo: características e utilização na panificação Scheuer et al. Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.13, n.2, p.211-222, 2011 absorção da água exata feita pela farinha, tendo como base a consistência específica da massa (Quaglia, 1991). Esta análise é amplamente utilizada como forma de monitorar o desenvolvimento da rede protéica de glúten durante o processo de mistura da massa, razão por que é uma análise reológica que auxilia a predizer a aplicação tecnológica da farinha de trigo (Montenegro & Ormenese, 2008). Extensografia Na extensografia é medida e registrada a resistência da massa à extensão, enquanto ela é esticada em velocidade constante, após períodos de descanso (Brabender, 2008), além de medir, também, sua extensibilidade, o que é importante à retenção de gás (Hruskova et al., 2006). Análise da atividade α-amilásica (número de queda ou falling number) A análise está baseada na rápida gelatinização de uma suspensão de farinha e água e na medida de degradação do amido por ação da amilase em condições similares às de cocção de um pão (Quaglia, 1991), já que esta enzima tem a função de liberar açúcares do amido durante a fermentação do pão (Faroni et al., 2002). A verificação da atividade α- amilásica em grãos ou em farinhas, possui os seguintes objetivos: detectar danos causados por pré-germinação, otimizar os níveis de atividade enzimática e garantir a sanidade do grão (Léon, 2007). Análise rápida de viscosidade Na análise rápida de viscosidade o equipamento ARV (Analisador Rápido de Viscosidade) mede o comportamento da gelatinização e as propriedades de pasta do amido, através de um viscosímetro, que controla a resistência da amostra durante o aquecimento e o resfriamento, ou seja, caracterizao processo a partir das propriedades funcionais do mesmo (Crosbie & Ross, 2007 apud Copeland et al., 2009, p.1530). Panificação Experimental No Brasil, 55% do trigo utilizado se destinam à panificação. O percentual restante se divide em 17%, para uso doméstico, 15% para a produção de massas alimentícias, 11% para a fabricação de biscoitos e 2% para outros usos, como produtos de confeitaria (Embrapa, 2008). Dentre os produtos da panificação há destaque para o pão, alimento básico da dieta humana. Difundido no mundo pelo pioneirismo dos egípcios, possui registros históricos de antes da era neolítica, ou seja, de cerca de 12.000 anos atrás (Arpita Mondal, 2008). Na elaboração dos pães o trigo é o cereal com maior destaque, apesar de o centeio ser usado substancialmente em algumas partes do mundo (Goesaert et al., 2005). Isto ocorre por dois motivos: pelo fato de a indústria moageira ter estabelecido um índice potencial do trigo para elaboração de pão (Preston et al., 1992 apud Kihlberg et al., 2006) e porque, dentre as farinhas de cereais, somente a de trigo pode formar uma massa viscoelástica tridimensional, quando misturada com água, o que faz com que a caracterização das propriedades reológicas da massa seja efetiva em predizer o comportamento do processo e o controle de qualidade dos alimentos (Song & Zheng, 2007). Na panificação, juntamente com o trigo, a água é o ingrediente mais importante já que ambos afetam a textura e o miolo do produto final. Neste sentido, estudos demonstram que aproximadamente 50% de água incorporada a determinada elaboração resultam em um pão com textura leve, apesar de os pães artesanais conterem de 60 a 75% de água (Arpita Mondal, 2008). Na elaboração de pães, a farinha de trigo participa sempre com 100% e o restante dos ingredientes é um percentual da totalidade do peso; por isto, considerando-se 100% de farinha, a quantidade de participação dos outros ingredientes é de 2% para o fermento, 4% para o açúcar, 2% para o sal e 3% para gordura a (Arpita Mondal, 2008). Além dos ingredientes o procedimento para elaboração do pão é também fundamental nas seguintes etapas: mistura ou amassamento, fermentação e cocção (Hoseney, 1991). O amassamento é uma operação crítica no processamento de alimentos pelo fato de formar sua estrutura, ou seja, acontece o Trigo: características e utilização na panificação Scheuer et al. 219 Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.13, n.2, p.211-222, 2011 desenvolvimento das propriedades viscoelásticas do glúten, além da incorporação de ar, que tem efeito maior na reologia e na textura (Dobraszcyzk & Morgenstern, 2003). No processo de amassamento a aeração e a reologia estão intimamente relacionadas; por isto, é relevante considerar: o efeito do formato do misturador e da operação no desenvolvimento da reologia e da textura; a medida reológica durante a mistura, a partir do torque do batedor ou da força consumida; o efeito da reologia nos modelos de misturas e a simulação dos modelos de deformação e escoamento de mistura em função da geometria do batedor e da reologia (Dobraszcyzk & Morgenstern, 2003). A fermentação é a etapa condutora no processo de elaboração de pães. Isto ocorre porque é a partir da fermentação dos açúcares (liberados do amido), da farinha de trigo e da ação das enzimas naturais presentes que se obtém o produto levedado denominado pão. Durante a fermentação (que tem a levedura Saccharomyces cerevisiae como responsável), o açúcar é convertido em CO2 e água; o vapor d‘água e o CO2 são expandidos com o aumento da temperatura, além de atuarem como isolantes prevenindo, assim, o aumento excessivo de temperatura e a evaporação da umidade (Arpita Mondal, 2008). Na etapa de cocção ocorrem no produto algumas modificações que definem os aspectos sensoriais: vaporização da umidade, elevação da temperatura, aumento do volume (Hoseney, 1991), transformação da viscosidade da massa em elasticidade do miolo do pão e caracterização esponjosa da massa (Hamer & Hoseney, 2006). O teste de panificação é a melhor alternativa para se testar uma farinha em escala comercial (Freilich et al., 1935, apud Zounis & Quail, 1997). Os métodos dos testes de panificação refletem a produção comercial, muito embora isso dependa da formulação, dos protocolos adotados e dos equipamentos utilizados (Zounis & Quail, 1997). A formulação de produtos acabados e processados pode descrever protocolos de laboratórios, utilizados para avaliar a qualidade da farinha de trigo (Naega, 2008). Muitos fatores interferem nas condições de processamento de determinado produto; eles podem ser caracterizados como o conteúdo de água, o procedimento de mistura, o tempo de mistura, o tempo de descanso da massa e sua consistência. Isto afeta as propriedades reológicas da massa (Sliwinski et al., 2004), as quais são, comumente, utilizadas para se analisar o valor panificável da farinha de trigo (Daniels & Fisher, 1976, apud Hruskova et al., 2006). Somente os testes de panificação podem mostrar a complexa interação existente entre os ingredientes, fornecendo a informação real característica da panificação (pães, bolos, biscoitos, massas). Cuidadosamente monitorados, eles podem ser confiáveis em predizer as propriedades da massa e de produtos assados, o que os torna facilmente reprodutíveis (Naega, 2008). CONCLUSÕES O trigo, cereal com primeiro lugar em volume de produção mundial, é uma matéria prima potencial que pode ser utilizada na elaboração de grande diversidade de produtos. A caracterização do trigo definida por aspectos estruturais, de processamento e composição química, permite indicá-lo à aplicabilidade tecnológica, como é o caso da panificação. As análises reológicas são um exemplo de implementação tecnológica, no sentido da caracterização do comportamento experimental do trigo, anterior à efetivação dos processos e elaboração dos produtos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: Abitrigo. 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