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AULA 2 A Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE) é uma condição crônica que ocorre quando o conteúdo do estômago retorna para o esôfago, causando sintomas e, em alguns casos, lesões. O refluxo gastroesofágico em si é um evento fisiológico, especialmente após as refeições, mas a DRGE se manifesta quando a frequência e a duração desses episódios aumentam, prejudicando a qualidade de vida do paciente A DRGE é uma doença bi-facetada e pode ser dividida em: ● "DRGE propriamente dita/raiz", que tem uma exposição ácida aumentada → é ácido dependente ● "DRGE símile", com manifestações clínicas semelhantes, mas com exposição ácida normal → não é ácido dependente, o paciente não melhora com antiácidos. FISIOPATOLOGIA A Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE) ocorre quando os mecanismos de defesa do corpo falham, permitindo que o conteúdo gástrico retorne ao esôfago. Componentes Anatômicos e Funcionais da Barreira Antirrefluxo: - Esfíncter Esofágico Inferior (EEI): É uma zona de alta pressão que se contrai em repouso para evitar o refluxo do conteúdo gástrico. A sua função pode ser comprometida pelo relaxamento inadequado intransitório ou por hipotensão. - Ângulo de His: A junção entre o esôfago e o estômago forma um ângulo agudo. Essa configuração atua como um mecanismo de "válvula" que, em conjunto com o diafragma, impede o refluxo. - Ligamento Frenoesofágico: Este ligamento conecta o esôfago ao diafragma, ajudando a manter a posição correta do EEI abaixo do diafragma. A sua integridade é crucial para a função da barreira. - Diafragma Crural: A parte do diafragma que circunda o esôfago ajuda a reforçar a pressão do EEI. - Segmento Intra-abdominal do Esôfago: A porção do esôfago que se encontra dentro da cavidade abdominal. A pressão positiva abdominal sobre este segmento contribui para a competência da barreira MECANISMOS DE DEFESA - Clareamento Esofágico: A capacidade do esôfago de "limpar" o material refluído. Isso inclui a gravidade, a produção de Sofia Dutra saliva com bicarbonato e o peristaltismo esofágico. - Resistência Tecidual da Mucosa Esofágica: A capacidade do revestimento interno do esôfago de resistir aos danos do refluxo. MECANISMOS DE AGRESSÃO - Relaxamento inadequado e transitório do Esfíncter Esofágico Inferior (EEI): É o principal mecanismo fisiopatológico. O EEI, que normalmente fica contraído, relaxa de forma inadequada, permitindo o refluxo. - Hérnia Hiatal por Deslizamento: Deslocamento de parte do estômago para o tórax, o que pode causar: ● Redução da pressão basal no EEI. ● Encurtamento do EIE. ● A presença da hérnia facilita o aparecimento e pior prognóstico da DRGE. - Hipotonia do EEI: Diminuição da pressão basal do EEI. - Aumento da Pressão Intra-abdominal: Causado por condições como obesidade e gravidez. - Esvaziamento gástrico lento: Faz com que o conteúdo do estômago permaneça por mais tempo, aumentando a chance de refluxo. - Composição do Refluxo: O material refluído é agressivo e pode conter ácido clorídrico (HCl), pepsina, sais biliares e tripsina MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS DRGE RAIZ Sintomas Esofágicos: - Típicos: ● Pirose retroesternal (54%): Sensação de queimação no peito ● Regurgitação (29%): Retorno do conteúdo gástrico para a boca, muitas vezes com um gosto amargo ou ácido. - Atípicos: Sofia Dutra ● DTA (Dor Torácica Cardíaca) ● Globus Esophageal A forma como o paciente descreve a dor ou o sintoma pode ser uma pista importante para o diagnóstico. Ao pedir que o paciente mostre onde e como sente a queimação, a distinção entre a "mão espalmada" (que pode sugerir uma dor de origem mais ampla, como a pirose) e a "ponta do dedo" (que pode indicar um sintoma mais localizado ou uma dor de origem não-esofágica) pode ajudar a guiar a investigação clínica. Sintomas Extra Esofágicos: ● Pulmonares: Asma, tosse crônica, fibrose pulmonar, pneumonias recorrentes, subrepitíceas. ● Otorrinolaringológicos (ORL): Rouquidão, pigarro, laringite posterior, sinusite crônica, otite média, D.A do sono. ● Orais: Desgaste do esmalte dentário e halitose. DRGE SÍMILE A DRGE Símile refere-se a sintomas que se assemelham aos da DRGE, mas que não estão diretamente ligados à exposição ácida patológica. Nesses casos, a causa dos sintomas pode ser de origem esofágica, gástrica ou relacionada a estruturas da transição gastroesofágica, com mecanismos fisiopatológicos diferentes. Portanto, há a ausência de resposta ao tratamento que foca apenas na supressão ácida (como os IBPs) levanta a hipótese de outras afecções. A apresentação clínica da DRGE, por si só, possui uma sensibilidade de 82%, mas uma baixa especificidade de 22%. Isso significa que, embora os sintomas estejam frequentemente presentes em quem tem a doença, eles não são exclusivos da DRGE → Acurácia: 50% DIAGNÓSTICOS DIFERENCIAIS ● Acalasia inicial; ● Pirose funcional; ● Dispepsia funcional; ● Eructação excessiva; ● Esofagite eosinofílica; ● Dor Torácica funcional; ● Síndrome de ruminação; ● Esofagite medicamentosa; ● Hipersensibilidade ao refluxo; ● Comprometimento da Motilidade Gástrica; ● Gastroparesia, ● Tempo de Esvaziamento, ● Distúrbio da Acomodação; ● Esofagite infecciosa (candidíase, CMV, HSV); ● Distúrbios Primários da Motilidade Esofágica. DRGE REFRATÁRIA O termo "refratariedade" sugere que a doença é resistente ao tratamento, logo é inapropriado para a DRGE, pois existem dois cenários principais quando um paciente não responde ao tratamento padrão com Inibidores de Bomba de Prótons (IBPs): - Diagnóstico incorreto - Diagnóstico Correto com Outra Condição Concomitante: O paciente realmente tem DRGE, mas os sintomas persistentes são causados por uma doença sobreposta que não é tratada apenas com a supressão ácida. O diagnóstico de "refratariedade" só é confirmado se a pHmetria em uso de IBP (duas vezes ao dia) mostrar uma exposição ácida esofágica ainda elevada (tempo de exposição ácida > 6%). Sofia Dutra SÃO REALMENTE REFRATÁRIOS? Verificar: ● Inaderência às Orientações: Comportamentais e Dietéticas ● Inadequada Tomada Medicamentosa alguns IBP ● Desagrado de Medicamentos ● Desobservação do Estímulo Alimentar/Jejum ● Desnecessário com Pantoprazol e Rabeprazol ● DRGE de Certeza: Refratariedade da Doença? Do Sintoma? É DRGE? Há Concomitância? ● Esofágico: Supra, TEG e Infra Investigar: ● Refluxo Biliar ● Gasoso Hipoácido ● Acalasia Inicial ● Pirose Funcional ● Esofagite Eosinofílica ● Hipersensibilidade Esofágica ● Distúrbios 1º Motilidade Esofágica FALHA DO TRATAMENTO Reavaliar o diagnóstico: A falha no tratamento empírico levanta a suspeita de que o paciente pode ter outra condição, como um dos fenótipos da DRGE que não dependem apenas da exposição ácida (por exemplo, esôfago hipersensível ou pirose funcional). Investigação diagnóstica: Como o paciente permanece sintomático, a realização de exames complementares é necessária para confirmar o diagnóstico. - Endoscopia Digestiva Alta (EDA): pode diagnosticar sinais de DRGE ou afastar outros diagnósticos diferenciais, mesmo que grande parte das endoscopias em pacientes com sintomas típicos seja normal. - pHmetria/Impedâncio-pHmetria: Em pacientes com EDA normal, a pHmetria é crucial para determinar o fenótipo da DRGE: ● EE (Esofagite erosiva): Cor roxa, prevalência 20–30% ○ Corresponde ao paciente que tem lesão visível na endoscopia causada pelo refluxo ácido. ● DRNE (Doença do refluxo não erosiva): Cor alaranjada, prevalência 30–40% ○ Paciente com sintomas típicos de refluxo, sem esofagite visível, mas com exposição ácida anormal documentada pela pHmetria. ● HR (Hipersenibilidade ao refluxo) Cor amarela, prevalência 20–30% ○ Exposição ácida normal, mas sintomas se correlacionam com episódios de refluxo (SAP positivo).● PF (Pirose funcional): Cor verde, prevalência 20–30% ○ Exposição ácida normal e sem correlação dos sintomas com o refluxo (SAP negativo). - Manometria Esofágica: Não diagnostica a DRGE, mas é útil para descartar distúrbios motores esofágicos e para a alocação correta dos sensores da pHmetria. É um pré-requisito para a cirurgia antirrefluxo. Sofia Dutra INTENSIDADE DA DOR A imagem indica que existe uma maior correlação entre o tempo de exposição do esôfago a um pH abaixo de 4 (exposição ácida) e o grau de lesão esofágica, sem que haja uma concordância necessária com a intensidade dos sintomas. ● Em outras palavras, um paciente pode ter um tempo de exposição ácida elevado e uma lesão grave, mas sentir pouca dor, enquanto outro pode ter uma exposição ácida menor e sentir uma dor intensa A análise da imagem sugere que a gravidade da lesão esofágica (erosões isoladas, confluentes e lesões circunferenciais) está relacionada ao aumento do percentual de tempo em que o pH esofágico fica abaixo de 4. DIAGNÓSTICO DE CERTEZA O Consenso de Lyon (2018) estabelece os critérios atuais para o diagnóstico de certeza. Diagnóstico Sem Exames Complementares → Tratamento Empírico: O diagnóstico de DRGE pode ser presumido com base nos sintomas típicos (pirose e regurgitação) e na resposta positiva ao tratamento com Inibidores de Bomba de Prótons (IBP). ● Se os sintomas desaparecem com a medicação, o diagnóstico clínico é reforçado. Diagnóstico com Exames Complementares: → Endoscopia Digestiva Alta (EDA): A EDA é o primeiro exame a ser solicitado. O diagnóstico é de certeza quando a endoscopia revela: ● Esofagite complicada (grau B, C e D da Classificação de Los Angeles), ● Esôfago de Barrett ● Estenose péptica. → pHmetria: É o padrão-ouro para o diagnóstico de DRGE, principalmente em pacientes com EDA normal. ● O exame mede a exposição ácida do esôfago durante 24 horas. ● O diagnóstico de certeza é estabelecido quando o tempo de exposição ácida (TEA) é maior que 6%. ● Para este exame, é fundamental que o paciente não esteja em uso de IBP. → Diagnóstico de DRGE Refratária e/ou Sintomas Refratários: O Consenso de Lyon e o Consenso de Porto definem que: ● DRGE Refratária: Ocorre quando a pHmetria em uso de IBP (2 vezes ao dia) revela uma exposição ácida aumentada (>6%). Isso indica que a produção Sofia Dutra de ácido não está sendo controlada pela medicação. ● Sintomas Refratários ao IBP: O paciente tem sintomas que não melhoram com o tratamento, mas a impedâncio-pHmetria mostra uma relação positiva entre os eventos de refluxo e os sintomas, mesmo que a exposição ácida seja normal. Nesses casos, a causa não é a acidez em si, mas a hipersensibilidade do esôfago aos eventos de refluxo. TRATAMENTO FARMACOLÓGICO Apesar de ser um distúrbio eminentemente motor, as principais consequências da DRGE são em decorrência da exposição ácida. Por isso é importante usar medicamentos que atuem para reduzir a secreção do ácido clorídrico. INIBIDORES DE BOMBA DE PRÓTONS Os Inibidores da Bomba de Prótons (IBP) são a principal classe de medicamentos no tratamento da DRGE. Eles atuam se ligando irreversivelmente às bombas de prótons (H+/K+ATPase) nas células parietais, o que diminui a secreção de ácido clorídrico. - Necessidade de Proteção: A acidez do estômago pode danificar as moléculas dos IBPs, tornando-as ineficazes. Por essa razão, a cobertura gastrorresistente e enterosseletiva é essencial para garantir que o medicamento chegue ao local de ação intacto. - Melhor Horário de Uso: Para que o IBP atue nas bombas ativas, a medicação deve ser tomada em jejum, cerca de 30 minutos antes da primeira refeição do dia. - Fase de Inibição: A supressão ácida atinge uma "fase estacionária de inibição" em cerca de 3 a 5 dias. Nessa fase, a supressão de ácido pode chegar a 66%. - Rebote Ácido: A interrupção abrupta do uso crônico de IBP pode causar um "rebote ácido". ● Isso ocorre porque a retirada repentina do medicamento "desinibe" as bombas de prótons em um ambiente de hipergastrinemia, elevando a produção de ácido e podendo gerar sintomas. ● Métodos de Redução: Vários esquemas podem ser adotados, como a redução de 50% da dose por semana. O tratamento com bloqueadores H2, como a famotidina, pode ser utilizado para ajudar na retirada. ● Manejo da dor: pregabalina ou antidepressivos tricíclicos, ISRS Sofia Dutra