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🏥 Pancreatite aguda Morgana R. Duarte- TXI A) Introdução Causa comum de abdome agudo. Requer internação de emergência. Deve ser considerada no diagnóstico diferencial de doenças abdominais graves. Características clínica: dor abdominal (epigástrica) e elevação de amilase/lipase no sangue ou urina → pode ser episódica ou recorrente. Achados morfológicos: edema intersticial, necrose e hemorragia pancreática, necrose gordurosa intra e extrahepática → lesões podem ser localizadas ou difusas. Funções exócrinas e endócrinas alteradas conforme tempo/extensão. B) Definição e classificação Pancreatite aguda 1 Classificação mais usada Atlanta 1992 divide as pancreatites em aguda e crônica. Álcool: causa comum para ambas. 1- Pancreatite aguda Processo inflamatório agudo do pâncreas, podendo afetar tecidos e órgãos adjacentes. Critérios diagnósticos 2/3 necessários). Dor epigástrica típica. Amilase/lipase 3x o LSN. Imagem TC/RM compatível com pancreatite. Achados infalamtórios: edema, hemorragia e necrose → pode evoluir para pseudocisto ou infecção pancreática/peripancreática. Prognóstico: geralmente reversível. Complicação rara: necrose do ducto princial → estenose → pancreatite crônica obstrutiva distal. 2- Pancreatite crônica Doença inflamatória crônica. Leva à: fibrose e destruição do parênquima exócrino e (às vezes) endócrino. Fase inicial: episódios de pancreatite aguda podem ocorrer como única manifestação. Evolução com: insuficiência exócrina (digestiva) e endócrina (diabetes). Diminuição/desaparecimento dos episódio agudos com o tempo. 3- Classificação da pancreatite aguda Duas formas principais: Pancreatite edematosa 8090%: processo inflamatório leve, caracterizada por edema sem necrose ou hemorragia. a Evolução rápida e favorável: melhora clínica em 2 a 5 dias. b Baixa mortalidade 12%. Pancreatite aguda 2 Pancreatite necrosante 1020%: processo inflamatório grave com necrose pancreática, pode haver infecção, hemorragia e/ou supuração. a Termos "hemorrágica" e "supurativaˮ são variantes da forma necrosante. b Evolução lenta e comumente complicada. c Pode haver falência de múltiplos órgãos e sistemas. d Alta mortalidade 3050%. 💡 Diagnóstico definitivo das formas edematosa vs. necrosante geralmente só é possível por cirurgia ou autópsia. Difícil distinguir clinicamente na fase inicial. C) Etiologia Causas mais comuns 70%: litíase biliar e álcool. A ordem entre essas duas causas varia por região e perfil da população. Onde há alto consumo de álcool: álcool como causa principal. Onde há alta obesidade e consumo moderado de álcool: predomina litíase biliar. 3ª causa mais comum: idiopática ou hipertrigliceridemia. Outras causas menos comuns: Metabólicas: hipertrigliceridemia, hipercalcemia. Mecânicas: trauma, procedimentos endoscópicos, tumores. Vasculares: isquemia, embolia. Infecciosas: vírus (ex: caxumba), bactérias e parasitas. 💡 Categorias não rígidas, e muitos casos envolvem sobreposição de fatores. Pancreatite aguda 3 1- Fatores metabólicos Álcool: causa mais comum de pancreatite crônica, pode causar episódios agudos nos estágios iniciais. a Exige uso crônico e pesado 68 anos), apenas 110% dos alcoólatras desenvolvem a doença. Hiperlipoproteinemia 35% dos casos de pancreatite aguda, considerada a 3ª causa mais comum. a Associada aos tipos I, IV e V de hiperlipidemia (classificação de Frederickson). b Pode causar liberação excessiva de ácidos graxos livres → lesão acinar. Hipercalcemia e hiperparatireoidismo: incidência variável: 1,5 a 19%, associação não é conclusiva. a Possíveis mecanismos: formação de cálculos no ducto pancreático OU ação tóxica direta do PTH OU ativação precoce da tripsina por cálcio elevado. Medicamentos: 120 fármacos relatados, nem todos comprovados. Pancreatite aguda 4 a Diuréticos: tiazídicos, furosemida; AINEs e corticoides; imunossupressores: azatioprina, 6MP; ATB: tetraciclina, isoniazida. ARV: didanosina (maior risco); outros AC e propoxifeno. Veneno de escorpião: específico do Tityus trinitatis Trindade e Venezuela), causa pancreatite aguda e cistos pancreáticos → mecanismo desconhecido. Hereditariedade: associadas a hipertrigliceridemia. a Malformações anatômicas: pâncreas divisum 411% ducto principal drena pela papila menor (drenagem ineficaz). b Pancreatite hereditária: autossômica dominante, mutação no cromossomo 7 evolui para pancreatite crônica, aumenta o risco de câncer pancreático. 2- Fatores mecânicos Colelitíase 4060%: pancreatite ocorre em 5% dos pacientes operados por litíase biliar também, recorrência alta 3663% se a litíase não for tratada. Pancreatite aguda 5 a A passagem do cálculo pela ampola de Vater é essencial. b Mecanismo sugerido: formação de mistura tóxica (bile + enzimas pancreáticas) + sais biliares não conjugados e lisolecitina → lesão acinar. Pancreatite pós-operatória: pode ocorrer após cirurgias gástricas 117%, cirurgias biliares 19%, cirurgias vasculares/CEC 16% nas autópsias). a Mecanismo: lesão direta ao pâncreas ou suprimento sanguíneo, obstrução do ducto pancreático e redução dos inibidores de tripsina no pós-operatório. Obstrução do ducto pancreático ou duodeno: trauma abdominal, CPRE com infusão excessiva de contraste, manometria do esfíncter de Oddi (maior risco), tumores duodenais, ampulares ou pancreáticos, A. lumbricoides (raro). a Outras Crohn, divertículo duodenal, Sd. da alça aferente. b Mecanismo: refluxo do conteúdo duodenal ou aumento da pressão intraductal. Trauma pancreático: externo (traumas fechados ou perfurantes) ou iatrogênico (cirúrgico ou endoscópico). 3- Fatores vasculares Isquemia pode iniciar ou agravar pancreatite. Pancreatite aguda 6 Ocorrência em: hipoperfusão sem obstrução (ex: pós-CEC, choque, grandes cirurgias). 4- Fatores infecciosos Vírus: parotide epidêmica (caxumba), coxsackievírus, ecovírus, hepatite viral, epstein-barr. Bactérias/fungos/parasitas (em AIDS CMV, Candida, Cryptococcus, Toxoplasma, Mycobacterium avium. D) Patogênese Fatores envolvidos na autodigestão pancreática. Fatores contributivos: obstrução do ducto pancreático, refluxo do conteúdo duodenal, alteração da permeabilidade ductal, isquemia, ativação precoce da tripsina. 1- Fases do desenvolvimento da pancreatite Fase inicial: fator etiológico → lesão da célula acinar (via canalicular, linfática, vascular, ação direta no parênquima). Ativação intra-acinar da tripsina: tripsina ativa → ativa outras enzimas pancreáticas que causam → ruptura de membranas celulares, edema, necrose e hemorragia pancreática, necrose peripancreática e lesões à distância (ex: gordura subcutânea, medula óssea). 2- Gravidade da lesão Quadros leves: inflamação limitada → regressão espontânea. Quadros graves: autodigestão com necrose e hemorragia, necrose gordurosa até em locais distantes. Em 15% dos casos: lesão de órgãos distantes (pulmão, fígado, rins). Pode levar à síndrome da resposta inflamatória sistêmica SIRS. Pancreatite aguda 7 3- Ativação dos zimogênios pancreáticos Enzimas produzidas inativas (zimogênios): tripsina, quimotripsina, elastase, carboxipeptidase, fosfolipase. a Outras já são ativadas ao serem secretadas (ex: amilase, lipase, nucleases). Armazenamento: zimogênios ficam isolados por membrana fosfolipídica em grânulos nas células acinares. a Inibidores no pâncreas e soro evitam ativação prematura. Papel da tripsina: principal ativadora dos demais zimogênios pancreáticos. a Papel central na autodigestão pancreática. b Mecanismo exato de ativação da tripsina ainda desconhecido. c Tripsina ativa raramente detectada no tecido pancreático → traços mínimos (não mensuráveis) já são suficientes para iniciar o processo. Pancreatite aguda 8 Pancreatite aguda 9 E) Mecanismos iniciais de ativação enzimática Refluxo do conteúdoduodenal a Esfíncter de Oddi → disfunção do esfíncter, pregas mucosas duodenais → alterações anatômicas da papila, gradiente de pressão (ducto pancreático > duodeno) → aumento da pressão duodenal. b Composição do conteúdo duodenal: enzimas ativas, bile, lisolecitina, gordura emulsificada, bactérias. c Causas clínicas: obstrução da alça aferente pós-gastrectomia ou obstrução intraluminal do duodeno. Refluxo da bile: causa frequente de pancreatite, em condições normais: pressão pancreática > pressão biliar → impede refluxo. a Mecanismo clássico proposto por Opie: cálculo impactado na papila → refluxo de bile. b Outras causas: estenose da papila (fibrose, inflamação) e espasmo do esfíncter de Oddi. Ativação do sistema complemento: ativação imune local pode induzir pancreatite, baixo nível de C3 possível pior prognóstico. Fisiopatologia da pancreatite aguda. 1 Vesícula biliar com cálculos que migram pelo colédoco 2 e que obstruem 3 no nível da ampola de Vater, preferencialmente em pacientes que têm ducto comum 5 mm 4. O desencadeamento da pancreatite aguda pode ocorrer de três formas: 5 refluxo biliar para o interior do ducto de Wirsung, 6 obstrução direita do ducto de Wirsung ou 7 refluxo duodenal causado pelo aumento da pressão intra-abdominal. A Álcool, fármacos e outras causas metabólicas causam dano direto às células acinares. Pancreatite aguda 10 Estímulo exagerado de secreção pancreática: ceruleína (análoga à CCK em dose elevada → hiperestimulação do tecido pancreático → depleção de grânulos de zimogênio, vacuolização e destruição do citoplasma acinar, fusão de grânulos (liberação de enzimas no interstício) → autodigestão pancreática a Clínica associada: refeições copiosas e hipercalcemia (hiperparatireoidismo) → estimula secreção pancreática via cálcio. Pancreatite aguda 11 F) Enzimas pancreáticas e processo autodigestivo Enzimas proteolíticas: tripsina, quimotripsiana, elastase e calicreína. Enzimas lipolíticas: fosfolipase A e lipase. Tipo de enzima Enzima Ação/efeito principal Efeito histomorfológico Proteolítica Tripsina Ativa outros zimogênios; inicia autodigestão. Edema intersticial, necrose liquefativa, hemorragia e lesão vascular. Quimotripsina Complementa ação da tripsina. Similar à tripsina. Elastase Degrada fibras elásticas dos vasos. Lesão vascular mais extensa que a da tripsina. Calicreína Induz vasodilatação, dor e permeabilidade vascular (via Aumenta invasão leucocitária e dor. Pancreatite aguda 12 Tipo de enzima Enzima Ação/efeito principal Efeito histomorfológico bradicinina e calidina) Lipolítica Fosfolipase A Destrói membranas celulares com ácido biliar → forma lisofosfolipídios tóxicos Necrose parenquimatosa intensa; padrão semelhante à pancreatite necrótica humana. Lipase Atua nos TGs, causando necrose gordurosa Necrose de gordura intra e extrahepática. F) Quadro clínico 1- Epidemiologia Pode ocorrer em qualquer idade (rara em crianças e jovens adultos). Sem diferença racial significativa. Pancreatite biliar: mais comum em mulheres, meia-idade e idosos. Pancreatite alcoólica: mais comum em homens, entre 3545 anos. 2- Fatores de risco e antecedentes importantes Litíase biliar, consumo excessivo de álcool, uso de drogas, trauma abdominal, cirurgia recente, picada de escorpião. 3- Manifestações clínicas Sintomas mais comuns 90%: dor abdominal do início súbito, contínua, dura dias, no epigástrio, QSD, QSE ou dor difusa, irradiação para o dorso 4050%, dor em faixa), piora em decúbito, melhora ao se curvar para frente, resistente a analgésicos. Náuseas e vômitos 90%. Sinais gerais: febre, taquicardia, taquipneia, sensibilidade epigástrica, contratura muscular abdominal, distensão abdominal (íleo paralítico), paniculite, diminuição dos RHA. Sinais específicos Sinal de Cullen (equimose periumbilical) e Sinal de Grey- Turner (equimose em flancos) → indicam hemorragia retroperitoneal, mas não são patognomônicos de pancreatite. Pancreatite aguda 13 Outros achados: icterícia 25%, pode ocorrer por compressão do colédoco e etiologia biliar), massa epigástrica (pseudocisto ou inflamação local) e sinais de choque em casos graves (pancreatite necrosante). G) Diagnóstico Deve conter 2/3 dos seguintes: Clínica: dor abdominal + náuseas e vômitos. Laboratorial: aumento da amilase e/ou lipase 3x LSN. Radiológico: alterações compatíveis. 1- Exames laboratoriais Amilase sérica: sobe nas primeiras 212h, normaliza em 23 dias, elevada em 2/3 dos casos, não correlaciona com gravidade, pode estar normal em casos com hipertrigliceridemia. a Causas não pancreáticas de hiperamilasemia: hepatite, cirrose, colecistite, coledocolitíase, trombose mesentérica, obstrução intestinal, alcoolismo, opiáceos, gravidez ectópica, pelviperitonite, parotidite, insuficiência renal, cetoacidose diabética, sangramento intracraniano, apendicite, carcinoma pancreático, AIDS. b Fase inicial: síntese mantida e secreção bloqueada → espaço intersticial → circulação sistêmica → aumento sérico. Amilase urinária (2h): mais precisa que amilase sérica, diagnóstico sugestivo se 300 U em 1h, permanece elevada por mais tempo. Clearance de amilase: valor 5 → sugestivo de pancreatite. Pancreatite aguda 14 a Falsos positivos: pós-operatório, diabéticos, queimados, insuficiência renal. b Macroamilasemia: amilase ligada a proteínas → não excretada; não indica pancreatite. Lipase sérica: maior sensibilidade e especificidade que a amilase, eleva-se precocemente e permanece elevada por mais tempo. a Não se eleva em: macroamilasemia, doenças ginecológicas ou da paratireoide. b Maior acurácia. Dados Amilase Lipase Início 612h 48h Pico 48h 24h Elevado por 37 dias 814 dias 2- Outros exames Hemograma: leucocitose com desvio à esquerda; Ht alto ou baixo. a Queda 10% em 48h → pancreatite grave (hemorrágica). Glicemia: comum alta; 200 mg/dL indica gravidade, 300 mg/dL tem valor diagnóstico. Bilirrubina: alta em 10% dos casos, geralmente transitória, normaliza em 4 7 dias. FA/AST/LDH AST 250 UI/L, ALT 150 U/L, LDH 350 UI/L pancreatite grave. Cálcio: hipocalcemia frequente nas formas necrótico-hemorrágicas. a Causas: deposição em necrose, hipoalbuminemia, baixo PTH, alta calcitonina. b ECG: intervalo QT prolongado, segmento ST curto, onda T achatada. TG: alto em 1520% dos casos, podem mascarar amilase, comum 1000. pO2 arterial: 60 mmHg → pancreatite grave, hipoxemia. Metemalbuminemia: sugere forma hemorrágica. Pancreatite aguda 15 Análise de líquidos (ascite/pleural): amilase ou lipase → alta se origem pancreática. PCR: 150 mg/dL (ideal 300 mg/L após 48h). Tripsinogênio: aumenta nas primeiras horas e normaliza no 3º dia. Procalcitonina: avalia infecção pancreática, 3,8 ng/dL em 96h é indicativo de necrose. 💡 Amilase/lipase elevadas têm valor diagnóstico, mas não prognóstico. Pancreatite aguda 16 💡 Únicos exames laboratoriais com importância prognóstica: PCR 150 mg/dL no 3º dia. Ureia: 20 mg/dL. Ht: 44%. 3- Exames de imagem Rx de tórax: derrame pleural (geralmente esquerdo ou bilateral), atelectasia de base. Rx simples de abdome: pode mostrar cálculo biliar. a Sinais sugestivos: alça sentinela (mais comum, dilatação de alça intestinal próxima ao pâncreas) + distensão do cólon transverso, borramento do psoas + aumento do espaço gastrocólico, distensão gástrica ou duodenal. Estudo contrastado do TGI: mostra deslocamento ou compressão de estruturas, últil para excluir diagnósticos diferenciais. USG abdominal: avalia litíase biliar (principal causa), pode identificar aumento pancreático, edema, pseudocistos. a Limitação: excesso de gás → não visualiza o pâncreas em 25% dos casos. b Obrigatório para todos os pacientes com suspeita de PA avalia ETIOLOGIA, deve ser feito nas primeiras 24h. Gás e gordura dificultam oexame. c Achados i Hipoecogenicidade, com aumento difuso homogêneo ou heterogêneo do pâncreas. ii Áreas ecogênicas → indicam necrose. iii Cálculos ou lama biliar. Pancreatite aguda 17 TC com contraste: exame de escolha para avaliação da gravidade, avalia necrose, coleções, pseudocistos, infecção (bolhas de ar), uso preferencial após 1ª semana (contraste pode ser tóxico precocemente). a Possui importância prognótica. b Permite biópsia aspirativa por agulha fina para evitar infecção. c Não é obrigatório para todos os doentes → dispensável em casos leves → solicitar em caso de dúvida diagnóstica (após 7296h para ver complicações). Pancreatite aguda 18 RNM: alta sensibilidade para necrose, alternativa à TC em pacientes com contraindicação ao contraste iodado. Não é de rotina, alto custo, pouca disponibilidade, além de dificuldades técnicas. CPRE (colangiopancreatografia retrógrada endoscópica): últil para investigação de causas (litíase, estreitamentos, disfunção do esfíncter de Oddi). a Pode ser associada à manometria e USG endoscópico. b Fluxograma para indicar CPRE imediata se 4 critérios: i Ducto 9 mm US ii FA 250 iii GGT 350 iv BT 3 mg/dL v BD 2 mg/dL Laparotomia exploradora: raramente indicada, usada para excluir outras causas cirúrgicas graves quando diagnóstico está incerto. USG endoscópico: importante exame na investigação etiológica da pancreatite aguda, sobretudo na identificação de COLEDOCOLITÍASE (cálculos biliares no colédoco). Pancreatite aguda 19 H) Complicações Sinais de complicação: persistência ou retorno da dor abdominal, novo aumento de lipase e/ou amilase e piora clínica do paciente. Complicações locais: coleção fluida peripancreática aguda, pseudocisto pancreático, coleção necrótica aguda e walled-off necrosis (murada). Sistêmicas: relacionadas com descompensação de doenças de base. Pulmonar: atelectasia, derrame pleural, síndrome da angústia respiratória. Renal: insuficiência renal. Cardíaca: insuficiência cardíaca. Metabólica: hiperglicemia, acidose, hipocalcemia e hipomagnesemia. Sistêmica: coagulação vascular disseminada, síndrome de disfunção de múltiplos órgãos e sistemas, depleção do espaço extracelular, choque. Pancreática e peripancreática: hemorragia, necrose, infecção, pseudocisto, compressão, necrose e perfuração (fístula) de estruturas vizinhas (exemplo: cólon). Outras: úlcera de estresse (gastrite hemorrágica), necrose gordurosa metastática (pele, osso e sistema nervoso central). Pancreatite aguda 20 Necrose infectada 1/3 infecta; GRAM , E. coli, Proteus e K. pneumonie → suspeitar se gás na coleção → dúvida ainda: biópsia por agulha fina. COLEÇÃO FLUIDA PERIPANCREÁTICA AGUDA CFPA PSEUDOCISTO PANCREÁTICO COLEÇÃO NECRÓTICA AGUDA CNA NECROSE PANCREÁTICA DELIMITADA/MURADA OU WALLEDOFF NECROSIS Pancreatite aguda 21 I) Diagnósticos diferenciais 1- Situações que devem levantar suspeita de pancreatite aguda: Dor abdominal alta + histórico de: litíase biliar, ingestão crônica de álcool. Desenvolvimento súbito de: choque ou anúria (com ou sem dor abdominal). Febre, dor abdominal ou choque no pós-operatório, especialmente após cirurgias de: trato biliar, estômago ou duodeno. Coma diabético com choque. Quadro clínico semelhante a infarto agudo do miocárdio. 2- Evolução temporal do quadro clínico 23 horas após início dos sintomas: pode parecer colecistite aguda. 68 horas após: sintomas podem sugerir úlcera péptica perfurada. Após 23 dias: distensão abdominal e íleo paralítico → podem simular obstrução intestinal. Outras condições abdominais agudas com quadro semelhante: colecistite aguda. úlcera péptica perfurada, obstrução intestinal, infarto do miocárdio (quadro atípico), cetoacidose diabética, apendicite aguda e isquemia mesentérica. NECROSE INFECTADA Pancreatite aguda 22 💡 Todas essas condições podem cursar com hiperamilasemia e/ou hiperlipasemia, dificultando o diagnóstico exclusivo pela dosagem enzimática. J) Tratamento Clínico. Baseado em 3 condutas: ressucitação volêmica (cristaloides, independentemente de instabilidade) + controle álgico (analgesia nas primeiras 24h, pode usar opioides) + manejo dietético (evitar jejum prolongado, nutrição enteral- pré ou pós-pilórica). 1- Tratamento clínico Limitação da inflamação pancreática a Inibição da secreção pancreática: jejum, sonda nasográstrica, drogas (octreotide, somatostatina, glucagon, calcitonina, etc.) b Inibição das enzimas pancreáticas (sem eficácia comprovada): aprotinina, gabexato, nafamostato, antifibrinolíticos, inibidores da fosfolipase A. c Corticosteroides: não eficazes. Pancreatite aguda 23 d Proteção pancreática dos radicais livres do oxigênio: antioxidantes (inibidores da xantina oxidase, removedores de radicais livres). Interrupção na patogênese das complicações: bloqueadores da bomba de prótons (omeprazol, pantoprazol, etc.) → previnem úlcera de estresse, reduzem secreção gástrica → diminui o estímulo pancreático. a Complicações infecciosas ATB (em casos graves, com necrose) → cefalosporina de 3ª geração ou quinolona + metronizadol. i Infecções fúngicas 40% dos casos com necrose infectada). ii Coagulação intravascular: heparina, AAS, salicilato de sódio (efeito duvidoso). Outros: vasopressina, dextran, simpatectomia (ainda experimentais). 💡 Atualmente, indica-se carbapenêmicos. Tratamento suportivo e das complicações a Manutenção do volume intravascular: monitorização com cateter venoso central, sonda vesical, Swan-Ganz se necessário. i Soluções cristaloides (base do suporte volêmico). Transfusão de sangue e albumina, se indicado. b Reposição eletrolítica: corrigir hipocalcemia, hipomagnesemia e distúrbios de sódio e potássio (vômitos, íleo, IRA. c Suporte respiratório: hipoxemia arterial é comum e precoce, monitorar com gasometria arterial frequente 4872h iniciais). i Usar oxigenoterapia, ventilação mecânica se necessário, intubação PEEP em insuficiência respiratória grave. ii Fatores associados: distensão abdominal, enzimas pancreáticas circulantes, tromboembolismo, ácidos graxos livres, clivagem do complemento. d Analgesia: meperidina preferida à morfina (menor espasmo do esfíncter de Oddi). Bloqueio esplâcnico ou anestesia peridural contínua → aliviam a dor e aumentam o fluxo pancreático. e Suporte nutricional: suspender via oral em formas graves. Pancreatite aguda 24 i Nutrição enteral (preferencial): via sonda jejunal após ângulo de Treitz ou jejunostomia, menor risco, custo e complicações que nutrição parenteral. ii Nutrição parenteral: usada quando enteral não é possível, pode incluir lipídios se sem hipertrigliceridemia. 2- Tratamento endoscópico Procedimentos principais CPRE (colangipancreatografia retrógrada endoscópica) e papilotomia endoscópica. Indicações e controvérsias: Casos leves de pancreatite biliar aguda: não indicadas. Casos graves de pancreatite biliar aguda: redução da morbidade e mortalidade com CPRE papilotomia. a Indicação clássica: se não houver melhora clínica em 48h e houver suspeita de coledocolitíase. Outras situações indicadas para CPRE: evidência bioquímica de obstrução biliar (aumento de bilirrubina direta e FA ou evidência de coledocolitíase na imagem USG, TC. 3- Tratamento cirúrgico Indicações gerais: diagnóstico diferencial, tratamento da litíase biliar, prevenção da progressão da pancreatite, tratamento da necrose pancreática e peripancreática (necrosectomia) e tratamento de complicações (abscesso, pseudocisto, fístula). Laparotomia diagnóstica: indicada raramente, quando há dúvida diagnóstica mesmo após exames. Pancreatite aguda 25 a Pode excluir doenças, como: infarto mesentérico, colecistite gangrenosa, úlcera péptica perfurada. Tratamento da litíase biliar: controvérsia: precoce X tardio. a Conduta atual mais aceita: i Pancreatite leve: colecistectomiaprecoce (após melhora clínica, mesma internação), explorar via biliar se necessário. ii Pancreatite grave CPRE papilotomia se coledocolitíase. Colecistectomia apenas após resolução do processo inflamatório. b Argumentos para colecistectomia precoce em formas leves: não altera o curso da pancreatite, evita reinternação (menor custo) e reduz recidiva 50% sem colecistectomia, metade em 6 meses). Desbridamento do tecido pancreático e peripancreático (necrosectomia): indicada em necrose infectada (alta mortalidade se não tratada). a Diagnóstico TC com contraste, presença de gás no pâncreas (infecção), biópsia aspirativa guiada por TC (padrão-ouro). b Técnicas: drenagem aberta, fechada ou irrigação contínua. Pode necessitar de reoperações programadas, videolaparoscipia tem sido usada com sucesso. c Drenagem percutânea isolada: EVITAR, não remove tecido necrótico adequadamente → recidiva. Ressecção pancreática: indicada somente em casos de pancreatite necro- hemorrágica intensa. a Tipos: pancreatectomia total ou duodenopancreatectomia. b Alta mortalidade e mais complicações (sepse, respiratórias). c Hoje, a maioria prefere necrosectomia. Lavagem peritoneal a Objetivo: remover toxinas do exsudato peritoneal (amilase, lipase, fosfolipase A, etc.). b Técnica: cateter de diálise peritoneal → instilar 2L de solução SF ou Ringer), drenar após 30 min. Pode conter: potássio, heparina, ATB. Iniciar nas primeiras 48h e manter por 24 dias. Pancreatite aguda 26 c Desvantagens: lesões de vísceras, hipotermina, hipoproteinemia, intolerância à glicose. d Utilização restrita a pouco serviços. K) Prognóstico e preditores de gravidade Evolução geral: maioria dos pacientes se recupera em 1 semana com tratamento conservador. Mortalidade global: cerca de 10% Pancreatite edematosa 24% Pancreatite necrótica 3050%, ocorre em 510% dos casos. Importância da avaliação precoce da gravidade: diferenciar pancreatite leve (edematosa) de grave (necrosante) é essencial → auxilia na decisão de internacão em UTI e no tipo de suporte clínico. Fatores que agravam o prognóstico: idade avançada, comorbidades DM, doença CV, insuficiência renal, insuficiência respiratória), infecção da necrose pancreática/peripancreática e disfunção de múltiplos órgãos e sistemas DMOS. Fatores clínicos e laboratoriais de mau prognóstico: choque, íleo paralítico prolongado, febre persistente, leucocitose elevada por muitos dias, amilase elevada por muitos dias, colestase prolongada 7 dias), sinais de Cullen e Gray-Turner (tardios, indicam gravidade). Escores de Ranson e APACHE II Pancreatite aguda 27 Ranson: grave de 3 pontos. APACHE II: grave de 8 pontos 💡 Fatores de risco independentes: comorbidades + alcoolistas + idade 60 anoss + obesidade IMC 30. Síndrome compartimental abdominal Rara. PIA 20 mmHg + falência orgânica. Tratamento: descompressão com sondas, manejo volêmico, punção de ascite. Pancreatite aguda 28 Cirurgia: só em casos extremos PIA 25 mmHg). Pancreatite aguda 29