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Módulo 1 – O levantamento das provas objetivas no local de crime 
 
Apresentação do Módulo 
 
Para que o policial responsável possa fazer um bom relatório de local de crime, é fundamental 
que ele saiba quais são os tipos de provas levantadas e como elas podem colaborar para o 
conjunto de informações preliminares da investigação. Assim, o conhecimento do processo de 
levantamento das provas objetivas é necessário para que o investigador possa dialogar com o 
perito criminal sobre os achados na cena do crime, visando conjugar tais achados com as 
informações levantadas na etapa de investigação de provas subjetivas. Ademais, a urgência da 
investigação criminal faz com que o fluxo de informações entre os responsáveis pelo 
levantamento das provas objetivas e subjetivas também ocorra de maneira célere. Não se pode 
admitir um local de crime onde um perito não conversa com um investigador e vice-versa! 
Para o sucesso da investigação, é necessário que todos aqueles que trabalham na cena do 
crime integrem os seus trabalhos para que, a partir dessa união, novas diretrizes e ações 
possam ser tomadas. Por exemplo, uma informação repassada pela perícia no local do crime 
pode, imediatamente, determinar novas diligências dos investigadores. De outro giro, uma 
informação subjetiva colhida pelos investigadores pode ensejar novas análises no campo 
pericial. Observe que não se trata de invasão de competências, uma vez que quem repassa a 
informação é sempre o responsável pelo seu levantamento. Assim, atinge-se, no próprio local 
do crime, um conjunto probatório muito maior do que se o trabalho tivesse sido desenvolvido 
separadamente. 
Neste módulo você irá estudar como se dá o trabalho do perito criminal no local de crime e 
como as informações colhidas por esse profissional podem colaborar com as investigações 
preliminares e, consequentemente, ajudá-lo a fazer um bom relatório de local de crime. 
Obviamente o objetivo não é fazer com que o relatório se torne uma cópia do laudo pericial; 
entretanto, para que as informações repassadas pela perícia sejam bem aproveitadas, é 
fundamental que você tenha uma noção básica dos conceitos e elementos do exame de local. 
Boa leitura! 
 
 
 
Objetivos do Módulo 
 
Ao final do estudo deste módulo, você será capaz de: 
 Compreender os conceitos e a importância do isolamento do local de crime para a 
preservação dos vestígios; 
 Relacionar os principais tipos de vestígios analisados pelos peritos criminais nos locais 
de crime; 
 Identificar os elementos objetivos relacionados ao cadáver; 
 Compreender como o perito criminal utiliza o conjunto de provas objetivas para 
determinar a dinâmica do fato criminoso; 
 Conjugar as informações repassadas pelo perito criminal para aplicá-las à investigação 
policial; 
 Analisar um caso real sobre a dinâmica do crime com base nas provas objetivas. 
 
Estrutura do Módulo 
 
O conteúdo deste módulo está dividido nos seguintes módulos: 
Aula 1 – Provas 
Aula 2 – Isolamento e preservação de local de crime 
Aula 3 – Vestígios em local de crime 
Aula 4 – Elementos do cadáver 
Aula 5 – Dinâmica do crime baseada nas provas objetivas 
 
 
 
Aula 1 – Provas 
 
1.1. Provas objetivas 
O inquérito policial é o procedimento administrativo que registra a parte escrita da 
investigação criminal, a qual consiste no conjunto de diligências e providências realizadas 
com o objetivo de apurar a autoria e materialidade do fato típico, demonstrando-as através de 
provas. Nesse contexto, dois são os tipos de provas às quais a autoridade policial irá recorrer 
para a realização do seu trabalho, a saber: a prova subjetiva e a prova objetiva. A 
determinação, coleta e análise de cada prova é feita por especialistas específicos, conforme 
demonstrado no diagrama abaixo: 
 
Figura 1 – Conjugação de provas no inquérito policial. 
 
1.2. Prova objetiva 
A prova objetiva é todo e qualquer elemento físico coletado na cena do crime, no corpo da 
vítima e/ou do agressor e no local relacionado ao crime, que seja possível de ser demonstrado, 
coletado e/ou analisado. É constituída por todos os objetos vivos ou inanimados, sólidos, 
líquidos ou gasosos relacionados com o fato. 
Nesse contexto, a prova objetiva é uma criteriosa testemunha da ação criminosa, e expõe a 
realidade do fato com rigor científico fundamentado e estável, já que revela a alteração no 
mundo material como resultado da conduta humana que a produziu. Cabe ao perito criminal o 
levantamento da prova objetiva, ou seja, a detecção e perpetuação dela, sendo que qualquer 
falha decorrente desse processo invalida e destrói a prova objetiva. 
 
 
O artigo 6° e seus incisos no Código de Processo Penal (Brasil, Código de Processo Penal 
Brasileiro, 1941) permitem ao policial investigador, sob a coordenação da autoridade policial, 
uma liberdade na procura da verdade real, principalmente se observarmos o inciso III, onde se 
diz que “todas as provas que servirem para o esclarecimento do fato e suas circunstâncias...”. 
Para que tal busca seja possível no local de crime, faz-se necessária a manutenção das 
condições desse lugar para que as provas sejam coletadas e perpetuadas. Nesse contexto, o 
isolamento e preservação da cena do crime se tornam imprescindíveis. 
 
Saiba mais 
 
O Código de Processo Penal
1
 possui um título específico que trata da prova, o qual se inicia 
no artigo 155 e estende-se até o artigo 250. 
 
Aula 2 – Isolamento e preservação de local de crime 
 
A investigação policial começa, na grande maioria das vezes, no local de crime. Sob essa 
ótica, a busca de provas objetivas e subjetivas depende da qualidade do trabalho logo após a 
chegada ao local. Ao chegar à cena do crime, o perito inicia a sua análise antes mesmo de 
adentrar no local, examinando a qualidade e o método de isolamento para verificar se está 
adequado. Um bom isolamento de local terá como consequência a correta preservação da 
prova objetiva. 
Pensando na importância da preservação da prova, o legislador dedicou a ela o artigo 169 do 
Código de Processo Penal Brasileiro (Brasil, Código de Processo Penal Brasileiro, 1941), que 
dá o respaldo necessário para o isolamento e preservação da cena do crime: 
Art. 169. Para o efeito de exame do local onde houver sido praticada a infração, a 
autoridade providenciará imediatamente para que não se altere o estado das coisas 
até a chegada dos peritos, que poderão instruir seus laudos com fotografias, 
desenhos ou esquemas elucidativos. 
Parágrafo único – Os peritos registrarão, no laudo, as alterações do estado das coisas 
e discutirão, no relatório, as consequências dessas alterações na dinâmica dos fatos. 
 
1 Veja no link: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del3689.htm 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del3689.htm
 
 
É necessário entender que o isolamento e a preservação da cena do crime não são um 
processo único. Há uma sutil diferença entre isolamento e preservação. 
Isolamento é o ato de impedir o acesso de QUALQUER pessoa à cena do crime, a não ser 
daquela responsável pela coleta e análise dos vestígios. É importante ressaltar que o único 
profissional que PRECISA adentrar no local do crime é o perito criminal, pois é o único que 
sabe interpretar os tênues vestígios deixados na cena do crime. Como exemplo, pode-se citar 
o formato de uma mancha de sangue como um vestígio complexo, que demanda 
conhecimentos específicos, trazendo diversas informações sobre a dinâmica do fato, 
entretanto sendo extremamente efêmero e de fácil destruição. 
Nesse contexto, a preservação é consequência do isolamento. O objetivo da preservação do 
local é manter os vestígios intactos até o momento em que eles serão coletados e perpetuados 
pelos peritos criminais, evitando alterações dessas marcas. Tais alterações poderiam interferir 
e/ou destruir vestígios tais comode fato ocorreu, não bastando a verdade formal. 
Ocorre que, em se tratando de investigação criminal, especialmente no que diz respeito ao 
levantamento de provas subjetivas, a tal verdade real é absolutamente inalcançável porque 
todos os fatos presenciados pelas testemunhas serão filtrados pela subjetividade de cada uma, 
formatados pelo individualismo, pelo conjunto de valores e pela personalidade de cada 
pessoa. Umas são mais observadoras e conseguem enxergar detalhes imperceptíveis aos olhos 
alheios. Outras possuem comportamento mais desleixado e não costumam dar atenção aos 
detalhes. Outras ainda são mais afoitas e tendem a aumentar a proporção de tudo quanto 
observam. 
As pessoas também são diferentes na forma de descrever o que viram. Se você reunir cinco 
pessoas e pedir a cada uma delas que descreva, separadamente, o mesmo objeto, perceberá 
que os detalhes e as informações descritas por cada um são diferentes, sem significar que 
alguma deles esteja mentindo. 
Ao contrário do que pretende o processo penal, a investigação criminal se apoia no princípio 
da verossimilhança. Segundo o dicionário, verossimilhança significa probabilidade de que 
algo tenha ocorrido de maneira bem próxima à determinada versão, construída a partir de um 
conjunto de elementos que forneçam a ela consistência e fundamento. Não se trata de 
descrever exatamente o que aconteceu, mas o mais próximo do que ocorreu. 
O conhecimento do princípio da verossimilhança é imprescindível no levantamento das 
provas subjetivas para permitir ao investigador que filtre as informações fornecidas pelas 
testemunhas conforme as condições únicas de cada uma, permitindo-lhe reformular o todo a 
partir das partes, conciliando-as dentro de uma argumentação lógica que se desenhe nos 
moldes de um verdadeiro quebra-cabeça. 
 
Saiba mais... 
Na Rede EAD você encontrará vários cursos sobre investigação. Entre eles os de Investigação 
I e II. Caso deseje aprofundar seus conhecimentos, procure se inscrever. 
 
 
 
Finalizando... 
Neste módulo você estudou que: 
 A investigação criminal pode ser definida como o amplo e complexo trabalho de 
reconstrução simbólica do fato delituoso em busca de sua materialidade e autoria, 
conforme as regras do processo penal brasileiro; 
 A prática de qualquer crime se estabelece em um local determinado, e esse local é o 
nascedouro da investigação criminal, lugar ao qual você irá se dirigir tão logo tome 
conhecimento do fato; 
 De maneira bem objetiva e clara para a investigação criminal, você pode entender o 
local de crime como o espaço físico onde se deu a prática de fato definível, em tese, 
como infração penal, compreendendo tanto o lugar em que ocorreu a conduta, no todo 
ou em parte, bem como onde se produziu ou deveria produzir-se o resultado; 
 No local de crime, conforme já visto, dois são os objetivos essenciais da equipe de 
investigadores: o levantamento das provas objetivas e o levantamento das provas 
subjetivas; 
 A interação com as pessoas no local, testemunhas em sentido amplo, pode ocorrer 
basicamente de duas maneiras distintas e igualmente importantes: oficialmente e 
anonimamente; 
 O diálogo, então, entre investigador e testemunha deverá ocorrer através da entrevista, 
não havendo espaço para interrogatório pelo investigador no local de crime; 
 Assim como as provas objetivas levantadas através dos vestígios pode revelar uma 
dinâmica para o perito, as provas subjetivas levantadas a partir das versões das 
testemunhas podem também revelar uma dinâmica, seja igual ou diferente daquela 
determinada anteriormente. 
 
 
Módulo 3 – A elaboração do relatório de local de crime como conjugação das provas 
objetivas e subjetivas 
 
Apresentação do Módulo 
 
Você já aprendeu que a investigação criminal é a reconstrução do fato delituoso com o 
objetivo de se estabelecer fundamentada e comprovadamente a autoria e a materialidade da 
infração penal. Enquanto o levantamento de provas objetivas no local de crime – estudado no 
módulo 1 – significa preponderantemente o caminho em busca da materialidade, e o 
levantamento de provas subjetivas no local de crime – estudado no módulo 2 – corresponde 
preponderantemente às informações sobre autoria, a fusão de ambos os saberes é indissociável 
porque são as duas faces de um mesmo e único fato; portanto, o investigador precisa uni-las 
de imediato no próprio local de crime, e o relatório de local de crime é a melhor forma de 
fazê-lo. 
Neste módulo você irá conhecer o relatório de local de crime como documento final de 
conjugação dos conhecimentos investigativos de maneira compartimentada e sistêmica que 
lhe permitirá uma visão global da dinâmica do delito através do conjunto único de peças 
objetivas e subjetivas. Você não só irá aprender a elaborar o relatório de local de crime como 
irá compreender sua imprescindibilidade para a investigação criminal. 
Boa leitura! 
 
Objetivos do Módulo 
 
Ao final do estudo deste módulo, você será capaz de: 
• Compreender quais os elementos de um relatório de local de crime; 
• Construir um modelo de relatório de local de crime; 
• Elaborar o relatório de local de crime. 
 
 
 
 
 
Estrutura do Módulo 
 
O conteúdo deste módulo foi dividido nas seguintes aulas: 
Aula 1 – O relatório de local de crime 
Aula 2 – Modelo de relatório de local de crime 
 
Aula 1 – O relatório de local de crime 
 
Relatório de local crime é o documento que registra graficamente o conjunto de informações 
objetivas e subjetivas do local do crime, sob o ponto de vista da equipe de investigadores sob 
a coordenação do delegado de polícia. 
Sua elaboração ocorre no próprio local do crime, através de formulário próprio que poderá ser 
preenchido manualmente ou até mesmo de forma eletrônica, conforme a tecnologia 
disponível. Vale lembrar que as informações objetivas serão transmitidas ao investigador 
criminal pelo perito criminal e serão registradas tal como fornecidas. O relatório de local de 
crime é um verdadeiro dossiê que eterniza as informações do local de forma imediata, antes 
mesmo da confecção dos laudos periciais, embora não se confunda com estes e nem os 
substitua, porque é destinado à conjugação das provas objetivas e subjetivas que irão desenhar 
o percurso a ser seguido pela investigação criminal. Não raras vezes, entretanto, o relatório 
permitirá a própria elucidação do delito, conforme a riqueza dos elementos à disposição do 
investigador criminal. 
A juntada de relatório de local de crime aos autos depende da conveniência e oportunidade, já 
que não substitui os termos de depoimento, interrogatórios e, evidentemente, os laudos 
periciais, conforme exaustivamente observado. 
O relatório de local de crime é dividido conforme seus elementos e deve possuir ampla 
possibilidade de alternativas características para preenchimento conforme o seu objeto 
específico, já que o objeto amplo e principal é o local do crime como um todo. 
Conheça agora, especificamente, algumas pequenas considerações sobre cada um dos 
elementos e, consequentemente, partes do relatório, chamado no estado de São Paulo de 
Recognição Visuográfica de Local de Crime. O documento não está previsto na legislação 
 
 
penal, portanto, não possui forma ou rigores predefinidos, permitindo ao investigador a 
elaboração de seu próprio modelo. 
 
1.1 .Os elementos do relatório de local de crime 
1.1.1. Do local objeto do relatório de local de crime 
Como você já viu, a investigação criminal é dividida didaticamente em dois momentos 
distintos, a investigação de local e a investigação de seguimento. O objeto do relatório de 
local de crime é o próprio local onde ocorreu o crime, tanto o local imediato quanto o local 
mediato. 
Nas palavras de Desgualdo (2006): 
O observador deve possuir relativo vocabulário e percepção subjetiva de valores. No 
local interno devem ser descritas mais enfaticamente as condições dehigiene, 
ordem, colocação de objetos e móveis que possam traduzir a índole do morador. 
Devem ser relacionados cinzeiros, marcas de cigarro, fósforos, isqueiros, bem como 
o uso de óculos, dentadura ou qualquer indício que possa levar aos hábitos do 
usuário, aos seus defeitos ou fraquezas. 
O mesmo autor, em relação ao local externo, expõe que: 
O local externo é igualmente marcante. Nele serão encontrados acidentes geográficos 
como rios, represas, córregos, lagos ou lagoas, ou ainda ruas pavimentadas com 
macadame ou asfalto. Deve ser mencionada a existência de guias ou sarjetas. O tipo 
de construção: prédios, casas térreas, com jardim ou alinhadas no nível da rua, bem 
assim a existência ou não de outros pavimentos. Convém verificar, caso o local esteja 
em área construída, se há bares, bilhares, casas de massagens, hotéis ou qualquer 
estabelecimento público, cujo ângulo de visão permitiria ou permite a visualização do 
local do crime. O local externo tem vários ângulos de observação. Estando a vítima 
encostada na parede a 180° de percepção, no centro da via a 360°, linhas podem ser 
traçadas nessas direções para a verificação de eventuais testemunhas. 
 
1.1.2. Do croqui 
O croqui é um desenho simples e objetivo, sem correspondência exata com as medidas reais, 
mas de forma a permitir uma espécie de visualização aérea muito útil para a análise do local, 
das possibilidades, localização de testemunhas, da vítima e do próprio suspeito, além de se 
permitir o estabelecimento de acessos e pontos de chegada e partida. 
 
 
1.1.3. Da fotografação 
O registro fotográfico é imprescindível para permitir o “retorno” permanente ao local do 
crime, mesmo estando o investigador a quilômetros de distância. Deve-se iniciar de uma 
maneira global, permitindo-se a mais ampla visualização de todo o local para, em seguida, 
efetuar registros de forma compartimentada em relação a tudo aquilo de interesse 
investigativo. 
Não se trata, evidentemente, de concorrer com as tomadas fotográficas que são realizadas pelo 
perito criminal, mas de registrar a cena do crime para permanente consulta e, mais ainda, de 
capturar a imagem de pessoas que podem ter alguma relação com o delito e do próprio 
suspeito, cujo retorno ao local do crime pode não ser tão raro quanto se pensa. 
 
1.1.2 Da arma utilizada 
O registro da arma utilizada, sua espécie, medidas, marca e modelo, suposta localização no 
local do crime e possível existência de digitais a serem coletadas é de incalculável 
importância no relatório de local de crime. A posição da arma em relação ao cadáver, nos 
casos de homicídio, por exemplo, também presta imenso auxílio ao estabelecimento da 
dinâmica do delito. 
 
1.1.3 Do cadáver 
A posição do cadáver, as lesões apresentadas e todos os vestígios presentes deverão ser 
registrados no relatório de local de crime, evidentemente através das informações fornecidas 
pelos peritos criminais, permitindo-se uma avaliação preliminar para a investigação criminal 
até que a necropsia seja realizada. 
 
1.1.4 Dos vestígios 
O trabalho pericial irá fornecer diversos elementos objetivos para a investigação, através dos 
vestígios constatados. É imprescindível que haja no local a integração dos trabalhos dos 
peritos com os investigadores criminais para que estes saibam quais foram os elementos que 
formaram a convicção daqueles sobre a dinâmica do fato. Nessa ótica, o relatório de local de 
crime contemplará os principais vestígios levantados no trabalho pericial de maneira a tornar 
 
 
possível a compreensão da sequência de eventos que culminaram com o fato delituoso. O 
registro desses vestígios no relatório de local de crime será feito com base nas informações 
repassadas pelo perito ao investigador responsável pela sua elaboração. 
 
1.1.5 Das testemunhas 
A qualificação das testemunhas, sua relação com a vítima, com o suspeito ou com o local do 
crime, sua personalidade, perfil e ocupação, ou seja, todas as informações inerentes à 
identificação da vítima e sua contextualização no local do crime servirão para a análise das 
informações que ela fornecerá, igualmente registradas no relatório de local do crime de 
maneira informal e sem o rigor de um interrogatório, apontando-se tão somente uma síntese 
de tudo o que foi dito. 
 
Aula 2 – Modelo de relatório de local de crime 
 
Você teve acesso a todas as informações relativas ao levantamento de provas objetivas e 
subjetivas no local de crime, aprendendo os conceitos e as técnicas relativas às duas vertentes 
de atuação da investigação criminal. Estudou os elementos de um relatório de local de crime e 
agora terá acesso a alguns modelos desse imprescindível documento. Não há um formato 
único ou exclusivamente correto para o relatório de local de crime; ele pode ser aperfeiçoado 
e adaptado a cada situação específica. O importante é que permita de maneira imediata a 
conjugação das provas objetivas e subjetivas em tempo praticamente real, potencializando a 
investigação criminal e facilitando a permanente pesquisa e o futuro “retorno” à cena do 
crime. 
Veja alguns exemplos: 
• Modelo de Relatório de Local de Crime – Homicídio 
• Modelo de Relatório de Local de Crime de Furto/Roubo 
• Modelo de Relatório de Local de Acidente de Trânsito 1 
 
 
 
1 Veja todos os modelos acima em arquivos pdf anexados no curso. 
 
 
 
Finalizando... 
Neste módulo você estudou que: 
• Relatório de local crime é o documento que registra graficamente o conjunto de 
informações objetivas e subjetivas do local do crime, sob o ponto de vista da equipe de 
investigadores sob a coordenação do delegado de polícia; 
• O relatório de local de crime é dividido conforme seus elementos e deve possuir ampla 
possibilidade de alternativas características para preenchimento conforme o seu objeto 
específico, já que o objeto amplo e principal é o local do crime como um todo; 
• O objeto do relatório de local de crime é o próprio local onde ocorreu o crime, tanto o 
local imediato quanto o local mediato; 
• Não há um formato único ou exclusivamente correto para o relatório de local de crime; 
ele pode ser aperfeiçoado e adaptado a cada situação específica.impressões papilares, posições de estojos ou projéteis, 
localização de objetos, assim como as já citadas manchas de sangue, peças de um quebra-
cabeça que não pode ser montado se forem destruídas. Segundo as palavras de Tocchetto & 
Espíndula (2005), “o isolamento da cena do crime deve ser realizado de forma efetiva para 
que o menor número de pessoas tenha acesso ao local, evitando-se que evidências sejam 
modificadas de suas posições e até destruídas antes mesmo de seu reconhecimento”. Outros 
autores, tais como Kehdy (1959) e Dorea, Stumvoll & Quintela (2010) também fazem 
referência à importância da preservação do local de crime para o sucesso da investigação 
policial. 
 
2.1. Isolamento de local de crime – definição 
O isolamento do local de crime é o ato de impedir a entrada de pessoas não autorizadas na 
área onde serão realizados os exames. Esse isolamento deve garantir a preservação dos 
vestígios da ação delituosa. A rigor, um exemplo de local bem isolado pode ser visto na 
Figura 2. 
 
 
 
Figura 2 – Isolamento adequado de local de crime. 
 
Infelizmente, por diversos motivos e conforme apontado na pesquisa apresentada por Silvino 
Jr (2010), o isolamento dos locais de crime no Brasil é, na grande maioria das vezes, 
inadequado. Não é raro encontrar locais como mostrado na Figura 3, a seguir. 
 
Figura 3 – Isolamento inadequado de local de crime. 
 
Ainda segundo a pesquisa, o isolamento deficiente se deve, em grande parte, ao despreparo 
dos policiais e da sociedade em relação à importância da preservação do local de crime. 
 
2.1.1. Por que isolar de local de crime? 
Além da necessidade óbvia da preservação dos vestígios, o isolamento cumpre outras funções 
necessárias ao trabalho pericial, quais sejam: 
 
 
 Garantir a segurança física do perito; 
 Controlar o acesso às informações obtidas no trabalho pericial; 
 Preservar a integridade da imagem da(s) vítima(s); 
 Permitir o bom andamento dos trabalhos periciais. 
Estude, a seguir, cada uma delas. 
1. Garantir a segurança física do perito 
Muitas vezes o perito pode correr risco de vida ao realizar o trabalho pericial em um local mal 
isolado. Citam-se como exemplo levantamentos de locais de acidentes de trânsito em rodovias 
movimentadas, mormente em condições de baixa visibilidade produzidas por chuva, neblina 
e/ou baixa luminosidade, por se tratar de horário noturno. 
Outra situação é aquela em que o local se situa em área de alta criminalidade, tais como 
favelas dominadas pelas quadrilhas de tráfico de drogas. A indispensabilidade do exame de 
corpo de delito justifica que um aparato de segurança seja estabelecido pelas forças policiais 
de maneira a permitir que o perito possa desempenhar o seu trabalho. 
Observa-se, ainda, a importância do isolamento em locais próximos a encostas ou grandes 
leitos de água, uma vez que a queda nessas condições pode ser fatal. 
2. Controlar o acesso às informações obtidas no trabalho pericial 
Em um primeiro momento, somente os policiais relacionados à investigação policial devem 
ter acesso às informações obtidas nos levantamentos periciais. Somente a autoridade policial 
titular da investigação pode determinar quais informações devem ser transmitidas aos 
familiares da vítima ou à mídia. Novamente demonstra-se a necessidade do isolamento, dessa 
vez para permitir que as informações obtidas não sejam captadas por pessoas indevidas nas 
proximidades do local. 
3. Preservar a integridade da imagem da(s) vítima(s) 
Durante os levantamentos periciais, principalmente em locais de crimes contra a vida, faz-se 
necessário despir o cadáver na busca de vestígios relacionados à ação delituosa. Quando a 
vítima está na via pública ou em locais de fácil acesso, o isolamento inadequado expõe a 
integridade da imagem da vítima, pois tanto os curiosos quanto a mídia terão total visibilidade 
do cadáver nu. Para evitar esse problema, deve-se recorrer ao isolamento adequado, 
impedindo a fácil visualização do corpo. 
 
 
4. Permitir o bom andamento dos trabalhos periciais 
Para realizar um bom trabalho, o perito deve ter tranquilidade para raciocinar e fazer as 
coletas e fotografias necessárias ao laudo pericial. Em um local tumultuado, com grande 
aglomeração de pessoas, ação de repórteres, invasão da área de isolamento ou existência de 
risco ao perito, a tranquilidade necessária simplesmente não existe. 
Uma vez que o local se encontra bem isolado, ações externas que possam importunar o perito 
são coibidas antes que possam alcançar a área destinada aos exames, facilitando o trabalho. 
 
2.2. Quem deve isolar o local de crime? 
O Código de Processo Penal (Brasil, Código de Processo Penal Brasileiro, 1941) determina, 
no artigo 6º, inciso I, que: 
Art. 6º. Logo que tiver conhecimento da prática da infração penal, a autoridade 
policial deverá: 
I – dirigir-se ao local, providenciando para que não se alterem o estado e 
conservação das coisas, até a chegada dos peritos criminais; (Redação dada pela Lei 
nº 8.862, de 28.3.1994). 
Analisando rapidamente o texto da lei, percebe-se que a função de isolamento do local de 
crime seria de responsabilidade da autoridade policial, tão logo ela tiver conhecimento da 
infração. Entretanto, percebe-se que, na maioria dos casos, em todos os estados brasileiros, o 
primeiro agente público a chegar a um local de crime é o policial militar. Geralmente são 
esses profissionais os responsáveis pelas primeiras providências de isolamento. Admitindo-se 
que tais militares são agentes da autoridade policial, ao isolar o local estão representando essa 
autoridade que ainda não foi cientificada da ocorrência do ilícito. 
De maneira semelhante, outras instituições do segmento de segurança pública, tais como a 
Polícia Civil, Polícia Rodoviária Federal e, por analogia, as Guardas Municipais, também 
devem atuar para garantir a correta preservação dos vestígios, alcançada pelo eficiente 
isolamento do local de crime. 
Continuando na análise, o artigo 144, §5º, da Constituição Federal (Brasil, Constituição da 
República Federativa do Brasil, 1988) determina que: 
Art. 144. (...) 
§ 5º - às polícias militares cabem a polícia ostensiva e a preservação da ordem 
pública; [...] (grifo nosso). 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/1989_1994/L8862.htm#art6
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/1989_1994/L8862.htm#art6
 
 
Analisando a atribuição constitucional das polícias militares, percebe-se que a atuação de tais 
forças é primordial em locais de crime, principalmente naqueles com maior concentração de 
pessoas, uma vez que é imperioso zelar pela ordem pública, garantindo-se o bom andamento 
do trabalho pericial, dos trabalhos de investigação e, consequentemente, da persecução da 
justiça e da verdade. 
Assim, demonstra-se, por duas vias distintas, que as polícias militares são também 
responsáveis pelo isolamento e preservação do local de crime. 
Para que você possa entender como é o trabalho do perito no local do crime, serão 
apresentados os elementos estudados por esses profissionais. Esse conhecimento é importante 
para que você compreenda os fatores que levaram os peritos às conclusões emanadas. 
 
Aula 3 – Vestígios em local de crime 
 
Todo elemento coletado no local de crime, mesmo que não haja a certeza da sua relação com 
o fato, é um VESTÍGIO. Se o vestígio comprovadamente tem correlação com o fato ocorrido 
e fornece elementos para determinação da dinâmica do fato, é então chamado de INDÍCIO. 
Este pode demonstrar movimentações e paradas, posições e alterações ocorridas durante e 
depois da ocorrência do crime. Toda informação relevante para a investigação policial, seja 
ela objetiva ou subjetiva, é uma EVIDÊNCIA. Para que você possa compreender a 
conjugação dos vestígios determinada pelo perito criminal, é fundamental possuir 
conhecimentos básicos de quais são os elementos analisados, apresentados a seguir. 
 
3.1. Tipos devestígios 
Dentre os tipos de vestígios, é possível destacar: 
1. manchas de origem fisiológica; 
2. manchas de origem não fisiológica; 
3. armas, munições e demais elementos balísticos; 
4. outros vestígios em local de crime. 
Estude, detalhadamente, cada um deles. 
 
 
 
3.1.1. Manchas de origem fisiológica 
São constituídas de substâncias emanadas do corpo humano. Entre as principais, têm-se as 
manchas de sangue, esperma, urina, fezes e vômito, com destaque para as duas primeiras, uma 
vez que ambas podem oferecer valiosos elementos para a elucidação de um fato delituoso. A 
seguir serão apresentadas cada uma dessas substâncias. 
 Manchas de sangue 
As manchas sanguíneas se apresentam com muita frequência nos locais de crime contra a 
vida. O estudo delas é de suma importância e visa, sobretudo, determinar a princípio se 
realmente se trata de sangue humano, qual é o grupo sanguíneo, fator RH e efetuar 
comparações do perfil genético (DNA) – exames efetuados no laboratório criminal, 
obviamente depois de adequada coleta procedida pelo perito, quando do levantamento do 
local. 
Cabe, entretanto, no próprio local, exame de aspecto morfológico da mancha, isto é, da forma 
como ela se apresenta aderida a uma determinada superfície, a qual pode fornecer detalhes 
importantes para se estabelecer a possível dinâmica do evento. 
Sob esse aspecto, as manchas de sangue podem se apresentar dos seguintes modos: 
 
Gotejamento: O sangue cai impulsionado somente pela força da 
gravidade, e os salpicos se irradiam quase regularmente pela queda 
perpendicular das gotas, cujo aspecto varia em razão da distância 
entre o foco que a desprende e a superfície em que vai se depositar. 
Projeção ou espargimento: O sangue cai impulsionado pela força da 
gravidade conjugada com uma segunda força que gera uma impulsão. 
Os salpicos se apresentam sob forma alongada e não se dispõem 
regularmente. Sob esse aspecto, a presença dessas formas pode nos 
indicar: 
 Manchas produzidas por sangue caindo quando a região 
ferida está em movimento (mão, braço, antebraço). Apresentam-se ligeiramente 
alongadas e esse alongamento é tanto mais pronunciado quanto mais rápido for o 
movimento; 
 
 
 Manchas produzidas pela ação de um objeto, como a ação de um machado. O 
sangue que se adere à lâmina é projetado em alguma superfície em decorrência dos 
golpes aplicados; 
 Manchas produzidas por impacto de projéteis – tanto na entrada quanto na saída 
deles –, apresentando aspecto salpicado, com grande dispersão. 
 Manchas produzidas pelo ferimento numa artéria, sofrendo impulso pela própria 
pressão sanguínea. Apresentam-se muito alongadas, não se dispondo regularmente 
e geralmente indicam o ponto inicial da agressão sofrida pela vítima. 
Contato: As manchas, que se apresentam sob a forma de sangue 
amassado, são produzidas pelo contato de uma parte do corpo 
impregnada de sangue contra uma superfície qualquer. 
 
Empoçamento: Decorre da perda abundante de sangue, geralmente 
em consequência de ferimento ou de sangue surgido da boca, 
narinas ou ouvidos. Acontece quando a vítima já está inerte, quase 
sempre caída. É mais comum o encontro da poça junto ou próximo 
ao cadáver. 
 
Escorrimento: São manchas alongadas decorrentes da ação da 
gravidade conjugada com um plano inclinado, por exemplo uma 
parede ou piso. 
 
Impregnação: Essas manchas são encontradas em meios 
permeáveis, tais como nas vestes da vítima, do indiciado ou em 
qualquer tecido existente no local (lençol, toalha). E ainda em 
pisos de terra, areia, etc. 
 
Limpeza: São produzidas em decorrência 
da tentativa de remoção de uma mancha 
de sangue previamente formada. Geralmente é possível perceber o 
 
 
contorno da mancha original, formada pela coagulação do sangue nas bordas daquela mancha. 
 
 Manchas de esperma 
São geralmente encontradas em locais de crime de natureza sexual, 
sendo pesquisadas com maior incidência nas roupas de cama, nas 
vestes da vítima ou do suspeito, no ambiente vaginal, no reto, em 
preservativos abandonados ou em outros pontos ou objetos, de 
acordo com a tipicidade da área. 
 Manchas de fezes 
São encontradas geralmente nos locais onde ocorre morte por asfixia 
ou em casos em que a vítima já entrou na fase gasosa da putrefação. 
Também podem ser encontradas em locais de envenenamento. Não 
oferecem muitos elementos pesquisáveis. 
 Manchas de urina 
A exemplo das manchas de fezes, são comumente verificadas nos locais de morte por asfixia 
e em outros tipos de morte violenta. 
 Manchas de vômito 
São muito comuns e oferecem especial interesse nos casos de 
envenenamento porque podem indicar a natureza do veneno 
ingerido. 
 
 Manchas de saliva 
Podem oferecer algum interesse quando estiverem embebendo tampões que tenham sido 
utilizados para sufocar a vítima. Também podem ser encontradas nos locais de morte por 
asfixia. 
 
3.1.2. Manchas de origem não fisiológica 
Podemos ainda encontrar nos locais manchas de substâncias não emanadas do corpo humano, 
as quais, se estiverem relacionadas com o fato, deverão ser descritas e recolhidas 
 
 
posteriormente para os devidos exames de identificação das mesmas. Algumas delas são as 
seguintes: 
Tinta ou pintura: Incluem manchas de tintas de diversas espécies 
(para paredes, para escrever, etc.). São comuns em acidentes de 
trânsito e podem indicar a região de choque, cor de um veículo 
envolvido que possa ter empreendido fuga, sentido do atrito decorrente da colisão, etc. 
Ferrugem: Podem, em alguns casos, apresentar semelhança com 
manchas de sangue, podendo também, se encontradas nas vestes do 
agente ou vítima, indicar que a arma ou instrumento se achavam 
oxidados, além de outras informações, a depender de cada caso. 
Lama: Oferecem interesse porque podem indicar lugares por onde 
um indivíduo tenha passado. Podem ser encontradas nos pés descalços, calçados, nas roupas e 
no local do crime, sendo procedentes de terrenos, estradas, ruas sem calçamento, etc. 
Pólvora: Podem ser encontradas no corpo da vítima (imediações do ferimento), nas vestes, nas 
mãos do autor ou da vítima, em objetos, paredes, janelas, etc. 
Pegadas: São produzidas por pés calçados ou descalços. A pegada 
pode ser dinâmica (ocasionada pelos pés em movimento) ou estática 
(causada pelos pés em repouso), sendo também possível encontrá-
las isoladas ou em conjunto. O aproveitamento delas pode ser feito 
através da fotografia ou da modelagem. 
Impressões de veículos: Frequentemente encontradas em crimes de 
trânsito. Muitas vezes o criminoso emprega um veículo para fuga ou 
transporte da vítima. 
 
 
3.1.3. Armas, munições e demais elementos balísticos 
Atualmente as armas de fogo são o meio mais empregado na prática de homicídio. Tal 
característica implica uma grande ocorrência de vestígios provenientes do uso delas. Os 
vestígios mais comuns relacionados à utilização delituosa de armas de fogo são: 
 
 
 
Estojos: Comumente encontrados em locais de crime cuja arma 
utilizada apresentava sistema de funcionamento semiautomático ou 
automático de repetição. Também podem ser encontrados em locais 
nos quais a arma, apesar de ser de funcionamento manual, ejeta os 
estojos, ou ainda no caso de municiamento de revólveres e armas similares. 
Projéteis: Podem ser encontrados sobre o piso do local, incrustados 
em objetos ou mesmo no corpo da vítima. Quando localizados sob o 
cadáver, podem indicar que a vítima foi alvejada quando já estava 
estendida sobre o piso. 
Buchas/separadores: São encontrados em locais onde foi utilizada arma de calibre nominal 
(espingarda). Quando encontrada no corpo da vítima, pode indicar tiro efetuado à pequena 
distância. 
Mossas: São as marcas produzidas pelo impacto de projéteis contra 
superfícies rígidas. Podem indicar a direção e sentido da trajetória 
do projétil, bem como informar se houve algum impacto anterior. 
 
Perfurações:São decorrentes da passagem completa de projéteis em 
objetos e podem ser extremamente importantes na determinação de 
uma trajetória. 
 
 
3.1.4. Outros vestígios em local de crime 
Além dos vestígios supracitados, podem ser encontrados diversos outros elementos no local 
de crime que auxiliam na sua interpretação. O perito deve então anotar: 
 Sua posição em relação ao local; 
 Suas características e seus elementos de identificação; 
 Suas medidas, dimensões e, em alguns casos, peso; 
 A descrição das manchas que possam conter pelos e cabelos, peças de indumentária, 
cinzas, poeiras, areias e terras, fibras, manuscritos, venenos e outros (demais objetos), 
como você estudará a seguir. 
 
 
Pelos e cabelos: Em muitos casos encontram-se pelos e cabelos nos locais de crimes. Quando 
ocorre luta entre a vítima e o agente, é possível existir cabelos nas mãos da vítima e até 
mesmo nas vestes. Outrossim, é provável o encontro de cabelos da vítima nas roupas do autor. 
Conforme o tipo da arma ou instrumento utilizado, pode-se também constatar neles a presença 
de cabelos . 
Peças de indumentária: Observa-se em muitos locais a presença de peças de indumentária que 
podem auxiliar na elucidação do fato, pelos vestígios que apresentam. 
Cinzas: São resíduos da combustão de certos materiais (tais como papel, madeira, etc), mais 
comuns de serem encontradas nos locais de incêndio. A finalidade do exame é determinar a 
natureza do material queimado. Embora com raridade, também é possível encontrar cinzas 
nos locais de crimes contra a vida, em que os cadáveres são carbonizados. Nesse caso, elas 
são provenientes de roupas usadas pelas vítimas ou mesmo de cobertores ou similares 
utilizados para transportar o corpo. 
Poeira: A poeira pode ser encontrada sobre os objetos e nas roupas das vítimas ou do autor. 
Pode oferecer algum resultado prático quando o crime tiver sido cometido em local interno e 
o criminoso tiver acesso por escalada, sendo então possível constatar vestígios de poeira no 
próprio local além, obviamente, das evidências da escalada. 
Areia e terra: Em certos locais podem ser encontradas pequenas quantidades de areia ou terra, 
cujas origens são diferentes das ali existentes ou nem mesmo podem ser comparadas, como no 
caso dos locais internos, onde o piso quase sempre é revestido por algum material. Caso 
sejam constatadas, deverão ser recolhidas para serem comparadas com material padrão ou 
incriminado. 
Fibras: São pequenas estruturas integrantes de tecidos animais e vegetais ou de certas 
substâncias minerais que podem ser encontradas em alguns locais. Podem estar aderidas às 
unhas ou vestes da vítima, portas, ou ainda presas em cercas de arames, janelas, etc. 
Manuscritos: Nos locais de suicídio, muitas vezes são encontrados bilhetes manuscritos pelas 
vítimas, que deverão ser recolhidos juntamente com padrões de grafismos dela, para exame 
grafotécnico na seção competente. 
 
 
Veneno: Por definição, veneno é toda substância medicamentosa que pode produzir a morte, 
de acordo com a dosagem. Quando encontrado em locais, deverá ser cuidadosamente 
embalado para posterior envio ao laboratório e realização dos devidos exames. 
Demais objetos: Podem ainda ser abandonados no local do crime objetos utilizados durante a 
ação delituosa, seja para consumar o crime propriamente dito ou para acessar o local. Nesse 
rol são exemplos facas, machados, foices, porretes, pés de cabra, alavanca, chaves falsas, 
chave de roda, chave de fenda, e quaisquer outros objetos. Nesses casos o perito deve ainda 
citar se há correlação entre o instrumento e as características dos ferimentos verificados na 
vítima. 
 
Aula 4 – Elementos do cadáver 
 
Além dos vestígios encontrados no local de crime, nos locais de morte violenta diversas 
informações também são extraídas do(s) cadáver(es). Tais informações podem ser decisivas, 
ajudando o perito a estabelecer a dinâmica do crime. A seguir você conhecerá os elementos 
pesquisados com maior frequência no cadáver. 
 
4.1. Localização e posição 
A localização do cadáver pode fornecer diversas informações acerca do fato criminoso, seja a 
incapacidade de defesa ou tentativa de fuga da vítima, até a ocultação do cadáver. Cabe ao 
perito criminal interpretar o contexto da localização do cadáver para entender como ela se 
encaixa na dinâmica. Já a posição do corpo pode indicar alteração na cena do crime, posição 
anterior da vítima, transporte do cadáver, reação de defesa da vítima e diversas outras 
informações que devem ser analisadas no trabalho policial. 
 
4.2. Vestes 
As vestes da vítima trazem importantes informações para a investigação policial. A 
incompatibilidade com as condições climáticas, ambientais e sociais podem indicar transporte 
do corpo, intenções da vítima, tentativas de ocultação de crime, etc. O perito deve fazer a 
análise pormenorizada das vestes usadas pela vítima, principalmente quando forem de 
 
 
cadáveres de desconhecidos. Nesse caso, devem ser mencionados quaisquer descrição ou 
desenhos existentes nelas, inclusive etiquetas do fabricante. 
 
4.3. Buscas 
As buscas no corpo e nas vestes são de extrema importância e devem ser feitas pelos peritos 
no local do crime, uma vez que podem trazer informações que poderão alterar a dinâmica do 
fato ou os trabalhos periciais no local. Durante as buscas podem ser encontradas armas, 
drogas, pertences da vítima ou de outras pessoas, documentos, dinheiro, joias, etc. 
 
4.4. Estudo dos ferimentos 
O estudo dos ferimentos visa identificar o número e localização das lesões produzidas, os 
instrumentos utilizados e a sequência de agressão à vítima. Assim teremos: 
 
4.4.1. Tipo dos ferimentos e caracterização de instrumentos 
Antes de iniciar esse assunto, é necessário se definir o que sejam objeto e instrumento, para 
evitar que o perito extrapole sua competência técnica. 
Objeto é a “coisa”, o utensílio em geral, na sua forma natural ou principal, como a faca, que é 
uma peça destinada ao corte, e, portanto, um objeto cortante por sua própria natureza. 
Instrumento ou meio, refere-se à maneira ou à forma de utilização da coisa. Assim, a faca, 
objeto essencialmente cortante, pode constituir-se em instrumento cortante (quando usada 
para o corte), pérfuro-cortante (quando pressionada com sua extremidade), contundente 
(quando o agressor, apoiando a lâmina, percute o cabo contra o alvo) e corto-contundente 
(quando utilizada por pressão com o lado contrário ao do corte). 
Dessa forma, os ferimentos estarão relacionados ao instrumento e não ao objeto, como se 
segue: 
 Instrumento contundente  Ferida contusa 
Os instrumentos contundentes agem predominantemente por pressão, determinando lesões 
superficiais ou profundas, tais como escoriações, hematomas, equimoses, fraturas, luxações e 
verdadeiras avulsões chamadas feridas contusas, que mostram solução de continuidade da 
 
 
pele, com bordos esmagados, superfície irregular e presença de pontas de tecidos mais ou 
menos íntegros. 
Exemplo: porrete, pedra, cassetete. 
 Instrumento cortante  Ferida incisa 
Os instrumentos cortantes agem pelo deslizamento de gumes (cortes) mais ou menos afiados e 
determinam lesão maior em superfície que profundidade, com bordos regulares, sem sinais de 
esmagamento. 
Exemplo: faca, bisturi, canivete. 
 Instrumento perfurante  Ferida punctória 
Os instrumentos perfurantes apenas afastam as fibras dos tecidos, sem determinarem cortes ou 
contusões. Atuam por pressão, ocasionando pouco dano à superfície, porém com grande 
acometimento em profundidade. 
Exemplo: agulha, furador de gelo, prego. 
 Instrumento pérfuro-contundente  Ferida pérfuro-contusa 
Os instrumentos pérfuro-contundentes atuam por pressão e determinam perfuração associada 
à contusão. Superficialmente, aparenta contusão, com bordos esmagados, porém mostram 
continuidade para o interior dos tecidos. 
Exemplo: projétil de armade fogo, chave de fenda, vergalhões de metal. 
 Instrumento corto-contundente  Ferida corto-contusa 
Os instrumentos corto-contundentes atuam por gumes não afiados, e o que mais influi na 
produção da lesão é o peso do instrumento ou a força viva do que o maneja. Produzem 
avulsão dos tecidos e concomitante esmagamento, acometendo todos os planos atingidos, não 
permanecendo pontas de tecidos mais ou menos íntegros. 
Exemplo: facão, machado, foice, enxada. 
 Instrumento pérfuro-cortante  Ferida pérfuro-incisa 
Os instrumentos pérfuro-cortantes agem através de pressão, e, atuando por uma ponta ou 
gume, promovem perfuração associada a corte. Superficialmente, aparenta lesão incisa, mas 
mostra continuidade para o interior, a exemplo das lesões perfurantes. 
Exemplo: punhal, faca, canivete. 
 
 
 
4.4.2. A importância dos ferimentos na determinação da dinâmica do fato 
O tipo, localização e características dos ferimentos determinam grande parte da dinâmica do 
fato. Podem indicar situações de tocaia à vítima, ação opressora, combate, reação de defesa da 
vítima, ataque pelas costas, etc. 
As características das feridas produzidas pelo emprego de arma de fogo merecem atenção 
especial, uma vez que podem indicar a distância do disparo. Assim, de acordo com a distância 
que medeia entre a arma e o alvo, os tiros podem ser classificados da seguinte forma: 
 à distância; 
 à curta distância; 
 encostados. 
Nos tiros à distância atua apenas o projétil, que, ao percutir o alvo, representado pela pele, é 
envolvido por ela. Só depois de forçada pelo movimento de propulsão do projétil a pele cede 
e, esgotada a elasticidade, se rompe. Quando se trata de tiros perpendiculares, o orifício de 
entrada produzido é quase sempre de bordas invertidas e circulares, pois a forma desse 
orifício variará consoante a maneira como o projétil atinge o alvo. 
Nos tiros à curta distância a “boca” do cano da arma encontra-se próxima ao alvo, sendo que, 
além do projétil, fuligem e grãos de pólvora incombusta e semicombusta também atingem o 
alvo, produzindo um orifício de entrada que pode estar encoberto de fuligem e/ou com o 
entorno salpicado de pontos negros. 
 
 
 
 
 
Nos tiros encostados a “boca” do cano da arma se apoia no 
alvo, e, além do projétil, atuam os gases resultantes da deflagração da pólvora, os quais 
rompem e dilaceram os tecidos, produzindo lesões externas. Forma-se em torno do orifício 
um halo grosseiro, queimado e negro, lesão denominada “Câmara de Mina de Hofmann”, 
“Explosão de Mina de Hofmann” ou “Boca de Mina”. O orifício de entrada é irregular, 
amplo, às vezes estrelado, de bordas invertidas, e a pele que cobre a região é deslocada e 
 
 
despregada pela ação dos gases. O diâmetro deste orifício pode ser igual ou maior que o do 
projétil. 
 
 
 
 
 
 
4.4.3. Elementos de contorno 
Margeando o orifício de entrada, existem certos elementos de contorno cujo conhecimento é 
de grande utilidade para o perito. Tais elementos têm diversas denominações – algumas 
explicadas de várias formas quanto à sua gênese. Assim, temos: 
a) Orlas de contusão e enxugo: São produzidas nos alvos 
vivos pela passagem do projétil, que, ao atravessar o 
corpo, provoca o arrancamento da epiderme, contundindo-
o, e nele limpa, ou seja, se enxuga de seus detritos. Por 
esse mecanismo explica-se o aparecimento desta orla, que 
margeia como um anel o orifício de entrada, no tiro 
perpendicular, tendo forma de meia lua, no tiro inclinado. Nos alvos inanimados, 
tal orla se denomina apenas de enxugo. 
b) Zona de tatuagem: Ocasionada pelos grânulos da pólvora 
combusta ou incombusta que se incrustam em torno do 
orifício de entrada, mais ou menos profundamente na 
região atingida. Quando se trata de alvo vivo, esses 
grânulos na derme se encravam, podendo inclusive 
produzir na região um dano deformante. As vestes, muitas 
vezes, podem reter os grânulos de pólvora, impedindo que 
se incrustem no corpo. 
c) Zona de esfumaçamento: É produzida pela fuligem 
desprendida da combustão da pólvora e se deposita no 
 
 
alvo, em torno do orifício de entrada, podendo ser removida com facilidade. Se a 
região for coberta pelas vestes, é natural que elas retenham o depósito de fuligem. 
d) Zona de chamuscamento ou queimadura: É produzida 
pelos gases superaquecidos e inflamados que se 
desprendem e atingem o alvo, produzindo queimadura da 
pele e da região, de pelos e das vestes. 
 
Terminado o estudo dos elementos de contorno, mostraremos a correlação existente entre o 
surgimento deles e as distâncias dos disparos. 
 Nos tiros à distância, encontraremos somente as orlas de contusão e enxugo; 
 Nos tiros à curta distância, além das orlas de contusão e enxugo, poderemos 
encontrar as zonas de tatuagem e esfumaçamento, que naturalmente poderão 
mascarar as primeiras e dificultar sua visualização. Em tiros muito próximos, 
observa-se também a zona de chamuscamento; 
 Nos tiros encostados, podem-se verificar zonas de chamuscamento e 
esfumaçamento, orlas de contusão e enxugo que podem não ser notadas quando 
ocorre o fenômeno de “Câmara de Mina de Hoffman”. Dependendo da pressão 
exercida contra o alvo, é possível também observar o “Sinal de Werthgarthner”, 
que é a queimadura produzida pelo aquecimento do cano da arma. 
 
 
Aula 5 – Dinâmica do crime baseada nas provas objetivas 
 
A análise das informações estudadas anteriormente (vestígios e elementos do cadáver) 
permite ao perito, na grande maioria das vezes, determinar a dinâmica do crime. Para isso, o 
perito irá conjugar os elementos levantados durante o trabalho pericial e se perguntar como 
eles encaixam entre si. Depois de um trabalho de análise e conjugação dos vestígios, o qual 
pode ser feito inclusive no local, o perito determina a mecânica do evento que culminou com 
o ato ilícito. Muitas vezes, elementos quase imperceptíveis serão decisivos na formação da 
dinâmica, contribuindo para, mesmo sem informações de terceiros, se chegar a uma 
reprodução da sequência de ações. 
Quando a dinâmica geral não puder ser determinada com base nos vestígios – seja pela falta 
de elementos, seja por um isolamento inadequado –, muitas vezes atos específicos podem ser 
determinados, por exemplo, o forçamento de um obstáculo em um crime de furto ou uma 
execução sem chances de defesa da vítima em um caso de homicídio. Cabe ao perito 
determinar essa dinâmica com base nas provas objetivas, uma vez que ele é o especialista na 
leitura e interpretação dos vestígios. 
Como exemplo de um trabalho de determinação da dinâmica de um crime, você analisará a 
seguir um caso real, relacionando os vestígios encontrados e a determinação da dinâmica 
baseada nos vestígios. Visando demonstrar a importância da prova objetiva, não serão 
utilizados os elementos subjetivos levantados durante a investigação. 
 
5.5. Análise de caso real 
Elementos do local 
O imóvel alvo dos exames era composto por diversas moradias agrupadas com acessos 
independentes. Entre elas, aquela de número 261 apresentava-se dividida em dois pavimentos, 
sendo o inferior independente do superior, cujo acesso se dava por intermédio de um portão 
de chapa metálica dobrada, localizado na lateral direita da face anterior do lote. 
Internamente, o imóvel superior apresentava-se dividido em três cômodos – alinhados 
longitudinalmente em relação à lateral do lote – e um banheiro, sendo que o acesso se dava 
por intermédio do corredor subsequente ao portão retrocitado, finalizado no cômodo central 
 
 
que era utilizado como sala de estar. O cômodo que compartilhava a parede posterior da sala 
era utilizado como quarto e nele estava o banheiro, comum a toda a casa. A parede anterior da 
sala era também a parede posterior da cozinha, cujo piso se localizava em nível ligeiramente 
superior àquela. Para vencer tal desnível, o vão de acesso à cozinha contava com uma escada 
de alvenaria com quatro degraus.Os exames se concentraram na referida cozinha, cuja porta de acesso se localizava na parede 
posterior e próxima à parede lateral esquerda. Apresentava como características construtivas 
piso de cimento liso e pigmentado na cor amarela, paredes de alvenaria de tijolos e teto de 
telhas de fibrocimento (amianto), sustentadas por vigas de madeira. A iluminação artificial era 
provida por intermédio de uma lâmpada incandescente apensa ao teto pelos próprios fios de 
alimentação. A iluminação e ventilação naturais eram providas por uma grande janela de 
metal conjugada com lâminas de vidro canelado, localizada na parede anterior. 
Como mobiliário, o ambiente contava com uma mesa de armação de metal tubular com tampo 
de pedra, localizada junto à parede anterior; quatro cadeiras de armação de metal tubular com 
assento acolchoado, dispostas próximas à mesa; um armário alto e balcão de cozinha, ambos 
de madeira laqueada na cor branca, juntos à parede lateral esquerda; um fogão e uma máquina 
de lavar roupas juntos à parede lateral direita; e uma geladeira próxima à porta de acesso e à 
parede posterior. Havia também uma pia de resina instalada na parede posterior. 
Elementos do cadáver 
Localização e posição: O corpo estava estendido sobre o piso da cozinha do imóvel 
referenciado, com a linha longitudinal do corpo disposta obliquamente em relação à parede 
posterior. A cabeça estava direcionada para a porta de acesso à cozinha e os pés estavam 
direcionados para a quina formada entre a parede anterior e a parede lateral direita. 
Jazia em decúbito dorsal, com a cabeça apoiada no piso pela região occipito-parietal direita. O 
membro superior direito estava fletido, com o antebraço apoiado no abdômen, e o esquerdo 
estava estendido, ligeiramente afastado do tronco. Os membros inferiores estavam ambos 
estendidos e afastados. 
Das vestes: O cadáver trajava, por ocasião dos exames, tão somente uma bermuda de cores 
preta, branca e cinza de “tactel” e uma cueca anatômica branca de algodão. Calçava um par de 
chinelos de material sintético de cores preta e vermelha. 
 
 
Das buscas: Nas buscas efetuadas no corpo e vestes do cadáver nada foi encontrado. 
Dos ferimentos: Nos exames de hábito externo do cadáver foram constatadas 05 (cinco) 
feridas pérfuro-contusas, apresentando bordas regulares e invertidas, com orlas de escoriação 
e enxugo, características daquelas produzidas pela ENTRADA de projéteis propelidos por 
arma de fogo. As feridas estavam localizadas da seguinte maneira: 
 01 (uma) na região infra-hióidea à esquerda; 
 02 (duas) na região mastoidiana direita; 
 01 (uma) na região zigomática direita; 
 01 (uma) na região bucinadora direita. 
Também foram observadas duas pequenas escoriações lineares e paralelas, localizadas no 
antebraço direito, bem como uma terceira escoriação em formato circular e circundada por 
zona de queimadura, próxima às escoriações. 
Vestígios constatados 
 Foram constatados os seguintes vestígios: 
a) Manchas de sangue produzidas por: 
 Contato na pele da vítima, decorrentes dos ferimentos observados, com consequente 
escorrimento e empoçamento sob a parte superior do corpo da vítima; 
 Projeções no piso e na base do balcão, características de terem sido produzidas quando 
da expulsão do sangue em de decorrência dos tiros efetuados contra a vítima já 
estendida no piso; 
b) Também foram percebidos CHAMUSCAMENTO, ESFUMAÇAMENTO E 
TATUAGEM no antebraço da vítima, em sincronismo com as escoriações paralelas 
constatadas. Tais efeitos secundários, associados às escoriações constatadas naquelas 
regiões, indicam que a vítima teria esboçado reação de defesa, elevando o antebraço e 
colocando-o contra a arma apresentada pelo autor. A presença das equimoses paralelas 
indica que tal movimento foi brusco e concorrente com a elevação da arma pelo agressor. 
As equimoses paralelas foram, portanto, produzidas pela massa de mira da arma utilizada 
e o tiro ocorreu no momento do impacto entre o antebraço da vítima e a arma do autor, 
justificando os vestígios constatados. Feitas tais considerações, é possível determinar que 
 
 
o tiro que produziu tais efeitos também foi aquele responsável pelo ferimento de entrada 
na região infra-hióidea; 
c) Foram observadas ZONAS DE CHAMUSCAMENTO E ESFUMAÇAMENTO no 
entorno das lesões localizadas na região mastoidiana. Uma das zonas apresentava menor 
dimensão. Tais achados indicam tiro efetuado à curta distância; 
d) Também foi encontrado esfumaçamento entre os dedos polegar e indicador da mão direita. 
Tal esfumaçamento teria sido produzido durante o segundo tiro efetuado, uma vez que a 
vítima, ainda imbuída do ímpeto de defesa, aproximou a mão da cabeça para se proteger 
da agressão. Tal esfumaçamento explica a diferença nas zonas de esfumaçamento 
constatadas no entorno dos dois ferimentos localizados na região mastoidiana; 
e) Foi observada ZONA DE TATUAGEM no entorno do ferimento localizado na região 
bucinadora da vítima, indicando tiro efetuado à curta distância, porém não tão próximo 
quanto aqueles que produziram os ferimentos na região mastoidiana; 
f) O ferimento de entrada na região zigomática apresentava-se com ausência de efeitos 
secundários e com formato ovalado. Tais características indicam que o tiro foi efetuado à 
distância e com menor inclinação em relação à horizontal, indicando que o autor já teria se 
afastado mais em relação ao tiro que produziu o ferimento na região bucinadora; 
g) Foi constatada uma mossa no piso à direita do corpo. Também foi observada a projeção de 
material do piso na frente da tampa do forno do fogão ali existente. Sobre o referido fogão 
foi encontrado um núcleo de chumbo. Tais achados indicam que o tiro que os produziu foi 
o derradeiro, com o autor já mais afastado da vítima, o que ocasionou o erro e o 
consequente impacto do projétil no piso; 
h) Sob o cadáver foi encontrada uma blindagem de projétil, que foi separada do núcleo 
quando do impacto contra o piso. 
Dinâmica do crime 
A coleção de vestígios levantados no presente trabalho técnico-pericial permite que os peritos 
criminais estabeleçam como hipótese mais provável a seguinte dinâmica: 
O início da agressão à vítima teria ocorrido no interior da cozinha do imóvel periciado. A 
vítima estaria de frente para a porta quando o agressor entrou no cômodo e, surpreendida pelo 
seu algoz, girou o tronco para a direita e ofereceu o antebraço direito na tentativa de se 
 
 
proteger do ataque. O autor simultaneamente elevou a arma, ocorrendo então o impacto dela 
contra o antebraço de Thiago, momento no qual foi efetuado o primeiro tiro, cujo projétil 
atingiu a região infra-hióidea à esquerda e os elementos secundários atingiram o antebraço 
direito da vítima. Ferido, Thiago ainda tentou se defender girando o tronco para a esquerda e 
aproximando a sua mão direita junto à cabeça. Nesse momento o agressor efetuou o segundo 
tiro, cujo projétil atingiu a região mastoidiana e o esfumaçamento se aderiu na mão da vítima 
e no entorno do ferimento. Ato contínuo, outro tiro foi efetuado contra a mesma região, que 
dessa vez não estava mais guarnecida pela mão da vítima. 
Gravemente ferida, a vítima tombou sobre o piso, ocasião em que o agressor, aproveitando-se 
da vulnerabilidade de Thiago, efetuou mais um tiro ainda próximo, que atingiu a região 
bucinadora. Em seguida, o autor iniciou a fuga, não sem antes efetuar um tiro que atingiu a 
região zigomática e outro que atingiu o piso, ocorrendo então a separação entre a blindagem e 
o núcleo de chumbo do projétil, sendo que a primeira ficou sobre o corpo e o segundo se 
imobilizou sobre a tampa do fogão. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O exemplo demonstrado anteriormente mostra como é possível reconstituir todos os passos 
que culminaram com a ação agressiva baseando-se exclusivamente nos vestígios deixados. 
Tais informações devem ser repassadas ao responsável pela elaboraçãodo relatório para que 
ele possa, de maneira simplificada, relatar a mecânica do crime. 
Muitas vezes a dinâmica só é determinada dias depois do fato, através da análise do resultado 
de exames complementares ou da simples reflexão, por parte do perito, sobre os elementos 
constatados. Assim, é necessária a compreensão de que nem sempre será possível, no calor do 
local, determinar a sequência de ações. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Saiba mais 
 
A reconstrução de locais de crime é tema de diversas séries televisivas, inclusive daquelas 
baseadas em fatos reais. Você pode procurar na internet ou nos canais de televisão as 
seguintes séries: 
CSI – Crime Scene Investigation: http://www.cbs.com/shows/csi/ 
Cold Case Files – Casos arquivados: http://www.aetv.com/cold_case_files/ 
NCIS – Naval Criminal Investigation Service: http://www.cbs.com/shows/ncis/ 
Medical Detectives: http://www.forensicfiles.com/ 
Dra. G – Médica Forense: http://health.discovery.com/tv/dr-g-medical-examiner/ 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
http://www.cbs.com/shows/csi/
http://www.aetv.com/cold_case_files/
http://www.cbs.com/shows/ncis/
http://www.forensicfiles.com/
http://health.discovery.com/tv/dr-g-medical-examiner/
 
 
 
Finalizando... 
Neste módulo, você estudou que: 
 O inquérito policial é o procedimento administrativo que registra a parte escrita da 
investigação criminal, a qual consiste no conjunto de diligências e providências 
realizadas com o objetivo de apurar a autoria e materialidade do fato típico, 
demonstrando-as através de provas; 
 A investigação policial começa, na grande maioria das vezes, no local de crime; 
 Ao chegar à cena do crime, o perito inicia a sua análise antes mesmo de adentrar no 
local, examinando a qualidade e método de isolamento para verificar se está adequado; 
 Há uma sutil diferença entre isolamento e preservação. O isolamento é o ato de impedir 
o acesso de qualquer pessoa à cena do crime, a não ser daquela responsável pela coleta e 
análise dos vestígios. A preservação é consequência do isolamento; 
 Todo elemento coletado no local de crime, mesmo que não haja a certeza da sua relação 
com o fato, é um VESTÍGIO. Se o vestígio comprovadamente tem correlação com o 
fato ocorrido e fornece elementos para determinação da dinâmica do fato, é então 
chamado de INDÍCIO. Toda informação relevante para a investigação policial, seja ela 
objetiva ou subjetiva, é uma EVIDÊNCIA; 
 Além dos vestígios encontrados no local de crime, nos locais de morte violenta diversas 
informações também são extraídas do(s) cadáver(es). Tais informações podem ser 
decisivas, ajudando o perito a estabelecer a dinâmica do crime; 
 Depois de um trabalho de análise e conjugação dos vestígios, que pode ser feito 
inclusive no local, o perito determina a mecânica do evento que culminou com o ato 
ilícito. 
 
 
Módulo 2 – O levantamento das provas subjetivas no local de crime 
 
Apresentação do Módulo 
 
A investigação criminal é a reconstrução do fato delituoso com o objetivo de se estabelecer 
fundamentada e comprovadamente a autoria e a materialidade da infração penal. Enquanto o 
levantamento das provas objetivas percorre o caminho da materialidade, o levantamento das 
provas subjetivas transita na via das informações testemunhais, cujo conteúdo é 
imprescindível à elucidação do crime. É preciso que o investigador conheça uma doutrina 
procedimental de comportamento no local do crime, acolhendo de forma precisa as 
testemunhas para delas extrair o rico conhecimento que eventualmente possuam sobre a ação 
delituosa. 
Neste módulo você irá aprender a visão global da investigação criminal e sua repartição 
didática em dois níveis distintos, para estudar a investigação de local de crime e apreender o 
procedimento de condutas e o domínio de conhecimentos técnico-jurídicos que lhe permitirá, 
ao final, estabelecer a dinâmica do crime conforme as provas subjetivas. 
Boa leitura! 
 
Objetivos do Módulo 
 
Ao final do estudo deste módulo, você será capaz de: 
 Compreender a amplitude da investigação criminal; 
 Identificar os momentos distintos da investigação criminal; 
 Atuar de maneira técnica na investigação criminal de local de crime; 
 Potencializar as informações das testemunhas; 
 Estabelecer a dinâmica do crime a partir das provas subjetivas. 
 
 
Estrutura do Módulo 
 
 
 
Este módulo é formado pelas seguintes aulas: 
Aula 1 – A investigação criminal 
Aula 2 – Investigação criminal de local 
Aula 3 – Dinâmica do crime baseada nas provas subjetivas 
 
Aula 1 – A investigação criminal 
 
A ocorrência de uma infração penal de qualquer natureza significa um dano à ordem pública, 
que precisa ser preservada permanentemente, e indica uma falha dos controles sociais 
informais ou formais, o que faz surgir uma necessidade imediata de resposta ao ato criminoso. 
Tal resposta funciona inicialmente como meio de responsabilizar o autor do ato e, 
paralelamente, como instrumento pedagógico de desmotivação à prática de delitos. Esta 
resposta somente será possível através da investigação criminal. 
A investigação criminal pode ser definida como o amplo e complexo trabalho de reconstrução 
simbólica do fato delituoso em busca de sua materialidade e autoria, conforme as regras do 
processo penal brasileiro. No atual sistema constitucional pátrio, essa atribuição está a cargo 
das polícias civis, via de regra. O art. 144, § 4º, da Constituição da República dispõe que: 
Às polícias civis, dirigidas por delegados de polícia de carreira, incumbem, 
ressalvada a competência da União, as funções de polícia judiciária e a apuração de 
infrações penais, exceto as militares (Constituição da República Federativa do 
Brasil, Minicódigo, 2009). 
A investigação criminal objetiva, portanto, restabelecer o fato tal como ocorreu para se 
permitir a responsabilização penal de seu agente através da aplicação da lei penal. 
O fato delituoso, desde o mais simples ao mais complexo, compreende a conduta humana 
criminosa – o que chamamos de autoria – e os reflexos e consequências dessa conduta no 
mundo material – o que convencionamos denominar de materialidade. A investigação 
criminal incide sobre um único e indivisível fato e exige a correlação permanente entre as 
duas vertentes citadas, desde o seu nascedouro até sua conclusão, de forma indissociável. 
É aconselhável, entretanto, que a investigação criminal seja dividida de forma didática, 
permitindo ao policial estabelecer dois momentos distintos sob o ponto de vista 
 
 
comportamental. É o que chamamos de investigação de local de crime e investigação de 
seguimento. 
Importante! 
Aqui interessa a você conhecer e estudar a investigação de local de crime, cujo retrato inicial 
e imediato será revelado através do relatório de local de crime. 
 
Aula 2 – A investigação de local de crime 
 
A prática de qualquer crime se estabelece em um local determinado, e esse local é o 
nascedouro da investigação criminal, lugar ao qual você irá se dirigir tão logo tome 
conhecimento do fato. 
O art. 6º do Código de Processo Penal prevê que: 
Logo que tiver conhecimento da prática da infração penal, a autoridade policial 
deverá: I – dirigir-se ao local, providenciando para que não se alterem o estado e 
conservação das coisas, até a chegada dos peritos criminais; [...] III – colher todas as 
provas que servirem para o esclarecimento do fato e suas circunstâncias [...] (Código 
de Processo Penal, Minicódigo, 2009). 
Por sua vez, o art. 6º do Código Penal Brasileiro dispõe que: 
Considera-se praticado o crime no lugar em que ocorreu a ação ou omissão, no todo 
ou em parte, bem como onde se produziu ou deveria produzir-se o resultado (Código 
Penal, Minicódigo, 2009). 
De maneira bem objetiva e clara para a investigação criminal, você pode entender o local de 
crime como o espaço físico onde se deu a prática de fato definível, emtese, como infração 
penal, compreendendo tanto o lugar em que ocorreu a conduta, no todo ou em parte, bem 
como onde se produziu ou deveria produzir-se o resultado. 
É inegável, portanto, que você irá iniciar a sua investigação criminal no local onde o crime 
aconteceu e, exauridos ali os trabalhos de levantamento de provas subjetivas e objetivas, 
seguir na apuração. Daí a divisão didática dos dois momentos da investigação criminal: a 
investigação de local de crime e a investigação de seguimento. Aqui você aprenderá sobre a 
investigação de local de crime, que é sintetizada através do relatório de local de crime. 
 
 
 
 
2.1. A notícia da infração penal 
Imagine que você acaba de tomar conhecimento da ocorrência de um crime. A sua primeira 
atitude é se dirigir ao local, onde iniciará toda a investigação criminal. Tão logo receba a 
notícia da infração penal, você precisa saber de informações específicas e detalhadas quanto à 
espécie de local, até mesmo para permitir o melhor planejamento quanto ao meio de 
transporte, roupas e também ferramentas eventualmente necessárias. Os lugares de difícil 
acesso, por exemplo, em vias não pavimentadas de zona rural, exigem um veículo com 
características próprias, sob pena de a sua equipe sequer chegar ao local. 
Em segundo lugar, você não pode se esquecer do conjunto de instrumentos que vai 
necessariamente precisar, como caneta, luvas, gravadores, câmeras fotográficas e filmadoras, 
luzes artificiais de lanterna ou holofote e, obrigatoriamente, o seu modelo de relatório de 
local de crime. 
O terceiro ponto e de suma importância é estabelecer, previamente, as funções que cada um 
irá desempenhar no local de crime, mesmo que possam ser modificadas por qualquer motivo. 
Esse gerenciamento está a cargo do delegado de polícia. 
 
2.2. Ações no local de crime 
Vencida a primeira etapa, quando você recebeu a notícia da ocorrência do crime, se informou 
quanto às características do local e se apoderou de tudo quanto precisará para o início da 
investigação criminal, imagine-se, agora, já no local de crime. 
No local de crime, conforme já visto, dois são os objetivos essenciais da equipe de 
investigadores: o levantamento das provas objetivas e o levantamento das provas subjetivas. É 
preciso, entretanto, organizar essas ações de forma a otimizá-las. Você pode roteirizá-las da 
seguinte maneira: 
1º) Defina a área imediata e mediata do delito, garantindo seu isolamento e colocando-a à 
disposição dos peritos criminais. No caso de não ser você o primeiro a chegar, certifique-se de 
que a identificação das áreas e seu isolamento foram feitos de maneira correta. Nunca é 
demais insistir que dessa condição dependerá boa parte da sua investigação; 
2º) Acompanhe o trabalho pericial registrando o “testemunho” dos vestígios tal como lhe será 
apresentado pelo perito criminal; 
 
 
3º) Identifique a vítima: embora não seja impossível, em alguns casos, apurar o delito sem a 
identificação da vítima, é muito importante identificá-la, o que poderá ser feito de imediato 
quando ela própria for a solicitante, ou através de documentos, testemunhas e familiares; 
4º) Analise a cena do crime de maneira global, posicionando-se em um lugar de visão 
privilegiada e, de imediato, identifique as pessoas que ali se encontram e sua possível 
condição de testemunhas – especialmente em alguns casos (como no homicídio, por exemplo) 
–, bem como os familiares da vítima; 
5º) Identifique as pessoas presentes e interaja com elas, buscando ter acesso a tudo o que 
sabem, não só pelo que viram, mas pelo que ouviram dizer ou pelo que sabem por qualquer 
outro meio. Vale lembrar que, como o crime acabou de acontecer, as informações estão mais 
precisas e é mais provável que haja espontaneidade em seu fornecimento. A própria vítima e 
seus familiares, sendo pessoas diretamente atingidas pela infração penal, podem auxiliar 
sobremaneira com informações e também com a identificação de outras pessoas que as 
tenham. 
A interação com as pessoas no local, testemunhas em sentido amplo, pode ocorrer 
basicamente de duas maneiras distintas e igualmente importantes: 
a) Oficialmente, quando você se identifica como policial e dialoga sobre o fato; 
b) Anonimamente, quando você se infiltra em meio às pessoas e se comporta como mero 
curioso. Não raras vezes, é provável que você tenha acesso a muitas informações 
importantes para a investigação. 
A interação com as testemunhas como aqui relatado deverá ocorrer com a observância de 
algumas diretrizes. É necessário que você saiba distinguir qual o método que utilizará nesse 
diálogo, diferenciando entrevista de interrogatório. 
 
2.3. Entrevista x interrogatório 
A busca das informações subjetivas se dará, obrigatoriamente, através de um diálogo entre 
duas pessoas, através de uma interação simultânea que exigirá a remoção de obstáculos e 
barreiras que existirão naturalmente. 
Um dos grandes equívocos do investigador é a maneira pela qual ele promove o diálogo com 
as testemunhas no local de crime. Como já dito, em se tratando da investigação de local de 
 
 
crime, o delito acabou de acontecer e as informações estão registradas de forma mais precisa. 
Como a infração penal significa uma ruptura da ordem pública e da paz social, é natural que 
as testemunhas estejam abaladas de alguma forma, o que pode deixá-las inacessíveis. Some-se 
a esse estado emocional o medo de represálias que a testemunha tende a sentir naturalmente. 
Aqui reside boa parte das barreiras que foram citadas anteriormente e que tendem a dificultar 
ou impossibilitar a obtenção das informações úteis à apuração do crime. 
Assim, o diálogo entre investigador e testemunha deverá ocorrer através da entrevista, não 
havendo espaço para interrogatório pelo investigador no local de crime. 
A entrevista não é exclusividade da investigação criminal, pelo contrário; é de ampla 
utilização em diversas áreas de atuação profissional, como o jornalismo, a psiquiatria, a 
advocacia e a psicologia. Na concepção de Ferreira (1986, p. 667), a palavra entrevista deriva 
da junção de “entre” + “vista”, significando “vista e conferência entre duas ou mais pessoas 
em local predeterminado”. No caso da investigação de local de crime, esse ambiente é o 
próprio lugar onde ocorreu a infração penal. Já na concepção do professor Melo (1985, p. 42), 
“a entrevista é fundamentalmente um processo de comunicação em que deve haver uma 
correspondência mútua entre entrevistador e entrevistado, baseada na correção de atitudes, 
gestos, etc”. 
Apesar de a prática investigativa muitas vezes tratar entrevista e interrogatório como coisas 
idênticas, elas não se confundem. O interrogatório é ato formal, a cargo do delegado de 
polícia, no qual há um formato definido inclusive na lei processual penal e uma atuação 
especialmente inquisitiva. No interrogatório, o interrogado encontra-se em situação de 
inferioridade e experiencia estar praticamente em um jogo de perguntas e respostas com 
pronto registro. 
Na entrevista, o que ocorre é uma conversa sobre o fato, em que o entrevistado tem ampla 
liberdade para narrar integralmente tudo o que viu ou sabe sobre o delito. O registro da 
entrevista deve ser instantâneo, com anotação de palavras-chaves e tópicos que remetam o 
investigador à construção redacional futura que permitirá inclusive um bem-sucedido 
interrogatório (nesse aspecto, existem campos próprios no relatório de local de crime 
para o registro dessas informações). Na obra Investigação Criminal, o mestre Rocha dispõe 
que “o interrogatório se distingue da entrevista no sentido de que esta representa um diálogo 
 
 
sério com um fim determinado de colher dados, ao passo que aquele representa uma 
inquisição.” Some-se a essas considerações o tom absolutamente informal da entrevista em 
contraposição à formalidade do interrogatório. 
Você já sabe, portanto, que a sua interação com as testemunhasno local de crime ocorrerá 
através de entrevistas; agora irá compreender como promovê-las. 
O primeiro passo é estabelecer um relacionamento de confiança entre você e o seu 
entrevistado, e raramente você terá tempo para fazê-lo da forma ideal. O segredo é acolher a 
testemunha através da demonstração de simpatia, educação, adequação verbal e, o que talvez 
seja o mais importante, a afirmação de que compreende a situação na qual ela se encontra. 
Afinal, imagine que você acabou de testemunhar um crime. Você se sentirá confortável em se 
deparar com um policial? Você estará disposto a se abrir sobre o fato criminoso do qual 
possui informações? Portanto, colocar-se no lugar da testemunha, identificando como se 
sente, é passo inicial para a obtenção das informações que possui. 
Entre as várias técnicas de aproximação entre entrevistador e entrevistado, na obra de Melo 
(1985, p. 51) cita-se que o norte-americano Rudolph R. Caputo apresenta dois métodos 
básicos, o lógico e o emocional. Enquanto o primeiro se fundamenta na razão, através da 
utilização de fatos concretos e consistentes, persuadindo o entrevistado a compreender a 
fundamentação da entrevista, o segundo trabalha com aspectos morais, religiosos, éticos e 
principiológicos. O método lógico é aplicável a pessoas de maior nível intelectual, 
compreensão cultural e formação educacional formal, enquanto o método emocional alcança 
melhor as pessoas sensíveis, incluindo-se aí aquelas que experimentaram pela primeira vez 
alguma relação com um fato criminoso. 
A aproximação é, inegavelmente, o primeiro passo para uma entrevista bem-sucedida. Você 
precisa saber se comportar nessa interação com a testemunha. São necessários conhecimentos 
de Psicologia do Comportamento, Criminologia, Direito Penal e Processual Penal e 
Sociologia, entre outros. Não se pode esquecer também da apresentação pessoal, que deve ser 
condizente com a importância da função e permitir aproximação e aceitação no ambiente em 
que as informações são buscadas. Por fim, uma linguagem sóbria e equilibrada, aliada ao 
controle das emoções e à segurança sobre o ato, complementa as características de um bom 
entrevistador. 
 
 
Na entrevista, você utilizará a escuta ativa, pedindo à testemunha que lhe conte de maneira 
ampla tudo o que sabe, o que viu ou o que ouviu dizer sobre o fato criminoso, sem 
interrompê-la, apenas conduzindo-a em sua narrativa com o uso de expressões positivas como 
“hum, hum”, “sei”, “ok”. Nessa modalidade, não se deve interromper a testemunha e nem 
restringir as possibilidades de resposta dela através de perguntas específicas inicialmente. 
Corre-se o risco de ela responder a todas as suas perguntas e não contar tudo o que sabe 
exatamente porque você não perguntou. Na entrevista, a testemunha contará a você um fato, 
de maneira espontânea e despreocupada. 
Quadro ilustrativo 
Interrogatório Entrevista 
- Policial: Quais as características do autor 
do crime? 
- Testemunha: Ele é alto, branco e magro. 
- Policial: O que você sabe sobre o cara que 
fez isso? 
- Testemunha: É o João. Ele mora ali na rua 
de baixo, trabalha no açougue do Zé. O João 
é alto, branco e magro. O João é muito 
violento, ele é casado com a Joana e tem dois 
meninos, o Lucas e o Luciano. Ele mora aqui 
a vida toda e vivia brigando com o 
Marquinho, que era vizinho dele; eles até já 
saíram no braço uma vez lá no bar do 
Maurinho. Ele vivia dizendo que ia acabar 
matando o Maurinho, coitado. O João 
inclusive tá lá na casa da mãe dele agora, que 
uma amiga minha me contou que viu ele 
chegando lá, ela mora lá no bairro da ponte. 
 
Agora que você sabe o que fazer e como se comportar no local de crime e compreende como 
deverá interagir com as testemunhas, pode ir adiante para identificar quais as provas 
subjetivas que busca e como organizá-las na sua investigação criminal. 
 
 
 
Aula 3 – A dinâmica do crime conforme as provas subjetivas 
 
Você já sabe que a investigação criminal é didaticamente dividida em investigação de local e 
investigação de seguimento, e compreende que o passo inicial é se dirigir ao local de crime 
em busca da interação com testemunhas que possam viabilizar a elucidação do fato. Agora 
precisa estar ciente de quais são as perguntas que precisa responder e de como fazê-lo. 
 
3.1. A mecânica do delito 
Mecânica do crime ou dinâmica do crime nada mais é que a maneira como ele ocorreu. Qual 
foi a conduta do autor? Como ocorreu? Com que instrumentos, objetos ou armas essa conduta 
foi praticada? A completa mecânica do crime somente será alcançada através da conjugação 
das provas objetivas com as subjetivas, porque são retratos de um mesmo fato, e o relatório de 
local de crime lhe propiciará essa junção de maneira imediata, conforme você verá no 
próximo módulo. Assim como as provas objetivas levantadas através dos vestígios podem 
revelar uma dinâmica para o perito, as provas subjetivas levantadas a partir das versões das 
testemunhas podem também revelar uma dinâmica, seja igual ou diferente daquela 
determinada anteriormente. 
Embora, na prática, muitos investigadores cheguem ao local do crime preocupados em saber 
quem foi o seu autor, esse não é o aspecto mais importante, salvo na hipótese de uma possível 
prisão em flagrante. É que não basta a você saber quem praticou o crime, você precisará 
prová-lo. Portanto, a mecânica do crime é o que mais importa na investigação de local. O 
ideal é que você tenha condições de se colocar em uma posição global em relação à cena do 
crime e consiga visualizar como se ali estivesse no exato momento de sua ocorrência, para 
saber o que e como de fato o crime foi praticado, tudo isso a partir da conjugação das 
testemunhas. 
 
 
 
 
 
 
Quais são, portanto, as perguntas que você precisará responder no local de crime, a partir 
das informações das testemunhas? 
1 – O QUE ACONTECEU – colocando-se em uma posição exterior à cena do delito e 
promovendo uma montagem visual do crime como se o tivesse presenciado. 
2 – ONDE ESPECIFICAMENTE ACONTECEU – absorver as características e 
peculiaridades do local para estabelecer possibilidades e impossibilidades, formas de 
acesso, rotas de fuga, etc. 
3 – QUANDO ACONTECEU – estabelecimento do horário do crime para orientar a 
investigação. 
4 – COMO ACONTECEU – detalhes específicos e minuciosos que permitam a 
previsão de possibilidades e impossibilidades de modo a orientar a investigação. 
Para isso, é crucial você compreender que, diferentemente da rigidez e da estabilidade da 
prova objetiva, a prova subjetiva é instável e representará sempre a percepção daquela pessoa 
que prestou as informações. Não se pode falar aqui em princípio da verdade real, 
normalmente utilizado no processo penal para significar aquilo que de fato aconteceu. É que, 
em se tratando da percepção de pessoas, aquilo que de fato aconteceu será filtrado pela forma 
de visão de cada um. 
Portanto, é importante que você conheça o princípio fundamental da investigação criminal no 
que se refere às provas subjetivas. 
 
3.2. Princípio da verossimilhança x princípio da verdade real 
Nos ensinamentos clássicos do direito costuma-se dizer que o processo penal trabalha com o 
princípio da verdade real, ou seja, busca e restaura aquilo de que fato ocorreu, também 
chamado de verdade material. Nos ensinamentos do professor Damásio de Jesus: 
O processo criminal norteia-se pela busca da verdade real, alicerçando-se em regras 
como a do artigo 156, 2.º parte, do CPP, que retira o juiz da posição de expectador 
inerte da produção da prova para conferir-lhe o ônus de determinar diligências ex 
officio, sempre que necessário para esclarecer ponto relevante do processo (Silva Jr, 
2007). 
 
 
A ideia é a de que, em se tratando de aplicação do direito penal ao caso concreto e 
considerando a gravidade da sanção penal de privação de liberdade, é preciso reconstruir 
aquilo que

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