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Entrevista Psiquiátrica e História Clínica Psiquiatria e Saúde Mental – 5º Ano Faculdade de Medicina da Universidade do Porto História clínica Fontes de informação Fontes de informação Habitualmente a principal fonte de informação é o doente. Se não for o doente, deve indicar-se qual a razão Indicar nome e relacionamento com o doente das pessoas entrevistadas As informações fornecidas pelo doente e pelos vários familiares entrevistados não devem ser misturadas: deve fazer-se referência a quem prestou cada informação. Só podem ser fundidas numa estrutura única na súmula final. Identificação Nome Sexo Idade Estado civil Profissão Naturalidade Residência Conviventes Motivo Motivo de consulta Motivo de internamento Motivo de recurso ao Serviço de Urgência Indicar origem e motivo da referenciação Ex: Referenciado pelo Médico de Família (Dr. Silva - C. Saúde do Lado) por episódio depressivo grave História da doença actual Indicar sintomas: início, duração e variação ao longo do tempo Inquirir e registar presença ou ausência de sintomas que seriam esperados naquele contexto clínico Ex. ideação suicida numa depressão grave, sintomas de primeira ordem de esquizofrenia num doente com delírio Relação temporal entre sintomas e doenças físicas ou problemas psicológicos ou sociais Natureza e duração da incapacidade funcional causada pelos sintomas Tratamentos efectuados, seus efeitos terapêuticos e efeitos laterais Antecedentes familiares Pais e irmãos Idade actual (ou a data de falecimento e causa de morte) Ocupação Personalidade Relacionamento com o doente História médica e psiquiátrica Pais consanguíneos? Antecedentes familiares Posição social e eficiência geral da família Ambiente e influência familiares Quaisquer eventos extraordinários de âmbito familiar durante a infância do doente Relacionamento emocional com os pais, irmãos, etc. Quando a história familiar e complexa e relevante: sumariar num genograma Quaisquer doenças familiares, alcoolismo, personalidades anormais, doenças mentais e epilepsia História familiar Uma história familiar de doença psiquiátrica pode indicar influencias genéticas ou ambientais Uma explicação genética e mais provável para algumas patologias do que para outras e aumenta com o numero de familiares afectados Apesar de o ambiente partilhado ser, por regra, menos importante do que os genes para explicar a história familiar, o conhecimento das circunstâncias da família continua a ser uma parte básica de informação para compreender origem e apresentação dos problemas do doente Assim, deve-se inquirir sobre personalidade de pais e irmãos, relacionamento intrafamiliar e posição social da família Antecedentes pessoais Gravidez e parto Doenças da mãe durante a gravidez. Parto eutócico/distócico, de termo/prematuro, complicações no parto Alimentação materna/artificial Desenvolvimento inicial Etapas do desenvolvimento psicomotor Motricidade Linguagem Controlo de esfíncteres Infância Separação prolongada dos pais e reacção a esta Problemas emocionais na infância: idade de início, evolução e tratamento Sintomas neuróticos na infância: terrores nocturnos, sonambulismo, crises de birra, enurese, chupar os dedos, roer as unhas, caprichos alimentares, gaguez, etc. Saúde durante a infância Desenvolvimento infantil O conhecimento das etapas de desenvolvimento é particularmente importante quando se trata de uma criança ou um adolescente ou numa situação clínica de atraso mental O temperamento, anomalias e ou atrasos podem ser factores de risco ou sinais precoces de perturbação No entanto, as características na infância são, em regra, fracos preditores de perturbações no adulto Apenas requerem atenção detalhada quando se avaliam crianças e adolescentes Antecedentes pessoais Escolaridade Idade de início e fim da escolaridade Aproveitamento escolar Reprovações, motivos Existência de dificuldades de aprendizagem? Nível alcançado e idade Passatempos e interesses Relacionamento com colegas e professores Indicação de baixo nível de inteligência obtida pelos resultados escolares é relevante para o diagnóstico e prognóstico Antecedentes pessoais História ocupacional Idade do primeiro emprego Empregos anteriores (com datas e motivos de mudança) Ocupação actual Duração, desempenho e satisfação no trabalho, circunstâncias económicas, ambições Questionar sobre o Serviço Militar Obrigatório O registo do grau de êxito profissional, nível profissional atingido, frequência das mudanças de emprego, frequência e duração dos períodos de desemprego fornecem elementos sobre a capacidade do indivíduo para adaptação social, sobre estabilidade emocional e sobre as suas aptidões Antecedentes pessoais Tendências e práticas sexuais Educação sexual (como foi adquirida), masturbação, fantasias sexuais, experiências homo e heterossexuais Vida conjugal Relacionamentos afectivos anteriores Duração do conhecimento antes do casamento, duração do casamento Idade do cônjuge, profissão, saúde, personalidade Relacionamento entre o casal Relacionamento sexual, satisfação sexual Medidas anticoncepcionais Filhos Idades e ocupações, temperamento, desenvolvimento emocional, saúde física e mental Data de abortamentos ou nados-mortos História sexual O entrevistador deve usar bom senso na decisão de “quanto” vai perguntar ao individuo, dependendo da resposta as questões iniciais, factores demográficos e natureza da queixa actual Ex. uma descrição detalhada é ser essencial quando o doente vem por disfunção sexual mas, na maioria dos casos, o entrevistador pretende estabelecer genericamente se a vida sexual do doente está envolvida nas dificuldades actuais, quer como causa quer com o consequência Antecedentes pessoais Antecedentes médico-cirúrgicos: Doenças, cirurgias, acidentes Tratamentos realizados Medicação habitual Alergias Antecedentes ginecológicos e obstétricos menarca, interlúnios e cataménios, menopausa Antecedentes pessoais Antecedentes psiquiátricos Natureza, data e duração das patologias Incluir episódios de comportamentos suicidários Incluir tratamentos efectuados: data, duração, local, resultado Personalidade pré-mórbida Descrição da personalidade anterior ao início da doença mental Procurar obter o retrato de um indivíduo e não de um tipo Listas de adjectivos veiculam pouca informação e devem ser evitadas O relato de situações em que o doente se comportou de forma típica é ilustrativo e útil Personalidade pré-mórbida A identificação da personalidade prémorbida é provavelmente a tarefa mais difícil exigida pela história clínica mas é de grande importância Serão obtidos dados de importância prática a partir dos quais se pode perceber se os sintomas do doente representam um exagero de traços pre-existentes e quais são características da doença Personalidade pré-mórbida Aspectos da personalidade podem ser avaliados por: Questionando directamente o doente Perguntando a pessoas que o conhecem bem Pelo seu comportamento observado Personalidade pré-mórbida Podem surgir erros se se valorizar excessivamente a caracterização do doente da sua própria personalidade Ex. um doente deprimido pode julgar-se negativa e criticamente Ex. um indivíduo com perturbação de personalidade anti-social pode esconder o seu comportamento agressivo ou desonesto Assim é essencial obter informação colateral de outras fontes, sempre que possível Um bom indicador da personalidade pode ser obtido questionando como o doente se comportou em circunstancias particulares da sua vida, especialmente quando há mudança de papeis sociais, como casar ou começar a trabalhar Personalidade pré-mórbida Durante a entrevista o comportamento do doente e a descrição da história dão alguma indicação sobre a sua personalidade Quando se avalia a personalidade a partir do comportamento na entrevista é essencial valorizar a ansiedade que a situação pode provocar e valorizar os possíveisefeitos da perturbação psiquiátrica Quando deprimida, uma pessoa habitualmente sociável e autoconfiante pode parecer reservada e insegura Personalidade pré-mórbida Relações sociais com a família (união, dependência) com os amigos, grupos, sociedades, clubes com o trabalho e com os colegas (líder ou não, organizador, agressivo, submisso, ambicioso, ajustável, independente) Actividades intelectuais, passatempos e interesses Humor alegre ou desanimado; preocupado ou plácido; tenso ou calmo e relaxado; optimista ou pessimista; autodepreciativo ou autoconfiante; humor estável ou instável (com ou sem motivo) (estes tópicos são uma lista de sugestões e não um esquema) Personalidade pré-mórbida Carácter Atitude em relação ao trabalho e às responsabilidades sente-se satisfeito ou perturbado pelas responsabilidades; toma decisões com facilidade ou com dificuldade; improvisador e desorganizado ou metódico e meticuloso; rígido ou flexível; cuidadoso, previdente e crítico ou impulsivo e negligente; perseverante e determinado ou facilmente entediado e desencorajado Relacionamentos interpessoais autoconfiante ou tímido e envergonhado; insensível a críticas; confiante ou desconfiado e ciumento; emocionalmente controlado ou irascível e irritável; age com tacto ou é franco e rude; aprecia ou evita o autoexibicionismo; calado e retraído ou expansivo e aberto no falar e nos gestos; interesses e entusiasmos firmes ou frágeis; tolerante ou intolerante; adaptável ou inadaptável (estes tópicos são uma lista de sugestões e não um esquema) Personalidade pré-mórbida Carácter Padrões morais, religiosos, relativos a assuntos sociais e de saúde nível de aspiração elevado ou baixo; perfeccionista ou autocrítico, ou complacente em relação ao próprio comportamento e às realizações; resoluto face às dificuldades ou mal tolera as frustrações; egoísta ou altruísta; dá muita ou pouca importância à própria saúde. Energia, iniciativa enérgico ou preguiçoso; capacidade de trabalho constante ou inconstante, fatigabilidade (estes tópicos são uma lista de sugestões e não um esquema) Personalidade pré-mórbida Fantasia frequência e conteúdo dos devaneios Hábitos Alimentação Consumo de álcool Consumo de tabaco Consumo de drogas ilícitas Especificar as quantidades ingeridas actualmente e no passado Automedicação Sono Exame psíquico Comportamento e aspecto geral O comportamento e aspecto geral do doente podem transmitir informações importantes para o diagnóstico Como é o seu comportamento? Atitude e comportamento enquanto espera: está sentado tranquilamente, anda constantemente de um lado para o outro, ri-se ou fala sozinho? Quando cumprimentado como responde? Quando entra no gabinete há evidência de parkinsonismo, ataxia ou desequilíbrio? Doentes maníacos tendem a ter comportamento excessivamente familiar ou desinibido Como é o seu aspecto? Um aspecto sujo e desleixado indica negligência no cuidado pessoal. Doentes maníacos podem usar cores garridas ou vestir-se de forma incongruente Um aspecto que sugira perda recente de peso deve alertar para a possibilidade de depressão, anorexia nervos ou doença física Comportamento e aspecto geral A expressão facial dá informação sobre o humor Pode reflectir depressão, ansiedade, elação ou irritabilidade Pode sugerir doenças físicas, ex. hipertiroidismo A postura e movimento também reflectem o humor Um doente ansioso ou com depressão agitada pode estar tremulo, inquieto, tocar repetidamente nos adereços, mexer-se na cadeira Doentes maníacos estão hiperactivos e inquietos Comportamento na entrevista Doentes maníacos tendem a ter comportamento excessivamente familiar ou desinibido Doentes com esquizofrenia podem estar alheados do que os rodeia, interagindo pouco com o ambiente Doentes com perturbação de personalidade anti-social podem agir de forma agressiva Se o comportamento social for muito invulgar, este deve ser descrito (em vez de serem usados termos impreciso como bizarro) Comportamento geral Descrição completa, precisa e fidedigna, na medida do possível do comportamento observado do doente, assinalando especialmente as anomalias Pode-se considerar os seguintes aspectos ainda que não sejam exclusivos: Parece doente? Está em contacto com o ambiente em geral e em particular? Relacionamento com outros doentes, com os enfermeiros e com o médico. Como reage às várias solicitações e em situações diversas? Quais são seus gestos, trejeitos e outras expressões motoras? Tiques, maneirismos. Muita ou pouca actividade? Constante, ou abrupta e inconstante? Espontânea ou como pode ser provocada? Livre ou constrangida? Lenta, estereotipada, hesitante ou impaciente? Está tenso, rasga-se, esfrega-se? Os movimentos e atitudes têm um objectivo ou significado evidente? As percepções reais ou alucinatórias parecem modificar o comportamento? Se inactivo: Resiste a movimentos passivos? Mantém uma postura? Obedece a ordens? Demonstra consciência de tudo? Alimentação; sono; asseio. Forma como passa o dia. Se o paciente não fala, a descrição de seu exame psíquico poderá limitar-se a uma exposição cuidadosa de seu comportamento. Discurso Deve-se considerar mais a forma de expressão, como fala o doente do que o seu conteúdo A caracterização do “discurso” deve inclui informação sobre velocidade, quantidade, fluxo do discurso e eventuais dificuldades de expressão Fala muito ou pouco? Fala espontaneamente, ou apenas responde? Lenta ou rapidamente? Com ou sem hesitação? De forma precisa ou vaga? Coerente e fluentemente? Faz interrupções, silêncios súbitos, mudanças de tema? Faz comentários sobre o ambiente de forma adequada ou usa palavras estranhas, sintaxe bizarra, rimas ou trocadilhos? De que modo a forma de sua conversa varia com o tema? Discurso Velocidade e quantidade Na mania, rápido e débito aumentado Na depressão, lento, escasso e monótono Doentes deprimidos ou demenciados podem fazer uma pausa longa antes de responder às questões e faze-lo com resposta curta, com pouco discurso espontâneo Dificuldades na expressão Disfasia e disartria Fluxo do discurso Pode evidenciar alterações no curso ou forma do pensamento, nomeadamente bloqueio do pensamento ou fuga de ideias Humor Descrever a aparência do doente naquilo que for indicativo de seu estado de humor. Questionar o doente sobre “como se sente”, “qual é seu estado de espírito”, “como está seu ânimo” ou perguntas semelhantes Uma variada gama de humor poderá estar presente: não apenas alegria ou tristeza, mas manifestações tais como irritabilidade, desconfiança, medo, preocupação, inquietação, perplexidade, etc. Observe as flutuações do humor e as influências que o alteram; verifique se o estado emocional aparente do doente se harmoniza com seu próprio relato Humor Depressão e mania A avaliação do humor começa na observação do comportamento Questionar sobre pensamentos pessimistas sobre o presente, desesperança sobre o futuro e culpa sobre o passado Notar que na mania o humor pode ser eufórico ou irritável Humor Quer no humor depressivo quer hipertímico, se clinicamente relevante, são acompanhados por outras características Ex. anedonia, astenia ou dificuldades de concentração na depressão Pensamento Alterações do conteúdo do pensamento Alterações do curso do pensamento Alterações da forma do pensamento Pensamento Delírios Não se pode questionar directamente em relação aos delírios já que o doente não os reconhece como diferentes das suas restantes crenças O entrevistador deve estar alerta para a possibilidade da existência de delírios pela informação de outras pessoas ou por informação presente na história Delírios e falsas interpretações Qual é a atitude do doente com relação ao ambiente, pessoas e coisas que o cercam? Interpreta erroneamente o que acontece, dá um sentido falso ou especial ou simplesmente tem dúvidas a esse respeito? Acredita que alguém lhe presta atenção especial, o trata de modo especial, o persegueou o influencia física ou mentalmente? Riem-se dele? Evitam-no? Admiram-no? Tentam matá-lo, prejudicá-lo ou molestá-lo? Autodeprecia-se em relação à sua moral, ao seus bens, ou à sua saúde? Tem ideias de grandeza? Alucinações e outras alterações sensoperceptivas Alucinações auditivas, visuais, olfactivas, gustativas, cenestésicas Origem, intensidade, realidade, modo de recepção, conteúdo, outras circunstâncias Fenómenos obsessivo- compulsivos Pensamentos obsessivos Rituais compulsivos Orientação Avaliada perguntando ao individuo sobre o tempo, local e pessoa Se o doente não conseguir responder a estas questões básicas correctamente deve ser questionado sobre a sua própria identidade. Orientação Quase todos os doentes, quando podem responder, estão orientados quanto á sua própria pessoa. Apenas nos casos mais graves de demência e nos níveis inferiores de atraso mental o doente perde a orientação autopsíquica. Se o doente assume uma identidade delirante. Por exemplo, que é Nossa Senhora, isto não implica uma perturbação da orientação pessoal Memória Dificuldades cognitivas significativas são aparente durante a entrevista pela interacção do doente com o entrevistador e pelas respostas às questões Na avaliação de possível demência e outras doença orgânicas, a avaliação cognitiva é uma parte central e frequentemente suplementada por testes mais formais Memória Memória imediata Memória recente Memória remota Atenção e concentração A atenção é facilmente fixada e mantida? Consegue concentrar-se? Distrai-se facilmente? Testada mediante problemas aritméticos simples: subtracções sucessivas de 7 de 100, soletrar inversamente uma palavra, recitar os meses do ano em ordem inversa Inteligência e conhecimentos gerais Os testes de conhecimentos gerais devem variar acordo com o nível de instrução do doente, suas experiências e interesses Avaliar clinicamente a inteligência do doente Testes psicométricos podem ser aplicados se necessário Discernimento e julgamento Qual é a atitude do doente em relação ao seu estado actual? Considera-o resultante de uma doença mental que necessite tratamento? Como encara a sua situação actual? Como encara as suas experiências anteriores, nomeadamente de doença mental? Bibliografia Mayer-Gross, Slater, Roth. Psiquiatria Clínica. Ed. Mestre Jou, 1976 Gelder, Cowen, Harrison. Shorter Oxford Textbook of Psychiatry” 5th Ed. Oxford University Press, 2006