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AULA 2 INTELIGÊNCIA EMOCIONAL – COMPETÊNCIAS SOCIAIS E RELACIONAMENTO Profª Lucimara do Nascimento Numata 2 INTRODUÇÃO Conquistando a inteligência emocional para um melhor comportamento e prática de relacionamentos Em continuidade ao conhecimento que tivemos na etapa anterior sobre a inteligência emocional e relacional na contemporaneidade, seguiremos, agora com foco em como conquistar a inteligência emocional para o comportamento e prática de relacionamentos. Para tanto, os seguintes cinco temas conduzirão nosso entendimento sobre o assunto: 1. A importância da educação emocional 2. O autoconhecimento 3. A autoconsciência emocional 4. O lócus de controle 5. As principais características de pessoas com inteligência emocional Você terá a oportunidade de conhecer as razões pelas quais a educação emocional tem se mostrado cada vez mais importante na sociedade atual, visto que a inteligência emocional é essencial para o sucesso pessoal e profissional. Nesse sentido, o autoconhecimento é a base para o desenvolvimento da inteligência emocional, pois só é possível gerir e controlar as emoções quando se tem consciência delas, sendo que a autoconsciência emocional permite que a pessoa identifique seus próprios sentimentos e emoções e saiba como lidar com eles de forma eficaz. Pessoas com inteligência emocional são capazes de controlar suas emoções, se comunicar de forma clara e eficaz, estabelecer relacionamentos saudáveis e tomar decisões com base na razão e não na emoção. Além disso, possuem uns lócus de controle interno, ou seja, acreditam que são capazes de controlar as situações em que se encontram, o que lhes dá mais autonomia e confiança. TEMA 1 – A IMPORTÂNCIA DA EDUCAÇÃO EMOCIONAL PARA A INTELIGÊNCIA EMOCIONAL A educação emocional é uma prática que visa desenvolver habilidades socioemocionais e cognitivas para lidar com as emoções de maneira saudável e 3 efetiva. A base da inteligência emocional está justamente na educação emocional, que é capaz de proporcionar uma compreensão mais ampla e profunda das emoções, permitindo que o indivíduo tenha um melhor autoconhecimento, autocontrole e empatia, dentre outras habilidades, conforme ilustrado na Figura 1. Dessa forma, ao estudarmos esse tema, se tornará possível expandir nosso conhecimento sobre o impacto disso na vida profissional. Ou seja, a inteligência emocional se mostra fundamental para o sucesso, já que as relações interpessoais são extremamente importantes, nesse contexto. Figura 1 – A educação emocional voltada para a inteligência emocional Fonte: Elaborado por Numata, 2023, com base em Hirschle, 2017. Crédito: GoodStudio/Shutterstock. A educação emocional, portanto, é fundamental para o desenvolvimento da inteligência emocional e para aprimorar as habilidades necessárias para lidar com as emoções em diferentes contextos, inclusive no ambiente de trabalho. Investir em educação emocional é uma estratégia inteligente para melhorar a qualidade de vida, aumentar a produtividade e alcançar sucesso profissional. Hirschle (2017, p. 15) destaca a importância da educação emocional ao afirmar que “[...] aprender a lidar com as próprias emoções e compreender as emoções dos outros é fundamental para a convivência em sociedade”. Nesse mesmo sentido encontramos a contribuição de Schimidt (2006, p. 26), para quem a educação emocional é considerada uma base importante para o desenvolvimento da inteligência emocional, porque, “[...] além de propiciar o "Um indivíduo com alto grau de inteligência emocional é capaz de lidar com situações estressantes de maneira mais tranquila e eficiente, além de ter a habilidade de lidar com conflitos interpessoais, desenvolver relacionamentos saudáveis com colegas de trabalho, liderar equipes de forma mais eficaz e tomar decisões mais acertadas." (Hirschle, 2017) https://www.shutterstock.com/g/GoodStudio 4 desenvolvimento de habilidades e competências emocionais, visa promover a saúde mental e a qualidade de vida dos indivíduos”. A autora destaca ainda a importância da educação emocional desde a infância, afirmando que “o desenvolvimento emocional é um processo continuado que tem início na primeira infância” (Schimidt, 2006, p. 26). Ela argumenta que a educação emocional pode ajudar as crianças a compreender e gerenciar melhor suas emoções, desenvolver a empatia e a capacidade de lidar com conflitos de forma saudável. Além disso, o ambiente escolar é um dos principais espaços sociais em que ocorrem as interações entre indivíduos e, portanto, é um contexto privilegiado para a promoção do desenvolvimento emocional. A autora defende ainda que a educação emocional nas escolas pode ajudar os alunos a desenvolver habilidades sociais e emocionais, a reduzir a agressividade e o bullying, além de contribuir para o desempenho acadêmico. Essa base terá um efeito no contexto do trabalho, nosso foco. Assim, “a inteligência emocional é uma das competências mais valorizadas pelas empresas na atualidade” (Schimidt, 2014, p. 19). A educação emocional pode ajudar os profissionais a lidar com o estresse, a trabalhar em equipe de forma mais eficaz e a desenvolver empatia e resiliência. É também fundamental para o desenvolvimento de habilidades emocionais e relacionais, pois permite o entendimento e o gerenciamento das emoções. Segundo Schimidt (2014, p. 21), o principal objetivo da educação emocional é “[...] ajudar as pessoas a compreenderem seus próprios sentimentos e os dos outros, a lidar com situações de estresse e a construir relacionamentos positivos” (Schimidt, 2014, p. 21). Portanto, a educação emocional é uma base importante para o desenvolvimento da inteligência emocional, que pode gerar benefícios tanto para a vida pessoal quanto profissional dos indivíduos. Com base em práticas educativas que estimulem a compreensão e a gestão das emoções, é possível promover uma sociedade mais saudável, empática e cooperativa. 1.1 A educação emocional para desenvolver competências no ambiente profissional A educação emocional permite aos indivíduos desenvolver habilidades que vão além das competências técnicas, a fim de que sejam mais assertivos em suas ações e relações interpessoais. Encontramos em Silva (2018, p. 36) o destaque para a educação emocional, em que ela é tratada como algo fundamental para a 5 gestão do estresse e das emoções negativas no ambiente de trabalho. De acordo com a autora, “a educação emocional é essencial para que o indivíduo seja capaz de gerenciar suas emoções, evitando que o estresse e as emoções negativas afetem seu trabalho e relacionamentos interpessoais”. Diretamente ligado a isso está a condição de potencializar positivamente o desempenho profissional e a qualidade de vida do indivíduo no contexto organizacional, conforme a representação da Figura 2 a seguir. Figura 2 – Educação emocional e as competências para o trabalho Fonte: Elaborado por Numata, 2023, com base em Silva, 2018. A educação emocional exerce um forte papel na construção de relações interpessoais mais saudáveis e produtivas, no ambiente de trabalho. Ao desenvolver a inteligência emocional, os indivíduos são capazes de compreender e respeitar as emoções dos outros, o que resulta em um ambiente de trabalho mais colaborativo e positivo. Por meio da compreensão das emoções dos colaboradores, o líder é capaz de identificar e atender a suas necessidades emocionais, o que resulta em maior engajamento e produtividade, possibilitando assim a construção de equipes de trabalho mais produtivas e motivadas. Por fim, a educação emocional é um processo contínuo e que deve ser desenvolvido ao longo de toda a vida profissional, permitindo que os indivíduos se adaptem às mudanças e desafios do ambiente de trabalhoe continuem evoluindo em suas carreiras (Silva, 2018, p. 125). Portanto, fica evidente a importância da educação emocional no contexto do trabalho, não só para o desenvolvimento de competências essenciais, mas também para a gestão de emoções, a construção de relações interpessoais positivas, o desenvolvimento de lideranças eficazes e Relações Interpessoais Liderança Gestão das Emoções Carreira 6 da capacidade de adaptação às mudanças e desafios do ambiente profissional. Destacamos ainda a importância da educação emocional para a formação de indivíduos críticos e reflexivos, capazes de tomar decisões conscientes e construtivas. Para Schimidt, (2014, p. 25) “o desenvolvimento das habilidades emocionais é um processo contínuo que deve ser iniciado na infância e que se estende por toda a vida”. Seguiremos, então, ampliando nosso conhecimento de como é possível alcançarmos as competências relacionais para o contexto do trabalho, tendo no autoconhecimento algo fundamental nesse processo. TEMA 2 – O AUTOCONHECIMENTO A obra Sapiens: uma breve história da humanidade é um livro escrito pelo historiador e filósofo israelense Yuval Noah Harari (2015), publicado originalmente em 2011. A obra apresenta uma visão panorâmica da história da humanidade, desde a evolução dos primeiros hominídeos até a atualidade, abordando aspectos culturais, políticos, econômicos e biológicos que influenciaram a trajetória da espécie humana. Nela, Harari (2015) discute o papel do autoconhecimento na evolução humana, destacando como a capacidade de refletir sobre si mesmo e sobre o mundo foi fundamental para a criação de sociedades mais complexas e organizadas: O autoconhecimento é a chave da compreensão das mentes humanas e, portanto, da história humana. Qualquer pessoa que queira compreender o comportamento humano, desde o que se passa dentro de sua própria mente até os movimentos de massa que transformam o mundo, precisa conhecer a história do autoconhecimento. (Harari, 2015, p. 217) A afirmação é bastante pertinente, uma vez que o autoconhecimento é de fato um elemento essencial para a compreensão das mentes humanas e da história humana como um todo. Ele foi o que permitiu que os seres humanos se tornassem capazes de compreender e transformar a realidade a sua volta. O autor explora, em seus estudos, como o autoconhecimento foi influenciado por questões culturais, religiosas e filosóficas, ao longo da história. As histórias que contamos a nós mesmos e aos outros têm uma grande influência sobre o autoconhecimento humano. Elas podem nos ensinar a nos ver como indivíduos únicos, como membros de grupos coletivos, como partes de uma natureza divina ou como marionetes da biologia. (Harari, 2015, p. 26) 7 Tais reflexões sobre o autoconhecimento contribuem para uma compreensão mais profunda do ser humano e da sua trajetória na Terra. Além disso, é possível compreender como diferentes sociedades e culturas encararam o autoconhecimento e como isso impactou em sua visão de mundo e em suas realizações históricas. Portanto, a compreensão do autoconhecimento é um elemento-chave para quem deseja entender o comportamento humano e a história humana de forma mais profunda e abrangente. Em um contexto mais específico, o autoconhecimento é um aspecto crucial para o sucesso profissional e para o desenvolvimento pessoal. Ana Artigas (2019), no livro Inteligência relacional: uma abordagem inovadora para a gestão de pessoas, nos revela que saber quem somos, reconhecer nossos pontos fortes e limitações e identificar nossos valores são fundamentais para se alcançar a excelência na carreira. A autora enfatiza que a inteligência relacional, tema que será aprofundado por nós posteriormente, é a capacidade de gerir as emoções, as relações e as interações com os outros; e isso depende, em grande parte, do autoconhecimento. Para ela, “a partir do momento em que passamos a nos conhecer melhor, podemos compreender nossas próprias emoções e, consequentemente, desenvolver a empatia e a capacidade de se colocar no lugar do outro” (Artigas, 2019, p. 53). Além disso, o autoconhecimento é essencial para o desenvolvimento da resiliência, que é a capacidade de lidar com situações difíceis e de superar obstáculos. Como afirma Artigas (2019, p. 89), “a resiliência está diretamente ligada ao autoconhecimento, pois é preciso saber quais são as nossas forças e fraquezas para enfrentar os desafios e superá-los”. 2.1 A prática do autoconhecimento no contexto profissional A prática do autoconhecimento é essencial em diversos aspectos da vida, e o ambiente de trabalho não é exceção a isso. Saber quem somos, quais são nossos valores, crenças, pontos fortes e fracos pode ser a chave para desenvolvermos habilidades necessárias para o nosso sucesso profissional. Hirschle (2017, p. 38) contribui, em seus estudos, para dar relevância a esse tema, ao considerar que “o autoconhecimento é o primeiro passo para o autodesenvolvimento emocional. Ele envolve a capacidade de perceber e compreender suas emoções, suas forças e fraquezas, bem como seu impacto sobre os outros e sobre si mesmo”. 8 Dessa forma, o autoconhecimento nos permite identificar nossos limites, necessidades, desejos e motivações. Ele nos ajuda a entender como nos sentimos em diferentes situações e a tomar decisões que estejam alinhadas com nossos valores e objetivos. Na prática, segundo o autor: O autoconhecimento é essencial para lidar com emoções intensas e lidar com situações estressantes. Quando conhecemos nossos gatilhos emocionais e sabemos como reagimos diante deles, podemos tomar medidas preventivas e implementar estratégias para lidar com eles de forma mais eficaz. (Hirschle, 2017, p. 78) Nesse contexto, o autoconhecimento também é fundamental para o desenvolvimento de liderança. Quando os líderes conhecem seus próprios pontos fortes e fracos, eles podem construir equipes eficazes, delegar tarefas apropriadas e gerenciar conflitos de maneira construtiva (Hirschle, 2017, p. 124). Consenza (2021) também destaca a importância do autoconhecimento para a vida profissional. Segundo o autor, o autoconhecimento permite que as pessoas entendam melhor suas motivações, interesses e necessidades, o que possibilita a escolha de uma carreira mais adequada e satisfatória. Ele nos revela ainda que o autoconhecimento pode oferecer benefícios para a vida cotidiana, especialmente para a tomada de decisões. Ele destaca que, ao conhecermos melhor nossos padrões de pensamento e comportamento, somos capazes de fazer escolhas mais conscientes e alinhadas com nossos valores e objetivos (p. Consenza, 2021, p. 81). Hirschle (2017) e Consenza (2021) concordam que o autoconhecimento e a autopercepção são aspectos essenciais para o desenvolvimento emocional e podem ser aprimorados por meio de técnicas específicas, que são demonstradas no Quadro 1 a seguir. Quadro 1 – Técnicas para o aprimoramento do autoconhecimento Hirschle (2017) Consenza (2021) As técnicas envolvem a prática da atenção plena (mindfulness), a identificação e a expressão das emoções, a mudança de crenças e padrões de pensamento disfuncionais, a resolução de conflitos interpessoais e a promoção da empatia e da compaixão. A meditação mindfulness pode ser uma ferramenta para o autoconhecimento, ajudando o indivíduo a identificar e gerenciar as emoções de forma mais efetiva. A prática de mindfulness pode melhorar a autorregulação emocional, reduzir o estresse e aumentar a resiliência emocional. 9 Uso da técnica de reestruturação cognitiva, que consiste em identificar e questionar pensamentos negativos e substituí-los por pensamentos mais positivos e realistas. Exercícios de autoconsciência emocional, como a prática do diário emocional, que é uma ferramenta que permite ao indivíduo a reflexão e o registro desuas emoções ao longo do dia, identificando gatilhos emocionais e padrões de comportamento que possam afetar sua saúde emocional. Fonte: Hirschle, 2017; Consenza, 2021. Tanto Hirschle (2017) quanto Consenza (2021) enfatizam a importância do autoconhecimento e da utilização de ferramentas para esse fim. Hirschle (2017) destaca a relevância do diário emocional para reconhecer, compreender e lidar com as emoções no dia a dia, além de propiciar um maior entendimento do indivíduo sobre si mesmo. Já Consenza (2021), além do diário emocional, sugere a prática de mindfulness e meditação como ferramentas eficazes para o autoconhecimento e equilíbrio emocional. Ambos os autores afirmam que o autoconhecimento é fundamental para lidar com situações cotidianas de forma mais consciente e assertiva, além de isso contribuir para o desenvolvimento pessoal e profissional. Dentre as inúmeras ferramentas para o autodesenvolvimento, merece nossa menção a roda da vida. De acordo com Carolina Souza (2021), em seu livro Desenvolvimento humano: ferramentas de coaching e psicologia positiva, a roda da vida é uma ferramenta simples e eficaz para promover o autoconhecimento e identificar áreas da vida que precisam de mais atenção e equilíbrio. A autora sugere que a roda seja dividida em áreas importantes da vida, como carreira, relacionamentos, saúde, finanças, entre outras (Souza, 2021, p. 82), conforme a Figura 3 a seguir. 10 Figura 3 – Roda da vida como ferramenta para o autoconhecimento Fonte: Elaborado por Numata, 2023, com base em Souza, 2021. Para utilizar a roda da vida, Souza (2021) sugere que a pessoa avalie o seu grau de satisfação em cada área, atribuindo uma nota de 0 a 10. Em seguida, ela deve conectar os pontos para formar uma figura que mostrará o nível de equilíbrio em cada área da vida. Com base nos resultados, é possível identificar quais áreas precisam de mais atenção e esforço para se alcançar um equilíbrio satisfatório. Com base nisso, pode-se traçar um plano de ação para melhorar a qualidade de vida e a realização pessoal em diferentes áreas (Souza, 2021, p. 85). Em resumo, a roda da vida é uma ferramenta que ajuda a identificar desequilíbrios em diferentes áreas da vida e a promover o autoconhecimento. Sua utilização pode ser útil para desenvolver um plano de ação para melhorar a qualidade de vida e a realização pessoal em diversas áreas (Souza, 2021, p. 82-85). Ao atingirmos um certo estado de autoconhecimento, se faz necessário que a autoconsciência emocional tenha um foco e, em nosso caso, esse objetivo encontra-se no contexto do trabalho. Dessa forma, avançaremos agora para o Tópico 3, em que teremos o aprofundamento desse assunto. 11 TEMA 3 – A AUTOCONSCIÊNCIA EMOCIONAL COM FOCO NOS OBJETIVOS Goleman (2013) discute a importância da consciência emocional na capacidade de manter o foco e atingir objetivos. Segundo o autor, a consciência emocional é a habilidade de reconhecer e compreender as próprias emoções e como elas afetam o pensamento e o comportamento. Dessa forma, é essencial que tenhamos o conhecimento de que a consciência emocional não é uma habilidade inata, mas pode ser desenvolvida por meio de práticas como a meditação e o mindfulness, que ajudam a aumentar a atenção plena. Um exemplo de aplicação da consciência emocional é a habilidade de identificar e lidar com emoções negativas, como a raiva. Ao reconhecermos a emoção da raiva em nós mesmos, podemos controlar nossa resposta a ela, ao invés de reagir contra isso impulsivamente e nos causar danos irreparáveis. Goleman (2013, p. 89) cita o caso de um pai que, ao ser provocado pelo filho, optou por se afastar e se acalmar antes de lidar com a situação, evitando uma reação impulsiva que poderia prejudicar a relação entre eles. Outro exemplo é a habilidade de reconhecer as emoções dos outros, ou seja, de percebermos o estado emocional de alguém, o que no possibilita nos adaptar melhor a uma situação e responder a ela de maneira mais apropriada. Goleman (2013, p. 115), nesse sentido, menciona o caso de um líder que, ao perceber a frustração e desmotivação de sua equipe, busca uma solução para resolver o problema e motivar seus colaboradores, ao invés de ignorar a situação e prejudicar o desempenho do grupo. Isso é especialmente importante no contexto do trabalho, em que a compreensão das emoções dos colegas e clientes pode ser crucial para o sucesso organizacional. A capacidade de focar é fundamental para se alcançar metas e objetivos de carreira, e é preciso ter uma visão clara do que se quer alcançar, definindo-se metas específicas e estabelecendo-se um plano de ação para alcançá-las, como nos revela a Figura 4, a seguir. 12 Figura 4 – O foco nos objetivos, para o alcance dos resultados Fonte: Elaborado por Numata, 2023, com base em Goleman, 2013. Foco não é apenas você dizer sim para o que precisa focar; é dizer não às centenas de outras coisas que existem. A chave para o sucesso é concentrar a mente em coisas importantes, pois aqueles que conseguem manter o foco em seus objetivos por longos períodos de tempo podem alcançar grandes feitos, mesmo quando enfrentam obstáculos formidáveis. Assim, a liderança deve ter capacidade de manter o foco nos objetivos, apesar das distrações, para que possa fazer progresso em projetos complexos. A habilidade de gerenciar emoções é importante para manter o foco durante o tempo necessário para se alcançar os objetivos de maneira a guiar as equipes rumo a objetivos bem definidos, para o alcance do sucesso profissional (Goleman, 2013). Por fim, para manter o foco, é importante desenvolver habilidades como de gestão do tempo e da pressão e resiliência emocional, que ajudam a manter o equilíbrio e a motivação para alcançar os objetivos. Com a consciência emocional, é possível desenvolver habilidades para lidar com situações desafiadoras e manter a motivação e a disciplina necessárias para se alcançar objetivos de carreira. Manter o foco e guiar equipes rumo a objetivos bem definidos Manter o foco durante o tempo necessário para alcançar os objetivos Manter o foco nos objetivos, apesar das distrações Manter o foco nos objetivos por longos períodos de tempo Concentrar a mente em coisas importantes 13 3.1 A autoconsciência para a satisfação no trabalho O tema da autoconsciência emocional é abordado em diversos estudos sobre inteligência emocional e sua relação com diferentes aspectos da vida, como sucesso pessoal, social, acadêmico e profissional. Pusch (2015) destaca, em sua pesquisa Inteligência emocional e satisfação no trabalho: um estudo com trabalhadores de uma empresa de serviços, a influência direta que há da inteligência emocional na satisfação no trabalho. Esse estudo foi realizado com 155 trabalhadores, que responderam a um questionário que avaliava a inteligência emocional, a satisfação no trabalho e outras variáveis relacionadas ao trabalho. A sua coleta de dados se deu por meio de: • Inteligência emocional: medida por intermédio do inventário de inteligência emocional de Bar-On (1997), que avalia as seguintes dimensões: intrapessoal, interpessoal, de adaptabilidade, de tomada de decisão e de manejo do estresse. • Satisfação no trabalho: medida por meio do questionário de satisfação no trabalho S20/23, que avalia a satisfação em relação ao trabalho como um todo, aos colegas de trabalho, ao supervisor, à remuneração, à promoção, ao reconhecimento e à natureza do trabalho. Na Figura 5 temos os principais resultados da pesquisa. Figura 5 – O foco nos objetivos, para o alcance dos resultados Fonte: Elaborado com base em Pusch, 2015. A inteligência emocional está positivamente relacionada com a satisfação no trabalho. Quanto maior o nível de inteligência emocional dos trabalhadores, maior a sua satisfaçãono trabalho. A inteligência emocional pode influenciar diretamente a satisfação no trabalho e, consequentemente, a produtividade e a qualidade dos serviços prestados pela empresa. 14 Os resultados indicam que as organizações podem desenvolver programas de treinamento e desenvolvimento de inteligência emocional para seus funcionários, visando à melhoria da satisfação no trabalho e ao alcance de melhores resultados empresariais. Crédito: Buravleva stock/Shutterstock. Diante desse contexto, seguiremos ampliando nosso conhecimento, voltando-nos agora para o lócus de controle como pilar da habilidade socioemocional. TEMA 4 – LÓCUS DE CONTROLE PARA A HABILIDADE SOCIOEMOCIONAL O conceito de lócus de controle surge em uma teoria desenvolvida por Julian Rotter (citado por Feldman, 2015) em 1954, que se refere à crença das pessoas na capacidade de controlar os eventos de suas vidas. Segundo Feldman (2015), o lócus de controle é uma crença que as pessoas têm sobre a capacidade que têm de influenciar os eventos que ocorrem em suas vidas. O autor explica que existem dois tipos de lócus de controle, o interno e o externo, vide a Figura 6 a seguir. https://www.shutterstock.com/g/Buravleva_stock 15 Figura 6 – Lócus de controle interno e lócus de controle externo Fonte: Elaborado por Numata, 2023, com base em Feldman, 2015. Créditos: GoodStudio/Shutterstock; VectorMine/Shutterstock. Em resumo, o lócus de controle se refere à percepção que as pessoas têm sobre a capacidade que têm de influenciar os eventos que ocorrem em suas vidas, sendo o lócus de controle interno associado a uma maior sensação de controle pessoal e o lócus de controle externo associado a uma maior sensação de falta de controle pessoal. Na publicação Inteligência emocional no trabalho, Guebur, Vieira e Poletto (2007) apresentam uma revisão teórica sobre o conceito de inteligência emocional e sua relação com o ambiente de trabalho. Os autores destacam a importância da inteligência emocional para o desempenho profissional e a satisfação no trabalho, citando estudos que mostram essa relação positiva. Dentre os temas da publicação, os autores discutem a influência do lócus de controle na inteligência O lócus de controle interno se refere à crença de que os eventos são causados por fatores internos, como habilidades pessoais, esforços e decisões próprias. Pessoas com lócus de controle interno tendem a acreditar que têm um papel ativo na vida e são capazes de influenciar o curso dos eventos que ocorrem em suas vidas. O lócus de controle externo se refere à crença de que os eventos são causados por fatores externos, como sorte, destino, outras pessoas ou forças sobrenaturais. Pessoas com lócus de controle externo tendem a acreditar que têm pouco controle sobre os eventos que ocorrem em suas vidas e que sua vida é determinada por fatores externos. https://www.shutterstock.com/g/GoodStudio https://www.shutterstock.com/g/normaals 16 emocional, apresentando estudos que mostram que pessoas com lócus de controle interno tendem a ter um nível mais elevado de inteligência emocional. Mayer, Caruso e Salovey (2002, citados por Guebur; Vieira; Poletto, 2007), encontraram uma correlação positiva entre a inteligência emocional e o lócus de controle interno. O estudo sugere que pessoas com lócus de controle interno tendem a ser mais conscientes de suas emoções e, portanto, mais capazes de gerenciá-las de forma eficaz. Outro estudo é o de Spector e O’Connell (1994, citados por Guebur; Vieira; Poletto, 2007), que também encontrou uma correlação positiva entre o lócus de controle interno e a inteligência emocional, sugerindo que pessoas com lócus de controle interno tendem a ser mais eficazes em lidar com as suas emoções e a usar suas habilidades emocionais para resolver problemas e enfrentar desafios. Concluímos, com isso, que o lócus de controle é um fator importante a ser considerado no desenvolvimento da inteligência emocional e que as pessoas com lócus de controle interno podem ter uma vantagem no desenvolvimento dessas habilidades. Para tanto, destacamos a importância de se treinar e desenvolver a inteligência emocional em todos os funcionários de uma organização, independentemente do seu lócus de controle, a fim de melhorar o desempenho e a satisfação no trabalho. Seguimos adiante para o tópico final desta etapa, que tratará de evidenciar as principais características de pessoas com inteligência emocional, cuja habilidade lhes permite serem mais eficazes em lidar com as emoções e os desafios e situações estressantes, além de mais empáticas e assertivas nas suas relações. TEMA 5 – AS PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DE PESSOAS COM INTELIGÊNCIA EMOCIONAL A inteligência emocional é uma habilidade fundamental para lidar com as emoções de forma eficiente, tanto nas relações pessoais quanto profissionais. Ter inteligência emocional permite que as pessoas reconheçam suas próprias emoções, compreendam e respeitem as emoções dos outros e sejam capazes de lidar com conflitos e situações difíceis de forma adequada. 17 Figura 7 – Características das pessoas com inteligência emocional Fonte: Elaborado por Numara, 2023, com base em Antunes, 2008; Hirschle, 2017. Créditos: GoodStudio/Shutterstock; VectorMine/Shutterstock; Bsd studio/Shutterstock; Mary Long/Shutterstock; VectorMine/Shutterstock. No contexto profissional, a inteligência emocional é especialmente importante, pois as emoções estão presentes em todas as interações entre as pessoas. Profissionais com alta inteligência emocional são capazes de lidar com situações estressantes, gerenciar conflitos, comunicar-se de forma clara e assertiva, trabalhar bem em equipe, resolver problemas e tomar decisões de forma mais eficaz. Além disso, a inteligência emocional é uma habilidade importante para o exercício da liderança, já que líderes precisam ser capazes de inspirar e motivar suas equipes. Antunes (2008) apresenta algumas das principais características de pessoas com inteligência emocional, como: • Autoconhecimento: capacidade de identificar e compreender suas próprias emoções, bem como seus efeitos sobre si mesmas e sobre os outros. • Autogerenciamento: capacidade de controlar suas emoções e comportamentos, gerenciando de forma adequada as situações que se apresentam. Pessoas com inteligência emocional Autoconhecimento Autogerenciamento Empatia Habilidades sociais https://www.shutterstock.com/g/GoodStudio https://www.shutterstock.com/g/normaals https://www.shutterstock.com/g/bsdvector https://www.shutterstock.com/g/MaryLong https://www.shutterstock.com/g/MaryLong https://www.shutterstock.com/g/normaals 18 • Empatia: capacidade de entender e se colocar no lugar do outro, compreendendo seus sentimentos e necessidades. • Habilidade social: capacidade de se relacionar de forma efetiva com os outros, estabelecendo e mantendo relacionamentos saudáveis e produtivos. Dessa forma, a inteligência emocional envolve a capacidade de lidar com emoções negativas e estressantes, bem como a capacidade de desenvolver habilidades de resiliência e adaptação diante de mudanças e adversidades. Além disso, pode ser desenvolvida e aprimorada ao longo do tempo, por meio de práticas e treinamentos específicos. Hirschle (2017, p. 49-59), em sua obra Manual de orientação e autodesenvolvimento emocional, nos indica algo parecido ao que já mencionamos, como as principais características das pessoas com inteligência emocional: • Autoconhecimento emocional: a capacidade de as pessoas reconhecerem e compreenderem suas próprias emoções, bem como seus efeitos sobre si mesmas e sobre os outros. • Autocontrole emocional: a habilidade de elas regularem suas emoções de forma apropriada, evitando reações impulsivas ou desproporcionais. • Empatia:a capacidade de as pessoas se colocarem no lugar das outras, compreenderem seus sentimentos e perspectivas e responderem a eles de forma adequada. • Habilidade para lidar com relacionamentos interpessoais: a habilidade de se comunicar efetivamente, resolver conflitos, trabalhar em equipe e estabelecer relacionamentos saudáveis e duradouros. Essas características são importantes porque permitem que as pessoas com inteligência emocional lidem melhor com suas próprias emoções e com as emoções dos outros, o que pode lhes gerar benefícios tanto no âmbito pessoal quanto profissional. Por exemplo, elas podem ser mais eficazes na resolução de conflitos, na liderança de equipes, na negociação, na tomada de decisões e na construção de relacionamentos positivos e duradouros. Além disso, a inteligência emocional também pode estar associada a uma melhor saúde mental e física, bem como a uma maior satisfação com a vida. 19 Em concordância com isso, Hirschle (2017) e Artigas (2019, p. 12-14) defende que pessoas com inteligência emocional apresentam características como a capacidade: de se autoconhecerem, de compreenderem as emoções dos outros, de regularem as suas próprias emoções e de se comunicarem de forma assertiva e empática; de resolverem conflitos de forma saudável; de construírem relacionamentos duradouros; de trabalharem bem em equipe; de lidarem com situações difíceis de forma equilibrada; de serem mais adaptáveis às mudanças. Artigas (2019, p. 18) argumenta que a inteligência relacional é uma das poucas habilidades que pode nos diferenciar das máquinas, uma vez que as tecnologias avançadas já são capazes de realizar tarefas cognitivas e analíticas. Segundo a autora, a inteligência relacional nos ensina a interagir de forma adequada com as pessoas, a entender suas emoções e necessidades, a estabelecer relações de confiança e empatia e a criar um ambiente de trabalho mais colaborativo e produtivo. Essa habilidade é fundamental para o sucesso em ambientes de trabalho cada vez mais complexos e dinâmicos, nos quais as relações interpessoais são vitais para o atingimento de objetivos comuns. Assim, concluímos nossos estudos sobre a inteligência emocional para o comportamento e prática de relacionamentos entendendo que a inteligência emocional é um conceito cada vez mais relevante nos relacionamentos, sejam eles pessoais, sejam profissionais. Isso porque, além de lidar com nossas próprias emoções, é importante compreender as emoções dos outros e se relacionar com isso de forma saudável e produtiva. A importância da educação emocional está diretamente ligada à inteligência emocional. É preciso que, desde cedo, as pessoas sejam ensinadas a lidar com suas emoções e a compreender os sentimentos dos outros. Isso contribui para o desenvolvimento de habilidades como o autoconhecimento e a autoconsciência emocional. Enfim, desenvolver a inteligência emocional é fundamental para uma vida pessoal e profissional mais satisfatória e produtiva. O autoconhecimento, a autoconsciência emocional, o lócus de controle e as principais características de pessoas com inteligência emocional são elementos importantes para aprimorar essa habilidade. Vale ressaltar que a inteligência emocional pode ser desenvolvida e aprimorada ao longo do tempo, por meio de práticas e treinamentos específicos. 20 REFERÊNCIAS ARTIGAS, A. Inteligência relacional: uma abordagem inovadora para a gestão de pessoas. São Paulo: Editora Gente, 2019. BAR-ON, R. Bar-On Emotional Quotient Inventory (EQ-i): Technical Manual. Toronto: Multi-Health Systems, 1997. CONSENZA, R. M. 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