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<p>Copyright © da autora</p><p>Todos os direitos garantidos. Qualquer parte desta obra pode ser</p><p>reproduzida, transmitida ou arquivada, desde que levadas em</p><p>conta os direitos do autor.</p><p>Diagramação e capa</p><p>Déborah Letícia Ferreira de Sousa</p><p>Revisão</p><p>Patricia Ormastroni Iagallo</p><p>Conselho Editorial</p><p>Prof. Dr. Nefatalin Gonçalves Neto (UFRPE, Brasil)</p><p>Profa. Dra. Cristiane Navarrete Tolomei (UFMA, Brasil)</p><p>Comitê Científico</p><p>Profa. Dra. Cristina Bongestab (UEPB, Brasil)</p><p>Prof. Dr. José Alberto Miranda Poza (UFPE, Brasil)</p><p>Prof. Dr. Ivo Di Camargo Junior (SME-Ribeirão Preto-SP, Brasil)</p><p>Prof. Dr. Marcelo Medeiros (UEPB, Brasil)</p><p>Dados Internacionais da Catalogação na Publicação (CIP)</p><p>L847q Lonardoni, Marinês.</p><p>Quandro brilha a esperança : Do cego de Jericó a Bartimeu</p><p>- um intinerário para superar traumas e sofrimentos / Marinês</p><p>Lonardoni. – São Paulo: Mentes Abertas, 2021.</p><p>114 p. : il. color.</p><p>Inclui bibliografia.</p><p>ISBN 978-65-87069-83-8</p><p>1. Literatura brasileira. 2. Esperança. 3.</p><p>Autoconhecimento. 4. Superação. I. Título.</p><p>21 ed. CDD 248</p><p>Elaborada por Giulianne Monteiro Pereira CRB 15/714</p><p>...pela graça de Deus, sou o que sou” (1 Cor 15, 10)</p><p>Todo encontro é sempre uma promessa. Promessa de uma</p><p>nova semente a ser plantada no terreno do coração, para fru-</p><p>tificar laços de amor, de amizade... Se hoje o jardim de minha</p><p>vida oferece flores e perfume, é porque souberam cativar meu</p><p>coração, me ensinaram que é preciso lançar a semente na ter-</p><p>ra, esperar que a planta cresça e, nas primaveras, floresça e dê</p><p>frutos segundo seus dons. Ser quem sou é resultado das mãos</p><p>de muitas jardineiras que emprestaram seu tempo e sua sabe-</p><p>doria no plantio da sementeira do jardim de minha existência.</p><p>Gratidão!</p><p>INTRODUÇÃO – 11</p><p>CAPÍTULO I – 17</p><p>Bartimeu: porta-voz da esperança</p><p>CAPÍTULO II – 23</p><p>Passo 1: Aceitar a realidade</p><p>CAPÍTULO III – 29</p><p>Passo 2: Conhecer a realidade que o(a) serca</p><p>CAPÍTULO IV – 33</p><p>Passo 3: Ter atitude</p><p>CAPÍTULO V – 41</p><p>Passo 4: Livrar-se das crenças limitantes</p><p>CAPÍTULO VI – 53</p><p>Passo 5: Dizer “não”</p><p>CAPÍTULO VII – 73</p><p>Passo 6: Saber em quem confiar</p><p>CAPÍTULO VIII – 69</p><p>Passo 7: Ter coragem para mudar sua história</p><p>CAPÍTULO IX – 75</p><p>Passo 8: Comande seu navio</p><p>CAPÍTULO X – 81</p><p>Passo 9: Ter fé</p><p>CAPÍTULO XI – 91</p><p>Passo 10: Ter um coração grato</p><p>CAPÍTULO XII – 99</p><p>Despoluir o coração e dar lugar à esperança</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS – 107</p><p>REFERÊNCIAS – 111</p><p>Marinês Lonardoni | 11</p><p>Só quem vive bem os agostos é merecedor da primavera!</p><p>Lembro-me bem. Foi quando julho se foi, que um vento</p><p>mais gelado, mais destemperado, que arrastava ainda folhas</p><p>deixadas pelo outono, me disse algumas verdades. Conven-</p><p>ceu-me de que o céu começaria a apresentar metamorfoses</p><p>avermelhadas. Que a poeira levantada por ele daria lições</p><p>de que as coisas nem sempre ficam no mesmo lugar e que é</p><p>preciso aceitar que a poeira só assenta depois que os rede-</p><p>moinhos se vão.</p><p>Foi quando julho se foi que a minha solidão me convidou</p><p>para uma conversa. E me contou de tempo de esperas. E</p><p>me disse que o barulho das árvores tinha algo a dizer sobre</p><p>aceitação. E eu fiquei pensando como elas, as árvores, acei-</p><p>tam as estações que, se as estremecem, também lhes flores-</p><p>cem os galhos. Mas tudo a seu tempo. Foi em agosto que</p><p>descobri que os cachorros loucos são, na verdade, os uivos</p><p>que não lançamos ao vento. São nossos estremecimentos</p><p>particulares que a nossa rigidez de certezas não nos permite</p><p>encarar.</p><p>O mês de agosto tem muito a ensinar. Porque agosto é mês</p><p>12 | Quando brilha a esperança</p><p>jardineiro, é dentro dele, berço do inverno, que as sementes</p><p>dormem. Aguardam seu tempo de brotar. Agosto é guar-</p><p>dador da boa-nova, preparador de flores. Agosto é quando</p><p>Deus deixa a natureza traduzir visivelmente o tempo das</p><p>mutações.</p><p>Mude, diz agosto, em seu recado de sementes. Aceite, diz</p><p>agosto, com seu jeito frio de vento que levanta poeira e a</p><p>faz avermelhar o céu. Compartilhe, diz agosto. Agasalhos,</p><p>sopas quentinhas, cafés com chocolate, abraços mais aper-</p><p>tados – eles também aquecem a alma e aninham o corpo.</p><p>Distribua mais afetos, que inverno é acolhimento, é tempo</p><p>de preparar setembro. E, de setembro, todos sabemos o que</p><p>esperar. Esperamos a arrebentação das cores, que com seus</p><p>mais variados nomes vêm em forma de flores.</p><p>Vamos apreciar agosto, recebê-lo com o espanto feliz de</p><p>quem não desafia ventos. Que ele desarrume e espalhe suas</p><p>folhas e levante suas poeiras. Aceite as esperas, mas coloque</p><p>floreiras na janela. Só quem vive bem os agostos é merece-</p><p>dor da primavera! (Miryan Lucy de Rezende)1</p><p>Nos últimos meses, a estação do inverno decidiu fazer</p><p>morada entre nós e se esqueceu de dizer adeus, como</p><p>de costume. O inverno, enquanto estação, dura, no</p><p>máximo, três meses, mas a pandemia o fez ampliar-se e assu-</p><p>miu uma nova identidade: passou a chamar-se Covid-19. Para</p><p>a grande maioria das pessoas, não podemos imaginar uma me-</p><p>táfora que melhor se adeque à experiência que nos surpreendeu</p><p>em pleno verão: verão estação e verão da vida. Da noite para o</p><p>dia, fomos obrigados a vivenciar o isolamento social, a convier</p><p>com o medo, com as perdas de pessoas queridas, relacionamen-</p><p>tos, emprego e, em alguns casos, até da esperança.</p><p>1 Disponível em: https://blogs.correiobraziliense.com.br/consultoriosentimental/so-quem-</p><p>vive-bem-os-agostos-e-merecedor-da-primavera. Acesso em: 30 jul. 2021.</p><p>Marinês Lonardoni | 13</p><p>Como foi para você viver as realidades trazidas por</p><p>essa pandemia? Medo de ser contaminado pelo vírus, medo</p><p>de morrer e/ou de perder pessoas da família...? Se tiver perdi-</p><p>do um ente querido, parente, amigo(a), como tem sido passar</p><p>por essa experiência? Como está seu coração frente a todos os</p><p>eventos que vivenciou com sua família nesse período? Agosto</p><p>já está batendo em sua porta, para acordá-lo(a) para uma nova</p><p>primavera em sua vida ou você ainda está recolhido(a) no frio</p><p>do inverno? As palavras “esperança” e “superação” fizeram ou</p><p>fazem sentido para você ontem e hoje?</p><p>É só a partir das respostas a essas questões (e outras aqui</p><p>não explicitadas) que poderemos iniciar os processos que nos</p><p>levarão à superação de traumas e, por meio da esperança que</p><p>alicerça nossa fé, a cantar a vitória que brilha em um novo dia.</p><p>Não nos iludamos: não há vitória quando faltam fé e esperan-</p><p>ça ou quando não necessitamos empenhar esforços para supe-</p><p>rar obstáculos.</p><p>A sociedade contemporânea vivencia um processo de</p><p>avanços em todas as áreas do conhecimento, especialmente na</p><p>comunicação, no entanto, convivemos com a falta de relacio-</p><p>namentos saudáveis e experimentamos uma crescente aversão</p><p>ao sofrimento. Esses aspectos ficaram evidentes durante os pri-</p><p>meiros meses da pandemia do Covid-19, que, em muitos casos,</p><p>nos levou à negação da dor e do sofrimento, que se apresenta-</p><p>ram de maneira cruenta e inexorável em nossas vidas.</p><p>É nesse cenário que podemos situar a superação, embo-</p><p>ra isso faça parte do nosso cotidiano, pois todos os dias somos</p><p>chamados pela vida a ultrapassar grandes e pequenos obstácu-</p><p>los, podemos dizer até que essa capacidade está no DNA do</p><p>ser humano. Contudo, como qualquer outra habilidade, para</p><p>que seja um instrumento eficiente, necessitamos desenvolvê-la,</p><p>14 | Quando brilha a esperança</p><p>fortalecê-la e praticá-la no dia a dia. E um de seus nutrientes é a</p><p>esperança, irmã da fé, que todos trazemos no coração.</p><p>Somente quando fazemos brilhar o sol da esperança em</p><p>nossas vidas é que somos capazes de mudar os caminhos tra-</p><p>çados, nos habilitamos a subir, como afirma Cora Coralina, “a</p><p>montanha da vida removendo pedras e plantando flores”, e al-</p><p>cançamos a graça de percorrer os jardins floridos e perfumados</p><p>que setembro nos traz.</p><p>A Escritura nos revela inúmeros relatos de superação, tanto</p><p>no Antigo quanto no Novo Testamento. Entretanto, para mim</p><p>um dos textos mais tocantes é, a cura do cego de Jericó, que</p><p>aconteceu durante a última viagem de Jesus à cidade de Jeru-</p><p>salém, vindo de Pereia, através</p><p>dessa labuta. Seremos</p><p>resilientes.</p><p>• Paciência e perseverança. Essas duas virtudes, quando co-</p><p>locadas em prática, juntas, produzem um efeito estrondoso. A</p><p>paciência é a mãe da perseverança, e só seremos perseverantes</p><p>se andarmos de mãos dadas com a paciência. É praticamen-</p><p>te impossível discorrer sobre a temática foco sem relacioná-lo</p><p>a essas duas virtudes. Ao estudarmos a vida dos santos, por</p><p>exemplo, verificamos que eles só chegaram à santidade porque,</p><p>em determinado momento de suas vidas, desenvolveram a pa-</p><p>ciência e a perseverança. Porém, não busquemos exemplos dis-</p><p>tantes. Perto de nós, na sua vida e na minha, ao olharmos para</p><p>nossas histórias, facilmente identificaremos vestígios dessas</p><p>duas virtudes, não é mesmo? Se chegamos até aqui, foi porque,</p><p>em algum momento, a paciência e a perseverança vieram fazer</p><p>morada em nós, mesmo sem percebermos.</p><p>• Coragem. A coragem é uma virtude mais que necessária</p><p>quando desejamos uma mudança em nossas vidas. Se desmem-</p><p>brarmos a palavra coragem, veremos que ela é formada por</p><p>duas outras: cor > coração e agem > agir, que, traduzindo, seria</p><p>“agir com o coração”. Desse modo, entendemos que a coragem</p><p>Marinês Lonardoni | 59</p><p>é uma força que vem do nosso interior, por isso ela é o contrá-</p><p>rio do medo, da insegurança, da falta de fé. Aliás, a coragem</p><p>se alimenta da fé e da esperança, duas virtudes que recebemos</p><p>em nosso batismo. Quando temos coragem para realizar algo,</p><p>superar uma adversidade, por exemplo, dificilmente alcançare-</p><p>mos esse objetivo se não formos pessoas que têm fé e esperança.</p><p>A boa notícia é que podemos desenvolver essas virtudes duran-</p><p>te todo o tempo em que vivermos.</p><p>• Responsabilidade para consigo mesmo(a). Todos nós</p><p>possuímos a capacidade de nos autorresponsabilizar por</p><p>nossos atos, escolhas e ações durante a nossa existência.</p><p>Desenvolver essa competência é uma virtude essencial</p><p>para realizarmos mudanças mais profundas em nossas vidas.</p><p>E isso tem a ver com o princípio 10/90, apontado por Covey</p><p>(s/d). Para ele, apenas 10% do que vivenciamos depende exclu-</p><p>sivamente de nossas vontades. Já os outros 90% dizem respeito</p><p>ao modo como reagimos ao que nos acontece, isto é, está re-</p><p>lacionado à maneira como nos portamos e nos comportamos</p><p>frente aos fatos que nos ocorrem. Saber distinguir entre o que é</p><p>nosso e o que é dos outros, é primordial para dizer não, quando</p><p>necessário. E não permitir que os outros roubem nossos pro-</p><p>jetos e nossa paz, é uma sábia virtude. Precisamos ter claro em</p><p>nossa mente que a autorresponsabilidade está ligada às nossas</p><p>atitudes e às nossas decisões. Por isso, saber quem somos, como</p><p>somos, assumindo as responsabilidades sobre nossos atos e dei-</p><p>xando as outras pessoas assumirem suas ações, também é ter</p><p>foco.</p><p>• Saber lidar com as frustrações e as rejeições. Durante a</p><p>nossa existência, inexoravelmente passamos e passaremos por</p><p>frustrações e rejeições. Por mais que queiramos nos esconder</p><p>60 | Quando brilha a esperança</p><p>delas, a própria vida se encarregará de nos apresentá-las e, em</p><p>alguns casos, forçar-nos a desenvolver amizade com elas. Por-</p><p>tanto, o melhor que temos a fazer é nos empenhar em desenvol-</p><p>ver e adquirir uma robusta musculatura emocional, para que,</p><p>quando a frustração bater à porta, estejamos com alta imunida-</p><p>de em nossas emoções e sentimentos. O erro, a decepção, a não</p><p>realização de um sonho ou objetivo não devem nem podem</p><p>roubar nossas energias, mas nos levar ao entendimento de que</p><p>esses aspectos fazem parte de todo processo de aprendizagem a</p><p>que nos devemos submeter enquanto seres em busca de aperfei-</p><p>çoamento. Além disso, são eles que nos ajudam a crescer como</p><p>pessoas. Devemos manter a mesma postura com relação à re-</p><p>jeição: é praticamente impossível sermos aceitos por todos, em</p><p>todos os lugares e a todo tempo. O melhor é aprendermos com</p><p>essas situações e saborearmos da riqueza adquirida no cresci-</p><p>mento espiritual que delas obtivermos.</p><p>• Liberdade de escolha – o livre arbítrio. Desde que</p><p>nascemos, Deus nos deu o livre arbítrio para fazermos nos-</p><p>sas escolhas e seguirmos por caminhos retos e frutuosos ou</p><p>por caminhos inóspitos, nem sempre ricos em frutos. Por-</p><p>tanto, nossas escolhas podem resultar em ganhos ou perdas.</p><p>No entanto, o mais importante é o que fazemos com o que nos</p><p>acontece. Quando temos foco naquilo que queremos, as vitórias</p><p>são estrelas que colocamos para iluminar nosso céu em noites</p><p>sem luar e as perdas ou decepções são as pontes que constru-</p><p>ímos para atravessar os obstáculos que se nos apresentam no</p><p>decorrer de nossas vidas. Porém, só teremos estrelas e pontes</p><p>se usarmos nosso livre arbítrio de forma adequada.</p><p>Esses são alguns dos passos que poderemos, ao longo do</p><p>processo de aprendizagem, transformar em virtudes. Proposi-</p><p>Marinês Lonardoni | 61</p><p>talmente, não mencionamos a fé como uma das virtudes a se-</p><p>rem desenvolvidas, pois ela se constitui como um dos passos da</p><p>superação e, como tal, será abordada mais adiante.</p><p>O que Bartimeu teria, hoje, a nos dizer? Por mais difícil</p><p>que seja a situação ou a realidade em que estamos vivendo, pre-</p><p>cisamos focar nossa atenção e nosso empenho naquilo que é es-</p><p>sencial para nós e nossa vida. Isso nos dará a coragem e a força</p><p>para “dizer sim” à vida e “dizer não” para o que leva à morte de</p><p>nossos sonhos, de nossos projetos. E, quando Jesus passar, não</p><p>percamos a oportunidade de pedir ajuda para transformar nos-</p><p>sas realidades, pois, como diz Santo Agostinho: “Tenho medo</p><p>da graça que passa sem que eu a perceba”. Que o cego de Jeri-</p><p>có seja um espelho em nossas vidas. Se ele pôde, nós também</p><p>podemos! E nos lembremos sempre: “Deus é a resposta, não</p><p>importa a pergunta”.</p><p>Exercícios:</p><p>Você saberia enumerar as vezes em que disse “sim” para agra-</p><p>dar alguém ou parecer politicamente correto(a), mas seu co-</p><p>ração e sua mente queriam dizer “não”?</p><p>Que emoções e sentimentos nasceram dessas atitudes?</p><p>Agora, você se acha em condições de pensar mais em você</p><p>do que nos outros quando tiver de dizer “sim” ou “não” em</p><p>determinada situação?</p><p>Se ainda não se julgar capaz, pelo menos pode assumir o</p><p>compromisso de que tentará colocar em prática esse ensina-</p><p>mento de Bartimeu?</p><p>Marinês Lonardoni | 63</p><p>Jesus parou e disse: “Chamai-o”. Chamaram o cego,</p><p>dizendo-lhe: “Coragem! Levanta-te, ele te chama.”</p><p>(Mc 10, 49a)</p><p>Todo processo de superação requer, em primeiro lugar,</p><p>que saibamos reconhecer quem realmente pode nos</p><p>ajudar a vencer os obstáculos que estamos enfrentando.</p><p>Em outras palavras, precisamos saber para quem pedimos</p><p>ajuda, porque, por maior boa vontade que tenham, nem todas</p><p>as pessoas estão aptas para nos auxiliar em determinadas</p><p>circunstâncias.</p><p>Se, por acaso, estamos passando por uma enfermidade,</p><p>devemos buscar ajuda especializada na área. Nesse quesito,</p><p>vale lembrar que, dependendo da gravidade do mal, é salutar</p><p>e necessário ouvirmos mais de uma opinião, haja vista a</p><p>64 | Quando brilha a esperança</p><p>diversidade de técnicas e tratamentos ao nosso dispor na</p><p>atualidade. Se o nosso problema estiver relacionado às finanças</p><p>ou está ligado ao setor judiciário, também o auxílio deverá vir</p><p>de pessoas especializadas nas áreas correspondentes.</p><p>Saber em quem confiar e onde buscar ajuda nos livra da</p><p>murmuração e do vitimismo, atitudes mais que comuns frente</p><p>às situações difíceis. Por não termos o hábito de refletir e</p><p>analisar os fatos antes de tomar uma decisão, mais facilmente</p><p>tomamos decisões e fazemos escolhas inadequadas. Quando</p><p>isso acontece, nossa primeira reação é reclamarmos contra tudo</p><p>e contra todos. Reclamar e murmurar são atitudes próprias de</p><p>quem não sabe o caminho, de quem não sabe aonde quer chegar.</p><p>Uma atitude irmã da murmuração é a vitimização.</p><p>Dizemos “atitude irmã”, porque uma pessoa que muito reclama</p><p>dos eventos que a circundam, pode, também, se apresentar</p><p>como vítima. Todos nós, independentemente da idade, já nos</p><p>fizemos passar por vítimas em algumas situações. Isso pode ser</p><p>considerado normal, diante de um</p><p>estado de vulnerabilidade</p><p>frente a uma doença ou de um evento qualquer. O que não</p><p>podemos é permanecer nesse estado para sempre.</p><p>É comum ouvirmos alguém dizer (ou dizermos, quem</p><p>sabe?): “Isso só acontece comigo!”, “Tudo que faço dá errado!”,</p><p>e tantas outras coisas. Na verdade, quando assim procedemos,</p><p>acabamos por expor nossas crenças limitantes de desamparo,</p><p>desvalor e desamor e nada fazemos para mudar a situação.</p><p>Por isso, quando acreditamos estar aptos a exercer</p><p>determinado controle sobre nossas ações, nos tornamos</p><p>pessoas mais saudáveis e bem-sucedidas do que aquelas que</p><p>não dispõem de fé em seu potencial para operar mudanças em</p><p>suas vidas. Esse modo de agir se traduz em pessoas que têm</p><p>foco e sabem em quem confiar no momento em que passam</p><p>Marinês Lonardoni | 65</p><p>por dificuldades. Aqui, é importante nos lembrar do apóstolo</p><p>Paulo, quando nos diz: “sei em quem pus a minha confiança”</p><p>(2Tm 1, 12). Portanto, saber em quem confiar é a questão-chave</p><p>em situações especiais de nossas vidas.</p><p>Bartimeu confiava no Senhor e, por isso, não perdeu a</p><p>esperança de receber a graça da cura. Provavelmente, quando</p><p>ouviu falar de Jesus, acendeu-se uma chama em seu coração e</p><p>ele começou a nutrir em seu íntimo a convicção e a esperança</p><p>de que, um dia, poderia se encontrar com o Mestre. E quando</p><p>esse dia chegou, não titubeou.</p><p>Como vimos no capítulo anterior, ao saber que o Messisas</p><p>passava por aquele caminho, gritou com todas as suas forças,</p><p>pedindo sua ajuda. Mesmo com as pessoas ordenando que se</p><p>calasse, o cego não desistiu de seu objetivo e gritou ainda mais</p><p>alto, clamando piedade. E Jesus, movido por imenso amor e</p><p>misericórdia, ouviu o clamor daquele pobre homem, como nos</p><p>relata o evangelho: “Jesus parou e disse: Chamai-o”. Chamaram</p><p>o cego, dizendo-lhe: “Coragem! Levanta-te, ele te chama”.</p><p>Deus não é alheio aos nossos sofrimentos e dores, muito</p><p>menos se esquiva quando o invocamos em nossas aflições.</p><p>Inúmeras são as passagens bíblicas que nos revelam a ação de</p><p>um Deus sempre presente quando clamamos por ele. Uma das</p><p>mais conhecidas está no livro de Exôdo e nos diz:</p><p>O Senhor disse: “Eu vi, eu vi a aflição de meu povo</p><p>que está no Egito, e ouvi os seus clamores por causa de</p><p>seus opressores. Sim, eu conheço seus sofrimentos. E</p><p>desci para livrá-lo da mão dos egípcios e para fazê-lo</p><p>subir do Egito para uma terra fértil e espaçosa [...]. Eu</p><p>estarei contigo” – res pondeu Deus (Ex 3, 7-12).</p><p>66 | Quando brilha a esperança</p><p>Nesse texto, o Senhor revela a Moisés, e a nós, que ele ouve</p><p>nossos rogos e súplicas, vê nossos sofrimentos e aflições, por</p><p>isso, intervém a nosso favor. Além disso, está sempre conosco,</p><p>como afirmou a Moisés.</p><p>Os Salmos também nos revelam a presença do Senhor</p><p>Deus, que está ao nosso lado em nossas necessidades e aflições,</p><p>que nos socorre sempre que nEle confiamos. No salmo 34, o au-</p><p>tor do sagrado nos convida a confiar no Senhor ao proclamar:</p><p>“Busquei o Senhor, e ele me respondeu; livrou-me</p><p>de todos os meus temores.” [...] Este pobre homem</p><p>clamou, e o Senhor o ouviu; e o libertou de todas as</p><p>suas tribulações. [...] “Provem, e vejam como o Senhor</p><p>é bom. Como é feliz o homem que nele se refugia! [...]</p><p>Os olhos do Senhor voltam-se para os justos e os seus</p><p>ouvidos estão atentos ao seu grito de socorro [...]. Os</p><p>justos clamam, o Senhor os ouve e os livra de todas</p><p>as suas tribulações. O Senhor está perto dos que têm</p><p>o coração quebrantado e salva os de espírito abatido.</p><p>O justo passa por muitas adversidades, mas o Senhor</p><p>o livra de todas; protege todos os seus ossos; nenhum</p><p>deles será quebrado”.</p><p>Pela boca do salmista nos é revelado que o Senhor é um</p><p>Deus atento a tudo o que nos cerca. Nada escapa aos seus olhos</p><p>e aos seus ouvidos: tudo sabe e tudo vê, e esse Deus nos ama</p><p>de tal modo que nos diz: “Nada temas, pois eu te resgato, eu te</p><p>chamo pelo nome, és meu” (Is 43, 1). É porque somos “Filhos</p><p>de Deus”, somos seus e Ele nos chama pelo nome, que podemos</p><p>confiar em suas promessas.</p><p>Marinês Lonardoni | 67</p><p>Em qualquer tempo, em qualquer situação, precisamos</p><p>descobrir em quem confiar a nossa causa. Confiar significa</p><p>acreditar em alguém, em alguma coisa. Bartimeu acreditou que</p><p>Jesus era aquele que poderia socorrê-lo e tirá-lo da situação de</p><p>exclusão e de abandono em que se encontrava há tanto tempo.</p><p>Ele soube em quem confiar sua realidade e para quem pedir</p><p>ajuda. Assim como ele, precisamos confiar no Senhor. Confiar</p><p>no Deus da aliança, que abriu o Mar Vermelho quando não ha-</p><p>via mais saída. Confiar no Deus que caminha ao nosso lado,</p><p>que vê nossas realidades individuais. Hoje, Bartimeu continua a</p><p>nos dizer: “... sei em quem pus a minha confiança” (2Tm 1, 12).</p><p>Exercícios:</p><p>Quando surgem dificuldades em sua vida, a quem você</p><p>recorre?</p><p>Você tem alguma experiência de como Deus o(a) ajudou em</p><p>determinada situação de perigo?</p><p>A certeza de que Deus ouve sua súplica modificou sua</p><p>maneira de encarar os sofrimentos?</p><p>Você costuma fazer memória dos eventos em que Deus veio</p><p>em seu socorro? Por quê?</p><p>Marinês Lonardoni | 69</p><p>Lançando fora a capa, o cego ergueu-se de um salto e</p><p>foi ter com ele. (Mc 10, 50)</p><p>Talvez uma das decisões mais difíceis de ser tomada é a</p><p>de sermos capazes de mudar o rumo da nossa história.</p><p>Muitos são os apegos e mecanismos que nos amarram à</p><p>realidade em que vivemos, impedindo-nos de traçar um novo</p><p>caminho. A superação, em algum momento de nossa caminha-</p><p>da, vai exigir que assumamos uma nova postura, a fim de que</p><p>o processo iniciado antes se conclua. E, ao final desse percur-</p><p>so, dificilmente permanecemos as mesmas pessoas. Por isso, é</p><p>possível afirmar que, se não houve mudanças, a superação não</p><p>aconteceu realmente. Ela exige decisão! A decisão, que em sua</p><p>raiz significa “fazer uma cisão”, ou seja, é uma divisão, exige</p><p>que façamos uma opção. Ao nos decidirmos por X, automati-</p><p>70 | Quando brilha a esperança</p><p>camente, excluimos Y. Por isso, decidir é escolher. E, para esco-</p><p>lher, precisamos ter coragem.</p><p>Como afirmamos no capítulo 5, a coragem é uma das virtu-</p><p>des imprescindíveis quando o assunto é mudança de vida. Entre</p><p>tantos significados possíveis, podemos defini-la, de acordo com</p><p>o Dicionário de Português Online, como uma “força espiritual</p><p>para ultrapassar uma circunstância difícil”, e também como a</p><p>“capacidade de enfrentar algo moralmente árduo”. Há três qua-</p><p>lidades essenciais à pessoa corajosa: a confiança, a perseveran-</p><p>ça e a determinação. Todos nós, em muitas situações de nossa</p><p>existência, fomos socorridos pela coragem, a fim de sermos ca-</p><p>pazes de vencer os obstáculos, o medo, a falta de perspectiva,</p><p>entre tantas outras realidades. Ao olharmos para o caminho</p><p>que percorremos até o momento presente de nossas vidas, pro-</p><p>vavelmente encontraremos vários eventos em que a coragem</p><p>foi nosso ancoradouro, mas talvez, em dadas situações, será</p><p>representada pela confiança. Já em outras, fomos sustentados</p><p>pela perseverança ou pela determinação. Independentemente</p><p>de qual ou quais qualidades marcaram presença em nossa his-</p><p>tória de conquistas e de superação, devemos ter a certeza de que</p><p>elas nos forjaram na coragem que precisávamos para vencer de-</p><p>terminada adversidade.</p><p>Na Sagrada Escritura, são muitas as passagens em que a co-</p><p>ragem ou as qualidades dessa virtude se manifestam pela boca</p><p>de Deus, de seus anjos ou dos profetas, com o intuito de fortale-</p><p>cer e encorajar o espírito dos homens daquele tempo e também</p><p>os do nosso tempo. Uma delas, nós encontramos em Juizes:</p><p>11. Depois veio o anjo do Senhor e sentou-se debaixo</p><p>do terebinto de Efra, que pertencia a Joás, da família</p><p>de Abiezer. Gedeão, seu filho, estava limpando o trigo</p><p>Marinês Lonardoni | 71</p><p>no lagar, para escondê-lo dos madia nitas. 12. O anjo</p><p>do Senhor apareceu-lhe e disse-lhe: “O Senhor está</p><p>contigo, valente guerreiro!” [...] 14. Então o Senhor,</p><p>voltando-se para ele: “Vai – disse – com essa força que</p><p>tens e livra Israel dos madianitas. Porventura não sou</p><p>eu que te envio?” (Jz 6,</p><p>11-14).</p><p>Em algumas traduções, ao invés de “O Senhor está conti-</p><p>go!”, encontramos a palavra “Coragem!”. Nesse contexto, Ge-</p><p>deão é chamado a defender seu povo, mas responde ao Senhor</p><p>que faz parte da menor tribo dos israelitas, porém, a resposta</p><p>que recebe é: “porventura não sou eu que te envio, e não estarei</p><p>contigo em todos os momentos?” Já no novo testamento, uma</p><p>das mais belas passagens nós encontramos no evangelho de</p><p>Marcos, quando Jesus caminha sobre as águas e acalma a tem-</p><p>pestade: “Mas, quando eles o viram andar sobre o mar, pensa-</p><p>ram que era um fantasma e deram grandes gritos. Porque todos</p><p>o viram e perturbaram-se; mas logo falou com eles e disse-lhes:</p><p>‘Coragem, sou eu; não temais’” (Mc 6, 49-50). Aqui, os discípu-</p><p>los são convidados a terem coragem para vencer o medo.</p><p>Como observamos, em todos os tempos, precisamos ter</p><p>coragem para vencer as batalhas e as dificuldades próprias da</p><p>existência humana, porém, o mais bonito e o mais importante</p><p>é que Deus está conosco, nos fortalece e nos incentiva a seguir</p><p>em frente, a tomar as rédeas da nossa vida com força e coragem.</p><p>Com Bartimeu não foi diferente. Além de demonstrar mui-</p><p>ta coragem para sobreviver naquela região inóspita, em uma so-</p><p>ciedade extremamente excludente, ao saber que era o Nazareno</p><p>que passava por aquele caminho, precisou de muita coragem</p><p>para gritar e pedir socorro a Jesus. Precisou de coragem para</p><p>vencer as vozes daqueles que o mandavam calar-se. Também</p><p>72 | Quando brilha a esperança</p><p>necessitou de coragem para vencer o medo de mudar de vida.</p><p>E em nossas vidas, que apegos nos prendem à mesmice de</p><p>uma existência de sofrimentos? Quais os medos que necessitam</p><p>ser vencidos? E onde buscar a coragem necessária para vencê-</p><p>-los? Se formos pessoas com propósitos definidos, certamen-</p><p>te pediremos ajuda a Deus e, assim, teremos coragem para ir</p><p>adiante, lutarmos por nossos objetivos, por nossas curas.</p><p>Além disso, quem tem coragem não tem medo de “pagar</p><p>o preço”. São muitas as realidades de nossas vidas em que pre-</p><p>cisamos vencer o medo e assumir o ônus de pagar o preço, seja</p><p>ele qual for, para nos autorrealizarmos: nos expor a certas cir-</p><p>cunstâncias, correr o risco de sermos ridicularizados, fracassar</p><p>na luta de um objetivo (trabalho, vestibular, concurso, relacio-</p><p>namentos...), admitir que determinada ação não foi uma boa</p><p>ideia, pedir desculpas, perdão... Seja qual for a realidade, o im-</p><p>portante é ter coragem!</p><p>Sêneca, filósofo e pensador romano do século I, já nos ad-</p><p>vertia, no poema “Viver é correr riscos”, de que tudo o que faze-</p><p>mos envolve riscos. Para ele, rir, chorar, estender a mão, expor</p><p>sentimentos, defender sonhos, amar... é correr riscos. Na vida,</p><p>tudo é correr riscos, mas “somente a pessoa que corre riscos é</p><p>livre!”. Portanto, viver significa ter a coragem de correr riscos,</p><p>independentemente do tempo e do lugar em que nos encon-</p><p>tramos. E se quisermos ser livres do medo, da vergonha, das</p><p>crenças que nos limitam, de todo tipo de apegos, precisamos</p><p>correr o risco de viver.</p><p>O cego Bartimeu foi um homem de coragem. Ao ouvir que</p><p>Jesus o chamava, não teve dúvidas: “Lançando fora a capa, o</p><p>cego ergueu-se de um salto e foi ter com ele”. Para Bartimeu, era</p><p>o “agora ou nunca”. Você já parou para imaginar o que se passou</p><p>na mente e no coração daquele homem? Que pensamentos e</p><p>Marinês Lonardoni | 73</p><p>sentimentos? Pelo relato bíblico, podemos sentir que “passou</p><p>um filme em sua cabeça” e que a vida começou a pulsar mais</p><p>forte naquele coração. Quanta alegria, quanta emoção aquele</p><p>coração palpitou naqueles poucos segundos? E, certamente, no</p><p>mais profundo de sua alma brotou uma única certeza: “minha</p><p>hora chegou! Serei curado!”.</p><p>A coragem, nesse versículo, é simbolizada pela atitude de</p><p>“lançar a capa fora”. Para assumir seu lugar no mundo, Barti-</p><p>meu também precisou desapegar-se da capa, que pode ser re-</p><p>presentada pelo homem velho, mas também pela segurança de</p><p>um ganha pão. A atitude de “lançar fora a capa” significa dei-</p><p>xar para trás toda a vida de sofrimento, de exclusão, de não ser</p><p>“pessoa”, estar sempre à margem, à beira do caminho. Bartimeu</p><p>desejava escrever uma nova história, viver uma outra realidade.</p><p>Para o contexto histórico desse acontecimento, a capa, ob-</p><p>jeto que o cego usava, não era apenas uma vestimenta para se</p><p>proteger do frio ou servir de cobertor à noite. Na época, men-</p><p>digar era uma profissão e muitos pediam esmolas, inclusive al-</p><p>guns que não queriam trabalhar. Desse modo, para que os “ver-</p><p>dadeiros” mendigos tivessem uma identificação, traziam consi-</p><p>go uma capa. A capa significava que aquele homem era alguém</p><p>necessitado, que precisava da ajuda das pessoas.</p><p>Quando o evangelista declara que o cego lançou fora a</p><p>capa, quer nos dizer que ele deu “adeus à velha vida”, pois ela</p><p>significava a vida da invisibilidade social, da exclusão, de estar à</p><p>margem do caminho. Mas, com Jesus no caminho, tudo é trans-</p><p>formado: não é mais necessário capa nem esmola. Da tristeza</p><p>e do abandono surgem a alegria e a esperança. Mas é preciso</p><p>coragem para mudar a história!</p><p>74 | Quando brilha a esperança</p><p>Exercícios:</p><p>Você se considera uma pessoa de coragem? Faça memória de</p><p>alguns fatos que reforçam esse sentimento.</p><p>Que medos o(a) impedem de “lançar o manto” e assumir/dar</p><p>um novo rumo à sua história?</p><p>O apóstolo Paulo, na carta aos Efésios (4, 22-24), nos concla-</p><p>ma: “...despojai-vos do homem velho, [...] e revesti o homem</p><p>novo ....”. Como você lida com o novo em sua vida? Como é</p><p>para você mudar de casa, de trabalho, iniciar novos proje-</p><p>tos...?</p><p>Marinês Lonardoni | 75</p><p>“Que queres que te faça?” “Rabôni” – respondeu-</p><p>-lhe o cego –, “que eu veja!” (Mc 10, 51a)</p><p>Daisy Lima da Silva, 36 anos, é a primeira brasileira a co-</p><p>mandar um navio porta-contêineres. A comandante é</p><p>responsável por orientar a navegação, seguir a legisla-</p><p>ção de onde navega, desenhar estratégias para a organização e</p><p>percurso da carga, e, principalmente, administrar sua equipe.</p><p>Sabemos que, para um navio navegar em alto mar, além</p><p>dos requisítos próprios desse tipo de embarcação, ele precisa de</p><p>um comandante. Esse comandante não é uma pessoa qualquer,</p><p>mas sim, alguém preparado para essa função. Os navios não</p><p>navegam por estradas prontas, mas por rotas. Isto é, as rotas</p><p>marítimas são linhas imaginárias, as chamadas cartas de nave-</p><p>gação, que o comandante deve conhecer e, por meio delas, con-</p><p>76 | Quando brilha a esperança</p><p>duzir sua embarcação. Se ele escolher a rota errada, o navio não</p><p>chegará ao destino previsto. Em outras palavras, se o coman-</p><p>dante não sabe para onde vai, se não tomar a decisão correta, o</p><p>destino dele e de todos os marinheiros será afetado.</p><p>Diz a tradição que o comandante afunda com o navio.</p><p>Aqui, podemos dizer que está implicito um dos mais impor-</p><p>tantes atributos do comandante de um navio: a responsabilida-</p><p>de. Ele é responsável pela vida dos marinheiros e passageiros,</p><p>se houver, mas também pela embarcação e pelos bens que ela</p><p>transporta. Ou seja, por exercer uma função de tamanha rele-</p><p>vância, é ele quem tem o poder de decidir, somente ele.</p><p>De modo semelhante, ocorre conosco: temos em nossas</p><p>mãos o poder de tomar as decisões necessárias para o nosso</p><p>bem viver ou, como se diz no senso comum, “tomar as rédeas”</p><p>da nossa vida. Esse poder se chama “livre arbítrio”. Deus, ao</p><p>nos criar, nos deu a capacidade de escolher e tomar decisões e,</p><p>por isso, tem o poder de alterar os eventos/acontecimentos de</p><p>nossas vidas e do que está ao nosso entorno.</p><p>No entanto, nem sempre sabemos usar essa liberdade que</p><p>recebemos. Nossas escolhas, muitas vezes, são equivocadas, in-</p><p>fluenciadas por pensamentos e sentimentos nocivos, por cren-</p><p>ças que trazemos e que nos limitam ou nos impedem de enxer-</p><p>gar a realidade como ela realmente é. A motivação pode estar</p><p>em nosso interior, como um temperamento do qual não somos</p><p>capazes de transformar o defeito dominante em virtude, mas</p><p>também, por contextos externos que nos afetam sem nos dar-</p><p>mos</p><p>conta da existência delas. Outras vezes, estamos sujeitos a</p><p>interferências que são próprias da vida e que não nos dão tem-</p><p>po ou condições de fazer escolhas adequdas. Essas realidades</p><p>todas, provavelmente, serão empecilhos para chegar ao porto</p><p>seguro que almejamos.</p><p>Marinês Lonardoni | 77</p><p>Por isso, em momentos cruciais, é necessário distinguir o</p><p>que é primordial do que é importante. Muitas coisas podem ser</p><p>importantes em nossas vidas (trabalho, estudo, moradia, di-</p><p>nheiro, lazer etc), no entanto, o primordial é termos a vida para</p><p>poder desfrutar das graças, bens e alegrias de que dispomos.</p><p>Ou seja, diante de determinada situação, aquilo que se apresen-</p><p>ta para nós como algo indispensável é que deve ser escolhido/</p><p>feito. Para tanto, como afirmamos no capítulo anterior, é neces-</p><p>sário que tenhamos coragem, determinação e vontade para as-</p><p>sumir os riscos de uma escolha. Isso significa trazer para nós a</p><p>responsabilidade de nossoas escolhas. Mas, para que isso ocor-</p><p>ra, é fundamental saber o que queremos, pois quando sabemos</p><p>aonde queremos chegar, quando temos determinação na busca</p><p>de nossos objetivos, certamente estaremos munidos de maiores</p><p>condições e capacidades para superar adversidades e traumas.</p><p>A Sagrada Escritura, apesar de não trazer a expressão “livre</p><p>arbítrio” em sua forma literal, nos oferece vários exemplos da</p><p>importância de nossa liberdade de escolher e de como é funda-</p><p>mental fazer bom uso dessa graça que nos foi dada por Deus.</p><p>No livro de Gênesis, Deus dá ao homem o direito de escolha ao</p><p>dizer a Adão: “Coma livremente de qualquer árvore do jardim,</p><p>mas não coma da árvore do conhecimento do bem e do mal,</p><p>porque no dia em que dela comer, certamente você morrerá”</p><p>(Gên 2, 15-17). Ou seja, ele poderia escolher comer ou não do</p><p>fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Ao comer</p><p>desse fruto, Adão usou de seu livre arbítrio. Sua escolha foi a da</p><p>desobediência.</p><p>Ao tomarmos as palavras do apóstolo Paulo, que nos diz:</p><p>“Tudo me é permitido, mas nem tudo convém. Tudo me é per-</p><p>mitido, mas eu não deixarei que nada me domine” (1 Cor 6,12),</p><p>fica claro o sentido do livre arbítrio: às vezes, algo é até lícito,</p><p>78 | Quando brilha a esperança</p><p>está dentro das leis que regem a sociedade, porém, para nós,</p><p>cristãos, não é conveniente, não nos é salutar. Outras vezes, al-</p><p>guém poderá nos dizer: “todo mundo faz!”. Contudo, não de-</p><p>vemos nos deixar dominar pelas paixões que servem o mundo</p><p>e nos afastam dos projetos que Deus traçou para nossas vidas.</p><p>Para usarmos a liberdade que nos foi dada, é preciso ter a cora-</p><p>gem de fazer escolhas.</p><p>E para fazermos escolhas, devemos ter em mente que so-</p><p>mos responsáveis por nossas ações e pelas decisões que toma-</p><p>mos. Por isso, escolher implica deixar a vida velha, pensamen-</p><p>tos e sentimentos desordenados, valores que não se coadunam</p><p>com a prática cristã e tudo aquilo que desagrega. Optar pelo</p><p>novo significa mudar de mentalidade e de atitude, e dizer não</p><p>ao que nos faz sofrer, ao que nos exclui de uma vida digna ali-</p><p>cerçada na fé e na esperança. Escolhamos, pois, o novo!</p><p>Foi isso que aconteceu com Bartimeu. Quando Jesus per-</p><p>gunta “Que queres que te faça?”, não está dizendo que não sabe</p><p>o que ele deseja, mas dá-lhe o livre arbitrio para escolher. O cego</p><p>poderia, por exemplo, querer dinheiro, uma casa, uma esposa...</p><p>Ele precisa dizer aquilo que mais o aflige. A escolha precisa ser</p><p>eficaz, pois Jesus não passa todos os dias por aquele caminho.</p><p>Assim como acontece hoje conosco, Bartimeu teve em suas</p><p>mãos a possiblidade de escolher, de decidir sobre sua vida, seu</p><p>futuro. Coube a ele responsabilizar-se por suas escolhas. Os</p><p>obstáculos e adversidades por ele enfrentados o fortaleceram</p><p>na difícil e árida peregrinação de viver um dia após o outro à es-</p><p>pera da graça. Mas ele sabia a diferença entre o que é essencial/</p><p>primordial e o que é importante. No momento em que Jesus</p><p>passou, ele estava presente no lugar em que deveria estar.</p><p>Ao descobrirmos o que é essencial, com toda certeza, re-</p><p>conhecemos que Jesus é o único que pode transformar nossas</p><p>Marinês Lonardoni | 79</p><p>vidas. Quando ele entra em cena, nossas angustias e incertezas</p><p>desaparecem. É isso que sentimos ao rememorar o relato des-</p><p>se evangelho, porque parece que estamos ao lado de Bartmeu</p><p>ouvindo as palavras do mestre de Nazaré que pergunta: “Que</p><p>queres que te faça?”.</p><p>É possível imaginar o olhar de misericórdia de Jesus para</p><p>com aquele homem, a alegria do coração dele ao sentir a espe-</p><p>rança e o desejo que vinham do mais íntimo do coração daque-</p><p>la pobre criatura. Mas é possível, também, imaginar o pedido</p><p>de socorro estampado no semblante abatido do cego e a voz de</p><p>sofrimento que diz: “Mestre, que eu veja!”. Bartimeu, embora</p><p>estivesse em Jericó, longe dos oceanos, sempre soube que era o</p><p>comandade de seu navio. Além disso, trouxe Jesus para pilotar</p><p>com ele.</p><p>Exercícios:</p><p>Você se responsabiliza por suas decisões e escolhas?</p><p>O que significa para você ser o(a) comandante de seu navio?</p><p>Neste momento, Jesus pergunta: “Que queres que te faça?”.</p><p>Qual será sua resposta?</p><p>Marinês Lonardoni | 81</p><p>“Vai, a tua fé te salvou”. No mesmo instante, ele</p><p>recuperou a vista. (Mc 10, 52a)</p><p>Desde muito cedo, ainda na infância, começamos a de-</p><p>senvolver a fé. Acreditamos em nossos pais e no amor</p><p>que nos dão; acreditamos nas pessoas de nossa família,</p><p>acreditamos em nossos professores, amigos, colegas etc. Já mais</p><p>adultos, acreditamos nos livros que lemos, nas propostas que</p><p>nos fazem, que a comida que compramos contém os itens in-</p><p>dicados e seu processo de produção obedeceu aos critérios da</p><p>Vigilância Sanitária; acreditamos no médico, no dentista, no</p><p>vendedor... enfim, acreditamos em praticamente tudo e todos.</p><p>Contudo, não é sobre a fé natural (plano terreno) que queremos</p><p>refletir, mas sim, sobre a fé no plano espiritual.</p><p>Em qualquer processo de superação, a fé tem um papel de</p><p>82 | Quando brilha a esperança</p><p>destaque, uma vez que, sem ela, dificilmente alcançaremos tal</p><p>propósito. A fé, juntamente com a caridade (amor) e a esperan-</p><p>ça, forma o conjunto das chamadas “virtudes teologais”, isto é,</p><p>virtudes que vêm de Deus: as recebemos no Batismo. Isso não</p><p>significa, porém, que essas virtudes não precisem ser desenvol-</p><p>vidas e alimentadas no decorrer de nossa existência. Pelo con-</p><p>trário, para que essa chama permaneça acesa em nossas vidas,</p><p>necessitamos alimentá-la continuamente. Desse modo, enten-</p><p>demos que as virtudes são comparáveis a uma força habitual,</p><p>que não desaparece com facilidade, mas tem como objetivo nos</p><p>levar a viver retamente, a praticar o bem e evitar o mal.</p><p>Na Carta aos Hebreus, encontramos uma definição de fé</p><p>que é espetacular: “A fé é o fundamento da esperança, é uma</p><p>certeza a respeito do que não se vê” (Hb 11, 1). Em algumas</p><p>traduções, encontramos esse conceito expresso em outras pa-</p><p>lavras, embora com o mesmo significado: “Ora, a fé é a certeza</p><p>daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos”</p><p>(Hb 11, 1). Independentemente da forma como a Sagrada Es-</p><p>critura nos apresenta a fé, ela diz respeito a algo que não vemos,</p><p>mas cremos e, por isso, esperamos.</p><p>Esse conceito de fé é aprofundado no “Catecismo da Igreja</p><p>Católica” (1999). A obra nos ensina que a fé é um dom e, por</p><p>meio dela, cremos em Deus, em tudo o que a Igreja proclama</p><p>e que nos é revelado por Ele. A partir disso, o Catecismo nos</p><p>oferece duas importantes características da fé: é uma graça e</p><p>um ato humano.</p><p>A fé é uma graça. “A fé é um dom de Deus, uma virtude so-</p><p>brenatural infundida por Ele. Para prestar essa adesão à fé, é</p><p>necessária a prévia e, concomitante, a ajuda da graça divina e</p><p>os interiores auxílios do Espírito Santo, o qual move e converte</p><p>o coração para Deus, abre os olhos do entendimento, e dá “a</p><p>Marinês Lonardoni | 83</p><p>todos a suavidade em aceitar e crer a verdade” (CATECISMO...,</p><p>1999, parágrafo 153). Ou seja, se nos reconhecemos como pes-</p><p>soas de fé, isso é possível, única e exclusivamente, pela graça de</p><p>Deus que age em nós pelo Espírito Santo.</p><p>A fé é um ato humano. “O ato de fé só é possível pela graça e</p><p>pelos auxílios interiores do Espírito Santo. Mas não é menos</p><p>verdade que crer é um ato autenticamente humano. Não é con-</p><p>trário nem à liberdade nem à inteligência do homem confiar em</p><p>Deus e aderir às verdades por Ele reveladas. Mesmo nas relações</p><p>humanas, não é contrário à nossa própria dignidade acreditar</p><p>no que outras pessoas nos dizem acerca de si próprias e das suas</p><p>intenções...”. E o Catecismo continua: “Por isso, é ainda menos</p><p>contrário à nossa dignidade «prestar, pela fé, submissão plena</p><p>da nossa inteligência e da nossa vontade a Deus revelador» e</p><p>entrar assim em comunhão íntima com Ele” (parágrafo 154).</p><p>Isso nos faz compreender que Deus espera e deseja que,</p><p>com nossos atos humanos, confiemos em seu amor e entremos</p><p>em íntima comunhão com Ele pela fé. Ela é graça de Deus in-</p><p>fundida em nós pelo Espírito Santo. É o que nos explica Santo</p><p>Agostinho, ao dizer que Deus é mais íntimo de nós do que nós</p><p>mesmos, revelando que Ele nos ama no mais profundo de nos-</p><p>so ser.</p><p>Embora a Igreja nos ensine que a fé é um ato humano,</p><p>ela não é um ato isolado. É isso que aprendemos no parágrafo</p><p>166 do Catecismo (1999), quando afirma que “ninguém pode</p><p>acreditar sozinho, tal como ninguém pode viver só. Ninguém se</p><p>deu a fé a si mesmo, como ninguém a si mesmo se deu a vida”.</p><p>Isso se explica pelo fato de que foi de outros que recebemos a</p><p>fé e, da mesma maneira, devemos transmiti-la aos outros. Des-</p><p>se modo, somente a relação entre Deus, nós e os outros torna</p><p>possível que a fé seja propagada, formando, assim, um elo na</p><p>84 | Quando brilha a esperança</p><p>grande cadeia daqueles que creem. Em outras palavras, cremos</p><p>porque somos amparados pela fé dos outros e, com a nossa fé,</p><p>contribuímos para amparar os outros nela. Parafraseando Santa</p><p>Tereza de Calcutá, a nossa fé é apenas uma gota no oceano, mas</p><p>sem ela o oceano não seria o mesmo.</p><p>É nesse cenário que compreendemos o valor e a importân-</p><p>cia da fé em nossas vidas, que retomamos o itinerário que es-</p><p>tamos percorrendo com nosso querido personagem Bartimeu.</p><p>Nos capítulos anteriores, vimos que, vencendo as barreiras im-</p><p>postas pela falta de visão e pelo “preconceito” das pessoas que</p><p>queriam impedi-lo de se aproximar de Jesus, finalmente, ele fi-</p><p>cou frente a frente com o Messias. E ao ser inquirido sobre o</p><p>que desejava, o cego responde: “Que eu veja!”. Ao ouvir essa de-</p><p>claração tão forte e repleta de convicção, Jesus lhe declara: “Vai,</p><p>a tua fé te salvou”. No mesmo instante, ele recuperou a vista...</p><p>A fé que Bartimeu demonstrou tocou o coração de Jesus,</p><p>pois era sincera, enraizada no amor ao Deus vivo, que a tudo vê,</p><p>que a tudo ouve e, por isso, se manifesta àqueles que o procu-</p><p>ram com sinceridade e humildade de coração. Quando dispo-</p><p>mos nosso interior para buscar e desenvolver uma fé autêntica e</p><p>madura, Deus não só nos cura, como também nos salva.</p><p>Em várias passagens dos evangelhos, lemos e ouvimos Je-</p><p>sus que diz “a tua fé te salvou”. Essa expressão se repete sempre</p><p>após um milagre, como no caso da mulher hemorroíssa, da Ca-</p><p>nanéia, do leproso samaritano que volta para agradecer a cura,</p><p>dentre outros. Com Bartimeu não foi diferente. Mas, por que</p><p>Jesus não disse “a tua fé te curou”, já que é isso que ocorre? Na</p><p>realidade, quando o Messias diz “a tua fé te salvou”, podemos</p><p>vislumbrar algo maior que uma cura física. A doença, a enfer-</p><p>midade, nos apresenta como uma espécie de caminho, com de-</p><p>graus e estágios a serem ultrapassados até alcançarmos a cura.</p><p>Marinês Lonardoni | 85</p><p>Porém, nesse processo, às vezes longo, doloroso e difícil, é um</p><p>tempo em que a fé e a esperança se alimentam e se realimentam.</p><p>As provações a que somos submetidos em nossos itinerá-</p><p>rios de vida, vão forjando nosso interior, limando as arestas das</p><p>emoções e de nossos afetos desordenados. Há, nesse percurso,</p><p>um fortalecimento de nossos propósitos, pois Deus nos dá um</p><p>espírito novo, e o coração de pedra, que, inúmeras vezes deixa-</p><p>mos habitar nosso “eu”, vai, aos poucos, transformando-se em</p><p>um coração de carne (Ezequiel 36, 26). Ao final desse longo ca-</p><p>minho, ao atingirmos o patamar da tão esperada cura, também</p><p>nos enxergamos com um coração curado. E o que é a salvação</p><p>senão um coração curado e liberto de pecados?</p><p>Bartimeu, como nos mostra o relato bíblico, pediu a cura</p><p>da cegueira física, mas Jesus, conhecedor dos corações huma-</p><p>nos, reconhecendo a grandeza e a sinceridade da fé daquele ho-</p><p>mem, dá-lhe a salvação. Desse modo, compreendemos que “a</p><p>tua fé te salvou” significa a cura física, emocional e espiritual.</p><p>Envolve o ser por completo. Podemos dizer que isso foi possível</p><p>porque ele tinha uma fé madura. Mas, como identificarmos se</p><p>nossas ações e atitudes são fruto de uma fé madura, robustecida</p><p>na experiência e na escuta de Deus presente em nossas vidas?</p><p>Zandoná (2018), em uma de suas homílias, nos oferece al-</p><p>guns critérios que permitem, como cristãos, nos sustentarmos</p><p>na fé:</p><p>• ouvir a palavra de Deus e colocá-la em prática;</p><p>• confiar em Deus e não nos homens;</p><p>• ser firmes no propósito de buscar a fé, amparados na/pela</p><p>palavra.</p><p>A partir desses três aspectos, teremos condições de cami-</p><p>nhar rumo a uma fé madura. E quando desenvolvemos e prati-</p><p>camos o amadurecimento na fé, assumimos atitudes diferentes,</p><p>86 | Quando brilha a esperança</p><p>como:</p><p>A fé madura promove comunhão. Quando vivemos o proces-</p><p>so de amadurecimento na fé, não ficamos presos em nós mes-</p><p>mos, mas nos abrimos para o outro e para as realidades que nos</p><p>envolvem nas diversas instâncias em que atuamos;</p><p>Saber/ter a capacidade de escolher por Deus em tudo. Isso sig-</p><p>nifica dizer que, em qualquer circunstância, nossa primeira e</p><p>única escolha é Deus. Não importam as realidades em que vi-</p><p>vemos nem as incertezas que nos cercam: Deus é o nosso alvo;</p><p>Quem tem uma fé madura procura enxergar a presença de</p><p>Deus nos acontecimentos, em suas realidades. Quando so-</p><p>mos alicerçados por uma fé madura, facilmente compreende-</p><p>mos a vontade de Deus em nossos caminhos, naquilo que nos</p><p>acontece sem estarmos esperando. Somos capazes de aceitar</p><p>e entender que determinadas realidades foram permitidas por</p><p>Ele e que delas precisamos retirar novos ensinamentos;</p><p>Quem tem uma fé madura, necessariamente, busca a alte-</p><p>ridade (o outro). A maturidade na fé nos leva a dizer não ao</p><p>individualismo, ao fechamento em nós mesmos e nos abre para</p><p>os outros. Nos capacita a construir pontes, a transformar as re-</p><p>lações com aqueles que estão ao nosso entorno;</p><p>A fé madura é fruto de quem desenvolveu a virtude da resi-</p><p>liência. Essa virtude pode ser traduzida em nossas vidas como</p><p>a capacidade de vencer e crescer no/pelo sofrimento. Ou seja,</p><p>quando somos capazes de, após uma adversidade, afirmar que</p><p>estamos melhores do que éramos, pois fomos capazes de nos</p><p>deixar forjar nas batalhas que enfrentamos na vida;</p><p>Possuir otimismo espiritual. Quando temos fé, confiamos e</p><p>nos deixamos depender de Deus, temos força na fraqueza, es-</p><p>Marinês Lonardoni | 87</p><p>peramos contra toda esperança;</p><p>Ter gratidão em seu coração por aquilo que Deus já fez e</p><p>fará. Nosso coração é grato quando enxergamos a mão de Deus</p><p>agindo em nossas realidades e estamos prontos a louvá-lo e</p><p>agradecê-lo.</p><p>Ao buscarmos uma fé madura, facilmente depreendemos</p><p>que ela comporta três elementos básicos: o crer, o confiar e o</p><p>perseverar. Acreditar é o primeiro passo para desenvolvermos</p><p>a confiança em Deus e em suas promessas. Todos os dias, so-</p><p>mos testados e nossa confiança é colocada à prova nas pequenas</p><p>coisas de nosso viver, mas também quando somos surpreendi-</p><p>dos pelo inesperado que não sabemos como resolver sozinhos.</p><p>É nesse momento em que entra em cena a perseverança, que</p><p>nada mais é do que continuarmos a caminhar acreditando e</p><p>confiando que tudo se resolverá no tempo certo, aquele da von-</p><p>tade de Deus. A confiança alimenta a esperança e esta caminha</p><p>junto com a perseverança. Portanto,</p><p>ter fé e acreditar que Deus</p><p>está sempre conosco, enxerga nossas lutas e não nos desampara.</p><p>Para ilustrar essa realidade, apresentaremos uma lenda dos</p><p>índios da tribo Cherokee (EUA) sobre o seu “ritual de passa-</p><p>gem”.</p><p>O pai leva o filho para a floresta, coloca uma venda nos</p><p>olhos e o deixa lá, sozinho. O jovem deve permanecer</p><p>sentado em um tronco a noite toda, sem remover a</p><p>venda, até que os raios do sol o avisem que é de ma-</p><p>nhã. Ele não pode e não deve pedir ajuda a ninguém.</p><p>Se sobreviver à esse teste, sem se desmoronar, será um</p><p>homem.</p><p>Ele não pode contar a sua experiência aos amigos ou</p><p>88 | Quando brilha a esperança</p><p>a ninguém, porque cada jovem tem que se tornar um</p><p>homem sozinho.</p><p>O jovem está claramente aterrorizado, ouve muitos</p><p>barulhos estranhos ao seu redor. Certamente existem</p><p>animais ferozes e talvez até homens perigosos. O vento</p><p>sopra forte a noite toda, balançando as árvores, mas ele</p><p>continua corajosamente, sem tirar a venda dos olhos.</p><p>Afinal, é a única maneira de se tornar um homem!</p><p>Finalmente, depois de uma noite assustadora, o sol sai</p><p>e ele tira a venda dos olhos. E é nesse momento que</p><p>ele percebe que o pai está sentado no tronco, ao lado</p><p>dele. Esteve de guarda toda a noite protegendo o filho</p><p>de qualquer perigo. O pai estava lá, embora o filho não</p><p>soubesse.3</p><p>Se um pai humano é capaz de fazer qualquer tipo de sa-</p><p>crifícios em prol de seus filhos, imagine Deus, que nos criou e</p><p>nos fez à sua imagem e semelhança! Às vezes, precisamos nos</p><p>lembrar dessa graça que recebemos – a filiação divina. Barti-</p><p>meu é para nós o exemplo de alguém que, porque possuía um</p><p>coração curado, teve fé no Senhor, pediu e soube esperar que,</p><p>na vontade de Deus, suas obras fossem manifestadas por meio</p><p>de seu filho, Jesus, aquele que veio ao mundo “para ser luz no</p><p>mundo” (João 9, 5).</p><p>3 Disponível em: https://cbncuritiba.com/o-tronco-caido-2/ Acesso em 7 set. 2021.</p><p>Marinês Lonardoni | 89</p><p>Exercícios:</p><p>Você se considera uma pessoa de fé?</p><p>É capaz de suportar as esperas das graças que Deus tem re-</p><p>servado para sua vida?</p><p>Deus o(a) convida a manifestar as bênçãos que Ele já derra-</p><p>mou sobre sua vida. Você aceita ser testemunho do cumpri-</p><p>mento dessas promessas?</p><p>Marinês Lonardoni | 91</p><p>... e foi seguindo Jesus pelo caminho. (Mc 10, 52b)</p><p>Todas as vezes que superamos um obstáculo, seja ele qual</p><p>for, é indispensável dar significado a ele. Ou seja, com-</p><p>preender o sentido do que nos aconteceu, o “para quê”</p><p>tal realidade existiu em nossas vidas. Em linhas gerais, é possí-</p><p>vel afirmar que a superação acontece, de fato, quando sentimos</p><p>gratidão em nosso coração por aquilo que vivenciamos.</p><p>Ao lançarmos um olhar para a história da humanidade,</p><p>verificamos que a gratidão sempre esteve presente em fatos e</p><p>eventos de povos de diferentes épocas e culturas. Podemos afir-</p><p>mar que ela faz parte da construção social do ser humano. Ela</p><p>está presente também no relato da cura do cego Bartimeu. Na</p><p>versão proposta pelo evangelista Marcos, lemos que, após ser</p><p>92 | Quando brilha a esperança</p><p>curado, ele “foi seguindo Jesus pelo caminho”. Em outras tra-</p><p>duções e também nos evangelhos de Lucas e Mateus, podemos</p><p>encontrar que Bartimeu, “dando graças a Deus, foi seguindo</p><p>Jesus pelo caminho”. Em sua ação, Bartimeu revelou a gratidão</p><p>como o ato de dar graças a Deus. Mas, no que consiste a grati-</p><p>dão?</p><p>Rotineiramente, reconhecemos a gratidão como o ato de</p><p>agradecer por um benefício recebido ou também como a ação</p><p>de reconhecer um bem. Em nossas ações cotidianas, a gratidão</p><p>se apresenta de várias maneiras, em diferentes circunstâncias</p><p>e para com diferentes pessoas. Somos gratos a Deus pelo novo</p><p>dia de vida que nos deu, às pessoas que prepararam nosso café/</p><p>almoço, ao motorista do ônibus que nos leva para o trabalho,</p><p>entre uma infinidade de situações que vivenciamos. Temos a</p><p>oportunidade de exercer a gratidão em qualquer momento de</p><p>nossas vidas, por isso, é possível afirmar que essa é uma das vir-</p><p>tudes mais presentes e necessárias em nosso existir.</p><p>No campo das ciências sociais, a temática da gratidão tem</p><p>sido objeto de estudo de várias de suas ramificações, porém, nos</p><p>apoiaremos nos pressupostos da Psicologia, a fim de aprofun-</p><p>darmos um pouco mais essa questão. De acordo com Emmons</p><p>e McCoullough (2003, apud PIETA e FREITAS, 2009, p. 102),</p><p>entendemos que, por a gratidão permitir muitas classificações,</p><p>torna-se difícil conceituá-la. Segundo as autoras, isso ocorre</p><p>pelo fato de que ela tem sido definida “como uma emoção, uma</p><p>atitude, uma virtude moral, um hábito, um traço de persona-</p><p>lidade ou uma resposta de coping”. Diante desse conjunto de</p><p>opções, Pieta e Freitas (2009), com base em Mccullough et al.</p><p>(2001), apontam que a gratidão está associada a traços de per-</p><p>sonalidade que, ligados ao comportamento pró-social, nos pos-</p><p>sibilitam a compreensão de que pessoas gratas são mais agradá-</p><p>Marinês Lonardoni | 93</p><p>veis e menos narcisistas. Além disso, nos apresentam a gratidão</p><p>como uma emoção agradável, associada a estados psicológicos</p><p>positivos, como o contentamento, a felicidade e a esperança,</p><p>por exemplo (PIETA e FREITAS, 2009, p. 102).</p><p>No estudo denominado “Sobre a gratidão”, Pieta e Freitas</p><p>(2009), ao realizarem uma revisão bibliográfica a respeito do</p><p>assunto, nos esclarecem que, desde o século XVIII até o século</p><p>XX, vários pesquisadores “levantaram a hipótese de que pes-</p><p>soas benevolentes seriam mais inclinadas a experienciar a gra-</p><p>tidão e que elas tenderiam a sentir empatia e a se colocarem</p><p>no lugar do outro” (PIETA e FREITAS, 2009, p. 102). Além da</p><p>empatia, as autoras nos chamam a atenção para o fato de que</p><p>pessoas gratas têm mais propensão ao perdão.</p><p>A importância da gratidão</p><p>Ao longo da História, observamos que a gratidão é uma</p><p>virtude que traz benefícios, tanto para quem é grato (benfeitor)</p><p>quanto para aquele que é o alvo (beneficiário). De acordo com</p><p>os estudiosos das ciências sociais, não sabemos ao certo se a</p><p>gratidão é inata nem se ela pode se manifestar de diferentes for-</p><p>mas, em função da idade e do sexo das pessoas, ou ainda, se ela</p><p>pode ser cultivada e de que forma influencia o funcionamento</p><p>psicológico humano. O que sabemos, segundo resultados de</p><p>pesquisas, é que a compreensão e a expressão da gratidão se de-</p><p>senvolvem ou se modificam ao longo da infância (MCADAMS</p><p>e BAUER, 2004, apud PIETA e FREITAS, 2009, p. 104).</p><p>De acordo com os autores, ao passarmos para a adolescên-</p><p>cia, tendemos a desenvolver, experienciar e expressar a gratidão</p><p>a partir de fatores pessoais e ambientais. Isso significa dizer que</p><p>94 | Quando brilha a esperança</p><p>os conhecimentos adquiridos no grupo social a que pertence-</p><p>mos, bem como as nossas experiências pessoais são indicadores</p><p>de que “a qualidade da vida familiar e das relações fraternas, o</p><p>efeito dos pares e da mídia, a influência da escola e da igreja e,</p><p>sobretudo, o grau de civilidade que caracteriza o mundo so-</p><p>cial da criança contribuem para o desenvolvimento da grati-</p><p>dão” (Cf. MCADAMS e BAUER, 2004, apud PIETA e FREITAS,</p><p>2009, p. 105). A partir desses aspectos, podemos afirmar que,</p><p>de acordo Vaillant (1993), citado por Pieta e Freitas (2009), com</p><p>base em um estudo com jovens, a gratidão é parte de um pro-</p><p>cesso criativo que ocorre ao longo do nosso desenvolvimento,</p><p>em que emoções autodestrutivas são transformadas em emo-</p><p>ções fortalecedoras e reparadoras.</p><p>Segundo Emmons e Mccullough (2003, apud PIETA e</p><p>FREITAS, 2009), as experiências científicas demonstram que</p><p>quando desenvolvemos o sentimento de gratidão, este aumenta</p><p>em nós a resiliência, a saúde física e a qualidade da vida di-</p><p>ária. Além disso, esses cientistas concluíram que, ao sermos</p><p>gratos, não só nos mostramos mais entusiasmados, determina-</p><p>dos e atentos (estados mentais positivos), como também somos</p><p>mais generosos, cuidadosos e atenciosos para com os outros. E</p><p>quando nos sentimos gratos aos outros, a tendência é nos sen-</p><p>tirmos amados e cuidados (Cf. ANDERSSON, GIACALONE</p><p>e JURKIEWICZ, 2007, apud PIETA e FREITAS, 2009, p. 102).</p><p>Outro aspecto importante da virtude da gratidão, de acordo</p><p>com Bono e McCullough (2006) e apontado por Pieta e Freitas</p><p>(2009), é que ela nos ajuda a responder de maneira mais posi-</p><p>tiva aos acontecimentos da vida e a valorizarmos situações em</p><p>que os outros são benevolentes para conosco, nos fornecendo</p><p>recursos para o nosso bem-estar psicológico.</p><p>Marinês Lonardoni | 95</p><p>Características de uma pessoa grata</p><p>Ao olhar para o nosso entorno, para as pessoas que nos ro-</p><p>deiam e suas atitudes, facilmente poderemos identificar aquelas</p><p>que possuem um coração grato. A alegria, o desprendimento,</p><p>a humildade e a empatia são alguns dos traços característicos</p><p>daqueles que nos cercam. Se fizermos um rápido levantamento</p><p>da história de vida de cada um deles, certamente, descobrire-</p><p>mos que, para estarem onde estão e como estão, foram forjados</p><p>no sofrimento, nas adversidades e, sem nenhuma dúvida, pas-</p><p>saram pela superação. E isso é maravilhoso, pois quando temos</p><p>consciência dos fatos e das transformações ocorridas em nossas</p><p>vidas, nos descobrimos como pessoas agraciadas, privilegiadas.</p><p>Humildade. Se não tivermos a humildade para reconhecer que</p><p>a vitória alcançada não aconteceu por uma ação nossa, mas pela</p><p>misericórdia de Deus, dificilmente seremos capazes de possuir</p><p>um coração grato. Portanto, a gratidão passa, necessariamente,</p><p>pela porta da humildade, essa porta que devemos e precisamos</p><p>ter sempre aberta em nossos corações. Maria, a mãe de Jesus,</p><p>só pode cantar o Magnificat, porque a humildade fazia morada</p><p>em sua alma e em seu coração.</p><p>Desprendimento. De modo semelhante à humildade, precisa-</p><p>mos cultivar o desprendimento. A gratidão só poderá ser apre-</p><p>ciada por aqueles que nos cercam se antes o desprendimento</p><p>se fizer presente em nosso ser. Alguns podem até questionar:</p><p>humildade e desprendiemnto não significam a mesma coisa?</p><p>Não. Se buscarmos no dicionário, poderemos encontrar que</p><p>o despreendimento é o comportamento ou a característica de</p><p>uma pessoa abnegada, altruísta, desapegada (especialmente de</p><p>bens materiais).</p><p>Bartimeu possuía essas duas qualidades, a humildade e o des-</p><p>96 | Quando brilha a esperança</p><p>preendimento. Como afirmamos nos capítulos III e V, ele teve</p><p>a graça e a humildade de reconhecer que Jesus era o Messias</p><p>e, por isso, pediu a sua misericórdia ao gritar: “Filho de Davi,</p><p>tem piedade de mim!”. E no capítulo VIII, quando esse mesmo</p><p>Jesus pede o que ele deseja, o cego poderia pedir várias coisas</p><p>(dinheiro, uma casa...), mas ele responde: “Mestre, que eu veja!”.</p><p>Alegria. Essa é outra característica da pessoa que possui um co-</p><p>ração grato. É muito difícil encontrar uma pessoa com a virtude</p><p>da gratidão que não seja alegre. Bartimeu, como afirmamos</p><p>anteriormente, é apresentado em algumas traduções como al-</p><p>guém que, após ter recebido a cura, “dava graças a Deus e seguia</p><p>Jesus pelo caminho”. Aliás, é impossível nos encontrarmos com</p><p>Jesus e permancermos tristes ou desesperançados.</p><p>Empatia. É o quarto traço característico da gratidão. De acordo</p><p>com Lazarus e Lazarus (1994, apud PIETA e FREITAS, 2009,</p><p>p. 105), podemos afirmar que a gratidão é uma das emoções</p><p>que se originam da capacidade de termos empatia para com os</p><p>outros. Isto é, todas as vezes que nos colocamos no lugar do</p><p>outro, estamos usando nossa empatia. E esse processo, ao longo</p><p>do tempo, gera em nós a gratidão.</p><p>Após elencarmos algumas das características da virtude</p><p>da gratidão, devemos ter claro em nossa mente que ter um co-</p><p>ração grato significa reconhecer o aprendizado obtido a partir</p><p>dos eventos ou das realidades vividas. Portanto, a gratidão deve,</p><p>necessariamente, nos levar a uma mudança de vida ou mudan-</p><p>ça na vida. Há pessoas que realmente mudam de vida, como o</p><p>caso de Bartimeu. Por isso, podemos afirmar que também a</p><p>gratidão é uma decisão. Ou seja, podemos, diante de todas e</p><p>quaisquer situações de nossa existência, escolher sermos gratos</p><p>ou não.</p><p>Além do cego Bartimeu, a Escritura nos mostra vários epi-</p><p>Marinês Lonardoni | 97</p><p>sódios em que a gratidão é valorizada. Um deles nós encontra-</p><p>mos em Lucas (17, 11-19), que discorre sobre a cura dos dez le-</p><p>prosos. O evangelista nos relata que os leprosos, ao verem Jesus</p><p>de longe, gritaram, pedindo sua misericórdia. Jesus pede que</p><p>eles se dirijam ao sacerdote e a ele se apresentem, mas, enquan-</p><p>to caminhavam, a cura aconteceu e um deles, que era samarita-</p><p>no, ao se ver curado, voltou, dando graças a Deus e se prostrou</p><p>aos pés de Jesus, agradecendo-o. Ao vê-lo, Jesus questiona: “Os</p><p>dez não ficaram purificados? Onde estão os outros nove? Não</p><p>houve quem voltasse para dar glória a Deus, a não ser este es-</p><p>trangeiro!”.</p><p>“Em tudo dai graças...!”. Este é um mandato especial para</p><p>o cristão. O apóstolo Paulo nos conclama a isso ao afirmar: “Em</p><p>tudo dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Je-</p><p>sus para convosco” (1Tes 5, 18).</p><p>É este o aprendizado que o cego de Jericó nos oferece. O</p><p>homem que teve coragem de “lançar fora o manto” da pseu-</p><p>do segurança, assume para si a responsabilidade de seus atos e</p><p>deixa a velha vida. Foi capaz de “enxergar” a vida nova trazida</p><p>pelo Mestre de Nazaré. Bartmeu, que estava à beira do cami-</p><p>nho, passa a fazer caminho. Passa a fazer o caminho com Jesus.</p><p>Gratidão!</p><p>98 | Quando brilha a esperança</p><p>Exercícios:</p><p>A gratidão é uma virtude que faz parte de suas relações coti-</p><p>dianas? Como é sua experiência?</p><p>Ao olhar para sua trajetória de vida, você identifica fatos/si-</p><p>tuações que fizeram ou fazem gerar em seu coração gestos</p><p>de gratidão? Enumere pelo menos três desses fatos. E se você</p><p>ainda não manifestou sua gratidão a quem merece ser lem-</p><p>brado/agradecido, comprometa-se a fazê-lo.</p><p>Nas difíceis realidades de nossos dias, é fácil ter um coração</p><p>grato? Por quê?</p><p>Marinês Lonardoni | 99</p><p>Até aqui, caminhamos com nosso personagem Bartimeu</p><p>e fomos, paulatinamente, galgando os degraus neces-</p><p>sários para alcançarmos a superação, seguindo o iti-</p><p>nerário a nós proposto pelo relato bíblico da cura do cego de</p><p>Jericó. Com ele, aprendemos que para superar sofrimentos e</p><p>adversidades, temos que nos alimentar, diariamente, da fé, da</p><p>esperança e dos propósitos/objetivos traçados no início de nos-</p><p>sa jornada. Além disso, é de fundamental importância que fi-</p><p>quemos atentos ao que acontece no derredor, ao que pode ou</p><p>não contribuir para com nosso projeto de vida e de como usar</p><p>essas ferramentas, a fim de chegarmos à concretização de nos-</p><p>sos propósitos.</p><p>Muitas vezes, alcançamos a superação desejada, mas pare-</p><p>ce que continuamos “com um gosto amargo na boca”. Ou seja,</p><p>100 | Quando brilha a esperança</p><p>vencemos um desafio, porém, vivemos e agimos como se essa</p><p>graça não tivesse ocorrido. Isso não significa que não somos</p><p>gratos pela conquista nem que a vitória não deva ser valori-</p><p>zada. No entanto, há determinadas adversidades que, quando</p><p>superadas, necessitam ser ressignificadas. Entretanto, só pode-</p><p>remos ressignificar nossas experiências após um processo de</p><p>elaboração do evento que vivenciamos. Isso pode ocorrer ime-</p><p>diatamente à superação ou não, pois depende de como cada um</p><p>de nós age e reage aos eventos que nos acontecem.</p><p>A necessidade de ressignificar ocorre, como também pode-</p><p>mos ver em Lonardoni (2021), porque, no centro da realidade</p><p>a ser curada, reside o significado, o sentido daquilo que vive-</p><p>mos. E o significado de todo acontecimento depende do filtro,</p><p>das lentes que cada um de nós usa para ver ou vivenciar esse</p><p>evento. Muitas vezes, ao nos defrontar com situações adversas,</p><p>como problemas de saúde, luto, fracasso profissional, entre ou-</p><p>tros, em um primeiro momento, pensamos que seja algo sem</p><p>solução. Contudo, estamos diante de uma oportunidade para</p><p>dar um novo significado ou um novo sentido, seja para os even-</p><p>tos do presente, seja para os que virão depois. Somente seremos</p><p>capazes de vencer uma grande batalha se, ao longo do caminho,</p><p>nos fortalecermos</p><p>com as vitórias dos pequenos obstáculos</p><p>vencidos (LONARDONI, 2021, p. 42).</p><p>A partir dessa constatação, fica mais fácil entender no que</p><p>consiste o processo de ressignificar. Ao olharmos para a palavra</p><p>ressignificar, de maneira literal, já temos a compreensão de que</p><p>o sentido nela embutido seja “dar um novo significado” a algu-</p><p>ma experiência, pois o prefixo “re” significa “de novo” ou “no-</p><p>vamente”. Ou seja, dar um significado ou sentido novo a algo</p><p>(LONARDONI, 2021, p. 43).</p><p>Desse modo, segundo Fernández (1990), referenciado</p><p>Marinês Lonardoni | 101</p><p>por Siqueira et al. (2013), o termo ressignificar possui três sen-</p><p>tidos distintos: a) dar um significado diferente; b) reafirmar,</p><p>voltar a afirmar, firmar; e c) resignar-se, aceitar a realidade. Se</p><p>tomarmos a primeira das três afirmações apontada pelo autor</p><p>- dar um sentido diferente -, a ressignificação consiste na capa-</p><p>cidade de nós, seres humanos, atribuirmos significados novos</p><p>a partir da reflexão acerca de um acontecimento outrora viven-</p><p>ciado. Em outras palavras, a ressignificação é um processo que</p><p>nos permite atribuir novos sentidos a uma experiência passada.</p><p>Hoje, devido a uma infinidade de motivações, muitos querem</p><p>“ficar” na situação atual ao invés de ressignificar. Daí a impor-</p><p>tância de desenvolver cotidianamente as características de uma</p><p>pessoa de atitude, que tem foco, que não se deixa esmorecer</p><p>diante das dificuldades. Ressignificar também tem a ver com a</p><p>forma como nos situamos diante de nossa história.</p><p>Seguindo esse raciocínio, as experiências que produzimos</p><p>em um tempo posterior a eventos passados são capazes de al-</p><p>terar o sentido dado a eles, isto é, quando conseguimos dar um</p><p>novo significado a algo que vivemos e que de certa forma nos</p><p>foi traumático. Isso permite mais do que a evocação de memó-</p><p>rias, de experiências vividas, possibilita a construção ativa de</p><p>sentidos em relação ao que vivenciamos. Seria o mesmo que</p><p>enxergar as coisas com novas lentes.</p><p>Nesse contexto, de acordo com Peltz et al. (2010, apud SI-</p><p>QUEIRA et al. 2013), a ressignificação não consiste em um atri-</p><p>buto com o qual já nascemos ou que adquirimos ao longo da</p><p>vida. Antes, é um conjunto de processos psíquicos e sociais que</p><p>ocorrem em nossas vidas em um tempo, dadas certas condi-</p><p>ções. É um processo pessoal e intransferível de cada pessoa,</p><p>uma vez que cada um de nós é o único responsável pelo rumo</p><p>que damos às nossas vidas e pelas escolhas que fazemos.</p><p>102 | Quando brilha a esperança</p><p>Nesse cenário, emerge a necessidade de despoluir os co-</p><p>rações, já que ao adentrarmos no caminho da ressignificação,</p><p>descobrimos que as veredas que devemos percorrer nem sem-</p><p>pre se encontram nas planícies ou que o terreno será de fácil</p><p>acesso. Compreendemos isso facilmente, pois o terreno do co-</p><p>ração humano é uma seara fortemente bloqueada por nossas</p><p>crenças, atitudes e inúmeros mecanismos de defesa que nos</p><p>deixam praticamente intocáveis. Diante dessa realidade, neces-</p><p>sitamos nos predispor ao novo, à mudança, o que exigirá de</p><p>cada um de nós atitudes diferenciadas daquelas que costumei-</p><p>ramente tomamos.</p><p>Talvez, uma das primeiras atitudes que devemos tomar é</p><p>a de não ocultar a dor, o sofrimento. Falar sobre o que nos faz</p><p>sofrer, sobre a ferida que trazemos guardada é de fundamen-</p><p>tal importância em um processo de superação acompanhado</p><p>da ressignificação. Contudo, isso não significa que vamos abrir</p><p>nosso coração, contar o que nos traz sofrimento para qualquer</p><p>pessoa. É imprescindível que essa “escuta” seja de alguém pre-</p><p>parado: sacerdote, pastor, religioso, terapeuta, membro da Pas-</p><p>toral da Escuta etc.</p><p>Além disso, é necessário compreender e incorporar em</p><p>nosso agir/pensar que, ao ressignificar determinado evento, não</p><p>mudamos o passado. O passado já passou e, por isso, não pode</p><p>ser modificado. Porém, é possível mudar nosso olhar sobre ele,</p><p>a maneira como lemos e interpretamos essa experiência dolo-</p><p>rosa. Isso deve nos levar à consciência de que devemos encarar</p><p>o sofrimento de frente, com a postura de quem se decidiu pela</p><p>cura total. Fugir da dor e do sofrimento só fará aumentá-los no</p><p>futuro.</p><p>Uma segunda atitude importante no itinerário da ressig-</p><p>nificação diz respeito à necessidade de sermos capazes de re-</p><p>Marinês Lonardoni | 103</p><p>conhecer nossas emoções e sentimentos em relação ao evento</p><p>superado e, em seguida, expor o que sentimos de maneira clara</p><p>e sincera. Quando decidimos buscar ajuda para a cura de nos-</p><p>sas feridas, precisamos, antes, realizar um exame minucioso das</p><p>emoções, dos sentimentos e de todos os aspectos envolvidos no</p><p>fato/evento a ser ressignificado.</p><p>Se o propósito é esvaziar a lixeira do coração, não basta</p><p>dizer que “estamos magoados”, por exemplo. É preciso que bus-</p><p>quemos o “histórico”, as raízes do evento: façamos um relato,</p><p>expondo os detalhes do que gerou em nós essa ferida, de como</p><p>nos sentimos, como agimos em relação a ela e a partir dela...</p><p>Necessitamos, ainda, ser honestos e reconhecer nossa parcela</p><p>de culpa em dado evento, pois, como seres humanos, não esta-</p><p>mos isentos de falhas e equívocos.</p><p>Além de não ocultar a dor e a necessidade de reconhecer</p><p>nossos sentimentos para expor o que sentimos, está a mais im-</p><p>portante das ações: estarmos abertos aos planos de Deus. Ou</p><p>seja, somente poderemos superar e ressignificar nossos trau-</p><p>mas, se buscarmos a luz de Deus para nossas vidas. É a partir</p><p>da Sagrada Escritura que teremos luz para enxergar nossa reali-</p><p>dade, confrontá-la com os ensinamentos nela propostos e, for-</p><p>talecidos por eles, alcançarmos a cura. Engana-se quem pensa</p><p>que sozinhos alcançaremos esse propósito, pois, como nos re-</p><p>vela São João Bosco, “Nossa vida é um presente de Deus e o que</p><p>fazemos dela é o nosso presente a Ele”.</p><p>Somente poderemos reinterpretar as experiências e os fa-</p><p>tos dolorosos de nossa história, quando os colocarmos sob a</p><p>luz do amor misericordioso de Deus. Em outras palavras, no</p><p>momento em que nos sentimos acolhidos pelo amor do Pai,</p><p>que é misericordioso, estaremos aptos para lidar com situações</p><p>difíceis e complexas de nossas existências, uma vez que com-</p><p>104 | Quando brilha a esperança</p><p>preender, aceitar e lidar com o passado não é uma opção, mas</p><p>uma necessidade cotidiana.</p><p>Desse modo, o ato de reescrever um evento ou vários fatos</p><p>traumáticos de nossas histórias é condição sine qua non para</p><p>nossas vidas, tendo em vista que precisamos dar um novo sig-</p><p>nificado afetivo, emocional e espiritual para as dores e as feri-</p><p>das que trazemos. Despoluir o coração implica permitir que as</p><p>máquinas que irão limpar os entulhos e a sujeira acumulados</p><p>no chão de nossas almas sejam dirigidas pela vontade de Deus</p><p>e por sua Palavra.</p><p>Alguns teóricos afirmam que, em sua raiz, a palavra res-</p><p>significação tem o sentido de “retirar afeto de alguma coisa”.</p><p>Isso, como pode ser visto em Lonardoni (2021), faz sentido,</p><p>pois ao ressignificarmos uma experiência, quase sempre trau-</p><p>mática, estamos, literalmente, retirando o afeto (o sofrimento,</p><p>a mágoa, o ressentimento…) daquela realidade. Parece, como</p><p>diziam nossos avós, que “tiramos um peso das costas”, pois essa</p><p>dor, essa ferida, deixou de existir. Seria o mesmo que declarar:</p><p>“isso que me aconteceu não me angustia mais nem me deixa</p><p>com raiva, com medo” (LONARDONI, 2021, p. 43), entre tan-</p><p>tos outros sentimentos.</p><p>Porém, ressignificar não quer dizer “esquecer”. Para a au-</p><p>tora, dar um significado diferente àquilo que nos fez sofrer não</p><p>significa que nos esqueceremos de tal sofrimento. Pelo contrá-</p><p>rio, a “cicatriz” do sofrimento, do trauma, permanece em nós.</p><p>O que muda é o modo como passamos a olhar para esse evento</p><p>do nosso passado. Se antes ele nos causava dor, raiva ou angús-</p><p>tia, agora, ao nos lembrarmos dele, após a ressignificação, des-</p><p>cobrimos que esses sentimentos desapareceram, embora a cica-</p><p>triz permaneça ali. E, como cicatriz não dói, apenas nos remete</p><p>a um trauma, do mesmo modo acontece com a ressignificação:</p><p>Marinês Lonardoni | 105</p><p>não apagamos</p><p>o evento traumático, mas o vemos com outros</p><p>olhos (LONARDONI, 2021, p. 43).</p><p>Se pudéssemos voltar ao passado e realizar uma entrevista</p><p>com Bartimeu, ele certamente teria muito a nos ensinar. Con-</p><p>tudo, fiquemos com o que é essencial. Ou seja, quando passa-</p><p>mos por um processo de superação aliado à ressignificação, ja-</p><p>mais permanecemos no mesmo estágio. Antes de seu encontro</p><p>com Jesus, o cego de Jericó estava à beira do caminho, depois,</p><p>Bartimeu seguia Jesus pelo caminho. Isto é, ele começou a fazer</p><p>um novo caminho. Façamos também nós um caminho novo!</p><p>Exercícios:</p><p>Certamente, ao longo de sua trajetória de vida, você superou</p><p>muitos desafios, mas seria capaz de afirmar que conseguiu</p><p>ressignificar as dores e traumas provocados por essas lutas?</p><p>Tente fazer memória desses eventos, de como foi vivê-los e se</p><p>hoje restam feridas abertas ou apenas cicatrizes.</p><p>Caso as feridas permaneçam, busque ajuda. Ao longo dos</p><p>capítulos deste itinerário com Bartimeu, apontamos várias</p><p>possibilidades para você buscar a cura de seus traumas.</p><p>Não tenha medo: a dor será maior se as feridas não forem</p><p>cauterizadas!</p><p>Se você tivesse a oportunidade de um encontro com Bartimeu,</p><p>o que diria a ele?</p><p>Marinês Lonardoni | 107</p><p>“O que vale a pena possuir, vale a pena esperar” (San-</p><p>ta Tereza Benedita da Cruz). Com essas palavras</p><p>iluminando e acendendo a esperança em nossos</p><p>corações, afirmamos: construímos um caminho! Ou seja, com-</p><p>pletamos essa jornada em que tivemos como companheiro e</p><p>modelo de superação o cego de Jericó. Com Bartimeu, aprende-</p><p>mos que o itinerário necessário para superar os obstáculos que</p><p>visitam ou visitaram nossas histórias é permeado por inúmeros</p><p>desafios, mas, ao mesmo tempo, rico em oportunidades, em</p><p>possibilidades de sairmos de uma vida de trevas para uma vida</p><p>repleta de luz, da Luz de Deus.</p><p>Essa luz, aqui, se chama esperança. Podemos afirmar que o</p><p>cego de Jericó pode assumir uma identidade, entrar para o ca-</p><p>minho e ser reconhecido como Bartimeu, porque, apesar de às</p><p>vezes escondida, a faísca da esperança nunca deixou de brilhar</p><p>em seu coração. O poeta católico francês, Charles Péguy (1873-</p><p>1914), considera as virtudes teologais - fé, esperança e carida-</p><p>de - como três irmãs que caminham juntas, de mãos dadas. A</p><p>108 | Quando brilha a esperança</p><p>esperança, que vai entre as duas, é a “irmã menor”, menos visí-</p><p>vel e, talvez, mais esquecida. De mãos dadas, entrelaçadas, po-</p><p>demos pensar que as duas grandes, de mais idade, que andam</p><p>“no tempo presente”, cuidam e conduzem a pequena. Mas, se</p><p>olharmos com mais atenção, veremos que é a esperança, que</p><p>está no meio, que conduz suas irmãs maiores e, sem ela, a fé e a</p><p>caridade não seriam nada.</p><p>Ao galgarmos os passos da aceitação da realidade em que</p><p>nos encontramos, ao reconhecermos os eventos que nos ro-</p><p>deiam e munidos da esperança, torna-se mais fácil tomarmos</p><p>a(s) atitude(s) necessária(s) para superarmos aquilo que nos fe-</p><p>riu e que nos faz sofrer. Além disso, apenas com atitude e deter-</p><p>minação é que nos revestimos da armadura necessária para nos</p><p>livrar das crenças limitantes que foram plantadas e enraizadas</p><p>em nossa infância ou adolescência.</p><p>Somente quando iniciamos um processo de autoconheci-</p><p>mento é que realmente nos enxergamos verdadeiramente como</p><p>somos e descobrimos os mecanismos de funcionamento de</p><p>nossa essência, de nosso “eu”. É nesse contexto que compreen-</p><p>demos e interpretamos o que nos limita, o que provocou nossas</p><p>feridas e por que elas nos causam tantas dores.</p><p>Quando isso acontece, tomamos consciência de que temos</p><p>valores e somos capazes de dizer não a uma série de situações</p><p>que, até então, nos levavam a um autoboicote. Nesse momento,</p><p>necessitamos de ajuda, mas precisamos saber em quem confiar.</p><p>Bartimeu confiou no Messias. E nós, confiamos em quem? É a</p><p>confiança em Deus que nos dá a coragem para mudar o rumo</p><p>de nossas realidades e assumirmos nosso protagonismo no</p><p>mundo. Aqui, vale a pena retomar o ensinamento do apóstolo</p><p>Paulo: “Sede imitadores de Deus, como filhos que ele ama”</p><p>(Ef 5, 1).</p><p>Marinês Lonardoni | 109</p><p>À medida que vamos tomando consciência de nossa iden-</p><p>tidade, quando nos reconhecemos com direito a uma vida sau-</p><p>dável e feliz, assumimos o posto de comandante de nosso navio.</p><p>Com o autodomínio reestabelecido e sabendo para onde quere-</p><p>mos ir, temos condições de desenvolver uma fé madura, que se</p><p>alicerça na Escritura e na vida de Igreja. Com o auxílio desses</p><p>dois pilares, autodomínio e fé, resta-nos apenas oferecer a Deus</p><p>um coração grato. A gratidão deve ser o bálsamo que fará a di-</p><p>ferença em nossa caminhada.</p><p>Contudo, não nos enganemos: se quisermos seguir o</p><p>exemplo de Bartimeu, como é declarado em Lonardoni (2021),</p><p>o primeiro passo a ser dado é o de nos desinstalarmos. Ou seja,</p><p>abandonarmos a zona de conforto, mesmo aquela que não se</p><p>apresenta confortável, e que nos é útil. Muitos de nós até quere-</p><p>mos mudar o rumo de nossas vidas, queremos assumir o posto</p><p>de comandante de nosso navio, queremos dizer não àquilo que</p><p>nos limita e nos deixa infelizes, porém, não temos coragem de</p><p>nos desapegar daquilo que nos cerca e que, por uma determina-</p><p>da circunstância, nos dá segurança, mesmo que dolorosa. Para</p><p>alcançarmos a verdadeira alegria de um coração grato, necessi-</p><p>tamos nos livrar dos pecados, dos apegos.</p><p>Portanto, tenhamos em mente o itinerário percorrido por</p><p>Bartimeu, que, mesmo diante de realidades e situações extre-</p><p>mamente adversas, foi capaz de enxergar, mesmo sem ver, a</p><p>luz para iluminar seus passos e conduzi-lo àquele que podia</p><p>socorrê-lo. É a partir de ações concretas frente aos obstáculos</p><p>que poderemos alcançar, não somente a cura, mas também a</p><p>salvação.</p><p>Marinês Lonardoni | 111</p><p>BÍBLIA AVE MARIA. Bíblia Católica Online. Disponível em:</p><p>https://www.bibliacatolica.com.br › Acesso: 15 ago 2020</p><p>BECK, J. S. Terapia cognitiva: teoria e prática. Porto Alegre: Ar-</p><p>tes Médicas, 1997.</p><p>BECK, A. T. Além da crença: Uma teoria de modos, persona-</p><p>lidade e psicopatologia. In: SALKOVSKIS, P. M. (Ed.). Frontei-</p><p>ras da terapia cognitiva. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2013, p.</p><p>21-30.</p><p>BEZ, Andréia da Silva. Modificação de crenças e modelação</p><p>proativa de metas: perspectivas de interface. Revista Signo. San-</p><p>ta Cruz do Sul, v. 38, n. 65, p. 218-232, jul. dez. 2013. Disponível</p><p>em: http://online.unisc.br/seer/index.php/signo. Acesso em: 13</p><p>ago. 2020</p><p>CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. 19ª ed. São Paulo: Edi-</p><p>ções Loyola, 1999.</p><p>COVEY, Stephen. O princípio 90/10. Disponível em: <https://</p><p>franklincovey.com.br/blog/o-principio-90-10/ Acesso em: 20</p><p>ag. 2021.</p><p>112 | Quando brilha a esperança</p><p>FERREIRA, ANABELA. Atitude e suas características. Psico-</p><p>logiaB, 2012. Disponível em: http://psicologiab-jml.blogspot.</p><p>com/2012/04/atitude-e-suas-caracteristicas.html Acesso em:</p><p>20 jun. 2021.</p><p>FERREIRA, Maria Cristina. A Psicologia Social Contemporâ-</p><p>nea: Principais Tendências e Perspectivas Nacionais e Interna-</p><p>cionais. In: Revista Psicologia: Teoria e Pesquisa. Vol. 26, n.</p><p>especial, 2010, p. 51-64.</p><p>FRANKL, Viktor Emil. Fundamentos antropológicos da psico-</p><p>terapia. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.</p><p>FRANKL, Viktor Emil. Em busca de sentido. Petrópolis: Vozes,</p><p>1985.</p><p>LONARDONI, Marinês. Superação e empoderamento. Olhan-</p><p>do fatos, enxergando milagres. São Paulo: Mentes Abertas,</p><p>2021.</p><p>PIETA, Maria Adélia Minghelli e FREITAS, Lia Beatriz de</p><p>Lucca. Sobre a gratidão. In: Arquivos Brasileiros de Psicolo-</p><p>gia, v. 61, n. 1, 2009. Disponível em: ht</p><p>tp://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pi-</p><p>d=S1809-52672009000100010 Acesso em: 12 ag. 2020.</p><p>TABOADA, Nina G.; LEGAL, Eduardo J.; MACHADO, Ni-</p><p>valdo. Resiliência: em busca de um conceito. Revista Brasileira</p><p>Crescimento e desenvolvimento humano. v. 16, n. 3. São Pau-</p><p>lo, dez. de 2006. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scie-</p><p>lo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-12822006000300012>.</p><p>Acesso em: 15 dez. 2018.</p><p>VALLES, Carlos Gonzalez. “Eu sou</p><p>assim...” É possível mu-</p><p>dar? São Paulo: Loyola, 2002.</p><p>do Jordão, e Jericó fazia parte</p><p>dessa rota.</p><p>É sobre o fabuloso relato do encontro de Bartimeu com Je-</p><p>sus que passaremos a nos ocupar a partir de agora. O evangelis-</p><p>ta Marcos nos apresenta o personagem conhecido como “o cego</p><p>de Jericó”. Nesse pequeno mas profundo texto, temos: a identifi-</p><p>cação de Bartimeu e sua profissão/condição social; a passagem</p><p>de Jesus por aquele lugar; o pedido de ajuda; e o encontro com o</p><p>Messias e sua cura. Tudo aconteceu em poucos minutos, mas o</p><p>suficiente para revolucionar a vida e a história daquele homem.</p><p>A partir desse contexto e alicerçados pela virtude da es-</p><p>perança, propomos um itinerário para a superação das situa-</p><p>ções adversas que, porventura, venham fazer morada em nossa</p><p>trajetória de vida. Em nossa publicação anterior, Superação e</p><p>empoderamento – olhando fatos, enxergando milagres (LONAR-</p><p>DONI, 2021), aprofundamos os aspectos inerentes a essa ques-</p><p>tão, como: sentido de vida, resiliência, estágios do luto, entre</p><p>outros. Aqui, apoiados na contribuição das Ciências Sociais,</p><p>voltamos o olhar para atitudes e posturas que devemos assumir,</p><p>Marinês Lonardoni | 15</p><p>capacitando-nos para transformar os invernos de nossa exis-</p><p>tência em primaveras.</p><p>O texto que inicia este capítulo, de Miryan de Resende, é</p><p>um presente ímpar, pois a escritora, por meio de analogias, nos</p><p>convida a deixar de lado os invernos, que nos estacionam nas</p><p>dores e nas dificuldades, e nos abrir a agosto, que nos prepa-</p><p>ra para a primavera: “O mês de agosto tem muito a ensinar.</p><p>Porque agosto é mês jardineiro, é dentro dele, berço do inver-</p><p>no, que as sementes dormem. Aguardam seu tempo de brotar.</p><p>Agosto é guardador da boa-nova, preparador de flores. Agosto</p><p>é quando Deus deixa a natureza traduzir visivelmente o tempo</p><p>das mutações.”.</p><p>Podemos afirmar que é no inverno que gestamos as semen-</p><p>tes do mudar, aceitar, compartilhar, distribuir, de onde nascerá</p><p>a superação. Essas são atitudes que devem estar presentes em</p><p>qualquer itinerário que tenha em vista a superação, inclusive</p><p>neste que aqui propomos: aceitar a realidade, ter atitude, sa-</p><p>ber em quem confiar, vencer crenças limitantes, dizer “não”, ter</p><p>coragem, assumir o protagonismo de sua história, ter fé, entre</p><p>outras. Esses foram os passos vivenciados e experienciados por</p><p>Bartimeu em seu encontro com Jesus, porém, eles foram for-</p><p>jados ao longo da caminhada do cego de Jericó, preparando-o</p><p>para o dia da vitória.</p><p>Coincidência ou não, o encontro entre Bartimeu e o Mes-</p><p>tre de Nazaré, ocorrido há poucos dias antes da Paixão, morte</p><p>e Ressurreição de Jesus, se deu no final do inverno e início da</p><p>primavera, pois, no Oriente, os meses de março e abril marcam</p><p>esse período das estações. Tal afirmação pode ser confirmada</p><p>por estudos realizados por botânicos israelenses, que analisa-</p><p>ram o santo sudário e atestam que as flores nele encontradas</p><p>pertencem a esse período do ano.</p><p>16 | Quando brilha a esperança</p><p>O cego de Jericó soube abrir-se para a primavera que che-</p><p>gou em sua vida. Fortalecidos pela esperança de que a primave-</p><p>ra irá chegar, convidamos você a viver essa maravilhosa jornada</p><p>ao lado de Bartimeu, que tem muito a nos ensinar. De cego de</p><p>Jericó a Bartimeu, ele certamente nos dirá, assim como Miryan:</p><p>“aceite as esperas, mas coloque floreiras na janela.”.</p><p>Marinês Lonardoni | 17</p><p>O relato bíblico da cura do cego de Jericó está presen-</p><p>te nos três evangelhos sinóticos: Mateus (20, 29-34),</p><p>Marcos (10, 46-52) e Lucas (18, 35-43). A passagem</p><p>escolhida para nosso itinerário é a do evangelista Marcos.</p><p>Chegaram a Jericó. Ao sair dali Jesus, seus discípulos</p><p>e numerosa multidão, estava sentado à beira do ca-</p><p>minho, mendigando, Bartimeu, que era cego, filho de</p><p>Timeu. Sabendo que era Jesus de Nazaré, começou a</p><p>gritar: “Jesus, filho de Davi, tem compaixão de mim!”.</p><p>Muitos o repreendiam, para que se calasse, mas ele</p><p>gritava ainda mais alto: “Filho de Davi, tem compai-</p><p>xão de mim!”. Jesus parou e disse: “Chamai-o”. Cha-</p><p>maram o cego, dizendo-lhe: “Coragem! Levanta-te, ele</p><p>te chama”. Lançando fora a capa, o cego ergueu-se de</p><p>um salto e foi ter com ele. Jesus, tomando a palavra,</p><p>18 | Quando brilha a esperança</p><p>perguntou-lhe: “Que queres que te faça?” “Rabôni” –,</p><p>respondeu-lhe o cego – “que eu veja!”. Jesus disse-lhe:</p><p>“Vai, a tua fé te salvou”. No mesmo instante, ele recu-</p><p>perou a vista e foi seguindo Jesus pelo caminho.2 (Mc</p><p>10, 46-52)</p><p>Sabemos que Bartimeu não é nome próprio. O prefixo</p><p>“bar”, em aramaico, quer dizer “filho”. Logo, Bartimeu, filho de</p><p>Timeu. Segundo os estudiosos, há muitas lendas em torno do</p><p>pai de Bartimeu. Uma delas diz que ele teria sido militar, mor-</p><p>to pelo Império Romano e tido o filho com os olhos cegados,</p><p>como parte de uma pena, contudo não há comprovação histó-</p><p>rica acerca desse fato.</p><p>Algumas traduções do evangelho de Lucas trazem a infor-</p><p>mação de que Bartimeu enxergara antes, como é possível cons-</p><p>tatarmos em Lucas (18, 41): “Jesus perguntou: ‘O que queres</p><p>que eu faça por ti?’ O cego respondeu: ‘Senhor, eu quero enxer-</p><p>gar de novo”. Porém, esse fato também não é confirmado cienti-</p><p>ficamente. O fato é que Bartimeu era cego e, após seu encontro</p><p>com o Mestre de Nazaré, foi curado.</p><p>Sabemos que, historicamente, Bartimeu existiu, pois sua</p><p>cura é relatada nos evangelhos sinóticos, que informam tam-</p><p>bém a respeito do nome de seu pai: Timeu. Contudo não temos</p><p>exato conhecimento da história de sua família. Alguns estudio-</p><p>sos afirmam que Timeu teria sido um general de Israel, homem</p><p>rico, que liderou a resistência israelita contra a invasão romana.</p><p>Porém, o exército de Israel foi derrotado, e os soldados roma-</p><p>nos impuseram um severo castigo: Timeu e os demais líderes</p><p>foram crucificados. E, para inibir novas tentativas de oposição</p><p>à autoridade romana, furaram os olhos do filho de Timeu com</p><p>2 Todas as citações bíblicas são retiradas da versão da Bíblia Ave Maria.</p><p>Marinês Lonardoni | 19</p><p>um prego e a família perdeu todos os seus bens. No entanto,</p><p>essas informações não estão amparadas por comprovações his-</p><p>tóricas.</p><p>Diante da tribulação que se abateu sobre a vida de Barti-</p><p>meu, entendemos que o cego de Jericó tem muito a nos ensi-</p><p>nar sobre a superação e sobre como a esperança permeia esse</p><p>caminho. Afinal, como definir a superação? Podemos afirmar,</p><p>como vimos em nossa obra anterior (LONARDONI, 2021), que</p><p>superar envolve “deixar algo para trás”, abrir mão do que não é/</p><p>está bom e buscar viver outra realidade. Assim, o ato de supe-</p><p>rar envolve fazer sacrifícios, encarar a dor e seguir em frente,</p><p>não importa o quanto custe ou cause dores. Por isso, segundo</p><p>Frankl (1978, p. 236), “o que sacrifica dá ao sacrifício sentido,</p><p>valor, preço. Dar sentido quer dizer entregar-se. Não é o que eu</p><p>guardo comigo que retém valor; é o que eu sacrifico que adqui-</p><p>re valor”. Talvez seja essa a razão pela qual já ouvimos muitas</p><p>pessoas, que passaram ou passam pela experiência da supera-</p><p>ção, afirmarem que suas vidas adquiriram um novo sentido a</p><p>partir de tal experiência, o que confirma a concepção de Frankl</p><p>(1985, p. 95) a respeito de “quem tem um porquê viver pode</p><p>suportar quase qualquer como”.</p><p>A partir disso, é possível compreender que a superação é</p><p>uma habilidade que podemos e devemos desenvolver ao longo</p><p>da vida. É uma resposta frente às adversidades, ao inesperado</p><p>que bate à porta. Por isso, ao darmos uma resposta ao que nos</p><p>acontece, tomamos uma decisão.</p><p>Logo, superar é uma decisão que tomamos diariamente. E,</p><p>pensando nesse aspecto, Valles (2002, p. 90) afirma que somos</p><p>responsáveis pela busca de nossa própria felicidade e que esta</p><p>“não depende de causas cegas e independentes de nós mesmos.</p><p>Somos nós que preparamos, cultivamos e elaboramos nossos</p><p>20 | Quando brilha a esperança</p><p>próprios estados de felicidade ou de descontentamento”. Para</p><p>que isso ocorra, são necessárias mudanças de atitudes, de pen-</p><p>samentos e de ações, desse modo, “as coisas iriam melhor se</p><p>nos dedicássemos todos a limar algumas arestas e suavizar al-</p><p>gumas</p><p>asperezas” (VALLES, 2002, p. 90) de nossas emoções,</p><p>sentimentos e temperamentos, pois mudar ou não, depende de</p><p>constantes escolhas e decisões. É, portanto, uma decisão pesso-</p><p>al, intransferível e diária.</p><p>Isso nos leva a enxergar com maior clareza que o sofrimen-</p><p>to é inerente à natureza humana e traz, inclusive, sentido à vida</p><p>em diferentes graus de intensidade ao longo de nossa existên-</p><p>cia. Por isso o desafio está no que decidimos fazer diante dele.</p><p>Segundo Frankl (1985, p. 95), temos duas possibilidades: nos</p><p>“entregarmos passivamente” ou “assumirmos ativamente” a luta</p><p>por algo ou alguém – digno(a) dessa dor e sofrimento.</p><p>Portanto, como também podemos ver em Lonardoni</p><p>(2021), fica evidente que, para superarmos toda e qualquer</p><p>adversidade, o primeiro passo a ser dado é o de nos desinsta-</p><p>larmos, ou seja, abandonarmos nossa zona de conforto, mes-</p><p>mo aquela que não julgamos confortável, mas que nos é útil.</p><p>Por isso, para superar toda sorte de adversidades, é primordial</p><p>que aprendamos a lidar com as frustrações, tenhamos autoco-</p><p>nhecimento, desenvolvamos a autoestima cotidiana e, princi-</p><p>palmente, nos alimentemos da fé.</p><p>Um dos fatores preponderantes para a eficácia na luta em</p><p>favor de esforços para superar o que nos faz sofrer está relacio-</p><p>nado à capacidade de sermos resilientes. De acordo com Tabo-</p><p>ada et al. (2006, p. 104), podemos entender a resiliência como</p><p>“o processo onde o indivíduo consegue superar as adversidades,</p><p>adaptando-se de forma saudável ao seu contexto”, o qual diz</p><p>respeito à capacidade de adaptação e à habilidade de resolver</p><p>Marinês Lonardoni | 21</p><p>problemas em situações de grande estresse, pressão.</p><p>A resiliência nos possibilita suplantar uma situação adver-</p><p>sa e sair fortalecidos dessa experiência. Por isso, é entendida</p><p>como uma adaptação positiva ao respondermos à determinada</p><p>crise e nos torna aptos a minimizar ou dominar os efeitos no-</p><p>civos do trauma. Isto é, somos capazes não apenas de supor-</p><p>tar uma situação de estresse ou trauma, mas também de nos</p><p>comprometer com uma nova dinâmica de vida, quando ocorre</p><p>efetivamente a superação.</p><p>A partir desses aspectos, é possível afirmar, assim como em</p><p>Lonardoni (2021), que a resiliência possui dois elementos bási-</p><p>cos: é dotada de flexibilidade e não resistência a mudanças. En-</p><p>tendemos que a flexibilidade está relacionada ao aspecto de não</p><p>rigidez de atitudes e pensamentos, enquanto a não resistência</p><p>configura-se no fato de aceitarmos mudanças, seja de hábitos,</p><p>costumes, seja de posturas diante da vida. É por isso que uma</p><p>das qualidades da pessoa resiliente é a perseverança. Quando</p><p>acreditamos em algo e/ou alguém, mantemos acesa a esperança</p><p>e, desse modo, perseveramos. Portanto o ato de perseverar está</p><p>relacionado ao de crer e confiar – pilares que fortalecem e sus-</p><p>tentam a ação de superar.</p><p>No pequeno relato bíblico sobre a cura do cego de Jericó,</p><p>compreendemos que a superação não é um processo isolado,</p><p>mas sim, que ocorre quando somamos vários fatores. Acredi-</p><p>tamos que foram incontáveis os obstáculos vencidos por Barti-</p><p>meu até chegar ao milagroso encontro com o Messias: aceitar a</p><p>condição de mendigar para sobreviver; lidar com a hostilidade</p><p>e a incompreensão das pessoas que o rodeavam (especialmente</p><p>pelo julgamento e condenação de sua gente, que via na cegueira</p><p>um castigo de Deus); lidar com a exclusão...</p><p>Fora isso, precisamos mencionar ainda os sentimentos que,</p><p>22 | Quando brilha a esperança</p><p>certamente, povoavam o coração do cego: decepção, revolta,</p><p>abandono... O que aconteceu com sua família? Que dramas fi-</p><p>zeram parte de seus dias e noites? Por que caminhos Bartimeu</p><p>andou até o dia em que sua sofrida existência cruzou com a</p><p>de Jesus? Nada foi escrito sobre isso, no entanto, podemos fa-</p><p>cilmente nos colocar no lugar do cego de Jericó e, a partir de</p><p>nossas experiências traumáticas, imaginarmos os percalços que</p><p>envolveram a existência dele.</p><p>Contudo, descobrimos que Bartimeu era um homem que</p><p>cultivava a esperança. Somente quem acredita em milagres se</p><p>apega à esperança, persevera e alcança vitórias. Por isso, o cego</p><p>de Jericó nos oferece um “roteiro” para quem deseja/precisa</p><p>percorrer o caminho rumo à superação. A partir dos elemen-</p><p>tos que o relato bíblico nos propicia, é possível construir um</p><p>“percurso”, um “itinerário” para a superação acontecer. Para</p><p>tanto, tomaremos cada um dos desdobramentos do encontro</p><p>do cego com Jesus e, ao saborear os ensinamentos neles presen-</p><p>tes, vamos transformá-los em importantes passos para a cura</p><p>de dores, sofrimentos, desventuras. Este é o convite: trilhemos o</p><p>caminho que pode nos levar ao encontro com nós mesmos(as)</p><p>e com o Criador e Pai. Ao encontro dAquele que tem o poder de</p><p>nos salvar! Por isso, não percamos a esperança!</p><p>Marinês Lonardoni | 23</p><p>Chegaram a Jericó. Ao sair dali Jesus, seus discípulos</p><p>e numerosa multidão, estava sentado à beira do</p><p>caminho, mendigando, Bartimeu, que era cego, filho de</p><p>Timeu. (Mc 10, 46)</p><p>Na vida, é inevitável que enfrentemos dificuldades e pro-</p><p>blemas, grandes ou pequenos, no presente e no futu-</p><p>ro. É inevitável, ainda, que as dificuldades aconteçam</p><p>mais de uma vez, pois a própria Escritura nos diz: “a cada dia</p><p>bastam as suas próprias dificuldades” (Mt 6, 34b). Essa consta-</p><p>tação já é um alerta para nos conscientizarmos de que aflições</p><p>e preocupações são inerentes à existência humana. Além disso,</p><p>muitos dos sofrimentos que vivenciamos, em grande parte, re-</p><p>24 | Quando brilha a esperança</p><p>sultam de escolhas, mas outros, de certa forma, são impostos</p><p>pela vida e, portanto, contrários à nossa vontade.</p><p>Independentemente do que está na raiz das dores atuais,</p><p>precisamos criar forças e buscar coragem para superá-las, já</p><p>que a superação é uma habilidade que desenvolvemos durante</p><p>toda a vida. Isso é possível porque somos dotados de inúmeras</p><p>capacidades, dentre elas, a perseverança: não desistir frente às</p><p>dificuldades e limites.</p><p>Além disso, de acordo com a Psicologia, existe uma espécie</p><p>de “padrão” na maneira como lidamos com episódios traumá-</p><p>ticos, e ter conhecimento disso é de suma importância. Assim,</p><p>quando entendemos como esse padrão funciona em cada um</p><p>de nós, temos em mãos um grande auxílio, pois nos ajuda a</p><p>lidar melhor com qualquer situação difícil no cotidiano. De</p><p>modo semelhante, tal reconhecimento também nos prepara</p><p>para apoiar outras pessoas que estejam passando por algum</p><p>evento delicado.</p><p>Diante de adversidade ou obstáculo, nossa primeira reação,</p><p>em muitos casos, é a de negá-los, pois simplesmente não acei-</p><p>tamos que determinada situação aconteça conosco. Outras ve-</p><p>zes, além do sentimento de negação, também experienciamos</p><p>a raiva de Deus. Geralmente, nos revoltamos contra Ele e nos</p><p>questionamos: Meu Deus, por que o Senhor permitiu/permi-</p><p>te isso? Por que justamente comigo? Essa atitude reflete nossa</p><p>falta de fé na palavra e na promessa que recebemos da parte do</p><p>Senhor que diz: “Feliz é o homem que persevera na provação,</p><p>porque depois de aprovado receberá a coroa da vida, que Deus</p><p>prometeu aos que o amam” (Tg 1, 12). A coroa dada aos que</p><p>perseveram diante de uma provação é a felicidade, é a vida.</p><p>Então, por que nos desesperamos diante das dificuldades?</p><p>Uma das respostas plausíveis é: ainda não entendemos (ou não</p><p>Marinês Lonardoni | 25</p><p>queremos) que todo crescimento só acontece porque nos depa-</p><p>ramos com obstáculos que tentam cercear nosso caminho. O</p><p>que o jardineiro faz com as plantas? Em determinada época, ele</p><p>as poda, retira o excesso de brotos, a fim de que a planta cresça</p><p>bonita e viçosa e, a seu tempo, dê flores e frutos espetacula-</p><p>res. É essa a analogia que devemos fazer com a nossa vida: os</p><p>obstáculos são as podas pelas quais necessitamos passar, para</p><p>crescermos e amadurecermos como pessoas e fortalecermos fé,</p><p>emoções e sentimentos. Outro fator primordial da “poda” é o</p><p>de que ela revigora nossas forças físicas, mentais, psicológicas e</p><p>espirituais, a fim de realizarmos projetos e concretizarmos so-</p><p>nhos.</p><p>Se, porventura, a provação for uma correção de Deus para</p><p>algum “erro”, lembremo-nos da exortação da Carta aos He-</p><p>breus: “Filho meu, não desprezes a correção do Senhor. Não</p><p>desanimes, quando repreendido por ele; pois o Senhor corrige</p><p>a quem ama e castiga todo aquele que reconhece por seu fi-</p><p>lho. Estais sendo provados para a vossa correção: é Deus que</p><p>vos trata como filhos” (Hb 12, 5-6). E ainda imaginando o sen-</p><p>timento de revolta, nos recorda: “Ora, qual é o filho a quem</p><p>seu pai não corrige?” (Hb 12, 7), “E verdade que toda correção</p><p>parece, de momento, antes motivo de pesar que de alegria. Mais</p><p>tarde, porém, granjeia aos que por ela se exercitaram o melhor</p><p>fruto de justiça e de paz.” (Hb 12, 11). Portanto, aprendamos a</p><p>enfrentar as dificuldades como a “poda” do jardineiro: é Deus</p><p>que cuida de nós, seus filhos, pois Ele é nosso Pai.</p><p>Deus, que é amor e que nos ama infinitamente, não quer</p><p>o mal de ninguém nem tampouco nos castiga, como algumas</p><p>pessoas costumam apregoar erroneamente. Aliás, isso não soa</p><p>contraditório? Se Deus nos criou à sua imagem e semelhança,</p><p>nos fez pouco inferiores aos anjos (Sl 8, 5; Hb 2, 7), como nos</p><p>26 | Quando brilha a esperança</p><p>castigaria? Precisamos olhar ao entorno, analisar nossas ações,</p><p>atitudes e como vivemos. Ao checarmos o modo de vida, des-</p><p>cobriremos que somos os maiores sabotadores de nós mesmos,</p><p>lutamos contra projetos, sonhos... Em algumas situações, Deus</p><p>até “permite” que passemos por tribulações, a fim de que enxer-</p><p>guemos o que, sozinhos, seríamos incapazes de ver, seja porque</p><p>não queremos ou porque estamos incapacitados no momento</p><p>de ver com os olhos bem abertos.</p><p>Logo, precisamos mudar o foco, o olhar sobre os aconteci-</p><p>mentos, uma vez que todos nós, em situações e contextos dife-</p><p>rentes, ao sermos visitados por uma adversidade, que é sempre</p><p>inesperada, passamos, inexoravelmente, pelo processo da acei-</p><p>tação. Daí a importância do desenvolvimento de empatia e mi-</p><p>sericórdia para conosco e para com os outros. Devemos inscre-</p><p>ver no coração e na mente que o sofrimento já bateu e voltará</p><p>a bater à porta inúmeras vezes, mas esse é um mal necessário;</p><p>reconhecer que cada pessoa reage de maneira diferente à dor e</p><p>às tribulações, por isso, nossa maneira de enfrentar as intempé-</p><p>ries da vida não pode nem deve ser parâmetro para ninguém,</p><p>pois cada pessoa é única e, como tal, reage de acordo com sua</p><p>natureza.</p><p>Nesse cenário, podemos assegurar que Bartimeu também</p><p>deve ter passado por situações semelhantes, contudo, pelos lon-</p><p>gos anos de convivência com a cegueira, é possível pressupor</p><p>que acabou por aceitar sua realidade. O texto sagrado relata:</p><p>“Estava sentado à beira do caminho, mendigando, Bartimeu,</p><p>que era cego, filho de Timeu”. À primeira vista, pode parecer</p><p>que “estar à beira do caminho” signifique não fazer nada, ou</p><p>ainda, que poderia estar em qualquer lugar, que não faria dife-</p><p>rença. No entanto, ao realizarmos uma leitura mais atenta, infe-</p><p>rimos que ele estava sentado à beira do caminho como alguém</p><p>Marinês Lonardoni | 27</p><p>que ocupa um posto. Entendamos o vocábulo “posto” como</p><p>“um lugar para se fazer algo”. O local em que ele se encontrava</p><p>deveria ser o melhor para alguém pedir esmolas, já que todos</p><p>que entravam ou saíam da cidade, obrigatoriamente, deviam</p><p>passar por ali.</p><p>Confirmamos esse aspecto por meio dos relatos históricos.</p><p>Neles, os historiadores declaram que, no tempo de Jesus, a ci-</p><p>dade de Jericó foi fortificada e estruturada pelo rei Herodes e</p><p>seu filho, Arquelau. O fato fez com que Jericó se tornasse um</p><p>importante reduto econômico, pois nela funcionava um tipo de</p><p>centro administrativo romano e, como consequência, abrigava</p><p>inúmeros cobradores de impostos que trabalhavam para o Im-</p><p>pério, como Zaqueu (Lc 19, 1-10).</p><p>Segundo tais relatos, Jericó nova e moderna, para a épo-</p><p>ca, ficava um pouco mais ao sul da antiga cidade tomada pe-</p><p>los israelitas no tempo de Josué. E, por se tratar de uma cidade</p><p>importante, era comum que mendigos se reunissem em suas</p><p>proximidades para pedir esmola. Por isso, Bartimeu estava ali.</p><p>Como afirmamos, o cego ocupava um posto. Além disso estava</p><p>atento ao que ocorria ao seu derredor, tinha um lugar no mun-</p><p>do, sabia o que queria. Em outras palavras, era consciente de</p><p>seu papel na sociedade.</p><p>Imaginemos que o cego de Jericó, longe de ser desprovido</p><p>de consciência de sua realidade, era independente e lutava pela</p><p>sobrevivência da única maneira que era permitida a um ser hu-</p><p>mano privado da visão naquela época: mendigar. Esse era seu</p><p>ofício. Não sabemos se possuía família, moradia, nem mesmo</p><p>como era sua vida após a extressante jornada de ficar à beira do</p><p>caminho a pedir esmolas.</p><p>O que o evangelista nos relata é apenas a cena que a mul-</p><p>tidão e também Jesus vivenciaram. O encontro de Bartimeu</p><p>28 | Quando brilha a esperança</p><p>com o Mestre nos permite afirmar que ele aceitou a condição</p><p>da cegueira e como a viveu até o momento em que Jesus saiu de</p><p>Jericó.</p><p>Portanto, aceitar o que nos faz sofrer não significa nos</p><p>resignarmos ou nos conformarmos com o infortúnio. Quan-</p><p>do nos deparamos com doença, desemprego, perdas e demais</p><p>atribulações, devemos aceitar aquilo que não nos é permitido</p><p>mudar e, ao mesmo tempo, lutar pela superação, seja com as</p><p>armas humanas seja com as espirituais. Bartimeu aceitou sua</p><p>realidade, foi à luta e alcançou a cura da cegueira. E nós, o que</p><p>estamos fazendo com os desafios e obstáculos que exigem res-</p><p>posta? Aqui entram a esperança e a perseverança.</p><p>Exercícios:</p><p>Como você reage quando dificuldades e obstáculos batem à</p><p>sua porta?</p><p>Por que é tão difícil para você aceitar essa realidade?</p><p>Você abre espaço para a esperança e a perseverança agirem</p><p>em seu dia a dia ou se deixa levar pelo sentimento de que</p><p>nada vai dar certo?</p><p>Marinês Lonardoni | 29</p><p>Sabendo que era Jesus de Nazaré... (Mc 10, 47a)</p><p>Para realizarmos uma atividade, qualquer que seja, neces-</p><p>sitamos ser pessoas bem informadas. Do mesmo modo,</p><p>a informação é imprescindível para alcançarmos a supe-</p><p>ração de uma gama de situações adversas que permeiam nossa</p><p>existência.</p><p>Sermos pessoas informadas, atentas ao que acontece no</p><p>mundo e ao nosso redor, é imprescíndivel, a fim de que pos-</p><p>samos lançar mão de conhecimentos e experiências que serão</p><p>importantes no processo de superação. Isso se faz necessário</p><p>porque, cotidianamente, somos assolados por diferentes tipos</p><p>de dificuldades e cada uma delas exige uma resposta adequada</p><p>de nossa parte. Além disso, na maioria das vezes, a situação re-</p><p>quer mais do que força de vontade: precisamos nos cercar da fé,</p><p>30 | Quando brilha a esperança</p><p>da esperança e da ajuda de familiares e amigos.</p><p>Quando as aflições batem à nossa porta, precisamos nos</p><p>munir de tudo o que seja importante, saudável e de valor que</p><p>possa nos guiar para a necessária travessia dessa situação trau-</p><p>mática, de forma serena e o mais confortável possível. Para</p><p>isso, podemos nos valer do conhecimento científico acerca do</p><p>problema, de experiências vivenciadas por pessoas conhecidas</p><p>que passaram por dificuldades semelhantes, da leitura de bons</p><p>livros e, também, da ajuda especializada (médicos, psicológos,</p><p>sacerdotes, religiosos...). O fundamental é não nos fecharmos</p><p>em nosso problema, em nosso mundinho, achando que tudo e</p><p>todos estão contra nós.</p><p>Ilustremos essa questão com o seguinte epsisódio: há al-</p><p>guns anos, quando fui surpreedida com um diagnóstico de lin-</p><p>foma não Hodgkin, o tratamento indicado foi a quimioterapia</p><p>venosa. Ao realizar a primeira sessão, dividi o quarto com uma</p><p>jovem senhora que já estava no segundo ciclo do tratamento.</p><p>Enquanto conversávamos, ela disse que iria à cabeleleira para</p><p>raspar a cabeça, pois os cabelos estavam caindo. Como sabia</p><p>que os meus também iriam cair, perguntei a ela como era o pro-</p><p>cesso. Ela relatou que, uns quinze dias após a primeira químio,</p><p>começou a sentir muitas dores no couro cabeludo e, em segui-</p><p>da, os cabelos começaram a cair. De posse dessa informação,</p><p>fiquei</p><p>atenta aos acontecimentos nos dias seguintes à quimio-</p><p>terapia e, realmente, duas semanas mais tarde, começaram as</p><p>dores no couro cabeludo e, logo após, a queda, não apenas de</p><p>fios, mas de chumaços de cabelo.</p><p>Com o relato desse episódio, objetivamos exemplificar</p><p>como é importante estarmos atentos e abertos ao que nos cir-</p><p>cunda. Além disso, devemos aproveitar as oportunidades para</p><p>que sejamos ajudados no momento em que estamos frágeis e</p><p>Marinês Lonardoni | 31</p><p>necessitados de apoio. No caso da queda dos cabelos, o relato</p><p>da experiência da companheira de quarto foi fundamental, por-</p><p>que os médicos, de maneira geral, costumam não informar seus</p><p>pacientes sobre ações ou reações de determinados tratamentos,</p><p>para não “sugestioná-los” à determinada reação. Porém, o fato</p><p>de sabermos que “pode” ocorrer essa ou aquela reação/situação,</p><p>evitará angustias e ansiedades desnecessárias.</p><p>A busca por ajuda adequada no momento em que passamos</p><p>por dificuldades, requer que estejamos atentos ao que aconte-</p><p>ce ao nosso entorno, com o intuito de fazermos bom uso das</p><p>fontes de informação e trazermos para nossa vida aquilo que</p><p>é bom e confiável. Precisamos, contudo, dependendo do con-</p><p>teúdo informativo, checar o fato em mais de uma fonte, pois,</p><p>infelizmente, as fake news têm ganhado espaço e se revistido do</p><p>manto da verdade na sociedade contemporânea.</p><p>De modo semelhante, podemos dizer que com Bartimeu</p><p>não foi diferente: como uma pessoa consciente do que acontecia</p><p>ao seu redor e do mundo que o cercava, demonstrou ser alguém</p><p>em sintonia. O relato bíblico nos diz: “Sabendo que era Jesus de</p><p>Nazaré....”. Certamente, ele já tinha ouvido falar de Jesus, das</p><p>curas e milagres realizados e de tudo o que dele diziam. Ou seja,</p><p>Bartimeu tinha acesso às informaçòes, sabia o que acontecia no</p><p>contexto em que vivia. Era cego, mas não surdo para os aconte-</p><p>cimentos de seu tempo. Desse modo, saber quem era Jesus foi</p><p>fundamental para ele, uma vez que, como a própria palavra diz,</p><p>“a sua fé o salvou”.</p><p>E nós, sabemos quem é Jesus? Conhecemos e vivemos seus</p><p>ensinamentos em nossas vidas e levamos os que estão próximos</p><p>ao encontro dele?</p><p>32 | Quando brilha a esperança</p><p>Exercícios:</p><p>Quando você está diante de um problema, como procura re-</p><p>solvê-lo? Costuma buscar ajuda ou resolve sozinho(a)?</p><p>Se busca ajuda, quem são as pessoas que procura?</p><p>Costuma ouvir mais de uma opinão?</p><p>Costuma informar-se em jornais, livros e revistas especiali-</p><p>zadas sobre avanços tecnológicos e/ou áreas afins?</p><p>Marinês Lonardoni | 33</p><p>...começou a gritar: “Jesus, filho de Davi, tem compai-</p><p>xão de mim!” (Mc 10, 47b)</p><p>Para superar uma determinada adiversidade, precisamos</p><p>ter atitude. Isso é um componente primordial da ação de</p><p>superar e está presente em cada um de nós, já que, sem</p><p>atitude, nada conseguiremos. Mas, afinal, o que é ser uma pes-</p><p>soa de atitude? De maneira simples, podemos declarar que diz</p><p>respeito a saber o que queremos e, em qualquer circunstância,</p><p>ter a capacidde de agir proativamente e nos esforçar para atin-</p><p>gir nossos propósitos. As nossas atitudes estão relacionadas às</p><p>respostas que damos aos conflitos e às situações adversas que</p><p>se apresentam em nosso cotidiano. Por isso, elas desempenham</p><p>34 | Quando brilha a esperança</p><p>papel preponderante no modo como processamos as informa-</p><p>ções do mundo em que estamos inseridos. Permitem-nos inter-</p><p>pretar, organizar e processar os conhecimentos e experiências</p><p>vivenciadas. Isso nos possibilita entender com clareza por que</p><p>algumas pessoas interpretam uma mesma situação de maneiras</p><p>distintas.</p><p>De acordo com Fabrigar e Wegener (2010, apud FERREI-</p><p>RA, 2010), as atitudes podem ser conceituadas como avaliações</p><p>gerais e duradouras que fazem parte da maneira de ser de cada</p><p>pessoa em relação aos objetos presentes no mundo em que vive-</p><p>mos, o que abrange pessoas, grupos, comportamentos etc. Essa</p><p>avaliação varia de um extremo positivo a um extremo negativo.</p><p>Por isso, segundo os autores, é possível afirmar que as atitudes</p><p>não são comportamentos, mas sim, predisposições para agir-</p><p>mos e que têm por base certas crenças, valores e determinados</p><p>sentimentos, próprios de cada ser humano.</p><p>Nesse cenário, a atitude pode ser entendida como uma</p><p>predisposição habitual, que repetimos em diferentes contextos,</p><p>algo que se apresenta como uma inclinação que já trazemos ao</p><p>nascer ou que é adquirida ao longo de nossas vidas; mas pode,</p><p>também, apenas se configurar como um sentimento que temos</p><p>ou se converter num comportamento de fato. Daí a importância</p><p>de entendermos que o sistema de atitudes que possuímos não</p><p>é herdado, mas que as atitudes são formadas e aprendidas no</p><p>decorrer de nosso processo de socialização, especialmente na</p><p>infância e na adolescência, a partir do meio em que estamos</p><p>inseridos.</p><p>A esse respeito, Ferreira (2010) declara que a formação</p><p>de nossas atitudes costuma ocorrer de forma não consciente,</p><p>por meio de aprendizagem condicionada ou mediante a mera</p><p>exposição a estímulos vivenciados como afetivamente positi-</p><p>Marinês Lonardoni | 35</p><p>vos. Assim, de acordo com a Psicologia, são vários os agentes</p><p>sociais responsáveis pela formação de nossas atitudes. Entre</p><p>eles, citamos:</p><p>• Família. Os familiares, principalmente os pais, são os que</p><p>exercem um papel preponderante na formação de nossas pri-</p><p>meiras atitudes, quando crianças, pois os imitamos e, com eles,</p><p>procuramos nos identificar. Por isso, nossos pais são nossos pri-</p><p>meiros modelos;</p><p>• Escola. O ambiente escolar é o segundo espaço de for-</p><p>mação de nossas atitudes e, por permanecermos nele por um</p><p>tempo prolongado de nossas vidas, acaba por desempenhar im-</p><p>portante papel na formação e sedimentação de nossas atitudes.</p><p>Aqui, os professores são importantes modelos a serem imitados;</p><p>• Grupos de amigos/colegas de trabalho. Esse é um espa-</p><p>ço que, comumente, propicia desenvolvermos e recebermos</p><p>novas atitudes, que influenciam/influenciarão na formação de</p><p>nossa personalidade, especialmente na adolescência. O grupo</p><p>de amigos, geralmente com integrantes da mesma faixa etária,</p><p>determina nossas atitudes e nosso modo de agir. Por isso, é fato</p><p>corriqueiro nos depararmos com jovens que mudam as atitu-</p><p>des adquiridas dos pais, dos familiares e da escola, passando</p><p>a apresentar comportamentos relacionados ao grupo de per-</p><p>tença. Essas novas posturas são consequência da necessidade</p><p>desses adolescentes serem aceitos nesse novo ambiente do qual</p><p>passaram a fazer parte;</p><p>• Meios de comunicação. Não temos dúvidas de que, na</p><p>era da internet e das redes sociais, os meios de comunicação</p><p>exercem grande influência na aquisição e formação de grande</p><p>parte de nossas atitudes. E, quanto mais expostos a eles, mais</p><p>facilmente somos persuadidos a respeito de ideias, comporta-</p><p>36 | Quando brilha a esperança</p><p>mentos, posicionamentos e tudo aquilo que diz respeito à nossa</p><p>essência como pessoa. As personalidades e modelos por eles</p><p>apresentados acabam por se transformar em instrumentos de</p><p>identificação e imitação, principalmente na formação das ati-</p><p>tudes e comportamentos de adolescentes e jovens, faixa etária</p><p>mais sensível e predisposta ao novo.</p><p>Logo, constatamos que a observação, a identificação e a</p><p>imitação dos modelos que nos rodearam, ajudaram a formar</p><p>nosso sistema de atitudes. Porém, faz-se necessário termos em</p><p>mente que toda e qualquer aprendizagem das atitudes ocorre</p><p>ao longo de nossa existência, ou seja, o sistema de atitudes que</p><p>trazemos pode ser alterado. Contudo, como não poderia ser di-</p><p>ferente, cabe à infância e à adolescência peso maior nesse pro-</p><p>cesso. Embora a Psicologia reconheça que existe uma tendência</p><p>para estabilizarmos as atitudes preexistentes, isso não significa</p><p>dizer que após essas etapas não podemos adquirir novas atitu-</p><p>des ou mudarmos as já existentes.</p><p>A partir dessas reflexões, podemos afirmar que nosso sis-</p><p>tema de atitudes possui algumas características importantes, a</p><p>saber:</p><p>• Influenciam o comportamento das pessoas. Por</p><p>sermos se-</p><p>res relacionais, influenciamos e somos influenciados por aque-</p><p>les que nos rodeiam, tanto para o positivo quanto para o nega-</p><p>tivo. Aqui reside um aspecto importante para nós - pais, tios,</p><p>avós, professores e todos os formadores de opinião - que, seja</p><p>pela nossa personalidade, seja por ocuparmos uma posição de</p><p>destaque, acabamos por influenciar os que nos cercam. Como</p><p>modelos, devemos ter coerência em nossas ações e atitudes, já</p><p>que elas podem afetar positiva ou negativamente os que nos</p><p>têm como espelhos.</p><p>• São relativamente estáveis e duradouras. Como a maior</p><p>Marinês Lonardoni | 37</p><p>parte do conjunto de nossas atitudes é adquirida e formada na</p><p>infância e na adolescência, etapas em que estamos formando</p><p>nossa personalidade, a Psicologia entende que elas são relativa-</p><p>mente estáveis e duradouras. Contudo, isso não quer dizer que</p><p>esse sistema esteja completo e fechado: podemos adquirir novas</p><p>atitudes, sim, mas a base já foi solidificada nos primeiros anos</p><p>de nossas vidas.</p><p>• São aprendidas. Isso significa dizer que desenvolvemos</p><p>e aprendemos as atitudes que temos. Esse processo se dá por</p><p>meio da observação de nossos modelos (pais, avós, professo-</p><p>res...), nos identificando com suas atitudes e os imitando.</p><p>• É mais fácil mudar uma atitude sobre um objeto, pessoas</p><p>ou fatos dos quais temos pouco conhecimento e também so-</p><p>bre aqueles que mantemos um distanciamento afetivo. Ou seja,</p><p>quanto mais próximo de nós estiver um objeto, pessoa ou fato,</p><p>mais difícil será mudarmos nossa atitude. De modo semelhan-</p><p>te, quanto maior for o distanciamento afetivo de uma pessoa,</p><p>objeto ou fato, mais fácil será para mudarmos nossas atitudes.</p><p>No entanto, precisamos ter em mente que somos capazes de</p><p>transformar uma atitude negativa em uma que seja positiva.</p><p>Isso exige, em primeiro lugar, coragem para assumirmos os</p><p>riscos e paciência para esperarmos que esse processo ocorra.</p><p>Além disso, requer de nós empenho, perseverança e a certeza</p><p>de que somos capazes dessa mudança.</p><p>Que benefícios alcançamos quando buscamos ser e viver</p><p>como uma pessoa de atitude? Muitos! Ao assumirmos o papel</p><p>de uma pessoa de atitude, decidimos que somos os conduto-</p><p>res de nossas vidas; assumimos o controle de nossas decisões;</p><p>agimos de maneira proativa; cremos em nosso potencial e te-</p><p>mos força de vontade para buscar nossos objetivos; somos ca-</p><p>pazes de vencer nossas crenças limitantes; perdemos o medo</p><p>38 | Quando brilha a esperança</p><p>de ser sinceros e dizer a verdade, seja onde e como for; somos</p><p>livres para expressar nossos pensamentos e ações, sem nos mol-</p><p>darmos a determinados grupos ou modismos, entre outros.</p><p>Voltando a Bartimeu, será que podemos considerá-lo uma</p><p>pessoa de atitude? Pelo que nos diz o relato bíblico, “Sabendo</p><p>que era Jesus de Nazaré, começou a gritar: Jesus, filho de Davi,</p><p>tem compaixão de mim!”. Gritar foi a forma que o cego de Je-</p><p>ricó encontrou para chamar a atenção de Jesus, já que estava</p><p>impossibilitado de chegar ao mestre por causa da multidão que</p><p>o cercava.</p><p>É por isso que algumas vezes ouvimos alguém dizer: “Fu-</p><p>lano venceu no grito!”, não é mesmo? Há certas situações e cir-</p><p>cunstâncias em que precisamos apelar para o grito, seja para</p><p>sermos ouvidos, como foi o caso de Bartimeu, seja pela extrema</p><p>necessidade de sermos socorridos. Nesses casos, gritar é ter</p><p>atitude! Nem sempre esse grito significa falar alto, mas é uma</p><p>maneira de dizermos que clamamos, pedimos ajuda. Os salmos</p><p>trazem exemplos de pedido de socorro feito pelo salmista: “Este</p><p>infeliz gritou a Deus e foi ouvido, de todas as angústias o livrou.”</p><p>(Sl 33, 7). Às vezes, ter atitude é um clamor, um pedido...</p><p>Nosso personagem sabia que aquela era sua única chance</p><p>de se aproximar de Jesus. Ele sabia quem era Jesus e também</p><p>que este poderia ajudá-lo, como indica o inicio do versículo:</p><p>“Sabendo que era Jesus de Nazaré”. Por isso, não teve medo</p><p>nem vergonha de soltar a voz e apelar para que o Nazareno agis-</p><p>se em seu favor.</p><p>Às vezes, gritar pode ser uma forma de agir, como fez</p><p>o cego de Jericó, mas, em outras, ter atitude pode ser: buscar</p><p>ajuda especializada em diferentes áreas do saber; nos fortale-</p><p>cer físicamente (alimentação adequada, exercícios físicos, entre</p><p>outros), psicologicamente (ajuda terapeutica) e espiritualmen-</p><p>Marinês Lonardoni | 39</p><p>te (oração, sacramentos, participação em grupos de oração/</p><p>reflexão, estar na comunidade...); pertencer a uma família que</p><p>nos garanta apoio incondicional; e poder contar com o auxílio</p><p>de outros familiares (avós, tios, primos), amigos e de pessoas</p><p>próximas (colegas de trabalho/escola, vizinhos, pessoas da co-</p><p>munidade em que vivemos e participamos), pois contar com a</p><p>ajuda daqueles que nos rodeiam é de fundamental importância.</p><p>Portanto, sermos pessoas de atitude é essencial para viver-</p><p>mos e superarmos toda e qualquer adversidade que, por ven-</p><p>tura, venha bater em nossa porta. Não podemos evitar que os</p><p>problemas façam parte de nossa existência, porém, podemos e</p><p>devemos nos empenhar para resolvê-los. Ter atitude na vida é</p><p>fundamental, uma vez que a vitória, em qualquer circunstância,</p><p>só acontece se decidirmos ir à luta. E ir à luta é ter atitude. Nos</p><p>espelhemos em Bartimeu: de cego de Jericó a seguidor de Jesus.</p><p>E nós, como agimos em situações em que necessitamos de</p><p>ajuda? Somos pessoas de atitude? Temos coragem de fazer o</p><p>necessário e, quem sabe, o impossível para superar a adversida-</p><p>de que nos assola? Bartimeu lançou mão do único recurso que</p><p>tinha: o grito. E nós, conhecemos os recursos que dispomos</p><p>para sermos pessoas de atitude no momento de necessidade?</p><p>40 | Quando brilha a esperança</p><p>Exercícios:</p><p>Você se considera uma pessoa de atitude? Por quê?</p><p>Se sua resposta for não, o que o(a) impede de ser uma pessoa</p><p>de atitude?</p><p>Em que momentos/acontecimentos fica mais evidente para</p><p>você a necessidade de tomar nas mãos as rédeas de sua vida e</p><p>lutar por seus sonhos e projetos?</p><p>Você se espelha em alguém?</p><p>Marinês Lonardoni | 41</p><p>Muitos o repreendiam, para que se calasse...</p><p>(Mc 10, 48a)</p><p>Hoje, com a rapidez e as facilidades das redes sociais,</p><p>verificamos que, quando alguém expõe um fato ou</p><p>uma situação, o mais comum é vermos as pessoas da-</p><p>rem opiniões, conselhos, mesmo quando não são chamadas a</p><p>isso. E o pior: via de regra, essas opiniões não acrescentam nada</p><p>às nossas vidas e, em muitos casos, podem até produzir efeitos</p><p>negativos.</p><p>Bartimeu, personagem que nos acompanha neste itinerário</p><p>sobre a esperança e a superação, também ouviu opiniões e, po-</p><p>demos dizer, ordens quanto a seus atos ao gritar a Jesus pedindo</p><p>sua misericórdia: “muitos o repreendiam, para que se calasse....”.</p><p>É possível afirmar, com absoluta certeza, que nenhuma das pes-</p><p>42 | Quando brilha a esperança</p><p>soas que o repreenderam estava preocupada com a sorte ou a</p><p>felicidade daquele cego. Apenas não queriam ser incomodadas</p><p>com gritarias ou que ele incomodasse a Jesus, embora, em ne-</p><p>nhum momento do relato, foi dito que elas foram perguntar a</p><p>opinião de Jesus.</p><p>Infelizmente, quando alguém dá uma opinião ou age, como</p><p>no caso de Bartimeu, vemos que essa pessoa não está nem um</p><p>pouco preocupada com o resultado de suas ações ou se suas</p><p>opiniões podem atuar de maneira negativa nas emoções e nos</p><p>sentimentos de quem os recebe. Há inclusive comprovação</p><p>científica de que, quando as opiniões estão relacionadas a uma</p><p>doença ou a uma situação de abandono, por exemplo, muitas</p><p>vezes, podem alterar todo o processo e, invariavelmente, levam</p><p>a pessoa afetada à estagnação.</p><p>Essa realidade nos faz refletir e perguntar: quantas vezes</p><p>isso já aconteceu com você ou com alguém que você conhece?</p><p>E, mudando o enfoque: quantas vezes você fez isso com alguém</p><p>de sua família, seu cônjuge, filhos, amigos...? Muitas, prova-</p><p>velmente! E a má notícia é que elas continuarão a acontecer,</p><p>caso não busquemos conhecer o que são as crenças limitantes e</p><p>como elas atuam em nossas vidas.</p><p>O que são crenças limitantes?</p><p>O estudo das crenças</p><p>está fundamentado na Psicologia,</p><p>que as denomina como crenças centrais ou nucleares. Essa</p><p>abordagem nos é fornecida pela Teoria Cognitiva, desenvolvi-</p><p>da por Aaron Beck. Com seus estudos, o psiquiatra america-</p><p>no busca solucionar problemas que vivenciamos na atualida-</p><p>de, com vistas a nos ajudar a modificar nossos pensamentos e</p><p>Marinês Lonardoni | 43</p><p>comportamentos negativos.</p><p>Inicialmente, podemos dizer que a crença está relacionada</p><p>à ação de crer em algo, naquilo em que acreditamos. Por isso,</p><p>segundo a Psicologia, nossas crenças estão acima do conhe-</p><p>cimento e da verdade, pois quando cremos em determinada</p><p>coisa, desenvolvemos uma convicção inabalável a seu respei-</p><p>to, sem mesmo dispormos de provas e fatos que a confirmem.</p><p>Em outras palavras, podemos reconhecê-las como um saber</p><p>internalizado, próprio de cada um de nós, embora nem sempre</p><p>justificado racionalmente. Nesse sentido, de acordo com Beck</p><p>(1997), as crenças são rígidas, profundas e fundamentais. Esses</p><p>aspectos nos levam a entender que as crenças se configuram</p><p>como uma verdade absoluta, imutável, global e generalizada</p><p>que desenvolvemos a respeito de algo. Isso se justifica porque</p><p>elas nos acompanham desde o início de nossas vidas, já na in-</p><p>fância.</p><p>Desse modo, a Teoria Cognitiva aponta para a hipótese</p><p>de que nossas emoções e nossos comportamentos são influen-</p><p>ciados pela percepção e interpretação que temos dos aconteci-</p><p>mentos que vivenciamos e não apenas percepção pelo evento</p><p>em si. Isso significa dizer, em outras palavras, que a maneira</p><p>como pensamos está associada ao modo como interpretamos</p><p>e refletimos sobre dada realidade/evento vivido e, por isso, as</p><p>respostas emocionais que damos a essa realidade são resultado</p><p>dessa percepção que temos. E, como consequência, nossos pen-</p><p>samentos estão relacionados aos tipos de crenças que trazemos.</p><p>Apesar de essas crenças serem descritas pela psicologia</p><p>como crenças centrais ou nucleares, doravante, passaremos a</p><p>nominá-las de crenças limitantes, como são mais conhecidas</p><p>no mundo não acadêmico.</p><p>Tipos de crenças limitantes</p><p>44 | Quando brilha a esperança</p><p>De acordo com Beck (1997), podemos desenvolver três ti-</p><p>pos de crenças que nos limitam, a saber: desamparo, desamor</p><p>e desvalor.</p><p>Crença de desamparo. Quando desenvolvemos esse tipo de</p><p>crença, temos dentro de nós a certeza (irracional/inconscien-</p><p>te) de que somos incompetentes, por isso, tudo o que fizermos</p><p>sempre resultará em fracasso. Os pensamentos automáticos da</p><p>crença de desamparo podem ser ilustrados como: “Sou incom-</p><p>petente”; “Eu não consigo mudar”; “Não tenho atitude”; “Estou</p><p>sem saída”; “Não sou igual aos outros” etc.</p><p>Crença de desamor. Ao sermos afetados pela crença de desa-</p><p>mor, temos a certeza (irracional/inconsciente) de que, não im-</p><p>porta onde estivermos, aconteça o que acontecer, seremos rejei-</p><p>tados. Desse modo, apresentamos pensamentos automáticos,</p><p>como: “Sou feio(a), não tenho nada a oferecer”; “Não sou ama-</p><p>do(a), querido(a)”; “Sempre serei rejeitado(a); “Não sou bom/</p><p>boa o suficiente para ser amado(a)”, entre outros.</p><p>Crença de desvalor. Ao apresentarmos esse tipo de crença,</p><p>acreditamos que não possuímos nada que seja aceitável aos</p><p>olhos das outras pessoas, que não temos nenhum valor, se com-</p><p>parados aos outros. Por isso, desenvolvemos pensamentos au-</p><p>tomáticos, como: “Não tenho valor”; Sou um lixo”; “Não mere-</p><p>ço viver”; “Não presto para nada” etc.</p><p>Apesar de essas crenças serem apresentadas aqui separada-</p><p>mente, na prática, verificamos que elas estão interligadas umas</p><p>às outras, pois quando desenvolvemos uma crença de desam-</p><p>paro, por exemplo, também podemos apresentar, em nossos</p><p>Marinês Lonardoni | 45</p><p>sentimentos e atitudes, características de desvalor ou de desa-</p><p>mor. Isso nos traz a clareza e o entendimento de que essas cren-</p><p>ças estão presentes em cada um de nós, porém, sempre haverá</p><p>a prevalência de uma delas, com as demais como coadjuvantes.</p><p>Como formamos as crenças limitantes?</p><p>Por sermos seres sociais e relacionais, somos expostos, dia-</p><p>riamente, a inúmeras situações advindas de nosso contato com</p><p>aqueles que nos rodeiam. Nesse cenário, Beck (1997) declara</p><p>que as crenças são o resultado do acúmulo de experiências e</p><p>aprendizagens que recolhemos por meio das nossas interações</p><p>com outras pessoas, que nos são significativas, e da vivência de</p><p>muitas situações que fortalecem as ideias transmitidas por essas</p><p>pessoas. Entendemos, aqui, pessoas significativas como aquelas</p><p>que estão mais próximas de nós: pais, avós, tios, irmãos, padri-</p><p>nhos, amigos da escola, da igreja etc.</p><p>Quando crianças, segundo o autor, usamos as cren-</p><p>ças como uma maneira de extrair sentido do/no ambiente em</p><p>que estamos inseridos. E, uma vez adultos, utilizamos essas</p><p>crenças como um entendimento, profundo e arraigado em nos-</p><p>so ser, fruto das experiências vividas, por isso, acabamos por</p><p>não questioná-las, considerando-as como verdades absolutas.</p><p>Comumente, expressamos essas crenças por meio de frases</p><p>como: “as coisas sempre foram assim” ou ”sempre fui assim”.</p><p>De acordo com a Teoria Cognitiva, podemos descrever a</p><p>formação de uma crença em quatro passos: (1) surge com um</p><p>fato concreto e objetivo, um acontecimento, provavelmen-</p><p>te ocorrido em nossa infância; (2) esse fato nos leva a ter um</p><p>pensamento a respeito dele; (3) esse pensamento gera um sen-</p><p>46 | Quando brilha a esperança</p><p>timento; e (4), esse sentimento nos conduz a uma ação. Por</p><p>exemplo: se em nossa infância ouvimos alguém nos dizer que</p><p>não adiantava estudarmos, pois seríamos incapazes de apren-</p><p>der, essa afirmação gerou em nós um pensamento de que essa</p><p>pessoa está certa e, dele, geramos o sentimento de sermos in-</p><p>capazes de aprender. E todas as vezes que nos deparamos com</p><p>o assunto estudar ou com a necessidade de aprender algo, nos</p><p>recordamos de que somos incapazes e, logo, deixamos ou desis-</p><p>timos de buscar esse conhecimento.</p><p>Desse modo, uma crença se fortifica toda vez que focamos</p><p>nossa atenção nos aspectos que confirmam nossa visão negativa</p><p>acerca de determinados fatos/eventos e não conseguimos per-</p><p>ceber as situações/eventos da vida a partir de um outro ponto</p><p>de vista. Esse é um processo que ocorre em nossas vidas de ma-</p><p>neira involuntária e automática, porém, sempre gera sofrimen-</p><p>tos psicológicos e/ou transtornos psicológicos que se manifes-</p><p>tam de forma significativa.</p><p>A partir desses aspectos, podemos compreender que as</p><p>crenças representam a essência dos mecanismos que desenvol-</p><p>vemos para lidar com as situações cotidianas. Porém, algumas</p><p>dessas crenças afetam por demais nossos pensamentos e sen-</p><p>timentos, e, como resultado, acabam por se tornar limitantes.</p><p>Para Beck (1997), as crenças limitantes podem ser relacionadas:</p><p>• a nós mesmos, ou seja, à própria pessoa. Elas geram em</p><p>nosso íntimo sentimentos de desamparo, desamor e desvalor;</p><p>• em relação às outras pessoas. Vemos essas pessoas como</p><p>desprezíveis, frias e até ameaçadoras e manipuladoras, mas</p><p>também podemos desenvolver uma crença positiva em relação</p><p>a elas, em detrimento de nós mesmos. Nesse caso, elas se nos</p><p>apresentam como pessoas superiores, muito eficientes, amáveis,</p><p>Marinês Lonardoni | 47</p><p>diferentes daquilo que julgamos ser; e</p><p>• em relação ao mundo: o vemos como injusto, hostil, im-</p><p>previsível, incontrolável e também perigoso. Por isso, quando</p><p>nos referimos à determinada crença como “limitante”, estamos</p><p>falando dos credos que impedem a realização de alguma ação</p><p>em nossas vidas.</p><p>Como enfrentar e vencer as crenças limitantes?</p><p>De acordo com Bez (2013), para a Teoria Cognitiva, a for-</p><p>ma como percebemos e processamos os eventos e as realidades</p><p>que nos cercam, influencia a maneira como nos sentimos e nos</p><p>comportamos. Para a autora, temos pensamentos automáticos,</p><p>no nível da consciência, que ocorrem de modo espontâneo e</p><p>rapidamente, que funcionam como uma interpretação imedia-</p><p>ta de qualquer situação. Podemos descrever esses pensamentos</p><p>por meio de palavras que pronunciamos: “Não irei</p><p>à festa/show/</p><p>palestra, pois serei ridicularizado(a)!” ou por meio de imagens</p><p>“Não irei à festa de casamento, porque me vi derrubando as</p><p>bandejas!”.</p><p>Embora a maior parte das crenças que trazemos tenha sua</p><p>origem na infância, como já afirmamos anteriormente, Beck</p><p>(2013) declara que elas podem ser desaprendidas e, ao mesmo</p><p>tempo, novas crenças, mais reais e funcionais, podem se desen-</p><p>volver e se fortalecer em nossas vidas. No entanto, sabemos que,</p><p>na maioria dos casos, o ato de desaprender está vinculado a um</p><p>tratamento terapêutico ou similar. Entretanto, isso não signi-</p><p>fica dizer que todos nós precisamos buscar o auxílio da psico-</p><p>logia para nos ajudar a mudar nossas crenças disfuncionais em</p><p>crenças funcionais. Entendemos que essa mudança depende de</p><p>48 | Quando brilha a esperança</p><p>cada pessoa e dos processos por ela vivenciados. Mas, indepen-</p><p>dentemente dos caminhos que escolhermos, precisamos dar</p><p>alguns passos.</p><p>Segundo a Teoria da Cognição, o primeiro passo desse pro-</p><p>cesso é a identificação e a modificação de pensamentos auto-</p><p>máticos. A partir disso, podemos abrir caminhos para realizar</p><p>uma autorreflexão e exercitar nosso autoconhecimento, a fim</p><p>de identificar as crenças existentes em nosso interior. Contudo,</p><p>essa identificação nem sempre se apresenta como uma experi-</p><p>ência simples e, em alguns casos, pode nos trazer muitas do-</p><p>res, pois as crenças limitantes podem desencadear sentimentos,</p><p>como sensação de incompetência, frustração e insucesso. E uma</p><p>das maneiras de reconhecê-las é prestar mais atenção aos pen-</p><p>samentos que surgem em nossa mente sempre que traçamos al-</p><p>gum propósito, como, por exemplo, desejar comprar uma casa</p><p>ou apartamento, mas nos achar incapazes de realizá-lo.</p><p>Além disso, sem vasculhar nosso passado e nossa história,</p><p>não seremos capazes de encontrar a raiz (ou raízes) que nos</p><p>levou a desenvolver crenças limitantes. No entanto, precisamos</p><p>ter clareza de que encontrar as causas de tais crenças não sig-</p><p>nifica estacionar nos antigos eventos e ficar remoendo os fatos</p><p>desencadeadores do sofrimento atual. Independentemente do</p><p>como e do porquê, precisamos entender que, se descobrirmos</p><p>as raízes das crenças limitantes que trazemos, teremos a possi-</p><p>bilidade de compreender o que nos impede, hoje, de buscar a</p><p>mudança que tanto almejamos.</p><p>Como já dissemos, todos nós possuímos crenças limitan-</p><p>tes, somos portadores não de uma, mas de várias, e elas estão</p><p>relacionadas a diversos eventos/fatos. Por isso, nossa primeira</p><p>postura deve ser a de assumir as crenças que trazemos e com-</p><p>preender que elas retratam nossas características pessoais e nos-</p><p>Marinês Lonardoni | 49</p><p>sas vivências anteriores. Desse modo, uma das atitudes a serem</p><p>evitada é a de nos acharmos inferiores ou com menos qualida-</p><p>des que os outros, apenas porque temos concepções diferentes</p><p>das deles, ou apresentar uma ou outra dificuldade em determi-</p><p>nada área. Esse aspecto nos ajuda a não nos conformarmos com</p><p>nossas crenças, mas sim, que elas precisam ser corrigidas, uma</p><p>vez que, via de regra, impedem nosso crescimento. Logo, além</p><p>de reconhecer essas crenças, é de fundamental importância que</p><p>acreditemos em nós mesmos e na capacidade que temos para</p><p>colocar em prática toda e qualquer mudança necessária para</p><p>desaprender as crenças disfuncionais e desenvolver novas cren-</p><p>ças, mas, agora, positivas.</p><p>O jogo da verdade/mentira</p><p>Já sabemos que nossas crenças limitantes se alimentam e</p><p>se realimentam de pensamentos automáticos, oriundos de um</p><p>fato/acontecimento externo, que geram em nós um sentimento</p><p>e este nos leva a uma atitude. Geralmente, essa atitude é fruto de</p><p>eventos de nossa história que foram interpretados de maneira</p><p>equivocada e que guardaram feridas em nosso ser. Essas feridas</p><p>são reabertas todas as vezes que acionamos os pensamentos au-</p><p>tomáticos relacionados a um evento x e que inflacionam nossos</p><p>sentimentos, resultando em atitudes tóxicas, envenenadas pelas</p><p>crenças de desamparo, desamor e/ou desvalor.</p><p>Como fazer para evitar esse círculo vicioso? Uma ferra-</p><p>menta que pode nos ajudar é o jogo da verdade/mentira. Tome-</p><p>mos o seguinte exemplo: estava no portão de minha casa, mi-</p><p>nha vizinha passou por mim e não me cumprimentou. Fiquei</p><p>irritada, entrei em casa e comecei a pensar: “o que fiz para ela?</p><p>50 | Quando brilha a esperança</p><p>O que aconteceu para ela me ignorar?”. Imediatamente, veio o</p><p>sentimento de “Ah, sempre foi assim. Ninguém gosta de mim,</p><p>mesmo. Por mais que eu faça, é sempre assim!”. Quando esse</p><p>tipo de pensamento e de sentimento vem à nossa mente, é hora</p><p>de nos perguntarmos: “Será que isso é verdade? Todos os meus</p><p>vizinhos não me cumprimentam nem gostam de mim? Quan-</p><p>tas vezes recebi cumprimentos e manifestações de carinho de-</p><p>les?”. E essas perguntas nos fazem chegar a conclusões do tipo:</p><p>“Certamente, o número de vezes que recebi cumprimentos e fui</p><p>acolhida de maneira carinhosa é maior que o contrário. Portan-</p><p>to, é mentira que ninguém gosta de mim, que as pessoas sempre</p><p>me ignoram”.</p><p>Retomando o relato de Bartimeu, o evangelista nos diz que,</p><p>ao ouvirem os gritos do cego, “Muitos o repreendiam, para que</p><p>se calasse...”. O que será que disseram a Bartimeu? Se fizermos</p><p>um pequeno esforço, poderemos imaginar algumas das frases</p><p>que proferiram: “Fique quieto, cego! Não incomoda!”. “Fique</p><p>na sua!”. “Te enxerga!”. “Acha que ele vai te ouvir?”. Também</p><p>podemos nos perguntar: que pensamentos vieram à mente de</p><p>Bartimeu nesse momento? Se fizermos parte daqueles que facil-</p><p>mente se conformam perante uma situação adversa, é possível</p><p>afirmar que ele pensasse: “As coisas são assim mesmo!”, “Con-</p><p>forme-se, é vontade de Deus!”.</p><p>E o que as crenças limitantes têm a ver com a história de</p><p>Bartimeu? Podemos dizer que tudo! Certamente, esse querido</p><p>personagem trazia consigo algumas crenças limitantes, porém,</p><p>foi capaz de, no momento decisivo de sua vida, sobrepujá-las.</p><p>Dizemos momento decisivo de sua vida porque, com certeza,</p><p>ele já havia ouvido falar de Jesus e, naquele momento, o Messias</p><p>estava passando em sua frente, em sua vida. Não haveria outra</p><p>oportunidade. Era “pegar ou largar”, como reza o dito popu-</p><p>Marinês Lonardoni | 51</p><p>lar. Nesse momento crucial, ele teve que tomar a decisão mais</p><p>importante de sua vida: deixar de lado suas frustrações, ressen-</p><p>timentos, complexo de inferioridade e demais amarras que en-</p><p>volviam sua existência, e lutar pela única coisa que importava:</p><p>voltar a enxergar.</p><p>Assim como Bartimeu, precisamos descobrir e reconhecer</p><p>as raízes das amarras que nos prendem às inúmeras crenças que</p><p>nos limitam e nos atam a eventos negativos, a fim de fortalecer-</p><p>mos nossa imunidade emocional e transformá-las em crenças</p><p>positivas. Os inúmeros exemplos de superação que temos, ve-</p><p>mos e ouvimos todos os dias devem ser a vitamina que ingeri-</p><p>mos cotidianamente para criarmos uma robusta saúde emocio-</p><p>nal, fortalecida pela esperança de que promessa de Deus irá se</p><p>cumprir em nossas vidas.</p><p>Exercícios:</p><p>Após a leitura deste capítulo, o convite é: faça uma incursão</p><p>ao seu “eu” e tente identificar quais as crenças limitantes que</p><p>você traz.</p><p>Marinês Lonardoni | 53</p><p>...mas ele gritava ainda mais alto: “Filho de Davi,</p><p>tem compaixão de mim! (Mc 10, 48b)</p><p>De acordo com o relato do evangelista, Bartimeu não</p><p>deu ouvidos aos comentários daqueles que estavam no</p><p>caminho com Jesus. Pelo contrário, Marcos declara:</p><p>“mas ele gritava ainda mais alto: ‘Filho de Davi, tem compaixão</p><p>de mim!’”. Utilizando uma terminologia de nosso século, po-</p><p>demos afirmar que Bartimeu era alguém que “tinha foco”. Para</p><p>alguns especialistas, o foco diz respeito a uma competência pes-</p><p>soal, que podemos desenvolver ao longo de nossas vidas. É en-</p><p>tendida, ainda, como uma atitude. De acordo com o Dicionário</p><p>Michaelis Online, ter foco é “ter um objetivo bem definido, ser</p><p>determinado a alcançar ou atingir uma meta, ter prioridade em</p><p>fazer algo...”.</p><p>54 | Quando brilha a esperança</p><p>Desse modo, para alcançar a superação de qualquer situa-</p><p>ção,</p><p>é primordial ter esperança e manter o foco no propósito</p><p>almejado. Aliás, isso vale para qualquer situação da vida. No</p><p>entanto, no caso da superação, a constância no objetivo a ser</p><p>atingido é um canal que alimenta todas as demais atitudes e</p><p>ações para superar as adversidades.</p><p>Esse aspecto fica muito claro no relato da cura do cego de</p><p>Jericó, quando o evangelista declara: ele gritava ainda mais alto,</p><p>chamando por Jesus e clamando sua misericórdia. Esse deve ter</p><p>sido um dos momentos cruciais vividos pelo personagem. Ele</p><p>tinha duas opções: obedecer à multidão, assumindo a condição</p><p>de inferioridade a que estava relegado pela sociedade ou insistir</p><p>em seu propósito. Ele escolheu manter o foco em seu proposito.</p><p>É possível fazer uma viagem no tempo e imaginar a dure-</p><p>za da vida de Bartimeu, mas também pensar em suas expec-</p><p>tativas. O relato de Marcos nos possibillta entender, em suas</p><p>entrelinhas, que ele nunca perdeu a esperança de ter sua reali-</p><p>dade transformada. Por isso, podemos nos perguntar: quantas</p><p>foram suas súplicas ao Senhor para a recuperação de sua vista?</p><p>O evangelista não diz quantos anos ele tinha nem como era sua</p><p>vida familiar, ou seja, se tinha pais vivos, se possuia irmãos e,</p><p>quiçá, esposa e filhos. Apenas nos faz depreender que, quando</p><p>soube que era Jesus quem estava passando por aquele caminho,</p><p>suas esperanças se reacenderam e não se fez de rogado: gritou-</p><p>-lhe, pedindo socorro. Como afirmamos no capítulo 2, Barti-</p><p>meu era alguém antenado aos acontecimentos de seu tempo e,</p><p>portanto, já tinha ouvido falar de Jesus, de seus milagres e que,</p><p>para muitos, era o Messias que Israel esperava. Logo, é possí-</p><p>vel afirmar, com total certeza, que a informação da presença de</p><p>Jesus próxima a ele, inflamou todo seu ser de alegria e de espe-</p><p>rança. E, como costumamos dizer, pensou: “É agora ou nunca!”.</p><p>Marinês Lonardoni | 55</p><p>E foi à luta!</p><p>Ao olharmos para a realidade de Bartimeu, é possível ob-</p><p>servar que ele teria todos os motivos para calar-se e permanecer</p><p>à beira do caminho. Vítima de uma sociedade em que o cego,</p><p>o leproso, a viúva e o orfão eram excluidos, poderia aceitar a</p><p>condição de não pertença ao Reino que Jesus pregava. Poderia</p><p>até calar-se e se alegrar com o grande número de moedas que,</p><p>provavelmente, receberia. Porém, o não ele já tinha e conhecia</p><p>muito bem como era viver à margem do caminho. Naquele mo-</p><p>mento, deve ter brotado em seu coração uma tal força, que nada</p><p>impediria sua decisão de mudar de vida.</p><p>É essa força o motor propulsor da superação. Porém, para</p><p>que alcancemos essa força, é fundamental sermos sustentados</p><p>por ferramentas que nos ajudem a permanecermos firmes. Assim</p><p>como para que uma casa permaneça com suas paredes sólidas,</p><p>são nessessários um bom alicerce, colunas fortificadas com fer-</p><p>ros, entre outros, de modo semelhante, para mantermos o foco</p><p>em nossos própositos, necessitamos desenvolver alicerces e co-</p><p>lunas que chamamos de virtudes e também de qualidades, como:</p><p>autoconhecimento, resiliência, paciência, persistência, força,</p><p>coragem, esperança, e gratidão. Além disso, precisamos somar</p><p>a essas virtudes, a clareza de nossos objetivos, ou seja, a cons-</p><p>ciência de onde queremos chegar. Tudo isso coroado pela fé.</p><p>Segundo Steve Jobs, ter “foco é dizer não”. Certamente, o</p><p>que o admirável empresário americano queria nos dizer é que</p><p>“precisamos saber dizer não, quando necessário”, pois se disser-</p><p>mos sim para todas as situações e eventos, corremos o risco de</p><p>cometer enganos e estes poderão ser cruciais em nossa cami-</p><p>nhada para a não realização de nossos propósitos e, inclusive,</p><p>para não alcançarmos a felicidade.</p><p>Mas, por que dizer não em certas ocasiões é importante?</p><p>56 | Quando brilha a esperança</p><p>Fomos criados em uma sociedade em que impera a cultura do</p><p>“dizer sim” a tudo e a todos. Dizer sim para sermos politica-</p><p>mente corretos, para sermos aceitos nos grupos e lugares que</p><p>frequentamos, para sermos simpáticos e queridos pelas pessoas</p><p>etc. Porém, o que está implícito, e por isso mesmo poucos de</p><p>nós temos consciência, é que, ao dizer sim, estamos dizendo</p><p>não para nós mesmos. Estamos dizendo não para nossas ver-</p><p>dades e vontades, que se anulam diante do que se costumou</p><p>chamar de “convenção social”, mas que, na realidade, é nosso</p><p>assujeitamento ao que nos foi imposto culturalmente.</p><p>Em contrapartida, dizer não, via de regra, é visto como</p><p>uma atitude pejorativa. Em alguns casos, é entendido como</p><p>uma afronta, falta de educação, falta de vontade de trabalhar ou</p><p>de se colocar à disposição para realizar algo, por exemplo. Além</p><p>disso, nossa incapacidade para dizer não está atrelada, geral-</p><p>mente, ao fato de não sabermos ou não querermos reconhecer</p><p>as crenças limitantes que desenvolvemos ao longo de nossas vi-</p><p>das, mas, também, no que diz respeito à falta de conhecimento</p><p>pessoal e dos propósitos que queremos alcançar. Em outras pa-</p><p>lavras, parafraseando o Gato, personagem de Alice no país das</p><p>maravilhas, “se não sabemos para onde ir, qualquer caminho</p><p>serve”. Essa incapacidade de dizer não nos momentos certos e</p><p>necessários, nos conduz a sofrimentos e culpas desnecessárias.</p><p>Contudo, precisamos entender que fomos aculturados a agir as-</p><p>sim, embora seja possível mudar nossas crenças e atitudes.</p><p>O cego Bartimeu deve ser nosso guia e mestre nesse pro-</p><p>cesso. Ele foi capaz de, no momento certo, dizer “não”. E como</p><p>foi esse não? De acordo com o relato bíblico, “... ele gritava ain-</p><p>da mais alto: “Filho de Davi, tem compaixão de mim!”. Naquele</p><p>momento, “gritar mais alto” foi necessário: para ser ouvido por</p><p>Jesus, para calar a voz da multidão, para dizer ao mundo de sua</p><p>Marinês Lonardoni | 57</p><p>existência.</p><p>Nem sempre o “não” precisa ser dito de maneira verbal,</p><p>explícita. Dizemos não nos calando diante de uma provocação,</p><p>quando não levamos para nossas vidas aquilo que nos dizem e</p><p>que não diz respeito à nossa essência de pessoas, quando luta-</p><p>mos para vencer uma doença ou uma situação que precisa ser</p><p>superada, quando não dessistimos de nossos objetivos frente</p><p>aos obstáculos impostos pela vida ou por nós mesmos, entre</p><p>outras tantas situações.</p><p>Diante dos ensinamentos que recebemos do cego de Jericó,</p><p>podemos nos perguntar: dizer não é uma competência, uma</p><p>atitude que podemos aprender/desenvolver? Sim! As ciências</p><p>sociais nos propõem vários caminhos de como podemos adqui-</p><p>rir essa competência para nossas vidas. Aqui, listaremos alguns</p><p>passos possíveis, sem, contudo, excluir outros:</p><p>• Autoconhecimento. Ter consciência do nosso “eu” é o pri-</p><p>meiro passo para saber quem somos e por que agimos e rea-</p><p>gimos de determinada maneira diante de situações difíceis ou</p><p>estressantes. Se não sabemos quem somos e o que buscamos,</p><p>aceitamos qualquer coisa. Precisamos descobrir nossa iden-</p><p>tidade. Ter identidade significa reconhecer nossos valo-</p><p>res, mas também nossas dificuldades; significa ser capaz</p><p>de realizar uma incursão pelo nosso íntimo e enxergar as</p><p>crenças que nos limitam e nos levam a agir/pensar de ma-</p><p>neira que não gostamos ou não queremos. Além disso, a</p><p>identidade nos capacita a reconhecer quais os propósitos/</p><p>objetivos que almejamos em face de nossas necessidades</p><p>e, a partir deles, assumir nossa missão no mundo, o que</p><p>queremos ser e realizar.</p><p>• Resiliência. A resiliência, de acordo com Taboada et al.</p><p>(2006), é “o processo onde o indivíduo consegue superar as ad-</p><p>58 | Quando brilha a esperança</p><p>versidades, adaptando-se de forma saudável ao seu contexto”.</p><p>Trazendo para o nosso cotidiano, diz respeito a sermos capa-</p><p>zes de, apesar de passarmos por adversidades e situações de</p><p>extremo conflito, vivenciar essas realidades sem entrar em de-</p><p>sespero. O próprio Jesus nos disse: “No mundo tereis aflições,</p><p>mas eu venci o mundo” (Jo 10, 33). Todos nós enfrentamos ou</p><p>enfrentaremos dificuldades e obstáculos. O sofrimento é ine-</p><p>rente à condição humana, por isso, quando nos decidimos por</p><p>um coração que aceita os obstáculos e sabe lutar para vencê-los,</p><p>teremos mais chances de sair vitoriosos</p>