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1 Cirurgia Torácica: Derrame Pleural Formação do líquido pleural O líquido pleural é produzido principalmente na pleura parietal proximal e reabsorvido na pleura parietal distal, pleura diafragmática e pleura mediastinal através de poros linfáticos. A função do líquido pleural (que existe entre 7 a 14 ml no adulto) é reduzir o atrito entre o pulmão e a parede do tórax. A drenagem máxima do líquido pleural é cerca de 20 vezes maior que a produção estimada normal (0,01 ml/kg/h), isto é, quando o paciente apresenta retenção de líquido no espaço pleural é porque a produção aumentou muito. O líquido pleural tem basicamente a mesma constituição do líquido intersticial. Definição de derrame pleural Excesso de líquido no espaço pleural, que ocorre por aumento da produção ou redução da reabsorção. O aumento da produção normalmente se dá por formação de transudato ou exsudato. Transudato (pensar em doenças sistêmicas/extrapulmonares) Quando muito líquido sai dos capilares da pleura parietal, o que acontece devido ao desequilíbrio entre a pressão hidrostática (que aumenta) e/ou pressão coloidosmótica (que diminui) – em condições normais, o líquido tende levemente a sair dos capilares. ● Aumento da pressão hidrostática: insuficiência cardíaca e pericardite constrictiva ● Diminuição da pressão coloidosmótica: cirrose hepática e síndrome nefrótica Exsudato (pensar em doenças pulmonares/infecções) Decorrente da inflamação dos capilares da pleura parietal. Essa inflamação aumenta o espaço entre as células endoteliais, permitindo o extravasamento de líquido, células e proteínas no espaço pleural. A principal doença que causa essa inflamação é a pneumonia (60% dos casos de exsudato). Além da pneumonia: ● Neoplasias – 2º lugar ● Tuberculose – 3º lugar ● Traumas ● Doenças inflamatórias (lúpus e artrite reumatóide) ● Pancreatite aguda ● Amiodarona ● 10 a 20% dos casos tem causas desconhecidas mesmo com investigação 2 Além de transudatos e exsudatos, existem outras causas de derrame pleural: Bloqueio da drenagem linfática Tumores/neoplasias e fibrose pleural. Deslocamento do líquido do espaço peritoneal Ascite e urinotórax. Através de orifícios presentes no diafragma, esses líquidos chegam ao espaço pleural. Hemotórax Traumas penetrantes e contusos, dissecções e aneurismas de aorta. Essas situações levam a presença de sangue no espaço pleural. Quilotórax A partir da lesão do ducto torácico, a linfa se desloca para o espaço pleural. A principal causa do quilotórax são as neoplasias, especialmente o linfoma. Outras causas comuns são cirurgias da região do mediastino, especialmente do esôfago. Também pode ser causado por traumas. A linfa presente no quilotórax é um líquido estéril devido a presença de lecitina e ácidos graxos. Nota: a linfa é drenada pelo ducto torácico, que começa ao lado direito a nível de T4. Esse ducto segue para o lado esquerdo e desemboca na junção da jugular com subclávia do lado esquerdo. Quadro clínico de um paciente com derrame pleural ● Assintomático (quando de pequeno volume) ● Dor torácica ventilatório-dependente ● Tosse seca ● Dispneia ● Insuficiência respiratória (quando de grande volume) Exame físico ● Murmúrio vesicular reduzido (ou abolido) ● Macicez à percussão ● Frêmito tóraco-vocal e broncofonia diminuídos (ou abolido) ● Expansibilidade diminuída ● Abaulamento nos espaços intercostais ao expirar (Sinal de Lemos Torres) Diagnóstico O primeiro exame pedido é o RX de Tórax; apesar disso, o padrão ouro para visualização do derrame pleural é a tomografia. Também pode ser feito o US de Tórax. 3 Derrame pleural pequeno Derrame pleural moderado Derrame pleural extenso No derrame pleural moderado, observa-se a curva de Damoiseau; no extenso, há velamento completo do hemitórax direito – pode ocorrer até desvio contralateral do mediastino. Se houver dúvidas se existe o derrame pleural ou não, realizar RX em Laurell (decúbito lateral com raios horizontais); o lado com suspeita de líquido deve ficar para baixo, formando uma imagem paralela a parede do tórax. 4 Em pacientes acamados, o RX deitado pode levar a formação da imagem em véu (opacidade homogênea no hemitórax afetado). Qual a conduta frente a um paciente com derrame pleural? O primeiro passo é a toracocentese, que deve ser feita caso o derrame pleural tenha >10 mm (ou 1 cm). Se o derrame for menor que 1 cm, realizar outro RX em 24 a 48h e, em caso de piora, realizar toracocentese. A toracocentese para líquidos deve ser feita com o paciente sentado (o líquido mais denso desce e o pulmão sobe). Deve ser feito no 6º ou 7º espaço intercostal na linha axilar posterior. 5 A toracocentese pode ser feita com 3 objetivos: diagnóstico, alívio e avaliar a expansão pulmonar após a retirada do líquido. Em alguns pacientes o pulmão não se expande adequadamente quando o líquido é retirado pela toracocentese, um dado importante nos pacientes com derrame pleural neoplásico, pois muda a conduta a ser tomada. Se o pulmão se expandir de forma completa, uma conduta é tomada. Caso não se expanda de forma completa (ou esteja encarcerado), outra conduta será tomada. Inspeção do líquido pleural Se o líquido for hemorrágico (hemotórax), devemos pensar em neoplasias, traumas, dissecção de aorta, infarto pulmonar e derrames decorrentes da pancreatite aguda. Se o líquido for leitoso, devemos pensar em quilotórax e neoplasias (linfoma). Se o líquido for amarelo citrino, devemos pensar em transudatos, que podem ter causas de pneumonia (em fase inicial) e tuberculose pleural. Se o líquido for purulento, devemos pensar em empiema. Odor ● Geralmente os derrames pleurais são inodoros ● Quando apresentam cheiro fétido/pútrido, devemos pensar em empiema ● Quando apresentam cheiro de amônia/urina, devemos pensar em urinotórax (obstrução de via urinária), uma condição muito rara O segundo passo é definir se o líquido é um transudato ou exsudato. Para isso, aplicamos os critérios de Light: Um deles positivo já classifica o líquido como exsudato; para ser transudato, todos devem ser negativos. 6 Principais causas de transudato (já vistos anteriormente) Dosagens que devem ser pedidas do líquido pleural ● Proteínas ● DHL ● pH ● Glicose ● Celularidade (ou contagem de células) ● Bacterioscopia ● Culturas ● Citologia oncótica 1. A dosagem de proteínas e DHL servirão para descobrir se é um transudato ou exsudato 2. A glicose e DHL podem identificar se o derrame é complicado ou não (caso a suspeita seja de derrame parapneumônico) 3. A celularidade indicará o provável diagnóstico: nas doenças agudas do espaço pleural, predominam neutrófilos (como na pneumonia, derrames parapneumônicos complicados e empiemas, embolia e pancreatite aguda); nas doenças crônicas do espaço pleural, predominam linfócitos (como nas doenças inflamatórias, neoplásicas [linfoma], tuberculose pleural, pleurisia reumatóide, linfoma e quilotórax). 4. A bacterioscopia e cultura, quando positivas, indicam pelo menos uma drenagem de tórax necessária 5. Caso a suspeita seja de um derrame neoplásico (sensibilidade 62 a 90% para adenocarcinoma) Substâncias do líquido pleural e suas informações A glicose do líquido pleural e do sangue normalmente apresentam o mesmo valor. Algumas doenças podem levar a sua redução (<60 mg/dL), como as doenças neoplásicas (principalmente), doenças infecciosas (que podem levar ao empiema) e artrite reumatóide – essa última doença é a com potencial de maior redução da glicose do líquido pleural, podendo chegar a zero. 7 O pH do líquido pleural é normalmente um pouco mais elevado que o do sangue, o que ocorre devido ao transporte ativo de bicarbonato para o espaço pleural (ph: 7,4~7,6). Doenças que podem causar a redução do pH: infecções e neoplasias (devido ao metabolismo anaeróbio no espaço pleural, produzindo ácidos como metabólitos). Nota: a perfuração esofágica pode levar a um pH muito baixo, próximo de 6. Os triglicerídeos quando acima de 110 mg/dL fazem o diagnóstico de quilotórax.Suspeita de tuberculose ● ADA (adenosina deaminase) Enzima presente nos linfócitos T; a TB pleural é uma das doenças que aumentam a concentração desses linfócitos, muito sugestiva quando ≥ 40 UI/L (sensibilidade de 87 a 100%). ● PCR (genexpert) Exame de DNA da micobactéria, porém apresenta menor sensibilidade (70 a 80%). Quando pedir biópsia pleural? Existem duas indicações junto com a toracocentese: 1. Suspeita de tuberculose ou neoplasia 2. Exsudatos (linfocíticos) não diagnosticados pela citologia Tratamento Nos casos de derrame pleural por insuficiência cardíaca, tratar a insuficiência cardíaca – nesses pacientes só será feita a punção (toracocentese) se você suspeita que outra patologia está causando o derrame, se o paciente apresenta febre associada, se o paciente apresenta dispnéia importante ou dor pleural. Nos casos de derrame pleural por tuberculose, devemos tratar a própria TB com o esquema RIPE por 2 meses e esquema RI por mais 4 meses – na maior parte dos casos, o derrame pleural é reabsorvido após 6 semanas de tratamento. Se o paciente apresenta empiema tuberculoso, realizar drenagem e decorticação. Em relação ao quilotórax, a conduta indicada é a drenagem de tórax. Além disso, existem outras duas opções adicionais que devem ser feitas: ● Dieta hipogordurosa com triglicérides de cadeia média, OU ● Jejum + nutrição parenteral Realizar cirurgia se falha no tratamento clínico. Derrame pleural neoplásico Depende da sobrevida do paciente. Se a sobrevida estimada é de até 30 dias, realizar apenas punção pleural para alívio de sintomas. 8 Se a expectativa de vida do paciente for maior que 30 dias, a conduta dependerá se o pulmão expandiu completamente ou não após uma toracocentese: ● Se expansão completa → pleurodese química (talco estéril) ○ Por dreno de tórax ou videotoracoscopia ○ A função é provocar uma reação inflamatória para a pleura visceral e parietal aderirem, diminuindo o espaço pleural e a chance de acúmulo de líquidos ● Se expansão incompleta → cateter pleural de longa permanência ou shunt pleuroperitoneal (cateter com válvula unidirecional) O risco do shunt pleuroperitoneal é que a doença do espaço pleural pode se espalhar para o peritônio. Questões: 9 O diagnóstico de quilotórax se dá quando triglicerídeos estão acima de 110, e uma de suas causas é a lesão do ducto torácico. Lembre-se que as cirurgias próximas ao mediastino (em especial esôfago) tem alto risco de lesão do ducto torácico. “Previsão de bom prognóstico a médio prazo” significa que o paciente tem previsão de viver por mais de 30 dias; além disso, não houve expansão completa de seu pulmão. Com essas informações, sabemos que a conduta é o cateter pleural de longa permanência ou shunt pleuroperitoneal (cateter com válvula unidirecional). Caso a expansão fosse completa, a conduta ideal seria a pleurodese química com talco estéril. A: TB e Neoplasia estão errados; B: Colagenosa está errado; D: TB, e colagenosa estão errados. 10 A principal causa do quilotórax é o linfoma. As lesões traumáticas não são as principais causas de quilotórax, mas as neoplasias. O conteúdo é estéril (lecitina e ácidos graxos). O quilotórax é mais comum do lado direito. 11 Faltou a informação da expansão pulmonar, porém a única resposta possível seria a letra D, indicando que o pulmão se expande completamente. Não há respostas para um pulmão que não se expande por completo. A toracocentese com biópsia é indicada na suspeita de derrame neoplásico, TB pleural e exsudatos com predomínio de linfócitos. 12 A glicose pode chegar próximo a zero na artrite reumatóide. Esquema I: RIPE por 2 meses e RI por 4 meses