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ʕ ◔ᴥ◔ ʔ Brenda Bosquê Derram� Pleura� Acúmulo de líquido no espaço pleural. Os pulmões possuem um tecido de revestimento chamado pleura, que é dividida em duas, a pleura visceral (interna) e a parietal (externa) e entre elas temos o espaço pleural, uma cavidade que armazena líquido pleural, cerca de 1L/dia em equilíbrio dinâmico. No derrame pleural, ocorre um desequilíbrio desse líquido da cavidade. ➔ Estima-se que ocorram por volta de 1.500.000 de casos de derrame pleural nos EUA por ano. No Brasil, estudos indicam que 20% a 30% dos pacientes internados por Pneumonia Adquirida na Comunidade (PAC) cursam com derrame pleural parapneumônico. Além disso, o derrame pleural neoplásico é uma complicação frequente em pacientes oncológicos. ETIOLOGIA Mais comuns: ● Insuficiência cardíaca ● Cirrose hepática (hidrotórax hepático) ● Pneumonia ● Neoplasia ● Embolia pulmonar ● Tuberculose pleural FISIOPATOLOGIA O derrame pleural caracteriza-se pelo acúmulo anormal de líquido no espaço pleural. O líquido pleural é produzido e absorvido primariamente na superfície parietal e depende do equilíbrio entre a pressão hidrostática e oncótica. Os vasos linfáticos localizados na pleura parietal são responsáveis pela reabsorção do líquido na cavidade, podendo aumentar sua capacidade de drenagem cerca de 20 vezes em resposta ao aumento da formação de líquido pleural. Dessa forma, um derrame clinicamente significativo será visto somente quando a produção de fluidos superar substancialmente a capacidade dos vasos linfáticos de reabsorver o líquido, devido à alta taxa de produção, reabsorção diminuída ou a combinação desses 2 fatores 1. Aumento de pressão nos capilares sanguíneos e/ou linfáticos subpleurais com escape de transudato para o espaço pleural: • insuficiência cardíaca • obstrução da veia cava superior • pericardite construtiva • pericardite com derrame hipertensivo 2. Diminuição da pressão osmótica do sangue: • cirrose hepática • síndrome nefrótica • desnutrição • síndrome perdedora de proteína 3. Invasão pleural: • infecção • neoplasias • traumatismo 4. Aumento da pressão negativa intrapleural: • atelectasia 5. Diminuição da drenagem linfática pleural: • neoplasias ʕ ◔ᴥ◔ ʔ Brenda Bosquê • infecção crônica • linfangioleiomiomatose QUADRO CLÍNICO Os sintomas comumente encontrados no derrame pleural são dor torácica do tipo pleurítica, tosse e dispneia. A intensidade desses achados está relacionada com a velocidade de formação do derrame e a extensão do processo inflamatório pleural, além dos sintomas gerados pela própria doença de base. ● Exame Físico Ao exame físico, a inspeção pode nos mostrar abaulamentos, desvio contralateral do mediastino e alargamento dos espaços intercostais. À palpação percebe-se uma redução do frêmito torácico-vocal. Há macicez à percussão e o murmúrio vesicular se encontra reduzido à ausculta. Pode haver sopro pleurítico. DIAGNÓSTICO O diagnóstico é baseado em exames de imagem, a fim de caracterizar a extensão do derrame pleural, e também na determinação da causa que pode ser feita através da toracocentese. ● Sinal de Signorelli corresponde ao achado de macicez durante a percussão da coluna torácica em um indivíduo com derrame pleural. ● Sinal de Lemos Torres corresponde a um abaulamento expiratório localizado nos últimos espaços intercostais, principalmente à expiração forçada nos pequenos e médios derrames. ● Sinal de Litten corresponde à ausência da visualização da depressão intercostal inspiratória no hemitórax acometido. As radiografias de tórax em incidência Posteroanterior (PA) e perfil são fundamentais na investigação inicial, sendo capazes de identificar derrames com volume mínimo de aproximadamente 200 mL. Os principais achados são: obliteração do seio costofrênico, elevação e alteração da conformação do diafragma (retificação de sua porção medial) e hipotransparência nas bases com formação de uma parábola com concavidade voltada para cima (curva de Damoiseau). A radiografia em decúbito lateral com raios horizontais (incidência de Hjelm-Laurell) pode auxiliar no diagnóstico de derrames com pequenos volumes. ● Exames laboratoriais Em geral, o líquido pleural é removido por toracocentese, um procedimento simples, seguro e de baixo custo, no qual se introduz uma agulha no espaço pleural para remoção do líquido e permitir que ele seja analisado em laboratório, para estimar a provável causa do derrame pleural. A toracocentese tem como objetivo avaliar as características macroscópicas, bioquímicas e citológicas do derrame. Caso não haja contraindicações (como infecções de pele no local da punção Existe uma tríade clássica da síndrome do derrame pleural, que consiste em tosse seca, dor torácica de dispneia. A tosse seca é esporádica e pouco intensa e a dispneia está relacionada ao tempo do derrame, a velocidade e volume de líquido acumulado, estado funcional do paciente e presença de comprometimento pulmonar. Já a dor torácica é caracteristicamente ventilatório-dependente. ʕ ◔ᴥ◔ ʔ Brenda Bosquê e coagulopatias graves) e exista líquido suficiente, todos os pacientes com derrame pleural devem ser submetidos à toracocentese. A exceção a essa regra são os pacientes cujos diagnóstico de insuficiência cardíaca, síndrome nefrótica e cirrose estão bem estabelecidos e não há sinais de alerta. ● Indicações de toracocentese A toracocentese pode ser diagnóstica, com principal indicação para pacientes com derrame pleural sem diagnóstico etiológico, ou terapêutica, para o alívio sintomático (dispneia, tosse e dor torácica). Também pode ser considerada para pacientes com derrames de origem cardíaca, renal, neoplásica ou que aguardem o ajuste terapêutico de doença de base. ➔ Indicações de toracocentese em pacientes com insuficiência cardíaca. Dor pleurítica Febre Derrame predominando em hemitórax esquerdo Derrame bilateral com assimetria significativa Ausência de cardiomegalia Refratariedade ao tratamento Na presença de dispneia associada a derrame pleural volumoso, a toracocentese de alívio está indicada. Nesses casos, recomenda-se a retirada de forma lenta, sem uso de vácuo e, tradicionalmente, não excedendo 1.500 mL de líquido pleural, pelo risco de edema de reexpansão. O surgimento de sintomas, como tosse seca, piora da dispneia ou dor torácica, são indicativos da necessidade de interrupção da toracocentese. Dependendo do aspecto do líquido, suspeitamos de etiologias diferentes, observe: ➔ Amarelo citrino: mais prevalente em derrames pleurais, podendo ser transudato ou exsudato. ➔ Sanguinolento: neoplasia, embolia pulmonar, trauma, acidente de punção, tuberculose. ➔ Leitoso: quilotórax ou pseudoquilotórax. ➔ Purulento: empiema. ➔ Amarronzado: infecção fúngica, abscesso amebiano, pancreatite. ● Critérios de Light Os critérios de Light são capazes de diferenciar derrames exsudativos e transudativos com sensibilidade (98%) e especificidade (83%). A presença de qualquer um dos critérios classifica o derrame como exsudativo. Proteína do líquido pleural/proteína sérica > 0,5 LDH do líquido pleural/LDH sérico > 0,6 LDH do líquido pleural > 2/3 do limite superior da normalidade do LDH sérico ʕ ◔ᴥ◔ ʔ Brenda Bosquê CAUSAS DE DERRAME PLEURAL DE ACORDO COM O LÍQUIDO TRANSUDATIVO • Insuficiência cardíaca • Diálise peritoneal • Cirrose hepática • Mixedema • Síndrome nefrótica • Atelectasia • Desnutrição • Urinotórax EXSUDATIVO • Pneumonia bacteriana • Pancreatite, ruptura de esôfago • Câncer • Doenças do tecido conectivo • Tuberculose • Medicamentos • Quilotórax • Exposição a asbesto • Síndrome de Meigs • Hemotórax TRANSUDATIVO E EXSUDATIVO • Tromboembolismo pulmonar • Sarcoidose ➔ Outros exames • Glicose: afasta diagnósticos de causas infecciosas, neoplásicas, colagenosas, ruptura de esôfago e hemotórax. • pH: pH inferior a 7,2 pode indicar colagenoses, pleurite tuberculosa, neoplasias malignas e hemotórax, indicando um pior prognóstico. • Adenosina deminase: utilizada para diagnóstico de pleurite tuberculosa. • Lípideos: em derrames exsudativos crônicospode haver pseudoquilotórax (colesterol elevado), e em doenças que comprometem o ducto torácico pode haver triglicérides alterados. • Amilase: utilizada para diagnóstico de derrame pleural secundário à pancreatite, mas também pode estar elevada em casos de ruptura esofágica e neoplasias. • Citologia diferencial e oncótica: ajuda na investigação diagnóstica, mas não diferencia exsudato e transudato. • Hematócrito do líquido pleural: auxilia na diferenciação de hemotórax. • Análise microbiológica: permite identificar patógenos além da avaliação da evolução e prognóstico de algumas doenças. TRATAMENTO O tratamento do derrame pleural transudativo baseia-se muitas vezes no tratamento da síndrome edemigênica associada, como no caso da insuficiência cardíaca e cirrose hepática. Nos derrames exsudativos, a determinação da etiologia é fundamental para o manejo adequado do fator causal. ● Derrame pleural, independentemente de sua etiologia, se tiver volume de moderado à grande e o paciente estiver sintomático, deve ser drenado – assim como quadros de empiema pleural agudo.