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FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO 
COM NUTRIENTES PARA A 
NUTRIÇÃO CLÍNICA 
 
 
 2 
 
APRESENTAÇÃO DA DISCIPLINA 3 
Objetivo da disciplina 3 
Objetivos específicos 3 
Habilidades e competências a serem alcançadas 
 3 
Ementa da disciplina 3 
Bibliografia básica da disciplina 4 
 
1 PRINCÍPIOS INTRODUTÓRIOS DA FARMACOLOGIA
 6 
 
2 INTERAÇÃO ENTRE NUTRIENTES E FÁRMACOS 
 20 
 
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA 40 
 
 
 
 
 
FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA 
 
3 
APRESENTAÇÃO DA DISCIPLINA 
 
 
Objetivo da disciplina 
 
Discutir sobre aspectos associados à farmacologia e à interação 
entre fármacos e nutrientes. 
 
Objetivos específicos 
 
 Abordar aspectos associados à farmacologia, incluindo 
farmacodinâmica e farmacocinética. 
 Abordar aspectos associados à interação entre fármacos e 
nutrientes. 
 
Habilidades e competências a serem alcançadas 
 
 Compreender aspectos gerais associados à farmacologia e às 
interações entre fármacos e nutrientes. 
 Detectar determinadas interações entre fármacos e nutrientes 
de modo a otimizar o tratamento do paciente. 
 
Ementa da disciplina 
 
Discutir sobre princípios gerais vinculados à farmacologia 
(incluindo farmacodinâmica e farmacocinética) e às interações entre 
 
 
 
FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA 
 
4 
fármacos e nutrientes. As informações incluídas são fundamentadas em 
evidências científicas bem consolidadas. 
 
Bibliografia básica da disciplina 
 
Mahan, L.K.; Escott-Stump, S.; Raymond, J.L. Krause – Alimentos, 
Nutrição e Dietoterapia. 13ª Edição. Elsevier. 2013. 
 
Brunton, L.L. Goodman & Gilman: As Bases Farmacológicas da 
Terapêutica. 12ª ed. Rio de Janeiro: McGraw-Hill, 2012. 
 
KATZUNG, Bertram G.; TREVOR, Anthony J. (Orgs.). Farmacologia 
básica e clínica. 12aedição. Mc Graw Hill, 2013. 
 
Rang, H. P.; Dale, M. M.; Ritter, J. M.; Flower, R. J.; Henderson 
G. Rang & Dale. Farmacologia. 7ª edição. Rio de Janeiro, Elsevier, 
2012.808 p. 
 
 
 
 5 
 
 
 6 
FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA 
 
1 PRINCÍPIOS INTRODUTÓRIOS DA 
FARMACOLOGIA 
 
 
Introdução 
 
A Farmacologia se ocupa 
do estudo das substâncias que 
interagem com os sistemas vivos e 
geram efeitos biologicamente 
importantes para prevenção, 
diagnóstico ou cura de patologias. 
Essas substâncias que 
apresentam algum efeito 
desejável sobre o organismo 
humano são denominadas 
fármacos. Em geral, a maioria dos 
fármacos atua como agonistas 
(ativadores), antagonistas 
(inibidores) ou agonistas inversos 
(inibem atividade constitutiva de 
receptores) que interagem com 
estruturas-alvo no organismo 
(receptores). 
 
Os fármacos podem ser 
administrados já em sua forma 
ativa, prontos para interagir com 
as estruturas-alvo, ou em sua 
forma inativa que necessita passar 
por um processo de ativação, que 
geralmente consiste na hidrólise 
de uma ligação éster ou amida, 
dentro do organismo para 
assumir sua forma ativa. A forma 
inativa é denominada pró-
fármaco, sendo produzida – por 
meio de um processo denominado 
latenciação - com a finalidade de 
alterar características (por 
exemplo, lipossolubilidade) que 
permitam que o fármaco chegue 
adequadamente ao seu local de 
ação. 
 
O estudo da Farmacologia 
é usualmente dividido 
artificialmente para fins didáticos 
em Farmacocinética e 
Farmacodinâmica. Grosso 
 
 
 7 
FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA 
 
modo, a farmacocinética descreve 
o caminho do fármaco no 
organismo, analisando desde a 
sua absorção a partir de uma via 
de administração até os 
mecanismos de sua eliminação do 
organismo por meio de 
metabolização e excreção. A outra 
subárea da Farmacologia, a 
Farmacodinâmica, descreve o 
mecanismo de ação dos fármacos 
a partir de sua interação com 
estruturas alvo no organismo. 
 
Embora por muito tempo 
no passado a utilização de 
medicamentos tenha se baseado 
em justificativas longe do rigor do 
método científico, produzindo 
aberrações tal como a utilização 
compostos tóxicos na terapêutica 
de doenças comuns, atualmente o 
processo de descoberta de um 
novo fármaco é extremamente 
rigoroso e assegura, dentre outros 
fatores, que apresente o candidato 
a novo medicamento apresente 
um efeito farmacológico que 
contribua para a prevenção, 
diagnóstico, tratamento ou cura 
de alguma patologia em doses 
bem definidas. Entretanto, doses 
mais elevadas de virtualmente 
qualquer fármaco disponível 
apresentam efeitos tóxicos nos 
tecidos humanos. O médico suíço 
Paracelso (1493-1541) resumiu 
esta característica na célebre frase 
“A diferença entre o remédio e o 
veneno é apenas a dose”. 
 
A Toxicologia médica é 
um ramo específico da 
farmacologia que lida com os 
possíveis efeitos indesejáveis 
gerados nos humanos 
diretamente pelos fármacos ou 
por sua interação com outras 
substâncias, tal como outros 
fármacos ou mesmo nutrientes. 
Existem numerosos fatores com 
potencial para alterar aspectos da 
ação dos fármacos e que podem 
resultar em toxicidade para o ser 
humano. Por exemplo, alterações 
da microbiota intestinal podem 
resultar em diminuição da 
metabolização de digoxina - um 
medicamento de faixa terapêutica 
estreita que produz toxicidade 
com doses ligeiramente mais 
elevadas que a habitual – e, 
consequentemente, 
cardiotoxicidade. Além disso, 
diversos fatores dietéticos alteram 
o metabolismo de fármacos, tal 
como o suco de grapefruit 
(toranja) que inibe o metabolismo 
de fármacos por CYP3A ou 
hortaliças crucíferas que induzem 
as enzimas CYP1A e elevam, 
portanto, o metabolismo de 
alguns fármacos. 
 
Os avanços das ciências 
ômicas, a partir do avanço dos 
 
 
 8 
FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA 
 
processos de sequenciamento, 
permitiram a identificação de 
numerosos fatores genéticos que 
alteram os processos 
farmacocinéticos e/ou 
farmacodinâmicos relacionados a 
inúmeros fármacos. O avanço da 
análise de como os fatores 
genéticos influenciam a 
terapêutica medicamentosa deu 
origem à ciência denominada 
Farmacogenômica, um grande 
avanço rumo à medicina 
personalizada. 
 
Nas próximas seções serão 
apresentados os aspectos básicos 
da farmacologia, da toxicologia e 
da farmacogenômica, necessários 
para que se compreendam os 
mecanismos básicos de interação 
entre fármacos e nutrientes, e as 
principais interações entre 
fármacos, nutrientes e fatores 
associados. 
 
Farmacocinética 
Os fármacos podem ser 
incorporados em diferentes 
formas farmacêuticas 
(comprimidos, cápsulas, 
suspensão, solução injetável, 
pomadas etc.) para produzir os 
medicamentos a serem 
administrados por meio das 
várias vias de administração 
disponíveis. Nas vias de 
administração enterais 
(principalmente via oral, 
sublingual e retal) a 
administração ocorre em algum 
ponto do TGI e, por outro lado, 
nas parenterais (intravenosa, 
intramuscular, inalatória, 
transdérmica etc.) a 
administração ocorre sem passar 
pelo TGI. As diversas vias 
apresentam vantagens e 
desvantagens específicas a serem 
analisadas para cada 
medicamento a ser administrado. 
O Quadro 1 apresenta as 
principais vias de administração e 
suas características gerais. 
 
VIA DE 
ADMINISTRAÇÃO 
ABSORÇÃO VANTAGENS LIMITAÇÕES 
Oral (VO) 
É afetada por 
numerosos fatores. 
Mais conveniente, 
econômica e segura. 
Depende de 
adesão do 
paciente. 
Biodisponibilidade 
variável com 
diversos fatores. 
 
 
 9 
FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA 
 
Intravenosa (IV) 
Administração 
diretamente na 
circulação sistêmica, 
a absorção a partir 
de outro tecido não 
é necessária. 
Uso mesmo em 
pacientes 
inconscientes, permite 
titulação de dose. 
Maior risco de 
efeitosadversos 
relacionados à 
administração. 
Inadequada para 
soluções oleosas ou 
substâncias pouco 
solúveis. 
Intramuscular (IM) 
Pode ser imediata 
para soluções 
aquosas ou lenta e 
prolongada para 
preparações de 
depósito. 
Adequada para 
veículos oleosos e 
algumas substâncias 
irritantes. 
Contraindicada 
durante 
tratamento 
anticoagulante. 
Subcutânea (SC) 
Pode ser imediata 
para soluções 
aquosas ou lenta e 
prolongada para a 
preparações de 
depósito. 
Adequada para 
algumas suspensões 
pouco solúveis e para 
implantes de liberação 
lenta. 
Inadequada para 
grandes volumes. 
Substâncias 
irritantes podem 
causar dor ou até 
necrose. 
Retal 
É irregular e pode 
ser incompleta. 
Metade do fármaco 
absorvido não é 
submetido à primeira 
passagem pelo fígado. 
Alguns fármacos 
causam irritação da 
mucosa retal. 
Adaptado de Goodman & Gilman 13ª ed. 
 
A farmacocinética estuda as ações do corpo sobre o fármaco a partir 
de sua administração em uma das vias de administração disponíveis, 
seguindo-se a sua absorção até alcançar a circulação sistêmica para que 
ocorra sua distribuição aos tecidos e sua chegada ao seu tecido-alvo. 
Posteriormente ocorre a etapa de eliminação, que deve ser realizada para 
o término do efeito do fármaco, pode se dar por meio de excreção direta 
ou por sua biotransformação (metabolização) seguida de excreção. 
A avaliação pormenorizada de cada um desses processos é objeto de 
estudo da farmacocinética. Neste texto, serão apresentados os aspectos 
básicos da farmacocinética. 
 
 
Figura 1. Resumo dos processos da farmacocinética. ADME: Absorção, Distribuição, 
Metabolização e Excreção. 
 
Absorção
•Transferência
do local de
adminstração
para a
circulação
sistêmica
Distribuição
• Distribuição do
fármaco pelo
organismo até
aos tecidos em
que atuará
Metabolização
• Alterações do
fármaco
levando ao
término de sua
ação e
facilitação de
sua excreção
Excreção
•Eliminação
do fármaco
do organismo
 
 
 10 
FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA 
 
Absorção 
 
O processo de absorção do 
fármaco consiste em sua 
transferência do local de 
administração para a circulação 
sistêmica. Numerosos fatores 
relacionados ao medicamento e ao 
organismo afetam esta etapa. Por 
exemplo, o grau de 
lipossolubilidade, o pKa ou pKb 
(quando o fármaco for um ácido 
ou base), o peso molecular do 
fármaco, as taxas de 
desintegração e dissolução 
quando administrados como 
comprimidos nos líquidos 
biológicos, dentre vários outros 
fatores ligados ao fármaco afetam 
sua taxa de absorção. 
Adicionalmente, há diversos 
fatores que afetam a absorção e 
estão relacionados ao organismo, 
tais como velocidade de 
esvaziamento gástrico, perfusão 
sanguínea local, área disponível 
para absorção, dentre outros. 
 
Quando ocorre algum 
problema durante a absorção do 
fármaco sua biodisponibilidade é 
afetada. 
 
Biodisponibilidade 
 
A biodisponibilidade de 
um fármaco constitui a sua fração 
que atinge o seu local de ação ou a 
circulação sistêmica a partir da 
qual ele atinge seu local de ação 
após ter sido administrado por 
alguma via. Pode ser completa, 
com 100% da dose administrada 
alcançando a circulação sistêmica 
ou incompleta, em que fração da 
dose administrada não alcança a 
circulação sistêmica de forma 
inalterada. Como exemplos, os 
fármacos administrados por via 
oral costumam ter absorção 
incompleta e parte da dose 
absorvida na parede intestinal é 
levada ao fígado pela veia porta, 
onde pode ser biotransformada ou 
excretada na bile antes que possa 
alcançar a circulação sistêmica - 
processo chamado efeito de 
primeira passagem - resultando 
em biodisponibilidade 
incompleta. Por outro lado, os 
fármacos administrados pela via 
intravenosa alcançam de pronto a 
circulação sistêmica e, portanto, 
apresentam biodisponibilidade 
completa. 
 
𝑩𝒊𝒐𝒅𝒊𝒔𝒑𝒐𝒏𝒊𝒃𝒊𝒍𝒊𝒅𝒂𝒅𝒆
=
𝒇á𝒓𝒎𝒂𝒄𝒐 𝒒𝒖𝒆 𝒄𝒉𝒆𝒈𝒂 à 𝒄𝒊𝒓𝒄𝒖𝒍𝒂çã𝒐 𝒔𝒊𝒔𝒕ê𝒎𝒊𝒄𝒂
𝒇á𝒓𝒎𝒂𝒄𝒐 𝒂𝒅𝒎𝒊𝒏𝒊𝒔𝒕𝒓𝒂𝒅𝒐
 
 
Distribuição 
 
Na etapa posterior à 
absorção do fármaco, 
denominada distribuição, ocorre 
a transferência do fármaco aos 
 
 
 11 
FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA 
 
líquidos intersticiais e 
intracelulares nos diferentes 
tecidos corporais. Inicialmente os 
órgãos com maior taxa de 
perfusão sanguínea (fígado, rins, 
encéfalo e etc.) recebem maiores 
quantidades dos fármacos, mas 
posteriormente o fármaco 
também é distribuído aos outros 
órgãos internos, pele e gordura. 
Ademais, o débito cardíaco, fluxo 
sanguíneo regional, 
permeabilidade capilar e o volume 
do tecido também afetam a taxa 
de distribuição tecidual do 
fármaco. 
 
Muitos fármacos são 
carreados na corrente sanguínea 
ligados de forma reversível às 
proteínas plasmáticas, de modo 
que passa a existir uma fração do 
fármaco livre e outra livre, fator 
que pode alterar sobremaneira 
sua taxa de distribuição. Dentre 
as principais ocorrências estão a 
ligação de fármacos que são 
ácidos à albumina, enquanto os 
fármacos básicos ligam-se à α-
glicoproteína ácida. O percentual 
da dose do fármaco que fica ligada 
às proteínas plasmáticas pode ser 
afetado pela presença de 
alterações no organismo do 
paciente. Por exemplo, as frações 
livres de fármacos ácidos podem 
estar elevadas em pacientes com 
hipoalbuminemia. Ainda, a fração 
livre de fármacos básicos pode 
estar diminuída em condições que 
promovem a elevação da 
concentração de α-glicoproteína 
ácida (p. ex. câncer, artrite e 
doença de Crohn). Pode ocorrer 
ainda o deslocamento de um 
fármaco ligado a uma 
determinada proteína plasmática 
por outro com maior afinidade 
pelo sítio de ligação, resultando 
na elevação da concentração 
plasmática livre do fármaco 
deslocado. 
 
O acúmulo de fármacos em 
tecidos específicos, que se tornam 
reservatórios deste fármaco, pode 
resultar em prolongamento da 
ação farmacológica neste local ou 
em outros órgãos distantes após 
nova liberação na corrente 
sanguínea por processo chamado 
redistribuição. O acúmulo de 
fármacos em tecidos específicos 
pode resultar em toxicidade, tal 
como ocorre com os antibióticos 
aminoglicosídeos que causam 
ototoxicidade e nefrotoxicidade. 
O tecido adiposo é um 
reservatório bem conhecido para 
fármacos com elevada 
lipossolubilidade. 
 
Metabolização 
(Biotransformação) 
 
 
 
 12 
FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA 
 
Os resultados mais comuns 
da biotransformação de fármacos 
para eliminação é a cessação da 
atividade biológica e 
farmacológica. Além disso, estes 
compostos são tornados mais 
hidrofílicos para serem mais 
passíveis de eliminação no 
ambiente aquoso da urina. Assim, 
os metabólitos dos fármacos 
excretados na urina são, em geral, 
inativos e polares. 
 
As reações de 
biotransformação dos fármacos 
ocorrem principalmente no fígado 
em reações de fase 1 (reações 
catalisadas pela superfamília de 
enzimas citocromo p-450 (CYP), 
reações de óxido-redução e 
hidrolíticas) e de fase 2 
(conjugação com moléculas como 
a glutationa). No entanto, vários 
outros órgãos apresentam 
capacidade de metabolizar 
fármacos, de forma que o TGI, 
rins e pulmões também 
apresentam capacidade elevada 
para metabolização 
biotransformação dos fármacos. 
 
Diversas substâncias, 
incluindo fármacos e nutrientes, 
podem induzir ou inibir a 
expressão de enzimas CYP. Isto 
pode resultar em concentrações 
anormalmente baixas ou altas de 
fármacos, respectivamente. 
Excreção 
 
A excreção renal é a 
principal via de eliminação dos 
fármacos e dos seus metabólitos, 
consistindo em três processos: 
filtração glomerular, secreção 
tubular ativa e reabsorção tubular 
passiva. O fármaco contido na 
corrente sanguínea passa para o 
lúmen tubular dos néfrons por 
meio doprocesso de filtração 
glomerular, mas isto ocorre 
apenas com a fração livre do 
fármaco. Quantidade adicional do 
fármaco pode ser retirada da 
circulação por secreção ativa 
diretamente para os túbulos 
renais proximais. E, 
contrariamente, a quantidade do 
fármaco excretada pode ser 
diminuída por reabsorção tubular 
passiva da forma não ionizada do 
fármaco nos túbulos renais 
distais. Este processo pode ser 
manipulado pela alteração do pH 
da urina tubular, fato que 
costuma ser utilizado no 
tratamento de intoxicações. A 
acidificação da urina tubular 
promove a reabsorção tubular de 
fármacos que são ácidos fracos 
por desviar o equilíbrio para sua 
forma protonada. A mesma lógica 
é seguida na alcalinização da 
urina e fármacos que são bases 
fracas. 
 
 
 
 13 
FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA 
 
A figura 2 ilustra os 
processos supracitados 
relacionados a excreção dos 
fármacos nos néfrons. 
 
 
 
A função renal sofre 
declínio natural durante a vida 
(da ordem de 1% ao ano), o que se 
torna importante para o cálculo 
de doses de medicamentos para 
idosos, tornando necessária a 
realização de ajustes de doses 
para essa população. 
 
A excreção renal de 
fármacos contribui de maneira 
decisiva para a eliminação dos 
fármacos e seus metabólitos do 
organismo, mas não é a única via 
de eliminação. Os hepatócitos 
contêm transportadores na 
membrana canalicular que 
secretam ativamente os fármacos 
e seus metabólitos na bile para 
secreção no TGI. Os fármacos 
secretados no TGI podem ser 
reabsorvidos para a circulação 
sistêmica, processo chamado de 
reciclagem êntero-hepática, e 
prolongar a ação do fármaco ou 
serem excretados com as fezes. 
 
Os fármacos ainda podem 
ser excretados em outros fluidos 
corporais como o suor, a saliva e 
as lágrimas. Entretanto, as 
quantidades excretadas por estas 
vias são quase desprezíveis. 
 
Um fato importante é a 
possibilidade de acúmulo de 
fármacos básicos no leite 
materno, ligeiramente mais ácido 
que o plasma, resultando na 
exposição do lactente a essas 
substâncias. Este fato deve ser 
considerado durante a definição 
de esquemas terapêuticos para 
lactantes. 
 
Finalmente, destaca-se que 
existem doses padronizadas 
recomendadas para os pacientes 
que apresentam as funções renal e 
hepáticas normais, mas também 
equações matemáticas utilizadas 
para calcular as taxas de 
depuração renal e hepáticas para 
estabelecimento de doses quando 
há algum grau de 
comprometimento do 
funcionamento destes órgãos, 
evitando a ocorrência de 
 
 
 14 
FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA 
 
toxicidade por ação exacerbada 
dos fármacos. 
 
Farmacodinâmica 
 
A Farmacodinâmica 
estuda as ações do fármaco no 
corpo e seus mecanismos de ação. 
Os fármacos interagem com um 
receptor/alvo, usualmente uma 
macromolécula ou complexo 
macromolecular, para 
desencadear a alteração de uma 
resposta local ou sistêmica. 
 
Os receptores aos quais os 
fármacos se ligam podem ser de 
variados tipos (acoplados à 
proteína G (GPCR), Tirosina-
quinase, canais iônicos e etc.) e 
estão mais frequentemente 
localizados nas superfícies 
celulares, transmitindo o estímulo 
para o meio intracelular por meio 
de cascatas de segundos 
mensageiros. No entanto, 
também podem estar dentro de 
compartimento celulares, como 
os receptores nucleares, ou 
extracelulares, como os fármacos 
que atuam sobre enzimas, fatores 
da coagulação ou mediadores da 
inflamação. 
 
Para que um fármaco que 
atue como agonista tenha 
eficácia, deve ter a capacidade de 
se ligar ao receptor-alvo – a 
medida desta capacidade é a 
afinidade – e de provocar sua 
alteração conformacional 
(atividade intrínseca). Quando os 
fármacos têm afinidade pelo 
receptor, mas não provocam sua 
alteração conformacional, são 
denominados antagonistas de 
receptores. Estes fármacos sem 
atividade intrínseca exercem sua 
função ao ocuparem os sítios de 
ligação dos receptores e evitarem 
a ligação de agonistas a estes 
receptores. O efeito do 
antagonista pode ou não ser 
superável pela elevação da 
concentração do agonista no local 
de ação, respectivamente 
antagonismo reversível e 
antagonismo não superável. 
 
Embora o aprofundamento 
no tema não caiba no escopo deste 
texto, cabe citar que ainda existem 
outros tipos de antagonismo (por 
exemplo, antagonismo não 
competitivo e antagonismo 
fisiológico) e variações de 
agonistas (por exemplo, agonistas 
parciais, agonistas plenos e 
agonistas inversos). 
 
Além da utilização dos 
fármacos individualmente para 
obter determinado resultado, 
existe a possibilidade de combinar 
fármacos com mecanismos de 
ação diversos com efeitos que se 
 
 
 15 
FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA 
 
combinam gerando sinergismo 
positivo aditivo. Isto permite 
utilizar doses reduzidas dos 
fármacos e, portanto, reduzir os 
efeitos adversos dependentes de 
concentração destes fármacos. 
 
Uma grande parcela dos 
fármacos mais novos foge dos 
conceitos tradicionais de 
fármacos, sendo enquadrados 
como agentes biológicos 
terapêuticos, incluindo enzimas e 
anticorpos monoclonais 
desenvolvidos por engenharia 
genética. Por exemplo, foi 
aprovado um herpes-vírus 
oncolítico geneticamente 
modificado para o tratamento de 
melanoma por meio de sua 
injeção em tumores que não 
podem ser completamente 
ressecados por cirurgia. 
Atualmente têm-se a perspectiva 
do lançamento para os próximos 
anos de muitos fármacos de nova 
geração com mecanismos de ação 
inovadores, como os capazes de 
atuar na edição do genoma. 
 
Farmacogenômica 
 
A farmacogenômica estuda 
os impactos das variações 
genéticas ou dos genótipos dos 
indivíduos em sua resposta aos 
fármacos ou sua metabolização, 
de modo que permita tornar mais 
efetivos os tratamentos de 
indivíduos ou grupos. 
 
Este campo de estudo se 
desenvolveu pela constatação da 
ocorrência de reações adversas 
graves a fármacos em 
determinados indivíduos em que, 
após maiores estudos, se 
observaram variantes genéticas 
relacionadas às enzimas 
metabolizadoras de fármacos, 
resultando em alteração de sua 
atividade. Posteriormente, esta 
área - assim como áreas correlatas 
como a Nutrigenômica - 
apresentou grande 
desenvolvimento com a realização 
do projeto de sequenciamento 
completo do genoma humano. Já 
são reconhecidos numerosos 
polimorfismos relacionados a 
alterações de resposta e 
metabolização de fármacos, 
informações essenciais para o 
campo da medicina 
personalizada que as utiliza 
para guiar a seleção e 
estabelecimento da dosagem de 
fármacos para pacientes 
específicos. 
 
Os polimorfismos 
genéticos relacionados às enzimas 
metabolizadoras de fármacos 
podem resultar em toxicidade ou 
insuficiência de efeito com a 
utilização das doses 
 
 
 16 
FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA 
 
padronizadas. Assim, a meia vida 
do fármaco em um metabolizador 
rápido pode ocorrer 3 vezes mais 
velozmente do que ocorreria em 
metabolizador lento, por exemplo 
(o tempo de meia vida entre 
metabolizadores rápidos e lentos 
varia de acordo com o 
medicamento). Como resultado, a 
dose prescrita para um 
metabolizador rápido pode ser 
tóxica para um metabolizador 
lento. 
 
As atividades das enzimas 
pertencentes ao complexo 
enzimático citocromo P450 
diferem de acordo com variações 
genéticas, o que tem um 
importante impacto no 
metabolismo de fármacos. Para 
exemplificar, sabe-se que cerca de 
5 a 10% dos brancos são 
metabolizadores lentos da enzima 
CYP2D6 do citocromo P450, ao 
passo que 20% dos asiáticos são 
maus metabolizadores da enzima 
CYP2C19 do citocromo P450. As 
enzimas CYP2D6 e CYP2C19 
metabolizam cerca de 25% de 
todos osfármacos, incluindo 
antipsicóticos, antidepressivos e 
narcóticos. 
 
Um metabolizador lento, a 
ingestão de doses convencionais 
do fármaco resulta em valores 
elevados deste na corrente 
sanguínea, enquanto os 
metabolizadores rápidos têm 
respostas imprevisíveis por conta 
da metabolização acelerada do 
fármaco. 
 
O profármaco codeína, 
utilizado para manejo de dor 
moderada a intensa e que 
apresenta a morfina (com ação 
analgésica 200 vezes mais 
potente) como metabólito ativo 
pode ser citado como exemplo de 
fármaco com ação alterada pela 
expressão das enzimas do 
complexo citocromo P450. A 
eficiência da ação analgésica da 
codeína depende de sua 
conversão para morfina por meio 
de O-desmetilação realizada pela 
CYP2D6. São reconhecidos 
polimorfismos genéticos que 
determinam ação normal, 
aumentada ou reduzida da 
CYP2D6 e, portanto, os 
indivíduos apresentarão, 
respectivamente, ação analgésica 
adequada, efeitos tóxicos ou 
analgesia insuficiente com a 
utilização da dose de referência de 
codeína. 
 
Embora os polimorfismos 
de enzimas metabolizadoras 
sejam os mais comuns na 
alteração da atividade de 
fármacos – e, portanto, os mais 
estudados -, outras variações 
 
 
 17 
FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA 
 
genéticas implicam em alteração 
da atividade de fármacos. Como 
exemplo, pode ocorrer variação 
na atividade de transportadores 
de membrana das células 
epiteliais de tecidos intestinais, 
renais e hepáticos (tal como o 
transportador de ânions 
orgânicos (OATP1B1)) que resulta 
em captação e efluxo de fármacos 
anormal e consequente elevação 
do risco de toxicidade. Por 
exemplo, pacientes com função 
reduzida de OATP1B1 recebendo 
sinvastatina – um inibidor da 
HMG-CoA redutase que reduz a 
concentração de lipídios séricos – 
apresentam risco elevado de 
apresentar miopatia. Ademais, há 
ainda as alterações genéticas que 
podem determinar 
hipersensibilidade a um fármaco. 
 
A farmacogenômica é uma 
área em franca expansão pela 
rápida aceleração da 
disponibilização de tecnologias de 
sequenciamento genômico e sua 
aplicação a um número crescente 
de pacientes, resultando em 
grande abundância de dados 
relacionando variações genéticas 
e resposta aos fármacos. 
 
Glossário 
 
A seguir são definidos os 
termos usuais no contexto do 
estudo da farmacologia e áreas 
associadas. 
 
CONCEITO DEFINIÇÃO 
Biodisponibilidade 
É o percentual da dose administrada de um fármaco que alcança 
seu local de ação ou o compartimento central (circulação 
sistêmica) 
Via de administração 
É o local onde o fármaco é administrado no organismo para ser 
distribuído até alcançar seu local de ação. 
Forma Farmacêutica 
 É a forma final de apresentação dos medicamentos, contendo o 
fármaco e a adição excipientes apropriados a fim de facilitar a sua 
utilização, com características apropriadas à administração por 
uma determinada via de administração. A forma farmacêutica 
pode se apresentar na forma líquida (xaropes), semissólida 
(pomadas), sólida (comprimidos) e gasosa (aerossóis). 
Via Parenteral 
Consiste na administração do fármaco por alguma via sem 
passar pelo TGI. Apresenta biodisponibilidade mais ampla, rápida 
e previsível. Entretanto, demanda realização de assepsia, pode 
causar dor e gera maior risco de infecção. Exemplos: Intravenosa, 
Intramuscular, Subcutânea, Intra-arterial, Intratecal e etc. 
Via Enteral 
Consiste na administração do fármaco em alguma via ao longo 
do TGI. 
Polimorfismo Qualquer variação genética na sequência de DNA 
 
 
 18 
FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA 
 
Xenobiótico 
Xeno = estranho bio = vida. São compostos não reconhecidos 
como constitutivos do organismo, são estranhos a ele. 
Citocromo P450 
(CYP) 
Superfamília de enzimas fundamentais para a metabolização de 
xenobióticos e síntese de hormônios esteróides, dentre outras 
funções. 
 
 
 19 
 
 
 20 
FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA 
 
2 INTERAÇÃO ENTRE NUTRIENTES E FÁRMACOS 
 
 
Introdução 
 
A polifarmácia (utilização 
concomitante de 4 fármacos ou 
mais) é muito comum na 
sociedade ocidental atual com 
expectativas de vida crescentes. 
Além da utilização de diversos 
medicamentos indicados por 
profissionais prescritores de 
diferentes especialidades, os 
pacientes muitas vezes utilizam 
outros medicamentos isentos de 
prescrição, suplementos 
alimentares, plantas medicinais e 
nutracêuticos. Com o uso de 
tantos xenobióticos, muitas vezes 
administrados no mesmo horário, 
o risco da ocorrência de interações 
entre eles torna-se elevado. 
Entretanto, nem sempre a 
interação entre dois fármacos é 
prejudicial ou mesmo indesejada. 
Pelo contrário, em alguns casos a 
ação sinérgica de fármacos com 
mesma ação, mas por me 
mecanismos diferentes, é uma 
estratégia para otimização da 
estratégia terapêutica. 
 
As interações são muitas 
vezes didaticamente 
generalizadas em 
farmacocinéticas - quando altera 
os processos de absorção, 
distribuição, metabolização e 
excreção - ou farmacodinâmicas, 
 
 
 21 
FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA 
 
quando alteram a resposta ao 
fármaco. 
 
Um fármaco pode 
apresentar interações 
farmacodinâmicas e 
farmacocinéticas com diversas 
categorias de substâncias e 
resultar em efeitos de gravidade 
variada. A varfarina serve como 
exemplo de um fármaco com 
grande número de possibilidade 
de interações potencialmente 
graves com fatores tanto de 
origem dietética como 
terapêutica. Trata-se de um 
anticoagulante oral com margem 
terapêutica estreita, ou seja, 
apresenta pequena variação entre 
a dose terapêutica (diminui a 
formação de trombos) e a tóxica 
(causa hemorragias). As 
alterações na ingestão dietética de 
vitamina K podem afetar 
significativamente a 
farmacodinâmica da atuação da 
varfarina, sendo necessário o 
ajuste de dose. Além disso, 
alterações na microbiota 
intestinal podem reduzir a síntese 
bacteriana de vitamina K e 
exacerbar a ação da varfarina no 
organismo. E, por fim, a utilização 
concomitante de Ácido 
Acetilsalicílico (AAS), com ação 
antiagregante plaquetária, eleva a 
incidência de sangramento nos 
pacientes anticoagulados com 
varfarina. 
A importância de se 
identificar as interações entre 
fármacos é bastante reconhecida 
na atualidade, havendo bastantes 
estudos a este respeito. 
Entretanto, ainda há escassez de 
informações acerca das interações 
entre fármacos e nutrientes e 
alimentos, apesar da grande 
importância do tema. 
 
Interações fármaco-
nutriente 
 
As interações fármaco-
nutriente são definidas como 
alterações produzidas na 
farmacocinética ou 
farmacodinâmica do fármaco ou o 
comprometimento do status 
nutricional como resultado da 
administração de um ou mais 
fármacos. 
 
Os fármacos podem 
influenciar na biodisponibilidade 
de nutrientes por meio de 
alteração do apetite, alteração do 
paladar, absorção do nutriente, 
motilidade gastrointestinal, 
metabolismo hepático e excreção 
renal. 
 
Além da identificação das 
interações fármaco-nutriente, 
deve-se avaliar a relevância clínica 
 
 
 22 
FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA 
 
deste evento. A mera identificação 
de uma interação não define a 
necessidade de alterações no 
esquema de administração do 
fármaco e/ou do nutriente. 
Muitas interações identificadas, 
apesar de causarem alguma 
alteração na biodisponibilidade 
ou metabolização de um fármaco 
ou nutriente, não resultam em 
alteração de resposta terapêutica. 
Por exemplo, uma interação 
fármaco-nutriente que cause a 
redução da concentração do 
fármaco em seu tecido-alvo pode 
não determinar nenhuma 
alteração do esquema terapêutico 
e dietético se a concentração 
ainda for suficiente para apromoção do efeito farmacológico 
pretendido. 
 
Há maior risco da 
ocorrência de interações fármaco-
nutriente com relevância clínica 
em pacientes idosos e/ou com 
patologias que determinam a 
utilização de diversos 
medicamentos 
concomitantemente. Além disso, 
idosos apresentam alterações 
fisiológicas - tais como alterações 
do pH e fluxo sanguíneo 
estomacal, diminuição do 
percentual de massa magra, 
comprometimento da função 
renal e menores níveis de 
albumina sérica - que os deixam 
mais vulneráveis à ocorrência de 
eventos adversos decorrentes das 
interações fármaco-nutriente. 
 
Os pacientes pediátricos 
são outro público com risco mais 
elevado para apresentar 
interações fármaco-nutriente 
devido às taxas reduzidas de 
metabolização enzimáticas de 
fármacos pelo fígado e função 
renal ainda em desenvolvimento. 
 
As interações fármaco-
nutriente podem ser 
categorizadas didaticamente em 
tipos I, II, III e IV. 
 
As reações do tipo I se 
referem à ocorrência de 
interações físicas e bioquímicas 
entre o fármaco e o nutriente, 
incluindo reações de hidrólise, 
óxido-redução, neutralização, 
precipitação e complexação. São 
mais comuns durante a 
administração concomitante de 
nutrição parenteral e 
medicamentos. Muitas delas são 
evitadas simplesmente por não se 
administrar a nutrição e o 
medicamento pelo mesmo acesso 
ou por infundir pequeno volume 
de água pelo acesso antes e após a 
administração do medicamento. 
 
As reações do tipo II 
afetam a absorção e, portanto, 
 
 
 23 
FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA 
 
geram elevação ou diminuição da 
biodisponibilidade do fármaco 
por meio de interações entre o 
nutriente alimentar e o fármaco 
ou alteração fisiológicas 
promovidas pela ingestão 
alimentar. Por exemplo, a 
ingestão de alimentos com alto 
conteúdo de gordura estimula 
maior liberação de ácidos biliares 
que, por sua vez, facilitam a 
absorção de fármacos mais 
fortemente lipofílicos. Ademais, a 
alimentação com alto conteúdo de 
gordura estimula a liberação de 
colecistoquinina, que reduz a 
motilidade gastrointestinal e, 
portanto, aumenta o tempo de 
contato entre o fármaco e o 
intestino, repercutindo em maior 
possibilidade de absorção. 
 
Os efeitos da ingestão 
simultânea de medicamentos e 
alimentos deve ser estudada caso 
a caso, pois pode elevar a absorção 
em alguns casos e comprometer 
em outros. Por exemplo, a 
administração dos seguintes 
medicamentos é recomendada 
conjuntamente com a refeição 
para maximizar a absorção: 
cefuroxima, eritromicina, 
lovastatina e lítio. Em contraste, 
os seguintes fármacos têm sua 
absorção atrapalhada pela 
presença de alimentos: 
ampicilina, ciprofloxacino, 
doxiciclina e captopril. 
 
As reações do tipo III 
ocorrem após o fármaco ou 
nutriente alcançarem a circulação 
sistêmica e envolvem alterações 
sistêmicas. Há fármacos que 
podem resultar em alterações 
metabólicas ou do status 
nutricional. Por exemplo, alguns 
antipsicóticos atípicos (clozapina, 
olanzapina e risperidona) têm 
sido associados com intolerância 
à glicose, devendo ser 
acompanhada de monitoramento 
da glicemia e possíveis ajustes 
dietéticos. 
 
O suco de toranja 
(grapefruit) é um conhecido 
inibidor da CYP3A4, um dos 
principais grupos de enzimas 
metabolizadoras de xenobióticos, 
que pode comprometer a 
metabolização de numerosos 
fármacos e, portanto, promover 
prolongamento de sua atividade 
e/ou toxicidade. Pode ocorrer, por 
exemplo, sedação prolongada 
com a utilização de fármacos 
hipnótico-sedativos, tais como 
diazepam e midazolam. Além 
disso, pode ocorrer hipotensão ao 
associar o consumo de grapefruit 
e a utilização de bloqueadores de 
canais de cálcio (nifedipino, 
felodipino e verapamil). 
 
 
 24 
FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA 
 
As reações do tipo IV 
envolvem a eliminação dos 
fármacos ou nutrientes, 
envolvendo antagonismo, 
modulação da função renal e 
eliminação entero-hepática. 
 
A utilização de um fármaco 
pode ainda afetar o status 
nutricional do paciente por alterar 
o seu paladar e/ou o olfato ou por 
causar náuseas e vômitos, tal 
como é comum durante a 
utilização de quimioterápicos 
para o tratamento de cânceres. 
 
Influências dos alimentos na 
farmacocinética de fármacos 
 
Os alimentos, 
componentes de alimentos e 
suplementos podem interagir com 
os fármacos ainda durante o 
processo de absorção, no caso de 
o fármaco ter sido administrado 
oralmente. Ressalta-se que 
determinados nutrientes podem 
acelerar ou retardar o 
esvaziamento gástrico, 
influenciando a velocidade em 
que um determinado fármaco será 
absorvido (proteínas, lipídios e 
fibras retardam o esvaziamento 
gástrico). Apesar do retardo na 
absorção de fármacos não ter 
significância clínica em algumas 
situações, em se tratando de 
antibióticos e analgésicos, por 
exemplo, pode-se ter um impacto 
relevante. 
 
Além disso, as interações 
entre fármacos e nutrientes que 
ocorrem no trato gastrointestinal 
podem favorecer ou prejudicar a 
absorção dos primeiros. 
Exemplos de medicamentos cuja 
absorção é significativamente 
alterada pela presença de 
alimentos no trato 
gastrointestinal são os seguintes 
bisfosfonatos (inibidores do 
processo de reabsorção óssea): 
alendronato, risendronato e 
ibandronato. As instruções do 
fabricante são de ingerir o 
alendronato e o risendronato com 
o estômago vazio, com água, 30 
minutos antes da ingestão de 
qualquer outro alimento, bebida 
ou medicamento. O ibandronato 
deve ser ingerido 60 minutos 
antes da ingestão de qualquer 
outro alimento, bebida ou 
medicamento. 
 
Similarmente, a absorção 
de ferro proveniente de 
suplementos é reduzida em cerca 
de 50% quando ingerido com 
alimentos, sendo melhor 
absorvido quando ingerido com 
água e em jejum. No entanto, se 
for necessário ingerir o 
suplemento junto com alimentos 
para evitar as alterações gástricas, 
 
 
 25 
FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA 
 
sugere-se que ele não seja 
ingerido juntamente com grãos, 
ovos, alimentos ricos em fitatos, 
suplementos de fibras, chá, café, 
laticínios ou suplementos de 
cálcio. 
 
De forma contrária aos 
exemplos supracitados, a 
presença de alimentos no 
estômago aumenta a absorção de 
alguns outros medicamentos, 
como o antibiótico cefuroxima e o 
antirretroviral saquinavir. A 
recomendação é de ingerir estes 
fármacos após a refeição, de modo 
a diminuir a dose necessária para 
atingir a concentração desejável. 
 
O pH do trato 
gastrointestinal também 
apresenta importante influência 
na absorção de fármacos. Um 
exemplo desta situação é a 
possível incapacidade do 
Cetoconazol em combater a 
infecção por Candida em 
pacientes que utilizam potentes 
agentes redutores da acidez 
estomacal para tratamento de 
refluxo gastroesofagiano. O 
Cetoconazol é absorvido em meio 
ácido, por isso nos pacientes que 
utilizam antiácidos, bem como em 
pacientes com HIV (os quais 
normalmente apresentam 
acloridria), a dissolução do 
comprimido é reduzida, 
prejudicando a sua absorção. 
 
Quanto ao processo de 
distribuição, este é influenciado 
pelo fluxo sanguíneo e pela 
ligação do fármaco com proteínas 
plasmáticas, como a albumina 
(vide aula 01). Pacientes com 
concentrações de albumina 
inferiores a 3 g/dL apresentam 
maior risco de efeitos adversos de 
fármacos com alta ligação a 
proteínas (por exemplo: varfarina 
e fenitoína). A alimentação 
influencia na concentração de 
proteínas plasmáticas – inclusive 
da albumina -, sendo que a 
concentração destas tende a 
diminuir durante a deficiência 
energético-proteica. De um modo 
geral, mesmo que indiretamente, 
os alimentos, componentes dos 
alimentos e suplementos podem 
influenciar na distribuiçãode 
fármacos. 
 
Os alimentos, 
componentes de alimentos e 
suplementos podem aumentar ou 
inibir a atividade do sistema 
enzimático do citocromo P450, 
influenciando a velocidade e a 
extensão do metabolismo de 
fármacos. 
 
A excreção dos fármacos 
ocorre principalmente por meio 
 
 
 26 
FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA 
 
de filtração glomerular e secreção 
tubular realizadas nos néfrons, de 
forma que os metabólitos do 
fármaco (ou sua forma inalterada) 
se acumule na urina em formação 
nos túbulos renais para 
eliminação pela micção. 
Alterações no pH urinário podem 
resultar em reabsorção tubular de 
determinados fármacos e seus 
metabólitos, comprometendo sua 
excreção. O consumo de 
alimentos considerados como 
alcalinizadores da urina eleva a 
taxa de reabsorção tubular de 
fármacos que são bases fracas por 
deslocar o equilíbrio para a sua 
forma não-ionizada capaz de 
atravessar as membranas dos 
capilares. Exemplos destes 
alimentos são: leite e a maioria 
dos vegetais (frutas, legumes e 
verduras). 
 
Fatores de risco para 
interações entre fármacos e 
nutrientes 
 
Os principais fatores de 
risco que contribuem para o 
aparecimento de efeitos adversos 
pela ocorrência de interações 
entre fármacos e nutrientes 
podem ser resumidas em 
polifarmácia, estado nutricional 
alterado, fatores genéticos, 
doença subjacente, dietas 
especiais, suplementos 
nutricionais, nutrição enteral ou 
parenteral, fitoterápicos, etilismo 
e tabagismo, alergias ou 
intolerâncias alimentares, entre 
outros. 
 
A má nutrição induzida por 
fármacos é mais frequente em 
portadores de doenças crônicas e 
idosos. Isto se relaciona ao fato 
destes utilizarem maior númer 
ode medicamentos de forma 
contínua. Ademais, os idosos 
também apresentam alterações 
orgânicas em virtude do processo 
de envelhecimento, tais como a 
diminuição das funções hepática e 
renal. Estas alterações fazem com 
que as interações entre fármacos e 
nutrientes sejam ainda mais 
graves neste público. 
 
Um exemplo de como os 
fármacos podem afetar o estado 
nutricional é o de agentes 
citotóxicos, como o antineoplásico 
Cisplatina, que podem causar 
aftas, náuseas, vômitos, diarreia, 
anorexia e, consequentemente, 
comprometimento da ingestão 
alimentar e do estado nutricional 
do paciente. 
 
A absorção dos fármacos 
também pode ser afetada por 
alterações no trato 
gastrointestinal, incluindo 
vômitos, diarreia, hipocloridria, 
 
 
 27 
FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA 
 
atrofia da mucosa e alterações na 
motilidade. 
 
A composição corporal 
também parece ter influência na 
probabilidade de interações 
fármacos nutrientes. Isso porque 
o tecido adiposo aumentado, 
como no caso de obesidade ou 
durante o envelhecimento (em 
razão da diminuição da massa 
muscular), favorece o acúmulo de 
fármacos lipossolúveis como os 
benzodiazepínicos (ex. Diazepam 
e Clonazepam) neste tecido. Como 
resultado do acúmulo do fármaco 
e dos seus metabólitos no tecido 
adiposo, pode ocorrer 
prolongamento de ação e 
toxicidade. Em pacientes idosos 
esta situação pode ser agravada 
pela diminuição da remoção 
hepática do fármaco. 
 
A ausência de quantidade 
sólida de informações 
provenientes de estudos 
científicos, aliada ao maior risco 
de efeitos catastróficos nestes 
casos, torna essencial que se tenha 
especial cuidado na avaliação da 
possibilidade de interações em 
algumas populações mais 
vulneráveis, tais como fetos, 
lactentes, gestantes, portadores 
de doenças graves e idosos 
extremos. 
 
Exemplos de Interações 
entre fármacos e nutrientes 
bem documentadas 
 
Algumas interações entre 
fármacos e nutrientes com 
respaldo científico e de elevada 
relevância na prática clínica são 
brevemente discutidas a seguir. 
 
 Vitamina K e 
medicamentos 
anticoagulantes 
orais cumarínicos: 
Os anticoagulantes orais 
cumarínicos (ex. 
Varfarina) inibem a 
conversão da vitamina K 
em uma forma utilizável 
(redução de sua forma 
epóxido inativa para a 
forma hidroquinona 
ativa) para a síntese de 
fatores de coagulação, 
cuja biossíntese é 
dependente desta 
vitamina. Reduzem, 
portanto, a coagulação 
sanguínea e apresentam 
o sangramento como 
principal risco de reação 
adversa. Desta forma, 
alterações do consumo 
de fontes de vitamina K 
durante o tratamento 
com anticoagulantes 
com este mecanismo de 
ação apresentam risco 
 
 
 28 
FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA 
 
de descontrole do efeito 
terapêutico e 
aparecimento de efeitos 
adversos. Isto porque as 
doses de varfarina são 
ajustadas no início do 
tratamento de acordo 
com a resposta do 
organismo do paciente 
(medida principalmente 
pelos valores de INR e 
tempo de protrombina) 
à administração deste 
medicamento, o que é 
afetado pela dieta. 
Assim, o consumo de 
fontes de vitamina K 
deve ser mantido 
inalterado durante o 
tratamento com 
anticoagulantes 
cumarínicos, pois a dose 
destes medicamentos é 
estabelecida atrelada a 
este fator. Este nutriente 
está presente em 
vegetais verde-escuros, 
como a couve, bem como 
é sintetizado 
naturalmente no 
organismo pela 
microbiota intestinal. 
Ressalta-se que a 
coenzima Q10 também 
se opõe ao efeito da 
Varfarina. A ingestão de 
determinados alimentos 
e nutrientes potencializa 
o efeito da Varfarina, 
podendo resultar em 
sangramentos. São eles: 
alho, cebola, mamão 
papaia, manga, ginseng 
ou suplementos de 
vitamina E em doses 
superiores a 400 IU. 
 
 Proteínas e 
Levodopa: A Levodopa 
é um fármaco que atua 
como precursor da 
dopamina – é convertida 
no SNC em dopamina – 
utilizado principalmente 
no tratamento dos 
sintomas da doença de 
Parkinson. Ocorre 
interação fármaco-
nutriente entre a 
Levodopa e proteínas no 
TGI, pois determinados 
aminoácidos competem 
com a fármaco pela 
absorção intestinal e 
também pelo transporte 
do sangue para o SNC - 
de forma que o 
medicamento deve ser 
administrado em 
horário distante de 
refeições ricas em 
proteínas. 
 
 Cátions 
divalentes/trivalente
 
 
 29 
FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA 
 
s e 
Fluoroquinolonas: 
Fluoroquinolonas 
(Ciprofloxacino, 
Norfloxacino, 
Levofloxacino etc.) são 
fármacos 
antibacterianos de 
amplo espectro bastante 
comuns na terapêutica 
de infecções bacterianas. 
Apresentam excelente 
absorção após 
administração oral, 
exceto quando são 
administradas 
concomitantemente com 
alimentos ou 
suplementos contendo 
cátions divalentes ou 
trivalentes como Ca2+, 
Mg2+, Zn2+, Fe2+ ou Fe3+. 
Caso ocorra a 
administração dos 
medicamentos e cátions 
em horários próximos, 
ocorre a formação de 
complexos insolúveis e, 
portanto, restrição da 
absorção de ambos. Os 
medicamentos devem 
ser administrados 2 
horas antes ou 4 horas 
após a administração de 
alimentos ou 
suplementos contendo 
estes cátions a fim de se 
evitar esta interação. 
 Cátions divalentes e 
Tetraciclinas: a 
mesma interação item 
anterior ocorre também 
com os antibacterianos 
do grupo das 
tetraciclinas 
(tetraciclina, doxiciclina, 
minociclina e etc.) 
 
 Ferro e Entacapona: 
A Entacapona é uma 
inibidora da enzima 
COMT (responsável pela 
degradação de 
dopamina) utilizada em 
associação com 
Levodopa no tratamento 
dos sintomas de 
Parkinson. A 
Entacapona é uma 
agente quelante de ferro 
e, por isso, deve ser 
ingerida com intervalo 
de 3 horas da 
administração de 
suplementos de ferro. 
 
 Fitatos e Digoxina: A 
Digoxina é fármaco 
cardiotônico utilizado 
em pacientes com 
insuficiência cardíaca. 
Interações com este 
medicamento devem ser 
tratadas com atenção 
porque sua faixa 
 
 
 30 
FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTESPARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA 
 
terapêutica é estreita, 
com pequena variação 
entre a dose efetiva, 
subdose e a dose tóxica. 
Recomenda-se que não 
se administre a digoxina 
conjuntamente com 
alimentos ricos em fitato 
(quelantes que podem 
adsorver a digoxina) 
como o farelo de trigo e a 
farinha de aveia. 
 
 Toranja e fármacos 
metabolizados pela 
CYP3A4: Uma 
substância encontrada 
na toranja é inibidora de 
CYP3A e, portanto, 
prejudica a eliminação 
de grande número de 
fármacos que são 
metabolizados por este 
sistema. Como 
consequência, há 
maiores concentrações 
dos fármacos não 
metabolizados no 
sangue, elevando o risco 
de toxicidade. Ressalta-
se que os efeitos da 
toranja persistem por 
até 72 horas e que frutas 
semelhantes, como a 
laranja-de-sevilha e 
laranja-de-umbigo, 
apresentam efeitos 
similares, devendo ser 
totalmente evitadas com 
alguns fármacos, como o 
imunossupressor 
Tacrolimus e com a 
estatinas hipolipemiante 
Sinvastatina. 
 
 Vitaminas 
lipossolúveis e 
Colestiramina: A 
Colestiramina é um 
sequestrador de ácidos 
biliares utilizado como 
hipolipemiante. Reduz a 
biodisponibilidade de 
vitaminas lipossolúveis 
como as A, D, E e K por 
adsorvê-las, evitando 
sua absorção. 
 
 Vitamina B12 e Anti-
secretores: 
Antagonistas de 
receptores H2 de 
histamina, tais como 
Cimetidina, Famotidina, 
Ranitidina e os 
inibidores da bomba de 
prótons tais como 
Omeprazol, Lansoprazol 
e Esomeprazol são 
fármacos anti-secretores 
usados para tratar 
distúrbios 
gastrointestinais, como 
gastrite e úlcera pela 
inibição da secreção de 
ácido clorídrico no 
 
 
 31 
FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA 
 
estômago, resultando 
em elevação do pH. 
Como consequência, 
pode ocorrer redução da 
absorção de vitamina 
B12. A Cimetidina ainda 
reduz a secreção do fator 
intrínseco, dificultando 
ainda mais a absorção de 
vitamina B12. 
 
 Vitaminas D, K e B9 e 
anticonvulsivantes: 
Os anticonvulsionantes 
Fenobarbital e Fenitoína 
induzem as enzimas 
hepáticas responsáveis 
pela metabolização das 
vitaminas D, K e B9. 
Recomenda-se o 
acompanhamento 
destes nutrientes por 
exames bioquímicos e 
suplementação, se 
necessária. 
 
 Piridoxina e 
fármacos 
antagonistas: O 
fármaco antituberculose 
INH bloqueia a 
conversão de piridoxina 
(vitamina B6) à sua 
forma ativa, podendo 
levar a sua deficiência. 
Sugere-se a 
suplementação de 
piridoxina (de 25 a 50 
mg/dia). Outros 
fármacos que atuam 
como antagonistas de 
piridoxina são 
Hidralazina, Levodopa e 
Cicloserina. 
 
 Coenzima Q10 e 
Estatinas: Estatinas 
são antilipemiantes que 
atuam inibindo a síntese 
de colesterol endógeno 
por meio da inibição da 
enzima HMG-CoA 
redutase. Estes fármacos 
afetam a formação de 
coenzima Q10. Neste 
sentido, é válido 
suplementar estes 
pacientes com pelo 
menos 100 mg de 
coenzima Q10 para o 
efeito preventivo. 
 
 Eletrólitos e 
Diuréticos de alça: Os 
diuréticos de alça, como 
Furosemida ou 
Bumetanida, aumentam 
a excreção de potássio, 
magnésio, sódio, cloreto 
e cálcio, sendo que estes 
nutrientes devem ser 
monitorados por exames 
bioquímicos durante o 
tratamento com estes 
diuréticos e, quando 
 
 
 32 
FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA 
 
necessário, 
suplementados. 
 
 Cálcio e Diuréticos 
tiazídicos: Os 
diuréticos tiazídicos, 
como a 
Hidroclorotiazida 
aumentam a excreção de 
potássio e magnésio, 
mas reduzem a excreção 
de cálcio. Deve-se ter 
cuidado quando a 
utilização destes 
medicamentos estiver 
associada à 
suplementação com 
cálcio pelo risco de 
hipercalcemia. 
 
 Potássio e Diuréticos 
poupadores de 
potássio: Os diuréticos 
poupadores de potássio, 
como Espironolactona 
ou Triantereno, 
aumentam a excreção de 
sódio, cloretos e cálcio, 
mas podem elevar as 
concentrações 
sanguíneas de potássio. 
Desta forma, deve-se 
monitorar com cuidado 
as concentrações 
sanguíneas de potássio 
por meio de exames 
bioquímicos durante o 
tratamento com estes 
medicamentos. 
 
 Potássio e IECA: Anti-
hipertensivos inibidores 
da enzima de conversão 
de angiotensina 
(IECAs), tais como 
Captopril, Enalapril e 
Fosinopril, diminuem a 
excreção de potássio. 
Recomenda-se 
monitoramento para 
evitar hipercalemia. 
 
 Sódio, Cálcio, 
Potássio e os 
Corticosteróides: 
Corticosteroides, como 
Prednisona e 
Dexametasona, 
diminuem a excreção de 
sódio, resultando em 
retenção de água e sódio. 
Em contrapartida, estes 
fármacos aumentam a 
excreção de cálcio e 
potássio. Neste cenário, 
sugere-se o consumo de 
uma dieta pobre em 
sódio e rica em potássio, 
sendo que a 
suplementação com 
cálcio e vitamina D é 
recomendada após o uso 
prolongado de 
corticosteroides para 
prevenir a osteoporose. 
 
 
 33 
FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA 
 
 Riboflavina e 
Fenotiazinas: Os 
fármacos antipsicóticos 
da classe das 
fenotiazinas, como a 
Clopromazina, 
aumentam a excreção de 
riboflavina, podendo 
levar à deficiência deste 
nutriente, caso ele não 
esteja presente em 
quantidades adequadas 
na dieta. 
 
 Alimentos ricos em 
tiramina e IMAO: Os 
inibidores de 
monoaminoxidase 
(IMAO) evitam a quebra 
de agentes pressóricos, 
como a tiramina 
(monoamina derivada 
da tirosina). A ingestão 
de alimentos ricos em 
tiramina, como queijos 
envelhecidos e carnes 
curadas, durante o 
tratamento com este 
fármaco pode causar 
crise hipertensiva, com 
aumento da frequência 
cardíaca, rubores, 
cefaleia, acidente 
vascular encefálico e, até 
mesmo, morte. 
 
 Cafeína e 
estimulantes: A 
cafeína nos alimentos e 
bebidas aumenta os 
efeitos adversos de 
fármacos estimulantes, 
como as anfetaminas 
(ex. metilfenidato) 
causando nervosismo, 
tremor e insônia. 
 
 Vitaminas 
lipossolúveis e 
Orlistat: O Orlistat, por 
reduzir a absorção de 
lipídios, reduz também a 
absorção de vitaminas 
lipossolúveis, como 
vitaminas A, D, E e K. 
 
Todas as interações 
apresentadas acima estão 
descritas na Tabela 01. 
 
 
 
 34 
FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA 
 
FÁRMACO REDUÇÃO DE EFEITO POTENCIAÇÃO DE EFEITO 
Varfarina Vitamina K e Coenzima Q10 
Alho, cebola, mamão papaia, 
manga, ginseng ou 
suplementos de vitamina E 
em doses superiores a 400 
IU 
Levodopa Proteínas 
Este fármaco reduz vitamina B6 
- 
Furosemida Reduz potássio, sódio, magnésio, 
cloreto e cálcio 
- 
Bumetanida Reduz potássio, sódio, magnésio, 
cloreto e cálcio 
 
Hidroclorotiazida Reduz potássio e magnésio 
Aumenta cálcio, portanto, 
não associar com 
suplemento de cálcio 
Tetraciclina Cálcio, magnésio, zinco, ferro e 
alumínio 
- 
Ciprofloxacina Cálcio, magnésio, zinco, ferro e 
alumínio 
- 
Entacapone Ferro - 
Amitriptilina Excesso de fibras alimentares - 
Digoxina Fitatos - 
Teofilina Dieta rica em proteínas e pobre 
em carboidratos 
- 
Bloqueadores dos 
canais de cálcio 
- Toranja, laranja-de-sevilha e 
laranja-de-umbigo 
Estatinas Reduz Coenzima Q10 Toranja, laranja-de-sevilha e 
laranja-de-umbigo 
Tacrolimus - Toranja, laranja-de-sevilha e 
laranja-de-umbigo 
Lítio Consumo excessivo de sódio Baixo consumo de sódio e 
desidratação 
Colestiramina 
Reduz absorção de vitaminas 
lipossolúveis (A, D, E e K), 
requerendo suplementação 
destas 
- 
 
 
 35 
FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA 
 
Famotidina Reduz absorção de B12 - 
Ranitidina Reduz absorção de B12 - 
Omeprazol Reduz absorção de B12 - 
Esomeprazol Reduz absorção de B12 - 
Cimetidina Reduz absorção de B12 - 
Fenobarbital e 
Fenitoína 
Reduzem vitamina D, K e B9 - 
Hidralazina Reduz vitamina B6 - 
Penicilamina Reduz vitamina B6 - 
Cicloserina Reduz vitamina B6 - 
INH Reduzvitamina B6 - 
Espironolactona 
ou Triantereno Reduz sódio, cloreto e cálcio 
Aumenta potássio, portanto, 
não associar com a 
suplementação de potássio 
Enalapril ou 
Fosinopril - 
Aumenta potássio, portanto, 
não associar com a 
suplementação de potássio 
Prednisona 
Reduz cálcio e potássio 
Considerar a suplementação com 
cálcio e vitamina D 
Aumenta sódio, portanto, 
ofertar dieta pobre em sódio 
e rica em potássio 
Clopromazina Reduz vitamina B2 - 
Cisplatina 
Reduz magnésio, necessitando, 
em alguns casos, de 
suplementação endovenosa. 
Sugere-se suplementação 
preventiva. 
- 
Inibidores de 
monoaminoxidase 
Tiramina (queijos envelhecidos e 
carnes curadas) 
Lorazepam Cafeína - 
Anfetaminas, 
Metilfenidato ou 
Teofilina 
- Cafeína 
Orlistat Reduz vitaminas lipossolúveis (A, 
D, E e K) 
- 
 
 
 36 
FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA 
 
 
Tabela 1. Interações entre fármacos e nutrientes. 
 
Interações entre 
medicamentos e nutrição 
enteral 
 
A utilização do método de 
nutrição enteral é bastante 
comum em pacientes que 
apresentam comprometimento da 
ingestão oral de alimentos, mas o 
trato gastrointestinal ainda 
funcionante. É prática comum 
administrar também os 
medicamentos por meio da sonda 
em que é administrada a nutrição 
enteral, pois é uma via de 
administração em geral segura 
para administração de 
medicamentos em forma de 
soluções e suspensões orais, além 
de eventualmente comprimidos 
triturados e dissolvidos (quando 
não há apresentações líquidas 
orais disponíveis). 
 
Embora os medicamentos 
possam ser administrados por 
meio da sonda, não devem ser 
misturados à nutrição enteral por 
causa do risco de ocorrerem 
reações físico-químicas entre eles, 
mas sim individualmente 
(líquidos) ou com água. Além 
disso, deve ser feito um “flush” de 
água na sonda antes e após a 
administração do medicamento. 
 
A administração de 
medicamentos de forma 
inadequada pela sonda enteral 
pode levar a problemas tais como 
o entupimento da sonda, 
ineficácia do fármaco e 
comprometimento da oferta de 
nutrientes. 
 
Além do risco de 
ocorrência de interações e 
incompatibilidade físico-química 
entre os medicamentos e os 
nutrientes, o conhecimento do 
tipo de sonda (nasogástrica, 
nasoenteral, orogastrica e etc.) é 
essencial também para que se 
avalie a absorção do fármaco e/ou 
nutriente no local de entrega pela 
sonda. Isto se justifica pois, por 
Alendronato, 
Risendronato e 
Ibandronato 
Refeições afetam sua absorção, 
portanto, devem ser ingeridos de 
30 – 60 minutos distantes de uma 
refeição 
- 
Cefuroxima e 
Saquinavir 
A ausência de alimentos no 
estômago compromete a 
absorção, por isso devem ser 
administrados após o consumo 
de alimentos 
- 
 
 
 37 
FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA 
 
exemplo, há fármacos que têm a 
sua absorção realizada 
principalmente no estômago e 
teriam problema ao serem 
administrado por uma sonda que 
passa direto pelo estômago, tal 
como uma sonda nasoenteral. 
 
Fontes de informação sobre 
interações entre fármacos e 
nutrientes 
 
Embora seja útil e 
necessário decorar as principais 
interações entre fármacos e 
nutrientes para facilitar a 
avaliação da adequação dos 
esquemas terapêuticos e 
dietéticos dos pacientes de forma 
ágil, é impraticável depender 
apenas da memória para realizar 
uma avaliação confiável. Desta 
forma, estar atento às 
possibilidades de interações nas 
prescrições dietéticas e 
terapêuticas e ser proativo na 
realização de pesquisas na 
literatura científica para 
verificação destas possibilidades, 
além da avaliação dos exames 
laboratoriais recentes do 
paciente, pode ser mais 
importante que decorar grande 
número de interações. 
 
A pesquisa de informações 
sobre interações não pode 
prescindir da consulta aos livros 
de referência, mas também não 
deve estar restrita a estes. Ao 
realizar a análise de interações 
deve-se lançar mão de pesquisas 
nas principais bases de dados 
(exemplos: PubMed e Scielo) 
contendo artigos científicos como 
fonte das informações mais 
atualizadas. 
 
Existe ainda outra fonte 
valiosa que surge como 
possibilidade de consulta de 
interações que consiste em alguns 
sites – são pagos, mas muitos 
hospitais assinam para seu corpo 
clínico utilizar - que publicam 
informações atualizadas e 
baseadas nas melhores evidências 
revisadas por cientistas. As 
principais destas plataformas são 
o Uptodate ® e o Micromedex ®, 
mas existem várias outras 
possibilidades. Há inclusive 
opções gratuitas, mas com acesso 
mais restrito. É possível consultar 
também as informações 
fornecidas pelos fabricantes por 
meio de bulas, informativos ou 
por contato com o SAC 
especializado das empresas. 
 
É essencial que todos os 
profissionais envolvidos na 
definição e acompanhamento dos 
esquemas terapêutico e dietético 
saibam encontrar informações 
sobre interações entre 
 
 
 38 
FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA 
 
medicamentos e nutrientes. Além 
disso, é essencial saber avaliar se 
as interações identificadas geram 
repercussão clínica e requerem 
ajustes imediatos, se devem ser 
acompanhadas com ou sem 
exames laboratoriais ou se não 
requerem ajustes. Para tanto, os 
profissionais devem saber avaliar 
os níveis de evidência das 
interações e também reconhecer 
as medidas mais acertadas para a 
contornar os problemas 
identificados com o menor 
impacto possível. Por exemplo, a 
administração de um 
medicamento ou a ingestão de 
determinado nutriente não deve 
ser suspensa pela identificação de 
uma interação que poderia ser 
resolvida simplesmente por 
separar a administração do 
medicamento e nutriente 
envolvidos. Da mesma maneira, 
pode não ser necessário 
interromper a ingestão de um 
medicamento, nutriente ou 
suplemento por causa de uma 
interação que não resulta em 
nenhuma alteração clínica 
significativa. 
 
Em suma, as interações 
entre fármacos e nutrientes são 
tema relevante para 
conhecimento da equipe 
multiprofissional a fim de que se 
preste o melhor 
acompanhamento dos pacientes e 
requer que os profissionais se 
mantenham informados sobre as 
principais interações 
reconhecidas e também sobre as 
ferramentas lançadas para estas 
análises. 
 
 39 
 
 
 40 
FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA 
 
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA 
 
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Terapêutica. 12ª ed. Rio de Janeiro: McGraw-Hill, 2012. 
 
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