Prévia do material em texto
FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA 2 APRESENTAÇÃO DA DISCIPLINA 3 Objetivo da disciplina 3 Objetivos específicos 3 Habilidades e competências a serem alcançadas 3 Ementa da disciplina 3 Bibliografia básica da disciplina 4 1 PRINCÍPIOS INTRODUTÓRIOS DA FARMACOLOGIA 6 2 INTERAÇÃO ENTRE NUTRIENTES E FÁRMACOS 20 REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA 40 FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA 3 APRESENTAÇÃO DA DISCIPLINA Objetivo da disciplina Discutir sobre aspectos associados à farmacologia e à interação entre fármacos e nutrientes. Objetivos específicos Abordar aspectos associados à farmacologia, incluindo farmacodinâmica e farmacocinética. Abordar aspectos associados à interação entre fármacos e nutrientes. Habilidades e competências a serem alcançadas Compreender aspectos gerais associados à farmacologia e às interações entre fármacos e nutrientes. Detectar determinadas interações entre fármacos e nutrientes de modo a otimizar o tratamento do paciente. Ementa da disciplina Discutir sobre princípios gerais vinculados à farmacologia (incluindo farmacodinâmica e farmacocinética) e às interações entre FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA 4 fármacos e nutrientes. As informações incluídas são fundamentadas em evidências científicas bem consolidadas. Bibliografia básica da disciplina Mahan, L.K.; Escott-Stump, S.; Raymond, J.L. Krause – Alimentos, Nutrição e Dietoterapia. 13ª Edição. Elsevier. 2013. Brunton, L.L. Goodman & Gilman: As Bases Farmacológicas da Terapêutica. 12ª ed. Rio de Janeiro: McGraw-Hill, 2012. KATZUNG, Bertram G.; TREVOR, Anthony J. (Orgs.). Farmacologia básica e clínica. 12aedição. Mc Graw Hill, 2013. Rang, H. P.; Dale, M. M.; Ritter, J. M.; Flower, R. J.; Henderson G. Rang & Dale. Farmacologia. 7ª edição. Rio de Janeiro, Elsevier, 2012.808 p. 5 6 FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA 1 PRINCÍPIOS INTRODUTÓRIOS DA FARMACOLOGIA Introdução A Farmacologia se ocupa do estudo das substâncias que interagem com os sistemas vivos e geram efeitos biologicamente importantes para prevenção, diagnóstico ou cura de patologias. Essas substâncias que apresentam algum efeito desejável sobre o organismo humano são denominadas fármacos. Em geral, a maioria dos fármacos atua como agonistas (ativadores), antagonistas (inibidores) ou agonistas inversos (inibem atividade constitutiva de receptores) que interagem com estruturas-alvo no organismo (receptores). Os fármacos podem ser administrados já em sua forma ativa, prontos para interagir com as estruturas-alvo, ou em sua forma inativa que necessita passar por um processo de ativação, que geralmente consiste na hidrólise de uma ligação éster ou amida, dentro do organismo para assumir sua forma ativa. A forma inativa é denominada pró- fármaco, sendo produzida – por meio de um processo denominado latenciação - com a finalidade de alterar características (por exemplo, lipossolubilidade) que permitam que o fármaco chegue adequadamente ao seu local de ação. O estudo da Farmacologia é usualmente dividido artificialmente para fins didáticos em Farmacocinética e Farmacodinâmica. Grosso 7 FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA modo, a farmacocinética descreve o caminho do fármaco no organismo, analisando desde a sua absorção a partir de uma via de administração até os mecanismos de sua eliminação do organismo por meio de metabolização e excreção. A outra subárea da Farmacologia, a Farmacodinâmica, descreve o mecanismo de ação dos fármacos a partir de sua interação com estruturas alvo no organismo. Embora por muito tempo no passado a utilização de medicamentos tenha se baseado em justificativas longe do rigor do método científico, produzindo aberrações tal como a utilização compostos tóxicos na terapêutica de doenças comuns, atualmente o processo de descoberta de um novo fármaco é extremamente rigoroso e assegura, dentre outros fatores, que apresente o candidato a novo medicamento apresente um efeito farmacológico que contribua para a prevenção, diagnóstico, tratamento ou cura de alguma patologia em doses bem definidas. Entretanto, doses mais elevadas de virtualmente qualquer fármaco disponível apresentam efeitos tóxicos nos tecidos humanos. O médico suíço Paracelso (1493-1541) resumiu esta característica na célebre frase “A diferença entre o remédio e o veneno é apenas a dose”. A Toxicologia médica é um ramo específico da farmacologia que lida com os possíveis efeitos indesejáveis gerados nos humanos diretamente pelos fármacos ou por sua interação com outras substâncias, tal como outros fármacos ou mesmo nutrientes. Existem numerosos fatores com potencial para alterar aspectos da ação dos fármacos e que podem resultar em toxicidade para o ser humano. Por exemplo, alterações da microbiota intestinal podem resultar em diminuição da metabolização de digoxina - um medicamento de faixa terapêutica estreita que produz toxicidade com doses ligeiramente mais elevadas que a habitual – e, consequentemente, cardiotoxicidade. Além disso, diversos fatores dietéticos alteram o metabolismo de fármacos, tal como o suco de grapefruit (toranja) que inibe o metabolismo de fármacos por CYP3A ou hortaliças crucíferas que induzem as enzimas CYP1A e elevam, portanto, o metabolismo de alguns fármacos. Os avanços das ciências ômicas, a partir do avanço dos 8 FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA processos de sequenciamento, permitiram a identificação de numerosos fatores genéticos que alteram os processos farmacocinéticos e/ou farmacodinâmicos relacionados a inúmeros fármacos. O avanço da análise de como os fatores genéticos influenciam a terapêutica medicamentosa deu origem à ciência denominada Farmacogenômica, um grande avanço rumo à medicina personalizada. Nas próximas seções serão apresentados os aspectos básicos da farmacologia, da toxicologia e da farmacogenômica, necessários para que se compreendam os mecanismos básicos de interação entre fármacos e nutrientes, e as principais interações entre fármacos, nutrientes e fatores associados. Farmacocinética Os fármacos podem ser incorporados em diferentes formas farmacêuticas (comprimidos, cápsulas, suspensão, solução injetável, pomadas etc.) para produzir os medicamentos a serem administrados por meio das várias vias de administração disponíveis. Nas vias de administração enterais (principalmente via oral, sublingual e retal) a administração ocorre em algum ponto do TGI e, por outro lado, nas parenterais (intravenosa, intramuscular, inalatória, transdérmica etc.) a administração ocorre sem passar pelo TGI. As diversas vias apresentam vantagens e desvantagens específicas a serem analisadas para cada medicamento a ser administrado. O Quadro 1 apresenta as principais vias de administração e suas características gerais. VIA DE ADMINISTRAÇÃO ABSORÇÃO VANTAGENS LIMITAÇÕES Oral (VO) É afetada por numerosos fatores. Mais conveniente, econômica e segura. Depende de adesão do paciente. Biodisponibilidade variável com diversos fatores. 9 FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA Intravenosa (IV) Administração diretamente na circulação sistêmica, a absorção a partir de outro tecido não é necessária. Uso mesmo em pacientes inconscientes, permite titulação de dose. Maior risco de efeitosadversos relacionados à administração. Inadequada para soluções oleosas ou substâncias pouco solúveis. Intramuscular (IM) Pode ser imediata para soluções aquosas ou lenta e prolongada para preparações de depósito. Adequada para veículos oleosos e algumas substâncias irritantes. Contraindicada durante tratamento anticoagulante. Subcutânea (SC) Pode ser imediata para soluções aquosas ou lenta e prolongada para a preparações de depósito. Adequada para algumas suspensões pouco solúveis e para implantes de liberação lenta. Inadequada para grandes volumes. Substâncias irritantes podem causar dor ou até necrose. Retal É irregular e pode ser incompleta. Metade do fármaco absorvido não é submetido à primeira passagem pelo fígado. Alguns fármacos causam irritação da mucosa retal. Adaptado de Goodman & Gilman 13ª ed. A farmacocinética estuda as ações do corpo sobre o fármaco a partir de sua administração em uma das vias de administração disponíveis, seguindo-se a sua absorção até alcançar a circulação sistêmica para que ocorra sua distribuição aos tecidos e sua chegada ao seu tecido-alvo. Posteriormente ocorre a etapa de eliminação, que deve ser realizada para o término do efeito do fármaco, pode se dar por meio de excreção direta ou por sua biotransformação (metabolização) seguida de excreção. A avaliação pormenorizada de cada um desses processos é objeto de estudo da farmacocinética. Neste texto, serão apresentados os aspectos básicos da farmacocinética. Figura 1. Resumo dos processos da farmacocinética. ADME: Absorção, Distribuição, Metabolização e Excreção. Absorção •Transferência do local de adminstração para a circulação sistêmica Distribuição • Distribuição do fármaco pelo organismo até aos tecidos em que atuará Metabolização • Alterações do fármaco levando ao término de sua ação e facilitação de sua excreção Excreção •Eliminação do fármaco do organismo 10 FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA Absorção O processo de absorção do fármaco consiste em sua transferência do local de administração para a circulação sistêmica. Numerosos fatores relacionados ao medicamento e ao organismo afetam esta etapa. Por exemplo, o grau de lipossolubilidade, o pKa ou pKb (quando o fármaco for um ácido ou base), o peso molecular do fármaco, as taxas de desintegração e dissolução quando administrados como comprimidos nos líquidos biológicos, dentre vários outros fatores ligados ao fármaco afetam sua taxa de absorção. Adicionalmente, há diversos fatores que afetam a absorção e estão relacionados ao organismo, tais como velocidade de esvaziamento gástrico, perfusão sanguínea local, área disponível para absorção, dentre outros. Quando ocorre algum problema durante a absorção do fármaco sua biodisponibilidade é afetada. Biodisponibilidade A biodisponibilidade de um fármaco constitui a sua fração que atinge o seu local de ação ou a circulação sistêmica a partir da qual ele atinge seu local de ação após ter sido administrado por alguma via. Pode ser completa, com 100% da dose administrada alcançando a circulação sistêmica ou incompleta, em que fração da dose administrada não alcança a circulação sistêmica de forma inalterada. Como exemplos, os fármacos administrados por via oral costumam ter absorção incompleta e parte da dose absorvida na parede intestinal é levada ao fígado pela veia porta, onde pode ser biotransformada ou excretada na bile antes que possa alcançar a circulação sistêmica - processo chamado efeito de primeira passagem - resultando em biodisponibilidade incompleta. Por outro lado, os fármacos administrados pela via intravenosa alcançam de pronto a circulação sistêmica e, portanto, apresentam biodisponibilidade completa. 𝑩𝒊𝒐𝒅𝒊𝒔𝒑𝒐𝒏𝒊𝒃𝒊𝒍𝒊𝒅𝒂𝒅𝒆 = 𝒇á𝒓𝒎𝒂𝒄𝒐 𝒒𝒖𝒆 𝒄𝒉𝒆𝒈𝒂 à 𝒄𝒊𝒓𝒄𝒖𝒍𝒂çã𝒐 𝒔𝒊𝒔𝒕ê𝒎𝒊𝒄𝒂 𝒇á𝒓𝒎𝒂𝒄𝒐 𝒂𝒅𝒎𝒊𝒏𝒊𝒔𝒕𝒓𝒂𝒅𝒐 Distribuição Na etapa posterior à absorção do fármaco, denominada distribuição, ocorre a transferência do fármaco aos 11 FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA líquidos intersticiais e intracelulares nos diferentes tecidos corporais. Inicialmente os órgãos com maior taxa de perfusão sanguínea (fígado, rins, encéfalo e etc.) recebem maiores quantidades dos fármacos, mas posteriormente o fármaco também é distribuído aos outros órgãos internos, pele e gordura. Ademais, o débito cardíaco, fluxo sanguíneo regional, permeabilidade capilar e o volume do tecido também afetam a taxa de distribuição tecidual do fármaco. Muitos fármacos são carreados na corrente sanguínea ligados de forma reversível às proteínas plasmáticas, de modo que passa a existir uma fração do fármaco livre e outra livre, fator que pode alterar sobremaneira sua taxa de distribuição. Dentre as principais ocorrências estão a ligação de fármacos que são ácidos à albumina, enquanto os fármacos básicos ligam-se à α- glicoproteína ácida. O percentual da dose do fármaco que fica ligada às proteínas plasmáticas pode ser afetado pela presença de alterações no organismo do paciente. Por exemplo, as frações livres de fármacos ácidos podem estar elevadas em pacientes com hipoalbuminemia. Ainda, a fração livre de fármacos básicos pode estar diminuída em condições que promovem a elevação da concentração de α-glicoproteína ácida (p. ex. câncer, artrite e doença de Crohn). Pode ocorrer ainda o deslocamento de um fármaco ligado a uma determinada proteína plasmática por outro com maior afinidade pelo sítio de ligação, resultando na elevação da concentração plasmática livre do fármaco deslocado. O acúmulo de fármacos em tecidos específicos, que se tornam reservatórios deste fármaco, pode resultar em prolongamento da ação farmacológica neste local ou em outros órgãos distantes após nova liberação na corrente sanguínea por processo chamado redistribuição. O acúmulo de fármacos em tecidos específicos pode resultar em toxicidade, tal como ocorre com os antibióticos aminoglicosídeos que causam ototoxicidade e nefrotoxicidade. O tecido adiposo é um reservatório bem conhecido para fármacos com elevada lipossolubilidade. Metabolização (Biotransformação) 12 FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA Os resultados mais comuns da biotransformação de fármacos para eliminação é a cessação da atividade biológica e farmacológica. Além disso, estes compostos são tornados mais hidrofílicos para serem mais passíveis de eliminação no ambiente aquoso da urina. Assim, os metabólitos dos fármacos excretados na urina são, em geral, inativos e polares. As reações de biotransformação dos fármacos ocorrem principalmente no fígado em reações de fase 1 (reações catalisadas pela superfamília de enzimas citocromo p-450 (CYP), reações de óxido-redução e hidrolíticas) e de fase 2 (conjugação com moléculas como a glutationa). No entanto, vários outros órgãos apresentam capacidade de metabolizar fármacos, de forma que o TGI, rins e pulmões também apresentam capacidade elevada para metabolização biotransformação dos fármacos. Diversas substâncias, incluindo fármacos e nutrientes, podem induzir ou inibir a expressão de enzimas CYP. Isto pode resultar em concentrações anormalmente baixas ou altas de fármacos, respectivamente. Excreção A excreção renal é a principal via de eliminação dos fármacos e dos seus metabólitos, consistindo em três processos: filtração glomerular, secreção tubular ativa e reabsorção tubular passiva. O fármaco contido na corrente sanguínea passa para o lúmen tubular dos néfrons por meio doprocesso de filtração glomerular, mas isto ocorre apenas com a fração livre do fármaco. Quantidade adicional do fármaco pode ser retirada da circulação por secreção ativa diretamente para os túbulos renais proximais. E, contrariamente, a quantidade do fármaco excretada pode ser diminuída por reabsorção tubular passiva da forma não ionizada do fármaco nos túbulos renais distais. Este processo pode ser manipulado pela alteração do pH da urina tubular, fato que costuma ser utilizado no tratamento de intoxicações. A acidificação da urina tubular promove a reabsorção tubular de fármacos que são ácidos fracos por desviar o equilíbrio para sua forma protonada. A mesma lógica é seguida na alcalinização da urina e fármacos que são bases fracas. 13 FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA A figura 2 ilustra os processos supracitados relacionados a excreção dos fármacos nos néfrons. A função renal sofre declínio natural durante a vida (da ordem de 1% ao ano), o que se torna importante para o cálculo de doses de medicamentos para idosos, tornando necessária a realização de ajustes de doses para essa população. A excreção renal de fármacos contribui de maneira decisiva para a eliminação dos fármacos e seus metabólitos do organismo, mas não é a única via de eliminação. Os hepatócitos contêm transportadores na membrana canalicular que secretam ativamente os fármacos e seus metabólitos na bile para secreção no TGI. Os fármacos secretados no TGI podem ser reabsorvidos para a circulação sistêmica, processo chamado de reciclagem êntero-hepática, e prolongar a ação do fármaco ou serem excretados com as fezes. Os fármacos ainda podem ser excretados em outros fluidos corporais como o suor, a saliva e as lágrimas. Entretanto, as quantidades excretadas por estas vias são quase desprezíveis. Um fato importante é a possibilidade de acúmulo de fármacos básicos no leite materno, ligeiramente mais ácido que o plasma, resultando na exposição do lactente a essas substâncias. Este fato deve ser considerado durante a definição de esquemas terapêuticos para lactantes. Finalmente, destaca-se que existem doses padronizadas recomendadas para os pacientes que apresentam as funções renal e hepáticas normais, mas também equações matemáticas utilizadas para calcular as taxas de depuração renal e hepáticas para estabelecimento de doses quando há algum grau de comprometimento do funcionamento destes órgãos, evitando a ocorrência de 14 FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA toxicidade por ação exacerbada dos fármacos. Farmacodinâmica A Farmacodinâmica estuda as ações do fármaco no corpo e seus mecanismos de ação. Os fármacos interagem com um receptor/alvo, usualmente uma macromolécula ou complexo macromolecular, para desencadear a alteração de uma resposta local ou sistêmica. Os receptores aos quais os fármacos se ligam podem ser de variados tipos (acoplados à proteína G (GPCR), Tirosina- quinase, canais iônicos e etc.) e estão mais frequentemente localizados nas superfícies celulares, transmitindo o estímulo para o meio intracelular por meio de cascatas de segundos mensageiros. No entanto, também podem estar dentro de compartimento celulares, como os receptores nucleares, ou extracelulares, como os fármacos que atuam sobre enzimas, fatores da coagulação ou mediadores da inflamação. Para que um fármaco que atue como agonista tenha eficácia, deve ter a capacidade de se ligar ao receptor-alvo – a medida desta capacidade é a afinidade – e de provocar sua alteração conformacional (atividade intrínseca). Quando os fármacos têm afinidade pelo receptor, mas não provocam sua alteração conformacional, são denominados antagonistas de receptores. Estes fármacos sem atividade intrínseca exercem sua função ao ocuparem os sítios de ligação dos receptores e evitarem a ligação de agonistas a estes receptores. O efeito do antagonista pode ou não ser superável pela elevação da concentração do agonista no local de ação, respectivamente antagonismo reversível e antagonismo não superável. Embora o aprofundamento no tema não caiba no escopo deste texto, cabe citar que ainda existem outros tipos de antagonismo (por exemplo, antagonismo não competitivo e antagonismo fisiológico) e variações de agonistas (por exemplo, agonistas parciais, agonistas plenos e agonistas inversos). Além da utilização dos fármacos individualmente para obter determinado resultado, existe a possibilidade de combinar fármacos com mecanismos de ação diversos com efeitos que se 15 FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA combinam gerando sinergismo positivo aditivo. Isto permite utilizar doses reduzidas dos fármacos e, portanto, reduzir os efeitos adversos dependentes de concentração destes fármacos. Uma grande parcela dos fármacos mais novos foge dos conceitos tradicionais de fármacos, sendo enquadrados como agentes biológicos terapêuticos, incluindo enzimas e anticorpos monoclonais desenvolvidos por engenharia genética. Por exemplo, foi aprovado um herpes-vírus oncolítico geneticamente modificado para o tratamento de melanoma por meio de sua injeção em tumores que não podem ser completamente ressecados por cirurgia. Atualmente têm-se a perspectiva do lançamento para os próximos anos de muitos fármacos de nova geração com mecanismos de ação inovadores, como os capazes de atuar na edição do genoma. Farmacogenômica A farmacogenômica estuda os impactos das variações genéticas ou dos genótipos dos indivíduos em sua resposta aos fármacos ou sua metabolização, de modo que permita tornar mais efetivos os tratamentos de indivíduos ou grupos. Este campo de estudo se desenvolveu pela constatação da ocorrência de reações adversas graves a fármacos em determinados indivíduos em que, após maiores estudos, se observaram variantes genéticas relacionadas às enzimas metabolizadoras de fármacos, resultando em alteração de sua atividade. Posteriormente, esta área - assim como áreas correlatas como a Nutrigenômica - apresentou grande desenvolvimento com a realização do projeto de sequenciamento completo do genoma humano. Já são reconhecidos numerosos polimorfismos relacionados a alterações de resposta e metabolização de fármacos, informações essenciais para o campo da medicina personalizada que as utiliza para guiar a seleção e estabelecimento da dosagem de fármacos para pacientes específicos. Os polimorfismos genéticos relacionados às enzimas metabolizadoras de fármacos podem resultar em toxicidade ou insuficiência de efeito com a utilização das doses 16 FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA padronizadas. Assim, a meia vida do fármaco em um metabolizador rápido pode ocorrer 3 vezes mais velozmente do que ocorreria em metabolizador lento, por exemplo (o tempo de meia vida entre metabolizadores rápidos e lentos varia de acordo com o medicamento). Como resultado, a dose prescrita para um metabolizador rápido pode ser tóxica para um metabolizador lento. As atividades das enzimas pertencentes ao complexo enzimático citocromo P450 diferem de acordo com variações genéticas, o que tem um importante impacto no metabolismo de fármacos. Para exemplificar, sabe-se que cerca de 5 a 10% dos brancos são metabolizadores lentos da enzima CYP2D6 do citocromo P450, ao passo que 20% dos asiáticos são maus metabolizadores da enzima CYP2C19 do citocromo P450. As enzimas CYP2D6 e CYP2C19 metabolizam cerca de 25% de todos osfármacos, incluindo antipsicóticos, antidepressivos e narcóticos. Um metabolizador lento, a ingestão de doses convencionais do fármaco resulta em valores elevados deste na corrente sanguínea, enquanto os metabolizadores rápidos têm respostas imprevisíveis por conta da metabolização acelerada do fármaco. O profármaco codeína, utilizado para manejo de dor moderada a intensa e que apresenta a morfina (com ação analgésica 200 vezes mais potente) como metabólito ativo pode ser citado como exemplo de fármaco com ação alterada pela expressão das enzimas do complexo citocromo P450. A eficiência da ação analgésica da codeína depende de sua conversão para morfina por meio de O-desmetilação realizada pela CYP2D6. São reconhecidos polimorfismos genéticos que determinam ação normal, aumentada ou reduzida da CYP2D6 e, portanto, os indivíduos apresentarão, respectivamente, ação analgésica adequada, efeitos tóxicos ou analgesia insuficiente com a utilização da dose de referência de codeína. Embora os polimorfismos de enzimas metabolizadoras sejam os mais comuns na alteração da atividade de fármacos – e, portanto, os mais estudados -, outras variações 17 FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA genéticas implicam em alteração da atividade de fármacos. Como exemplo, pode ocorrer variação na atividade de transportadores de membrana das células epiteliais de tecidos intestinais, renais e hepáticos (tal como o transportador de ânions orgânicos (OATP1B1)) que resulta em captação e efluxo de fármacos anormal e consequente elevação do risco de toxicidade. Por exemplo, pacientes com função reduzida de OATP1B1 recebendo sinvastatina – um inibidor da HMG-CoA redutase que reduz a concentração de lipídios séricos – apresentam risco elevado de apresentar miopatia. Ademais, há ainda as alterações genéticas que podem determinar hipersensibilidade a um fármaco. A farmacogenômica é uma área em franca expansão pela rápida aceleração da disponibilização de tecnologias de sequenciamento genômico e sua aplicação a um número crescente de pacientes, resultando em grande abundância de dados relacionando variações genéticas e resposta aos fármacos. Glossário A seguir são definidos os termos usuais no contexto do estudo da farmacologia e áreas associadas. CONCEITO DEFINIÇÃO Biodisponibilidade É o percentual da dose administrada de um fármaco que alcança seu local de ação ou o compartimento central (circulação sistêmica) Via de administração É o local onde o fármaco é administrado no organismo para ser distribuído até alcançar seu local de ação. Forma Farmacêutica É a forma final de apresentação dos medicamentos, contendo o fármaco e a adição excipientes apropriados a fim de facilitar a sua utilização, com características apropriadas à administração por uma determinada via de administração. A forma farmacêutica pode se apresentar na forma líquida (xaropes), semissólida (pomadas), sólida (comprimidos) e gasosa (aerossóis). Via Parenteral Consiste na administração do fármaco por alguma via sem passar pelo TGI. Apresenta biodisponibilidade mais ampla, rápida e previsível. Entretanto, demanda realização de assepsia, pode causar dor e gera maior risco de infecção. Exemplos: Intravenosa, Intramuscular, Subcutânea, Intra-arterial, Intratecal e etc. Via Enteral Consiste na administração do fármaco em alguma via ao longo do TGI. Polimorfismo Qualquer variação genética na sequência de DNA 18 FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA Xenobiótico Xeno = estranho bio = vida. São compostos não reconhecidos como constitutivos do organismo, são estranhos a ele. Citocromo P450 (CYP) Superfamília de enzimas fundamentais para a metabolização de xenobióticos e síntese de hormônios esteróides, dentre outras funções. 19 20 FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA 2 INTERAÇÃO ENTRE NUTRIENTES E FÁRMACOS Introdução A polifarmácia (utilização concomitante de 4 fármacos ou mais) é muito comum na sociedade ocidental atual com expectativas de vida crescentes. Além da utilização de diversos medicamentos indicados por profissionais prescritores de diferentes especialidades, os pacientes muitas vezes utilizam outros medicamentos isentos de prescrição, suplementos alimentares, plantas medicinais e nutracêuticos. Com o uso de tantos xenobióticos, muitas vezes administrados no mesmo horário, o risco da ocorrência de interações entre eles torna-se elevado. Entretanto, nem sempre a interação entre dois fármacos é prejudicial ou mesmo indesejada. Pelo contrário, em alguns casos a ação sinérgica de fármacos com mesma ação, mas por me mecanismos diferentes, é uma estratégia para otimização da estratégia terapêutica. As interações são muitas vezes didaticamente generalizadas em farmacocinéticas - quando altera os processos de absorção, distribuição, metabolização e excreção - ou farmacodinâmicas, 21 FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA quando alteram a resposta ao fármaco. Um fármaco pode apresentar interações farmacodinâmicas e farmacocinéticas com diversas categorias de substâncias e resultar em efeitos de gravidade variada. A varfarina serve como exemplo de um fármaco com grande número de possibilidade de interações potencialmente graves com fatores tanto de origem dietética como terapêutica. Trata-se de um anticoagulante oral com margem terapêutica estreita, ou seja, apresenta pequena variação entre a dose terapêutica (diminui a formação de trombos) e a tóxica (causa hemorragias). As alterações na ingestão dietética de vitamina K podem afetar significativamente a farmacodinâmica da atuação da varfarina, sendo necessário o ajuste de dose. Além disso, alterações na microbiota intestinal podem reduzir a síntese bacteriana de vitamina K e exacerbar a ação da varfarina no organismo. E, por fim, a utilização concomitante de Ácido Acetilsalicílico (AAS), com ação antiagregante plaquetária, eleva a incidência de sangramento nos pacientes anticoagulados com varfarina. A importância de se identificar as interações entre fármacos é bastante reconhecida na atualidade, havendo bastantes estudos a este respeito. Entretanto, ainda há escassez de informações acerca das interações entre fármacos e nutrientes e alimentos, apesar da grande importância do tema. Interações fármaco- nutriente As interações fármaco- nutriente são definidas como alterações produzidas na farmacocinética ou farmacodinâmica do fármaco ou o comprometimento do status nutricional como resultado da administração de um ou mais fármacos. Os fármacos podem influenciar na biodisponibilidade de nutrientes por meio de alteração do apetite, alteração do paladar, absorção do nutriente, motilidade gastrointestinal, metabolismo hepático e excreção renal. Além da identificação das interações fármaco-nutriente, deve-se avaliar a relevância clínica 22 FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA deste evento. A mera identificação de uma interação não define a necessidade de alterações no esquema de administração do fármaco e/ou do nutriente. Muitas interações identificadas, apesar de causarem alguma alteração na biodisponibilidade ou metabolização de um fármaco ou nutriente, não resultam em alteração de resposta terapêutica. Por exemplo, uma interação fármaco-nutriente que cause a redução da concentração do fármaco em seu tecido-alvo pode não determinar nenhuma alteração do esquema terapêutico e dietético se a concentração ainda for suficiente para apromoção do efeito farmacológico pretendido. Há maior risco da ocorrência de interações fármaco- nutriente com relevância clínica em pacientes idosos e/ou com patologias que determinam a utilização de diversos medicamentos concomitantemente. Além disso, idosos apresentam alterações fisiológicas - tais como alterações do pH e fluxo sanguíneo estomacal, diminuição do percentual de massa magra, comprometimento da função renal e menores níveis de albumina sérica - que os deixam mais vulneráveis à ocorrência de eventos adversos decorrentes das interações fármaco-nutriente. Os pacientes pediátricos são outro público com risco mais elevado para apresentar interações fármaco-nutriente devido às taxas reduzidas de metabolização enzimáticas de fármacos pelo fígado e função renal ainda em desenvolvimento. As interações fármaco- nutriente podem ser categorizadas didaticamente em tipos I, II, III e IV. As reações do tipo I se referem à ocorrência de interações físicas e bioquímicas entre o fármaco e o nutriente, incluindo reações de hidrólise, óxido-redução, neutralização, precipitação e complexação. São mais comuns durante a administração concomitante de nutrição parenteral e medicamentos. Muitas delas são evitadas simplesmente por não se administrar a nutrição e o medicamento pelo mesmo acesso ou por infundir pequeno volume de água pelo acesso antes e após a administração do medicamento. As reações do tipo II afetam a absorção e, portanto, 23 FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA geram elevação ou diminuição da biodisponibilidade do fármaco por meio de interações entre o nutriente alimentar e o fármaco ou alteração fisiológicas promovidas pela ingestão alimentar. Por exemplo, a ingestão de alimentos com alto conteúdo de gordura estimula maior liberação de ácidos biliares que, por sua vez, facilitam a absorção de fármacos mais fortemente lipofílicos. Ademais, a alimentação com alto conteúdo de gordura estimula a liberação de colecistoquinina, que reduz a motilidade gastrointestinal e, portanto, aumenta o tempo de contato entre o fármaco e o intestino, repercutindo em maior possibilidade de absorção. Os efeitos da ingestão simultânea de medicamentos e alimentos deve ser estudada caso a caso, pois pode elevar a absorção em alguns casos e comprometer em outros. Por exemplo, a administração dos seguintes medicamentos é recomendada conjuntamente com a refeição para maximizar a absorção: cefuroxima, eritromicina, lovastatina e lítio. Em contraste, os seguintes fármacos têm sua absorção atrapalhada pela presença de alimentos: ampicilina, ciprofloxacino, doxiciclina e captopril. As reações do tipo III ocorrem após o fármaco ou nutriente alcançarem a circulação sistêmica e envolvem alterações sistêmicas. Há fármacos que podem resultar em alterações metabólicas ou do status nutricional. Por exemplo, alguns antipsicóticos atípicos (clozapina, olanzapina e risperidona) têm sido associados com intolerância à glicose, devendo ser acompanhada de monitoramento da glicemia e possíveis ajustes dietéticos. O suco de toranja (grapefruit) é um conhecido inibidor da CYP3A4, um dos principais grupos de enzimas metabolizadoras de xenobióticos, que pode comprometer a metabolização de numerosos fármacos e, portanto, promover prolongamento de sua atividade e/ou toxicidade. Pode ocorrer, por exemplo, sedação prolongada com a utilização de fármacos hipnótico-sedativos, tais como diazepam e midazolam. Além disso, pode ocorrer hipotensão ao associar o consumo de grapefruit e a utilização de bloqueadores de canais de cálcio (nifedipino, felodipino e verapamil). 24 FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA As reações do tipo IV envolvem a eliminação dos fármacos ou nutrientes, envolvendo antagonismo, modulação da função renal e eliminação entero-hepática. A utilização de um fármaco pode ainda afetar o status nutricional do paciente por alterar o seu paladar e/ou o olfato ou por causar náuseas e vômitos, tal como é comum durante a utilização de quimioterápicos para o tratamento de cânceres. Influências dos alimentos na farmacocinética de fármacos Os alimentos, componentes de alimentos e suplementos podem interagir com os fármacos ainda durante o processo de absorção, no caso de o fármaco ter sido administrado oralmente. Ressalta-se que determinados nutrientes podem acelerar ou retardar o esvaziamento gástrico, influenciando a velocidade em que um determinado fármaco será absorvido (proteínas, lipídios e fibras retardam o esvaziamento gástrico). Apesar do retardo na absorção de fármacos não ter significância clínica em algumas situações, em se tratando de antibióticos e analgésicos, por exemplo, pode-se ter um impacto relevante. Além disso, as interações entre fármacos e nutrientes que ocorrem no trato gastrointestinal podem favorecer ou prejudicar a absorção dos primeiros. Exemplos de medicamentos cuja absorção é significativamente alterada pela presença de alimentos no trato gastrointestinal são os seguintes bisfosfonatos (inibidores do processo de reabsorção óssea): alendronato, risendronato e ibandronato. As instruções do fabricante são de ingerir o alendronato e o risendronato com o estômago vazio, com água, 30 minutos antes da ingestão de qualquer outro alimento, bebida ou medicamento. O ibandronato deve ser ingerido 60 minutos antes da ingestão de qualquer outro alimento, bebida ou medicamento. Similarmente, a absorção de ferro proveniente de suplementos é reduzida em cerca de 50% quando ingerido com alimentos, sendo melhor absorvido quando ingerido com água e em jejum. No entanto, se for necessário ingerir o suplemento junto com alimentos para evitar as alterações gástricas, 25 FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA sugere-se que ele não seja ingerido juntamente com grãos, ovos, alimentos ricos em fitatos, suplementos de fibras, chá, café, laticínios ou suplementos de cálcio. De forma contrária aos exemplos supracitados, a presença de alimentos no estômago aumenta a absorção de alguns outros medicamentos, como o antibiótico cefuroxima e o antirretroviral saquinavir. A recomendação é de ingerir estes fármacos após a refeição, de modo a diminuir a dose necessária para atingir a concentração desejável. O pH do trato gastrointestinal também apresenta importante influência na absorção de fármacos. Um exemplo desta situação é a possível incapacidade do Cetoconazol em combater a infecção por Candida em pacientes que utilizam potentes agentes redutores da acidez estomacal para tratamento de refluxo gastroesofagiano. O Cetoconazol é absorvido em meio ácido, por isso nos pacientes que utilizam antiácidos, bem como em pacientes com HIV (os quais normalmente apresentam acloridria), a dissolução do comprimido é reduzida, prejudicando a sua absorção. Quanto ao processo de distribuição, este é influenciado pelo fluxo sanguíneo e pela ligação do fármaco com proteínas plasmáticas, como a albumina (vide aula 01). Pacientes com concentrações de albumina inferiores a 3 g/dL apresentam maior risco de efeitos adversos de fármacos com alta ligação a proteínas (por exemplo: varfarina e fenitoína). A alimentação influencia na concentração de proteínas plasmáticas – inclusive da albumina -, sendo que a concentração destas tende a diminuir durante a deficiência energético-proteica. De um modo geral, mesmo que indiretamente, os alimentos, componentes dos alimentos e suplementos podem influenciar na distribuiçãode fármacos. Os alimentos, componentes de alimentos e suplementos podem aumentar ou inibir a atividade do sistema enzimático do citocromo P450, influenciando a velocidade e a extensão do metabolismo de fármacos. A excreção dos fármacos ocorre principalmente por meio 26 FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA de filtração glomerular e secreção tubular realizadas nos néfrons, de forma que os metabólitos do fármaco (ou sua forma inalterada) se acumule na urina em formação nos túbulos renais para eliminação pela micção. Alterações no pH urinário podem resultar em reabsorção tubular de determinados fármacos e seus metabólitos, comprometendo sua excreção. O consumo de alimentos considerados como alcalinizadores da urina eleva a taxa de reabsorção tubular de fármacos que são bases fracas por deslocar o equilíbrio para a sua forma não-ionizada capaz de atravessar as membranas dos capilares. Exemplos destes alimentos são: leite e a maioria dos vegetais (frutas, legumes e verduras). Fatores de risco para interações entre fármacos e nutrientes Os principais fatores de risco que contribuem para o aparecimento de efeitos adversos pela ocorrência de interações entre fármacos e nutrientes podem ser resumidas em polifarmácia, estado nutricional alterado, fatores genéticos, doença subjacente, dietas especiais, suplementos nutricionais, nutrição enteral ou parenteral, fitoterápicos, etilismo e tabagismo, alergias ou intolerâncias alimentares, entre outros. A má nutrição induzida por fármacos é mais frequente em portadores de doenças crônicas e idosos. Isto se relaciona ao fato destes utilizarem maior númer ode medicamentos de forma contínua. Ademais, os idosos também apresentam alterações orgânicas em virtude do processo de envelhecimento, tais como a diminuição das funções hepática e renal. Estas alterações fazem com que as interações entre fármacos e nutrientes sejam ainda mais graves neste público. Um exemplo de como os fármacos podem afetar o estado nutricional é o de agentes citotóxicos, como o antineoplásico Cisplatina, que podem causar aftas, náuseas, vômitos, diarreia, anorexia e, consequentemente, comprometimento da ingestão alimentar e do estado nutricional do paciente. A absorção dos fármacos também pode ser afetada por alterações no trato gastrointestinal, incluindo vômitos, diarreia, hipocloridria, 27 FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA atrofia da mucosa e alterações na motilidade. A composição corporal também parece ter influência na probabilidade de interações fármacos nutrientes. Isso porque o tecido adiposo aumentado, como no caso de obesidade ou durante o envelhecimento (em razão da diminuição da massa muscular), favorece o acúmulo de fármacos lipossolúveis como os benzodiazepínicos (ex. Diazepam e Clonazepam) neste tecido. Como resultado do acúmulo do fármaco e dos seus metabólitos no tecido adiposo, pode ocorrer prolongamento de ação e toxicidade. Em pacientes idosos esta situação pode ser agravada pela diminuição da remoção hepática do fármaco. A ausência de quantidade sólida de informações provenientes de estudos científicos, aliada ao maior risco de efeitos catastróficos nestes casos, torna essencial que se tenha especial cuidado na avaliação da possibilidade de interações em algumas populações mais vulneráveis, tais como fetos, lactentes, gestantes, portadores de doenças graves e idosos extremos. Exemplos de Interações entre fármacos e nutrientes bem documentadas Algumas interações entre fármacos e nutrientes com respaldo científico e de elevada relevância na prática clínica são brevemente discutidas a seguir. Vitamina K e medicamentos anticoagulantes orais cumarínicos: Os anticoagulantes orais cumarínicos (ex. Varfarina) inibem a conversão da vitamina K em uma forma utilizável (redução de sua forma epóxido inativa para a forma hidroquinona ativa) para a síntese de fatores de coagulação, cuja biossíntese é dependente desta vitamina. Reduzem, portanto, a coagulação sanguínea e apresentam o sangramento como principal risco de reação adversa. Desta forma, alterações do consumo de fontes de vitamina K durante o tratamento com anticoagulantes com este mecanismo de ação apresentam risco 28 FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA de descontrole do efeito terapêutico e aparecimento de efeitos adversos. Isto porque as doses de varfarina são ajustadas no início do tratamento de acordo com a resposta do organismo do paciente (medida principalmente pelos valores de INR e tempo de protrombina) à administração deste medicamento, o que é afetado pela dieta. Assim, o consumo de fontes de vitamina K deve ser mantido inalterado durante o tratamento com anticoagulantes cumarínicos, pois a dose destes medicamentos é estabelecida atrelada a este fator. Este nutriente está presente em vegetais verde-escuros, como a couve, bem como é sintetizado naturalmente no organismo pela microbiota intestinal. Ressalta-se que a coenzima Q10 também se opõe ao efeito da Varfarina. A ingestão de determinados alimentos e nutrientes potencializa o efeito da Varfarina, podendo resultar em sangramentos. São eles: alho, cebola, mamão papaia, manga, ginseng ou suplementos de vitamina E em doses superiores a 400 IU. Proteínas e Levodopa: A Levodopa é um fármaco que atua como precursor da dopamina – é convertida no SNC em dopamina – utilizado principalmente no tratamento dos sintomas da doença de Parkinson. Ocorre interação fármaco- nutriente entre a Levodopa e proteínas no TGI, pois determinados aminoácidos competem com a fármaco pela absorção intestinal e também pelo transporte do sangue para o SNC - de forma que o medicamento deve ser administrado em horário distante de refeições ricas em proteínas. Cátions divalentes/trivalente 29 FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA s e Fluoroquinolonas: Fluoroquinolonas (Ciprofloxacino, Norfloxacino, Levofloxacino etc.) são fármacos antibacterianos de amplo espectro bastante comuns na terapêutica de infecções bacterianas. Apresentam excelente absorção após administração oral, exceto quando são administradas concomitantemente com alimentos ou suplementos contendo cátions divalentes ou trivalentes como Ca2+, Mg2+, Zn2+, Fe2+ ou Fe3+. Caso ocorra a administração dos medicamentos e cátions em horários próximos, ocorre a formação de complexos insolúveis e, portanto, restrição da absorção de ambos. Os medicamentos devem ser administrados 2 horas antes ou 4 horas após a administração de alimentos ou suplementos contendo estes cátions a fim de se evitar esta interação. Cátions divalentes e Tetraciclinas: a mesma interação item anterior ocorre também com os antibacterianos do grupo das tetraciclinas (tetraciclina, doxiciclina, minociclina e etc.) Ferro e Entacapona: A Entacapona é uma inibidora da enzima COMT (responsável pela degradação de dopamina) utilizada em associação com Levodopa no tratamento dos sintomas de Parkinson. A Entacapona é uma agente quelante de ferro e, por isso, deve ser ingerida com intervalo de 3 horas da administração de suplementos de ferro. Fitatos e Digoxina: A Digoxina é fármaco cardiotônico utilizado em pacientes com insuficiência cardíaca. Interações com este medicamento devem ser tratadas com atenção porque sua faixa 30 FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTESPARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA terapêutica é estreita, com pequena variação entre a dose efetiva, subdose e a dose tóxica. Recomenda-se que não se administre a digoxina conjuntamente com alimentos ricos em fitato (quelantes que podem adsorver a digoxina) como o farelo de trigo e a farinha de aveia. Toranja e fármacos metabolizados pela CYP3A4: Uma substância encontrada na toranja é inibidora de CYP3A e, portanto, prejudica a eliminação de grande número de fármacos que são metabolizados por este sistema. Como consequência, há maiores concentrações dos fármacos não metabolizados no sangue, elevando o risco de toxicidade. Ressalta- se que os efeitos da toranja persistem por até 72 horas e que frutas semelhantes, como a laranja-de-sevilha e laranja-de-umbigo, apresentam efeitos similares, devendo ser totalmente evitadas com alguns fármacos, como o imunossupressor Tacrolimus e com a estatinas hipolipemiante Sinvastatina. Vitaminas lipossolúveis e Colestiramina: A Colestiramina é um sequestrador de ácidos biliares utilizado como hipolipemiante. Reduz a biodisponibilidade de vitaminas lipossolúveis como as A, D, E e K por adsorvê-las, evitando sua absorção. Vitamina B12 e Anti- secretores: Antagonistas de receptores H2 de histamina, tais como Cimetidina, Famotidina, Ranitidina e os inibidores da bomba de prótons tais como Omeprazol, Lansoprazol e Esomeprazol são fármacos anti-secretores usados para tratar distúrbios gastrointestinais, como gastrite e úlcera pela inibição da secreção de ácido clorídrico no 31 FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA estômago, resultando em elevação do pH. Como consequência, pode ocorrer redução da absorção de vitamina B12. A Cimetidina ainda reduz a secreção do fator intrínseco, dificultando ainda mais a absorção de vitamina B12. Vitaminas D, K e B9 e anticonvulsivantes: Os anticonvulsionantes Fenobarbital e Fenitoína induzem as enzimas hepáticas responsáveis pela metabolização das vitaminas D, K e B9. Recomenda-se o acompanhamento destes nutrientes por exames bioquímicos e suplementação, se necessária. Piridoxina e fármacos antagonistas: O fármaco antituberculose INH bloqueia a conversão de piridoxina (vitamina B6) à sua forma ativa, podendo levar a sua deficiência. Sugere-se a suplementação de piridoxina (de 25 a 50 mg/dia). Outros fármacos que atuam como antagonistas de piridoxina são Hidralazina, Levodopa e Cicloserina. Coenzima Q10 e Estatinas: Estatinas são antilipemiantes que atuam inibindo a síntese de colesterol endógeno por meio da inibição da enzima HMG-CoA redutase. Estes fármacos afetam a formação de coenzima Q10. Neste sentido, é válido suplementar estes pacientes com pelo menos 100 mg de coenzima Q10 para o efeito preventivo. Eletrólitos e Diuréticos de alça: Os diuréticos de alça, como Furosemida ou Bumetanida, aumentam a excreção de potássio, magnésio, sódio, cloreto e cálcio, sendo que estes nutrientes devem ser monitorados por exames bioquímicos durante o tratamento com estes diuréticos e, quando 32 FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA necessário, suplementados. Cálcio e Diuréticos tiazídicos: Os diuréticos tiazídicos, como a Hidroclorotiazida aumentam a excreção de potássio e magnésio, mas reduzem a excreção de cálcio. Deve-se ter cuidado quando a utilização destes medicamentos estiver associada à suplementação com cálcio pelo risco de hipercalcemia. Potássio e Diuréticos poupadores de potássio: Os diuréticos poupadores de potássio, como Espironolactona ou Triantereno, aumentam a excreção de sódio, cloretos e cálcio, mas podem elevar as concentrações sanguíneas de potássio. Desta forma, deve-se monitorar com cuidado as concentrações sanguíneas de potássio por meio de exames bioquímicos durante o tratamento com estes medicamentos. Potássio e IECA: Anti- hipertensivos inibidores da enzima de conversão de angiotensina (IECAs), tais como Captopril, Enalapril e Fosinopril, diminuem a excreção de potássio. Recomenda-se monitoramento para evitar hipercalemia. Sódio, Cálcio, Potássio e os Corticosteróides: Corticosteroides, como Prednisona e Dexametasona, diminuem a excreção de sódio, resultando em retenção de água e sódio. Em contrapartida, estes fármacos aumentam a excreção de cálcio e potássio. Neste cenário, sugere-se o consumo de uma dieta pobre em sódio e rica em potássio, sendo que a suplementação com cálcio e vitamina D é recomendada após o uso prolongado de corticosteroides para prevenir a osteoporose. 33 FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA Riboflavina e Fenotiazinas: Os fármacos antipsicóticos da classe das fenotiazinas, como a Clopromazina, aumentam a excreção de riboflavina, podendo levar à deficiência deste nutriente, caso ele não esteja presente em quantidades adequadas na dieta. Alimentos ricos em tiramina e IMAO: Os inibidores de monoaminoxidase (IMAO) evitam a quebra de agentes pressóricos, como a tiramina (monoamina derivada da tirosina). A ingestão de alimentos ricos em tiramina, como queijos envelhecidos e carnes curadas, durante o tratamento com este fármaco pode causar crise hipertensiva, com aumento da frequência cardíaca, rubores, cefaleia, acidente vascular encefálico e, até mesmo, morte. Cafeína e estimulantes: A cafeína nos alimentos e bebidas aumenta os efeitos adversos de fármacos estimulantes, como as anfetaminas (ex. metilfenidato) causando nervosismo, tremor e insônia. Vitaminas lipossolúveis e Orlistat: O Orlistat, por reduzir a absorção de lipídios, reduz também a absorção de vitaminas lipossolúveis, como vitaminas A, D, E e K. Todas as interações apresentadas acima estão descritas na Tabela 01. 34 FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA FÁRMACO REDUÇÃO DE EFEITO POTENCIAÇÃO DE EFEITO Varfarina Vitamina K e Coenzima Q10 Alho, cebola, mamão papaia, manga, ginseng ou suplementos de vitamina E em doses superiores a 400 IU Levodopa Proteínas Este fármaco reduz vitamina B6 - Furosemida Reduz potássio, sódio, magnésio, cloreto e cálcio - Bumetanida Reduz potássio, sódio, magnésio, cloreto e cálcio Hidroclorotiazida Reduz potássio e magnésio Aumenta cálcio, portanto, não associar com suplemento de cálcio Tetraciclina Cálcio, magnésio, zinco, ferro e alumínio - Ciprofloxacina Cálcio, magnésio, zinco, ferro e alumínio - Entacapone Ferro - Amitriptilina Excesso de fibras alimentares - Digoxina Fitatos - Teofilina Dieta rica em proteínas e pobre em carboidratos - Bloqueadores dos canais de cálcio - Toranja, laranja-de-sevilha e laranja-de-umbigo Estatinas Reduz Coenzima Q10 Toranja, laranja-de-sevilha e laranja-de-umbigo Tacrolimus - Toranja, laranja-de-sevilha e laranja-de-umbigo Lítio Consumo excessivo de sódio Baixo consumo de sódio e desidratação Colestiramina Reduz absorção de vitaminas lipossolúveis (A, D, E e K), requerendo suplementação destas - 35 FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA Famotidina Reduz absorção de B12 - Ranitidina Reduz absorção de B12 - Omeprazol Reduz absorção de B12 - Esomeprazol Reduz absorção de B12 - Cimetidina Reduz absorção de B12 - Fenobarbital e Fenitoína Reduzem vitamina D, K e B9 - Hidralazina Reduz vitamina B6 - Penicilamina Reduz vitamina B6 - Cicloserina Reduz vitamina B6 - INH Reduzvitamina B6 - Espironolactona ou Triantereno Reduz sódio, cloreto e cálcio Aumenta potássio, portanto, não associar com a suplementação de potássio Enalapril ou Fosinopril - Aumenta potássio, portanto, não associar com a suplementação de potássio Prednisona Reduz cálcio e potássio Considerar a suplementação com cálcio e vitamina D Aumenta sódio, portanto, ofertar dieta pobre em sódio e rica em potássio Clopromazina Reduz vitamina B2 - Cisplatina Reduz magnésio, necessitando, em alguns casos, de suplementação endovenosa. Sugere-se suplementação preventiva. - Inibidores de monoaminoxidase Tiramina (queijos envelhecidos e carnes curadas) Lorazepam Cafeína - Anfetaminas, Metilfenidato ou Teofilina - Cafeína Orlistat Reduz vitaminas lipossolúveis (A, D, E e K) - 36 FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA Tabela 1. Interações entre fármacos e nutrientes. Interações entre medicamentos e nutrição enteral A utilização do método de nutrição enteral é bastante comum em pacientes que apresentam comprometimento da ingestão oral de alimentos, mas o trato gastrointestinal ainda funcionante. É prática comum administrar também os medicamentos por meio da sonda em que é administrada a nutrição enteral, pois é uma via de administração em geral segura para administração de medicamentos em forma de soluções e suspensões orais, além de eventualmente comprimidos triturados e dissolvidos (quando não há apresentações líquidas orais disponíveis). Embora os medicamentos possam ser administrados por meio da sonda, não devem ser misturados à nutrição enteral por causa do risco de ocorrerem reações físico-químicas entre eles, mas sim individualmente (líquidos) ou com água. Além disso, deve ser feito um “flush” de água na sonda antes e após a administração do medicamento. A administração de medicamentos de forma inadequada pela sonda enteral pode levar a problemas tais como o entupimento da sonda, ineficácia do fármaco e comprometimento da oferta de nutrientes. Além do risco de ocorrência de interações e incompatibilidade físico-química entre os medicamentos e os nutrientes, o conhecimento do tipo de sonda (nasogástrica, nasoenteral, orogastrica e etc.) é essencial também para que se avalie a absorção do fármaco e/ou nutriente no local de entrega pela sonda. Isto se justifica pois, por Alendronato, Risendronato e Ibandronato Refeições afetam sua absorção, portanto, devem ser ingeridos de 30 – 60 minutos distantes de uma refeição - Cefuroxima e Saquinavir A ausência de alimentos no estômago compromete a absorção, por isso devem ser administrados após o consumo de alimentos - 37 FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA exemplo, há fármacos que têm a sua absorção realizada principalmente no estômago e teriam problema ao serem administrado por uma sonda que passa direto pelo estômago, tal como uma sonda nasoenteral. Fontes de informação sobre interações entre fármacos e nutrientes Embora seja útil e necessário decorar as principais interações entre fármacos e nutrientes para facilitar a avaliação da adequação dos esquemas terapêuticos e dietéticos dos pacientes de forma ágil, é impraticável depender apenas da memória para realizar uma avaliação confiável. Desta forma, estar atento às possibilidades de interações nas prescrições dietéticas e terapêuticas e ser proativo na realização de pesquisas na literatura científica para verificação destas possibilidades, além da avaliação dos exames laboratoriais recentes do paciente, pode ser mais importante que decorar grande número de interações. A pesquisa de informações sobre interações não pode prescindir da consulta aos livros de referência, mas também não deve estar restrita a estes. Ao realizar a análise de interações deve-se lançar mão de pesquisas nas principais bases de dados (exemplos: PubMed e Scielo) contendo artigos científicos como fonte das informações mais atualizadas. Existe ainda outra fonte valiosa que surge como possibilidade de consulta de interações que consiste em alguns sites – são pagos, mas muitos hospitais assinam para seu corpo clínico utilizar - que publicam informações atualizadas e baseadas nas melhores evidências revisadas por cientistas. As principais destas plataformas são o Uptodate ® e o Micromedex ®, mas existem várias outras possibilidades. Há inclusive opções gratuitas, mas com acesso mais restrito. É possível consultar também as informações fornecidas pelos fabricantes por meio de bulas, informativos ou por contato com o SAC especializado das empresas. É essencial que todos os profissionais envolvidos na definição e acompanhamento dos esquemas terapêutico e dietético saibam encontrar informações sobre interações entre 38 FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA medicamentos e nutrientes. Além disso, é essencial saber avaliar se as interações identificadas geram repercussão clínica e requerem ajustes imediatos, se devem ser acompanhadas com ou sem exames laboratoriais ou se não requerem ajustes. Para tanto, os profissionais devem saber avaliar os níveis de evidência das interações e também reconhecer as medidas mais acertadas para a contornar os problemas identificados com o menor impacto possível. Por exemplo, a administração de um medicamento ou a ingestão de determinado nutriente não deve ser suspensa pela identificação de uma interação que poderia ser resolvida simplesmente por separar a administração do medicamento e nutriente envolvidos. Da mesma maneira, pode não ser necessário interromper a ingestão de um medicamento, nutriente ou suplemento por causa de uma interação que não resulta em nenhuma alteração clínica significativa. Em suma, as interações entre fármacos e nutrientes são tema relevante para conhecimento da equipe multiprofissional a fim de que se preste o melhor acompanhamento dos pacientes e requer que os profissionais se mantenham informados sobre as principais interações reconhecidas e também sobre as ferramentas lançadas para estas análises. 39 40 FARMACOLOGIA E INTERAÇÃO COM NUTRIENTES PARA A NUTRIÇÃO CLÍNICA REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA Mahan, L.K.; Escott-Stump, S.; Raymond, J.L. Krause – Alimentos, Nutrição e Dietoterapia. 13ª Edição. Elsevier. 2013. Genser D. Food and drug interaction: consequences for the nutrition/health status. Ann Nutr Metab. 2008;52 Suppl 1:29-32. doi: 10.1159/000115345. Epub 2008 Mar 7. PMID: 18382075. Mason P. Important drug-nutrient interactions. Proc Nutr Soc. 2010 Nov;69(4):551-7. doi: 10.1017/S0029665110001576. Epub 2010 May 28. PMID: 20509982. Schmidt LE, Dalhoff K. Food-drug interactions. Drugs. 2002;62(10):1481-502. doi: 10.2165/00003495-200262100-00005. PMID: 12093316. Mahan, L.K.; Escott-Stump, S.; Raymond, J.L. Krause – Alimentos, Nutrição e Dietoterapia. 13ª Edição. Elsevier. 2013. Brunton, L.L. Goodman & Gilman: As Bases Farmacológicas da Terapêutica. 12ª ed. Rio de Janeiro: McGraw-Hill, 2012. KATZUNG, Bertram G.; TREVOR, Anthony J. (Orgs.). Farmacologia básica e clínica. 12aedição. Mc Graw Hill, 2013. Rang, H. P.; Dale, M. M.; Ritter, J. M.; Flower, R. J.; Henderson G. Rang & Dale. Farmacologia. 7ª edição. Rio de Janeiro, Elsevier, 2012.808 41