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WBA0778_v1.0 APRENDIZAGEM EM FOCO NOVAS METODOLOGIAS E TECNOLOGIAS PARA O ENSINO DE FILOSOFIA 2 APRESENTAÇÃO DA DISCIPLINA Autoria: Alessandro Crisostomo Leitura crítica: Luís Fernando Crespo Olá, seja bem-vindo à disciplina Novas metodologias e tecnologias para o ensino de Filosofia! Nesta disciplina, iremos refletir sobre o modo como o ensino de filosofia está inserido no contexto da educação contemporânea. Para tanto, serão abordadas discussões que remetem à utilização das metodologias ativas, em interface com as novas tecnologias da informação e comunicação, desenvolvidas para potencializar os processos de ensino e aprendizagem. Ao longo dos textos e das atividades, discutiremos sobre os desafios enfrentados na “tradução” dos conteúdos em filosofia para a dinâmica e a realidade vivenciadas no contexto escolar. Na contemporaneidade, a chave para tal construção da aprendizagem parece estar na identificação de competências essenciais que serviriam como o ponto de conexão entre a matéria e sua tradição acadêmica, a realidade cotidiana do estudante e o horizonte de expectativas supostas para a vida adulta. Nesse sentido, investiremos algum tempo discutindo sobre as competências da BNCC que apontam diretamente para as características centrais do ensino e da aprendizagem em filosofia e o modo como esse componente curricular interage com as demais áreas do saber nas possibilidades de garantir um tipo de formação que se aproxime da concepção integral de ser humano. Analisaremos algumas das alternativas entre as metodologias ativas, as quais serviriam para facilitar em sala de aula a relação entre a prática e a teoria, entre educadores e estudantes, entre a filosofia e as demais áreas de conhecimento. Da mesma forma, buscaremos 3 entre as tecnologias digitais de comunicação e informação aplicadas ao contexto educacional aquelas que pareçam contribuir com maior eficiências e qualidade para as aulas de filosofia, tendo em vista estabelecer processos de interação no espaço escolar que permitam experiências significativas de aprendizagem. As reflexões ao longo de nosso curso representarão sugestões que podem, de acordo com cada contexto e a critério de cada profissional, ser adotadas, discutidas, repensadas ou descartadas em favor de técnicas que pareçam mais adequadas. Esperamos que a jornada seja proveitosa e sigamos em frente no aprimoramento dessa prática tão nobre, qual seja, facilitar a aprendizagem das pessoas e ao mesmo tempo promover o esclarecimento de si. Conte conosco para o que precisar! Bons estudos! INTRODUÇÃO Olá, aluno (a)! A Aprendizagem em Foco visa destacar, de maneira direta e assertiva, os principais conceitos inerentes à temática abordada na disciplina. Além disso, também pretende provocar reflexões que estimulem a aplicação da teoria na prática profissional. Vem conosco! Repensando o ensino de filosofia ______________________________________________________________ Autoria: Alessandro Crisostomo Leitura crítica: Luís Fernando Crespo TEMA 1 5 DIRETO AO PONTO Inicialmente, é importante destacar que a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), promulgada em 2018, implementou, de forma decisiva, o foco em competências, a interdisciplinaridade e a complementaridade entre áreas do conhecimento. Nesse sentido, prevê que as atividades pedagógicas estejam articuladas, combinando, assim, os conhecimentos e as competências ao longo do processo de formação, tendo em vista a concepção de educação integral, isto é, a educação que contempla todos os aspectos da complexidade humana. Na prática, significa a proposta definitiva de ruptura com as rígidas divisões em especialidades, ainda presentes na estrutura escolar, de forma a motivar a adoção de articulações mais efetivas em torno de temas comuns, que atravessem as áreas de conhecimento, assim como a abordagem de problemas da realidade, a fim de possibilitar o desenvolvimento de ferramentas mais eficientes para lidar com as questões que se farão presentes na vida adulta. Nesse contexto, as novas tecnologias surgiram para ampliar e potencializar as possibilidades de levar a termo a intenção de romper com os limites que determinavam o contexto pedagógico, sobretudo no que diz respeito à didática. O aprimoramento de ferramentas por meio da tecnologia permitiria, assim, maior facilidade e efetividade no intuito de promover a articulação entre as áreas do conhecimento, as competências etc. Essa facilitação dos procedimentos se mostra importante em todas as etapas do planejamento escolar, desde o próprio planejamento até a realização e a aferição dos resultados. As ferramentas tecnológicas, uma vez adquiridas e apropriadas pelos profissionais, vieram com a perspectiva de otimizar o tempo e permitir, a partir disso, um tempo maior de reflexão e aprimoramento de aspectos como a intencionalidade ou a pesquisa de novas bases teóricas e práticas. 6 A concepção de aprendizagem ativa se adequou com muita facilidade ao cenário de ruptura com as estruturas tradicionais e a implementação de novas tecnologias na educação. Trata-se, essencialmente, da reprodução, em termos pedagógicos, das condições pelas quais os sujeitos aprendem na realidade, isto é, no cotidiano das relações com os problemas surgidos ao longo da vida. Assim, além de prever o protagonismo atribuído ao próprio estudante, fundamenta-se no enfrentamento de problemas complexos, oriundos da realidade, e na flexibilidade em trilhas customizadas de aprendizagem, as quais representem a forma como os processos sofrem com as contingências e as mudanças de percurso ao longo dos processos. A aproximação da educação com as ciências na contemporaneidade produziu efeitos importantes na forma de compreender os processos pedagógicos. A partir desse movimento, ocorreu o aprofundamento em detalhes sobre como a aprendizagem é efetivada, em termos físicos e mentais, e quais estruturas concretas estariam envolvidas nas práticas adotadas em educação. Representou mais um fator agregado ao contexto contemporâneo, no qual, gradativamente, ocorreu a transição dos modelos tradicionais de educação, pautados no ensino e no protagonismo dos educadores, assim como a centralidade nos conteúdos e conceitos, para modelos mais centrados na compreensão dos processos de aprendizagem, atribuindo protagonismo ao papel dos estudantes, e norteados pela construção de competências básicas para o enfrentamento de desafios oriundos da vida concreta. Nesse sentido, a educação, estabelecendo relações com as contribuições de outras ciências, voltou-se para a realidade efetiva dos sujeitos e buscou, nas formas naturais, isto é, nos modos como efetivamente aprendemos no dia a dia, as chaves para potencializar as propostas formais de aprendizagem. 7 No contexto atual, a aproximação entre o campo da educação e as ciências permitiu o detalhamento das estruturas envolvidas no processo de desenvolvimento e, por conseguinte, o aprimoramento das ações tendo em vista a aprendizagem dos estudantes. Contudo, do mesmo modo, tal configuração exigiu dos profissionais da educação um movimento em conjunto, no sentido de acompanhar as mudanças de paradigmas e a atualização das práticas, de tal forma a rever os modelos tradicionais, inclusive aqueles apreendidos ao longo da formação docente, para interpretar e apreender meios e práticas que fossem mais relevantes e adequados aos cenários encontrados em sala de aula, com os estudantes da atualidade. O hibridismo, entendido de forma ampla como a articulação dinâmica entre dimensões apartadas da prática e da realidade, apresenta-se como uma noção importante a ser aplicada nesse contexto de tensão entre o tradicional e o novo, entre o ensino e a aprendizagem, assim como a indefinição quanto às funções exercidas pelos educadores e estudantes. A perspectiva híbrida em educação é anterior ao advento das novas tecnologias e constitui a compreensão de que certasdimensões, apartadas pelo processo analítico, devem, efetivamente, ser articuladas em relações de complementaridade, de tal sorte a se potencializarem mutuamente. Diante do desafio proposto aos educadores em relação às exigências do contexto contemporâneo, significaria o processo de reflexão sobre os pressupostos e os mecanismos presentes, em perspectiva com o que surgiu ou foi assumido no cenário recente. Em vez do abandono daquilo que constitui o acervo intelectual e prático desses profissionais, o esforço se voltaria para a tendência de relacionar criticamente o conjunto teórico já existente com as novas possibilidades que se apresentam, algo que é comum e necessário em qualquer campo teórico ou prático. 8 Dessa forma, o exercício de encontrar pontos de conexão entre as perspectivas teóricas tradicionais e as novas tendências no debate atual, assim como a relação entre as tecnologias inovadoras e as práticas já consagradas em educação, alinhado ao direcionamento das experiências tendo em vista a compreensão sintética proposta nas competências essenciais da BNCC, as quais se articulam à noção de interdisciplinaridade e interdependência entre os campos teórico e prático da aprendizagem, tudo isso parece ser, simultaneamente, aspectos desafiadores do debate sobre educação, mas também ampliadores das possibilidades de contemplar a formação humana de forma mais completa, integral. Figura 1 – A BNCC de 2018 Fonte: elaborada pelo autor. Referências bibliográficas BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018. 9 PARA SABER MAIS O conceito de aprendizagem significativa foi inicialmente desenvolvido pelo teórico David Ausubel, ao longo da década de 1960, em obras como Educational psychology: a cognitive view (1968). Oriundo do campo da psicologia cognitivista, o estudo pretendeu compreender mais profundamente os processos que envolvem a aprendizagem, a fim de oferecer subsídios teóricos para o aprimoramento das práticas. Sousa, Silvano e Lima (2018, p. 27) explicam que a teoria da aprendizagem significativa parte da premissa fundamental de que o objetivo do ensino é a aprendizagem, e esta precisaria ser entendida em seus detalhes para que, de fato, as finalidades da educação fossem alcançadas. A aprendizagem, de acordo com a teoria, ocorreria na organização e integração dos materiais na estrutura cognitiva dos indivíduos, de tal forma a estabelecer interações entre o conhecimento prévio e os novos conhecimentos que entram em contato com a estrutura sensível. Esse processo se daria de forma não aleatória, posto que partiria de escolhas sensíveis e plausíveis, de acordo com os significados construídos ao longo da experiência. Nesse sentido, a experiência de aprendizagem, para ser significativa, deveria estabelecer a relação entre o prévio e o novo, em interações que dependem da escolha e da inclinação dos indivíduos para determinada experimentação que faça sentido e possa ser reconstruída em novos significados a partir da experiência vivida. Trata-se da compreensão sobre o modo como se aprende, ao longo da vida, de forma progressiva, mas não linear, uma vez que poderá ser inibido ou potencializado, de acordo com o contexto e com as condições que motivem ou dificultem a aprendizagem. David Ausubel (1968), em termos teóricos cognitivos, isto é, lançando mão das ferramentas científicas disponíveis na psicologia aplicada, 10 parece reafirmar o que John Dewey (1979) preconizou em sua análise sobre a educação progressista, ou seja, o fato de que os processos de ensino e aprendizagem não podem ser conduzidos de forma mecânica, na simples transmissão e repetição de informações e conhecimentos, mas necessita da experiência com a realidade, em situações que representem desafios e problemas reais, os quais serão vividos na experiência adulta, a fim de que sejam experiências capazes de permitir a construção de significados mais profundos pelos indivíduos. Ausubel (1968), embasado na análise de dados, afirma que, efetivamente, a aprendizagem ocorre dessa forma, à medida que as experiências sejam capazes de motivar a disposição individual por atribuir e construir significados a partir das condições dadas. Para isso, é necessário dispor do conjunto de fatores que levariam a esse processo, desde o acesso aos conhecimentos prévios e passando pelos disparadores emocionais diante da concretude presenciada, pelas articulações cognitivas e lógicas e pelas ferramentas para que a relação entre o anterior e o novo produza sínteses e reconfigurações, as quais seriam oriundas de uma experiência em específico. A teoria de David Ausubel, entretanto, não é recente, tampouco representa uma voz isolada em meio ao contexto da educação. Uma série de outros estudos e de teorias da aprendizagem reafirma a noção de que a educação ocorre ao longo da vida, ou seja, não apenas nos espaços e tempo da escolarização formal ou em processo de assimilação mecânica, nos quais a informação é transmitida e repetida sem a intervenção reflexiva dos indivíduos. Cabe, então, aos educadores, a tarefa de lançar mão desses ferramentais desenvolvidos ao longo do século XX e aprimorados no século XXI para estruturar suas experiências, tendo em vista o real motivo e o objetivo da prática pedagógica, qual seja, proporcionar a 11 aprendizagem no nível máximo permitido pelas condições objetivas, utilizando as ferramentas disponíveis para tanto. Referências bibliográficas AUSUBEL, D. P. Educational psychology: a cognitive view. New York: Holt, Rinehart, and Winston Inc., 1968. DEWEY, J. Experiência e educação. 3. ed. São Paulo: Summus, 1979. SOUSA, C. O; SILVANO, A. M. C.; LIMA, I. P. Teoria da aprendizagem significativa na prática docente. Revista Espacios, [s.l.], v. 39, n. 23, p. 27-38, 2018. TEORIA EM PRÁTICA Considere que você incluiu no planejamento o uso da sala de multimídia, disponível no colégio em que atua, para uma aula diferenciada, a fim de aprofundar o tema que está sendo trabalhado na sequência didática. No entanto, no dia marcado, ao deslocar a classe para a sala previamente reservada, você constatou que os aparelhos não estavam funcionando adequadamente, alguns monitores não ligavam e a rede de internet estava instável. Dessa forma, você não conseguiu iniciar a atividade planejada e a turma começou a ficar inquieta. Pense na situação e faça um esboço, por escrito, sobre os tipos de ação que poderiam ser realizadas em tal circunstância. Reflita: Como conduzir a atividade na falta dos equipamentos? O que deve ser priorizado para que o tempo seja mais bem aproveitado? Para conhecer a resolução comentada proposta pelo professor, acesse a videoaula deste Teoria em Prática no ambiente de aprendizagem. 12 LEITURA FUNDAMENTAL Prezado aluno, as indicações a seguir podem estar disponíveis em algum dos parceiros da nossa Biblioteca Virtual (faça o log in por meio do seu AVA), e outras podem estar disponíveis em sites acadêmicos (como o SciELO), repositórios de instituições públicas, órgãos públicos, anais de eventos científicos ou periódicos científicos, todos acessíveis pela internet. Isso não significa que o protagonismo da sua jornada de autodesenvolvimento deva mudar de foco. Reconhecemos que você é a autoridade máxima da sua própria vida e deve, portanto, assumir uma postura autônoma nos estudos e na construção da sua carreira profissional. Por isso, nós o convidamos a explorar todas as possibilidades da nossa Biblioteca Virtual e além! Sucesso! Indicação 1 Na obra indicada, o autor organiza textos de especialistas nas principais tendências teóricas que fundamentam as práticas na atualidade. Desde a aprendizagem expansiva, passando pela abordagem transformadora até a teoria das múltiplas inteligências de Gardner aplicada à teoria da aprendizagem, assim como a aprendizagem biográfica, entre outras. ILLERIS, Knud (org.). Teorias contemporâneas da aprendizagem.Porto Alegre: Penso, 2013. Indicações de leitura 13 Indicação 2 Na obra indicada, o autor descreve de forma prática e aplicada à realidade as formas de utilização da tecnologia nos ambientes escolares, a importância desse tipo de mediação na atualidade e os princípios e fundamentos que norteiam a interação com os conteúdos tradicionais do ensino. É também a oportunidade de ter contato com modelos de implementação, reflexões sobre as vantagens e desvantagens oriundas de cada ferramenta e algumas projeções sobre as tendências e os desafios para o futuro. MUNHOZ, Antonio, S. Tecnologias educacionais. São Paulo: Saraiva, 2015. QUIZ Prezado aluno, as questões do Quiz têm como propósito a verificação de leitura dos itens Direto ao Ponto, Para Saber Mais, Teoria em Prática e Leitura Fundamental, presentes neste Aprendizagem em Foco. Para as avaliações virtuais e presenciais, as questões serão elaboradas a partir de todos os itens do Aprendizagem em Foco e dos slides usados para a gravação das videoaulas, além de questões de interpretação com embasamento no cabeçalho da questão. 14 1. Considerando o conceito de aprendizagem significativa, é possível afirmar que ela possui como finalidade: a. A compreensão aprofundada sobre os processos que envolvem a aprendizagem, tendo em vista o aprimoramento da prática pedagógica. b. A ressignificação das tendências tradicionais em educação, buscando a aplicação de novas tecnologias. c. A educação progressista, na qual a aprendizagem seja o foco do processo pedagógico, assim como o uso das tecnologias. d. A retomada de valores clássicos, os quais foram substituídos ao longo do século XX por teorias com pouca eficácia e pouco fundamento teórico. e. A ressignificação dos valores clássicos em educação a partir do uso intencional das novas tecnologias. 2. Sobre a teoria da aprendizagem significativa de David Ausubel, é possível afirmar que possui como premissa básica: a. A constatação de que o objetivo central do processo pedagógico é a aprendizagem. b. A percepção sobre a realidade fluída e as descontinuidades características da pós-modernidade. c. A noção de que o conhecimento é inato, sendo preciso então que a aprendizagem produza o acesso a este. d. O princípio da “tábula rasa”, resgatando a tradição empirista sobre a constituição da mente. e. A articulação dialética entre a realidade prática e teórica ao longo do esclarecimento da consciência. 15 GABARITO Questão 1 - Resposta A Resolução: Como visto na seção Para Saber Mais, o conceito de aprendizagem significativa, surgido ao longo da década de 1960, amplia a compreensão sobre a aprendizagem, de modo a descrever as formas de potencialização das experiências pedagógicas, tendo em vista o aprimoramento dos processos. Questão 2 - Resposta A Resolução: Como visto na seção Para saber mais, a teoria da aprendizagem significativa parte da premissa de que os processos pedagógicos, incluindo o ato de ensinar, possuem como principal e última finalidade a promoção da aprendizagem dos estudantes. Nesse sentido, fundamenta- se a importância de desenvolver estudos voltados para o entendimento aprofundado sobre os processos estruturais que possibilitam ou impedem a aprendizagem, sendo preciso estabelecer ações intencionais no sentido de promover a facilitação desta nos processos formativos. O ensino de filosofia no contexto da tecnologia e inovação ______________________________________________________________ Autoria: Alessandro Crisostomo Leitura crítica: Luís Fernando Crespo TEMA 2 17 DIRETO AO PONTO Os pressupostos que sustentam a noção de metodologias ativas estão presentes no pensamento ocidental desde a Modernidade. Eles concentram-se no deslocamento da atenção pedagógica, anteriormente voltada para as técnicas de ensino, para a atenção nos modos e processos de aprendizagem. Esse movimento prevê que haja o desenvolvimento do protagonismo do estudante ao assumir a responsabilidade pelos processos que envolvem sua aprendizagem, o que produziria o efeito de proporcionar a construção da autonomia ao longo do desenvolvimento, atendendo plenamente aos aspectos que envolvem a formação humana, sob uma perspectiva integral. No contexto contemporâneo, ocorreu a aproximação da educação com as ciências cognitivas, de tal forma a possibilitar o desvendamento mais detalhado dos processos que envolvem o desenvolvimento humano, as fases de formação e os modos de aprendizagem. Com o advento das novas tecnologias que impactaram a dinâmica e a organização social como um todo, o campo da educação se deparou com a ampliação das possibilidades técnicas de aprimoramento dos processos pedagógicos, assim como com a exigência de se adaptar às novas prerrogativas sociais que passaram a envolver o domínio da linguagem tecnológica. No tocante ao campo da educação, é importante considerar os fatores históricos e culturais, os quais podem justificar condições de facilitação ou de resistência em relação ao envolvimento com os métodos ativos de aprendizagem e ao uso das novas tecnologias disponíveis. No Brasil, o histórico sociopolítico constituído da sucessão de modelos autoritários parece ter produzido efeitos importantes sobre o modo de organização dos processos formativos. Atrelado a esse fator, somam-se condições de imensa 18 desigualdade social e de acesso à cultura, o que produz o efeito de permitir contextos em que é viabilizado um alto nível de sofisticação nos processos pedagógicos em paralelo às condições de imensa precariedade e falta de acesso aos itens básicos para a aprendizagem, quando não para a sobrevivência. O ensino de filosofia está imerso nesse contexto característico do século XXI, no qual ocorreu a transição da atenção pedagógica, atualmente concentrada no aprimoramento das técnicas para potencializar os processos de aprendizagem e permitir o maior protagonismo dos estudantes. A despeito das contradições observadas no cenário nacional, existiria, em termos gerais, a exigência comum para que os componentes curriculares inseridos no currículo escolar da educação básica estabeleçam uma relação direta com as metodologias ativas e façam o movimento na direção de inserir, na medida do possível, as novas tecnologias nas práticas pedagógicas. Nesse sentido, os especialistas em filosofia tendem a lidar com o conflito, no qual é preciso articular a exigência de se aderir às características do contexto escolar e a tradição de estudo apreendida no campo acadêmico, com suas especificidades e resistências. Dessa forma, propõe-se, na experiência de ensino e aprendizagem em filosofia, a via reflexiva, devendo ser desenvolvida a análise crítica sobre o contexto e as ferramentas disponíveis para o desenvolvimento pedagógico. Isso implicaria na manutenção do espírito investigativo, nutrido pela formação continuada e por pesquisas no campo teórico e a experimentação no campo prático, de modo a articular a teoria com a prática, na análise das condições concretas envolvidas no cenário particular de cada experiência, o que seria potencializado na interação com debates e estudos coletivos com as equipes pedagógicas. 19 Contudo, anteriormente à efetiva realização das práticas pedagógicas, faz-se necessário o planejamento criterioso na construção do currículo que norteará a experiência. Em tal construção, está prevista a ordenação das competências essenciais que estarão envolvidas nas propostas, assim como os objetivos, gerais e específicos, que serão intencionados ao longo do processo. Além disso, é importante considerar as possíveis interações entre os elementos internos que compõem a matéria, como os saberes prévios, e as possíveis relações com os saberes de outras áreas de conhecimento. A partir dessas definições, considera-se a escolha de ferramentas e técnicas, tendo em vista a potencialização da aprendizagem, assim como a redução do esforço desnecessário, o que, por sisó, permitiria o investimento de tempo na elaboração criativa de novas propostas. Na contemporaneidade, o campo da educação aprimorou a noção de hibridismo como um meio de potencializar os resultados almejados nos planejamentos pedagógicos. Trata-se da mistura intencional de dimensões distintas que compõem a realidade escolar, com o objetivo de explorar as técnicas e as ferramentas disponíveis para obter o maior aproveitamento das experiências propostas. Constitui-se na articulação que vai além do debate sobre a distinção entre aulas presenciais ou aulas on-line, pois requer, como princípio, a ruptura com os modelos tradicionais de ensino, tendo o deslocamento do protagonismo para os estudantes e o foco concentrado na compreensão sobre os meios e os modos de aprendizagem ao longo do processo formativo. Requer ainda o investimento em técnicas de aprendizagem que combinem dimensões distintas com o intuito de extrair maior valor de cada experiência, com o auxílio da tecnologia. Em suma, no hibridismo, considera-se as transformações nos paradigmas que determinam a dinâmica das atividades pedagógicas para tornar possível imprimir diferentes combinações, de acordo 20 com o contexto e as condições de cada realidade. A depender da disponibilidade de espaços e ferramentas técnicas e da disposição humana para a pesquisa e a implementação das alternativas, são consideradas diferentes combinações no tocante à organização das pessoas e dos espaços físicos ou virtuais e, sobretudo, aos “papéis” que serão exercidos pelos “atores” que integram a experiência. Dessa forma, o protagonismo na coordenação, produção ou pesquisa passaria a ser compartilhado com os estudantes, ao passo que o suporte na orientação, tutoria e mediação, isto é, uma função “por trás das câmeras” por assim dizer, seria assumido com mais ênfase pelos educadores, no sentido de viabilizar as condições necessárias e suficientes para a conclusão dos projetos. Figura 1 – Hibridismo Fonte: elaborada pelo autor. Referências bibliográficas BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018. 21 PARA SABER MAIS A sala de aula invertida constitui uma das alternativas técnicas que contemplam as premissas defendidas pela noção de metodologias ativas. A transição do protagonismo, dos educadores para os estudantes, e o foco central da experiência pedagógica no entendimento e na potencialização da aprendizagem são observados nessa técnica, a qual possui características muito adequadas tanto na implementação da perspectiva ativa no uso de metodologias como na interface com as tecnologias. A inversão da sala de aula representa inicialmente a reorganização do planejamento tradicional, de modo a atribuir aos estudos individuais, em casa, o que seria proposto em sala de aula e, ao contrário, realizar em sala de aula aquilo que normalmente era atribuído como tarefa de casa. Esse tipo de inversão foi potencializado pelo uso de novas tecnologias, a começar pela facilidade que os educadores encontram na atualidade para produzir vídeos com a explanação do conteúdo, ou mesmo para selecionar e compartilhar por meio de links, em plataformas compartilhadas, a sequência de vídeos para estudo particular em casa. Entretanto, a proposta da sala de aula invertida vai além da simples visualização de vídeos antes das aulas e a realização de tarefas práticas. O estudo preliminar, por exemplo, não precisa necessariamente ser feito por meio de vídeos. Embora seja mais comum o uso de videoaulas pontuais, outras ferramentas, como o próprio texto escrito, jogos, interações ou pesquisas, podem servir ao intuito de oferecer a base estrutural para a continuidade da sequência em aula. Outro ponto a considerar é o redimensionamento da própria aula. Ocorre que, ao rearticular o modelo de ensino e aprendizagem, 22 o tempo de aula, seja presencial ou on-line – por meio de videochamadas síncronas –, também será alterado estruturalmente. Assim, o ponto focal dessa proposta se dá na compreensão de que o protagonismo e a responsabilidade pela aprendizagem devem ser assumidos pelos estudantes, ao passo que cabe aos educadores o planejamento da experiência, a fim de garantir que todas as ferramentas e condições estejam disponíveis. Jonathan Bergmann e Aaron Sams (2018, p. 12) descrevem a técnica da sala de aula invertida a partir da experiência pessoal com suas turmas. Em seus relatos sobre possibilidades e dificuldades, evidenciam detalhes importantes para ser observados, caso haja a pretensão de adotar a mesma técnica. É claro que não se trata de uma receita pronta, na qual existem todos os elementos idealmente dispostos com a garantia de sucesso se forem aplicados da forma prescrita. Os autores recomendam – e fazem – a constante pesquisa, experimentação e reflexão sobre suas práticas, de modo a aprimorar o que potencialmente daria certo ou abandonar o que não se mostrou promissor. Sendo assim, parece não ser adequada à técnica da sala de aula invertida a manutenção dos pressupostos tradicionais de ensino, nos quais os educadores devem deter o poder de acesso e compartilhamento do conhecimento, assim como a condução centralizada das experiências em contato com os estudantes. Seria preciso também a inversão dos pressupostos teóricos que sustentam a atividade, migrando para modelos em que a aprendizagem é tomada como objeto central, em simulações da realidade nas quais os estudantes assumam a responsabilidade e o protagonismo sobre sua aprendizagem e, em parceria com os educadores, lancem mão das ferramentas disponíveis para chegarem aos objetivos propostos. 23 Referências bibliográficas BERGMANN, Jonathan; SAMS, Aaron. Sala de aula invertida: uma metodologia ativa de aprendizagem. Rio de Janeiro: LTC, 2018. TEORIA EM PRÁTICA Considere que você, educador especialista em filosofia, pretende experimentar a aplicação dos princípios das metodologias ativas, alinhados ao uso de tecnologias educacionais, em sala de aula. Contudo, a escola não dispõe dos recursos ideais para a prática, contando apenas com uma sala de informática com poucos computadores conectados à rede, um número reduzido de tablets disponíveis para o uso em aulas, além de uma biblioteca com um acervo geral de livros didáticos. Soma-se a isso o fato de a turma ser numerosa. Diante desse cenário, reflita: Como você lidaria com a situação? Quais alternativas poderiam ser exploradas para se chegar ao objetivo almejado, qual seja, desenvolver experiências pedagógicas em que sejam relacionadas as tecnologias educacionais disponíveis com os princípios das metodologias ativas? Escreva um texto com o ensaio de suas reflexões e proposições sobre o tema. Para conhecer a resolução comentada proposta pelo professor, acesse a videoaula deste Teoria em Prática no ambiente de aprendizagem. 24 LEITURA FUNDAMENTAL Prezado aluno, as indicações a seguir podem estar disponíveis em algum dos parceiros da nossa Biblioteca Virtual (faça o log in por meio do seu AVA), e outras podem estar disponíveis em sites acadêmicos (como o SciELO), repositórios de instituições públicas, órgãos públicos, anais de eventos científicos ou periódicos científicos, todos acessíveis pela internet. Isso não significa que o protagonismo da sua jornada de autodesenvolvimento deva mudar de foco. Reconhecemos que você é a autoridade máxima da sua própria vida e deve, portanto, assumir uma postura autônoma nos estudos e na construção da sua carreira profissional. Por isso, nós o convidamos a explorar todas as possibilidades da nossa Biblioteca Virtual e além! Sucesso! Indicação 1 A obra indicada possui como característica o detalhamento preciso sobre a técnica, a partir da experiência com a educação de jovens e adultos e cursos de graduação e pós-graduação. Embora surgidas no contexto da andragogia, as reflexões podem ser ampliadas para outras etapas da formação, em especial no ensinobásico, em que se considera a implementação de metodologias ativas com a interface de tecnologias educacionais. MUNHOZ, Antonio S. APB – Aprendizagem Baseada em Problemas: ferramenta de apoio ao docente no processo de ensino e aprendizagem. São Paulo: Cengage Lerning, 2015. Indicações de leitura 25 Indicação 2 Os autores da obra indicada, após a contextualização da temática, oferecem a descrição de várias estratégias alinhadas às premissas das metodologias ativas. Trata-se de uma abordagem direta e prática sobre as técnicas disponíveis para a aplicação em sala de aula, a fim de ampliar consideravelmente o acervo de opções a serem consideradas no aprimoramento das aprendizagens ativas vinculadas ao uso das tecnologias educacionais. CAMARGO, Fausto; DAROS, Thuinie. A sala de aula inovadora: estratégias pedagógicas para fomentar o aprendizado ativo. Porto Alegre: Penso, 2018. QUIZ Prezado aluno, as questões do Quiz têm como propósito a verificação de leitura dos itens Direto ao Ponto, Para Saber Mais, Teoria em Prática e Leitura Fundamental, presentes neste Aprendizagem em Foco. Para as avaliações virtuais e presenciais, as questões serão elaboradas a partir de todos os itens do Aprendizagem em Foco e dos slides usados para a gravação das videoaulas, além de questões de interpretação com embasamento no cabeçalho da questão. 26 1. Sobre as premissas que sustentam a aplicação da técnica de sala de aula invertida, é possível afirmar que: a. Exigem o detalhamento estratégico no planejamento das experiências, de tal modo a determinar as etapas e os modos de aprendizagem. b. Pressupõem que os estudantes já tenham em si os conhecimentos, necessitando apenas resgatá-los. c. Consideram que é preciso inverter a ordem sem alterar os princípios clássicos e consagrados da educação. d. Determinam que os estudantes assumam a responsabilidade integral pelo processo de aprendizagem. e. Supõem que a aprendizagem é mais efetiva quando realizada isoladamente, em ambientes particulares. 2. Acerca da prática da sala de aula invertida, é possível afirmar que: a. Inverte o modelo tradicional e requer a reestruturação do planejamento, no tocante ao tempo e ao espaço dedicados ao aprofundamento. b. Limita-se à inversão do modelo tradicional, sem a alteração dos modos de condução das aulas. c. Exige a inserção de vídeos e a implementação de tecnologias compatíveis com tendências mais inovadoras em educação. d. Determina que toda a instrução seja realizada em casa, não sendo necessária a presença dos educadores. e. Tende a ser mais eficiente quando praticada no modelo EaD (Ensino a Distância), devido ao uso intenso da tecnologia. 27 GABARITO Questão 1 - Resposta A Resolução: Como visto na seção Para Saber Mais, a técnica da sala de aula invertida está incluída entre as opções que compõem o conjunto das metodologias ativas. Ela tem como premissa a compreensão ampla, com a contribuição das ciências, sobre os modos e processos de aprendizagem, de tal forma a determinar, a partir da experiência dos estudantes, os melhores meios para potencializar o processo formativo. Questão 2 - Resposta A Resolução: Como visto na seção Para saber mais, a prática da sala de aula invertida começa pela inversão do planejamento tradicional, mas não se resume à simples alternância de etapas. Com o maior tempo disponível nas aulas presenciais – ou on- line de forma síncrona –, exige que os educadores reestruturem o tempo e o espaço disponíveis para veicular propostas de aprofundamento, experimentações, discussões e exercícios práticos orientados, a fim de aproveitar o tempo disponível na ampliação da aprendizagem. Temas filosóficos no cotidiano e a interação com as novas metodologias e tecnologias ______________________________________________________________ Autoria: Alessandro Crisostomo Leitura crítica: Luís Fernando Crespo TEMA 3 29 DIRETO AO PONTO A educação contemporânea apresenta princípios oriundos do pensamento moderno, os quais serviram para balizar os objetivos formativos da atualidade. Nota-se, na estrutura da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a centralidade da noção de formação integral, vinculada à premissa de que a educação deve fornecer meios para que os estudantes construam a capacidade de pensar autonomamente. O campo da Lógica se destaca como uma área específica do saber filosófico, na qual, ao longo da história do pensamento ocidental, desenvolveu técnicas para ordenar, desconstruir, reorganizar e interpretar os discursos oriundos da racionalidade, de tal modo a constituir regras precisas para determinar a validade ou falsidade de determinada afirmação ou justificativa. No contexto da educação, ela pode ser interpretada como o conjunto de técnicas que atravessam os discursos e auxiliam na interpretação das narrativas construídas nas diversas áreas do conhecimento. Assumindo a dinâmica interdisciplinar proposta no contexto pedagógico contemporâneo e, notadamente, na BNCC, esse campo específico do saber filosófico pode auxiliar na construção de competências importantes, ligadas à argumentação e comunicação. Amplia-se, desse modo, a perspectiva sobre a área, saindo do contexto restrito do pensamento abstrato para se aplicar na relação dinâmica com a realidade em suas diversas configurações. A Teoria do Conhecimento é outro campo de estudo da filosofia que tende a extrapolar as questões imediatas do cotidiano, constituindo- se no processo de metacognição. Ela investiga o conhecimento e produz saberes sobre o próprio saber, habitando, assim, a cultura ao longo da história e na atualidade. Contudo, diferentemente da Lógica, na qual existe o aprofundamento no próprio discurso e 30 nas regras intrínsecas que determinam a validade ou falsidade das sentenças, afirmações e, em última instância, conclusões, a Teoria do Conhecimento amplia a perspectiva ao vincular sua investigação com questões que remetem a problemas históricos, éticos, estéticos etc. Do mesmo modo que na Lógica, a abordagem da Teoria do Conhecimento no contexto da educação básica parece exigir dos especialistas a capacidade crítica e criativa de estabelecer conexões com a realidade vivenciada pelos estudantes, de tal forma a identificar os problemas que são originados nesses campos específicos do entendimento e encontram-se presentes, ainda que de forma implícita, nas experiências com a realidade. O processo de investigação sobre o próprio conhecimento configura-se em uma experiência de abstração, na qual, entretanto, é possível que esteja previsto como objetivo final o esclarecimento de problemas para os quais os instrumentos práticos não são suficientes. Por isso são importantes o trabalho interdisciplinar e o planejamento pautado por finalidades claras, tendo em vista o desenvolvimento das competências essenciais e a formação integral. A Metafísica representa uma área específica do saber filosófico, na qual a simples transmissão da linguagem acadêmica para a sala de aula colocaria em questão sua validade ou relevância para o processo de aprendizagem, ou para a formação integral dos estudantes. No campo de reflexão, configurou-se que pretende dar conta de questões que não são passíveis de serem resolvidas nas demais matérias, dado o teor abstrato e a amplitude das temáticas que aborda. Na Metafísica, amplia-se o foco de investigação de modo a atravessar os contextos específicos com questões que remetem às raízes do conhecimento, aos princípios e às relações entre dimensões distintas. Nesse sentido, problemas verificáveis 31 nas relações do cotidiano, como a liberdade em oposição ao determinismo, não são passíveis de serem resolvidos em termos concretos, pois exigiriam uma análise mais ampla, de ordem teórica, na qual são estabelecidas as relações entre os princípios do conhecimento, as estruturas da linguagem, os fatores sócio- históricos, entre outros. As discussões metafísicas, assim comoas demais áreas do saber filosófico, ainda que tenham suas características específicas, poderiam ser reinterpretadas no contexto pedagógico da educação contemporânea, em que os objetivos são projetados para a interação entre áreas distintas do conhecimento, a compreensão e apropriação de instrumentos capazes de permitir a interação dos estudantes com a realidade objetiva. São problemas a partir dos quais – a depender da forma como são configurados na realidade escolar – haveria ocasião para suscitar o questionamento investigativo e crítico, por meio de provocações que extrapolam a dimensão da prática e da imediaticidade e não se encerram em uma única área do saber, seja filosófico, científico, artístico ou religioso. O conjunto de técnicas de aprendizagem que compõem as metodologias ativas em educação se destaca na função de estabelecer a relação dinâmica entre a teoria e a prática, assim como entre as áreas distintas do conhecimento. Esse é um resultado de longo processo histórico, desde a transição do século XIX para o século XX, no qual os modelos tradicionais de ensino foram colocados em questão e confrontados pela perspectiva de que a centralidade do processo formativo deveria se concentrar no entendimento profundo sobre o desenvolvimento cognitivo e no aprimoramento dos métodos de aprendizagem. Nesse contexto, exige-se o esforço pedagógico, no qual se desenvolve a reorientação dos saberes, reconstituídos em novas plataformas mais adequadas ao contexto escolar. Atualmente, os 32 recursos tecnológicos oferecem meios que permitem a redução do esforço e a potencialização de tais experiências. Nestas, as especificidades, sejam filosóficas ou científicas, cedem espaço para a interação em torno de problemas comuns às áreas e atravessam as experiências humanas, envolvendo tanto a dimensão prática como a teórica. Contudo, não se trata do abandono de conceitos e princípios essenciais na caracterização de determinados saberes, mas do movimento por meio qual são identificados e explorados os pontos de conexão, em torno de problemas que remetem à realidade, ao cotidiano e às questões desafiadoras da sociedade. Por fim, o avanço no desenvolvimento de recursos tecnológicos e a aplicação destes como ferramentas educacionais permitiram que dimensões, anteriormente vivenciadas em tempos e momentos distintos, fossem combinadas em propostas híbridas, nas quais se articulam de forma dinâmica os aspectos do teórico e do prático, assim como as dimensões do físico e do digital, o encontro síncrono e assíncrono, a relação entre o individual e o coletivo. São experiências desafiadoras, tanto no sentido de compreensão sobre a amplitude de possibilidades contidas em cada recurso como nos limites e efeitos potencialmente indesejados que o uso excessivo, ou mal direcionado, das tecnologias poderia provocar. 33 Figura 1 – Ensino de filosofia e as metodologias ativas Fonte: elaborada pelo autor. Referências bibliográficas BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018. BRASIL. Ministério da Educação. Programa de apoio ao novo ensino médio – Documento orientador. Brasília: MEC, 2018. COSTA, Max W. A; MELO, Thiago B. Uma introdução à metafísica. Curitiba: Intersaberes, 2015. GALLO, Silvio. Metodologia do ensino de filosofia: Uma didática para o ensino médio. Campinas: Papirus, 2020. KANT, Immanuel. Sobre a pedagogia. Piracicaba, SP: Unimep, 1996. MOSER, Alvino; LOPES, Luís F. Para compreender a teoria do conhecimento. Curitiba: Intersaberes, 2016. VELASCO, Patrícia Del Nero. Educando para a argumentação: contribuições do ensino da lógica. Belo Horizonte: Autêntica, 2010. PARA SABER MAIS A Aprendizagem Baseada em Problemas (ABP) surgiu como uma das possibilidades no conjunto de metodologias ativas desenvolvidas na contemporaneidade. Vinculada ao movimento 34 mais amplo, que rompe com os modelos tradicionais de ensino para dedicar-se à centralidade da experiência pedagógica nos processos de aprendizagem, trata-se da construção de roteiros que tenham como norteadores problemas oriundos da realidade. Os estudantes, individualmente e em grupos, com o apoio dos educadores, assumem o protagonismo do processo em que ocorre a sistematização dinâmica das questões para se chegar à resolução do problema. De acordo como Helbe Herarth (2020, p. 8), a ABP foi inicialmente experimentada no contexto da graduação em Medicina, surgida na década de 1960 e aplicada nas escolas de medicina da MacMaster University, no Canadá. Depois disso, ampliou-se para os Estados Unidos e a Europa, firmando-se como uma das alternativas eficientes para a potencialização dos processos de aprendizagem centrados no protagonismo dos estudantes. No Brasil, começou a ser implementada em meados da década de 1990, em instituições do Paraná e São Paulo, ainda em caráter experimental, a partir da articulação com os currículos já existentes. Gradativamente, a ABP foi assumida também na educação básica devido ao caráter de atribuir aos estudantes o protagonismo e, por conseguinte, a responsabilidade pelo processo de aprendizagem. São princípios centrais para a delimitação da educação no contexto da contemporaneidade, corroborados por documentos internacionais, como Os Quatro Pilares Essenciais à Educação do futuro promovido pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), os quais encontram repercussão nas diretrizes nacionais para a educação, em especial na BNCC e nas diretrizes para o Novo Ensino Médio. A experiência de ensino e aprendizagem em filosofia, assim como os demais componentes curriculares, precisou se reinventar diante das novas tendências em educação e da ruptura com os modelos 35 tradicionais de ensino. Os educadores especialistas nessa área se veem desafiados a construir mediações que sejam capazes de conectar os modelos teóricos apreendidos no âmbito acadêmico ao contexto escolar, articulando, assim, as delimitações da educação contemporânea às especificidades da própria área. Um exemplo disso é descrito por Prudente, Mercado e Matias (2015, p. 8) na aplicação da APB na sistematização das disciplinas filosóficas. Os autores relatam que, em uma turma de 32 estudantes, realizou-se a divisão por subtemas em referência a um tema gerador central. Cada grupo então ficou responsável por analisar e delimitar um problema específico dentro do subtema, ou seja, cabível ao contexto correspondente. Depois do cumprimento de etapas internas, nas quais deveriam organizar funções e subetapas para a resolução do problema, como pesquisa, discussão, sistematização e resultados, os grupos passavam a interagir a partir dos problemas e das soluções, promovendo intersecções e complementaridades em torno do tema central. Não é uma tarefa simples, posto que o contexto filosófico no âmbito acadêmico, devido ao caráter eminentemente teórico das discussões, preserva ainda, em grande medida, o modelo tradicional de ensino, pautado no protagonismo dos professores. Nesse sentido, caberia aos educadores especialistas que atuam na educação básica o exercício de traduzir os modelos teóricos para problemáticas que sejam relacionadas e repercutidas na realidade dos estudantes. Em outras palavras, caberia trazer problemas que se apresentam na esfera da experiência com o pensamento e com a ação, os quais são eminentemente filosóficos e, entretanto, exigiriam a reconfiguração criativa dos termos para que fossem considerados relevantes pelo público em questão. A proposta da ABP aplicada à experiência do ensino e da aprendizagem em filosofia parece fazer jus aos princípios da 36 reflexão e da construção do pensamento filosófico, uma vez que aponta para processos nos quais se abrem possibilidades para a recriação de problemas fundamentais da história da filosofia, os quais, em essência, são atemporais. Em última instância, contempla em si a possibilidade de exercitar a formulaçãodinâmica dos conceitos, não mais como “letra morta”, mas como instrumentos para a decodificação de desafios e provocações oriundos da realidade, fazendo com que os estudantes, na elaboração de trilhas independentes de pensamento, entrem em contato com o potencial emancipatório da experiência filosófica. Referências bibliográficas BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018. BRASIL. Ministério da Educação. Programa de apoio ao novo ensino médio – Documento orientador. Brasília: MEC, 2018. HERARTH, H. H. Aprendizagem baseada em problemas. Curitiba: Contentus, 2020. PRUDENTE, T. P.; MERCADO, L. P. L.; MATIAS, W. O uso de metodologias ativas com TIC no ensino de disciplinas filosóficas: a ABP nos estudos filosóficos. Actas, [s.l.], v. 3, 2015. TEORIA EM PRÁTICA Considere que você, educador especialista em filosofia, notou que as turmas do 1º ano do Ensino Médio estão desmotivadas e não encontram significado ou importância na discussão teórica sobre os temas filosóficos oriundos do campo da metafísica. Tendo em vista o uso de metodologias ativas e os recursos tecnológicos atualmente disponíveis: 37 Faça o esboço de algumas ações pedagógicas possíveis, tendo como objetivo atrair o interesse e desenvolver experiências significativas de aprendizagem com os temas em questão. Para conhecer a resolução comentada proposta pelo professor, acesse a videoaula deste Teoria em Prática no ambiente de aprendizagem. LEITURA FUNDAMENTAL Prezado aluno, as indicações a seguir podem estar disponíveis em algum dos parceiros da nossa Biblioteca Virtual (faça o log in por meio do seu AVA), e outras podem estar disponíveis em sites acadêmicos (como o SciELO), repositórios de instituições públicas, órgãos públicos, anais de eventos científicos ou periódicos científicos, todos acessíveis pela internet. Isso não significa que o protagonismo da sua jornada de autodesenvolvimento deva mudar de foco. Reconhecemos que você é a autoridade máxima da sua própria vida e deve, portanto, assumir uma postura autônoma nos estudos e na construção da sua carreira profissional. Por isso, nós o convidamos a explorar todas as possibilidades da nossa Biblioteca Virtual e além! Sucesso! Indicação 1 Os autores do livro indicado se dispõem a discutir o contexto da educação na interface com as novas tendências tecnológicas. Em capítulos independentes, será possível refletir sobre aspectos Indicações de leitura 38 diversos da sociedade contemporânea, os quais estão envolvidos com o modo como os estudantes aprendem na atualidade. Questões sobre a pós-modernidade, a formação dos professores e os métodos ativos de aprendizagem se relacionam às novas tecnologias assumidas em sala de aula na abordagem de temas cotidianos. SOARES, Eliana. M. S.; PETARNELLA, Leandro (org.). Experiências educativas no contexto digital: algumas possibilidades. Caxias do Sul: Educs, 2013. Indicação 2 Na obra indicada, a autora traça um panorama amplo e detalhado sobre as metodologias ativas, desde a origem do conceito até a contextualização com a atualidade e os diversos tipos e possibilidades de aplicação. Trata-se de uma organização simples e clara, na qual o leitor é levado a presenciar, na própria construção dos textos, a aplicação dos modelos teóricos que sustentam a proposta do desenvolvimento ativo da aprendizagem. BACARIN, Lígia. M. B. P. Metodologias ativas. Curitiba: Contentus, 2020. QUIZ Prezado aluno, as questões do Quiz têm como propósito a verificação de leitura dos itens Direto ao Ponto, Para Saber Mais, Teoria em Prática e Leitura Fundamental, presentes neste Aprendizagem em Foco. 39 Para as avaliações virtuais e presenciais, as questões serão elaboradas a partir de todos os itens do Aprendizagem em Foco e dos slides usados para a gravação das videoaulas, além de questões de interpretação com embasamento no cabeçalho da questão. 1. Acerca dos princípios que norteiam a ABP, é correto afirmar que: a. Inscreve-se no conjunto das metodologias ativas, em que se estabelece a ruptura com os modelos tradicionais de ensino, tendo o foco na aprendizagem. b. Pressupõe o conjunto de técnicas tradicionais de ensino, ainda que reconfiguradas no contexto contemporâneo. c. Determina que os estudantes devem construir a capacidade de autogestão sem nenhum tipo de interferência ou apoio dos educadores. d. Estabelece que os conhecimentos essenciais do acervo cultural e histórico devem orientar os estudos e determinar a construção dos currículos escolares. e. Considera que a aprendizagem ocorre por meio da construção de habilidades técnicas, não sendo necessária a abordagem direta dos conteúdos. 40 2. Considerando a aplicação da ABP no contexto da experiência de ensino e aprendizagem em filosofia, é possível afirmar que: a. Exige dos educadores o exercício de reinterpretação das questões oriundas do meio acadêmico para o contexto escolar e a relação com as temáticas do cotidiano. b. Depende da elaboração de norteadores e sistematizações a partir de propostas desenvolvidas em materiais didáticos especializados. c. Devido à eficiência do método, é capaz de disponibilizar a transmissão direta dos conceitos e das questões teóricas, assim como foram desenvolvidas no campo acadêmico. d. Permite desconsiderar as questões oriundas do contexto teórico, a fim de enfatizar os problemas do cotidiano e desenvolver opiniões a partir dos consensos e das narrativas comuns. e. Exige a utilização de aulas expositivas e métodos tradicionais de ensino, dedicados a consolidar a aprendizagem e garantir a sistematização de cada etapa. GABARITO Questão 1 - Resposta A Resolução: Como visto na seção Para Saber Mais, a ABP corresponde a uma entre outras técnicas inscritas nas metodologias ativas. Estas possuem como característica comum, além da ruptura com os modelos tradicionais de ensino, a centralidade no desenvolvimento da aprendizagem, dedicando-se, assim, a aprimorar as ferramentas que se destinam a potencializar os processos de compreensão sobre os temas, os conteúdos e o desenvolvimento de competências essenciais. 41 Questão 2 - Resposta A Resolução: Como visto na seção Para saber mais, os educadores especialistas em filosofia precisariam desenvolver a capacidade de mediação entre as temáticas acadêmicas e as questões inerentes ao contexto escolar e ao cotidiano dos estudantes. Nesse sentido, a ABP apresenta-se como uma alternativa viável para a reconstrução dos problemas teóricos na prática de sala de aula, assim como para a ressignificação de conceitos que estariam restritos à pesquisa, contando, desse modo, com a participação ativa dos estudantes. Ética, Política e Estética: delimitações de temas no cotidiano ______________________________________________________________ Autoria: Alessandro Crisostomo Leitura crítica: Luís Fernando Crespo TEMA 4 43 DIRETO AO PONTO A relação entre ética e educação remete ao problema histórico sobre como a cultura se desenvolve ao longo dos tempos nas sociedades. O campo da educação, por atuar diretamente no desenvolvimento individual, com impactos coletivos, teria um lugar de destaque nessa construção histórica, de tal forma a reforçar ou enfraquecer determinados aspectos, sejam eles de conteúdos formais, comportamentos, valores ou habilidades, ou, ao contrário, enfraquecer e reduzir o escopo de certos aspectos da cultura que se julguem inadequados. Nesse sentido, a educação é permeada por objetivos éticos, além dos ordenamentos específicos para o desenvolvimento das atividades, isto é, os determinantes de convivência comuns a qualquer local, como empresas ou ambientes públicos. Tais objetivos, de acordo com a reflexão sobre como se desenvolveu historicamente a sociedade, apontam para a aplicação de esforços em ações que permitam a intervenção sobre os comportamentos e as microrrelações sociais ali observados. Essas ações podem, em linhas gerais,pretender o efeito de reforçar certos valores constituídos ou transformar as estruturas consolidadas. Destaca-se o lugar da filosofia no contexto escolar, devido a sua dominância no que diz respeito à discussão sobre os objetivos éticos. As aulas de filosofia, por sua composição teórica e histórica, teriam a responsabilidade de representar a ocasião privilegiada, na qual seria possível analisar com maior rigor, e, eventualmente, problematizar as normas e os costumes observados na sociedade. Para além dessa dimensão analítica da sociedade externa, isto é, fora do ambiente escolar, existiria ainda o potencial de estabelecer ocasiões para a autorreflexão sobre as estruturas internas que 44 norteiam a convivência na comunidade escolar e o modo como estas refletem o contexto mais abrangente da sociedade. Dessa forma, é possível atribuir ao contexto do ensino ativo em filosofia a potencialidade de romper com o ensino tradicional, seja o enciclopedista, voltado para a transmissão e a assimilação de conteúdos, seja o tecnicista, dedicada ao desenvolvimento de habilidades básicas para a mão de obra produtiva. Esse aspecto ativo da experiência filosófica, no que tange aos objetivos éticos, permitiria a investigação radical dos saberes e valores, vinculada à produção dinâmica de conceitos que atribuam significado à realidade vivida, a partir dos processos de cooperação entre educadores e estudantes. A perspectiva da formação política em filosofia remonta aos primórdios dessa área de conhecimento. À medida que a sociedade grega, na Antiguidade, abandonou gradativamente os modelos despóticos para assumir estruturas mais descentralizadas de poder, esteve presente a discussão sobre a consciência política, intimamente vinculada à reflexão sobre a ética, isto é, o debate sobre como determinar os valores e os princípios que sirvam como norteadores do comportamento individual, mas tendo em vista a coletividade e os possíveis sistemas de exercício do poder. A experiência do ensinar e aprender filosofia a partir de temas políticos partiria de duas matrizes de investigação: a histórica e a atual. De um lado, estaria a análise crítica sobre os eventos que fizeram parte das transformações na sociedade e a alternância de modelos políticos, de acordo com cada contexto, e, do outro, a discussão a partir dos dados obtidos na realidade imediata, nos acontecimentos do momento presente, e o processo analítico de expor os meandros das estruturas de poder em vigência. 45 O posicionamento político em educação não significa a tomada de partido em favor de determinado projeto político-ideológico. Trata-se do enfrentamento de problemas imanentes às relações sociais, os quais emergem na dinâmica da própria escola. Nesse sentido, a abordagem política permite aos educadores, e, com maior profundidade, aos filósofos a possibilidade de analisar criticamente as questões surgidas na realidade, buscando, assim, a fundamentação teórica e a compreensão da complexidade envolvida em tal fenômeno, ou seja, serviria como disparadores de experiências pedagógicas mais amplas. Dessa maneira, destaca-se o uso da Aprendizagem Baseada em Problemas (ABP) como método ativo de abordagem nas questões de caráter político. A partir de disparadores obtidos nas mídias formais e informais, seria possível, por meio do uso dos TICs (Tecnologias de Informação Comunicação), potencializar o acesso aos diferentes formatos sobre a informação, inclusive de acordo com versões distintas sobre o mesmo fato. A experiência pedagógica, iniciada com os elementos inerentes ao contexto vivido pelos estudantes e educadores, seguiria para a identificação e a interpretação dos problemas em suas diversas dimensões e aspectos, conduzindo, assim, para uma investigação ampla e significativa a respeito das estruturas e dos detalhes que compõem o fenômeno, tanto em sua historicidade quanto em sua apresentação imediata. Tal procedimento se encaminharia, por fim, à produção de resultados que indicassem o nível de compreensão e construção conceitual sobre a realidade e à possibilidade de intervenção crítica sobre esta. No que diz respeito à reflexão sobre os temas da estética filosófica, há que se considerar o lugar que esse tipo de discussão ocupa no contexto pedagógico. Para que e como desenvolver a sensibilidade artística? Qual o lugar ocupado pela arte na vida e no desenvolvimento das pessoas? Quais os determinantes estéticos que influenciam diretamente o processo formativo e de que modo 46 os contemplar ao longo das investigações filosóficas em conjunto com os estudantes? São provocações que indicam o terreno fértil representado pelo campo da estética no interior dos projetos pedagógicos. Tal potencialidade, entretanto, enfrentaria impedimentos e dificuldades conjunturais, as quais exigiriam o esforço de reestruturação dos contextos, de tal forma a permitir uma abordagem mais ampla sobre os temas propostos. Alguns elementos ainda presentes em determinados contextos da educação, como a hipervalorização do aspecto técnico, a ênfase no treinamento de habilidades práticas ou o ensino enciclopedista e propedêutico, produziriam o efeito prático de reduzir os espaços que poderiam ser ocupados por outras áreas no desenvolvimento amplo e integral dos sujeitos, como é previsto nas diretrizes gerais de educação. A abordagem filosófica sobre a estética, portanto, exigiria a concepção integral acerca do processo formativo, de tal forma a propor o desenvolvimento conjunto das competências e habilidades, preferencialmente em projetos interdisciplinares. Em meio a esse contexto, o lugar da estética na formação humana, situado no intervalo entre a experiência imediata dos sentidos e a formulação lógico-formal, entre o prático e o teórico, a experiência irrefletida e a elaboração conceitual, poderia ser contemplado em propostas que tenham por objetivo estabelecer as conexões entre as diferentes dimensões da realidade, na construção de competências essenciais. Para tal finalidade, o uso das novas tecnologias de informação e comunicação pode ser um facilitador dos processos e potencializador dos resultados, ainda que não substitua as outras demandas referentes à construção pedagógica, como o planejamento minucioso e a competência didático-metodológica. 47 Figura 1 – O processo significativo de aprendizagem em filosofia Fonte: elaborada pelo autor. PARA SABER MAIS A Aprendizagem Baseada em Projetos (ABP) surgiu como resposta aos desafios impostos pela sociedade contemporânea, no tocante às transformações profundas no mercado de trabalho, na dinâmica da vida cotidiana e nas relações interpessoais. Desde o começo da década de 1980, em especial nos Estados Unidos, alertava-se para o impacto que as mudanças atribuídas às novas tecnologias geravam na formação dos estudantes, tanto no que diz respeito ao descompasso entre a formação e a demanda exigida no exercício de profissões quanto em relação ao impacto que a absorção espontânea das novas tecnologias de informação e comunicação produzia para o desenvolvimento de competências básicas, como a leitura e os cálculos matemáticos. 48 De acordo com Yanko da Costa (2020, p. 10), em 2006 ainda eram identificados nos Estados Unidos os altos níveis de deficiência sobre conhecimentos e habilidades imprescindíveis para os jovens entrantes no mercado de trabalho, assim como a alteração das expectativas quanto ao que era demandado em termos de características fundamentais para o exercício de funções. A criatividade e a inovação, o pensamento crítico e a resolução de problemas e a comunicação e colaboração se apresentaram como determinantes no processo de inserção dos jovens no contexto profissional. O campo da educação, em conexão com os demais setores da sociedade, sofreu a influência direta dessas transformações sociais, tendo que lidar com seus limites e desafios. Ainda que de forma heterogênea, sobretudo em sociedadescomplexas, como a brasileira, a adesão às novas tecnologias pareceu ser involuntária, orgânica, espontânea. Diante de tal perspectiva, seria tarefa dos educadores elaborar tal realidade, a ponto de refletir sobre o significado e os meios de interpretação dos fenômenos. Indiretamente, a educação seria provocada a desenvolver no interior de suas atividades cotidianas as demandas acerca das habilidades e dos conhecimentos necessários para a inserção dos jovens no mercado de trabalho. A ABP traduz para o ambiente educacional a linguagem na qual se determinam as experiências a partir de projeções do que se pretende alcançar em determinado prazo, contando com essa ou aquela ferramenta e investimento de recursos. Trata-se da apropriação pedagógica da dinâmica empresarial, pautada por termos como: metas, recursos, etapas, prazos, resultados, criação colaborativa, entre outros. Em termos contemporâneos, cada um desses aspectos é atravessado pelas novas tecnologias de informação e comunicação, as quais possuem a capacidade de realizar demandas que não seriam possíveis por outras vias. 49 Diante de tais características, haveria margem para problematizar esse tipo de abordagem, denunciando, assim, um aparente tecnicismo vinculado aos procedimentos adotados. Entretanto, a concepção pedagógica vinculada aos projetos traz o potencial de atribuir novos significados às dinâmicas em curso na sociedade. A educação, articulada às condições práticas e imediatas da vida em sociedade possuiria, talvez de forma exclusiva, a oportunidade ou memo a tarefa expressa de refletir sobre as condições vivenciadas pelos sujeitos e no interior da própria linguagem corrente e produzir as alterações desejáveis. Nesse sentido, houve a demanda para que a educação passasse de um modelo transmissor/reprodutor para um modelo pautado no desenvolvimento da aprendizagem e da autonomia, uma vez que as condições objetivas tornaram esse processo necessário a partir da articulação constante e intensa entre o contexto pedagógico e o contexto social. A ABP sinalizaria para as exigências presentes na dinâmica social contemporânea, tanto no que diz respeito às competências essenciais no contexto profissional e nas relações sociais cotidianas como no tocante à apropriação das novas tecnologias de informação e comunicação, algo que parece se dar de forma simultânea. Por fim, o papel da educação – e nota-se o lugar privilegiado da filosofia nesse aspecto – seria atribuir significado às experiências, refletir sobre os próprios mecanismos que estão em uso e, porventura, fazer projeções de melhorias sobre o que ainda não é contemplado enquanto princípio para a formação básica. De todo modo, a ABP reuniria as características de, ao mesmo tempo, preparar ativamente para a dinâmica e a própria linguagem utilizada na realidade cotidiana e desenvolver as competências essenciais previstas para a educação básica. 50 Referências bibliográficas COSTA, Yanko Y. K. Aprendizagem baseada em projetos. Curitiba: Contentus, 2020. TEORIA EM PRÁTICA Considere a seguinte situação: O entorno da escola em que você atua, anteriormente uma região tranquila, sem grandes intercorrências policiais, tem apresentado, gradativamente, um aumento exponencial de casos de roubo, violência e destruição do espaço público, em especial nas praças próximas à escola. Em conversa com a equipe pedagógica, os educadores da área de geografia, história, sociologia e, você, de filosofia concordaram em propor uma intervenção pedagógica por meio de metodologias ativas. Diante disso, elabore um esboço de um plano para o projeto, tendo em vista a interdisciplinaridade e a intervenção no espaço público. Para conhecer a resolução comentada proposta pelo professor, acesse a videoaula deste Teoria em Prática no ambiente de aprendizagem. 51 LEITURA FUNDAMENTAL Prezado aluno, as indicações a seguir podem estar disponíveis em algum dos parceiros da nossa Biblioteca Virtual (faça o log in por meio do seu AVA), e outras podem estar disponíveis em sites acadêmicos (como o SciELO), repositórios de instituições públicas, órgãos públicos, anais de eventos científicos ou periódicos científicos, todos acessíveis pela internet. Isso não significa que o protagonismo da sua jornada de autodesenvolvimento deva mudar de foco. Reconhecemos que você é a autoridade máxima da sua própria vida e deve, portanto, assumir uma postura autônoma nos estudos e na construção da sua carreira profissional. Por isso, nós o convidamos a explorar todas as possibilidades da nossa Biblioteca Virtual e além! Sucesso! Indicação 1 A obra indicada reúne, a partir de fragmentos e descontinuidades, os escritos do autor sobre os temas de estética e filosofia da arte. Trata-se de uma importante análise sobre as condições estéticas na sociedade contemporânea, influenciando, assim, outros autores na discussão sobre os padrões e valores imanentes à atividade artística e à experiência estética, na perspectiva dos avanços tecnológicos verificados no século XX e do modo de vida no interior das sociedades capitalistas. BENJAMIN, Walter. Estética e filosofia da arte. Belo Horizonte: Autêntica, 2017. Indicações de leitura 52 Indicação 2 A obra indicada expõe o encontro entre dois importantes estudiosos do cenário brasileiro, reconhecidos pelas contribuições públicas nas áreas de filosofia e educação. Os capítulos são organizados por temas que surgem do cotidiano e, portanto, fazem parte da vida das pessoas de modo geral, revisitados no diálogo dos autores, os quais estabelecem a articulação com os fundamentos teóricos no aprofundamento rigoroso, mas também bem-humorado, acerca das questões importantes da sociedade. CORTELA, Mario. S; RIBEIRO, Renato J. Política: para não ser idiota. Campinas: Papirus 7 mares, 2013. QUIZ Prezado aluno, as questões do Quiz têm como propósito a verificação de leitura dos itens Direto ao Ponto, Para Saber Mais, Teoria em Prática e Leitura Fundamental, presentes neste Aprendizagem em Foco. Para as avaliações virtuais e presenciais, as questões serão elaboradas a partir de todos os itens do Aprendizagem em Foco e dos slides usados para a gravação das videoaulas, além de questões de interpretação com embasamento no cabeçalho da questão. 53 1. Na discussão sobre as determinações históricas e sociais exercidas na relação entre ética e educação, é correto afirmar que: a. A educação exerce impacto na construção histórica das sociedades ao reforçar ou propor transformações nos modelos de sociedade constituídos. b. A educação deveria se concentrar nas funções cabíveis à área, como o desenvolvimento de habilidades técnicas e conhecimentos fundamentais. c. A ética constitui um campo teórico da filosofia que faz parte do processo de aprofundamento acadêmico, posterior ao ensino básico. d. A educação precisaria assumir a responsabilidade de determinar os valores e as atitudes no desenvolvimento infantil, em concordância com as famílias. e. O ensino de ética e a construção dos valores sociais previstos se sobrepõem aos demais interesses veiculados pelas instituições educacionais. 2. No que diz respeito aos objetivos éticos da educação e à relação com a filosofia, é possível afirmar que: a. A filosofia, devido a suas características fundamentais, representaria uma ocasião privilegiada no sentido de efetivar os objetivos éticos. b. A filosofia, a partir do caráter histórico e conceitual que faz parte de seu escopo, assumiria integralmente a responsabilidade pela formação ética. c. Caberia aos educadores especialistas em filosofia a tarefa de elaborar os fundamentos éticos constantes no regimento escolar. 54 d. Os objetivos éticos da educação seriam compartilhados por todas as áreas, não havendo, portanto, lugar de destaque ocupado pela filosofia. e. Caberia à filosofia o desenvolvimento do Projeto Político Pedagógico, no qual estão dispostos os principais objetivoséticos firmados pela escola. GABARITO Questão 1 - Resposta A Resolução: Como visto na seção Direto ao ponto, é importante que se construa o debate em torno da relação entre ética e educação, uma vez que é verificável o impacto dessa dimensão social na construção da cultura, seja para reforçar os valores vigentes, seja para sinalizar mudanças cabíveis no desenvolvimento da sociedade em questão. Questão 2 - Resposta A Resolução: Como visto na seção Direto ao ponto, muito embora as finalidades éticas na educação sejam compartilhadas por toda a equipe pedagógica, a filosofia, devido ao escopo histórico e conceitual próprio de sua área, representaria um espaço no qual essas questões poderiam ser aprofundadas com maior rigor e amplitude. BONS ESTUDOS! Apresentação da disciplina Introdução TEMA 1 Direto ao ponto Para saber mais Teoria em prática Leitura fundamental Quiz Gabarito TEMA 2 Direto ao ponto Para saber mais Teoria em prática Leitura fundamental Quiz Gabarito TEMA 3 Direto ao ponto Para saber mais Teoria em prática Leitura fundamental Quiz Gabarito TEMA 4 Direto ao ponto Para saber mais Teoria em prática Quiz Gabarito Inicio 2: Botão TEMA 4: Botão TEMA 1: Botão TEMA 2: Botão TEMA 3: Botão TEMA 9: Inicio :