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PERGUNTA 3: Discuta brevemente, a partir das observações do capítulo 11 do livro Matrizes do Pensamento Psicológico, as relações que as correntes fenomenológicas estabelecem com a tradição romântica e a tradição iluminista. pág 174 e 175 Para compreender a formação da fenomenologia como uma teoria psicológica como um todo é necessário, primeiramente, compreender como se deu a formação do espaço psicológico em si. As transformações provocadas no mundo moderno, como a reforma, contra reforma e a ebulição de novos pensamentos, ideias e elevação da consciência; corroboraram no declínio e a desestruturação das civilizações fechadas características do período medieval, resultando em processos de formação dos Estados Nacionais na Europa dos séculos XVI e XVII e o processo de cisão entre as esferas pública (ordem e obediência absolutista) e privada (liberdade, opiniões e pensamentos livres apenas em segredo, por serem sobrepujadas pela ordem pública). Corroborando desta forma, no rompimento entre público e privado que conduziu o surgimento tanto do iluminismo que apesar de valorizar a esfera privada da vida, ainda tinha uma concepção racionalista e empirista da realidade e da forma de enxergar o mundo, ou seja, valorizava a razão, a individualidade e o conhecimento. Concomitante ao surgimento do Iluminismo, o Romantismo floresce. Porém, o movimento romântico surge em contraposição ao racionalismo iluminista, favorecendo a subjetividade e a particularidade de cada indivíduo, constituindo uma personalidade singularizada e favorecendo a perda das máscaras convencionais que foram construídas pela sociedade (Figueiredo, 1994) Deste modo, a fenomenologia é uma corrente filosófica contemporânea da psicanálise e contemporânea do comportamentalismo, que teve como base tanto as tradições românticas, quanto as tradições iluministas. O enfoque fenomenológico compreende o humano enquanto ser no mundo, na situação de estar lançado sendo presente e presença, assim, ele vai estudar os fenômenos, daquilo que aparece à consciência, daquilo que é dado, buscando explorá-lo. Portanto, o objeto de estudo da fenomenologia são os fenômenos que se apresentam imediatamente a consciência, então essa imediaticidade dos fenômenos é uma característica essencialmente romântica, assim como a psicologia da gestalt apresenta essa imediaticidade que está dentro das características Românticas. A fenomenologia é uma doutrina que vem da filosofia, assim ela vai partir de uma crítica ao próprio conhecimento ou seja uma crítica epistemológica. Enquanto os estruturalismo vão estar preocupados com o rigor metodológico, a fenomenologia vai estar preocupada com o rigor epistemológico, ou seja pensar os parâmetros da própria construção do pensamento/conhecimento. Para eles não existe conhecimento que não envolva sujeito e objeto, no qual os dois vão fazer parte da construção do conhecimento. Assim, eles fazem uma análise histórica sobre essa organização epistemológica do conhecimento tal como acontece no cientificismo positivista contemporâneo. Deste parmenides e heraclito a gente ja tem uma discussão em relação a essencia das coisas, a fim de encontrar uma unidade por trás das coisas, assim, a partir de vários pensadores vai surgir o termo de essência por trás da aparência. Até chegar em Comte que traduziu a obra de newton para a filosofia, nesta obra Comte vai dizer que o conhecimento tem tanto participação do sujeito quanto do objeto, ou seja, tanto do idealismo quanto do empirismo e também os indivíduos teriam uma estrutura lógica prévia da consciência, então nesse sentido a partir de uma sistematização se cria uma consciência. Entretanto, Husserl vê um problema na teoria de Comte e nas teorias que vieram antes dele, para ele o problema se encontrava em basicamente se fazer tantas teorias e interpretações e que se acaba tendo problemas de diferenciar qual é a realidade fruto de interpretações e qual é verdadeiramente a realidade. Assim, a fenomenologia herda a disposição iluminista de abolição dos preconceitos e das crenças mal-fundadas. Assim, seria necessário retirar todas as interpretações que se tem da realidade (influência de Descartes), ele vai dizer que neste estado no qual estamos com as interpretações confundidas com a realidade seria chamada de “Atitude Natural”, porque elas são tratadas como naturais da nossa subjetividade. A partir deste entendimento, seria necessário suspender todas as interpretações e entendimentos prévios, e a partir disso poderia passar a observar a coisa sem nenhum conceito anterior. A fenomenologia é um anti-romantismo e manifesta-se oposta ao historicismo de Hegel e Dilthey defendendo a legitimidade de um conhecimento invulnerável (íntegro/puro/inatingível), isso graças a superação dos preconceitos, que corroboraram na afloramento da egologia e assim aproxima-se das ciências do espírito articuladas sob inspiração romântica. A separação entre sujeito pensante e objeto é abolida na fenomenologia, seus objetos são os objetos da consciência para consciência (se afastando deste modo do empirismo, que considera apenas o objeto sem a presença do homem/sujeito). Para Husserl a consciência não é uma coisa e sim um “Verbo” porque ela é um acontecimento, ela o movimento de direção até os fenómenos (o sujeito vai visar as coisas), deste modo, a consciência seria um fluxo dos objetos intencionais (pensar/sentir/lembrar/amar..). Contra a racionalidade exacerbada, o empirismo e o psicologismo, Husserl construiu sua fenomenologia como uma alternativa, como método e filosofia de rigor, onde buscou uma “volta às coisas mesmas”, procurando alcançar as essências dos fenômenos através da redução fenomenológica, e considerando a consciência enquanto intencional. Assim, pode-se concluir que partindo da diferença que Husserl fez entre as ciências de fato ou empíricas e as ciências de essências ou eidéticas, a fenomenologia é: uma ciência rigorosa e teórica; uma ciência das significações, sendo que a significação se dá pela imaginação (que dá o objeto em uma imagem), pela percepção sensível (matéria) e categorial (forma); uma ciência não objetiva, pois se preocupa com os objetos ideais (essências); uma ciência a priori, ciência das origens e dos primeiros princípios; uma ciência da subjetividade, pois a análise da consciência se dirige para o Eu, que é sujeito das intencionalidades, mas que não parte do Eu, parte das próprias coisas; uma ciência impessoal, pois os seus colaboradores têm necessidade de conhecimentos teóricos e não de prudência. Podendo assim, ter tanto aspectos empíricos de origem iluminista, como também essencialmente esta dentro das Matrizes Pós-Românticas.