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U N O PA R O RG A N IZA Ç Ã O E D ID ÁTIC A N A ED U C A Ç Ã O IN FA N TIL Organização e didática na educação infantil Tatiane Mota Santos Jardim Patrícia Alzira Proscêncio Organização e didática na educação infantil Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Jardim, Tatiane Mota Santos ISBN 978-85-522-0009-3 1. Educação de crianças. 2. Educação pré-escolar. I. Proscêncio, Patrícia Alzira. II. Título. CDD 372.21 Mota Santos Jardim, Patrícia Alzira Proscêncio. – Londrina : Editora e Distribuidora Educacional S.A., 2017. 176 p. J478o Organização e didática na educação infantil / Tatiane © 2017 por Editora e Distribuidora Educacional S.A. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, da Editora e Distribuidora Educacional S.A. Presidente Rodrigo Galindo Vice-Presidente Acadêmico de Graduação Mário Ghio Júnior Conselho Acadêmico Alberto S. Santana Ana Lucia Jankovic Barduchi Camila Cardoso Rotella Cristiane Lisandra Danna Danielly Nunes Andrade Noé Emanuel Santana Grasiele Aparecida Lourenço Lidiane Cristina Vivaldini Olo Paulo Heraldo Costa do Valle Thatiane Cristina dos Santos de Carvalho Ribeiro Revisão Técnica Lívia Rezende Girardi Editorial Adilson Braga Fontes André Augusto de Andrade Ramos Cristiane Lisandra Danna Diogo Ribeiro Garcia Emanuel Santana Erick Silva Griep Lidiane Cristina Vivaldini Olo 2017 Editora e Distribuidora Educacional S.A. Avenida Paris, 675 – Parque Residencial João Piza CEP: 86041-100 — Londrina — PR e-mail: editora.educacional@kroton.com.br Homepage: http://www.kroton.com.br/ Unidade 1 | Contextualização histórica Seção 1 - Atendimento às crianças pequenas 1.1 | A trajetória internacional 1.2 | Panorama brasileiro: aspectos históricos e legais 1.3 | Finalizando a seção Seção 2 - Educação infantil: concepções e tendências 2.1 | As concepções de infância, criança, cultura e educação infantil 2.2 | As tendências educacionais e didático-pedagógicas na educação infantil 2.3 | Finalizando a seção Sumário 7 Unidade 2 | A Educação aplicada aos cuidados da criança Seção 1 - Fundamentos da educação infantil 1.1 | Cuidar e educar 1.2 | Organização do espaço e do tempo 1.3 | Finalizando a seção Seção 2 - Cuidados básicos 2.1 | Higiene pessoal 2.2 | Alimentação 2.3 | Finalizando a seção Seção 3 - Eixos de aprendizagem da educação infantil 3.1 | Movimento 3.2 | Música 3.3 | Artes Visuais 3.4 | Linguagem oral e escrita 3.5 | Natureza e sociedade 3.6 | Matemática 3.7 | Finalizando a seção Unidade 3 | Fases de desenvolvimento infantil Seção 1 - A perspectiva interacionista do desenvolvimento infantil: Piaget e Vygotsky 1.1 | Jean Piaget 1.2 | Lev Semionovitch Vygotsky 1.3 | Finalizando a seção Seção 2 - O corpo em movimento na Educação Infantil 2.1 | O corpo e a aprendizagem 2.2 | A brincadeira na Educação Infantil 2.3 | Práticas educativas: situações de aprendizagem 2.4 | Finalizando a seção 11 11 16 25 27 27 31 34 48 48 55 62 45 63 63 66 70 72 72 74 75 77 79 80 81 91 94 95 104 110 112 112 117 119 122 Unidade 4 | A Organização do trabalho pedagógico: planejamento e propostas para a educação infantil Seção 1 - Planejamento 1.1 | O que é planejamento? 1.2 | O planejamento na educação infantil 1.3 | Finalizando a seção Seção 2 - Currículo, proposta pedagógica e avaliação 2.1 | O que é currículo? 2.2 | Observação, registro e avaliação 2.3 | Finalizando a seção Seção 3 - Formação de professores 3.1 | Saberes docentes 3.2 | Projetos e situações de aprendizagem 3.3 | Finalizando a seção 131 134 134 138 141 143 143 148 151 153 153 156 161 Apresentação Prezado aluno, neste livro e durante toda a disciplina de Organização e Didática na Educação Infantil, compartilharemos com você conhecimentos fundamentais para o profissional que atua ou pretende atuar na Educação Infantil. A Educação Infantil é a primeira etapa da educação básica. Nesta etapa são atendidas crianças até os cinco anos de idade. O trabalho desenvolvido com essa faixa requer cuidados relacionados à alimentação, à higiene, à saúde, à socialização, à afetividade, entre outros aspectos, além da formação educativa propriamente dita. Muitas dúvidas podem surgir na efetivação do trabalho com as crianças pequenas. Que tipo de vivências podemos propor para as crianças dessa faixa etária? O que devemos levar em consideração ao elaborar um planejamento? Como as crianças se desenvolvem? As reflexões e as orientações realizadas neste livro ajudarão a compreender melhor essas e outras indagações sobre o trabalho a ser desenvolvido. Na primeira unidade, vamos conhecer o percurso histórico da Educação Infantil, compreendendo os diversos acontecimentos que conduziram e caracterizaram o surgimento das instituições de atendimento às crianças pequenas, bem como analisar a concepção de infância e suas mudanças até a atualidade. Ainda, refletir sobre a relevância em conhecer e considerar os aspectos legais e os documentos norteadores da educação brasileira para o profissional atuante na Educação Infantil. A segunda unidade convida à reflexão sobre a importância do cuidar e do educar na Educação Infantil, conhecer informações relacionadas à higiene e à alimentação da criança nessa faixa etária e identificar os âmbitos de experiências dessa primeira etapa da educação básica, seus fundamentos e a relevância de cada um deles. Na terceira unidade, vamos conhecer os dois teóricos mais referenciados no Brasil para a construção de propostas de ensino e aprendizagem: Piaget e Vygotsky. Compreenderemos os processos e os estágios de desenvolvimentos cognitivos segundo Piaget e os níveis de desenvolvimento real e potencial, bem como a zona de desenvolvimento proximal de Vygotsky. Na quarta unidade, será proposta a reflexão sobre a importância do planejamento e da avaliação no processo de ensino e aprendizagem, e também serão apresentados documentos e autores que orientam sobre como avaliar na Educação Infantil. Para finalizar, propomos a reflexão sobre a importância da formação inicial e continuada dos professores. Está pronto para iniciar nossa jornada? Boa leitura e aproveite ao máximo esse momento de estudos! Unidade 1 Contextualização histórica Os objetivos desta unidade são: • Conhecer o percurso histórico da educação infantil compreendendo os diversos acontecimentos que conduziram e caracterizaram o surgimento das instituições de atendimento às crianças pequenas. • Refletir sobre a importância do conhecimento dos aspectos legais e documentos norteadores da educação brasileira para o profissional atuante na educação infantil. • Compreender e analisar a concepção de infância e suas mudanças desde a Antiguidade até a atualidade. Ela está estruturada em duas seções, que tratarão das seguintes temáticas: Objetivos de aprendizagem Trata da evolução da educação infantil historicamente, na qual apresentamos o que levou ao surgimento das instituições de atendimento às crianças pequenas primeiramente em âmbito internacional, mais precisamente na Europa, e em um segundo momento, das creches e pré-escolas no Brasil, bem como sobre as mudanças ocorridas em relação a esse atendimento até o reconhecimento da educação infantil como primeira etapa da educação básica, com foco as políticas públicas para essa etapa de ensino. Seção 1 | Atendimento às crianças pequenas Apresenta conceitos ligados a essa etapa educacional, como criança, infância, cultura e educação infantil, que foram construídos e modificados ao longo da história de acordo com cada tempo e lugar. E, ainda, as tendências pedagógicas que têm norteado a formação dos profissionais da educaçãoinfantil e sua prática. Seção 2 | Educação Infantil: concepções e tendências Patrícia Alzira Proscêncio Introdução à unidade Os autores que nos embasam teoricamente para a construção desta unidade são: Ariès (1981), Marcilio (1997), Bujes (2001), Didonet (2003), Kuhlmann Jr. (2001; 2004), Carneiro (2004), Leite Filho (2005), Wenderlich e Hort (2006), Torres (2006), Dorigo e Nascimento (2007), Cartaxo (2013), Oliveira (2011) e Souza (2010), entre outros. Você terá acesso a informações que oportunizarão o conhecimento e a reflexão sobre aspectos históricos e legais referentes à educação infantil, que lhe situarão quanto aos conceitos, ao tempo espaço. A criança, desde o momento em que nasce, tem como direito o atendimento em creches e pré-escolas, e está inserida em um contexto formativo, contexto este que envolve a escola, a família, a religião e outros núcleos de convivência. Desse modo, ela tem a possibilidade de estabelecer relações com pessoas fora do seu núcleo familiar. Nessa interação com indivíduos que têm vivências diferentes das suas, a criança se constitui e constrói sua identidade. A partir da LDB 9.394/96, a educação infantil foi reconhecida como a primeira etapa da educação básica, sendo difundida no Brasil, no Período Imperial, mas ainda sem esta denominação. Naquele momento tinha como objetivo atender às crianças menores de oito anos, filhos das operárias que não tinham onde deixá-los. Foi a partir da década de 1970 que começou a expandir realmente. Entretanto, somente com a Constituição de 1988 é que as creches e as pré-escolas para crianças de 0 (zero) a 6 (seis) anos foram consolidadas e passaram a ter, na legislação, um atendimento de natureza educacional, procurando substituir o predomínio do atendimento com caráter assistencialista. Em 1996, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB – nº 9.394/96), no artigo 29, reconheceu a educação infantil como primeira etapa da educação básica, que tem como “finalidade o desenvolvimento integral da criança até seis anos de idade, em seus aspectos físicos, psicológicos, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade” (BRASIL, 1996). Essa Lei foi alterada em 6 de fevereiro de 2006, em seus artigos 29, 30, 32 e 87, aumentando em um ano o ensino fundamental, passando este então a ter duração de 9 (nove) anos, com matrícula obrigatória a partir dos 6 (seis) anos de idade. Desse modo, com a resolução nº 3 de 03 de agosto de 2005, passou a ser de até cinco anos de idade a faixa etária prevista para a educação infantil. O prazo para adaptação das unidades de ensino com relação a essa mudança foi estabelecido até 2010 (BRASIL, 2006). Já quanto à obrigatoriedade da matrícula na educação básica, esta é a partir dos 4 anos de idade. U1 - Contextualização histórica 11 Seção 1 Atendimento às crianças pequenas Introdução à seção Esta seção tem como intuito apresentar uma contextualização histórica acerca da educação infantil, os avanços legais e o grande desafio de torná-los realidade em nossas creches e pré-escolas. Está subdivida em uma parte que trata da trajetória internacional, no contexto europeu, seguido de outra que apresenta os aspectos históricos e legais no panorama brasileiro. 1.1 A trajetória internacional Iniciaremos traçando esse processo histórico desde as sociedades antigas, nas quais as crianças eram marginalizadas. Em Roma, quando os pais não queriam seus filhos, podiam enjeitá-los, abandonando-os à própria sorte ou vendendo-os, dessa forma, muitos acabavam morrendo. Na Idade Média, não havia diferença entre adultos e crianças. Nesse contexto, as crianças permaneciam com sua família até os sete anos de idade, e depois, passavam a viver uma vida de adulto, vestindo-se e sendo considerados como tal. Assumiam seu papel na sociedade de acordo com sua classe social. Apenas os meninos da elite aprendiam a ler e a escrever nas salas de estudos livres, pois, ainda não existiam escolas. A partir de então, as crianças aprendiam os afazeres do dia a dia, e as meninas eram preparadas para o casamento - previsto para acontecer por volta dos 14 anos de idade - e cuidar da casa. Portanto, a família não criava vínculos afetivos com seus filhos (PROSCÊNCIO, 2010). Veja na figura a representação de uma criança vestida como um adulto em miniatura, retratada na obra do espanhol Diego Velázquez, do século XVII. U1 - Contextualização histórica12 Fonte: <https://pt.wikipedia.org/wiki/ Ficheiro:Pr%C3%ADncipe_Baltasar_Carlos,_by_Diego_ Vel%C3%A1zquez.jpg>. Acesso em: 3 abr. 2017. Figura 1.1 | Baltasar Carlos, príncipe de Asturias Na Inglaterra, entre os séculos XVI e XVII, foram criadas as petty schools, que tinham a preocupação com o desenvolvimento de bons hábitos e o ensino de valores morais e religiosos para as crianças pobres e abandonadas, a partir de dois e três anos. De acordo com Almeida (2002 apud PROSCÊNCIO, 2010), Campanella (1568-1639), filósofo do início do século XVII, foi o primeiro a se preocupar com a educação de crianças pequenas, elas as via como crianças. Ele acreditava que elas deveriam aprender os conhecimentos por meio do brincar. Assim como ele, outros teóricos daquele século, como Comênio (1592-1670), considerado o maior educador do século XVII, desenvolveram as primeiras propostas educativas para crianças de zero a seis anos de idade, embasadas em ideias de universalização de conteúdos, de modo que fosse uma educação para todos, que não considerasse diferenças entre classes sociais e que articulasse a instrução e o trabalho. Comênio elaborou o Plano da Escola Materna, destinando aos pais a responsabilidade de educar as crianças até os sete anos de idade e somente a partir daí a responsabilidade pela sua educação era destinada a outra família que não a sua. Isso foi considerado um grande avanço para o período, pois, passou-se a considerar importante essa fase de desenvolvimento para a formação da criança. Para saber mais De acordo com Vagula (2013): João Amós Comênio (1592-1670), educador protestante, considerado o Pai da Didática, com sua obra clássica chamada Didática Magna, defendeu a educação para todos, disseminada para todas as classes sociais. Dedicou- se à escrita de manuais para os educadores, foi o precursor do livro didático, elaborou um livro ilustrado, associando textos com figuras. U1 - Contextualização histórica 13 Para saber mais Jean Jacques Rosseau (1712-1778), filósofo iluminista, considerava as necessidades e os interesses da criança, tendo-a como centro do processo educativo e valorizando a educação para a primeira infância. Em sua concepção, a criança nasce boa, mas a sociedade a corrompe e destrói a sua liberdade. Escreveu um tratado de educação, Emílio ou Da educação (1762), relatando, em forma de romance, como ocorreria a educação ideal. Johann Heinrich Pestalozzi (1746-1827) proclamou a importância dos sentidos por meio da observação, análise dos objetos e a capacidade da linguagem. Defendeu a educação baseando-se na bondade e no amor, ou seja, na afetividade. Para ele, a criança tem potencialidades inatas que vão sendo desenvolvidas gradativamente. No século XVIII, com a Revolução Industrial europeia, famílias da zona rural deslocaram-se para a zona urbana - homens, mulheres e crianças acima dos sete anos de idade passaram a trabalhar nas indústrias com uma jornada de até catorze horas por dia, e as crianças pequenas não tinham onde ficar. Isso acarretou mais pobreza, abandono, maus-tratos às crianças pequenas e o aumento do número de mortes. De um lado, os burgueses acumulavam lucros e, de outro, os trabalhadores viviam na miséria, pois tinham uma vida precária na cidade e com o constante medo do desemprego (PROSCÊNCIO, 2010). Com a Revolução Industrial e o seu impacto sobre a estrutura social, o foco de aprendizado e domínio de saberes para o trabalho foi se modificando. Em estudos de Dorigo eNascimento (2007) são apresentadas informações de que a revolução burguesa passou a exigir novos métodos educacionais, que tornavam a escolaridade obrigatória pelo menos para as classes abastadas, entretanto, havia aqueles que defendiam a escolaridade sem distinção de classes. Rosseau (1712-1778) também se preocupou com um espaço adequado a cada faixa etária da criança e com a ludicidade presente na aprendizagem. Ele foi importante nesse período por apontar características peculiares da infância, além de chamar a atenção dos adultos para compreenderem a criança como tal e não mais U1 - Contextualização histórica14 como um adulto em miniatura. Considerou a infância como a base do desenvolvimento do ser humano e seu cultivo deveria ser feito pela educação. Outro nome de destaque foi Pestalozzi (1746-1827), que influenciado por Rosseau, tinha como pressuposto básico oportunizar à infância a aquisição dos primeiros elementos do saber, de forma natural e intuitiva, que ligasse o homem à sua realidade histórica (VAGULA, 2013). Tendo como embasamento os registros de Kuhlmann Jr. (2001; 2004), ao final do século XVIII e início do século XIX, surgiram as diferentes instituições de atendimento às crianças pequenas, em diversos países europeus. Foram criadas instituições, como a escola de tricotar ou escola de principiantes, na França, por Oberlin, em 1769, com o objetivo de desenvolver nas crianças: qualidades morais e a religião. Em seguida, foi criada a Infant School, em Londres, no ano de 1824, e as Salles d’Asile, na França, em 1828, estes eram estabelecimentos que não tinham fins pedagógicos. As crianças, entre dois a sete anos, ali permaneciam durante o dia, enquanto seus pais trabalhavam, tinha caráter caritativo e religioso. Em 1837, o alemão Friedrich Froebel (1782-1852) fundou os jardins de infância ou Kindergartens, que tinham uma concepção pedagógica. Objetivavam atender crianças acima dos três anos, eram mantidos por associações que cobravam uma contribuição elevada dos filhos das famílias mais abastadas e era raro a permissão da entrada de crianças pobres. O nome jardim de infância caracterizava o seu objetivo, que era de cultivar as almas infantis como se cultiva a uma planta, por meio de jogos e atividades lúdicas. Esse modelo passou a ser referência para vários países, principalmente nos Estados Unidos, embora nem sempre fossem coerentes com a proposta de seu criador. Firmin Marbeau criou as creches para atender os bebês de até 3 (três) anos no ano de 1844. Na última metade do século XIX, essas instituições foram amplamente difundidas nas exposições internacionais. Durante essas exposições, no grupo Educação, ocorriam também debates sobre as creches, os jardins de infância e as salas de asilo, e foi por meio delas que houve a difusão dos jardins de infância por muitos países, chegando ao Brasil em 1875 (PROSCÊNCIO, 2010). Ainda podemos destacar Decroly (1871-1932), médico belga, que U1 - Contextualização histórica 15 se interessou pela educação de crianças público-alvo da educação especial. Enfatizou o trabalho a partir do concreto, no qual a organização das turmas ocorreria por meio da homogeneização. Sua proposta de trabalho repercutiu positivamente acerca das metodologias de ensino e da língua escrita. Preocupado com o trabalho em rede, organizou os centros de interesse que visavam a organização de uma aprendizagem global. Ele considerou que a criança percebe os fatos globais como um todo, e só quando cresce, é capaz de analisar, separar o todo em partes. Propôs o método global para o aprendizado da leitura, iniciando o aprendizado com a leitura de frases. (PROSCÊNCIO, 2010). Maria Montessori (1870-1952), médica italiana, também exerceu influência considerável na educação infantil a partir do atendimento de crianças, público-alvo da educação especial e da proposição de adequação de tamanho nos mobiliários das salas de aula e banheiros e nos materiais didáticos diferenciados para essa faixa etária, favorecendo o desenvolvimento da autonomia da criança. Foi a fundadora da Casa Dei Bambini, em Roma, no ano de 1907, onde atendia os filhos da classe operária (VAGULA, 2013). Por fim, outro educador francês que evidenciamos é Freinet (1896-1966), ele buscava uma escola popular voltada para as virtudes infantis, acreditava nas práticas cooperativas, com suas propostas das aulas-passeio, o desenho livre, entre outros, e a criança era vista como membro de uma coletividade e não de forma isolada (OLIVEIRA, 2011). A maneira de pensar desses educadores possibilitou uma mudança na maneira de olhar e conceber a infância. Os movimentos educacionais do século XX causaram uma ruptura quanto às concepções que defendiam a educação da infância com um caráter assistencialista, cedendo espaço àquelas nas quais as crianças deveriam desenvolver-se de forma autônoma. Na sequência, daremos continuidade à trajetória histórica das instituições de atendimento às crianças pequenas no Brasil. U1 - Contextualização histórica16 Questão para reflexão • Antes de dar continuidade ao texto, reflita sobre a leitura que fez até aqui e sobre as questões a seguir. • O que você conhece sobre a história da educação infantil brasileira? Ela seguiu os moldes europeus? Qual à importância de se conhecer o percurso histórico dessa etapa da educação básica? 1.2 Panorama brasileiro: aspectos históricos e legais No Brasil, com a chegada dos jesuítas em 1549, ocorreu a catequização dos povos indígenas que aqui habitavam e, também, passaram a educar os filhos das classes dominantes. Durante mais de dois séculos, foram os jesuítas os responsáveis pela educação no Brasil. Nos séculos XVII e XVIII, havia uma alta taxa de mortalidade infantil devido às condições de saúde e higiene. As crianças da área rural, pobres ou abandonadas e aquelas rejeitadas por serem filhos ilegítimos das classes mais abastadas, seguindo a tradição portuguesa, eram deixadas nas “rodas de expostos” (DORIGO; NASCIMENTO, 2007). Veja a figura a seguir: Fonte: <https://goo.gl/rWePwJ>. Acesso em: 26 abr. 2017. Figura 1.2 | Roda dos expostos ou roda dos enjeitados na Igreja e Recolhimento de Nossa Senhora do Patrocínio no Porto As rodas de expostos surgiram na Itália, para acolher as crianças abandonadas. Como pode ser visualizado na imagem, tratava-se de U1 - Contextualização histórica 17 um artefato de madeira giratório, no qual a criança era colocada, e quando girada a roda, levava a criança para a parte interna de um hospital, no caso do Brasil, das Santas Casas de Misericórdia. Dessa forma, não se ficava sabendo a identidade de quem lá deixava as crianças. Estas eram cuidadas por amas de leite, chamadas de “fazedoras de anjo” ou “criadeiras”, até por volta dos sete anos, e essas amas recebiam um pagamento por seus serviços (MARCILIO, 1997). Portanto, para se livrar do constrangimento de se ter um filho fora do casamento – considerado crime moral na época - e ainda, como uma alternativa para redução do número elevado de infanticídio, a roda de expostos era utilizada, como aponta Torres (2006, p. 106): Entre 1700 e 1750 passa a ser adotado também o auxílio domiciliar mantido pela Casa da Roda dos Expostos das Santas Casas da Misericórdia. Além dos Colégios Jesuíticos, os meninos maiores de sete anos vão para Seminários Diocesanos de Meninos Órfãos. As meninas maiores de sete anos passam a ser enviadas para os Recolhimentos de Meninas Órfãs. Entre 1750 e 1800, os meninos maiores de sete anos passam a ser enviados também para os Arsenais da Marinha. Entre 1800 e 1850 são instituídas as Casas Pias e Companhias de Aprendizes Marinheiros e de Aprendizes Artífices dos Arsenais da Marinha. Entre 1850 e 1900 surgem os primeiros orfanatos. Até o século XIX não havia uma educação voltada para a criança de 0 (zero) a 5 (cinco) anos em nosso país. Na Europa, a creche foi difundida por conta da Revolução Industrial, e chegou ao Brasilno Período Imperial. Autores, como Bastos, citado por Kuhlmann Jr. (2001), Carneiro (2004) e Dorigo e Nascimento (2007) referenciam que o primeiro jardim de infância brasileiro foi inaugurado em 1875, no Colégio Menezes Vieira, Rio de Janeiro. A instituição só atendia a meninos e seguia tanto o modelo das salas de asilo francesas, quanto as atividades froebelianas, ou seja, apresentava um viés preocupado com o cuidado e também um intuito pedagógico. Entretanto, por falta de incentivos do poder público foi fechado. Também com o objetivo de prestar assistência às crianças pequenas menores de oito anos, em 1899, foi inaugurado o Instituto U1 - Contextualização histórica18 de Proteção e Assistência à Infância e a creche da Companhia de Fiação e Tecidos Corcovado, ambas no Rio de Janeiro. Além dessas, a primeira creche popular destinada aos filhos de operárias surgiu em 1908 e, em 1919, foi criado o Departamento da Criança no Brasil, que atribuiria ao Estado a responsabilidade de atendimento à criança, mas vivia de doações e não teve muita ação. Em 1922, foi organizado o 1º Congresso Brasileiro de Proteção à Infância. Durante todo esse período, o alto índice de mortalidade infantil alarmou grupos de médicos e associações beneficentes, que passaram a orientar métodos de higiene às mães e àquelas mulheres que cuidavam de crianças, portanto, esse assistencialismo em prol da saúde infantil era chamado de médico-higienista e vigorou até 1930. Até então, muitas crianças morriam antes de completar dez anos de idade (PROSCÊNCIO, 2010). Em 1932, o Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova, em seu programa educacional, definia a escola maternal como sendo destinada às crianças de dois a quatro anos, e os jardins da infância como atendimento às crianças com idade entre cinco e seis anos (CARNEIRO, 2004). Assim como na Europa, no Brasil, a urbanização e a industrialização também trouxeram mudanças na estrutura social e familiar. Da mesma forma, as mulheres também deixaram seus lares e seus filhos para trabalhar nas indústrias, o que tornava emergencial a tomada de medidas que providenciassem atendimento aos filhos das operárias. Da década de 1930 até 1960, os jardins de infância atendiam as classes econômicas mais abastadas e as escolas maternais e os parques infantis atendiam os filhos das operárias. Em outras palavras, as instituições eram um “mal necessário”, com a função de “guardar” as crianças que não tinham onde ficar. No ano de 1943, Getúlio Vargas regulamentou a Consolidação das Leis Trabalhistas – CLT -, com isso, as empresas foram obrigadas a organizar creches e berçários para atender os filhos das operárias. O atendimento era no sentido de cuidar dessas crianças, oferecendo-lhes alimentação, segurança física e higiene. Fora das indústrias, existiam outras creches, cuja responsabilidade estava por conta das entidades filantrópicas que, aos poucos, foram realizando convênios com o governo e, além dessa ajuda, recebiam também donativos (DORIGO; NASCIMENTO, 2007). U1 - Contextualização histórica 19 A primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), nº 4024/61, promoveu um avanço para educação de crianças pequenas - se assim podemos considerar, a educação pré-primária ao menos passou a ser reconhecida - dedicou dois artigos à educação pré–escolar, são eles: Art. 23. A educação pré-primária destina-se aos menores até sete anos, e será ministrada em escolas maternais ou jardins de infância. Art. 24. As empresas que tenham a seu serviço mães de menores de sete anos serão estimuladas a organizar e manter, por iniciativa própria ou em cooperação com os poderes públicos, instituições de educação pré-primária. Aparentemente, visando cumprir exigências que atendiam a acordos internacionais, no ano de 1967 foi criado o Plano de Assistência Pré-Escolar, do Departamento Nacional da Criança, do Ministério da Saúde. Ele seguia as prescrições do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), propondo um programa emergencial para o atendimento de crianças de dois a seis anos (CARNEIRO, 2004). Foi a partir de 1960, na Europa, e, no Brasil, a partir da década de 1970, que o segmento educacional referente à educação infantil mais se difundiu. Em 1971, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional nº 5692 considerou a educação pré-escolar, e o Ministério da Educação (MEC) passou a se ocupar dela. No entanto, essa proposta ficou restrita à legislação, pois na prática se observou que a pré-escola era vista como um lugar para se guardar crianças e a prioridade na Lei foi atribuída ao ensino fundamental. Kuhlmann Jr (2004), Wenderlich e Hort (2006) e o Plano Nacional de Educação para a educação infantil (2006) apontam que, no Brasil, na década de 1970, programas de educação compensatória contribuíram para o surgimento de creches com cunho assistencialista, para atender às crianças pobres, como guardiã dos órfãos e filhos de trabalhadores, tentando compensar- lhe a falta da mãe; já a pré-escola tinha como intuito escolarizar crianças pobres, procurando tirá-las das ruas e evitar o fracasso escolar. Havia predomínio do preconceito e discriminação com U1 - Contextualização histórica20 relação às crianças oriundas de outras culturas, contribuindo para a cristalização da ideia de que era lugar de guarda e não de educação. Contudo, pode-se dizer que educavam sim, mas, infelizmente, para a submissão e a manutenção de sua condição social. O Governo Federal, desde 1975, pela Legião Brasileira de Assistência (LBA), mantida naquele período pelo ministério da previdência e assistência social, extinta em 1995, criou o Projeto Casulo. Esse projeto estabeleceu convênios com instituições privadas e com prefeituras para manutenção das creches e pré-escolas em locais disponíveis na comunidade. Não havia formação específica para as atendentes e eram comumente chamadas de: crecheiras, auxiliares, pajens, entre outras formas. O assistencialismo proporcionava à criança segurança física, cuidados como a alimentação e a higiene (ensinar a escovar os dentes, trocar de roupas, lavar mãos e rosto, dar as refeições, trocar fraldas, entre outros). Ao final da década de 1970, ocorreram vários movimentos sociais, inclusive aqueles de luta pela implantação de creches - para crianças de zero a três anos - e pré-escolas - para crianças de quatro a seis anos - que respeitassem o direito das crianças. O caráter assistencial foi questionado por conta de essas instituições funcionarem como um depósito de crianças, o que tornava urgente uma proposta educacional que revisse os seus propósitos. De acordo com Kuhlmann Jr. (2004, p. 202), “não são as instituições que não têm caráter educacional e sim os órgãos públicos da educação, os cursos de pedagogia e as pesquisas educacionais que não se ocuparam delas por um longo período”. Na década de 1980, a urbanização era crescente, o país passava pelo processo de redemocratização e discutia-se o papel feminino na sociedade, isso contribuiu para que a creche fosse reivindicada como um direito da criança e das mulheres trabalhadoras. Em 1981, o Ministério da Educação e Cultura - MEC/Coordenação de Educação Pré-escolar (COEPRE) lançou o “Programa Nacional de Educação Pré-escolar”, que realizou convênios com as Secretarias Estaduais de Educação, com o intuito de expansão da pré-escola em nosso país com baixo custo (LEITE FILHO, 2005). Em 1988, a Constituição Federal determinou que as creches U1 - Contextualização histórica 21 e as pré-escolas para crianças de zero a seis anos – alterado posteriormente para cinco anos - fossem consolidadas e passassem a ter caráter educacional, embora muitas instituições tenham se mantido com caráter assistencialista. A Constituição Federal de 1988 estabeleceu a responsabilidade do poder público – do Estado – para com a Educação pré-escolar: Art. 208, inciso IV - garantiu o direito dos trabalhadores, homens e mulheres, à assistência gratuitaaos filhos e dependentes, desde o nascimento até os seis anos de idade. Art. 7º, inciso XXV - atribuiu aos municípios, com a cooperação técnica e financeira da União e do Estado, a responsabilidade pela manutenção de programas de Educação Infantil e de Ensino Fundamental (art. 30, inciso VI). Assim, a Constituição estabeleceu o direito à vaga e ao atendimento gratuito em creche e pré-escola com igualdade de acesso e permanência. Para saber mais Em 6 de fevereiro de 2006, houve uma alteração na redação dos artigos 29, 30, 32 e 87 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, dispondo sobre a duração de 9 (nove) anos para o Ensino Fundamental, com matrícula obrigatória a partir dos 6 (seis) anos de idade. Com a resolução nº 3 de 03 de agosto 2005, a faixa etária prevista para a educação infantil é de até 5 (cinco) anos, reduzindo-a, portanto, em um ano (BRASIL, 2006). Outra importante alteração realizada na LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) por meio da Lei nº 12.796, de 4 de abril de 2013, é apresentada em seus artigos 4º e 6º quanto à obrigatoriedade da educação básica a partir dos 4 anos de idade: Art. 4º - “Educação básica obrigatória e gratuita dos 4 (quatro) aos 17 (dezessete) anos de idade”. Art. 6º - “É dever dos pais ou responsáveis efetuar a matrícula das crianças na educação básica a partir dos 4 anos de idade" (BRASIL, 2013). U1 - Contextualização histórica22 Em finais do século XX, na sociedade brasileira os direitos das crianças pequenas foram assegurados por meio dos aspectos legais. O que mudou de forma significativa as concepções de criança (zero a seis anos) e de educação infantil no Brasil. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), Lei 8.069, de 13 de julho de 1990, passou a considerar a criança como sujeito de direitos: tendo direito ao afeto, ao brincar, a querer, a não querer, a conhecer, sonhar e opinar (LEITE FILHO, 2005). Entretanto, não foram estabelecidas políticas públicas, nem destinados recursos financeiros que possibilitassem a expansão e a melhoria do trabalho educativo e da formação dos profissionais que atuavam na educação infantil. Em 1994, a elaboração do Plano Nacional de educação infantil, definiu objetivos, como: o cuidar e o educar de modo associados, o aumento do número de vagas, a melhoria na qualidade e no atendimento das instituições. O que culminou na publicação do documento Por uma política de formação do profissional de Educação Infantil, que trazia a importância da formação e capacitação específica para os profissionais atuantes nessa etapa educacional. Em 1996, no artigo 29, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB - Lei nº 9.394/96), reconheceu a educação infantil como primeira etapa da educação básica, que, por sua vez, tinha como finalidade “o desenvolvimento integral da criança até seis anos de idade, em seus aspectos físicos, psicológicos, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade” (BRASIL, 1996). E recebendo nova redação dada pela Lei nº 12.796, de 2013: Art. 29. A Educação Infantil, primeira etapa da educação básica, tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança de até 5 (cinco) anos, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade. Essa lei fez também uma importante alteração na LDB/1996, ampliando o atendimento obrigatório e gratuito da educação básica, que deverá ser dos quatro aos dezessete anos. Portanto, de acordo com a Lei, a educação infantil tem como preocupação o desenvolvimento integral da criança, associando o U1 - Contextualização histórica 23 cuidado à formação educativa, complementando a ação da família e da comunidade. A LDB manteve os termos creche e pré-escola como sendo “instituições equivalentes”, o que as diferencia é que as creches são destinadas às crianças de zero a três anos e as pré-escolas às crianças de quatro e cinco anos - a legislação omitiu a expressão “jardim de infância”. A Lei também não distingue os conteúdos e os objetivos entre as duas instituições e a expressão “educação infantil” surgiu na tentativa de superação da dicotomia existente entre ambas e no sentido de representar a educação das crianças desde o nascimento até o seu ingresso no ensino fundamental (DIDONET, 2003). Por uma determinação influenciada pelo Banco Mundial, a reforma de 1996 instituiu que a educação infantil passasse a ser responsabilidade dos municípios. A sugestão dada pelo Banco Mundial foi que a criança tivesse o domínio de atividades letradas, para tanto, era necessário a reforma curricular. A partir disso, foi adotado os referenciais, como os Referenciais Curriculares para a educação infantil (RCNEI - 1998), elaborados pelo Ministério da Educação (CARNEIRO, 2004). Questão para reflexão Atualmente, quais são os documentos norteadores da educação infantil no Brasil? Seguir o Referencial Curricular Nacional para educação infantil não é uma obrigatoriedade, ele constitui uma base comum para os currículos e integra os Parâmetros Curriculares Nacionais PCNs. Divide-se em três volumes: prope reflexões sobre a creche e a pré- escola; apresenta o histórico dessas instituições no Brasil e foca que é necessário a associação entre o cuidar e educar; trata das concepções de criança, cuidar, educar, brincar, as relações família- creche, e demais aspectos; ainda, pontua situações de aprendizagens e a organização de espaço/tempo, finalizando com o professor que atua nessa etapa da educação básica. Nesse documento, a criança é entendida como sujeito histórico e ser social com capacidades próprias e suas especificidades, sendo capaz de construir seu conhecimento com o apoio da mediação pedagógica realizada por um professor (PROSCÊNCIO, 2010). U1 - Contextualização histórica24 Paralelo ao RCNEI, as Diretrizes Curriculares Nacionais para educação infantil - DCNEI (2010) -, com caráter mandatório, definem os fundamentos norteadores para o desenvolvimento e a avaliação das propostas pedagógicas que devem ser respeitadas por todas as instituições, públicas e privadas, de educação infantil. Por meio dos princípios éticos, políticos e estéticos, é um documento que orienta sobre o processo de aprendizagem e desenvolvimento das crianças de zero a cinco anos, e trata das questões curriculares e da construção dos projetos pedagógicos. Orientam que a formulação de todo projeto pedagógico deve envolver todos os profissionais da instituição, não ficando restrito apenas à direção, portanto, deve resultar em uma produção coletiva. Com base nesses dois documentos - RCNEI e DCNEI - é que têm sido elaboradas novas orientações para esse nível de ensino. Por fim, podemos ainda apresentar o Plano Nacional de Educação para o decênio 2011-2020, que traz como metas e estratégias para a educação infantil: a universalização do atendimento escolar para crianças de 4 e 5 anos de idade; a manutenção e a expansão do programa nacional de reestruturação e aquisição de equipamentos, visando à melhoria da rede física de creches e pré-escolas públicas; o fomento à formação de profissionais do magistério para a educação infantil e o atendimento das crianças do campo nessa etapa educacional, de forma a atender às especificidades das comunidades rurais; o respeito à opção dos povos indígenas quanto à oferta de educação infantil; o acesso à creche e a pré-escola e a oferta do atendimento educacional especializado complementar aos educandos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação, assegurando a transversalidade da educação especial na educação infantil. Nessa parte do estudo, você pode compreender como a educação infantil se tornou um direito no Brasil e conhecer a legislação pertinente a essa etapa educacional. Esse conhecimento contribuirá no momento do planejamento e na concretização de umaeducação infantil de qualidade. U1 - Contextualização histórica 25 Para saber mais Sugiro a leitura do texto: A construção social do conceito de infância: algumas interlocuções históricas e sociológicas de Cláudia Terra do Nascimento, Vantoir Roberto Brancher e Valeska Fortes de Oliveira. Disponível em: <http://www.becharatheme.com.br/fig/Construcao%20 Social%20da%20Infancia.pdf>. Acesso em: 3 abr. 2017. 1.3 Finalizando a seção Até aqui, você pode perceber que as crianças durante um longo período da história estiveram marginalizadas, não havia uma concepção de infância e nem a preocupação em se estabelecer vínculos afetivos entre pais e filhos. A família era patriarcal e a figura do adulto na sociedade é que tinha maior destaque, sendo a criança obrigada a crescer e a viver como adulto desde muito cedo. A Revolução Industrial veio completar a revolução burguesa iniciada em fins do século XVII e a transição do feudalismo para o capitalismo. Com isso, a sociedade europeia passou por grandes transformações, nos mais diversos aspectos, dentre eles o econômico, o social e o filosófico, que influenciaram diretamente no âmbito educacional. Quando surgiram as primeiras instituições de atendimento às crianças pequenas nos diversos países europeus, tinham caráter distinto: de um lado, aqueles destinados às classes operárias, para a guarda dos filhos enquanto os pais trabalhavam, com atendimento de caráter humanitário, considerados “depósitos de crianças”, e de outro, as instituições para os filhos das classes mais abastadas que objetivavam uma finalidade pedagógica. No contexto brasileiro, você pode perceber que a atualidade da educação infantil reflete sua história, na qual situações emergenciais de atendimento à criança pequena tiveram soluções emergenciais, que, muitas vezes, não consideraram a criança como criança e sujeito de direitos e não tiveram as creches e as pré-escolas sendo entendidas como segmentos educacionais. No entanto, mesmo apresentando avanços legais e buscando o rompimento com o modelo assistencialista, a dualidade educar- U1 - Contextualização histórica26 cuidar ainda não foi superada. A educação infantil ficou marginalizada, sem recursos orçamentários suficientes para atender essas instituições e, embora seja considerada como uma etapa da educação básica, tentando-se com isso transferir a responsabilidade das secretarias de assistência para as secretarias de educação, em busca de um caráter pedagógico e educativo, isso ainda não tem sido realizado na prática em muitas instituições de nosso país. Resumidamente, analisando todo o processo histórico das instituições de atendimento à criança pequena no Brasil, vemos com clareza que, como ocorreu em outros países, a criança não tinha papel definido na sociedade, não havia uma preocupação efetiva com ela. Quando essa preocupação começou a surgir, foi por conta da alta taxa de mortalidade infantil e pelos problemas morais que estavam a ocorrer, dessa forma, médicos e religiosos se uniram para tomar providências no sentido de conter o infanticídio, o abandono e o crime moral. No decorrer da história, com a industrialização, a urbanização e o emprego feminino nas indústrias, houve uma pressão e necessidade de se ter um local para abrigar as crianças pequenas que não tinham onde ficar. Dessa forma, o atendimento às crianças pequenas em nossa história apresenta duas etapas: a primeira que teve início na fase médico-higienista, uma etapa assistencialista, voltada para o cuidado, no sentido de alimentação e de higiene e, por fim, com a Constituição de 1988, iniciou-se a etapa educacional. Atividades de aprendizagem Agora que você já conhece e entende um pouco mais sobre a educação infantil em seu contexto histórico e legal, vamos exercitar seu conhecimento? Nada melhor para organizar as ideias e motivar o pensamento reflexivo do que discorrer sobre aquilo que você leu. Dessa maneira, vamos às atividades! 1. Reflita e escreva sobre a importância do conhecimento dos aspectos legais e documentos norteadores da educação brasileira para o profissional atuante na educação infantil e para o futuro professor. 2. Sintetize em forma de texto o contexto em que surgiram as primeiras instituições de atendimento às crianças pequenas no Brasil. U1 - Contextualização histórica 27 Seção 2 Educação infantil: concepções e tendências Introdução à seção Nesta seção, você terá acesso na primeira parte às concepções de criança, infância, cultura e educação infantil, conhecerá esses conceitos e como eles foram construídos e modificados ao longo da história. Na segunda parte, você encontrará as tendências pedagógicas que têm norteado a formação dos profissionais da educação infantil, são elas: a romântica, a cognitiva e a crítica. 2.1 As concepções de infância, criança, cultura e educação infantil Retomando o que vimos anteriormente, as instituições de educação infantil são espaços de socialização, vivências e interações, compondo um contexto de desenvolvimento da criança. Nesse contexto, são ampliados seus relacionamentos sociais que tiveram início no convívio familiar e, agora em instituições de educação, têm a função de complementar e não de substituir o papel educativo familiar, integrando o cuidar e o educar. No Brasil, ao contrário da Europa, inicialmente, elas foram criadas para atendimento de crianças pobres, com caráter compensatório e assistencialista. Primeiramente surgiram as creches junto às indústrias e, mais tarde, as pré-escolas, que hoje em dia atendem às diversas classes sociais. A denominação educação infantil também é um termo recente, adotado com a Constituição de 1988, objetivando a superação da dicotomia entre a creche e a pré-escola e passando a representar a educação das crianças desde o nascimento até o ingresso no ensino fundamental (PROSCÊNCIO, 2010). A perspectiva que vem sendo construída sobre a infância e a criança, sofreu modificações sociais, culturais e históricas nesse percurso. Philippe Ariès (1914-1984) foi um teórico que evidenciou a mudança na concepção de infância na sociedade moderna decorrente da alteração na estrutura social. Esse autor afirma que U1 - Contextualização histórica28 da Antiguidade à Idade Moderna, a criança era considerada como um adulto em miniatura. As crianças pobres não tinham sua infância respeitada e assumiam atividades como trabalhadores. Em países europeus, com a influência protestante, a criança passou a ser associada à pureza e, principalmente, nas famílias nobres, passou a receber um cuidado diferenciado. De tal modo que foram denominadas por Ariès (1981) como crianças bibelôs, pois tornaram- se motivo de distração para as mulheres de famílias abastadas. Com a Revolução Industrial e o surgimento da família burguesa, a maneira de tratar a criança mudou, consideravelmente, os cuidados e a educação das crianças que antes eram responsabilidade do grupo e da vida coletiva que se tinha no sistema feudal, agora, com o capitalismo, torna-se responsabilidade da família. Isso ocorreu, principalmente, por conta de fatores, como herança e direito à propriedade (ANDRADE, 2010). Diante disso, surgiu a necessidade de disciplinar e preparar a criança para ingressar no mundo dos adultos. E a escola, foi criada, como responsável por essa preparação, e já surgindo com caráter segregador, pois, era destinada apenas à elite. As crianças pobres, quando muitas, eram atendidas por instituições filantrópicas, como vimos na primeira seção deste livro. A criança, atualmente, é considerada como sujeito histórico, produto da cultura na qual se insere. Em nosso país, é vigente, de acordo com a legislação, a concepção de infância cidadã, no qual a criança tem direitos assegurados pela lei e que deve ser respeitada e educada. Ela é compreendida com características e ritmos próprios de desenvolvimento, singularidades, que precisam ser respeitados também na educação infantil, tendo odireito de brincar, de explorar o espaço em que se encontra e de se relacionar com outras crianças. A infância contextualiza o hoje vivido por essa criança, o presente, o que ela é, um período único na vida desse “sujeito ativo do processo” (FREIRE, 1999). Nesse sentido, a escola deve ser o lugar que dispõe desde a proposta pedagógica até à prática efetiva a formar a criança, de modo que tenha condições para desenvolver sua criticidade, autonomia e responsabilidade. A criança, como todos nós humanos, se constrói diariamente no seu relacionamento com os outros e com o mundo. A cultura preocupa-se com a “humanização tanto no que se U1 - Contextualização histórica 29 refere ao processo que nos faz homens, quanto ao fato de que os bens culturais também se humanizam. A história da cultura é um processo de transformação do mundo e simultaneamente do homem” (ROMANELLI, 1980, p. 20). Podemos afirmar que ao mesmo tempo em que a criança é produto, ela também produz cultura, pela interação com o meio ela se constitui como indivíduo, elaborando seus pensamentos e criando sua identidade pessoal. Nesse mesmo sentido, o profissional atuante na educação infantil também deve ser um sujeito ativo, que age com autonomia, responsabilidade e compromisso, tanto na sua formação pessoal quanto na das crianças que acompanha no seu dia a dia. Corroborando com o conceito de cultura apresentado por Enricone (2007, p. 147), afirmamos que ela é “constituída por significados criados e compartilhados por um grupo determinado de sujeitos”, complementamos com Geertz (apud DAÓLIO, 2003, p. 7) que cultura é “produto das ações humanas, mas é também processo contínuo pelo qual as pessoas dão sentido às suas ações”. Na interação social são incutidos os valores culturais que: [...] mantêm e recriam, a cada instante, a estrutura da sociedade [...] podem ser fontes de informações verdadeiras ou preconceituosas, de independência, dominação, alienação ou conscientização [...] e envolvem a interação com ideias e crenças internalizadas pelas pessoas com as quais interage. (LOPES, 1999, p. 106-107) É correto afirmar que quando se recebe uma informação ela pode, de um lado, favorecer o desenvolvimento do pensamento e da tomada de consciência ou, por outro contribuir para o processo de enculturação, pelo qual a sociedade condiciona seus membros para assimilação da cultura dominante. E essa ideia, pode ser reproduzida, muitas vezes pelos meios de comunicação, pela família e pela própria escola, ou seja, as informações são recebidas e absorvidas pelos seus receptores, sem que haja reflexão sobre elas. Assim, há, a apropriação dessas ideias pelo sujeito, que passa a entendê-las como sendo suas, e sem o exercício da criticidade, apenas as reproduz. U1 - Contextualização histórica30 Esse processo de tornar-se consciente, só acontece quando o sujeito tem condições de construir e reelaborar seu conhecimento, quando se torna capaz de concordar, discordar e ter suas próprias opiniões. Isso ocorre pelo exercício da reflexão sobre o mundo, sobre suas experiências, e seu contexto sociocultural. Em síntese, a educação infantil foi marcada pelo modo como se concebeu, em cada momento, o desenvolvimento das crianças e pelas ideias sobre o que elas necessitam ou do que se deveria fazer para propiciar esse desenvolvimento. Atualmente, ela visa ao desenvolvimento integral da criança em todos os seus aspectos: motor, intelectual, afetivo, moral e social, como um indivíduo íntegro, como sujeito de direitos, visando formá-la como cidadão crítico, autônomo e criativo. É pela arte, pela ludicidade, pelo conhecimento de si, pela socialização e interação com o outro, por meio da corporeidade, que o ser humano se constitui, que produz sua cultura e torna-se capaz de se perceber como sujeito transformador, atuante em seu contexto social. Por fim, podemos afirmar que na educação infantil, por meio das interações estabelecidas entre a criança e o meio no qual ela está inserida, a criança poderá desenvolver suas capacidades cognitivas, afetivas e sociais, ampliando assim seus saberes e suas experiências, sendo entendida como sujeito histórico, que tem singularidades, portanto, necessidades e especificidades da sua faixa etária. Portanto, nessa etapa da educação básica, por meio da mediação pedagógica, o professor é responsável por possibilitar o acesso às informações, adequando-as à fase de desenvolvimento da criança e motivando-as ao desenvolvimento do seu pensamento reflexivo. E assim, oportunizar condições para que transformem as informações recebidas em conhecimento e a tomada de consciência sobre o mundo no qual se encontra, bem como o desenvolvimento da criatividade, da sensibilidade, enfim, dos princípios éticos, políticos e estéticos, como bem apresenta as Diretrizes Curriculares para a educação infantil. U1 - Contextualização histórica 31 Para saber mais Para complementar seus estudos, referente à temática apresentada, sugerimos a leitura do seguinte material: Texto1: Infância, cultura contemporânea e educação contra a barbárie de Sonia Kramer. Disponível em: <http://www.e-publicacoes.uerj.br/index. php/revistateias/article/viewFile/23857/16830>. Acesso em: 4 abr. 2017. Texto 2: LIMA, P. O governo da infância e a arte do cuidado de si. In: SOUZA, A. M.; BARBOSA, I. (Orgs.). Cuidar da educação, cuidar da vida. Florianópolis: UFSC- CED-NUVIC, 2011. 2.2 As tendências educacionais e didático-pedagógicas na educação infantil No final do século XIX e por todo o século XX, vários teóricos contribuíram para a educação, como John Dewey (1859-1952), Maria Montessori (1870-1952), Celestin Freinet (1896-1966), Jean Piaget (1896-1980), Lev Semenovich Vygotsky (1896- 1934), entre outros. De acordo com Proscêncio (2010), as tendências pedagógicas na educação infantil surgiram em períodos diferentes da história, e têm influenciado a formação dos profissionais da educação infantil e sua ação pedagógica. São concepções diferenciadas a respeito da criança, do professor e de educação, e estão sistematizadas na atualidade, da seguinte maneira: romântica, cognitiva e crítica. A tendência romântica teve sua origem no século XVIII, compartilhava dos ideais da Escola Nova, contrapondo-se à pedagogia tradicional. A tendência romântica valorizava interesses e necessidades da criança, embora com características peculiares. Acredita no desenvolvimento natural da criança como se fosse uma planta, que já traz dentro de si tudo aquilo que poderá vir a ser e, para que isso ocorra, deve ser cultivada por meio da educação, dando- lhe condições para que descubra suas potencialidades. No Brasil, foi difundida nas décadas de 1920 e 1930, até os dias de hoje. Dentre seus representantes estão: Froebel (1782-1852), Decroly (1871-1932) e Montessori (1870-1952). U1 - Contextualização histórica32 A tendência cognitiva, também chamada de construtivista, foi inspirada em Jean Piaget. Ele realizou experiências investigativas sobre a forma como a criança pensa e constrói seu conhecimento. Embora não fosse educador, teve o resultado de suas pesquisas muito utilizado por pedagogos. Para Piaget, o desenvolvimento do ser humano ocorre por meio das interações organismo/meio ao longo de toda a vida. Seus estudos foram bastante difundidos em diversas propostas curriculares no Brasil a partir da década de 1970. Há outras teorias chamadas de construtivistas, além da teoria piagetiana. Para saber mais Jean Piaget nasceu em 1896, em Neuchatel, Suíça, formou-se em Ciências Naturais, realizou inúmeros estudos sobre o pensamento da criança, a linguagem, a percepção e a memória. Desenvolveu pesquisas longitudinais: observando uma mesma criança durante anos sucessivos. De modo geral, este estudioso tinha mais interesse nas respostas erradas das crianças do que na razão que as levava às respostas certas (PROSCÊNCIO, 2010). A teoria da Epistemologia Genética é mais conhecidacomo construtivista por procurar explicar como a criança constrói o conhecimento. Segundo Piaget, o conhecimento deve ser construído e reinventado, criado pela criança e não transmitido a ela pelo professor. Piaget considera que todo ser vivo se adapta ao seu ambiente, que a mente e o corpo não funcionam independentes um do outro, e que há uma interação entre o homem e o ambiente, agindo diretamente sobre ele, transformando-o e transformando a si mesmo (PROSCÊNCIO, 2010). O referencial da teoria construtivista é o sujeito epistêmico “constituído num processo histórico [...]. Seu ponto de partida para qualquer aprendizagem é sua organização biológica que recebeu em sua bagagem genética” (PALMA, 1997, p. 39). Nesse ínterim, a criança se constrói diariamente ao interagir com sua família, seus amigos e seus professores, com o seu meio físico e “cada experiência vivida e adquirida pela criança anteriormente servirá de suporte para que novas construções possam ser realizadas” (PALMA, 1997, p. 40). No construtivismo, é por meio da ação pedagógica do professor U1 - Contextualização histórica 33 que serão atingidos os objetivos e as finalidades, pois, a mediação na construção do conhecimento pela criança também pode ser realizada pelo professor. Acrescentando, Palma (1997, p. 40-41), expõe que o: [...] desenvolvimento do conhecimento da criança não se dá apenas através da maturação biológica direta ou hereditariedade, nem, tampouco, apenas pela aprendizagem direta, mas, sim, pela interação entre a criança e as pessoas, a criança e os objetos e estes com a criança. A aprendizagem construtivo/significativa de um conteúdo e sua incorporação por uma criança somente acontecerá quando ela dispuser de conhecimentos prévios sobre o assunto em questão, o que se denomina como processo de assimilação. Ao assimilar um conteúdo aos seus conhecimentos já existentes, o sujeito, ao mesmo tempo, modifica seu estado; é o que se denomina acomodação. Nesse sentido, o aprendido nunca será uma cópia daquilo que lhe transmitem ou que ele percebe, mas uma reconstrução com instrumentos que lhe são próprios (PALMA, 1997, p. 44). A tendência crítica teve como representante Celestin Freinet, influenciado por Rosseau, que criou na França o movimento da escola moderna, com o objetivo de desenvolver uma escola popular. Sua concepção de educação contrapõe tanto as ideias da escola tradicional, por ser contrária à criatividade e ao prazer infantil, quanto as ideias da Escola Nova, questionando os métodos utilizados por meio de materiais, locais e condições especiais para realizar-se o trabalho pedagógico. Além de Freinet, pode-se incluir a esse grupo Vygotsky e Paulo Freire (PROSCÊNCIO, 2010). Em síntese, podemos afirmar que na tendência romântica, a educação deve favorecer o desenvolvimento natural da criança; na tendência cognitiva, a criança passa por estágios de desenvolvimento e constrói conhecimentos, aprendendo com a interação estabelecida entre o meio físico e o social; e na tendência crítica, busca reconhecer e valorizar as diferenças entre as crianças no que diz respeito ao seu desenvolvimento e construção de conhecimentos. Tem como intuito formar pessoas para contribuir para a transformação da sociedade. U1 - Contextualização histórica34 2.3 Finalizando a seção Tendo sido estabelecido pela LDB 9.394/96 que a educação infantil constitui a primeira etapa da educação básica, e que sua finalidade é o desenvolvimento integral da criança, fica exposto que o papel do professor se amplia da dimensão do cuidado para assumir conotações de intencionalidade pedagógica. Assim, o profissional associará em sua prática o cuidado e o ato de educar, respeitando, cuidando e educando crianças em um tempo singular da primeira infância (LEITE FILHO, 2005). Está assegurada no Brasil uma concepção de criança cidadã e de educação infantil como direito da criança, que: [...] exige uma nova postura dos professores de creches e pré-escolas no Brasil, no sentido de se iniciar uma educação infantil que respeite a criança como sujeito de direitos. Uma educação infantil que coloque a criança como centro do processo educacional. (LEITE FILHO, 2005, p. 8) O processo educacional apresenta implicações quanto à implementação das propostas pedagógicas e no trabalho organizativo das creches e pré-escolas e, consecutivamente, na atuação dos profissionais. Como veremos mais adiante, na Unidade 4, o projeto pedagógico é que norteia o trabalho e a prática dos professores, ele traz explícito a linha educacional seguida pela instituição, e esta deve conceber a criança como cidadã e sujeito de direitos e a educação infantil como segmento educativo, e cabe aos professores exercer o papel de mediadores nas aprendizagens das crianças (FREIRE, 1999). Educar, na educação infantil, é sinônimo de cuidado, de momentos voltados para o brincar, de oportunizar interações. Momentos de criar situações que enriqueçam o repertório de vivências da criança por meio das múltiplas linguagens (oral e escrita; matemática; artística; corporal; musical, temporal e espacial). E assim, garantir a organização do espaço e do tempo, propiciar o desenvolvimento da criatividade e da personalidade da criança pequena. Os professores são fundamentais nesse processo e devem atentar-se U1 - Contextualização histórica 35 cuidadosamente quanto à relação que estabelecem com as crianças, disponibilizando-se a ouvi-las, a observar seus sentimentos, observar como elas brincam, contribuindo efetivamente para a formação do ser humano sensível (PIETROBON, 2007). O currículo na educação infantil deve ser construído de forma que os cuidados também sejam educativos, e isso implica desde a organização de materiais, do tempo e espaço, práticas, saberes e conhecimentos e forma de avaliação. O currículo deve ser construído a partir dos documentos nacionais que regem a educação, como as DCNEI e ser adequado à cada realidade e necessidades institucionais. Os professores, em sua prática, precisam ser firmes, seguros e afetivos com as crianças, para que se construa a partir disso uma relação de confiança. Também é importante ser consciente quanto às suas limitações e dificuldades. Nesse sentido, o processo formativo dos profissionais que atuam na educação infantil também deve ser considerado, principalmente porque ainda se vê, de forma equivocada, em diversas instituições, uma divisão entre os profissionais que têm como atribuição o cuidar (auxiliares, monitores) responsáveis pela higiene e alimentação, e, a outros, cabe o educar (professores), sendo estes responsáveis pelo planejamento e pela execução de atividades educativas, categorizando diferentemente os educadores. Assim, essa dicotomia não contribui para que o cuidar e o educar estejam integrados. Como superar essa dicotomia? É o que veremos na próxima unidade. Atividades de aprendizagem Dando continuidade à sistematização de seus conhecimentos, leia e responda às questões a seguir: 1. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) 9.394/96 consolidou a educação infantil como primeira etapa da educação básica, tendo como finalidade o desenvolvimento integral da criança. Dentro dessa perspectiva, o papel do professor deixa de ter puramente a dimensão do cuidado, assumindo conotações de intencionalidade pedagógica, ampliando o seu papel no que refere à dimensão do educar. De acordo com essa perspectiva, qual a concepção de criança que vigora atualmente na educação infantil brasileira? U1 - Contextualização histórica36 2. As tendências pedagógicas na educação infantil apresentam concepções diferenciadas a respeito da criança, do professor e de educação, e estão sistematizadas na atualidade, da seguinte maneira: romântica, cognitiva e crítica. Comente sobre a tendência pedagógica cognitiva. Fique ligado Vimos que a Constituição Federal de 1988 incluiu a creche e a pré-escola no sistema educativo brasileiro e a LDB estabeleceuimportantes diretrizes para a educação infantil, como a definição do atendimento das crianças até três anos de idade em creches, e dos quatro aos cinco anos em pré-escolas, sendo então reconhecida como a primeira etapa da educação básica. O RCNEI e as DCNEI são os documentos relevantes e norteadores para essa etapa educacional. Também evidenciamos que o conceito de criança vem se modificando, e, atualmente, são vistas como sujeitos de direitos, que têm necessidades que lhes são próprias da idade. E devem ter a oportunidade, independentemente da sua origem social, de desenvolver seus aspectos físicos, cognitivos, sociais e afetivos. Na educação infantil, o cuidar e o educar devem estar conjugados, e isso será aprofundado na próxima unidade. Para concluir o estudo da unidade Finalizamos reconhecendo avanços ao longo da história, não somente em termos legais, mas também nas mudanças em relação aos conceitos sobre a criança, o educar e o cuidar. Há, sem dúvida, uma nova visão sobre a criança e a educação infantil, ainda em construção, mas que tem permitido considerar os aspectos de desenvolvimento físico, psicológico, intelectual e social dessa criança, de acordo com sua faixa etária, em respeito ao seu tempo e espaço e à sua infância. Enfim, temos a criança sendo considerada como sujeito histórico e cultural. Para finalizar os estudos desta Unidade, sugerimos que se você ainda não realizou a leitura dos documentos que norteiam a educação infantil no Brasil, procure conhecê-los, você poderá acessá-los pelos links a seguir: U1 - Contextualização histórica 37 Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil. Volume 1 - Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/ pdf/rcnei_vol1.pdf>. Acesso em: 12 abr. 2017. Volume 2 – Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/ pdf/volume2.pdf>. Acesso em: 12 abr. 2017. Volume 3 – Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/ pdf/volume3.pdf>. Acesso em: 12 abr. 2017. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. Disponível em: <http://ndi.ufsc.br/files/2012/02/Diretrizes-Curriculares- para-a-E-I.pdf>. Acesso em: 4 abr. 2017. Chegamos ao final de nossa primeira unidade, continue ampliando seus conhecimentos realizando outras leituras, além dessas sugeridas, sobre o tema. Bons estudos! Atividades de aprendizagem da unidade 1. Dentre os documentos legais que regem a educação brasileira e apresentam orientações para a educação infantil, temos a Constituição Federal, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, o Referencial Curricular Nacional para a educação infantil, as Diretrizes Curriculares Nacionais para a educação infantil, entre outros. De acordo com esses documentos, leia e analise as afirmativas a seguir: I- A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB - nº 9.394/96) reconheceu a educação infantil como primeira etapa da educação básica. II- A faixa etária das crianças atendidas pela educação infantil é de 0 (zero) a 6 (seis) anos de idade. III- Somente com a Constituição de 1988 foi que as creches e as pré-escolas passaram a ter na legislação o atendimento de natureza educacional, pois até então havia o predomínio do caráter assistencialista. IV- As Diretrizes Curriculares Nacionais para educação infantil (2010) têm caráter mandatório e definem os fundamentos norteadores para o desenvolvimento e a avaliação das propostas pedagógicas que devem ser respeitadas por todas as instituições, públicas e privadas de educação infantil. U1 - Contextualização histórica38 Estão corretas as afirmativas: a) II e IV. b) I, II e III. c) II, III e IV. d) I, III e IV. e) I, II e IV. 2. Até o século XIX não havia uma educação voltada para a criança de 0 (zero) a 5 (cinco) anos em nosso país. A creche difundiu-se na Europa por consequência da Revolução Industrial, e chegou ao Brasil ainda no Império. Sobre os aspectos históricos da educação infantil brasileira, leia as afirmativas e considere V para as verdadeiras e F para as falsas: ( ) A fase chamada de médico-higienista, teve caráter assistencialista em prol da saúde infantil, devido ao alto índice de mortalidade infantil, que alarmou grupos de médicos e associações beneficentes, que passaram a orientar métodos de higiene às mães e àquelas mulheres que cuidavam de crianças. ( ) O Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova apresentou em seu programa educacional a definição de escola maternal como sendo destinada às crianças de dois a quatro anos, e os jardins de infância com atendimento voltado às crianças que tinham entre cinco e seis anos de idade. ( ) Diferente do contexto europeu, no Brasil, a urbanização e a industrialização não trouxeram muitas mudanças na estrutura social e familiar. Por isso, não houve preocupação para se tomar medidas no sentido de providenciar atendimento aos filhos das operárias. ( ) No período entre a década de 1930 até 1960, os jardins de infância atendiam as classes econômicas mais abastadas, já as escolas maternais e os parques infantis atendiam os filhos das operárias, com a finalidade de “guardar” as crianças que não tinham onde ficar. Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta de cima para baixo: a) F - V - V - F. b) V - V - V - F. c) V - V - F - V. d) F - V - V - V. e) F - F - F - V. U1 - Contextualização histórica 39 3. Um dos documentos norteadores para a educação infantil é ______ ______________________________, não é um documento obrigatório para os docentes, mas é tido como base comum para os currículos. Ele se divide em três volumes, e apresenta em seu terceiro volume seis eixos como: Movimento, Música, Natureza e Sociedade, Artes Visuais, Linguagem Oral e Escrita e Matemática. Nesse documento, a criança é entendida como sujeito histórico e ser social com capacidades próprias e suas especificidades, sendo capaz de construir seu conhecimento com o apoio da mediação pedagógica realizada por um professor. Assinale a alternativa que preenche corretamente a lacuna: a) O Referencial Curricular Nacional para a educação infantil. b) A Lei de Diretrizes e Bases para a educação brasileira. c) A Constituição Federal Brasileira. d) O Plano Nacional de Educação. e) As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. 4. A denominação educação infantil, assim como a concepção de infância tal qual temos atualmente são recentes. Sobre a concepção de infância, podemos afirmar que: I- A visão que vem sendo construída sobre a infância sofreu várias modificações sociais, culturais e históricas, principalmente na sociedade moderna, decorrente da alteração na estrutura social. II- Da Antiguidade à Idade Moderna, a criança era considerada como um adulto em miniatura. III- Em países europeus com influência protestante, a criança passou a ser associada à pureza e principalmente nas famílias nobres passou a receber um cuidado diferenciado. IV- Com a Revolução Industrial e o surgimento da família burguesa, os cuidados e a educação das crianças, que antes eram responsabilidade do grupo e da vida coletiva que se tinha no sistema feudal, com o capitalismo tornou-se responsabilidade da família. V- Atualmente, em nosso país, de acordo com a legislação, a criança é considerada como sujeito histórico, vigora a concepção de infância cidadã, no qual a criança tem direitos assegurados pela lei e que deve ser respeitada e educada. U1 - Contextualização histórica40 Estão corretas apenas as afirmativas: a) I, II e III. b) III, IV e V. c) I, II e IV. d) II, III, IV e V. e) I, II, III, IV e V. 5. No final do século XIX e por todo o século XX, muitos teóricos, contribuíram para o campo da educação, como Dewey, Montessori, Freinet, Piaget, Vygotsky, entre outros. Em períodos diferentes da história surgiram tendências pedagógicas na educação infantil que têm influenciado a formação dos profissionais e sua ação pedagógica. Podemos afirmar que a tendência que tem como um de seus representantes Freinet e buscafavorecer a formação de pessoas para que contribuam na transformação da sociedade é a: a) Tendência romântica. b) Tendência cognitiva. c) Tendência construtivista. d) Tendência interacionista. e) Tendência crítica. U1 - Contextualização histórica 41 Referências ANDRADE, L. B. P. de. Educação Infantil: discurso, legislação e práticas institucionais. São Paulo: UNESP/Cultura Acadêmica, 2010. 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Objetivos de aprendizagem A primeira seção discutirá sobre a indissociabilidade entre o cuidar e o educar na educação infantil e a importância da organização do espaço e do tempo, para que as crianças tenham condições para desenvolverem-se plenamente, de modo seguro e tranquilo. Seção 1 | Fundamentos da educação infantil A segunda seção apresentará algumas informações importantes sobre os cuidados necessários ao bem-estar da criança, como a higiene e a alimentação, destacando orientações sobre o modo como as interações oportunizadas nessas ações podem favorecer o desenvolvimento globalda criança. Seção 2 | Cuidados básicos A terceira seção tratará sobre objetivos e conteúdos do trabalho com o movimento, a música, as artes visuais, a linguagem oral e escrita, a natureza e a sociedade e a matemática, considerando as descobertas e as vivências oportunizadas por cada eixo. Seção 3 | Eixos de Aprendizagem da educação infantil Tatiane Mota Santos Jardim Introdução à unidade Durante muito tempo, a educação infantil apresentou um olhar predominantemente assistencialista, voltado aos cuidados da criança. Esses cuidados continuam sendo necessários e primordiais para a faixa etária, no entanto, assumiram uma nova concepção. As interações e as descobertas realizadas durante o banho, a alimentação, o vestuário, ou qualquer outra situação ligada ao cotidiano infantil também podem se relacionar com o educar. Entretanto, quais são os dilemas e os desafios da concretização entre o cuidar e o educar? Há um papel específico para a escola e outro para a família ou ambos devem trabalhar em parceria para que juntos possam estabelecer estratégias viáveis para cada contexto sociocultural, visando a garantia dos direitos e o bem-estar das crianças? A unidade está dividida em três seções. Na primeira seção, discutiremos sobre o brincar e o educar como fundamentos da educação infantil e suas particularidades. Na segunda seção, analisaremos algumas informações importantes sobre necessidades básicas, como os cuidados com a higiene pessoal e a alimentação e, na terceira seção, estudaremos os eixos de aprendizagem da educação infantil e os fundamentos de cada um deles. U2 - A educação aplicada aos cuidados da criança48 Seção 1 Fundamentos da educação infantil Introdução à seção Nesta seção, refletiremos um pouco sobre o cuidar e o educar como concepções de trabalho na educação infantil, considerando aspectos fundamentais para o desenvolvimento dessa faixa etária. Discutiremos ainda sobre como a organização do espaço e do tempo podem contribuir com o trabalho a ser desenvolvido. 1.1 Cuidar e educar Com base na contextualização apresentada na Unidade 1, é possível observar que durante muito tempo acreditou-se que as crianças que frequentavam a educação infantil precisavam somente de cuidados relacionados à higiene e à saúde. De acordo com Rizzo (2006), com o passar dos anos, a creche e a pré-escola passaram a ser ambientes especialmente criados para cuidar e oferecer condições que estimulem o desenvolvimento integral e harmonioso da criança nos seus primeiros anos de vida, mas, ainda hoje, podemos perceber que nem sempre há uma compreensão clara sobre o trabalho a ser desenvolvido nesses ambientes. É comum encontrarmos pais e familiares que acreditam que a atuação dos profissionais que atuam na educação infantil está centrada apenas no cuidado e na brincadeira, como um mero passatempo. Haddad (apud ASSIS, 2006), aponta, inclusive, a necessidade de profissionalizar os cuidados realizados na educação infantil, para que estes não sejam confundidos com os princípios de maternagem, quando se bastava ser mulher para assumir o cuidado e a educação das crianças. Para a autora, essa profissionalização permitirá que o conceito de educar seja ampliado. Em contrapartida, a partir da LDB nº 9.394/96, muitos educadores passaram a acreditar que a sua função estava ligada apenas ao educar e que os cuidados eram responsabilidade exclusiva da família, causando uma série de U2 - A educação aplicada aos cuidados da criança 49 confusões sobre o trabalho a ser desenvolvido na educação infantil. De acordo com Rau (2012, p. 21), “a responsabilidade das crianças pequenas é da família e do Estado. No entanto, ainda há grandes equívocos e dúvidas a esse respeito, o que deixa muitas lacunas no processo de desenvolvimento infantil”. É necessário que tanto a família, quanto os educadores percebam a importância de entrelaçar o cuidar e o educar. As crianças precisam ser cuidadas. Elas também precisam ser educadas. Cada cultura estipula os cuidados que julgam como necessários para garantir o bem-estar das crianças, mas podemos encontrar vários pontos em comum entre as culturas. De acordo com o Referencial Curricular Nacional para a educação infantil: A base do cuidado humano é compreender como ajudar o outro a se desenvolver como ser humano. Cuidar significa valorizar e ajudar a desenvolver capacidades. O cuidado é um ato em relação ao outro e a si próprio que possui uma dimensão expressiva e implica em procedimentos específicos (BRASIL, 1998a, p. 24). O cuidado com o desenvolvimento humano relaciona-se com o educar, mesmo que indiretamente. Quando cuidamos de alguém, procuramos descobrir ações que favoreçam sua saúde, seu bem-estar e seu desenvolvimento. Souza e Weiss (2008) também afirmam que o processo de aprendizagem não acontece exclusivamente nas atividades de âmbito pedagógico. Situações ligadas aos cuidados de higiene podem proporcionar aprendizagens significativas. Essa afirmação reafirma a indissociabilidade entre o cuidar e o educar. Ambos estão voltados à dimensão afetiva. Proscêncio (2010) aponta a necessidade de compreender que os atos educativos estão vinculados aos gestos de cuidado e podem transmitir segurança, medo, afeto, inibição, entre outros sentimentos. É nessa etapa que a criança começa a identificar não só seus próprios sentimentos, como também os sentimentos do outro. Segundo o RCNEI (BRASIL, 1998), as instituições de educação infantil devem propiciar o desenvolvimento da identidade da criança, favorecendo o contato com elementos da cultura que enriqueçam seu desenvolvimento e sua inserção social. Ainda de acordo com o documento: U2 - A educação aplicada aos cuidados da criança50 As Propostas Pedagógicas para as instituições de Educação Infantil devem promover em suas práticas de educação e cuidados, a integração entre os aspectos físicos, emocionais, afetivos, cognitivo/linguísticos e sociais da criança, entendendo que ela é um ser total, completo e indivisível (BRASIL, 1999, p. 18). Por meio das interações e inserções sociais, as crianças começam a conviver de um modo mais intenso. É nesse momento que as mordidas podem aparecer. De acordo com Gonzalez-Mena e Eyer (2014), as crianças podem morder outras crianças por diferentes motivos: raiva, curiosidade, ciúmes, angústia, para chamar a atenção, para comunicar-se, entre outras razões. A mordida também pode ser confundida com uma demonstração de afeto, já que essa prática é realizada com frequência por muitos pais, em momentos de brincadeira com as crianças. A diferença é que a criança não tem consciência sobre a força utilizada nessas mordidas. As mordidas costumam surgir quando os dentes começam a nascer, na fase oral e podem acontecer até os três anos de idade. De acordo com Freud (1920), nessa fase do desenvolvimento a cavidade oral e os lábios são fontes de prazer. Normalmente, os pais são muito pacientes quando recebem a notícia de que seus filhos morderam outras crianças na escola, mas o mesmo não acontece quando a criança chega mordida em casa. O professor deve ajudar na mediação desses conflitos entre as crianças e as famílias. Além de morder, a criança pode começar a bater, beliscar, empurrar, puxar o cabelo, arranhar, ou outras ações físicas que podem causar uma série de conflitos. Questão para reflexão Como as crianças aprendem a morder? Uma criança que morde é agressiva? Como lidarcom a fase das mordidas? As crianças aprendem a morder por meio do contato com outras crianças e adultos. De acordo com Gonzalez-Mena e Eyer (2014), ao constatar a pretensão de uma criança em morder um colega, podemos oferecer objetos de borracha para que sejam mordidos, além U2 - A educação aplicada aos cuidados da criança 51 de estabelecer contato visual e explicar que as mordidas podem machucar o outro, para que ela se acalme. É importante ajudar a criança a refletir sobre a dor causada com esse ato. É preciso ainda, identificar em que contexto a criança morde, para tentar evitar que essas situações aconteçam. Para saber mais Assista à entrevista realizada pelo Canal Futura e conheça um pouco mais sobre a mordida infantil e a fase oral. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=AWnIxB9KrjI>. Acesso em: 10 mar. 2017. Na educação infantil, o ensino não é fragmentado. As crianças descobrem o mundo ao seu redor e experimentam sensações variadas a cada instante. A cada nova experiência, a criança vivencia novas situações de aprendizagem. Os primeiros anos de vida são fundamentais para a formação dos indivíduos. Quando disponibilizamos à criança um ambiente que oportunize descobertas variadas, propiciamos um ambiente educativo. Educar significa, portanto, propiciar situações de cuidados, brincadeiras e aprendizagens orientadas de forma integrada e que possam contribuir para o desenvolvimento das capacidades infantis de relação interpessoal, de ser e estar com os outros em uma atitude básica de aceitação, respeito e confiança, e o acesso, pelas crianças, aos conhecimentos mais amplos da realidade social e cultural (BRASIL, 1998a, p. 23). A citação confirma que o educar precisa do cuidar para oportunizar a segurança necessária para que a criança se desenvolva. Ele contribui ainda com a aceitação e a confiança em si mesmo e o respeito ao outro. De acordo com as Diretrizes Curriculares Nacionais para a educação infantil (BRASIL, 2010), a proposta pedagógica das instituições que atendem essa faixa etária deve assumir a responsabilidade de compartilhar e complementar a educação e o cuidado das crianças com as famílias, tendo como objetivo: U2 - A educação aplicada aos cuidados da criança52 [...] garantir à criança acesso a processos de apropriação, renovação e articulação de conhecimentos e aprendizagens de diferentes linguagens, assim como o direito à proteção, à saúde, à liberdade, à confiança, ao respeito, à dignidade, à brincadeira, à convivência e à interação com outras crianças (BRASIL, 2010, p. 20). Ainda de acordo com o documento, o educar aliado ao cuidar oportuniza o acolhimento, a garantia do estímulo à curiosidade, à ludicidade e à expressão da criança, para que assim, ela se aproprie das formas de agir, sentir e pensar. Para saber mais Conheça melhor a relação entre cuidar e educar assistindo ao vídeo a seguir. Disponível em: <https://www.youtube.com/ watch?v=RiFXduOjRUI>. Acesso em: 5 mar. 2017. O professor precisa ter sensibilidade e delicadeza ao relacionar- se com as crianças. O modo de falar, o vocabulário a ser utilizado, a expressão facial, o jeito de se relacionar corporalmente com as crianças, a postura adotada, os limites delimitados, entre outras ações e critérios podem influenciar o relacionamento entre professor e aluno. É importante que o professor tenha consciência de que esses aspectos também influenciam as situações de aprendizagem. Para Morin (2011), o desenvolvimento da inteligência é inseparável do mundo da afetividade. Segundo o autor, a criança precisa sentir-se segura para aprender. Observamos, desse modo, que quando oportunizamos aos alunos um ambiente atrativo e favorável, contribuímos tanto para o seu bem-estar quanto para seu desenvolvimento. Fonte: <https://pixabay.com/pt/menina-fadas-feliz-rosa-812482/>. Acesso em: 11 mar. 2017 Figura 2.1 | Criança feliz U2 - A educação aplicada aos cuidados da criança 53 O relacionamento entre professores e familiares também é fundamental. De acordo com Rau (2012), nessa fase, a criança começa a assumir diferentes papéis e gradualmente passa a incorporar outros. Que tipo de “modelos” são apresentados às crianças? “Nem sempre existe concordância entre as duas instituições (escola e família) quanto à educação dos pequenos” (RAU, 2012, p. 23), entretanto, é necessário que o diálogo seja a principal ferramenta entre essas instituições. A identificação das necessidades das crianças ligadas ao cuidar e ao educar, depende ainda da “compreensão que o adulto tem das várias formas de comunicação que elas, em cada faixa etária, possuem e desenvolvem” (BRASIL, 1998a, p. 25). Destacamos, desse modo, a necessidade de estudar as fases de desenvolvimento infantil, bem como as estratégias apropriadas no trabalho com cada faixa etária. É esse conhecimento que respaldará as práticas desenvolvidas com cada faixa etária. As atividades de cuidado referentes às necessidades básicas das crianças são chamadas de atividades permanentes no Referencial Curricular Nacional para a educação infantil (BRASIL, 1998a). As brincadeiras realizadas em espaços internos e externos, as rodas de história, as rodas de conversa, as oficinas artísticas e os cuidados com o corpo são exemplos dessas atividades. Podemos dizer que os momentos de rotina contribuem com os momentos ligados ao cuidar e ao educar. A recepção das crianças, os momentos de atividade dirigida, atividades livres, brincadeiras, alimentação, higiene, sono e despedida estão presentes na rotina. Cada um deles necessita de ações ligadas ao cuidar e ao educar. Vale destacar que a rotina precisa ser planejada, contudo, deve- se assumir um caráter flexível. Rotinas rígidas podem prejudicar o desenvolvimento da autonomia e a expressividade da criança. A organização do trabalho pedagógico não tem o objetivo de estabelecer quais atividades serão realizadas todos os dias, utilizando- se das mesmas estratégias e metodologias, mas sim contribuir com a reflexão, a preparação e a organização de vivências que sejam significativas para os alunos, proporcionando diferentes oportunidades de interação e desenvolvimento. Esse tipo de trabalho requer responsabilidade e compromisso por parte do educador. Gonzales-Mena e Eyer (2014) afirmam que o trabalho com bebês e crianças deve estar assentado na filosofia do respeito. As autoras U2 - A educação aplicada aos cuidados da criança54 apresentam dez princípios para o trabalho com essa faixa etária. O primeiro deles é envolver os bebês e as crianças nos assuntos que lhes dizem respeito para que conheçam as particularidades de cada ação, sentimento, dúvidas ou dificuldades. O segundo princípio apontado é investir no tempo de qualidade. Trata-se do momento em que o professor estará completamente disponível para a criança. O terceiro princípio trata sobre a importância de aprender os meios pelos quais a criança se comunica, evidenciando a importância de buscar uma linguagem clara e acessível à criança. O quarto princípio refere-se à busca do desenvolvimento global, além do desenvolvimento cognitivo dos alunos. O quinto princípio está pautado no respeito à criança, em todas as ações. Trata-se da ideia de que esta precisa receber esclarecimentos adequados sobre situações e experiências que serão expostas e vivenciadas. O sexto princípio está relacionado com o modo como o professor expressa seus sentimentos e interage frente às atitudesda criança, o sétimo destaca a importância do docente ser um modelo para a criança e o oitavo princípio está pautado na crença na capacidade que os bebês e as crianças têm de resolver problemas. É importante que o educador favoreça um tempo para a criança buscar soluções para esses problemas. O nono princípio está pautado na construção de uma relação de confiança entre a criança e os adultos e o décimo princípio refere-se ao conhecimento sobre as características das fases de desenvolvimento humano. Um princípio está interligado com o outro e todos procuram respeitar a fase em que a criança se encontra. Existem vários outros princípios que podem contribuir com as aprendizagens vivenciadas pela criança, além dos que foram citados aqui. Cabe ao professor, pesquisar os fundamentos da educação infantil, refletindo sobre metodologias e ações adequadas para cada grupo ou faixa etária. As informações trazidas até aqui nos ajudam a perceber que a criança é um indivíduo que precisa de mediações ligadas ao cuidar e ao educar. Não há uma abordagem mais importante do que a outra. O cuidar e o educar devem caminhar juntos na educação infantil, para que, assim, as crianças tenham condições de se desenvolverem de modo pleno. U2 - A educação aplicada aos cuidados da criança 55 Questão para reflexão Aproveitando as reflexões realizadas até aqui, responda às seguintes perguntas: que ações caracterizam o cuidar? E o educar? Que estratégias podem ser utilizadas para estabelecer um trabalho de parceria entre a escola e a família? Essas reflexões contribuirão com a sua formação enquanto docente, para que você esteja preparado para atuar no mercado de trabalho. 1.2 Organização do espaço e do tempo As situações de aprendizagem podem acontecer em qualquer momento, independente do lugar, do tempo e dos materiais utilizados, entretanto, é possível enriquecer as experiências vivenciadas pelas crianças, utilizando-se de algumas informações e estratégias. O espaço físico disponibilizado para as crianças, a organização temporal das vivências realizadas e a escolha dos materiais utilizados no cotidiano podem contribuir de modo significativo para que o cuidar e o educar se efetivem na educação infantil. “No momento em que é proposta uma nova concepção de infância e é redefinido o papel de cuidar e educar, passamos a pensar no espaço em que isso vai acontecer” (CARTAXO, 2013, p. 130). Com o passar dos anos, observou-se a necessidade de oferecer um espaço que tivesse as condições de higiene necessárias para a criança, mas que também pudesse contribuir com o seu desenvolvimento e sua autonomia. A partir de então, os documentos voltados à educação infantil passaram a realizar orientações específicas para esse espaço de atuação. Os espaços devem ser utilizados por diferentes faixas etárias, por isso, é aconselhável que o mobiliário possa ser modificado sempre que necessário. Sugere-se, ainda, a utilização de prateleiras ou armários com uma altura que favoreça o acesso da criança, além de caixas, biombos, casinha e outros materiais que o professor julgar como adequados. “Esse tipo de organização favorece à criança ficar sozinha, se assim o desejar” (BRASIL, 1998, p. 69). Inicialmente, o brincar sozinho pode ser visto como uma prática menos importante, mas ele também favorece o desenvolvimento do pensamento, da imaginação e da autonomia da criança. Caso ela U2 - A educação aplicada aos cuidados da criança56 tenha dificuldade de relacionar-se com as outras crianças, o professor ajudará nessa interação, assim como deverá garantir a ela o direito de também brincar sozinha, sempre que desejar. É importante lembrar que a aprendizagem pode acontecer também nas áreas externas, como pátios, quadras, jardins ou ainda em espaços fora da instituição. O contato com a natureza é marcado por uma série de descobertas. Visitas a chácaras, fazendas, feiras ou praças costumam ser extremamente interessantes e prazerosas para as crianças, contudo, a segurança deve estar em primeiro lugar. Esse tipo de atividade necessita da autorização dos pais por escrito e de um número maior de adultos para realizar o acompanhamento das crianças. Fonte: <https://pixabay.com/pt/vacas-fazenda-agricultura-gado-1972285/>. Acesso em: 11 mar. 2017 Figura 2.2| Fazenda A adoção de perspectivas educacionais que permitam às crianças usufruírem da natureza também é citada no primeiro volume dos Parâmetros Nacionais de Qualidade para a educação infantil (BRASIL, 2006). De acordo com o documento, é necessário criar condições para que as crianças aprendam a conhecer o mundo ao seu redor e sejam incentivadas em atitudes de preservação e respeito à biodiversidade. U2 - A educação aplicada aos cuidados da criança 57 Para saber mais Acesse o link a seguir e conheça o primeiro volume dos Parâmetros Nacionais de Qualidade para a educação infantil. Você encontrará vários aspectos relevantes para a definição de parâmetros de qualidade para esse contexto no país. Disponível em: <http:// portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/Educinf/eduinfparqualvol1.pdf>. Acesso em: 8 mar. 2017. De acordo com o Referencial Curricular Nacional para a educação infantil, as crianças de zero a um ano de idade “necessitam de um espaço especialmente preparado, onde possam engatinhar livremente, ensaiar os primeiros passos, brincar, interagir com outras crianças, repousar quando sentirem necessidade etc.” (BRASIL, 1998, p. 69). Cartaxo (2013) complementa essa informação ao afirmar que o espaço deve ser criado de forma a incentivar o desenvolvimento pleno das crianças. Entre os ambientes organizados para esse fim, podemos citar o fraldário, o solário, a sala de repouso, a sala de atividades, entre outros espaços. As crianças maiores precisam ter espaços que oportunizem momentos de jogos e brincadeiras variadas, contação de histórias, atividades artísticas, atividades corporais, além de mobiliário, refeitórios e banheiros adequados ao seu tamanho. “É preciso que, em todas as salas, exista mobiliário adequado ao tamanho das crianças para que estas disponham permanentemente de materiais para seu uso espontâneo ou em atividades dirigidas” (BRASIL, 1998, p. 71). No que se refere à organização da sala de aula, o professor pode, inclusive, organizar cantos temáticos, incentivando a exploração de livros, jogos, objetos, brinquedos ou qualquer outro material que possa ser explorado com segurança e liberdade pela criança. O educador pode utilizar-se desses espaços para propor ações individualizadas ou simultâneas, de acordo com a necessidade de uma criança ou da própria turma. “Nas salas, a forma de organização pode comportar ambientes que permitem o desenvolvimento de atividades diversificadas e simultâneas, como ambientes para jogos, artes, faz-de- conta, leitura etc.” (BRASIL, 1998, p. 69). U2 - A educação aplicada aos cuidados da criança58 Fonte: <https://pixabay.com/pt/crian%C3%A7a-jogar-quarto-de-crian%C3%A7as-1568551/>. Acesso em: 11 mar. 2017. Figura 2.3 | Brinquedos O espaço disponibilizado às crianças tem grande importância para o seu bem-estar, pois além de favorecer diferentes oportunidades de interação, pode estimular o desenvolvimento e a curiosidade das crianças. A disposição do mobiliário, bem como os objetos existentes em cada ambiente, pode ser explorado tanto nas atividades livres, quanto nas atividades dirigidas. A organização do ambiente pode contribuir ainda com os momentos de sono e descanso das crianças. O sono faz parte do desenvolvimento humano.De acordo com Boujon e Quaireau (2001), é necessário respeitar o ritmo biológico das crianças e criar condições para que tenham qualidade de sono. Para saber mais Leia o artigo O espaço físico nas instituições de Educação Infantil: a prática pedagógica para a criança de 0 a 3 anos, de Roseli Rodrigues e Gilmar Bueno. O objetivo do artigo é refletir sobre a importância do espaço físico para o desenvolvimento biológico, psicológico e social das crianças de 0 a 3 anos. Disponível em: <http://www. infoteca.inf.br/endipe/smarty/templates/arquivos_template/upload_ arquivos/acervo/docs/2213p.pdf>. Acesso em: 8 mar. 2017. U2 - A educação aplicada aos cuidados da criança 59 Ao tratar sobre a infraestrutura necessária para o atendimento às crianças em seus primeiros anos de vida, o segundo volume dos Parâmetros Nacionais de Qualidade para a educação infantil (BRASIL, 2006b) apresenta vários padrões de referência para essas instituições, citaremos alguns deles. De acordo com o documento, espaços, materiais e equipamentos das instituições de educação infantil destinam-se: • Prioritariamente às crianças, com o objetivo de atender às necessidades de saúde, alimentação, proteção, descanso, interação, conforto, higiene e aconchego das crianças. • Adequam-se para receber as crianças público-alvo da educação especial, de acordo com a Lei de Acessibilidade (Lei no 10.098). • As paredes são usadas para expor as produções das crianças, visando a ampliação do universo de suas experiências e de seus conhecimentos. • Propiciam interações entre as próprias crianças e entre adultos e crianças. • Instigam a curiosidade, a imaginação e a aprendizagem das crianças. • O mobiliário, os materiais e os equipamentos são organizados para tornar os diferentes espaços da instituição de educação infantil mais aconchegantes e confortáveis. • É prevista a instalação de um quadro de avisos na entrada da educação infantil. Vale lembrar que os pisos dos espaços disponibilizados para as crianças não podem ser escorregadios, nem muito difíceis de limpar, para não comprometer a higienização. A utilização de espelhos em diferentes espaços também é indicada, pois favorece a observação sobre o corpo por inteiro, a percepção das diferentes partes do corpo e a descoberta sobre semelhanças e diferenças entre as crianças. Bruno (2006) destaca a relevância da organização do espaço, a eliminação das barreiras arquitetônicas, a adequação de mobiliários e as adaptações nos brinquedos e jogos para oportunizar práticas inclusivas para as crianças público-alvo da educação especial. É fundamental que desde a mais tenra idade, as crianças tenham a oportunidade de aprender que mesmo sendo diferentes, têm os U2 - A educação aplicada aos cuidados da criança60 mesmos direitos e precisam conviver com respeito e harmonia. De acordo com Cartaxo (2013), é interessante disponibilizar um mural com a altura das crianças, colocando fotos em diferentes situações sociais e imagens de interesse para elas. Os brinquedos, os objetos e os materiais ofertados para elas também precisam ser organizados em prateleiras, caixas ou armários, favorecendo a manutenção e a reposição dos materiais. Fonte: <https://pixabay.com/pt/figures-brinquedos-schleich-le%C3%A3o-647424/>. Acesso em: 11 mar. 2017. Figura 2.4 Brinquedos em prateleira Para saber mais Conheça os Parâmetros Básicos de Infraestrutura para as Instituições de educação infantil acessando o link a seguir. As informações contidas no material favorecem a compreensão sobre as especificidades necessárias para atender essa faixa etária. Disponível em: <http:// portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/Educinf/miolo_infraestr.pdf>. Acesso em: 7 mar. 2017. As vivências livres são consideradas como fundamentais para a educação infantil, entretanto, o tempo didático também deve ser organizado, principalmente quando ele está relacionado ao educar. “A intencionalidade do trabalho educativo na educação infantil representa o pano de fundo para a organização do tempo. Essa organização é efetivada por meio do planejamento diário, semanal e anual, em consonância com a proposta pedagógica” (CARTAXO, 2013, p. 141). Trataremos sobre o que é planejamento e qual a sua importância na Unidade 4 do livro. Segundo o RCNEI (BRASIL,1998), o tempo das U2 - A educação aplicada aos cuidados da criança 61 atividades e a metodologia de trabalho devem ser organizados entre atividades permanentes, sequência de atividades e projetos de trabalho. As atividades permanentes são “aquelas que respondem às necessidades básicas de cuidados, aprendizagem e de prazer para as crianças, cujos conteúdos necessitam de uma constância” (BRASIL, 1998, p. 55). As sequências de atividades “são sequenciadas com intenção de oferecer desafios com graus diferentes de complexidade para que as crianças possam ir paulatinamente resolvendo problemas a partir de diferentes proposições” (BRASIL, 1998, p. 56) e os projetos de trabalho referem-se a “conjuntos de atividades que trabalham com conhecimentos específicos construídos a partir de um dos eixos de trabalho que se organizam ao redor de um problema para resolver ou um produto final que se quer obter (BRASIL, 1998, p. 56). De acordo com Cartaxo (2013), é necessário estabelecer uma rotina diária para que a criança perceba a relação espaço-tempo e possa criar suas previsões sobre o funcionamento dos horários. De acordo com a autora, essa rotina cria um clima de segurança e de estabilidade fundamental para o desenvolvimento infantil. Oliveira (apud CARTAXO, 2013) apresenta três concepções de tempo: • Tempo biológico: refere-se ao desenvolvimento físico. • Tempo histórico: refere-se aos acontecimentos que estão ligados às crianças e suas famílias. • Tempo psicológico: tempo que cada criança necessita para pensar e se desenvolver. O professor deve atentar a cada um dos tempos apresentados, estudar cada um deles para que possa fundamentar suas ações, favorecendo o desenvolvimento, a curiosidade e o bem-estar da criança. Para saber mais Conheça um pouco mais sobre a importância do espaço e do tempo no trabalho com a educação infantil. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=Gdg2j_Y-BsQ>. Acesso em: 8 mar. 2017. U2 - A educação aplicada aos cuidados da criança62 Questão para reflexão Quais são as principais dificuldades encontradas pelas instituições de educação infantil para oportunizar às crianças ambientes considerados como adequados? Como o espaço pode influenciar no desenvolvimento infantil? 1.3 Finalizando a seção Refletimos nesta seção sobre os fundamentos da educação infantil, considerando o cuidar e o educar como aspectos relevantes para a faixa etária. Observamos que a escola e a família devem trabalhar em parceria, para que juntos possam estabelecer estratégias viáveis para cada contexto sociocultural. Ao estudar a organização do espaço e do tempo, verificamos a necessidade de oferecer um espaço com boas condições de higiene para a criança e que ao mesmo tempo pudesse contribuir com seu desenvolvimento e autonomia e que, embora as atividades livres sejam de extrema importância, o tempo didático também deve ser organizado. Atividades de aprendizagem 1. Existe uma indissociabilidade entre o cuidar e o educar na educação infantil. Diante dessa afirmação e das reflexões realizadas até o momento, disserte sobre a relação entre o cuidar e o educar para essa faixa etária. 2. O RCNEI(BRASIL,1998) afirma que na educação infantil, o tempo das atividades e a metodologia de trabalho devem ser organizados entre atividades permanentes, sequência de atividades e projetos de trabalho. Explique a diferença entre eles: Fonte: BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil. Brasília: MEC/SEF, 1998. U2 - A educação aplicada aos cuidados da criança 63 Seção 2 Cuidados básicos Introdução à seção Nesta seção, refletiremos sobre algumas orientações relacionadas aos hábitos de higiene e alimentação na educação infantil. O momento do banho, a escovação dos dentes, a aprendizagem sobre o controle dos esfíncteres, as orientações sobre uma alimentação saudável, entre outros hábitos, podem contribuir com o bem-estar, a afetividade, o desenvolvimento e a saúde da criança. 2.1 Higiene pessoal A higiene está diretamente relacionada aos cuidados básicos necessários a todas as crianças. Os momentos de trocas de fraldas, banho, escovação dos dentes, de lavar as mãos, entre outras ações semelhantes, são fundamentais para o bem-estar da criança. Segundo Couto (2011), é necessário estimular os hábitos de higiene junto à população infantil, pois esses comportamentos são perpetuados por toda a vida e podem aumentar sobremaneira a qualidade e a longevidade da vida humana. Esses momentos são propícios também para estreitar a relação de confiança e afeto entre a criança e o adulto. A mecanização no momento de troca de fraldas deve ser evitada. Ao trocar a fralda dos bebês, deve-se conversar com a criança, dizer o nome das partes do corpo, cantar, abraçar, sorrir, fazer caretas ou qualquer outra manifestação de carinho. É necessário interagir com a criança, demonstrando interesse e respeito por ela. No que se refere à higienização das mãos e utilização do banheiro, é importante destacar que a pia e o vasos sanitários precisam dispor de uma altura adequada para as crianças, para que elas tenham condições de os utilizarem com a ajuda de um adulto e, gradualmente, possam lavar as mãos e utilizar o vaso sanitário de modo independente. U2 - A educação aplicada aos cuidados da criança64 Fonte: <https://pixabay.com/pt/m%C3%A3o-da-crian%C3%A7a-m%C3%A3o-dedo-%C3%A1gua-1893255/>. Acesso em: 11 mar. 2017. Figura 2.5 | Banheiro Moreira e Vitória (apud ROSSETTI-FERREIRA, 2006, p. 140-141), orientam sobre alguns recursos que podem ser utilizados no controle dos esfíncteres, entre eles: colocar algumas crianças sentadas em rodas em peniquinhos, favorecendo a imitação; oferecer brinquedos ou objetos que as distraiam enquanto permanecem sentadas no vaso ou penico, manter penicos ao alcance das crianças, para que possam chegar até eles com facilidade, entre outras ações. A agressividade e a apreensão demasiada nos momentos de escape também devem ser evitadas. Essas atitudes podem atrapalhar a autoconfiança da criança. O controle da urina e das fezes acontecerá gradualmente, permeado de muita atenção e paciência. O verão é considerado como o período mais indicado para “tirar a fralda das crianças”, devido à utilização de roupas mais leves. O professor ou o cuidador também deve lembrar de convidar a criança para ir ao banheiro em vários momentos do dia, lembrando-a sobre a necessidade da evacuação. É aconselhável comemorar e elogiar a criança diante de qualquer avanço relacionado ao controle dos esfíncteres (músculos que retém ou liberam as fezes e as urinas. Os esfíncteres começam a ser controlados a partir dos dois anos de vida, e é nesse momento que a criança tem a sua primeira experiência de decidir o controle de um impulso que vem de seu próprio instinto, pois ela começa a aprender a segurar sua necessidade de aliviar as tensões anais. (FARIAS; NANTES; AGUIAR, 2015, p. 7) U2 - A educação aplicada aos cuidados da criança 65 A criança de 1 a 3 anos encontra-se na fase anal. De acordo com Freud (1920), existe uma relação entre a maneira que os pais lidam com essa etapa e a personalidade da criança ao tornar-se um adulto. Ele acreditava que as experiências positivas vivenciadas nessa etapa contribuiriam para que as pessoas fossem adultos competentes, produtivos e criativos. Percebe-se, desse modo, que o ato de dar tchau para o “cocô ou xixi”, prática habitual no cotidiano infantil, é aconselhável para estabelecer certa proximidade e orgulho pela “produção” realizada. O momento do banho é fundamental para a higiene da criança. A pessoa que dá o banho na criança deve não só limpar cada parte do corpo com atenção, verificar se há manchas, machucados ou qualquer alteração que precise ser investigada, como também interagir com a criança, conversando sobre temas distintos, levando-a a refletir sobre assuntos variados. Esses momentos também podem favorecer descobertas e ações que contribuam com o desenvolvimento da autonomia. A rotina do banho pode ser trabalhada de forma completamente diversa. O ambiente e a rotina podem ser organizados de maneira a oportunizar às crianças o desenvolvimento autônomo de uma série de habilidades, como despir, lavar, enxugar, vestir e calçar a si próprias e às outras. Podem ter ocasião de experimentar a textura e outras qualidades da água, do sabão e das esponjas. Podem ajudar os outros ou cuidar deles, ou serem cuidadas por eles. Com isso, estaremos exercendo um cuidado/uma educação que as coloca em uma posição mais ativa, de alguém competente para interagir, aprender e exercer uma série de funções (ROSSETTI-FERREIRA, 2003, p. 11). Fonte: <https://pixabay.com/pt/crian%C3%A7a-banho-beb%C3%AA-bonito-feliz-454641/>. Disponível em: 11 mar. 2017 Figura 2.6 | Banho U2 - A educação aplicada aos cuidados da criança66 A escovação também deve ser estimulada. A criança precisa ser orientada sobre os movimentos adequados, a quantidade de pasta necessária, o modo de realizar o bochecho, enfim, são muitas informações para que a escovação seja realizada com êxito e, por isso, esse momento também deve ser acompanhado pelos adultos com atenção. Para saber mais Conheça alguns vídeos que podem contribuir com a abordagem sobre hábitos de higiene para a educação infantil. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=k2z0ppvRqEY>. Acesso em: 10 mar. 2017. Disponível em: <https://www.youtube.com/ watch?v=M1P_40KdO0U>. Acesso em: 10 mar. 2017. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=BJM8lj3PQbc>. Acesso em: 10 mar. 2017 Questão para reflexão Qual é a relação entre os hábitos de higiene e a educação? Como o professor pode estimular os hábitos de higiene na educação infantil? 2.2 Alimentação Você se lembra de como se alimentava na infância? Quais alimentos você mais gostava? Quais alimentos não gostava? Quem te alimentava? Como era sua alimentação na escola? A escola oferecia o lanche ou você trazia de casa? Essas perguntas contribuirão não só para que você lembre de sua infância e os hábitos alimentícios desse período, mas para que se recorde também da afetividade e dos cuidados que, de certa forma, estavam relacionados a esses momentos. A alimentação é fundamental para o desenvolvimento infantil, pois está diretamente ligada ao desenvolvimento e à saúde da criança. De acordo com Silveira (2015, p. 13), “a alimentação adequada é uma das necessidades básicas de todo ser vivo, principalmente na fase inicial de sua formação”. As crianças que ainda mamam, devem ser alimentadas no colo, reforçando seu vínculo com o educador. Gonzales-Mena U2 - A educação aplicadaaos cuidados da criança 67 e Eyer (2014) sugerem que o mesmo professor alimente sempre os mesmos bebês e crianças, para que assim, seja possível construir uma relação de apego. As crianças que já conseguem segurar sua própria mamadeira, devem permanecer inclinadas para não engasgar, por isso, apesar de contarem com certa independência, devem ser supervisionadas pelos professores. De acordo com o RCNEI (BRASIL, 1998, p. 53), Aos poucos, a criança que recebia papa com ajuda do adulto começa a mostrar interesse em segurar a colher, em pegar alimentos com os dedos e pôr na boca. É muito importante que os educadores permitam que a criança experimente os alimentos com a própria mão, pois a construção da independência é tão importante quanto os nutrientes que ela precisa ingerir. A descoberta dos alimentos está diretamente relacionada com a experimentação dos sabores, aromas, aparência e consistência. É importante oferecer sabores distintos para a criança. A infância é um período de formação de hábitos, inclusive, de hábitos alimentares. As crianças costumam comer bem em grupo, pois são influenciadas pelos colegas. A apresentação de sabores diferentes no ambiente escolar pode ter um bom resultado. Fonte: <https://pixabay.com/pt/salada-frescos-vegetais-791891/>. Acesso em: 11 mar. 2017. Figura 2.7 | Alimentação saudável U2 - A educação aplicada aos cuidados da criança68 Conforme vão crescendo, as crianças começam a utilizar colheres, canequinhas, copos e outros utensílios. É aconselhável que cada criança tenha seus próprios pratos, copos e objetos de uso pessoal e que eles sejam identificados e guardados em locais de fácil acesso, para que ela possa utilizá-los sempre que necessário. Pode-se abordar também hábitos à mesa, realizar orientações sobre não falar com a boca cheia, dar dicas sobre mastigação, lembrar sobre a importância dos hábitos de higiene antes das refeições, entre outras orientações. É importante lembrar também de considerar a faixa etária da criança e o vocabulário adequado para alcançar a compreensão desejada. Segundo Silveira (2015), a criança necessita de energia e nutrientes para alcançar o crescimento físico e intelectual, com poder de concentração e raciocínio. Para isso, é necessário oferecer uma alimentação balanceada. A autora defende ainda a inclusão de um carboidrato, uma proteína, uma fruta e um líquido na merenda escolar. Conheça alimentos presentes em cada uma dessas categorias: • Carboidratos: pães variados, biscoitos (sem recheio e sem cobertura), bolo simples e barra de cereal. • Proteína: queijo, leites e iogurtes. • Fruta: banana, uva, maçã, pera, ameixa, pêssego, morango, goiaba, entre outras. • Líquidos: água, sucos naturais e água de coco. Fonte: <https://pixabay.com/pt/frutas-doce-ex%C3%B3ticos-abacaxi-82524/>. Acesso em: 11 mar. 2017. Figura 2.8 | Frutas U2 - A educação aplicada aos cuidados da criança 69 A escola deve evitar oferecer lanches que não sejam saudáveis e os professores devem dar bom exemplo, realizando alimentações saudáveis também. Os professores que exercem influência e que são vistos como modelos pelos alunos, têm o dever de evitar o consumo de alimentos de baixo ou nenhum valor nutritivo na presença deles. A posição que ocupam influenciam a formação de hábitos, tanto adequados e saudáveis, quanto inadequados e prejudiciais (SILVEIRA, 2015, p. 56). Algumas instituições oferecem o lanche escolar, em outras, a família é quem envia os lanches que serão consumidos pelas crianças. É fundamental que a família e a escola oportunizem momentos de discussão sobre a alimentação a ser oferecida pelas crianças. Inicialmente, ao comer sozinha, a criança pode derrubar os alimentos, sujar-se, errar a direção da boca, manchar a roupa e assim por diante, mas ela precisa passar por essa fase, para conquistar a autonomia necessária para esses momentos. Ao observar as crianças no momento da alimentação, podemos perceber que algumas têm o hábito de brincar com a comida. Deve- se aproveitar a ludicidade para que a criança coma os alimentos e as quantidades recomendáveis pelos pediatras, favorecendo, assim, o desenvolvimento das crianças. Um ambiente acolhedor e agradável contribui tanto com o interesse das crianças pelos alimentos e pela alimentação propriamente dita, quanto com o incentivo de hábitos saudáveis, que objetivam melhor qualidade de vida. Para saber mais Acesse os vídeos disponibilizados a seguir e conheça desenhos relacionados à alimentação saudável e ao bem-estar da criança. Disponível em: <https://www.youtube.com/ watch?v=9pzTsbqgqMQ>. Acesso em: 10 mar. 2017. U2 - A educação aplicada aos cuidados da criança70 Para saber mais Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=lbdnd0En-aA>. Acesso em: 10 mar. 2017. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=Q- K0KyBBkpI>. Acesso em: 10 mar. 2017 2.3 Finalizando a seção A partir das informações trazidas nesta unidade, podemos verificar a necessidade de estimular os hábitos de higiene junto à população infantil, já que esses comportamentos são perpetuados por toda a vida e podem aumentar sobremaneira a qualidade e a longevidade da vida humana. No que se refere à alimentação, analisamos a necessidade de oferecer alimentos adequados para cada faixa etária, tratar de informações relacionadas aos hábitos à mesa, dicas de mastigação, reflexão sobre a importância dos hábitos de higiene antes das refeições, entre outras orientações relevantes. Observamos também que os cuidados presentes nos momentos do banho, na escovação dos dentes, nas orientações sobre uma alimentação saudável, entre outros, são propícios também para estreitar a relação de confiança e afeto entre a criança e o adulto. Ao trocar a fralda dos bebês, ao alimentá-lo ou realizar qualquer outra ação vinculada ao cuidar, o professor deve conversar com a criança, sorrir, realizar manifestações de carinho e demonstrar respeito e interesse por ela. Questão para reflexão Que tipos de alimentos devem ser evitados no lanche ou na merenda escolar? Que estratégias podem ser utilizadas para que as crianças se sintam motivadas para experimentarem novos alimentos? U2 - A educação aplicada aos cuidados da criança 71 Atividades de aprendizagem 1. Segundo Couto (2011), é necessário estimular os hábitos de higiene junto à população infantil, pois esses comportamentos são perpetuados por toda a vida e podem aumentar sobremaneira a qualidade e a longevidade da vida humana. Sobre o exposto, assinale a alternativa CORRETA: Fonte: COUTO, V. C. do. Higiene pessoal corporal com ênfase à importância do banho, lavagem das mãos e unhas. Monografia de práticas de educação em Saúde. Especialização em Saúde. Nova Tebas, 2011. Disponível em: <http://acervodigital. ufpr.br/bitstream/handle/1884/35114/VANIA%20CLAUDIA%20DO%20 COUTO.pdf?sequence=1>. Acesso em: 10 mar. 2017. a) A mecanização no momento de troca de fraldas é fundamental, pois as crianças precisam de pessoas que cuidem delas de modo prático. b) Deve-se aproveitar os momentos ligados ao cuidar para realizar diferentes interações e trocas de afeto entre o adulto e a criança. c) É importante que a criança seja completamente dependente do adulto, já que ela é incapaz de realizar qualquer ação autônoma relacionada aos hábitos de higiene. d) O controle da urina e das fezes deve acontecer incontestavelmente aos 18 meses de idade, mesmo que de modo abrupto. e) O professordeve supervisionar a escovação dos dentes das crianças, embora elas aprendam a escovar os dentes de modo instintivo. 2. De acordo com Silveira (2015), os professores que exercem influência e que são vistos como modelos pelos alunos, têm o dever de evitar o consumo de alimentos que não tenham valor nutritivo na presença deles. Por que a alimentação é tão importante para a educação infantil? Explique. U2 - A educação aplicada aos cuidados da criança72 Seção 3 Eixos de aprendizagem da educação infantil Introdução à seção Os eixos de aprendizagem presentes na educação infantil são importantes para o desenvolvimento infantil, pois oportunizam descobertas e experiências distintas que favorecem a expressão corporal, a coordenação motora, a cultura, a linguagem, a comunicação, a ampliação do conhecimento de mundo, o contato e o interesse pelos ambientes e seres vivos e a aplicação de relações matemáticas em diferentes situações do cotidiano. Estes temas podem assumir estreita relação tanto com o cuidar quanto com o educar, já que, como vimos anteriormente, ambos caminham juntos na educação infantil e estão presentes no cotidiano das crianças. O terceiro volume do Referencial Curricular Nacional para a educação infantil (BRASIL, 1998) aborda fundamentos relevantes aos eixos de trabalho relacionados às diferentes linguagens: movimento, música, artes visuais, linguagem oral e escrita, natureza e sociedade e matemática e apresenta os objetivos e os conteúdos de cada uma das linguagens. Conheceremos alguns deles a seguir. 3.1 Movimento O movimento faz parte do cotidiano infantil e normalmente assume um caráter lúdico através de diferentes movimentações corporais. Ao rolar, balançar o corpo, pular, engatinhar, bater palmas ou realizar qualquer outro movimento corporal, a criança vivencia diferentes formas de locomoção. Ela se expressa e se comunica por meio de gestos e movimentos corporais. “Ao brincar, jogar, imitar e criar ritmos e movimentos, as crianças também se apropriam do repertório da cultura corporal na qual estão inseridas” (BRASIL, 1998, p. 15). A utilização de cones, bolas, fitas, bambolês, pneus, entre outros materiais podem favorecer o trabalho com esse eixo. O espelho também pode ser um importante aliado na descoberta corporal das crianças. Além de ser U2 - A educação aplicada aos cuidados da criança 73 extremamente instigante para elas, as práticas realizadas no espelho costumam ser muito divertidas. Objetivos: • Familiarizar-se com a imagem do próprio corpo, ampliando as possibilidades expressivas do movimento. • Expressar-se por meio de interações e brincadeiras. • Deslocar-se com destreza progressiva ao andar, correr, pular etc. • Explorar e utilizar movimentos de preensão, encaixe, lançamento etc. Conteúdos: • Expressividade, equilíbrio e coordenação. • Reconhecimento progressivo e identificação do próprio corpo. • Percepção de sensações, limites e potencialidade do próprio corpo. • Expressão de ritmos corporais por meio de gestos, posturas e da linguagem oral. • Percepção de estruturas rítmicas para expressar-se corporalmente por meio da dança, brincadeiras e outros movimentos. • Exploração de diferentes posturas corporais, como sentar-se em diferentes inclinações, deitar-se, ficar ereto e demais posturas. • Ampliação do deslocamento no espaço. • Aperfeiçoamento dos gestos relacionados à preensão, ao encaixe, ao lançamento etc. • Utilização de habilidades de força, velocidade, resistência, flexibilidade, entre outros. • Manipulação de materiais, objetos e brinquedos diversos, aperfeiçoando habilidades manuais. • Danças tradicionais brasileiras. U2 - A educação aplicada aos cuidados da criança74 Fonte: <https://pixabay.com/pt/crian%C3%A7as-dan%C3%A7a-jogar-menina-513481/>. Acesso em: 11 mar. 2017. Figura 2.9 | Brincadeiras de roda 3.2 Música A música faz parte da vida das crianças, dos adolescentes, dos jovens e dos adultos. Ouvimos música para dormir, para dançar, para celebrar, para relaxar, ou seja, a música está presente nas mais diversas manifestações sociais. De acordo com o RCNEI (BRASIL, 1998), a linguagem musical tem estrutura e características próprias e seu trabalho está baseado em três pilares: produção, apreciação e reflexão musical. A música deve ser considerada como forma de expressão e comunicação. “Quando cantam, as crianças imitam o que ouvem e assim desenvolvem condições necessárias à elaboração do repertório de informações que posteriormente lhes permitirá criar e se comunicar por intermédio dessa linguagem (BRASIL, 1998, p. 59). Objetivos: • Ouvir, perceber e discriminar eventos sonoros diversos, fontes sonoras e produções musicais. • Brincar com a música, imitar, inventar e reproduzir criações musicais. • Explorar e identificar elementos da música. • Perceber e expressar sensações, sentimentos e pensamentos. U2 - A educação aplicada aos cuidados da criança 75 3.3 Artes Visuais Conteúdos: • Som e silêncio. • Produção, apreciação e reflexão. • Fontes e objetos sonoros variados e instrumentos musicais. • Parâmetros sonoros: altura, duração, timbre, intensidade e densidade. • Acompanhamento rítmico com palmas, danças e outros movimentos corporais. • Exploração de materiais e a escuta de obras musicais variadas. • Produção de sons vocais, corporais e instrumentais. • Interpretação de músicas e canções diversas. • Brincadeiras e jogos cantados e rítmicos. • Reconhecimento de variações de velocidade, frases, partes, forma, entre outros elementos musicais. • Improvisação musical. • Memória musical. • Instrumentos musicais. Fonte: <https://pixabay.com/pt/instrumento-c%C3%ADmbalos-m%C3%BAsica-2010525/>. Acesso em: 11 mar. 2017. Figura 2.10 | Xilofone Temos contato com informações visuais a todo o instante. As crianças possuem grande interesse por essas informações e passam a se expressar por meio delas através de diferentes modalidades artísticas. U2 - A educação aplicada aos cuidados da criança76 Muitas vezes as Artes Visuais têm assumido apenas um caráter decorativo ou como recurso para outros conteúdos na Educação Infantil ou ainda como práticas isoladas, ligadas a pintura. De acordo com o RCNEI (BRASIL, 1998), as Artes Visuais devem ser concebidas como uma linguagem que tem estrutura e características próprias, cuja aprendizagem, no âmbito prático e reflexivo, se dá por meio da articulação do fazer artístico, da apreciação e da reflexão. Objetivos: • Ampliar o seu conhecimento de mundo por meio de formas diversas de expressão artística; • Manipular diversos materiais gráficos e plásticos; • Interessar-se pelas próprias produções, pelas produções de outras crianças e pelas diversas obras artísticas; • Produzir trabalhos utilizando a linguagem do desenho, da pintura, da modelagem, da colagem, desenvolvendo o gosto e respeito pelo processo de produção e criação. Conteúdos: • Elementos da linguagem visual: ponto, linha, forma, cor, volume, contrastes, luz, texturas; • Garatujas; • Leitura de obras de arte; • Exploração e manipulação de materiais variados como lápis, pinceis tintas, jornais, entre outros; • Cuidado com o próprio corpo, bem como o corpo do colega, materiais e objetos produzidos individualmente e em grupo; • Observação de figuras humanas; • Criação de desenhos, pinturas, modelagens, fotografias, entre outras modalidades; • Espaços bidimensionais e tridimensionais; • Observação e identificação de formas diversas; U2 - A educação aplicada aos cuidados da criança 77 Fonte: <https://pixabay.com/pt/pintura-arco-%C3%ADris-brilhante-1818074/>. Acesso em: 11mar. 2017. Figura 2.11 | Pintura 3.4 Linguagem oral e escrita As crianças entram em contato inicialmente com a linguagem oral e em seguida com a linguagem escrita, mesmo que não recebam muitas orientações específicas para esse fim. Ao ouvir pessoas conversando, ao assistir televisão, ao apreciarem as imagens e as letras contidas em um brinquedo ou livro, as crianças se deparam com o mundo das letras. De acordo com o RCNEI (BRASIL, 1998), a aprendizagem de uma língua não se refere somente à aprendizagem de palavras. Trata-se da aprendizagem do seu significado cultural e o contexto em que cada uma delas é utilizada. Essa vivência amplia a capacidade de comunicação e expressão das crianças por meio das quatro competências linguísticas básicas: falar, escutar, ler e escrever. Objetivos: • Interagir e expressar desejos, necessidades e sentimentos por meio da linguagem oral. • Interessar-se pela leitura de histórias. U2 - A educação aplicada aos cuidados da criança78 • Familiarizar-se aos poucos com a escrita. • Ampliar gradativamente as possibilidades de comunicação e expressão. • Escutar textos lidos e narrar suas vivências. • Reconhecer seu nome escrito, sabendo identificá-lo nas diversas situações do cotidiano. • Escolher livros para ler e apreciar. Conteúdos: • Linguagem oral. • Gêneros literários: contos, poemas, mitos, lendas etc. • Observação e manuseio de materiais impressos. • Elaboração de perguntas e respostas. • Reconto de histórias. • Conhecimento e reprodução oral de trava-línguas, parlendas, adivinhas, poemas, entre outros. • Manuseio de livros com gravuras, revistas, histórias em quadrinhos, entre outros. • Jogos de escrita. • Produção de textos individuais e coletivos. Fonte: <https://pixabay.com/pt/crian%C3%A7a-livro-menino-estudando-315049/>. Acesso em: 11 mar. 2017 Figura 2.12| Apreciação de imagens U2 - A educação aplicada aos cuidados da criança 79 3.5 Natureza e sociedade A educação infantil é uma etapa movida pela descoberta. A observação de uma formiga no chão, o toque em um animal ou a percepção diante das diferenças de texturas no solo, costumam ser fascinantes. O eixo de trabalho denominado Natureza e Sociedade reúne temas pertinentes ao mundo social e natural. A intenção é que o trabalho ocorra de forma integrada, ao mesmo tempo em que são respeitadas as especificidades das fontes, abordagens e enfoques advindos dos diferentes campos das Ciências Humanas e Naturais. (BRASIL, 1998, p. 163) A cultura de diversos povos, o conhecimento científico socialmente construído e acumulado historicamente, entre outros temas abordados no eixo, oportunizam uma aproximação sobre o conhecimento das diversas formas de representação e explicação do mundo social e natural. Objetivos: • Explorar o ambiente, estabelecendo contato com pequenos animais, plantas e objetos diversos. • Interessar-se e demonstrar curiosidade pelo mundo social e natural. • Estabelecer relações entre grupos sociais. • Valorizar o meio ambiente e a preservação das espécies e para a qualidade da vida humana. Conteúdos: • Histórias, brincadeiras, jogos e canções relacionadas às tradições culturais distintas. • Exploração de objetos, suas propriedades e relações de causa e efeito. • Contato com pequenos animais e plantas. • Conhecimento do próprio corpo por meio da exploração de suas habilidades físicas, motoras e perceptivas. U2 - A educação aplicada aos cuidados da criança80 • Lugares e paisagens. • Seres vivos. • Cuidados com o corpo. • Valorização de atitudes relacionadas à saúde e ao bem-estar individual e coletivo. • Fenômenos da natureza. • Diversidade de recursos materiais. Fonte: <https://pixabay.com/pt/papagaio-ave-cativeiro-animais-55293/>. Acesso em: 11 mar. 2017. Figura 2.13 | Pássaros 3.6 Matemática As crianças participam de uma série de situações envolvendo conhecimentos matemáticos. Os números, as relações de quantidade, as noções de espaço, entre outras, ajudam no contato e na resolução de conflitos cotidianos. As instituições de educação infantil podem contribuir no contato com a linguagem matemática por meio de vivências que oportunizem a compreensão sobre os conceitos tratados de modo significativo e atrativo para a faixa etária. As noções matemáticas (contagem, relações quantitativas e espaciais etc.) são construídas pelas crianças a partir das experiências proporcionadas pelas interações com o meio, pelo intercâmbio com outras pessoas que possuem interesses, conhecimentos e necessidades que podem ser compartilhados. (BRASIL, 1998, p. 213) U2 - A educação aplicada aos cuidados da criança 81 Objetivos: • Estabelecer aproximações a algumas noções matemáticas presentes no seu cotidiano. • Reconhecer e valorizar números, operações numéricas, contagens orais. • Comunicar ideias matemáticas, hipóteses, situações-problemas. Conteúdos: • Contagem oral, noções de quantidade, tempo e espaço. • Empilhar, rolar, encaixar etc. • Números e sistemas de numeração. • Noções simples de cálculo mental. • Notação numérica e/ou registros não convencionais. • Noção de sucessor e antecessor. • Comparação de escritas numéricas. • Operações. • Grandezas e medidas. • Espaço e forma. Fonte: <https://pixabay.com/pt/cubo-jogar-colorido-n%C3%BAmeros-de-olho-442544/>. Acesso em: 11 mar. 2017. Figura 2.14 Dados 3.7 Finalizando a seção Estudamos nesta seção aspectos relevantes no trabalho com os eixos relacionados às diferentes linguagens: movimento, música, artes visuais, linguagem oral e escrita, natureza e sociedade U2 - A educação aplicada aos cuidados da criança82 e matemática. Observamos que as vivências oportunizadas favorecem a expressão corporal, a coordenação motora, a cultura, a linguagem, a comunicação, entre outros, além de favorecerem a ampliação do conhecimento de mundo. Os objetivos e os conteúdos de cada eixo de trabalho contribuem com o conhecimento teórico sobre o tema e favorecem a reflexão sobre atividades práticas que podem ser desenvolvidas a partir das informações apresentadas. Os estímulos realizados durante os primeiros anos de vida são fundamentais para o desenvolvimento físico, cognitivo e psicológico das crianças e podem influenciar a formação da personalidade. Observamos, desse modo, a importância dessa etapa para o desenvolvimento humano. Atividades de aprendizagem 1. De acordo com o RCNEI (BRASIL, 1998), o eixo de trabalho denominado Natureza e Sociedade reúne temas pertinentes ao mundo social e natural. Qual das alternativas a seguir apresenta a afirmação correta sobre esse eixo? Fonte: BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil. Brasília: MEC/SEF, 1998. a) O eixo denominado Natureza e Sociedade envolve aspectos relacionados à cultura de diversos povos, ao conhecimento científico socialmente construído e acumulado historicamente, entre outros temas. b) O eixo denominado Natureza e Sociedade envolve aspectos relacionados ao desenvolvimento da expressão, fundamentando-se em atividades ligadas à improvisação, à produção, à apreciação e à reflexão. c) O eixo denominado Natureza e Sociedade envolve aspectos relacionados a situações envolvendo relações de quantidade e noções de espaço, contribuindo no contato e na resolução de conflitos cotidianos. d) O eixo denominado Natureza e Sociedade envolve aspectos relacionados à comunicação e à aprendizagem da língua falada e escrita,considerando ainda diferentes aspectos culturais. e) O eixo denominado Natureza e Sociedade envolve aspectos relacionados às imagens apresentadas às crianças ou ainda, aos aspectos decorativos, ligados às informações visuais. U2 - A educação aplicada aos cuidados da criança 83 2. O movimento faz parte do cotidiano das crianças, assume com frequência um caráter lúdico e oportuniza o desenvolvimento infantil. Que tipo de materiais e atividades podem ser utilizados no trabalho com esse eixo da educação infantil? Fique ligado Estudamos nesta unidade que as instituições de educação infantil devem ser espaços de cuidado e aprendizagem. Discutimos sobre a importância do diálogo entre a escola e a família, da afetividade necessária no trabalho com a faixa etária e das situações que favoreçam diferentes formas de interação. No que se refere à organização do espaço e do tempo, vimos a importância de disponibilizar um espaço que tenha condições higiênicas adequadas para as crianças e que contribua com o desenvolvimento da autonomia delas. Conhecemos ainda os documentos que fundamentam as práticas vivenciadas na educação infantil, bem como a necessidade de organizar ou reorganizar esses espaços de acordo com a faixa etária. Os cuidados relacionados aos hábitos de higiene e alimentação mostraram-se como importantes aliados na educação das crianças. Trata-se de conhecimentos que as acompanharão ao longo da vida e que têm um papel fundamental para a saúde e o desenvolvimento humano. Identificamos também os eixos de aprendizagem presentes na educação infantil. Cada eixo tem objetivos, fundamentos e conteúdos específicos e todos contribuem de modo significativo no desenvolvimento de habilidades e competências distintas, favorecendo, o desenvolvimento global das crianças. Para concluir o estudo da unidade Finalizamos esta unidade reafirmando a importância do cuidar e do educar para a educação infantil. As crianças precisam ser cuidadas e educadas. Os profissionais que atuam com essa faixa etária precisam conscientizar-se sobre a necessidade das interações, da afetividade e da utilização de um vocabulário e uma postura adequados para a faixa etária em questão. Os conhecimentos teóricos fundamentarão as práticas desenvolvidas posteriormente, U2 - A educação aplicada aos cuidados da criança84 favorecendo o desenvolvimento e o bem-estar da criança e a oportunidade de aprofundar os conhecimentos adquiridos na área. Sugerimos que você reflita sobre as questões indicadas ao longo da unidade e acesse os endereços eletrônicos disponibilizados para complementar as discussões realizadas até aqui. Sempre que possível, participe de eventos, grupos de estudo, grupos de pesquisa e demais estratégias de aprendizagem. Essas experiências serão fundamentais para a sua formação inicial e continuada e o seu êxito no mercado de trabalho. Atividades de aprendizagem da unidade 1. De acordo com Rizzo (2006), com o passar dos anos, a creche e a pré- escola passaram a ser ambientes especialmente criados para cuidar e oferecer condições que estimulem o desenvolvimento integral e harmonioso da criança nos seus primeiros anos de vida. Leia as afirmativas a seguir, escreva V para as verdadeiras e F para as falsas e assinale a alternativa correta: Fonte: RIZZO, G. Creche: organização, currículo, montagem e funcionamento. 4. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006. ( ) O cuidar é considerado como a prática mais importante para a educação infantil, pois se relaciona com o bem-estar da criança. ( ) O educar é considerado como a prática mais importante da educação infantil, pois oportuniza a ampliação do conhecimento de mundo da criança. ( ) É necessário que o trabalho a ser desenvolvido na educação infantil seja fundamentado tanto no cuidar, quanto no educar. ( ) O educar precisa do cuidar para oportunizar a segurança necessária para que a criança se desenvolva. A sequência correta é: a) V, V, F, F. b) V, F, V, F. c) F, V, V, F. d) F, F, V, V. e) F, F, F, V. U2 - A educação aplicada aos cuidados da criança 85 2. Segundo Farias, Nantes e Aguiar (2015), os esfíncteres começam a ser controlados a partir dos dois anos de vida, e é nesse momento que a criança tem a sua primeira experiência de decidir o controle de um impulso que vem de seu próprio instinto. Qual alternativa apresenta a afirmação correta sobre os esfíncteres? Fonte: FARIAS, T. M. da S.; NANTES, E. da S.; AGUIAR, S. M. de. Fases psicossexuais freudianas. In: IV Simpósio Internacional de Educação Sexual. 2015. UEM. a) Os esfíncteres são músculos que estimulam a sensação de saciedade da criança. b) Os esfíncteres são músculos que absorvem os nutrientes dos alimentos. c) Os esfíncteres são músculos que liberam toxinas que desinfetam as crianças. d) Os esfíncteres são músculos que retêm o desejo das crianças por doces. e) Os esfíncteres são músculos que retêm ou liberam as fezes e as urinas. 3. De acordo com Cartaxo (2015), é necessário estabelecer uma rotina diária para que a criança perceba a relação espaço-tempo e possa criar suas previsões sobre o funcionamento dos horários. Leia as afirmações sobre as concepções de tempo apresentadas, analise a relação estabelecida entre elas e assinale a alternativa correta: Fonte: CARTAXO, S. R. M. Pressupostos da educação infantil. Curitiba: Intersabres, 2013. I. O tempo biológico refere-se ao desenvolvimento físico. II. O tempo histórico refere-se ao período exato em que a criança se mostra preparada para pensar e desenvolver-se. III. O tempo psicológico refere-se ao tempo que cada criança necessita para pensar e se desenvolver. A respeito dessas asserções, assinale a opção correta: a) A asserção I é uma proposição verdadeira e as asserções II e III são proposições falsas, desse modo, se confrontam. b) A asserção I é uma proposição falsa e as asserções II e III são proposições verdadeiras, desse modo, se confrontam. c) A asserção I é uma proposição falsa e as proposições II e III são verdadeiras e se complementam. U2 - A educação aplicada aos cuidados da criança86 d) A asserção II é uma proposição falsa e as proposições I e III são verdadeiras e se complementam. e) A asserção III é uma proposição falsa e as proposições I e II são verdadeiras e se complementam. 4. Silveira (2015) afirma que a criança necessita de energia e nutrientes para alcançar o crescimento físico e intelectual, com poder de concentração e raciocínio e que, para isso, é necessário oferecer uma alimentação balanceada. Leia as afirmativas a seguir e assinale a alternativa correta: Fonte: SILVEIRA, M. Das G. G. Alimentação do pré-escolar e escolar: sugestões para a merenda escolar, dicas para o preparo da lancheira, prevenção da obesidade. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015. I. Entre a categoria de carboidratos, podemos citar os queijos, os leites e os iogurtes. II. Entre a categoria de carboidratos, podemos citar os pães, os biscoitos, os bolos simples e a barra de cereal. III. Entre a categoria de proteínas, podemos citar os queijos, os leites e os iogurtes. IV. Entre a categoria de proteínas, podemos citar os pães, os biscoitos, os bolos simples e a barra de cereal. Está correto o que se afirma em: a) I e II. b) I e III. c) I e IV. d) II e III. e) II e IV. 5. O RCNEI (BRASIL, 1998) apresenta os objetivos e os conteúdos dos eixos trabalhados na educação infantil. Enumere os conteúdos apresentados na coluna2 de acordo com o eixo correspondente apresentado na coluna 1 e assinale a alternativa que apresenta a sequência correta: I. Fonte: BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil. Brasília: MEC/SEF, 1998. Movimento. II. Música. U2 - A educação aplicada aos cuidados da criança 87 III. Artes Visuais. IV. Linguagem Oral e Escrita. V. Natureza e Sociedade. VI. Matemática. ( ) Reconhecimento de variações de velocidade, frases, partes, forma, produção, apreciação, reflexão e improvisação. ( ) Noção de sucessor e antecessor, tempo e espaço, grandezas e medidas e espaço e forma. ( ) Observação e manuseio de materiais impressos e elaboração de perguntas e respostas. ( ) Ampliação do deslocamento no espaço e habilidades de força, velocidade, resistência, e flexibilidade. ( ) Conhecimento do próprio corpo por meio da exploração de suas habilidades físicas, motoras e perceptivas. ( ) Espaços bidimensionais, tridimensionais e observação e identificação de formas diversas. A sequência correta é: a) I, VI, IV, II, V, III. b) I, IV, VI, II, III, V. c) II, VI, IV, I, V, III. d) II, VI, I, V, III, IV. e) III, VI, I, IV, II, V. U2 - A educação aplicada aos cuidados da criança88 Referências ASSIS, M. S. S. de. Práticas de cuidado e de educação na instituição de Educação Infantil: o olhar das professoras. In: ANGOTTI, Maristela (Org.). Educação Infantil: para que, para quem e por quê? c. 5, p. 87-104. Campinas: Alínea, 2006. BOUJON, C.; QUAIREAU, C. Atenção e sucesso escolar. Porto: Rés Editora, 2001. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. Brasília: MEC/SEB, 2010. Disponível em: <http://ndi. ufsc.br/files/2012/02/Diretrizes-Curriculares-para-a-E-I.pdf>. 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Acesso em: 23 abr. 2017. ______. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Referencial curricular nacional para a Educação Infantil. v. 3. Brasília: MEC/SEF, 1998c. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/volume3.pdf>. Acesso em: 23 abr. 2017. ______. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Diário Oficial [da União], Poder Legislativo, 23 dez. 1996, p. 27833. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9394.htm>. Acesso em: 23 abr. 2017. U2 - A educação aplicada aos cuidados da criança 89 ______. Resolução Câmara de Educação Básica de 7 de abril de 1999. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. Disponível em: <http://portal. mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/CEB0199.pdf>. Acesso em: 18 maio 2017. BRUNO, M. M. G. Educação infantil: saberes e práticas da inclusão: introdução. 4. ed. Brasília: MEC, Secretaria de Educação Especial, 2006. 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Unidade 3 Fases de desenvolvimento infantil Patrícia Alzira Proscêncio Os objetivos desta unidade são: • Conhecer os dois teóricos mais referenciados no Brasil para a construção de propostas de ensino e aprendizagem: Piaget e Vygotsky. • Compreender os processos e os estágios de desenvolvimento cognitivos segundo Piaget e os níveis de desenvolvimento real e potencial, bem como a zona de desenvolvimentoproximal ou zona de desenvolvimento iminente de Vygotsky. • Refletir sobre a importância de o professor ter conhecimento sobre o desenvolvimento cognitivo infantil. • Diferenciar o que se entende como corpo-objeto e corpo- sujeito na educação e compreender a exploração do movimento e a brincadeira como processo central no desenvolvimento da criança. Ela está estruturada em duas seções, que tratarão das seguintes temáticas: Objetivos de aprendizagem Nesta seção, você conhecerá os processos e os estágios de desenvolvimento cognitivos estabelecidos na teoria de Jean Piaget e os conceitos de zona de desenvolvimento proximal ou zona de desenvolvimento iminente, nível de desenvolvimento potencial e nível de desenvolvimento real de Vygotsky. Desse modo, você poderá refletir sobre a relevância de o professor que atua na educação infantil compreender cada um desses conceitos e suas implicações em sua ação docente. Seção 1 | A perspectiva interacionista do desenvolvimento infantil: Piaget e Vygotsky U3 - Fases de desenvolvimento infantil92 Nesta seção, será discutido sobre a mediação do professor na constituição de um ambiente propício para potencializar o desenvolvimento da criança por meio da brincadeira e do movimento e sobre a necessidade do olhar sobre o corpo da criança na escola, compreendendo-o como um corpo-sujeito. Seção 2 | O corpo em movimento na educação infantil U3 - Fases de desenvolvimento infantil 93 Introdução à unidade Você está iniciando a leitura da terceira unidade. Diante do exposto nos capítulos anteriores, a educação infantil é um segmento educacional que culmina na associação entre os cuidados e a educação. A criança tem necessidades e singularidades que devem ser respeitadas. Por isso, é de suma importância que o professor tenha conhecimento sobre o desenvolvimento infantil. A partir desse conhecimento é que o docente planejará e organizará sua ação de forma a contribuir para o desenvolvimento e a aprendizagem da criança. Diversos são os teóricos que embasam as perspectivas e as propostas de ensino, do mesmo modo, há também diversidade nas concepções sobre aprendizagem e desenvolvimento. Nesta unidade, você conhecerá alguns desses estudiosos e seus pensamentos: Piaget e Vygotsky, que abordam o desenvolvimento infantil sob a perspectiva interacionista. Você terá acesso a informações que oportunizarão o conhecimento e a reflexão sobre como organizar o trabalho docente atendendo às necessidades cognitivas das crianças que se encontram na educação infantil. U3 - Fases de desenvolvimento infantil94 Seção 1 A perspectiva interacionista do desenvolvimento infantil: Piaget e Vygotsky Introdução à seção Nesta seção, você conhecerá um pouco mais sobre a perspectiva interacionista, na qual o desenvolvimento infantil é concebido como um processo dinâmico. Santrock (2010 apud BASTOS, 2015 p. 4) apresenta a seguinte definição para desenvolvimento: “[...] é o padrão de mudanças socioemocionais, cognitivas e biológicas que começam na concepção e continuam durante toda a vida de uma pessoa. A maior parte do desenvolvimento envolve o crescimento, embora também envolva a decadência (morte)”. Será apresentado a você dois teóricos: - Piaget - trataremos sobre a construção das estruturas mentais nas crianças com ênfase no que ele define como esquemas, processos de assimilação, acomodação e equilibração e os estágios de desenvolvimento da criança. - Vygotsky - tem uma compreensão de desenvolvimento que ocorre em um processo histórico e social. Seus principais conceitos são as zonas de desenvolvimento proximal ou a zona de desenvolvimento iminente, o nível de desenvolvimento real e o nível de desenvolvimento potencial. Suas teorias apresentam pontos discordantes, mas são conhecidas por serem interacionistas, pois nelas concebe-se que a aquisição do conhecimento acontece pelas interações do ser humano com o meio. Questão para reflexão Antes de iniciar a leitura desta seção, gostaríamos que você refletisse sobre as questões a seguir: Temos dito que a criança tem necessidades específicas referentes à sua faixa etária, mas que necessidades são essas? U3 - Fases de desenvolvimento infantil 95 Questão para reflexão Quais são as características de uma criança que está na faixa etária da educação infantil? O que o professor deve fazer ou como organizar suas práticas educativas para que possa contribuir para a aprendizagem e o desenvolvimento dessas crianças? 1.1 Jean Piaget Piaget viveu de 1896 a 1980, suíço, era biólogo e apresentou uma teoria epistemológica, que apesar de ser bastante explorada pela área da educação, não é uma teoria de aprendizagem. Estudou seus próprios filhos para compreender as operações mentais chamadas de inteligência. Ele é considerado interacionista porque em sua teoria expõe que adquirimos conhecimento com a interação que estabelecemos com o meio. Esse meio abrange tudo o que está à nossa volta: objeto, ideias, relações, toda cultura e história do sujeito epistêmico (sujeito do conhecimento que age no meio em que está inserido e que suas ações dependem do nível de suas estruturas cognitivas, esse sujeito Fonte: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/60/Jean_Piaget_in_Ann_Arbor_%28cropped%29.png>. Acesso em: 13 abr. 2017. Figura 3.1 | Jean Piaget U3 - Fases de desenvolvimento infantil96 só aprende aquilo que está apto a aprender) (FIORAVANTE- TRISTÃO, 2010; GONÇALVES, 2014). Para Piaget, conhecer os processos cognitivos como esquemas, assimilação, acomodação e equilibração são necessários para compreender como a criança se desenvolve. Descreveremos esses processos a seguir, com base em Gonçalves (2014) e Fioravante- Tristão (2010). Os esquemas são estruturas intelectuais - em que os processos ocorrem no sistema nervoso, não sendo, portanto, observáveis - que organizam os eventos percebidos pelo organismo. Conjuntos de ações padronizadas que se aplicam a elementos com características comuns, ou seja, eles são classificados em grupos de acordo com essas características. Quando a criança nasce, ela apresenta poucos esquemas, ainda de ação reflexa, e conforme se relaciona com o mundo, esses esquemas vão sendo coordenados entre si, interiorizados, diferenciados e tornando-se mais numerosos. Essa construção de esquemas que acontece ao longo da vida ocorre por meio de outros processos: assimilação, acomodação, equilibração e adaptação. A assimilação diz respeito à integração de novos dados, seja perceptual, motor ou conceitual, aos esquemas já existentes. A acomodação é a criação de novos esquemas ou a modificação dos antigos. Assimilação e acomodação são ações que resultam em uma mudança na estrutura cognitiva (nos esquemas), ou no seu desenvolvimento, e juntas compõem o processo de adaptação, permitindo ao indivíduo estar em equilíbrio com seu meio. Todas as vezes em que esse equilíbrio é rompido, há uma busca da equilibração, originando esquemas mais complexos. A equilibração é a transição do desequilíbrio para o equilíbrio. Pode-se afirmar que a aprendizagem ocorre quando há uma mudança de comportamento em relação a algo, e isso acontece em um processo de desequilíbrio em relação aquilo que já se conhece, de modo que você venha a acrescentar mais conhecimentos sobre o seu objeto de conhecimento ou que modifique aquilo que você já sabia sobre ele. Por exemplo, quando a criança conhece as características de U3 - Fases de desenvolvimento infantil 97 um cachorro, observa que ele tem quatro patas, rabo, pelos e faz o som “au au” e, de repente, essa criança se depara com um gato que também tem quatro patas, rabo, pelos, mas, faz o som “miau”. A criança entra em desequilíbrio, porque diante daquilo que ela conhecia anteriormente, recebeu uma nova informação que modifica seu conhecimento anterior. Nesse exemplo bastante simples, podem ser explicados os processos ocorridos para que a criança aprenda a diferençaentre um gato e um cachorro. Quando a criança sabe o que é um cachorro, essa informação está contida em um esquema anterior. Ao receber novas informações quanto à diferenciação entre o gato e o cachorro, ela entra em desequilíbrio cognitivo em relação a esse novo objeto, para isso, precisa acrescentar essas novas informações (assimilação) e criar um novo esquema (acomodação) e, assim, estar novamente em equilíbrio (equilibração). Quando essa criança encontrar novamente um gato, ela saberá que não se trata de um cachorro, mas, sim, de um gato, pois já tem condições de relacionar a imagem visual do gato a uma imagem mental de um gato. Assim, na relação do novo conhecimento com as informações anteriores é que as estruturas cognitivas se apropriam do novo conhecimento. Questão para reflexão Você já teve aquela sensação de que os bebês não sabem fazer nada além de mamar, dormir, chorar e fazer xixi e cocô? Você, futuro professor, que poderá atuar nos diversos segmentos educacionais, verá que há muitas possibilidades de se estimular os bebês e realizar muitas propostas interessantes com eles. Dessa forma, pense: que propostas de práticas educativas podem ser desenvolvidas com os bebês? Piaget esquematizou o desenvolvimento cognitivo em estágios que ocorrem de forma sucessiva, pois os novos conhecimentos vão sendo agregados aos anteriores, de modo que os estágios se ampliam. Ocorre um continuum do desenvolvimento, em que a formação da estrutura do estágio precedente embasa a formação de estruturas que a sucedem, não a substituindo. U3 - Fases de desenvolvimento infantil98 O primeiro estágio de desenvolvimento estabelecido por Piaget é chamado de sensório-motor, normalmente ele ocorre do nascimento aos dois anos de idade da criança. Segundo Piaget, “a criança nasce em um universo para ela conturbador, pois ela não tem noção corporal, pensa que faz parte da mãe e não se diferencia do outro, e dos objetos que a cercam” (1996, p. 30). Portanto, a função mental do recém-nascido limita-se ao exercício dos aparelhos reflexos inatos voluntários, quando se depara com um objeto: realiza o movimento dos olhos, pode chupá-lo, tentar agarrá-lo, mas o bebê ainda não tem noção de que aquele objeto continua a existir depois de sair do seu contato visual ou tátil. Ele ainda não apresenta a função semiótica, não sendo capaz de representar objetos mentalmente. Sendo assim, o universo da criança é conquistado perante a percepção, os movimentos e as sensações. É a fase em que o bebê percebe o ambiente e age sobre ele, ou seja, começa a interagir por meio dos sentidos com o ambiente. Por isso, é recomendável que seja realizada a estimulação ambiental por meio do desenvolvimento das percepções tátil, visual, olfativa, gustativa e auditiva. Segundo Vagula e Steinle (2013) e Marquezini (2015), do primeiro ao quarto mês, os bebês começam a coordenar suas ações reflexas, criando uma ação mais organizada. Piaget (1996) dá a esse momento o nome de reações circulares básicas ou primárias. São exemplos dessas reações: acompanhar as pessoas com o olhar, procurar com a cabeça a origem de um determinado som, balbuciar alguns ruídos, levar a mão à boca. São ações caracterizadas por estarem centradas no corpo da criança e não na manipulação dos objetos ao seu redor. Do quarto mês ao oitavo, o bebê começa a reproduzir de forma intencional uma ação ocasionada acidentalmente como: o bebê esbarra em um determinado objeto e, ao mexê-lo, percebe que produz som, começa então a repetir essa ação, a isso Piaget chamou de reações circulares secundárias. Nesse momento, o bebê começa também a desenvolver a percepção de permanência de um objeto, pois quando derruba um objeto acompanha com o olhar para verificar aonde este está. Entre o oitavo e o décimo segundo mês, o bebê aperfeiçoa seus aprendizados anteriores, esse período é denominado por Piaget de reações circulares retardadas. Ele provavelmente já terá construído o conceito de permanência de um objeto, sendo assim, mesmo U3 - Fases de desenvolvimento infantil 99 quando não vê um brinquedo sabe que ele existe e caso o queira, já sabe procurá-lo. Começa também a criar vínculos afetivos. Dos doze aos dezoito meses, a criança começa a caminhar, a compreender que está inserida dentro de uma coletividade, já é capaz de construir sua noção de tempo e espaço. Essa fase é denominada por Piaget de reações circulares terciárias. Dos dezoito aos vinte e quatro meses, surgem as representações mentais nas crianças, elas são capazes de representar os acontecimentos que não estão no seu campo de percepção. Conforme a criança vai crescendo, ela deve ter oportunidade de exercitar a exploração corporal e espacial, por isso, é importante que a criança tenha espaço, que ela não fique presa muito tempo no berço, a não ser para dormir. É necessário, então, que os professores organizem o espaço físico para que as crianças possam engatinhar e experimentar seus primeiros passos em um ambiente seguro. Quando muito pequenos, os bebês podem ser colocados apoiados em almofadas para não cair dos lados. Vejamos algumas práticas que o professor poderá organizar no seu cotidiano na educação infantil em seu trabalho com os bebês: • Apresente objetos para que eles tentem alcançá-los e pegá- los. Esses objetos podem ser dependurados em seu berço, também podem ser colocados móbiles de chutar, que devem ser coloridos e podem ser sonoros. • Espalhe objetos que a criança possa bater para produzir sons e que possa encaixá-los um dentro do outro. • Esconda um brinquedo deixando parte dele à mostra para que a criança vá procurá-lo. • Coloque músicas cuja sonoridade traga a sensação de tranquilidade. • Ofereça também instrumentos rítmicos, como tambores e xilofones, para que possam manipulá-los e explorar seu som. • Apresente imagens e diga o nome dos objetos e/ou animais. • Disponibilize livros e tapetes sensoriais para as crianças manipularem e exercitarem sua percepção tátil. • Conte histórias curtas enquanto mostra imagens ou folheia um livro para a criança. U3 - Fases de desenvolvimento infantil100 • Coloque as crianças em frente a um espelho para que comecem a se reconhecer. • Quando a criança começar a andar, amarre um barbante no brinquedo para que possa arrastá-lo. • Ofereça uma bola para que experimente movimentá-la (rolar, empurrar, chutar, arremessar). • Crie circuitos com caixas, arcos, túneis de tecido, cordas, cones, pneus, para que a criança tenha que atravessá-los: engatinhando, saltando, passando por dentro, caminhando sobre as cordas em linha reta, entre outras possibilidades motoras. • Desenvolva projetos interdisciplinares, como: animais, horta, alimentação, entre outros, de acordo com as necessidades apresentadas pelo seu grupo de crianças. • Distribua massinhas de modelar para manipularem. • Realize propostas com pinturas usando os dedos e tintas produzidas com pigmentos naturais, como: café, gelatina, açafrão, cenoura, beterraba, entre outros. Fonte: <https://goo.gl/rLR5Jb>. Acesso em: 13 abr. 2017. Figura 3.2 | Espaço físico das salas de referência organizado na educação infantil U3 - Fases de desenvolvimento infantil 101 A criança deve manipular os objetos e explorá-los, porque assim vai percebendo suas propriedades: tamanho, cor, textura, entre outros. O professor sempre deverá oferecer os estímulos com comandos, como: pegue o chocalho; observe a bola; procure o brinquedo; vamos ouvir que som esse objeto produz; entre outros. A criança precisa de afeto, de atenção, da sensação do toque de carinho em sua pele, os professores podem massagear suavemente o corpo da criança, tocar seu rosto, conversar sempre com a criança dando atenção especial a ela, mesmo que ainda não fale. Podem emitir sons simples como um “Ahhh” para que a criança se sinta motivada a emitir sons onomatopaicos. No momento do banho, a professora pode estimular a criança a brincar com o movimentoda água, chamando sua atenção para que perceba que quando ela se movimenta formam-se ondas na banheira. Ofereça livros de banho e conte histórias para o bebê nesse momento. Na transição desse estágio para o próximo, à medida que a criança vai se desenvolvendo, faz associações entre objetos apresentados e a linguagem verbal. O segundo estágio é chamado de pré-operacional e ocorre aproximadamente dos dois aos sete anos de idade. Nessa fase, há uma transformação na qualidade de pensamento da criança em relação ao estágio anterior. Ela desenvolve sua capacidade simbólica, sendo capaz de criar a imagem mental que represente objetos e como imitar uma pessoa, por exemplo. A partir desta idade, começam-se as brincadeiras do faz de conta, utilizando o que chamamos de imagem diferida, quando ela faz de conta que um objeto é outro: o cabo de vassoura vira um cavalo, um simples sabugo de milho se torna uma majestosa boneca, uma caneta se transforma em microfone e a tampa da panela é o volante do seu carro. Ainda se encontra no egocentrismo, pois não tem uma compreensão do mundo em que vive, porém, a fala é cada vez mais desenvolvida, bem como a capacidade de entender as palavras. Nesse momento é importante que os adultos utilizem estímulos, como: a leitura para a criança, ensinar a cantar, desenvolver o gosto por ouvir poesias, enfim, exercitar a linguagem para comunicar-se com elas. Momento, também, para utilizar outras formas de linguagens e comunicação não verbais: por gestos, expressão corporal, dança, U3 - Fases de desenvolvimento infantil102 propostas que desenvolvam a coordenação motora, lateralidade, criatividade, sensibilidade, entre outros. Nessa transição, do primeiro estágio para o segundo, quando a criança começa a andar, equilibrar-se e dominar seu corpo, podem ser desenvolvidas práticas em que as crianças realizem a imitação de animais e façam associações dos sons produzidos por eles, bem como dos seus movimentos característicos. Pode-se mostrar à criança por meio de figuras ou vídeos a imagem de animais ou outros objetos para que observem, e a partir dessa observação, pode-se desenvolver atividades, adequando-as à faixa etária e ao nível de entendimento dela. É interessante que o professor crie novas formas para realizar uma mesma proposta, oportunizando explorações variadas. Nesse estágio ocorre também a transição da criança para o ensino fundamental, ela começa a construir a capacidade de realizar a classificação e a seriação, colocando objetos organizados do menor para o maior, separando por tamanho, cor, formas, e essa capacidade vai se aperfeiçoando no estágio posterior. Embora a partir do próximo estágio a criança já não esteja mais na educação infantil, mas em outra etapa de ensino, vamos apresentá- los para que você compreenda a sequência entre eles. O terceiro estágio é chamado de operacional concreto, ocorre por volta dos sete aos doze anos de idade. A criança já faz uso do raciocínio lógico de modo elementar e os aplica apenas na manipulação de objetos concretos. A criança consegue classificar objetos de acordo com a cor, o tamanho e a forma. Também faz relações entre classes e subclasses, como: sabe que existem rosas vermelhas e rosas amarelas, e que todas são rosas. Nesse estágio, a criança está no ensino fundamental, que é uma modificação decisiva no que diz respeito à socialização, ao pensamento, às operações racionais e ao campo da afetividade (PIAGET, 1989). A criança percebe a emergência dos jogos de regras, passa a respeitá-las, compreende as reflexões sobre as ações, passa a pensar sobre os seus atos e entendê-los, deixa de ser egocêntrica, caminhando da heteronomia para a autonomia de pensamento (PIAGET, 1989). Já existe um pequeno entendimento sobre socialização. U3 - Fases de desenvolvimento infantil 103 Para saber mais De acordo com Gonçalves (2014): Anomia: ausência de moral, quando a criança ainda não é capaz de perceber que há regras no mundo que a cerca. Ocorre do nascimento até os 5/6 anos de idade. Heteronomia: quando a criança ainda necessita dos adultos lhe dizendo como comportar-se. Quando agem de determinada forma porque estão em supervisão de um adulto, ou seja, obedecem por coação. Ocorre dos 5/6 anos até os 9/10 anos de idade. Autonomia: a passagem da heteronomia para a autonomia ocorre a partir dos 9/10 anos de idade, em que a criança por si só reflete sobre suas ações, compreendendo a forma como deveria comportar-se. Concebe, portanto, a presença das regras e começa a respeitá-las e a cumpri-las. Assista ao vídeo a seguir: Pensamento infantil - a construção da moralidade. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=6tO avV48E9o&feature=related>. Acesso em: 28 mar. 2017. O quarto estágio é chamado de operacional formal, ocorre após os doze anos de idade. Agora, a criança está adolescendo e torna- se capaz de utilizar o pensamento hipotético-dedutivo, de deduzir as conclusões de puras hipóteses, e não somente através de observação real, cria estratégias no decorrer de suas vivências. Ela já pode imaginar possibilidades, formular hipóteses, comprová-las na realidade ou no pensamento. O estágio operacional formal é repleto de revoltas na área emocional, mas também revela várias conquistas, pois já é capaz de formular sistemas e teorias. Os estágios de desenvolvimento propostos por Piaget, seguem essa sequência apresentada: sensório-motor, pré-operacional, operacional concreto e operacional formal, em todas as crianças, mas sem uma definição exata quanto à faixa etária em que eles aparecem. Em algumas crianças podem surgir antes e em outras mais tardiamente, dependendo da influência que a criança recebe do ambiente e das relações que vivencia. U3 - Fases de desenvolvimento infantil104 Para saber mais Assista ao documentário O começo da vida. Disponível em: <https:// www.youtube.com/watch?v=ZS4G1Ts75Ek&list=PLvfZHqGPp_ MtCK623cABUZ9nftEfYXc4y>. Acesso em: 28 mar. 2017. 1.2 Lev Semionovitch Vygotsky Fonte: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/8f/Lev_Vygotsky_1896-1934.jpg>. Acesso em: 13 abr. 2017. Figura 3.3 | Lev Semionovitch Vygotsky Lev Semionovitch Vygotsky, russo, nasceu em 1896 e morreu em 1934. A perspectiva construída por ele compreende o homem como ser biológico, histórico e cultural. Vygotsky é interacionista, assim como Piaget, mas, de acordo com Fioravante-Tristão (2010, p. 148) ele “enfatiza o desenvolvimento das estruturas cognitivas como os requisitos fundamentais para a aprendizagem”. Para ele, a aprendizagem ocorre pela apropriação e internalização dos signos socialmente construídos em um contexto de interação. E as relações entre os indivíduos, com o mundo e consigo mesmo são mediadas pela cultura, por ferramentas culturais e instrumentos psicológicos (signos - linguagem) que se modificam ao longo da história (FELIPE, 2001). U3 - Fases de desenvolvimento infantil 105 Sua teoria fundamenta-se no materialismo histórico dialético de Karl Marx. Para ele, o desenvolvimento humano ocorre pelas trocas estabelecidas com o meio sociocultural se transformando e sendo transformado nessas relações. Para isso, foi necessário ao homem desenvolver ferramentas materiais e instrumentos psicológicos para aprender a lidar com essas ferramentas. Assim, desenvolveu-se como modo de autopreservação a comunicação para a continuidade da espécie humana: signos e a linguagem (RICIERI, 2014). Os signos são denominados instrumentos psicológicos, pois, pela utilização da linguagem, o homem influencia o comportamento dos outros e o próprio (aprendizagem), por meio dela podemos planejar, formular hipóteses, refletir e reorganizar as ideias. Sobre a linguagem, são apresentados, segundo Ricieri (2014), alguns estágios: a) Estágio pré-intelectual do desenvolvimento da fala no qual o recém-nascido se comunica por meio de expressões físicas e emocionais. b) Estágio pré-linguístico do desenvolvimento do pensamentoem que a criança antes de compartilhar o uso de instrumentos psicológicos, revela uso de estratégias inteligentes para atingir alguns fins, mas ainda não tipicamente humanas. Pela interação social é que se unem pensamento e linguagem. Por isso, é indicado que os adultos, pais e professores que permanecem longo tempo com a criança, façam essa mediação. Por meio da linguagem, mostram os objetos às crianças, nomeando-os, formando frases, para que assim o/a bebê/criança possa realizar associações entre as ações e os objetos que lhes são apresentados, aprender com seus mediadores e passar a imitá-los. Segundo Felipe (2001, p. 29), para Vygotsky “primeiro a criança utiliza a fala socializada, para se comunicar. Só mais tarde é que ela passará a usá-la como instrumento de pensamento, com a função de adaptação social”. Por isso, a linguagem é um conceito relevante na teoria de Vygotsky, pois é um instrumento capaz de transformar nossa aprendizagem, “pois quando um indivíduo aprende a linguagem específica de seu meio sociocultural, ele é capaz de alavancar seu próprio desenvolvimento” (FERRONATO; FREITAS; PINTO, 2016, p. 84). Para Piaget, a aprendizagem acontece também pela mediação, mas por meio do contato direto com o objeto de conhecimento. U3 - Fases de desenvolvimento infantil106 Para Vygotsky, a aprendizagem mediada ocorre por meio do outro presente na relação: instrumentos ou símbolos. A mediação é entendida como “a intervenção de um elemento intermediário em uma relação, de modo que esta deixa de ser direta e passa a ser mediada” (FIORAVANTE-TRISTÃO, 2010). Por exemplo: a criança brinca com um copo à beira de uma mesa, o copo cai e quebra, na próxima vez que pegar o copo para brincar à beira da mesa poderá se lembrar que o copo poderá cair e quebrar, ou ainda, alguém poderá alertá-la disso; ela então poderá antecipar sua ação evitando que o copo quebre. Para Vygotsky (2007), a aprendizagem e o desenvolvimento são processos indissociáveis. E é pelo uso e pela manipulação dos instrumentos que são desenvolvidas as capacidades cognitivas e funções psicológicas superiores (o pensamento, a memória, a atenção voluntária e a linguagem). Desse modo, a criança aprende pela imitação e repetição das ações dos adultos que são próximos a elas. Esse teórico não considera que a criança se desenvolva sozinha com o decorrer do tempo, apenas por seus processos biológicos naturais, mas, ela depende de suas aprendizagens promovidas também pela socialização, pela sua vivência social. Cabe-nos mencionar que Vygotsky (2007) classifica as funções psicológicas em elementares e superiores. As funções elementares são as ações reflexas e imediatas que recebem a influência do ambiente externo. Já as funções superiores: o pensamento, a memória, a atenção voluntária e a linguagem distinguem os homens dos animais. A capacidade de pensar, abstrair e antecipar ações agindo intencionalmente se desenvolveram por conta do aperfeiçoamento da linguagem (interações homem-homem - intermentais - e do homem consigo mesmo - intramentais). Elas resultam da interação entre fatores sociais e biológicos. Ao tratar da criança, não podemos deixar de abordar o brincar como sua principal atividade social e que proporciona maior desenvolvimento em sua capacidade cognitiva, pois, por meio da brincadeira, a criança produz novos significados aos objetos. Vygotsky enfatiza a importância do brinquedo e da brincadeira do faz de conta, “tal capacidade representa um passo importante para o desenvolvimento do pensamento, pois faz com que a criança se desvincule das situações concretas imediatas sendo capaz de abstrair” (FELIPE, 2001, p. 30). U3 - Fases de desenvolvimento infantil 107 De acordo com Brougére (1998), o brincar não é uma dinâmica interna do indivíduo, mas, sim, uma atividade repleta de significados sociais e que precisa de aprendizagem. Desse modo, podemos dizer que a criança não nasce sabendo brincar. A criança começa por inserir-se no jogo preexistente da mãe mais como um brinquedo do que como uma parceira, antes de desempenhar um papel mais ativo pelas manifestações de contentamento que vão incitar a mãe a continuar brincando. A seguir, ela vai poder tornar-se um parceiro, assumindo, por sua vez, o mesmo papel da mãe, ainda que de forma desajeitada, como nas brincadeiras de esconder uma parte do corpo. A criança aprende assim a reconhecer certas características essenciais do jogo: o aspecto fictício, pois o corpo não desaparece de verdade, trata-se de um faz de conta; a inversão dos papéis; a repetição que mostra que a brincadeira não modifica a realidade, já que se pode sempre voltar ao início; a necessidade de um acordo entre parceiros, mesmo que a criança não consiga aceitar uma recusa do parceiro em continuar brincando. Há, portanto, estruturas preexistentes que definem a atividade lúdica em geral e cada brincadeira em particular, e a criança as apreende antes de utilizá-las em novos contextos, sozinha, em brincadeiras solitárias, ou então com outras crianças. (BROUGÉRE, 1998, p. 106) Por que a criança brinca? A criança brinca para externar sua leitura de mundo, representar e entender os papéis dos adultos, para preencher necessidades que mudam de acordo com a idade e os interesses individuais. Quando a criança brinca: forma conceitos, relaciona ideias, constrói seu próprio conhecimento, toma consciência das regras de comportamento. Na brincadeira, a criança traz situações reais, que refletem a vida, que não podem ser vividas por ela na vida naquele momento (PRESTES, 2010). Dando continuidade aos conceitos mais relevantes na teoria de Vygotsky, você conhecerá agora, com base em Gonçalves (2014), aqueles referentes ao nível de desenvolvimento real, nível de desenvolvimento potencial e zona de desenvolvimento proximal ou zona de desenvolvimento iminente. U3 - Fases de desenvolvimento infantil108 O nível de desenvolvimento real (NDR) é aquele em que a criança consegue executar tarefas sozinha, sem o auxílio de outras pessoas. Neste nível, a criança já tem conhecimentos internalizados anteriormente. O nível de desenvolvimento potencial (NDP) é aquele em que a criança executa tarefas com o auxílio de outras pessoas. É onde ela poderá chegar após ter contato com elementos mediadores que vão lhe proporcionar um novo aprendizado. A seguir, trataremos do conceito de zona de desenvolvimento proximal ou iminente, que foi traduzido do russo para o inglês e, posteriormente, para o português. Desse modo, apresenta divergência entre autores sobre a definição desse conceito. A zona de desenvolvimento proximal (ZDP) é a distância entre o nível de desenvolvimento real e o nível de desenvolvimento potencial. Também chamada de “espaço cognitivo” em que a criança consegue executar determinada tarefa com a mediação de outra pessoa e que não é capaz de realizar sozinha. Assim, a interação com o outro é de fundamental relevância na alteração do desempenho de uma pessoa. De acordo com esse pensamento, o professor é importante mediador na aprendizagem pela criança. Prestes (2010), que traduziu e se debruçou em estudar os conceitos de Vygotsky, afirma que este conceito de zona de desenvolvimento proximal, em algumas traduções, é apresentado com equívocos. Essa autora apresenta a zona de desenvolvimento proximal como zona de desenvolvimento iminente. Em seus dizeres, a “zona de desenvolvimento iminente revela o que a criança pode desenvolver, não significa que obrigatoriamente desenvolverá” (PRESTES, 2010, p. 160). Para ela, a característica essencial da zona de desenvolvimento iminente é: [...] possibilidades de desenvolvimento, mais do que do imediatismo e da obrigatoriedade de ocorrência, pois se a criança não tiver a possibilidade de contar com a colaboração de outra pessoa em determinados períodos de sua vida, poderá não amadurecer certas funções intelectuais e, mesmo tendo essa pessoa, isso não garante, por si só,o seu amadurecimento. (PRESTES, 2010, p. 173) Em outras palavras, que a instrução poderá ou não possibilitar o desenvolvimento; a ação mediada cria possibilidades para o desenvolvimento, mas não garante que ele aconteça. U3 - Fases de desenvolvimento infantil 109 Fonte: elaborada pela autora. Por exemplo, em algumas situações, a criança poderá não saber como agir (NDR - seu estado inicial diante de uma ação), mas com a explicação de uma outra pessoa orientando-a em como ela deve proceder, ela conseguirá realizar a tarefa proposta (NDP - o estado final após receber orientações). Esse intervalo existente entre um nível e outro é a ZDP, o local no qual a aprendizagem acontece. A identificação da ZDP de uma criança não acontece da mesma forma em outra, pois, cada uma delas apresenta características específicas, vivências que lhes são únicas e são influenciadas pelo seu contexto cultural de formas diferentes, por isso, não significa que a mediação realizada com uma criança terá o mesmo efeito ao ser proposta a outra da mesma forma. Ainda, acrescentamos que uma vez que a criança atinge o NDP, e internaliza esse novo aprendizado, esse processo se inicia novamente, pois agora ela se encontra em um novo NDR, e assim, vão ocorrendo as sucessivas aprendizagens. Na educação, o objetivo é, portanto, propiciar a transição dos conceitos cotidianos para os conhecimentos científicos, tendo como mediador o educador. Finalizando, podemos dizer que na teoria de Vygotsky, o homem é um ser biológico que convive em sociedade e nessas relações ele aprende. Essa aprendizagem contribui para sua aquisição de conhecimentos e para o seu desenvolvimento humano, por isso também é um ser histórico e cultural. Para saber mais Como sugestão de leitura para ampliar seus conhecimentos sobre a zona de desenvolvimento iminente, leia o texto: Quando não é quase a mesma coisa: traduções de Lev Semionovitch Vigotski no Brasil – de Itale Cericato, uma análise da tese de Zoia Prestes. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/er/n56/0101- 4358-er-56-00279.pdf>. Acesso em: 6 de abr. 2017. Zona de Desenvolvimento Proximal ou iminente NDPNDR U3 - Fases de desenvolvimento infantil110 1.3 Finalizando a seção O processo de aprendizagem é ‘individual’ no aluno, o que quer dizer que cada criança aprende do seu jeito e aprende algo diferente. Recordemos as condições para a construção do conhecimento: cada criança tem um nível maturacional diferente, tem uma bagagem de experiências diferentes, tem uma forma de interagir com o meio que lhe é própria, possui maneiras distintas de desequilibrar-se consequentemente o estímulo que possibilita a construção do conhecimento é absolutamente individual, logo, tenho trinta e cinco crianças na classe, terei trinta e cinco processos individuais de construção do conhecimento. (MATTOS; NEIRA, 2003, p. 50) No contexto de sala de aula ou outro espaço em qualquer segmento educacional, os professores são mediadores, que têm como função ajudar as crianças em suas construções, “um especialista em interagir com o aluno e sua preocupação deve ser o como fazer para possibilitar uma aprendizagem mais eficiente e menos trabalhosa para a criança” (MATTOS; NEIRA, 2003, p. 51). Você viu que Piaget concebe desenvolvimento como maturação, no qual as crianças aprenderão somente se tiverem estruturas cognitivas que permitam que ela aprenda, já Vygotsky compreende também o desenvolvimento psicológico. Para ele, as crianças têm a potencialidade de se desenvolver com a ajuda dos mediadores e o desenvolvimento depende da aprendizagem. À medida em que os conceitos são internalizados é que vai ocorrendo também o desenvolvimento. Nesta seção, você teve contato com alguns conceitos importantes na teoria piagetiana e na teoria de Vygotsky e conhecer essas teorias contribuem para que você, futuro professor, possa a partir da compreensão do desenvolvimento cognitivo das crianças e de como elas podem tornar-se autônomas na construção do conhecimento, orientar sua ação docente. Atividades de aprendizagem Vamos exercitar o seu aprendizado? 1) Imagine-se em uma situação real em que você se encontra com uma U3 - Fases de desenvolvimento infantil 111 turma na educação infantil com bebês que tenham entre doze e dezoito meses de idade. Seguindo os estágios de desenvolvimento estabelecidos por Piaget, esses bebês se encontram na fase sensório-motor. Elabore uma situação de aprendizagem para essa faixa etária e não se esqueça de estabelecer qual seria o objetivo dessa proposta. 2) De acordo com os estudos realizados, explique o que é o nível de desenvolvimento real e o nível de desenvolvimento potencial. U3 - Fases de desenvolvimento infantil112 Seção 2 O corpo em movimento na educação infantil Introdução à seção Na seção anterior, você conheceu um pouco mais sobre o desenvolvimento infantil na perspectiva de dois teóricos. Nesta seção, vamos abordar que é por meio do corpo que a aprendizagem acontece, nas interações que estabelecemos com o outro e com o mundo. A concepção de corpo atribuída aqui corresponde ao corpo como totalidade, sendo formado pelas dimensões: físico-motora, intelectual, afetiva, biológica, psicológica, entre outras. No primeiro momento será discutido sobre a necessidade do olhar do professor sobre o corpo da criança na escola, compreendendo-a como um corpo-sujeito. No segundo momento será apresentada a brincadeira como principal atividade social da criança, seguida de situações de aprendizagem que possam ser desenvolvidas na educação infantil que envolvem o corpo em movimento. Questão para reflexão O que significa dizer que nós aprendemos por meio do corpo? 2.1 O corpo e a aprendizagem Na educação infantil, embora seja um segmento educacional, ainda é bastante comum a concepção, principalmente dos pais, de que ela seja apenas um espaço para deixar as crianças enquanto trabalham. Ou ainda, é muito presente a cobrança de uma aprendizagem tradicional, questionando: mas o meu filho vem para escola somente para brincar, desenhar e pintar? Não aprende nada? Cabe ao professor e a escola, em reuniões com os pais, no momento de apresentar sua proposta pedagógica, realizarem o trabalho de conscientização sobre quais são os objetivos e os propósitos da U3 - Fases de desenvolvimento infantil 113 educação infantil e o que seria o aprender nessa etapa educacional. Priorizando que a principal atividade social da criança na infância é o brincar e o quanto isso é importante para seu desenvolvimento e como ela aprende quando brinca e interage com as demais crianças. De outro lado, há também ainda presente na escola a concepção de professores de que ao tratar do corpo na educação infantil enfatiza- se apenas os cuidados com a higiene. E o que se pretende trazer aqui, nesta discussão, é a importância de que os professores promovam na escola ações educativas que contemplem aspectos da corporeidade e as expressões corporais (NIWA et al., 2015). As crianças não são passivas, não são meras receptoras das informações que estão à sua volta. É pelo contato com seu próprio corpo, com o ambiente, com a interação com outras crianças e outros adultos, que elas desenvolvem sua afetividade, sua sensibilidade, sua autoestima, seu raciocínio e sua linguagem (FELIPE, 2001). Pelos aspectos da ludicidade, a criança aprende a se autoconhecer, a interagir e a se relacionar com os outros e começa a compreender o mundo ao seu redor. É pela sua movimentação corporal que ela expressa sua relação com o meio físico e com as pessoas e vai se apropriando e ressignificando a cultura na qual está inserida. Podemos elencar que oportunizar a movimentação corporal para a criança por meio de brincadeiras, jogos e propostas que envolvam as artes, como a dança, a música, a expressão corporal, a pintura, o circo, entre outras: • Estimular a percepção e a consciência corporal da criança, o que implica no autoconhecimento, na compreensãodas suas possibilidades de movimento e do seu gesto. • Desenvolver a noção espacial, a coordenação motora, a lateralidade. • Estreitar as relações sociais. • Desenvolver a percepção de seu ritmo próprio (interno e individual) e o do outro (externo e grupal). • Desenvolver sua capacidade criativa, estimular o pensamento, e a capacidade de enfrentar diversas situações e resolver problemas (FERNANDES, 2001; CAPRI; PROSCÊNCIO; SBORQUIA, 2014). U3 - Fases de desenvolvimento infantil114 Propostas que apresentam a ludicidade geralmente favorecem o desenvolvimento da criatividade e a aprendizagem, tanto quando são realizadas como atividades livres quanto também em propostas de atividades dirigidas e associadas aos conteúdos desenvolvidos na escola. Os professores que atuam com crianças pequenas devem inserir em seu planejamento situações de aprendizagem que propiciem às crianças experimentar reações e sensações ao toque, à música, à dança, à investigação de movimento, ao conhecimento de si, que agucem suas percepções (auditiva, tátil, gustativa, visual e olfativa). Também é importante para as crianças que os professores se envolvam nas atividades, que observem as crianças em alguns momentos e em outros também participem ativamente, fazendo junto. Reforçando que os propósitos educativos não podem se perder no dia a dia envolvendo apenas a diversão e o cuidado, por isso, a intencionalidade pedagógica deve estar presente nessas propostas. Como você verá na próxima unidade, do planejamento à ação, a professora deve ter muita clareza quanto aos seus objetivos em cada situação proposta às crianças. [...] o movimento é o meio de expressão fundamental das crianças na Educação Infantil, logo, temos, todos os educadores, a obrigatoriedade de compreender esse movimento muito além de um olhar biológico ou fisiológico, o corpo que corre, cresce e sua é o mesmo que sente, conhece e se expressa. (MATTOS; NEIRA, 2003, p. 20) Como professores, precisamos “ser capazes de fazer, estimular, conhecer” os corpos de nossas crianças, para que estes tenham a oportunidade de compreender o corpo como meio de comunicação e relacionamento com o mundo (RENGEL, 2004; 2006). As vivências que são oferecidas às crianças continuam muito restritas no que diz respeito às relações com o mundo. A criança é impedida de dar opiniões e de escolher o que realmente quer fazer. A obrigatoriedade é constante quase todo o tempo durante as atividades, e assim o eu-corpo da criança não é capaz de se fazer presente no mundo da pré- escola. (MOREIRA, 1995, p. 98) U3 - Fases de desenvolvimento infantil 115 Ao pensar em aprendizagem, muitas vezes, essa concepção fica restrita à aprendizagem conteudista, mas o aprendizado não acontece apenas dentro das paredes de uma sala de aula, mas o tempo todo, a partir do próprio corpo. De acordo com Cartaxo (2001), o corpo é condutor dos sentimentos, é um elemento comunicador e expressivo. Somos todos diferentes, os corpos não são iguais, consequentemente, os movimentos também não. As vivências e as informações que são recebidas do meio físico são registradas nos corpos e em seus modos de movimentar-se. Como afirma Marques (1999, p. 87), “nosso potencial criativo de movimento não poderia ser livre e espontâneo, pois é também formatado pelas experiências, relações, processos de ensino- aprendizado por que passamos no decorrer de nossas vidas”. A falta de uma reflexão mais profunda dos processos educacionais vigentes [...] leva-nos a considerar o aluno como um espectador, um corpo-objeto, no processo de aprendizagem e com isto, uma falta de preocupação com sua auto-organização, com suas formas de vivência e interação com o meio, enfim, um ser UNO constituído de corpo, mente, emoções. (VERDERI, 2009, p. 1) Ainda se vê presente na escola a perpetuação do adestramento de corpos. Como se aprendêssemos apenas quando realizamos atividades consideradas como intelectuais, que no caso da escola são aquelas em que a criança realiza sentada em sua cadeira. Essas propostas não podem ser subestimadas, mas, o que se pretende dar ênfase é que “[...] ninguém escapa à ação educativa; [...] a educação processa-se no corpo todo e não apenas na cabeça dos alunos” (MOREIRA, 1995, p. 28). O corpo ainda é tratado na escola - não somente na educação infantil - de forma dual, como se fosse separado em corpo e mente, com maior valorização da mente em relação ao físico, e movimentar-se muito é, muitas vezes, interpretado como indisciplina, sendo o corpo do aluno tratado como corpo-objeto (MOREIRA, 2005). Quando o corpo é visto ou tratado como objeto, a movimentação geralmente é desprovida de compreensão e de U3 - Fases de desenvolvimento infantil116 significado, torna-se ato mecânico, movimento morto, reduz- se, muitas vezes, à cópia e à imitação. A escola, em alguns momentos, impõe uma disciplina ao aluno com intenção de condicioná-lo ao corpo-máquina com as funções de assimilação, execução e obtenção de bons resultados, preferencialmente sem a necessidade de questionamento e reflexão por parte do aluno e “os professores se esquecem que um disciplinamento exagerado fabrica corpos submissos, corpos sem pensamento, alunos sem poder de decisão, sem autocontrole e sem autoconfiança” (VERDERI, 2009, p. 1). Na educação infantil, as crianças precisam de tempo e espaço para brincar, movimentar-se, experimentar propostas que lhes oportunizem descobrir o mundo por meio do seu corpo. Por isso, é importante a mediação do professor para realização dessas práticas na rotina cotidiana das crianças, para que elas desenvolvam a consciência de si mesmas e do mundo no qual elas fazem parte. Desde a educação infantil, é preciso que o professor, considerando as necessidades da criança, a considere como um corpo-sujeito, pensante, crítico e capaz de participar das tomadas de decisões, de fazer escolhas e construir-se como um ser autônomo. Para saber mais Sobre o corpo em movimento na educação infantil, assista ao vídeo a seguir: Corpo e Movimento na educação infantil. Disponível em: <https://www. youtube.com/watch?v=TC3RpoTFb1w>. Acesso em: 13 abr. 2017. Além do vídeo, também sugerimos a leitura complementar do texto: LOPES, K. R.; MENDES, R. P.; FARIA, V. L. B. de (orgs.). Fundamentos da Educação. As múltiplas linguagens das crianças e as interações com a natureza e a cultura: música, dança e gestualidade. Brasília: MEC. Secretária de Educação Básica. Secretária de Educação a Distância, 2006. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ me003251.pdf>. Acesso em: 6 abr. 2017. U3 - Fases de desenvolvimento infantil 117 2.2 A brincadeira na educação infantil Desde o nascimento, a exploração de movimentos pela criança é um aspecto fundamental para a aquisição de estruturas cognitivas e o seu desenvolvimento global. A proposta pedagógica das escolas deve ter o brincar como parte da rotina, incluso em suas atividades permanentes. No entanto, cabe aqui enfatizar que, não estamos tratando apenas do brincar livremente em situações de parque ou pátio, mas, também de práticas de cunho educativo que visem o desenvolvimento da corporeidade infantil, visto que a brincadeira é um dos eixos norteadores desta etapa segundo as DCNEI (2010). Por meio da brincadeira, a criança desenvolve sua autonomia e sua capacidade de enfrentar desafios e situações que exigirão dela escolhas e tomada de decisões, desde a decisão sobre com qual brinquedo brincará até ao aprender a compartilhar esse brinquedo com outras crianças. O ato de brincar é importante para o desenvolvimento afetivo, moral, cognitivo e físico das crianças e constitui-se em aprendizagem, indo muito além de mero entretenimento, como muitos o consideram. Ele promove a apreensão do real e expande o imaginário, possibilitando o desenvolvimento da imaginação. A criança entra em contato com objetos físicos e sociais quando brinca e dessa relação extrai informaçõesque contribuem para seu desenvolvimento (MARQUEZINI, 2015). Para os bebês, devem ser oportunizadas práticas para que eles possam se movimentar com liberdade, interagir uns com os outros de forma segura, explorando o espaço e os brinquedos/objetos que nele estão disponibilizados, seja na sala de referência ou em um ambiente externo. O professor deverá mediar esses momentos, intervindo quando se fizer necessário, mas deixando a criança Brincar com crianças não é perder tempo, é ganhá-lo; se é triste ver meninos sem escola, mais triste ainda é vê-los sentados enfileirados em salas sem ar, com exercícios estéreis, sem valor para a formação do homem. (Carlos Drummond de Andrade) U3 - Fases de desenvolvimento infantil118 livre para brincar de forma autônoma. Constituir um ambiente propício ao desenvolvimento da criança, sempre com olhar atento, e participação ativa, observando como as crianças brincam e interagem umas com as outras e com os brinquedos. As primeiras brincadeiras apresentadas por Piaget na fase sensório- motor são os jogos de exercício, que resultam em ações inicialmente reflexas que vão gerando os primeiros esquemas de ação e, portanto, vão passando de ações involuntárias a voluntárias. Por exemplo, quando a criança bate a mão acidentalmente em um brinquedo e tendo isso como algo interessante para ela, organiza sua ação para repetir esse movimento de bater novamente no brinquedo de forma agora intencional. É a formação da consciência. Piaget, na sequência, apresenta os jogos simbólicos, correspondentes às brincadeiras de faz de conta, nas quais a criança recria as experiências que vivencia no seu dia a dia, imitando seus próprios comportamentos e o das pessoas mais próximas (OLIVEIRA, 1992 apud MARQUEZINI, 2015). Por fim, os jogos de regras, que ocorrem normalmente nos períodos das operações concretas e operações formais, quando as crianças já conseguiram compreender, internalizar e fazer uso das regras quando jogam. Aqui estabelece-se também uma relação com o desenvolvimento moral da criança, que são as etapas definidas por ele como anomia, heteronomia e autonomia (exposto na Seção 1 desta unidade). Para Vygotsky, a brincadeira tem três elementos fundamentais: a imaginação, a imitação e as regras. Ele considera que é a partir dos 3 e 4 anos de idade que a criança inicia o brincar de faz de conta ou jogo de papéis. Momento em que a criança se utiliza do seu imaginário para realizar seus anseios, e no ato de brincar estão implícitas as regras da sociedade de acordo com o papel que ela representará na brincadeira. A criança quando se torna mãe de uma boneca, representa ali o papel de mãe que ela conhece e convive, obedecendo às regras do comportamento maternal. Quando a criança representa por meio desse jogo de papéis, ela transforma os objetos de acordo com suas necessidades para o momento da brincadeira: se ela quer representar um passeio de ônibus ou trem ela organiza as cadeiras da cozinha de forma a representar essa cena. O brincar cria uma zona de desenvolvimento proximal ou iminente U3 - Fases de desenvolvimento infantil 119 na criança, ele propicia aprendizagens que se desenvolverão e se tornarão parte das funções psicológicas consolidadas do indivíduo (ROLIM; GUERRA; TASSIGNY, 2008). Assim, a criança utiliza sua capacidade de imaginar para imitar o contexto no qual ela vive, representando os papéis daqueles que com ela convivem (pai, mãe, professora, entre outros) comportamento e suas ações, e assim vão internalizando as regras desses comportamentos e ações ditados pelas relações sociais, portanto, construídos culturalmente. Para saber mais Para ampliar seus conhecimentos, leia o artigo de Angela Scalabrin Coutinho, com o título: Os bebês e a brincadeira: questões para pensar a docência. Disponível em: <http://repositorio.ipl.pt/bitstream/10400.21/3421/1/ Os%20beb%C3%AAs%20e%20a%20brincadeira.pdf>. Acesso em: 28 mar. 2017. 2.3 Práticas educativas: situações de aprendizagem De acordo com o que temos apresentado a você até aqui, vamos agora elencar alguns aspectos essenciais para serem levados em consideração pelo professor e algumas situações de aprendizagem que podem ser desenvolvidas no contexto da educação infantil, considerando o corpo da criança em movimento, visto a importância de se incluir no planejamento propostas corporais. Primeiramente, cabe salientar que utilizamos aqui a expressão situação de aprendizagem, seguindo o pensamento de Junqueira Filho (2014, p. 64), que compreende a educação infantil como “espaço e tempo de aprendizagem para e entre crianças e adultos, intermediados pelo mundo”. Esse autor nomeia como situações de aprendizagem o que muitas vezes chamamos de atividades, porque corresponde principalmente à intencionalidade pedagógica do professor e não simplesmente à prática pela prática. Estão envolvidos nessa situação a criança e o professor, “a criança aprende o objeto de conhecimento-linguagem com o qual está interagindo, e a docente aprende a criança pela interação da criança com o objeto de conhecimento-linguagem” (JUNQUEIRA FILHO, 2014, p. 67). U3 - Fases de desenvolvimento infantil120 Seguindo o pensamento do mesmo autor, apresentamos como primeira preocupação do professor ao organizar suas práticas: o seu envolvimento na ação proposta desde o planejamento até sua execução com a criança. Assim, é essencial que o professor realmente acompanhe e interaja com a criança. A segunda preocupação é estabelecer objetivos bastante claros para o professor que pretende desenvolver uma proposta de cunho educativo. Na terceira preocupação, uma vez definida no planejamento qual proposta será realizada e quais objetivos pretendem-se atingir, deve-se pensar na organização do espaço físico, seja da sala de referência como de qualquer espaço externo no qual a prática for realizada. Além disso, estabelecer qual será o tempo estimado de realização para a proposta, lembrando que ele deve ser um tanto flexível, podendo durar mais ou menos do que o previsto de acordo com o envolvimento dos participantes e com a rotina da turma. Na quarta preocupação, dependendo da proposta, é necessário em roda de conversa, estabelecer previamente quais serão as regras de conduta para o grupo e a explicação da proposta a ser realizada. Feito isto, o professor poderá dar início à execução da situação de aprendizagem prevista. Vamos às sugestões de situações de aprendizagem com base em Junqueira Filho (2014) e Palma, Oliveira e Palma (2010): • Contação de histórias: que poderão ser escolhidas e contadas tanto pelo professor quanto pelas crianças, ou ainda, contadas pelo professor e recontadas pelas crianças. O educador pode com as crianças inventar uma história coletiva e a partir dela trabalhar as ilustrações por meio de desenhos. • Desenhos: podem ser realizados desenhos livres, a partir das histórias, em suportes variados, de observação, de memória, com interferências. • Pintura: com tintas, utilizando pincéis, dedos ou esponjas, com produção de tintas de pigmentos naturais. • Recorte e colagem: com textura, livre, com interferências. • Modelagem com materiais diversos. • Música: exploração de objetos sonoros, percussão corporal. U3 - Fases de desenvolvimento infantil 121 • Dança: a partir da criatividade da criança, por meio de jogos e expressão corporal, cantigas de roda, danças folclóricas. • Teatro: fantoches, bonecos, construção de personagem, jogos teatrais. • Brincadeiras cantadas e outras. • Jogos de perseguição: lenço atrás, gato e rato, coelho sai da toca, pato ganso. • Imitação por meio de representação gestual, corporal e verbal: elementos da natureza, animais. • Mímica: representação de movimentos do cotidiano, de personagens, emoções e sentimentos. • Brinquedos pedagógicos: classificação, seriação e ordenação. • Exploração e conhecimento da natureza: horta, passeio pelo bairro, passeio em um parque municipal. • Culinária:execução de receitas, valores nutritivos dos alimentos. • Exploração de reconhecimento corporal: olhar de frente para o espelho, observar o outro, massagear partes do corpo, desenhar ou representar com massinha de modelar seu corpo. • Circuitos e caminhadas exploratórias pela escola. • Exploração com sucata: brinquedos recicláveis. • Trabalhar o movimento por meio das habilidades locomotoras: andar e correr de formas variadas, girar, rolar, rastejar, entre outras. • Trabalhar as habilidades motoras manipulativas elementares: pegar, receber, apertar, amassar, lançar e arremessar. Essas são algumas sugestões, dentre outras possibilidades, que podem ser reelaboradas pelo professor de acordo com as necessidades e os interesses de sua turma, adequando à faixa etária, ao espaço físico e aos materiais disponíveis. U3 - Fases de desenvolvimento infantil122 2.4 Finalizando a seção A criança descobre o mundo a cada dia, portanto, a educação infantil é um lugar de descobertas, é o embrião para os demais espaços de convivência social, no qual ela terá contato com outras crianças e adultos advindos de outros contextos sociais e culturais. Essa diversidade é enriquecedora para sua formação. Além disso, o professor deve estar atento ao corpo e ao movimento dela, pois é por meio dele que ela demonstra em sua expressão corporal seus sentimentos. Cada criança tem sua maneira de se relacionar e interagir com o outro, seu modo de pensar, sua forma de aprender. Segundo Sacristán e Gómez (2000, p. 9), “sem compreender o que se faz, a prática pedagógica é mera reprodução de hábitos existentes, ou respostas que os docentes devem fornecer a demandas e ordens externas”. Importante lembrar que nem sempre há professores especialistas na área de Artes e Educação Física atuando em centros de educação infantil. Por isso, mais um motivo para que os educadores regentes na educação infantil desenvolvam essas práticas que tratem do movimento, do reconhecimento do próprio corpo e o desenvolvimento de habilidades motoras, sendo interesse geral de todos os docentes, pois implica na compreensão da criança em sua totalidade. Atividades de aprendizagem Dando continuidade à sistematização de seus conhecimentos, leia e responda as questões a seguir: 1) O corpo ainda é tratado na escola - não somente na educação infantil - de forma dual, como se fosse separado em corpo e mente. Disserte sobre a dualidade do corpo e diferencie corpo-objeto e corpo-sujeito. 2) A brincadeira é a principal atividade social da criança na infância. Relacione pontos positivos quanto às contribuições do brincar para o desenvolvimento infantil. U3 - Fases de desenvolvimento infantil 123 Fique ligado Vamos lembrar de forma resumida o que vimos ao longo dos estudos nesta unidade, retomando alguns aspectos fundamentais? Você conheceu dentre as teorias interacionistas alguns conceitos importantes trazidos por Piaget e Vygotsky. Você se recorda de todos eles e consegue compreender o motivo de serem importantes para o contexto da educação infantil? Na segunda seção, foi realizada uma abordagem sobre o olhar do professor para o corpo da criança, compreendendo-o como um corpo-sujeito e sobre o papel da mediação do docente na organização do espaço e promoção de práticas que desenvolvam o brincar de modo a potencializar o desenvolvimento infantil. Se for necessário, retome os estudos para que compreenda todos os conceitos expostos. É importante que você procure se aprofundar mais quanto aos estudos de Piaget e Vygotsky, pois isso contribuirá para que você tenha conhecimento quanto a essas perspectivas teóricas que geralmente embasam diversas propostas pedagógicas em instituições de ensino brasileiras. Além disso, procure exercitar a elaboração de práticas educativas associadas aos cuidados, pois isso será bastante necessário para os estudos da próxima unidade, que tratarão do planejamento e da organização da ação docente, bem como para sua atuação como profissional da educação infantil. Para concluir o estudo da unidade De um lado professores e de outro as crianças, ambos seres humanos complexos em sua totalidade. Sujeitos socioculturais e históricos que trazem consigo o aprendizado adquirido ao longo da vida. Cada um é fruto de sua formação cultural proveniente das relações sociais que estabelece com a família, a escola, os amigos, entre outros. O professor e a criança estão na mesma condição de humanidade, mas em fases diferentes, os docentes têm o compromisso profissional quanto ao cuidar e educar aqueles que lhes foram confiados, e “saber mais” no sentido de que já se viveu mais e que passou por um processo formativo para assumir sua função na docência. U3 - Fases de desenvolvimento infantil124 Chegamos ao final de nossa terceira unidade, continue ampliando seus conhecimentos realizando outras leituras sobre o tema. Bons estudos! Atividades de aprendizagem da unidade 1) O processo de desenvolvimento intelectual, segundo a teoria piagetiana, é compreendido por quatro estágios sucessivos. O estágio em que o bebê constrói uma compreensão do mundo a partir da coordenação entre as experiências sensoriais e motoras, que se estende do nascimento até aproximadamente os 2 anos de idade é chamado de: a) Pré-formal. b) Sensório-motor. c) Pré-operacional. d) Operacional concreto. e) Operacional formal. 2) Na teoria piagetiana, os esquemas são interpretados como a forma pela qual o indivíduo organiza o conhecimento do mundo, são conjuntos de ações padronizadas que se aplicam a elementos com características comuns, ou seja, eles são classificados em grupos de acordo com essas características. Sobre o esquema, de acordo com a teoria de Piaget, analise as afirmativas a seguir: I – Quando a criança nasce, ela apresenta poucos esquemas de ação reflexa, e conforme se relaciona com o mundo, esses esquemas vão sendo ampliados. II – São estruturas intelectuais, em que os processos ocorrem no sistema nervoso, não sendo, portanto, observáveis. III – A construção de esquemas acontece ao longo da vida por meio de outros processos: assimilação, acomodação, equilibração e adaptação. Estão corretas apenas as afirmativas: a) I, II e III. b) I e II. c) I e III. d) II e III. e) III. U3 - Fases de desenvolvimento infantil 125 3) Vygotsky considera que as crianças têm a potencialidade de se desenvolver com a ajuda dos mediadores e o desenvolvimento depende da aprendizagem. À medida em que os conceitos são internalizados é que vai ocorrendo também o desenvolvimento. Sobre os níveis de desenvolvimento real e potencial e a zona de desenvolvimento proximal, faça a correta relação entre as colunas: Coluna 1 I - Nível de desenvolvimento real (NDR). II - Nível de desenvolvimento potencial (NDP). III - Zona de desenvolvimento proximal (ZDP). Coluna 2 ( ) É aquele em que a criança consegue executar tarefas sozinha, sem o auxílio de outras pessoas. Neste nível, a criança já tem conhecimentos internalizados anteriormente. ( ) É aquele em que a criança executa tarefas com o auxílio de outras pessoas. É onde ela poderá chegar após ter contato com elementos mediadores que vão lhe proporcionar um novo aprendizado. ( ) Também chamada de “espaço cognitivo” em que a criança consegue executar determinada tarefa com a mediação de outra pessoa e que não é capaz de realizar sozinha. É o local no qual a aprendizagem acontece. Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta de cima para baixo: a) III, II, I. b) II, III, I. c) I, III, II, d) I, II, III. e) III, I, II. 4) Na educação infantil, as crianças precisam de tempo e espaço para brincar, se movimentar, experimentar propostas que lhes oportunizem descobrir o mundo por meio do seu corpo. Sobre o corpo em movimento na educação infantil, leia as afirmativas a seguir e considere V para as verdadeiras e F para as falsas: ( ) As crianças são passivas e receptoras das informações que estão à sua volta, por isso,é preciso que os professores estimulem práticas que trabalhem o reconhecimento de seu próprio corpo e a interação com outras crianças e adultos. U3 - Fases de desenvolvimento infantil126 ( ) Pelos aspectos da ludicidade, a criança aprende a se autoconhecer, a interagir e se relacionar com os outros e começa a compreender o mundo ao seu redor. ( ) Pela sua movimentação corporal, a criança, expressa sua relação com o meio físico e com as pessoas e vai se apropriando e ressignificando a cultura na qual está inserida. ( ) As brincadeiras e as práticas corporais integram o currículo da educação infantil apenas nos momentos de entretenimento e prazer. Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta de cima para baixo: a) V, V, V, F. b) F, F, V, V. c) F, V, F, F. d) F, V, V, V. e) F, V, V, F. 5) Durante o planejamento, a seleção e a organização das situações de aprendizagem a serem desenvolvidas na educação infantil, alguns aspectos importantes devem ser considerados. Analise as afirmativas a seguir quanto a esse aspecto: I – O professor ao organizar suas práticas deve prever seu envolvimento na ação proposta acompanhando e interagindo com a criança. II – O professor deverá estabelecer e ter clareza quanto aos objetivos que pretende atingir ao desenvolver uma proposta de cunho educativo. III – A organização do espaço físico é um aspecto relevante para a realização da prática. IV – É dispensável a preocupação do professor com relação ao tempo estimado para a realização das propostas práticas. Assinale a alternativa que apresenta apenas afirmativas corretas: a) I e IV. b) I, II e IV. c) I, II e III. d) II, III e IV. e) III e IV. U3 - Fases de desenvolvimento infantil 127 Referências BASTOS, M. C. P. Educação aplicada aos cuidados da criança: compreendendo as características da criança: cognição e linguagem. Caderno de Atividades. Valinhos: Anhanguera Educacional, 2015. BRASIL. Lei 12.796 de 4 de abril de 2013. Altera a Lei nº 9394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para dispor sobre a formação dos profissionais da educação e dar outras providências. Diário Oficial [da União], Poder Executivo, p. 5 abr. 2013, p. 1. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/_ato2011-2014/2013/lei/l12796.htm>. Acesso em: 13 abr. 2017. ______. DCNEI. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. 2010. Disponível em: <http://ndi.ufsc.br/files/2012/02/Diretrizes-Curriculares-para-a-E-I.pdf>. 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U3 - Fases de desenvolvimento infantil 129 VYGOTSKT, Lev. S. Internalização das funções psicológicas superiores. In: _____. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 2007. U3 - Fases de desenvolvimento infantil130 Unidade 4 A organização do trabalho pedagógico: planejamento e propostas para a Educação Infantil Nesta unidade, você: • Refletirá sobre a importância do planejamento e da avaliação no processo de ensino e aprendizagem. • Conhecerá documentos e autores que orientam sobre como avaliarna educação infantil. • Identificará que tipo de saberes estão presentes na profissão docente e refletirá sobre a importância da formação inicial e continuada dos professores. • Conhecerá características e fundamentos de projetos e situações de interação ou aprendizagem que podem ser desenvolvidas na educação infantil. Objetivos de aprendizagem A primeira seção discutirá sobre a importância do planejamento, descrevendo a estrutura e os princípios que fundamentam a sua sistematização, destacando a necessidade de assumir um caráter flexível diante de necessidades específicas. Seção 1 | Planejamento A segunda seção apresentará algumas informações importantes sobre o debate acerca do currículo e do Projeto Político-Pedagógico das instituições de ensino, além de reflexões sobre o processo de ensino e aprendizagem e as possibilidades de avaliação na educação infantil. Seção 2 | Currículo, proposta pedagógica e avaliação Tatiane Mota Santos Jardim A terceira seção tratará sobre aspectos relevantes para a formação inicial e continuada dos professores, analisando saberes específicos da profissão e propostas didáticas relacionadas a projetos e situações de interação ou aprendizagem que podem ser desenvolvidas na educação infantil. Seção 3 | Formação de professores Introdução à unidade A organização do trabalho pedagógico na educação infantil está permeada por uma série de reflexões sobre o bem-estar e o desenvolvimento das crianças. A preocupação com a efetivação do planejamento na educação infantil, bem como a organização do currículo e do projeto pedagógico, a realização de práticas avaliativas consistentes, que oportunizem, de fato, uma análise sobre as aprendizagens e as dificuldades presentes no processo pedagógico e a formação dos professores, são assuntos presentes nas instituições de educação infantil. Essas reflexões costumam ser acompanhadas por uma série de perguntas: quais são os pilares de um planejamento? Como podemos avaliar as crianças que estão na educação infantil? Que tipo de saberes estão vinculados à prática docente? Que tipo de abordagens podem ser realizadas com essa faixa etária? A unidade está dividida em três seções e pretende subsidiar as reflexões sobre as questões apresentadas. Na primeira seção, discutiremos sobre a importância do planejamento e suas especificidades na educação infantil, na segunda seção, trataremos sobre o currículo, o projeto pedagógico e os tipos de avaliações que podem ser utilizadas nessa primeira etapa da educação básica e, na terceira seção, analisaremos os saberes relevantes na profissão docente, a importância do processo de formação dos professores e o trabalho por meio de práticas significativas a serem realizadas na educação infantil, contribuindo com o desenvolvimento, interesse e bem-estar das crianças. U4 - A organização do trabalho pedagógico: planejamento e propostas para a educação infantil134 Seção 1 Planejamento Introdução à seção Nesta seção, vamos refletir sobre o que é um planejamento, suas funções no processo de ensino e aprendizagem, a estrutura utilizada na organização do trabalho pedagógico e a flexibilidade necessária no momento de executar as ações planejadas. 1.1 O que é planejamento? O que é planejamento? De que maneira planejamos diferentes ações ligadas ao nosso cotidiano? Como planejamos o nosso dia? De que modo você se organiza para realizar um estudo ou produzir uma produção textual de acordo com o prazo estabelecido? Todas essas ações precisam de algum tipo de planejamento. O planejamento é fundamental para a vida. Ele também deve estar presente nas diferentes modalidades e etapas de ensino. O planejamento indica quais caminhos o professor tomará para alcançar os objetivos propostos e que tipo de conhecimentos e atividades serão oportunizadas durante todo o processo de ensino. Podemos dizer que o planejamento é um aliado do professor, já que favorece a execução do seu trabalho. Há quem diga que o planejamento é uma prática meramente burocrática, que despende de parte do tempo do professor e nem sempre é efetivado, entretanto, a compreensão sobre essa importante ferramenta é imprescindível para alcançarmos o êxito esperado em nossas práticas pedagógicas. De acordo com Libâneo (2013), o planejamento é um processo de racionalização, organização e coordenação da ação docente, que deve ser articulado com a atividade escolar e o contexto social. O planejamento visa “atingir os objetivos propostos, superar dificuldades e controlar a improvisação” (HAYDT, 2003, p. 105). A improvisação que a autora se refere diz respeito às práticas aleatórias, propostas sem qualquer tipo de planejamento ou intenção U4 - A organização do trabalho pedagógico: planejamento e propostas para a educação infantil 135 específica, que, muitas vezes, são desenvolvidas apenas com o intuito de passar o tempo. Os elementos do planejamento escolar são: objetivos, conteúdos, metodologia, recursos e avaliação. Os objetivos indicam o lugar ao qual se pretende chegar ao final do processo de ensino e são apresentados utilizando-se verbos, como conhecer, observar, identificar, vivenciar, relacionar, ouvir, falar, entre outros relacionados às ações a serem realizadas. “Formular objetivos é uma tarefa que consiste, basicamente, em descrever os conhecimentos a serem assimilados, as habilidades, os hábitos e as atitudes a serem desenvolvidos, ao término do estudo de certos conteúdos de ensino” (LIBÂNEO, 2013, p. 262). Os conteúdos são os assuntos que serão tratados durante as aulas. Entre os conteúdos relacionados à linguagem matemática, por exemplo, na educação infantil, estão a contagem oral, as noções de quantidade, a identificação de números, entre outros. Já os conteúdos ligados à linguagem oral e escrita relacionam-se com a observação e a manipulação de materiais impressos, a elaboração de perguntas e respostas de acordo com conceitos variados, o reconto de histórias conhecidas, entre outros conteúdos. Eles podem ser classificados ainda em conteúdos conceituais, procedimentais e atitudinais. De acordo com o Referencial Curricular Nacional para a educação infantil (BRASIL, 1998), os conteúdos conceituais referem-se aos símbolos, às ideias, às imagens e às representações que permitem atribuir sentido à realidade, já os conteúdos procedimentais referem-se ao saber fazer, relacionam- se à possibilidade de a criança construir instrumentos e estabelecer caminhos que lhes possibilitem a realização de suas ações. Saber manipular corretamente objetos de uso cotidiano é um exemplo de um procedimento fundamental. Os conteúdos atitudinais tratam de valores, das normas e das atitudes, contribuindo, portanto, para a socialização da criança. A metodologia descrita nos planejamentos refere-se ao caminho a ser percorrido pelo professor para alcançar os objetivos propostos. De acordo com Libâneo (2013), as características dos métodos de ensino são orientadas pelos objetivos, implicam uma sucessão planejada e sistematizada de ações e requerem a utilização de diferentes meios. Ainda de acordo com o autor, o método deve expressar uma compreensão global do processo educativo na sociedade, possibilitando U4 - A organização do trabalho pedagógico: planejamento e propostas para a educação infantil136 ao educador o conhecimento sobre os fins sociais e pedagógicos do ensino, a conscientização sobre a relevância dos conteúdos abordados, o modo como articulamos as informações apresentadas, entre outros aspectos fundamentais para a prática pedagógica. Piletti (2000) classifica os métodos de ensino em tradicionais e novos métodos. Os tradicionais são passivos e acontecem por meio da transmissão. Os novos métodos, também chamados de métodos ativos, baseiam-se na participação ativa dos alunos. Os recursos são os objetos que oportunizarão as vivências planejadas. Entre os materiais que podem ser utilizados na educação infantil, podemos destacaras folhas de papel, o quadro negro, as massinhas de modelar, as revistas, as colas, as tesouras, os brinquedos, o rádio, os CDs, a televisão, os livros ou qualquer outro objeto que possa contribuir com a metodologia escolhida. A avaliação presente no planejamento deve ser uma ferramenta para tentar averiguar os avanços obtidos ao longo do processo de ensino e aprendizagem, detectando, ainda, as dificuldades que porventura não tenham sido sanadas. Existem diferentes modos de avaliar, cabe ao professor pesquisar os tipos de avaliação adequados para cada contexto educacional, para que assim, as fases de desenvolvimento humano e a individualidade dos alunos sejam respeitadas. Observamos a amplitude das dimensões vinculadas a cada etapa do planejamento. Segundo Libâneo (2013), a ação de planejar não se reduz ao simples preenchimento de formulários para controle administrativo, mas trata-se de uma atividade consciente, que apresenta a previsão das ações docentes, fundamentada em opções político-pedagógicas e situações concretas. De acordo com o autor, os principais requisitos para o planejamento são os objetivos e as tarefas da escola democrática, as exigências dos planos e programas oficiais de ensino, as condições e os conhecimentos prévios dos alunos e os princípios e as condições que oportunizam a transmissão e a assimilação dos conteúdos. Baseando-se nesses princípios, o autor aponta ainda as funções do planejamento escolar: • Explicitar princípios, diretrizes e procedimentos do trabalho docente. • Expressar posicionamentos filosóficos, político-pedagógicos e profissionais, além das ações efetivas do professor. U4 - A organização do trabalho pedagógico: planejamento e propostas para a educação infantil 137 • Assegurar a organização e a coordenação do trabalho docente. • Prever objetivos, conteúdos e métodos a partir da realidade. • Assegurar a unidade e a coerência do trabalho docente. • Atualizar o conteúdo do plano de acordo com as vivências realizadas. • Facilitar a preparação das aulas. Podemos elencar também as diferenças entre o plano da escola, o plano de ensino e o plano de aula. O plano da escola deve apresentar orientações que nortearão o planejamento do processo de ensino com o consenso dos professores. De acordo com Libâneo (2013, p. 255), O plano da escola é o plano pedagógico e administrativo da unidade escolar, onde se explicita a concepção pedagógica do corpo docente, as bases teórico-metodológicas da organização didática, a contextualização social, econômica, política e cultural da escola, a caracterização da clientela escolar, os objetivos educacionais gerais, a estrutura curricular, diretrizes metodológicas gerais, o sistema de avaliação do plano, a estrutura organizacional e administrativa. O plano de ensino pode ser chamado também de plano de curso ou plano de unidade e apresentará como as unidades didáticas serão organizadas no ano ou semestre estipulado. Esse tipo de plano apresenta, além dos objetivos gerais e específicos, o conteúdo e a metodologia que serão utilizados, a previsão sobre o tempo de desenvolvimento das atividades e a justificativa sobre a realização delas. O plano de aula é um instrumento de organização da prática pedagógica que detalha como o trabalho será desenvolvido. “A preparação de aulas é uma tarefa indispensável e, assim como o plano de ensino, deve resultar num documento escrito que servirá não só para orientar as ações do professor como também para possibilitar constantes revisões e aprimoramentos de ano para ano” (LIBÂNEO, 2013, p. 267). U4 - A organização do trabalho pedagógico: planejamento e propostas para a educação infantil138 É importante lembrar que um plano de aula deve estabelecer relações com o plano anterior, favorecendo também a continuidade do trabalho no plano de aula seguinte. Essa organização contribuirá com a percepção do aluno sobre os conteúdos e os temas tratados e favorecerá no desenvolvimento do seu raciocínio. Embora apresente funções e uma organização específica, o planejamento como um todo deve assumir um caráter flexível, ou seja, o plano deve estar sempre sujeito a alterações, de acordo com as necessidades ou situações vivenciadas por cada grupo ou classe. Um mesmo planejamento pode ser aplicado em turmas diferentes, assumindo contornos específicos ou, ainda, caminhando para outras vivências de acordo com o interesse e o desenvolvimento dos alunos. Questão para reflexão O que devemos considerar ao realizar um planejamento? Qual é a estrutura de um planejamento? Que informações ele deve conter? Para saber mais Leia o artigo A importância do planejamento e da rotina na Educação Infantil, de autoria de Degiane Jesus e Jéssica Germano, disponível em: <https://goo.gl/4I0NNs>. Acesso em: 27 abr. 2017. 1.2 O planejamento na educação infantil Antes de dar início a um trabalho pedagógico, o professor deve pesquisar o maior número possível de informações sobre a escola e os alunos a serem atendidos. Vale lembrar que existem uma série de informações sobre a escola e a comunidade no Projeto Político-Pedagógico. O professor pode ainda conversar com a direção, os funcionários e os docentes para obter informações sobre as famílias atendidas e procurar conhecer as características da turma que será acompanhada. O conhecimento sobre as preferências dos alunos, as características de suas personalidades, os avanços, as dificuldades, as qualidades, a saúde, entre outros aspectos, podem ser fundamentais para o relacionamento entre professores e alunos, influenciando ainda a escolha da metodologia U4 - A organização do trabalho pedagógico: planejamento e propostas para a educação infantil 139 a ser utilizada e o planejamento propriamente dito. A avaliação diagnóstica é uma prática indicada para esses momentos. Trata-se da realização de atividades que oportunizam o conhecimento sobre os conhecimentos prévios dos alunos, ou seja, os conhecimentos que eles carregam consigo, já que possuem experiências “sociais, afetivas e cognitivas” (BRASIL, 1998, p. 35). Por meio de conversas com as crianças e seus familiares ou cuidadores, da realização de brincadeiras e atividades em sala de referência e da análise de documentos que possam ter o registro das experiências vivenciadas pelas crianças no ano ou semestre anterior, os professores podem conhecer um pouco sobre o desenvolvimento delas. De acordo com o Referencial Curricular Nacional para a educação infantil (BRASIL, 1998), Além de favorecer o desenvolvimento dos alunos, a observação sobre todos esses detalhes também favorecerá o relacionamento e a afetividade entre o professor e as crianças. A estrutura do planejamento na educação infantil segue com pontos primordiais às demais etapas do ensino, apresentadas anteriormente, entretanto, os conteúdos presentes na educação infantil têm uma característica ainda mais ampla, devido à característica da faixa etária. Além dos conteúdos vinculados às diferentes linguagens, podemos citar aqueles relacionados aos princípios de vida e convivência em sociedade. A abordagem sobre as atitudes e os valores é relevante em todas as idades, mas tem especial importância para a educação infantil. “Os conteúdos abrangem, para além de fatos, conceitos e princípios, também os conhecimentos relacionados a procedimentos, atitudes, valores e normas como objetos de aprendizagem” (BRASIL, 1998, p. 50). Nessa etapa da educação básica, as crianças começam a descobrir o mundo ao seu redor e passam a reconhecer maneiras de "os gestos, movimentos corporais, sons produzidos, expressões faciais, as brincadeiras e toda forma de expressão, representação e comunicação devem ser consideradas como fonte de conhecimento para o professor sobre o que a criança já sabe” (BRASIL, 1998, p. 35). U4 - A organização do trabalho pedagógico: planejamento e propostas para a educação infantil140 relacionarem-se com as pessoas, os animais, os objetos edescobrem suas emoções a partir das experiências vivenciadas. De acordo com Jesus e Germano (2013), o planejamento na educação infantil possibilita a reflexão necessária para encontrar soluções visando avanços no desenvolvimento cognitivo, afetivo e social da criança, levando em consideração suas peculiaridades e especificidades, já que cada uma delas tem seu modo de agir, pensar e sentir. É por meio deste instrumento que o professor organiza suas intervenções diárias e projeta ações futuras por meio de embasamento teórico e científico, possibilitando a compreensão do desenvolvimento infantil, promovendo a aquisição de habilidades e associando o cuidar e o educar. Segundo Vasconcelos (2000), o planejamento é um processo contínuo e dinâmico de reflexão. Embora ele não garanta a eficácia das aulas, já que elas dependem também do domínio de sala que o professor tem entre outros aspectos, ele favorece a segurança necessária para que o professor desenvolva suas atividades. O professor que atua na educação infantil deve organizar o seu planejamento de tal modo que possa articular os diferentes eixos e linguagens por meio da ludicidade necessária à faixa etária atendida. Observamos, portanto, que o planejamento na educação infantil não é apenas mais uma ferramenta burocrática. Trata-se de um documento que define os objetivos a serem alcançados, sistematiza temas que podem gerar situações de aprendizagem, organiza e registra as experiências vivenciadas pelos alunos e planeja as avaliações que serão realizadas ao longo do processo de ensino e aprendizagem. A organização de cada um dos itens apresentados favorece ainda novas descobertas, que podem surpreender professores e alunos e enriquecer o trabalho desenvolvido em sala de aula. A flexibilidade existente no planejamento favorece esse tipo de aprendizagem de modo livre e espontâneo. U4 - A organização do trabalho pedagógico: planejamento e propostas para a educação infantil 141 1.3 Finalizando a seção As reflexões realizadas nesta seção nos levam a considerar que o planejamento não é apenas uma formalidade exigida pelos órgãos competentes. Trata-se de um processo de organização da ação docente com o objetivo de atingir os objetivos propostos, realizando alterações de acordo com as necessidades encontradas. Observamos que existem várias formas de planejamento. Estudamos o plano da escola, que se refere ao plano pedagógico e administrativo da unidade escolar, o plano de ensino, que apresenta o modo como as unidades didáticas serão organizadas no ano ou semestre estipulado, e o plano de aula, que detalha o trabalho a ser desenvolvido em cada aula. Verificamos que as funções do planejamento escolar estão atreladas aos posicionamentos filosóficos, político-pedagógicos e profissionais do professor, à coerência do trabalho docente e à atualização de conteúdos de acordo com as vivências realizadas. No que se refere à organização do planejamento na educação infantil, observamos a necessidade de levar em consideração o desenvolvimento cognitivo, afetivo e social da criança, articulando os eixos a serem trabalhados por meio da brincadeira e das interações. Essas experiências são fundamentais para o desenvolvimento dos alunos, pois reconhecem os direitos de aprendizagem das crianças e oportunizam metodologias adequadas para cada faixa etária. Atividades de aprendizagem 1. A estruturação do plano de aula é composta pela definição dos objetivos, dos conteúdos, da metodologia, dos recursos e da avaliação. Explique cada um dos itens apresentados. 2. Libâneo (2013) apresenta as diferenças entre o plano da escola, o plano de ensino e o plano de aula. Enumere a descrição apresentada na coluna 2 de acordo com o plano correspondente citado na coluna 1 e assinale a alternativa correta: Fonte: LIBÂNEO, J. C. Didática. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2013. U4 - A organização do trabalho pedagógico: planejamento e propostas para a educação infantil142 Coluna 1: I. Plano da escola. II. Plano de ensino. III. Plano de aula. Coluna 2: ( ) Instrumento de organização da prática pedagógica que detalha como o trabalho será desenvolvido. ( ) Plano pedagógico e administrativo no qual se explicita a concepção pedagógica do corpo docente, as bases teórico-metodológicas da organização didática, a contextualização social, entre outros aspectos. ( ) Apresenta como as unidades didáticas serão organizadas no ano ou semestre estipulado. A sequência correta é: a. I, II, III. b. II, III, I. c. II, I, III. d. III, I, II. e. III, II, I. U4 - A organização do trabalho pedagógico: planejamento e propostas para a educação infantil 143 Seção 2 Currículo, proposta pedagógica e avaliação Introdução à seção Nesta seção, vamos refletir sobre os princípios que orientam a construção do currículo escolar e do Projeto Político-Pedagógico das instituições de ensino e conhecer os instrumentos de avaliação mais indicados para a educação infantil. 2.1 O que é currículo? Você sabe o que é currículo? Embora a definição desse conceito seja ampla, você já deve ter percebido que palavras como identidade, conteúdos, orientações, metas, resultados, entre outras, são associadas com frequência ao currículo escolar. O debate acerca do currículo escolar está permeado por diferentes concepções, tanto na educação infantil, quanto nas outras etapas da educação básica. Entende-se o currículo como “um conjunto de concepções, ideias, teorias, fatos e conceitos submetidos às regras e aos métodos consensuais de comunidades intelectuais específicas” (LOPES; MACEDO, 2011, p. 71). A visão sobre o currículo foi sendo modificada ao longo dos tempos. Como acabamos de ver, o currículo não é mais visto apenas como uma organização sobre os conteúdos que devem ser ensinados aos alunos... é muito mais do que isso! O currículo precisa considerar o desenvolvimento humano, os conhecimentos ligados ao mundo do trabalho, o conhecimento escolar, as diferenças de cultura, as concepções sobre a avaliação, entre outros conceitos relacionados às situações vinculadas ao ensino e à aprendizagem. A partir dessa perspectiva, entendemos o currículo como um documento que trata sobre a organização dos conteúdos a serem abordados, mas envolve também assuntos administrativos, ideias pedagógicas, concepções metodológicas, entre outros assuntos relevantes para o trabalho a ser desenvolvido no ambiente escolar. U4 - A organização do trabalho pedagógico: planejamento e propostas para a educação infantil144 Sacristán (2000) destaca a importância de articular o currículo a uma prática reflexiva, considerando as relações culturais e sociais. As reflexões oportunizadas por meio do currículo contribuirão de modo significativo com a compreensão sobre os conceitos apresentados e o modo como os indivíduos poderão atuar na vida em sociedade. Segundo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional no 9394/96 (BRASIL, 1996), o currículo está carregado de sentidos construídos em tempos e espaços sociais distintos. Ele também é marcado pela diversidade biológica, cultural, ética e política. No artigo 27 do documento, observamos orientações específicas sobre a difusão de valores fundamentais ao interesse social, direitos e deveres dos cidadãos, considerações sobre as condições necessárias para a escolaridade dos alunos, bem como orientações sobre o trabalho a ser realizado em cada instituição escolar. Para Silva (2011), existem três teorias do currículo: teoria tradicional, as teorias críticas e pós-críticas. A teoria tradicional é centrada na criança, mede a eficiência dos indivíduos, tem o professor como o centro do processo de ensino e defende um modelo organizacional para a escola nos mesmos moldes utilizados nas fábricas. As teorias críticas problematizam a teoria tradicional do currículo e buscam a emancipação e a libertação dos indivíduos. As teorias pós-críticas analisam o currículo escolar na perspectiva multicultural, considerandoas relações entre identidade e poder, gênero, raça, etnia, religião, entre outros aspectos. Cartaxo (2013) afirma que o currículo é uma construção social coletiva, que revela a intenção educativa da escola, bem como o conjunto de valores e critérios que nortearão a ação pedagógica. A autora destaca também que a nova concepção de currículo é pautada na superação da linearidade da organização curricular, privilegiando o estabelecimento de relações entre os diferentes conceitos que devem ser apropriados pelo aluno ao longo do tempo. Segundo as DCNEI (BRASIL, 2010, p. 12), o currículo se refere “ao conjunto de práticas que buscam articular experiências e saberes com os conhecimentos culturais, artísticos, ambientais, científicos e tecnológicos, promovendo o desenvolvimento integral de crianças de 0 a 5 anos de idade”. U4 - A organização do trabalho pedagógico: planejamento e propostas para a educação infantil 145 Para saber mais Assista ao vídeo Construção do Currículo na Educação Infantil, para ampliar a reflexão sobre currículo nessa etapa. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=AHvHCxcGCGU>. Acesso em: 13 abr. 2017. O documento apresenta ainda a proposta pedagógica ou o Projeto Político-Pedagógico como o plano orientador das ações da instituição que definirá as metas que se pretende alcançar, tanto no que se refere à aprendizagem e ao desenvolvimento das crianças, quanto nos cuidados necessários à faixa etária. Esse documento é elaborado coletivamente, com a participação da direção, dos professores e demais membros da comunidade escolar. O projeto pedagógico é conhecido também como Projeto Político-Pedagógico. O documento deve respeitar o “direito à liberdade, à exploração dos espaços, à brincadeira e à expressão de significados pelos movimentos, palavras, desenhos e outras formas de produção simbólica” (BRASIL, 2010, p. 21). É necessário ainda garantir o direito à apropriação e construção de conhecimento e à ampliação do universo cultural. Ele também deve apresentar os pressupostos que norteiam e justificam o trabalho a ser desenvolvido, ou seja, ele precisa detalhar os objetivos, as diretrizes e as ações que serão desenvolvidas no ambiente escolar. Dizemos que é projeto porque relaciona-se com as propostas de ação concreta que serão executadas durante determinado período de tempo, é político pois considera a escola como um espaço de formação de cidadãos críticos e responsáveis por suas ações na sociedade e é pedagógico porque define que tipo de experiências serão vivenciadas e compartilhadas (VEIGA, 1995). A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional no 9.394/94 (BRASIL, 1996), as Diretrizes Curriculares Nacionais para a educação infantil (BRASIL, 2010) e os Referenciais Curriculares Nacionais para a educação infantil (BRASIL, 1998) abordam a necessidade de construir um projeto pedagógico para cada unidade escolar. Os artigos 12, 13 e 14, presentes na LDB nº 9.394/96, orientam que os estabelecimentos de ensino terão a incumbência de elaborar e U4 - A organização do trabalho pedagógico: planejamento e propostas para a educação infantil146 executar sua proposta, administrando recursos financeiros e humanos, velar pelo cumprimento do plano de trabalho dos docentes, zelar pela aprendizagem dos alunos, articulando a proposta com as famílias e a comunidade, entre outras atribuições. O documento apresenta ainda as incumbências dos docentes e afirma que os sistemas de ensino definirão as normas de gestão democrática do ensino público na educação básica, de acordo com suas peculiaridades. As Diretrizes Curriculares Nacionais para a educação infantil (BRASIL, 2010) apresentam a proposta pedagógica como o plano orientador das ações da instituição, com metas relacionadas à educação e aos cuidados com a criança a ser elaborado de modo coletivo, entre toda a comunidade escolar. Os artigos 12, 13 e 14, presentes na LDB nº 9.394/96, orientam que os estabelecimentos de ensino terão a incumbência de elaborar e executar sua proposta, administrando recursos financeiros e humanos, velar pelo cumprimento do plano de trabalho dos docentes, zelar pela aprendizagem dos alunos, articulando a proposta com as famílias e a comunidade, entre outras atribuições. O documento apresenta ainda as incumbências dos docentes e afirma que os sistemas de ensino definirão as normas de gestão democrática do ensino público na educação básica, de acordo com as suas peculiaridades. As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (BRASIL, 2010) apresentam a proposta pedagógica como o plano orientador das ações da instituição, com metas relacionadas à educação e aos cuidados com a criança a ser elaborado de modo coletivo, entre toda a comunidade escolar. De acordo com Cartaxo (2013), a proposta pedagógica deve ser elaborada de modo coletivo, envolvendo todos os segmentos da comunidade escolar, na busca por uma concepção filosófica que orienta o pensamento de um determinado grupo, visando a descoberta sobre a identidade da escola. Segundo a autora, o documento deve conter: • Fundamentos teórico-metodológicos. • Objetivos. • Organização da escola. • Filosofia e princípios didático-pedagógicos. • Encaminhamentos metodológicos. U4 - A organização do trabalho pedagógico: planejamento e propostas para a educação infantil 147 • Processos de avaliação, classificação e promoção. • Regime e calendário escolar. • Condições físicas e materiais. • Contexto social, entre outras informações. Estes pontos podem ser utilizados tanto na educação infantil, quanto nas outras etapas da educação básica. Vale lembrar, entretanto, que o item classificação e promoção não costuma ser utilizado na educação infantil, já que as crianças que frequentam essa etapa, não ficam retidas numa determinada turma, por exemplo, de acordo com o seu baixo nível de desempenho. Além de contar com os tópicos apresentados, o Projeto Político- Pedagógico estimula a observação e a avaliação constantes sobre a eficácia das propostas realizadas e a retomada das ações previstas diante das análises realizadas. Ele não deve ser apenas produzido e arquivado, ele precisa ser retomado constantemente, sendo reformulado de acordo com as necessidades de cada instituição. Entre os desafios da elaboração desse tipo de projeto, podemos destacar a participação efetiva de toda a comunidade escolar e a satisfação dos membros envolvidos nesse processo. Para saber mais Acesse o link a seguir e conheça a publicação produzida pelo Departamento de Políticas de educação infantil e ensino fundamental, vinculado à Secretaria de Educação Básica do Ministério da Educação, cujo título é “Indagações sobre currículo: diversidade e currículo”, organizado por Jeanete Beauchamp, Sandra Denise Pagel e Aricélia Ribeiro do Nascimento. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/Ensfund/ indag4.pdf>. Acesso em: 25 mar. 2017. Questão para reflexão Quais são as dificuldades encontradas na elaboração de um currículo articulado, de fato, com a identidade da escola? Que tipo de informações estão contidas no projeto pedagógico das instituições escolares? U4 - A organização do trabalho pedagógico: planejamento e propostas para a educação infantil148 2.2 Observação, registro e avaliação A avaliação faz parte das nossas vidas. As análises que realizamos em diferentes situações pessoais, os comentários sobre a melhora na aparência de um amigo ou o crescimento profissional de um familiar podem ser consideradas como um tipo de avaliação. Não são avaliações tradicionais, mas diagnosticam mudanças. Não avaliamos apenas o resultado final, mas sim todo o processo percorrido ao longo de um determinado tempo. As práticas avaliativas que costumam ser desenvolvidas no ambiente escolar contam com práticas de observação, atividades individuais e em grupo, testes, provas dissertativas, provas com questões objetivas, provas orais, tarefas, discussões, conversas,entre outros instrumentos de avaliação. De acordo com Libâneo (2013, p. 216), “a avaliação escolar é uma tarefa didática necessária e permanente do trabalho docente, que deve acompanhar passo a passo o processo de ensino e aprendizagem”. A citação demonstra que a avaliação se refere a um processo contínuo e não apenas a uma verificação sobre os conhecimentos que foram ou não adquiridos de acordo com a temática estudada. A avaliação a ser desenvolvida no contexto da educação infantil deve basear-se nas observações e nos registros (BRASIL, 1998). Por meio dessas práticas, o professor pode registrar as descobertas, os avanços e as dificuldades das crianças. As DCNEI (BRASIL, 2010) também apresentam orientações sobre o processo avaliativo nas instituições de educação infantil. De acordo com o documento, a avaliação deve considerar o modo como as atividades propostas foram vivenciadas, as interações oportunizadas, o material oferecido e o espaço e o tempo disponibilizados. De acordo com Oliveira (2010), o documento orienta que a avaliação deve se basear na observação sistemática dos comportamentos de cada criança nas brincadeiras e interações vivenciadas e na utilização Questão para reflexão É possível realizar avaliações na educação infantil? No entanto, as crianças ainda não sabem ler e escrever. Como avaliar nessa idade? U4 - A organização do trabalho pedagógico: planejamento e propostas para a educação infantil 149 de múltiplos registros feito ao longo de um determinado período, como relatórios, fotografias, desenhos, entre outros. Segundo Cartaxo (2013, p. 49), “a concepção de avaliação na Educação Infantil é definida como o objetivo de diagnosticar e acompanhar, sem promoção ou retenção”. É fundamental que o adulto respeite o tempo de cada criança, evite comparações excessivas entre uma e outra, estimule novas conquistas, console suas tentativas frustradas e elogie seus avanços, contribuindo, assim, com o desenvolvimento de sua segurança e autonomia. Rau (2012) destaca a utilização da ludicidade na identificação sobre o que a criança sabe, como ela aprende e o que pode ser potencializado na construção do conhecimento e chama a atenção sobre a importância de conhecimentos ligados a outras áreas, como a Psicologia, a Filosofia e a Sociologia, como conhecimentos necessários na observação e análise dos momentos de brincadeira, vivenciados pelas crianças. A autora afirma ainda que as crianças necessitam ver, tocar e manipular objetos variados na educação infantil, que o brincar é uma atividade imprescindível para o desenvolvimento e a aprendizagem da criança e que esses aspectos precisam ser levados em consideração no processo de avaliação a ser realizado com essa faixa etária. De acordo com Hoffmann (2005), o registro sobre o desenvolvimento das crianças não pode ser elaborado somente em datas bimestrais ou semestrais, mas deve resultar de anotações frequentes, sobre o cotidiano de cada criança. As anotações do professor precisam contemplar suas estratégias de raciocínio na resolução de problemas, o modo de agir em sala de aula, os comentários e as perguntas realizadas, entre outros aspectos importantes para o desenvolvimento dos alunos. Entre os instrumentos de avaliação adequados à educação infantil, podemos destacar a observação, o relatório, as fichas de avaliação e o portfólio. Segundo Barbosa (2004), a observação refere-se ao olhar atento sobre os momentos em que as crianças estão em ação. O modo como ela compreende a atividade proposta, as interações que ela realiza com os objetos, os professores e as outras crianças, o modo como se expressa, desenvolve a narrativa, relaciona-se com a fantasia, cria, ou seja, existem vários fatores que podem ser levados em consideração nos momentos de observação. A produção de relatórios também é uma prática sugerida pela U4 - A organização do trabalho pedagógico: planejamento e propostas para a educação infantil150 autora. As informações registradas permitem que a família tenha acesso às informações relativas às experiências e ao desenvolvimento das crianças. Esses registros podem favorecer o conhecimento sobre as necessidades da criança e estimular um trabalho colaborativo entre a família e o ambiente escolar. No entanto, como lembrar de todas as situações vivenciadas no cotidiano? Como podemos acompanhar o desenvolvimento individual das crianças? Kramer (2003) sugere a utilização de um caderno de observação da turma, em que o professor possa registrar acontecimentos, mudanças, conquistas e interpretações gerais da turma ou relacionadas à cada criança. As fichas de avaliação referem- se a tabelas e/ou quadros com questões objetivas, sem muito espaço para relatos discursivos. Essas fichas devem ser associadas a outros instrumentos de avaliação, enriquecendo ainda mais o processo de avaliação das crianças. O portfólio também é muito utilizado na educação infantil. Trata- se de um conjunto de atividades desenvolvidas pela criança durante um determinado período, que oportuniza a observação sobre as atividades realizadas. De acordo com Hoffmann (2005, p. 133), trata-se da “organização de uma coletânea de registros sobre aprendizagens do aluno que favoreçam ao professor, aos próprios alunos e às famílias uma visão evolutiva do processo”. Os alunos podem participar ativamente da produção desse material, selecionando junto ao professor, as atividades realizadas, organizando-as para que elas sejam manipuladas com facilidade. O portfólio deve conter os dados pessoais da criança, descrever as áreas de competência, evidenciar os processos de aprendizagem, apresentar registros audiovisuais, ilustrações, comentários ou qualquer outra informação que o professor julgar como adequada ao material. Vale destacar ainda a utilização de portfólios digitais nas instituições de educação infantil nos últimos anos. Embora trate-se de uma prática relativamente usual, de acordo com Teixeira, Voos e Gomes (2016), faz-se necessário desenvolver ações de conscientização e incentivo à utilização dos recursos digitais na elaboração dos portfólios. Essas ações favorecerão o contato e a articulação dos meios tecnológicos com a prática docente, contribuindo para que novas formas de avaliar sejam organizadas pelo professor em sua prática pedagógica e que elas possam contribuir com o desenvolvimento das crianças atendidas. U4 - A organização do trabalho pedagógico: planejamento e propostas para a educação infantil 151 Para saber mais Assista ao vídeo Reflexões sobre a Avaliação na Educação Infantil. A professora Jussara Hoffmann apresenta o acompanhamento do desempenho das crianças de 0 a 6 anos como um processo constante de avaliação. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=x6XnX6paLQA>. Acesso em: 26 mar. 2017. Questão para reflexão Como futuro pedagogo, você precisará explicar como o processo de avaliação ocorre na Educação Infantil tanto para os pais das crianças atendidas, quantos para os professores e demais membros da comunidade escolar. Quais critérios você classificaria como relevantes quando indagado sobre esse assunto? 2.3 Finalizando a seção Discutimos ao longo da seção que o currículo escolar não é mais visto apenas como uma organização sobre os conteúdos que devem ser ministrados, mas sim como um documento de construção coletiva que revela a intenção educativa da escola e os valores que nortearão as ações vinculadas à prática pedagógica. Estudamos ainda as características do Projeto Político-Pedagógico e verificamos que ele apresenta os pressupostos que norteiam e justificam o trabalho a ser desenvolvido, sendo construído de modo coletivo entre a comunidade escolar. Ao analisar as práticas avaliativas presentes na educação infantil, destacamos a observação e o registro como os principais instrumentos que o professor dispõe para apoiar sua ação e que esses registros costumam ser realizados por meio de relatórios, fichas de avaliação eportfólios. U4 - A organização do trabalho pedagógico: planejamento e propostas para a educação infantil152 1. A visão sobre o currículo escolar foi sendo modificada ao longo dos tempos. O profissional que atua em instituições escolares precisa conhecer as informações presentes nesse tipo de documento. Leia as afirmativas com atenção e assinale aquela que estiver correta. a) O currículo se refere, de modo exclusivo, à organização sobre os conteúdos que serão estudados por cada turma, considerando os temas de preferência dos professores e alunos. b) O currículo é um documento que desconsidera os conhecimentos ligados ao mundo do trabalho e à cultura, bem como a assuntos burocráticos e administrativos, pois está voltado à aprendizagem. c) O currículo é um documento que trata sobre a organização dos conteúdos a serem abordados, mas envolve também assuntos administrativos, ideias pedagógicas, concepções metodológicas, entre outros aspectos relevantes para a área. d) O currículo é uma construção social individualizada que revela os conteúdos a serem abordados com cada faixa etária e os dados relacionamentos à retenção anual de alunos. e) O currículo é um documento que apresenta informações sobre os avanços e as dificuldades de aprendizagem de cada aluno, considerando as diversidades biológicas, culturais, éticas e políticas dos indivíduos. 2. Embora assuma características e considerações específicas, a avaliação também pode ser realizada na educação infantil. Que tipo de instrumentos de avaliação são considerados como adequados para essa faixa etária? Atividades de aprendizagem U4 - A organização do trabalho pedagógico: planejamento e propostas para a educação infantil 153 Seção 3 Formação de professores Introdução à seção Nesta seção, refletiremos sobre os saberes docentes presentes na prática pedagógica, a importância da formação inicial e continuada para a atuação dos professores que atuam nas instituições de educação infantil e conheceremos as características dos projetos e das situações de interação ou aprendizagem. 3.1 Saberes docentes A prática docente não tem um caráter objetivo, ou seja, não há uma fórmula exata a ser seguida que garanta o sucesso almejado no ambiente escolar. O processo de ensino e aprendizagem é permeado por experiências vivenciadas por indivíduos que têm características, objetivos, modos de aprender e preferências distintas, logo, assume um caráter subjetivo, de acordo com o olhar de cada um ou instituição de ensino. Tanto a formação inicial dos professores, oportunizada pelos cursos de graduação acadêmica, quanto a formação continuada, que envolve outras formas de aprendizagem e atualização profissional, como cursos de pós-graduação, mestrado e doutorado, além de cursos livres e a própria experiência profissional, devem oportunizar reflexões distintas sobre a profissão docente e as atribuições desse ofício. De acordo com Palma, Palma e Cesário (2007), tornar-se professor é um processo complexo, dinâmico, evolutivo que compreende etapas e aprendizagens distintas. Entre os estudos relacionados à formação dos professores e os saberes docentes destacamos as pesquisas de Maurice Tardif (2012). Questão para reflexão Como tornar-se professor? Que tipo de saberes são relevantes na formação inicial e continuada dos profissionais que atuarão em sala de aula? U4 - A organização do trabalho pedagógico: planejamento e propostas para a educação infantil154 De acordo com o autor, o saber dos professores é "um saber plural, formado pelo amálgama, mais ou menos coerente, de saberes oriundos da formação profissional e de saberes disciplinares, curriculares e experienciais" (TARDIF, 2012, p. 36). • Saberes profissionais: transmitidos pelas instituições de ensino. • Saberes disciplinares: organizados pelos diferentes campos do conhecimento (língua portuguesa, matemática, artes etc.). • Saberes curriculares: relacionados à aprendizagem e à aplicação dos conteúdos propostos. • Saberes experienciais: saberes obtidos na vivência dos professores no exercício de seu trabalho. Esses saberes são relacionados com a identidade pessoal e profissional dos professores e, quando articulados, oportunizam vivências significativas que estimulam a construção de novos conhecimentos. Os estudos de Tardif (2012) defendem a necessidade de se conhecer mais sobre os saberes que permeiam a prática pedagógica e apresentam os saberes dos professores como: [...] um processo em construção ao longo de uma carreira profissional, na qual o professor aprende progressivamente a dominar seu ambiente de trabalho, ao mesmo tempo em que se insere nele e o interioriza por meio de regras de ação que se tornam parte integrante de sua consciência prática (TARDIF, 2012, p. 14). Ao se referir sobre a formação desses profissionais, Nóvoa (1999) destaca que ela deve propiciar o desenvolvimento pessoal, profissional e organizacional dos professores, almejando a construção de uma perspectiva crítico-reflexiva. É necessário que os futuros professores tenham condições de analisar sua realidade social, assumam uma postura crítica e contribuam no desenvolvimento da autonomia dos seus alunos. Entretanto, como alguém se torna professor? De que maneira os estudantes iniciam a sua prática pedagógica? Na maioria das vezes, o primeiro contato dos estudantes com as práticas em sala de aula acontece por meio da observação. Os estagiários observam U4 - A organização do trabalho pedagógico: planejamento e propostas para a educação infantil 155 as intervenções nas aulas ministradas por profissionais ou outros colegas mais experientes e começam a prestar atenção em pequenos detalhes que inicialmente passavam despercebidos. Os cursos livres, cursos de extensão e os projetos de pesquisa, realizados ao longo da graduação, também podem despertar o interesse dos alunos pelo estudo sobre a profissão docente, contribuir com o conhecimento teórico sobre uma determinada modalidade da educação e favorecer experiências distintas que poderão ser compartilhadas com os professores e os colegas de curso. Gradualmente, os estagiários começam a articular a teoria estudada com as situações reais, encontradas em sala de aula e quando percebem que em alguns momentos as orientações teóricas recebidas não são suficientes para ministrar as aulas de modo eficiente, tranquilo e atrativo, de acordo com o seu julgamento, eles se frustram. Esses momentos de frustração também são importantes para a formação desses futuros profissionais, pois podem indicar ou não, o interesse e a motivação real pela continuação dos estudos na área. Vemos, portanto, que o estágio é uma prática extremamente relevante para o processo de formação dos futuros professores. Trata-se de um espaço que oportuniza situações reais, que serão vivenciadas em sala de aula, mas que contam com o auxílio de outros colegas e profissionais. Esse acompanhamento é favorável para a familiarização com o ambiente em questão e o desenvolvimento da segurança e autonomia dos estagiários. De acordo com Ostetto (2008, p. 128), a formação do professor envolve muito mais que uma racionalidade teórico-técnica, marcada por aprendizagens conceituais e procedimentos metodológicos. Ela oportuniza o conhecimento para si mesmo, para que os indivíduos possam descobrir-se e, em seguida, tenham a oportunidade de descobrirem o outro. Moreno (2002) afirma que o professor que atua na Educação Infantil deve acreditar na potencialidade e na capacidade de autonomia das crianças e que seus saberes e práticas precisam ser permeados de afeto. Esse profissional precisa ser paciente, ter conhecimento sobre as características de cada faixa etária, aliar o cuidar e o educar nas diferentes situações cotidianas, assumindo uma postura lúdica flexível e afetiva, além de ter um bom diálogo com a família das crianças. U4 - A organização do trabalho pedagógico: planejamento e propostas para a educação infantil156 O conhecimentosobre os saberes docentes favorecem a compreensão sobre pontos que precisam ser refletidos, associados e assimilados pelos estagiários para que possam reconhecer informações e situações relevantes para a sua formação. De acordo com Proscêncio (2010), a escola também deve se preocupar com a continuidade na formação de seus profissionais, procurando propiciar vivências variadas que possam sensibilizar os professores, extraindo deles conhecimentos e valores que serão repassados aos seus alunos. Segundo a autora, as reuniões pedagógicas também contribuem com a partilha sobre seus anseios, seus questionamentos e suas experiências. Além das reuniões pedagógicas, as escolas devem oportunizar ainda a participação dos professores em cursos, palestras e outras estratégias que possam motivar os professores frente ao trabalho a ser realizado, atualizando-os sobre conceitos, autores, fundamentações teóricas e metodologias atualizadas. Esse cuidado com a formação inicial e continuada contribuirá de modo significativo com o trabalho a ser desenvolvido em sala de aula, contribuindo também com o desenvolvimento e o bem-estar da criança e com a satisfação dos professores sobre o trabalho realizado. Desse modo, observamos que a formação de professores, aliada aos investimentos em materiais e infraestrutura é fundamental para o desenvolvimento da educação. 3.2 Projetos e situações de aprendizagem Existem inúmeras propostas de trabalho que podem ser desenvolvidas na educação infantil. Não há uma sequência predeterminada, a seguir com rigor, afinal de contas, cada grupo vivencia experiências distintas e, por isso, o que existe são orientações que devem ser organizadas de acordo com a realidade ou a necessidade de cada um. Você conhece a pedagogia de projetos? Tem ideia de como eles acontecem? Quais temáticas costumam ser abordadas na educação infantil? Há um tempo padrão para cada projeto? Que experiências são esperadas no desenvolvimento desse tipo de trabalho? Já ouviu falar sobre situações orientadas ou situações de aprendizagem? Sabe do que se trata? Vamos conhecer melhor esses assuntos? U4 - A organização do trabalho pedagógico: planejamento e propostas para a educação infantil 157 O projeto se refere a um conjunto de ações e atividades a serem vivenciados de acordo com um determinado tema. Ele aponta alguns caminhos que podem ser seguidos, mas de acordo com os interesses, as dúvidas e as experiências realizadas, podem tomar um caminho diferente daquele que foi pensado inicialmente. Segundo Dewey (1967), o método de projetos foi denominado, posteriormente, de pedagogia de projetos, tornando-se conhecido no país a partir de um movimento chamado “Escola Nova”. Os fundamentos dessas propostas foram disseminados pelo Brasil por Anísio Teixeira e Lourenço (DUARTE, 1971). Entre as características da pedagogia de projetos, podemos citar o trabalho em grupo, a pesquisa, a descoberta, as interações, a mediação do professor, as reconstruções sobre determinados conhecimentos e a reflexão sobre situações reais, encontradas no cotidiano dos alunos. Silva e Tavares (2010) afirmam que a pedagogia de projetos propõe mudanças na postura pedagógica, oportunizando um jeito novo de aprender, por meio da interação e do envolvimento dos alunos com as experiências educativas nos momentos de resolução de situações- problemas, colaborando também com a formação dos alunos como seres autônomos, conscientes, reflexivos, participativos e felizes. Fonte: <https://pixabay.com/pt/escola-prim%C3%A1ria-projetos-de-arte-1332472/>. Acesso em: 27 mar. 2017. Figura 4.1 | Pedagogia de projetos De acordo com o RCNEI (BRASIL, 1998), para que os projetos possam alcançar um diálogo e debate constante, é preciso ter professores que estejam comprometidos com a prática educacional. U4 - A organização do trabalho pedagógico: planejamento e propostas para a educação infantil158 O profissional que se utiliza da pedagogia de projetos deve mostrar- se aberto ao novo, instigando constantemente a curiosidade das crianças pelo tema proposto. Segundo Ostetto (2000), não existe um modelo fixo para a realização de um projeto, mas caminhos possíveis. A autora apresenta ainda sete pontos básicos que precisam ser definidos na realização de um projeto. 1. Nome do projeto. 2. Justificativa do projeto (Por que ele é importante e deve ser desenvolvido?). 3. Qual é o objetivo geral (O que se espera alcançar?)? 4. Que assuntos serão abordados e que atividades serão desenvolvidas? 5. O projeto está baseado em que fundamentação teórica? 6. Quais são os recursos a serem utilizados? 7. Qual é o tempo de duração do projeto? As situações-problemas encontradas no decorrer do projeto são relevantes no desenvolvimento da curiosidade e do interesse das crianças. A mediação do professor é fundamental nesse processo. As perguntas realizadas pelo professor, os materiais disponibilizados e as experiências propostas oportunizam um novo olhar diante dos temas abordados. Segundo Barbosa e Horn (2008), os projetos devem articular e estabelecer relações compreensivas que possibilitem novas convergências geradoras. Barbosa e Horn (2008) apontam a necessidade de levantamento de possíveis “problemas” que possam relacionar-se ao universo das crianças de 0 a 3 anos. Apresentamos a seguir alguns deles: • Como ampliar o contato social entre crianças menores e maiores? • Como estimular a construção de vínculo entre os bebês da mesma sala? • Como desenvolver a linguagem das crianças? • Como explorar o espaço interno e externo com os bebês? U4 - A organização do trabalho pedagógico: planejamento e propostas para a educação infantil 159 • Como os bebês lidam com diferentes obstáculos na sala? • Como utilizar a música no trabalho com bebês? • Como explorar os diferentes sentidos com as crianças pequenas? • Como ensinar às crianças pequenas o que é quente, gelado, mole, duro, grande, pequeno, alto, baixo etc.? • Como explorar formas, cores e texturas? • O teatro pode ser trabalhado com crianças de 0 a 3 anos? Como? • Como trabalhar o movimento com crianças de 0 a 3 anos? As autoras apresentam também algumas sugestões de “problemas” interessantes e desafiadores para as crianças de 4 a 6 anos: • Como explicar o funcionamento do sistema solar? • Como são “feitos” os bebês? Como eles nascem? • Como as plantas nascem, crescem e morrem? • Como podemos reciclar papéis? • Como a lagarta se transforma em borboleta? É fundamental ter a clareza de que nem tudo precisa estar articulado com o projeto. Ele não deve ocupar todo o tempo que a criança fica na escola e nem mesmo precisa ser trabalhado todos os dias (OSTETTO, 2000, p. 117). Esse cuidado é importante para que os alunos não fiquem saturados ou desmotivados com o tema abordado. Fonte: <https://pixabay.com/pt/leitura-para-leitura-1710011/>. Acesso em: 27 mar. 2017. Figura 4.2 | Interações U4 - A organização do trabalho pedagógico: planejamento e propostas para a educação infantil160 Vale lembrar que provavelmente haverá um revezamento sobre o interesse e a participação das crianças ao longo do projeto e que essa situação não deve ser vista como algo negativo, ao contrário, significa que cada um, a seu tempo, irá relacionar- se com o projeto, por meio de associações, participações e interações variadas e que essas experiências contribuirão com a sua aprendizagem e seu desenvolvimento. Barbosa (2002) afirma que para que o trabalho com projetos seja realizado de modo adequado, é necessário que o educador esteja sempre atento aos caminhos vivenciados pelo grupo, descubra o que os alunos sabem sobre o assunto tratado, não se considere como o único ou principal informante, interrogue-se sobre ações que possibilitem um clima democrático e participativo e organize os espaços e tempos de acordo com o tema e os objetivos propostos, entre outros aspectos. A abordagem baseada em situações de aprendizagem ou situações orientadastambém são muito utilizadas na educação infantil. De acordo com Junqueira Filho (2014), a situação de aprendizagem é o instrumento, a circunstância, a oportunidade elaborada pelo professor para favorecer aos alunos situações que propiciem interações junto a objetos de conhecimento-linguagem. Segundo o RCNEI (BRASIL, 1998), a organização de situações de aprendizagens orientadas deve estar baseada não apenas nas propostas dos professores, mas, essencialmente, na escuta das crianças e na compreensão do papel que desempenham, ou seja, na experimentação e no erro nos momentos de construção do conhecimento. O documento orienta ainda que essas situações ampliem nas crianças a capacidade de apropriação dos conceitos, dos códigos sociais e das diferentes linguagens, por meio da expressão e comunicação de sentimentos e ideias, da reflexão, da elaboração de perguntas e respostas, entre outros benefícios. Essa abordagem deve considerar ainda as diferenças de hábitos, crenças, etnias ou outros contrastes existentes. Além do conhecimento adquirido, as interações realizadas oportunizam momentos lúdicos e atrativos para as crianças. Cabe ao professor: U4 - A organização do trabalho pedagógico: planejamento e propostas para a educação infantil 161 [...] propiciar situações de conversa, brincadeiras ou de aprendizagens orientadas que garantam a troca entre as crianças, de forma que possam comunicar-se e expressar-se, demonstrando seus modos de agir, de pensar e de sentir, em um ambiente acolhedor e que propicie a confiança e a autoestima. (BRASIL, 1998, p. 31) De acordo com o RCNEI (BRASIL,1998), as situações de aprendizagem devem considerar as capacidades afetivas, emocionais, sociais e cognitivas das crianças, considerando suas particularidades. Os conhecimentos prévios também precisam ser considerados, valorizando o saber de cada criança. O professor tem um papel fundamental nesse processo. As ações planejadas e oportunizadas por ele contribuem de modo significativo com o interesse, a participação e o desenvolvimento dos alunos. Para saber mais Amplie seu conhecimento sobre as situações de aprendizagens lendo o livro Linguagens Geradoras, de Gabriel de Andrade Junqueira Filho, da Editora Mediação. O autor aborda a temática com uma linguagem clara e objetiva. Questão para reflexão Qual a diferença entre as atividades livres, realizadas em sala de referência e as situações de aprendizagem, oportunizadas pelo professor? 3.3 Finalizando a seção Finalizamos esta seção após refletirmos sobre os saberes que fundamentam o trabalho do professor, oportunizando o desenvolvimento da profissão e a importância da formação inicial e continuada, que assim como outros aspectos, são fundamentais para o bom andamento da prática pedagógica. Descobrimos que existem projetos e situações de aprendizagem que podem ser oportunizadas aos alunos para U4 - A organização do trabalho pedagógico: planejamento e propostas para a educação infantil162 instigar a curiosidade e prazer em aprender, utilizando-se de fundamentação e estratégias apropriadas. O conhecimento sobre as informações apresentadas favorece a continuação dos estudos sobre os temas abordados e possibilitam novas reflexões que podem culminar em outras estratégias e aprendizagens. Atividades de aprendizagem 1. Existem vários aspectos relevantes para a formação do professor, cada um deles contribui, de modo significativo, com a fluência da ação pedagógica a ser realizada. Explique a diferença entre a formação inicial e a formação continuada do professor. 2. Segundo Dewey (1967), o método de projetos foi denominado posteriormente de pedagogia de projetos, tornando-se conhecido no país a partir de um movimento chamado “Escola Nova”. Explique as principais características desse tipo de projeto. Fonte: DEWEY, Jonh. Vida e educação. Tradução de Anísio S. Teixeira. 6. ed. São Paulo: Melhoramentos, 1967. Fique ligado Nesta unidade, você teve a oportunidade de conhecer os princípios do planejamento e os elementos que constituem um plano de aula. Independente do campo de atuação que você escolher, os conhecimentos serão relevantes para a execução do seu trabalho. A reflexão sobre o modo de avaliar as crianças na educação infantil também impedirá que você seja um professor que utilize metodologias inadequadas para a faixa etária. Você terá a oportunidade de incentivar a descoberta e as interações por meio de projetos e situações de aprendizagens variadas, que contribuam com uma aprendizagem significativa. A compreensão sobre os temas apresentados contribuirá com a sua formação inicial e continuada, já que você deve ter percebido que o educador precisa atualizar-se constantemente, ampliando seu conhecimento sobre temas, autores e metodologias a serem utilizadas. U4 - A organização do trabalho pedagógico: planejamento e propostas para a educação infantil 163 Consulte as informações e os documentos apresentados quando necessário, reflita sobre as indagações realizadas, assista aos vídeos disponibilizados e responda às questões contidas na unidade. Cada uma dessas ações contribuirá com o desenvolvimento de habilidades e competências distintas, que favorecerão, uma formação consistente, que contribua, de fato, com o trabalho a ser desenvolvido na educação infantil. Para concluir o estudo da unidade Estudamos, nesta unidade, aspectos relevantes para a compreensão sobre a importância do planejamento, sua estrutura e fundamentação no trabalho com a educação infantil. Analisamos os aspectos presentes no currículo e no Projeto Político-Pedagógico da escola, conhecemos alguns documentos e analisamos a importância de ampliar possibilidades para avaliar o trabalho desenvolvido com essa faixa etária. A importância da formação de professores e dos saberes docentes que constituem essa profissão também foram abordados. Verificamos que, de acordo com Tardif (2012), o saber docente é constituído por um saber plural, formado por saberes oriundos da formação profissional, de saberes disciplinares, curriculares e experienciais. Analisamos também as principais características dos projetos e das situações de interação ou aprendizagem e o modo como eles podem ser propostos na educação infantil, considerando as características de cada faixa etária e o tempo de maturação das crianças. Atividades de aprendizagem da unidade 1. De acordo com Haydt (2003), o planejamento visa “atingir os objetivos propostos, superar dificuldades e controlar a improvisação” (HAYDT, 2003, p. 105). Os elementos presentes no planejamento escolar são: objetivos, conteúdos, metodologia, recursos e avaliação. Leia as afirmações a seguir e assinale a alternativa correta sobre um dos elementos apresentados. a) Os objetivos indicam o lugar no qual se pretende chegar ao final do processo de ensino e são apresentados utilizando-se verbos. U4 - A organização do trabalho pedagógico: planejamento e propostas para a educação infantil164 b) Os conteúdos indicam o lugar no qual se pretende chegar ao final do processo de ensino e são apresentados utilizando-se verbos. c) A metodologia são os temas e os assuntos que serão tratados durante as aulas, com a intenção de ampliar o conhecimento do aluno. d) Os recursos são os temas e os assuntos que serão tratados durante as aulas, com a intenção de ampliar o conhecimento do aluno. e) A avaliação é o modo como os temas e os conteúdos a serem tratados serão abordados em sala de aula. 2. A escolha sobre a metodologia a ser utilizada pelo professor tem grande importância no processo de ensino e aprendizagem. Observamos que os conteúdos podem ser classificados em conteúdos conceituais, procedimentais e atitudinais. Leia a afirmação apresentada a seguir e assinale a alternativa que apresente as palavras que completam corretamente a frase. Os conteúdos __________________ tratam de valores, das normas e das atitudes envoltas a determinadas abordagens, contribuindo, portanto,na socialização da criança. Os conteúdos __________________ referem- se aos símbolos, às ideias, às imagens e às representações que permitem atribuir sentido à realidade. Os conteúdos ___________________ referem-se ao saber fazer e estabelecem caminhos que possibilitam a realização de determinadas ações. a) Conceituais, procedimentais e atitudinais. b) Conceituais, atitudinais e procedimentais. c) Procedimentais, conceituais e atitudinais. d) Procedimentais, atitudinais e conceituais. e) Atitudinais, conceituais e procedimentais. 3. Teixeira, Voos e Gomes (2016) apresentam a necessidade de desenvolver ações de conscientização e incentivo à utilização dos recursos digitais na elaboração dos portfólios. Qual das alternativas a seguir apresenta a definição correta para portfólio? a) O portfólio é uma avaliação oral que permite à criança realizar comentários sobre os conteúdos que foram mais significativos no seu ponto de vista. b) O portfólio se refere a uma coletânea dos registros sobre as aprendizagens vivenciadas pelos alunos em um determinado período. c) O portfólio é um documento que compara o desempenho das crianças, verificando se elas alcançaram os mesmos níveis de aprendizagem. U4 - A organização do trabalho pedagógico: planejamento e propostas para a educação infantil 165 d) O portfólio é uma técnica de observação capaz de verificar os conteúdos que foram assimilados ou não pelos alunos durante todo o processo de ensino e aprendizagem. e) O portfólio é um estudo sobre as relações entre as linguagens, as atividades produzidas e a personalidade da criança. 4. Os projetos desenvolvidos na educação infantil devem conter um nome que apresente o assunto a ser tratado, uma justificativa, explicando a importância do tema em questão, além de objetivos, assuntos relacionados ao tema, fundamentação teórica e tempo de duração do projeto. Leia as afirmativas sobre a pedagogia de projetos apresentadas a seguir, escreva V para as afirmações verdadeiras e F para as falsas e assinale a alternativa correta: ( ) O projeto apresenta um caminho único a ser seguido pelos professores e alunos. ( ) Entre as características dos projetos, podemos citar o trabalho em grupo, a pesquisa, as interações e a mediação do professor. ( ) A pedagogia de projetos propõe mudanças na postura pedagógica, oportunizando um jeito novo de aprender, por meio da interação e do envolvimento dos alunos. ( ) As situações-problemas encontradas no decorrer do projeto são relevantes no desenvolvimento da curiosidade e do interesse das crianças. A sequência correta é: a) V, V, V, F. b) V, F, V, V. c) F, V, V, V. d) F, F, V, V. e) F, V, F, F. 5. De acordo com o RCNEI (BRASIL, 1998), as situações de aprendizagem devem considerar as capacidades afetivas, emocionais, sociais e cognitivas das crianças, considerando suas particularidades. Qual das alternativas a seguir apresenta a explicação correta sobre o que é uma situação de aprendizagem? Fonte: BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Referencial curricular nacional para a Educação Infantil. Brasília: MEC/SEF, 1998. U4 - A organização do trabalho pedagógico: planejamento e propostas para a educação infantil166 a) A situação de aprendizagem se refere às aprendizagens espontâneas e individualizadas das crianças, oportunizadas pelo acaso, sem qualquer pretensão ou objetivo. b) A situação de aprendizagem é uma metodologia de aprendizagem coletiva, na qual a criança precisa aprender por meio de informações teóricas e situações que propiciem interações. c) A situação de aprendizagem é uma abordagem que busca um único modo de aprender, independente das características das crianças, já que todos aprendem do mesmo modo. d) A situação de aprendizagem se refere à circunstância elaborada pelo professor para favorecer aos alunos situações que propiciem interações junto a objetos de conhecimento-linguagem. e) A situação de aprendizagem é uma ferramenta de avaliação que analisa o modo como um determinado trabalho foi realizado, seguido do planejamento de novas ações vinculadas à aprendizagem. U4 - A organização do trabalho pedagógico: planejamento e propostas para a educação infantil 167 Referências BARBOSA, M. C. S. O acompanhamento das aprendizagens e a avaliação. Revista Pátio Educação Infantil, Ano II, n. 4. abr./jul., 2004. ______. Por uma pedagogia de projetos na escola infantil. In: DALA ZEN, M. I. H.; XAVIER, M. L. M. (Org.). Planejamento em destaque: análises menos convencionais. Porto Alegre: Mediação, 2002. BARBOSA, M. C. S.; HORN, M. da G. S. Projetos pedagógicos na Educação Infantil. Porto Alegre: Artmed, 2008. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. Brasília: MEC/SEB, 2010. Disponível em: <http:// portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=9769- diretrizescurriculares-2012&category_slug=janeiro-2012-pdf&Itemid=30192>. Acesso em: 12 abr. 2017. ______. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. 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