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RESUMO – INTERTEXTUALIDADE: DIÁLOGOS POSSÍVEIS A intertextualidade stricto sensu é caracterizada pela inserção de um texto em outro texto existente, que faz parte da memória social, ora, da memória discursiva dos interlocutores. Contudo, vale ressaltar que qualquer retextualização de um texto prévio requer uma alteração em sua força ilocucionária, assim como, em seu efeito perlocucionário. Além disso, diversas formas de intertextualidade tem sido relacionadas, cada qual com características próprias. Em conformidade com o livro, a intertextualidade temática faz-se presente, por exemplo, entre textos científicos, os quais pertencem a uma mesma área do saber, ou uma corrente de pensamentos, que repartem temas, e se servem de conceitos e terminologia próprias, definidos no interior dessa área ou corrente teórica, entre matérias de jornais e da mídia em geral, em um mesmo dia ou um período estipulado em que dado assunto é considerado focal. A intertextualidade do tipo estilística ocorre, por exemplo, quando o produtor do texto, com objetivos diversificados, repete, imita parodia certos estilos ou variedades linguísticas. É comum essa forma ocorrer em textos que reproduzem a linguagem bíblica, um dialeto, o estilo de um determinado gênero e etc. Oração do Internauta Satélite nosso que estais no céu, acelerado seja o vosso link, venha a nós o vosso host, seja feita a vossa conexão, assim em casa como no trabalho. O download nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai nosso tempo perdido no Chat, assim como nós perdoamos os banners de nossos provedores. Não nos deixeis cair a conexão e livrai-nos do Spam, Amém! (Koch -Bentes – Cavalcante, 2012, p.20) A intertextualidade será determinada como explícita quando, no próprio texto, ocorre a menção à fonte do intertexto, em outras palavras, quando outro texto ou um fragmento é mencionado, atribuído a outro enunciador. Um exemplo desse fator é as citações, referências, menções, resumos, resenhas e traduções. Van Dijk, em sua obra Studies in the Pragmatics of Discourse (1981), escreve: ‘’ O planejamento pragmático de um discurso/conversação requer a atualização mental de um conceito de ato de fala global. É com respeito a esse macroato de fala que ele constrói o propósito da interação: que X quer saber ou fazer algo. Se dissermos de maneira bastante vaga, embora familiar nas ciências sociais, que a ação humana é finalisticamente orientada, estaremos significando que sequências de ações, que […] são realizadas sob o controle efetivo de uma macrointenção ou plano, encaixado numa macrofinalidade, para um ou mais atos globais. Enquanto tal macroposição é a representação das consequências desejadas de uma ação […], a macrointenção ou plano é a representação conceitual do estado final, isto é, do resultado da macroação. Sem um macropropósito e uma macrointenção, seríamos incapazes de decidir qual ato de fala concreto poderia propiciar um estado a partir do qual o resultado pretendido e a meta intencionada poderiam ser alcançados’’. (Koch – Bentes – Cavalcante, 2012, p.30) Diferentemente, a intertextualidade será apontada como implícita quando um texto apresentar a introdução de um intertexto alheio, sem nenhuma menção explícita da fonte, com a finalidade de seguir a orientação argumentativa, ou contraditá-lo, colocando-o em questão, ridicularizando-o ou argumentando-o em sentido contraditório. Segundo Grésillon e Maingueneau (1984), o primeiro fator denomina-se de captação, e o segundo subversão. Neste tipo de intertextualidade, o produtor do texto espera que o leitor/ouvinte seja capaz de identificar a presença do intertexto, através do texto-fonte em sua memória discursiva, caso não ocorra a ação, a construção de sentido estará prejudicada, uma vez que a intertextualidade no valor de subversão é crucial na construção do sentido. Nos casos de captação, segundo Koch – Bentes – Cavalcante (2012), ‘’a reativação do texto primeiro se afigura de relevância, contudo, por se tratar de uma paráfrase, mais ou menos fiel, do sentido original, quanto mais próximo o segundo texto for do texto-fonte, menos é exigida a recuperação deste para que possa compreender o atual’’. (p.31) No entanto, há casos em que tal recuperação é indesejável, esses seriam os casos de plágios. O plágio também enquadra-se na intertextualidade implícita, mas com valor por captação. O produtor espera que o interlocutor não identifique o texto original, uma vez que trata-se de uma cópia camuflada por meio de operações linguísticas, isto é, por substituições de alguns termos, apagamento de algumas partes e entre outros mecanismos. Valor de subversão: (1) O teu cabelo não nega… (2) (Koch- Bentes – Cavalcante, 2012, p.32, 33) Valor de Captação: (1) Hino Nacional Brasileiro ( Joaquim Osório Duque Estrada) […] Do que a terra mais garrida, Teus risonhos, lindos campos têm mais flores, Nossos bosques têm mais vida, Nossa vida, em teu seio, mais amores… […] (2) Canção do Expedicionário […] Por mais terras que eu percorra, Não permita Deus que eu morra Sem que eu volte para lá… Sem que leve por divisa Esse V que simboliza a vitória que virá… (Koch – Bentes – Cavalcante, 2012 , p.39) Na perspectiva de Grésillon e Maingueneau, o détournement consiste em produzir enunciados com marcas linguísticas de uma enunciação proverbial, mas que não pertence ao grupo dos provérbios reconhecidos. O seu intuito é levar o interlocutor a ativar o enunciado original, de forma que venha argumentá-lo, ou ironizá-lo, ridicularizá-lo, contraditá-lo ou orientá-lo para um sentido novo e, diferente do original. Convém ressaltar, que existem casos de intertextualidade implícita sem détournement, ou seja, a partir do texto original, constrói-se um novo texto, o qual é inserido em outro contexto. Substituição de palavras: (1) ‘’Quem vê cara, não vê coração.’’ (2) ’’ Quem vê cara não vê Aids’’. (Veja, 17/2/1988, propaganda do Ministério da Saúde). Supressão: (1) ‘’Para bom entendedor, meia palavra basta.’’ (2) ‘’Para bom entendedor, meia palavra bas.’’ ( Luis Fernando Verissimo, ‘’Mínimas’’) Transposição: (1) ‘’Pense duas vezes antes de agir.’’ (2) ‘’Aja duas vezes antes de pensar.’’ (Chico Buarque, ‘’Bom Conselho’’) (Koch – Bentes – Cavalcante, 2012, pp.48,50,51) As práticas sociais de que participamos determinam a existência de gêneros do discurso, com forma composicional, conteúdo temático, estilo, circunstância de uso e propósito comunicativo próprios. (Bakhtin, 1953; Swales, 1990; 1994: Bhatia, 1997, entre outros). O paradigma de cada gênero, mantêm entre si relações intertextuais em relação a forma composicional, conteúdo temática e ao estilo, permitindo ao falante familiarizado com elas, construir na memória um modelo cognitivo de contexto. Segundo Van Dijk, os modelos cognitivos de contexto possuem os parâmetros relevantes da interação comunicativa, assim como, do contexto social. Estes são responsáveis por definirem a relevância de cada discurso nos vários contextos, a atenção que lhe deve ser dada e a maneira que a informação deve ser processada. A intertextualidade (inter) genérica ou configuração híbrida é denominada como um gênero que exerce a função de outro, revelando a possibilidade de operação e maleabilidade, que dá aos gêneros a capacidade de adaptação e ausência de rigidez. É comum, por exemplo, o uso em fábulas, contos infantis, cartas, assim como, em gêneros de caráter parodístico, irônico ou argumentativo, inclusive em charges políticas. Charge: (1) (2 (Folha de S.Paulo,p.2) (Koch – Bentes – Cavalcante, 2012, p.67) Determina-se a intertextualidade tipológica como o ‘’fato de se poder depreender entre determinadas sequências um conjunto de características comuns em termos de estruturação, seleção lexical, uso de tempos verbais, e outros elementos dêiticos, que permitem reconhecê-las como pertencentes de determinada classe.’’ (Koch – Bentes – Cavalcante,2012,p.76). De acordo Beaugrande e Dressler, é por intermédio da comparação dos textos que se acham expostos os falantes, no ambiente que viveme pela seguinte representação na memória de tais características, que os modelos constroem os modelos mentais tipológicos específicos. As superestruturas mais estudadas são a narrativa, descritiva, injuntiva, expositiva, predicativa, explicativa e argumentativa (stricto sensu). As sequências narrativas apresentam uma sucessão temporal, isto é, há sempre uma situação inicial e uma situação final, entre as quais ocorre alguma modificação. Há o uso de verbos de ação e advérbios, bem como, a presença do discurso relatado (direto, indireto, indireto-livre). A sequência descritiva é caracterizada pela apresentação de propriedades, qualidades, sua situação no espaço e etc. Nesta, predomina-se os verbos de estado, situação e, aqueles que indicam algo. Da mesma forma, destaca-se o uso de articuladores de tipo espacial e situacional. Nas sequências expositivas encontra-se a análise ou síntese de representações conceituais em ordem lógica. Os verbos são os do assunto comentado e os conectores, do tipo lógico. As sequências injuntivas apresentam prescrições de comportamentos ou ações ordenados, tendo como marca os períodos verbais do modo imperativo, infinitivo ou futuro do presente, e articuladores que auxiliam no encadeamento sequencial das ações prescritas. As sequências argumentativas stricto sensu, ‘’apresentam uma ordenação ideológica de argumentos e/ou contra-argumentos. Nelas, predominam-se os elementos modalizadores, verbos introdutores de opinião, operadores argumentativos e etc’’. (Koch-Bentes – Cavalcante, 2012 p.77) No capítulo intitulado “Intertextualidade e polifonia” é abordado sobre a diferença entre elas, a intertextualidade depende de um intertexto enquanto a polifonia possui um conceito mais amplo. O conceito de polifonia foi elaborado por Ducrot (1980, 1934), em seu sentido de origem quer dizer “coro de vozes” termo ligado à música. Portanto, a polifonia pode ser caracterizada como a presença de vários discursos, por diferentes enunciadores, em um dado texto. Para Ducrot existem oito principais índices de polifonia: a negação, pois esta supõe uma frase afirmativa de outro enunciador; marcadores de pressuposição; determinados operadores argumentativos; o futuro do pretérito com valor de metáfora temporal; operadores concessivos; operadores conclusivos; aspas; expressões do tipo “parece que”, “segundo x”, “dizem que”; enfim, todos os índices expostos nos dá a impressão da presença de outros dentro dos discursos. No capítulo cinco “Intertextualidade lato sensu” as autoras abordam a intertextualidade em sentido amplo. Com base na Linguística Antropológica representada por Bauman e Briggs (1995). Essa teoria apresenta as relações entre gênero, intertextualidade e poder social, assumindo que as ligações que podem ser estabelecidas entre os textos não ocorrem apenas por meio de enunciados isolados, mas de modelos gerais e/ou abstratos de produção e recepção de textos/discursos. Neste capítulo as escritoras analisam as estratégias de manipulação utilizadas na intertextualidade genérica tomando como base a canção popular e o rap, a música escolhida para analise foi “Subúrbio” do Chico Buarque, no qual o escritor ao se apropriar /aproximar do gênero musical “rap” mostra a constante interpenetração entre dois gêneros no curso mesmo do processo de produção de um deles (2012, p.82). A segunda estratégia de manipulação apresentada nesse capítulo foi a da intertextualidade tipológica, tomando como base conto popular e estória oral. Chegando a conclusão que: “os diversos recursos de estrutura da narrativa são responsáveis pela própria caracterização e diferenciação dos gêneros em questão e que a mobilização dos recursos tipológicos revela distintas ênfases no trabalho de construção de relações intertextuais”. (2012, p.82). O último capítulo do livro “Intertextualidade- outros olhares aborda os estudos de Gérard Genette, o estudioso denomina os diálogos entre textos como relações de transtextualidade, esta por sua vez é classificada em cinco tipos: intertextualidade restrita, paratextualidade, arquitextualidade, metatextualidade e hipertextualidade. Com isso, são apontados aproximações e distanciamentos presentes na produção desse autor em relação ao conceito de intertextualidade stricto sensu. Por fim as autoras apresentam uma conclusão acerca de todos os temas e “diálogos possíveis” relacionados à intertextualidade. Elas estabeleceram no livro uma diferença entre intertextualidade stracto sensu e lato sensu. A intertextualidade restrita foi repensada para uma nova categorização em intertextualidade temática, estilística, explícita e implícita. Também foram expostas a intertextualidade intergenérica e a intertextualidade tipológica, outro tema levemente abordado foi as relações entre polifonia e intertextualidade. No livro a intertextualidade em sentido amplo foi assumida “como uma categoria possível de ser mobilizada principalmente nas análises dos processos de produção e recepção dos textos/discursos” (2012, p.145). Além disso, foram expostos os conceitos de arquitextualidade, paratextualidade, metatextualidade e hipertextualidade. UNIVERSIDADE PAULISTA Marylane Lima de Oliveira RA: C89DJJ9 Priscilla do Carmo A. da Silva RA: N879BC3 RESUMO DO LIVRO INTERTEXTUALIDADE: DIÁLOGOS POSSÍVEIS Santos 2017 Marylane Lima de Oliveira RA: C89DJJ9 Priscilla do Carmo A. da Silva RA: N879BC3 RESUMO DO LIVRO INTERTEXTUALIDADE: DIÁLOGOS POSSÍVEIS Resumo de prática como componente curricular (PCC) a ser apresentado na disciplina Letras Interdisciplinares, ministrada pela Profª Cynthia Brandão, da Universidade Paulista, no campus Santos-Conselheiro. Santos 2017 Referência: KOCH, Ingedore G. Villaça. BENTES, Anna C. CAVALCANTE, Mônica M. Intertextualidade: diálogos possíveis. 3ª ed. São Paulo: Cortez, 2012.