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1 Conceitos básicos de hematologia Para que possamos dar início aos nossos estudos referentes à hematologia, precisamos, primeiramente, entender o que essa área estuda. Podemos dizer que a hematologia é a ciência responsável por estudar o sangue e seus elementos figurados, os quais chamamos de hemácias, leucócitos e plaquetas, com o objetivo de entender suas principais funções no corpo humano, estudando como e onde são produzidos (os chamados órgãos hematopoiéticos - medula óssea, baço e linfonodos), e, além disso, essa é a área responsável por estudar as anormalidades relacionadas ao sangue, ou seja, as doenças que podem acontecer no sistema sanguíneo. O sangue é produzido na medula óssea e é levado pelos vasos sanguíneos do corpo humano, que funcionam como uma grande rede de distribuição, com a função de transporte de substâncias importantes e imprescindíveis à vida, como oxigênio, nutrientes, hormônios e outros compostos metabólicos. Ele é formado basicamente por uma porção celular e uma porção líquida, a qual chamamos de plasma, compondo 66% do volume total do sangue. Quando vamos ao médico, ou porque estamos sentindo algo estranho ou mesmo para realização de um check-up, o profissional certamente requisitará um exame chamado hemograma, popularmente conhecido como “exame de sangue”. Para compreendermos melhor sobre este exame e o que ele pode inferir sobre nossa saúde, é importante termos conhecimentos sobre alguns conceitos básicos relacionados à hematologia, a qual é um ramo da biologia em que onde as células sanguíneas são estudadas, assim como doenças relacionadas a essas células. De acordo com Zago et al. (2013, p. 3), podemos dizer que a porção celular do sangue é formada por três diferentes tipos de células: os glóbulos vermelhos, eritrócitos ou hemácias; os glóbulos brancos ou leucócitos; e as plaquetas ou trombócitos. Um ponto importante a se destacar é que, em circulação no corpo, os únicos que são células completas (com citoplasma e núcleo) são os leucócitos, pois as plaquetas são consideradas fragmentos citoplasmáticos de células da medula óssea (megacariócitos), e os eritrócitos acabam perdendo seu núcleo antes de entrar na circulação sanguínea. Você sabe como os pesquisadores e estudiosos conseguem diferenciar essas células? É por meio de exames hematológicos e avaliações de esfregaços do sangue periférico que podemos entender de onde vieram, quais as suas funções dentro do corpo, sua morfologia característica e a quantidade dessas células no sangue. 2 Elementos figurados no sangue: glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas Como vimos, o sangue periférico é constituído por três diferentes tipos de linhagens celulares: eritrócitos, leucócitos e plaquetas. 2.1 Glóbulos vermelhos Quando falamos em glóbulos vermelhos, rapidamente temos que lembrar que eles remetem às hemácias, as quais também são chamadas de eritrócitos. Conforme retratado anteriormente, em humanos, elas são células anucleadas (sem núcleo), constituídas apenas por membrana plasmática e citoplasma. Porém, mesmo não possuindo núcleo, essas células são bem complexas e devem ser estudadas com muita atenção, uma vez que são muito importantes para o bom funcionamento do corpo. De acordo com Zago et al. (2013, p. 3), “[...] originam-se na medula óssea pela proliferação e maturação dos eritroblastos, fenômeno chamado eritropoese [...]”. Esse fenômeno de formação de hemácias, conhecido como eritropoese faz com que se mantenha sempre “[...] constante a massa eritrocitária do organismo, indicando que o processo é finamente regulado, sendo a eritropoetina o principal e mais bem conhecido fator de crescimento envolvido [...]”, conforme Zago et al. (2013, p. 3). #PraCegoVer: a imagem mostra a representação de várias hemácias, as quais são células pequenas, circulares, na forma de discos bicôncavos. De acordo com Vivas (2006, p. 286), os eritrócitos são, portanto, células pequenas, as quais possuem formato circulares, mas que acabam parecendo discos bicôncavos, com aproximadamente 7,5 milímetros de diâmetro e sem núcleo. Dentro dos tipos celulares sanguíneos, são os que estão em maior número e “transitam” pelo nosso corpo por um período de até 120 dias, quando são destruídas e novamente produzidas. Eles são formados principalmente por água, hemoglobina, íons potássio, enzimas e glicose. Dentro dos seus constituintes, o componente mais importante é a hemoglobina, com cerca de 300 milhões de moléculas para cada célula e representa um terço do seu peso. Não podemos esquecer que a função principal dos glóbulos vermelhos é a de transporte de oxigênio dos pulmões aos tecidos, bem como de transportar CO2 dos tecidos aos pulmões, sendo que quem faz esse trabalho todo é a molécula de hemoglobina, que constitui 95% das proteínas das hemácias, de acordo com Zago et al. (2013, p. 4). Outro ponto importante a ressaltar é que a estrutura molecular da hemoglobina é formada por duas partes, segundo Vivas (2006, p. 286): uma porção que contém ferro, a qual é chamada de porção heme, e uma porção proteica, chamada de globina. Esta parte proteica é constituída por quatro cadeias polipeptídicas, sendo cada uma delas ligada a um grupo heme. Ademais, cada grupo heme contém um átomo de ferro que vai se ligar reversivelmente com uma molécula de oxigênio. Dessa forma, a molécula é uma ligadora forte de quatro oxigênios e é assim que ela carrega essa molécula importante para nosso funcionamento celular. Desta estrutura toda é que podemos explicar de onde vem sua principal função, que é o transporte de oxigênio e gás carbônico, o que vai acabar permitindo que o corpo realize as trocas gasosas necessárias ao metabolismo orgânico. A quantidade destas células pode variar, em homens, de 4,5 a 6,5 milhões por μL, e de 3,9 a 5,6 milhões por μL em mulheres, segundo Zago et al. (2013, p. 4). Também existem outros parâmetros de avaliação laboratorial importantes quando estamos falando do conteúdo de glóbulos vermelhos, que são a dosagem de hemoglobina e o hematócrito, o qual é a porcentagem do volume do sangue ocupado pelas hemácias. Outros índices, ainda, são utilizados para determinar o tamanho e o conteúdo de hemoglobina das hemácias, como hemoglobina corpuscular média e volume corpuscular médio. 2.2 Glóbulos brancos De acordo com Zago et al. (2013, p. 5), os glóbulos brancos (leucócitos) são, dentro do grupo celular sanguíneo, o grupo que possui mais células diferentes, mas com a mesma finalidade geral do que todos, tanto do ponto de vista morfológico quanto fisiológico. Embora esse tipo celular seja responsável por ser como “guardas de segurança” do nosso organismo, desempenhando papel de defesa do organismo, cada subtipo leucocitário é responsável por funções bem específicas e diferentes entre si, que, em conjunto, estruturam o que chamamos de sistema imunológico. Os leucócitos são agrupados em duas categorias diferentes: os leucócitos mononucleares e os polimorfonucleares. Os leucócitos mononucleares são formados pelos linfócitos, plasmócitos e monócitos, e, pelo próprio nome da categoria, podemos perceber sua característica em comum, que é a de possuir um núcleo único e uniforme. Os leucócitos polimorfonucleares, os quais também podem ser chamados de granulócitos, porque possuem granulação citoplasmática, são os neutrófilos, eosinófilos e basófilos e, como o nome já nos remete, possuem um núcleo multiforme e segmentado. Apesar de todos os leucócitos serem gerados a partir de um precursor hematopoético em comum na medula óssea, os que geram os intermediários são diferentes e acabam sendo influenciados por diferentes fatores de crescimento. É importante sabermos que existem variações em relação a quantidade destas células no sangue de acordo com a idade das pessoas. Em bebês e crianças, existe um predomínio de células mononucleares, principalmente de linfócitos em relação aos granulócitos e, conforme a pessoa vai ficando mais velha, essa relação acaba se invertendo, existindo predomínio de polimorfonucleares, principalmente de neutrófilos. Todo esseprocesso e funções de cada tipo celular dentro do grande grupo de leucócitos é o que vamos aprender e compreender melhor a seguir. Linfócitos: Foram descritos pela primeira vez em 1774, por meio das colorações de Romanowsky. Percebeu-se que são células de tamanho pequeno (de 6 a 15 μm), regulares e arredondadas, possuindo, na estrutura celular, uma relação entre o núcleo e o citoplasma, em que o núcleo ocupa praticamente 90% do sítio celular. Possui citoplasma escasso e basófilo, núcleo regular e esférico, de tonalidade azul-arroxeada e com cromatina sem nucléolo evidente, de acordo com Zago et al. (2013, p. 5). Dentro do grande grupo de leucócitos, podemos dizer que, depois dos neutrófilos, os linfócitos estão em maior número no nosso corpo. Esse fato é justificado porque eles são muito importantes nas respostas imunes específicas do corpo, pois são eles que produzem os anticorpos. Fisiologicamente, existem pelo menos três tipos de subpopulações celulares: os linfócitos T, linfócitos B e linfócitos NK. Plasmócitos: Foram originados a partir dos linfócitos do tipo B maduros e encontram-se circulando no sangue em pequenas quantidades (0 a 0,25%). Seus locais principais são a medula óssea, os linfonodos e o baço, sendo eles responsáveis pela síntese de imunoglobulinas. Segundo Zago et al. (2013, p. 6), "[m]orfologicamente, os plasmócitos são facilmente distinguíveis dos linfócitos. São células esféricas ou ovoides, com tamanho variando entre 5 e 30 μm. O citoplasma é abundante, basófilo, normalmente azul-escuro, de caráter granular. Existe uma região citoplasmática perinuclear clara onde se encontra o complexo de Golgi. A relação nucleocitoplasmática é baixa, o núcleo é redondo ou oval, de cromatina bastante densa, em roda de carroça". Monócitos: Macrófagos e seus precursores são originados na medula óssea. Essas células, depois de estarem na circulação sanguínea, possuem meia-vida curta de 8,4 horas, ou seja, duram pouco e acabam se deslocando rapidamente para outros tecidos, onde recebem outra denominação: macrófagos tissulares. Quando se encontram nesses tecidos, fazem parte do grupo de células “varredoras” do nosso corpo, participando da fagocitose de células mortas ou em processo de senescência, de destruição de corpos estranhos e indesejáveis, da regulação da função de outras células, do processamento e apresentação de antígenos, bem como de reações inflamatórias e/ou células tumorais. Quanto à estrutura destas células, são grandes e fáceis de serem reconhecidas quando submetidas às técnicas hematológicas de coloração e posterior microscopia, pois possuem tamanho entre 12 e 15 μm de diâmetro, possuindo citoplasma abundante e cor característica cinza ou azul-claro acinzentada, com fina granulação, conforme Zago et al. (2013, p. 7). Neutrófilo: São chamados assim, porque possuem cor neutra quando feitas colorações de Romanowsky. Os neutrófilos possuem quatro tipos diferentes de grânulos em seu citoplasma: grânulos azurófilos ou primários, grânulos específicos ou secundários, grânulos terciários ou de gelatinase, e vesículas secretoras, segundo Zago et al. (2013, p. 8). Eles têm origem na medula óssea e são importantes defensores do organismo, pois fagocitam e digerem microorganismos que podem causar doenças aos humanos. Eosinófilos: São formados também na medula óssea e, na sua estrutura de citoplasma, apresentam grânulos com alta afinidade pela eosina, a qual é um corante ácido muito utilizado nas colorações hematológicas de Romanowsky. Este tipo de célula está presente, em sua maioria, no sangue periférico e é relacionada à processos inflamatórios associados à alergia, além de defender nosso corpo de parasitas metazoários helmínticos e também em certos distúrbios cutâneos alérgicos e neoplásicos, de acordo com Zago et al. (2013, p. 8). Basófilos: São formados na medula óssea e, depois que sofrem diferenciação celular, vão pra corrente sanguínea produzir diversos mediadores inflamatórios, como a histamina. Possuem grânulos citoplasmáticos que, ao serem submetidos aos corantes básicos nas colorações hematológicas, são coloridos em cor purpúrea escura. Outro tipo celular que é semelhante aos basófilos e é encontrado somente em tecidos celulares, porém são um pouco maiores, são os chamados mastócitos, segundo Zago et al. (2013, p. 9). #PraCegoVer: a imagem mostra os tipos de glóbulos brancos, os quais são: eosinófilos, neutrófilos, basófilos, monócitos, plasmócitos e linfócitos. 2.3 Plaquetas A primeira coisa que nos vêm em mente quando falamos em plaquetas é em relação à sua função de estancar sangramentos após um dano vascular. No entanto, é importante que saibamos que as plaquetas, além dessa grande e importante função, estão diretamente relacionadas com a interação com células da resposta imune, além de participar na progressão tumoral, angiogênese e metástase. Elas são responsáveis por processos bioquímicos envolvidos na hemostasia, trombose e coagulação do sangue. São constituídas na medula óssea a partir da fragmentação do citoplasma do seu precursor, a célula conhecida como megacariócito, uma célula gigante e multilobulada presente na medula. Em relação a sua estrutura morfológica, elas são fragmentos citoplasmáticos anucleados de tamanho variado, entre 2,9 e 4,3 μm, e espessura entre 0,6 e 1,2 μm. É importante ressaltar que esse tamanho pode variar de um organismo para outro. Além disso, elas apresentam-se como células arredondadas ou ovoides, possuindo citoplasma azul-claro com grânulos vermelho-purpúreos homogeneamente distribuídos, conforme Zago et al. (2013, p. 9). Você já ouviu falar sobre transplante de medula óssea ou transplante de células-tronco, certo? Eles são conhecidos como a grande revolução da terapia hematológica nas últimas décadas! Mas você sabe como acontecem? Eles são baseados na capacidade de um pequeno grupo de células-tronco do doador produzirem novamente todas as células hematológicas, reconstituindo a medula óssea de quem recebe. É dessa forma que um paciente com leucemia pode ser tratado com doses absurdamente altas de quimioterápicos, capazes de destruir quase todas as células de sua medula, recebendo em seguida essas células progenitoras transplantadas. 3 Hematologia laboratorial: laboratórios de análises clínicas Dentro da rotina de atividades de um laboratório de análises clínicas, a hematologia representa uma das técnicas mais utilizadas, recebendo o nome de hematologia laboratorial. Nesse âmbito, as rotinas de análises laboratoriais, profissionais especializados na área, equipamentos e toda ciência estão focados em analisar um único e absoluto fator: o sangue e seus componentes. Portanto, é através dos laboratórios hematológicos que desvendamos as patologias e condições clínicas que podem alterar a saúde de muitas pessoas em relação às suas condições hematológicas. Podemos citar algumas patologias mais comuns que são identificadas na realização de procedimentos e técnicas hematológicas, tais como: anemias dos mais variados tipos; policitemia, ou excesso de produção de glóbulos vermelhos; leucemia; hemoglobinopatias; linfomas malignos; mielofibrose. Porém, é importante que você saiba que, para que essas patologias clínicas sejam corretamente identificadas, é preciso utilizar meios próprios de avaliação como o hemograma, além de equipamentos e de um ambiente laboratorial ideal. E é nesse ponto que a hematologia laboratorial acaba se inserindo. Existem três fases principais no processamento das amostras para exames laboratoriais, chamadas de fases pré-analítica, analítica e pós-analítica, de acordo com Lima-Oliveira et al. (2011, p. 85). Fase pré-analítica: Engloba todas as atividades que acontecem antes do procedimento laboratorial, isto é, as atividades realizadas antes da determinação analítica propriamente dita. Fase analítica: Começa validando o sistema analítico, passando pelo controle de qualidade, e termina com a determinação de resultado da análise laboratorial. Fase pós-analítica: Tem seu início depois da geração do resultado analítico, sendoele quantitativo ou qualitativo, e irá terminar quando entregamos o laudo e a interpretação do resultado ao paciente. 3.1 Exames realizados nos laboratórios de hematologia Para que possamos analisar todos os aspectos sanguíneos, ou seja, todas as células que compõem o sangue, precisamos realizar um exame chamado hemograma. Dentro desse, temos variações de parâmetros gerais que analisam a quantidade e a qualidade dessas células e suas alterações. Ele é composto pelo eritograma, leucograma e série plaquetária. Eritrograma Estudo da série vermelha do sangue, conhecidos como glóbulos vermelhos, hemácias, eritrócitos Leucograma Estudo focado em todos os tipos de leucócitos, com a sua contagem global e específica, bem como suas alterações. Plaquetograma Estudo das plaquetas. Coagulograma Estudo que se foca em avaliar a hemostasia e coagulação do sangue. 4 Série vermelha do sangue Como vimos anteriormente, de acordo com Naoum e Naoum (2006, p. 41), a principal função dos eritrócitos é levar oxigênio dos pulmões para as células do organismo e fazer o caminho inverso com o dióxido de carbono. Na circulação sanguínea periférica, estima-se que atuam cerca de 25 trilhões de eritrócitos e, por dia, são renovados aproximadamente 1 bilhão deles. Em média, duram no corpo, 120 dias e, à medida que envelhecem, as enzimas da glicólise diminuem suas atividades. A forma e a flexibilidade normais dessas células vai depender da integridade e da composição química e morfológica da célula, que é o chamamos de citoesqueleto, bem como da sua membrana. Às vezes, modificações estruturais podem acontecer e formas anômalas, podendo surgir de um defeito primário do citoesqueleto ou da membrana, ou ser secundário à fragmentação ou à polimerização, cristalização e precipitação da hemoglobina. Devemos analisar, no laboratório, a série vermelha do sangue por meio de dois modos: qualitativo e quantitativo. O eritrograma, então, realiza a análise quantitativa da série vermelha do sangue através dos exames de contagem de eritrócitos (CE), dosagem da hemoglobina (Hb) e hematócrito (Ht). Desses três valores, se obtém três índices hematimétricos: Hemoglobina Corpuscular Média (HCM), Volume Corpuscular Médio (VCM) e a Concentração da Hemoglobina Corpuscular Média (CHCM), de acordo com Naoum e Naoum (2006, p. 25). É importante sabermos que os valores de eritrócitos, dosagem de hemoglobina e hematócritos variam com a idade e com o sexo na fase adulta, mas os índices hematimétricos se mantêm constantes na maior parte das faixas etárias e entre os sexos masculino e feminino, segundo Naoum e Naoum (2006, p. 25). Já qualitativamente, devemos analisar a série vermelha por meio da análise citológica da morfologia eritrocitária e, assim, veremos uma série de modificações estruturais que as células podem ter, as quais terão denominações especiais e características visuais próprias. 4.1 Dosagem de hemoglobina (Hb) Segundo Naoum e Naoum (2006, p. 29), a dosagem de hemoglobina deve ser realizada de acordo com o método sugerido pelo Comitê Internacional de Hematologia, chamado de Cianometaemoglobina. É importante que saibamos que o motivo para escolher esse método se dá porque ele apresenta três principais vantagens: primeiramente, a hemoglobina, a metaemoglobina e a carboxiemoglobina são convertidas em cianometaemoglobina, sendo todas incluídas na determinação; em segundo lugar, esse método apresenta uma facilidade maior de obter padrões para calibração; e, por fim, a cianometaemoglobina tem uma faixa de absorbância de 540nm, o que facilita a leitura da densidade óptica tanto em espectrofotômetro de faixa estreita como em fotômetro ou colorímetro. Em resumo, esse procedimento usa diluentes que devem conter cianeto e ferricianeto de potássio para conversão em metaemoglobina (conhecido como líquido de Drabkin); fosfato de potássio hidrogenado para baixar o pH, acelerar a reação e permitir a leitura da absorbância após três minutos de reação; um detergente não-iônico para acelerar a hemólise e reduzir a turvação, incluindo a precipitação das lipoproteínas do estroma (proteínas de membrana) dos eritrócitos. Existem alguns outros métodos que utilizam ázida sódica, ou sulfato laurilsódio, mas esses quase não são utilizados. A análise da dosagem de hemoglobina é expressa em g/L (massa por volume) ou em mol/L (concentração molar), entretanto o usual, em quase todos os laboratórios, é expressar a Hb em g/dL ou g/100ml, conforme Naoum e Naoum (2006, p. 30). 4.2 Determinação do hematócrito Segundo Naoum e Naoum (2006, p. 30), podemos dizer que o hematócrito é uma relação entre o volume ocupado pelos glóbulos vermelhos (eritrócitos) em relação ao sangue total, ou seja, uma coluna de sangue centrifugado. Pode-se determinar esse índice manualmente, transferindo o sangue total para um tubo capilar selado que será centrifugado para determinação do comprimento da coluna de eritrócitos compactados. O resultado deve ser expresso em porcentagem. Os valores de referência variam de acordo com o laboratório que faz o teste experimental, mas são, geralmente, em torno de 35 a 45% para mulheres e 40 a 50% para homens. 4.3 Índices hematimétricos De acordo com Vivas (2006), a partir da contagem total de eritrócitos (CE), da taxa de hemoglobina (Hb) e da determinação do hematócrito (Ht), podemos inferir uma série de índices importantes, os quais são chamados se índices hematológicos ou hematimétricos. Todos esses elementos devem ser padronizados pelo laboratório que os realiza, para sempre fornecer resultados fidedignos para os pacientes nas unidades de porcentagem do normal. São eles: Volume Corpuscular médio (VCM); Hemoglobina Corpuscular média (HCM); Concentração de Hemoglobina Corpuscular Média (CHCM). 4.4 Volume Corpuscular Médio (VCM) É o volume médio das hemácias expresso em fentolitros. Representa, portanto, o quociente de um determinado volume de hemácias pelo número de células contidas no mesmo volume, conforme demonstra a fórmula abaixo, de acordo com Naoum e Naoum (2006, p. 26): V.C.M = Ht X 10 / CE (10 12)/ L= fL (Fentolitros) 4.5 Hemoglobina Corpuscular Média (HCM) Segundo Vivas (2006), a Hemoglobina Corpuscular Média (HCM) é o índice que expressa a quantidade absoluta de hemoglobina presente nos eritrócitos, sendo expressa em picogramas. Representando, assim, o quociente de conteúdo de hemoglobina em um determinado volume de hemácias de acordo com o número de células que existem naquele mesmo volume. H.C.M = Hb x 10 / CE (10 12)/ L = pg (Picogramas) 4.6 Concentração de Hemoglobina Corpuscular Média (CHCM) De acordo com Vivas (2006), a Concentração de Hemoglobina Corpuscular Média (CHCM) reflete a porcentagem de hemoglobina em 100mL de eritrócitos. CHCM = Hb x 100 / Ht (%) = dL 5 Alterações no eritrograma Existem, na hematologia, termos específicos que são usados para descrever a morfologia e estrutura das células do sangue. Sempre que formos descrever células que apresentam morfologia normal, utilizamos duas expressões: normocítico, que significa que as células são de tamanho normal, e normocrômico, que significa que as células possuem quantidade normal de hemoglobina, e, portanto, quando submetidas às técnicas hematológicas, coram-se normalmente. Outros termos que podem ser usados na morfologia eritrocitária, como, por exemplo, microcítico e anisocitose, inferem que a morfologia é anormal, fato que veremos a seguir. É importante destacarmos que existem situações em que o eritrócito é macrocítico, porém é considerado normal. Essa situação ocorre nos bebês recém-nascidos, pois seus eritrócitos são, normalmente, maiores do que os de indivíduos com idade acima de um mês de vida. Outro fator importante que precisamos ter em mente é que a morfologia dos eritrócitos, mesmo que seja verificada como normal, deve ser sempre descrita no eritrograma, de acordo com Naoum e Naoum (2006, p. 43). Para que possamos avaliar completamente as possíveis alterações na série vermelha, os índices hematimétricos obtidos a partir do hemograma, a análise da morfologia eritrocitáriano esfregaço de sangue periférico, assim como o número de reticulócitos são importantes para a abordagem diagnóstica. Quando falamos de analisar a série vermelha, diferentemente da análise da série branca, é difícil avaliar as alterações quantitativas, entretanto, a análise da morfologia, avaliando tamanho, forma, presença de inclusões ou presença de aglutinação dos eritrócitos pode fornecer informações muito úteis para o diagnóstico de doenças e de demais patologias. Veja abaixo prefixos e sufixos e seus respectivos significados usados no vocabulário hematológico, conforme Naoum e Naoum (2006). 5.1 Anisocitose: alterações de tamanho Conforme os prefixos e sufixos do vocabulário hematológico apresentados anteriormente, podemos perceber o significado das expressões utilizadas nesse tipo de alteração das hemácias, tal como em anisocitose, que pode ser analisado como aniso + cito + ose = desigual + célula + excesso/aumento. A anisocitose é uma variação no tamanho das células e podemos considerá-la de duas formas principais: microcitose ou macrocitose. A microcitose ocorre quando as células possuem um diâmetro abaixo de 7µm. Para que possamos realizar essa caracterização laboratorial, devemos comparar o tamanho da hemácia com o núcleo do linfócito pequeno, de acordo com Zago et al (2013, p. 833). Já a macrocitose ocorre quando as células possuem tamanho acima do normal, com volume corpuscular médio variando de 80-99 fL (fento litro, ou seja, 80-99x10-15 litro). Quando o VCM excede 100 fL, dizemos que há macrocitose, segundo Zago et al (2013, p. 834). Os eritrócitos com esse fenômeno são chamados de macrócitos, podendo ser arredondados ou ovais (macro-ovalócitos). 5.2 Poiquilocitose: alterações na forma Essa alteração na forma das hemácias pode acontecer por muitas condições anormais, tais como produção de eritrócitos anormais pela medula óssea ou lesão das células na circulação. Algumas dessas alterações vão acontecer tipicamente acompanhando doenças determinadas, como aponta Zago et al. (2013, p. 835) a seguir: Esferócitos São eritrócitos que possuem forma esférica porque acabaram perdendo certas porções de membrana. Como, mesmo perdendo porções da membrana, ficam com o mesmo conteúdo num tamanho menor, eles perdem a palidez central característica. Quando submetidos à técnica hematológica de esfregaço sanguíneo, eles se mostram como células menores e mais intensamente coradas. Essa forma modificada estruturalmente ocorre principalmente na esferocitose hereditária pelo defeito no citoesqueleto da membrana eritrocitária, mas também nas anemias hemolíticas pela ligação dos anticorpos ou complementos às membranas que serão removidas pela ação dos macrófagos, ou ainda pela ação de toxinas bacterianas, conforme Zago et al. (2013, p. 835) Eliptócitos e ovalócitos Normalmente, utilizamos esses dois termos como sinônimos, porém precisamos saber que o eliptócito tem seu eixo duas vezes maior que o eixo menor, enquanto o ovalócito tem o eixo maior inferior ao dobro do eixo menor. Esse tipo modificado de eritrócitos pode aparecer em várias doenças hereditárias e adquiridas. Algumas vezes, ocorrem de uma forma muito numerosa, o que geralmente é decorrentes de eliptocitose hereditária, a qual é uma doença causada por uma alteração hereditária da membrana do glóbulo vermelho. Estomatócitos São as células características por apresentar uma fenda semelhante a uma boca na região central na estrutura. Elas ocorrem esporadicamente em indivíduos normais e muitas vezes em situações clínicas. As situações clínicas mais comuns são o abuso de álcool e a hepatopatia alcoólica. Estão presentes também na estomatocitose hereditária, a qual é uma doença da membrana do eritrócito associada a distúrbios de regulação de volume, segundo Zago et al. (2013, p. 836). Dacriócitos São conhecidos como as hemácias em forma de lágrima. Ocorrem quando existe fibrose da medula óssea, diseritropoese grave, anemias hemolíticas e anemias megaloblásticas. Também é característica da mielofibrose idiopática ou secundária às infiltrações da medula óssea, de acordo com Zago et al. (2013, p. 836). Eritrócitos em alvo Existe, nesse caso, uma distribuição anormal da hemoglobina, o que resulta na geração de uma célula com uma mancha central de hemoglobina rodeada por uma área pálida. Isso acaba acontecendo por excesso de membrana em relação ao volume do citoplasma da célula, segundo Zago et al. (2013, p. 836). Esse fenômeno acontece na icterícia obstrutiva, pois há um aumento de lipídeos na membrana, hepatopatias graves, ou quando existe redução do conteúdo citoplasmático sem redução da membrana, como ocorre nas talassemias, deficiências de ferro e em algumas hemoglobinopatias. Eritrócitos falciformes São também chamados de drepanócitos. Conforme Zago et al. (2013, p. 836), “[...] aparecem nas doenças falciformes (SS, SC, Sβ-talassemia e outras combinações de hemoglobinas anormais com a hemoglobina S) [...]”. A desoxi-hemoglobina S tende a formar polímeros que se alinham em fibras paralelas, tracionando a membrana do eritrócito, que adquire a forma de foice, característica dessas doenças 5.3 Alterações na coloração Quando falamos sobre outras modificações morfológicas em relação aos glóbulos vermelhos, podemos mencionar também as alterações de cor com respeito aos eritrócitos, podendo dividi-los em hipocrômicos e policrômicos. 5.4 Hipocromia Segundo Zago et al. (2013, p. 834), ao realizar colorações hematológicas no laboratório, os eritrócitos normais se coram pela eosina dos corantes Romanowsky, sobretudo na periferia da célula devido à sua forma bicôncava. Utilizamos o termo hipocromia quando a cor dos eritrócitos é mais pálida do que o normal, ocorrendo quando há redução do conteúdo de hemoglobina, o que atribui a palidez central característica desse grupo. A hemoglobina é formada por quatro grupos heme, nos quais está localizado o ferro, e por quatro cadeias globínicas. Quando há redução da síntese de heme ou de cadeias globínicas, existe a diminuição na produção de hemoglobina e a hemácia torna-se hipocrômica. Existem algumas possíveis causas pra que isso ocorra, sendo que a mais comum a gerar essa redução é a deficiência de ferro e a menos comum é a anemia sideroblástica. Outra doença, conhecida como talassemia, também é um possível motivo na redução ou ausência de produção de uma ou mais cadeias globínicas da molécula de hemoglobina, conforme Zago et al. (2013, p. 834). 5.5 Policromasia Quando nos referimos a eritrócitos imaturos que possuem coloração róseo-azulada, aludimos a policromasia ou policromatofilia, sobretudo dos reticulócitos jovens. Sendo que o motivo pelo qual essas células absorvem, ao mesmo tempo, os corantes básicos e eosina deve-se à presença de RNA ribossômico e hemoglobinaa, conforme Zago et al. (2013, p. 834). 6 Policitemia vera Como vimos, a produção de células sanguíneas no nosso corpo é feita em pleno equilíbrio e conforme a demanda fisiológica do organismo. Em algumas pessoas, pode acontecer mutação em um gene, o que pode fazer com que a medula passe a produzir glóbulos vermelhos em excesso. Essa condição adversa é conhecida como a doença chamada policitemia vera, um tipo raro de câncer que torna o sangue mais denso e espesso, dificultando sua passagem pelos vasos sanguíneos, o que acaba retardando seu fluxo, podendo provocar problemas circulatórios, inclusive AVC e infarto. Ainda não se sabe as causas para o surgimento da policitemia vera, mas cientistas já descobriram que 96% dos pacientes apresentam uma anormalidade no gene JAK2, dado muito importante no momento do diagnóstico, de acordo com ABRALE (2017). 7 Anemias Certamente, você já deparou pensando, ao observar uma pessoa muito magra, que ela deveria estar anêmica. Mas você sabe o real significado da condição fisiológica da anemia? De acordo com Zago et al. (2013, p. 59), anemia é um termo que se aplica, simultaneamente, a uma síndrome clínica e a um quadro laboratorial caracterizado por diminuição dos valores de hematócrito, da concentração dehemoglobina no sangue, ou da concentração de hemácias por unidade de volume. Em indivíduos normais, já vimos que os níveis de hemoglobina podem variar em relação à idade da pessoa, à estimulação hormonal, à tensão de oxigênio no ambiente, e ao sexo. Para fins de consulta, considera-se anêmica a pessoa cuja concentração de hemoglobina é inferior a: · 13 g/dL no homem adulto; · 12 g/dL na mulher adulta; · 11 g/dL na mulher grávida; · 11 g/dL em crianças entre seis meses e seis anos de idade; · 12 g/dL em crianças entre seis e 14 anos de idade. Importante falarmos que esses valores são aplicados quando estamos em locais no nível do mar, já que eles são alterados em grandes altitudes, e que não mudam de acordo com a raça, a região geográfica ou a idade avançada. Em particular, não ocorrem níveis de hemoglobina “fisiologicamente” mais baixos em idosos. Existe uma regra simples que você não pode esquecer quando analisar um hemograma: o hematócrito deve ser três vezes a hemoglobina Em relação às manifestações clínicas das anemias, tem-se: · dispneia aos esforços · palpitações, taquicardia; · intolerância ao esforço; · cansaço evidente, indisposição (astenia); · tontura postural; · cefaleia; · descompensação de doenças cardiovasculares (icc, angina); · descompensação de doenças cerebrovasculares; · descompensação de doenças respiratórias. Vale lembrar, então, que a anemia não é um diagnóstico fechado e completo, mas a manifestação clínica de uma doença básica, e isso, muitas vezes, exige uma investigação clínica para a sua descoberta. Como na maioria das vezes é complicado estabelecer a comprovação da presença de anemia por meio só de exame físico, é imprescindível que se realize a técnica do hemograma, tendo em vista que os índices eritrocitários irão nos retratar muitos fatos sobre as condições fisiológicas em que o indivíduo se encontra, já que se comparam os valores do número de eritrócitos, do volume globular e da hemoglobina, e, assim, podemos classificar morfologicamente as anemias em macrocítica, microcítica, normocítica, hipocrômica ou normocrômica. Não existe hipercromia, pois a concentração da hemoglobina nunca ultrapassa um terço do volume dos eritrócitos, conforme Romero (2015, p. 6). De acordo com Naoum e Naoum (2006, p. 65), podemos classificar as anemias por meio de alterações fisiopatológicas agrupando-as em três grupos diferentes: anemias hemorrágicas, anemias por destruição precoce dos eritrócitos (hemólise) e anemias por diminuição da produção dos eritrócitos (hipoproliferação). Além disso, podemos agrupá-las de acordo com as alterações morfológicas e quantitativas dos eritrócitos: microcítica e hipocrômica, normocítica e normocrômica e, por fim, macrocítica e normocrômica. #PraCegoVer: a imagem mostra um diagrama que resume as classificações clínica e laboratorial das anemias. São elas: alterações funcionais de eritrócitos (que classificam as anemias clinicamente em hemorrágica, hemolítica, hipoproliferativa ou aplástica) e alterações morfológicas dos eritrócitos (que classificam laboratorialmente as anemias em normocrítica ou normocrômica, microcítica ou hipocrômica e macrocítica ou normocrômica). 7.1 Anemias microcíticas hipocrômicas De acordo com Naoum e Naoum (2006, p. 65), a microcitose acontece quando temos valores de VCM abaixo de 80 fL, e a hipocromia quando temos valores de HCM abaixo de 28 pg e/ou índice de CHCM abaixo de 32 g/dL. As suas principais causas são, basicamente, deficiência de ferro, alterações no metabolismo do ferro, anemia sideroblástica e síntese desequilibrada entre as cadeias de globinas alfa e beta que causam as talassemias dos tipos alfa e beta, respectivamente. 7.2 Anemia macrocítica Segundo Naoum e Naoum (2006, p. 65), podemos definir uma anemia macrocítica quando os valores de VCM estão acima de 100 fL. O fator que mais influencia para que isso ocorra é a anemia megaloblástica (pela carência de ácido fólico e/ou vitamina B12). É nessa condição anormal fisiológica que se consegue observar os maiores valores de VCM, normalmente entre 110 e 140 fL. Além disso, vale ressaltar que existem diversas outras causas de macrocitose, sendo todas elas consideradas como causas leves, como, por exemplo, síndromes mielodisplásicas, incluindo a forma adquirida da anemia sideroblástica; anemia aplásica; etilismo; drogas do tipo AZT e metotrexate; anemia da hepatopatia crônica; anemia do hipotireoidismo; anemias hemolíticas (sem contar as talassemias); e anemia da hemorragia aguda. Vale dizer que as anemias macrocíticas podem ser classificadas ainda em megaloblásticas ou não megaloblásticas. Analisando esse grupo, as mais relevantes de se estudar são as megaloblásticas por deficiência de vitamina B12 e/ou ácido fólico. 7.3 Anemia normocítica e normocrômica Segundo Naoum e Naoum (2006, p. 66), esse grupo é constituído por uma série variada de etiologias, são elas: anemia ferropriva; anemia de doença crônica; anemia da IRC; anemia da hepatopatia crônica; anemia das endocrinopatias (hipotireoidismo e hipoadrenalismo); anemia aplásica; mielodisplasias; ocupação medular (mielofibrose idiopática, leucemias, câncer metastático, infecção disseminada); anemias hemolíticas; anemia por sangramento agudo e anemia multicarencial (ferropriva e megaloblástica). 8 Hemoglobinopatias As doenças genéticas da hemoglobina compreendem um grupo de problemas hereditários que afeta os genes responsáveis por sintetizar as globinas. Caracterizam-se por alterar qualitativa ou quantitativamente a globina, secundárias a mutações genéticas, resultando em modificação estrutural (hemoglobina anormal), ou diminuindo a síntese de uma cadeia globínica, o que resulta em menor sobrevida das hemácias e consequente anemia crônica, conforme Lobo et al. (2003 p. 154). Isso, então, divide as hemoglobinopatias em dois grandes grupos distintos: as hemoglobinopatias estruturais, em que se altera a sequência de aminoácidos gerando a conhecida anemia falciforme, e as hemoglobinopatias funcionais, em que se aumentam ou se diminuem as cadeias de globina gerando a doença β-talassemia, de acordo com Compri et al. (1996, p. 187) . Estão descritas na literatura mais de 600 hemoglobinas anômalas. Porém, no Brasil, apenas duas hemoglobinopatias estruturais (HbS e HbC) e uma por deficiência de síntese (β-talassemia) acontecem, conforme Di Nuzzo e Fonseca (2004, p. 347). A hemoglobina S, cujo nome vem da palavra em inglês sickle que significa foice, difere da hemoglobina normal “A” porque tem uma substituição do ácido glutâmico pela valina na posição seis da cadeia beta de aminoácido. Essa pequena modificação já se torna suficiente para tornar a hemoglobina patogênica para o organismo, uma vez que as moléculas sem oxigênio têm a capacidade de se agruparem formando longos polímeros que deformam a hemácia e assumem a forma de foice, segundo Di Nuzzo e Fonseca (2004, p. 347). Os glóbulos vermelhos em forma de foice não conseguem ter uma circulação normal no organismo, o que resulta na obstrução do fluxo sanguíneo capilar e, assim, são destruídos precocemente. Em relação às talassemias, segundo Naoum e Naoum (2006, p. 72-73), elas são doenças genéticas causadas pela redução da síntese de globinas alfa e não-alfa (beta, gama ou delta), as quais irão afetar a morfologia do eritrócito e, assim, reduzir a vida média dessas células. Clinicamente, elas podem ser classificadas em mínima, menor, intermédia e maior: · Talassemia mínima: Normalmente, essa é uma talassemia alfa com expressão reduzida de um ou dois genes. O paciente com essa doença é assintomático e o eritrograma apresenta valores numéricos normais, de acordo com Naoum e Naoum (2004, p. 73). · Talassemia menor: Pode ser do tipo alfa ou beta. Normalmente, mesmo sendo assintomático, o paciente manifesta desconforto como cansaço e dores nas pernas. Quando analisamos o eritrograma dessa pessoa, vemos que ele possui anemia microcítica e hipocrômica, com valores desproporcionais entre contagem de eritrócitos, hemoglobina e hematócrito, segundo Naoum e Naoum (2004, p. 73). · Talassemiaintermédia: Classificação clínica em que temos pacientes que sejam portadores de talassemias alfa ou beta, mas que possuem manifestações clínicas mais evidentes que aquelas observadas na talassemia menor e menos grave que na talassemia maior. Às vezes, existe necessidade de o enfermo receber transfusão de sangue e isso pode acontecer de uma a duas vezes ao ano no geral. Esses pacientes possuem esplenomegalia evidente e anemia microcítica e hipocrômica de grau moderado, conforme Naoum e Naoum (2004, p. 73). · Talassemia maior: Essa é a forma mais grave e preocupante dentre as talassemias. Temos todos os quatro genes alfa integralmente afetados, ou seja, podemos dizer que nenhum deles “funciona” adequadamente, sintetizando a proteína globina alfa, de acordo com Naoum e Naoum (2004, p. 73). 9 Exames adicionais em hematologia Quando vamos a uma consulta médica e o profissional acredita que podemos estar em condições fisiológicas ruins em relação a algum tipo de célula, além dos exames que mencionamos anteriormente, muitos outros exames adicionais podem ser realizados para elucidar o problema. Pode-se fazer a medição da proporção de diferentes tipos de glóbulos brancos, que podem determinar subtipos dessas células avaliando certos marcadores na superfície das células. Outros, medem a real capacidade das nossas células de defesa em combater infecções, além de avaliar o funcionamento das plaquetas e sua capacidade de se coagular, bem como há exames que fazem medições do teor de glóbulos vermelhos, o que ajuda a determinar a causa da anemia ou por qual motivo o organismo daquela pessoa não está funcionando adequadamente. A maioria desses exames é realizada em amostras de sangue, mas alguns requerem uma amostra da medula óssea.