Prévia do material em texto
Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Clínica Médica CLÍNICA MÉDICA ANEMIAS E HEMOGLOBINOPATIAS Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias ÍNDICE 5 7 8 13 17 20 22 27 27 50 64 64 69 71 INTRODUÇÃO QUADRO CLÍNICO HEMATOPOIESE NORMAL - HEMOGLOBINA - HEMOGRAMA - ESFREGAÇO DE SANGUE PERIFÉRICO CLASSIFICAÇÃO PARTE 1: ANEMIAS CARENCIAIS - ANEMIA FERROPRIVA - ANEMIA MEGALOBLÁSTICA PARTE 2: ANEMIA DE DOENÇA CRÔNICA E SIDEROBLÁSTICA - ANEMIA DE DOENÇAS CRÔNICAS - ANEMIA SIDEROBLÁSTICA PARTE 3: ANEMIAS ASSOCIADAS A DOENÇAS SISTÊMICAS CM 2 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias 72 72 73 74 75 78 99 102 105 106 106 108 110 113 120 123 - ANEMIA POR MIELOFTISE - ANEMIA POR HEPATOPATIA CRÔNICA - ANEMIA DA INSUFICIÊNCIA RENAL - ANEMIA POR ENDOCRINOPATIAS PARTE 4: HEMOGLOBINOPATIAS - ANEMIA FALCIFORME - TALASSEMIAS - MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS - LABORATÓRIO - DIAGNÓSTICO - TRATAMENTO - MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS PARTE 5: ANEMIAS HEMOLÍTICAS - ANEMIAS HEMOLÍTICAS AUTOIMUNES – AHAI - ANEMIAS HEMOLÍTICAS NÃO IMUNES (HEREDITÁRIAS) - QUADRO CLÍNICO CM 3 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias 124 125 131 132 - DIAGNÓSTICO - TRATAMENTO CONCLUSÃO Bibliografia CM 4 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias INTRODUÇÃO Fala, meu povo! Sejam muito bem-vindos a mais uma apostila do nosso Extensivo São Paulo! Hoje nosso assunto é Hematologia. Falaremos sobre Anemias e Hemoglobinopatias. Sim, sabemos que vocês não são tão fãs assim desse assunto, mas, calma! Vocês verão que, ao final dessa leitura, a organização do raciocínio clínico ficará muito mais simples e intuitiva. Nossa apostila está dividida em 5 grandes partes: Parte 1: Anemias Carenciais - Ferropriva e Megaloblástica Certamente o grupo mais cobrado dentre as anemias! E de loooonge, viu? Foquem no diagnóstico laboratorial de Anemia Ferropriva, com RDW aumentado e também pelo perfil de ferro e na diferenciação com o perfil de ferro visto na Anemia de Doença Crônica e também na associação com perdas de sangue por trato gastrointestinal com necessidade de investigação endoscópica (com EDA ou colonoscopia). Já quando o assunto é Anemia Megaloblástica, além de quase sempre estarem presentes no enunciado os marcadores de hemólise aumentados e o VCM > 100 fL, também são frequentes a associação com sintomas neurológicos, com metformina e com anemia perniciosa. Assim, vocês já garantem o acerto na maioria das questões! Parte 2: Anemia De Doença Crônica e Anemia Sideroblástica CM 5 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Parte 3: Anemias Associadas a Doenças Sistêmicas - Mieloftise, Hepatopatia Crônica, Insuficiência Renal, Endocrinopatias Em geral, esse grupo é cobrado como Anemia de Doença Crônica, portanto, não se estressem muito nessa parte, ok? Parte 4: Hemoglobinopatias - Doença Falciforme e Talassemias Quando o assunto são as Hemoglobinopatias, com certeza devemos focar nas complicações da anemia falciforme! De longe, é o tópico mais cobrado, mas, também devemos saber reconhecer o traço talassêmico pela eletroforese de hemoglobinas. Parte 5: Anemias Hemolíticas - Autoimune e Não-Imunes Hereditárias (Defeitos De Membrana E Defeitos Enzimáticos) Aqui, o tópico mais cobrado é a positividade do Coombs na Anemia Hemolítica Autoimune, portanto, já façam esse vínculo cerebral, fechou? Sem mais delongas, comecemos a conversar sobre Anemias e Hemoglobinopatias! A anemia é um estado patológico que resulta em um número insuficiente de eritrócitos para fornecer oxigênio aos órgãos e tecidos. A anemia pode surgir por perda de sangue, subprodução de eritrócitos, destruição de eritrócitos (hemólise) ou uma combinação desses fatores. Anemia é um termo geral que define a queda da hemoglobina, podendo ser decorrente de diversas causas. É fundamental SEMPRE investigar o porquê da anemia, visto que a queda da hemoglobina é um reflexo de algo desregulado no organismo, CM 6 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias um sinal, e não uma doença em si. A identificação da anemia vai muito além da interpretação do hemograma, precisa também da dosagem de reticulócitos, cinética do ferro, dosagem de vitaminas e avaliação de um esfregaço de sangue periférico. As anemias são muito exploradas nas provas de clínica médica e pediatria. É importante olhar todos esses aspectos macro apresentados no enunciado para estabelecer o diagnóstico, isso porque, esse é o grande ponto abordado nas provas: correlação entre os achados de exame, o diagnóstico das anemias e possíveis doenças associadas. QUADRO CLÍNICO Os pacientes com anemia crônica podem ser totalmente assintomáticos ou podem apresentar sintomas que geralmente refletem o grau de anemia e a rapidez com que a anemia se desenvolve. De maneira geral, as anemias podem cursar com diversos sintomas como dispneia, palpitação, taquicardia, intolerância aos esforços, cefaleia, tontura postural, astenia e outros, a depender da causa. Porém, como vimos, a intensidade dos sintomas depende do quão rápida foi a instalação da anemia, pois o corpo tem a capacidade adaptativa quando os níveis de hemoglobina vão caindo aos poucos, fazendo com que muitos pacientes sejam assintomáticos. Da mesma forma, uma instalação aguda, como um sangramento, gera repercussões maiores e mais graves. Os sintomas também são determinados pela função do órgão-alvo e pela doença vascular. A anemia que se desenvolve durante o mesmo período CM 7 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias em uma pessoa jovem, de outra forma saudável, pode ser assintomática, enquanto pacientes com doenças cardiovasculares, cerebrovasculares e respiratórias descompensam na presença de anemia, visto dificuldade em manter oxigenação dos tecidos. Por exemplo, alguém com aterosclerose arterial coronariana crítica, pode se manifestar com angina. HEMATOPOIESE NORMAL A medula óssea é dividida em vermelha, onde ocorre a produção das células, sendo denominada assim devido ao grande número de células eritroides, e medula amarela, composta por gordura e sem ação de produção celular, embora possa voltar a ser proliferativa após alguns estímulos. Até os cinco anos todos os ossos possuem a capacidade de produção celular, porém na fase adulta essa ação fica restrita somente aos ossos da pelve, esterno, crânio, arcos costais, vértebras, e epífises femorais e umerais. Em situações patológicas especiais pode ocorrer novamente produção celular extramedular, na tentativa de compensar a atividade insuficiente da medula óssea CM 8 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Figura 1. Hematopoiese normal. Todas as células advêm de uma, denominada totipotente, a qual tem a premissa de diferenciar-se basicamente em duas linhagens, a mieloide e a linfoide. A célula progenitora mieloide sofre um processo de diferenciação em suas outras células, que também são precursoras: a eritroide- megacariocítica (responsável pela formação de hemácias e plaquetas) e a granulocítica-monocítica (responsável pela formação de granulócitos e monócitos). A linhagem linfoide também se divide em dois tipos, um que ao final formará os linfócitos B e outro os linfócitos T. Toda essa divisão celular pode ser vista de maneira simplificada na imagem abaixo, corroborando com a formação do nosso raciocínio para o entendimento das patologias hematológicas. As células comprometidas com a formação de uma determinada linhagem são chamadas de Unidades Formadoras de Colônias (ex.: UFC E/Mega, UFC G/M) e sua produção está regulada por hormônios, interleucinas e fatoresPorém, quando esse processo ocorre repetidas vezes, alguns eritrócitos acabam por não conseguir voltar ao formato normal após reoxigenação, permanecendo falcizadas, mesmo na ausência de polimerização intracelular. Essas células possuem menor meia vida, contribuindo para a hemólise do indivíduo doente. É importante lembrar que a clínica desse paciente possui sintomas relacionados à anemia, mas as principais lesões orgânicas advêm da inflamação e obstrução vascular decorrente da condição de polimerização. A vaso-oclusão ocorre, em geral, na microcirculação, mas também pode acontecer em grandes artérias dos pulmões e do cérebro. É causada não só pelas hemácias, mas também por leucócitos ativados, plaquetas, células endoteliais, óxido nítrico e proteínas plasmáticas. CM 80 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Figura 27. Comparação da hemácia normal com a falciforme. PADRÕES DE HERANÇA Vamos diferenciar dois termos para melhor compreensão do todo. Síndrome falciforme refere-se a condições em que o eritrócito sofre falcização quando há menor disponibilidade de oxigênio. Já o termo doença falciforme é utilizado para circunstâncias onde essa alteração das hemácias cursa com repercussão clínica. O traço falciforme está incluído como síndrome, e não como doença, enquanto a anemia falciforme e todas as outras hemoglobinopatias S são doenças, visto que produzem sinais e sintomas. A ocorrência do gene da hemoglobina S não aconteceu de maneira aleatória, mas sim por uma seleção natural na tentativa de defesa do organismo contra a infecção pelo Plasmodium falciparum. Indivíduos com HbS em heterozigose apresentam vantagens seletivas quando CM 81 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias contraem malária em relação aos que não apresentam essa mutação. O mecanismo não é completamente entendido. Isso fez com que a incidência desta alteração aumentasse em áreas endêmicas de malária, como a África. Não só a HbS possui essa vantagem evolutiva em relação ao Plasmodium. Heterozigose para hemoglobina E, talassemia, deficiência de G6PD e outras alterações hereditárias de membrana também possuem essa propriedade. Pelas razões acima descritas, a anemia falciforme é mais comum na raça negra e é mais frequente no continente africano, o que não exclui a ocorrência no mediterrâneo, em países como Grécia, Itália e Israel, assim como na Arábia Saudita, Índia e EUA. No Brasil, a grande diversidade e miscigenação étnica promove uma incidência muito distinta entre as diversas regiões. Dito isso, retornamos aos perfis possíveis, a depender da herança genética. Anemia Falciforme: é resultante da herança de um gene betaS de ambos os genitores, o que torna o indivíduo homozigoto para a hemoglobina S, e por isso não há HbA1 sendo formada. A criança nascerá com: HbS (duas globinas alfas e duas S – que ficaram no lugar das betas), HbA2 (lembrando que está em torno de 2% somente) e HbF que tenderá a aumentar (em torno de 8%, podendo chegar até a 25%). O aumento da HbF funciona como um mecanismo de defesa, visto que essas hemácias não sofrem falcização, e pode inclusive ser uma das bases do tratamento. • CM 82 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Traço falciforme: são indivíduos heterozigotos para a HbS, os quais raramente apresentam falcização e por isso não apresentam repercussões hematológicas significativas. Os níveis hematimétricos são normais e as complicações são extremamente incomuns, já que menos de 50% das hemácias são comprometidas. Quando há algum evento com um paciente nesta condição, geralmente ocorre nos rins devido ao ambiente propício à falcização. Outros quadros já foram descritos, porém, são muito raros, como falcização em grandes cirurgias e em viagens aéreas não pressurizadas, aumento do risco de tromboses e carcinoma medular renal. O acompanhamento médico não é necessário, visto que a maioria dos pacientes jamais terá qualquer intercorrência, sendo orientado somente o aconselhamento genético pela possibilidade de filhos com a homozigose para a HbS. Hemoglobinopatia SC: a hemoglobina C é composta por uma variante estrutural também de cadeia beta resultante da mutação no mesmo códon que leva à HbS, mas com desenvolvimento de uma hemoglobina do tipo C. Porém, a HbC não participa da polimerização, por isso a hemoglobinopatia SC possui uma clínica mais benigna que a homozigose S. Mesmo sendo um quadro mais leve, esses pacientes podem ter todas as complicações relacionadas à anemia falciforme. Além disso, devido ao aumento da viscosidade sanguínea, têm maior chance de alterações oftalmológicas e osteonecrose femoral e umeral. S/beta talassemia: decorre da associação entre alterações genéticas de hemoglobina S e beta talassemia, podendo ser de dois tipos: S/ B0 quando há ausência total de HbA1; e S/B+ quando a falta de HbA1 é parcial. • • • CM 83 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias No primeiro tipo, a doença manifesta-se de forma semelhante à anemia falciforme, com eletroforese mostrando somente HbS e altos níveis de HbA2, além de hemograma com microcitose e hipocromia. A presença de anemia hipo/micro com altos valores de hemoglobina A2 é o que diferencia da anemia falciforme. No segundo tipo, os sintomas variam de moderados a graves a depender da mutação envolvida. Figura 28. Tipos de doença e padrão na eletroforese de Hb. DIAGNÓSTICO Logo ao nascer, as crianças devem ser submetidas a um teste de avaliação de anemia falciforme (teste do pezinho), pois já foi comprovado que o início do cuidado precoce reduz significativamente a mortalidade e melhora a qualidade de vida deste indivíduo. CM 84 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias O exame básico para o diagnóstico da anemia falciforme é a eletroforese de hemoglobina. Esse exame mostra a presença preponderante de HbS e aumento da HbF. No hemograma, vemos hemoglobina em torno de 6-10 g/dl, normocrômica e normocítica, com contagem elevada de reticulócitos. Ocasionalmente há eritroblastos circulantes. No esfregaço sanguíneo, podemos ver as famosas hemácias em forma de foice. Com o passar do tempo, também vamos observando a formação de corpúsculos de Howell-Jolly devido ao hipoesplenismo. Figura 29. Corpúsculos de Howell-Jolly (setas), alteração que surge no contexto do hipoesplenismo. Outras alterações de exames complementares: CM 85 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Sinais de hemólise: elevação de bilirrubina indireta, redução da haptoglobina e elevação de DHL. Leucocitose inclusive com desvio à esquerda (nem sempre correspondendo a infecção) e plaquetose: decorrentes da estimulação da medula óssea devido à hipofunção esplênica e ao quadro inflamatório crônico. Ferritina pode estar elevada devido às transfusões crônicas. Avaliação da medula óssea: hiperplasia eritroide. • • • • CM 86 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias QUADRO CLÍNICO As manifestações clínicas são diversas e podem acometer todos os órgãos. São secundárias principalmente à oclusão vascular e, em menor grau, à anemia. Ocorrem após os seis meses de vida, pois é quando há declínio dos níveis de hemoglobina fetal. Os pacientes podem passar longos períodos sem manifestações clínicas, o que configura a fase estável da doença. Porém, ela é interrompida pelas crises de falcização (vaso-oclusiva, aplástica, hemolítica e sequestro) ou outras complicações. Para as provas, é importante saber as principais complicações e suas características marcantes. Pode ser cobrado o diagnóstico e o manejo delas! CM 87 Clínica MédicaAnemias e Hemoglobinopatias Crise vaso-oclusiva: são episódios muito dolorosos característicos desse grupo de pacientes. A frequência e a gravidade variam de acordo com cada indivíduo e a fase da vida. São mais comuns entre a terceira e a quarta décadas de vida. Crises muito frequentes levam a redução de sobrevida. As crises podem ter alguns gatilhos, incluindo infecção, desidratação e estresse emocional. Todo o processo é desencadeado pela oclusão microvascular, principalmente da medula óssea devido à falcização, gerando então isquemia e resposta inflamatória. Os sítios mais acometidos são ossos longos, articulações e região lombar, mas também podemos ter comprometimento de face, couro cabeludo, tórax e pelve. • CM 88 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias O tratamento envolve hidratação e analgesia. Muitas vezes há necessidade do uso de opioides. É necessário também buscar e tratar fatores desencadeantes. A crise grave é definida pela necessidade de analgesia endovenosa por mais de 4 horas. Quando esse tipo de situação ocorre mais de três vezes por ano, consideramos que o paciente está com evolução clínica grave. Crise aplástica: é uma insuficiência transitória da eritropoiese, cursando com queda significativa da hemoglobina e supressão também dos reticulócitos. A causa mais comum é a infecção pelo parvovírus B19. A maioria dos casos acomete crianças, uma vez que nos adultos há imunidade por exposição prévia. Neste último grupo, a aplasia ocorre relacionada a infecções por Streptococcus pneumoniae, Salmonela e Epstein-Barr. Pode evoluir com necrose extensa da medula óssea, febre, dor e leucoeritroblastose. Outras causas menos comuns desta complicação são a oferta demasiada de oxigênio por pelo menos dois dias, inibindo a produção • CM 89 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias de eritropoetina; e a deficiência de ácido fólico. Crise hemolítica: também chamada de hiper-hemolítica, é o aumento súbito da hemólise, cursando com agravamento da anemia e icterícia. Geralmente está relacionada à infecção por micoplasma, deficiência de G6PD e esferocitose hereditária. Importante ressaltar que é um tipo raro de crise e que seu diagnóstico depende da exclusão de outras patologias semelhantes, como hepatites, colestase intra-hepática e colelitíase. Crise de sequestro esplênico: quadro grave com considerável mortalidade, que acontece mais comumente entre o 6º e o 24º mês de vida. Caracterizado por um acúmulo brusco de sangue no baço, determinando queda de dois pontos da hemoglobina, hiperplasia compensatória da medula óssea e aumento esplênico. Infecção: é a principal causa de morbimortalidade na anemia falciforme, principalmente na infância. Está mais comumente associada a germes encapsulados. Até os quatro anos, o risco de • • • CM 90 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias infecção grave é maior, sendo mais comum quadros de meningite por pneumococo, pneumonia, osteomielite e infecção urinária. A razão pela qual esses indivíduos são mais susceptíveis a infecções ainda não é esclarecida, mas está relacionada às múltiplas lesões teciduais e à asplenia. Lembrem que antes dos seis anos acontece a autoesplenectomia, e mesmo naqueles onde o baço permanece, há uma asplenia funcional. Um tema que costuma cair nas provas é a ocorrência de osteomielite secundária à infecção por Salmonella typhimurium. S. aureus também pode causar. Já para infecções do trato urinário o microrganismo mais relacionado é a Escherichia coli, uma bactéria gram negativa. Complicações cardíacas: a cardiomegalia está presente desde a juventude devido aos mecanismos hiperdinâmicos compensatórios existentes. Neles, a pressão arterial é geralmente inferior ao da população em geral, e podemos observar com certa frequência insuficiência cardíaca a partir da segunda década de vida. Os eventos isquêmicos não são comuns. Síndrome torácica aguda: como o próprio nome diz, há dor torácica, febre, dispneia, queda de hemoglobina e opacidade nova na radiografia. São eventos graves responsáveis pela maior parte das mortes nos portadores de anemia falciforme, e a segunda causa mais comum de hospitalização. É desencadeada por infarto em esterno ou costela, pneumonia, embolia pulmonar ou pós-necrose de medula. • • CM 91 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias O tratamento envolve antibioticoterapia agressiva, com cobertura para germes gram-positivos e gram-negativos, suporte de oxigênio caso a saturação esteja ≤ 92% e transfusão de concentrado de hemácias, que pode ser simples em casos mais leves ou até transfusões de substituição (aquela onde visamos HbS menor que 30%) nos quadros moderados a graves. Figura 30. Infiltrado pulmonar novo em paciente com síndrome torácica aguda. Infecção e infarto pulmonar devem ser considerados. Complicações neurológicas: AVEi, hemorragia cerebral e ataques isquêmicos transitórios podem acontecer. O AVC tem incidência bimodal, antes dos seis e após os trinta anos. Já a hemorragia é mais frequente entre as segunda e terceira décadas de vida, principalmente em decorrência da formação de novelos vasculares (doença de Moyamoya). • CM 92 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Quando acontecem complicações neurológicas, é recomendada transfusão de hemácias por um período não inferior a cinco anos na tentativa de manter a hemoglobina S inferior a 30%. Em crianças, o doppler transcraniano é capaz de detectar altos fluxos sanguíneos em vasos que irrigam o encéfalo, o que está relacionado ao aumento do risco de isquemia, permitindo o início de esquema de transfusão precoce nesses indivíduos. Complicações hepatobiliares: a formação de cálculos biliares é uma complicação típica desses adultos, e acontece devido à excreção permanente e alta de bilirrubina. A colecistectomia está recomendada mesmo nos pacientes assintomáticos devido ao alto risco de intercorrências. Outros problemas são a falcização intra-hepática detectada pela alteração dos marcadores hepáticos e a hemossiderose secundária às transfusões. Há um quadro denominado síndrome do quadrante superior direito, no qual há hiperbilirrubinemia extrema, aumento do fígado, febre e muita dor. Possui como diagnósticos diferenciais pancreatite, colecistite, hepatite aguda, crise dolorosa e sequestro hepático. O tratamento consiste em transfusões seriadas com o intuito de alcançar hemoglobina S menor que 10%, sendo de difícil controle nos adultos. Complicações genitourinárias: o rim talvez seja o órgão mais suscetível à falcização e consequente infarto medular. A manifestação mais comum é a hematúria, com resolução simples com repouso e hidratação, com poucos casos necessitando de transfusão. Proteinúria também pode ocorrer, e o uso de IECA deve ser considerado. • • CM 93 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Outra complicação comum é o priapismo, resultante do fechamento dos corpos cavernosos e esponjosos pelas hemácias falcizadas, impedindo o esvaziamento do pênis e mantendo-o ereto. Pode se apresentar de duas formas: aguda ou intermitente. A forma aguda é uma ereção prolongada dolorosa com duração de horas, enquanto a forma intermitente se apresenta por meio de episódios variáveis, com duração de minutos, que podem acontecer até várias vezes ao dia. O tratamento é feito com repouso, hidratação, analgesia e indicação de transfusão em casos graves (almejando HbS menor que 30%). Caso esse tratamento não seja resolutivo, é necessária intervenção cirúrgica, com risco de disfunção erétil comosequela. Complicações oftalmológicas: envolvem comprometimento das conjuntivas, infartos orbitários, hemorragia retiniana e retinopatia proliferativa. O seguimento oftalmológico desde a infância pode prevenir cegueira e progressão das alterações. Complicações osteoarticulares: a forma mais comum de acometimento é a osteonecrose asséptica de cabeça de fêmur, afetando até 10% dos doentes com hemoglobinopatia SS e 50% dos SC. Ocorre com maior frequência em pacientes mais velhos, com deleção do gene alfa da globina, com mais episódios dolorosos e baixos níveis de hemoglobina. O tratamento é a analgesia associada a redução da carga no membro comprometido, ou até mesmo cirúrgico. Pode haver também necrose de corpos vertebrais e úmero, bem como desenvolvimento precoce (a partir dos 18 anos) de osteoporose. Complicações cutâneas: os pacientes podem apresentar úlceras nos terços inferiores das pernas, principalmente nos maléolos. É uma complicação com grande morbidade e de difícil controle, pois envolve repouso prolongado, antibioticoterapia e higiene local constante. Diversos outros tratamentos são propostos para casos • • • CM 94 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias crônicos, mas sem eficácia comprovada. Além disso, é importante o alerta para a osteomielite. Figura 31. Úlceras crônicas em paciente falciforme, no terço inferior dos membros inferiores. Complicações obstétricas: atualmente, as complicações nesse subgrupo de falcêmicos está próximo ao da população geral, mas quando ocorrem podem ser: aborto espontâneo, restrição do crescimento intrauterino, infecções, insuficiência cardíaca congestiva, trombose, pré-eclâmpsia e dor óssea. Para minimizar os riscos, a gestante deve ser acompanhada de perto e seu trabalho de parto conduzido para ter o menor tempo e esforço possível. Não há segurança em manter o uso de hidroxiureia, e nem tampouco evidências robustas acerca de transfusão profilática. • CM 95 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias TRATAMENTO Como vocês puderam perceber, esses pacientes são muito complexos e exigem um atendimento regular e especializado por equipe multidisciplinar. O cuidado contínuo é necessário, tanto através do uso de medicações, dentre elas o ácido fólico e a hidroxiureia, quanto pelo controle de infecções, crises e complicações. O tratamento visa a qualidade de vida do doente. O transplante de medula óssea aparentado é a única forma de tratamento curativo até o momento, mas está indicado somente para casos graves com um doador compatível na família. CM 96 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Promover o aumento da disponibilidade de hemoglobina fetal é uma forma importante de controle das crises. Para isso, temos disponíveis algumas medicações, como a hidroxiureia e a azacitidina. A hidroxiureia é capaz de induzir aumento dos níveis de hemoglobina fetal por mecanismo não completamente elucidado, com consequente redução da falcização e dos níveis de hemólise. Com menos hemólise acontecendo no organismo, menor é o consumo de óxido nítrico intravascular, permitindo que ocorra a vasodilatação. Outros efeitos da hidroxiureia são a redução na contagem de leucócitos e a adesão celular, diminuindo assim o processo inflamatório dos pacientes falcêmicos. Indicações de uso da hidroxiureia incluem: Crises álgicas frequentes. Anemia sintomática grave. Síndrome torácica aguda prévia. AVC prévio. Desde a infância, alguns cuidados para prevenir infecções são necessários. Os pacientes falcêmicos precisam manter toda a carteira de vacinação atualizada, principalmente contra pneumococo, hemófilo e meningococo, devido à asplenia funcional. Também precisam receber vacina para influenza anual. Todas as crianças com doença falciforme (SS, SC e S-Beta/talassemia) devem receber penicilina profilática (oral ou benzatina a cada 21 dias) desde os 3 meses até pelo menos 5 anos. • • • • CM 97 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Muitos pacientes irão necessitar de transfusões, seja no manejo crônico ou nas crises e complicações. Porém, existem riscos associados, como aloimunização, contaminação e reações transfusionais, além de causarem acúmulo de ferro. Por isso, as indicações de transfusões simples ou de troca objetivando HbS menor que 30% são selecionadas e devem ser seguidas. Figura 32. Transfusão no paciente com anemia falciforme. CM 98 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias TALASSEMIAS INTRODUÇÃO As talassemias representam os defeitos hereditários da hemoglobina mais prevalentes, além de serem a doença genética mais comum no mundo. Estas desordens tipicamente causam alteração QUANTITATIVA, CM 99 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias isto é, produção reduzida ou ausente da(s) cadeia(s) alfa ou beta da hemoglobina. Já vimos acima a composição normal da hemoglobina. Aproveite para relembrar: Hemoglobina A (alfa-2 beta-2) = 97%. Hemoglobina A2 (alfa-2 delta-2) = 2%. Hemoglobina F (alfa-2 gama-2) = 1%. FISIOPATOLOGIA Existem dois subtipos de talassemias: a alfa e a beta talassemia. São caracterizadas pela redução ou ausência de uma determinada cadeia de globina, levando ao acúmulo e efeitos tóxicos da cadeia que continua sendo produzida normalmente. Como os próprios nomes sugerem, na beta-talassemia, a cadeia beta é a que tem sua produção reduzida. Já na alfa-talassemia, isso ocorre com a cadeia alfa. Os mecanismos pelos quais a diminuição da síntese de uma cadeia da hemoglobina leva à anemia são: Diminuição da síntese de hemoglobina. Acúmulo da cadeia de globina que está sendo produzida normalmente e acaba ficando em excesso. Isto leva à formação de • • • 1. 2. CM 100 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias homotetrâmeros (quatro cadeias do mesmo tipo) insolúveis, que se precipitam e formam corpos de inclusão tóxicos, que matam o precursor eritroide em desenvolvimento ainda na medula óssea. Este é o fenômeno da eritropoiese ineficaz (hemólise dentro da própria medula óssea). Estes mesmos corpúsculos de hemoglobina precipitada podem continuar presentes dentro da hemácia circulante, que é então retirada de circulação pelo baço, gerando hemólise crônica extravascular. Como já sabemos, hemácias com pouca hemoglobina são hipocrômicas e microcíticas. Além disso, a ocorrência de eritropoese ineficaz leva ao aumento de absorção intestinal de ferro, por mecanismos não muito esclarecidos, o que pode causar hemocromatose mesmo na ausência de reposição inadvertida de sulfato ferroso ou de transfusões – fenômeno da hemocromatose eritropoiética. Estes dois parâmetros (anemia microcítica + hiperferremia) nos fazem lembrar de outro diagnóstico diferencial importante: a anemia sideroblástica. Por isso, na dúvida entre estes diagnósticos (AS x talassemia) uma eletroforese de hemoglobina deve ser solicitada. BETA-TALASSEMIAS Na beta-talassemia, a diminuição da cadeia beta leva à falha da produção do tetrâmero alfa-2 beta-2 da hemoglobina A, reduzindo a quantidade de hemoglobina A em cada hemácia. O resultado é a formação de hemácias microcíticas/hipocrômicas e hemácias em alvo. 3. CM 101 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias A alteração genética está no gene da cadeia beta, que possui dois lóci (um de origem materna e outro de origem paterna), e leva à diminuição da quantidade de cadeia beta produzida. Com isso, o indivíduo ou não produz nada ou muito pouca cadeia beta. Estas mutações genéticas podem determinar dois tipos de genes beta- talassêmicos: um incapazde produzir cadeia beta (gene beta 0) e um que produz uma pequena quantidade de cadeia beta (gene beta +). Assim, os genótipos possíveis são: β/β: pessoa normal. β0/β0 e β+/β0: beta-talassemia major – não produz ou produz muito pouca cadeia beta. β+/β+: beta-talassemia intermedia – produz pouco a cadeia beta. β0/β e β+/β: beta-talassemia minor – produz um pouco abaixo do normal. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS A intensidade dos sintomas depende do grau de produção da cadeia beta, assim como da coexistência de outras anormalidades. Beta-talassemia Major – Anemia De Cooley • • • • CM 102 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Nesse subtipo, os sintomas ficam evidentes após os primeiros seis meses de vida, conforme os níveis de HbF começam a declinar. É caracterizada por anemia grave, com Hb entre 3,0 e 5,0 g/dl. As principais manifestações clínicas são: Icterícia (anemia hemolítica). IC de alto débito e hipertensão pulmonar (a principal causa de óbito nesses pacientes é a IC descompensada). Deformidades ósseas devido à hipertrofia da medula óssea secundária à eritropoese ineficaz: proeminência dos maxilares e aumento da arcada superior com separação dos dentes e bossa frontal, levando à “fácies talassêmica” ou “fácies de esquilo”. Fraturas patológicas por adelgaçamento da cortical de ossos longos e vértebras por expansão da medula óssea. Baixa estatura, retardo de crescimento, disfunção endócrina, susceptibilidade a infecções (pela asplenia). Litíase biliar (cálculos de bilirrubinato de cálcio) e úlceras maleolares pela hemólise crônica. Hepatoesplenomegalia pela hemólise crônica e eritropoese extramedular (a anemia severa leva ao aumento da liberação de eritropoetina e consequente hiperplasia eritroide, que pode ser exuberante e produzir tecido eritropoiético no fígado e no baço). • • • • • • • CM 103 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Hemocromatose por transfusão e por aumento da absorção intestinal de ferro, aumentando o risco de cirrose hepática e de carcinoma hepatocelular. Aumento no risco de reações transfusionais e doenças infecciosas devido às transfusões constantes. Infecções por Yersinia enterocolítica: associada com a sobrecarga de ferro e com a quelação dele. RX de crânio: hair-on-end – reflexo da expansão medular. Osteoporose é comum (o mecanismo ainda não é bem explicado). Figura 33. Rx crânio com o aspecto de “hair-on-end”, caracterizado por reação periosteal e alongamento trabecular. Fonte: https://radiopaedia.org/cases/thalassaemia-with-hair-on- end-sign-1 • • • • • CM 104 https://radiopaedia.org/cases/thalassaemia-with-hair-on-end-sign-1 https://radiopaedia.org/cases/thalassaemia-with-hair-on-end-sign-1 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Talassemia Intermedia Aqui o quadro é mais brando do que o descrito para a anemia de Cooley, pois estes pacientes possuem uma produção intermediária de cadeia beta pelos eritroblastos. Frequentemente, o diagnóstico é feito na adolescência ou idade adulta. A maioria se apresenta com esplenomegalia e expansão óssea proeminente. Quando há eritropoese ineficaz significativa, pode ocorrer hiperabsorção de ferro, levando a sobrecarga de ferro mesmo sem transfusões. A Hb costuma ficar na faixa entre 8 e 10 g/dl. O crescimento, desenvolvimento e fertilidade são preservados. Esses pacientes têm maior risco de trombose que na talassemia major, sendo que os esplenectomizados têm risco ainda mais elevado. Talassemia Minor Os pacientes costumam ser assintomáticos, podendo apresentar anemia microcítica leve (Hb entre 9 e 11 g/dL). Os principais indícios para o diagnóstico são: microcitose (VCM geralmente 1.000 mg/dl e ferro hepático > 3 mg/g. Ácido fólico pode ser útil. Esplenectomia é indicada quando as necessidades transfusionais aumentam > 50% em um ano. Em geral, após os 5 anos de idade para diminuir o risco de sepse por encapsulados. Não esquecer a vacinação antipneumocócica! Transplante de medula óssea alogênico é o único tratamento curativo. ALFA TALASSEMIAS Nesta patologia, o problema está na produção da cadeia alfa. Existem dois genes da cadeia alfa da globina em cada par do cromossoma 16, com 2 alelos de origem materna e 2 de origem paterna. As alfa talassemias resultam da deleção de um ou mais genes alfa. Assim, os genótipos possíveis de se encontrar são: 𝛂𝛂/𝛂𝛂: indivíduo normal. 1. 2. 3. 4. 5. • CM 107 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias 𝛂𝛂/𝛂– (1 deleção): carreador assintomático. 𝛂𝛂/-- (2 deleções): alfa talassemia minor (heterozigoto alfa 0). 𝛂-/𝛂- (2 deleções): alfa talassemia minor (heterozigoto alfa +). 𝛂-/-- (3 deleções): > doença da hemoglobina H (alfa talassemia intermedia). --/--(4 deleções): hidropsia fetal. Apenas se há 3 deleções (doença da Hb H) ou 4 deleções (hidropsia fetal), há sintomas da doença. Assim como na beta-talassemia, o desequilíbrio na síntese de globinas resulta em diminuição da síntese de hemoglobina e com isto, anemia microcítica e hipocrômica. O excesso de cadeias gama e beta formam tetrâmeros chamados hemoglobina de Bart (4 cadeias gama) e Hemoglobina H (4 cadeias beta), respectivamente. Como estes tetrâmeros são mais solúveis, a formação de corpúsculos de inclusão é menos frequente do que na beta talassemia. Assim, apesar de ser uma anemia hemolítica, não existe muita eritropoese ineficaz. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Os sintomas variam conforme o subtipo e genótipo. • • • • • CM 108 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Hidropsia Fetal: ao contrário da beta-talassemia (que se manifesta após os 6 meses de vida – pela proteção conferida pela Hb Fetal), a alfa talassemia pode se manifestar tanto na vida fetal como na vida pós-natal. A ausência de cadeias alfa (—/—) é incompatível com a vida extrauterina, levando ao nascimento de natimorto ou bebê com hidropsia fetal, que rapidamente evolui a óbito. Frente à ausência de cadeias alfa, há junção das cadeias gama em tetrâmeros γ4, ou hemoglobina de Bart. Esta hemoglobina é solúvel e não precipita, porém, possui altíssima afinidade pela molécula de O2, sendo incapaz de liberá-la aos tecidos. Isso leva à hipóxia tecidual severa, resultando em edema, insuficiência cardíaca congestiva e morte. Doença da Hemoglobina H: há anemia, mas, a criança nasce sem maiores problemas. Isso ocorre pelaausência de 3 genes. Os tetrâmeros de cadeias beta (hemoglobina H) são instáveis, causando precipitação dentro de algumas células circulantes, o que leva à hemólise : há anemia hemolítica moderada a grave. Alfa talassemia minor: cursa sem sintomas, apenas alterando hemograma (hipocromia e microcitose), sem grandes significados clinicamente. • • • CM 109 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias PARTE 5: ANEMIAS HEMOLÍTICAS Estamos de olho em você que já leu o título e está querendo guardar a apostila pra ver esse tema “depois” (das provas de residência). Respira e não pira! Vamos trazer conceitos de forma direta, simplificada e da forma que vai cair na sua prova. Este é um grupo de doenças bastante extenso, mas que apresenta uma característica em comum: são anemias HIPERPROLIFERATIVAS. As causas de anemias hiperproliferativas são hemólise e sangramentos agudos. Vamos abordar apenas as hemolíticas aqui. A anemia falciforme e as talassemias também são marcadas por hemólise, mas já discutimos elas nessa apostila. CM 110 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Frente a destruição periférica das hemácias, há aumento da produção de eritrócitos, aumentando o número de formas jovens na circulação, ou seja, RETICULOCITOSE. E se o processo hemolítico for leve? Daí, há capacidade medular de compensação e pode não ocorrer anemia. Porém, uma situação de equilíbrio como esta pode acabar caso ocorra qualquer sobrecarga ao sistema hematopoiético, levando a diminuição da produção de hemácias e a anemia intensa. De uma forma ou de outra, não importa qual a causa ou etiologia, há alguns achados clínicos e laboratoriais comuns que indicam hemólise. Vamos relembrar quais são: Clínica: anemia, icterícia, esplenomegalia, litíase biliar. Reticulocitose. Hiperbilirrubinemia indireta, LDH elevado, haptoglobina reduzida. Aumento na excreção de urobilinogênio. Hemossiderina e hemoglobina na urina (hemólise intravascular). MO: hiperplasia eritroide. • • • • • • CM 111 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Antes de mergulharmos nos diagnósticos etiológicos, precisamos definir grandes grupos para não confundir na hora da prova. As anemias hemolíticas podem ser classificadas em: Intravascular x extravascular: a intravascular é aquela em que, como o próprio nome diz, há destruição de hemácias dentro dos vasos sanguíneos. Geralmente devido trauma mecânico, destruição por complexo autoimune, pelo sistema complemento ou por fatores tóxicos. A hemoglobina é então reabsorvida pelos túbulos proximais renais e quando essa reabsorção atinge sua capacidade máxima, o excesso é excretado na urina. Deve ser diferenciada da mioglobinúria e hematúria. Já na hemólise extravascular, as hemácias são retiradas do sangue por macrófagos localizados principalmente no baço, sendo este o tipo mais comum de hemólise. • CM 112 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Imunes x não imunes: o grande fator diferencial será o teste de Coombs. Um Coombs direto positivo indica mecanismo imune (raramente pode ocorrer anemia imune com teste de Coombs negativo). E como podemos diferenciá-las? Através da história e exame clínico. Devemos estar atentos à história familiar de anemia, seja por herança genética, secundária ao uso de medicamentos, por esplenomegalia congestiva etc. Além disso, a avaliação do esfregaço de sangue periférico pode ser bastante útil. Congênitas x adquiridas: as condições congênitas são defeitos intrínsecos das hemácias e podem acontecer na membrana, nos complexos enzimáticos ou na própria hemoglobina. A exceção é de uma doença mais rara (e famosa em questões difíceis) a hemoglobinúria paroxística noturna, que é uma condição intrínseca adquirida. As condições adquiridas, no entanto, ocorrem por defeitos extrínsecos das hemácias. Se esses defeitos acontecem na microcirculação, chamamos de microangiopatias; se na macro, macroangiopatias. Agora sim… vamos discutir um pouco sobre os principais tipos de anemia hemolítica. ANEMIAS HEMOLÍTICAS AUTOIMUNES – AHAI • • CM 113 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias DEFINIÇÃO É uma desordem de origem idiopática ou secundária a doenças autoimunes, ou drogas. Ocorre a formação de anticorpos contra antígenos presentes nas membranas das hemácias, permitindo a destruição dessas células pelo sistema reticuloendotelial no baço e no fígado. A AHAI é a etiologia mais comum de anemia hemolítica adquirida (exceto em países em que a malária é endêmica), sendo mais frequente em mulheres, sua incidência aumenta com a idade, ficando mais frequente após os 50 anos. FISIOPATOLOGIA A AHAI acontece por anticorpos quentes (IgG) ou anticorpos frios (IgM): mas o que isso quer dizer? A definição dessa classificação surge pela temperatura na qual os anticorpos se ligam aos antígenos da membrana da hemácia de forma ideal: 37 °C oumicroesferócitos e policromatofilia em caso de anticorpos quentes e aglutinação espontânea, mas pobre em microesferócitos na por anticorpos frios. TRATAMENTO O tratamento é necessário quando a anemia é intensa e acontece por hemólise (não anemia de outra causa). É baseado em: Glicocorticoides: cerca de 25% dos pacientes apresentam remissão completa e estável com o uso de glicocorticoides, sendo, na anemia hemolítica por anticorpos quentes, a primeira linha para tratamento. 50% dependerão de doses baixas contínuas e 25% não responderá ou o fará transitoriamente, ou ainda não será capaz de tolerar o corticoide. A droga de preferência é a prednisona na dose de 1 a 1,5 mg/kg/dia e espera-se uma resposta adequada em 3-4 semanas. Embora não haja uma duração de tratamento bem estabelecida, costuma-se manter até a hemoglobina normalizar e depois desmamar lentamente, ao longo de semanas a meses, para então suspender. Não estão indicados para a AHAI por anticorpos frios. • CM 117 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Esplenectomia: está indicada nos pacientes que não respondedores aos glicocorticoides ou que apresentam recaídas durante o desmame. Remissão completa pode ser observada em até 2/3 dos casos e costuma ser duradoura. Também não é indicada para a AHAI por anticorpos frios - lembrem que nela a hemólise é intravascular ou no fígado! Anticorpos monoclonais e imunossupressores: são indicados para pacientes refratários à corticoterapia e nos quais a esplenectomia está contraindicada. Principal droga: rituximab (anti-CD20). Outros anticorpos monoclonais ainda em fase de experimentação seriam alemtuzumab (anti-CD52) e natalizumab (alfa4 integrina). Outras drogas: azatioprina, ciclosporina, micofenolato, imunoglobulina (tornaram-se agentes de terceira linha com o advento do rituximab). • • CM 118 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias CM 119 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias ANEMIAS HEMOLÍTICAS NÃO IMUNES (HEREDITÁRIAS) Nesse grupo temos as anemias por defeitos na membrana eritrocitária e por alterações enzimáticas. DEFEITOS DE MEMBRANA CM 120 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Aqui há alterações na forma e flexibilidade das hemácias que levam à sua destruição. Incluem: Esferocitose hereditária. Eliptocitose hereditária. Piropoiquilocitose hereditária. Estomatocitose hereditária. A membrana do eritrócito é sustentada por um citoesqueleto proteico, como podemos ver na figura abaixo. O principal componente desse citoesqueleto é a espectrina, uma proteína helicoidal formada por cadeias alfa e beta, que interage com outra proteína chamada actina. Essa interação é o que mantém a rede - por “forças horizontais” e é reforçada pela proteína 4.1. As “forças verticais”, responsáveis pela ancoragem das fibras de espectrina na membrana eritrocitária, ficam a cargo da anquirina - uma “ponte” entre a espectrina e a proteína banda 3 (glicoforina). ESTRUTURA DA MEMBRANA ERITROCITÁRIA • • • • CM 121 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Figura 35. Citoesqueleto da membrana eritrocitária. Fonte: https://slideplayer.com.br/slide/ 9515464/ Quando há defeitos nas “forças verticais” temos a esferocitose hereditária, mas, se esses defeitos acontecem geneticamente nas “forças horizontais” o que acontece é a eliptocitose hereditária e suas variantes. O citoesqueleto eritrocitário garante não só a forma bicôncava das hemácias, mas, também, confere sustentação e maleabilidade a elas. Essa deformabilidade é extremamente necessária para a passagem eritrocitária através dos sinusoides esplênicos. Vamos falar agora dos quatro principais tipos de defeitos de membrana. Para as provas, foquem na esferocitose hereditária. ESFEROCITOSE HEREDITÁRIA CM 122 https://slideplayer.com.br/slide/9515464/ https://slideplayer.com.br/slide/9515464/ Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias A esferocitose é caracterizada por hemácias em forma de esferas (esferócitos). Por esse motivo, elas se tornam pouco flexíveis e osmoticamente frágeis. A fisiopatologia envolve defeitos em moléculas do citoesqueleto da membrana da hemácia: anquirina e espectrina. Esses defeitos levam a falha na deformação das células, dificultando a passagem pelos cordões de Billroth. O resultado é a fagocitose pelos macrófagos, levando à anemia hemolítica. QUADRO CLÍNICO As manifestações clínicas podem ser várias: os pacientes podem ser assintomáticos ou até ter anemia hemolítica intensa. Quando assintomáticos ou com manifestações leves, o diagnóstico pode ser feito só na adolescência ou na fase adulta, quando os pacientes desenvolvem litíase biliar por cálculos pigmentados, por exemplo. Um achado típico é a esplenomegalia sintomática, levando à saciedade precoce, dor em hipocôndrio esquerdo e hiperesplenismo. Assim como vimos na anemia falciforme, podem ocorrer também crise aplástica (pelo parvovírus B19), crise hiper-hemolítica e crise megaloblástica (pela deficiência de ácido fólico). Os pacientes com hemólise grave podem apresentar hematopoiese extramedular levando à formação de massas próximas às vértebras visíveis em radiografias (simulando neoplasias). CM 123 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias DIAGNÓSTICO Na avaliação diagnóstica, há presença dos marcadores de hemólise (aumento de bilirrubina indireta e LDH, redução de haptoglobina, reticulocitose). No esfregaço de sangue periférico, podemos encontrar os esferócitos (hemácias arredondadas e sem palidez central). Lembrar do diagnóstico diferencial deles, principalmente com anemia hemolítica autoimune. Figura 36. Esfregaço sanguíneo mostrando os esferócitos, hemácias arredondadas, sem palidez central (seta vermelha). Fonte: https://ficherodehematologia.wordpress.com/ 2016/10/15/esferocitos/ CM 124 https://ficherodehematologia.wordpress.com/2016/10/15/esferocitos/ https://ficherodehematologia.wordpress.com/2016/10/15/esferocitos/ Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Deve-se levar em consideração a história familiar de anemia e/ou esplenectomia e o teste de Coombs, que na esferocitose hereditária é negativo. No hemograma, o CHCM é aumentado, de forma clássica, pela desidratação celular. O exame confirmatório é o teste da fragilidade osmótica, que utiliza soluções salinas gradativamente mais hipotônicas. Na esferocitose há lise gradativa de hemácias porque os microesferócitos são exageradamente sensíveis à hipo-osmolaridade, por terem uma área de superfície pequena em relação ao volume eritrocitário. Já existem alguns estudos moleculares que permitem a detecção das mutações associadas à esferocitose hereditária, contudo, seu uso ainda é restrito. TRATAMENTO O tratamento deve incluir suplementação profilática de ácido fólico, porém a terapêutica definitiva é a esplenectomia, que leva à melhora da anemia na maioria dos pacientes (apesar de não tratar o defeito, persistindo a esferocitose). A indicação da esplenectomia é para pacientes sintomáticos e deve ser realizada após os cinco anos, diminuindo assim o risco de infecções graves por micro-organismos encapsulados. ELIPTOCITOSE HEREDITÁRIA CM 125 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias A eliptocitose é uma doença autossômica dominante em que há defeito na síntese de espectrina ou da proteína 4.1 (proteínas do citoesqueleto das hemácias). As hemácias formadas assumem forma de elipse (eliptócitos), que ocupam mais de 60% das hemácias no esfregaço de sangue periférico. Em geral, a anemia é leve a moderada e sem grande componente clínico, sem necessidade de tratamento. Quando indicado,também é a esplenectomia, embora a resposta seja menor que na esferocitose. PIROPOIQUILOCITOSE HEREDITÁRIA Relacionada à eliptocitose, a piropoiquilocitose hereditária têm hemácias com formas bizarras, que se sofrem hemólise - geralmente grave - em temperaturas elevadas. Normalmente, é diagnosticada precocemente devido a seu quadro exuberante. É apenas parcialmente responsiva à esplenectomia. ESTOMATOCITOSE HEREDITÁRIA Diferentemente das outras patologias citadas anteriormente, o paciente com estomatocitose hereditária tem risco aumentado de eventos tromboembólicos pós-esplenectomia, não estando indicado este procedimento a não ser em casos de anemia grave. CM 126 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias DEFEITOS ENZIMÁTICOS Durante o processo de maturação, os glóbulos vermelhos perdem o núcleo, ribossomos e mitocôndrias, e assim, perdem também a sua capacidade de sintetizar proteínas e de realizar fosforilação oxidativa. Para sobreviver, a hemácia madura passa a depender de dois grupos enzimáticos que trabalham de forma ininterrupta, cíclica, para fornecer energia e proteger a hemácia do estresse oxidativo. Para a geração de energia a partir da glicólise, temos as enzimas do ciclo de Embden-Meyerhof. Quanto à ação antioxidante, temos o ciclo das pentoses ou via da hexose monofosfato. A princípio, esses nomes parecem um tanto complexos... Podem até ser. Mas para a prova e para a vida prática, os detalhes fisiológicos são menos importantes. Na verdade, a ideia que deve ficar é: na ausência de enzimas fundamentais dessas CM 127 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias duas vias, a hemácia terá sua vida encurtada e morrerá (hemólise). Resumindo, duas enzimas principais podem não estar presentes, o que precisamos é identificá-las! DEFICIÊNCIA DE PIRUVATO CINASE (PK) É a principal enzima do ciclo de Embden- -Meyerhof, o ciclo da energia. Na prova, não há muitas dicas, constando simplesmente no diagnóstico diferencial de qualquer forma de anemia hemolítica, especialmente naquelas em que não se chega a nenhum diagnóstico. O paciente pode ter hemólise de leve a grave, seja no período neonatal ou ao longo da vida. A esplenectomia costuma melhorar a clínica desses pacientes e a reposição de ácido fólico geralmente é necessária. Existe na literatura o relato de um paciente curado com transplante de medula óssea. Mas se cair uma questão sobre enzimopatia, é pouco provável que seja sobre a PK, mas sim a que aparece a seguir! DEFICIÊNCIA DE G6PD É a desordem no metabolismo da hemácia mais frequente. O gene que carrega essa alteração está no cromossomo X, e por isso, é mais comum em homens, que herdam o gene afetado de suas mães, geralmente portadoras assintomáticas. A hemólise ocorre por falha na geração de NADPH, levando a níveis insuficientes de glutation reduzido. Isto deixa o eritrócito susceptível à oxidação da hemoglobina por radicais oxidativos, como peróxido de hidrogênio. CM 128 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias A hemoglobina desnaturada se agrega e forma os corpúsculos de Heinz dentro do eritrócito. Algumas proteínas de membrana também são oxidadas e com isso ocorre diminuição da deformabilidade celular. Células que contêm corpúsculo de Heinz são destruídas parcial ou completamente no baço, resultando em células mordidas (bite cells – visualizadas no esfregaço do sangue periférico) e em hemólise. Figura 37. Imagem de hemácias com corpúsculos de Heinz (setas azuis). Fonte: https:// lgbm.ufms.br/servicos/exames-laboratorias/exames-laboratoriais-para-o-diagnostico-das- hemoglobinopatias/pesquisa-de-corpos-de-heinz/ CM 129 https://lgbm.ufms.br/servicos/exames-laboratorias/exames-laboratoriais-para-o-diagnostico-das-hemoglobinopatias/pesquisa-de-corpos-de-heinz/ https://lgbm.ufms.br/servicos/exames-laboratorias/exames-laboratoriais-para-o-diagnostico-das-hemoglobinopatias/pesquisa-de-corpos-de-heinz/ https://lgbm.ufms.br/servicos/exames-laboratorias/exames-laboratoriais-para-o-diagnostico-das-hemoglobinopatias/pesquisa-de-corpos-de-heinz/ Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Figura 38. Células mordidas ou bite cells: achado típico da deficiência de G6PD. Fonte: https://www.hemoglobinopatias.com.br/novcient/hbinstaveis.html. A gravidade da anemia hemolítica nos pacientes com deficiência de G6PD depende do tipo do defeito, dos níveis de atividade da enzima nos eritrócitos e do grau de estresse oxidativo. Ela pode ser primeiramente percebida durante eventos clínicos agudos que aumentam o stress oxidativo (crises hemolíticas), como infecções, cetoacidose diabética e uso de drogas oxidativas. As drogas mais comuns são: sulfas, nitrofurantoína, dapsona, primaquina e naftaleno (ingestão acidental de “bolinhas de naftalina”). As questões costumam cobrar alguma dessas! Nos casos mais graves (atividade enzimáticaestimuladores de colônias, como, por exemplo, a eritropoetina para a linhagem eritroide e o GM-CSF para granulócitos e monócitos. Uma vez formadas, essas células têm tempo de vida, sendo a média de 120 dias para as hemácias, 7-10 dias para as plaquetas e 6-8 horas para os granulócitos. Os linfócitos são mais duradouros, vivendo por anos. CM 9 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Figura 2. Hematopoiese iniciada em uma célula totipotente que dá início a linhagem mieloide e linfoide, com a maturação progressiva até o surgimento das células maturas (neutrófilos, macrófagos, plaquetas, eritrócitos e linfócitos). Além destes fatores estimulantes, para que a formação da hemácia e da hemoglobina ocorra, necessitamos de alguns nutrientes como ferro, vitamina B12, ácido fólico. Por isso, a falta destes nutrientes também pode ter relação com um quadro de anemia. CM 10 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Em resumo, toda hemácia é proveniente da medula óssea, através da eritropoiese/hematopoiese. O rim saudável produz a eritropoietina (pela célula tubular proximal), que estimula as células da medula óssea a produzir mais hemácias. A célula precursora da hemácia na medula óssea é o ERITROBLASTO. Para se tornar uma hemácia, o eritroblasto passará por dois processos: Perda do núcleo (hemácia é uma célula anucleada). Formação de hemoglobina (proteína intracelular). • • CM 11 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Dessa forma, se dará a formação da hemácia, com a função de “TRANSPORTAR HEMOGLOBINA”. Ao perder o núcleo e produzir hemoglobina, o eritroblasto estará pronto para ganhar a Circulação, na forma de RETICULÓCITOS (Hemácias imaturas). É isso mesmo, a medula óssea lança na corrente sanguínea reticulócitos (ao invés de hemácias, propriamente ditas). Após cerca de 24h os reticulócitos serão maturados em hemácias (células menores e menos coradas). Por isso, dizemos que os reticulócitos são marcadores de funcionamento da medula óssea. CM 12 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Figura 3. Princípios básicos da hematopoiese. HEMOGLOBINA A hemoglobina é uma proteína transportadora de oxigênio para os tecidos, sendo produzida nas mitocôndrias das células vermelhas e armazenada e transportada nas hemácias. CM 13 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Sua constituição é de 4 globinas combinadas individualmente a uma porção heme (para cada globina). Cada globina recebe uma denominação pela letra do alfabeto grego (alfa, beta, gama, delta). A porção heme é formada por quatro anéis aromáticos chamados protoporfirinas, com um ferro ferroso no centro, que é capaz de ligar o oxigênio, para permitir a ligação de 4 moléculas de oxigênio em cada hemoglobina. O normal é que o indivíduo possua a maioria das suas hemoglobinas formadas por 2 cadeias alfas e 2 cadeias beta, configurando a Hemoglobina A1 (97%), enquanto o restante é formado por 2 alfas e 2 deltas ( Hemoglobina A2 – 2%) e uma porção ínfima de 1% de Hemoglobina fetal, formada por duas alfas e duas gamas. CM 14 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Figura 4. Hemoglobina A1 (duas globinas alfa e duas beta), constitui a principal forma de hemoglobina circulante. Existem algumas anemias que se desenvolvem exatamente por problemas na formação da hemoglobina, como a anemia sideroblástica, a anemia ferropriva, a anemia de doença crônica, a anemia falciforme e as talassemias. É importante saber reconhecer essas condições e suas peculiaridades. CM 15 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Figura 5. Anemias com problemas na formação da hemoglobina. CM 16 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias HEMOGRAMA CM 17 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Exame simples, que sempre é pedido e que poucas vezes é interpretado de maneira correta. É o principal laboratório das anemias, embora para diferenciar o tipo de anemia, necessitem de mais exames que serão explicados em cada patologia. Os Índices hematimétricos possuem valores variáveis conforme a referência do laboratório, mas de maneira geral podem ser representados da seguinte forma: Hematimetria (contagem de hemácias): 4,2 – 5,7 milhões/mm³. Hemoglobina: 13,6 -16,9 g/dL (homens) e 11,9-14,8 (mulheres). Hematócrito: 40-50% (homens) e 35-43% (mulheres). Porcentagem do volume sanguíneo ocupado por eritrócitos. É em média 3x o valor da hemoglobina. VCM (volume corpuscular médio): 82,5-98 fL. É o tamanho (volume) médio das hemácias Classifica as anemias em Microcítica (VCM baixo) e Macrocítica (VCM alto). HCM (hemoglobina corpuscular média): 26-34 pg. • • • ◦ ◦ • ◦ ◦ • CM 18 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias É o conteúdo médio de hemoglobina em uma hemácia. Classifica as anemias em Hipocrômica (HCM baixo) e Hipercrômica (HCM alto). CHCM (concentração de hemoglobina corpuscular média): 32,5-35,2. É a concentração média de hemoglobinas por hemácia. É interpretada da mesma maneira que a hemoglobina corpuscular média, por isso, frequentemente utilizamos somente o HCM. RDW: 11,4-13,5%. É a medida de variação do tamanho das hemácias. Checa o grau de anisocitose. Quando elevado reflete muita anisocitose, ou seja, hemácias de tamanhos diferentes. Leucócitos: 4000-11.000/mm³. Plaquetas: 150.000-450.000/mm³. Reticulócitos: 0,5 – 2% do total de células vermelhas circulantes ou 40-100 x 10³/mm³ em números absolutos. Estágio de maturação imediatamente anterior às hemácias. ◦ ◦ • ◦ ◦ ◦ • ◦ ◦ • • • ◦ CM 19 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Avalia a produção de hemácias. ESFREGAÇO DE SANGUE PERIFÉRICO Ao identificar anemia, deve ser coletada uma gota de sangue do paciente, realizando o esfregaço na lâmina e visualização ao microscópio. Essa avaliação permite muitas vezes fechar o diagnóstico devido às alterações características nas hemácias, leucócitos e plaquetas. A poiquilocitose traduz aumento no número de hemácias com formato anormal circulantes, chamadas de poiquilócitos. ◦ CM 20 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Figura 6. Poiquilócitos. CM 21 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Figura 7. Poiquilócitos e patologias relacionadas. CLASSIFICAÇÃO E como vamos iniciar a avaliação das anemias? Olhe o número de reticulócitos, quando presente. • CM 22 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Durante a fisiopatologia das anemias, temos uma queda de hemoglobina, que cursa com hipoxemia tecidual e desencadeia uma reação endócrino- metabólica como tentativa de compensação, promovendo aumento da eritropoietina. O primeiro estímulo é um aumento de eritroblastos é um aumento na secreção de reticulócitos. O aumento de reticulócitos é a tentativa do organismo em repor as hemácias que estão sendo perdidas. Dessa maneira, a presença de reticulocitose significa que houve uma perda de hemoglobinas e a medula está funcionante, tentando compensar. No entanto, na anemia essa resposta compensatória não é suficiente para manter os níveis hematológicos. Essa incapacidade de compensar pode ser culpa da medula óssea, ou não. Por isso as anemias são divididas didaticamente em dois grandes grupos: Anemia hiperproliferativas (a medula óssea consegue responder, ainda que de forma insuficiente). Anemias hipoproliferativas (o problema está na síntese, e a medula óssea é incapaz de responder à queda de hemoglobina). ◦ ◦ CM 23 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Figura 8. Anemias hipo ou hiperproliferativas. Você vai ver que para diagnóstico de reticulocitose utilizamos o valor percentual de 2% (valores acima disso indicamreticulocitose, e menores indicam reticulócitos normais). Dessa forma, algumas vezes as bancas CM 24 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias expressam o valor absoluto de reticulócitos, nestes casos são necessárias correções na contagem de reticulócitos na anemia (IRC ou índice de reticulócitos corrigidos), por tratar-se de uma porcentagem das hemácias. Isso porque, o valor absoluto de reticulócitos está reduzido visto que o número de hemácias também está, mas o que importa é o percentual. Anemias moderadas a grave fazem com que os níveis de eritropoetina se elevem muito, reduzindo o tempo de maturação reticulocitária, ou seja, libera os reticulócitos da medula antes de estarem completamente formados. Considerando essa variável, em casos em que o hematócrito está abaixo de 30% é necessário dividir o IRC por dois. Dessa forma, o primeiro passo é classificar a anemia como: HIPERPROLIFERATIVA (medula responde). Reticulócitos ou índice de reticulócitos corrigidos > 2%. Ex.: anemia hemolítica, sangramento agudo. ◦ ▪ ▪ CM 25 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Ou HIPOPROLIFERATIVA (medula não responde - falta combustível). Reticulócitosa hepcidina é o porteiro e a ferroportina a recepcionista. Se a casa está cheia, o porteiro se junta à recepcionista e fecha a porta. Se a casa está vazia, o porteiro abre a porta e a recepcionista ajuda na entrada. Regulação hematopoiética: a absorção é modulada conforme a necessidade de eritropoiese. A eritropoiese acelerada aumenta a absorção, mesmo com os depósitos de ferro cheios. Se a fábrica precisa produzir mais, precisa ter mais insumo, simples assim! Transporte e Excreção Após esse longo caminho, que foi bem simplificado para evitar que vocês desistam, o ferro está no plasma! Aqui ele não pode andar sozinho, está sempre acompanhado da transferrina que recebe o ferro vindo tanto do enterócito, quanto dos depósitos e o transporta até seu destino, os tecidos, para serem utilizados como insumo ou para armazenamento. A entrada do ferro nos tecidos envolve a redução do ferro para Fe²+ para então ser incorporado à protoporfirina, sintetizando o complexo heme. Não existem mecanismos fisiológicos de excreção do ferro, sendo o mesmo perdido de maneira indireta. Uma das formas é por meio das fezes, onde também são perdidas células epiteliais descamativas, assim como pela descamação da pele, epitélio urinário , suor e a menstruação. O que pode ocorrer também, é o aumento da necessidade ◦ • CM 32 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias de ferro fisiologicamente, como na gravidez e lactação e nas fases de crescimento. Figura 11. O ciclo do ferro. O ferro é proveniente da dieta e é absorvido na porção proximal do intestino delgado conforme a necessidade. Após ser absorvido no enterócito, precisa da transferrina, enzima transportadora produzida pelo fígado para transportar o ferro até a medula óssea (para ser adicionado à hemácia). A produção de transferrina pode aumentar conforme a necessidade. A maioria do Ferro corpóreo é encontrado nas milhares de hemácias como componente das hemoglobinas. O ferro que sobra é armazenado principalmente com a proteína ferritina (estoque é acionado conforme necessidade). Após, aproximadamente, 120 dias, as hemácias serão destruídas no baço (hemocaterese). A hemoglobina será separada em globina (“haptada” pela haptoglobina CM 33 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias e eliminada) enquanto o grupamento HEME, será destruído em protoporfirina (protoporfirina → biliverdina → bilirrubina indireta → bilirrubina direta) e ferro. Este ferro pode retornar à medula óssea para nova produção de hemácias ou poderá ser armazenado sob a forma de ferritina - este estoque de ferritina será acionado conforme necessidade. Não existe uma via de eliminação fisiológica do ferro, daí a importância de absorver pouco ferro. Ou seja, o ferro que entra não sai mais (exceto por sangramento ou descamação da pele/mucosa). Por isso, a principal causa de anemia ferropriva é sangramento crônico (especialmente no adulto e principalmente pelo trato gastrointestinal). Fonte: https://www.ufrgs.br/colegiodeaplicacao/wp-content/uploads/ 2020/09/102-Bioqui%CC%81mica-semana-26.pdf Perda de Ferro O balanço negativo do ferro, ocorre em etapas (ou seja, quando ele falta no organismo, existe uma sequência de consumo priorizando a manutenção da hematopoiese, dos níveis séricos e em última instância dos próprios estoques): Depleção dos estoques (queda na ferritina).1. CM 34 https://www.ufrgs.br/colegiodeaplicacao/wp-content/uploads/2020/09/102-Bioqui%CC%81mica-semana-26.pdf https://www.ufrgs.br/colegiodeaplicacao/wp-content/uploads/2020/09/102-Bioqui%CC%81mica-semana-26.pdf Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Aumento da transferrina para absorver mais ferro nos enterócitos. Aumento do TIBC (capacidade total de combinação/ligação do ferro), cada transferrina fica mais ávida pelo ferro. Ferro sérico diminui. Diminui a saturação da transferrina. Anemia normocítica e normocrômica (inicialmente, o organismo preza qualidade à quantidade). Anemia microcítica e normocrômica. Anemia microcítica e hipocrômica. Essas etapas se devem à tentativa de manter a taxa de produção de hemoglobina apesar da deficiência de ferro já estar acontecendo. Primeiro o organismo depleta a ferritina, para depois comprometer os níveis séricos de ferro e só depois haverá comprometimento na produção eritrocitária. O contrário também é verdadeiro, com a reposição de ferro, primeiro o organismo corrige a anemia, depois aumenta a quantidade de ferro circulante e por fim, aumenta os estoques de ferro (ferritina). Perfil de Ferro Dessa forma, entendemos quais são as variáveis analisadas no perfil de ferro: Ferritina (Índice mais sensível do metabolismo do ferro). 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. • CM 35 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Transferrina. TIBC - Capacidade total de ligação de ferro. Representa o mesmo que a transferrina (mas o TIBC é mais barato). Ferro sérico. Saturação da transferrina (ferro/TIBC). A saturação é diretamente proporcional ao ferro. A saturação de transferrina representa em termos práticos o ferro sérico. Ambos têm o mesmo comportamento. QUADRO CLÍNICO A deficiência de ferro é a causa de aproximadamente 75% dos casos de anemia, sendo muito prevalente em mulheres na idade reprodutiva, gestantes e crianças, assim como em estratos sociais mais baixos. A falta deste metal está relacionada a um desequilíbrio entre ingestão, absorção e aumento de demanda ou perda crônica. A anemia é o tipo de distúrbio do ferro mais comum na população adulta e está relacionada à perda crônica de sangue, sendo as causas mais comuns a hipermenorreia ou menorreia e perdas pelo trato gastrointestinal. Cada ml de sangue perdido resulta em 0,5 mg de ferro a menos no organismo. • • ◦ • • ◦ ◦ CM 36 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Falta de ferro pode levar a uma redução na capacidade funcional de vários sistemas orgânicos, tendo diversas consequências a depender da fase de desenvolvimento do indivíduo. Crianças podem ter perdas cognitivas e motoras, assim como adultos também podem apresentar problemas comportamentais, de aprendizado e produtividade. Em gestantes o feto pode sofrer com baixo peso, prematuridade e outras complicações. Mas, como tudo isso ocorre de maneira gradativa, o corpo acaba por adaptar-se, fazendo com que, em geral, as queixas sejam leves e passem despercebidas diversas vezes. Por isso, atenção, na vida e na prova, para relatos de fadiga, palidez cutaneomucosa, baixa tolerância ao exercício, perversão alimentar ou pica (pagofagia é o hábito de mastigar gelo – cai em prova relacionado à deficiência de ferro), baqueteamento digital, coiloníquia (unhas em formato de colher), atrofia das papilas linguais (glossite), estomatite ou queilite angular, disfagia e síndrome das pernas inquietas. Pode ocorrer ainda a formação de membranas esofágicas que cursam com disfagia, denominado Síndrome de Plummer-Vinson ou Patterson- Kelly, apesar de ser raro isso pode vir nas provas! Essa também não é uma condição patognomônica, podendo aparecer, por exemplo, no hipotireoidismo. CM 37 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Figura 12. Sintomas Anemia Ferropriva. Figura 13. Glossite (língua “inflamada”, sem papilas). CM 38 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Figura 14. Coiloníquia (unhas em formato de colher). Figura 15. Queilite angular. CM 39 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias DIAGNÓSTICO O hemograma apresenta-se com hipocromia (HCM baixo) e microcitose (VCM baixo), associado ao aumento da anisocitose (RDW alto) e por vezes, plaquetose. Com a manutenção da deficiência podem surgir também poiquilocitose, eliptócitos, hemácias em charutoe reticulocitopenia. Ou seja, para fixar: HB, HT, VCM e HCM baixos, RDW aumentado, reticulócitos baixos e por vezes plaquetose e alteração no formato das hemácias. Uma vez suspeitado, o padrão ouro para investigação de anemia ferropriva é a avaliação dos estoques medulares de ferro através do corante Azul da Prússia, porém por ser um exame invasivo e existirem outros métodos disponíveis bem menos incômodos, não é recomendada CM 40 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias a realização da punção medular para este fim. Então fazemos o quê? Dosagem do famoso perfil de ferro. Ferritina sérica: é o estoque de ferro, sendo que a deficiência de ferro é a única causa de ferritina muito reduzida, o que torna esta dosagem específica. Porém, níveis baixos ou normais não excluem a ferropenia como causa da anemia (baixo valor preditivo negativo), visto que processos inflamatórios, infecção e malignidade podem promover elevação desta proteína, mesmo na falta de ferro (ferritina é um marcador inflamatório de fase aguda). Valores normais: 30-300 ng/mL ou 40-200 ng/mL (depende da referência). Ferro sérico: é a fração que circula no plasma ligado à transferrina e logicamente encontra-se reduzido nos quadros de anemia ferropriva, mas ao contrário da ferritina, está reduzido em quadros inflamatórios, por isso, deve sempre ser interpretado em conjunto com outros marcadores. Valores normais: 75-150 mcg/dL para homens e 60-140 mcg/dL para mulheres. 60-150 mcg/dL. Transferrina: é a proteína transportadora capaz de levar simultaneamente duas moléculas de ferro, estando sua produção relacionada aos níveis de ferro. Quando os níveis estão baixos, ocorre estimulação à produção de transferrina, na tentativa de aumentar os estoques. Logo, este valor está aumentado na anemia ferropênica. Também aumenta na gestação, uso de contraceptivo oral e reduzido na inflamação, infecção, malignidade, desnutrição, síndrome nefrótica e hepatopatia. TIBC (Capacidade Total de Ligação de Ferro – Total Iron Binding Capacity): é a estimativa dos sítios de ligação disponíveis para o ferro na transferrina, ou seja, é a dosagem indireta de transferrina. Está alto na anemia ferropriva (ora, é só pensar que na anemia ferropriva teremos mais transferrina e cada uma delas está mais vazia, ou seja, além de termos mais transferrina, a capacidade delas se ligarem ao ferro também aumenta). De maneira prática, a • • • • CM 41 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias ferritina são carros disponíveis para realizar o transporte e o ferro são os passageiros. Se eu tenho poucos passageiros, sobram carros, logo a capacidade dos carros está aumentada. Valores normais: 250-450 mcg/dL ou 300-360 mcg/dL (depende da referência). IST (Índice de Saturação de Transferrina): é um cálculo realizado a partir da razão entre o ferro sérico e o TIBIC e encontra-se baixo na deficiência de ferro (pense que se temos mais transferrinas e cada uma delas está mais vazia, o índice de saturação estará mais baixo). De maneira prática, pensando matematicamente, o numerador diminui e o denominador aumenta na anemia ferropriva, logo o IST também diminui. A saturação dos sítios de ligação da transferrina está baixa quando têm menos ferro para se ligar – pensando logicamente. Valores normais: 20-50%. Figura 16. Hemograma e Perfil de Ferro na Anemia Ferropriva. Dessa forma, o diagnóstico é estabelecido pelo hemograma apresentando anemia, inicialmente normocítica e normocrômica (início), que evolui com anemia hipocrômica e microcítica (quadro clássico) com • CM 42 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias anisocitose (aumento do RDW) - característica muito importante na diferenciação com talassemias. É possível a presença de trombocitose reativa (há desvio de produção a partir do “denominador comum” das hemácias e das plaquetas). O perfil de ferro é marcado por queda da ferritina (360), aumento do receptor solúvel da transferrina, queda no ferro sérico (impossibilidade, devido doença de base, de absorção do ferro oral, dentre outras. Antigamente existiam muitos relatos de reações adversas graves à reposição de ferro, o que já não é verdade atualmente se feito adequada e principalmente, lentamente. A principal, mas não única, apresentação do ferro endovenoso é o Noripurum, o qual pode ser ofertado duas vezes na semana, 2 ampolas por dia. A quantidade a ser reposta depende de cada paciente, mas não há evidência de que uma dose acima de 1000mg de ferro elementar seja eficiente. Já a reposição intramuscular está basicamente proscrita. Logo nos primeiros dias de reposição oral ou após primeira dose de reposição venosa, o paciente já sente melhora dos sintomas gerais, ocorrendo posteriormente, por volta do 7º - 10º dia, o aumento dos reticulócitos. Os níveis de hemoglobina levam em média 2 semanas para aumentarem e 6 a 8 semanas para normalizarem. Figura 17. Indicações de reposição de ferro endovenoso. CM 48 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Percebam que apesar de o tempo para normalizar a anemia ser de aproximadamente 2 meses, ainda temos que aumentar o ferro sérico e repor os estoques de ferritina. Por isso a duração da reposição dura aproximadamente de 6 meses a 1 ano. Dessa forma, só paramos a reposição quando o estoque de ferritina estiver completo (primeiro a depletar, último a recuperar) ou pelo menos 6 meses após a normalização da anemia. CM 49 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias ANEMIA MEGALOBLÁSTICA INTRODUÇÃO A deficiência de cianocobalamina (B12) e folato (B9) provocam uma síntese seletiva de DNA, promovendo, além da anemia, plaquetopenia e leucopenia. Isso ocorre porque tanto o folato, quanto a vitamina B12 são fundamentais para a formação da timidina, um dos nucleotídeos que compõem o DNA, sendo a síntese diminuída na deficiência destes compostos. CM 50 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias A função da vitamina B12 é converter a homocisteína em metionina, em seu papel de coenzima. Além disso, ativa o folato. Este, por sua vez, participa diretamente da síntese de timidina. Por isso, na ausência de cianocobalamina, o folato não se torna ativo, reduzindo assim a síntese do nucleotídeo e do DNA. Outra função da vitamina B12 é ser um cofator na conversão de metilmalonil-CoA em succinil-CoA, uma reação que ocorre na mitocôndria e é catalisada pela metilmalonil-CoA mutase. Na ausência desta vitamina, a reação não pode prosseguir normalmente e o ácido metilmalônico se acumula. É por isso que o ácido metilmalônico fica elevado apenas na deficiência de B12, e não de ácido fólico. Essa desorganização cromossômica promove dissociação da maturação núcleo-citoplasmática, produzindo células de tamanho aumentado e morte de uma parcela considerável das células na própria medula. Como consequência, observamos uma anemia macrocítica, megaloblastos na medula óssea, reticulócitos normais ou baixos, plaquetopenia e neutrófilos pluri-segmentados. Esse quadro é reversível com a reposição das vitaminas em falta. ETIOLOGIAS As causas dessas hipovitaminoses são diversas, podendo estar relacionadas à redução na ingestão ou absorção intestinal; defeitos no transporte ou metabolismo; aumento da excreção ou perdas; e aumento das necessidades do organismo. Vamos ver as principais para cada vitamina! Deficiência de vitamina B12 – cianocobalamina: CM 51 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Dieta: a B12 é encontrada em alimentos de origem animal exclusivamente. Nossa necessidade diária é muito pequena, o que torna esta uma causa pouco comum, ocorrendo somente em pessoas que passam anos sem ingerir qualquer produto animal. Absorção: as células parietais da mucosa gástrica produzem uma glicoproteína denominada fator intrínseco (FI), a qual tem a função de ligar-se à vitamina B12 formando um complexo. Ao chegar ao íleo terminal, esse complexo é absorvido. Então, quando há alguma interferência em qualquer parte do percurso, não temos a entrada dessa vitamina no organismo, levando à sua deficiência. A causa mais comum aqui é a anemia perniciosa, doença autoimune em que ocorre uma gastrite atrófica (inflamação e atrofia da mucosa gástrica), impedindo assim a formação do FI e do ácido clorídrico (e, em última análise, a absorção da B12). O diagnóstico é feito por meio de biópsia endoscópica da mucosa (comprometimento de fundo e corpo gástrico, poupando antro), associada a presença de anticorpos contra células parietais e contra o fator intrínseco. Outra causa é a gastrite não imune, desencadeada, em geral, por uma infecção pelo Helicobacter pylori, sem fenômenos autoimunes associados. Transporte e metabolismo: o transporte da B12 no plasma ocorre por meio de duas proteínas, a transcobalamina I e a II. Ambas podem estar diminuídas de forma congênita, porém levando a manifestações distintas. A deficiência de transcobalamina I promove baixos níveis de B12 no organismo, mas sem manifestações clínicas. Isso ocorre, pois esta se liga a cerca de 80% da B12 do plasma, mas possui turnover muito lento, não sendo • • • CM 52 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias capaz de fornecer a vitamina aos tecidos na prática. Já a transcobalamina II liga-se à menor parte da B12 do plasma, mas tem alto turnover, fornecendo a vitamina aos tecidos de forma eficiente. Por isso, sua deficiência implica em anemia megaloblástica grave, mas com níveis séricos normais. Outras: gastrectomia total ou parcial levam à deficiência de B12 por motivos mecânicos. Os idosos também têm mais susceptibilidade à hipovitaminose de B12, embora em geral tenham poucos sintomas. Doenças do íleo terminal, como doença de Crohn, enterite regional e ressecção ileal, comprometem a absorção, também sendo causa de anemia megaloblástica. A síndrome da alça cega permite a proliferação de bactérias que consomem a cianocobalamina, assim como quadros de divertículos intestinais múltiplos, fístulas ou hipomotilidade. Causas raras envolvem deficiência congênita de FI ou de seus receptores, bem como algumas medicações. Figura 18. Causas de deficiência de vitamina B12. • CM 53 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias CM 54 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias CM 55 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Deficiência de folato: Dieta: o folato é encontrado principalmente em vegetais frescos, frutas e fígado (mas o cozimento excessivo pode levar à perda do nutriente). A carência alimentar pode acarretar a hipovitaminose, especialmente em indivíduos com dietas inadequadas por pobreza, desnutridos, alcoólatras e idosos. Absorção: grande parte do folato do organismo está na circulação êntero-hepática. Por esse motivo, pode haver carência na presença de distúrbios do trânsito intestinal disabsortivos: ou seja, doenças intestinais crônicas com diarreia, espru tropical, enterite regional, anticonvulsivantes e álcool, todas essas podem ser causas de deficiência de folato. Transporte e metabolismo: várias drogas podem cursar com deficiência de folato. As principais que vocês precisam saber para as provas são metotrexato, fenitoína, pirimetamina e trimetoprim. Aumento da demanda: quando há aumento da proliferação celular, o consumo de folato é aumentando, podendo ocorrer redução dos • • • • CM 56 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias níveis corporais. É o caso de dermatites crônicas esfoliativas, anemia hemolítica crônica, neoplasias, primeiros anos de vida e principalmente gestação, para qual é recomendada reposição profiláticadesde o primeiro mês. Figura 19. Causas de deficiência de ácido fólico. QUADRO CLÍNICO A principal manifestação clínica é a anemia, mas plaquetopenia e neutropenia também são comuns, embora com pouca repercussão. A deficiência na síntese de DNA atinge tecidos com grande turnover celular, como o trato gastrointestinal, promovendo sintomas como diarreia, glossite, queilite e perda de apetite. Pode haver também esplenomegalia leve a moderada. É importante frisar que as reservas de ambas as vitaminas têm durabilidades diferentes, gerando sintomas em tempos diferentes. A B12 pode ser suficiente no organismo por até 2 a 5 anos após a parada na absorção, enquanto os estoques de folato são suficientes somente para 2 a 4 meses. CM 57 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Além dos sintomas comuns a ambas as hipovitaminoses, podemos encontrar pacientes com sintomas neurológicos e cognitivos, os quais estão relacionados exclusivamente à deficiência de vitamina B12. A alteração típica é a degeneração combinada subaguda da medula espinhal, devido à carência de metionina. O quadro clínico caracteriza-se por parestesias dos membros inferiores e tronco, distúrbios motores, ataxia, redução da sensibilidade vibratória, postural, termolábil e dolorosa (essas duas últimas em bota e luva) e sinal de Romberg positivo. As manifestações cognitivas são diversas, incluindo depressão, perda de memória, demência, alucinações, paranoias e até esquizofrenia. Atentar que na gestação há aumento da incidência de defeitos do tubo neural nos recém-nascidos. A diferenciação entre a deficiência de folato e cianocobalamina pode ser muito difícil. O tempo de evolução pode ajudar, sendo típico do folato história recente de aproximadamente 6 meses e da vitamina B12 uma referência de tempo mais prolongada, com mais de três anos. Outro ponto que pode ajudar é a história de doença autoimune prévia, que remete ao quadro de anemia perniciosa, bem como o relato de perda das papilas linguais, deixando a língua lisa, vermelha e brilhante. CM 58 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Figura 20. Língua lisa, vermelha e brilhante, característico da deficiência nutricional. DIAGNÓSTICO O passo inicial para o diagnóstico é uma boa história clínica e exame físico! Eles irão levantar a suspeita e nortear nossa investigação. A partir daí, podemos solicitar os exames. CM 59 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias O exame inicial é o hemograma, que já pode auxiliar bastante no diagnóstico! Esperamos encontrar uma anemia macrocítica (VCM elevado), leucopenia e plaquetopenia, associado a poiquilocitose (hemácias de formato anormal) e neutrófilos hipersegmentados (5 ou mais lobos nos neutrófilos). A contagem de reticulócitos é baixa ou normal, porém o cálculo corrigido mostra uma anemia hipoproliferativa (lembra que há prejuízo na produção, logo a medula não consegue compensar). É importante frisar que muitas vezes pode haver sobreposição de anemia, de doença crônica ou deficiência de ferro, as quais podem mascarar a elevação do VCM. Figura 21. Neutrófilo hipersegmentado. CM 60 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Figura 22. Hemograma típico na anemia megaloblástica. Em geral, não há necessidade de avaliação da medula óssea, pois temos formas menos invasivas de fechar o diagnóstico. Porém, uma vez realizada, demonstra intensa hiperplasia da medula óssea, em especial da linhagem eritroide, ocorrendo aberrações citológicas (megaloblastos gigantes, polilobulados e binucleados, e mielócitos e metamielócitos gigantes). O ferro medular está aumentado devido à eritropoiese ineficaz. Obviamente, um dos passos do diagnóstico envolve a dosagem de vitamina B12 e de folato sérico, para definir onde há redução. Na prática médica, a diferenciação entre ambas não se faz necessária na maioria das vezes porque acabamos tratando as duas condições, porém nas provas é comum a necessidade de distinção (e por vezes os valores séricos dessas vitaminas não são fornecidos). CM 61 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Para ajudar na diferenciação, é realizada a dosagem de homocisteína total e ácido metilmalônico, de forma que: Homocisteína e ácido metilmalônico elevados: deficiência de B12. Apenas homocisteína elevada: deficiência de folato. Por que isso acontece? Lembra que uma função da vitamina B12 (e não da B9) é ser um cofator na conversão de metilmalonil-CoA em succinil- CoA. Na ausência desta vitamina, a reação não pode prosseguir normalmente e o ácido metilmalônico se acumula. No caso de uma deficiência de vitamina B12, devemos solicitar endoscopia digestiva alta com biópsia, a fim de entender se há gastrite atrófica, sugerindo o diagnóstico de anemia perniciosa. A dosagem de anticorpos antifator intrínseco e anti-célula parietal, assim como acloridria, também contribuem para a definição do quadro. Diagnósticos diferenciais importantes incluem: Depressão, doenças neurológicas e doenças psiquiátricas. Leucemias agudas, devido à redução da contagem de células brancas. Importante frisar que, em geral, nas leucemias encontramos a série branca muito mais comprometida que a vermelha. Síndrome mielodisplásica, devido à pancitopenia com macrocitose de evolução lenta. Aqui precisamos de uma boa coleta da história do paciente, realização da dosagem de vitaminas e por vezes do • • • • • CM 62 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias estudo da medula óssea, com o qual é possível fechar o diagnóstico diferencial. TRATAMENTO O primeiro ponto é identificar e tratar a causa da anemia, se possível. Além disso, devemos procurar se há outras deficiências associadas, como a de ferro, para realizar a reposição concomitante. A reposição de vitamina B12 é feita por via parenteral (IM). Podem ser aplicadas doses regulares semanais no primeiro mês, e posteriormente manter doses espaçadas a cada determinado intervalo. Para idosos com atrofia gástrica ou má absorção, assim como vegetarianos, podemos realizar a profilaxia com B12 oral diário. Já o folato é geralmente reposto por via oral, exceto durante quimioterapia com metotrexato ou impossibilidade de terapia oral. Importante saber que a reposição de folato isolada pode mascarar uma deficiência de B12 e por vezes piorar os sintomas neurológicos. Por isso, é CM 63 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias sempre importante dosar a B12 antes de repor o ácido fólico (ou repor concomitantemente de maneira empírica). A anemia, leucopenia e plaquetopenia se resolvem, em geral, com duas a quatro semanas, enquanto os sintomas neurológicos levam mais tempo para melhorar, podendo, em alguns casos, deixar sequelas. PARTE 2: ANEMIA DE DOENÇA CRÔNICA E SIDEROBLÁSTICA ANEMIA DE DOENÇAS CRÔNICAS INTRODUÇÃO A anemia de doenças crônicas é de caráter multifatorial, secundária a estados inflamatórios, sejam eles infecciosos ou não, e ao câncer. Está relacionada ao desequilíbrio no metabolismo do ferro, encurtamento da sobrevida eritrocitária, inibição da hematopoiese e deficiência de eritropoetina. Dentre todos os fatores que contribuem para o desenvolvimento desta anemia, o protagonismo é do desequilíbrio do metabolismo do ferro, no qual notamos níveis baixos de ferro, aumento do ferro no sistema reticuloendotelial (e nos estoques, de maneira geral) e redução da absorção intestinal deste metal. O racional lógico para estes eventos é CM 64 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias que assim como as células benignas precisam de ferro para sua multiplicação, os agentes infecciosos e as células neoplásicas tambémprecisam, logo o que o nosso organismo faz é parar de absorver o ferro e esconder o ferro já existente, na tentativa de inibir o desenvolvimento dessas células ruins. Nesse contexto, a hepcidina, (lembram dela? A hepcidina é uma proteína do metabolismo do ferro liberada pelo fígado, e seus níveis estão aumentados em situações de estresse.) Ela é capaz de inibir a absorção intestinal do ferro e a liberação do ferro estocado nos macrófagos, têm papel fundamental, pois foi observado que pacientes inflamados aumentam em cem vezes a excreção desta proteína. Ou seja, o ferro para de entrar no organismo e o que já existe estocado passa a não ser liberado para uso, tudo isso devido à hepcidina. Mas como dissemos inicialmente, a anemia é multifatorial, também estando relacionada a altos níveis de citocinas inflamatórias como interleucinas e fator de necrose tumoral, as quais são capazes de inibir o CM 65 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias ferro sérico, assim como estimular o sistema fagocitário mononuclear, reduzindo então a sobrevida das hemácias. Outro mecanismo também cogitado é a redução na síntese de eritropoetina, visto in vitro. DIAGNÓSTICO Em geral, encontramos uma anemia leve a moderada, normocítica e normocrômica, mas podemos ter microcitose e hipocromia, ambos discretos. A avaliação medular depende da suspeita clínica em questão, sendo, por exemplo, importante em caso de neoplasias para verificar infiltração neoplásica. Quanto à avaliação do perfil de ferro, detectamos ferro sérico normal ou baixo, assim como o TIBIC (a transferrina total está diminuída, logo, apesar de cada transferrina continuar conseguindo carregar duas moléculas de ferro, a capacidade total de ligação de ferro está diminuída) e saturação da transferrina (o ferro está nos estoques, por isso, as moléculas de transporte para uso deste micronutriente estão vazias). Os valores de ferritina são variáveis, podendo estar muito aumentados visto que esta é uma proteína marcadora de inflamação. CM 66 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Figura 23. Perfil laboratorial da anemia de doença crônica. TRATAMENTO A primeira coisa a ser avaliada é a necessidade de tratamento, já que, em geral, é uma anemia discreta, sem caracterizar limitação funcional. Logicamente o tratamento da doença de base é o mais importante, com a extinção ou controle do quadro. Outro recurso que pode ser utilizado é a oferta de eritropoetina, a qual promove um aumento nos valores de hemoglobina, que podem retirar o paciente de quadro sintomático e impedir necessidade transfusional. CM 67 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias CM 68 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias ANEMIA SIDEROBLÁSTICA A anemia sideroblástica ocorre por deficiência de protoporfirina (queda no Hb, com acúmulo de ferro). Ocorre uma falha da síntese no grupamento HEME, e consequentemente da hemoglobina. Ela pode ser hereditária ou adquirida. Neste último caso pode ocorrer por intoxicação alcoólica, intoxicação por chumbo, ou até deficiência de vitamina B6 (piridoxina). Essa anemia geralmente vai ser microcítica e hipocrômica (principalmente na hereditária). Quando relacionada ao excesso de álcool, ela pode ser macrocítica (forma adquirida). A consequência deste defeito no desenvolvimento do grupamento heme é uma alteração da cinética de ferro (o ferro começa a acumular por não ser utilizado), desta forma há risco de hemocromatose secundária. CM 69 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Quanto ao perfil de ferro, vamos observar ferro sérico aumentado, saturação de transferrina alta, ferritina também alta com TIBC e transferrina normais. Há acúmulo de ferro em todos os precursores da linhagem eritrocitária. Por isso, o diagnóstico definitivo é determinado com a comprovação deste excesso de ferro (por meio de um aspirado de medula óssea ou do esfregaço de sangue periférico). Em relação ao aspirado de medula óssea, a presença de > 15% de sideroblastos em anel - eritroblastos com excesso de ferro se manifestam com pigmentos de ferro em volta do núcleo (“anel de ferro”) - confirmam o diagnóstico. Já no sangue periférico (hematoscopia), o diagnóstico pode ser dado a partir da presença de Corpúsculos de Pappenheimer. Figura 24. Corpúsculos de Pappenheimer. CM 70 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Figura 25. Sideroblastos em anel na anemia sideroblástica, vistos na medula óssea. Essas células são precursoras eritroides que têm mitocôndrias cheias de ferro não heme, corados em azul. As mitocôndrias localizam-se ao redor do núcleo, tornando-as características. Fonte: Manual MSD. De Tefferi A, Li C. In Atlas of Clinical Hematology. Editado por JO Armitage. Philadelphia, Current Medicine, 2004. Disponível em: https:// www.msdmanuals.com/pt-pt/profissional/hematologia-e-oncologia/anemias-causadas- por-eritropoese-deficiente/anemias-siderobl%C3%A1sticas O tratamento depende da causa básica. No caso das adquiridas, devemos tratar essa condição e associar quelante de ferro para evitar acúmulo tecidual do ferro. A forma hereditária apresenta pouca resposta aos tratamentos propostos e a gravidade também é variável, alguns tentam reposição de B6 com discreta melhora. PARTE 3: ANEMIAS ASSOCIADAS A CM 71 https://www.msdmanuals.com/pt-pt/profissional/hematologia-e-oncologia/anemias-causadas-por-eritropoese-deficiente/anemias-siderobl%C3%A1sticas https://www.msdmanuals.com/pt-pt/profissional/hematologia-e-oncologia/anemias-causadas-por-eritropoese-deficiente/anemias-siderobl%C3%A1sticas https://www.msdmanuals.com/pt-pt/profissional/hematologia-e-oncologia/anemias-causadas-por-eritropoese-deficiente/anemias-siderobl%C3%A1sticas Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias DOENÇAS SISTÊMICAS ANEMIA POR MIELOFTISE O termo mieloftise vem da tuberculose, porém hoje se estende a qualquer ocupação medular por uma patologia, promovendo pancitopenia com leucoeritroblastose associada. A causa mais comum atualmente são neoplasias, hematológicas ou não, na qual ocorre infiltração da medula óssea por células cancerígenas que induzem produção de substâncias fibrosantes e consequente fibrose medular. Em geral, a mielofibrose ocorre em estágios avançados da doença, na qual não há mais proposta curativa e sim controle de sintomas. O diagnóstico é feito através do estudo medular, ressaltando que o aspirado de medula óssea (mielograma) pode ser seco, necessitando da realização de biópsia da medula, com evidência de intensa fibrose. Já no hemograma podemos ver pancitopenia, com anemia em geral normocítica, porém em alguns casos macrocítica, bem como a leucoeritroblastose (presença de eritroblastos e granulócitos jovens em excesso no sangue periférico) e presença de hemácias em lágrimas (dacriócitos). Existe um quadro de mielofibrose primária, que será abordado quando falarmos de neoplasias mieloproliferativas crônicas. ANEMIA POR HEPATOPATIA CRÔNICA CM 72 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Aproximadamente 75% dos hepatopatas apresentam anemia leve a moderada e isto se deve a basicamente três mecanismos. O principal é a hemodiluição, mas também há redução da meia vida das hemácias e da resposta ao estímulo da eritropoetina. O primeiro é ocasionado pela hipertensão portal que promove hemodiluição por retenção hidrosalina. Já o segundo, envolve o hiperesplenismo (esplenomegalia congestiva) e alterações no metabolismo e na membrana dos eritrócitos. O terceiro é um reflexo da ação do álcool na medula óssea, associado à carência de folato e ferro por sangramento crônico (quando a hepatopatiaé secundária ao uso de álcool). Isso tudo depende da natureza da hepatopatia em questão, podendo apresentar inclusive fenômenos autoimunes, como a Síndrome de Zieve em pacientes etilistas crônicos e hepatopatas leves com esteatose. Nesta síndrome ocorre uma anemia hemolítica aguda limitada associada a esplenomegalia, icterícia e hiperlipidemia. Alguns pacientes com degeneração celular avançada dos hepatócitos desenvolvem uma anemia hemolítica com presença de acantócitos na periferia, necessitando até de esplenomegalia para tentar uma resolução, que na maioria das vezes é só parcial. No hemograma podemos ver anemia normocítica ou macrocítica, com índice de produção reticulocitária elevado (aproximadamente 8,5%), bem como alteração no formato das hemácias tais como: macrócitos finos, hemácias em alvo e acantócitos. Pode haver também redução dos níveis de plaquetas e leucócitos devido ao hiperesplenismo desta condição. ANEMIA DA INSUFICIÊNCIA RENAL CM 73 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias A anemia e todas as alterações hematológicas que ocorrem nos pacientes com insuficiência renal são complexas, envolvendo diversos fatores. O principal deles é a redução da produção de eritropoetina, levando a uma menor produção eritrocitária. Outro ponto é a manutenção na circulação de fatores inibidores da hematopoiese devido a uremia, os quais também podem desencadear fenômenos hemolíticos. Uma vez em terapia de substituição renal, tais pacientes são espoliados, tanto pela máquina em si, quanto por intercorrências como sangramentos, o que geram carências nutricionais com deficiência de ferro e ácido fólico. Como nas anemias de doença crônica em geral, encontramos hemácias normocíticas e normocrômicas , com baixa contagem de reticulócitos. Alterações do formato das hemácias também estão presentes como esquizócitos, equinócitos e acantócitos . O tratamento atual é a reposição de eritropoetina e das eventuais carências existentes. ANEMIA POR ENDOCRINOPATIAS Indivíduos com distúrbios na tireoide, suprarrenais, paratireoides, gônadas e hipófise podem desenvolver anemia, a qual, em geral, é leve e assintomática. Hipogonadismo e hiperparatireoidismo podem estar associados a anemia discreta, assim como no hipopituitarismo, em que, em geral, a anemia é leve, normocrômica e normocítica (às vezes, pode ser um pouco macrocítica). CM 74 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias Nesse grupo a grande estrela é a tireoide, que promove anemia tanto nos distúrbios que aumentam, quanto nos que diminuem sua produção. No hipotireoidismo a anemia ocorre em aproximadamente 30% dos casos, sendo mais comum em homens com essa supressão. Os mecanismos envolvem o desenvolvimento de carências nutricionais como a deficiência de ferro, decorrente de metrorragia ou redução da absorção pela acloridria, e deficiência de B12 e folato. Outro gatilho é a baixa dos hormônios tireoidianos, que promovem a redução da atividade corporal, resultando em menor necessidade de oxigênio e com isso, inibição da eritropoiese. Devido às múltiplas razões, podemos encontrar um hemograma com anemia microcítica e hipocrômica (no caso de ferropriva), normocítica e normocrômica (pela redução da eritropoiese) ou macrocítica e normocrômica (carência de B12 e ácido fólico). No hipertireoidismo a anemia ocorre em menos de 25% dos casos, sendo também discreta e microcítica, porém não sabemos ao certo o mecanismo pelo qual isso ocorre. PARTE 4: HEMOGLOBINOPATIAS Antes de entrarmos no tema, precisamos relembrar um pouco sobre a estrutura da hemoglobina! CM 75 Clínica Médica Anemias e Hemoglobinopatias A composição das hemoglobinas dos indivíduos normais consiste em: 97% HbA1: formada por duas cadeias alfa e duas cadeias beta (dois genes alfa e dois genes beta). 2% HbA2: formada por duas cadeias alfa e duas cadeias delta (dois genes alfa e dois genes delta).