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AULA 2 AUDITORIA E PERÍCIA AMBIENTAL Prof. Marcelo Schmid 2 TEMA 1 – AUDITORIA AMBIENTAL EXTERNA: OPINIÃO TÉCNICA E NEUTRA A auditoria ambiental externa tem por finalidade evidenciar desempenho e trazer transparência por meio de uma opinião imparcial e orientada por parâmetros técnicos. Dessa forma, a auditoria ambiental externa é conduzida por profissional de alta capacidade técnica, necessariamente de fora da empresa (ou seja, não se admitem profissionais com alguma espécie de vínculo), contratados com a função específica de desenvolver a auditoria ambiental desejada. A auditoria externa – como opinião técnica – sempre deverá se basear em um padrão previamente determinado. Ora, por mais experiente que possa ser o auditor ambiental, sua opinião será sempre carregada de uma dose de subjetividade, o que varia de acordo com a formação técnica e com as convicções ideológicas do auditor. Dessa forma, para cercear a avaliação subjetiva dos fatos da auditoria, o auditor ambiental deverá se ater da melhor forma possível à letra da norma, evitando ao máximo interpretar sua aplicação de forma livre. As normas que orientam determinados sistemas de gestão ambiental (por exemplo, ISO 14001 e FSC) têm por objetivo reduzir ao máximo a possibilidade de aplicação discricionária de seu conteúdo, ou seja, reduzir a liberdade de interpretação pelo auditor responsável, garantindo que o sistema manterá a uniformidade de desempenho e avaliação em todas as empresas que o utilizem. Não é à toa que as normas dos sistemas ora utilizados como exemplo sejam objetos de constante revisão, visando torná-las mais claras e objetivas. Almeida (2012), ao abordar determinados aspectos da atuação do auditor financeiro, menciona que o profissional de auditoria deve abster-se de expressar uma opinião quando possuir limitação no desempenho do seu trabalho em obter evidência de auditoria apropriada e suficiente para suportar sua opinião e concluir que os possíveis efeitos de distorções não detectadas (se houver) sobre as demonstrações financeiras poderiam ser relevantes e generalizadas. Ou seja, o auditor só deve opinar em relação à conformidade ou não de determinado fato à norma de referência quando sua opinião for embasada em evidências concretas “colhidas” durante o processo de auditoria e direcionada para aquela situação específica. Caso contrário, o auditor estará colocando em risco justamente o critério abordado neste tema, ou seja, a necessária tecnicidade do processo de auditoria. 3 TEMA 2 – ATORES ENVOLVIDOS NA AUDITORIA A norma NBR ISO 14011 (“Diretrizes para Auditoria Ambiental – Procedimentos de Auditoria – Auditoria de Sistemas de Gestão Ambiental) destaca recomendações quanto às pessoas que participam do processo de auditoria, quais sejam: auditor líder, auditor, cliente e auditado (ABNT, 1996a). A seguir serão apresentadas as atribuições de cada ator, segundo definido na norma: 2.1 Auditor-líder Segundo a norma NBR ISO 14011, o auditor-líder tem como função assegurar a eficiente e eficaz execução e conclusão da auditoria (ABNT, 1996a). As seguintes atribuições são de sua responsabilidade: Definir junto ao cliente o escopo da auditoria; Obter informações fundamentais; Determinar se os requisitos necessários para realização de uma auditoria foram atendidos; Formar a equipe de auditoria; Conduzir a auditoria de acordo com as normas NBR ISO 14010 e 14011; Elaborar o plano de auditoria; Comunicar o plano a todos os envolvidos; Coordenar a preparação da documentação de trabalho e instruir a equipe; Solucionar problemas surgidos; Reconhecer objetivos inatingíveis e relatar as razões ao cliente e ao auditado; Representar a equipe em discussões; Notificar imediatamente o auditado casos de não conformidades críticas; Relatar os resultados da auditoria de forma clara, conclusiva e dentro do prazo acordado; Fazer recomendações para melhoria do SGA, se estiver no escopo da auditoria. 4 2.2 Auditor O auditor deve ser objetivo, eficaz e eficiente para realizar a sua tarefa, tendo como responsabilidades: Seguir instruções do auditor-líder; Apoiar o auditor-líder; Coletar e analisar evidências de auditoria relevantes e em quantidade suficiente para chegar às conclusões da auditoria; Preparar documentos de trabalho; Documentar cada constatação da auditoria; Resguardar os documentos da auditoria; e Auxiliar na redação do relatório de auditoria. 2.3 Cliente O cliente, terceiro ator da auditoria abordado pela norma, tem como responsabilidades: Determinar a necessidade da realização de uma auditoria; Contatar o auditado; definir os objetivos da auditoria; Selecionar o auditor-líder ou a organização de auditoria e, se apropriado, avaliar os elementos da equipe de auditoria; Prover recursos para realização da auditoria; Manter entendimento com o auditor-líder para definição do escopo da auditoria; Avaliar os critérios de auditoria e o plano de auditoria; e Receber o relatório de auditoria e definir sua distribuição. 2.4 Auditado Por fim, o auditado deve receber uma cópia do relatório de auditoria, salvo ser for excluído pelo cliente, e tem como responsabilidades: Informar aos funcionários da organização sobre a auditoria; Prover os recursos necessários para a realização da auditoria; Designar funcionários para acompanhar como guias à equipe de auditoria; Prover acesso às instalações, ao pessoal, às informações e aos registros; Cooperar com a equipe de auditoria para atingir os objetivos propostos. 5 TEMA 3 – A QUALIFICAÇÃO TÉCNICA DA EQUIPE DE AUDITORIA A norma NBR ISO 14012 (Diretrizes para auditoria ambiental – Critérios de qualificação para auditores ambientais) traz, de forma bastante interessante, um quadro com os critérios de qualificação técnica da equipe de auditoria, os quais serão apresentados a seguir (ABNT, 1996b) 3.1 Educação A norma recomenda que o auditor deve ter, no mínimo, o ensino médio completo. 3.2 Experiência profissional Segundo a NBR ISO 14012, a experiência profissional apropriada deve permitir o desenvolvimento de habilidades e conhecimento em um ou mais dos seguintes tópicos técnicos e científicos (ABNT, 1996b): I. Ciência e tecnologia ambientais; II. Aspectos técnicos e ambientais das operações da instalação; III. Leis e regulamentos aplicáveis; IV. Sistema de gestão ambiental; V. Procedimentos, processos e técnicas de auditoria. No caso de o auditor ter apenas o ensino médio (como permite a própria norma), é recomendado que ele possua, no mínimo, 5 anos de experiência. Este mínimo pode ser reduzido se ele tiver realizado, após conclusão do ensino médio, um curso formal em pelo menos um dos tópicos técnicos e científicos citados. A quantidade de anos que pode ser reduzida não deve ser superior à quantidade de anos do curso realizado e não deve exceder a 1 ano. No caso de o auditor ter um diploma de ensino superior (universidade ou instituição similar), é recomendado que ele tenha, no mínimo, 4 anos de experiência profissional apropriada. Esse mínimo pode ser reduzido se ele tiver realizado um curso formal em pelo menos um dos tópicos técnicos e científicos citados. A quantidade de anos que pode ser reduzida não deve ser superior à quantidade de anos do curso realizado e não deve exceder a 2 anos. 6 3.3 Treinamento Além da educação (ensino médio ou superior) e da habilidade e conhecimento em tópicos específicos, o auditor deve realizar treinamentos tanto formal (teórico) quanto de campo, para realizar e desenvolver competência na execução de auditorias ambientais. O treinamento formal ou teórico deve abranger um ou mais de um dos tópicos técnicos e científicos citados anteriormente. Esse critério (treinamento formal) pode serdispensado se o auditor puder demonstrar sua competência por meio de exames reconhecidos ou qualificações profissionais pertinentes. A norma recomenda que o auditor tenha realizado treinamento de campo (equivalente a 20 dias de trabalho em auditoria ambiental), em pelo menos 4 auditorias ambientais, tendo se envolvido em todo o processo de auditoria, sob orientação de um auditor-líder. O tempo de realização desse treinamento não deve exceder a 3 anos consecutivos. 3.4 Evidência objetiva Como evidência objetiva de educação, experiência e treinamento do auditor poderão ser utilizados diplomas, certificados de cursos, trabalhos publicados, livros escritos entre outros. 3.5 Atributos e habilidades especiais Além da educação formal e treinamento, o auditor deve ter algumas características que favoreçam sua atuação, como: Ser capaz de expressar claramente conceitos e ideias, escrita e oralmente; Ter diplomacia, tato e capacidade de escutar; Ser independente, objetivo e organizado; Saber julgar de forma fundamentada; e Saber respeitar convenções e culturas diferentes da própria. 3.6 Requisitos específicos para auditor-líder Para atuar como auditor-líder, o profissional de auditoria deve: 7 Ter participado em processos adicionais completos de auditoria, perfazendo adicionalmente 15 dias de trabalho em pelo menos 3 auditorias adicionais completas e ter participado como auditor-líder, sob supervisão e orientação de outro auditor-líder, em pelo menos 1 das 3 auditorias citadas, ou Ter demonstrado atributos e habilidades para gestão do programa de auditoria ou outros, por meio de entrevistas, observações, referências e/ou avaliações do seu desempenho em auditorias ambientais feitas segundo programas de garantia da qualidade. O atendimento a esses critérios adicionais não deve exceder a 3 anos consecutivos. 3.7 Manutenção da competência Os auditores devem proceder à atualização periódica de seus conhecimentos, sobre os tópicos técnicos e competência científicos citados no item referente à educação e experiência profissional. 3.8 Profissionalismo Neste ponto, a norma remete à NBR ISO 14010, a qual determina que as relações auditor/cliente devem ser caracterizadas por confidencialidade e discrição (ABNT, 1996c). Salvo quando exigido por lei, é recomendado que informações, documentos e relatório final da auditoria não sejam divulgados sem autorização do cliente e, conforme o caso, sem autorização do auditado. Porém a norma também recomenda que os auditores sigam um código de ética apropriado, tal qual será tratado no próximo tema. 3.9 Idioma Quando o auditor não tiver capacidade de se comunicar com fluência no idioma necessário, deve obter um suporte, que pode ser um intérprete, que seja independente para realizar seu trabalho de forma objetiva. 8 TEMA 4 – A RESPONSABILIDADE ÉTICA DA EQUIPE DE AUDITORIA Segundo Rocha e Barbosa (2016), a ética, como expressão única do pensamento correto, conduz à ideia da universalidade moral, ou ainda, à forma ideal universal do comportamento humano, expressa em princípios válidos para todo pensamento normal e sadio. Em relação à ética na atividade de auditoria, os mesmos autores apresentam características do trabalho ético aplicado à auditoria contábil, as quais podem ser perfeitamente transportadas para a auditoria ambiental: Comprometimento técnico-profissional, somente aceitando trabalhos que julgue estar capacitado totalmente de recursos para desenvolvê-los, recusando os serviços que não tiver capacidade de execução; Independência total no desenvolvimento dos trabalhos em todas as fases, não se deixando influenciar por fatores estranhos que caracterizem a perda de imparcialidade; Cobrança de honorários compatíveis com os trabalhos desenvolvidos, avaliando principalmente a relevância e o vulto do serviço a ser executado. Sigilo total das informações coletadas nos trabalhos de campo, somente divulgando-as a terceiros mediante autorização expressa da entidade, ou salvo quando houver obrigação legal. TEMA 5 – AUDITORIA INTERNA Segundo Coelho e Ribeiro (2013), a auditoria interna ou auditoria operacional se desenvolve por meio de avaliações e análises dos controles internos, com o objetivo de adicionar valor e aperfeiçoar as operações da organização. A função da auditoria interna, segundo os mesmos autores, é auxiliar a empresa na busca de seus objetivos, A auditoria pode ser realizada por colaboradores próprios da empresa, investidos do papel de auditores naquele determinado momento, ou por profissionais de outras empresas, contratados especificamente para o desenvolvimento do trabalho. Destaca-se que não é o fato de que determinada empresa tenha contratado um profissional externo para conduzir a auditoria interna que mudará o caráter da auditoria, uma vez que esta permanece sendo classificada como uma auditoria interna. 9 Segundo Almeida (2010), embora a atividade do auditor interno possa ser considerada uma espécie de ramificação da atividade do auditor externo, existe um pressuposto muito importante que recai sobre o profissional a ser escolhido: ele não deve ser subordinado ao trabalho examinado, ou seja, não deve exercer nenhum tipo de trabalho que possa a vir a ser auditado, para evitar que o auditor interno audite o próprio desempenho, incorrendo assim em um caso flagrante de conflito de interesses. Lembrando o que foi abordado nos itens anteriores, uma das características mais importantes da atuação do trabalho do auditor é a independência e isenção, logo não há como imaginar que qualquer profissional seria isento ao examinar o próprio trabalho, departamento ou setor. O objetivo da auditoria interna não está ligado a, por exemplo, à conquista de uma certificação ambiental, ou à avaliação de legalidade ambiental de determinado empreendimento que está sendo negociado no mercado, mas de fato deve pretender melhorar os processos de gestão da empresa, por meio de sugestões de ações de correção aos erros apontados. Os sistemas de gestão ambiental, em especial a ISO 14001, exige que a empresa realize auditorias internas periódicas como uma forma de identificação de não conformidades. A própria não realização de uma auditoria ambiental interna por si já seria uma grave não conformidade à ISO 14001, que certamente impediria a certificação da empresa pela determinada norma (ABNT, 1996d). Outro aspecto muito importante da auditoria e do auditor interno é que, além de não poder auditar o próprio trabalho ou departamento, não é recomendável que esse profissional audite seus superiores hierárquicos. Nesse caso, há um potencial conflito de interesses e direcionamento do resultado da auditoria à medida que o auditor naturalmente evitaria apresentar em seu relatório resultados que pudessem comprometer seu superior hierárquico, temendo uma retaliação dentro do ambiente corporativo. Novamente, a palavra-chave da atuação do auditor (seja ele interno ou externo) é isenção e, ao se pensar nessa palavra, compreende-se de forma mais clara o motivo pelo qual o auditor interno não deve auditar seus superiores. A situação ideal é de que o auditor interno ambiental seja um profissional dedicado à área de qualidade (ou gestão ambiental), e essa área deve ser colocada no organograma da empresa como algo paralelo à estrutura técnica e administrativa, para que não haja nenhum risco de condução do resultado. A 10 auditoria interna deve ser uma fonte de geradora de informações para a alta direção da empresa verificar se sua política ambiental e medidas de controle e monitoramento estão sendo eficazes. Outra função bastante relevante da auditoria ambiental interna é a de preparar a empresa para a auditoria externa, de sistemas de gestão ou outros selos de certificação ambiental (por exemplo, o ForestStewardship Council – FSC). É bastante normal no mercado que empresas candidatas à certificação ambiental contratem consultorias especializadas para a condução de auditorias internas que irão apontar as principais não conformidades relacionadas ao cumprimento de determinada norma ambiental e também as ações que devem ser tomadas para que a empresa as corrija, de modo que a empresa possa enfrentar a auditoria externa sem maiores percalços. Nesse ponto destaca-se também outra diferença da atuação do auditor interno em relação ao externo: o primeiro tem a liberdade de, se for o caso, fazer recomendações de melhoria no processo de gestão da empresa, pois muitas vezes esse é o objetivo final de sua contratação ou designação. Com base no relatório da auditoria (não conformidades), o auditor interno prepara um plano de ação para a correção dos desvios encontrados dentro de determinado prazo, com responsabilidades definidas para cada setor/departamento. 11 REFERÊNCIAS ABNT – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR ISO 14011: Diretrizes para auditoria ambiental: procedimentos de auditoria – Auditorias em sistemas de gestão. Rio de Janeiro: ABNT, 1996a. _____. NBR ISO 14012: Diretrizes para auditoria ambiental: critérios de qualificação de auditores ambientais. Rio de Janeiro, 1996b. _____. NBR ISO 14010: Diretrizes para auditoria ambiental – princípios gerais. Rio de Janeiro: ABNT, 1996c. _____. NBR ISO 14001: sistema de gestão ambiental: especificação e diretrizes para uso. Rio de Janeiro: ABNT, 1996d ALMEIDA, M. C. Auditoria: um curso moderno e completo. 7. ed. São Paulo: Atlas, 2010 _____. Auditoria: um curso moderno e completo. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2012. COELHO, J. M. R.; RIBEIRO, O. M. Auditoria fácil. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2013. ROCHA, S. A; BARBOZA, R. J. Ética nos trabalhos de auditoria. Revista Científica Eletrônica de Ciências Contábeis, São Paulo, 2006.