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May Freitas (FEBRE, INFLAMAÇÃO E INFECÇÃO) SEPSE 🤒 SEPSE NEONATAL DEFINIÇÃO A sepse neonatal é uma síndrome clínica com alterações hemodinâmicas e outras manifestações clínicas sistêmicas decorrentes da presença de germe patogênico (bactéria, vírus ou fungo) em fluido normalmente estéril, tais como sangue ou líquor, no primeiro mês de vida. É uma importante causa de sequelas neurocognitivas e de mortalidade neonatal. É uma síndrome clínica em uma criança de 28 dias de vida ou mais jovem, que se manifesta por sinais sistêmicos de infecção e/ou isolamento no sangue de um agente patogênico. Recém-nascidos são mais vulneráveis a desenvolverem sepse do que crianças mais velhas e adultos, pois apresentam sistema imunológico imaturo, sendo os prematuros de maior risco para a patologia. A sepse é uma das principais causas de morte no período neonatal, com taxa de mortalidade de até 50% nos casos não tratados em tempo hábil. EPIDEMIOLOGIA A incidência de sepse neonatal é menor em recém-nascidos de termo, de 1 a 2 casos por 1.000 nascidos vivos, e é inversamente proporcional à idade gestacional ao nascimento. Taxas de sepse são 7 a 10 vezes maiores em bebês de muito baixo peso. O tipo de microrganismo na sepse neonatal tem mudado ao longo do tempo, e essa mudança se deve a fatores maternos, raça, idade gestacional. Também, as sepses comportam-se diferentemente em diferentes lugares do mundo. FATORES DE RISCO As causas de infecção neonatal podem ser de origem intrauterina, intraparto e infecções pós-natal: Fatores intrauterinos o Desnutrição materna e fetal; o Abortos recorrentes; o Febre materna; o Ruptura prematura de membranas amnióticas > 18 horas; o Falta de pré-natal ou pré-natal incompleto; o Corioamnionite; o Taquicardia materna (> 100 bpm); o Taquicardia fetal (160 movimentos/min). Intraparto o Parto prolongado; o Líquido amniótico fétido. o Infecção urinária materna o Mãe internada em UTI; o Febre materna; o Ruptura prematura de membranas. Fatores neonatais o Sexo masculino; o Índice de Apgar baixo; o Prematuridade; o Baixo peso o líquido amniótico tinto de mecônio; o Mão colonizada com EGB não tratada no intraparto; o Recém-nascido que teve necessidade de ressuscitação. May Freitas (FEBRE, INFLAMAÇÃO E INFECÇÃO) Classificação quanto ao momento de aparecimento: AH! A sepse precoce causada pelo Streptococcus agalactiae, que, embora seja de etiologia perinatal, pode surgir nos primeiros sete dias de vida. AH! Eventualmente, a sepse tardia pode se manifestar em recém-nascidos no ambiente fora do hospital, os germes mais comuns são os de origem comunitária, tais como Staphylococcus aureus e Escherichia coli.A AH! Sepse neonatal pode ter também uma etiologia viral. PATOGÊNESE Sepse de início precoce é habitualmente ocasionada por transmissão vertical de bactérias do líquido amniótico contaminado ou durante o parto vaginal por bactérias do trato genital materno. Sepse de início tardio A sepse de início tardio pode ser adquirida por infecção transversal materna, com colonização neonatal e manifestação clínica tardia, por transmissão horizontal com contato direto com trabalhadores (médicos, enfermeiras, auxiliares de enfermagem, profissionais paramédicos) ou por instrumentos e materiais contaminados das unidades neonatais. Lesões de pele, cateteres vasculares e tubos endotraqueais são fontes de colonização e desenvolvimento de infecções neonatais tardias. Sepse neonatal Precoce Início nas primeiras 72 horas de vida Adquirida no período periparto, antes ou durante o parto Origem dos germes : Trato urinário materno Princiapis Agentes Etiológicos Gram (+): Streptococcus agalactiae Gram (-): Escherihia Coli Tardia Após as primeiras 72 horas de vida Comum em RN que parmanecem hospitalizados RN a termo com complicações RN pré-termo Ag etiológicos de ambiente hospitalar Gram (+) - Principal: estafilococo coagulase negativo Gram (-) - Principal: Escherichia Coli Fungos: Correspondem a 6 % dos casos May Freitas (FEBRE, INFLAMAÇÃO E INFECÇÃO) Fatores metabólicos, incluindo hipoxemia, acidose metabólica, hipotermia, doenças metabólicas herdadas, como galactosemia, contribuem para maior risco de doença infecciosa. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS DA SEPSE NEONATAL SEPSE NEONATAL PRECOCE A sepse neonatal precoce é aquela que pode ocorrer nas primeiras 72 horas de vida. A incidência de gira em torno de 0,5 a 0,77 casos por 1000 nascidos vivos, a depender da idade gestacional ao nascimento. Os fatores de risco para sua ocorrência são: 1. Colonização por Streptococcus agalactiae: a gestante colonizada com Streptocococcus agalactiae que não tenha feito profilaxia intraparto tem 25 vezes mais probabilidade de que o seu recém-nascido tenha sepse neonatal precoce do que um recém-nascido de uma mãe não colonizada. 2. Ruptura de membranas amnióticas por mais de 18 horas: recém-nascidos de mães com bolsa rota por mais de 18 horas têm quatro vezes mais risco de que o seu recém-nascido tenha infecção do que no caso de mães que não tenham bolsa rota. 3. Corioamnionite: a presença de corioamnionite aumenta a possibilidade de infecção neonatal precoce. A Corioamnionite é uma inflamação das membranas fetais (âmnio e córion), do líquido amniótico, placenta e/ou decíduas devido a uma infecção bacteriana. May Freitas (FEBRE, INFLAMAÇÃO E INFECÇÃO) QUADRO CLÍNICO As manifestações clínicas são muito variadas e inespecíficas, o que torna o diagnóstico de sepse neonatal precoce difícil e predispõe ao uso excessivo de antibiótico. Os sinais clínicos são de diferentes sistemas e podem ser agrupados da seguinte forma: a) apneia, dificuldade respiratória, cianose; b) taquicardia ou bradicardia, má perfusão 55ou choque; c) irritabilidade, letargia; hipotonia, convulsões; d) distensão abdominal, vômitos, intolerância alimentar, resíduo gástrico, hepatomegalia; e) icterícia inexplicável; f) instabilidade térmica; g) petéquias ou púrpura. Para se valorizarem os sinais clínicos, o ideal é que o recém-nascido apresente manifestações de três sistemas distintos, ou dois sinais clínicos de sistemas distintos associado a um fator de risco materno. O risco de sepse precoce é elevado quando o nascimento do recém-nascido pré-termo ocorreu após trabalho de parto espontâneo, ruptura prolongada de membrana amniótica ou presença de corioamnionite. A conduta mais adequada nessas situações é coletar hemocultura, líquor, exames complementares e iniciar antibioticoterapia empírica. O risco de sepse precoce é baixo quando o parto for por cesariana, sem bolsa rota e sem trabalho de parto. DIAGNÓSTICO Baseado na avaliação dos fatores de risco, quadro clínico, coleta de exames laboratoriais específicos e inespecíficos. Exames Laboratoriais Na suspeita de sepse neonatal precoce devem ser colhidos hemocultura (HMC) e líquor. A coleta de urocultura não é indicada, uma vez que infecção urinária na sepse neonatal precoce é pouco frequente. Hemograma e proteína C-reativa sérica apresentam um melhor valor preditivo negativo do que um valor preditivo positivo. 1. RN sintomático com fator de risco independentemente da idade gestacional: Coletar HMC em qualquer momento que o RN apresentar sintomas e aguardar 6 horas de vida para coleta de hemograma (HMG) e PCR; Após coleta de HMC: iniciar antibióticos; Recuperar dados sobre infecção materna: Urocultura e HMC. 2. RN assintomático; Suspensão dos antibióticos com HMC negativa OU sem crescimento até 48/72h. Exames laboratoriais: 1º exame será coletado entre 6-12h de vida (coletar mais próximo de 6h); 2º exame será coletado aproximadamente com 24h de vida. 3º exame, quando necessário, será coletado com aproximadamente 48h de vida. Nota: 2 exames normais = exclui infecção; 2 exames alterados = confirma infecção Exames normais: HMG normal - Score Rodwell < 3; PCR negativoou em queda; No primeiro exame, não avaliar o PCR isoladamente, avaliar sua evolução. Antibióticos devem ser suspensos em 48 a 72h em RNs estáveis clinicamente, exames normais e HMC negativa ou sem crescimento em 48/72h; Cultura de superfície, aspirado gástrico ou urocultura são de pouco valor para o diagnóstico de sepse precoce; No caso dos RNs assintomáticos, considerados infectados (2 exames laboratoriais alterados) e com HMC negativa ou sem crescimento, além de líquor (LCR) normal, cultura negativa ou sem crescimento, tratar infecção precoce com antibióticos por 5 a 7 dias; May Freitas (FEBRE, INFLAMAÇÃO E INFECÇÃO) Para avaliação do HMG no período neonatal utiliza-se o Escore de Rodwell. Embora útil, o Escore de Rodwell não constitui isoladamente um teste definitivo para o diagnóstico da sepse, uma vez que não identifica todos os neonatos sépticos. TRATAMENTO 1. Sepse Precoce sem Meningite Penicilina (Penicilina Cristalina ou Ampicilina) + Aminoglicosídeo (Gentamicina ou Amicacina); 2. Sepse Precoce com Meningite Penicilina (Penicilina Cristalina ou Ampicilina) + Cefalosporina de 3ª geração (Cefotaxima). PREVENÇÃO O CDC recomenda na prevenção da sepse por Streptococcus agalactiae o seguinte: Pesquisa universal (para todas as gestantes) da colonização do estreptococo entre 35 a 37 semanas de gestação. Durante o trabalho de parto ou no momento da rotura de membranas a quimioprofilaxia deve ser administrada para todas as gestantes colonizadas pelo estreptococo. Mulheres com estreptococo identificado em culturas de urina (em qualquer concentração) durante a gravidez devem receber a quimioprofilaxia intraparto. Mulheres que tiverem um filho anterior com infecção por estreptococo devem receber quimioprofilaxia. Se o resultado do rastreamento não é conhecido, a paciente deverá receber quimioprofilaxia nos seguintes casos: o (1) Trabalho de parto em idade gestacional inferior a37 semanas; o (2) Tempo de rotura de membranas superiora 18 horas; (3) Apresentar febre durante o trabalho departo (≥ 38◦C). Para a profilaxia intraparto o seguinte regime antimicrobiano é recomendado: penicilina cristalina endovenosa 5 milhões de unidades como dose de ataque e 2,5 milhões a cada 4 horas até o parto. Como segunda linha pode ser usada a ampicilina 2g endovenosa de ataque e 1g de 4 em 4 horas até o parto. May Freitas (FEBRE, INFLAMAÇÃO E INFECÇÃO) SEPSE NEONATAL TARDIA A sepse neonatal tardia é aquela que ocorre após 72 horas de vida e é mais frequente em recém- nascidos de muito baixo peso que permanecem internados um UTI neonatal por longo período ou em recém- nascidos pré-termos tardios ou de termo que necessitem internação prolongada. Os agentes etiológicos estão relacionados à flora bacteriana da Unidade Neonatal; Bactérias gram-positivas: Staphylococcus aureus, Estafilococos coagulase-negativo, Enterococos; Bactérias gram-negativas: Klebisiella pneumoniae, Enterobacter, Serratia, Pseudomonas; Fungos: Candida. A ocorrência de infecções virais, em especial o vírus sincicial respiratório e o rinovírus, tem sido relatados com certa frequência em recém-nascidos com quadro clínico semelhante à sepse neonatal bacteriana internados em UTI neonatais. Os fatores de risco mais importantes para sepse neonatal tardia são: Prematuridade Quebra de barreiras naturais: lesões e lacerações de pele mucosa propiciam invasão bacteriana. Tempo de Hospitalização Déficit nutricional Não receber direta enteral Uso de cateteres centrais por longo período Procedimentos invasivos, por ex: intubacão traqueal; extubações acidentais com necessidade de reintubações Uso prolongado de antibioticoterapia empírica Mal formação no SNC Anomalia do trato urinário AH: É importante salientar que a sepse tardia também ocorre em recém-nascidos de termo normais pós-alta. QUADRO CLÍNICO As manifestações clínicas, assim como na sepse neonatal precoce, são muito variadas e inespecíficas. ♥ Volte algumas páginas e reveja o quadro de sinais tardios♥ DIAGNÓSTICO Frente a um recém-nascido pré-termo internado por um longo período na UTI neonatal que apresente sinais clínicos suspeitos de sepse, recomenda-se: Exames Laboratoriais Coleta de hemocultura (HMC) - colhida em dois sítios, num a quantidade de 1 mL; Líquor,; Urina coletada de forma estéril (punção supra púbica ou sondagem estéril) para cultura. O germe mais frequente na sepse neonatal tardia é o estafilococo coagulase negativo e a distinção entre ser contaminante ou não é a positividade das hemoculturas coletadas em dois sítios: A positividade de ambas as hemoculturas é indicativa de que o estafilococo coagulase negativo é o agente etiológico da sepse. Os exames laboratoriais complementares como hemograma e proteína C-reativa apresentam um melhor valor preditivo negativo do que valor preditivo positivo, da mesma forma que na sepse neonatal precoce. Entretanto, em determinadas ocasiões o resultado do nível sérico da proteína C-reativa em combinação com o quadro clínico auxilia em direcionar o tratamento. O ponto de corte da proteína C-eativa é 10 mg/L. May Freitas (FEBRE, INFLAMAÇÃO E INFECÇÃO) O quadro clínico do recém-nascido é fundamental para a suspeição de sepse neonatal e, depois do resultado da hemocultura, o principal dado a orientar a necessidade de tratamento: Um recém-nascido em bom estado geral só terá indicação de antibioticoterapia se a hemocultura for positiva, independentemente do resultado do hemograma ou da proteína C-reativa. Um recém-nascido com sinais clínicos que demonstrem doença só não terá indicação de antibioticoterapia se a hemocultura for negativa e se tiver, pelo menos, dois níveis baixos de proteína C-reativa sequenciais com intervalo de 24 horas. Nessa situação devemos considerar que os sinais de doença sejam de uma etiologia não infecciosa bacteriana. TRATAMENTO O melhor esquema terapêutico deve ser orientado pela microbiota hospitalar da Unidade Neonatal e/ou germe detectado. O RN que evoluir de maneira insatisfatória e se seus exames persistirem alterados, substituir esquema de acordo com culturas e a rotina do serviço, sob orientações da CCIH. AH! Evitar uso indiscriminados de antibióticos de amplo espectro. CONDUTAS: Garantir acesso vascular central; Manter assistência respiratória adequada – Dar preferência sempre que possível às formas não invasivas de ventilação (CPAP – Pressão Positiva Contínua nas Vias Aéreas ou NIPPV – Ventilação de Pressão Positiva Intermitente Nasal); Prescrever antibióticos empíricos (Início < 60 min após o diagnóstico); Sepse tardia: Oxacilina e Amicacina; Evitar uso empírico de Cefalosporina e Vancomicina. Coletar gasometria arterial com lactato, HMG, PCR, 2 HMC e LCR (celularidade e cultura – se estável), urina com urocultura e radiografia; Tratar demais distúrbios associados: hipoglicemia, temperatura, eletrólitos. PREVENÇÃO Algumas medidas são indicadas na prevenção da sepse neonatal tardia: Lavagem de mãos ou uso de álcool gel: Os cinco momentos de higienização de mãos preconizados pela Organização Mundial da Saúde devem ser enfatizados: 1. antes do contato com o paciente; 2. antes do procedimento; 3. após risco de exposição a fluidos biológicos; 4. após contato com paciente; 5. após contato com áreas próximas ao paciente. Bundles apropriados e bem definidos de cuidados com cateteres intravasculares centrais e tubos endotraqueais que sejam rigorosamente seguidos com o objetivo de diminuir a contaminação. Alimentação enteral trófica: o início precoce da alimentação trófica estimula o trato gastrointestinal e a maturidade intestinal. Uso de leite materno: o leite materno contém concentrações significantes de IgA e oligossacarídeos que lhe conferem propriedades anti-infecciosas. Manuseio mínimo do RN. Cautela no manejode cateteres centrais. Educação continuada da equipe e da família para a lavagem de mãos com álcool gel. Uso criterioso de antibióticos.