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Autoras: Márcia Costa Alves da Silva Maria da Graça Ribeiro das Neves de Souza Dados Pessoais Nome: ___________________________________________________ Turma:____________ Matrícula:__________ Curso: _____________ Endereço: ________________________________________________ Cidade: _____________________________________ UF: _________ CEP: ________________ Telefone: ___________________________ E-mail: ___________________________________________________ GESTÃO ESTRATÉGICA NO SETOR PÚBLICO Programa de Pós-Graduação EAD CENTRO UNIVERSITÁRIO LEONARDO DA VINCI Rodovia BR 470, Km 71, no 1.040, Bairro Benedito - Cx. P. 191 - 89.130-000 INDAIAL/SC - Fone Fax: (47) 3281-9000/3281-9090 - www.uniasselvipos.com.br CENTRO UNIVERSITÁRIO LEONARDO DA VINCI Rodovia BR 470, Km 71, no 1.040, Bairro Benedito Cx. P. 191 - 89.130-000 – INDAIAL/SC Fone Fax: (47) 3281-9000/3281-9090 Reitor: Prof: Hermínio Kloch Diretor UNIASSELVI-PÓS: Prof. Carlos Fabiano Fistarol Coordenador da Pós-Graduação EAD: Prof. Norberto Siegel Equipe Multidisciplinar da Pós-Graduação EAD: Profa. Bárbara Pricila Franz Profa. Cláudia Regina Pinto Michelli Prof. Ivan Tesck Profa. Kelly Luana Molinari Corrêa Equipe Pedagógica do IBAM: Prof. Heraldo da Costa Reis Profa. Márcia Costa Alves da Silva Profa. Tereza Cristina Baratta Revisão de Conteúdo: Profa. Mara Biasi Ferrari Pinto Revisão Gramatical: Profa. Sandra Pottmeier Revisão Pedagógica: Profa. Bárbara Pricila Franz Diagramação e Capa: PROFTEC Copyright © Editora Grupo UNIASSELVI 2012 Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri – Grupo UNIASSELVI – Indaial 361 S729p Souza, Rosimere de Políticas sociais / Rosimere de Souza. Indaial : Uniasselvi, 2012. 126 p. : il ISBN 978-85-7830-621-2 1. Políticas sociais. I. Centro Universitário Leonardo da Vinci II. Núcleo de Ensino a Distância III. Título PARCERIA ENTRE IBAM E UNIASSELVI No momento atual, em todos os países, em qualquer instância de governo, observa-se um movimento de revisão do papel do Estado, somado à exigência das populações por atuação governamental de qualidade. Esta tendência conduz à demanda expressiva para que se consolide a existência e o funcionamento de um sistema qualificado de Gestão para a implementação de políticas públicas. A institucionalização dos processos de gestão e a profissionalização dos servidores públicos passam a ser instrumentos estratégicos para alavancar condições de melhor execução de atividades e projetos, bem como dos meios de controle necessários para avaliação de resultados da atuação governamental. Inúmeras iniciativas são implementadas para dar consistência a este modelo de gestão governamental que se apoia na valorização da transparência, da participação e do controle social, que não podem existir sem instrumentos adequados e pessoas qualificadas. É neste contexto que se forma a parceria do IBAM com a UNIASSELVI. Aprimorar o sistema de gestão pública, apoiar a formação de profissionais que queiram ser ou já são do quadro do setor público e ampliar a informação para o cidadão sobre como deve funcionar o governo são os propósitos iniciais do MBA em Gestão Pública que passa a integrar o programa de pós-graduação da UNIASSELVI. A equipe de Professores Autores que o compõe se destaca pelo desempenho profissional em projetos da Administração Pública e como docentes universitários. A experiência da UNIASSELVI em processos educacionais em nível superior, aliada à do IBAM, que há 60 anos atua, em nível nacional e internacional, para o aprimoramento da administração pública, é composição de excelência para enriquecer o cenário que se quer alcançar. O IBAM e a UNIASSELVI desejam a todos os participantes uma boa jornada de estudos. Aos que se dirigem ao setor público, que consolidem sua formação; e, aos demais, que ampliem o nível de informação sobre governo e aprendam a articular-se com ele como cidadãos. Paulo Timm Superintendente Geral do Instituto Brasileiro de Administração Municipal – IBAM Prof. Carlos Fabiano Fistarol Pró-Reitor de Pós-Graduação a Distância Grupo UNIASSELVI Maria da Graça Ribeiro das Neves Márcia Costa Alves da Silva Mestre em Ciências em Engenharia de Produção pela COPPE/UFRJ - (1976) e Bacharel em Administração Pública pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas - EBAP/FGV (1970). Cursou o Programa de doutorado em Planejamento Urbano na University of California - Los Angeles (UCLA) - (1977- 1980). Especializou-se em Gênero e Planejamento na Universidade de Londres/Development Planning Unit – DPU. No IBAM - Instituto Brasileiro de Administração Municipal, onde atua desde 1987, atualmente é assessora técnica da Superintendência Geral. Ministrou cursos e palestras e coordenou a publicação de livros e artigos sobre temas de seu interesse e competência. No momento integra o Coletivo Editorial do IBAM – CEI. Mestre em Administração pela UNESA/RJ. Especialista em Recursos Humanos pela FGV/RJ. Psicóloga e bacharel em Direito. Coordenadora de Ensino do IBAM, atua no planejamento e na gestão de programas e projetos educacionais. Professora de cursos de pós-graduação em Gestão Empresarial e Gestão de Recursos Humanos. Consultora em Projetos de Modernização Administrativa na área de Gestão de Pessoas, Educação Corporativa, Responsabilidade Social, Comportamento Organizacional, Gestão por Competências, Desenvolvimento Gerencial e de Equipes. CV: <http://lattes.cnpq. br/1973733718894619>. Sumário APRESENTAÇÃO ......................................................................7 CAPÍTULO 1 AS BASeS TeóricAS dA GeSTão eSTrATéGicA ..................................9 CAPÍTULO 2 AS BASeS dA NovA AdmiNiSTrAção PúBlicA ................................. 41 CAPÍTULO 3 modeloS de GeSTão orGANizAcioNAl ......................................... 67 CAPÍTULO 4 excelêNciA NA GeSTão PúBlicA ................................................ 111 APRESENTAÇÃO Caro(a) pós-graduando(a): O Caderno de Estudos sobre Gestão Pública Estratégica que agora será o foco da atenção dos leitores, trabalha em duas direções complementares: uma de caráter geral que observa a administração em sua universalidade e, a outra que examina o caso brasileiro, em sua especificidade e tomando como referência a abrangência e aplicabilidade do conhecimento geral. Os capítulos 1 e 3 voltam-se para a disseminação de informações mais genéricas sobre a administração, registrando escolas e abordagens que ao longo do tempo deram elementos para sustentá-la como um campo do conhecimento aplicável a diferentes contextos sociais e ramos da atuação humana. Onde quer que haja necessidade de coordenar recursos com vistas a alcançar objetivos definidos, lá está a administração. O esforço humano cooperativo é das mais clássicas e antigas definições de administração. Já nos capítulos 2 e 4 são vistos os rebatimentos nacionais dos assuntos em tela. O primeiro deles está voltado para o registro e o exame dos diferentes momentos em que aconteceram inflexões importantes quanto à prática da administração pública no país mediante processos de modernização ou reforma administrativa. O quarto capítulo trata da iniciativa mais recente de mudança no modelo de gestão e funcionamento do setor público no Brasil, o Gespública que abrange um muito ambicioso processo de transformação que envolve técnicas, tecnologia, comportamento e cultura organizacionais. A intenção do presente caderno é fornecer ao aluno uma visão geral que apoie sua experiência profissional em administração. O documento está centrado no setor público, mas o material nele contido permite descortinar várias dimensões do fazer coletivo e cooperativo sem o qual o(a) administrador(a) não realiza seu trabalho. A administração é um campo de atuação fundamentalmente prático, operativo, mas sua efetividade resultade exercício de crítica e reflexão que envolve conceitos de diferentes campos das ciências sociais. E seus instrumentos são construídos com apoio nas ciências exatas, nas engenharias e da tecnologia da informação. Assim, caro(a) pós-graduando(a), abra as portas de um terreno fértil e desafiador. Sucesso nos estudos! As autoras. 8 Gestão Estratégica no Setor Público CAPÍTULO 1 AS BASeS TeóricAS dA GeSTão eSTrATéGicA A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: 3 Examinar teorias e abordagens de sustentação voltadas à gestão estratégica. 3 Reconhecer implicações na administração pública. 10 Gestão Estratégica no Setor Público 11 As BAses TeóricAs dA GesTão esTrATéGicA Capítulo 1 coNTexTuAlizAção Como os estudos científicos impactam a gestão e a realidade do trabalho? Qual a diferença entre teoria e abordagem? Em uma era caracterizada pela complexidade, é importante buscar respostas para estas questões e conhecer as características e contribuições das principais escolas da administração e sua contribuição para as organizações. Em se tratando de Administração Pública, em qualquer nível de governo – Federal, Estadual ou Municipal – a necessidade de profissionais capazes de compreender as particularidades da esfera governamental sempre existiu, mas com a crescente participação da sociedade nas decisões e a aproximação entre o público e o privado, a capacidade do Estado de formular políticas públicas capazes de atender as demandas da sociedade tem sido muito questionada. Compreender conceitos relacionados à gestão, seja na esfera pública ou privada, torna-se condição essencial para o desenvolvimento do pensamento crítico e para construção de novos saberes e aplicações do conhecimento na realidade. TeoriAS e ABordAGeNS dA AdmiNiSTrAção – coNceiToS, cArAcTeríSTicAS FuNdAmeNTAiS e PriNciPAiS rePreSeNTANTeS Neste Capítulo iremos abordar as principais teorias e abordagens da ciência da administração. Importante destacar que utilizamos o termo teoria (ou “escola”) como o conjunto de conhecimentos e princípios de uma ciência e o termo abordagens para indicar estudos relevantes, contribuições dentro de uma mesma teoria. Uma teoria corresponde a um horizonte temporal mais amplo; assim, influenciada por uma determinada teoria, podemos identificar uma ou mais abordagens que a complementam ou apresentam novas interpretações. Algumas abordagens foram muito importantes para a administração, se confundem com teorias, mas há outras que não se sustentariam sem a teoria que lhes forneceu insumos de pesquisa. Deste modo, com base principalmente na obra Administração – Teorias e Processos, de Caravantes, Panno, Kloeckner (2005) identificamos a evolução 12 Gestão Estratégica no Setor Público Frederick Taylor, conhecido como o pai da administração científica deu ênfase ao estudo de tempos e métodos de trabalho. histórica das principais abordagens e teorias da administração. Algumas correspondem a momentos específicos que influenciaram práticas de gestão na administração pública. O resumo das teorias e abordagens da administração, com indicação de seus mais representativos autores é apresentado a seguir: eScolA cláSSicA Muitos dos métodos e instrumentos de gestão que são aplicados nas organizações da sociedade da informação e do conhecimento encontram-se na administração cientifica de Taylor e na gerência administrativa de Fayol. Esperamos que ao saber mais sobre a contribuição destes ilustres representantes da Escola Clássica, você possa formar sua opinião sobre a contribuição de ambos para a Administração. a) A Administração Científica de Frederick Taylor Atribui-se ao norte-americano Frederick Taylor, conhecido como o “pai da administração científica”, os primeiros estudos sistematizados sobre as organizações no final do século XIX. Mecânico, engenheiro e líder de grupo, Taylor, estudou o rendimento de trabalhadores na indústria numa perspectiva da interação do homem com o meio social criado pela organização. Em sua investigação deu ênfase ao estudo de tempos e métodos de trabalho com o objetivo de melhor aproveitamento do trabalhador no processo de produção. Em contrapartida, deu pouca atenção aos aspectos comportamentais que influenciavam o trabalhador. Em seu livro “Princípios da Administração Científica” indicou um conjunto de princípios básicos como meio para o aprimoramento do desempenho organizacional. Para Caravantes, Panno, Kloeckner (2005, p. 58), a contribuição de Taylor pode ser resumida nos quatro princípios que caracterizam a Administração Científica: • Estabelecer uma ciência da produção; • Treinar e selecionar trabalhadores; • Aplicar essa ciência para tarefas operativas; • Construir um sistema de cooperação entre trabalhadores e gerência para alcançar os objetivos. Para Caravantes, Panno, Kloeckner (2005) é de extrema importância ao atentarmos às ideias de Taylor e, mais especificamente, a seus Princípios da Administração Científica, que essas informações foram emitidas em 1900!! 13 As BAses TeóricAs dA GesTão esTrATéGicA Capítulo 1 Fayol definiu cinco funções básicas da Administração – planejamento, organização, comando, coordenação e controle. Os elementos básicos da administração propostos por Fayol se concentravam na necessidade de identificação e agrupamento de funções (produtivas, auxiliares, de supervisão etc.) para estabelecer departamentos, inclusive de cúpula (ou de comando), como meio para minimizar os custos das atividades desempenhadas pela organização. Como veremos adiante, os princípios da administração científica ainda hoje integram as abordagens contemporâneas da administração e influenciaram iniciativas de modernização do Estado como estudaremos no Capítulo 2. b) A Gerência Administrativa de Henri Fayol Se Taylor foi importante representante na América, a Europa teve em Henri Fayol um de seus grandes nomes no estudo da Administração no final do século XIX e início do XX. Enquanto Taylor, até mesmo por sua formação em engenharia, deu foco à linha de produção para o desempenho organizacional, Fayol, que foi diretor geral de uma mineradora, enfatizou os dirigentes e a estrutura da organização. Os elementos básicos da administração propostos por Fayol se concen- travam na necessidade de identificação e agrupamento de funções (produtivas, auxiliares, de supervisão etc.) para estabelecer departamentos, inclusive de cúpula (ou de comando), como meio para minimizar os custos das atividades desempenhadas pela organização. Seus estudos buscaram a compreensão da organização numa perspectiva “de cima para baixo”, ou seja, de seus dirigentes para a base. Com isso, sua contribuição concentra-se na melhor compreensão da estrutura da organização. Fayol definiu cinco funções básicas da Administração – planejamento, organização, comando, coordenação e controle – que abrangiam o conjunto de atividades administrativas (ou processo administrativo) a serem desempenhadas pelos gerentes. As funções básicas foram adaptadas e consolidadas em quatro – planejamento, organização, liderança e controle e, ainda hoje são utilizadas para compreensão dos processos básicos de uma organização. Dentre as funções básicas, merece destaque sua concepção de planeja- mento, de que: [...] sem planos e objetivos claros, as demais funções perdiam valor, pois ficavam como vazias. Uma organização que não planeja e, portanto, não tem clareza de seus objetivos é como um barco navegando em noite escura e em mares desconhecidos, sem dispor de instrumentos de navegação. O resultado provável não pode ser muito auspicioso (CARAVANTES; PANNO; KLOECKNER, 2005, p. 63). Como podemos ver, sua ideia sobre planejamento, no presente, como condicionante para alcance de resultados, no futuro, ainda é bastante atual. 14Gestão Estratégica no Setor Público A publicação do livro “Administração industrial e geral” em 1916, representa um marco para o estudo da gestão e conteúdo de destaque em cursos de Administração. Atividade de Estudos: 1) Taylor e Fayol são dois ilustres representantes da Escola Clássica da Administração. Ambos engenheiros que desenvolveram estudos a partir da experiência como profissionais da indústria. Enquanto o primeiro desenvolveu sua teoria numa percepção da organização “de baixo para cima” o segundo a percebeu “de cima para baixo”. Que elementos confirmam esta afirmação? ________________________________________________ ________________________________________________ ________________________________________________ ________________________________________________ ________________________________________________ ________________________________________________ ________________________________________________ ________________________________________________ c) Max Weber e a Burocracia Este sociólogo alemão, cientista político e economista, ficou conhecido por ter criado o termo burocracia. Sua teoria enfatizou “a organização formal, os meios racionais utilizados para dirigir as atividades de muitos indivíduos ocupantes de cargos diferentes, visando atingir um objetivo comum” (CARAVANTES; PANNO; KLOECKNER, 2005, p. 65). Vale lembrar que seus estudos se deram no período da Revolução Industrial, ocasião em que o conhecimento despontava como elemento capaz de produzir melhorias nos métodos e técnicas de produção. Em seu interesse de identificar e comparar estágios de desenvolvimento de diferentes indústrias para explicar seu desempenho e a importância da autoridade neste processo, Weber desenvolveu três tipos de relações de autoridade: • Tradicional – fundamentada nos costumes e práticas do passado. • Carismática – fundamentada na devoção ao caráter ou conduta considerada exemplar de um indivíduo. 15 As BAses TeóricAs dA GesTão esTrATéGicA Capítulo 1 • Racional-legal – fundamentada na autoridade exercida pela natureza de determinados cargos. Weber considerou a autoridade racional-legal (autoridade do cargo e não da pessoa) como a mais adequada para que as “organizações de porte, complexas em natureza” pudessem alcançar seus objetivos. Caravantes, Panno, Kloeckner (2005, p. 65) assinalou os aspectos fundamentais da organização burocrática proposta por Weber. São eles: • Ênfase na forma, que se materializava em um conceito definido de hierarquia, uma organização sequencial de cargos, bem delimitados por regras e normas. • Especialização da tarefa e competência: só estaria qualificada para integrar o quadro administrativo da organização, e, portanto, em condições de nomeação para funções oficiais, a pessoa que demonstrasse preparo técnico adequado. Portanto, o treinamento adquiria especial importância nesse contexto. • Regras e normas: de modo a garantir que os objetivos fossem efetivamente alcançados, era necessário que existissem certos parâmetros e orientações oficiais a serem seguidos. • Responsabilidades definidas para os ocupantes dos cargos, com a autoridade necessária para o desempenho efetivo. • Registro: todos os conhecimentos relevantes da vida organizacional deveriam ser documentados. Robert Merton que utilizou os estudos realizados por Weber para análise das organizações se referiu a burocracia como: Uma estrutura social formal, racionalmente organizada, implica modelos de atividades claramente definidos, nos quais idealmente cada série de ações está ligada funcionalmente aos objetivos da organização. Em tal organização há uma série integrada de funções, de status hierárquicos, que implica um certo número de privilégios e obrigações, definidas por regras limitadas e específicas. Cada uma dessas funções compreende uma esfera de competência e responsabilidade. A autoridade, o poder de controle, vindo de um regulamento reconhecido, é prerrogativa do cargo e não da pessoa que ocupa o mesmo. O sistema de relações estabelecido entre diversas funções implica um grau considerável de formalismo e define claramente a distância social, separando os indivíduos que ocupam esses cargos. Assim, o tipo ideal de uma organização formal seria a burocracia, e para melhor 16 Gestão Estratégica no Setor Público compreensão, a análise clássica da Burocracia seria a de Weber. O principal mérito da Burocracia é a sua eficiência técnica. Ela prima pela precisão, rapidez, avaliação, continuidade. Fonte: Merton (apud CARAVANTES; PANNO; KLOECKNER, 2005, p. 66). De modo geral, a burocracia tem sido associada à gestão lenta, disfuncional, pouco ou quase nada voltada para resultados. Pelo exposto, podemos verificar que este entendimento não corresponde às ideias de Weber. Na verdade, a burocracia pressupõe um conjunto de ações sistemáticas que visam o bom desempenho da organização. Na sua opinião, o que contribuiu para esta visão distorcida sobre a burocracia? No capítulo 2, você vai estudar sobre a Reforma Burocrática do Estado e isto irá ajudá-lo a compreender e a estabelecer relações entre a teoria clássica e algumas iniciativas de reforma realizadas pelo Estado brasileiro. Para finalizarmos o estudo sobre a Escola Clássica da Administração, destacamos no quadro a seguir as contribuições de seus principais representantes. Quadro 1 – Principais representantes da Escola Clássica Taylor (Administração científica) Fayol (Departamentalização) Weber (Organização burocrática) Características da administração Treinamento em regras e rotinas. Definição de funções da organização e divisão do trabalho. Hierarquia e autoridade. Regras para realização do trabalho. Impessoalidade. Divisão do trabalho. Hierarquia e autoridade. Deu ênfase Ao empregado. Ao gerente. A organização. Pontos Fortes Produtividade e eficiência. Definição da Estrutura Papel dos gerentes. Racionalização e eficiência. Pontos Fracos Subestimou as necessi- dades sociais. Foco interno. Excessiva ênfase no comportamento racional do gerente. Muita rigidez. Lentidão. Fonte: Adaptado de Caravantes, Panno e Kloeckner (2005, p. 67). 17 As BAses TeóricAs dA GesTão esTrATéGicA Capítulo 1 Para Caravantes, Pannoe Kloeckner (2005, p. 81) “o grande mérito da Escola de Relações Humanas foi desvendar ao mundo que o homem, o grupo e suas inter-relações eram vitais para os resultados buscados pelas organizações”. Outros nomes se destacaram na Escola Clássica da Administração, como Henry Ford, Frank e Lilian Gilbreth e Mary Follett. Pesquise sobre estes estudiosos e suas principais contribuições para a Administração. Como vimos, as contribuições da Escola Clássica ainda hoje são relevantes, mas há de se destacar que, na época, as principais críticas se concentraram na ênfase aos aspectos formais da organização e a pouca (ou nenhuma) atenção dedicada aos aspectos do comportamento dos indivíduos. E foi exatamente por este aspecto negligenciado que uma outra vertente de pesquisas se iniciou, trata-se da Escola das Relações Humanas que estudaremos a seguir. TeoriA (ou eScolA) dAS relAçõeS HumANAS Os estudos realizados pelos representantes da Escola das Relações Humanas, tiveram, assim como os da Escola Clássica, a preocupação com a melhoria do desempenho organizacional. Para Caravantes, Pannoe Kloeckner (2005, p. 81) “o grande mérito da Escola de Relações Humanas foi desvendar ao mundo que o homem, o grupo e suas inter-relações eram vitais para os resultados buscados pelas organizações”. Um dos nomes associados a esta Escola é o de Elton Mayo, que com outros pesquisadores da Harvard, desenvolveram entre 1920 e 1930, estudos relacionados ao comportamento humano. Estes estudos ficaram conhecidos como Estudos de Hawthorne, e, embora tenham atenuado o mecanicismo característico da Escola Clássica acabaram por representar uma oposição em relação a esta,onde não mais a estrutura, mas o homem é que deveria ser objeto de análise. Foram as seguintes as proposições da Escola das Relações Humanas (CARAVANTES; PANNO; KLOECKNER, 2005): • O incentivo econômico não é a única força motivadora a que o trabalhador responde; a produção é fortemente influenciada tanto pelas relações com os outros companheiros de trabalho como por seus problemas pessoais, tanto dentro como fora da fábrica. 18 Gestão Estratégica no Setor Público • O trabalhador não se comporta como um ser isolado, mas sim como um membro do grupo. Essas inter-relações criam aquilo que chamamos de organização informal. • A especialização funcional não cria, necessariamente, a organização mais eficiente. Tanto que a rotação de cargo, em que o indivíduo alterna tarefas a serem executadas, contribui para seu melhor desempenho. Os pesquisadores de Hawthorne concluíram que: • A colaboração nos grupos não ocorre acidentalmente; ela precisa ser planejada e desenvolvida. Se a colaboração grupal é alcançada, as relações no ambiente de trabalho podem alcançar um nível de coesão capaz de resistir aos distúrbios externos de uma sociedade turbulenta em buscar de adaptar-se; • O trabalhador é uma pessoa cujas atitudes e eficácia são condicionadas pelas demandas sociais tanto internas quanto externas à organização; • Os grupos informais internos à organização exercem fortes controles sociais sobre os hábitos de trabalho e atitudes dos trabalhadores; • A mudança de uma sociedade estabelecida e estável para uma sociedade adaptativa ou em mudança tende em base continuar a perturbar a organização social de uma empresa ou uma indústria; • O trabalho é uma atividade de grupo; • O mundo social de um adulto é primariamente estruturado pela atividade de trabalho; • A necessidade de reconhecimento, segurança e senso de pertencimento é mais importante na determinação da moral do trabalhador e de sua produtividade do que as condições físicas que lhe são oferecidas; • Uma queixa não corresponde necessariamente a uma relação objetiva de fatos; ela é usualmente um sintoma, manifestando uma perturbação na posição de status do reclamante. Fonte: Caravantes, Panno e Kloeckner (2005, p. 82). 19 As BAses TeóricAs dA GesTão esTrATéGicA Capítulo 1 Atribui-se ao estruturalismo a inclusão de temas como conflito e poder ao estudo das organizações e o que denomina de dilema organizacional, ou seja, o conflito inevitável “entre objetivos organizacionais e necessidades individuais”. O fato de os primeiros estudos realizados pela Escola das Relações Humanas terem representado uma oposição a Escola Clássica, fez com que outras abordagens, também de base humanista surgissem, como é o caso das abordagens estruturalista e comportamental que veremos a seguir. a) Abordagem Estruturalista O estruturalismo buscou a integração entre os aspectos mais relevantes da Escola Clássica e da Escola de Relações Humanas, minimizando a oposição de ideias entre essas duas escolas da administração. Atribui-se ao estruturalismo a inclusão de temas como conflito e poder ao estudo das organizações e o que denomina de dilema organizacional, ou seja, o conflito inevitável “entre objetivos organizacionais e necessidades individuais”. Amitai Etzioni (apud CARAVANTES; PANNO; KLOECKNER, 2005) considerado um dos principais representantes do estruturalismo sobre as Escolas Clássica e de Relações Humanas afirma que: A Administração Científica e a Escola de Relações Humanas eram, em certos aspectos, diametralmente opostas. Os fatores que uma escola considerava críticos e cruciais, a outra simplesmente ignorava. Entretanto, as duas tinham um elemento comum: nenhuma delas via qualquer contradição básica ou dilema insolúvel nas relações entre a busca de racionalidade por parte da organização e a busca de felicidade de parte do indivíduo. A Administração Científica entendia que a organização mais eficiente seria também a organização mais satisfatória, uma vez que ela maximizaria tanto a produtividade como o pagamento do indivíduo... A abordagem das Relações Humanas entendia que a organização mais satisfatória seria também a mais eficiente. Ela sugeria que os trabalhadores não ficariam satisfeitos numa organização fria, formal, que apenas satisfizesse suas necessidades econômicas... Fonte: Etzioni (apud CARAVANTES; PANNO; KLOECKNER, 2005, p. 58, grifos nossos). 20 Gestão Estratégica no Setor Público Uma das principais críticas à abordagem estruturalista foi a excessiva ênfase dada aos aspectos comportamentais que, por sua vez, eram difíceis de ser comprovados cientificamente. Atividade de Estudos: 1) Registre sua opinião sobre o que Etzioni quis dizer com as frases em negrito assinaladas no texto. ________________________________________________ ________________________________________________ ________________________________________________ ________________________________________________ ________________________________________________ ________________________________________________ ________________________________________________ ________________________________________________ ________________________________________________ Em resumo, a abordagem estruturalista propõe que a análise organizacional considere: • tanto a organização formal quanto a organização informal; • os níveis mais altos e os que se encontram na base da organização; • recompensas materiais e não-materiais; • a interação da organização com o ambiente. Uma das principais críticas à abordagem estruturalista foi a excessiva ênfase dada aos aspectos comportamentais que, por sua vez, eram difíceis de ser comprovados cientificamente. b) Abordagem Comportamentalista Os pesquisadores comportamentalistas se dedicaram ao aprofundamento de estudos sobre aspectos comportamentais do indivíduo na organização que, até certo ponto, foram negligenciados pelos estruturalistas, procurando estabelecer relação de causa e efeito em temas como conflito, motivação, cooperação, liderança e processo decisório. Alguns representantes da abordagem comportamentalista com sua respectiva contribuição para Escola das Relações Humanas são indicados a seguir: 21 As BAses TeóricAs dA GesTão esTrATéGicA Capítulo 1 • Chester Barnard – sua contribuição foi fruto de sua experiência como executivo em organizações. Como executivo, não encontrou na academia nenhuma teoria que o ajudasse a compreender os fenômenos que percebia nas organizações. Foi assim, a partir de sua experiência, que publicou em 1938 o livro “As funções do executivo” no qual deu ênfase ao papel do líder, a importância de se ter um propósito, a ética e a cooperação entre indivíduos na organização. Reconheceu em sua obra a existência de uma “organização informal” como sendo necessária para o funcionamento da “organização formal”. • Kurt Lewin – a obra deste psicólogo alemão que se refugiou nos Estados Unidos após a I Guerra Mundial, “mudou fundamentalmente o curso da Ciência Social. [...] a essência e grande parte de seu trabalho mais brilhante consiste em uma análise conceitual da natureza dos fenômenos que previamente tinham tido apenas rótulos populares” (CARAVANTES; PANNO; KLOECKNER, 2005, p. 129). Desenvolveu a Teoria de Campo na qual tratou da diferença e importância entre “observação” e “interpretação” a fim de evitar influência de ideias preconcebidas do observador na análise dos fatos. Pesquise sobre a Teoria de Campo e a análise do campo de forças para saber mais sobre a contribuição de Kurt Lewin. • Herbert Simon - Seu livro “Comportamento administrativo: um estudo dos processos decisórios” ainda hoje é referência nos cursos de administração. Conceitos como eficiência, racionalidade limitada, satisfação e otimização foram tratados por Simon para explicar os métodos e processos de trabalho. Se para Simon a organização existepara “fazer coisas”, preocupou-se em esclarecer o “processo prévio de busca de alternativas e de escolha que precedem a própria ação” (CARAVANTES; PANNO; KLOECKNER, 2005, p. 103). Leia o trecho a seguir do Livro “Comportamento Administrativo”, publicado pela FGV Editora em 1965 e tire sua própria conclusão sobre a contribuição de Hebert A. Simon para Administração. 22 Gestão Estratégica no Setor Público [...] a organização é importante porque em nossa sociedade, em virtude de os indivíduos passarem a maior parte da vida adulta trabalhando em organizações, o ambiente organizativo que os envolve gera a maioria das forças modeladoras e orientadoras do desenvolvimento de suas qualidades e hábitos pessoais. A organização é importante, em segundo lugar, porque proporciona aqueles que ocupam posições de responsabilidade os meios para exercer autoridade e influenciar os demais. Não se pode compreender o input e o output de um administrador, sem conhecer também a organização onde trabalha. Seu comportamento e a influência sobre os demais indivíduos decorrem da situação em que ele se encontra na organização. O conceito de organização Parte da dificuldade e da resistência à análise dos fatores organizativos que influenciam o comportamento do administrador, decorrem de interpretação errônea do termo “organização”. Para muitos, organização é sinônimo de organogramas ou de manuais de classificação de cargos, que devem ser religiosamente observados e anotados. Mesmo quando discutida por alguns dos seus mais argutos estudiosos, assume muito mais a forma de uma série de quadrinhos, dispostos de acordo com lógica arquitetônica abstrata, do que com uma casa a ser habitada por seres humanos. Para culminar, os departamentos de organização existentes nas grandes empresas e na administração pública reforçam, ao invés de eliminar, através de suas atividades, o estereótipo do que se entende por organização. O termo organização refere-se, neste livro, ao complexo sistema de comunicações e inter-relações existentes num grupamento humano. Esse sistema proporciona a cada membro do grupo parte substancial das informações, pressupostos, objetivos e atitudes que entram nas suas decisões, propiciando-lhes, igualmente, um conjunto de expectações estáveis e abrangentes quanto ao que os outros membros do grupo estão fazendo e de que maneira reagirão ao que ele diz e faz. Ao sistema que acaba de ser descrito, os sociólogos chamam de “sistema de papéis”, embora muitas pessoas o chamem, na intimidade, de “organização”. Fonte: Simon (1965, p. 16-17). 23 As BAses TeóricAs dA GesTão esTrATéGicA Capítulo 1 • Abraham Maslow - desenvolveu a Teoria das Necessidades Humanas (ou Hierarquia das Necessidades). Sua hipótese era de que todo comportamento humano é motivado. Segundo Maslow, as necessidades básicas apresentam-se dentro de uma hierarquia de valores onde o indivíduo passará para a etapa seguinte apenas quando tiver a necessidade anterior satisfeita. Silva (2006) exemplifica as necessidades da hierarquia indicada por Maslow: – fisiológicas - fome, sede, sono; – segurança - abrigo, emprego, família; – afeto (sociais) - carinho, amizade, pertencer a um grupo; – status - estima social, reconhecimento e apreço; – autorrealização - ideias humanitárias, busca autoconfiança, atualizar e realizar suas potencialidades. Embora bastante aceita e com grande reconhecimento, foi também criticada por pesquisadores que questionaram sua validade teórica. Para alguns, “Maslow não forneceu substanciação empírica, e muitos estudos que buscaram validar a teoria não encontraram sustentação para ela” (ROBBINS, 1999, p. 110). Entretanto, “estudos mais atuais sobre a motivação humana no trabalho mostram o grau de acerto e antevisão de Maslow” (CARAVANTES; PANNO; KLOECKNER, 2005, p. 110). A hierarquia proposta por Maslow é frequentemente representada por uma pirâmide (pirâmide de Maslow), na qual o indivíduo se movimenta de baixo para cima nos degraus da hierarquia quando tem a necessidade de determinado nível satisfeita. Figura 1 – Pirâmide de Maslow Fonte: Robbins (1999, p. 110). Da perspectiva da motivação, a teoria diria que, “embora nenhuma necessidade seja algum dia totalmente gratificada, uma necessidade substan- cialmente satisfeita não motiva mais” (ROBBINS, 1999, p. 110). AUTORREALIZAÇÃO 24 Gestão Estratégica no Setor Público • Frederick Herzberg - também desenvolveu estudos na área de motivação voltados para a satisfação humana no trabalho. Os estudos de Herzberg levaram à conclusão de que os fatores que influíam na produção de safisfação profissional eram desligados e distintos dos fatores que levavam à insatisfação profissional. Aos fatores que geravam satisfação ou não satisfação chamou de motivadores, e aos fatores que criariam as condições básicas e necessárias para o trabalho chamou de higiênicos. De acordo com Silva (2006), os fatores higiênicos são representados por condições de trabalho, salário, políticas administrativas, relacionamento com chefia e colegas de trabalho. A ausência de fatores higiênicos gera insatisfação, mas sua presença não é capaz de gerar satisfação. Os fatores motivacionais referem-se à tarefa em si, sua natureza, à autonomia com que é realizada, o desafio que representa, à criatividade que demanda etc. Os fatores motivacionais são condições de satisfação. A figura a seguir apresenta um paralelo entre a Hierarquia das necessidades de Maslow e os Fatores Higiênicos e Motivacionais de Herzberg. Figura 2 - Paralelo entre a Hierarquia das Necessidades x Fatores Higiênicos e Motivacionais Fonte: Adaptado de Caravantes, Panno e Kloeckner (2005, p. 114). • Douglas McGregor – propôs “duas opiniões distintas sobre a natureza dos seres humanos: uma opinião basicamente negativa, denominada de Teoria X, e uma opinião basicamente positiva, rotulada de Teoria Y” (ROBBINS, 1999, p. 205). De acordo com a Teoria X, os empregados evitam responsabilidades, são preguiçosos e a motivação para o trabalho reside no medo de perder o emprego. Por outro lado, a teoria Y, pressupõe que o empregado é criativo, assume responsabilidades e é motivado por atividades desafiadoras no trabalho. • Rensis Likert - desenvolveu pesquisas e teorias sobre motivação, liderança e organização, visando estabelecer uma relação entre desempenho organizacional, satisfação no trabalho e modelo gerencial. Criou uma 25 As BAses TeóricAs dA GesTão esTrATéGicA Capítulo 1 classificação para os estilos gerenciais adotados nas organizações que denominou de “sistemas”. Segundo Caravantes, Panno e Kloeckner (2005, p. 127), Likert foi um precursor ao visualizar “que o mundo necessariamente caminharia para uma integração e que, portanto, uma Teoria Mundial de Administração viria a ser necessária”. São os seguintes os sistemas sugeridos por Likert: • Sistema 1 – autoritário-coercitivo, caracterizado por mão-de- obra intensiva e tecnologia rudimentar, ou seja, pessoas de pouca qualificação e educação. • Sistema 2 – autoritário-benevolente, caracterizado por tenologia mais apurada e mão-de-obra mais especializada; coerção para manter controle sobre o comportamento. • Sistema 3 – consultivo, caracterizado por áreas administrativas mais organizadas e avançadas em termos de relações com os empregados. • Sistema 4 – participativo, caracterizado por sofisticada tecnologia e pessoal altamente qualificado (CARAVANTES; PANNO; KLOECKNER, 2005, p. 126). • David McClelland - desenvolveu a Teoria das Três Necessidades em que associou às necessidades de realização, de afiliação e de poder a fatores como aprendizagem, personalidade e ambiente organizacional. “A realização se refere à necessidade de superar desafios e atingir metas; a afiliação, às necessidades sociais, de relacionamento e pertencimento; e o poder, à necessidade de influenciar pessoas e situações” (CAVALCANTI,2006, p. 92). De acordo com os pressupostos da Teoria desenvolvida por McClelland os indivíduos agem de modo diferente em diferentes situações, entretanto, cada pessoa possui “uma tendência dominante para uma determinada necessidade, desenvolvida ao longo da vida, a partir de sua história e experiências, englobando a família, escola, religião e cultura na qual cresceu. E tais necessidades, mesmo no adulto, não são fixas e imutáveis, podendo ser aprendidas.” (CAVALCANTI; PANNO; KLOECKNER, 2005, p. 92). Agora é com você! Com suas palavras, estabeleça pontos comuns nos estudos desenvolvidos pelos comportamentalistas. Como vimos, nos estudos desenvolvidos por alguns dos representantes da abordagem comportamentalista já havia elementos que indicavam a necessidade de uma visão mais integradora e sistêmica dos elementos de uma organização. A Teoria Geral dos Sistemas, que veremos a seguir, buscou essa integração. 26 Gestão Estratégica no Setor Público TeoriA GerAl doS SiSTemAS A Teoria Geral dos Sistemas emergiu dos estudos de Kenneth Boulding e Ludwig Von Bertalanffy, por volta de 1950, em uma época em que se tornou necessário integrar diversas áreas de conhecimento. O contexto histórico “era o da Segunda Guerra Mundial, que exigiu a formação de equipes interdisciplinares, com especialistas de áreas diversas, para equacionar e solucionar os complexos problemas surgidos” (CARAVANTES; PANNO; KLOECKNER, 2005, p. 147). Posteriormente, no Instituto Tavistock em Londres, Trist coordenou estudos em que a organização é tida como um Sistema Sociotécnico Estruturado. Também merece destaque a contribuição dos psicólogos Katz & Kahn. O texto a seguir, o ajudará com os conceitos e pressupostos desses autores sobre a Organização como sistema social. A Organização como sistema social aberto Profa. Márcia Costa Primeiros estudos sobre sistemas abertos Os primeiros estudos sobre a Teoria dos Sistemas foram desenvolvidos por Ludwig Von Bertalanffy, logo após a Segunda Guerra Mundial. Estes estudos, voltados para a Física e a Biologia, foram publicados em 1956, no livro Teoria Geral de Sistemas (General Systems Theory). As pesquisas desenvolvidas por Bertalanffy influenciaram diversos estudos, entre os quais pode-se destacar a Teoria das Organizações. Outro estudo de relevante importância foi desenvolvido por Talcott Parsons denominado funcionalismo. O modelo de Parsons consiste em um método para análise dos fenômenos sociais e, embora criticada por alguns autores que a consideram limitada, a perspectiva funcionalista também é sistêmica. O conceito de empresa enquanto sistema social pode ser atribuído aos estudos desenvolvidos por Parsons, e envolve o reconhecimento da organização formal e informal dentro de um sistema global integrado (Wahrlich: 130). Cabe também ressaltar os estudos sociotécnicos desenvolvidos por Emery e Trist do Instituto de Relações Humanas de Tavistock em Londres (1965). A mais importante contribuição dada pelos pesquisadores de Tavistock 27 As BAses TeóricAs dA GesTão esTrATéGicA Capítulo 1 parece ser a de que a organização eficiente precisa levar em conta tanto as importações que o subsistema social faz do ambiente, isto é, valores e aspirações, como também as que faz o subsistema técnico, ou seja, matérias-primas, equipamentos, etc. (Motta e Vasconcelos: 181). Enquanto o funcionalismo recebeu críticas por centrar a ação no individuo, os estudiosos de Tavistock destacaram a organização como a unidade principal de análise. Outros modelos, considerando a organização como um sistema sociotécnico, foram elaborados pelos estudiosos do Centro de Pesquisa Social da Universidade de Michigan do qual destaca- se o nome de Rensis Likert. São três os principais modelos que surgiram na Universidade de Michigan e que variam de acordo com o grau de complexidade apresentado: o modelo de Likert, o da organização como um conjunto integrado de papéis e o modelo de Katz e Kahn, este último considerado um marco referencial no que se refere à contribuição da Teoria dos Sistemas à organização. O modelo de Likert pressupõe que a organização é um sistema de interligação entre grupos, que se processa através de elementos-chave que funcionam como elos, fazendo as ligações entre os grupos. Também a organização se relaciona com o ambiente através destes elementos-chave. Considerando as recentes abordagens sobre modelagem organizacional, pode- se observar que a idéia central do modelo de Likert aparece nos modelos de mapeamento cognitivo e nos sociogramas sugeridos como ferramentas de apoio à decisão. O modelo que pressupõe a organização como um conjunto integrado de papéis, amplia a noção de grupo apresentada no modelo de Likert para a de conjunto de papéis (role set). Segundo Motta e Vasconcelos (2002) esta concepção baseia-se na premissa de que não são as pessoas, em sentido absoluto, que estão interligadas, mas sim, pessoas desempenhando determinados papéis. A organização como sistema complexo sugerido por Katz e Kahn é considerada um marco referencial porque os autores conseguiram em sua obra - Psicologia Social das Organizações - analisar e consolidar todos os estudos desenvolvidos pela antropologia, pela sociologia, pela psicologia e outras ciências do comportamento sobre a Teoria dos Sistemas aplicada às organizações. 28 Gestão Estratégica no Setor Público O modelo de sistema aberto proposto por Katz e Kahn (1970) é considerado o mais abrangente e complexo e, por sua relevância para o estudo das teorias administrativas, suas principais caracte- rísticas são apresentadas a seguir: • Importação de energia (insumos, inputs) – os sistemas abertos importam alguma forma de energia do ambiente externo. Nosso corpo absorve o oxigênio e estímulos que provém do ambiente externo, e necessitamos destes “suprimentos” para o equilíbrio. Assim como os seres humanos, as organizações também necessitam e recebem insumos do ambiente externo, tais como: máquinas, matéria-prima, recursos financeiros, pessoas etc. • Processamento (transformação) – assim como o corpo humano transforma açúcar em energia, a organização processa os insumos em um determinado produto ou serviço. A organização necessita de algum tipo de estruturação interna que lhe permita transformar os insumos recebidos em produtos e/ou serviços. • Exportação de energia (saídas, output) – o ar que respiramos é devolvido ao ambiente na forma de dióxido de carbono. Também a organização exporta energia através dos produtos e/ou serviços oferecidos. • Entropia – entropia é um processo pelo qual todas as formas de organização se movem em direção à desorganização ou morte. Os sistemas fechados estão sujeitos à entropia, isto é, ao processo de deterioração crescente que o levará a morte. Nos sistemas abertos (biológicos ou sociais), a entropia pode ser interrompida pelo que denominamos entropia negativa, ou seja, a capacidade que o sistema aberto possui de se renovar, buscar alternativas de equilíbrio a partir dos insumos que importa do ambiente. • Informação e retroalimentação (input e feedback) – os inputs não são necessários apenas como insumos contendo energia, mas, e principalmente por seu caráter informativo, são essenciais para o sistema na medida em que geram dados sobre sua própria atuação neste ambiente. Se a Organização atua em determinado ambiente, é preciso que tenha mecanismos capazes de verificar o nível de impacto no ambiente a fim de manter ou alterar sua atuação futura. 29 As BAses TeóricAs dA GesTão esTrATéGicA Capítulo 1 • Estado firme (homeostase dinâmica) – trata-se do oposto da entropia. O estado firme se refere a tendência do sistema a buscar o equilíbrio, a estabilidade dinâmica e expansão. Na Organização a homeostase não é automática, mas possível a partir de mecanismos estabelecidos para esta finalidade. • Decomposição do sistema (diferenciação)– padrões difusos são substituídos por funções mais especializadas. O sistema pode ser decomposto em subsistemas de ordem inferior. Deste modo, a Organização pode ser entendida como um sistema, composto por vários subsistemas (departamentos), que, por sua vez, podem ser decompostos em subsistemas menores (seções) e, assim, por diante. • Equifinalidade – este princípio, proposto por Bertalanffy, tem como premissa de que um sistema pode alcançar, por uma variedade de caminhos, o mesmo estado final. A concepção do sistema aberto na atualidade [...] A superação dos novos desafios organizacionais cada vez mais depende da capacidade apresentada pela organização de responder com rapidez e qualidade as demandas da sociedade. O esquema “input – processamento – output – feedback” parece realmente ter sido incorporado no contexto organizacional, mesmo que algumas organizações ainda o utilizem para melhor compreensão de sua própria natureza de sistema inserida em um sistema maior. Como podemos observar, as características dos sistemas abertos não só são atuais, mas fundamentais para sobrevivência organizacional em um ambiente caracterizado por elevada competitividade. Todas as teorias e abordagens relevantes que surgiram após a Teoria Geral dos Sistemas estão, em maior ou menor grau, nela apoiadas. A compreensão de que a organização é um sistema composto por subsistemas menores que são as unidades de negócio, ou ainda, que a própria organização é também um subsistema de um sistema maior, parece essencial para entender os impactos que gera e recebe do ambiente em que está inserida. 30 Gestão Estratégica no Setor Público [...] Seja qual for a “ferramenta” utilizada pela gestão, o único aspecto que parece indiscutível é que, em cada uma delas há uma dimensão que contempla os ambientes interno e externo à organização. Conclusão Estamos inseridos em um contexto onde se preconiza a inovação como fator de vantagem competitiva, em uma sociedade onde os valores vigentes estão mais voltados para o imediatismo e onde há uma supervalorização do novo em detrimento do velho. Ampliar nossa percepção e adotar uma postura de abertura para o novo é importante, entretanto, ao investigarmos melhor a origem das coisas, muitas vezes nos defrontamos com um universo que ainda tem muito a nos oferecer. Assim é com a teoria dos sistemas abertos, cujos estudos iniciais como visto anteriormente, datam de antes da Segunda Guerra Mundial. O mundo passou por muitas transformações desde então, porém como ainda são pertinentes os preceitos básicos da teoria. Quanto descobrimos e ainda temos por descobrir, tanto evoluímos e temos que evoluir. Assim é um sistema em permanente mudança, assim também é a administração, e talvez seja isto que a torna tão atrativa e importante no contexto das ciências sociais. Referências bibliográficas: ARAUJO, Luis César G. Organização, Sistemas e Métodos e as modernas ferramentas de gestão organizacional. São Paulo: Atlas, 2001. CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. 2. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1999. KATZ, Daniel; Kahn Robert L. Psicologia Social das Organizações. São Paulo: Atlas, 1970. MOTTA, Fernando C. Prestes; VASCONCELOS, Isabella F. Gouveia de. Teoria Geral da Administração. São Paulo: Pioneira, 2002. WAHRLICH, Beatriz Marques de Souza. Uma análise das teorias de organização. 3. ed. Rio de Janeiro, FGV Editora, 1971. Fonte: Adaptado de texto da autora para o curso de pós-graduação em Gestão de Recursos Humanos e Gestão Empresarial da FUNCEFET/RJ (2012). 31 As BAses TeóricAs dA GesTão esTrATéGicA Capítulo 1 Caro leitor, pesquise sobre matriz SWOT (ferramenta muito utilizada em planejamento estratégico para análise do ambiente) na internet e faça uma comparação entre a Matriz e o modelo de organização como um sistema social aberto proposto por Katz e Kahn. OBS: Os aspectos comuns são que em ambos há que se considerar a relação com o ambiente interno e externo, ou seja, a organização impacta e é impactada pelo ambiente. a) Abordagem Contingencial Caracterizou-se por enfatizar a importância do ambiente na dinâmica organizacional. Entretanto, cabe neste ponto lembrar que, até a Teoria de Sistemas surgir, as organizações foram estudadas na perspectiva de compreensão de seu ambiente interno como determinante para explicar as questões relacionadas ao desempenho organizacional. A concepção até então era da organização como um “sistema fechado”. Ao deslocar o foco de estudo e dar destaque ao ambiente externo, a abordagem contingencial estabelece um novo padrão no qual não há mais “a melhor maneira” de organização da empresa. Para Caravantes, Panno e Kloeckner (2005, p. 166) a Teoria da Contingência é como um rebento da Teoria de Sistemas. Dois de seus princípios básicos são: • Não há uma melhor maneira de organizar; • Uma determinada forma de organizar não será igualmente eficaz em todas as situações. Destaca ainda o autor que “o grande mérito da abordagem contingencial é fazer com que a gerência normalmente concentrada nos problemas internos da organização e nas tarefas volte seus olhos para o ambiente; deixe de olhar para o próprio umbigo e olhe ao redor” (CARAVANTES; PANNO; KLOECKNER, 2005, p. 166). 32 Gestão Estratégica no Setor Público Abordagem neoclássica destaca- se como contribuição a importância dada aos objetivos na organização e alcance de resultados, aspectos que constituíram a base da administração por objetivos (APO). A abordagem neoclássica foi um movimento que surgiu nos Estados Unidos um dos destaques desta abordagem é Peter Drucker. Merece destacar Burns e Stalker como representantes da abordagem contingencial bem como os conceitos que desenvolveram de sistemas gerenciais orgânicos e mecânicos, no qual o primeiro se caracteriza por mais flexibilidade e, consequentemente capacidade de se adaptar ao ambiente. Seus estudos influenciaram ainda o desenvolvimento de estudos sobre a liderança contingencial. Mas esta é uma outra história... Segundo Chiavenato (1979, p. 435) “a teoria da contingência enfatiza que não há nada de absoluto nas organizações ou na teoria administrativa. Tudo é relativo. Tudo depende.”. No Capítulo 3, que tratará de modelos de organização e estrutura, você conseguirá perceber a influência destes conceitos na concepção de modelos de estrutura e gestão organizacional. TeoriAS e ABordAGeNS APóS TeoriA de SiSTemAS Os estudos sobre as organizações como sistemas sociais impactaram de tal forma a administração que os que se seguiram podem ser, em sua maior parte, considerados abordagens que buscaram não só na teoria de sistemas, mas também na teoria clássica e na de relações humanas, as bases para novas orientações sobre o desempenho organizacional. As abordagens pós- sistemas são apresentadas a seguir: a) Abordagem Neoclássica O contexto histórico é do pós-guerra, época em que foram aprofundados os estudos em torno do elemento humano nas organizações. A abordagem neoclássica foi um movimento que surgiu nos Estados Unidos e que teve como objetivo o reequilíbrio organizacional. Um dos destaques desta abordagem é Peter Drucker que desenvolveu “uma metodologia administrativa calcada em uma concepção teórica bastante fundamentada, voltada para a obtenção de resultados organizacionais” (CARAVANTES; PANNO; KLOECKNER, 2005, p. 179). É deste período a Administração por Objetivos (APO), “tecnologia gerencial cujo objetivo é motivar o desempenho mais efetivo tanto da parte dos gerentes quanto dos subordinados por meio de um sistema participativo de fixação de objetivos e de fornecimento de feedback” (CARAVANTES; PANNO; KLOECKNER, 2005, p. 179). A abordagem neoclássica reuniu elementos da Burocracia, da Teoria das Relações Humanas e da Teoria de Sistemas. Destaca-se como contribuição a importância dada aos objetivos na organização e alcance de resultados, aspectosque constituíram a base da administração por objetivos (APO). 33 As BAses TeóricAs dA GesTão esTrATéGicA Capítulo 1 O contexto é o da sociedade pós- industrial, época em que o mundo passou por grandes transformações, com o surgimento de novas tecnologias, conflitos sociais e crise na economia mundial. Profundas modificações de ordem mundial indicavam a necessidade de um modelo capaz de oferecer as organizações condições para que pudessem enfrentar os desafios desta mudança. b) Abordagem do Desenvolvimento Organizacional (DO) O contexto é o da sociedade pós-industrial, época em que o mundo passou por grandes transformações, com o surgimento de novas tecnologias, conflitos sociais e crise na economia mundial. Profundas modificações de ordem mundial indicavam a necessidade de um modelo capaz de oferecer as organizações condições para que pudessem enfrentar os desafios desta mudança. Warren Bennis e Chris Argyris, entre outros, contribuiram para que o DO fosse mundialmente conhecido na década de 1970. Warren Bennis (apud CARAVANTES; PANNO; KLOECKNER, 2005, p. 186) definiu o Desenvolvimento Organizacional como “uma resposta à mudança, uma complexa estratégia educacional que tem por finalidade mudar as crenças, as atitudes, os valores e a estrutura das organizações, de modo que elas pudessem melhor se adaptar aos mercados, tecnologias e desafios e ao próprio ritmo vertiginoso das mudanças”. Para Caravantes, Panno e Kloeckner (2005, p. 187): a grande virtude do DO foi ter trazido, de uma maneira progressiva e ordenada, todos os conhecimentos calcados nas teorias comportamentais e na abordagem sistêmica para resolver problemas concretos enfrentados pelas organizações. [...] embora sua visão fosse sistêmica, na prática concreta dos consultores a ênfase dada foi claramente concentrada nos aspectos comportamentais, ou seja, no subsistema social das organizações. No Brasil, consultorias com base em DO foram desenvolvidas na década de 1970. O livro “Desenvolvimento Organizacional – teoria e diagnóstico” (1979) de Gercina Oliveira, narra o relato de uma experiência de DO no serviço público. Oliveira (1979, p. 6) destaca que DO é “basicamente um programa de pesquisa-ação em uma organização, para melhorar seu funcionamento. […] o modelo de consultoria de DO funciona como se fosse um sistema aberto, no qual a fase de diagnóstico não se esgota, porque tudo que nela se prediz ou aconselha é avaliado e a ela retorna visando ao desenvolvimento permanente, harmônico e auto-sustentado da organização”. TeoriAS e ABordAGeNS coNTemPorâNeAS Até aqui, vimos teorias e abordagens cujo foco foi dado predominantemente às indústrias. Cabe, agora, apresentar para você pós-graduando(a), um novo referencial, estabelecido a partir das mudanças mundiais que caracterizaram o final do século XX e que indicam os caminhos que continuarão a ser trilhados 34 Gestão Estratégica no Setor Público Os estudos sobre métodos e processos de trabalho e sobre a departamentalização da organização desenvolvidos por Taylor e Fayol no século XIX podem ser identificados nas bases da Qualidade Total. pelas organizações no século XXI. Questões que envolvem a preocupação com o meio ambiente e a responsabilidade social das organizações, passam por aspectos econômicos e sociais, imprevisibilidade e, como não poderia deixar de ser, culminam no homem e seu papel na organização e na sociedade. Os pressupostos das abordagens contemporâneas podem ser visualizados em alguns dos modelos de gestão que serão examinados no Capítulo 3. a) Abordagem da Qualidade Total O contexto é o pós II Guerra Mundial, período em que dois americanos – Deming e Juran, proferiram palestras no Japão sobre os métodos de controle de qualidade utilizados por empresas americanas. Isso explica porque os estudos sobre métodos e processos de trabalho e sobre a departamentalização da organização desenvolvidos por Taylor e Fayol no século XIX podem ser identificados nas bases da Qualidade Total. Examinando os principais eventos do movimento da qualidade, não há nenhuma dúvida de que as teorias administrativas geradas no Ocidente e as tecnologias desenvolvidas a partir delas tiveram um profundo impacto no Japão (JURAN, 1993 apud CARAVANTES; PANNO; KLOECKNER, 2005, p. 243). A partir daí, segundo Juran (1993 apud CARAVANTES; PANNO; KLOECKNER, 2005, p. 242) “os japoneses articularam algumas estratégias inéditas para criar uma revolução na qualidade”. Várias dessas estratégias foram decisivas, entre as quais: • Os gerentes de nível alto lideraram pessoalmente a revolução; • Todos os níveis e funções foram submetidos a treinamento no gerenciamento para a qualidade; • O aperfeiçoamento da qualidade foi empreendido a um ritmo contínuo e revolucionário; • A força de trabalho participou do aperfeiçoamento da qualidade por meio do conceito de círculos de controle de qualidade. Ainda que a fundamentação da Qualidade esteja concentrada em teorias ocidentais ou até mesmo tenha se baseado mais diretamente nas orientações fornecidas por Deming e Juran no pós guerra, o fato é que vários outros países também receberam as mesmas orientações, mas foi o Japão que se destacou no alcance de resultados por meio de uma estratégia voltada para os fundamentos da qualidade. 35 As BAses TeóricAs dA GesTão esTrATéGicA Capítulo 1 Os “gurus” da qualidade: W. Edwards Deming, Joseph M. Juran e Philip B. Crosby. Sobre isso, Caravantes, Panno e Kloeckner (2005, p. 245) trazem o professor Noritake Kobayachi, da Universidade de Keyo, o qual afirma que “que não há nada de novo; fazemos aquilo que aprendemos e o que aprendemos foi com as teorias administrativas americanas”. A seguir apresentaremos um resumo da contribuição daqueles que ficaram conhecidos como os “gurus” da qualidade: W. Edwards Deming, Joseph M. Juran e Philip B. Crosby. • W. Edwards Deming – preocupou-se com a competitividade da organização e controle estatístico dos processos de trabalho. Segundo ele, para alcançar o sucesso, a organização deveria implementar um conjunto de 14 pontos que constituem a essência de seus ensinamentos. Os 14 pontos de Deming para transformação são indicados por Araujo (2007): 1. Criar constância de propósito para a melhoria de produtos e serviços, isto é, aceitar que é preciso mais do que “fazer dinheiro nos negócios”, é preciso manter-se. 2. Adotar a nova filosofia completamente, ou seja, acreditar, sem hesitação, que erros e negativismo devem ser eliminados. 3. Acabar com a dependência da inspeção em massa, isto é, entender que a inspeção e o controle não são formadores de qualidade, e sim, de custos. A qualidade não vem da inspeção, mas sim, da melhoria do processo. 4. Acabar com a insistência organizacional de adquirir e usar materiais, na confecção de produtos, escolhidos apenas com base no critério preço, isto é, desconsiderar o fator qualidade dos insumos como um dos primeiros passos no rumo. 5. Melhorar constantemente e para sempre o sistema de produção e de serviços, ou seja, o aprimoramento não é um esforço que se faz de uma única vez. 6. Instituir o treinamento, isto é, estar atento ao fato de que nas organizações falta pessoal capaz de transmitir as novas ideias e conceitos, e por consequência, quem treine as pessoas em novas habilidades e tarefas 7. Instituir a liderança, ou seja, investir na liderança e não em supervisão e controle. 8. Afastar o medo, isto é, promover a segurança quando da implantação de projetos de mudança como os de qualidade. 9. Romper as barreiras entre os diversos departamentos, ou seja, inibir a concorrência prejudicial entre as divisões organizacionais distintas, harmonizando metas conflitantes. 36 Gestão Estratégica no Setor Público 10. Eliminar slogans, exortações e metas destinadas à força de trabalho, isto é, permitir que as pessoas criem suas próprias“bandeiras de qualidade”. 11. Eliminar as cotas numéricas, ou seja, desviar as pessoas da organização da crença absurda de que é preciso fazer mais numericamente. O importante é qualidade. Muito sem excelência é o mesmo que nada. 12. Remover as barreiras ao orgulho da mão de obra, isto é, eliminar todo e qualquer impedimento (gerencial, administrativo, material) ao desenvolvimento do pessoal da organização. 13. Instituir um sólido programa de educação e (re)treinamento, ou seja, investir na aquisição de uma nova mentalidade, permeada por tecnologias e métodos revitalizantes para a organização, tanto para a força de trabalho como para a gerência. 14. Agir para consumar a transformação, isto é, contar com 100% de apoio da cúpula da administração, sem o que o esforço voltado à qualidade jamais prosseguirá. Uma importante contribuição de Deming ficou conhecida como Ciclo PDCA ou Ciclo de Deming descrito por Araújo (2007) como um processo cíclico direcionado à melhoria, onde a primeira etapa consiste em planejar (Plan), seguida pela etapa de ação ou execução do planejado (Do), pela etapa de verificação dos resultados até então obtidos com as ações planejadas e executadas (Check) e pela etapa de implementação final do idealizado como mudança, após as considerações sobre eventuais acertos (Act). Figura 3 - Ciclo PDCA Fonte: Disponível em: <http://www.infobibos.com/Artigos/2007_2/ Mecanizacao/>. Acesso em: 2 maio 2016. 37 As BAses TeóricAs dA GesTão esTrATéGicA Capítulo 1 Philip B. Crosby o uso de expressões que ficaram famosas na abordagem da qualidade como erro zero e conformidade são atribuídas a ele. Trilogia Juran: i) planejamento da qualidade, ii) controle da qualidade e, iii) melhoramento da qualidade. • Joseph M. Juran – para obter sucesso a organização deve adotar três processos de gerenciamento que ficaram conhecidos como a trilogia Juran: i) planejamento da qualidade, ii) controle da qualidade e, iii) melhoramento da qualidade. O quadro a seguir mostra os 3 processos universais organizados por Juran para a Qualidade. Quadro 2 – Processos de Gerenciamento da Trilogia Juran Planejamento da qualidade Controle da qualidade Melhoramento da qualidade - Determinar quem são os clientes. - Determinar as necessidades dos clientes. - Desenvolver características de produto que respondam às necessidades dos clientes. - Desenvolver processos capazes de produzir as carac- terísticas do produto. Transferir os planos para as forças operacionais. - avaliar o desempenho real do produto. - comparar o desempenho real às metas do produto. - atuar sobre a diferença. - estabelecer a infraestrutura. - identificar os projetos de melhoramento. - estabelecer equipes de projeto. - fornecer às equipes recur- sos, treinamento e motivação para: diagnosticar as causas, estimular os remédios e esta- belecer controles para manter os ganhos. Fonte: Adaptado de Juran (1990). • Philip B. Crosby – criou um programa que “enfatiza a prevenção e não a inspeção, a mudança da cultura organizacional em vez de ferramentas estatísticas”. O uso de expressões que ficaram famosas na abordagem da qualidade como erro zero e conformidade são atribuídas a ele. Assim como Deming, criou um conjunto de 14 pontos orientados para a melhoria da qualidade na organização, os quais são indicados por Araujo (2007): 1. Comprometimento da gerência; 2. Criação de times de melhoramento da qualidade; 3. Medidas da qualidade; 4. Avaliar o custo da qualidade; 5. Conscientização sobre a qualidade; 6. Ação corretiva; 7. Planejamento do Programa Zero Defeito; 8. Treinar supervisores; 9. Dia de zero defeito; 10. Estabelecer metas de melhoria; 11. Remoção das causas de erros; 12. Reconhecer e valorizar aquele que atinge sua meta de qualidade; 13. Conselhos de qualidade; 14. Repetir tudo. 38 Gestão Estratégica no Setor Público Criada por Hammer e Champy na década de 1990, esta abordagem surgiu a partir de uma necessidade de reestruturar o sistema industrial norte- americano que havia perdido mercado para a indústria japonesa. No Brasil a Qualidade Total gerou uma “revolução” na década de 1980 e influenciou a criação de novos modelos de estrutura e gestão. No Brasil a Qualidade Total gerou uma “revolução” na década de 1980 e influenciou a criação de novos modelos de estrutura e gestão. Nos anos 1990, com a abertura do mercado nacional para produtos importados, empresas brasileiras tiveram que se ajustar para sobreviver em um mercado repleto de produtos com padrões de qualidade diferenciados em relação aos nacionais e a preços competitivos. Conceitos e ferramentas da qualidade influenciaram também iniciativas de modernização do aparelhamento do Estado como veremos nos Capítulo 2 e 3. b) Reengenharia Criada por Hammer e Champy na década de 1990, esta abordagem surgiu a partir de uma necessidade de reestruturar o sistema industrial norte-americano que havia perdido mercado para a indústria japonesa. Para Hammer e Champy a maioria das organizações foi construída a partir de uma concepção da divisão do trabalho. Porém, [...] essa antiga forma de funcionamento simplesmente se tornou inoperante. No mundo atual de clientes, concorrência e mudanças, as atividades orientadas para tarefas estão obsoletas. Em seu lugar, as empresas precisam organizar seu trabalho em torno de processos (HAMMER; CHAMPY, 1994 apud CARAVANTES; PANNO; KLOECKNER, 2005, p. 271). A reengenharia pressupõe o abandono do paradigma burocrático tradicional e a adoção de um paradigma sustentado pela tecnologia da informação, mais empreendedor e adequado ao mundo contemporâneo. Foi definida por Champy e Hammer (1994, apud CARAVANTES; PANNO; KLOECKNER, 2005, p. 272) como o “repensar fundamental e a reestruturação radical dos processos organizacionais que visam alcançar drásticas melhorias em indicadores críticos e contemporâneos de desempenho, como: custos, qualidade, atendimento e velocidade”. Essa definição encerra quatro palavras- chave: fundamental, radical, drástica e processos. Destas, destaca-se a palavra-chave processos que parece ter sido determinante e ter influenciado na atenção das organizações para a importância da gestão de seus processos de trabalho. A reengenharia de processos combina uma estrutura para a realização de trabalho com uma preocupação com resultados visíveis e drásticos. Envolve o distanciamento do processo para que se indague qual seu objetivo geral e, em seguida, uma mudança criativa e radical para realizar melhorias de grande vulto na maneira pela qual esse objetivo é alcançado. 39 As BAses TeóricAs dA GesTão esTrATéGicA Capítulo 1 Se a década de 1980 ficou conhecida como a era da qualidade, nos anos 1990, as palavras de ordem foram processo e competência. No capítulo 3, você irá estudar os fudamentos da Gestão por Processos e poderá observar sua relação com os fundamentos da reengenharia. AlGumAS coNSiderAçõeS Neste primeiro capítulo estudamos as sínteses das teorias e das abordagens da ciência da administração, e seus respectivos representantes. Vimos que algumas teorias permanecem atuais, desafiando o tempo e o contexto em que foram formuladas. Que algumas abordagens pouco agregaram ao estudo que as fundamentou e que outras, entretanto, tornaram- se tão importantes quanto a própria teoria. Enfim, em uma época de tantos “modismos”, conhecer as bases teóricas da gestão organizacional será útil para que você possa desenvolver o pensamento crítico e reconhecer seus princípios nos processos de modernização do aparelho do Estado que estudaremos no Capítulo 2 e também nos modelos e instrumentos de gestão utilizados pelas organizações, tema do Capítulo 3. reFerêNciAS ARAUJO, Luis César G. de. Organização, sistemas e métodos e as tecnologias de gestão organizacional: arquitetura organizacional, benchmarking, empowerment, gestão pela qualidade total, reengenharia: volume1. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2007. CARAVANTES, Geraldo R.; PANNO, Cláudia C.; KLOECKNER, Mônica C.. Administração: teorias e processo. São Paulo: Pearson, 2005. CAVALCANTI, Vera Lúcia. Liderança e motivação. 2. ed.Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006. CHIAVENATO, Idalberto. Introdução à teoria geral da administração: uma visão abrangente da moderna administração das organizações. Rio de Janeiro: Elsevier, 1979. JURAN, J. M. Juran na liderança pela qualidade. São Paulo: Livraria Pioneira Editora, 1990. OLIVEIRA, Gercina Alves de. Desenvolvimento organizacional: teoria e diagnóstico. Rio de Janeiro: Ed. Fundação Getulio Vargas, 1979. 40 Gestão Estratégica no Setor Público ROBBINS, Stephen P. Comportamento Organizacional. 8. ed. Rio de Janeiro: LTC Editora, 1999. ______. Fundamentos de Administração: conceitos essenciais e aplicações. 4. ed. São Paulo: Prentice Hall, 2004. SILVA, Márcia Costa A. Competências Gerenciais e Prospectiva Estratégica: análise de cenários em Quissamã. Dissertação de mestrado. Rio de Janeiro: 2005. ______.Desenvolvimento de equipes. (Apostila do curso). Programa de Capacitação do IBAM. 2006. SIMON, Herbert A. Comportamento Administrativo: estudo dos processos decisórios nas organizações administrativas. Rio de Janeiro: FGV, 1965. CAPÍTULO 2 AS BASeS dA NovA AdmiNiSTrAção PúBlicA A partir da concepção do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: 3 Conhecer os principais marcos das ações de modernização da Administração no Brasil. 3 Identificar os elementos que caracterizam os processos de modernização da administração pública e sua relação com o papel do Estado. 42 Gestão Estratégica no Setor Público 43 As BAses dA NovA AdmiNisTrAção PúBlicA Capítulo 2 Reformar a administração pública é algo que se faz com a participação intensiva – mas não exclusiva - dos servidores públicos. coNTexTuAlizAção Reforma administrativa refere-se a um processo de mudança e adequação do Estado ao momento histórico presente. As transformações em diversas dimensões - social, econômica, política, ambiental dentre outras - de tempos em tempos exigem a introdução de reformas visando criar sincronia entre as diferentes faces do desenvolvimento. Falar de reforma administrativa implica, então, focalizar o Estado. Uma forma didática de entendê-lo é pensar que tem duas dimensões básicas: uma é organizacional, o aparelho de Estado ou a administração pública; outra, é o sistema constitucional-legal. Seguindo a fala do professor Bresser-Pereira (2011), reformar a administração pública é algo que se faz com a participação intensiva – mas não exclusiva - dos servidores públicos. Reformar o sistema constitucional, por sua vez, requer a participação de toda a sociedade e dos agentes públicos eleitos e não eleitos. O Estado é isto. Uma base legal complexa, associada a outras normas e instituições informais e oriundas da cultura, acionadas pela administração pública que o põe em movimento. É a nação politicamente organizada tendo como elementos o povo, o território e a soberania. O governo, por outro lado, traduz a condução política dos negócios públicos, preferencialmente com base em planos e metas. Ou seja, um conjunto de funções estatais exercidas para orientação e direcionamento das políticas do Estado que definem suas macro diretrizes. À administração pública incumbe o exercício da função administrativa, pelos 3 níveis de governo (Federal, Estadual e Municipal) e seus respectivos 2 poderes (Executivo e Legislativo) que integram a estrutura de gerenciamento do Estado, pautada pelas funções determinadas pela Constituição Federal e pelas leis, no interesse da coletividade. Uma outra e importantíssima pergunta também contribui para definir o Estado. É aquela que indaga sobre o beneficiário das ações do Estado. E vamos seguindo com o mesmo autor, Bresser-Pereira (2011). A história é longa e tem-se respostas variadas para diferentes momentos históricos. Chegando logo aos dias de hoje, as sociedades modernas são capitalistas e democráticas, com variações, gradações e características próprias. E Bresser-Pereira (2011, p. 13), então, afirma: “[...] o Estado é o instrumento por excelência de ação coletiva da nação ou da sociedade civil.”. 44 Gestão Estratégica no Setor Público Eficiência, eficácia e efetividade, pilares que se constituem em preocupações permanentes para quem se dedica à formulação e implementação de políticas públicas. As Reformas Administrativas são movimentos que servem para manter o Estado em condições de utilização eficiente, eficaz e efetiva dos recursos. Ou seja, há disputa de interesses, conflitos entre eles, tendência à prevalência do mais forte, estratégias dos que podem menos para alcançar seus direitos etc. As reformas administrativas dizem respeito, portanto, à alteração do status quo do próprio Estado e, por isto, são geralmente cercadas de controvérsias, resistências e dúvidas. O Estado, visto em suas três esferas - União, Estados e Municípios - como organizações, como aparelho do Estado, conta com recursos humanos, financeiros e tecnológicos que devem ser geridos para propiciar a prestação de serviços aos cidadãos, a partir da concepção de políticas públicas de caráter setorial e geral que dão harmonia à gestão governamental. Este é o conjunto de recursos que viabiliza as ações que devem ser realizadas pelo Estado. As Reformas Administrativas são movimentos que servem para manter o Estado em condições de utilização eficiente, eficaz e efetiva dos recursos. É importante destacar, ainda, que a Reforma Administrativa é entendida como “uma mudança planejada, de caráter legal, com a finalidade de modernizar e/ou adequar a administração pública como instrumento específico de Governo na prestação de serviços públicos devidos à sociedade, num determinado momento histórico” (SILVA, 2005, p. 20). Em geral provocam mudanças na legislação e na forma de organização (estrutura administrativa) e também tanto nos processos de trabalho quanto no comportamento dos servidores públicos. Este capítulo apresenta as principais ações de reforma correspondentes a cada período e enfatizando suas principais características, processos e resultados alcançados. TrêS PilAreS doS modeloS de GeSTão PúBlicA As iniciativas de modernização da Administração Pública no Brasil não são recentes e estão correlacionadas a momentos específicos de nossa história, com suas importantes transformações sociais. Mudanças são processos, não se dão de forma instantânea, isolada. Compreender o contexto em que tais processos ocorrem contribui para que possamos refletir sobre questões relacionadas à busca pela eficiência, eficácia e efetividade, pilares que se constituem em preocupações permanentes para quem se dedica à formulação e implementação de políticas públicas. As reformas administrativas dizem respeito, portanto, à alteração do status quo do próprio Estado e, por isto, são geralmente cercadas de controvérsias, resistências e dúvidas. 45 As BAses dA NovA AdmiNisTrAção PúBlicA Capítulo 2 Refletindo sobre cada uma dessas preocupações se verá que o foco predominante sobre uma delas não se dá por acaso. Há uma importante dimensão de valor, no sentido sociológico do termo, quando se opta por dar destaque a uma delas. A eficiência, além de ser um princípio incorporado à Constituição Federal, está atrelada ao uso de recursos e encontra abrigo nos modelos de natureza mecanicista que integram a teoria administrativa. Já a eficácia, ao se aproximar de resultados, se associa aos fins a que se propõem as organizações. Portanto, se vinculam aos modelos e abordagens já examinadas no capítulo 1. A efetividade traz uma medida de abertura para o meio no qual a organização se insere, fazendo-nos recordar das teorias contingenciais da administração. Mas estemomento de refrescante pensamento faz concluir que o alcance do bom desempenho de qualquer organização, nos tempos atuais, demanda que seus gestores deem equilibrada atenção aos três pilares. Ao gestor público não pode escapar a compreensão daquelas três palavras e é desejável que seja capaz de observar a intercessão entre elas. Nada melhor do que ler o texto de Motta (1972, p. 41-42) que é um clássico sobre o assunto: [...] Eficiência, referindo-se à redução dos custos internos nas organizações, e eficácia, à realização dos objetivos organizacionais. Basear-se só nestes conceitos toma-se restritivo para a consecução de objetivos desenvolvimentistas. A ideia de efetividade significando o alcance de objetivos do desenvolvimento econômico- social - deve ser enfatizada e instituída como conceito básico da administração para o desenvolvimento. A efetividade administrativa vai além do conceito de eficácia, que se restringe a objetivos organizacionais temporais. Efetividade se refere a objetivos mais amplos de equidade e de desenvolvimento econômico-social. Para organizações públicas, a efetividade torna-se especialmente importante pois permite reverter a tendência destas de modificar seus objetivos, com a perpetuação da organização, constituindo um objetivo mais importante do que o de desempenho das funções desenvolvimentistas para as quais foram criadas. Assim, eficácia não significa, necessariamente, a realização de objetivos desenvolvimentistas, mas, simplesmente, dos objetivos organizacionais (possivelmente) modificados. Almejar apenas as metas de eficiência e eficácia significa, geralmente, criar instituições fortes e estáveis, mas que não promovem, com maior ênfase, os objetivos do desenvolvimento econômico-social. Nesta perspectiva, 46 Gestão Estratégica no Setor Público as reformas administrativas, baseadas exclusivamente no fortalecimento institucional e na racionalidade administrativa, e que não consideram compro-metimentos organizacionais com o desenvolvimento econômico - social, serão provavelmente tentativas de se implementar eficiente e eficazmente, os objetivos organizacionais não desejáveis. A administração pública, ao trabalhar no âmbito do Estado como apresentado na Contextualização, revela sua complexidade e necessidade de atuar com foco na efetividade. Este pilar vai, nas democracias, contribuir para que o controle social ocorra, como um dos elementos balizadores do desempenho da administração e de sua capacidade de resposta, com qualidade e pertinência, às demandas dos cidadãos. Atividade de Estudos: 1) Agora que já leu sobre os três pilares que sustentam a prática e a reflexão acerca da gestão pública, aponte, sucintamente, os principais aspectos que ajudem a entender o significado de cada um. ________________________________________________ ________________________________________________ ________________________________________________ ________________________________________________ ________________________________________________ ________________________________________________ ________________________________________________ ________________________________________________ ________________________________________________ ________________________________________________ reFormA AdmiNiSTrATivA No BrASil - PANorAmA GerAl Muitos são os estudiosos que têm se debruçado sobre a história da administração pública no Brasil. Entre eles há diferenças de entendimento e avaliação dos principais momentos de transformação pelos quais o país passou. Todos, entretanto, concordam que o ponto de partida é o entendimento do que seja o Estado. 47 As BAses dA NovA AdmiNisTrAção PúBlicA Capítulo 2 Para saber mais sobre conceito e caracterização Estado, leia a explanação que se segue, escrita pelo professor Bresser-Pereira (2011). O objetivo do Estado antigo era a segurança da oligarquia dominante e a captura do excedente dos outros da própria população e dos povos vizinhos. Com a revolução capitalista foram definidos novos objetivos políticos: a liberdade dos seus cidadãos, o bem-estar econômico, a justiça social ou mais igualdade, e, finalmente, a proteção do ambiente. Estes são os grandes objetivos políticos das sociedades modernas. Qual é o instrumento utilizado para atingir esses objetivos? Qual é o instrumento, por excelência, de ação coletiva, através do qual a sociedade agora organizada politicamente, sob a forma de nação ou de sociedade civil, busca esses objetivos? Qual é o instrumento que ela tem para se tornar mais segura, mais próspera, mais livre, mais justa, e que proteja melhor a natureza em volta dela? É o Estado. É o Estado enquanto lei ou sistema constitucional-legal, e o Estado enquanto organização. Este é o nosso instrumento. “Ah, mas e o mercado? ”. Claro que o mercado é uma instituição importante, regulada pelo Estado. É a instituição nova que define o capitalismo. As sociedades capitalistas são aquelas em que o mercado, ao contrário do que acontecia nas outras sociedades, passa a ter um papel muito importante de coordenação. Mas sempre secundário, em comparação com o Estado. A instituição fundamental, básica, matriz e reguladora das demais, é o Estado. O Estado é o grande instrumento do progresso ou do desenvol- vimento. O progresso é uma ideia e um processo histórico que surge no século XVIII, ou seja, quando a revolução capitalista estava em pleno curso na França e na Inglaterra. Era a visão filosófica dos iluministas – de Diderot, Voltaire, Rousseau e Kant. No século XX surge a teoria estruturalista do desenvolvimento econômico que vai fazer a análise desse mesmo problema. Associada à ideia de progresso surge a ideia de democracia e a de democratização – da melhoria da qualidade da democracia. Podemos, então, pensar quais são as formas que o Estado moderno assume historicamente. Originalmente, temos o Estado absoluto, que é a primeira forma de Estado moderno. É uma forma de transição, mas é mais fácil entendê-la como a primeira forma. É no quadro do Estado absoluto 48 Gestão Estratégica no Setor Público A maioria dos estudos sobre reforma administrativa começa por historiar as experiências anteriores àquela em apreço e toma como ponto de partida as iniciativas modernizadoras dos anos de 1930. (enquanto regime político) e patrimonialista (enquanto aparelho administrativo) que se forma o Estado-nação, os países modernos, e se viabiliza a revolução industrial; esta só foi possível na medida em que se forma em cada sociedade uma nação e um Estado- nação, na medida em que se estabelece uma coalizão política entre o monarca e a burguesia. Isso é bem conhecido. Agora, por que era essencial a formação do Estado-nação? A revolução comercial começou no Norte da Itália e depois se desenvolveu pelas cidades da Alemanha, da Holanda, da França etc. Eram cidades-estados, não eram Estados-nação. Veneza, Milão, Florença, Mainz, Antuérpia, Genebra - essas cidades serviam para o comércio de longa distância que se fazia no tempo da revolução comercial e do capitalismo mercantil. Mas para desenvolver uma indústria é necessário um mercado interno grande e seguro. Definir as fronteiras desse mercado interno amplo e seguro é o objetivo do Estado-nação inicial. O monarca precisava definir suas fronteiras e o fazia através de guerras e mais guerras. O território da Grã- Bretanha e o território da França são os dois primeiros Estados- nação que se formaram, eram donos de grandes territórios, e são os dois primeiros a fazer suas revoluções industriais. A Alemanha, que era tão rica quanto a França ou a Inglaterra nos séculos XVI e XVII, fica para trás no século XIX porque não conseguiu formar seu Estado-nação a tempo; ela só logrou se unificar na segunda parte do século XIX, cerca de cem anos mais tarde, teve que recuperar o atraso. Fonte: Bresser-Pereira (2011, p. 14-15). Como segundo passo, o interessanteé ter uma visão geral das mudanças administrativas ocorridas no país e, para tanto, um texto de Costa (2010) pode ser de grande valia. O autor apresenta sequência de momentos em que tais mudanças ocorrem, com perspectiva bastante abrangente que pode ser útil para aqueles familiarizados com o estudo da administração pública e para os que só agora estão se aproximando do tema. Segundo Costa (2010) a história já foi contada pelos próprios reformadores. É, quase sempre, uma sucessão de diagnósticos ligeiros e repertórios de razões para o fracasso das reformas. Pois a maioria dos estudos sobre reforma administrativa começa por historiar as experiências anteriores àquela em apreço e toma como ponto de partida as iniciativas modernizadoras dos anos de 1930. 49 As BAses dA NovA AdmiNisTrAção PúBlicA Capítulo 2 “Este trabalho não procede de forma muito diferente. Oferece também um panorama histórico da reforma do Estado no Brasil do século XX. Porém, tenta traçar um breve panorama das transformações precedentes” (COSTA, 2010, p. 78). Para conhecer mais sobre o assunto é oportuno continuar a leitura de Costa (2010): PROBLEMAS DE PERIODIZAÇÃO [...] Quase todas as narrativas adotam praticamente a mesma periodização, com pequenas variações decorrentes da percepção dos graus de profundidade das mudanças realizadas. Elas retomam indicações sugeridas em Guerreiro Ramos (1983), Wahrlich (1984) e Marcelino (1988) e contemplam uma breve referência ao período anterior à Revolução de 1930 e três, quatro ou cinco fases subsequentes. [...] desde 1930, o Brasil viveu na era Vargas - uma era Vargas com Vargas (1930-1954) e uma era Vargas sem Vargas (1955- 1989). Pode-se acrescentar que, a partir de 1990, o Brasil viveu uma era Vargas contra Vargas. Quer dizer, as grandes reformas realizadas nos 24 anos em que Vargas esteve no centro da política nacional moldaram a economia, a sociedade e o Estado brasileiros, pautando as reformas subsequentes. Desde então, forças políticas à direita e à esquerda do espectro ideológico tentam capturar ou renegar sua herança. A era Vargas com Vargas, que vai da revolução liberal de 1930 até a morte do presidente em 1954, corresponde ao período de modernização acelerada que dá início ao processo de crescimento econômico, baseado na industrialização via substituição de importações. Consiste numa época caracterizada pela forte presença do Estado na economia, realizando investimentos diretos, oferecendo subsídios e incentivos, regulando as relações de trabalho e coordenando decisões econômicas. A mesma estratégia de desenvolvimento, não obstante as bruscas mudanças político-ideológicas que se verificaram no país depois de 1954, prevaleceu na era Vargas sem Vargas. Embora este modelo estivesse em crise desde 1974, em decorrência do segundo choque do petróleo, o Brasil persistiu na política de 50 Gestão Estratégica no Setor Público industrialização via substituição de importações e no dirigismo estatal até o final da ditadura militar e mesmo até o governo de transição (1985-1990). Por isso, esse período pode ser considerado uma era Vargas sem Vargas porque manteve intactas todas as estruturas criadas na primeira fase. A partir de 1990, com o governo Collor, há um movimento deliberado no sentido de romper com a herança varguista, através da abertura comercial, da desestatização, da abolição dos monopólios, da desregulamentação socioeconômica, da reforma da previdência e da reforma administrativa. Entretanto, todas essas medidas ainda não firmaram as bases de um novo modelo de crescimento econômico, não alteram a moldura dos pactos políticos que se celebraram desde então. Trata-se, como aqui se propõe, de uma era Vargas contra Vargas. Fonte: Costa (2010, p. 78-79). O estudo das reformas administrativas é importante, entre outros motivos, para que se identifique a relevância do fator temporal para a construção do Estado. Há muitas classificações e periodizações para entender a trajetória da administração pública no Brasil. É, ainda, Costa (2010) que vai trabalhar com uma periodização bastante didática que ajuda o leitor a entender as transformações mais recentes pelas quais passou a administração pública brasileira. Assim, ele elabora o texto a seguir. PROBLEMAS DE PERIODIZAÇÃO [...] convém adotar uma perspectiva temporal que privilegie as representações da mudança institucional veiculadas pelas próprias narrativas, conforme se segue: • de 1808 a 1930 - a construção do Estado nacional; • de 1930 a 1945 - a “burocratização” do Estado nacional; • de 1945 a 1964 - o nacional-desenvolvimentismo; • de 1964 a 1989 - a modernização autoritária; • de 1990 a 2002 - a era do gerencialismo. Antes do primeiro período, há a grande etapa vestibular da administração colonial (1500-1808). De 1808 a 1930, o Brasil se 51 As BAses dA NovA AdmiNisTrAção PúBlicA Capítulo 2 encontra no estágio de formação das instituições nacionais, a partir da constituição do autogoverno, fase que tem como marco inicial a chegada da família real Portuguesa ao Rio de Janeiro. O segundo período (1930-1945) equivale ao primeiro governo Vargas, marcado por profundas transformações na economia, na sociedade e, sobretudo, no Estado brasileiro. O terceiro período (1945-1964) constitui uma espécie de continuação em segunda fase da etapa anterior, com a acentuação de umas características e atenuação de outras. Trata-se de uma aceleração do processo de modernização com ênfase na ação supletiva e promocional do Estado. O quarto período (1964- 1989) é marcado pela ascensão e queda do regime militar, que manteve o projeto modernizante e intensificou a presença do Estado na economia, a centralização e o viés tecnocrático das decisões. O sexto período (1990-2002), caracterizado pela estabilização econômica, o ajuste estrutural e a abertura econômica, introduz as reformas de cunho gerencialista de que se ocupa este trabalho. É claro que nenhuma periodização está livre de controvérsias. Mesmo entre os “novos” reformadores, que se identificam com o projeto do primeiro governo FHC (1995-1998), haverá os que acreditam que algumas dessas transformações tiveram início no governo Sarney (1985-1990) e outros que defendem que o Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado – PDRAE constituiu uma ruptura com relação aos governos anteriores. Em todo caso, todos haverão de concordar que a lógica subjacente ao PDRAE representa uma mudança de paradigma com relação a muitos dos princípios inscritos na Constituição de 1988. Fonte: Costa (2010, p. 80 - 81). Construída esta visão geral, a temática das reformas administrativas no país poderá ser objeto de algumas observações mais particulares. AProximANdo o olHAr A construção do Estado nacional remonta à Administração colonial portuguesa que, a distância, administrava o território em seus primórdios. A gestão se dava como se fosse um bloco, com limitada separação entre atribuições e com pouco sentido de que a hierarquia poderia ajudar a organizar 52 Gestão Estratégica no Setor Público O período que ficou conhecido como “Estado Novo” (entre 1937 e 1945), promoveu mudanças de ordem social e econômica e foi caracterizado por um amplo processo de transformação das práticas de gestão e do papel do Estado, particularmente na gestão dos recursos humanos e do orçamento. Deu-se, no Governo Vargas, o que se considera a primeira reforma administrativa no país, quando foi também implantado o Estado Novo. Era o ano de 1937. Com a transferência da corte portuguesa para o Brasil, em 1808, é que se inicia um processo de aparelhamento da administração que se alonga até um pouco depois da proclamação da república. o trabalho. As esferas pública e privada não eram entendidas como o são presentemente. Com a transferência da corte portuguesa para o Brasil, em 1808, é que se inicia um processode aparelhamento da administração que se alonga até um pouco depois da proclamação da república. A Constituição de 1891 estabelece de forma nítida os contornos da administração pública brasileira. Importantes e decisivas definições ganham corpo e vão orientar o desenvolvimento nacional: federalismo, presidencialismo, separação entre os poderes, fortalecimento do bicameralismo no legislativo, autonomia do judiciário. Por cerca de 40 anos este modelo atendeu aos interesses da política dominante. Em 1934 foi promulgada uma Constituição cuja vida foi curta – apenas três anos – embora apresentasse ideias e princípios interessantes que só seriam retomados muitos anos depois como, por exemplo, o federalismo cooperativo. Assim, tributos eram repartidos entre as três esferas de governos, ensejando a distribuição de atribuições e a articulação de ações entre elas. A reFormA de 1937 Para fazer frente à inquietude social vigente e responder a demandas de uma necessária modernização econômica, deu-se, no Governo Vargas, o que se considera a primeira reforma administrativa no país, quando foi também implantado o Estado Novo. Era o ano de 1937. Objetivava romper com a administração patrimonialista que caracterizara os períodos monárquicos e, em certo grau, se alongara até a república nos idos de 1930. Este movimento de modernização estava associado à necessidade de proteção de matérias- primas e de criação de condições para que a industrialização ganhasse força. Subjacente a tais transformações alinhavava-se o modelo desenvolvimentista então pretendido. O Plano de reformas proposto pelo governo incluía dois aspectos principais, um econômico e outro administrativo. Aqui nos interessa o segundo. Destaca-se, neste caso, “a criação de uma burocracia profissional nos moldes Weberianos, movida pela racionalidade” (REZENDE, 2004, p. 48). A administração pública burocrática foi adotada porque era uma alternativa muito superior à administração patrimonialista em um momento em que era preciso dotar as organizações públicas de métodos e procedimentos de trabalho. O período que ficou conhecido como “Estado Novo” (entre 1937 e 1945), promoveu mudanças de ordem social e econômica e foi caracterizado por um amplo processo de transformação das práticas de gestão e do papel do Estado, particularmente na gestão dos recursos humanos e do orçamento. 53 As BAses dA NovA AdmiNisTrAção PúBlicA Capítulo 2 Em 1937 tivemos a promulgação de uma nova Constituição e, em 1938 foi criado o Departamento Administrativo do Serviço Público Federal (DASP) com a missão de estabelecer diretrizes, formular e implementar a reforma que fora iniciada com a Revolução de 1930. Na ocasião, o DASP representou uma ação intencional do governo para a modernização do serviço público federal que visou a reorganização da administração direta e o fortalecimento da administração indireta. Registra- se no período, além do DASP, a criação de outras importantes autarquias e empresas públicas - como o Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários (IAPI), o Conselho Nacional do Café e o Conselho Nacional de Água e Energia Elétrica, a Cia. Vale do Rio Doce (1942), o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico – BNDE (1952) e a Petrobrás (1953), entre outros - que constituiriam centros de excelência e de conhecimento técnico especializado para o desenvolvimento do país. Como desdobramentos desta ação para modernização da administração, destaca-se a adoção do princípio da meritocracia que iria valorizar os servidores mediante diversas iniciativas, notadamente, a contratação de profissionais por concurso público. Outras importantes organizações, não governamentais, foram criadas nesse período com a missão de promover o apoio às mudanças desencadeadas pelo Governo Federal, entre as quais destacam-se a Fundação Getúlio Vargas – FGV (1944) e o Instituto Brasileiro de Administração Municipal – IBAM (1952), ambas voltadas para o desenvolvimento institucional e a formação e o desenvolvimento de pessoal para atuação no setor público. O governo Vargas foi, portanto, importante na criação de novos órgãos e conselhos técnicos que constituíram verdadeiros “núcleos de excelência”, germinadores de mudanças. Por seus conhecimentos técnicos especializados foram responsáveis pela transição de uma cultura patrimonialista para uma gestão pública burocrática, com novos modelos de gestão. Para entender o alcance da transformação consolidada pela Reforma de 1937 torna-se necessário conhecer um pouco mais o pensamento Weberiano. Faria e Meneghetti (2011), em alentado artigo em que examinam o trabalho de importantes teóricos brasileiros – Fernando Claudio Prestes Motta e Mauricio Tragtenberg – redigiram síntese primorosa sobre a burocracia, segundo Weber, a seguir transcrita: 54 Gestão Estratégica no Setor Público A BUROCRACIA SEGUNDO WEBER: PONTO DE PARTIDA DE TRAGTENBERG E PRESTES MOTTA Weber analisa o processo de racionalização da sociedade na passagem da Idade Média para a Idade Moderna. O desencantamento do mundo, baseado no cálculo utilitário de consequências, substitui a mediação das relações sociais que antes estavam baseadas na tradição e no carisma. Uma racionalidade instrumental-legal se institui e modifica as relações na sociedade, fazendo com que a burocracia moderna se consolide como razão materializada desse processo histórico. Para chegar a essa compreensão, Max Weber, analisou a burocracia do sistema de produção asiático e de outras sociedades deslocadas e dentro de seu tempo histórico. Entretanto, as características da burocracia moderna são próprias de uma racionalização estabelecida dentro do sistema capitalista de produção. Dessa forma, mesmo em Weber, a burocracia, quando analisada isoladamente, ou seja, como fenômeno atemporal, perde sentido, pois é por meio da racionalidade oriunda de um modo de produção específico que uma estrutura se ergue e se instaura. A vantagem técnica da organização burocrática no capitalismo é a superioridade puramente técnica sobre qualquer outra forma de organização. O mecanismo burocrático plenamente desenvolvido compara-se às outras organizações exatamente da mesma forma pela qual a máquina se compara aos modos não mecânicos de produção (WEBER, 1982, p. 249). Segundo Weber (1982, p. 229), a burocracia moderna funciona sob formas específicas. A burocracia está sob a regência de áreas de jurisdição fixas e oficiais, ordenadas por leis e normas administrativas. Ela estabelece relações de autoridade, delimitada por normas relativas aos meios de coerção e de consenso. Uma relação hierárquica se estabelece, definindo postos e níveis de autoridades, além de um sistema de mando e subordinação com gerência das atividades e tarefas delegadas por autoridade. Nesse contexto, a administração é formalizada por meio de documentos, que acabam por regular a conduta e as atividades das pessoas. O treinamento é fundamental nas burocracias especializadas devido às especificações das atividades e dos trabalhos. O treinamento especializado volta-se para generalizar o cargo e transformá-lo em profissão. As atividades e tarefas de um trabalho transformado em profissão, que podem ser apreendidas por qualquer trabalhador, são descritas e delimitadas 55 As BAses dA NovA AdmiNisTrAção PúBlicA Capítulo 2 pela criação de cargos mais ou menos estáveis. A ocupação de um cargo configura uma profissão de ordem impessoal e transitória. A posição pessoal de um funcionário é desfrutada e estimada em um contexto social específico, sempre em comparação aos demais funcionários e em relação à estrutura social. Os funcionários recebem salários (compensação pecuniária) regulares, criando-se certa segurança social em troca das atividades exercidas por ele. Esse salário é definido pela tarefa realizada, por suas particularidades e pela posição hierárquica do funcionário. A burocracia criauma carreira dentro da ordem hierárquica estabelecida. Para Weber (1974), o cumprimento dos objetivos efetiva-se por tarefas definidas, que devem ser calculadas e precisam ser realizadas independentemente das características das pessoas, ou seja, o cumprimento das mesmas deve se revestir de impessoalidade. A estrutura burocrática concentra os meios materiais de administração nas mãos das elites detentoras do capital, mediante o desenvolvimento das grandes empresas capitalistas. Quando a burocracia se estabelece plenamente, ela se situa entre as estruturas sociais mais difíceis de serem destruídas, configurando- se um meio de transformar ação comum em ação societária, racionalmente ordenada. Dessa forma, constitui um instrumento de poder, de dominação, pois ninguém pode ser superior à estrutura burocrática de uma sociedade. Outra característica descrita por Weber (1982, p. 269) em relação à burocracia é que ela potencializa os segredos, conhecimentos e intenções. Na administração burocrática, tende a ser uma estrutura organizada de pequenas sessões secretas, na medida em que oculta conhecimentos e ações. Dessa forma, o poder do perito, ou funcionário especializado, é aquilatado e, por esse motivo, a qualificação como forma de especialização crescente resulta muito valorizada. A burocracia, portanto, “tem um caráter ‘racional’: regras, meios, fins e objetivos dominam sua posição” (WEBER, 1982, p. 282). Assim, para Weber “a burocracia descansa na aceitação da validez de algumas leis não excludentes [em que o] processo administrativo, dentro dos limites especificados nas ordenações significa a busca racional de interesses, de forma que as atividades destinadas a atingir os objetivos organizacionais apresentam-se aos executores como ‘deveres oficiais’” (FARIA, 1983, p. 27). Para Weber, portanto, a burocracia é um eficiente instrumento de poder. Fonte: Faria e Meneghetti (2011, p. 426-427). 56 Gestão Estratégica no Setor Público A reforma de 1967, também conhecida como Reforma da Desburocratização ou da modernização autoritária, ocorreu após o Golpe Militar de 1964 e teve como objetivo principal melhorar a gestão que se tornara excessivamente rígida e centralizada. Entretanto, a administração pública burocrática, que tinha como pressuposto a eficiência, não promoveu os resultados desejados. No momento em que o pequeno Estado liberal do século XIX cedeu definitivamente lugar ao grande Estado social e econômico do século XX, verificou-se que ela não garantia nem rapidez, nem boa qualidade, nem custo baixo para os serviços prestados ao público. Na verdade, a administração burocrática se tornara lenta, cara, autorreferida, pouco ou nada orientada para o atendimento das demandas dos cidadãos (BRESSER-PEREIRA; SPINT, 2001). A reFormA de 1967 A reforma de 1967, também conhecida como Reforma da Desburocratização ou da modernização autoritária, ocorreu após o Golpe Militar de 1964 e teve como objetivo principal melhorar a gestão que se tornara excessivamente rígida e centralizada com uma evidente distorção do conceito de burocracia proposto por Weber e, com isso, melhorar a qualidade dos serviços públicos. Para Carneiro (2006, p. 327), a Reforma de 1967 foi, “por certo a mais ampla e orgânica das reformas, consubstanciada no Decreto-lei 200. Lá estão os princípios básicos da descentralização administrativa, da delegação de competência, da definição das empresas públicas e sociedades de economia mista, do planejamento, da coordenação administrativa, dos orçamentos- programa e do regime de licitações públicas. Tudo isso continua como referência obrigatória na história da administração pública brasileira”. São deste período os primeiros Planos Nacionais de Desenvolvimento os quais previam, por meio da intervenção militar na economia e nos projetos sociais, a provisão de bens e serviços necessários para o desenvolvimento nacional. Segundo Rezende (2004), este período foi marcado por uma expansão da estratégia de descentralização, através da criação de um grande número de empresas estatais para atuação em pontos centrais para o desenvolvimento nacional. O nepotismo e a corrupção combatidos com a reforma de 1930 pela reforma burocrática, ainda eram presentes na Administração Pública e, em 1967 é promulgada nova Constituição que “modelou a estratégia reformista” (REZENDE, 2004, p. 55) e, que foi regulamentada pelo Decreto-lei n° 200/1967. O Decreto-lei n° 200/1967 dispôs sobre a descentralização como meio para diminuir a rigidez burocrática que dificultava a gestão. Classificou as organizações públicas em 4 categorias com base em sua autonomia para decisões, fonte de recursos e natureza jurídica em: “administração direta, autarquias e fundações, empresas públicas e sociedades de economia mista” (REZENDE, 2004, p. 55). 57 As BAses dA NovA AdmiNisTrAção PúBlicA Capítulo 2 Entretanto, o Decreto-lei 200 falhou como tentativa de reforma adminis- trativa, porque ocasionou duas consequências inesperadas (BRESSER- PEREIRA; SPINT, 2001, p. 22). • a continuação de práticas patrimonialistas, ao permitir a contratação de empregados sem o devido concurso público; e • o não desenvolvimento de carreiras para os administradores. Em seu Livro, “Por que falham as reformas administrativas?”, Rezende (2004) destaca o seguinte: O ex-ministro do Planejamento Roberto Campos (1994) explica que o Decreto-lei n° 200/1967 foi um instrumento de modernização administrativa. Contudo, muitos dos seus princípios nunca foram completamente implementados. Ele considera que um dos pontos não resolvidos dessa reforma foi a questão da separação de funções entre implementação e formulação, que nunca foi regulada de modo adequado a promover ganhos de performance no setor público. Ele observa que as agências nunca foram devidamente controladas pelo governo central por seus resultados, o que reduziu os ganhos de eficiência. Havia um problema central de coordenação burocrática provocado pela descentralização, e a reforma de 1967 não foi capaz de encontrar alternativa factível para superar esse crônico problema. Ela foi um caso de falha sequencial, sobretudo pela sua inca- pacidade de associar descentralização à performance, encontrando mecanismos de controle mais associados à natureza específica do Estado brasileiro e suas funções. Em meados dos anos 1980, a Secretaria de Administração Pública realizou um estudo que revelava as distorções geradas pelo Decreto-lei n° 200/1967, e que deixava claras as falhas sequenciais das reformas perseguidas até então no Brasil. Esse importante estudo mostra que a expansão da descentralização foi, de fato, uma política contrastante com o desenvolvimento de uma burocracia organizada pelo mérito. Desde os anos 1970, houve uma proliferação de diferentes classificações de empregos e salários nas autarquias e fundações, embora tais instituições fossem reguladas pelas regras básicas da administração federal, controlada pelo Órgão Central de Pessoal Civil, tornando difícil organizar a burocracia em torno de um 58 Gestão Estratégica no Setor Público princípio mais racional. O estudo mostra que até o ano de 1985 havia 104 diferentes divisões especiais nos salários do governo federal, envolvendo mais de 100 mil funcionários públicos regulados pela CLT, que eram contratados sem qualquer exigência de exames públicos e com salários muito superiores aos daqueles funcionários com salários regulados pelo Plano de Classificação de Cargos e Salários, de acordo com a Lei n° 5645 de 1970. Esses problemas se tornaram de grande magnitude, uma vez que no governo militar foram criadas 68 novas agências administrativas, das 120 instituídas no período compreendido entre 1945 e 1970. Das 440 empresas públicas surgidas entre 1939 e 1983, 267 (60%) foram criadas no período militar. A expansão desmedida e quase errática da descentralização criou um problema de controle,ou melhor, um problema de coordenação da formulação entre o governo central e as entidades responsáveis pela implementação, dando margens a consideráveis problemas de performance. Fonte: Rezende (2004, p. 58). A Reforma de 1967, ou, simplesmente, o Decreto Lei 200 que a instituiu, trazia o embrião de muitas das ideias que foram retomadas por ocasião da Reforma Gerencial cujo marco é o ano de 1995. No entender de alguns autores, a Constituição Federal de 1988, que se situa entre os dois momentos mencionados, trouxe novos temas de caráter substantivo para o debate: os direitos sociais, a participação popular nas decisões sobre políticas públicas, a valorização do Município como ente federado dotado de responsabilidades e direitos novos, entre outros. Prioridades foram redefinidas para responder às questões que emergiram. Ficou, assim, relegado a um segundo plano o foco na racionalização e redesenho das rotinas de trabalho e nos processos de descentralização como política pública. A REFORMA GERENCIAL A reforma de 1995 ou reforma gerencial foi proposta pelo Ministério da Administração e Reforma do Estado (MARE), responsável pela elaboração das diretrizes relacionadas à reforma consolidadas no Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado que apresentou propostas para implementação de 59 As BAses dA NovA AdmiNisTrAção PúBlicA Capítulo 2 Administração Pública Gerencial cujo objetivo principal era o de melhorar a capacidade de governança por meio da utilização de metodologias para a modernização da gestão pública utilizadas com sucesso em outros países. uma nova administração pública no Brasil, denominada Administração Pública Gerencial,cujo objetivo principal era o de melhorar a capacidade de governança por meio da utilização de metodologias para a modernização da gestão pública utilizadas com sucesso em outros países. Comentário crítico e penetrante acerca desta reforma pode ser encontrado em Bresser-Pereira (2011) quando apresenta o surgimento do estado social em sequência ao estado liberal: O Estado social foi uma estratégia para aumentar a qualidade de vida e diminuir a desigualdade inerente ao capitalismo, porque o capitalismo é um sistema econômico bastante eficiente, mas é cego à justiça e à estabilidade. É um tipo de sociedade que vive em meio a crises e tende a concentrar a renda na mão dos mais poderosos, dos mais espertos, dos mais ladrões, dos mais inteligentes, aqueles que forem “mais” alguma coisa, e que deixa os mais pacíficos e mais modestos fortemente prejudicados. Por outro lado, descobriu-se que se fossem criados grandes serviços públicos gratuitos de educação, de saúde pública, de assistência social, e se fosse montado um sistema de previdência social universal, a qualidade de vida da população poderia ser substancialmente melhorada, a um custo relativamente barato. É, aí, que surge a reforma gerencial; surge para dar conta dos grandes serviços sociais e científicos do Estado social. Agora, não bastava que o Estado fosse efetivo, que garantisse a lei; era preciso que fosse eficiente, que realizasse os grandes serviços a um custo baixo. Quem primeiro percebeu que o Estado social exigia a reforma gerencial foram os ingleses, em 1987. Depois vários outros países, especialmente os escandinavos, também perceberam esse fato e adotaram a reforma gerencial. No Brasil essa reforma começou em 1995, por isso, eu a denomino “Reforma Gerencial do Estado de 1995”. Fonte: Bresser-Pereira (2011, p. 16). 60 Gestão Estratégica no Setor Público Outros pontos importantes da Reforma de 1995 foram a redução de custos; a revisão e aperfeiçoamento permanente dos procedimentos e processos de trabalho; a definição de metas e indicadores de desempenho e de satisfação do cidadão. Administração gerencial é o tipo de administração que tem como objetivo, sem se afastar do estado de direito, adequar as organizações públicas às contingências específicas de lugar e momento, emprestando-lhes sobretudo maior agilidade e eficiência; prioriza, portanto, os resultados. Tenta igualmente recuperar a identificação dos cidadãos com o Estado, voltando-o a eles. Faz da transparência e do controle cidadão alavancas da eficácia dessas organizações. Introduz também mecanismos de quase-mercado ou concorrência administrada com vistas a aprofundar os ganhos de eficiência. (BRASIL, 1995). O modelo desenvolvido no Brasil acompanhou as orientações mundiais da época, particularmente dos modelos inglês e americano. O principal objetivo do modelo brasileiro “era o de substituir o modelo de gestão burocrática por um modelo orientado pela performance” (REZENDE, 2004, p. 29). O objetivo da Reforma Gerencial era permitir que a administração pública se tornasse mais eficiente e pudesse oferecer ao cidadão mais serviços, com maior qualidade. Ou seja, fazer mais e melhor com os recursos disponíveis. Outros pontos importantes da Reforma de 1995 foram a redução de custos; a revisão e aperfeiçoamento permanente dos procedimentos e processos de trabalho; a definição de metas e indicadores de desempenho e de satisfação do cidadão. É importante lembrar que era época do Plano Real e a reforma do aparelho do Estado era essencial para assegurar a estabilidade da nova moeda com medidas que visavam o combate ao desperdício e a racionalização do uso de recursos públicos. O MARE produziu uma série de documentos técnicos com objetivo de dar conhecimento, informar e esclarecer sobre a Reforma Gerencial. No Caderno nº 6 - A Reforma do aparelho do estado e as mudanças constitucionais: síntese & respostas a dúvidas mais comuns (BRASIL, 1997) - são indicados os principais pontos da Reforma: 61 As BAses dA NovA AdmiNisTrAção PúBlicA Capítulo 2 OS PRINCIPAIS PONTOS DA REFORMA A reforma do aparelho do Estado requer a aprovação de mudanças na Constituição para a sua completa implementação. Mas, a reforma não se limita à revisão de dispositivos constitucionais. Abrange também a revisão de outras leis e normas, a concepção de novos instrumentos de gestão e de formas inovadoras de organização da administração, procurando assimilar o que há de mais avançado nas teorias e métodos de administração, na experiência internacional e na própria trajetória da administração pública brasileira. Os principais projetos e medidas já em andamento na administração federal são os seguintes: • dotar os órgãos centrais do Estado de maior capacidade de formulação e acompanhamento das políticas públicas, especialmente através da criação de novas carreiras e fortalecimento das existentes, voltadas para a formulação de políticas públicas e a regulação, de modo a assegurar o recrutamento contínuo, nos próximos anos, de quadros com alta capacitação técnica; • rever as estruturas e competências dos órgãos e entidades da administração federal, visando a redução de níveis hierárquicos, a adoção de formatos organizacionais mais leves e flexíveis e a descentralização de competências para Estados e Municípios; • estimular o planejamento estratégico em todos os órgãos e entidades, compreendendo a definição de missão, objetivos e metas, conjugada à implantação de indicadores de desempenho e de processos contínuos de melhoria da gestão; • descentralizar e melhorar o desempenho gerencial na prestação de serviços públicos na área social, mediante implantação de “Organizações Sociais”, sem vinculação administrativa com o Estado, mas fomentadas com recursos públicos e controladas por contratos de gestão; • fortalecer a capacidade regulatória do Estado, particularmente sobre os setores produtivos objeto de privatização de empresas estatais, mediante criação de “Agências Regulatórias”, especial- mente nas atividades exploradas por concessão estatal; 62 Gestão Estratégica no Setor Público • melhorar o desempenho na prestação de serviços públicos típicos de Estado, ematividades como arrecadação, segurança e previdência social, mediante implantação de Agências Executivas, com maior autonomia administrativa e controle com ênfase nos resultados alcançados, mediante contrato de gestão; • profissionalizar o servidor, com treinamento permanente, avaliação de desempenho e participação em programas de melhoria contínua dos processos de trabalho; • racionalizar e readequar o perfil e a distribuição do quadro de servidores, com a fixação da lotação necessária de servidores em cada órgão ou entidade e o remanejamento, treinamento ou afastamento de servidores desnecessários; • modernizar a legislação do servidor público e rever privilégios, propondo ao Legislativo emendas à legislação vigente e à própria Constituição, contemplando, particularmente, o estabe- lecimento de restrições às aposentadorias precoces e a revisão de benefícios descabidos, fixados na legislação vigente; • controlar custos, por meio da implantação de sistemas de informações gerenciais, particularmente para o acompanhamento de despesas, de modo a tornar claro para os administradores públicos o custo real de suas unidades e programas; • rever a legislação que rege as compras e contratações, visando a obtenção de preços melhores e a agilização de procedimentos requeridos; • aplicar as tecnologias da informática à melhoria da gestão, de modo a possibilitar a disseminação do trânsito de documentos por meio eletrônico e o acesso com rapidez, pelos gerentes, à informação no formato adequado às necessidades do processo decisório. Fonte: Brasil (1997, p. 8). 63 As BAses dA NovA AdmiNisTrAção PúBlicA Capítulo 2 De acordo com Bresser Pereira e Spint (2001) a passagem da administração pública burocrática para a gerencial deveria ser gradativa, aproveitando-se os aspectos positivos da primeira, e deveria ocorrer em três dimensões: • a institucional-legal, por meio da qual se modificam as leis e se criam ou modificam instituições; • a cultural, baseada na mudança dos valores burocráticos para os gerenciais; • a da co-gestão. O quadro a seguir ilustra as principais características destes dois modelos de administração pública. Quadro 3 - Principais características da Administração Pública Burocrática e da Administração Pública Gerencial Administração Pública burocrática Administração Pública Gerencial • Formalismo e legalismo exagerado; • Centralização; • Normas e procedimentos rígidos; • Padronização de formas organizacionais; • Controles processuais; • Prevalência do poder do estado sobre o interesse público. • Legalismo necessário; • Descentralização; • Normas e procedimentos flexíveis; • Formas diferentes de organização; • Controle e avaliação de resultados; • Orientação para o interesse público e a satisfação do cliente-cidadão. Fonte: Adaptado de Silva (2005). Dentre as propostas de mudança contidas no Plano Diretor da Reforma do Estado, destaca-se a ênfase à gestão de recursos humanos que não deveria se limitar a administração de pessoal, mas sim atuar de forma estratégica na avaliação dos resultados e na promoção de ações para o aperfeiçoamento e o desenvolvimento dos servidores. 64 Gestão Estratégica no Setor Público Atividade de Estudos: 1) Para resumir os conhecimentos adquiridos e assegurar que não lhe escapou nenhum aspecto fundamental, descreva a visão primordial com que se deve abordar o Estado indicando, neste contexto, como entender a dimensão propriamente dita do que seja Reforma Administrativa. ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ AlGumAS coNSiderAçõeS Analisar as características e resultados dos processos de mudança da administração pública pode ser um exercício predominantemente técnico no qual são avaliados os instrumentos e os procedimentos à disposição do gestor. Ou pode se tornar mais complexo, fazendo-se uma leitura das intenções que orientam as soluções técnicas utilizadas e, principalmente, que decifrem o campo de forças subjacentes às mudanças preconizadas e implementadas. No primeiro caso se estará trabalhando muito mais no campo da ciência da administração pública e da ciência jurídica e no segundo, ingredientes da sociologia e da ciência política serão valorizados. No presente texto se procurou oferecer ao leitor as duas dimensões, de forma articulada ao reconhecimento da importância dos tempos históricos para todas as questões sociais. O Brasil vive, em tempos recentes, debate acalorado acerca dos modelos de gestão, colocando o aspirante aos postos de tomada de decisão diante da necessidade de refletir sobre a importância relativa dos instrumentos, 65 As BAses dA NovA AdmiNisTrAção PúBlicA Capítulo 2 práticas, procedimentos e propostas de mudança da administração pública em comparação com o comprometimento ético e o envolvimento intrínseco com o objeto de seu trabalho: as políticas públicas, a melhoria das condições de vida de seus concidadãos, a transparência, a governança e a sustentabilidade ampliada que inclui não apenas as questões ambientais como também aquelas de natureza institucional. Assim, a gestão pública não pode ser exercida de forma ingênua e descolada do conjunto de valores que são considerados pertinentes ao Estado democrático. reFerêNciAS BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/ Constituicao.htm>. Acesso em: 10 jun. 2016. ______. Presidência da República. Câmara da Reforma do Estado. Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado. Brasília: Impr. Nacional, 1995. ______. BRASIL. Ministério da Administração Federal e Reforma do Estado. Caderno 6. Reforma do Aparelho do Estado e as mudanças constitucionais: síntese respostas a dúvidas mais comuns. Brasília, 1997. BRESSER-PEREIRA, Luiz Carlos; SPINT, Peter. Reforma do Estado e Administração Pública Gerencial. Rio de Janeiro: FGV, 2001. BRESSER-PEREIRA, Luiz Carlos. É o Estado capaz de se autorreformar? Desigualdade & Diversidade – Revista de Ciências Sociais da PUC – RJ, Dossiê Especial, p.11- 20, 2011. ______. As duas fases da história e as fases do capitalismo. Crítica e Sociedade: revista de cultura política. v.1, n.1, p.168 - 189, 2011. CARNEIRO, João Geraldo Piquet. Modernização do Estado Brasileiro. In: Por que o Brasil não é um país de alto crescimento? João Paulo dos Reis Velloso (coordenador); Enrique Iglesias [et al]. – Rio de Janeiro: José Olympio, 2006. COSTA, Frederico Lustosa da, Reforma do Estado e Contexto Brasileiro: crítica do paradigma gerencialista. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2010. 66 Gestão Estratégica no Setor Público FARIA, José Henrique de; MENEGHETTI, Francis Kanashiro. Burocracia como organização, poder e controle. RAE, São Paulo, n. 05, p. 424 – 439, 2011. MOTTA, Paulo Roberto. Administração para o desenvolvimento a disciplina em busca da relevância. Revista de Administração Pública, Rio de Janeiro, v.06, n.03, p. 39-53, 1972. REZENDE, Flávio da Cunha. Por que falham as reformas administrativas? Rio de Janeiro: FGV, 2004. SILVA, Márcia Costa A. da. Competências dos Gestores Públicos e Prospectiva Estratégica: análise de cenários em Quissamã. Dissertação de mestrado. Rio de Janeiro, 2005. CAPÍTULO 3 modeloS de GeSTão orGANizAcioNAl A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: 3 Indicar as limitações da organização orientadapara tarefas, áreas funcionais e linha de comando e controle. 3 Examinar métodos, modelos e instrumentos de gestão organizacional. 68 Gestão Estratégica no Setor Público 69 modelos de GesTão orGANizAcioNAl Capítulo 3 coNTexTuAlizAção No Capítulo 1, você estudou as contribuições das principais escolas e abordagens da administração e viu que em resumo os estudos desenvolvidos visaram o desenvolvimento da organização e sua estruturação para alcance de objetivos. No Capítulo 2, conheceu iniciativas para modernização administrativa e aparelhamento do Estado e percebeu que em maior ou menor grau, todas tiveram como objetivo fortalecer a capacidade de gestão do setor público para que pudesse oferecer serviços em patamares cada vez mais elevados de qualidade. Neste Capítulo, examinaremos metodologias e instrumentos de gestão e indicaremos como as teorias e abordagens contribuíram para o surgimento de alguns dos modelos de gestão organizacional. E como veremos, as bases da gestão organizacional se encontram em novas interpretações e aplicações dos fundamentos dos estudos clássicos da ciência da administração. As organizações, sejam elas públicas ou privadas investem no desenvo- lvimento e implementação de métodos, modelos, sistemas e instrumentos de gestão com objetivo de cumprir sua missão, melhorar a qualidade de seus produtos ou serviços e, com isto, alcançar resultados que atendam expectativas das partes interessadas (stakeholders), tais como proprietários, acionistas, consumidores ou a sociedade. oNde Tudo começou Para compreensão do contexto atual em que se inserem e atuam as organizações, faremos neste ponto uma breve retrospectiva e registro da realização de estudos e práticas voltadas para o desenvolvimento e melhoria dos resultados organizacionais. Observar a evolução da sociedade nos auxilia na compreensão e identificação das mudanças na forma de organização e gestão do trabalho ao longo do tempo e do ambiente em que atuavam e atuam as organizações. O primeiro momento a ser destacado é o da Revolução Industrial, que levou o homem do campo (sociedade agrícola) para a cidade e fez com que as primeiras organizações se voltassem para a observação das formas de produção e da interação entre o homem e a máquina nos processos de produção. Sobre isso, vimos no capítulo 1 que os primeiros estudos para melhoria do desempenho organizacional foram os da teoria clássica da administração, desenvolvidos por Taylor e Fayol. 70 Gestão Estratégica no Setor Público As organizações da era industrial foram concebidas para atuarem em ambientes estáveis e até certo ponto previsíveis e com os avanços científicos e tecnológicos, os métodos de trabalho utilizados na sociedade industrial não foram suficientes para assegurar a competitividade às organizações. Logo, o segundo momento é o da sociedade pós-industrial, onde o homem-máquina, os processos rígidos de produção e as estruturas verticalizadas são substituídos por organizações flexíveis, participação e integração dos funcionários nos processos de produção. Os modelos tradicionais fundamentados nos princípios da teoria clássica da administração foram gradativamente sendo transformados e dando origem a novas formas e modelos de gestão. Daniel Bell (1977 apud SILVA, 2005, p. 57), criador do termo sociedade pós-industrial, ao se referir a organização e características do Estado na sociedade pós-industrial destaca “o neoliberalismo, as instituições flexíveis e o participacionismo” cujos “recursos principais são a inteligência, o conhecimento, a criatividade, as informações e laboratórios científicos e culturais”. Se a sociedade se transformou, também se transformaram as organizações. E na sociedade da informação e do conhecimento, cujas características se concentram no surgimento da internet, no uso de tecnologias da informação, nos processos de trabalho, o conhecimento torna-se o ativo capaz de assegurar competitividade às organizações em ambientes cada vez mais complexos. Na figura a seguir apresenta-se uma síntese da evolução da sociedade mencionada nesta seção: Figura 4 – Evolução da Sociedade Fonte: As autoras. Importante destacar que além da concepção adotada pelas autoras, outras denominações são atribuídas a sociedade que estamos vivendo, “ao aqui e agora”. “Para De Masi é a “sociedade pós-industrial”, para Castells é a “sociedade em rede”, para Peter Drucker é a “sociedade do conhecimento” ou “sociedade da informação” e para Toffler seria a “terceira onda”” (ZABOT, 2002, p. 11). Na literatura há registro de autores que se referem a quarta onda, ou a sociedade da informação e do conhecimento. 71 modelos de GesTão orGANizAcioNAl Capítulo 3 Os termos propostos por Fayol foram ajustados e na literatura é comum encontrarmos a indicação de quatro (e não cinco) processos administrativos básicos: planejamento, organização, liderança e controle. Em geral há consenso entre os autores em relação aos principais aspectos que caracterizam as organizações e aos desafios por ela enfrentados desde o final do século XX. Caberá a você, leitor, aprofundar seus estudos sobre o assunto e optar pela expressão que julgar mais adequada. FuNçõeS TíPicAS dA orGANizAção Você se lembra do industrial francês, representante da Escola Clássica da Administração que enfatizou o papel da gerência e descreveu as cinco atividades administrativas? Você acertou se lembrou de Henri Fayol. Muito bem, as atividades administrativas descritas por Fayol reportam à era industrial, mas permanecem relevantes e, como veremos adiante neste capítulo, são facilmente identificáveis nos modelos de gestão em uso nas organizações. AS FuNçõeS AdmiNiSTrATivAS As funções administrativas (ou funções da organização) originalmente propostas por Fayol foram: planejamento, organização, comando, coordenação e controle. Embora Fayol tenha associado as funções administrativas às atividades do gerente, neste capítulo as abordaremos na perspectiva da influência nos modelos de gestão, embora não sejam menos relevantes sua contribuição no campo da liderança. Ao longo do tempo os termos propostos por Fayol foram ajustados ao contexto sócio, econômico e político do mundo corporativo e na literatura é comum encontrarmos a indicação de quatro (e não cinco) processos administrativos básicos: planejamento, organização, liderança e controle. Robbins (2004, p. 7) define resumidamente cada um desses processos: • Planejamento – envolve a definição das metas de uma organização, estabelecendo uma estratégia geral para chegar a elas e desenvolvendo uma ampla hierarquia de planos para integrar e coordenar as atividades. O estabelecimento de metas mantém adequadamente focalizado o trabalho a ser feito e ajuda os membros da organização a manter sua atenção naquilo que é mais importante. • Organização – envolve a determinação de quais tarefas precisam ser feitas, quem irá fazê-las, como elas serão agrupadas, quem responderá para quem e onde as decisões deverão ser tomadas. 72 Gestão Estratégica no Setor Público • Liderança – as organizações são compostas de pessoas. Dirigir e coordenar pessoas é tarefa dos gerentes. Quando os gerentes motivam os funcionários, direcionam as atividades de outros, selecionam os canais de comunicação mais eficazes ou resolvem os conflitos entre os membros, que eles estão liderando. • Controle – para certificar-se de que as coisas estão andando como deveriam, o gerente precisa monitorar o desempenho da organização. O desempenho real deve ser comparado com as metas previamente estabelecidas. Se houver qualquer desvio significante, será responsabilidade do gerente trazer a organização de volta aos eixos. Esse método de monitoramento, comparação e correção é o que queremos dizer quando nos referimos ao processo de controle. As funções básicas da organização indicadas na figura a seguir,indicam a natureza sistêmica e de processos que devem ser realizados na busca de eficiência e eficácia organizacional. Figura 5 – Funções básicas da Administração Fonte: Robbins (2004, p. 8). Agora que você conhece as funções básicas da administração (organização), começaremos a examinar os elementos e modelos que poderão ser utilizados pela Administração para uma gestão pública estratégica. 73 modelos de GesTão orGANizAcioNAl Capítulo 3 o Primeiro PASSo – deFiNição dA eSTrATéGiA Organizações são criadas com um propósito, um objetivo e para alcançá- lo necessitam planejar as ações que serão realizadas em curto, médio e longo prazo. Em resumo, as organizações necessitam de decisores capazes de indicar as ações, ou como muitas vezes é expresso na linguagem popular, “o caminho para se chegar no resultado desejado”. Para Robbins (2004, p. 54): [...] o planejamento envolve a definição dos objetivos ou metas da organização, o estabelecimento de uma estratégia geral para atingir esses objetivos. Particularmente me agrada a ideia do planejamento como uma antecipação de fatos que ainda não ocorreram e, por isto mesmo, permite a análise de alternativas e possibilidades até que se escolha aquela que submetida aos critérios de decisão da organização, pareça a escolha mais acertada. Como veremos adiante esta é a base do planejamento estratégico clássico muito difundida no Brasil a partir da década de 1980. Para ilustrar a importância do planejamento, vale lembrar o clássico trecho do filme Alice no País das Maravilhas, obra escrita no século XIX por Lewis Carroll e que recentemente foi exibido nos cinemas. ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS Na obra Alice está atrás de um coelho e cai em um mundo desconhecido e cheio de aventuras e personagens fantásticos. Um desses personagens é um gato com enorme sorriso e que, ao vê-la perdida na floresta, estabelece com Alice o seguinte diálogo: - “Estou perdida, você pode me ajudar? diz Alice ao gato no alto da árvore. “Ele responde: “Sim, pois não.” “Para onde vai essa estrada?”, pergunta ela. Ele responde com outra pergunta, “Para onde você quer ir?”. Ela disse: “Eu não sei, estou perdida.” Ele, então, diz assim: “Para quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve.” Se o planejamento sempre esteve presente na agenda dos dirigentes organizacionais, foi a partir da década de 1960 que a expressão estratégia 74 Gestão Estratégica no Setor Público Estratégia de crescimento – O crescimento pela expansão direta envolve aumento do tamanho da empresa, das receitas, das operações e da força de trabalho. “Testar os limites da transposição de um ideário empresarial para a arena governamental [...] substituindo “estratégia de negócios” por “estratégia de governo””. ganhou força no ambiente organizacional, inicialmente nas empresas privadas estendendo-se sua aplicação ao setor público, destacadamente nos anos 1990, na reforma gerencial. Mintzberg (2004, p. 34) define a estratégia como “um plano, ou algo equivalente – uma direção, um guia ou curso de ação para o futuro, um caminho para ir daqui até ali. [...] Estratégia também é um padrão, isto é, consistência em comportamento ao longo do tempo”. No livro Competindo pelo futuro, Hamel e Prahalad (1995) destacam a importância da estratégia para as organizações e argumentam que a estratégia não chega a ser um plano detalhado, mas um processo que envolve o levantamento de funções existentes e a identificação de novas competências necessárias para impulsionar a organização para o alcance de seus objetivos. Segundo os autores, “os países também podem ter arquiteturas estratégicas” (HAMEL; PRAHALAD, 1995, p. 124), e dão como exemplo o Conselho de Desenvolvimento Econômico de Cingapura que identificou as competências nacionais que teriam que ser desenvolvidas para impulsionar o país para o nível de desenvolvimento industrial desejado. Também no Brasil é possível verificarmos o uso da expressão estratégia nas ações de governo, particularmente nas mais recentes propostas de modernização administrativa estudadas no Capítulo 2. À guisa de ilustração, cabe mencionar o artigo de Pinho (2004 apud SILVA, 2005, p. 45) que trata da questão da inovação e da competitividade na organização publica e faz um paralelo entre estes conceitos e sua aplicabilidade para a administração ao sugerir que se deve “testar os limites da transposição de um ideário empresarial para a arena governamental [...] substituindo “estratégia de negócios” por “estratégia de governo””. Robbins (2004, p. 65) destaca quatro estratégias principais que são adotadas pelas organizações. São elas: a) Estratégia de crescimento – se refere ao aumento do nível de operações realizadas pela empresa. Organizações “de crescimento” atingem esse objetivo por expansão direta, desenvolvimento de novos produtos, melhoria na qualidade ou por diversificação (muitas vezes se unindo a outras empresas ou adquirindo-as). O crescimento pela expansão direta envolve aumento do tamanho da empresa, das receitas, das operações e da força de trabalho. 75 modelos de GesTão orGANizAcioNAl Capítulo 3 Estratégia de combinação – refere- se a busca simultânea por uma ou mais das estratégias. Estratégia de redução – precisa reduzir seu tamanho para manter sua competitividade. Estratégia de estabilidade – se caracteriza pela ausência de mudanças marcantes. b) Estratégia de estabilidade – se caracteriza pela ausência de mudanças marcantes. Significa que a organização continua a servir o mesmo mercado e clientes, mantendo sua participação no mercado. É apropriada quando existem várias condições: ambiente estável e inalterado, desempenho organizacional satisfatório, presença de pontos fortes e ausência de pontos fracos críticos, e oportunidades e ameaças que não são significativas. c) Estratégia de redução – ocorre quando a organização, impactada por avanços tecnológicos, competição global ou outras mudanças ambientais, precisa reduzir seu tamanho para manter sua competitividade. d) Estratégia de combinação – refere-se a busca simultânea por uma ou mais das estratégias descritas. Por exemplo, determinado segmento da empresa adota uma estratégia de crescimento enquanto outra mantém a de estabilidade. Atividade de Estudos: 1) Com base nos tipos de estratégia apresentados, exercite sua percepção. Escolha um ente governamental (União, Estado ou Município) e tente identificar qual a estratégia adotada pelo governo. Procure identificar elementos que justifiquem sua resposta. ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ Para saber mais sobre estratégia, recomendamos a leitura do clássico “A arte da guerra” de Sun Tzu. Este livro escrito há mais de 2.000 anos tornou-se uma referência para estudantes e profissionais que atuam com gestão organizacional e interessados no tema. 76 Gestão Estratégica no Setor Público Na próxima seção examinaremos modelos e instrumentos de gestão utilizados por organizações privadas e públicas. méTodoS, modeloS e iNSTrumeNToS PArA GeSTão orGANizAcioNAl A necessidade de produzir mais ao menor custo e com melhores resultados fez com que as organizações mobilizassem especialistas para o desenvolvimento de estratégias e para a definição de um modelo de gestão que melhor se adequasse aos propósitos da organização. Antes de avançarmos pare, pense e registre o que você entende por modelo. ________________________________________________ ________________________________________________ ________________________________________________ ________________________________________________________________________________________________ Um modelo pode ser entendido como uma referência, um exemplo, algo que pode ser reproduzido. Significado de Modelo 1 Imagem, desenho ou objeto que serve para ser imitado (dese- nhando ou esculpindo). 2 Molde, exemplar. 3 Coisa ou pessoa que é ou merece ser imitada. 4 Pessoa que posa para artistas, servindo de modelo vivo. 5 Pessoa que tem como atividade envergar e apresentar roupas ou acessórios. Fonte: Disponível em: <https://dicionariodoaurelio. com/modelo>. Acesso em: 10 maio 2016. 77 modelos de GesTão orGANizAcioNAl Capítulo 3 Gerir significa organizar e modelar, por meio de instrumentos e técnicas adequadas, os recursos financeiros e materiais da organização. Sobre a palavra modelo, Ferreira (2006, p. 18) menciona que: [...] embora utilizada em diferentes contextos e significados diferenciados, implica de algum modo, a ideia de organização e ordenamento de partes que compõem um conjunto. Assim, em linguagem simples e sem sofisticação científica, podemos definir um modelo como aquilo que serve de exemplo ou norma em determinada situação. Para Motta (1999 apud CARBONE, 2006, p. 80) o termo gestão possui o mesmo significado de administração e de gerência: “é um termo genérico [...] que sugere a ideia de dirigir e decidir”. Para Ferreira (2006, p. 19) “gerir significa organizar e modelar, por meio de instrumentos e técnicas adequadas, os recursos financeiros e materiais da organização e até mesmo as pessoas que a compõem”. Feitas estas considerações, podemos considerar um modelo de gestão como uma moldura, um esquema ou um quadro de referência com indicação de pontos focais ou elementos essenciais para a organização. PlANejAmeNTo eSTrATéGico Muitos são os autores que contribuíram e se dedicaram ao tema do planejamento e da estratégia, entretanto, neste capítulo abordaremos o planejamento estratégico a partir da contribuição daquele que é considerado no ambiente acadêmico como um de seus mais ilustres representantes, trata- se de Henry Mintzberg. Mintzberg foi um dos primeiros a dedicar-se ao estudo e sistematização do planejamento estratégico desde sua origem na década de 1960. Seus livros enfatizam a relação entre planejamento e estratégia, sua ascenção, notoriedade e queda. De acordo com Mintzberg (2004, p. 43) a maioria dos modelos de planejamento estratégico se baseiam em “uma única estrutura conceitual, ou modelo básico, diferindo menos nos fundamentos que nos níveis de detalhe. Eles têm variado da simples elaboração dessa estrutura à especificação altamente detalhada de seus estágios, usando todos os tipos de checklists, tabelas, diagrama e técnicas”. 78 Gestão Estratégica no Setor Público As etapas do planejamento estratégico são representadas na figura a seguir: Figura 6 – Etapas do Planejamento Estratégico Fonte: Robbins (2004, p. 63). Observe que o Processo de Administração Estratégica inicia com a reflexão e definição da missão, objetivos e visão da organização. Este momento se desdobra na análise do ambiente em que se insere e atua a organização para que se verifique ameaças e oprtunidades (ambiente externo) e pontos fortes e pontos fracos (ambiente interno). Com estas informações, a organização deverá formular, implementar e monitorar as estratégias definididas e avaliar os resultados alcançados. Para melhor compreensão destas etapas examinaremos, a seguir, alguns conceitos fundamentais. coNceiToS imPorTANTeS No PlANejAmeNTo eSTrATéGico e deFiNição dA eSTrATéGiA orGANizAcioNAl Alguns conceitos utilizados no planejamento estratégico são apresentados resumidamente a seguir: • Visão – “diz respeito ao estado futuro desejado pela organização, ou seja, aquilo que ela deseja ser em um futuro próximo” (CARBONE, 2006, p. 51). Para sua definição é importante observar que: i) deve ser estabelecida pelos dirigentes da organização com auxílio de seus colaboradores; ii) deve responder à questão: como a organização gostaria de ser reconhecida pelo resultado de seu trabalho?; iii) deve ser compartilhada; iv) deve ser desafiadora e inspirar as pessoas a construir algo de valor. 79 modelos de GesTão orGANizAcioNAl Capítulo 3 • Missão – “é o propósito principal ou a razão pela qual uma organização existe” (CARBONE, 2006, p. 51). Para sua definição é importante observar que a missão: i) orienta e delimita a ação da organização, definindo a que ela se propõe; ii) exprime a razão de sua existência; iii) deve contemplar clientes internos/externos, fornecedores, a sociedade e demais setores envolvidos; iv) deve indicar o negócio/finalidade da organização. • Valores – expressam conceitos de certo e errado, de bom e ruim. Os valores norteiam as regras de conduta e de convivência da organização e de seus colaboradores e contribuem para construção da cultura organizacional. Dentre os livros de Mintzberg destacamos “Ascenção e queda do planejamento estratégico” no qual o autor ao mesmo tempo que nos oferece uma análise do planejamento estratégico com indicação de algumas evidências de sua utilização e resultados, faz também uma crítica contundente as armadilhas e falácias mais evidentes em relação ao seu uso, particularmente no capítulo 5 – Falácias fundamentais do planejamento estratégico. O modelo básico engloba um conjunto de conceitos para formulação da estratégia ancorados nas escolas do design e do posicionamento. A escola do design se caracteriza por tratar a formulação da estratégia como “um processo informal de concepção normalmente na mente consciente de um líder” (MINTZBERG, 2004, p. 18). Seu principal instrumento é conhecido como Matriz SWOT, que consiste numa sequencia de análises para formulação da estratégia. A escola de posicionamento também se utiliza na análise SWOT, divergindo da escola de design apenas em dois aspectos, o que se refere a concepção da estratégia como um processo informal e a que concentra na figura do líder o papel de ator principal no processo. A expressão SWOT deriva de Strengths (forças), Weaknesses (fraquezas), Opportunities (oportunidades) e Threats (ameaças). Segundo Mintzberg (2004) a análise SWOT tem sua origem nos estudos na área de política de negócios de Harvard. Este importante instrumento do planejamento estratégico “se baseia na crença de que a formação da estratégia é um processo de concepção – o uso de algumas ideias básicas para traçar a estratégia. Dessas, a mais essencial é a congruência, ou adaptação, entre fatores externos e organizacionais” (MINTZBERG, 2004, p. 43). 80 Gestão Estratégica no Setor Público A figura a seguir resume e ilustra os momentos de análise do ambiente externo (ameaças e oportunidades) e do ambiente interno (forças e fraquezas) da análise SWOT na definição da estratégia organizacional. Figura 7 – Fluxo para Análise do Ambiente Fonte: Mintzberg (2004, p. 44). Escola do design e Escola do posicionamento são duas das 10 escolas de pensamento para formulação de estratégia indicadas por Mintzberg. As outras seriam: planejamento, cognitiva, empreendedora, aprendizado, política, cultural, ambiental e configuração. No setor público, não apenas a promulgação de novas leis que trazem em sua essência a importância do planejamento governamental, mas principalmente na Reforma Gerencial de 1995, a questão do planejamento estratégico ganhou força no serviço público federal. A lei 10257/2001 conhecida como Estatuto da Cidade e a Lei Complementar nº 100/2000 conhecida como Lei de Responsabilidade Fiscal são dois exemplos da ênfase atribuída ao planejamento. 81 modelos de GesTão orGANizAcioNAl Capítulo 3 Há que se ter em mente que o processo de planejamento estratégico no setor público possui particularidades e desafios diferentes dos que são enfrentados por empresas privadas. Bush (2005 apud CARNEIRO, 2010) argumenta que organizações públicas se defrontam com expectativasem constante mudança de múltiplos interessados: beneficiários, usuários, contribuintes, entidades de classe, fornecedores, órgãos de controle, servidores etc. Os interessados muitas vezes apresentam demandas conflitantes entre si, mas todos concordam quanto a demanda por mais e melhores serviços, ao mesmo tempo em que exigem mais eficiência e accountability, mesmo que os recursos permaneçam limitados ou escassos. No Brasil o termo accountability é utilizado para referir-se a obrigatoriedade e responsabilização dos agentes políticos e que envolve controle de suas práticas. O termo “accountability”, na sua acepção original, diz respeito “al cumplimiento de una obligación del funcionario público de rendir cuentas, sea a un organismo de control, al parlamento o a la sociedad misma.” (SANO; ABRUCIO, 2003 apud SILVA, 2005, p. 18). O Planejamento Estratégico desencadeou uma onda nos anos 1980 e 1990 que produziu defensores e críticos no nível estratégico das organizações quanto ao seu real resultado. Sobre isto, importante sempre destacar que o resultado gerado por um método ou instrumento dependerá sempre da qualidade da equipe gestora e técnica responsável por sua implementação. Não obstante, o próprio Mintzberg, como mencionado anteriormente, destaca algumas restrições e efeitos indesejáveis que podem ser minimizados pelo uso de métodos e instrumentos complementares, como veremos na seção que abordará o balanced scorecard adiante neste capítulo. modelo de GeSTão BASeAdo NA QuAlidAde Nas décadas de 1980 e 1990, as empresas brasileiras foram fortemente influenciadas pela Qualidade Total cujos fundamentos e principais representantes foram estudados no Capítulo 1. Vale lembrar que com o objetivo de manter a organização competitiva a Gestão pela Qualidade preocupou-se com o controle estatístico dos processos de trabalho e, com isso, o período é marcado pelo uso do que se denominou no ambiente corporativo de “ferramentas da qualidade”. 82 Gestão Estratégica no Setor Público Nesta seção, examinaremos as bases do modelo de gestão preconizado pela Qualidade Total e os principais instrumentos e ferramentas que lhe dão sustentação. A FuNdAção NAcioNAl dA QuAlidAde Criada em 1991, em pleno período de valorização dos princípios da Qualidade preconizados por Juran e Deming, a Fundação Nacional da Qualidade – FNQ é um centro de estudo e debates sobre excelência em gestão e que, desde sua fundação, é responsável pela organização e realização do Prêmio Nacional da Qualidade (PNQ). Os critérios de excelência para a premiação indicados no e-book Modelo de Excelência para Gestão (FNQ, [s.d.], p. 14) são os seguintes: • Clientes: Análise e desenvolvimento de mercado, entendimento das neces- sidades e expectativas dos clientes atuais e potenciais, gerenciamento da marca e imagem da organização e relacionamento com clientes. • Pessoas: Sistemas de trabalho, identificação de competências, seleção e integração de pessoas, avaliação de desempenho, remuneração e reco- nhecimento, capacitação e desenvolvimento, preparação de novos líderes e qualidade de vida. • Liderança: Cultura organizacional e desenvolvimento da gestão, da governança, dos riscos, da interação com as partes interessadas, do exercício da liderança e da análise do desempenho da organização. • Estratégias e planos: Formulação e implementação das estratégias, por meio de análise dos ambientes interno e externo, ativos intangíveis, como a definição de indicadores e metas, desdobramentos de planos de ação. • Sociedade: Responsabilidade socioambiental e desenvolvimento social, que incluem identificação das necessidades e expectativas da sociedade, atendimento à legislação. • Processos: Processos da cadeia de valor em interação, projetados para atender aos requisitos de produtos, das partes interessadas, que realizam as transformações e entregas da organização, considerando em destaque os relativos a fornecedores e os econômico-financeiros. • Resultados: Apresentação de resultados estratégicos e operacionais 83 modelos de GesTão orGANizAcioNAl Capítulo 3 relevantes para a organização, na forma de indicadores que permitam avaliar, no conjunto, a melhoria dos resultados, o nível de competitividade e o cumprimento de compromissos com requisitos de partes interessadas, nas perspectivas econômico-financeira, socioambiental e relativas a clientes e mercados, a pessoas e aos processos da cadeia de valor. • Informações e conhecimento: Informações da organização, desde a identificação de necessidades até a implantação do sistema de informação, e gestão do conhecimento organizacional, ao identificar, desenvolver, reter e proteger, difundir e utilizar os conhecimentos necessários para a implementação das estratégias. Figura 8 – Modelo de Excelência em Gestão Fonte: FNQ (2016). A mandala do modelo pode ser entendida de acordo com a seguinte lógica: por meio das demandas dos clientes e da sociedade, a liderança desenvolve estratégias e planos que são executados por pessoas e processos com o objetivo de gerar resultados. Tudo isso só acontece se as informações e os conhecimentos estiverem permeando todos os critérios, as variáveis e a organização (FNQ, 2016). Para saber mais sobre a FNQ e os critérios para a premiação visite o site <www.fnq.org.br>. No site você também encontrará artigos, publicações, e-books e indicação de eventos sobre o tema. 84 Gestão Estratégica no Setor Público FerrAmeNTAS dA QuAlidAde Além do Ciclo PDCA (Plan, Do, Check, Act) já abordado no Capítulo 1, o uso de métodos estatísticos foi defendido por Deming, um dos principais representantes da Qualidade Total, como meio para controle dos processos de trabalho. Algumas ferramentas e técnicas que servem de subsídio para a Gestão da Qualidade são apresentadas a seguir. a) Gráfico de barras–permite a comparação de quantidades de dados de categorias diferentes, de modo que se visualize semelhanças, diferenças ou classificação de problemas. Figura 9 – Gráfico de Barras Fonte: Araújo (2007, p. 234). b) Diagrama de Causa e Efeito – também conhecido como “espinha de peixe” ou “gráfico de Ishikawa. Consiste na identificação e organização de possíveis causas para um problema. De acordo com Scholtes (2002, p. 26), o diagrama inventado por Kaoru Ishikawa “é uma ferramenta eficaz para o estudo de processos e situações”. A figura a seguir foi utilizada por Hunt (apud Araújo, 2007, p. 235) para indicar as possíveis causas para o problema “milho da pipoca que não estoura”. 85 modelos de GesTão orGANizAcioNAl Capítulo 3 Figura 10 – Diagrama de Causa e Efeito Fonte: Araújo (2007, p. 235). c) Folha ou Lista de Verificação – são formulários estruturados para o registro de dados, “normalmente são utilizadas para se obterem dados sobre número de itens defeituosos, localização e causa de defeitos” (ARAÚJO, 2007, p. 235). Figura 11 – Lista de Verificação Fonte: Araújo (2007, p. 236). 86 Gestão Estratégica no Setor Público d) Fluxograma – são esquemas com indicações do passo a passo ou descrição de um processo. “Como esboços de uma sequência de ações, oferecem aos membros da equipe pontos de referência comuns e uma ‘linguagem’ padrão para ser usada ao se conversar sobre um processo ou projeto existentes. Podem também ser usados para descrever uma sequência desejada de um sistema novo e melhorado” (SCHOLTES, 2002, p. 18). Figura 12 – Fluxograma Fonte: Disponível em: <https://goo.gl/Cpxc2a>. Acesso em: 22 maio 2016. e) Diagrama ou Gráfico de Pareto – formado por uma série de barras cujas alturas refletem a frequência ou impacto dos problemas. As barras são dispostas em ordem decrescente de altura, da esquerda para direita. O nome do gráfico deriva do Princípio de Pareto – 80% das dificuldades vêm de 20% dos problemas (SCHOLTES, 2002, p. 25). Figura 13 – Gráfico de Pareto Fonte: Araújo (2007, p. 240). 87 modelosde GesTão orGANizAcioNAl Capítulo 3 As ferramentas da qualidade costumam ser utilizadas por organizações públicas ou privadas em diferentes situações, independente do modelo de gestão adotado. O objetivo de uma sessão de brainstorming é o de coletar ideias de todos os participantes, sem críticas ou julgamento. f) Brainstorming (ou técnica de Brain) – consiste na geração de ideias (possíveis soluções) para determinado problema. Segundo Scholtes (2002, p. 38), “o objetivo de uma sessão de brainstorming é o de coletar ideias de todos os participantes, sem críticas ou julgamento”. Deve ser realizado em duas etapas: geração de ideias e análise das soluções. Trata-se de uma técnica que estimula o pensamento criativo e gera entusiasmo e comprometimento com a solução. A seguir algumas regras sugeridas por Scholtes (2002, p. 38) para realização do brainstorming. • Incentive todos a se sentirem livres, não rejeite quaisquer ideias, mesmo que no momento elas pareçam tolas, quanto mais ideias, melhor. • Não deve haver discussões durante a sessão de brainstorming. Isto virá mais tarde. • Não se devem fazer julgamentos. Ninguém tem direito de criticar as ideias dos outros, nem mesmo com um resmungo ou careta! • Deixe as pessoas “pegarem carona” – desenvolverem ideias dadas por outros membros do grupo. • Escreva TODAS as ideias em um flipchart, de modo que o grupo todo possa examiná-las facilmente. Importante destacar que as ferramentas da qualidade costumam ser utilizadas por organizações públicas ou privadas em diferentes situações, independente do modelo de gestão adotado. GeSTão Por ProceSSoS Foi na década de 1990, impulsionada pelos estudos de Davenport e Hammer na reengenharia, que a gestão por processos foi impulsionada no Brasil. As Empresas em sua maioria, voltadas para sua realidade interna, diferem das empresas orientadas por processos cuja ênfase é dada ao cliente final. A gestão por processos é caracterizada pelo tratamento sistêmico que é dado a organização, o que se justifica, uma vez que a mesma é fundamentada na Teoria Geral de Sistemas que já estudamos no capítulo1. Para alguns é considerada uma metodologia pela sequência de etapas e regras para medição dos resultados dos processos visando sua melhoria. Examinaremos a seguir suas principais características. Os modelos de gestão funcionais e verticalizados herdados da era industrial não foram capazes de atender as exigências do mercado caracterizado por novas formas de produção, relações entre produtores e consumidores cada vez mais próximas e do uso crescente de tecnologia. 88 Gestão Estratégica no Setor Público Sobre os modelos verticalizados e as dificuldades que criam para as organizações, Sordi (2008, p. 15) comenta o seguinte: A verticalização, seguindo os princípios da Administração científica, provocou a proliferação das estruturas organi- zacionais, nas quais a especialização dividiu o trabalho em funções, criando dutos verticais de gestão, que culminaram com o distanciamento das empresas dos seus objetivos de negócios. O autor, cita como exemplo, os grandes conglomerados americanos e europeus e destaca que a principal característica deste tipo de organização “é a quebra das vias de comunicação entre departamentos com a criação de barreiras funcionais, que isolam áreas multidisciplinares que atuam nos mesmos processos. A proliferação de níveis hierárquicos de gestão, por seu lado, estimula a criação de barreiras hierárquicas, em que supervisores só falam com supervisores, gerentes, com gerentes e diretores, com seus pares” (SORDI, 2008, p. 15). A figura a seguir ilustra o que o autor denomina de “ilhas de conhecimento” provocadas pela estrutura verticalizada funcional. Figura 14 – Ilhas de Conhecimento Fonte: Sordi (2008, p. 16). Também sobre a obsolescência do modelo verticalizado na forma de gestão, vale a leitura do trecho indicado a seguir do artigo Processo, que processo? de José Ernesto Lima Gonçalves publicado na Revista de Administração de Empresas – RAE em Out/Dez de 2000. A empresa é a forma pela qual nós organizamos nossos recursos de todos os tipos para realizar o trabalho que nos propusemos a fazer. A estrutura de nossas organizações manteve-se basicamente 89 modelos de GesTão orGANizAcioNAl Capítulo 3 Processo como “qualquer atividade ou conjunto de atividades que toma um input, adiciona valor a ele e fornece um output a um cliente específico”. a mesma durante várias décadas ao longo do século XX. Ela é herança da Revolução Industrial inglesa e foi reformada durante o surto industrial americano no começo do século. Esse tipo de organização assenta-se sobre vários pressupostos que estão superados e que deram base ao surgimento de empresas voltadas para dentro, para suas próprias atividades, com estruturas hierárquicas pesadas e rígidas. Enfatiza Gonçalves (2000) que grandes empresas estão adotando a gestão por processos como forma de melhorar seu desempenho. “As empresas estão procurando se organizar por processos para terem maior eficiência na obtenção do seu produto ou serviço, melhor adaptação à mudança, melhor integração de seus esforços e maior capacidade de aprendizado” (GONÇALVES, 2000, p. 9). No artigo As empresas são grandes coleções de processos, Gonçalves (2000, p. 7) destaca que não existe um produto ou serviço oferecido por uma empresa sem um processo empresarial e define processo como “qualquer atividade ou conjunto de atividades que toma um input, adiciona valor a ele e fornece um output a um cliente específico”. Um conceito muito utilizado na gestão por processos é o de processo de negócio. Para Sordi (2008, p. 18) “o conceito de divisão do trabalho em tarefas é o ponto de consenso entre pensadores da administração contemporânea quanto à definição de processo de negócio”. Para o autor processos de negócio “são fluxos de trabalhos que atendem a um ou mais objetivos da organização e que proporcionam agregação de valor sob a ótica do cliente final” (SORDI, 2008, p. 18). Outros conceitos importantes na gestão por processos são indicados a seguir. Conceitos importantes utilizados na gestão por processos Agora faremos uma descrição sintética de alguns dos termos utilizados na gestão por processos adaptados de Sordi (2008, p. 59-76): • Atividade – também chamada de tarefa, corresponde a uma unidade lógica de trabalho dentro de um processo. Pode ser totalmente manual ou automatizada. Para se identificar uma atividade ou tarefa é preciso decompor o processo e criar níveis de detalhamento do processo. As atividades compõem o último nível da decomposição de um processo, aquele em que não há mais necessidade de subdivisão. 90 Gestão Estratégica no Setor Público • Escopo de análise do processo - são formas de análise do processo e podem variar desde uma visão abrangente até uma visão mais restrita do processo, limitando-se apenas a um conjunto de atividades específicas. “A essa variação do ângulo de visão do processo de negócios, atendo-se a um determinado nível de detalhamento entre o mais geral e o mais específico, denominamos escopo de análise do processo”. • Fluxo de trabalho – descreve a sequência de execução das atividades de um processo. A técnica utilizada para entender a lógica e a interação entre as atividades é o diagrama de fluxo de trabalho. • Evento de negócio – diz respeito às ocorrências que podem deflagrar um processo, são acionadores de processos. Os eventos de negócios podem ser variados e reconhecê-los é fundamental para compreensão e análise do processo. São classificados em: – Evento temporal, em períodos pré-estabelecidos. Ex: 5º dia útil do mês; – Com base em ação específica, como por exemplo, um pedido de cotação para área de vendas; – Com base em regras, pela combinação de dois ou mais eventos numa operação. Por exemplo, um contribuinte em atraso no pagamento doIPTU, deflagra a cobrança do mesmo. Nesse caso temos um evento temporal (data que deveria entrar o pagamento) combinado com uma ação específica (cobrar o munícipe em débito). • Regra de Negócio – pode ser compreendida como a declaração de políticas e práticas que determinam o que é possível, desejável ou mesmo impossível na operação do negócio (da empresa). • Unidade organizacional – representa cada uma das áreas da organização explicitadas no organograma da organização - superintendência, departamento, coordenadoria são exemplos de unidades organizacionais. • Área funcional – indica setores que são agregados por similaridade de funções, independente de sua classificação em termos de organograma. • Papéis – indicam o grau de envolvimento de uma área com a atividade ou com um processo de negócio. Papéis podem ser de gerenciamento, de execução ou de apoio. A matriz de associação é uma das técnicas empregadas para relacionar os papéis desempenhados pelas unidades organizacionais ou áreas funcionais em relação ao processo e suas atividades. 91 modelos de GesTão orGANizAcioNAl Capítulo 3 • Transação – é a representação lógica de um negócio realizado e concluído, caso contrário, qualifica-se a transação como pendente, em aberto ou em andamento. Do ponto de vista da auditoria, por exemplo, uma transação de negócio é o registro documental de um evento de negócio realizado na organização. Um pagamento efetuado e a contratação de funcionário são exemplos de transações de negócios. • Lead time – refere-se ao tempo entre o início de um processo e a aparição dos seus resultados. O lead time de uma transação se refere ao tempo médio necessário para realizá-la. • Indicador de desempenho – são parâmetros utilizados pelas organizações para monitoramento do desempenho de um processo. Os indicadores podem ser: financeiros, de produtividade, de qualidade, sociais, ambientais etc Para compreender melhor as regras de gestão, realize a atividade proposta a seguir. Atividade de Estudos: 1) Analise a situação dos alunos de uma instituição de ensino a partir das regras de negócio definidas, indique qual procedimento deverá ser adotado em cada situação e argumente porque a regra de negócio é importante para a organização. Uma instituição de ensino identificou 2 alunos que não se matriculam há 2 anos. Um pagou todas as mensalidades e outro está com pendência financeira. Observe as regras de negócio da instituição de ensino Regra n° 1 – todo aluno que não se matricula há mais de 2 anos deve ser assinalado e tratado como aluno inativo. Regra n° 2 – todo aluno com pendência financeira deve permanecer ativo. ________________________________________________ ________________________________________________ ________________________________________________ ________________________________________________ ________________________________________________ ________________________________________________ ________________________________________________ ________________________________________________ 92 Gestão Estratégica no Setor Público Nas organizações que adotam a gestão por processos as equipes de trabalho têm papel de destaque no monitoramento dos processos de trabalho em que atuam, reduzindo seu tempo de execução, melhorando seu desempenho e implementando melhorias. Para conhecer outros conceitos e saber mais sobre Gestão por Processos recomendamos a leitura do Capítulo 4 – Vocabulário técnico da Gestão por Processos Di Sordi (2008) indicada a seguir: DI SORDI, José Osvaldo. Gestão por processos: uma abor- dagem da moderna administração. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2008. cArAcTeríSTicAS dA orGANizAção Por ProceSSoS Nas organizações que adotam a gestão por processos as equipes de trabalho têm papel de destaque no monitoramento dos processos de trabalho em que atuam, reduzindo seu tempo de execução, melhorando seu desempenho e implementando melhorias. De Toro e McCabe (1997 apud SORDI, 2008, p. 21) afirmam que a gestão por processos pode ser considerada uma metodologia para gerenciamento sistemático centrado no cliente, objetivando medição e melhoria de todos os processos da organização por meio de times multifuncionais e com delegação de autonomia aos funcionários (empowerment). A tradução de empowerment seria empoderamento. No Brasil seu uso pode ser associado as décadas de 1980 e 1990, em empresas que adotaram a gestão pela qualidade total e também período em que se registra o crescente uso da gestão por processos. A expressão também é comumente utilizada para indicar uma característica das equipes autogerenciáveis. Ostroff (1999 apud SORDI, 2008, p. 22) apresenta um conjunto de 12 princípios que caracterizam a gestão por processos: • Está organizada em torno de processos-chave multifuncionais, em vez de tarefas ou funções, 93 modelos de GesTão orGANizAcioNAl Capítulo 3 • Opera por meio de donos de processos ou gerentes dotados de respon- sabilidade integral sobre os processos-chave, • Faz com que os times, não indivíduos, representem o alicerce da estrutura organizacional e do seu desempenho, • Reduz níveis hierárquicos pela eliminação de trabalhos que não agregam valor e pela transferência de responsabilidades gerenciais aos operadores de processos, os quais têm completa autonomia de decisão sobre suas atividades nos processos como um todo, • Opera de forma integrada com clientes e fornecedores, • Fortalece as políticas de recursos humanos, disponibilizando ferramentas de apoio, desenvolvendo habilidades e motivações, além de incentivar o processo de transferência de autoridade aos operadores de processos para que as decisões essenciais à performance do grupo sejam tomadas no nível operacional, • Utiliza a tecnologia da informação (TI) como ferramenta auxiliar para chegar aos objetivos de performance e promover a entrega da proposição de valor ao cliente final, • Incentiva o desenvolvimento de múltiplas competências de forma que os operadores de processos possam trabalhar produtivamente ao longo de áreas multifuncionais, • Promove a multifuncionalidade, ou seja, a habilidade de pensar criativamente e responder com flexibilidade aos novos desafios impostos pela organização, • Redesenha as funções de departamentos ou áreas de forma a trabalhar em parceria com os grupos de processos, • Desenvolve métricas para avaliação de objetivos de desempenho ao final dos processos, • Promove a construção de uma cultura corporativa transparente, de colabo- ração, com foco no desempenho e fortalecimento dos valores dos colabo- radores, promovendo a responsabilidade e o bem-estar na organização. A partir do que foi apresentado até o momento, você tem subsídios para realizar a atividade de estudos proposta a seguir. Atividade de Estudos: 1) Como vimos a Gestão por Processos fundamenta-se na Teoria Geral de Sistemas estudada no capítulo 1. Que características dos processos confirmam esta afirmação? ________________________________________________ ________________________________________________ ________________________________________________ 94 Gestão Estratégica no Setor Público O artigo “The core competence of theorganization”, publicado por Prahalad e Hamel em 1990 é considerado como uma referência, um marco do surgimento do conceito de competência. ________________________________________________ ________________________________________________ ________________________________________________ ________________________________________________ ________________________________________________ GeSTão Por comPeTêNciAS O artigo “The core competence of theorganization”, publicado por Prahalad e Hamel em 1990 é considerado como uma referência, um marco do surgimento do conceito de competência. No artigo, os autores fazem referência à necessidade de se repensar à organização diante das mudanças no mercado.Hamel e Prahalad (1990 apud SILVA 2005, p. 37) comentam que a competência seria a capacidade de combinar, misturar e integrar recursos em produtos e serviços. Estes autores estudaram diversas empresas a fim de identificarem os fatores que contribuem para a liderança global e detectaram que as organizações que apresentaram melhor performance foram as que se organizaram em termos de competências essenciais. Após a publicação do bem-sucedido artigo na Harvard Business Review, os autores publicam em 1995 o livro Competindo pelo Futuro onde aprofundam e consolidam um conjunto de desafios que deveriam ser enfrentados para que as organizações pudessem se reinventar para o futuro mantendo-se competitivas em ambientes cada vez mais incertos. Para competir com sucesso pelo futuro, uma empresa precisa ser capaz de ampliar seu horizonte de oportunidades. Isso exige que a alta gerência considere a empresa como um portfólio de unidades de negócios independentes (PRAHALAD; HAMEL, 1995, p. 95). Para os autores Hamel e Prahalad (1995), uma forma de conseguir oportunidades potenciais é criar uma empresa já possuindo um portfólio de competências essenciais relacionadas ao negócio. 95 modelos de GesTão orGANizAcioNAl Capítulo 3 A organização possui diversas competências organizacionais, localizadas em diversas áreas; destas, apenas algumas são as competências essenciais, aquelas que a diferenciam e que lhe garantem uma vantagem competitiva sustentável perante as demais organizações. As competências essenciais seriam aquelas que obedecem a três critérios: i) oferecem reais benefícios aos consumidores, ii) são difíceis de imitar e iii) dão acesso a diferentes mercados. As competências organizacionais são as necessárias a cada função e que podem ser identificadas na definição da estratégia organizacional. A comPeTêNciA eSSeNciAl Hamel e Prahalad (1990) definem a competência como um conjunto de conhecimentos, habilidades, tecnologias, sistemas físicos e gerenciais inerentes a uma organização. As competências essenciais seriam aquelas que obedecem a três critérios: i) oferecem reais benefícios aos consumidores, ii) são difíceis de imitar e iii) dão acesso a diferentes mercados. As competências organizacionais são as necessárias a cada função e que podem ser identificadas na definição da estratégia organizacional. Ao fazerem uma distinção entre competências essenciais e competências organizacionais os autores chamam à atenção para a importância de se perceber as mudanças no ambiente como uma condição para a decisão sobre a transformação organizacional. A “premissa é de uma empresa só pode controlar seu próprio destino se compreender como controlar o destino de seu setor. A transformação organizacional é um desafio secundário. O desafio principal é ser autor da transformação do seu setor” (HAMEL; PRAHALAD, 1995, p. 24). Dessa maneira, pode-se dizer que a organização possui diversas competências organizacionais, localizadas em diversas áreas; destas, apenas algumas são as competências essenciais, aquelas que a diferenciam e que lhe garantem uma vantagem competitiva sustentável perante as demais organizações (FLEURY; FLEURY, 2001 apud SILVA, 2005, p. 38). [...] nenhuma organização pode escapar à necessidade de reabilitar seu pessoal, reformular seu portfólio de produtos, redesenhar seus processos e redirecionar recursos. A transformação organizacional é imperativa em todos os empreendimentos. A verdadeira questão é se a transformação acontece tardiamente – em um clima de crise – ou antecipadamente – em um clima de tranquilidade e reflexão; se a agenda da transformação é determinada por concorrentes de maior visão do futuro ou resulta de uma visão do futuro; se a transformação é espasmódica e brutal ou contínua e tranquila (HAMEL; PRAHALAD, 1995, p. 25). Para Brandão e Guimarães (2001, p. 11), a gestão por competências, figura como uma alternativa aos modelos gerenciais tradicionalmente utilizados pelas organizações. De acordo com os autores, diversas empresas têm recorrido à utilização do Modelo de Gestão por competências, com vistas a “planejar, selecionar e desenvolver as competências necessárias ao respectivo negócio”. Um modelo sugerido por Ienaga (1998 apud BRANDÃO 2001, p. 11) tem como passo inicial a identificação do gap (lacuna) de competências da organização. Esse processo consiste em estabelecer os objetivos e as metas 96 Gestão Estratégica no Setor Público A gestão por competências faz parte de processo maior, que deve ser contínuo, que tem como etapa inicial a formulação da estratégia da organização, oportunidade em que são definidos sua missão, sua visão de futuro e seus objetivos estratégicos. a serem alcançados segundo a intenção estratégica da organização e, depois, identificar a lacuna entre as competências necessárias à consecução desses objetivos e as competências internas disponíveis na empresa. Os passos seguintes compreendem o planejamento, a seleção, o desenvolvimento e a avaliação de competências, buscando minimizar a referida lacuna, o que pressupõe a utilização de diversos subsistemas de recursos humanos, entre os quais, recrutamento e seleção, treinamento e gestão de desempenho. Figura 15 – Modelo de Gestão por Competências Fonte: Adaptado de Guimarães et al. (2000). Na figura 15, a identificação dos gaps de competências se dá como desdobramento da estratégia, ou seja, uma vez que a organização define sua estratégia e visão (onde quer chegar), é necessário que se levante o repertório existente de competências (To) a fim de se confirmar se serão suficientes para que a organização alcance seus objetivos (T1). Cabe enfatizar que, para Brandão e Guimarães (2001), a gestão por competências faz parte de processo maior, que deve ser contínuo, que tem como etapa inicial a formulação da estratégia da organização, oportunidade em que são definidos sua missão, sua visão de futuro e seus objetivos estratégicos. O importante é que a gestão de competências esteja em perfeita sintonia com a estratégia organizacional (missão, visão de futuro e objetivos). A visão determina o estado futuro desejado pela organização, sua intenção estratégica, e orienta a formulação das políticas e diretrizes e todos os esforços em torno da captação e do desenvolvimento de competências. 97 modelos de GesTão orGANizAcioNAl Capítulo 3 Carbone (2006, p. 51) dá como exemplo uma organização que tem como visão de futuro, o “reconhecimento dos consumidores pela excelência de seus produtos e serviços”. Para que tal visão de futuro possa ser concretizada em um dado período de tempo, é relevante estabelecer o objetivo estratégico de “elevar o grau de satisfação dos clientes em relação aos produtos e serviços oferecidos pela empresa”. A partir daí, seria possível definir, como indicadores de desempenho relacionados a esse objetivo estratégico, o percentual de produtos entregues dentro do prazo acordado com o cliente (pontualidade das entregas) e o percentual de clientes muito satisfeitos com os produtos e serviços da empresa, os quais representariam medidas de eficiência e eficácia das ações a serem adotadas pela empresa para concretizar sua visão de futuro. As metas, então, poderiam hipoteticamente ser definidas como “elevar de 91 % para 95% o percentual de produtos entregues no prazo, e de 57% para 65% o percentual de clientes muito satisfeitos”. O próximo passo seria a realização do mapeamento das competências (organizacionais e humanas) a fim de se identificar o gap (ou lacuna) de competências, isto é, a discrepância entre “as competências necessárias ao alcance do desempenho esperado e as competências já disponíveis na organização” (CARBONE, 2006, p. 51). A figura a seguir ilustra a identificação do gap de competências. Figura 16 – Identificação do gap de competências Fonte: Ienaga (1998 apud BRANDÃO; GUIMARÃES,2001). Importante lembrar que a identificação dos gaps de competências organizacionais serve de insumo para a definição de políticas relacionadas à capacitação e desenvolvimento de servidores. Este assunto será abordado na disciplina Gestão de Pessoas que também será objeto de estudo neste curso. 98 Gestão Estratégica no Setor Público Os autores mencionados nesta seção, tanto quanto a literatura nacional e internacional sobre o tema, consideram que as competências humanas são a base das competências organizacionais. Na próxima seção veremos como a Gestão do Conhecimento contribui neste processo. GeSTão do coNHecimeNTo – Gc A palavra conhecimento está em evidência. Isolada ou associada a outros termos ou expressões, destaca-se a discussão tanto no ambiente acadêmico quanto no mundo corporativo em torno do conhecimento e sua relevância para sobrevivência e competitividade das organizações. “O aspecto central dessa nova sociedade que bate às portas do século XXI é a caracterização do conhecimento como o ativo de produção mais importante, diante dos ativos tradicionais de mão-de-obra, capital e tecnologia” (ZABOT, 2002, p. 11). Para Zabot (2002) o desenvolvimento dos conhecimentos e a equalização de oportunidades são, com certeza, as bases de um novo momento histórico da humanidade. E, ao se referir a dois clássicos da literatura do século XX destaca que “está em nossas mãos tanto o desatino de concretizar a profecia de 1984 de Orwell ou a do Admirável mundo novo de Huxley, quanto de sermos os revolucionários de uma nova sociedade do conhecimento, baseada na cidadania e na democracia, na troca e na repartição dos saberes” (ZABOT, 2002, p. 22). E nos brinda com o texto a seguir: Os revolucionários da Antiguidade enalteciam a reforma agrária e a divisão de terras. Os da industrialização visavam à propriedade dos meios de produção. Hoje, é sobre o conhecimento que repousam a riqueza das nações e o poder das empresas. É pelas suas competências que os indivíduos adquirem um reconhecimento social, um emprego, uma cidadania real. O arranque do movimento democrático do futuro não poderia senão visar à base da riqueza e da riqueza e da cidadania do mundo contemporâneo: saberes, saber-fazer, competências. Então, é sobre a troca e a repartição dos conhecimentos que nos devemos aplicar. É pelo reconhecimento e demonstração de todas as competências que podemos alargar a cidadania. Através de uma melhor gestão dos saberes, pela invenção de uma economia dos conhecimentos, podemos projetar os contornos de outras formas de prosperidade e de eficácia, sem exploração nem desmesura. 99 modelos de GesTão orGANizAcioNAl Capítulo 3 Outro aspecto valorizado pela abordagem japonesa diz respeito a relevância atribuída ao conhecimento tácito. Mas o saber não é apenas a riqueza primária do mundo contemporâneo. Vivendo da invenção coletiva, da transmissão, da interpretação e da repartição, o conhecimento é um dos deuses onde a solidariedade entre os homens pode assumir mais sentido, um dos laços mais fortes entre os membros da nossa espécie (ZABOT, 2002, p. 23). Carbone (2006, p. 82) apresenta a definição de Gestão do Conhecimento feita por outros autores: • Falcão e Bresciani Filho (1999) definem a gestão do conhecimento como o “processo pelo qual uma organização consciente e sistematicamente coleta, organiza, compartilha e analisa seu acervo de conhecimento para atingir seus objetivos”. • Schultze e Leidner (2002) definem como “a geração, represen- tação, estoque, transferência, transformação, aplicação, incor- poração e proteção de conhecimento”. A seguir serão examinadas as principais contribuições e abordagens para a Gestão do Conhecimento. ABordAGem jAPoNeSA – A criAção do coNHecimeNTo Uma importante contribuição para a gestão do conhecimento nas organizações é a abordagem que trata dos processos de criação do conhecimento na empresa a partir dos estudos dos japoneses Nonaka e Takeuchi na década de 1990 que ficaram conhecidos como a Escola Japonesa da Gestão do Conhecimento. Outro aspecto valorizado pela abordagem japonesa diz respeito a relevância atribuída ao conhecimento tácito. Em artigo de 1991 publicado na Harvard Business Review, sobre a criação do conhecimento na empresa, Ikujiro Nonaka argumenta o seguinte: 100 Gestão Estratégica no Setor Público A EMPRESA CRIADORA DE CONHECIMENTO Numa economia onde a única certeza é a incerteza, apenas o conhecimento é fonte segura de vantagem competitiva. Quando os mercados mudam, as tecnologias proliferam, os concorrentes se multiplicam e os produtos se tornam obsoletos quase da noite para o dia, as empresas de sucesso são aquelas que, de forma consistente, criam novos conhecimentos, disseminam-nos profusamente em toda a organização e rapidamente os incorporam em novas tecnologias e produtos. Essas atividades caracterizam a empresa “criadora de conhecimento”, cujo negócio exclusivo é a inovação contínua. Contudo, apesar de toda a conversa sobre “poder da mente” e “capital intelectual”, poucos gerentes apreendem a verdadeira natureza da empresa criadora de conhecimento – e muito menos sabem como gerenciá-la. O motivo: entendem de maneira imprópria o que seja conhecimento e o modo como as empresas são capazes de explorá-lo. A visão da organização como máquina de “processamento de informação” está profundamente arraigada nas tradições ocidentais sobre gestão empresarial, de Frederick Taylor a Herbert Simon. De acordo com essa tradição, o único conhecimento útil é formal e sistemático – dados duros (leia-se: quantificáveis), procedimentos codificados, princípios universais. E os principais critérios para a mensuração do valor dos novos conhecimentos são igualmente duros e quantificáveis – maior eficiência, menores custos, melhor retorno sobre o investimento. Fonte: Disponível em: <https://www.academia.edu/4164248/IKUJIRO_ NONAKA_Resumo_Executivo>. Acesso em: 22 maio 2016. Em 1997, Nonaka e Takeuchi, publicam o livro Criação do Conhecimento na Empresa no qual lançam a ideia de conhecimento tácito e conhecimento explícito e apresentam quatro processos para sua conversão que constituem uma verdadeira “espiral do conhecimento”. 101 modelos de GesTão orGANizAcioNAl Capítulo 3 A principal característica da abordagem ocidental, representada pelos norte-americanos é a ênfase atribuída ao conhecimento explícito. Figura 17 – Espiral do Conhecimento Fonte: Nonaka e Takeuchi (1997). As formas de conversão do conhecimento são apresentadas resumidamente por Carbone (2006, p. 87): • Socialização (tácito – tácito) – é o processo de compartilhamento de conhecimento tácito por meio da experiência. • Externalização (tácito – explícito) – é o processo de articulação do conhecimento tácito em conceitos explícitos, por meio de metáforas, analogias, símbolos, slogans ou modelos. • Combinação (explícito – explícito) – é o processo de sistematização de conjuntos diferentes de conhecimento explícito. • Internalização (explícito – tácito) – está intimamente relacionado aos processos de “aprender fazendo”, de incorporação do conhecimento explícito no conhecimento tácito. Para Nonaka e Takeuchi (1997, p. 286) o modelo ideal para a Gestão do Conhecimento nas organizações deveria considerar a conjugação das duas dimensões, “a atenção ao lado menos formal do conhecimento, pelos japoneses, e a utilização das tecnologias da informação, pelos ocidentais”. A coNTriBuição AmericANA PArA GeSTão do coNHecimeNTo A principal característica da abordagem ocidental, representada pelos norte-americanos é a ênfase atribuída ao conhecimento explícito, ou seja, aquele que é codificado, sistematizado. 102 Gestão Estratégica no Setor Público Davenport e Prusak (1998 apud CARBONE, 2006) destacam-se entre os representantes dessa abordagem e explicam que o conhecimento é decorrente da informação,que, por sua vez, deriva de conjuntos de dados. Dados são considerados fatos ou eventos isolados que se transformam em informação ao adquirirem significado. Por exemplo, um advogado em conversa inicial com seu cliente tem acesso aos dados, ao analisar os dados à luz da legislação terá produzido informação e, ao produzir a petição inicial para deflagrar o processo na justiça terá produzido conhecimento. A abordagem norte-americana defende a ideia de que as organizações devem criar sistemas de informação ou sistemas de gestão do conhecimento capazes de dar sustentação aos processos de “criação, transferência e aplicação do conhecimento na organização” (ALAVI; LEIDNER apud CARBONE, 2006, p. 89). O sistema de gestão do conhecimento utilizado por uma empresa norte- americana é baseado em 4 dimensões que são destacadas por Bock (1998 apud CARBONE, 2006, p. 89): • Conteúdo – conhecimento estrategicamente relevante para a empresa. • Cultura – modelos mentais e padrões de regras não escritas que orientam as atividades e que explicam os comportamentos. • Processo – sequência natural e logicamente encadeada de atividades que minimiza esforços e custos. • Infraestrutura – sistemas de informação, inclusive os tipos de mídias. As práticas mais recentes sobre Gestão do Conhecimento evidenciam que tanto, o conhecimento tácito, valorizado pela escola japonesa, quanto o conhecimento explícito, enfatizado pela escola americana são importantes e que a Organização deve contemplá-los em seus modelos de gestão. Nesse aspecto, cabe neste ponto destacar a contribuição de Peter Senge que na década de 1990, lançou o clássico livro A Quinta Disciplina e que foi fundamental para que se lançasse um novo olhar sobre os processos de aprendizagem na organização. Ao lançar a expressão learning organizations (organizações de aprendizagem), isto é, ao afirmar que as organizações têm capacidade de 103 modelos de GesTão orGANizAcioNAl Capítulo 3 aprender, contribuiu para que as organizações desenvolvessem mecanismos para criação, aquisição, disseminação e construção de memória que são a base dos processos de Gestão do Conhecimento nas Organizações. No Brasil é crescente o uso da Gestão do Conhecimento em organizações públicas e privadas. A Sociedade Brasileira de Gestão do Conhecimento criada em 2001 promove debates, pesquisas e eventos sobre o tema. Para saber mais acesse: <www. sbgc.org.br>. Para saber mais sobre os temas: aprendizagem organizacional e casos, experiências e práticas em empresas públicas brasileiras, recomendamos os livros a seguir, ambos indicados como referências neste capítulo: ANGELONI, Maria Therezinha (org). Gestão do Conhecimento no Brasil: casos, experiências e práticas de empresas públicas. Rio de Janeiro: Qualitymark, 2008. SENGE, Peter. A quinta disciplina. São Paulo: Editora Nova Cultural, Best Seller, 1990. Importante ressaltar que a Gestão do Conhecimento é o alicerce do processo de desenvolvimento de competências organizacionais e competências pessoais já mencionadas na seção que tratou do Modelo de Gestão por Competências. Nesse sentido, cabe mencionar que a GC também desencadeou a criação de Universidades Corporativas e Escolas de Governo, mas este assunto será tratado na disciplina Gestão de Pessoas no setor público. Balanced Scorecard (BSc) Como já mencionado neste capítulo, a necessidade de desenvolver mecanismos capazes de monitorar e mensurar os resultados da organização levou ao surgimento de diferentes métodos, instrumentos e modelos que contribuem para a eficiência e a eficácia organizacional. Além dos já 104 Gestão Estratégica no Setor Público mencionados neste capítulo, merece destaque o Balanced Scorecard – BSC que constitui um importante instrumento de controle para monitoramento e mensuração dos resultados alcançados pela organização. Associado ao planejamento estratégico, o BSC permite a gestão do desempenho organizacional por meio de indicadores de desempenho previamente definidos pela organização. Segundo Carneiro (2010, p. 75) “[...] o balanced scorecard proporciona a medição, o monitoramento e o controle dos resultados da estratégia através de um painel balanceado de indicadores de desempenho”. Sua origem foi na década de 1990 a partir de estudos desenvolvidos por Kaplan e Norton para verificação dos métodos para avaliação do desempenho organizacional utilizados pelas empresas. Para Kaplan e Norton (1997 apud CARNEIRO, 2010, p. 76), o BSC é um instrumento que integra as métricas derivadas da estratégia, como um sistema de gerenciamento estratégico. Sem menosprezar as métricas financeiras do desempenho passado, o BSC as complementa com métricas dos vetores que impulsionam o desempenho futuro das organizações. Este é um dos diferenciais atribuídos ao BSC, isto é, promover a integração entre as métricas financeiras e não financeiras. Para os autores o BSC constitui “[...] um instrumento completo para medição e avaliação da organização, explorando as relações de causa e efeito, as correlações entre as atividades realizadas e a missão da organização, de modo coerente à estratégia da organização.” (CARNEIRO, 2010, p. 77). Os objetivos e indicadores propostos por Kaplan e Norton abrangem o desempenho organizacional sob quatro grandes perspectivas e foram descritos por Carneiro (2010) que serão apresentadas a seguir: PERSPECTIVAS DE DESEMPENHO ORGANIZACIONAL A Perspectiva financeira está relacionada a indicadores de desempenho financeiro, que indicam se a estratégia da empresa, sua implementação e execução estão contribuindo para a melhoria dos resultados financeiros. As métricas financeiras são componentes importantes tanto para as organizações do setor público quanto para as do setor privado. No setor privado, as medições dessa perspectiva informam se a execução da estratégia, detalhada mediante medidas das outras perspectivas está promovendo melhoria nos resultados globais da empresa. Nas organizações do setor público, por outro lado, as medições financeiras asseguram que alcançam os resultados de uma maneira eficiente que minimiza os custos. 105 modelos de GesTão orGANizAcioNAl Capítulo 3 A Perspectiva do cliente permite que os executivos identifiquem os segmentos de clientes e mercados e as medidas de desempenho nesses segmentos-alvo. Conforme Kaplan e Norton (1997, p. 26), “entre as medidas essenciais de resultado estão a satisfação do cliente, a retenção de clientes, a aquisição de novos clientes, a lucratividade dos clientes e a participação em contas (clientes) nos segmentos-alvo”. Esta perspectiva também inclui medidas específicas de valor que a empresa fornecerá aos clientes. Conforme Niven (2003), as organizações públicas frequentemente encontram um dilema quando necessitam definir objetivos e medida para esta perspectiva. O processo é complicado, pois vários grupos de clientes podem estar envolvidos no processo de execução, pagamento e, em última instância, recebimento do serviço. Todos esses grupos são candidatos à inclusão no BSC. Na Perspectiva dos processos internos são identificados os processos-chave em que as organizações devem alcançar a excelência. As medidas dessa perspectiva estão associadas aos processos que terão maior impacto na satisfação do cliente e nos objetivos financeiros da empresa. Assim, a medição de desempenho dos processos internos na abordagem BSC não está atrelada especificamente na melhoria dos processos. Essa abordagem costuma resultar na identificação de processos novos em que a empresa deve atingir excelência para alcançar os objetivos financeiros e dos clientes (Kaplan e Norton, 1997). A Perspectiva da inovação e aprendizagem abrange medidas relacionadas a pessoas, sistemas e procedimentos organizacionais. Essa perspectiva identifica a infraestrutura que a empresa deve construir para gerar crescimento e melhoria a longo prazo. Kaplan e Norton (1997)salientam que dificilmente as empresas serão capazes de atingir suas metas de longo prazo para clientes e processos internos utilizando tecnologias e capacidades atuais. Fonte: Carneiro (2010, p. 77). 106 Gestão Estratégica no Setor Público O modelo BSC proposto por Kaplan e Norton é apresentado na figura a seguir: Figura 18 – Modelo do Balanced Scorecard Fonte: Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_artte xt&pid=S0103-65132009000200008>. Acesso em: 03 jun. 2016. Das perspectivas para análise do desempenho organizacional propostas por Kaplan e Norton importante observar que a perspectiva da aprendizagem e da inovação é a que mais se aproxima com a Gestão do Conhecimento. Outro aspecto que merece ser enfatizado diz respeito à utilização do BSC no setor público. Segundo Carneiro (2010), os autores reconhecem sua limitação no que se refere a perspectiva financeira e sugerem uma adaptação ao modelo originalmente proposto e propõem que as perspectivas financeira e do cliente fiquem subordinadas à missão da organização. 107 modelos de GesTão orGANizAcioNAl Capítulo 3 No Brasil, a Receita Federal, Petrobrás, Governo de Minas Gerais, Secretaria de Fazenda do Estado de São Paulo são alguns exemplos de instituições e órgãos do setor público que implantaram ou estão em fase de implantação do BSC. Procure saber mais sobre essas e outras experiências em sites institucionais. coNSiderAçõeS FiNAiS Neste Capítulo estudamos modelos, métodos e instrumentos de gestão utilizados por organizações privadas e que, mais recentemente, passarão a integrar o conjunto de estratégias de governo em nível federal, estadual ou municipal. Esperamos que você tenha percebido que diante da diversidade de metodologias, modelos e instrumentos, não há um que se destaque em particular e que, muitas vezes, a organização termina por adotar uma combinação, uma espécie de mix que melhor atenda suas demandas. Também é oportuno lembrar que o uso de muitas das tecnologias aqui apresentadas já são realidade na Administração Pública Brasileira. Também buscamos relacionar o material estudado com as teorias e abordagens estudadas no capítulo 1 e as iniciativas de reforma do aparelho do Estado examinadas no capítulo 2. Finalizaremos o estudo da Gestão Pública Estratégica destacando o estado da arte com a apresentação de estudos de caso e os critérios para obtenção do prêmio que reconhece as boas práticas em Gestão Pública, o GESPÚBLICA. reFerêNciAS ANGELONI, Maria Therezinha (org); autores, Andréa Valéria Steil [et al.]. Gestão do Conhecimento no Brasil: casos, experiências e práticas de empresas públicas. Rio de Janeiro: Qualitymark, 2008. 108 Gestão Estratégica no Setor Público ARAUJO, Luis César G. de. Organização, sistemas e métodos e as tecnologias de gestão organizacional: arquitetura organizacional, benchmarking, empowerment, gestão pela qualidade total, reengenharia: v. 1, 3. ed. São Paulo: Atlas, 2007. BRANDÃO, Hugo Pena e GUIMARÃES, Tomás de Aquino. Gestão de competências e gestão de desempenho: tecnologias distintas ou instrumentos de um mesmo constructo? Revista de Administração de Empresas, São Paulo, v.41, n.1, p. 8-15, jan./mar. 2001. CARBONE, Pedro Paulo. Gestão por competencias e gestão do conhecimento. 2ª ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006. CARNEIRO, Margareth F. Santos. Gestão Pública: o papel do planejamento estratégico, gerenciamento de portfólio, programas e projetos dos escritórios de projetos na modernização da gestão pública. Rio de Janeiro: Brasport, 2010. FERREIRA, Victor Cláudio Paradela. Modelos de Gestão. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006. FNQ. Modelo de Excelência para Gestão. E-book. Disponível em: <www. fnq.org.br>. Acesso em: 20 maio 2016. GONÇALVES, José Ernesto Lima. As empresas são grandes coleções de processos. RAE - Revista de Administração de Empresas. Jan./Mar 2000. São Paulo, v. 40, n° 1, p. 6-19. ______. Processo, que processo? RAE - Revista de Administração de Empresas. Out./Dez. 2000. São Paulo, v. 40, n° 4, p. 8-19. HAMEL, Gary; PRAHALAD, C. K. Competindo pelo futuro. 15. ed. Rio de Janeiro: Campus, 1995. ______. The core competence of the corporation. Harvard Business Review, v. 68, nº 3, p. 79-91, May/June 1990. MINTZBERG, Henry. Ascensão e queda do planejamento estratégico. Porto Alegre: Bookman, 2004. NONAKA, Ikujiro. A empresa criadora de conhecimento. In: HARVARD Business Review. Gestão do Conhecimento. Tradução de Afonso Celso da Cunha Serra. 13. ed. Rio de Janeiro: Editora Campus, 2000. 109 modelos de GesTão orGANizAcioNAl Capítulo 3 NONAKA, Ikujiro; TAKEUCHI, Hirotaka. Criação de conhecimento na empresa. Como as empresas japonesas geram a dinâmica da inovação. 3. ed. Rio de Janeiro: Campus, 1997. ROBBINS, Stephen P. Fundamentos de Administração: conceitos essenciais e aplicações. 4. ed. São Paulo: Prentice Hall, 2004. SENGE, Peter. A quinta disciplina. São Paulo: Editora Nova Cultural, Best Seller, 1990. SILVA, Márcia Costa A. da Competências Gerenciais e Prospectiva Estratégica: análise de cenários em Quissamã. Dissertação de mestrado. Rio de Janeiro, 2005. SCHOLTES, Peter R. Times de Qualidade. Rio de Janeiro: Qualitymark, 2002. SORDI, José Osvaldo. Gestão por processos: uma abordagem da moderna administração. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2008. ZABOT, João Batista M. Gestão do conhecimento: aprendizagem e tecnologia. Construindo a inteligência coletiva. São Paulo: Atlas, 2002. 110 Gestão Estratégica no Setor Público CAPÍTULO 4 excelêNciA NA GeSTão PúBlicA A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: 3 Conhecer os princípios do Gespública. 3 Examinar boas práticas em Gestão Pública. 112 Gestão Estratégica no Setor Público 113 excelêNciA NA GesTão PúBlicA Capítulo 4 coNTexTuAlizAção Os esforços de modernização da administração pública no Brasil se traduziram por iniciativas resumidamente descritas no capítulo 2. Ao aparelho do Estado, ao longo da Republica – de 1889 em diante –, foi permitido experienciar momentos importantes e transformadores, chegando-se ao final do século XX com um cabedal significativo capaz de provocar um passo mais ousado rumo ao seu aperfeiçoamento, mediante a avaliação de desempenho, o reconhecimento de méritos e o monitoramento de práticas. Pontos de inflexão relevantes para caracterizar as mudanças de olhar com que a modernização da gestão pública foi trabalhada, são a criação do Programa de Qualidade e Participação na Administração Pública em 1996, cujo foco, estava na gestão e na qualidade para a modernização do Estado e, quatro anos depois, o surgimento do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão (MPOG) que veio a estabelecer o Programa da Qualidade do Serviço Público (PQSP) direcionado ao atendimento ao cidadão. O deslocamento de ênfase para o atendimento ao cidadão e à sociedade em oposição às abordagens até então predominantes que se orientavam para os processos de trabalho mostram a movimentação de abordagens gerenciais para outras de valorização da democracia. A melhoria e a racionalização de processos de trabalho são autorreferentes em relação à burocracia, uma vez que se voltam para um aprimoramento intrínseco à burocracia embora, certamente, contribua para a melhoria dos resultados para a sociedade. A preocupação com a prestação de contas ao cidadão, a devolução das expectativas manifestadas mediante o voto, cresce com o avanço da democracia no país e fazem contraponto à visão até então prevalecente. Por trás destas argumentações está a questão fundamentalmente contemporânea acerca da modernização administrativa como política pública. Durante largos períodos, a administração e seus praticantes e pensadores cuidaram para que este ramo do conhecimento fosse visto assepticamente, sem vínculoscom grupos de poder, com foros de neutralidade, sem estar a serviço de interesses ligados a segmentos econômicos ou políticos. Vale acrescentar que este movimento não foi apenas local, mas tinha dimensões supranacionais, em um movimento de adesão quase que globalizada do que se denominou a Nova Gestão Pública. O Programa Nacional de Gestão Pública e Desburocratização – Gespública, objeto do presente capítulo, foi lançado pelo Decreto nº 5.378, de 23 de fevereiro 114 Gestão Estratégica no Setor Público Como forma de incentivo para o uso de instrumentos e técnicas de gestão voltados para resultados, o governo federal criou, em 1997, o Programa de Qualidade e Participação na Administração Pública. de 2005. A iniciativa realizou a fusão de programas anteriormente existentes onde havia algumas superposições e redundâncias, além de consolidar as duas vertentes: gestão por resultados e orientação para o cidadão. ArcABouço leGAl A Constituição Federal, a Constituição Cidadã, de 1988 já provocara significativas mudanças na relação entre os entes federados e previra a criação de Escolas de Governo nos Estados e Municípios da Federação. Respectivamente ligadas aos Ministérios da Fazenda e do Planejamento, Orçamento e Gestão já existiam a Escola de Administração Fazendária – ESAF (1973) e a Escola Nacional de Administração Pública – ENAP (1986). Mas foi a Emenda Constitucional nº 19 de 1998 que estabeleceu a modificação do regime, princípios e normas da Administração Pública, servidores e agentes políticos, bem como sobre o controle de despesas e finanças públicas que representou uma das mais significativas bases de sustentação para a Reforma Gerencial. Como forma de incentivo para o uso de instrumentos e técnicas de gestão voltados para resultados, o governo federal criou, em 1997, o Programa de Qualidade e Participação na Administração Pública. O Programa avançou em relação ao Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade – PBQP que fora instituído em 1990 no momento em que se vivia um grande movimento no país em relação a Qualidade Total e o uso de tecnologias para sua gestão que preconizava a redução de erros e de desperdício. O PBQP produziu bons resultados na época, particularmente no setor industrial privado. No setor público, entretanto, a falta de conexão do Programa com objetivos e metas do governo e com especificidades da administração pública, comprometeram seu desempenho. Assim, o Programa de Qualidade e Participação na Administração Pública, proposto na Reforma Gerencial, enfatizou a “os princípios e as diretrizes da qualidade, interpretados e aplicados segundo a ótica da Administração Pública” (BRASIL, 1997, p. 14) e a participação e o: “[...] envolvimento de todos os servidores, independentemente de nível, cargo ou função, com a melhoria do serviço público, e o compromisso de cooperação entre gerentes e gerenciados com a busca de solução dos problemas, com o aperfeiçoamento contínuo e com a satisfação dos clientes internos e externos da organização” (BRASIL, 1997, p. 14). 115 excelêNciA NA GesTão PúBlicA Capítulo 4 A seguir os princípios norteadores do Programa de Qualidade e Participação na Administração Pública. PRINCÍPIOS DO PROGRAMA DE QUALIDADE E PARTICIPAÇÃO NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA 4.1. Satisfação do Cliente Os órgãos e as entidades públicas devem conhecer e ouvir os seus clientes internos e externos - que são os demais órgãos e entidades públicas, os servidores, e, principalmente, os cidadãos – que representam, na verdade, os legítimos destinatários da ação pública, estabelecendo mecanismos que viabilizem a parceria com eles e a superação das suas expectativas. 4.2. Envolvimento de Todos os Servidores A alta administração, o corpo gerencial e a base operacional devem envolver-se com a Qualidade, assumindo o compromisso com a melhoria contínua da Administração Pública. 4.3. Gestão Participativa A gestão pela Qualidade é participativa, ou seja: • pressupõe a convocação dos servidores a participar da melhoria de seus processos de trabalho; • estabelece a cooperação entre gerentes e gerenciados; • dissemina informações organizacionais; • compartilha desafios; • coloca a decisão o mais próximo possível da ação. 4.4. Gerência de Processos O processo é o centro prático da gestão pela Qualidade. Isto significa: • identificar e analisar os processos da organização; • estabelecer metas de melhoria e aperfeiçoamento desses processos; • avaliar os processos pelos resultados frente aos clientes; • normalizar os estágios de desenvolvimento atingidos pelos processos. 116 Gestão Estratégica no Setor Público Denomina-se de administração gerencial a proposta de administração que teve como objetivo, considerando as modernas técnicas de gestão, dotar o Estado dos recursos e instrumentos necessários para torná-lo mais eficiente e eficaz nos serviços oferecidos a sociedade. 4.5. Valorização do Servidor Público A valorização do servidor público (cliente interno) é uma garantia ao cumprimento da missão da Administração Pública de atender com qualidade aos seus clientes externos - o cidadão. A valorização será função: • da conscientização, pelo servidor, do sentido e do valor de sua missão; • da profissionalização do serviço público; • da avaliação do desempenho por resultados, a partir de objetivos bem definidos; • do reconhecimento do mérito. 4.6. Constância de Propósitos A alta administração tem o dever indelegável de estabelecer e compartilhar com toda a organização, objetivos de longo prazo que permitam coerência e efetividade de seus projetos e de suas ações. O planejamento estratégico é o instrumento por excelência do sistema de gestão pela Qualidade e fator de coerência do processo decisório. 4.7. Melhoria Contínua A melhoria é um processo contínuo inesgotável e está alicerçada no estímulo à criatividade e no estabelecimento permanente de novos desafios. 4.8. Não aceitação de erros O compromisso com o fazer certo deve ser um traço da cultura de uma organização pública de qualidade. O desconforto com o erro, e o combate ao desperdício são atitudes que evidenciam a internalização deste princípio. Fonte: Brasil (1997, p. 18-20). Sintetizando, denomina-se de administração gerencial a proposta de administração que teve como objetivo, considerando as modernas técnicas de gestão, dotar o Estado dos recursos e instrumentos necessários para torná- lo mais eficiente e eficaz nos serviços oferecidos a sociedade, tendo como 117 excelêNciA NA GesTão PúBlicA Capítulo 4 A excelência em gestão pública pretende atingir alto desempenho com sustentabilidade. Gespublica – segundo seu documento de referência “[...] é uma política pública [...] formulada para a gestão, que está alicerçada em um modelo de gestão pública singular que incorpora à dimensão técnica, própria da administração, a dimensão social, até então, restrita à dimensão política” (BRASIL, 2009, p. 10). base os princípios da Qualidade Total e o envolvimento de todos os servidores públicos. O Gespública, o objeto de nosso capitulo, vai mais além. GeSPúBlicA: o Que é O Programa Nacional de Gestão Pública e Desburocratização – Gespublica – segundo seu documento de referência “[...] é uma política pública [...] formulada para a gestão, que está alicerçada em um modelo de gestão pública singular que incorpora à dimensão técnica, própria da administração, a dimensão social, até então, restrita à dimensão política” (BRASIL, 2009, p. 10). Ainda segundo Brasil (2009), suas premissas centrais são: a) Ser de natureza pública, considerando que a gestão pública pode e deve ser excelente, mas não pode nem deve deixar de ser pública na sua configuração; b) Ser focada em resultados e demandas da sociedade ao se afastar da lógica de um serviço público apegado às normas da burocracia, de modo quea eficiência e a eficácia sejam avaliadas pela capacidade da gestão pública em melhorar a qualidade de vida dos cidadãos; c) Ter um caráter federativo e republicano, pois sua base conceitual e seus instrumentos são aplicáveis a toda a administração pública, seus poderes e outras esferas de governo. Ademais, se baseia nos princípios constitucionais da impessoalidade, da legalidade, da moralidade, da publicidade e da eficiência. Relembrando com atenção o que já foi lido nos capítulos anteriores, é possível observar que há ideias nestas premissas que já foram arroladas em diversas discussões sobre o tema. Antes que se pense que há repetição, vale a pena considerar que há continuidade e evolução. Com a implementação do Gespública considerava-se a possibilidade de melhorar a qualidade dos serviços prestados aos cidadãos e, também, promover o incremento da competividade do país no mercado internacional. Assim, a excelência em gestão pública pretende atingir alto desempenho com sustentabilidade e para tanto se apoia em fundamentos trabalhados pela Fundação Nacional da Qualidade FNQ. Lima (2009) resume, didaticamente, estes fundamentos: 118 Gestão Estratégica no Setor Público FUNDAMENTOS DA EXCELÊNCIA • Pensamento sistêmico - entendimento das relações de interdependência entre os processos da organização, e entre a organização e o ambiente. • Aprendizado organizacional - busca contínua de conhecimento, por meio da percepção, reflexão, avaliação e compartilhamento de informações e experiências. • Cultura da inovação - promoção de um ambiente favorável à criatividade, à experimentação e à implementação de novas ideias que possam gerar um diferencial para a organização. • Liderança e constância de propósitos - a liderança é o elemento promotor da gestão, responsável pela orientação, estímulo e comprometimento para o alcance dos resultados organizacionais. É exercida pela alta administração; a constância de propósito diz respeito à manutenção das ações para a consecução dos resultados. • Orientação por processos e informações - segmentação do conjunto das atividades da organização que agreguem valor para as partes interessadas; as decisões e a execução de ações devem ter como base a medição e análise do desempenho. • Visão de futuro - indica o rumo da organização. Está diretamente relacionada à capacidade de estabelecer um estado futuro desejado que dê coerência ao processo decisório e que permita à organização antecipar-se às necessidades e expectativas da sociedade. • Geração de valor - alcance de resultados consistentes, assegurando o aumento de valor tangível e intangível de forma sustentada para todas as partes interessadas. • Comprometimento com as pessoas - estabelecimento de relações com as pessoas, criando condições de melhoria da qualidade nas relações de trabalho, para que elas se realizem profissional e humanamente. 119 excelêNciA NA GesTão PúBlicA Capítulo 4 • Foco no cidadão e na sociedade - direcionamento das ações públicas para atender, regular e continuamente, as necessidades dos cidadãos e da sociedade, na condição de sujeitos de direitos, beneficiários dos serviços públicos e destinatários da ação decorrente do poder de Estado exercido pelas organizações públicas. • Desenvolvimentos de parcerias - desenvolvimento de atividades conjuntamente com outras organizações com objetivos específicos comuns, buscando o pleno uso das suas competências complementares para desenvolver sinergias. • Responsabilidade social - atuação voltada para assegurar às pessoas a condição de cidadania com garantia de acesso aos bens e serviços essenciais, e ao mesmo tempo tendo como um dos princípios gerenciais, a preservação da biodiversidade e dos ecossistemas naturais. • Controle social - atuação que se define pela indução da participação das partes interessadas no planejamento, acompanhamento e avaliação das atividades da Administração Pública e na execução das políticas e dos programas públicos. • Gestão participativa - Estilo de gestão que determina uma atitude gerencial da alta administração que busque o máximo de cooperação das pessoas, reconhecendo a capacidade e o potencial diferenciado de cada um e harmonizando os interesses individuais e coletivos, a fim de conseguir a sinergia das equipes de trabalho. Fonte: Lima (2009, p. 3). Estes fundamentos alimentam todas as abordagens da administração pela qualidade total, seja no setor empresarial, seja em suas manifestações no setor público. E, pela forma como foram organizadas por Lima (2009), fica demonstrado para o estudante a importância de iniciativas como o Gespública para favorecer a compreensão integrada e abrangente dos valores que devem permear a administração pública. 120 Gestão Estratégica no Setor Público GeSPúBlicA: como FuNcioNA O Gespública foi concebido com a finalidade de fazer a aproximação entre intenção e ação, ou seja, visando contribuir para tornar efetivo o processo de planejamento governamental. Esta afirmativa está associada, por exemplo, ao que preconiza o artigo 2º do decreto 5.378/05 onde se lê que o Programa: [...] deverá contemplar a formulação e implementação de medidas integradas em agenda de transformações da gestão, necessárias à promoção dos resultados preconizados no plano plurianual, à consolidação da administração pública profissional voltada ao interesse do cidadão e à aplicação de instrumentos e abordagens gerenciais [...] (BRASIL, 2005). No desdobramento do mesmo artigo do referido decreto, ao detalhar os objetivos pretendidos pelo Programa são palavras-chaves para compreendê-los: • Eliminação do déficit institucional; • Promoção da governança; • Formulação, implementação e avaliação das políticas públicas; • Eficácia e efetividade da ação governamental; • Gestão democrática, participativa, transparente e ética. A operacionalização do Gespública dar-se-á mediante a instituição de um Comitê Gestor, no âmbito do MPOG, cuja finalidade e características se apresentam nos artigos terceiro e sétimo do decreto ora em exame. Os principais pontos com que o Comitê deverá se envolver são: • A mobilização de órgãos e entidades para a melhoria da gestão e a promoção da desburocratização; • O apoio técnico a órgãos e entidades para que desenvolvam a cultura do atendimento ao cidadão; • A internalização da abordagem da melhoria contínua dos serviços e da gestão; • A prática da aferição de resultados e da criação de indicadores; • O planejamento, a coordenação e a avaliação das ações do Programa. O Comitê Gestor será coordenado pelo representante do MPOG e seu funcionamento se dará de forma descentralizada, contando com núcleos estaduais. Órgãos e entidades poderão ingressar no Programa mediante iniciativa própria de adesão ou por convocação. 121 excelêNciA NA GesTão PúBlicA Capítulo 4 O engajamento voluntário implica o compromisso com as finalidades do Gespública, dispondo-se, os gestores, a fazer auto avaliação contínua do desempenho organizacional. Esta, por sua vez, deverá ser validada pelo Programa. No caso da convocação, o ingresso no Programa dependerá de contrato de gestão ou desempenho ou de solicitação do MPOG, conforme prioridades programáticas da Presidência da República. O diagrama a seguir mostra, visualmente, o modo pelo qual o Gespública se desenvolve: Figura 19 - Diagrama de gestão das práticas (Ciclo do Aprendizado) Fonte: Disponível em: <http://goo.gl/LDtlTO>. Acesso em: 20 jun. 2016. O Gespública se caracteriza por valorizar o aprendizado em todas as suas fases e etapas; órgãos e entidades públicas devem estar em condição de mudar continuamente em prol da excelência e esta concepção está consolidada no círculo maior. O círculo menor trata do controle que, por meio de um processo de retroalimentação, contribui para a dinâmica organizacional: cada unidade administrativa se transforma em umente que aprende. 122 Gestão Estratégica no Setor Público Agora que você já foi apresentado ao Gespública, é conveniente conhecer um interessante artigo sobre o assunto, de autoria de Grin (2013), em que sintetiza, com objetividade, o debate havido nas décadas de 1980 e 1990 acerca da reforma gerencial do Estado. Sua leitura é importante para que você tenha bem alicerçado o conhecimento desejável para entender criticamente o assunto: AS IDEIAS EM DEBATE DA LITERATURA EM TORNO DA REFORMA GERENCIAL DO ESTADO Os anos 1980 e 1990 foram períodos de intenso debate sobre a reforma gerencial do Estado. Segundo Costa (2002), a Nova Gestão Pública, doravante NGP, se apresentou com um conjunto de ideias como qualidade da gestão, avaliação de desempenho e um estilo de gestão que enfatizava metas, contratos periódicos e autonomia gerencial. Conforme Cadernos Mare n. 12 (1999), a administração pública gerencial deveria responder às novas circunstâncias do mundo atual, em que se reviam os papéis e as formas de atuação do Estado, como atender às exigências das democracias contemporâneas, em que a funcionalidade e o poder das burocracias estatais eram questionados. Questões como accountability, empowerment, qualidade na prestação dos serviços, foco em resultados e sua medição eram importantes para implementar mudanças na gestão pública e responder ao aumento da demanda da sociedade por serviços públicos com mais responsabilidade e transparência. O foco era fortalecer a gestão pública (“quanto mais efetivo melhor”) ao invés da visão “quanto menor melhor” em relação ao tamanho do Estado (OZLAK 1999). Em torno dessa visão geral essa seção apresenta alguns dos aspectos da literatura que aborda esse tema. Um elemento central das abordagens de reforma gerencial do Estado é a orientação dos governos para gerar valor público aos cidadãos ao atender as demandas da sociedade. Conforme uma das concepções de valor público propostas por Moore (2005): Consists of important purposes that can enhance the degree of individual satisfaction enjoyed by members of a polity that will not necessarily be achieved by competitive markets operating by themselves, and which the polity has assigned government to help them achieve collectively for their individual benefit. In this conception, government is specially authorized and required to deal with a particular set of conditions where markets will not function well to maximize the 123 excelêNciA NA GesTão PúBlicA Capítulo 4 sum of (technically feasible) individual satisfactions. […] These circumstances prevent the market from doing the work of allowing individuals to exchange things that they own with one another in ways that will aggregate to the maximum individual welfare.¹ Assim se ampliaria a legitimação democrática da agenda de modernização da gestão pública, pois se configura uma dimensão também de ordem política que acentua o papel do Estado para garantir valor público como um direito. Este movimento pela busca de mais qualidade no setor público com foco nos cidadãos foi, para Abrucio (2006), uma das “principais revoluções no modelo gerencial”. Esse direcionamento iniciou com as Citizen Chart’s implementadas na Inglaterra nos anos 1980. Estas se baseavam no princípio que o serviço público deve se orientar pelas necessidades dos públicos afetados e avaliar o seu desempenho junto aos usuários (ABRUCIO, 2006; CLAD, 1998). Isso requeria: a) descentralizar competências para ampliar a autonomia e a flexibilidade da burocracia pública; b) incrementar a competição entre unidades do governo para o cidadão escolher o seu fornecedor; c) implantar relações contratuais entre unidades do governo e das que prestam serviços com os usuários. O último aspecto seria essencial ao permitir que os cidadãos controlassem e avaliassem a qualidade dos serviços no âmbito de um termo contratual em que o governo presta contas de seu desempenho (ABRUCIO, 2006). Por tal razão, os contratos de gestão influem na confiança dos governos junto à sociedade ao considerar a participação dos cidadãos na avaliação dos serviços uma fonte de obtenção de resultados (CLAD, 1998; CAIDEN, 1998; MANNING et al, 2009). Segundo Behn (1998), é chave para a NGP o desempenho das instituições públicas e sua capacidade de gestão para implantar ações, o que a aproxima da “gestão por resultados” orientada por metas e demandas da sociedade. E quando governos prestam contas à sociedade e avaliam seu desempenho se qualifica a gestão pública (CAIDEN & CAIDEN, 1998; OSBORNE, 1998; ALBAVERA, 2003). Portanto, a gestão por resultados buscaria: a) ampliar a responsabilidade gerencial ao vincular gestores com resultados; b) integrar a gestão para otimizar seu funcionamento e; c) implantar uma cultura gerencial para resultados ao invés de atividades burocráticas (CLAD, 2007: 13). Sendo o objetivo melhorar os resultados alcançados, para Kettl (1998), é mais útil pensar em gestão da performance do que medir desempenho 124 Gestão Estratégica no Setor Público como um fim em si mesmo. E isso, além de contribuir para a avaliação contínua dos governos, faz da mensuração um tema de comunicação e transparência com a sociedade. Importante nesse modelo seria ampliar a flexibilidade organizacional em oposição à administração burocrática, pois suas normas rígidas se opõem ao controle de resultados (BRESSER PEREIRA, 1998). Daí que, para Bresser Pereira (2006), a administração pública gerencial, ao combinar orientação para o cidadão e obtenção de resultados, deve se modernizar. Para incentivar o comportamento inovador e empreendedor dos funcionários públicos, os contratos de gestão seriam o meio mais eficiente para gerir o Estado e o desempenho dos gestores. Além de descentralizarem tarefas e a ampliar a autonomia decisória dos gerentes sobre o como agir (BARZELAY, 1999). E essa maior discricionariedade gerencial pede a criação de incentivos institucionais às burocracias (Kettl, 1996), do qual os contratos de gestão eram vistos como instrumento chave desse processo. Por outro lado, valorizar a ampliação de responsabilidades dos gestores perante a sociedade, a administração pública gerencial ajuda a defender o patrimônio público e os princípios republicanos. A avaliação de resultados também é relevante para a aprendizagem organizacional, pois a responsabilização por metas não cumpridas ajuda a rever o desempenho (CLAD, 1998). Este processo pedagógico, ao se ancorar em contratos de gestão, permitiria avaliar a eficiência, eficácia e efetividade das ações, além de aumentar a transparência ao divulgar de antemão os resultados almejados pelos órgãos públicos (CLAD, 1998: 16). Por isso, para Bresser Pereira (2009), indicadores e metas de desempenho devem ser coerentes com o interesse público. Conforme Kettl (1996), a mensuração de desempenho deve se concentrar mais em resultados e outputs que inputs, ao mesmo tempo em que se amplia a delegação de poder (empowerment). Implantar indicadores de desempenho é essencial para retroalimentar um modelo gerencial em que os governos buscam se pautar por demandas dos cidadãos. Mas essas “reformas do lado da demanda” requerem que os governos adaptem serviços às preferências (mais responsividade) e garantam qualidade na oferta (melhor desempenho) (MANNING et al, 2009). Para esses autores, tais aspectos ajudam superar a inércia burocrática como um obstáculo à eficiência da gestão pública. Para Kettl (1996), a hierarquia burocrática tradicional deve ser substituída pela 125 excelêNciA NA GesTão PúBlicA Capítulo 4 concepção de “deixar os gerentes gerenciarem”, pois esses sabem o que deve ser feito, apesar das regras administrativas criarem barreiras à sua ação. Desse modo, os gerentes teriam flexibilidade para fazer os governos funcionarem melhor e atender as demandas dos cidadãos. Essa forma de gestão incrementa as capacidadesde governo ao alinhar objetivos, resultados almejados e a escolha das ações para melhorar seu desempenho (PETERS, 2003; MANNING et al, 2009). Essa visão está em linha com Mannning et al (2009: 104): “a noção de desempenho é vista como fundamental para o estado moderno: governos precisam de maneira crescente ganhar legitimidade a partir da oferta de serviços prometidos”. Por outro lado, há uma relação entre gerar valor público, transparência governamental e democracia na gestão pública (CUNIIL GRAU & OSPINA, 2003). Um recurso para se alcançar tal resultado é a responsabilização (accountability), considerada por Bresser Pereira (2009) a grande mudança trazida pelas reformas gerenciais. Por isso, que não se trata apenas de temas de estrutura organizacional, mas também de alterar processos gerenciais (AGUILLAR, 2007). Nessa direção, para Kamarck (2003), importa buscar “qualidade de governo” para melhorar a entrega de serviços públicos, visando obter apoio dos cidadãos, a exemplo das Citizen Chart’s, como já foi frisado. Na qualidade total implantada nas empresas há três premissas: o cliente, o produto e a organização. Na administração pública, segundo Kamarck (2003: 22-23), a qualidade busca: atender demandas dos cidadãos e utilizá- las para moldar o comportamento da organização burocrática, disseminar padrões de desempenho e medir a performance, incluir funcionários públicos no redesenho organizacional ao criar instâncias coletivas de participação e treinar e garantir incentivos aos servidores públicos na entrega das demandas dos cidadãos. Sendo tais mudanças de grande magnitude, a autora enfatiza a importância da liderança política e organizacional como uma variável contextual relevante para o seu êxito. Ademais, para sinalizar às burocracias a permanência desse processo, deve- se institucionalizar os programas que partilhem o aprendizado das inovações implantadas, como ocorreu na Itália, Nova Zelândia e Estados Unidos.” 1. Em tradução livre pelas autoras deste Caderno, Moore (2005) aponta que valor público consiste em uma delegação de grupos políticos aos governos para que estes os ajudem a alcançar 126 Gestão Estratégica no Setor Público O Gespública é um programa que pretende atuar de forma complexa para a melhoria da administração pública. maior satisfação individual para os seus próprios membros do que eles seriam capazes de obter se a ação fosse deixada apenas aos mercados competitivos. Nessa concepção o governo está autorizado e incentivado para lidar com um conjunto de condições que delimita o campo de ação dos mercados que não terão a liberdade de atuar para maximizar o somatório das satisfações individuais. Como resultado, o mercado perde a liberdade de estimular que os indivíduos troquem entre si aquilo que possuem, imaginando-se que desta forma cada indivíduo agregue o máximo de bem-estar para si mesmo. Fonte: Grin (2013, p. 5-7). O Gespública é um programa que pretende atuar de forma complexa para a melhoria da administração pública. Ao contemplar processos e resultados e, também, atendimento a demandas das pessoas e valorização da cidadania, compreende as responsabilidades do Estado em sentido abrangente. Sua abordagem é multidimensional e o período pelo qual vem sendo implantado é, ainda, diminuto para que possa ser considerado em todos os seus resultados. Mudanças e transformações de tal magnitude fazem parte de processos que não se consolidam em espaço de tempo pouco superior a uma década, uma vez que o Gespública foi criado em 2005. Atividade de Estudos: 1) Considerando suas leituras a respeito do Estado e suas dimensões, estabeleça - e justifique – pelo menos duas conexões entre aquelas dimensões e a proposta do Gespública. ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ ______________________________________________________ 127 excelêNciA NA GesTão PúBlicA Capítulo 4 AlGumAS coNSiderAçõeS Muito embora o Gespública, como programa, valorize os resultados da gestão dos diferentes órgãos e entidades que a ele se somam, a avaliação do programa, em si não é simples. Como sua ambição principal é promover uma transformação na cultura gerencial do setor público do país, em suas três instâncias de governo, seus resultados estão em diferentes campos, nem todos de fácil mensuração. A vinculação do Gespública com a administração pública gerencial é bem acentuada e bastante enfatizada por alguns estudiosos, podendo-se tomar como exemplo Grin (2013). A questão do controle como parte do processo de desenvolvimento do trabalho em uma organização que é tão almejada não parece ter sido alcançada pelo Programa. Se o círculo do controle não se integra ao fazer cotidiano, é possível pensar que continua como uma prática ex-post, do tipo que se pretende superar. Assim, predomina entre os que criticam o Programa a ênfase em sua baixa proposta efetiva de inovação em relação a outras medidas de modernização da administração pública, uma vez que delas descende e a elas se atrela. Quanto aos comentários elogiosos, estão no campo de sua tentativa de ser abrangente, abarcando o técnico e o político. Uma proposta e tanto, sem dúvida, que precisa ser continuada para permitir que seja avaliada em sua eficácia. Por tudo isto e pela conjuntura que ora se experimenta, o futuro da modernização da administração pública no país, neste momento, merece reflexão. A formação de quadros, a valorização do servidor e até mesmo o sistema do mérito que vem de longa data, todos tão associados ao movimento de 1995, como as escolas de governo e a própria significância dada à carreira de gestor, perderam vigor nos últimos anos. A multiplicação da quantidade de cargos comissionados em todos os níveis de governo - embora haja um número sempre considerável de pessoas buscando ingressar no setor via os concursos públicos - fala mais a respeito da manutenção de práticas patrimonialistas do que do avanço dos processos de mudança, das organizações em mudança permanente rumo à excelência. 128 Gestão Estratégica no Setor Público O Programa está vivo, com seu endereço eletrônico <www.gespublica. gov.br>, que deve ser consultado para que se compreenda as experiências concretas, passadas e presentes, nas três instâncias de governo, de órgãos e entidades que aderiram ou foram convocadas a participar do Gespública. Adesões e avaliações de órgãos e entidades, estudos de caso e eventos para público numeroso que deve implementar as iniciativas do Programa têm sido fartamente utilizados, embora com divulgação ainda pouco enfática. Falta- lhe visibilidade e divulgação extramuros que possam lhe trazer legitimidade junto à sociedade. O Programa é bastante conhecido no meio em que opera e apresenta alguma dificuldade para sair do seu próprio campo. Com isto, para o mundo exterior, se perpetua a visão distorcida de que no governo pouco do que se faz é relevante e de qualidade. Volta-se ao dilema apontado no início deste curso: Estado e governo são diferentes. O dilema deve ser objeto de investigação daqueles que desejam trabalhar no setor público ou com ele queiram se relacionar. A premissa para superar as armadilhas do dilema é compreender que é a qualidade e a permanência da máquina administrativa que faz o Estado ser forte e funcional para as pessoas. reFerêNciAS BRASIL. Ministério da Administração Federal e Reforma do Estado. Programa da qualidade e participação na administração pública: Caderno 4. Ministério da Administração Federal e Reforma do Estado: Brasília: MARE, 1997. ______. Ministério do Planejamento, Orçamento eGestão. Secretaria de Gestão. Programa Nacional de Gestão Pública e Desburocratização – GesPública: Prêmio Nacional da Gestão Pública – PQGF; Documento de Referência; Fórum Nacional 2008/2009. Brasília: MP, SEGES, 2009. ______. Decreto N. 5.378, de 23 de fevereiro de 2005. Institui o Programa Nacional de Gestão Pública e Desburocratização - GESPÚBLICA e o Comitê Gestor do Programa Nacional de Gestão Pública e Desburocratização, e dá outras providências. Diário Oficial na União. Brasília: 2005. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2005/Decreto/D5378. htm>. Acesso em: 20 jun. 2016. ______. Presidência da República. Câmara da Reforma do Estado. Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado. Disponível em: <http://www. bresserpereira.org.br/documents/mare/planodiretor/planodiretor.pdf>. Acesso em: 20 jun. 2016. 129 excelêNciA NA GesTão PúBlicA Capítulo 4 GRIN, Eduardo José. O Programa Nacional de Gestão Pública e Desburocratização (Gespública): os nexos com a trajetória de políticas prévias e com a administração pública gerencial. In: ENANPAD, XXXVII, 2013, Rio de Janeiro. Anais... Rio de Janeiro: Anpad, 2013. Disponível em: <http://www.anpad.org.br/admin/pdf/2013_EnANPAD_APB1576.pdf>. Acesso em: 06 jun. 2016. LIMA, Paulo Daniel Barreto. Excelência em gestão pública: a trajetória e a estratégia do gespública. Rio de Janeiro: Qualitymark, 2007. ______. Perfil contemporâneo da capacidade de gestão dos órgãos e entidades da administração pública brasileira. In: XIV Congreso Internacional del CLAD sobre la Reforma del Estado y de la Administración Pública, Salvador de Bahia, Brasil. Anais... Bahia, 27-30 oct. 2009.