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Etiqueta e Serviço de Sala Samara Fernandes “Promover a educação de qualidade nas diferentes áreas do conhecimento, forman- do profissionais cidadãos que contribuam para o desenvolvimento de uma sociedade justa e solidária” Missão C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a Distância; FERNANDES, Samara Etiqueta e Serviço de Sala. Samara Fernandes Maringá-PR.: UniCesumar, 2016. Reimpresso em 2019. 144 p. “Graduação em Gastronomia - EaD”. 1. Etiqueta. 2. Serviço. 3. EaD. I. Título. ISBN 978-85-8084-970-7 CDD - 22ª Ed. 641 CIP - NBR 12899 - AACR/2 Impresso por: NEAD - Núcleo de Educação a Distância Av. Guedner, 1610, Bloco 4 - Jardim Aclimação Cep 87050-900 Maringá - Paraná | 0800 600 6360 unicesumar.edu.br DIREÇÃO UNICESUMAR Reitor Wilson de Matos Silva, Vice-Reitor Wilson de Matos Silva Filho, Pró-Reitor de Administração Wilson de Matos Silva Filho, Pró- Reitor de EAD Willian Victor Kendrick de Matos Silva, Presidente da Mantenedora Cláudio Ferdinandi. NEAD - NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Diretoria Executiva de Ensino Janes Fidélis Tomelin Diretoria Operacional de Ensino Kátia Coelho, Diretoria de Planejamento de Ensino Fabrício Lazilha, Direção de Operações Chrystiano Mincoff, Direção de Polos Próprios James Prestes, Direção de Desenvolvimento Dayane Almeida, Direção de Relacionamento Alessandra Baron, Head de Produção de Conteúdo Celso Luiz Braga de Souza Filho, Gerência de Produção de Conteúdos Diogo Ribeiro Garcia, Gerência de projetos especiais Daniel Fuverki Hey Supervisão do Núcleo de Produção de Materiais Nádila de Almeida Toledo, Supervisão Operacional de Ensino Luiz Arthur Sanglard, Coordenador de Conteúdo Vinícius Pires Martins, Projeto Gráfico e Editoração Jaime de Marchi Junior e José Jhonny Coelho, Designer Educacional Maria Fernanda C. Vasconcelos, Revisão Textual Bruno Alexandre Matsushita, Jaquelina Kutsunugi, Simone Limonta e Viviane Notari, Ilustração André Onishi, Fotos Shutterstock e Istockphoto. 3 pa la vr a do re it or Em um mundo global e dinâmico, nós trabalhamos com princípios éticos e profissionalismo, não somente para oferecer uma educação de qualidade, mas, acima de tudo, para gerar uma conversão integral das pes- soas ao conhecimento. Baseamo-nos em 4 pilares: intelectual, profissional, emocional e espiritual. Iniciamos a Unicesumar em 1990, com dois cursos de graduação e 180 alunos. Hoje, temos mais de 100 mil estudantes espalhados em todo o Brasil: nos quatro campi presenciais (Maringá, Curitiba, Ponta Grossa e Londrina) e em mais de 300 polos EAD no país, com dezenas de cursos de graduação e pós-graduação. Produzimos e revisamos 500 livros e distribuímos mais de 500 mil exemplares por ano. Somos reconhecidos pelo MEC como uma instituição de excelência, com IGC 4 em 7 anos consecutivos. Estamos entre os 10 maiores grupos educacionais do Brasil. A rapidez do mundo moderno exige dos edu- cadores soluções inteligentes para as necessidades de todos. Para continuar relevante, a instituição de educação precisa ter pelo menos três virtudes: ino- vação, coragem e compromisso com a qualidade. Por isso, desenvolvemos, para os cursos de Engenharia, metodologias ativas, as quais visam reunir o melhor do ensino presencial e a distância. Tudo isso para honrarmos a nossa missão que é promover a educação de qualidade nas diferentes áreas do conhecimento, formando profissionais ci- dadãos que contribuam para o desenvolvimento de uma sociedade justa e solidária. Vamos juntos! Reitor Wilson de Matos Silva bo as -v in da s Prezado(a) Acadêmico(a), bem-vindo(a) à Comunidade do Conhecimento. Essa é a característica principal pela qual a UNICESUMAR tem sido conhecida pelos nossos alunos, professores e pela nossa sociedade. Porém, é importante destacar aqui que não estamos falando mais daquele conhecimento estático, repetitivo, local e elitizado, mas de um conhecimento dinâmico, reno- vável em minutos, atemporal, global, democratizado, transformado pelas tecnologias digitais e virtuais. De fato, as tecnologias de informação e comuni- cação têm nos aproximado cada vez mais de pessoas, lugares, informações, da educação por meio da conec- tividade via internet, do acesso wireless em diferentes lugares e da mobilidade dos celulares. As redes sociais, os sites, blogs e os tablets ace- leraram a informação e a produção do conhecimen- to, que não reconhece mais fuso horário e atravessa oceanos em segundos. A apropriação dessa nova forma de conhecer transformou-se hoje em um dos principais fatores de agregação de valor, de superação das desigualdades, propagação de trabalho qualificado e de bem-estar. Logo, como agente social, convido você a saber cada vez mais, a conhecer, entender, selecionar e usar a tecnologia que temos e que está disponível. Da mesma forma que a imprensa de Gutenberg modificou toda uma cultura e forma de conhecer, as tecnologias atuais e suas novas ferramentas, equipamentos e aplicações estão mudando a nossa cultura e transformando a todos nós. Priorizar o conhecimento hoje, por meio da Educação a Distância (EAD), significa possibilitar o contato com ambientes cativantes, ricos em infor- mações e interatividade. É um processo desafiador, que ao mesmo tempo abrirá as portas para melhores oportunidades. Como já disse Sócrates, “a vida sem desafios não vale a pena ser vivida”. É isso que a EAD da Unicesumar se propõe a fazer. Pró-Reitor Executivo de EAD William V. K. de Matos Silva 5 bo as -v in da s Seja bem-vindo(a), caro(a) acadêmico(a)! Você está iniciando um processo de transformação, pois quando investimos em nossa formação, seja ela pessoal ou pro- fissional, nos transformamos e, consequentemente, transformamos também a sociedade na qual estamos inseridos. De que forma o fazemos? Criando opor- tunidades e/ou estabelecendo mudanças capazes de alcançar um nível de desenvolvimento compatível com os desafios que surgem no mundo contemporâneo. O Centro Universitário Cesumar mediante o Núcleo de Educação a Distância, o(a) acompanhará durante todo este processo, pois conforme Freire (1996): “Os homens se educam juntos, na transfor- mação do mundo”. Os materiais produzidos oferecem linguagem dialógica e encontram-se integrados à proposta pe- dagógica, contribuindo no processo educacional, complementando sua formação profissional, desen- volvendo competências e habilidades, e aplicando conceitos teóricos em situação de realidade, de ma- neira a inseri-lo no mercado de trabalho. Ou seja, estes materiais têm como principal objetivo “provocar uma aproximação entre você e o conteúdo”, desta forma possibilita o desenvolvimento da autonomia em busca dos conhecimentos necessários para a sua formação pessoal e profissional. Portanto, nossa distância nesse processo de cresci- mento e construção do conhecimento deve ser apenas geográfica. Utilize os diversos recursos pedagógicos que o Centro Universitário Cesumar lhe possibilita. Ou seja, acesse regularmente o AVA – Ambiente Virtual de Aprendizagem, interaja nos fóruns e enquetes, as- sista às aulas ao vivo e participe das discussões. Além disso, lembre-se que existe uma equipe de professores e tutores que se encontra disponível para sanar suas dúvidas e auxiliá-lo(a) em seu processo de aprendiza- gem, possibilitando-lhe trilhar com tranquilidade e segurança sua trajetória acadêmica. Pró-Reitor de Ensino de EAD Janes Fidélis Tomelin Diretoria de Graduação e Pós Kátia Solange Coelho Diretoria de Design Educacional Débora do Nascimento Leite Diretoria de Permanência Leonardo Spaine E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a Ap re se nt aç ão d o Li vr o Professora Especialista Samara Fernandes Olá, seja bem-vindo(a) à disciplina de Etiqueta e Serviço de Sala! Sou a professora Samara Fernandes, publicitária não praticante e gastróloga aficionada.Ambas minhas formações foram concluí- das no Centro Universitário Cesumar (UniCesumar) nos anos de 2010 e 2014 consecutivamente, bem como minha especialização em Styling e Varejo de Moda, concluída em 2013. Meus primeiros passos profissionais foram na área de Publicidade e Propaganda: a arte gráfica era sedutora. Com esse curso entendi que as cores têm significado e aprendi a gerir tempo e pessoas, conhecimentos que são aplicáveis todos os dias à Gastronomia. Apesar de tudo, foi a lembrança persistente do primeiro bolo de chocolate que ajudei minha avó materna a fazer – ela me deixou quebrar os ovos e colocar o açúcar – que me fez mudar completamente a área de estudo e ingressar em outra arte, a Gastronomia. Essa decisão foi tomada enquanto cursava a espe- cialização, por isso, concluí essa etapa unindo os interesses. Quando se trata de Gastronomia, um dos tópicos ao qual logo remetemos é eventos e nestes, principalmente, sentimos a grande importância de como a mesa foi montada, se o tema condiz com 7G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R o ambiente, se o serviço do garçom está adequado à proposta, se o uniforme utilizado por ele está de acordo com o serviço estabe- lecido, ou seja, estamos o tempo todo lidando com etiqueta, boas maneiras, cerimoniais e protocolos. Esses são alguns dos itens que serão introduzidos na disciplina que trabalharemos juntos, em que poderei aproveitar a oportunidade para unir os conhecimentos de Publicidade e Moda com a Gastronomia. Na primeira unidade, contarei um pouco de história e alguns conceitos visando abordar o que é etiqueta. Para isso, traçaremos um patamar histórico a fim de compreender como a etiqueta passou a desempenhar um papel tão importante na civilização; reviveremos alguns momentos em que os costumes eram dife- rentes na alimentação em grupo e conceituaremos cerimonial e protocolo. Essa primeira etapa é importante para que você entenda a comensalidade através dos anos, pense na influência que exerce sobre os modos atuais e saiba diferenciar as especificidades de um cerimonial. Na segunda unidade, trabalharemos as competências do ser- viço de sala. Sabemos que uma pessoa não vai a um restaurante E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a para, simplesmente comer, ela procura por uma experiência que ultrapasse suas expectativas e o serviço é um fator determinante para esse sucesso. Aqui, vamos percorrer brevemente o surgimento do restaurante e sua apresentação na atualidade, levantando algu- mas tipologias existentes no mercado hoje em dia. Em seguida, pontuaremos as técnicas de serviço à mesa que melhor se encaixam nos variados tipos de cardápio. Na terceira unidade, vamos direcionar o estudo da etiqueta à mesa, você vai perceber que podemos montar uma mise en place diferente para cada tipologia de restaurante estudada na segun- da unidade. Abordaremos algumas questões importantes sobre boas maneiras em lugares determinados e, por último, teremos um tópico para falar apenas daquele que exerce uma função tão importante no atendimento ao cliente: o garçom. Aproveite cada página, seus hábitos não serão os mesmos depois dessas aulas. Espero que seja uma etapa de sucesso e que você aproveite a abordagem para se preparar para o mercado de trabalho e qualquer situação relativa à profissão. Bons estudos! SUMÁRIO UNIDADE 1 História e Conceitos 15 Civilização e a Etiqueta 23 Comensalidade 33 Cerimonial, Protocolo e Etiqueta UNIDADE 2 O Restaurante 55 Como surge o Restaurante 67 Tipologias e Eventos 81 Técnicas de Serviço UNIDADE 3 Etiqueta à Mesa 99 Mise En Place de Mesa 113 Qualidade em Atendimento 125 Boas Maneiras à Mesa dica do chef habilidades Legendas de Ícones recapitulando saiba mais fatos e dados minicaso reflita Dica do Chef: dicas rápidas para complementar um conceito, detalhar procedimentos e proporcionar sugestões. Habilidades: elo entre as disciplinas do curso. Mão na massa: indicação de atividade prática. Saiba mais: Informações adicionais ao conteúdo. Fatos e Dados: complementação do conteúdo com informações relevantes ou acontecimentos. Minicaso: aplicação prática do conteúdo. Reflita: informações relevantes que proporcionam a reflexão de determinado conteúdo. Recapitulando: síntese de determinado conteúdo, abordando principais conceitos. mão na massa História e Conceitos SAMARA FERNANDES A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: • Civilização e a etiqueta • Comensalidade • Cerimonial, protocolo e etiqueta • Identificar a utilização da etiqueta nas civilizações a partir de seu surgimento. • Conceituar comensalidade. • Comparar a comensalidade na antiguidade e na atualidade. • Entender os conceitos de etiqueta, cerimonial e protocolo. Plano de Estudo Objetivos de Aprendizagem Introdução Querido(a) aluno(a), Você vai começar esta unidade num contexto histórico de suma importância para entender alguns conceitos. A história da civilização apresenta marcas de utilização da etiqueta que são extremamente relevantes ao nosso cotidiano atual, pois são formalizações que, advindas das modificações do tempo e dos tipos de cerimonial, evoluíram, mas ainda há traços de semelhança. Será válido notar a importância disso no contexto da época tratada, principalmente ao falar do reinado de Luís XIV, no Palácio de Versalhes, na França. Em seguida, abordaremos o tema comensalidade. Vamos voltar para antes das Idades Média e Moderna, retornaremos às primeiras civilizações para resgatar os indícios iniciais do ser humano fazendo refeições junto. Buscaremos a compreensão do que representa para o ele essa união em volta da mesa, seus costumes e sua evolução e as práticas adotadas por diferentes povos. E para fechar a unidade, você será apresentado(a) aos conceitos de cerimonial, protocolo e etiqueta, formalidades necessárias atualmente para designar precedência, e normatizar ritos. Verifique nesta etapa que o cerimonial não é apenas voltado às figuras públicas e de grande importância, como a Presidência da República. Um casamento, aniversários, festas da empresa também têm um cerimonial implícito, apenas não são formais como o anteriormente citado. Por fim, você compreenderá a diferença entre cerimonialista e mestre de cerimônias, afinal, um profissional de Gastronomia tem grandes possibilidades de se deparar com elaboração de eventos e cerimoniais no mercado de trabalho e, para isso, é preciso conhecer as funções que cada um executa. 13 E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a 15G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Querido(a) aluno(a), nossa disciplina vai começar voltando no tempo para entender melhor como e onde ocorreu a evolução do que hoje conhecemos por boas maneiras. Sendo assim, nossa ênfase será sobre o reinado de Luís XIV de França, pois foi quando a etiqueta teve seu ápice e a partir de então sempre seria utilizada, sofrendo modificações ao longo dos anos. Da Idade Média à Idade Moderna, temos os marcos da história da etiqueta e do cerimonial, apesar disso, pesquisas nos mostram que este é, na verdade, um fenômeno ainda mais antigo. Castro (1997) afirma que na Biblioteca de Paris está preservado um papiro egípcio de 2500 a.C., no qual constam normas de conduta. Muitos historiadores acreditam que este papiro, considerado o primeiro documento a tratar do assunto, foi o manual de boas maneiras que deu origem futuramente a regras de etiqueta por todo o Ocidente. Civilização e a Etiqueta E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a V ocê deve lembrar, inicialmente, que por volta do século XI a nobreza eu- ropeia ainda comia com as mãos. Eles desconheciam garfos, colheres e pratos individuais e apenas os mais nobres já tinham conhecimento e acesso às facas. E até mesmo no século XV ainda são encontrados poucos utensílios, como recorda Elias (1994). Ele afirma que nas casasmais abastadas, as pes- soas se serviam em travessas comuns, sendo os sólidos pegos com as mãos e os líquidos com conchas ou colheres – quando não levados direto à boca os pratos ou travessas. “Durante muito tempo, além disso, não houve utensílios espe- ciais para diferentes alimentos. Eram usadas as mesmas facas e colheres. E também os mesmos copos” (ELIAS, 1994, p.80). Quando surgiu o garfo, ele não era utilizado individualmente para levar o alimento à boca e sim para retirar os alimentos da travessa comum. Figura 1. Garfo e faca do século XVII. 17G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Antes de aprofundar nos padrões de etique- ta da época, vale lembrar que a Idade Média tinha uma conduta de importância para com as refeições. “Comer e beber nessa época ocu- pavam uma posição muito mais central na vida social do que hoje, quando propiciavam – com frequência, embora nem sempre – o meio e a introdução às conversas e o convívio” (ELIAS, 1994, p.74). Segundo Elias (1994), na Idade Média o padrão estabelecido como “bom comporta- mento” era a forma de a classe alta expressar sua autoimagem de forma notável, sendo assim, utilizavam como exemplo a forma como as cortes feudais se portavam. Ainda nessa época, os padrões de etiqueta eram mais simples, ou ingênuos, como coloca o autor, pois as indicações não têm inclinação direta a interesses. Falava-se da maneira correta de se portar à mesa, assoar o nariz e cuspir, por exemplo, diferenciando os costumes rústicos – ou “camponeses” – dos costumes da nobreza. Ele observa que os padrões não sofrem gran- des alterações se comparados aos manuais de boas maneiras um pouco mais modernos, nestes são poucas as novas recomendações, o que ocorre mais é a adaptação de algum item já existente. Como exemplo de um manual sobre com- portamento à mesa para a classe alta, o autor compila: “No século XI, um Doge de Veneza casou- -se com uma princesa grega. No círculo bizantino da princesa, o garfo era evi- dentemente usado. De qualquer modo, sabemos que ela levava o alimento à boca ‘usando um pequeno garfo de ouro com dois dentes’. Este fato, porém, provocou um horrível escândalo em Veneza: ‘Esta novidade foi considerada um sinal tão exagerado de refinamento que a dogaresa recebeu se- veras repreensões dos eclesiásticos [...]’ Mais cinco séculos se passariam antes que a estrutura das relações humanas mudasse o suficiente para que o uso desse utensílio atendesse a uma necessidade mais geral. Do século XVI em diante, pelo menos nas classes altas, o garfo passou a ser usado como utensílio para comer [...]. Em data tão recente como o século XVII, o garfo ainda era basicamente artigo de luxo da classe alta, geralmente feito de prata e ouro. O que achamos inteiramente natural, porque fomos adaptados e condicionados a esse padrão social desde a mais tenra infância, teve, no início, que ser lenta e laboriosamente adquirido e desenvolvido pela sociedade como um todo. [...]” Fonte: Elias (1994, p.81-82) E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a Século XIII Vejamos o poema de Tannhäuser1 sobre as maneiras corteses. 1. Considero homem bem educado aquele que sempre pratica boas maneiras e nunca se mostra grosseiro. 2. Há muitas formas de boas maneiras e elas servem a muitos bons fins. O homem que as adota nunca erra. 25. Quando comes, não esqueças os pobres. Deus te recompensará se os tratares bondosamente. 33. Um homem refinado não deve ar- rotar na colher quando acompanhado. É assim que se comportam pessoas na corte que praticam má conduta. 37. Não é polido beber no prato, embora alguns que aprovam esse grosseiro hábito insolentemente levantem o prato e o sorvam como se fossem loucos. [...] (ELIAS, 1994, p.96) A preocupação com a higiene se faz evidente e então notamos que os tópicos de etiqueta costumam ser ações de incentivo à polidez, le- gitimando regras muitas vezes indelicadas, mas que acabam se difundindo e sendo aplicadas tanto em público quanto na intimidade. Essas normas, que parecem óbvias à classe alta, não são vistas como habituais aos campo- neses. Elias (1994) reforça que as instruções que mais se repetem nos manuais europeus de boas maneiras na Idade Média são as de dar graças; 1 Tannhäuser, autor de Hofzucht: manual de boas maneiras do século XIII. a preocupação com o lugar lhe foi designado à mesa; não tocar no nariz e nas orelhas enquanto estiver à mesa; não deixar os cotovelos em cima da mesa; manter aparência de alegria; não falar demasiado; não alimentar-se de forma voraz; e não devolver nenhum tipo de alimento da boca à travessa comum. Lavar as mãos antes de comer e não limpar os dentes com a faca (como era de costume) também são bastante repetidos pelos manuais, bem como a indicação de não soltar gases à mesa. O autor afirma que, com relação ao conteúdo dessas coletâneas, não há grandes divergências posteriores – na Idade Moderna –, mas a forma como foi utilizado é que faz dos séculos seguintes o apogeu da etiqueta. Na Idade Moderna (século XV ao XVIII), a etiqueta se fez fortemente presente por ser um potente diferencial entre as classes. No século XVII, a França vivia em regime Absolutista, ou seja, havia um governante com poder absoluto, o Rei Luís XIV, lembrado como Rei Sol, numa sociedade hierarquizada em Primeiro Estado (clero), Segundo Estado (nobreza) e Terceiro Estado (burguesia e camponeses). O Terceiro Estado era a maioria da população, os que pa- gavam impostos. Imagine, com isso, o tamanho da sociedade para a qual precisava se impor. Por conta disso, Elias (2001) afirma que o rei elencou modelos de conduta aplicados à corte, nos quais designava funções aos nobres 19G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R tanto com relação à forma como se portar à mesa, como para realização de cerimoniais di- ários. Era uma forma de manter seu controle político, manter-se no centro absoluto, enfati- zar seu valor e prestígio por hierarquia e con- trolar as expectativas dos nobres. O interesse potencial da nobreza era ficar próxima do rei para manter sua posição social, vivendo dentro da corte. Dessa forma, quanto mais próximo do rei e de seus interesses, melhor. O autor exemplifica com um cerimonial do quarto de Luís XIV: De manhã, geralmente às 8 horas, e em todo caso no horário por ele determinado, o rei é acordado pelo primeiro criado de quarto, que dormia aos pés de sua cama. As portas são abertas para os pajens. Nesse momento, um deles acaba de dar a notícia ao “grand chambellan” e ao primeiro fidalgo de quarto, um segundo dirigiu-se à cozinha da corte para providenciar o café da manhã e um terceiro ocupa seu posto diante da porta, deixando entrar apenas os senhores que têm o privilégio do acesso. Esse privilégio seguia uma hierarquia muito precisa. Havia seis grupos diferentes de pessoas com permissão para entrar, um após outro. Falava-se então das diversas “entrées”. Primeiro vinha a “entréé familière”. Faziam parte dela sobretudo os filhos legítimos e os netos do rei [...], príncipes e princesas de sangue, o primeiro médico, o primeiro cirurgião, o primeiro criado de quarto e o primeiro pajem. (ELIAS, 2001, p.101) Cerimonial de casamento de Luís XIV com Maria Teresa da Áustria. Fonte: Laumosnier (in WIKIMEDIA, s/d, online) E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a Elias (2001) utiliza esse e outros exemplos para mostrar que o rei fazia de suas atividades particulares uma forma de distinguir os níveis sociais, demonstrando a quem estava favorecen- do e quem o estava desagradando, reforçando que “a etiqueta tinha uma função simbólica de grande importância na estrutura dessa socie- dade e dessa forma de governo” (ELIAS, 2001, p.102), ou seja, a estrutura do cerimonial utiliza a etiqueta como meio de dominar e manipular os membros da corte. A relaçãode prestígio e notoriedade, a busca por essa ostentação, acontecia não só interna- mente na hierarquia da corte como também em relação à burguesia. Os dois grupos sociais se mantinham em discordância e disputa, pois os nobres jamais aceitaram as imitações dos burgueses e quiseram sempre manter um rela- cionamento distante entre as classes, de modo a mostrar quem dispõe de qual tipo de poder. Para a corte, essa disputa é importante, pois além de promover o controle social, mantinha os burgueses que buscavam ascensão sempre abaixo do patamar da nobreza. Para a época, enfatiza Elias (2001), a ascensão da classe que paga impostos seria algo inaceitável para a hie- rarquia da corte – afinal, o Primeiro e Segundo Estados eram isentos de tais taxas. Não adiantou, a burguesia imitava os novos gestos da nobreza querendo ter o mesmo status, o que acabou levando a etiqueta à massa e de- sagradando os nobres, que preferiam se manter em diferentes classes. Ribeiro (1983) explica que os nobres encontraram outra forma de se diferenciar dos burgueses: passaram a utilizar a moda como forma de opulência. O autor escla- rece que quem cria a moda, no caso a nobreza, dita as regras, “atestando superioridade social, ela também o induz a abandonar sua criação e a propor novas” (RIBEIRO, 1983, p.20). Ou seja, mesmo que dentro de um determinado tempo a burguesia copie a moda da nobreza, os nobres criam uma nova, colocando-se sempre à frente. A imagem a seguir retrata com perfeição a riqueza nas roupas, que visavam diferenciar a classe social e retratar o luxo. Luís XIV, o Rei Sol. Fonte: Rigaud (1701, in WIKIMEDIA, s/d, online) 21G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R [...] para todo grupo, casta ou camada social de elite de certo modo estabili- zado e demarcado em relação a outros, mesmo sujeito a uma pressão de baixo e, às vezes, também de cima, podemos dizer que sua mera existência como membros de uma unidade social de elite é para eles um valor absolutamen- te autônomo, seja parcial ou absoluto; em suma, um fim em si. A conserva- ção da distância torna-se, com isso, o motor ou a marca decisiva de seu comportamento. (ELIAS, 2001, p.119) Retomando a sociedade na corte, Elias (2001) afirma que o rei fazia de atividades necessárias – como despir sua camisa noturna e vestir sua camisa do dia – um privilégio para os nobres, alterando o sentido no contexto social de modo a distingui-los perante o restante da socieda- de. Cada ato deste cerimonial privilegiava um nobre, bem como cada um tinha um prestígio diferente, tornando-se fetiche para os partici- pantes, ou seja, objeto de desejo. “Mais tarde, porém, essa relação se diluiu em muitos aspectos, e o caráter dos atos de etiqueta como fetiches de prestígio passou a se manifestar de modo totalmente explícito” (ELIAS, 2001, p.103). Ou seja, a hierarquia de privilégios que foi criada a partir da etiqueta se mantinha apenas como forma de competição entre os envolvidos, pois estes estavam sempre preocupados em se manter em seu patamar hierárquico, com seus privilégios e alguns até com algum poder conferido pelo rei. Não muito tarde, no reinado de Luís XVI e Maria Antonieta, essa mesma abordagem seria mantida na corte, essa mesma etiqueta, porém, a contragosto do próprio rei, da rainha e até mesmo da nobreza supostamente interessada. A partir do momento que se tornou explícito e começou a se diluir, todo o processo de ceri- moniais foi perdendo o prestígio e dignidade (ELIAS, 2001). Podemos notar que a utilização da etiqueta já não é simplória como na Idade Média. O processo passa a ser mais elaborado, inclusive em seu uso, pois a significação vai além das boas maneiras. Não é à toa que o apogeu da etiqueta e do cerimonial remete fortemente ao Rei Sol e sua máxima “L’État c’est moi” (“O Estado sou Eu”, livre tradução), onde por meio do controle da sociedade ele realmente era o centro das atenções. Se voltarmos à atualidade, caímos num mundo cheio de informalidades e tecnologias e isso aumenta a todo tempo, alterando, por consequência, as características da socieda- de, deixando as regras mais maleáveis. Ainda assim, a etiqueta mantém sua função básica, de permitir que o convívio social seja regido por condições agradáveis. Boas maneiras permitem que as pessoas ainda se diferenciem umas das outras, mas de modo geral, o que temos nos dias presentes é o uso de bom senso acompanhado de regras simples. E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a 23G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Agora que já conhecemos um pouco da etiqueta na história da civi- lização, quero que você entenda como a comensalidade influencia nossos costumes atuais e, para isso, vamos percorrer o caminho do comportamento alimentar do ser humano, de forma sucinta, desde a antiguidade até os dias de hoje. Você já pensou em que aspectos o comportamento alimentar do ser humano difere do comportamento alimentar dos animais? Acredita-se, geralmente, que o comportamento alimentar do homem distingue-se do dos animais não apenas pela cozinha – ligada, em maior ou menor grau, a uma dietética e a prescrições religiosas –, mas também pela comensalidade e pela função social das refeições (FLANDRIN; MONTANARI, 1998, p. 32). Com isso, Flandrin e Montanari (1998) querem dizer que, para os homens, a alimentação tem um objetivo especial, além de fisiológi- co, a função de fortalecer laços de amizade, reforçar relação entre senhores e vassalos, entre pessoas de níveis diferentes. E as pessoas optam por estabelecer esses laços junto ao ato da comensalidade, ou seja, unem-se os comensais2, que comem e bebem juntos, para festejar, selar um acordo ou estabelecer contato com seus iguais. 2 Comensal: cada um daqueles que comem juntos (FERREIRA, 2006, p.247). Comensalidade E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a Em comprovação, Flandrin e Montanari (1998) afirmam que inúmeros textos do se- gundo milênio de regiões da Mesopotâmia re- latam como eram as refeições em grupo, que para estas já havia razões e ritos precisos – tanto banquetes aos deuses quanto festas de pessoas comuns. A carne fresca aparece sempre como indispensável a essas festividades, em todas as épocas e regiões. Mas como e quando tudo isso começou? O autor nos lembra de que cerca de 500 mil anos a.C., o ser humano começou usar o fogo para cozer seus alimentos. A partir de então, os alimentos eram preparados em fogos coletivos diariamente, o que gerou consumo em comum, originando a função social da refeição e desen- volvendo a comensalidade. O gosto pela carne cozida (consumida depois de incêndios naturais) é corrente entre muitos carnívoros. Todavia, só o homem pôde fazer disso uma prática re- gular e dar os primeiros passos em direção à alimentação cozida e, depois, à cozinha. (PERLÈS apud FLANDRIN; MONTANARI, 1998, p.44) Depois de compreendido o contexto de comen- salidade, vamos abordar os costumes de algu- mas civilizações com relação à refeição na vida coletiva e social. Quero propor que a cada cos- tume citado, você relacione aos que estudamos na sociedade da corte, lembrando-se de como eram as indicações de etiqueta e cerimoniais. Nas primeiras civilizações da Mesopotâmia, alguns poemas encontrados – de origem mi- tológico-religiosa – descrevem os banquetes como divinos e, na maioria das vezes, eram apresentados como um momento de festivi- dade. É o que afirma Joannès (apud FLANDRIN; Das primeiras civilizações à atualidade MONTANARI, 1998), contextualizando a ins- piração para o banquete dos seres humanos da época. Estes, no terceiro milênio a.C., já faziam grandes cerimônias com regras de comporta- mento, normalmente festejos religiosos ou profanos. As primeiras representações eram mais par- ticulares e realizadas pelo rei e sua esposa. Relatos mostram queera uma festividade perante o deus, na qual participavam o casal com uma taça na mão, criados e músicos. A sociabilidade se sobres- sai nos banquetes entre particulares, enquanto as recepções reais são marcadas pelo prestígio. 25G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Os acordos, na época, eram selados com uma refeição em comum – e não com um contrato ma- terial como hoje –, na qual se consumia pão, cerve- ja e untava-se com óleo. De acordo com Joannès (apud FLANDRIN; MONTANARI, 1998, p.56): Essa prática evidencia-se, principalmen- te, nos contratos de vendas de bens imó- veis [...] era o filho mais velho da casa que tinha o direito de, primeiro, apresentar aos convidados a água com que eles la- vavam as mãos, e, em seguida, servir a comida e a bebida. A ênfase a esse parágrafo não é à toa, caro(a) alu- no(a). Perceba que nessa afirmação estão embu- tidos alguns costumes, alguns aspectos de boas maneiras, rituais que não podiam deixar de acon- tecer – mesmo que sem um prévio estabelecimen- to escrito, mas como um ato cultural verbalizado. Algumas outras cerimônias também tinham costumes específicos, sendo que alimentos dados como presentes são aparições constan- tes nos relatos das festividades da época. O sal, por exemplo, era elemento raro e considerado iguaria, partilhá-lo selava uma relação de ami- zade. Bem como, em contrapartida, recusar-se de partilhar um alimento era tido como sinal de hostilidade. Sendo assim, Joannès (apud FLANDRIN; MONTANARI, 1998) afirma que o que compõe a refeição não se faz tão importante como essa partilha, ou seja, o prazer está ligado aqui à comensalidade, à união das pessoas, e não ao que se põe à mesa. Ao tratar de banquetes, a imagem do rei sempre aparece com privilégio. O banquete real aconte- cia com um cerimonial já bem elaborado para a época. Segundo Joannès (apud FLANDRIN; MONTANARI, 1998), o rei, quando queria cele- brar um acontecimento memorável, convidava à sua mesa algumas pessoas, entendendo que era seu dever recompensar aqueles que trabalhavam ao seu dispor. Para além disso, o rei acreditava que devia manter boas relações com os deuses e então oferecia refeições dignas deles como forma de demonstrar honra, e não obstante, utilizava-se de festas luxuosas para a época, com banquetes fartos, para criar vínculo com seu povo. Veja o cerimonial utilizando a etiqueta em um banquete real: O rei é servido primeiro e, quando quer honrar um dos seus convidados, ele mesmo lhe apresenta o prato do qual Você consegue se imaginar presentean- do um amigo hoje em dia com um pacote de sal? Pense nos padrões estabelecidos atualmente. E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a acabou de se servir. Em geral, os comen- sais ficam reunidos em grupos definidos com antecedência e correspondendo a seu estatuto, profissão ou, para os em- baixadores, seu país de origem. [...] Uma parte da assistência está sentada no chão, enquanto aqueles que se quer honrar especialmente têm direito a um assento [...] Quando cada um tomou seu lugar [...], passam os criados encarregados de apre- sentar a água para que todos lavem as mãos; depois, cada hóspede recebe um frasco de óleo perfumado [...] para se untar no começo e no fim da refeição. [...] A refeição é acompanhada de vinho, cerveja [...] O banquete é acompanhado de música, cantos e várias diversões: bobos, saltim- bancos, malabaristas, lutadores. [...] (JOANNÈS apud FLANDRIN; MONTANARI 1998, p.60-61) Vamos, agora, retratar alguns hábitos de uma civilização marcante na história da alimen- tação, o Antigo Egito. Eles consideravam saúde como sinônimo de comer muito e que disso dependia sua longevidade. Um traço marcante desse Estado reinado por um faraó é a crença na vida após a morte, e por conta disso esban- javam alimentos aos mortos. Bresciani (apud FLANDRIN; MONTANARI, 1998) afirma que por volta de 1400 a.C., os egípcios já contavam com grande quantidade de utensílios de cozi- nha e de alimentos, o que foi comprovado ao encontrarem tumbas intactas contendo pedaços de pão, vinho em ânforas e uma lista de outros alimentos. Os egípcios faziam em média três refeições diárias, mas não utilizavam talheres, sempre uti- lizavam os dedos. Ainda assim, Bresciani (apud FLANDRIN; MONTANARI, 1998) diz que os costumes à mesa evoluíram na classe alta. Eles agachavam em esteiras ou almofadas diante de uma mesa baixa que comportava dois comen- sais, nela havia pão, carne assada e frutas, os copos ficavam no chão. Depois de um tempo, os mais abastados sentavam-se em cadeiras, com mesas altas, e eram servidos por criados, sendo que o vinho e a cerveja nunca faltavam. Esses banquetes sempre apresentavam espetáculo de música e dança. Uma civilização à frente em seu tempo, no Antigo Egito, todas as casas possuíam fornos simples, nos quais se assavam os pães. Bresciani Há semelhanças entre esse cerimonial e os utilizados na corte de Luís XIV no século XVII d.C.? – Lembre-se de que aqui estamos falando do primeiro milênio a.C. 27G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R (apud FLANDRIN; MONTANARI, 1998) lista a variedade de utensílios já encontrados, como panelas de cerâmica ou metal, facas e travessas de servir à mesa também de cerâmica. E veja que interessante, a classe elevada já tinha uma or- ganização hierarquizada com cargos específicos dentro da cozinha: cervejeiros, padeiros, açou- gueiros, pasteleiros3 e degustadores de vinhos. 3 Pasteleiros: na época era sinônimo de doceiros; hoje os chamaríamos de confeiteiros. Gravura do Antigo Egito encontrada às margens do rio Nilo retrata oferenda aos deuses. Em contrapartida, nas primeiras civilizações romanas, conseguimos verificar outros aspectos relacionados à alimentação em conjunto. Os romanos faziam dois tipos de refeições opostas, a cena e o prandium: A primeira (cena) reunia homens, sempre deitados (quando há mulheres, elas, tradicionalmente, ficam sentadas) em um lugar coberto – [...] – família, clientela, amigos da mesma idade, E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a corporação profissional ou sacerdotal, vizinhos – partilha os prazeres da mesa por ocasião de festa. [...] a cena, de qual- quer maneira, é uma festa, apesar do pouco luxo; ela é sempre uma ocasião especial. [...] Mas o romano geralmente come apenas o bastante para se restaurar, sem cerimô- nia, frequentemente só, não importando onde e quando. [...] come apenas alimen- tos revigorantes. [...] Este é o prandium. (DUPONT, 1998, pp.210-211) A cena é explicada como um momento de co- mensalidade no qual os romanos consumiam carnes sacrificadas – para eles, o consumo de carne tinha estreita relação com religião, a carne só podia ser consumida quando sacrificada aos deuses –, ou seja, era um banquete destinado ao prazer dos comensais. Neste evento, havia preocupação com o luxo desde o ambiente e das baixelas, onde os alimentos seriam servidos, até a beleza dos escravos. Enquanto a cena pode ser vista como a refeição do supérfluo, o prandium, em oposição, é tido como a refeição do neces- sário, reforça Dupont (1998). Os romanos acreditavam ter um órgão especial que tinha como função alimentar o prazer, esse órgão seria a gula. Eles localizavam a gula entre a garganta e o início do esôfago, e diziam que prazer demais poderia levar à fadiga e, de menos, causar frustração aos convida- dos. A classe alta dessa civilização considerava uma cena de sucesso quando conseguiam criar através da comensalidade laços entre os comen- sais, ou seja, quando havia relação social futura por conta da refeição cheia de prazer que foi compartilhada. Agora que já ressaltamos alguns costumes de civilizações diferentes, vamos para a Idade Média, da qual já falamos um pouco no tópico anterior, porém, agora iremos analisar como se dava a comensalidade nessa época.Aqui, Althof (apud FLANDRIN; MONTANARI, 1998) explica que refeição e banquete, na Idade Média, eram símbolos de paz – ou de compromisso –, pois comer e beber junto servia para selar as condições e razões do evento. Nessa época, a refeição tinha forte apelo na vida social e era utilizada para assegurar votos – fosse de casamento, amizade, batismo ou consagração de cavaleiros. Dentro dos cos- tumes da época, reforça o autor, nos banquetes de aliança, o anfitrião esperava reciprocidade no convite para a refeição, ou seja, aguardava ser convidado para outro banquete, agora ofereci- do pela outra parte interessada. Nesse tipo de refeição também não era permitido demonstrar inquietude com a economia ou os convidados entenderiam com ofensa. Além disso, não havia uma preocupação especial com refinamento gastronômico. Depois de uma lenta evolução, os homens passaram a cultuar as mulheres, e assim novas normas de comportamento foram sendo esta- belecidas – o que vem ocorrendo até hoje. Como 29G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R grandes banquetes eram realizados na época, estes também sofreram essa influência, afirmam Cândido e Viera (2002), evoluindo os costumes e instrumentos utilizados à mesa. No século XVIII, as mesas já apresentavam pelo menos três uten- sílios básicos: faca, colher e garfo – saber utilizá- -los de forma adequada nos grandes banquetes era crucial para manter a boa aparência. Com relação à religião, assunto que sempre aparece ao se tratar de comensalidade, na Idade Média, o clero desaprovava algumas atividades recorrentes nos grandes banquetes – que chega- vam a durar dias –, mas também tinha o hábito de selar laços comendo e bebendo juntos. Livro da Caça, Paris, início do século XV (Paris, BNF, MS francês 616, fº 67). Fonte: BNF (apud FLANDRIN; MONTANARI, 1998, s/p) E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a Durante muito tempo estudou-se a história da alimentação e da culinária, seus métodos de trabalhar os alimentos, quais seriam os utilizados em cada ocasião, suas propriedades nutricionais e como satisfazer a necessidade fisiológica de cada indivíduo. Segundo Flandrin e Montanari (1998), enquanto em uma sociedade medieval, completa de seus ritos religiosos e crenças, o objetivo de uma refeição era alimentar a fome; na sociedade subsequente, isso é deixado em segundo plano e dá-se preferência à diversidade nos pratos, ou seja, o foco se encontra em saciar o apetite. Houve o tempo em que determinados elementos eram utilizados apenas no trata- mento de doenças com recomendações ali- mentares. Isso se deu até ser criado um ramo na Gastronomia dedicado aos fins medicinais, diferenciando o uso de um mesmo alimento na culinária. Segundo Flandrin e Montanari (1998), o açúcar é um forte exemplo dessa trans- formação, ele deixou de ser um regulador me- dicinal e passou a ser um produto de consumo regular, notando-se o gosto pelo doce. Seu uso se popularizou em três principais bebidas: o café, o chá e o chocolate, bebidas essas que a partir de então sempre proporcionaram momentos de comensalidade, até os dias atuais. Depois de tantas transições, o mundo atual aponta práticas à mesa que são ditas individu- alistas. Segundo Fernandes (1997), as mudan- ças ocorrem até mesmo no interior do lar, pois as grandes famílias de antigamente, hoje, são formadas por um casal com poucos ou nenhum filho, e isso os leva a, muitas vezes, fazer suas re- feições fora de casa: “o homem moderno apraz-se a comer no restaurante, em pequenas mesas, em pequenos grupos, pelo qual se paga em seguida” (CANNETI apud FERNANDES, 1997, p.15). Além disso, Fischler (apud FLANDRIN; MONTANARI, 1998, p.847) completa: O crescente acesso das mulheres, nos países mais desenvolvidos do Ocidente, à atividade profissional, torna precioso o tempo doméstico, tanto mais que os homens não têm, de modo algum, uma participação maior do que anteriormen- te nas tarefas de casa. Os produtos dis- tribuídos nos supermercados da Europa ocidental desde os anos 60 visam, por- tanto, economizar esse tempo. Com isso, a alimentação sai do ambiente do- méstico e vai mais para as ruas, para os restau- rantes, quando também se difundem as redes de fast food e os self services. Em meados de 2000, pontua Steinberger (2010), o jantar aca- bava sendo improvisado, utilizando congelados e feito às pressas, sempre com a televisão ligada, dificultando a comensalidade. Mesmo assim, vale pontuar que a comen- salidade não desapareceu e atualmente conti- nuamos praticando rituais de alimentação em grupos, rituais de sociabilidade, cerimoniais. Assim, a preocupação com a saúde tem aumen- tado e as pessoas buscam, sempre que possível, fazer suas refeições com mais tempo em casa. 31G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R “[...] O Slow Food dedicava-se a combater as depredações do fast food. A meta era esti- mular as pessoas a fazer suas refeições com calma, orgulhar-se do que cozinhavam, ter prazer com o que comiam e apoiar cozinhas e artesãos locais; embora a organização ti- vesse suas raízes na Itália, esses princípios residiam também no coração da cultura gas- tronômica francesa. De fato, o manifesto que lançou o Movimento Slow Food Internacional foi assinado em Paris em 1989. Apesar disso, só em 2003 uma sede francesa foi fundada, e em 2008 havia apenas 1.800 membros, contra 26 mil na Itália e 17 mil nos Estados Unidos (a sede americana foi fundada apenas três anos antes da francesa).” Fonte: Steinberger (2010, p.121) Um dos aspectos que atravessou os séculos da comensalidade e se mantém semelhante é o enfoque dos rituais de banquete dados pelas diferentes classes sociais, os mais ricos sempre têm uma preocupação maior com luxo e estética, enquanto as classes menos abastadas dão mais valor à comida em abundância. Os variados rituais e razões de cada povo para tais rituais alimentares é uma forma de di- ferenciá-los, cada povo com sua crença e modos. Através dos anos, notamos que a comensalidade é sempre vital para estabelecer regras, selar com- promissos, criar vínculos e impor hierarquias. Sendo assim, a mesa acabou sendo – e ainda é – utilizada como forma de analisar a postura do ser humano e o respeito com o ritual de comer, dentro das boas maneiras e do bom senso de cada civilização. A etiqueta na comensalidade finda por mostrar qual a identidade de um ser humano. E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a 33G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Um gastrônomo está corriqueiramente envolvido em eventos, na maioria das vezes por trás dos bastidores, garantindo seu su- cesso. Além disso, estamos envolvidos em cerimônias desde que nascemos – veja o batismo, por exemplo. No meio profissional, você precisa saber elaborar o roteiro de um cerimonial seguindo o protocolo correto, sabendo também se portar com etiqueta e boas maneiras. Para isso, começaremos aqui abordando alguns conceitos e suas especificações. Cerimonial, Protocolo e Etiqueta E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a Conceitos Pense em como funciona um evento. Sempre existe um roteiro, uma programação a ser cum- prida, uma programação pré-estabelecida. Esse roteiro é o que chamamos de cerimonial e proto- colo, e eles devem seguir normas formalizadas. Afinal, situações inesperadas nem sempre são bem-vindas. Começaremos com conceitos de cerimonial: • “Toda solenidade, oficial ou não, segue um planejamento elaborado por um conjunto sequencial de formalidades. A essa sequência de ações nós definimos como: “o cerimonial é a sequência de acon- tecimentos que resultam em um evento” (MEIRELLES, 2002, p.30). • “É a aplicação prática do protocolo, ou seja, as suas regras. Exemplo: cerimo- niais e protocolos oficiais como a troca da guarda do Palácio de Buckingham. Exemplo decerimonial não oficial: fila de cumprimentos em eventos, corte da faixa inaugural em estabelecimentos. A diplomacia está ligada a Cerimonial e Protocolo, sem estes ela não poderia exis- tir. O cerimonial da diplomacia possui regras internacionais” (LUKOWER, 2005, p.9). • “Conjunto de formalidades que se devem seguir num ato solene ou festa pública” (FERREIRA, 2006, p.226). Agora alguns conceitos de protocolo: • “Codifica as regras que regem o cerimo- nial e cujo objeto é dar a cada um dos par- ticipantes as prerrogativas, privilégios e imunidades a que tem direito” (Manuel Pratique de Protocole apud MEIRELLES, 2002, p.30). • “Conjunto de normas jurídicas, regras de comportamento, costumes e ritos de uma sociedade em um dado momento histórico, geralmente utilizadas nos três níveis de governo (federal, estadual e municipal)” (LUKOWER, 2005, p.9). • “4. Formulário regulador de atos públicos. 5. Acordo internacional” (FERREIRA, 2006, p.662). Por fim, os conceitos de etiqueta: • “A etiqueta facilita o convívio entre as pessoas por meio de comportamento adequado a cada ocasião e cerimônia. Não é regulada por leis e decretos, sendo cultural [...]. Assim, afirmamos que ‘eti- queta é o conjunto de regras de boas ma- neiras que resultam no comportamento de pessoas’” (MEIRELLES, 2002, p.30). • “É um conjunto de normas de compor- tamento social, profissional e familiar, que retrata a sociedade em cada época distinta. A etiqueta também indica cos- tumes e hábitos dos povos. [...] A so- ciedade recorre às regras protocolares como referencial, mas a simplificação no 35G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R cerimonial, hoje em dia, é uma tendência mundial” (LUKOWER, 2005, p.9-10). • “1. Conjunto de cerimônias usadas na corte ou na casa de um chefe de Estado. 2. Formas cerimoniosas do trato social; formalidade, protocolo”. (FERREIRA, 2006, p.383). Observamos que um conceito completa o outro: o cerimonial é a solenidade regida por um conjunto de regras – o protocolo –, no qual cada indivíduo deve seguir com o comportamento adequado, a etiqueta. O cerimonial segue procedimentos e ações em um evento, o ritual, e o protocolo normatiza as regras de conduta dos indivíduos participantes. Essas cerimônias são realizadas a partir de normas legais, hábitos e valores cul- tuados no regime do Estado e da comunidade. E por que existe cerimonial e protocolo? Porque é preciso definir rituais, gestos, lin- guagem formal, codificar costumes, formas de tratamento, enfim, determinar procedimentos que designem ordem e evitem desconforto em um evento específico. Lins (1991) estabelece as principais finalidades do cerimonial, sendo elas: Disciplinar Identificar, estabelecer e regular a precedência, adotando as normas protocolares cabíveis. Organizacional / Estética Definir rituais, gestos, honrarias e privilégios e símbolos do poder, representativo da cultura das organizações, das comunidades e da sociedade, ordenando-os sincronicamente, como partes de um evento ou cerimônia. Semiológica Prever a linguagem formal, internacional e diplomática, e as formas de cortesia, de etiqueta profissional e empresarial, de tratamento, de redação e expressão oficial. Pedagógica / Ética Comunicar e ensinar para transmitir valores, forma de etiqueta social e boas maneiras, de acordo com as organizações públicas ou privadas, as comunidades e as culturas e civilizações. Informal / Social Realizar eventos sociais e comemorar datas de toda ordem que propiciem a aproximação e a confraternização entre as pessoas, sem os rigores e formalismos protocolares. Tabela 1. Principais finalidades do cerimonial. Fonte: adaptado de Lins (1991, p.30-31) E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a H á, ainda, uma preocupação para que essas formalidades aconteçam em sua forma oficial, que é o reconhe- cimento da hierarquia primordial; a partir da determinação hierárquica é possível organizar a precedência: A precedência é o ponto crucial e a base do cerimonial. É reconhecer a primazia de uma hierarquia sobre a outra, e tem sido, desde os tempos mais antigos, e em todas as partes, motivo de normas escritas, cuja falta de acatamento pro- voca desgraças. (VILLALTA apud MEIRELLES, 2002, p.37) Agora você deve estar se perguntando: onde é que estão, então, esses protocolos? O ceri- monial formal tem seus rituais embasados em leis, no caso do Brasil, é o Decreto nº 70.274, de 09 de março de 1972, que rege as normas do Cerimonial Público – que sofreu alterações pelo Decreto nº 83.189, de 19 de fevereiro de 1979. O Cerimonial Público apresenta normas que devem ser aplicadas de acordo com a pre- cedência de autoridades, ou seja, cada autori- dade presente em uma solenidade tem uma representatividade de acordo com sua hierarquia e, por ordem, a de mais alto escalão, de maior importância, deve aparecer primeiro, ter desta- que. Por exemplo, sempre que o(a) Presidente da República comparecer em um cerimonial, caberá a ele(a) presidir o evento, pois é a au- toridade de maior nível hierárquico. E assim a precedência será determinada pela função, de acordo com ordem estabelecida pelo Decreto de Lei. Meirelles (2002, p.31) resume: O Cerimonial Público é aplicado no âmbito dos Poderes: • Executivo Federal, Estadual e Municipal • Legislativo Federal, Estadual e Municipal • Judiciário Federal e Estadual O Cerimonial Público é aplicado com normas específicas no: • Cerimonial Militar, na esfera federal Exército, Marinha e Aeronáutica Cerimônia de posse: A presidenta Dilma Rousseff e o vice Michel Temer sobem a rampa do Palácio do Planalto (2010) Fonte: Casal Junior (2011 in WIKIPEDIA, s/d, online) 37G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R • Cerimonial Militar, na esfera estadual • Polícia Militar • Corpo de Bombeiros Cerimonial Universitário • Nas instituições federais • Nas instituições estaduais • Nas instituições municipais • Nas instituições privadas Já o cerimonial informal, ou social, não possui leis específicas. São realizados com base em símbolos e rituais tradicionais, que podem ser alterados, descaracterizando-os ou não. O objetivo desse tipo de evento não é deter- minar poder ou posição, e sim disponibilizar um momento de prazer, uma confraterniza- ção, em que os costumes daquele grupo serão acatados. Como exemplo, podemos citar o casamento, bodas, festas natalinas, aniver- sários, eventos empresariais, entre outros (LUKOWER, 2005). Algumas práticas de cerimonial e protocolo são encontradas em todas as atividades, segun- do Lukower (2005, p.12): 1. Alimentação – o que servir em deter- minada ocasião e evento, a ordem dos pratos e a ordem dos vinhos e bebidas, guardando inclusive as questões alimen- tares religiosas e ritualísticas de cada povo. 2. Linguagem – que assuntos devem cons- tar em uma pauta e como devem ser abordados. Você pode conferir o Decreto nº 70.274, de 09/03/1972, que aprova as Normas de Cerimonial Público e a Ordem Geral de Precedência que devem ser utilizadas nas solenidades oficiais na Capital da República, nos Estados, Territórios Federais e Missões diplomáticas do Brasil no link a seguir<http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/decreto/D70274.htm>. Acesso em: 10 fev. 2015. E as alterações pelo Decreto nº 83.189, de 19 de fevereiro de 1979, estão dispo- níveis em: <http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/decreto/D83186.htm>. Acesso em: 13 fev. 2015. 3. Tratamentos – como referir-se a uma pessoa em função do cargo que ela exerce, como nos dirigimos às pesso- as mais velhas ou hierarquicamente superiores. 4. Vestuário – que traje está de acordo para cada ocasião. 5. Gestual – tipo de saudação, cumprimen- tos, palmas etc. 6. Escrita – preocupação com termos ade- quados e apresentação visual do texto. E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a Cerimonial→ Organização do evento. Protocolo → Regula o cerimonial. Etiqueta → Comportamento das pessoas. Com base nos tópicos anteriores, Civilização e a Etiqueta e Comensalidade, pudemos percor- rer pontos na história onde o cerimonial já era utilizado – tanto na corte da Idade Moderna quanto em civilizações mais antigas –, enfati- zando que não são abordagens atuais, apenas foram se adaptando e aprimorando de acordo com a época. De modo geral, podemos ressaltar que povos egípcios, gregos, chineses, romanos, entre outros, já realizavam rituais come- morativos, fossem os banquetes religiosos ou para o prazer, funerais, eventos ligados a torneios etc. Essa história do cerimonial nos leva a crer que documentos e ilustrações do século XII a.C. já abordavam a etiqueta, sendo considerados os primeiros registros de cerimoniais. Cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de 1896 no Estádio Panathinaiko, em Atenas Fonte: Wikimedia (The opening ceremony of the 1896 Summer Olympics, s/d, online) 39G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Cerimonialista x Mestre de Cerimônias Caro(a) estudante, você sabe qual a diferença entre cerimonialista e mestre de cerimônias? Pois bem, entendidos os conceitos de ceri- monial, protocolo e etiqueta, e suas respectivas importâncias, você deve entender que o ceri- monialista é aquele responsável por organizar a cerimônia, oficial ou não. Ou seja, é aquele pro- fissional responsável por coordenar a cerimônia e seu protocolo, minuciosamente, do começo ao fim. Segundo Meirelles (2002), algumas quali- ficações são esperadas desse profissional, de modo a garantir excelência em seu trabalho. São elas: curso superior (normalmente comunicação social, mas não é uma regra) e pós-graduação (se for em relações internacionais, melhor), cultura geral, domínio de línguas estrangeiras, compe- tência profissional – incluindo interesse e amor pela atividade –, educação e respeitabilidade, responsabilidade, aparência pessoal, postura e bom senso. O cerimonialista é essencial para o desen- rolar correto da solenidade – ou evento –, por isso foi criado um Código de Ética e Disciplina do Cerimonialista, no artigo 8º do capítulo II constam suas competências: Art. 8º São deveres do Cerimonialista: a. Procurar elevar o conceito do Cerimonial; b. Obedecer às normas legais e adminis- trativas que disciplinem o Cerimonial Público; c. Desenvolver seu trabalho, tendo como objetivo maior os interesses da insti- tuição à qual presta serviços; d. Cumprir os compromissos assumi- dos de modo a merecer a confiança de todos; e. Respeitar e fazer-se respeitado, no exercício das suas atividades; f. Auxiliar na área de sua competência o trabalho de despertar da consciência cívica; g. Auxiliar na padronização das ati- vidades do cerimonial, buscando a eficiência e a eficácia do trabalho de- senvolvido por seus pares; h. Agir sempre com lealdade para com os colegas cerimonialistas; i. Emitir juízo sobre programas e ativida- des referentes ao Cerimonial Público, somente após conhecimento pleno de todas as suas circunstâncias; j. Abster-se, quando solicitado, de pres- tar serviços de forma contrária às leis decretos e outras normas correlatas, aplicadas ao Cerimonial Público, bem como de maneira conflitante com as normas estabelecidas pelo Comitê Nacional do Cerimonial Público; k. Zelar pela qualidade do seu trabalho, exercendo-o com dedicação, compe- tência e lealdade; E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a l. Comunicar por escrito ao Conselho de Ética, através de Representação, as transgressões às normas emanadas do CNCP ou aos dispositivos do presente Código de Ética. (Código de Ética: Ato Normativo 08/2000, 2015, on line) Já o Mestre de Cerimônias é aquele que apre- senta o evento, que com sua postura e voz é en- carregado de cumprir o programa da solenidade. Não à toa essa pessoa deve ter boa dicção, bom timbre de voz, domínio de palco e facilidade com improvisos, estar bem informado a respeito do evento e sobre seus participantes, ter boa aparência e vestir-se bem, ser sempre discreto e, acima de tudo, pontual (LUKOWER, 2005). O mestre de cerimônias pode ser um homem, uma mulher ou até um casal. Em al- gumas cerimônias, como eventos culturais, um apresentador pode fazer o papel do mestre de ce- rimônias, mesmo sem ter a mesma formalidade. Cerimonialista → Responsável pela orga- nização da cerimônia – oficial ou não – do começo ao fim. Mestre de Cerimônias → Pessoa com boa dicção e postura que faz a apresentação oral do evento. Mestre de Cerimônias Coronel Dwight Webster - NY 41G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a co ns id er aç õe s fi na is Nesta primeira unidade, traçamos um caminho histórico sobre pontos importantes para o estudo da etiqueta e do serviço de sala. A respeito da ci- vilização, principalmente a da corte, vimos que a realeza soube aproveitar muito bem da divergência de classes que a etiqueta confere à nobreza para manipular a sociedade e se impor ainda mais. O rei deixava que nobres realizassem pequenas funções em seus cerimoniais diários, de modo que os que estavam próximos sabiam que tinham seus interesses guardados, sendo interessante fazer cada vontade do rei para benefício próprio. A comensalidade, desde as primeiras civili- zações, nos mostrou traços de convívio, de união em torno de uma refeição – hábito que temos até hoje. Apesar disso, os costumes divergiam entre os diferentes povos e o ato de comer junto evoluiu. Alguns banquetes já tinham significa- dos relacionados às crenças religiosas, esse é um costume que sofreu modificações de ritual, de cerimonial, porém a finalidade permaneceu – o batismo, por exemplo. Verificamos a evolução da alimentação, os egípcios já fazendo três refeições diárias na an- tiguidade, com fornos simples, assando pães, e os romanos diferenciando banquetes por prazer e por necessidade fisiológica, reconhecendo o prazer no ato de comer. Com isso foi possível analisar a postura do ser humano perante o alimento, criando uma identidade à mesa. No último tópico desta unidade, aborda- mos os conceitos de cerimonial, protocolo e etiqueta, constatando que estes estão ligados entre si e que são necessários para que regras sejam seguidas ao se realizar eventos, princi- palmente de grande porte e de cunho formal. Se há um cerimonial sendo organizado, então há um regulamento a ser seguido – o protocolo estipulado pelas normas de precedência – e as boas maneiras que cada tipo de evento e hie- rarquia de pessoas exige. Esse contexto foi importante para seguir adiante, para entender que o restaurante foi fun- dado por conta da necessidade do ser humano em se alimentar e que a vida social continua exigindo etiqueta, boas maneiras, e que, haja o que houver, normas são estipuladas para que haja padrão e para serem seguidas. 43G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R at iv id ad es d e es tu do1. Os reis das primeiras civilizações realizavam festas com grandes banquetes para estreitar relações com seu povo. Estabeleça um comparativo entre os reis das primeiras civilizações e as maneiras de dominação do Rei Luís XIV, já no século XVII. 2. Defina comensalidade e dê exemplos de aplicação em uma civilização antiga de sua escolha. E nos dias atuais, a comensalidade acontece da mesma forma? 3. O cerimonialista é a pessoa responsável por apresentar uma solenidade, dirigindo todo o encontro/evento. Essa afirmação é verdadeira ou falsa? Justifique sua resposta. 4. Verificamos, nesta unidade, que um evento exige um roteiro, uma pro- gramação a ser cumprida, uma programação pré-estabelecida. Nesse contexto, qual a relação entre cerimonial, protocolo e etiqueta? E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a m at er ia l c om pl em en tar Para saber o que os especialistas comentaram sobre a cerimônia de posse do go- vernador de São Paulo – 06 jan. 2015 – acesse: <https://www.youtube.com/watch?v=lZ_FPZucakU>. Acesso em: 13 fev. 2015. Versalhes: O Sonho de um Rei Thierry Binisti Ano: 2008 Gênero: Documentário / História Sinopse: Um documentário de Thierry Binisti que faz revi- ver o reinado de Luís XIV e os anos durante os quais o rei visionário fez de uma simples residência de caça o mais suntuoso palácio real da Europa: Versailles, um verdadeiro paraíso na Terra, rodeado de maravilhosos jardins. Luís XIV combinou o seu projeto político absolutista com um enorme gosto pelas artes pondo ao seu serviço os maiores talentos da época. Rigorosamente documentado e filmado nos locais este docu-drama retrata a vida deste visionário monarca, a sua relação com as artes e os seus amores. . 45G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R m at er ia l c om pl em en ta rVatel: Um Banquete para o Rei Roland Joffé Ano: 1999 Gênero: Histórico / Drama Sinopse: O ano é 1671 e o rei Luís XIV (Julian Sands) vive em Versailles. No norte da França, o Príncipe de Condé (Julian Giover), enterrado em dívidas, planeja uma solução para fazer com que não só ele mas toda a província fique livre das dívidas: ele decide convidar o rei para passar um final de semana recheado de iguarias e entretenimento. Se o príncipe conseguir cair nas graças do rei, toda a região será salva do desastre econômico. Porém, apenas um homem poderá pre- parar um banquete suntuoso e ainda cuidar da diversão real: François Vatel, o mordomo do príncipe. Mas em meio a todo o trabalho resultante da preparação para a visita real, Vatel se apaixona pela bela Anne de Montausier (Uma Thurman), o que atrapalha os planos do Príncipe de Condé. Comentário: No filme "Vatel: Um Banquete para o Rei" você deve reconhecer o contexto histórico abordado no primeiro tópico, caracterizado pelo reinado de Luís XIV, e notar toda a questão o cerimonial e a etiqueta relacionados ao rei e à nobreza a sua volta. É possível visualizar as características apresentadas sobre a comensalidade e a opulência nos banquetes apresentados. E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a le it ur a co m pl em en ta r O surgimento dos talheres Os talheres, por mais antigos que pareçam ser, nem sempre foram utilizados e até o século XI quase todos comiam com as mãos. Na época, uma pessoa educada, com as devidas boas maneiras, fazia uso de apenas três dedos para levar o alimento à boca. A marca de origem do surgimento dos talheres se dá com a princesa Teodora, de Bizâncio, que se casou com um membro da corte de Veneza, Domenico Salvo. Ela, ao levar seu enxoval para a província italiana, carregou junto um objeto pontudo, com dois dentes, que utilizava para espetar alimen- tos. Eis o primeiro garfo. Este objeto foi considerado uma heresia, pois na época acreditavam que comer com as mãos era um símbolo de respeito para com o alimento fornecido por Deus. Essa imagem não se perdurou e tanto os membros da nobreza quanto os membros da corte passaram a utilizar o talher. A população teve acesso ao garfo um pouco mais tarde, por volta do século XIX, quando o objeto realmente ficou popular. Já a faca, tendo em vista sua função primordial – a de cortar os alimentos – pode ser considerada como talher mais antigo, visto que o primeiro objeto cortante com finalidade de caça e defesa foi criado pelo Homus erectus, há 1,5 milhão de anos. A faca feita de metal só surgiu por volta de 3.000 a.C., na Idade do Bronze. Em contrapartida, a colher foi criada realmente para a utilização à mesa. Alguns registros apontam colheres de marfim, madeira e pedra com mais de 20.000 anos. A diferença é que eram utilizadas em coletividade, ou seja, inicialmente todos utilizavam o mesmo artefato (parecido com uma concha) para jogar caldo sobre o pão, por exemplo. Pode-se afirmar que o talher, con- siderando seu uso individual, cada um utilizando o seu durante uma refeição, seja algo ainda mais recente e foi sugestão do cardeal francês Richelieu que por volta de 1630 já era defensor das boas maneiras. Adaptado de: Como surgiram os talheres? Mundo Estranho [online]. Disponível em: <http:// mundoestranho.abril.com.br/materia/como-surgiram-os-talheres>. Acesso em: 10 fev. 2015. 47G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R le it ur a co m pl em en ta rCerimonial de “AULA MAGNA” em Reserva Indígena foi evento pioneiro no Brasil No sábado, dia 23 de fevereiro de 2013, pela primeira vez no Brasil, na his- tória das universidades brasileiras, aconteceu a cerimônia de uma AULA MAGNA em uma Reserva Indígena. O palco do grande acontecimento foi na Comunidade Vista Alegre, na Região São Marcos, da Etnia, Macuxi, no Estado de Roraima. A cerimônia da Universidade Estadual de Roraima foi presidida pelo Chanceler da Instituição, Excelentíssimo Senhor Governador do Estado José de Anchieta Junior acompanhado do Magnífico Reitor, Professor Hamilton Gondim, mais cinco Doutores honoris causa, a Primeira Dama do Estado, Excelentíssima Senhora Shéridan Anchieta. Com a presença de quase mil índios das etnias wapixana, igaricó, iranha e yekuana e a participação direta das duas maiores autoridades indígenas: o pajé Davi Copenawa, o grande líder dos povos indígenas do Brasil, o mais importante e respeitado de todos (seu “status” é no nível de embaixador). E o Tuxaua Jonas Marcolino, orador da aula magna pro- nunciada na Língua Macuxi com tradução simultânea para o português. O Cerimonial foi organizado e realizado com pompa e circunstância, em trabalho que nos foi confiado, a convite do Magnífico Reitor. O Protocolo foi cumprido, com o rigor do Cerimonial Universitário bem como atentos ficamos com as recomendações do Governador e do próprio Reitor, pro- fessor Hamilton Gondim. O cenário foi o espaço do campo de futebol da Comunidade Vista Alegre, com 600 cadeiras ao centro e arquibancadas nas laterais do campo. Nas extremidades de um lado, o barracão das cerimônias indígenas habituais da comunidade, dando suporte a um palco de grandes proporções e bem estruturado, transformado no dispositivo principal da cerimônia. Muito iluminado, com cinquenta lugares, sendo 17 na Mesa Diretora e os demais nos dois dispositivos de honra, lado a lado da mesa, para as muitas autori- dades convidadas, serviço de som impecável. Ao fundo, um grande painel representando os campos e o verde da região. E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a le it ur a co m pl em en ta r Cinco caminhões, “baús” e uma carreta trouxeram aquela parafernália, armada, montada em três dias. Cinco dias de agitação em Vista Alegre, dos quais participamos naqueles assuntos da nossa competência, organizando o Cerimonial com o pessoal de apoio que nos foi disponibilizado. Quatro índias macuxis, simpáticas e alegres e mais dois tuxauas de apoio. No grande espaço do outro lado (junto à barra do gol), foi armada uma enorme tenda, para apoio da equipe do Cerimonial, local das autoridades e de onde saiu o cortejo de honra, à frente o chefe do cerimonial, Marcilio Reinaux. O Cortejo em coluna dupla: o Governador e o Reitor, seguidos de mais quarenta pessoas (doutores, professores). Após a entrada triunfal do cortejo ao som da música “Aquarela do Brasil”, ao se posicionar na Mesa Diretora, causou um grande impacto e muito aplauso. A Mesa foi composta por autoridades: Governador, Primeira Dama, Reitor, Doutores, dois pajés, tuxauas, Prefeitos, Deputados Federais, Representante do Ministro da Educação, num total de vinte e uma autoridades. Nos lados, duas plataformas como dispositivos de honra com vinte lugares, dez de cada lado. Antes da abertura oficial, uma apresentação de danças especiais com três conjuntos de índios de etnias diferentes em seus trajes típicos, aqueles para grandes ocasiõesfestivas e honrarias para momentos especiais. A parte oficial começou com o Mestre de Cerimônias anunciando a composição Mesa, o Hino Nacional Brasileiro na Língua Macuxi, cantado por um grande coral indígena. Em seguida, anunciamos a banda de música da Polícia Militar do Estado de Roraima, sob a regência do maestro Tenente Ferreira que tocou e todos cantaram o Hino Nacional. Muitos e demorados aplausos da plateia. O hino nas duas versões linguísticas foi uma ovação. O roteiro que cumprimento foi o acadêmico oficial do Cerimonial Universitário específico da Aula Magna, com as falas pré-estabelecidas. Em des- taque aos pronunciamentos do Governador, falando também como Chanceler da Universidade, o Reitor e o Orador da Aula Magna, o tuxaua Jonas Marcolino que discursou em macuxi e em português ele próprio fazendo a tradução a cada parágrafo. Vale registrar que o Tuchau Orador – considerado “Grande Orador da sua Etnia Macuxi”, é Líder de Comunidades, estava impecavelmente 49G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R le it ur a co m pl em en ta r vestido, com as vestes talares, apenas com o rosto pintado, portando o Cocar de Honra. Assim, tais adereços, ficaram coerentes no contexto com o Chanceler, o Reitor e Doutores que usavam o Capelo. Vale registrar que o tuxaua, Jonas Marcolino, é Professor da Universidade, Bacharel dos cursos de Ciências Sociais, advogado e Vice-Prefeito do grande município de Pacaraíma. O dis- curso ficou longo para as medidas acadêmicas em decorrência da duplicidade das línguas. Mas nem por isso deixou de ser aplaudido – e muito. A fala do Governador foi – entre vários enfoques – destacar o papel da Universidade do Estado, adentrando o interior, não só com as Unidades (campi avançado) nos municípios, como também indo aos distantes pontos das comunidades indígenas, em pontos remotos do Estado, levando o ensino, a pesquisa e a extensão disponibilizando para aqueles segmentos o acesso à cultura em níveis mais elevados. No final da sua fala, o Governador/Chanceler disse que o Brasil teve na sua História, duas grandes cerimônias em meio aos índios: “A Primeira Missa no Brasil e esta Aula Magna”, disse Sua Excelência. O Ministro da Educação enviou mensagem especial transmitida pelo seu assessor, professor Marcio Meira, bem como falaram os Deputados Federais Luciano Castro e Marcio Junqueira. Fala especial e de grande repercussão foi a do pajé Davi Copenawa que destacou a relevância do evento pioneiro no Brasil. Vale ressaltar os preparativos, as montagens, providências de muitos segmentos que em um grande esforço enfrentado pela administração, Reitoria da UERR, foram aos poucos vencendo os muitos desafios. A Comunidade Vista Alegre daquela região de São Marcos, da “pátria” macuxi, mesmo com boas estradas de terra batida, persistem as dificuldades da transposição dos Rios Ariuriquera, Tacutu e outros, feitas por balsas, do Governo do Estado, que funcionam a contento dentro da normalidade da vida pacata e calma das comunidades. Em dia festa, como aquele 23 de fevereiro, foram muitas centenas de pessoas – a maioria de índios – egressos de muitos pontos, alguns distantes, como, por exemplo, vários da etnia iranha, Raposa Serra do Sol, Serra da Moça, Leão de Ouro, Auaris e outras. Índios de algumas destas etnias andaram a pé, por caminhos ermos até dois dias de viagem para atender o amplo convite feito pela Universidade Estadual e pelo Governo de E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a le it ur a co m pl em en ta r Roraima. Vista Alegre e as várias centenas de macuxis e outros, assim desta forma festiva, receberam um contingente de visitantes nunca visto antes. Todos nós, sem distinção, fomos tratados com fidalguia. O povo todo como grandes anfitriões. Após a cerimônia da Aula Magna, no barracão mais duas apresentações de danças típicas e muitos cumprimentos. Comida em abundância para toda aquela gente: sopa, paçoca, muita fruta. Refrigerantes e picolé. Um conjunto de Forró Pé de Serra, foi anunciado e começou a tocar lotando o barracão, adjacências e parte do campo de futebol. Diziam vários índios entre si, que o forró só ia parar com o nascer do sol. Aquele da Raposa a Serra do Sol. REINAUX, Marcilio. CNCP.org.br. 2013. Texto extraído na íntegra de: <http://www.cncp.org. br/?p=1411>. Acesso em: 13 fev. 2015. O Restaurante SAMARA FERNANDES A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: • Como surge o restaurante • Tipologias e eventos • Técnicas de serviço • Recordar a história do surgimento do restaurante. • Identificar a composição das diferentes tipologias de restaurante na atualidade. • Definir as características de alguns eventos mais cotidianos ao profissional de Gastronomia. • Entender as diferentes técnicas de serviço em restaurante. • Compreender a importância e aplicabilidade das técnicas de serviço. Plano de Estudo Objetivos de Aprendizagem IntroduçãoIntrodução Prezado(a) aluno(a), Nesta unidade, vamos recordar a história do surgimento do restaurante, dessa forma, re- conheceremos como ocorreu a evolução para que o serviço de alimentação chegasse ao que é na atualidade. Esse tópico completa os dois primeiros da Unidade I, afinal, agora que entendemos a comensalidade, a importância que o homem sempre deu à alimentação em grupo e como a civilização utilizou e evoluiu com relação à etiqueta, só nos falta percorrer o caminho de como os comensais pensaram em abrir suas portas a outras pessoas e de onde vem nossa maior in- fluência na Gastronomia. Recordando a história do surgimento do restaurante, passaremos à identificação dos seg- mentos de restaurantes existentes no mercado atual, caracterizando cada um para que você consiga diferenciar um estabelecimento do outro. Você vai ver em outra matéria que isso será importantíssimo para elaborar um cardápio. Além disso, o profissional de Gastronomia se depara o tempo todo com eventos, por isso, definiremos os mais corriqueiros no cotidiano. Na próxima unidade, você vai explorar as montagens de mesa, como a etiqueta trabalha nesse aspecto e reconhecer a diferença entre tipologias e eventos que se faz importante para não cometer uma gafe no futuro. E para completar o início do serviço de sala, não poderiam faltar as técnicas de serviço. Você verá que reconhecer as características de um restaurante é importante também para definir que tipo de serviço será utilizado, afinal, nem todo restaurante serve empratado, assim como nem todo restaurante vende porções e serve em travessas. Um restaurante é mais luxuoso, outro é mais simples. E as diferenças continuam a existir e se fazem importantes para o mercado e para a economia, então, cabe a nós, profissionais da área, adequarmo-nos a essas opções. Vamos lá, você já deve estar ansioso(a) para começar! 53 E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a 55G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Estamos tão acostumados com o modelo atual de restaurante que, muitas vezes, pensamos que essa é uma instituição muito velha – o que não é verdade. O restaurante como o conhecemos atualmente surgiu em meados do século XVIII, ou seja, estima-se que sua idade não ultrapasse uma média de 260, 270 anos. E o que é restaurante? Por definição, é um “estabelecimento onde se preparam e servem refeições”, segundo Ferreira (2004, p.704), no Minidicionário Aurélio da Língua Portuguesa. Mas será que foi sempre assim? O restaurante é realmente um estabe- lecimento no qual, mediante pagamento, você se senta e faz uma refeição – seja ela trivial, mesmo que de sabor agradável, ou mais elaborada e com requinte, com proposta diferenciada. Porém, por trás dessa instituição, há uma bagagem histórica e é nela que vamos embarcar! Como surge O Restaurante E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a O que podemos considerar como as origens do restaurante – um localdestinado ao serviço da alimentação – começou com mercados e feiras que obrigavam os camponeses e artesãos a ficarem fora de casa por vários dias, e isso ocorre desde a pré-história. Enquanto estavam fora, acabavam estabelecendo relações sociais, fosse de amizade ou apenas comércio, pois precisavam se alimentar enquanto viajavam. Nesse contexto, era um lugar normalmente afastado da cidade, nos entre- meios das estradas ou mesmo em zonas rurais. Apesar disso, o crescimento dessas relações aconteceu quando ficou mais ligado ao meio urbano. Em algumas civilizações, na Antiguidade, já se encontravam estalagens ou postos de correio que tinham essa finalidade (PITTE apud FLANDRIN; MONTANARI, 1998). O Chef, autor desconhecido, século XVII. Fonte: Wikimedia (s/d, online) 57G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R As Tabernas Há registros da Antiguidade de que na Mesopotâmia, por volta do segundo milênio a.C., já existiam instalações chamadas de tabernas. As tabernas eram frequentadas por viajantes e por pessoas da redondeza, onde se podia comer e beber, diz-se, em boa companhia. Normalmente, homens é quem frequen- tavam esses lugares e eles, em sua maioria, eram dirigidos por mulheres, conhecidas como “taberneiras”. No Código do Rei Hamurabi da Babilônia (1792-1750 a.C.) já aparecia a figura da taberneira, afirmando que elas deviam relatar sempre às autoridades as opiniões políticas que eram discutidas em sua frente, tendo consciência de que a taberna era vigiada pela administração real, como relata Joannès (apud FLANDRIN; MONTANARI, 1998). O autor conta, ainda, que várias sentenças estavam prescritas, incluindo parágrafos sobre formas de pagamento e deveres da comerciante. Se uma taberneira não quiser receber cevada como pagamento da cerveja, mas dinheiro com a cotação mais alta, ou se ela reduzir a quantidade de cerveja com comparação a quantidade de cevada, esta taberneira será obrigada a aceitar e será jogada na água (§108). Se uma taberneira vender fiado uma jarra de cerveja, poderá exigir cinquenta litros de cevada na colheita (§111). (Código do rei Hamurabi in JOANNÈS apud FLANDRIN; MONTANARI, 1998, p.58) Alguns textos do primeiro milênio mostram que nas tabernas era comum o consumo de álcool de tâmaras fermentadas, fabricado pela taberneira – que normalmente tinha equipamento para produção de cerveja –; a comida era da horta próxima e, no fim das refeições, era possível ir para um quarto com companhia feminina. E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a Taberna holandesa com seis homens bebendo e fumando. Fonte: Wellcome Library (s/d, online) 59G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Na Epopeia de Gilgamesh aparece a taber- neira mais famosa da história, pois marca a fronteira simbólica entre o mundo civi- lizado e o mundo desconhecido, mais ou menos místico. “Ao lado do mar ela vive, a mulher do vi- nhedo, a fabricante de vinho. Siduri fica sentada no jardim à beira do mar, com a tigela e os tonéis de ouro que os deuses lhe deram. Ela está coberta por um véu e, de onde se encontra, vê Gilgamesh se aproximar, vestindo peles, com a carne dos deuses no corpo, mas com o deses- pero no coração. Seu rosto era como o de alguém que chegou de uma longa jorna- da. Ela olhou e, observando com aten- ção o que se passava a distância, disse para si mesma: ‘Trata-se sem dúvida de um criminoso; aonde estará indo?’ E ela fechou o portão com a tranca e passou-lhe o ferrolho.” Trecho explicativo: “Ela [Siduri] também é chamada Sabit, que, antes de tornar-se um nome próprio, significava ‘taberneira’. [...] Siduri é uma figura enigmática, nunca explicada, mas sua linguagem é semelhante à de Circe, que era filha do Sol. [...] Siduri é partidária da ‘filosofia’ do comer, beber e ser feliz ‘pois isto também é o destino do homem’”. Fonte: Autoria Desconhecida (2001) V ale lembrar que, além das taber- nas, as cozinhas de rua sempre se fizeram presentes durante a história: vendedores móveis que servem comidas simples, pratos prontos a um pequeno custo. Ao final do século XVIII, na Europa – espe- cialmente na França –, alguns estabelecimentos destinados à venda de bebidas alcoólicas (vinho, cerveja e aguardente) também comercializavam alguns pratos simples e baratos, preparados no próprio local. Esse tipo de comércio, explica Pitte (apud FLANDRIN; MONTANARI, 1998), costu- mava ser barulhento, propenso a brigas e servir alimentos populares, nunca pratos elaborados. Para beber com requinte, era preciso frequentar um café, gênero que surgiu no século XVII e que servia, além de café, chá e chocolate – bebidas exóticas à época – e ainda bolos e sorvetes. Havia algumas boas estalagens, especialistas em carnes assadas e traiteurs italianas, onde se podiam provar pratos realmente cozidos, mas essas butiques serviam vinhos de má qualidade e seu público era mais popular. Em contrapartida, algumas tabernas em Londres, em meados do século XVII, tinham uma abordagem diferente. Esses locais vendiam iguarias e o público não era simples viajantes e comerciantes, e sim homens da alta burguesia e da aristocracia parlamentar. Nada de vinho barato, ali serviam vinhos de qua- lidade num ambiente luxuoso e bem decorado (PITTE apud FLANDRIN; MONTANARI, 1998). E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a O Restaurante No primeiro tópico da Unidade I, discutimos a respeito da civilização da corte, como Luís XIV fazia uso da etiqueta para manipular seu povo e manter sempre seu luxo. Não comentamos, porém, seus hábitos alimentares. Desde sua época, a nobreza francesa passou sempre a re- sidir no palacete construído por ele, o Palácio de Versalhes. Lá, permaneciam sempre os me- lhores cozinheiros, costume que foi mantido mesmo depois do rei. Pitte (apud FLANDRIN; MONTANARI, 1998) nos mostra que foi nesse meio, de sofisticação da alta cozinha francesa da corte, que a cozinha passou a ser mais bem qualificada e inacessível ao povo. Porém, algumas mudanças começam a ocor- rer por volta de 1765, Pitte (apud FLANDRIN; MONTANARI, 1998, p.755) nos conta que: [...] um certo Boulanger, [...] abre uma butique nas proximidades do Louvre [...]. Vende aí “restaurants” ou “caldos restau- radores1”, isto é, caldos à base de carne propícios a restaurar as forças debilitadas. Desde o final da Idade Média a palavra “restaurant” designa esses caldos ricos que incluem carne de aves e boi, diver- sas raízes, cebolas, ervas e, segundo as receitas, especiarias, açúcar-cande, pão torrado ou cevada, manteiga, assim como produtos de aparência insólita quanto pétalas secas de rosa, passas, âmbar, etc. 1 No original, “bouillons restaurants”. Boulanger não parou por aí, ainda inscreveu em sua fachada a sentença retirada da Bíblia: “Venite ad me omnes qui stomacho laboratis et ego vos res- taurabo”2 e começou a elaborar outros preparos, como pé de carneiro com molho branco, o que ultrapassava o limite dos caldos restauradores. Isso deixou os donos de traiteurs revoltados, porém, o parlamento encorajou a nova profissão (PITTE apud FLANDRIN; MONTANARI, 1998). Note que tudo começou como uma “casa de saúde”, com um caldo que tinha como função, ou apelo, reestabelecer as forças de pessoas debili- tadas – ou aqueles que se considerassem assim. A realidade é que as pessoas que tinham posses e queriam mais atenção e conforto evitavam fre- quentar tabernas e buscavam locais mais calmos para fazer uma refeição, fazendo com que o número de restauranteurs crescesse, agregando mais requinte às preparações e transformando o ambiente: mesas mais bem cuidadas, com to- alhas e, até mesmo, salas reservadas individuais ou para grupos. “As iguarias disponíveis estão inscritas numa folha com moldura; além disso, no final da refeição apresenta-se ao cliente a ‘nota a pagar’, isto é, a conta”, essa afirmação de Pitte(apud FLANDRIN; MONTANARI, 1998, p.756) remete às primeiras aparições de menu/ cardápio. 2 Livre tradução: “Vinde a mim todos cujo estômago está a trabalhar e restaurá-los-ei”. 61G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Devo ressaltar que essa é uma das versões da história, alguns autores não aceitam Boulanger como protagonista dessa jornada, apenas como um sortudo que teve destaque. Aqui, vamos levar adiante o que nos conta Jean-Robert Pitte (apud FLANDRIN; MONTANARI, 1998), em História da Alimentação. Em meio a isso, acontece a Revolução Francesa, que acabou desempregando muitos bons cozinheiros da corte e da nobreza, pois o patrão da maioria acabou refugiado ou gui- lhotinado, o que enalteceu os restauranteurs. Isso deu possibilidade a muitos de provarem Cozinha de Grande Taverne de Londres, foi consagrado um dos melhores restauranters de Paris por anos. Fonte: Beauvilliers (1814, in WIKIMEDIA, s/d, online) a alta cozinha da corte, haute cuisine. Mas o nome restaurante ainda não aparece nessa forma, ele só é oficializado como referência a esses estabelecimentos em 1835, quando o Dictionnaire da Academia acrescentou o ver- bete nesse sentido. Ao longo do século XVIII, o nível e o número de restaurantes só aumentaram, aniquilando as tabernas que vendiam bebidas de má qualida- de. O perfil do lugar sofreu alterações também, chegando ao patamar de apresentar mesas bem postas, com toalha, pratos bonitos e quadros da moda pendurados nas paredes. E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a O rei dos cozinheiros Depois de conhecermos o contexto por trás do termo restaurante, quero convidá-lo(a) a conhe- cer um pouco da vida daquele que foi reconhe- cido com o primeiro chef da história. O ano é 1791. Com apenas 8 anos, em plena Revolução Francesa (1789-1799), Marie- Antoine Carême (1783-1833) era apenas um menino pobre abandonado pelos pais nas ruas de Paris, sendo adotado por um cozinheiro. Aos 17 anos, o garoto larga o taberneiro para ser aprendiz de Silvain Bailly, dono de uma co- nhecida confeitaria parisiense. Segundo Freixa e Chaves (2008), o local era frequentado pelo príncipe e diplomata Talleyrand. O príncipe não demorou a notar o talento do jovem e sugerir que Antoine se fazia mais filho de seu tempo que de seu próprio pai (KELLY, 2005). Numa época em que as cozinhas ficavam abaixo do nível da rua, a umidade, o escuro e o monóxido de carbono provenientes da queima do carvão do fogão já prejudicavam a saúde do jovem aprendiz. Porém, não relutante, Carême preocupa- va-se em estudar arte e arquitetura, aplicando seus novos conhecimentos à confeitaria (KELLY, 2005). De acordo com Steinberger (2010), e como visto anteriormente, a queda do antigo regime por conta da Revolução Francesa levou ao surgimento de um grande número de restau- rantes em Paris. Nesse mesmo período, com toda a pompa que a França levava a respeito da gastronomia, Carême consegue ser reconhecido internacionalmente como o primeiro chef, o cozinheiro dos reis e rei dos cozinheiros. Carême cresceu numa época em que a sopa era a comida saudável da moda, e mais tarde, durante a vida, sempre foi categórico em afirmar que toda refeição deveria começar com uma sopa. Para ele, essa era uma questão tanto de filosofia e de medicina quanto de culinária [...] ele chamou seus menus que tinham a sopa como base da nouvelle cuisine (KELLY, 2005, p.37). Nouvelle Cuisine. Temos aqui a primeira deno- minação relacionada à revolução em matéria de comida por aspiração de Carême, que bus- cava modernizar e popularizar a haute cuisine. Kelly (2005) afirma que, apesar da sopa ser a base da alimentação francesa, os confeiteiros da época é que eram as estrelas. Steinberger (2010) explica que o chef pâtissier enfatizava o uso de ingredientes da estação, continuou com a tendência de substituir condimentos fortes por ervas frescas e buscava complemen- tar os sabores da carne com temperos, e não dominá-las. Antoine foi quem classificou os molhos, tão famosos na gastronomia francesa, em quatro categorias – ainda utilizadas atualmente –, chamando cada um de molho-mãe: alleman- de (gemas de ovo e suco de limão), béchamel 63G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R (farinha, leite, manteiga, sal e noz-moscada), velouté (fundo leve de peixe ou de carne e roux claro) e espagnole (fundo de carne, roux escuro e mirepoix). “Preocupado com a higiene e as condições de trabalho na cozinha, foi ele também quem institucionalizou o uso do uni- forme branco de cozinheiro e o toque blanche, a famosa ‘touca branca’ do chef”, afirmam Freixa e Chaves (2008, p.133). Isso mesmo, esse uni- forme que você tem que usar em aulas práticas para elaborar seu portfólio. Não deixe de assistir aos vídeos da dis- ciplina de Habilidades de Cozinha sobre a produção passo a passo destes molhos clássicos, como o bechamel, velouté e o espagnole. Pratique sempre! Steinberger (2010) aponta a importância de Carême à história literária por ter dado abertu- ra a temas que transformaram comida em ma- téria-prima intelectual, possibilitando, assim, que chefs como Jean-Anthèlme Brillat-Savarin e Alexandre Grimond de La Reynière continu- assem seu trabalho, verificando a importância de alimentar o corpo e o cérebro. Aos 48 anos, Marie-Antoine Carême fale- ceu. Em constante contato com os gases tóxi- cos do carvão dos fornos, acredita-se que o tão genioso chef, cuja morte foi prematura, tenha sido vítima de câncer de pulmão. Estima-se que um de seus últimos jantares, já doente, tenha sido realizado em 6 de julho de 1829, para uma família de judeus emergentes em Paris na época (KELLY, 2005). E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a O Turismo e a atualidade No final do século XIX, quando as viagens de lazer come- çaram a ser frequentes na Europa – graças ao desenvol- vimento dos transportes rápidos – a arte da alimentação sofre novas modificações. Nesse contexto, os profissio- nais da área decidem abrir palaces3 que eram capazes de atender não só a aristocracia, mas a burguesia também. Nesses hotéis luxuosos, o conjunto era completo, comia- -se bem, a louça era requintada e o serviço de qualidade. Essas construções foram possíveis graças à junção de dois profissionais: César Ritz, suíço que comandava uma rede de hotéis, com Auguste Escoffier, cozinheiro francês vi- sionário e famoso da época (PITTE apud FLANDRIN; MONTANARI, 1998). Inicialmente, esses hotéis espalharam-se pelo mundo, mas seguiam sempre as ordens francesas, com ingredientes de origem francesa e cozinheiros franceses. Porém, a miscigenação de culturas e curiosidade por novos ingredientes começam a atrair esses cozinheiros e a cozinha francesa em hotéis já não era mais regra. No século XX, houve uma grande evolução de res- taurantes, incluindo locais para refeições rápidas e in- dividualistas. E como afirma Pitte (apud FLANDRIN; MONTANARI, 1998, p.762), “não adianta culpar a América, mãe da fórmula do fast-food que arrasta multidões [...] se a fórmula é bem sucedida, é porque corresponde a certas necessidades”. 3 Palaces: grandes hotéis de luxo. 65G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a 67G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Agora que revivenciamos a história de como o restaurante surgiu, tido assim como vemos hoje, aprofundaremos nosso estudo às tipologias de restaurantes existentes e, em seguida, a eventos. Tipologias e Eventos E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a Tipologias de restaurantes Temos perfis de clientes diferentes na atualidade e precisamos suprir essas demandas. Com essa finalidade, vamos identificar as características que compõem um estabelecimento que se des- tina à produção e venda de alimentos, de modo que sejam distintos entre si. Utilizaremoscomo embasamento teóri- co alguns autores que podem contribuir com o estudo, são eles Ana Lukower (2005), Ione Teichmann (2000), Luiz Carlos Zanella (2007), Marcelo Traldi Fonseca (1999) e Ronaldo Morado (2009). Restaurante Tradicional O foco do restaurante tradicional é agradar o máximo de clientes possíveis, ou seja, agradar paladares diversificados. Para isso, costuma apre- sentar um cardápio extenso, porém com prepa- rações tradicionais. É um local de apresentação simples, sem muito luxo ou sofisticação tanto no quesito decoração quanto louças. É o tipo de estabelecimento que agrada pessoas de idades diferentes, com gostos e costumes ecléticos. Restaurante Internacional Os restaurantes internacionais costumam ser en- contrados em hotéis de grande porte ou em hos- pedarias. A característica principal é o cardápio inspirado em preparações reconhecidas interna- cionalmente, principalmente a cozinha francesa e italiana clássica, do preparo mais simples ao mais sofisticado. Normalmente, não é um cardápio muito inventivo, e sim padronizado, podendo apresentar algumas exceções. Considerando que os hóspedes costumam ser de culturas diferentes, viajantes, turistas, isso é feito justamente para que ele se sinta confortável, com refeições de seu conhecimento, não resultando em grandes experiências gastronômicas. Sendo assim, o custo é mais elevado por con- sequência da mão de obra especializada e de pro- dutos diferenciados. O ambiente é mais sóbrio, elegante, decorado com luxo, utensílios de qua- lidade superior, com música ambiente – alguns apresentam um piano ou até um piano-bar. Um grande diferencial desse tipo de restau- rante é a carta de vinhos. Esta costuma ser vasta, com vinhos variados em casta, qualidade e preço. “A expressão culinária à francesa indica que a cozinha é inspirada em receitas clás- sicas, mas menos apegadas às tradições”. (TEICHMANN, 2000, p.39) 69G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Restaurante Gastronômico O grande destaque do restaurante gastronômico é o chef de cozinha de renome com um cardá- pio sempre criativo. Nesse tipo de estabeleci- mento, o serviço de sala e a brigada de cozinha devem ser treinados e apresentar excelência. A decoração do pequeno salão – de dimensões menores, com 60 a 80 lugares, sem extrapolar 120 – é elegante e normalmente conta com um sommelier para elaborar e apresentar a carta de vinhos – essa figura também se faz importante para manter o estoque em ordem e incentivar a venda de vinhos. Nos restaurantes gastronômicos, como a figura do chef é imprescindível e o estabeleci- mento costuma atender um número reduzido de pessoas, esse costuma frequentar esporadi- camente o salão e atender os clientes pessoal- mente, tornando a experiência mais pessoal. Há, ainda, a possibilidade de ser sugerido um menu degustação – menu com mais opções, de 7 a 14 produções, já composto por entradas, pratos principais e sobremesas, fechados por um preço só –, no qual o chef pode demonstrar seu talento e oferecer ao cliente uma experiên- cia gastronômica que vai além de uma simples refeição. Esse tipo de menu costuma ser de co- zinha contemporânea, com preocupação com a sazonalidade dos ingredientes, combinações de textura e cor. Esses restaurantes têm um público conhecedor, de perfil diferenciado, que aprecia Gastronomia. O Guia Quatro Rodas compilou em 2014 um ranking gastronômico no Brasil e listou os 50 melhores restaurantes do país. Dos 10 primeiros, seis são restaurantes gas- tronômicos de cozinha contemporânea. São eles: 1º: D.O.M. – Chef Alex Atala 2º: Mani – Chef Helena Rizzo e Daniel Redondo 4º: Roberta Sudbrack – Chef Roberta Sudbrack 7º: Mahalo – Chef Ariani Malouf 9º: Floriano Spiess Cozinha de Autor – Chef Floriano Spiess 10º: Epice – Chef Alberto Landgraf Você encontra o ranking completo no link: <http://viajeaqui.abril.com.br/guia4rodas/es- pecial/ranking-50-restaurantes-brasil-guia-qua- tro-rodas>. Acesso em: 13 fev. 2015. E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a Restaurantes de Especialidades Os restaurantes de especialidades, como o nome diz, são especialistas em um fator que dá relevância ao estabelecimento – seja um método de cocção, uma região, um país ou uma preparação. O cardápio é específico sobre a especialidade, por isso a qualidade tem um nível elevado. Vamos conceituar alguns dos restaurantes de especialidades, são eles: Típicos A culinária de um país específico pode ser a especialidade da casa, por exemplo, restaurante japonês, italiano, francês, chinês etc. Também pode ser de alguma região específica, seja do Brasil ou de outro país, como baiana, mineira, romana (Itália), napolitana (Itália) etc. Em ambos os casos a decoração deve apresentar características do lugar ao qual remete a imagem turística, caracterizando a especialidade do restaurante. No cardápio, dá-se preferência à utilização de produtos originários da região ou do país, resgatando a cultura. Os restaurantes típicos também podem ser especializados em um gênero de um país ou de uma região, por exemplo, uma churrascaria à moda do sul do Brasil. Nesse caso, a especialidade é o formato de churrasco feito nessa região do país, porém não se refere à cultura gastronômica total do local. Outros exemplos de gênero: vegeta- riano, vegano, crudivorista. Grill Os restaurantes do tipo grill são especializados em grelhados. Apresentam um ambiente elegante, bem decorado; no cardápio, cortes nobres de carne, guarnições mais elabora- das, mesa de frios farta saindo do trivial (frutos do mar, legumes, queijos e presuntos de qualidade). Nesses estabelecimentos, é possível compor uma refeição mais leve e balanceada do ponto de vista nutricional e dietético, afinal, o grelhado não utiliza muito óleo para cocção. Choperias Adaptação das brasseries1 europeias, esse tipo de restaurante é especializado no ser- viço de bebidas, principalmente a cerveja e o chope. O cardápio oferece refeições mais simples e com elevado número de frituras. Esse tipo de estabelecimento pode ser de 1 Brasserie: negócio de chope típico da Braviera; chegou ao Brasil através dos imigrantes alemães. 71G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R pequeno a grande porte, acomodando de 50 a 500 pessoas. A rotatividade não é alta, pois o ambiente costuma ser frequentado por grupos de amigos, porém, o gasto é mais elevado graças ao consumo de bebidas. Além das choperias mais comuns – que trabalham com variados tipos de cerveja ou de chope, incluindo marcas diversas e conhecidas –, há um segmento originário deste que está em grande difusão atualmente no Brasil: as microcervejarias. Estas também são especializadas no serviço de bebidas, porém, seu grande diferencial se faz na produção própria do chope servido. Em alguns países, essa denominação é relacionada apenas à quantidade de litros de cerveja produzida mensalmente, porém, essa concepção vai além da capacidade de produção. No Brasil, as microcervejarias estão ligadas ao produto feito em si, ao resultado da produção artesanal e sensorial da bebida, visando sempre a qua- lidade e colocando em evidência – na maioria das vezes – a figura do mestre cervejeiro (responsável pela receita da bebida). Fusion Food Os restaurantes de fusion food são especializados na fusão entre elementos de várias culturas em um mesmo preparo. Essa mescla pode acontecer com o método de cocção, apresentação do alimento, molho ou ingrediente, da qual se espera um resultado único, inovador e surpreendente. É necessário mão de obra especializada, para que os ingre- dientes sejam trabalhados da melhor maneira possível, sem exageros. Fast Food Restaurantes de fast food2 têm como especialidade principal a agilidade no serviço, como o nome diz, deve ser rápido. Nesse contexto, você não deve relacionar apenas lanchonetes do tipo McDonald’s à tipologia, o significadoaqui é mais amplo. Alguns exemplos: • Cafés ou Coffee Shops – cardápio composto por bebidas quentes e frias, na maio- ria à base de café, com refeições mais rápidas e à base de massas, como salgados assados e fritos, tortas e lanches. Como sobremesa, costumam oferecer bolos, tortas e sorvetes. O ambiente é simples, aconchegante, de pequeno ou médio porte. Para público variado, depende da localização. 2 Fast food: comida rápida. Livre tradução. E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a • Lanchonetes – ambiente simples, com cardápio focado em sanduíches – em alguns casos pequenas porções e petiscos também –, com serviço informal. Esse tipo de estabelecimento visa alta rotatividade. • Self-Service – neste tipo de restaurante, além da alta rotatividade ser um fator crucial, o cliente é que se serve, reduzindo custos para o estabelecimento e o preço para o consumidor. O público são pessoas que não possuem tempo para longas refeições, por isso, costumam estar localizados em centros comerciais. O cardápio é sempre variado, apresentando até 24 preparações. Starbucks Coffee 73G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Restaurantes de Coletividade Os restaurantes de coletividade visam atender um número grande de pessoas ao mesmo tempo e é comum em indústrias e grandes empresas. Sendo assim, o público é o mesmo diariamen- te: os trabalhadores daquele lugar; ou seja, o cardápio deve ser balanceado, atendendo às necessidades calóricas de acordo com o tipo de função exercida no local. Empresas pequenas não costumam trabalhar sob esse sistema, pois o vale refeição acaba sendo mais acessível. A refeição costuma ser apresentada ao estilo self service; são sempre refeições simples, porém, com cuidados nutricionais. Em algumas empresas, a refeição já é um auxílio incluso, em outras, o funcionário paga um valor simbólico. Esses restaurantes de coletividade podem ser da própria empresa, por convênio com uma fornecedora de alimentos – disponibiliza o salão e a cozinha, mas não produz o alimento no local –, por arrendamento do restaurante a uma empresa especializada ou, como já foi citado, a empresa opta por fornecer vale refei- ção. As cantinas de empresas e escolas também podem ser consideradas como restaurantes de coletividade. Além desses modelos, existem as empresas conhecidas como catering, aquelas responsáveis por preparar alimentação para ser consumida em meios de transporte que não viabilizam uma cozinha para tal – como trens e aviões. Esse tipo de empresa tem grande cuidado com higienização e, atualmente, há a preocupação cada vez maior com a figura do chef de cozi- nha junto de um nutricionista para elaboração de cardápio, pois o público está ficando mais exigente e é preciso preocupar-se em manter o sabor do alimento depois de armazenado e embalado. Afinal, esse alimento é previamente elaborado e produzido, na hora de seu consumo será apenas reaquecido. Catering aéreo. C onhecemos também os bufês, esses tão conhecidos que realizam eventos. Apesar de não ser um restaurante pro- priamente, exercem a mesma função, com a diferença de que o cardápio é estipulado de acordo com a festa, coquetel ou banquete, e eles servem a refeição a domicílio, em locais E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a direcionados pelo contratante e, muitas vezes, no seu próprio salão. Pensando assim, notamos que o proprietário de um bufê diminui seus gastos na produção de alimentos, pois faz de acordo com número de pessoas a ser atendido. Além disso, por terem número grande de uten- sílios, muitos desses estabelecimentos também alugam as peças separadamente – aumentando a possibilidade de renda. Você consegue se lembrar do último res- taurante no qual esteve? Em que tipologia ele se encaixa? Personal Chef A instituição do Personal Chef é ele mesmo, seu trabalho é levar o restaurante da forma mais particular até seu cliente, cozinhando em sua casa, para um casal, para um grupo de amigos, para jantares ou festas. O chef atende pequenos e grandes eventos, é responsável pela elaboração do cardápio – do qual se espera inovação e criatividade –, adapta-se aos mais 1 Ele descobriu o valor emocional da comida; 2 É mais informado sobre alimentação; 3 É mais crítico e exigente e sabe de seu valor como consumidor; 4 Entende que comer não é só uma necessidade biológica, mas prazer; 5 Também está mais preocupado com a saúde: dieta equilibrada, higiene e boa qualidade. Tabela 2. Perfil do cliente atual. Fonte: Teichmann (2000, p.40) inusitados locais, deve manter a aparência, usar sempre o uniforme e ser asseado. Sua função principal é conhecer os gostos do clien- te e atender suas necessidades de forma ímpar. Sendo um serviço de tamanha versatilidade do cozinheiro, os preços cobrados são mais elevados. Regras básicas sobre o perfil do cliente atual: 75G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R PUB Pubs são bares de origem inglesa. Alguns estabe- lecimentos de funções diferentes na história do Reino Unido se uniram ao longo do tempo, até que ao final do século XIX a convergência resul- tou em um tipo específico de estabelecimento, que ficou conhecido como public house3, hoje mundialmente chamado apenas pela abreviação pub. Condiz com ambiente fechado, com hora para abrir e para fechar, cujo foco é oferecer bebidas, principalmente alcoólicas. Apresenta um cardápio reduzido, geralmente com porções simples, ambiente pequeno e preços baixos. A tradição do pub aponta a um lugar aco- lhedor, pelo ambiente em si, com arquitetura e decoração harmoniosas, a fim de transmitir sensações de aconchego e privacidade. Taberna é uma das vertentes de origem dos pubs, o que incita um ambiente mais voltado ao público masculino. Essa situação já não é mais vista atualmente, sendo que, no Brasil, esse tipo de estabelecimento foi adaptado à nossa cultura, não sendo também tão intimista quanto em alguns países por aí afora. Ainda assim, algumas características são es- pecíficas e se mantêm, a atmosfera esfumaçada – mesmo com a proibição do cigarro em lugares fechados, as cores do ambiente traduzem essa sensação –, a decoração sóbria com bastante uso de madeiras, grande apelo visual voltado 3 Public house: casa pública ou coletiva (livre tradução). a marcas de bebidas, rótulos e propagandas do segmento – bem como venda de souvenires, copos e garrafas –, além das torneiras de chope dispostas à frente do cliente. No Brasil, uma das vertentes de pub que mais se difundiu foi a versão irlandesa, o Irish pub, que é muito associado a boa música – normalmente rock e ao vivo – e a cervejas de qualidade reconhecida, principalmente as irlan- desas Guinness, Harp, Murphy’s e Beamish. E, apesar de ser comum a restrição de horário de funcionamento dos bares em muitos países, principalmente com relação à venda de bebidas alcoólicas, não é um problema enfrentado no nosso país, o que agrega mais liberdade ao estilo do estabelecimento. Além das tipologias citadas, de qual mais você consegue lembrar? Vou dar uma ajuda: restaurante hospitalar, casas no- turnas, docerias, casas de chá, rotisserie, sorveterias, casas de sucos e vitaminas. E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a Eventos Cada tipo de evento tem uma função específica e atende públicos diferentes. Além disso, alguns fatores são essenciais para definir como um evento deve ser, como a verba destinada para tal, espaço físico do local, número de convida- dos e seu perfil, o que está sendo comemorado e se há costumes diplomáticos entre as partes – anfitrião e convidados. Um evento deve ser pensado nos mínimos detalhes. Café da Manhã Eventos realizados no café da manhã devem ser de curta duração, algo que não ultrapasse 2 horas e comece bem cedo – por volta de 8h. Normalmente, é servido em forma de buffet,com garçons para servir as bebidas. O cardápio é trivial, não podem faltar pães, torradas, biscoi- tos, manteiga, queijos, geleias, iogurtes, frutas secas e frescas, cereais e, em alguns casos, até mesmo ovos mexidos e panquecas. Com relação às bebidas, as mais esperadas são café, chá, leite, chocolate e sucos frescos. Além de salões que são alugados para eventos, hotéis comportam bem esse tipo de evento. Almoço Banquete O banquete, nesse sentido, não diz respeito ao número de pessoas presentes no evento, e sim se refere ao requinte nos preparos e ao número de pratos – compostos no mínimo por entrada, prato principal e sobremesa. Cada prato costuma ser servido individual- mente, sendo que é raro um almoço banquete ser ao sistema buffet de funcionamento. É indicado que, além da carne vermelha para o prato principal, haja opção de prato com frango, peixe ou completamente vegetariano, por conta da tendência atual. Nesse tipo de evento, é comum que o cerimonial seja mais elaborado. É comum que seja servido, além do vinho, champanhe, água e, às vezes, refrigerante. Se o evento for mais formal e o convite estipular o início com horas antes de marcado o almoço banquete, é interessante que haja uma mesa com aperitivos, para os convidados que chegam primeiro. A escolha do cardápio depende do pú- blico – avalia-se o número de mulheres, homens e perfil do grupo em geral. 77G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Brunch A denominação brunch provém da junção de breakfast e lunch (café da manhã e almoço, respectivamente, em Inglês). Não à toa, é um evento que acontece em horário intermediário ao café da manhã e o almoço, geralmente entre 10 e 11 horas. Sendo assim, a escolha do car- dápio deve ser também cautelosa, condizente com o horário. A sugestão é de servir os mesmos itens do café da manhã, mais um ou dois pratos quentes e uma opção de sobremesa. É o tipo de evento que tem custo mais baixo que um almoço e, ainda assim, consegue suprir essa necessidade por conta do horário. CasamentoBrunch de E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a Coquetel O coquetel costuma acontecer no final da tarde, por volta das 18h – mas sempre antes do jantar, salvo quando é de cunho social. Nesse tipo de evento, é comum que o cardápio seja composto por salgadinhos frios e quentes, canapés, petiscos; no caso de um coquetel mais elaborado pode aparecer algum prato quente, mas normalmente com apresentação em finger food4, pois os convidados ficam em pé e é preciso ser prático, afinal, enquanto uma mão segura o alimento, a outra segura a bebida. Coffee Break O coffee break é aquele evento que acontece durante uma pausa em reuniões, cursos, palestras, entre outros. Nesse tipo de evento, como no coquetel, é preciso atentar-se ao fato de que as pessoas ficarão em pé, por isso, a escolha do cardápio deve estar de acordo. É interessante servir café, água, sucos, biscoitos, bolachas e pequenos sanduí- ches, sempre em porções fáceis de serem consumidas, como em finger food. Se o evento for mais simples e não dispor de muito tempo, é possível utilizar petiscos embalados – contanto que sejam embalagens individuais pequenas. 4 Finger food: apresentação de comidas, petiscos e canapés que se come com as mãos, sem necessidade de talher. Diz-se comida de “uma bocada”. 79G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a 81G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Técnicas de Serviço Para o bom desempenho do profissional de gastronomia, é impor- tante conhecer não só as técnicas de cocção, combinar ingredientes e exaltá-los, mas também apresentar a refeição ao seu cliente da melhor forma possível, tornando a experiência ainda mais agra- dável. Não estou falando aqui da montagem do prato, e sim da ação, do ato de servir o comensal. Conforme o tipo de refeição ou estilo do restaurante, vamos escolher uma técnica de serviço diferente, basta analisar as existentes, a formalidade exigida no estabelecimento e, então, tomar a decisão ideal. Estamos falando de etiqueta à mesa, começando pela forma de proporcionar ao seu comensal ou convidado um momento agra- dável. Já no começo da próxima unidade você vai aprender como montar a mesa de acordo com as normas de etiqueta. E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a Serviço à Francesa O serviço à francesa é um dos mais antigos e re- quintados, muito utilizado em eventos formais, como banquetes, encontros diplomáticos e até jantares familiares formais. Nesse tipo de ser- viço, é preciso que todos os comensais estejam sentados, pois “é a própria pessoa quem se serve da comida trazida na travessa pelo garçom” (CÂNDIDO; VIERA, 2002, p.123). O serviço tem início com o garçom apresen- tando a travessa – na qual a comida deve ter sido disposta com intuito de destacar visualmente os itens do prato e para facilitar a operação pelo cliente – pelo lado esquerdo do comensal. O garçom deve segurar a travessa com a mão es- querda, deixando a direita atrás das costas. Ele vai se inclinar ligeiramente para que a travessa fique mais próxima do cliente e aguardar sua aprovação. Em seguida, utilizando os talheres de serviço, o próprio comensal se servirá. O garçom deve seguir dessa forma até todos os comensais terem se servido. É comum que cada travessa sirva até seis pessoas. Lembre sempre: a travessa deve vir com os alimentos dispostos de forma que facilite na hora do comensal se servir; as cadeiras devem ser mais afastadas que o normal entre um lugar e outro, pois será preciso espaço para que o garçom realize o serviço sem contratempos; se uma travessa serve até seis pessoas, esse é o número de comensais que deve ser servido por cada garçom (CÂNDIDO; VIERA, 2002). Ao final da refeição, os pratos devem ser retirados pelo lado direito do comensal, com exceção do pratinho de pão. Este, se houver na montagem de mesa, deve ser retirado pelo lado esquerdo. Deve-se evitar o serviço de café na mesa de refeições, porém, caso isso não seja pos- sível, lembre-se que um serviço requintado como à francesa pede um toque especial, como servir pequenos bombons já desembrulhados para completar os digestivos (MEIRELLES, 2002). Serviço à Inglesa O serviço à inglesa tem muitas características em comum com o serviço à francesa. No serviço à inglesa, os convidados também devem estar sentados à mesa e a comida é servida em traves- sas, porém, o garçom é quem serve cada cliente de acordo com o seu desejo (ZANELLA, 2007). O serviço à inglesa pode ser direto ou indireto. Serviço à Inglesa Direto Neste serviço, muito utilizado em diversos res- taurantes, o garçom deve ter uma habilidade bem treinada, a de utilizar o garfo e a colher para fazer um “alicate” – como é chamado – para servir o comensal. O garçom deve apresentar a travessa ao cliente pelo lado esquerdo e, assim que aprovado, servir o prato do comensal, que já está disposto na mesa, a começar pela iguaria principal. O convidado pode também orientar o garçom com relação às suas preferências, se isso for de sua vontade. 83G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Serviço à Inglesa Direto. É importante lembrar que, apesar de o prato ser servido na hora pelo garçom, ele deve ter uma preocupação estética ao compor o prato do cliente, de modo que o resultado final tenha boa aparência (CÂNDIDO; VIERA, 2002). Serviço à Inglesa Indireto Este serviço é também conhecido como serviço de guéridon (carrinho de apoio) – muito utili- zado em restaurantes finos por transmitir a sensação de conforto e charme ao cliente –, pois esse aparato é utilizado para auxiliar o garçom. Inicialmente, este apresenta a travessa ao co- mensal pela esquerda, em seguida, coloca no guéridon para dar sequência à montagem dos pratos. Nesse serviço, existem duas situações:1. Pratos vazios ficam sobre o carrinho de apoio e, então, são utilizados. 2. Ou o garçom retira o prato que está à frente do cliente pelo lado direito, o coloca na mesa auxiliar para então servi-lo. Em ambos os casos, não se utiliza a técnica do “alicate”, o ideal é segurar a colher com a mão direita e o garfo com a esquerda. A entrega do prato pode ser feita pelo próprio garçom ou pelo commis (quando for o caso de tê-lo para auxi- liar, normalmente em restaurantes ou eventos E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a mais requintados) pelo lado direito do comen- sal. Quando há esse trabalho em dupla sendo realizado, pode-se, ainda, existir mais duas si- tuações para retirada do prato que está à mesa do comensal antes de ser montado, explicam Cândido e Viera (2002, p.120): a. o prato poderá ser retirado antecipada- mente, pelo commis, enquanto o garçom monta o prato com iguarias; b. o prato poderá ser retirado antecipada- mente, pelo commis, com a mão esquerda no momento de servir o prato monta- do, que deverá estar em sua mão direita. Essa técnica é chamada de abraço de urso. Serviço Empratado ou a L’assiette A l’assiete, do francês, um prato, quer dizer que o prato deve vir da cozinha previamente montado, um serviço de empratado. O cozinheiro dispõe os alimentos no prato de forma harmoniosa e bem decorada, com preocupação estética e nutricio- nal. Os pratos montados devem ser todos iguais (quantidade e disposição). Não confunda com um prato feito, pois esse serviço é mais sofisti- cado, utilizado em restaurantes gastronômicos, por exemplo, onde há um enfoque na criação do chef. É também indicado para eventos formais (LUKOWER, 2005). O garçom deve entregar o prato pelo lado direito do comensal. Em alguns restaurantes ou eventos, quando há a intenção de sofisticar a experiência, utiliza-se cloches para cobrir os pratos. O prato é, então, depositado à mesa ser- vindo todos os integrantes de uma só vez e os garçons – é necessário um por pessoa – retiram as cloches5 ao mesmo tempo, criando um clima diferenciado e elegante para a ocasião. No serviço empratado, quando a cloche não for utilizada, é indicado que o prato seja apre- sentado ao cliente antes de ser servido, afirmam Cândido e Viera (2002, p.125), Um detalhe que evidencia a técnica de serviço e garante a sofisticação do ser- viço é esta: considera a precedência de serviço na mesa [hierarquia], senhoras, homenageados, etc., após a apresenta- ção, o garçom deverá contornar a mesa, quando possível, no sentido horário, para servir o comensal pela sua direita, após apresentação do prato pela sua es- querda. ‘É tradicional a voltinha à mesa que tantos garçons negam-se a fazer e, com isso, mascaram a qualidade do serviço, e o nome da casa poderá ser comprometido por um detalhe tão simples e fácil de ser executado’. Se a mesa estiver previamente montada e houver nela um prato base, é preciso ter a pre- ocupação de retirá-lo antes de começar o serviço empratado. Na presença de um commis, pode ser utilizada a técnica abraço de urso6; na ausên- cia desse profissional, cabe ao próprio garçom retirar os pratos antes que o serviço comece – sempre pelo lado direito. 5 Cloche: utensílio abaulado, lembrando o formato de um chapéu, que serve para cobrir um prato ou travessa, não deixando que o alimento fique exposto até chegar ao cliente. 6 Abraço de urso: técnica apresentada no serviço à inglesa indireto. 85G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Serviço Americano Temos aqui um serviço, também chamado Buffet Americano, muito comum em even- tos com muitos convidados. Os pratos são dispostos em forma de buffet numa mesa, porém, os convivas não se servem. Garçons e até mesmo os cozinheiros é que realizam o serviço, ficando cada um responsável por um ou dois pratos e, de acordo com a indicação do comensal, ele serve o prato. Por sinal, há uma mesa separada propriamente para que cada pessoa retire o seu e siga à outra onde os alimentos estão depositados (CÂNDIDO; VIERA, 2002). Mesmo sendo mais descontraído, este estilo não é sinônimo de mesas mal arrumadas, falta de decoração. Todo o requinte dos serviços à francesa e à inglesa não são exigidos, mas capricho e detalhes denotam respeito aos con- vidados (MEIRELLES, 2002, p. 258). Esse tipo de serviço pode aparecer em brunchs, mas, nesse caso, as pessoas não se sentam para fazer a refeição e o buffet é composto por ali- mentos em pequenas porções, especialmente finger food. Serviço de Buffet Self Service O serviço mais simples a ser apresentado é o buffet self service. Em uma mesa, ou em um buffet quente ou frio, os alimentos são dispos- tos em grandes travessas ou réchauds, para que Serviço empratado com utilização da cloche. cada comensal possa se servir. É indicado já deixar as carnes em porções menores, para que os convivas não tenham dificuldade na hora de escolher sua porção. Nesse tipo de serviço, a figura do garçom aparece apenas para servir bebidas e repor os preparos que vão sendo esgotados. Isso é tido como um inconveniente nesse tipo de serviço, pois não é rara a situação em que os últimos, ao se servirem, encontram as travessas em péssimo estado de apresentação. Apesar de ser o serviço mais simples, é comum ser montado de forma mais sofisticada em casamentos (CÂNDIDO; VIERA, 2002). E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a Serviço à Russa “Alguns autores dizem que esse serviço foi ideia de um Embaixador Russo, em Paris, que foi adotado pela burguesia francesa no início do século XIX e praticado por alguns restaurantes”, é o que Cândido e Viera (2002, p.124) contam a respeito do surgimento do serviço à russa. Independente da veracidade da história, sabemos que este é um serviço muito utiliza- do em grandes banquetes, jantares e eventos, principalmente quando há algum tipo de ho- menagem a ser feita. O serviço acontece da seguinte manei- ra: o garçom leva ao salão as travessas que já vêm prontas da cozinha (em média três tipos de preparações diferentes) e as apresenta ao homenageado e aos outros convidados (utili- za-se ordem de precedência), em seguida, as deposita em um aparador ou guéridon próximo à mesa. Dependendo do tipo de preparo, o garçom finaliza o prato na frente dos comen- sais propositadamente, funcionando como forma de entretenimento, pequeno show gastronômico – principalmente quando há necessidade de flambar algum alimento. Cada prato individual é montado separadamente e servido pela direita do conviva. Serviço Table D’hôte Este serviço é mais informal, também conheci- do como serviço de travessas ou serviço à bra- sileira. O garçom traz da cozinha uma ou várias travessas prontas com porções de alimentos diferentes de acordo com pedido prévio do cliente e deposita ao centro da mesa pelo lado esquerdo dele. Em seguida, cada um monta seu prato de acordo com sua vontade. No mais, o garçom volta à mesa apenas para atender aos pedidos de bebidas, que devem ser servidas sempre pela direita – esta é uma regra válida para qualquer tipo de serviço. Apesar de não apresentar muita formalida- de nesse tipo de serviço, em algumas situações não exige nem a aparição do prato – petiscarias, por exemplo, em que uma porção grande é de- positada à mesa e os clientes utilizam, muitas vezes, apenas garfos de aperitivo para pegar o alimento e levar diretamente à boca –, ele também pode aparecer com sofisticação na montagem da mesa e na escolha de utensílios mais requintados, seja em um evento ou res- taurante, remetendo ao conforto e tradição familiar. Os bistrôs mais antigos, com influência francesa, utilizavam esse sistema, com a di- ferença de que as travessas eram depositadas em um guéridon que ficava ao lado da mesa 87G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R de refeição. Na época, essesestabelecimentos utilizavam o sistema de funcionamento table d’hôte, no qual serviam um número restrito de preparações, daí também a denominação para o serviço. Em alguns estabelecimentos, ainda se utiliza o carrinho de apoio nesse serviço, mas já não é uma regra. Esse funcionamento simples lembra também o estilo domiciliar do nosso povo – inclusive, é do costume brasileiro de colo- car pequenas travessas à mesa para que cada um se sirva que vem seu nome “à brasileira”. Adaptação do serviço da dona de casa no almoço de domingo que foi para estabeleci- mentos comerciais. Serviço a table d’hôte • Servidos pela esquerda → Serviço à francesa / Serviço à inglesa direto / Serviço a table d’hôte. • Servidos pela direita → Serviço à inglesa indireto / Serviço empratado / Serviço à russa. • Líquidos → Servidos pela direita. • Retirada dos pratos → Pela direita – exceto os pratinhos de pão. • Pratinhos de pão → Retirados pela esquerda. E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a Para concluir nosso tópico, a tabela a seguir apresenta as principais funções executadas pelo garçom de acordo com a etiqueta do serviço de sala. A tabela designa funções de pôr, repor, recolher e servir, apontando se o correto é pela direita ou pela esquerda. ESQUERDA DIREITA Pratos de couvert (pão), pratos de saladas (quando não empratados); Pratos de mesa, pratos de sobremesa, pratos fundos e taças de consommé; Execução do serviço de couvert (pão, manteiga); Facas de mesa, facas de sobremesa, facas para peixe, colheres de mesa e colheres de sobremesa; Garfos de mesa, garfos de sobremesa, facas de couvert, garfos de peixe; Copos de refrigerantes, taças de champagne, cálices de vinho, todo tipo de aperitivos e cristaleria em geral; Lavanda (lava dedos). Apresentação dos vinhos; Execução do serviço de vinhos, champagnes, refrigerantes e bebidas em geral; Serviço de cafezinho. Tabela 3. Trabalhos efetuados no salão. Fonte: Cândido e Viera (2002, p.128) Você deve estar se perguntando “garfos de mesa, de sobremesa e de peixe? Para quê tudo isso?”. Pois bem, na próxima unidade, um dos temas que abordaremos é mise en place de mesa, neste você vai entender a utilidade dos diferentes talheres, bem como vai aprender a dispor cada um deles de forma correta na montagem de mesa. Aguardo sua companhia por lá! 89G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a co ns id er aç õe s fi na is C hegamos ao fim de mais uma unidade. Nesta, vimos que o modelo de res- taurante que temos atualmente nem sempre foi assim e que o ser humano sempre se adaptou às necessidades do seu pre- sente. Quando os viajantes precisavam de esta- lagens para se alimentar e dormir, existiam as tabernas; enquanto havia reis e suas cozinhas palacianas enormes, sempre com festividades e banquetes, os cozinheiros estavam lá, cozinhan- do para a nobreza; quando veio a revolução e eles já não tinham palácios onde trabalhar, foram às ruas, e quando o momento era inóspito, alguém percebeu que tinha aí uma oportunidade, a de oferecer forças ao povo através de um caldo restaurador. E a partir desses caldos temos o restaurante, temos o primeiro chef, temos mo- dificações na estrutura, até chegar às diversas tipologias da atualidade. Tipologias essas que vimos em outro tópico, a ponto de perceber que o método de cocção di- ferencia um lugar de outro, o tamanho do local, a influência gastronômica cultural, se o foco é bebida ou comida. Pessoas têm perfis diferen- tes e cada uma procura aquele estabelecimento com que mais se identifica, por isso tamanha variedade. Mais uma vez, temos o ser humano aproveitando de oportunidades econômicas oferecidas por seu presente. Além de tudo, cada modelo de estabeleci- mento trabalha com um tipo de serviço. Alguns são mais requintados e precisam apresentar um serviço de sala mais elaborado, requintado e bem treinado; outros são mais simples, bem como o serviço neles apresentado. E para es- colher o serviço ideal de acordo com o tipo do restaurante, foi necessário abordarmos algumas dessas técnicas, as mais utilizadas e conhecidas no nosso país. Mas não paramos por aí, na próxima unida- de, continuaremos a trabalhar a etiqueta aplica- da à Gastronomia. Espero você por lá! 91G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R at iv id ad es d e es tu do1. Há registros da Antiguidade de que na Mesopotâmia, por volta do segundo milênio, já existiam instalações chamadas de taberna. Quais características marcaram esse primeiro serviço de alimentação? 2. Segundo Pitte (apud FLANDRIN; MONTANARI, 1998), por volta de 1765, Boulanger abre um estabelecimento para comercializar “caldos restauradores”. Explique esse acontecimento e o relacione ao surgimento do restaurante. 3. Apresenta produções elaboradas com preocupação estética em cada prato; é associado a um chefe de cozinha de renome e o ambiente é decorado de maneira elegante em estrutura diferenciada. I. Essas são características de que tipo de empreendimento? a. PUB. b. Restaurante gastronômico. c. Restaurante internacional. d. Catering. e. Restaurante self service. II. Qual técnica de serviço melhor se encaixa a essa tipologia? Justifique sua resposta. 4. Pense em seu restaurante favorito. a. Em que tipologia ele se encaixa? Apresente as características que o encaixa nesse tipo. b. Que técnica de serviço é utilizada nesse restaurante? Justifique sua resposta explicando a técnica e como ela é aplicada no estabelecimento. E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a m at er ia l c om pl em en ta r A INVENÇÃO DO RESTAURANTE Rebecca L. Spang Editora: Record Sinopse: Este livro mostra como os franceses, em especial os parisien- ses, inventaram a cultura moderna da comida. Metamorfoseando sua vida social e, a reboque, a do resto do mundo. Segundo Spang, a partir do século XIX, o restaurante se transformou numa arena segura para a transição da monarquia para a democracia. O aparecimento de um gênero literário até então desconhecido, a literatura gastronômica, conferiu status a pratos como ostras e champanhe e atraiu a atenção de turistas. Americanos e ingleses iam à capital francesa para descobrir os segredos de sua sofisticação em seus restaurantes. ‘A Invenção do Restaurante’ estabelece o restau- rante como uma interseção entre os espaços público e privado na cultura francesa. Os Sabores do Palácio Christian Vincent Ano: 2012 País: França Gênero: Comédia Sinopse: Hortense Laborie (Catherine Frot) é uma respeitada chef que é pega de surpresa ao ser escolhida pelo presidente da França para trabalhar no Palácio de Eliseu. Inicialmente, ela se torna objeto de inveja, sendo mal vista pelos outros cozinheiros do local. Com o tempo, no entanto, Hortense consegue mudar a situação. Seus pratos conquistam o presidente, mas terá sempre que se manter atenta, afinal os bastidores do poder estarão cheios de armadilhas. Comentário: No filme Os Sabores do Palácio, é possível notar a etiqueta do serviço de sala em um ambiente formal, como o Palácio de Eliseu – residência oficial do presidente da República Francesa. Além disso, a inserção da mulher numa cozinha antes comandada por homens mostra mais uma das evoluções históricas com relação ao mercado de trabalho no âmbito gastronômico. 93G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R le it ur a co m pl em en ta r No Brasil, principalmente nas capitais, comer fora não é mais uma necessidade devido à falta de tempo ou à necessidade de fazer uma refeição rápida, tornou-se, recentemente, lazer. O restau- rante em si é uma instituição um tanto quanto nova que se difundiu no país por volta dos anos de 1900, por consequência da urbanização, que resultou em mais pessoas trabalhando fora, e aumentou o número daqueles que precisavam se alimentar nas ruas. Com as pessoasmorando longe de seus tra- balhos, mulheres saindo de casa para trabalhar e longas jornadas de trabalho, a procura por luga- res para realizar uma refeição fora do lar aumen- tou e por conta da demanda, os estabelecimentos foram surgindo, ou seja, havia cada vez mais restaurantes. Considerando a história, temos que as tabernas – em outro contexto – supriam essa mesma necessidade, era necessário que hou- vesse locais para os viajantes se alimentarem e até repousarem e então a oportunidade se torna realidade. Há registros e fósseis que sugerem que há 5.000 anos já havia lugares que cumpriam esses requisitos, que serviam refeição aos que estavam sempre se locomovendo de um lugar a outro, normalmente em função comercial. Após a Revolução Francesa (1789), os cozi- nheiros dos palácios foram às ruas e constituíram O prazer na comensalidade: Surgimento de restaurantes um novo padrão à refeição da burguesia. Com isso, a comensalidade teve cada vez mais ca- racterísticas de prazer, de início, na França. No Brasil, quando a família real portuguesa chegou, em 1808, os primeiros indícios de restaurante também começaram a tomar forma, mas afinal, os costumes da realeza com hábitos europeus e as exigências de um paladar acostumado con- tribuíram para que isso acontecesse, bem como para a entrada de novos ingredientes no país – por conta da abertura dos portos. A mistura de ingredientes começou aí. Os europeus chegaram com seus hábitos e afeição a determinados alimentos, aos poucos estes foram se adequado aos ingredientes encontra- dos no Brasil, mesclando a cultura da corte com a nativa. O gosto francês, que influenciava toda Europa, inclusive os portugueses, foi readequa- do às peculiaridades brasileiras, originando os primeiros restaurantes no final do século. A corte permanecia em hotéis no Rio de Janeiro, cidade na qual se instalaram os primei- ros – e assim considerados – independentes e mais importantes restaurantes: as leiterias ou confeitarias. Josimar Melo, jornalista especia- lizado em Gastronomia e crítico gastronômico, pontua que o restaurante mais antigo do Rio é o Bar Luiz, de 1887, que ainda permanece E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a le it ur a co m pl em en ta r em funcionamento. Outro importante é a Confeitaria Colombo, de 1894, que recebia as madames para o chá. Em São Paulo, Melo pontua o restaurante para viajantes do por- tuguês Marcos Lopes, sendo o registro mais antigo, de 1599. As cantinas italianas foram influência das famílias advindas, que reunia co- munidades em torno de massas, pizza e vinho – a exemplo desses, Josimar cita Carlino, de 1881, que apenas mudou de endereço, e a cantina Castelões, de 1924. Já os restaurantes japoneses se firmaram pela imigração apenas por volta dos anos 80, um pouco mais tarde, porém não menos importante ganharam notoriedade no bairro da Liberdade na capital Paulista. Já os restaurantes franceses não foram instalados no país por conta do saudosismo daqueles que de lá vieram, e sim, por conta de a gastronomia francesa em si ser uma grande atra- ção de reconhecimento internacional, ou seja, a função primordial desses estabelecimentos era ofertar prazer aos consumidores. Bem como a variedade de cozinhas atualmente existentes – contemporânea, fusion, étnicas – são reflexos de uma necessidade dos comensais: a busca por cultura e prazer. Adaptado de: MELO, Josimar. Restaurantes surgem para matar fome de convívio. Folha [online]. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fol/brasil500/comida14.htm>. Acesso em: 13 fev. 2015. Etiqueta à Mesa SAMARA FERNANDES A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: • Mise en place de mesa • Qualidade em atendimento • Boas maneiras à mesa • Conhecer o material de trabalho do restaurante. • Entender a aplicação da mise en place de mesa ideal. • Apontar as atividades que devem ser desenvolvidas pela equipe de salão com relação a funções, uniforme e mise en place de salão. • Caracterizar um atendimento de qualidade em restaurante. • Identificar as normas de etiqueta para o bom comportamento à mesa. Plano de Estudo Objetivos de Aprendizagem Introdução 97 Introdução Olá, seja bem-vindo(a) à nossa última unidade de estudo na matéria de Etiqueta e Serviço de Sala. Nesta unidade, trabalharemos alguns tópicos cruciais ao funcionamento de um restaurante no que se relaciona à etiqueta. No primeiro tópico, trabalharemos a mise en place de mesa, para isso, veremos alguns materiais e utensílios básicos que são utilizados em restaurantes para depois entender qual a montagem ideal de uma mesa, o que a etiqueta normatiza a esse respeito. Em seguida, prosseguiremos o conteúdo abordando um ponto muito importante: a qualidade do atendimento. Nós sempre a exigimos ao frequentar qualquer estabelecimento, mas sabemos como realmente deve ser o serviço desse profissional que se faz tão importante no restaurante? Sendo assim, vamos distinguir funções de atendimento e entender a diferença entre elas, o que cada um deve executar dentro de um estabelecimento, como deve ser o uniforme e as caracte- rísticas da ética e conduta desse profissional. E para fechar a unidade e o livro, vamos abordar as boas maneiras à mesa. O que a etiqueta nos diz sobre comportamento durante uma refeição? O que é certo e o que é errado? Veremos como cortar e comer alguns alimentos. Como você pode notar, trabalharemos o mote da matéria unido em todo o conteúdo, a etiqueta influenciando o serviço do começo ao fim. Perceba que os temas abordados retornam frequentemente aos tópicos anteriores, mesclan- do as unidades. Isso é normal, pois um assunto complementa o outro. Lembre-se de sempre associar um conteúdo ao outro. Ao montar uma mesa, o conhecimento adquirido com relação aos tipos de restaurante e técnicas de serviço se faz essencial, bem como conhecer o perfil do seu cliente, o tipo de evento que será realizado, a formalidade necessária e o número de pessoas que serão atendidas. Agora vamos aproveitar que tudo está recente na sua memória e ir direto para a etiqueta à mesa! E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a 99G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Vou começar este tópico fazendo uma pergunta a você, estudante: o que é mise en place? Pois bem, mise en place é um termo francês que quer dizer “colocado no lugar”, “pôr em ordem”, “fazer a dispo- sição”. Isso significa que, no contexto da Gastronomia, utilizamos a expressão mise en place para designar a prévia organização de algo, seja de alimentos na cozinha, de mobiliário no salão ou de utensílios à mesa. Na unidade anterior, conceituamos algumas técnicas de serviço que são utilizadas nos restaurantes. Em cada uma dessas técnicas, alguns utensílios são necessários. Sendo assim, antes de identifi- carmos a montagem do salão ou da mesa, é necessário conhecer um pouco sobre esses materiais. Mise en Place de Mesa E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a Conhecendo o material de trabalho Antes de receber nossos clientes e antes mesmo de montarmos uma mesa, precisamos conhecer os utensílios e equipamentos à nossa disposição, que auxiliam o profissional de serviço em um restaurante, e a função deles. É muito importante reforçar que cada estabelecimento apresenta um perfil diferente – estudamos as tipologias na Unidade II – e, por isso, nem todos os objetos que serão apresentados são utilizados via de regra em todos os restaurantes. Inclusive, o padrão e o formato já são fatores variáveis entre locais diferentes, quero dizer, não vamos encontrar louça requintada em um fast food, bem como não vamos encontrar pratos plásticos num restaurante luxuoso, nem mesmo louças iguais em dois restaurantes de luxo. Enfim, vamos à apresentação dos materiais de trabalho do restaurante: • Aparador: Móvel onde se guarda cristais, louças,talheres, toalhas e outros materiais que podem ser, eventualmente, utilizados no restau- rante – dependendo do tamanho do salão e do número de mesas, é necessário mais de um, mas devem sempre ficar em localização de fácil acesso e que não atrapalhe o fluxo do serviço (CÂNDIDO; VIERA, 2002). • Guéridon: Significa mesa auxiliar, não muito grande, que pode ou não apresentar rodas. Serve de apoio para o trabalho dos profissionais do serviço de atendimento. Os restaurantes que utilizam guéridon devem ter a preocupação de que o tamanho e formato sejam condi- zentes com seu salão, pois quando for o caso de encostar um carrinho de apoio, sua largura não deve ultrapassar a da mesa, facilitando a execução do serviço. As rodas não são regras, mas atualmente são indicadas por facilitar a movimentação, bem como gavetas que podem guardar talheres de serviço. Guarda-se na parte de baixo do guéridon louças extras (CÂNDIDO; VIERA, 2002). Este carrinho de apoio é muito utilizado em restaurantes que utilizam a técnica de serviço à inglesa indireto. 101G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R • Réchaud: Fogareiro que costuma funcionar a álcool. Tem finalidade de acomodar preparações próximas à mesa do comensal para que não esfrie. Também é utilizado em serviços que finalizam pratos na frente do cliente, como flambar uma sobremesa (GUZELA, 2012). Utilizado no serviço à russa, por exemplo. • Guardanapo: Utilizado pelos clientes para limpar resíduos de suas bocas ou proteger suas roupas. Os guardanapos podem ser de tecido ou de papel, com variados modelos e tipos, a escolha ideal depende do estilo do restaurante. Os de tecido são mais utilizados em restaurantes e hotéis requintados. Se for de tecido, deve ser limpo e bem passado. Em alguns estabelecimentos, são apresentados em forma de dobradura – se for o caso, indica-se que seja bem engomado previamente, para permanecer com a forma desejada durante um bom tempo (CÂNDIDO; VIERA, 2002). Se o evento for social e formal, o requinte pede padrão na arrumação e, nesse caso, indica-se guardanapos medindo 12cm x 12cm ou 14cm x 14cm. Além disso, Meirelles (2002) afirma que caso haja brasão, a dobra deve permitir que este fique visível. Guéridon E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a • Moletom: Toalha de tecido moletom – ou outro tecido grosso, feltro, por exemplo – que é utilizada antes da toalha base para revestir a tábua da mesa e absorver algum tipo de bebida, caso necessário. Pode ser fixa ou presa com elástico (GUZELA, 2012). • Toalha: Serve para cobrir a mesa, ficando sempre centralizada, limpa, bem passada e sem manchas. O vinco deve estar devidamente alinhado e os lados devem ser proporcionais, não deixando que um lado fique com tecido a mais que o outro (GUZELA, 2012). De modo geral, é indicado utilizar cores claras, porém, se o restaurante for típico de algum país ou cultura, pode-se utilizar cores fortes para caracterizar a decoração do ambiente (CÂNDIDO; VIERA, 2002). As toalhas têm ainda a finalidade de ocultar os pés, pernas e pessoas mal sentadas. Apesar disso, se a mesa tiver tampo frontal, o uso da toalha é dispen- sável (MEIRELLES, 2002). • Naperon: Também conhecido por cobre manchas, ou seja, é a toalha menor que vai sobre a toalha de base, caso essa apresente algum tipo de mancha (GUZELA, 2012). Inicialmente utilizava-se o naperon para reduzir custos de lavagem, porém, atualmente muitos estabelecimentos aproveitam para criar composição de cores, decorando o ambiente. • Cloche: Utensílio arredondado como uma cúpula que cobre os ali- mentos antes de serem levados à mesa. É utilizado para surpreen- der o cliente e proteger o alimento até chegar à mesa (GUZELA, 2012). Costumava aparecer muito no serviço empratado, porém está caindo em desuso nos restaurantes e, atualmente, hotéis têm utilizado mais. • Sousplat e pratos (ou louças): Sousplat são os pratos maiores que ficam abaixo do prato onde é servida a refeição. Apesar de parecer apenas um item de decoração, o sousplat é utilizado para demarcar o lugar dos comensais. As louças podem ser: prato de couvert (ou de pão), de mesa, de salada, de sopa e de sobremesa. As xícaras de chá e de café devem fazer parte do mesmo jogo de louças utilizado nos outros serviços. Ao servir-se a sobremesa, é indicado retirar o sousplat da mesa. 103G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R • Baixelas: São travessas que podem ser rasas ou fundas, apresentar ou não tampas. São consideradas baixelas as sopeiras, legumeiras, molheiras e queijeiras também. Podem ser de inox, porcelana ou outro material, depen- de do estilo e formalidade do restaurante ou evento. Utilizadas em quase todos os serviços, exceto os que a refeição é servida diretamente no prato. • Espátulas: Utilizadas no serviço de doces e alguns pratos salgados, como peixes. Deve haver sempre uma à disposição no guéridon. • Talheres: São garfo, faca e colher, divididos por funções: talheres de mesa (pratos principais), talheres de sobremesa, talheres de salada e talheres de peixe. Temos, além desses: colheres para chá e café, colher bailarina (drinks e coquetéis) e talheres de serviço (aqueles maiores, que auxiliam na execução do serviço) (GUZELA, 2012). A imagem a seguir ilustra o formato e o tamanho de cada um desses talheres. • Copos e taças: Podem ser de cristal, acrílico ou vidro, de acordo com o estilo do restaurante ou do evento, lembrando que os cristais com- põem uma mesa com elegância. E para cada tipo de bebida, existe um copo adequado: Sousplat, prato raso e prato fundo (de baixo para cima) E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a Água Vinho Branco Conhaque Flute Vinho Tinto Cerveja Cachaça UísqueLicor Coquetel talheres, copos, taças e suas funções específicas 105G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R • Ménage: O termo identifica não um, mas vários utensílios que têm fina- lidade de levar ao comensal alguns itens de apoio, seja tempero ou não. São eles: conjuntos de molhos engarrafados (catchup, chutney, tabasco, molho de pimenta etc.), açucareiros, galheteiros (sal, pimenta, óleo e azeite), queijeiras, paliteiros e adoçantes (CÂNDIDO; VIERA, 2002). Mise en Place de Mesa “Mise en place de mesa é a organização dos talheres, das taças, dos copos e das louças em cima da mesa. Existem diversas regras para que isso seja feito corretamente”, explica Guzela (2012, p.121). Agora que introduzimos os utensílios e materiais necessários para uma mise en place de mesa, vamos entender o que deve ser levado em considera- ção na hora de montar uma mesa de acordo com a convenção. Vale lembrar que cada restaurante pode determinar a forma como montar sua mesa de acordo com o serviço adotado, o luxo ou requinte, ainda assim, todos serão compostos por pratos, talheres e copos. Ou seja, partindo de um mise en place de mesa completo, é possível variar a quantidade desses itens, mas a disposição daqueles que serão utilizados será sempre a mesma. A mise en place pode sofrer alterações durante o serviço. Por exemplo, se uma mesa for montada com talheres de mesa e o comensal pedir um prato de peixe, é só substituir os talheres já dispostos pelos de peixe enquanto o cliente aguarda o prato ficar pronto. Se todas as taças estão postas à mesa e o comensal pede um suco, devem-se retirar as taças que não serão utilizadas. E assim sucessivamente (GUZELA, 2012). Um aspecto importante a ser destacado é que a montagem sempre vai depender do menu que será servido – por exemplo, couvert de pães, uma en- trada fria e uma quente, um prato principal e uma sobremesa – e temos, por consequência, a ordem de utilização dos pratos. Mas não vamos nos adiantar muito, a imagem a seguir vai dar suporte a essa explicação. E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a O que você vê nessa imagem? Vamos analisá-la de acordo com as convenções: • O sousplat é o maior pratoda mesa – chega a 33 cm – e deve ficar abaixo do prato principal. Deve ser retirado da mesa no serviço da sobremesa. • Prato principal é aquele que fica em cima do sousplat. Nele é servido normalmente o prato de maior destaque. • O prato de entrada é aquele onde é servida a primeira entrada, seja fria ou quente. Ele é colocado sobre o prato principal, no caso da imagem, é o prato fundo, logo, entendemos que a entrada pode ser um caldo. • O prato de saladas não aparece na montagem da mesa, pois só é servi- do quando está no menu ou quando o cliente pede no cardápio. Esse prato deve ser colocado à esquerda do conviva, ao lado dos talheres. Mise en place de mesa · Garfo de Peixe · Garfo · Faca · Faca de peixe · Colher de sopa · Sousplat · Prato raso · Prato fundo · Prato de pão · Faca de pão · Taça de água · Taça de vinho tinto · Taça de vinho branco · Colher, garfo e faca de sobremesa · Taça de espumante · Guardanapo 107G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Esse prato é retirado logo após sua degustação. • O prato de pão e manteiga é comum aparecer na mise en place quando há o serviço de couvert. Como na figura, ele deve estar à mesa no lado esquerdo do comensal e acima dos talheres (garfos), junto uma pequena faca deve estar apoiada na lateral direita com o fio voltado para dentro do prato. Nunca utilize a faca para cortar o pão. A faca serve para passar a manteiga; o pão deve ser cortado com as mãos. • Com relação aos talheres, note logo de início que todos estão alinhados ao prato principal, nunca ao sousplat. A ordem de colocação deles à mesa é a mesma da ordem de utilização, sempre de fora para dentro. • Na imagem, temos duas facas e uma colher à direita dos pratos, visto o item acima, entendemos que a colher será a primeira a ser utilizada, isso significa que será servido um caldo ou semelhante como entrada, como início da refeição. • Em seguida da colher, encontram-se duas facas, uma de peixe e uma de mesa (para o prato principal), ambas com o fio voltado para dentro – regra. • Os garfos sempre ficarão ao lado esquerdo do prato, também na ordem de utilidade da esquerda para a direita – na figura temos dois garfos, um garfo de peixe (que será utilizado junto da faca de peixe) e um garfo de mesa (para o prato principal junto da faca de mesa). E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a • Os talheres de sobremesa ficam acima do prato. Volte na figura e repare onde se encontram os cabos de cada um desses talheres. Imagine levar o garfo do lado esquerdo do prato até a parte superior sem tirá-lo da mesa, arrastando. Ao chegar à parte superior do prato, o local desejado, ele estaria com o cabo virado para o lado esquerdo. Esse deve ser o movimento para a faca e a colher, por isso seus cabos encontram-se virados para o lado direito. Além disso, é ideal deixar faca e colher separadas pelo garfo quando os três objetos aparecem na mise en place. • Ainda sobre os talheres de sobremesa, vale lembrar que não é ne- cessário que todos estejam dispostos à mesa. Devem ser colocados apenas aqueles que realmente serão utilizados (um bolo com sorvete, por exemplo, pode exigir que os três estejam presentes: colher para sorvete, garfo para o bolo e a faca no caso de o comensal precisar de auxílio nos últimos pedaços. Se o prato de sobremesa tiver bordas que auxiliem nesse processo, a faca pode ser descartada). • O guardanapo pode estar ao lado esquerdo da mesa, próximo aos garfos ou sobre o sousplat (ou pratos, de acordo com a mise en place). Você já deve ter se indagado o porquê de colocarmos as facas à direita e os garfos à esquerda se a maioria das pessoas é destra e segura o garfo com a direita. Veja bem, de acordo com as normas de etiqueta, o uso correto dos talheres implica em segurar a faca com a mão direita para cortar o alimen- to e o garfo na esquerda como apoio. Depois de cortado, a faca deve ser disposta na borda do prato com o fio voltado para dentro e então o garfo deve ser passado para a mão direita para que o alimento seja levado à boca. Por isso também a colher fica ao lado direito, ela é utilizada sozinha e já está posicionada na direção correta da mão que deve segurá-la. 109G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R • Por fim, as taças devem ser dispostas na diagonal, posicionadas sobre a linha de facas, ao lado direito, na ordem (da direita para a esquerda): taça de vinho branco (apesar de diferir da figura, é mais adequado a um serviço requintado que esta taça esteja alinhada à faca principal), taça de vinho tinto e taça de água. Atrás dessas, próxima à taça de água, deve vir a taça flute (de champanhe). • As taças de qualquer outra bebida não devem compor a mise en place de mesa. Elas são servidas apenas a partir da solicitação do cliente. • As taças utilizadas na montagem de mesa também dependem das bebidas que serão servidas ou do estilo do restaurante. A montagem convencional favorece o uso das taças para vinho, água e champanhe, porém, é um serviço de maior sofisticação. Se a mesa for montada para evento, as taças devem ser postas necessariamente de acordo com o que será servido, sem taças a mais. Em eventos e recepções, é comum apresentar aos convidados o menu que será servido. Deve ser impresso em papel de qualidade, na cor branca ou creme (é um padrão, mas pode ter uma arte de acordo com o tema do evento), manuscrito ou impresso, contendo brasão – se for o caso –, nome e tipo do evento, e em seguida a relação dos pratos e das bebidas na ordem de serviço. Esse menu pode ser colocado na mesa em um porta cartões, de pé junto ao arranjo de flores, sobre o sousplat quando não há pratos na mise en place, ou ao lado do guardanapo – servindo um exemplar por casal. Fonte: Meirelles (2002) E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a P ara não ter erro na aplicação dessas regrinhas, faça algumas pergun- tas a si mesmo(a) antes de começar a montagem da mesa: Quais pratos serão servidos? Qual a ordem de serviço? Quais bebidas serão servidas? E lembre-se de montar a mesa de acordo com as respostas obtidas. Os pratos de cima são os das primeiras refeições, o de baixo da principal e o da sobremesa é entregue separado. Os garfos de fora são os primeiros a serem utilizados e os de dentro os últimos. As taças representam as bebidas que serão servidas, ou seja, sabendo quais farão parte da recepção, é só organizá-las na ordem comentada acima. Agora que você conhece as convenções, é só elaborar um cardápio bacana e montar a mesa do restaurante. Lembre sempre de considerar o que será servido na hora de decidir todos os utensílios que farão parte da mise en place que não terá erro. E se for um evento, lembre também de aproveitar para montar uma mesa temática, de acordo o mote da recepção. A mesa é onde os convidados passam a maior parte do tempo, dependendo da ocasião, então se lembre das regras de etiqueta e torne-a o mais agradável possível ao comensal. Couvert → Pratinho acima dos garfos à esquerda, com faca na lateral direita e fio para dentro. Garfos → À esquerda, alinhados ao prato principal. Facas e Colheres → À direita, alinhados ao prato principal. Talheres de Sobremesa → Acima dos pratos. Taças → Da esquerda para direita na diagonal: água, vinho tinto, vinho branco; atrás: flute. 111G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Você já deve ter percebido como a expres- são mise en place aparece a todo momen- to, em praticamente todas as disciplinas e materiais didáticos, não é mesmo? Pois é, caro(a) aluno(a), não deixe de aplicar sempre o conceito de mise en place em seu dia a dia de trabalho e estudos gastronômicos! E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a 113G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Você reclama se o garçom deixa pingar gordura na sua roupa em uma churrascaria? Se a fila do restaurante está longa, você espera pacientementeou logo se sente desvalorizado e quer ir para outro lugar? O garçom anotou seu pedido de bebidas há 15 minutos e não voltou ainda para servir, nem para anotar o pedido da refei- ção: é um atendimento comum? Como você se relaciona com os profissionais de atendimento em restaurantes? Dei abertura a este tópico com uma série de perguntas a respei- to de acontecimentos – mais corriqueiros do que pensamos – que desagradam o cliente, deixando ele em dúvida sobre retornar ao estabelecimento, ou pior, gerando propaganda negativa do lugar. A qualidade no atendimento, segundo Razzoline Filho (2012), é um parâmetro de diferencial entre estabelecimentos, pois gera competitividade. E, sendo assim, deve ser um dos focos de gestão do restaurante a preocupação com a equipe de atendimento. Além de tudo, são eles que se relacionam o tempo todo com o cliente. Qualidade em Atendimento E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a O que seria qualidade então? No Minidicionário Aurélio, Ferreira (2004, p.669) define qualidade como “superioridade, excelência de alguém ou de algo”. Pois bem, Razzoline Filho (2012) confere cinco aspectos importantes ao suces- so do atendimento, tornando-o de qualidade, tornando-o superior: confiabilidade, respon- sabilidade, segurança, empatia e tangibilidade. Ao final do serviço, essas mensagens devem ter sido absorvidas pelo cliente inconsciente- mente, graças a excelência do atendimento, ao cumprimento de suas expectativas e do que lhe foi prometido. Esse tipo de serviço exige que o profissional esteja em contato direto e pessoal com o cliente a todo tempo. É para cumprir os aspectos acima citados, e com a finalidade de sempre diagnosti- car o potencial da equipe e mantê-la atualizada e interessada, que Biscontini e Oliveira (apud TEIXEIRA et al., 2007) conferem importância aos treinamentos. As autoras afirmam que é possível direcionar treinamentos para setores diferentes, de modo que essa capacitação sirva de impulso ao funcionário. Além disso, uma equipe que realiza o mesmo tipo de trabalho, quando treinada junto, trabalha em sincronia – no caso do restaurante, pense que cada indivíduo da equipe de garçons deve ter o mesmo tipo de resposta às eventuais situações. No caso do atendimento, algumas ca- racterísticas devem sempre ser observadas, como mostra o quadro a seguir: 115G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Em um estabelecimento como o restau- rante, onde há interação do garçom com o cliente o tempo todo, quais características deveriam ser mais relevantes no atendi- mento? Pense a respeito e continue os estudos para descobrir se sua conclusão está de acordo. Característica Descrição Capacidade de atenção Habilidade para perceber detalhes (pormenores) relevantes sobre o cliente. Possuir sensibilidade Habilidade de “sentir” o cliente (seus temores, angústias, preocupações etc.). Possuir empatia Capacidade de se colocar no lugar do cliente. Bom senso Capacidade de discernimento entre o que pode e o que não pode ser feito para o cliente. Iniciativa Ser proativo, antecipando-se às necessidades, aos desejos ou à experiência do cliente. Compromisso Comprometimento com o bem-estar do cliente. Empowerment Capacidade de tomar decisões para resolver situações com agilidade e rapidez. Ousadia Habilidade de decidir mesmo sem procedimentos previamente estabelecidos. Intraempreendedorismo Capacidade de tomar decisões que melhorem os serviços da organização, como se fosse o “dono”. Tabela 4. Perfil do funcionário da área de serviços. Fonte: Razzoline Filho (2012, p.153) E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a Agora que entendemos qual o perfil esperado do atendimento, vamos conhecer os cargos do pessoal de sala de um restaurante e quais são suas respectivas funções (CÂNDIDO; VIERA, 2002): • Maître d’Hôtel (1º maître ou maître executivo): É o chefe de sala, o res- ponsável por supervisionar todos que executam atividades relacionadas diretamente aos clientes, assessorando o gerente. Coordena e chefia a equipe de sala, indicando a distribuição do salão antes do serviço começar. Orienta, treina e supervisa a mise en place de salão (veremos a seguir) e de mesa, bem como a higienização dos objetos – principal- mente do ménage. Em grandes centros turísticos, é indicado que este profissional fale dois idiomas fluentemente, ou pelo menos o inglês. • 2º Maître d’Hôtel: Semelhante ao 1º maître, com menor responsabili- dade, sendo sua preocupação principal com o atendimento. Deve ser capaz de substituir o maître executivo quando necessário. É ele, junto do 3º maître, responsável por controlar o estoque dos utensílios de salão (cristais, prataria, toalhas etc.). • 3º Maître d’Hôtel: A figura do 3º maître só aparece em grandes restauran- tes, principalmente de hotéis luxuosos que têm maior preocupação com um atendimento realmente especial. Deve saber executar as mesmas funções dos outros maîtres, porém, esse profissional é mais encarregado de banquetes e eventos (ou room service1, no caso de hotéis). • Chefe de fila: É aquele que auxilia o maître, mas também é encar- regado de atender algumas mesas. É considerado o 1º garçom, pois os coordena nas praças. • Chefe trinchador: Pode ser um cozinheiro ou auxiliar de cozinha capa- citado para trinchar alimentos na frente dos clientes. É imprescindível que esse profissional esteja sempre uniformizado e limpo. • Sommelier: É o especialista em vinhos e, no restaurante, o responsável por indicar a compra, selecionar e controlar o armazenamento dos vinhos e tudo relacionado ao serviço dessa bebida. Esse profissional deve ter boa comunicabilidade e sobriedade para sugerir, provar e 1 Room service: do Inglês, “serviço de quarto”. Livre tradução. 117G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R servir vinho aos comensais. • Garçom: É o profissional encarregado por anotar pedidos e servir às mesas, ou seja, aquele que mais tem contato pessoal com o comensal. Ele executa a mise en place, coordena o commis e auxilia eventualmente o sommelier. • Commis: É o auxiliar do garçom. Responsável por higienizar todo o material de trabalho e também atender os clientes. Executa serviço de limpeza e remontagem de mesa durante o funcionamento do res- taurante. Ele é quem busca os pratos que ficam prontos. • Barman: É o profissional responsável pelo bar, tanto para coordenar e chefiar a equipe, quanto para preparar drinques e coquetéis. Quando há garçom de bar e commis de bar, o barman é responsável pelo trei- namento e orientação desses funcionários. As equipes de trabalho de um restaurante nem sempre são compostas por todos os cargos que acabamos de conhecer. Vale aqui, também, a tipologia e o porte do estabelecimento. O serviço de sala deve ser condizente com a estrutura, com as expectativas do cliente. Seria mais assustador adentrar uma lanchonete e ser recep- cionado por um maître que encontrar apenas garçons, como estamos acostumados. E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a Uniformes “A escolha do uniforme tem como premissa a identificação da cultura da empresa”. Com a afirmação de Meirelles (2002, p.150), enten- demos que o uso do uniforme é uma forma de democratizar as praças de trabalho, pois cada cargo utiliza um uniforme específico e, assim, é possível reconhecê-los pelo padrão, além de criar uma imagem esteticamente bonita. O uniforme da equipe de salão deve visar ao conforto, pois esta equipe realiza funções que exigem movimentação pelo salão. Aos maîtres é indicado o uso de smoking, com camisa branca, gravata borboleta e sapatos pretos, por ser uma função que exige mais classe (CÂNDIDO; VIERA, 2002). O garçom deve usar camisa branca e jaque- ta curta até a cintura, gravata do tipo borbo- leta, meias e sapatos na cor preta. Em caso de eventos mais formais, é indicada a utilização do paletó clássico branco (MEIRELLES,2002). Alguns restaurantes optam por variar a cor do colete e da calça, sendo mais comuns as alternativas em azul, cinza, bege e bordô, e outros optam por não utilizar o colete, e sim um avental branco (ZANELLA, 2007). As mu- lheres podem substituir a calça por saia, se for de seu agrado. As outras funções devem acompanhar o modelo adotado para o garçom, podendo alte- rar uma ou outra peça para diferenciar o cargo. O importante é lembrar que, independente do profissional, a aparência pessoal é fundamen- tal para complementar o uniforme. Além dos trajes sempre limpos, passados e os sapatos engraxados, é importante que todos os funcio- nários do serviço de sala tenham seus cabelos sempre bem cortados, unhas curtas e limpas, barba sempre feita e saúde bucal em dia. Afinal, uniforme bem apresentado e desleixo pessoal não combinam. Uniforme para maître 119G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Etiqueta no atendimento Algumas práticas de atendimento são bem quis- tas e esperadas para que haja um serviço de excelência, mantendo a boa relação do cliente com o garçom e com o estabelecimento. De acordo com as normas de etiqueta para o atendimento, o garçom deve levar de 3 a 5 minu- tos para anotar os pedidos e servir as bebidas; e de 15 a 20 minutos para servir as refeições. Claro que dependendo do tipo de estabelecimento isso pode variar, mas o garçom deve indicar ao cliente no ato do pedido. Na comanda deve estar ano- tado se o cliente está com pressa e o horário do atendimento, e clientes com crianças devem ser atendidos primeiro para agilizar o serviço, visto que crianças são normalmente agitadas e isso pode causar desconforto para outros comensais. Na realização da mise en place de salão (você vai entender tudo sobre isso no próximo tópico), é indicado deixar algumas mesas em ambientes mais reservados, pois sempre aparecem clien- tes querendo mais intimidade durante sua refei- ção. Ainda assim, deve-se evitar que os clientes fiquem acomodados em locais próximos à maior circulação dos funcionários. Quando a equipe de sala é antiga e já co- nhece os costumes de um cliente habitual, é recomendado dar a este mais atenção e prefe- rência pôr sua mesa de costume sem que este precise pedir, afinal, ele merece um tratamento especial. Aquém a essa situação, a prioridade de atendimento deve ser por ordem de chegada. Estimula-se colocar os clientes em áreas ex- ternas primeiro – quando há – para que aumente a sensação de volume, transmitindo a imagem de um restaurante bom e lotado. Se o restaurante estiver realmente cheio, manter o cliente bem recepcionado no bar é uma boa saída para que este não espere parado sem ocupação (isso pode levá-lo ao tédio e irritação, fazendo com que ele se retire e até não retorne mais ao estabelecimento). Essa situação pode ser ainda pior se há mesas vagas por reservas feitas (e o cliente não apareceu), por isso é agradável aguardar 15 minutos de tolerância, mas ademais, pode causar uma confusão maior. A linguagem utilizada no ambiente do res- taurante deve ser simples e adequada ao perfil de cada cliente, mas as boas maneiras ditam que para ser agradável e sorrir não há ocasião. “Boa noite”, “muito obrigado”, “volte sempre”, “desculpe-nos pela demora”, “posso ajudar?” são boas formas de manter o bom convívio com os clientes e deixá-los confortável sob a presen- ça do garçom ou de outro profissional de sala. Reclamações existirão sempre, mas com treina- mento e etiqueta, o atendimento vai agradar e o comensal vai voltar (ZANELLA, 2007). Mas e aí, o que esse pessoal todo faz antes das portas do restaurante abrirem? Não pode- mos falar em atendimento e serviço de sala, levando em consideração o bom atendimento, sem conhecer uma mise en place de salão ideal, na qual essa equipe está envolvida. E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a Mise en place de salão Mise en place de salão é a organização do salão, ou seja, alinhar as mesas e as cadeiras, limpar os banheiros, o chão, o tapete, o bar. Além disso, devem ser checados o bom funcionamento dos aparelhos de ventilação, ou ar condicionado, e os pontos de iluminação da casa. O aparador do garçom também faz parte do mise en place de salão. (GUZELA, 2012, p.121) Mise en place de salão pronta 121G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R O responsável pela mise en place de salão é o maître, em sua ausência, o commis ou então o próprio garçom. A organização depende do tipo de serviço utilizado no estabelecimento, pois é a partir dele que se definem os utensílios que serão utilizados. O primeiro passo é limpar o aparador e o abastecer com os utensílios também limpos (como cinzeiros, talheres, ménages, naperons, entre outros). Essa higie- nização é conhecida como “repasse do material”, pois todo o material é passado no álcool (com pano limpo e que não solte felpas) para tirar as impurezas e dar brilho nos cristais, louças e talheres que vão à mesa – considerando que já foram lavados previamente. Os talheres podem ser mergulhados na água quente e secos com pano especial para essa finalidade, que também não solte felpas e que dê brilho, sendo também considerado como repasse (CÂNDIDO; VIERA, 2002). Com relação a taças e copos, seja de vidro ou de cristal, é preciso cuidar para que todos estejam em estado perfeito para uso, sem trincos, quebras ou rachaduras. Caso contrário, isso poderia ocasionar em um acidente du- rante o serviço, machucando a boca de um comensal. Essas peças também devem ser polidas, garantido brilho. Cândido e Viera (2002, p.131) indicam as maneiras ideais: • No vapor: consiste em aquecer a água em um recipiente com boca larga e entornar peça por peça de cristal sobre o vapor da água quente por uns segundos e polir com um pano bem seco. • No álcool: é o sistema mais usado. Molhar as taças no álcool e polir com um pano seco. As mesas, que podem ter formatos variados para melhor aproveitamento de espaço do salão, devem manter uma distância mínima de 1,20m entre uma e outra, garantindo que o serviço de sala seja executado com excelência, seja com a necessidade de passar com guéridon, ou simplesmente o garçom com a bandeja – além de garantir a privacidade entre as diferentes mesas. É educado evitar que uma mesa fique posta deixando o cliente de costas para a porta de entrada, garantindo o conforto dos convivas. Depois das mesas e cadeiras em seus devidos lugares, é hora de colocar moletons, toalhas e naperons. E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a O ménage nunca deve chegar à mesa do cliente com bordas sujas de azeite ou com o saleiro úmido, pois, além de anti-higiênico, é também desagradável para a pessoa que, ao utilizar, suja sua mão e fica com a impressão negativa sobre o estabelecimento. Alguns restaurantes trabalham com carros de serviços específicos, por exemplo, carro bar ou carro de sobremesa. Se esse for o caso, o objeto deve ser higienizado antes de o serviço começar. A manutenção desse tipo de equipamento também se faz importante para evitar surpresas desagradáveis em dias de funcionamento. O guéridon está incluso nos carros de serviços e deve ser or- ganizado antecipadamente também (CÂNDIDO; VIERA, 2002). Baldes de gelo, suporte para baldes e comple- mentos (pinças para gelo, saca-rolhas, corta lacre de vinhos e outros utensílios para o serviço de vinhos e champanhes) costumam estar presentes no material utilizado por res- taurantes de bom serviço, com boas cartas de vinho. Nessa situação, é importante que sejam revisados e higienizados diariamente. Por último, segue com a decoração das mesas do salão e do buffet (quando é o caso). De acordo com a tipologia do restaurante, a decoração se faz mais ou menos importante e opulenta, independente disso, é de bom grado que haja algo ao centro da mesa para confortar o comensal. Mas cuidado,nunca utilize flores com cheiros imponentes, além de ser um chamariz para insetos, podem tirar o aroma do prato que será servido ou se mesclarem, tirando a identidade da refeição. Guzela (2012) organizou um checklist que deve sempre ser conferido antes de iniciar o trabalho de mise en place de salão: 123G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R As mesas e as cadeiras estão alinhadas, limpas e organizadas de acordo com as reservas? O aparador ou balcão de apoio está limpo? Ele está equipado com: O moletom, a toalha e o naperon estão limpos, bem passados e esticados? Galheteiro ou ménage montada? As toalhas não contêm furos ou manchas? Talheres, pratos taças e copos limpos e polidos? Os guardanapos estão limpos, bem passados e dobrados de acordo com o padrão do restaurante? Guardanapos, toalhas, naperons, panos de copa, panos de serviço limpos, passados e dobrados? O piso está limpo (bem aspirado ou encerado, dependendo do tipo do piso)? Álcool? As paredes estão bem pintadas, sem manchas ou marcas de mão ou gordura? Talco ou outro tipo de item que auxilie na retirada de gordura de roupas, em caso de acidentes? Os quadros estão alinhados e bem dispostos, devidamente limpos, sem poeira aparente ou molduras defeituosas? O terminal de lançamento de comandas funciona perfeitamente? Os talheres, os pratos, os copos e as taças foram bem alinhados e polidos? Há comandas sobressalentes? Os cardápios apresentam rasuras, rasgos ou manchas? Eles estão devidamente limpos? Há canetas com tinta, que funcionam, sem mordida ou rachaduras? A decoração da mesa, a vela, ou outro tipo de utensílio, estão limpos e bem centralizados? Há escovinha e pano para recolher migalhas e restos das mesas? As bandejas foram polidas e as mesas estão com toalha ou revestimento adequados e em bom estado? Há pegador de gelo e balde para gelo e vinhos? A lixeira está discretamente colocada, com pedal e saco de lixo recém-trocado? Há espátulas para bolos, conchas, colheres e pegadores para o serviço? Tabela 5. Checklist de salão. Fonte: Guzela (2012, pp.104-105) Os pequenos detalhes fazem a diferença e ter uma listinha de checagem à mão facilita e agiliza o serviço. Mas o que completa mesmo um salão bem montado e uma mesa agradável são as boas maneiras daquele que vai dispor da refeição, e por isso não podemos deixar de citar algumas normas básicas de etiqueta que devem ser utilizadas por todos nós enquanto comensais. Por isso, no próximo tópico conversaremos sobre comportamento à mesa e a maneira ideal de se comer determinados alimentos. E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a 125G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R À mesa, conseguimos reconhecer os hábitos das pessoas de forma única, cada qual se revela em costumes e educação. Faz-se extre- mamente importante ao profissional de Gastronomia conhecer todos os itens relacionados à etiqueta que trabalhamos até aqui, seja história, conceito, como montar salão e mesa, reconhecer e saber utilizar os utensílios, a importância de um atendimento de qualidade. Mas é também uma obrigação saber se portar em uma mesa de refeição, em seja um evento ou restaurante, para ser admirado e prestigiado. Por essa razão, fecharemos nossa unidade com dicas impor- tantíssimas de etiqueta, ou boas maneiras, à mesa. Boas Maneiras à Mesa E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a Comportamento ideal Comportamentos são percebidos em qualquer lugar ou situação, por isso, não é apenas na mesa, durante a refeição, que devemos nos atentar às boas maneiras. Mesmo ao chegar a um restaurante devemos manter uma postura ideal e, então, esse será nosso ponto de partida. Ao chegarmos num restaurante, logo à porta, o homem deve ir à frente para conversar com o maître. Note que a etiqueta tradicional é um tanto machista, como afirma Matarazzo (1995), mas esse costume ainda não mudou. Claro que se houverem apenas mulheres, uma deve se prontificar a isso, seja a que foi escolhi- da pelo grupo ou aquela que convidou para a ocasião. Em caso de ir a um restaurante em um grupo grande, cuidado para que o tom da con- versa não se exceda. O ideal é abaixar o volume e voltar à conversa normal quando todos esti- verem acomodados. Se deu vontade de ir ao banheiro peça licen- ça, levanta-se discretamente e siga em frente. Mulheres não devem ir em grupo e devem apro- veitar esse momento para retocar a maquiagem – é completamente deselegante fazer isso à mesa (MATARAZZO, 1995). Se você vai com alguém a um restaurante, nunca use dieta como desculpa, peça um prato – mesmo que simples ou leve – para acompanhar. E se encontrar algum conhecido sentado em uma mesa distante, acene de longe; se estiver perto, faça um curto cumprimento, para não constranger as pessoas que o estão acompa- nhando. Falar alto, de boca cheia ou bater na barriga são atos abomináveis, você não deve cometer erros tão bruscos. Conferir a conta é preciso, mas não se pro- longue. É possível saber se está tudo de acordo com o que foi pedido com uma rápida passada de olhos. Além disso, lembre-se da gorjeta – e estamos falando de no mínimo 10% – que nem sempre está inclusa na taxa de servi- ço (MATARAZZO, 1995). Importante: se há homem na mesa, deixe que ele peça a conta. Mesmo parecendo conservador demais, o tra- dicional dita dessa forma. Apesar disso, dividir a conta é completamente aceitável, seja entre jovens, mulher e homem, casal, enfim, só não se deve dividir se for almoço de negócios, pois nesse caso quem convidou é que deve pagar. “Agora, se o casal aparece com uma amiga extra, divide-se a conta por pessoa, e o casal que levou a convidada paga três partes” assegura Kalil (2007, p.34). A autora diz que é de bom grado que quando há crianças, os pais se responsabili- zem pelas guloseimas a mais de seus filhos e, no caso de saídas em grupo, é civilizado que aqueles que pediram bebidas diferentes paguem por elas, para não constranger os que não beberam. Se você vai a um evento particular e a an- fitriã que organizou tudo e até mesmo cozi- nhou, lembre-se sempre de fazer muitos elogios e jamais negue a sobremesa, não há dieta que 127G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R justifique essa atitude (MATARAZZO, 1995). Ao se sentar, algumas regras também devem ser seguidas: caso seja um evento formal, aguar- de o anfitrião sentar primeiro; puxe a cadeira naturalmente, segurando firme para se sentar em apenas um movimento; mantenha a postura; não cruze as pernas; e não balance a cadeira. Cotovelos nunca devem ser apoiados na mesa, apenas os punhos podem ficar apoiados, e não se deve colocar as mãos no queixo. Durante a refeição, é preciso tomar cuidado para não abrir demais os braços e atrapalhar a pessoa sentada ao lado, e não se deve descansar uma mão desocupada no colo, ela deve ficar sempre à vista, com o punho na mesa. Este é um lugar de sempre demonstrar tranquilidade, indepen- dente de seus problemas pessoais (ETIQUETA, 1995). Durante a refeição, alguns erros devem ser evitados, deixando clara sua noção de etiqueta e educação. Por isso, atente-se a: Pequenas regras que vão fazer do seu jantar um encontro civilizado: 1. Não soprar a sopa ou qualquer bocado com molho. Ponham na colher e deixem a quentura baixar. É proibido chupar e fazer barulho. 2. Quando o prato chegar, comam no mesmo ritmo dos outros. É muito chato alguém ficar falando com o prato servido à sua frente e fazer com que todo mundo espere comer sozinho depois. 3. Esqueçam os celulares. Ainda dá para tolerar se for um almoço de negócios. Mas falar no celular quando se está jantando com uma namorada ou com amigos é uma tremenda falta de consideração. (KALIL, 2007, p.143) Gloria Kalil (2007) dá um toque de humor ao falar de um aspecto muito importante atual- mente, o uso do celular à mesa. É um cuidado que deveser tomado para não transparecer de- selegância e falta de respeito com todos os que estão participando de um ato de comensalida- de. Nada de redes sociais durante as refeições, jovens. Além dessas, Kalil (2007) retoma alguns outros conceitos da etiqueta clássica, fazendo menção a um livro de etiqueta dos anos 60, no qual notamos não ter havido grandes modifica- ções. Neste, indicações como não se precipitar com os pães antes da refeição ser servida para não parecer faminto, não fuçar a travessa em busca de um pedaço melhor, beber com a boca cheia de comida ou comer com a boca aberta já constavam como péssimos atos contra a Gastronomia. E o que fazer com caroço de azeitona, de cereja, de uva ou semelhantes? Tirar discre- tamente com uma mão e depositar no prato ainda é a melhor indicação. Retirar com o garfo poderia fazer com que um caroço rolasse pela mesa, creditando maior desconforto a quem cometer a gafe. E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a A demais, não podemos esquecer as boas maneiras relativas a um ponto bem importante da refei- ção, a manipulação dos talheres de modo sutil, agradável e com bom senso. Segue ilustração e explicação de como a etiqueta nos indica praticar. Na figura, estão apresentados seis pratos, cada qual com uma disposição de talher. O primeiro prato (prato 1) é a apresentação ideal de talheres descansando no prato, enquanto você for beber alguma coisa, por exemplo, de modo que o garfo sempre esteja à esquerda e a faca à direita; o segundo (prato 2) indica que a pessoa está pronta para o segundo prato, mas não deve ser utilizada por ser de mau gosto, afirmando “ainda estou com fome”; o terceiro prato (prato 3) é a melhor maneira de deixar os talheres ao final de um prato, quando ainda virão outros, pois representa a sua satisfa- ção até o presente momento, sendo assim, é elegante deixar os talheres dessa forma; o quarto prato (prato 4) a forma mais polida de deixar garfo e faca ao final da refeição, pois representa plena satisfação; o quinto prato (prato 5) é a representação de uma mise en place básica; e o sexto e último prato (prato 6) é a forma de dizer que não gostou da comida ao final da refeição, sendo completamente in- delicado, deselegante e nem um pouco indica- do (MATARAZZO, 1995; MEIRELLES, 2002; ETIQUETA, 1995). 1 2 3 5 6 4 Talheres no prato: certo ou errado 129G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Os bons modos também ditam que você nunca deve comer com as mãos, a não ser que o alimento exija; que se o garfo ou qual- quer talher cair no chão, você deve chamar o garçom e pedir outro, nunca se abaixar para pegá-lo; que você deve passar o guardanapo nos lábios levemente antes de beber durante a refeição para evitar marcas desagradáveis no copo ou na taça (ETIQUETA, 1995); e que palitar os dentes em público caiu em desuso. Segundo Kalil (2007), o palito passou a ser visto como algo primitivo e foi substituído pelo fio dental, que deve ser utilizado em sua intimidade. Terminou de comer? Não empurre o prato. Apenas indique isso com a posição correta dos talheres e deixe seu guardanapo em cima da mesa com discrição. Agora que sabemos como nos comportar de maneira ideal no restaurante e à mesa, é im- prescindível conhecer algumas regrinhas mais específicas sobre determinados alimentos, como cortá-los e comê-los. Para isso, utilizaremos Etiqueta (1995) como fonte de pesquisa. • Saladas de folhas grandes: qualquer verdura que chegue a seu prato inteira deve assim permanecer, você não deve cortá-la. Utilizando garfo e faca, faça uma trouxinha. Caso a folha seja muito grande, você pode cortar apenas ao meio e depois fazer a trouxinha. • Aspargos: quando fresco, deve-se comer com as mãos, segurando pelo lado firme e deixando no canto do prato a sobra da parte fibrosa. Como cortar e comer os alimentos • Alcachofra: se a alcachofra for servida inteira, com as folhas, deve ser comida com as mãos e talheres. Devem-se tirar as folhas com os dedos e mergulhar a parte macia no molho (se for o caso). Ao chegar no coração da alcachofra, utilize garfo e faca para comer. • Batatas: devem ser comidas com garfo e faca, exceto se for batata chips, estas têm de ser levadas à boca com as mãos. • Caranguejo: com os dedos, você deve retirar as patinhas e sugar a carne – em silêncio, se possível. O garfo de ostras deve ser utilizado para auxiliar na reti- rada da carne debaixo da casca. O que ainda houver de carne, precisa ser tirado com os dedos e depositado no prato, E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a para ser ingerido ainda com o garfinho. Devido à complicação, é indicado consu- mir o caranguejo em situações informais. • Casquinha de siri: você necessita firmar a casquinha no prato (de sobremesa, nor- malmente) com a mão esquerda e utilizar um garfo na mão direita para comer. • Couvert: já citei a forma correta de comer o pão, porém, vale ressaltar que a dica de utilizar a mão vale para outros couverts também, seja cenoura, azeitona, picles etc. • Escargot: quando vem em sua casca, você precisa fixar a concha com a pinça apro- priada e usar o garfinho especial para comer. Para comer escargot, é preciso prática, vale a pena treinar em casa. • Fondue: os garfinhos compridos são co- loridos por uma razão, diferenciar quem está utilizando cada um. Este garfinho não deve ser levado à boca, ele serve para que você espete o pãozinho, leve ao queijo fundido, devolva ao prato e com seus talheres (garfo e faca) termina a refeição. O mesmo vale para o fondue de carne e de chocolate. • Frango: apenas o frango a passarinho deve ser consumido com auxílio das mãos. Feito de qualquer outra forma, deve-se utilizar garfo e faca. • Massa: nunca corte massas como espa- guete, é uma ofensa à cultura italiana. Massas como rondele, caneloni e ravióli podem ser cortadas, ademais, faça uso de um garfo para enrolar o macarrão no fundo do prato – de modo que o molho seja juntamente absorvido – e, caso ne- cessário, utilize uma colher para te ajudar (não faça disso uma regra, tente evitar). • Ostras: utilize talher de peixe para comer ostras. Caso seja servida na concha, abra com as mãos e faça uso do garfinho para comer a parte principal. O caldinho da concha pode ser sugado diretamente dela. • Queijos: queijos devem ser cortados com as facas especiais para essa finalidade. Lembre-se de cortar pedaços pequenos para acompanhar torradas e pequenos pães, de modo a comer com as mãos. 131G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R co ns id er aç õe s fi na is E sta unidade foi fundamental para contribuir com sua formação. Nela você conheceu o material utilizado em restaurantes, ou em eventos, para realizar uma mise en place de mesa e de salão. Agora você é capaz de montar uma mesa de acordo as várias tipologias (unindo ao conhecimento adquirido na unidade anterior), ou mesmo de escolher um tema aleatório, como Páscoa, dia dos namorados ou dia das bruxas, e montar uma mesa temática, utilizando cores e ornamentos diferentes, porém dentro do mesmo contexto da mise en place. As montagens de mesa não são complicadas como aparentam, seguem um fluxo contínuo e lógico dentro da refeição. Lembrando-se de utilizar os talheres de fora para dentro, sabendo que cada um indica uma refeição, tudo dará certo. E agora que você conheceu todos os utensílios ficou fácil, certo? Todo o trabalho que tivemos até aqui, com histórias, conceitos e aplica- ções, não teria o mesmo valor se não existisse um serviço de atendimento qualificado para complementar a etiqueta e as boas maneiras. Agora você sabe que a equipe de sala deve ser treinada para ser sempre atenta, sensível, possuir empatia, bom senso, iniciativa, compromisso e ousadia. E, além disso, você consegue designarcargos de atendimento, diferenciando cada um deles. Reconhece a importância da utilização do uniforme como fator de padrão e caracterização de um estabelecimento, e como ele deve ser de acordo com a função. Ademais, um profissional de atendimento deve estar sempre preparado para receber seus clientes, devendo realizar uma mise en place de salão com praticidade e cuidado, bem como deve atender aos clientes respeitando as normas de etiqueta. E finalmente, concluímos a unidade com dicas do com- portamento ideal à mesa, utilizando sempre o bom senso e adaptando os conceitos antigos à vida contemporânea, encerrando com a maneira correta de comer determinados alimentos que, muitas vezes, podem causar confusão aos comensais. E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a at iv id ad es d e es tu do 1. A partir da mise en place de mesa da figura abaixo, constitua um possível cardápio justificando suas escolhas. 2. Como entrada, será servido um couvert de pães e patês. Depois um prato de salada caprese. Em seguida, uma sopa creme de abóbora com gengibre. O primeiro prato é um salmão escalfado em caldo aromático. O prato principal é um risoto de mignon com gorgon- zola e a sobremesa uma fatia de bolo de especiarias com sorvete de castanhas. De bebida será servido água, vinho tinto e espumante. A partir do cardápio acima, monte a mise en place de mesa, escolhendo talheres e taças ideais, colocando-as na ordem correta. Faça o desenho da montagem de mesa para visualizar com mais clareza. 3. Descreva as funções desempenhadas pelo maître executivo, pelo chefe de fila, pelo garçom e pelo commis. 4. Cite três comportamentos que não são considerados boas maneiras à mesa e apresente a solução para cada um deles explicando como devemos agir, de acordo com a etiqueta, nesse tipo de situação. 5. Embasado pelo estudo da etiqueta à mesa, descreva como devemos comer caranguejo, fondue e massas em um restaurante. 133G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R m at er ia l c om pl em en ta r Comendo pelas beiradas Kevin Heffernan Ano: 2009 País: Estados Unidos Gênero: Comédia Sinopse: O ex-campeão mundial dos pesos-pesados “Slammin” Cleon Salmon (Michael Clarke Duncan) é o proprietário de um sofisticado res- taurante de frutos do mar, em Miami, chamado The Slammin’ Salmon. Uma noite, precisando pagar uma dívida de jogo para a máfia japonesa, Salmon lança um concurso para incentivar seus garçons a vender mais pratos do que nunca. Traições, suborno e propostas indecentes, vale tudo para ganhar o prêmio, ou então uma costela quebrada, cortesia do patrão. Comentário: Apesar de o filme ser uma comédia ao estilo americano (que não é nosso foco), vale notar o enredo, que gira em torno do atendimento, do serviço dos garçons. O canal de esquetes de humor no YouTube, Porta dos Fundos, criou o vídeo Spoleto para satirizar o atendimento em algumas redes de fast food. Confira em: <https://www.youtube.com/watch?v=Un4r52t-cuk>. Acesso em: 13 fev. 2015. O vídeo acabou viralizando na Internet e se tornou propaganda para o restaurante. Veja a parte 2 em: <https://www.youtube.com/watch?v=ebe-3s4TLfQ>. Acesso em: 13 fev. 2015. A parte 3 você pode conferir em: <https://www.youtube.com/watch?v=fGyt3sF3T7M>. Acesso em: 13 fev. 2015. E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a le it ur a co m pl em en ta r Ao adentrar um restaurante e se deparar com um sommelier uniformizado ou com uma completa carta de vinhos não é preciso entrar em pânico. O ideal é utilizar sempre o bom senso, tranquilidade e educação, pois as regras básicas de etiqueta são baseadas nesses princípios. Com a finalidade de simplificar esse momento, algumas dicas devem ser levadas em consideração: 1. O garçom, sommelier ou maître vai te oferecer a carta de vinhos. Caso isso não aconteça, peça por ela com educação. 2. Não se sinta intimidado pela carta de vinhos, se houver dúvidas, per- gunte. O sommelier é um especialista que está pronto para te ajudar (seja a respeito das safras, regiões, produtores etc.). 3. Ainda não está certo de qual o vinho ideal para a ocasião? Peça indica- ção ao sommelier. Ele irá identificar seu gosto e disposição financeira discretamente, conciliando a escolha do vinho com o menu escolhido para a noite. 4. Quando o sommelier trouxer a garrafa escolhida, confira se esta está de acordo com o que foi solicitado (safra e rótulo) e então autorize a abertura. 5. O sommelier vai abrir a garrafa próximo a você. Ele se servirá de um gole do vinho para verificar se ele não está estragado. 6. Ele repetirá o processo em uma taça limpa, mas dessa vez você é quem vai provar para se certificar de que o vinho mantém as características esperadas. Seguindo sua aprovação, o sommelier servirá as outras pessoas à mesa. 7. A taça nunca deve ser servida mais que a metade. O vinho precisa de espaço para liberar suas notas. 8. O sommelier dividirá a primeira garrafa de maneira uniforme entre todos os comensais à mesa e somente abrirá outra garrafa com a sua autorização. Etiqueta na sequência do serviço de vinhos 135G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R le it ur a co m pl em en ta r 9. Se durante a refeição houver mudança de pratos, você pode solicitar novas orientações a respeito da harmonização com outros vinhos. 10. Se, ao final da refeição, sobrar vinho na garrafa é comum que seja levado para casa. Caso acabe, é comum pedir a garrafa vazia para coleções. Nota-se que a indicação nos itens 5 e 6 afirma que o vinho deve ser degustado, tanto pelo sommelier quanto pelo anfitrião, antes de ser servido a todos, para garantir que a bebida não esteja estragada. Isso significa que o vinho só pode ser devolvido se ele estiver defeituoso. Por motivos de decepção com as características do vinho, porém não defeito dele, deve-se manter a paciência e aceitar como uma escolha ruim. Se o sommelier escolheu, a troca é facilitada, mas é ideal escolher outro de preço similar ou mais elevado, para não deixar a impressão negativa, pois o arrependimento se justifica pelo preço e não pela bebida em si. Vale sempre a conversa e o bom senso na hora de pedir a troca, pois a aceitação vai depender do lema do restaurante. Com relação à rolha, não estranhe se automaticamente o sommelier a dispuser ao seu lado sobre um pires. Você pode analisá-la, caso deseje, ou apenas deixar ali, sem fazer nada. Vale ressaltar que uma rolha verde e bolo- renta é sinal de que o vinho talvez esteja estragado; se a rolha está sem cor e o vinho é tinto, a garrafa podia estar guardada de pé; e se a rolha é longa, indica que o vinho era de guarda. Se o anfitrião coleciona as rolhas dos vinhos que degusta, não deve ter receio em levá-la para casa. Adaptado de: COPELLO, Marcelo. A etiqueta no restaurante. Revista Adega [online]. Disponível em: <http://revistaadega.uol.com.br/artigo/a-etiqueta-no-restauran- te_7340.html#ixzz3PNUiFb00>. Acesso em: 13 fev. 2015. E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a Caro(a) estudante, Chegamos ao fim desta etapa e, com isso, espero que o material tenha sido claro e que você tenha aprendido um pouco mais com os tópicos que abordamos. Busquei oferecer, durante todo o percurso, conteúdos importantes para sua for- mação como futuro profissional de Gastronomia, agregando valor à sua graduação e carreira. Você já aprendeu como a etiqueta foi uti- lizada ao longo da história como forma de de- marcação de nobreza, que a comensalidade e os costumes sofreram mudanças ao longo dos anos, mas nunca perdeu o significado, e ainda sentimos prazer em comer junto de outras pes- soas; além disso, a refeição, ao longo da história, selou acordos e enriqueceu pessoas. Você conclui essa matéria sendo capaz de conceituar etiqueta, cerimonial e protocolo, re- conhecendo a importância de cada um desses itens para a sociedade, a diferença entreclasses que demonstra que sempre existirá uma ordem hierárquica a ser seguida, seja num cerimonial ou num jantar com um anfitrião. Percorremos também a história do res- taurante, instituição mais recente do que nor- malmente pensamos – se considerarmos a apresentação atual. A etiqueta sendo aplicada aos poucos dentro da cozinha, dando critérios mais organizacionais, uniformizando os traba- lhadores e reconhecendo a profissão. E, a partir disso, temos uma gama de tipos de restauran- tes existentes na atualidade. Sim, esses todos que frequentamos e que agora você é capaz de descrever com características peculiares, não só a respeito do funcionamento, como também indicar a melhor técnica de serviço de acordo com o local. Fechamos essa etapa capacitando você a organizar a montagem de um salão e de uma mesa, seja de acordo com um tema, evento ou cerimonial. A hierarquia da equipe de sala também fez parte desse conteúdo, assim, você sabe a função que cada um deve executar para o bom funcionamento do restaurante. E para além disso, você conclui a matéria de Etiqueta e Serviço de Sala sabendo se portar em qualquer tipo de evento ou estabelecimento, pois tivemos um tópico somente sobre boas maneiras à mesa. Vá sempre além, abuse de toda sua capa- cidade para aprender mais. Aproveite os mate- riais complementares ao final de cada unidade e retome sempre que necessário. Foi um prazer fazer parte da sua formação! Sucesso, bons estudos e bom apetite! CONCLUSÃO 137G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R re fe rê nc ia s ALMEIDA, Hugo de Faria. CNCP Brasil. Código de ética e disciplina do cerimonialista. Disponível em: <http://www.cncp.org.br/?page_id=85>. Acesso em: 12 fev. 2015. ALTHOFF, Gerd. 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São Paulo: Ed. Metha, 2007. 141G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R ga ba ri toUNIDADE I 1. Os reis das primeiras civilizações realizavam festas com grandes banquetes para estreitar relações com seu povo. Estabeleça um compa- rativo entre os reis das primeiras civilizações e as maneiras de dominação do Rei Luís XIV, já no século XVII. Aqui, você deve se lembrar de que nas primeiras civilizações os reis entendiam que aqueles que trabalhavam a seu dispor deveriam ser recom- pensados, sendo assim, na ocorrência de cele- bração de um feito memorável, o rei convidava algumas dessas pessoas à sua mesa; além disso, acreditavam que o banquete era uma forma de honrar seus deuses e, por isso, ofereciam ao povo festejos fartos em alimentos e bebidas, de modo a enriquecer o vínculo existente entre o rei e o povo. Contrário a isso, o rei Luís XIV utilizava-se da etiqueta e de cerimoniais para enfatizar a divisão de classes, sem intenção de criar vínculos com a burguesia, instigando a disputa da nobreza por um lugar na corte. Para isso, designava funções à nobreza direcionando a maneira correta como deveriam se portar à mesa e os cerimoniais reais diários, dessa forma, ele mantinha controle po- lítico absoluto, reforçando e impondo seu valor. Isso era possível porque os nobres eram tratados de forma diferente que o povo, os pagadores de impostos, e por ostentar a vida na corte, próximos ao rei, faziam todas as vontades do rei. 2. Defina comensalidade e dê exemplos de aplica- ção em uma civilização antiga de sua escolha. E nos dias atuais, a comensalidade acontece da mesma forma? Você deve entender que comensalidade é a união de pessoas (comensais) que comem e bebem juntas, seja para festejar, seja para selar um acordo, seja apenas para estabelecer contato com outrem, sempre reforçando algum tipo de vínculo. No Antigo Egito, por exemplo, comer muito era sinônimo de longevidade e, por acreditarem na vida após a morte, esbanjavam alimentos até aos mortos; de modo geral, eles faziam em média três refeições diárias, todas com as mãos, sem talheres e, quando havia fes- tividade, banquete, além da comida abundante, não faltavam cerveja e vinho, além de música e dança. Ou seja, você deve entender que comer vai além de um simples ato, em todas as civili- zações, a comensalidade relaciona a união de pessoas – seja entre iguais ou não – a uma razão de convívio, por obrigação divina, para suprir a necessidade do povo e, consequentemente, não dissipá-los, para estabelecer ordem social, dentre outras razões que se utilizam para justi- ficar a união de pessoas em torno do alimento. Apesar de o tempo mostrar que adaptações acontecem de acordo com o momento histórico – a individualização em algumas refeições, por exemplo –, a comensalidade mantém também algumas semelhanças, como a preocupação com o luxo nas classes mais altas ou um jantar para selar união matrimonial. Com essa ques- tão, quero que você reflita se a identidade do homem é realmente transparecida durante a comensalidade e se as razões utilizadas como justificativa para o homem se alimentar em conjunto ainda podem ser aplicadas ao nosso dia a dia. 3. O cerimonialista é a pessoa responsável por apresentar uma solenidade, dirigindo todo o encontro/evento. Essa afirmação é verdadeira ou falsa? Justifique sua resposta. A afirmação é falsa, pois o cerimonialista é o pro- fissional responsável por organizar a cerimônia, seja ela oficial ou não, e controlar seu protocolo cuidadosamente do começo ao fim, e não aquele que apresenta a solenidade – este é o papel do mestre de cerimônia. E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a ga ba ri to 4. Verificamos, nesta unidade, que um evento exige um roteiro, uma programação a ser cumprida, uma programação pré-estabelecida. Nesse con- texto, qual a relação entre cerimonial, protocolo e etiqueta? Enquanto o cerimonial é a organização do evento em si, o protocolo existe para regulamentar, dire- cionar, dar as ordens de como o cerimonial deve ser realizado, ditando os rituais e as ordens de acontecimentos. E a etiqueta é o comportamen- to esperado das pessoas de acordo com o tipo de cerimonial/protocolo. Ou seja, são relações interligadas. UNIDADE II 1. Há registros da Antiguidade de que na Mesopotâmia, por volta do segundo milênio, já existiam instalações chamadas de taberna. Quais características marcaram esse primeiro serviço de alimentação? As tabernas eram instalações dirigidas por mu- lheres – a taberneira – que oferecia o que beber e o que comer a viajantes e pessoas que moravam nas proximidades. Apenas homens frequentavam esses estabelecimentos, nos quais o consumo de álcool de tâmaras fermentadas era fabricado pela taberneira. Além disso, ao final da refeição era possível ir para um quarto com companhia feminina, mas sem oferecer hospedagem. 2. Segundo Pitte (apud FLANDRIN; MONTANARI, 1998), por volta de 1765, Boulanger abre um estabelecimento para comercializar “caldos res- tauradores”. Explique esse acontecimento e o relacione ao surgimento do restaurante. Aqui, você tem claro dois momentos na história: um deles é quando Boulanger abre sua butique para vender caldos restauradores, sugerindo que seus caldos enriquecidos restauravam as forças daqueles que estavam debilitados; e o segundo deles é que esse tipo de estabelecimento se mul- tiplicou depois da Revolução Francesa, quando cozinheiros da corte e da nobreza perderam seus empregos e foram para as ruas de Paris, muitos deles abrindo seus próprios restaurantes (termo que só é oficializado em 1835 depois de aparecer no dicionário da academia com esse sentido), que, ao longo dos anos, foram evoluindo com relação aos preparos oferecidos, às mesas bem postas, às toalhas, aos pratos e até à decoração, atingindo o patamar de semelhança com o restaurante atual. 3. Apresenta produções elaboradas com preo- cupação estética em cada prato, é associado a um chefe de cozinha de renome e o ambiente é decorado de maneira elegante em estrutura diferenciada. Essas são características de que tipode empreendimento? a. PUB b. Restaurante gastronômico c. Restaurante internacional d. Catering e. Restaurante self service Qual técnica de serviço melhor se encaixa a essa tipologia? Justifique sua resposta. Respostas corretas: I. (b); II. serviço empratado ou a l’assiette. No serviço empratado ou a l’assiette, o cozinheiro dispõe os alimentos no prato de forma harmo- niosa e bem decorada, com preocupação estética e nutricional e, então, o prato chega ao cliente já montado. 4. Pense em seu restaurante favorito. a. Em que tipologia ele se encaixa? Apresente as características que o encaixa nesse tipo. b. Que técnica de serviço é utilizada nesse restau- rante? Justifique sua resposta explicando a téc- nica e como ela é aplicada no estabelecimento. 143G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R ga ba ri toNesta questão, eu peço que você vá ao seu res- taurante favorito e note quais os tipos de prepa- rações realizadas no local, se é luxuoso ou não, qual o público-alvo, quais as características do cardápio, enfim, tudo o que te leve a entender em qual segmento de restaurante ele se encaixa. E aí, então, repare no serviço apresentado quando seu pedido for levado até você à mesa. UNIDADE III 1. A partir da mise en place de mesa da figura abaixo, constitua um possível cardápio justifi- cando suas escolhas. Sugestão considerando serviço empratado: como entrada será servido um caldo de cebola cara- melizada com cogumelos e croutons (utiliza-se a colher de mesa); o prato principal será filé de frango grelhado e legumes à provençal (garfo e faca de mesa); a sobremesa será um suflê de goiabada com calda de queijo cremoso (colher de sobremesa) e as bebidas servidas serão água, vinho tinto e vinho branco. 2. Como entrada, será servido um couvert de pães e patês. Depois, um prato de salada caprese. Em seguida, uma sopa creme de abóbora com gengibre. O primeiro prato é um salmão escal- fado em caldo aromático. O prato principal é um risoto de mignon com gorgonzola e a sobremesa uma fatia de bolo de especiarias com sorvete de castanhas. De bebida, será servido água, vinho tinto e espumante. A partir do cardápio acima, monte a mise en place de mesa, escolhendo talheres e taças ideais, co- locando-as na ordem correta. Faça o desenho da montagem de mesa para visualizar com mais clareza. · Garfo de Peixe · Garfo de salada · Garfo · Faca · Faca de peixe · Colher de sopa · Faca de salada · Sousplat · Prato raso · Prato de pão · Faca de pão · Taça de água · Taça de vinho tinto · Colher, garfo e faca de sobremesa · Taça de espumante · Guardanapo 3. Descreva as funções desempenhadas pelo maître executivo, pelo chefe de fila, pelo garçom e pelo commis. O maître executivo supervisiona todos os que executam atividades relacionadas ao cliente e assessora o gerente. Ele coordena a equipe de sala, além de orientar, treinar e supervisionar a mise en place de salão e de mesa. Chefe de fila é o auxiliar do maître que também executa o papel de garçom, atendendo apenas algumas mesas. Garçom é o encarregado por anotar pedidos e servir às mesas, tendo contato mais próximo com o comensal. Ele monta mise en place, coordena o commis e, em algumas situações, auxilia o som- melier (principalmente em sua ausência). Commis é o auxiliar do garçom. Além de servir os clientes, ele é responsável por limpar e remontar as mesas antes de outro comensal chegar, durante o funcionamento do restaurante. E t i q u e t a e S e r v i ç o d e S a l a ga ba ri to 4. Cite três comportamentos que não são consi- derados boas maneiras à mesa e apresente a solução para cada um deles, explicando como devemos agir, de acordo com a etiqueta, nesse tipo de situação. 1. Retocar a maquiagem à mesa: mulheres, peçam licença e dirijam-se ao banheiro. Jamais reto- quem a maquiagem à mesa e nem chamem as amigas para lhe acompanhar, as duas situações são deselegantes. 2. Sentar-se antes do anfitrião: em evento formal, você não deve se sentar antes do anfitrião, aguarde que ele o faça e, depois, siga para seu lugar. Puxe a cadeira naturalmente, mantenha a postura e não cruze as pernas. 3. Cotovelos sobre a mesa: proibidíssimo. Apenas os punhos devem ficar apoiados sobre a mesa, lembrando-se de não colocar a mão no queixo como apoio. 5. Embasado pelo estudo da etiqueta à mesa, des- creva como devemos comer caranguejo, fondue e massas em um restaurante. Caranguejo: retire a carne com os dedos e sugue a carne sem fazer barulho. Se houver garfo de ostra na mise en place, utilize para auxiliar na retirada da carne debaixo da casca. Devido à complica- ção, indica-se consumir o caranguejo apenas em situações de informalidade. Fondue: a primeira regra é lembrar-se de utili- zar apenas o seu garfinho (escolha uma cor e se atenha a ela). Ainda que seja para seu uso, não coloque o garfo à boca, você deve espetar o pão, levar ao queijo, devolver ao prato e então comer com garfo e faca. Massa: jamais utilize faca para consumir massas finas e compridas, só é permitido para rondele, canelone e ravióli, que podem ser cortadas. As massas como o espaguete devem ser enroladas no fundo do prato, com a utilização de um garfo e, caso necessário um auxílio extra, faça uso da colher.