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1 CURRICULO E CONHECIMENTO ESCOLAR 2 SUMÁRIO O CURRÍCULO E SUAS CONCEPÇÕES IDEOLÓGICAS ............................................................. 3 1. CURRÍCULO ............................................................................................................................... 3 2. CULTURA E CURRÍCULO ....................................................................................................... 7 3. ALGUMAS DEFINIÇÕES DE CURRÍCULO ......................................................................... 11 4. O CURRÍCULO COMO UMA PRÁTICA SOCIAL ................................................................ 13 5. O IDEAL DEMOCRÁTICO PERDIDO DO DESENVOLVIMENTO CURRICULAR BASEADO NA ESCOLA ................................................................................................................. 15 6. CONCEPÇÕES DE CURRÍCULO ........................................................................................... 19 7. SEIS IDEOLOGIAS DE CURRÍCULO .................................................................................... 19 7.1. Ideologia intelectual-racionalista ........................................................................................ 20 7.2. Ideologia Teo-religiosa ....................................................................................................... 21 7.3. Ideologia social-romântica .................................................................................................. 22 7.4. Ideologia técnico-comportamental ...................................................................................... 22 7.5. Ideologia pessoal - do cuidado ............................................................................................ 22 7.6. A ideologia político-crítica ................................................................................................. 24 8. DESENVOLVIMENTO DO CURRÍCULO.............................................................................. 24 9. TIPOS DE CURRÍCULO .......................................................................................................... 27 10. CURRÍCULO, QUALIDADE E LIBERDADE..................................................................... 28 11. OBJETIVOS OU RESULTADOS NÃO-PREVISTOS OU NÃO-PLANEJADOS ESTÃO SEMPRE SENDO ALCANÇADOS ................................................................................................. 29 12. PADRÕES E CURRÍCULO .................................................................................................. 30 13. A NATUREZA DA AVALIAÇÃO COMO JULGAMENTO PROFISSIONAL ................. 30 14. A NATUREZA POLÍTICA DA AVALIAÇÃO .................................................................... 32 14.1. Avaliação do programa curricular ........................................................................................ 34 15. AVALIAÇÃO DOS PROFESSORES ................................................................................... 35 16. AUTOAVALIAÇÃO DOS PROFESSORES ........................................................................ 37 17. MENSURAÇÃO DOS ALUNOS .......................................................................................... 37 18. PESQUISA-AÇÃO E AVALIAÇÃO .................................................................................... 38 19. RESPONSABILIZAÇÃO ...................................................................................................... 40 20. AS ESCOLAS COMO COMUNIDADES DEMOCRÁTICAS CRÍTICAS DE APRENDIZAGEM ............................................................................................................................ 41 REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS .............................................................................................. 42 3 O CURRÍCULO E SUAS CONCEPÇÕES IDEOLÓGICAS 1. CURRÍCULO Definições da palavra currículo não resolvem problemas curriculares; mas realmente sugerem perspectivas a partir das quais podemos visualizá-los. Lawrence Stenhouse (1975, p. 1) O problema do currículo, e principalmente da elaboração de currículo, não é a especificação de objetivos como alvos a serem atingidos pelos alunos, e a construção de um plano de estudos para alcançar esses objetivos. Um currículo, para ser verdadeiramente educacional, levará o aluno a resultados inesperados, em vez de previsíveis. O problema do currículo é antes uma questão de experienciar um curso de ação humana criado por meio de imagens e compreensão relacionadas às coisas que realmente importam na vida. Muito do que os alunos experienciam com o currículo escolar não têm importância em suas vidas. Essencialmente, é o desenvolvimento dos poderes de compreensão em relação às coisas que, no final, realmente contam na vida, o que é uma preocupação real para os educadores e o currículo. Um currículo abrange o planejamento e a implementação de experiências educacionais por meio de procedimentos cuidadosamente orquestrados feitos a partir de uma seleção criteriosa da cultura. Falando de forma simples, a educação não tem a ver tanto com chegar e como alcançar as metas, ela é mais sinônimo de viajar com paixão e estar interessado em experiências válidas disponíveis. Os problemas da vida não são preocupações técnicas de tomar uma medida com uma finalidade. Eles são grandemente morais, culturais e carregados de valor. Deve-se escolher sabiamente caminhos que estejam em harmonia e sejam consistentes com uma visão unificada de viver que tenha propósito. Aprender a escolher e a valorizar o “momento da ação” é de importância central para estudantes e professores, os quais devem desenvolver uma compreensão situacional para serem homens e mulheres de razão prática (McKernan, 2006). O currículo deve, se bem- sucedido, despertar a imaginação humana. Essa ideia de um currículo como uma missão singular e manifesta foi habilmente colocada por Macdonald (1982, p. 56): A teoria curricular é a que fala a nós “por meio dela”, e o que nós fazemos é informado pela teoria; mas nem as palavras específicas da teoria, nem os atos pedagógicos específicos de educadores são a realidade da educação. O que define cada uma é o espírito e a visão que brilham por meio das manifestações superficiais. Este é um livro sobre a elaboração do currículo na ausência de objetivos. A ideia sustentadora é desenvolver um currículo baseado numa teoria da experiência educacional, em vez de na mudança comportamental. O ingrediente central é a experiência, e não o comportamento. O objetivo principal de um currículo é capacitar os alunos a pensarem e a fazerem escolhas 4 criticamente informadas. William Schubert (1986, p. 423) sustenta que o papel do trabalho curricular é um imperativo moral. Ele o colocou desta forma: A um educador é confiado o trabalho mais sério que a humanidade confronta: o desenvolvimento de currículos que capacitem novas gerações a contribuírem para o crescimento dos seres humanos e da sociedade. Isso significa que aqueles que escolheram se devotar ao currículo devem abordar as questões mais básicas que existem. O que significa viver uma boa vida e como pode ser criada uma sociedade justa? O currículo se preocupa com o que é planejado, implementado, ensinado, aprendido, avaliado e pesquisado nas escolas em todos os níveis da educação. A palavra currículo vem do latim currere, o que significa “um caminho a ser feito ou o percurso de uma jornada”, e geralmente é definido como o percurso de estudo numa instituição educacional. William Pinar (1975) ar- gumenta que currere, como o infinitivo latino sugere, envolve a investigação da natureza da experiência individual do público: de artefatos, de atores, de operações, da jornada ou peregrinação educacionais. O filósofo Richard S. Peters declarou que a educaçãoenvolve a iniciação de outros em atividades que valem a pena de uma maneira moralmente aceitável (Peters, 1966). Um currículo é a proposta de política educacional em oferta feita por uma escola ou faculdade e se compõe de conhecimento, valores, habilidades e outras capacidades que foram intencionalmente planejadas. O currículo pode proporcionar tanto o treinamento quanto a educação. Essa é uma distinção crucial, e o currículo tem um lugar para ambos. As habilidades em basquetebol, as técnicas de gestão em sala de aula ou o processamento de computadores não envolvem desenvolvimento do intelecto ou da mente em nenhum grau de profundidade e podem ser organizados dentro de um “modelo de objetivos” do currículo, pois eles estão relacionados com o desenvolvimento de habilidades e se encaixam em uma esfera de “treinamento”. Porém, áreas que invocam conhecimento e compreensão, ou seja, a indução para formas de conhecimento e o desenvolvimento da mente, são a esfera da educação, distintas do treinamento. O modelo de objetivos do planejamento é satisfatório para a instrução e o treinamento, mas ele não funciona em “educação”, onde um modelo de “investigação baseado no processo” é mais apropriado. O que quero destacar é que nós estamos preocupados apenas com um modelo de desenvolvimento cognitivo da mente ao falar sobre currículo. Ao falarmos sobre educação, é melhor apoiarmos uma teoria de processo em vez de uma teoria do produto, que é um modelo de objetivos do projeto curricular. O currículo pode incluir matemática, história e arte, assim como construção de prédios e basquetebol; mas não coisas como pornografia, métodos de arrombamento ou tiddlywinks. Nos últimos anos, uma visão um tanto monopolista da elaboração de currículos emergiu 5 após o trabalho de planejadores comportamentais e desenvolvedores de currículos racionais, os quais baseavam seu enfoque amplamente na visão da teoria comportamental e, mais especificamente, no planejamento por resultados mensuráveis. Franklin Bobbit introduziu pela primeira vez esse conceito de objetivos no planejamento curricular (Bobbitt, 1918, 1924), e Ralph Tyler (1949) popularizou essa ideia de objetivos comportamentais com seu plano de ensino simples para um curso na Universidade de Chicago intitulado Basic Principies for Curriculum and Instruction (Princípios básicos para o currículo e a instrução). E importante observar, para fazer justiça, que Tyler não descreve meramente como um currículo realmente ocorre, mas como ele deve ser desenvolvido. Essa perspectiva técnica não é apenas um problema curricular, mas também um problema para a educação de professores. Giroux e McLaren (1986, p. 286) corajosamente alegam que: Um dos grandes fracassos na educação norte-americana tem sido sua incapacidade de ameaçar ou até mesmo substituir com seriedade o paradigma prevalecente do professor como gestor formal na sala de aula pelo modelo mais emancipável do professor como teórico crítico. Também existem razões políticas e culturais para a maneira como o currículo é proposto e implementado atualmente. Os neoconservadores venderam aos criadores de políticas a noção de que o que conta como “currículo oficial” é uma estratégia política exercida para auxiliar causas como ideologia de mercado, escolha pessoal de educação escolar, padrões de alfabetização, crime e violência na escola: tudo marcadamente distante da preocupação significativa por igualdade de oportunidades educativas, o que foi a marca registrada do cenário político, pelo menos nos Estados Unidos, em educação, desde o caso Brown versus Conselho de Educação na Suprema Corte, em Topeka, Kansas. Na verdade, há evidências de que nova segregação esteja ocorrendo atualmente a uma taxa crescente. Desde os anos de 1980, existe o chamado da Nova Direita tanto nos Estados Unidos quanto no Reino Unido para uma teoria de responsabilização e de “volta aos princípios básicos”, ou essencialista; uma ideia de ensino e testagem de alunos, juntamente com a avaliação dos desempenhos e das competências dos professores por disciplina. Um tema aliado tem sido o de patriotismo cultural e restauração da herança. Isso tudo foi alcançado tirando-se o poder dos professores e dos professores universitários e dando-o a grupos de interesses especiais e ao governo. Nos Estados Unidos, a política para os currículos e a provisão educacional são deveres do estado local. Não há menção de educação na Constituição norte-americana. Todos os assuntos não- mencionados são devolvidos aos estados individualmente. Mesmo assim, os estados ainda estão sujeitos a leis federais, como é o caso do Título X da Lei de Educação para os ensinos fundamental e médio No Children Left Behind. No Reino Unido, apesar de haver autoridades educacionais 6 locais descentralizadas, há um Currículo Nacional administrado pelo Departamento de Educação e Ciência. Mais controle sobre os professores, responsabilização aumentada e dados baseados em de- sempenho foi uma política tanto nos Estados Unidos quanto no Reino Unido durante os últimos 25 anos. A concepção de elaboração de currículo desenvolvida neste livro vai contra a visão dos racionalistas técnicos. O modelo de investigação baseada no processo abandona a ideia de educação como a busca de objetivos instrucionais específicos e a concomitante bagagem de produção fins-meios, em favor da educação como um processo e a afirmação de que currículo real- mente significa ser fiel a certos princípios-chave de procedimento na conduta da educação. O problema do currículo atualmente é que ele é planejado pelo governo de uma maneira antieducacional e não-democrática, com maior frequência do que o contrário, e não deixa expressão no nível de desenvolvimento e melhoria para aqueles que trabalham no nível essencial. Em resumo, nós precisamos de uma decisão política para que a reforma e a melhoria do currículo baseado na escola ocorra novamente. Em minha opinião, o currículo precisa ser visto como uma experiência educacional contínua: um processo, em vez de um produto. Ou seja, uma experiência educativa, em vez de um comportamento ou resultado dessa experiência. Até hoje, o trabalho de Lawrence Stenhouse, esboçado em seu An introduction to curriculum research and development (Uma introdução à pes- quisa e ao desenvolvimento curricular), permanece o relato mais claro de um Modelo de Processo apresentado como uma valiosa alternativa ao modelo de objetivos para a elaboração do currículo. Uma consequência do crescimento no estudo do currículo foi uma crescente retórica do desenvolvimento profissional do professor. Muitos dos principais tomadores de decisão demandam o reconhecimento de que o professor, como profissional, em qualquer que seja o nível do sistema educacional, tenha um papel a cumprir nas decisões, na investigação e na melhoria do currículo. Esse fato é frequentemente desconsiderado nos Estados Unidos e no Reino Unido, onde o professor não figura no planejamento e no desenvolvimento do novo currículo, mas apenas na etapa de implementação. Na verdade, o currículo em si foi grandemente separado da instrução e da avaliação. Essa separação conta como uma divisão prejudicial e não-profissional do trabalho. O desenvolvimento profissional do professor, ou o empoderamento, é um objetivo recente para a educação do professor: “Nenhum desenvolvimento curricular sem o desenvolvimento profissional do professor” era um antigo ditado. Porém, Michael Apple (1995) argumenta que os professores perderam muito de seu poder e levanta uma interessante questão: “Existe uma voz curricular a reivindicar?”. Na verdade, Apple (1995, p. 38) argumenta que os acadêmicos não têm quase nenhum impacto no campo do currículo público atualmente, nem tiveram nenhuma influência nas últimas décadas nos Estados Unidos. 7 Stenhouse via o trabalho curricular como uma entidadecriativa, um currículo é mais como um caderno de um músico do que um projeto de um engenheiro. Ele requer um elemento de qualidade estética, assim como imaginação. Stenhouse (1975, p. 4) continua, Um currículo, como uma receita de um prato, é primeiramente imaginado como uma possibilidade e, depois, como o tema de um experimento. Ele é, essencialmente, uma proposta educacional, que convida à experimentação em sala de aula. Essa também é a ligação que torna clara a relação entre o ensino e a pesquisa. Para testar sua prática curricular, o professor precisa adotar um ponto de vista de pesquisa. Como o conceito de educação, o currículo é criativo, imprevisível em seu itinerário e caminho de crescimento: moral, intelectual, espiritual e construtivo. Ele é elaborado por meio das virtudes estéticas requintadas de professores agindo sobre sua própria compreensão artística e situacional intuitiva sobre o que é certo e bom. Ele opera melhor quando a razão prática é altamente aperfeiçoada. Dunne (1997), um acadêmico educacional aristotélico, defende um raciocínio e uma sabedoria prática, observando que precisamos retornar a esse “terreno irregular”. Na verdade, esse modo prático autorreflexivo de conduta profissional, apesar de bem identificado por Aristóteles e São Tomás de Aquino, foi pouco explorado na formulação de currículos do século XX. Apesar das muitas reformas, dos relatórios da força de trabalho e do debate geral relacionado à educação nos últimos anos, o modelo teórico que governa a elaboração e a natureza do currículo e da avaliação permaneceu virtualmente sem ser desafiado e sem modificações, dominado como é por um modo impiedoso de behaviorismo teórico e racionalidade técnica que se introduz profundamente na psique e na cultura nacional. Ainda assim, as possibilidades de modelos racionais alternativos foram levantadas. Este livro traça um contexto existencialista crítico para o pensamento do currículo. 2. CULTURA E CURRÍCULO Cada sociedade instala escolas a fim de introduzir os alunos na cultura, ou seja, no modo de ser da sociedade. O filósofo inglês, John Locke, sustentava que a mente da criança é vazia, ou tabula rasa, no nascimento e deve começar a adquirir o conhecimento, os hábitos e os valores do grupo. Assim, a experiência, particularmente envolvendo os sentidos, fornece a base para o empiricismo de Locke. A tradição oral, especialmente o folclore, as histórias, as músicas, entre outros, são mais evidentes do que a palavra escrita nesse processo. O currículo se torna então uma reflexão do que as pessoas acham que é valioso, do que elas fazem e no que acreditam. O currículo é necessariamente uma seleção da cultura e é amplamente composto de conhecimento. Agora, há muito a selecionar da cultura, e essa é a tarefa traiçoeira dos desenvolvedores de currículo e dos 8 construtores de políticas. Conforme comentou um de meus alunos de pós-graduação: “O currículo é como uma biblioteca à qual disciplinas são constantemente adicionadas, mas poucas são realmente retiradas”. Também há dificuldades em aplicar o conceito de cultura à educação e ao currículo porque vivemos numa sociedade multicultural com valores pluralistas. Ou seja, a sociedade norte- americana, assim como a sociedade britânica ou a francesa, contém muitos costumes, tradições e valores, frequentemente incompatíveis, que são transmitidos, aprendidos e compartilhados. Na prática real, muitas escolas enfatizam grandes quantidades formais de conhecimento, artes, habilidades, idiomas e valores morais na educação. Isso é costumeiro e convencional e, por uma boa razão, esses assuntos ou disciplinas formais de conhecimento chegaram até nós ao longo dos tempos: em sua maior parte de grandes universidades medievais. Esse currículo é conhecido como o Trivium e o Quadrivium, ou “As sete artes liberais”, que estavam presentes de formas incipientes nas escolas gregas, romanas e do mundo árabe. O Trivium compreendia gramática, retórica e dialética (lógica); e o Quadrivium era composto de aritmética, geometria, astronomia e música. A filosofia ficava relegada ao estudo avançado - daí a tradição do grau de doutorado em filosofia. O que nós precisamos considerar a respeito dessas sete “matérias” é que elas não se aproximam muito daquilo que leva os mesmos nomes no mundo moderno. A gramática, por exemplo, era mais do que o simples conteúdo encontrado em cursos de gramática, mas também incluía uma considerável quantidade de literatura, formas de expressão e assim por diante. Nos tempos modernos, o Trivium adicionou ainda história e literatura (Smith et al., 1957). O currículo de nossas escolas também é um produto da política e de grupos de interesse (Giroux, 1994). A base teórica deste livro está fundamentada numa crença de que os educadores são mais do que meros funcionários da burocracia - eles são agentes construtivos de uma renovação cultural. Umberto Eco, crítico de arte e teórico social italiano, e outros teóricos críticos, como Jürgen Habermas, insistem que adotemos uma teoria da resistência em relação à intromissão da comunicação tecnológica (Habermas, 1976). Maxine Greene argumenta que o enfoque técnico congelou nossa imaginação (1995, p. 379). Esta é uma era de conservadorismo e frugalidade teórica. Observamos o movimento “de volta ao básico” e as chamadas para uma responsabilização econômica com um olhar hostil. William James (1992, p. 514), em seu celebrado trabalho The will to believe (A vontade de acreditar) advertiu: Há muito tempo os filósofos observaram o fato notável de que a mera familiaridade com as coisas é capaz de produzir um sentimento de sua racionalidade. A escola empiricista foi tão tocada por essa circunstância de modo a ter estabelecido que o sentimento de racionalidade e o sentimento de familiaridade são a mesma coisa e que nenhum outro tipo de racionalidade existe 9 além desse. Assim, meio século depois de Tyler escrever seu clássico Basic principies of curriculum and instruction (Princípios básicos do currículo e da instrução), o modelo dos objetivos e o uso de objetivos instrucionais, tanto na testagem referenciada pela norma quanto na testagem referenciada por critérios, assumiu um ar de infalibilidade, pelo menos nos Estados Unidos. E um grande argumento deste que essa conjetura é problemática e necessita de um novo exame crítico. Esse autor se alia ao professor Kliebard (1975, p. 80): Nós nos perguntamos se a longa insistência dos teoristas curriculares de que o primeiro passo para confeccionar um currículo é a especificação de objetivos tem qualquer mérito. É até mesmo questionável se estabelecer objetivos é uma maneira vantajosa de conceber o processo de planejamento curricular. Kliebard continua e defende a noção de James do “sentimento de racionalidade” na conclusão de sua reavaliação: Uma razão para o sucesso da fundamentação de Tyier é sua própria racionalidade. Ela é uma estrutura eminentemente racional para o desenvolvimento de um currículo... A versão de Tyler do modelo evita o absurdo da patente de, digamos, Mager, delineando esse projeto num contorno amplo em vez de em detalhes precisos. Na América do Norte, na Europa, na Australásia e em muitas outras partes do mundo, o sistema de educação está definitivamente em perigo a partir do modelo de currículo e avaliação linear de fins-meios seguido de forma cega. O perigo vem de um inimigo que faz parte dos seus próprios quadros; esse inimigo é uma aspiração dogmática para conservar como relíquia a con- fecção de programas e a avaliação ao redor de um modelo limitado de objetivos e sua tecnologia de avaliação concomitante. O valor e a qualidade de um sistema educacional pode ser julgado por um exame de três fatores críticos: primeiro, seu sistema de ensino e a educação dos professores; segundo, seu sistema de avaliação; e finalmente, o seu currículo. Estelivro é oferecido no livre espírito de investigação que pretende abrir a longa discussão que já deveria ter ocorrido há muito tempo sobre o tópico de como substituir o paradigma moribundo do modelo de objetivos no currículo. Não podemos oferecer toda a herança cultural para o currículo e, portanto, é necessária uma seleção criteriosa. Quando pensamos sobre isso, o currículo é, na primeira instância, uma seleção da cultura de um povo e é principalmente implementado por meio de discurso e de conversa. Interpretações do currículo e da imaginação educacional são sempre a ideia de um pensador individual. A ideia surge na mente e então é disseminada por crentes que veem o processo de confecção de currículos sob uma nova luz. Essas idéias são quase sempre processadas por profissionais - educadores preocupados com o ensino e a aprendizagem no currículo. Elas são 10 teorias práticas. Este é um livro sobre elaboração e teoria curricular. Ele é apresentado como uma alternativa ao dominante modelo de objetivos na elaboração de currículos. Como tal, o modelo de investigação do processo apresentado aqui contribui para a teoria curricular. A teoria curricular tem evoluído durante este século. Após várias décadas de mudança e inovação curriculares sem precedentes, nos voltamos para uma situação mais estática caracterizada não por uma mudança drástica, mas por um funcionalismo burocrático no qual o modelo dos objetivos técnicos foi imposto nas escolas e também nas universidades. O currículo é a pedra fundamental de qualquer sistema educativo. Uma das características distintas da mudança curricular nos últimos anos tem sido a crescente incidência de planejamento e preparação nas atividades de desenvolvimento curricular envolvendo tanto a formação dos futuros professores e gestores quanto daqueles que já atuam profissionalmente. Mesmo assim, a maior parte desse planejamento aprovou uma visão monolítica única de racionalidade fins-meios e limitou em vez de expandir a imaginação e o potencial para a experimentação com o currículo. O trabalho curricular é artístico, quando feito da melhor forma. Bertrand Russel (1950, p. 159) assinala: O professor, como o artista, o filósofo e o homem de letras, somente pode realizar seu trabalho adequadamente se se sentir como um indivíduo dirigido por um impulso criativo interior, e não dominado e restringido por uma autoridade externa. O movimento pela educação baseada em resultados (EBR) dirigida à racionalidade técnica subjugou o pensamento autônomo próprio dando preferência a resultados, padrões e especificações predeterminados. Isso aconteceu em total oposição ao conceito da mente educada, principalmente porque está em oposição aos direitos dos alunos e professores de exercerem o julgamento intelectual e moral. Eu também acredito que a virtude do indivíduo e, na verdade, da humanidade, é diminuída quando o julgamento é dominado pela garantia de autoridade. Numa civilização democrática, a educação permite que o aluno e o professor sejam encarregados da responsabilidade de julgamento reflexivo e de um compromisso firme com a emancipação e a liberdade, não com a promoção de uma concepção caracterizada por metas e resultados predeterminados impondo os limites do conhecimento e da conjectura humana. Um currículo é um pouco de gosto e julgamento, testando o poder da criatividade, da pesquisa e da avaliação, evocando nossos melhores poderes de imaginação. No passado, pelo menos antes do século XX, os currículos eram vistos como sendo de dois tipos. O primeiro era o currículo oferecido nas escolas comuns, e o segundo era um currículo diferente oferecido nas es- colas elitistas acadêmicas/particulares que cobravam taxas. Uma concepção prevalecente era a de que o currículo era o que quer que fosse ensinado e realmente experienciado nas aulas. Esse tipo de 11 currículo “verdadeiro” baseado na realidade foi estabelecido como o “currículo programado”. Um segundo sentido que surgiu foi que o currículo envolvia toda a aprendizagem que era planejada e orientada pela escola. Assim nós temos de um lado uma noção limitada e, de outro, uma mais expansiva do que deve contar como currículo. O currículo é, acima de tudo, a proposta para um processo educacional. Eu detesto estabelecer definições estritas, mas para satisfazer os críticos apresentarei uma tentativa aqui e várias definições padrão encontradas na literatura: 3. ALGUMAS DEFINIÇÕES DE CURRÍCULO É toda a aprendizagem que é planejada e orientada pela escola, seja ela realizada em grupos ou individualmente, dentro ou fora da escola. (Kerr, 1968, p. 16) O currículo é uma série estruturada de resultados pretendidos de aprendizagem. O currículo determina (ou pelo menos antecipa) os resultados da instrução. (Johnson, 1967, p. 130) Nós vemos o currículo como um objetivo desejado ou uma série de valores que podem ser ativados por meio de um processo de desenvolvimento que culmina em experiências para os alunos. (Wiles e Bondi, 2007, p. 5) As experiências totais planejadas por uma escola ou por alunos. (Wiles e Bondi, 2007, p. 347) O termo currículo parece se aplicar mais apropriadamente ao programa de atividades, ao curso conduzido por alunos ao serem educados. (Hirst, 1976, p. 183) O currículo de uma escola - ou de um curso ou de uma sala de aula - pode ser concebido como uma série de eventos planejados que pretendem ter consequências educacionais para um ou mais alunos. (Eisner, 2002, p. 31) Frequentemente, acha-se que currículo significa um programa de estudos. Quando libertamos nossa imaginação da noção limitada de que um programa de estudos é uma série de livros-texto ou um resumo específico de tópicos a serem cobertos e de objetivos a serem atingidos, noções mais amplas e significativas emergem. Um currículo pode se tomar o programa de ação de uma vida. Ele pode significar os caminhos que nós seguimos e os caminhos que pretendemos seguir. Nesse sentido amplo, o currículo pode ser visto como a experiência de vida de uma pessoa. (Connelly e Claninin, 1988) O currículo são disciplinas permanentes como gramática, leitura, lógica, retórica, matemática e os melhores livros do mundo ocidental que melhor reúnem o conhecimento essencial. Um exemplo é o do Currículo Nacional encontrado no Reino Unido, com três disciplinas essenciais e sete fundamentais, incluindo conteúdo e objetivos específicos para realizações dos alunos em cada disciplina. (Marsh e Willis, 2007, p. 9) 12 Um currículo é uma tentativa de comunicar os princípios essenciais e as características de uma proposta educacional de forma que seja aberta ao escrutínio crítico e capaz de ser traduzido numa prática. (Stenhouse, 1975, p. 4) A ideia de Stenhouse de currículo é uma hipótese que convida ao escrutínio e à experimentação. Isso lança o professor e os alunos no papel de investigadores ou de pesquisadores com uma visão para melhorar a prática social ou o currículo. Também é muito fiel à noção de investigação-ação, que procura resolver problemas na interação social. Minha definição é semelhante ao adotar um processo em vez de especificar os resultados de ensino e aprendizagem. Um currículo é uma proposta que estabelece um plano educacional, oferecendo aos alunos conhecimento, atitudes, valores, habilidades e capacidades valorizados socialmente, disponibilizado aos alunos por meio de várias experiências educacionais, em todos os níveis do sistema educacional. Como uma proposta, o currículo é uma hipótese que convida a uma resposta de pesquisa. A resposta acima não separa o currículo da avaliação nem da instrução, como com tanta frequência é o caso no pensamento contemporâneo. Não há divisão do trabalho aqui. Apenas como o currículo inclui avaliação e investigação pelo professor de seu trabalho, não há divisão entre teoria e prática. O aspecto teórico é incorporado na propostaque nasce da prática e é validado por evidências concretas de prática. Também é substanciado por trinta anos de minha própria prática e ensino. Estou afirmando que uma posição de valores procedurais é melhor do que um estilo de ensino dirigido aos objetivos. É realmente uma questão de libertar os alunos. O que quero dizer é não ter os alunos dependentes de minha autoridade, aceitar a necessidade de justificar seu próprio raciocínio e evidências para seus julgamentos. Foi Pedro Abelardo, o filósofo parisiense especulativo do século XI, quem disse que devemos nos basear na crença de usar a razão especulativa que opera a dúvida humana como o meio de avançar a causa da verdade. Com estudiosos críticos da educação como Paulo Freire (1970, 1972), a teoria do processo permite uma política educacional que se preocupa em libertar a razão humana e conceder a liberdade; usando a linguagem de Freire, é uma “pedagogia do oprimido”; e com Antonio Gramsci (1971, p. 32), correlaciona a noção de que: A última fase da escola comum deve ser concebida e estruturada como a fase decisiva, cujo objetivo é criar os valores fundamentais do “humanismo”, a autodisciplina e a independência moral. Um currículo é, acima de tudo, imaginado como um ideal. Deveriamos acoplar o currículo a um projeto que inclua conceitos-chave e portfólios eletrônicos dos alunos? De forma alternativa, ele deveria estar baseado numa pedagogia de descoberta da investigação? Dessa forma, ele é um grande experimento. Como uma receita de cozinha, ele pode ter um gosto bom ou ruim. Porém, 13 podemos modificar um currículo como uma receita, adicionando virtudes como os conceitos de coragem ou de nacionalismo cultural. Ainda assim, ele é, ao mesmo tempo, uma tarefa atrativa da imaginação humana. Ele é, em sua base, simplesmente uma hipótese que convida a ser exposto ao teste da ação. Ele nunca é uma entidade terminada, mas aberta à modificação. O currículo não deve ser visto como uma prescrição final ou um projeto; ele não é nada mais do que uma ideia, um ideal na forma de uma proposta representa algum plano valioso para nos tirar da ignorância e, dessa forma, resulta em maior crescimento pela educação. Como um ideal, ele brota da imaginação. Ele é concebido como uma imagem, seu propósito é facilitar a aprendizagem e a educação. John Dewey (1916) defendeu que o propósito da educação é simplesmente o crescimento contínuo da pessoa. Essa perspectiva é apoiada por professores que entendem que o objetivo da educação é fazer com que os alunos se tornem participantes desse processo - em oposição a serem meros espectadores - e que confiem no uso de um processo de investigação para resolver dificuldades, dessa forma permitindo tirá-los da ignorância por meio da autoexpressão, do pensamento crítico e da motivação de curiosidade (Dewey, 1910, 1938). Aristóteles sustentava que o objetivo da educação é permitir que os alunos gostem e desgostem do que quiserem. Tal perspectiva concede autonomia ao aluno. Não é uma em que o aluno é passivo e a única autoridade é o professor. 4. O CURRÍCULO COMO UMA PRÁTICA SOCIAL A educação é uma prática social. Os professores e os alunos se encontram em interação social dentro da instituição da escola. O currículo não é exclusivamente uma questão teórica, mas principalmente uma questão prática envolvendo as ações de seres humanos que farão uma diferença. Como tal, ele constitui um desafio para a práxis - um comprometimento de usar princípios em ação. Uma teoria da ação prática parece ser uma concepção adequada para o currículo. Esse elemento “prático” e a “condição da ação” (Reason, 2006) têm uma forte conexão tanto com o Pragmatismo quanto com o Realismo Crítico. Foi Charles Sanders Pierce quem usou pela primeira vez a palavra “pragmatismo”, que vem da palavra grega pragma, que significa “ação”, num artigo em Popular Mechanics, que apareceu em 1897. A ideia de Pierce é que, a menos que alguma ação faça uma verdadeira diferença, ela é insignificante e deveríamos ser capazes de retraçar as consequências das ações, à medida que elas causam impacto, para determinar essa diferença numa condição empírica. Quem, quando, por quê e como se tornam questões-chave precisam ser respondidas ao se negociar e implementar um currículo. A educação é um tema prático, social e uma questão altamente moral, muito mais do que faz crer a discussão atual que a trata como uma questão 14 “técnica”. E um grande engano rejeitar a teoria educacional e, na verdade, um currículo, porque eles não podem ser provados. Depois de Aristóteles, devemos nos exigir mais rigor do que a disciplina requer. O currículo é criado, testado e julgado. Como tal, é uma ideia acima de tudo, válida de ser testada - uma hipótese que o educador racional pode oferecer. Como o conceito de cultura, um currículo é criado, compartilhado e transmitido aos outros incorporando valores, conhecimento, habilidades e inúmeras aptidões. Ele se encontra no domínio normativo das crenças e rituais e nos artefatos físicos de textos e de materiais. O currículo, como termo, é um conceito um tanto recente se aceitarmos o Oxford English Dictionary (OED) como fonte confiável. O termo foi usado originalmente para descrever programas de estudo em universidades e em escolas. Podemos nos referir ao currículo do Direito ou da Engenharia na universidade, ou à aula de história ou de leitura em uma escola de nível médio. Em termos da experiência americana, Lawrence Cremin sustentou que um precursor da reforma curricular nos Estados Unidos foi William Torrey Harris que, como Superintendente das escolas públicas de St. Louis, começou um movimento rigoroso para mudança curricular por volta de 1870 em diante. Enquanto apoiava valores distintivamente racionalistas, ele argumentava que o propósito da educação era um processo “pelo qual o indivíduo é elevado à espécie”, ou pelo qual um ser humano autoativo é capacitado a se inteirar da sabedoria acumulada da raça (Cremin, 1974, p. 28). Harris (1898a, 1898b) aprovou uma visão que conferia importância a um processo de alargamento de círculos concêntricos envolvendo a educação familiar, a educação escolar, a indução vocacional e educação cívica e política, assim como a educação religiosa do aluno. Ele defendia o uso do livro-texto como o veículo, por excelência, para a educação pública. Nisso, Harris pagou um tributo ao surgimento da psicologia e à ciência em educação na preparação de professores e do currículo escolar. A era do pensamento e da construção do currículo tinha chegado na virada do século XX. O currículo se preocupa com o que é planejado, implementado, ensinado, aprendido, avaliado e pesquisado nas escolas em todos os níveis de educação. Experienciar um currículo não é chegar a um determinado destino, mas ter viajado com uma visão diferente. É na jornada e em suas experiências que um currículo é realizado, não no ato de descer do trem. Qualquer pessoa que estude teoria e história curricular com certeza logo será confrontada com a pergunta de se a lógica da literatura coincide com as experiências de professores e alunos nas escolas. Há uma vasta diferença entre as duas. Existe o currículo “oficial” e o currículo “verdadeiro” neste debate: o que deve acontecer e o que realmente está acontecendo, para ser objetivo. Além disso, existe o “currículo oculto” que descreve os valores latentes que não são planejados, mas que exercem um poderoso efeito sobre os alunos e os professores. 15 Elliot Eisner declarou que “a qualidade dos currículos escolares e a qualidade do ensino são os dois fatores mais importantes de qualquer empreendimento educacional” (Eisner, 1983, p. 1). Porém, não há um consenso geral quanto ao que constitui qualidade no ensino e no currículo. Aqui eu desejo sugerir que duas práticas separadas, mas complementares, foram regeneradas a partirdo movimento de reforma curricular na Europa, principalmente sob a égide dos programas inovadores de primeira geração: primeiro, o projeto do currículo sem objetivos comportamentais e, segundo, a revitalização do movimento da pesquisa-ação. Ambos os movimentos surgiram devido a um ataque em grande escala ao modelo técnico da elaboração de currículo, que tinha se tornado distanciado das salas de aula democráticas e das práticas dos professores que buscavam excelência na avaliação. 5. O IDEAL DEMOCRÁTICO PERDIDO DO DESENVOLVIMENTO CURRICULAR BASEADO NA ESCOLA Uma das perguntas mais importantes é “Quem deveria melhorar o currículo?”. Durante o início do século XX, houve um interesse difundido em círculos educacionais para um desenvolvimento curricular baseado na escola ligado ao conceito de democracia, particularmente nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha (Dewey, 1916; Whitehead, 1929; Skilbeck, 1984). Na verdade, John Dewey estabeleceu uma “escola-laboratório” na Universidade de Chicago para seus experimentos com democracia e educação. Esse é um ideal democrático um tanto profundo, o qual concedeu autonomia a escolas locais e a professores para criarem e recriarem seus currículos. No Reino Unido, a política do Governo Trabalhista tinha dado poder a sindicatos de professores e a escolas locais para exercerem um direito de reformar seus próprios programas escolares e desenvolverem modos experimentais de currículo e avaliação sob trabalho comissionado pelo Conselho das Escolas nos anos de 1960 e 1970. Infelizmente, o novo essencialismo e o conservadorismo gradualmente conseguiram de volta o poder das escolas e dos professores e o deram ao governo. É bastante claro que as escolas nos Estados Unidos não têm a liberdade de decidir o currículo ao nível local da escola. Eu consegui, durante os anos de 1970, aproveitar o trabalho em escolas comprometidas com o desenvolvimento curricular baseado na escola na Irlanda do Norte. O conceito foi amplamente adotado por várias escolas de nível médio, àquela época, por todo o Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte, com exceção das escolas de ensino médio (grammar schools) seletivas que estavam fortemente ligadas aos exames GCE-0 e A-Level, os quais permitiam pouca experimentação. Wolfgang Klafki (1975) escreveu um artigo para o Conselho da Europa sobre o tópico do desenvolvimento curricular baseado na escola localizado como pesquisa-ação, o qual Klafki via 16 como uma alternativa à pesquisa empírica. Um exemplo precoce de investigação em ação relacionada ao desenvolvimento curricular na Europa. Outras influências recentes vieram da filosofia crítica de Jürgen Haber- mas desafiando a primazia do positivismo técnico e analítico em favor de uma teoria social mais crítica dos modelos hermenêutico e interpretativo. Em educação, essa teoria crítica foi introduzida por Wilfred Carr e Stephen Kemmis em 1986, com seu livro Becoming criticai: education, knowledge and action research (Tornando-se crítico: educação, conhecimento e pesquisa-ação). O papel aqui seria avançar na emancipação humana e na justiça para livrar as instituições da desigualdade por meio da pesquisa em ação. Os avanços na avaliação de programas educacionais que contribuíram significativamente para o pensamento curricular como enfoques qualitativos foram adicionados aos estilos quantitativos padrão. A avaliação como “iluminação” (Parlett e Hamilton, 1972), ou como “crítica literária” e “perícia” (Eisner, 2002) ou como “avaliação democrática” (MacDonald, 1971). Michael Scriven (1973) apresentou uma “avaliação sem objetivos”, reconhecendo que os programas frequentemente atingem efeitos não-previstos, e Robert Stake produziu a “avaliação responsiva” (1967). Todos esses avaliadores criativos permitiram que os profissionais entendessem melhor suas ações e seu envolvimento por meio de uma “descrição densa” em vez de uma contagem informal e uma computação de muitos números do estilo comportamental de avaliação. Enquanto participava de uma reunião profissional na Escócia, fui informado por um professor americano que a maioria dos estudiosos da educação americanos não sabia nada sobre como o currículo ou, na verdade, como a educação era estudada e praticada na Grã-Bretanha ou na Irlanda, ou, de fato, em qualquer lugar na Europa Ocidental. Isso pode ter sido um exagero, mas certamente é verdade que, em relação à educação de nível superior particularmente, e à maneira e aos meios pelos quais o currículo e as bases da educação são adotados, pode-se prontamente concluir que, de cada lado do Atlântico, dois campos ou disciplinas completamente diferentes estão sendo estudados. Stenhouse elaborou seu Modelo do Processo em oposição ao modelo de objetivos do projeto de currículo e, com sua versão reconstruída de professores como pesquisadores, manifesta pelo Projeto Curricular de Humanidades (PCH). Stenhouse agiu como examinador externo da minha própria tese de doutorado, que tratava de questões curriculares controvertidas. John Elliott, um membro da equipe do PCH de Stenhouse, quem primeiro avançou no “papel de pesquisador de professores” no Reino Unido, foi um líder e um defensor da pesquisa-ação educacional numa escala internacional, e Jean Rudduck, um membro do PCH e, mais tarde, parceiro vitalício de Lawrence Stenhouse, escreveu sobre pesquisa de professores e prática reflexiva na educação de professores (Rudduck, 1989). 17 Quando cheguei à Irlanda do Norte em 1973, o professor Malcolm Skilbeck era Diretor do Centro de Educação da New University de Ulster e, como orientador de meu doutorado, me aconselhou a imergir no que ele chamou de “cerca de cinquenta ótimos livros”. Skilbeck era um erudito de Dewey e da teoria reconstrucionista social da educação. Os reconstrucionistas acredita- vam que as escolas podem reconstruir uma cultura em crise e são os genuínos precursores da teoria crítica. Skilbeck primeiramente mencionou o trabalho de Kurt Lewin para a resolução de conflitos e sua noção de pesquisa em ação, e nós discutimos o possível papel da pesquisa em ação em nosso Projeto de Estudos Culturais nas Escolas, o qual objetivava uma educação de paz nas escolas de nível médio da Irlanda do Norte. Isso foi durante 1974, e o segundo ciclo do movimento da pesquisa em ação educacional ainda não havia começado de fato nessa época. O primeiro ciclo começou durante os anos de 1950 nos Estados Unidos (Corey, 1953). A pesquisa-ação decaiu à medida que a pesquisa educacional se tornou dominada pelo método científico, e os estilos de trabalho de Pesquisa, Desenvolvimento e Disseminação (R D e D) se tornaram a norma (Hodgkinson, 1957). Nós realmente tínhamos a experiência já documentada dos projetos curriculares do Conselho das Escolas, e o Projeto Curricular de Humanidades fez incursões para promover a noção do “professor-pesquisador”. Como estudante de pesquisa de pós-graduação ligado ao Projeto Curricular de Estudos Culturais das Escolas na Irlanda do Norte em meados de 1970, eu estava preocupado com o desenvolvimento curricular em estudos sociais/culturais dentro das escolas de ensino médio que objetivavam promover a paz, a tolerância e o entendimento mútuo. O objetivo atual em todo o Reino Unido para a promoção da “educação para o entendimento mútuo” era um objetivo de política que foi forjado pela primeira vez por nosso projeto na Universidade de Ulster. Dessa forma, a “resolução do conflito” era um interesse central. Skilbeck organizou um Seminário do Centro de Educação para os alunos da faculdade e de pesquisa em pós-graduação na Universidade de Ulster em torno do tema “Educação e conflito na Irlanda do Norte”. Foi dentro deste seminário que comecei a forjar algumas idéias sobre como o professor e o currículo poderíam ser usados como um auxílio significativo para um entendimento entre as comunidades. Uma das primeirassugestões de Skilbeck foi para eu ler o livro de Kurt Lewis (1948) Resolving social conflicts, no qual ele primeiramente defendia a pesquisa em ação como uma forma aplicada de investigação que resolveria os problemas sociais. Nas sessões de pesquisa de meu doutorado com o Professor Skilbeck e, mais tarde, com o Professor Hugh Sockett, recebi vários livros de uma vez e me disseram para ir embora e ler, voltando meses mais tarde para discuti-los e me preparar para apresentar uma proposta de doutorado. Não houve aulas a assistir, pois se presumia que minha instrução básica no conhecimento e nas habilidades de educação e metodologia de pesquisa teriam sido adequa- 18 damente concluídas com um bom curso de graduação e um curso de mestrado como preparação. Eu faria trabalho de campo, escreveria um capítulo e marcaria um horário para conversar com meu orientador, Professor Sockett (no momento certo), que havia estudado sob a supervisão de Richard Stanley Peters em Londres e era um filósofo analítico de educação com um interesse permanente em projeto curricular. Ele movia céus e terras, rascunhando longas páginas de críticas datilografadas para mim referentes a meus capítulos em rascunho para levar junto depois de ter discutido minha escrita. Esse processo continuou durante vários anos. Atualmente, essa educação de pós-graduação difere notadamente daquela nos Estados Unidos. Nos Estados Unidos, os alunos assistem a aulas e talvez a seminários na graduação. Raramente há trabalho individual do tipo tutorial, o que, em minha opinião, é uma grande pena e demérito no sistema americano. Ben Bloom (1995) concluiu com pesquisas sobre a aprendizagem dos alunos que o tutorial é o método mais eficaz de aprendizagem. Se aceitarmos esse fato como verdadeiro, então isso afetará drasticamente a maneira como o currículo será organizado e implementado. Os tutoriais estão notavelmente ausentes como um modo de ensino nos Estados Unidos. Dar aos professores o papel do desenvolvimento e da pesquisa curricular é um ato supremo de educação democrática, pois admite à autoridade e ao poder uma mudança no nível local e solicita que os educadores operem dentro de uma pesquisa reflexiva e de uma síntese de desenvolvimento profissional. Os professores logicamente devem ser pesquisadores em tal cenário de mudança. A mais surpreendente hipocrisia é que, por um lado, as Faculdades de Educação defendam o desenvolvimento de “profissionais comprometidos com a prática reflexiva” e, por outro lado, os professores e os administradores sejam privados de sua autonomia profissional. O modelo baseado na escola proposto por Skilbeck (1984) admite cinco etapas no processo de desenvolvimento curricular: análise situacional, especificação de objetivos, organização do conteúdo e construção de programas, criação de experiências de aprendizagem, feedback e avaliação. Skilbeck sustentou que, logicamente, os professores, quando confrontados com uma mudança curricular, não começam a fazer a tarefa abordando as metas e os objetivos primeiro - mas eles se inteiram da situação em que se encontram (“Análise situacional”). Descobri que os professores, na verdade, ponderam sobre as restrições que enfrentam - como, por exemplo, um sistema de exames públicos - e discutem os recursos disponíveis e outras preocupações ime- diatas antes de delinear qualquer meta que esperam atingir. Essa etapa está de acordo com a consciência artística de restrições e recursos, ou com um entendimento situacional. Essa não é uma questão teórica, nem na verdade uma preocupação técnica, mas uma escolha prática e ao mesmo tempo profissional. A falha de projetos curriculares nacionais grandes liderados por peritos para criar pacotes de recursos e materiais à prova de professores levou, no final das contas, a uma estratégia de levar 19 os professores aos desenvolvimentos curriculares baseados na escola. Essa concepção de planejamento curricular deriva das necessidades dos alunos na primeira instância, e a necessidade de liberdade de aprender pelos alunos e professores é uma condição necessária de seu trabalho. Ela também sugere que as escolas são responsáveis, como comunidades humanas, por reagir a seu próprio ambiente. Ao abordar esse ambiente, é vital que os professores sejam pesquisadores e desenvolvedores de currículo ao adaptar a aprendizagem à sua própria ecologia idiossincrática. Devido a essa experiência e à aclamação de larga escala aos grupos de apoio baseados na escola, essa permanece atualmente uma estratégia marginal frente aos pacotes do tipo de grande produção de inovações curriculares da escola. Eu defendo que não pode haver desenvolvimento de currículo efetivo sem desenvolvimento dos professores. 6. CONCEPÇÕES DE CURRÍCULO Por noção de uma “concepção” de currículo, eu me refiro explicitamente a uma orientação definida, ou a valores, englobados numa perspectiva curricular, que caracteriza as virtudes mais valorizadas ligadas a um estilo ou a uma prática curricular. Vários pesquisadores sobre currículo trabalharam essa ideia (Eisner e Vallance, 1974; Schubert, 1986; Eisner, 2002; Marsh e Willis, 2007). Acredito que seja muito difícil classificar pessoas e políticas dentro de um sistema que rotula; porém, ao pensar sobre isso, deve-se necessariamente ver que todos os currículos são baseados numa concepção ou visão de qualidades ou valores desejáveis. Eisner (2002) apresenta uma discussão profunda sobre a noção de ideologias curriculares. Ele sugere concepções ou ideologias que rivalizam: Ortodoxia religiosa, Humanismo racional, Progressivismo, Teoria crítica, Reconceitualismo e Pluralismo cognitivo. Dessa forma, as ideologias são mais do que modelos - elas têm uma essência política em seu núcleo. A base de valores a partir das quais as decisões são tomadas sobre o que e como ensinar. Essas ideologias frequentemente são interpretadas como orientações filosóficas, tais como as teorias perenialistas. 7. SEIS IDEOLOGIAS DE CURRÍCULO Identifiquei seis grandes concepções, ou ideologias, curriculares, que estão notavelmente em correlação e se coordenam de perto com as seis orientações de valores dos professores que eu independentemente obtive a partir do trabalho de pesquisa com os sistemas de valores dos professores em todo o mundo (ver Capítulo 11). Acredito que haja grande implicação entre as construções teóricas colocadas na literatura e os dados reais encontrados a partir de pesquisa com professores em quatro nações a qual requer uma maior exploração e explicação. As seis ideologias curriculares são: 20 1. Intelectual-racionalista (grega/romana/medieval); 2. Teo-religiosa (cristã-escolástica, islâmica, judaica); 3. Social-romântica (centrada nas crianças); 4. Técnico-comportamental (eficiência na ciência); 5. Pessoal - do cuidado (autocrescimento e autopercepção); 6. Político-crítica (igualdade-meliorista). A história da educação mostra muito bem padrões claros de preferência na mudança de uma tradição intelectual-racionalista, que se funde com o avanço da educação cristã, à tradição humanista do Iluminismo centrada nas crianças. No período moderno, a preocupação com uma ciência da educação levou a concepções técnicas e comportamentais. Paralelamente havia uma preocupação de alguns elaboradores de currículos em focalizar os valores e o crescimento pessoal do aluno como pessoa. Eu chamo essa tradição de “pessoal-humanista”, e ela pode ser vista no trabalho de Jean-Jacques Rousseau, Friedrich Froebel, A.S. Neill, William Pinar, Carl Rogers, Sidney Simon e outros. Desde 1945 tem havido uma tentativa consciente de empregar o currículo para alcançar igualdade de oportunidade e, com o surgimento da pesquisa curricular sobre a desigualdade, surgiu uma nova ideologia “político-crítica” vibrante para o currículo. De onde veio o conteúdo, geralmente chamado de “disciplinas”,oferecido nas escolas? O que deveria estar no currículo? Que conhecimento é o mais válido? O conhecimento de quem é mais vantajoso? Essas perguntas convidam nossa imaginação a trabalhar. Uma visão geral de várias concepções ou ideologias curriculares está a seguir. 7.1. Ideologia intelectual-racionalista Essa concepção de currículo foi a primeira e é vista no desenvolvimento da educação nos estados gregos e romanos e com o currículo das primeiras universidades da Europa baseado nas sete artes liberais, ou o Trivium e o Quadrivium. O racionalismo intelectual tem a visão de que a função da educação é cultivar o intelecto e promover o crescimento intelectual sujeitando os alunos às formas mais racionais de organização das disciplinas que têm sido constantemente passadas adiante. Esse é um empreendimento dirigido pelo conhecimento com o desenvolvimento da mente como uma virtude. Uma parte integrante disso é o perenialismo, ou a ideia de que o caráter é permeado por uma busca pela verdade e contém o melhor da herança cultural, sendo, portanto, “perene” em sua natureza. Essa é a ideia de que a verdade será sempre a mesma e que esses estudos (matemática, música, etc.) passaram no teste do tempo e deveriam ser estudos permanentes no currículo. Essa é, sem dúvida, a forma mais antiga de organização curricular, datando pelo menos do Idealismo Platônico. A ideia é que o currículo requer uma seleção de elite do verdadeiro 21 conhecimento. As escolas não existem para atender a todas as formas de necessidade social ou atividades extracurriculares especiais, pois essas, no final das contas, tomam o tempo necessário para atividades intelectuais e acadêmicas que valem a pena. 7.2. Ideologia Teo-religiosa As escolas mais antigas conhecidas ficavam no Vale do Tigre, onde é hoje o Iraque, por volta de 6.000 a.C. Essas eram conhecidas como Edubba, ou “Escolas das tábuas”, cujo propósito era o treinamento religioso de jovens usando uma tábua de madeira cuneiforme para o texto (Webb et al., 2003). Escolas religiosas semelhantes também foram características da educação no Egito a partir de 3.000 a.C. para educar escribas religiosos ou dos templos. Na tradição ocidental, as Escolas Monásticas indiscutivelmente evitaram que as luzes da civilização fossem apagadas totalmente durante a Idade Média do ano 500 até 1.000 d.C. As “Escolas Catedrais” também demonstraram a primazia da religião na educação depois de Carlos Magno. Após o surgimento das universidades, por volta de 1.100 d.C., São Tomás de Aquino, um padre e professor universitário dominicano de Teologia em Paris, promoveu a lógica dedutiva como um modelo de raciocínio primário interligando o pensamento aristotélico com as doutrinas da Igreja Católica Romana. Porém, a supremacia do Escolasticismo foi devastada pelas ideias que sustentavam a Renascença, e a mudança dos valores religiosos para o ideal do cavalheiro cortesmente educado. Na América do Norte, a religião foi o fator galvanizador central no surgimento tanto da educação particular quanto pública. O historiador E.P Cubberley (1934) argumentou que três tipos de influência religiosa foram transplantadas da Europa para os Estados Unidos. Em primeiro lugar, o tipo igreja-estado fundado na Nova Inglaterra por congregacionalistas puritanos, por exemplo, o estabelecimento de Harvard como um “Divinity College” em 1636 e a aprovação da “Lei de satanás, o conhecido enganador” de 1647, a qual tornou as cidades responsáveis por construir escolas elementares cita- dinas e de gramática latina. Em segundo lugar, a tradição paroquial tanto dos protestantes quanto dos católicos na Pensilvânia e em Maryland e, em terceiro lugar, a tradição das Escolas de caridade e dominicais encontradas nos estados da Virgínia e das Carolinas. Para entender essa realidade, basta constatar que todas as faculdades da “Ivy League” (Liga da Hera) eram mantidas por doações religiosas. Na verdade, não havia uma universidade pública até depois que a República foi estabelecida. A Universidade da Carolina do Norte, da qual a Universidade da Carolina do Leste, onde eu trabalho, é uma instituição constituinte, foi fundada em 1789. Até mesmo atualmente, cerca de 12% das crianças frequentam escolas particulares, em sua maioria religiosas, nos Estados Unidos. Eisner (2002, p. 57) declara: “Nos Estados Unidos, cerca de 90% de todas as escolas de nível fundamental e médio particulares ou independentes pertencem à religião católica romana”. 22 7.3. Ideologia social-romântica Essa ideologia se concentra nas necessidades e nos interesses da criança em vez de na disciplina ou conteúdo a ser ensinado. Parte da mensagem é que os alunos precisam estar prontos para estar com os outros em sociedade - para serem democráticos e sociáveis. Os expoentes vão de Comenius, com sua paixão pela paz e justiça, ao naturalismo romântico de Rosseau e o trabalho de Johann Pestalozzi e o jardim de infância de Froebel. Os progressistas do século XX incluem, mas não estão limitados a A.S. Neill na Grã-Bretanha, John Dewey e William Kilpatrick nos Estados Unidos e Maria Montesorri na Itália. Notavelmente, Dewey almejava ensinar aos alunos uma “lógica de investigação” com a qual resolver problemas. Essa é a essência do Pragmatismo, a filosofia que conduz muito do experimentalismo de Dewey e de seus seguidores. O Progressivismo de Dewey adota um método científico de pensamento e ação (Dewey, 1910). Para Dewey, o currículo não começa com o conhecimento como a fonte, mas com a criança e sua natureza. O professor A.V Kelly (1989, p. 87) audaciosamente afirma: “os valores fundamentais da educação devem ser encontrados na natureza do desenvolvimento humano e em suas potencialidades”. Esses teóricos também apontaram as profundas mudanças no papel do professor usando um enfoque de desenvolvimento humano centrado na criança. De perito em uma disciplina a facilitador; de juiz a conselheiro; do papel dos professos como mestre em textos ao de alguém que foca na pesquisa. 7.4. Ideologia técnico-comportamental Essa é uma série de valores que encorajam os alunos a serem consumidores no sistema capitalista: produção, consumo, mensuração e vocacionalismo. Os alunos são vistos como contribuidores para a economia de mercado e são preparados para participarem da globalização. A grande ênfase no currículo para o trabalho na carreira e o incentivador empurrão aplicado àqueles aspectos do currículo governados por cursos de tecnologia são a evidência desses valores. Na verdade, a maneira pela qual o currículo é avaliado tanto para os alunos quanto para os professores evidencia essa preocupação de responsabilização emergente. Os alunos e os professores obtêm a mensagem de que eles serão responsabilizados pelos resultados de seu desempenho e que há uma visão ampla de que a educação está na preparação da base para o mundo do trabalho - ou seja, ela é instrumental na condução de alunos para essa transição. 7.5. Ideologia pessoal - do cuidado Talvez a ideologia mais amplamente aplicada pelos professores seja a orientação do cuidado (ver Capítulo 11). Ela é encontrada em currículos e nas pessoas que advogam o cuidado e o bem-estar da criança. 23 A Pesquisa Nacional, conduzida pelo Metropolitam Life, sobre as motivações dos professores para ingressar na profissão, mostrou que a primeira razão pela qual as pessoas se tornam professores é para ajudar as crianças a crescer e aprender (Ornstein e Levine, 2006). Essa ideologia encontrou amparo intelectual de escritores como Jane Roland Martin com seus três Cs (em inglês) - atenção (cczre), preocupação (concern) e conexão (connection) - e nos escritos de Nell Noddings e William Pinar dentro dos Estados Unidos. Na Grã-Bretanha, a ênfase tradicional em programas de cuidado pastoral (Hamblin, 1984) em escolas se tornou parte da estrutura curricular.O cuidado pastoral enfatiza o papel do professor como “pastor”, cuidando de todas as necessidades dos alunos a partir do aconselhamento até a educação para a vida (McKernan et al., 1985). A ideologia pessoal se preocupa com o crescimento do aluno como pessoa. Ela sinaliza uma ênfase na autorrealização, na harmonia interior, no autorrespeito e na dignidade e no valor das pessoas. Nesse último sentido, ela pode ser vista como exercitando suas características curriculares humanistas. Ela responde às perguntas “Quem sou eu?”, “Quais são meus valores?”, “Como posso aprender a esclarecer meus valores e crenças?”. Educadores existencialistas e reconceptualistas veriam isso como uma prioridade para o currículo - uma forma espiritual de valores na construção da identidade educacional e pessoal. Eisner (2002, p. 31) declarou que, na ideologia da autor- realização, conteúdo só é importante se ajuda o aluno como pessoa individual e quando é definido por peritos externos. Uma característica proeminente da ideologia do currículo pessoal do cuidado é a crença de que os alunos precisam aprender como tomar decisões e fazer escolhas morais - escolhas que, no final das contas, afetam seu bem- estar pessoal, por exemplo, “Quem sou eu?”, “Devo ou não usar drogas?”. No projeto de estudos culturais nas escolas na Irlanda do Norte, os alunos tiveram oportunidades de exercitar a tomada de decisões sobre seus valores e de escolher entre alternativas concorrentes. O método do estabelecimento do valor de Dewey - um processo de escolha, apreciação e ação sobre escolhas - foi usado como um processo de esclarecimento de valores por outros (Raths et al., 1966). A educação moral e de valores é central na ideologia humanística. Essa ideologia do cuidado e humanística também tem uma preocupação com o desenvolvimento do aluno como um ser espiritual. Philip Phenix (1974) chama essa dimensão de transcendência - a ideia de o aluno ir além de qualquer estado ou compreensão ilimitados. E semelhante à infinitude – a exploração ilimitada. O aluno, nessa ideologia, está comprometido a investigar e ir além dos limites para crescer ainda mais, de acordo com o objetivo de Dewey de crescimento (Dewey, 1916). 24 7.6. A ideologia político-crítica A ideologia político-crítica tenta revelar e expor os valores de suporte que sustentam o currículo - ela assumiu a causa previamente utilizada por um curto período por pensadores reconstrucionistas sociais que vê as escolas como agências de renovação política e cultural. A ideologia crítica consideraria cuidadosamente questões que sustentam a desigualdade na escola, por exemplo, as relações de gênero, ou as análises de experiência de classe social que afetam o desempenho escolar. Eisner (2002, p. 73) sugere: A teoria crítica apresenta uma das mais visíveis e articuladas análises da educação encontradas nas páginas de revistas sobre educação e em livros dedicados ao estado das escolas. É por essa razão - sua proeminência na comunidade intelectual e seu potencial para reformar as atuais prioridades das escolas - que está incluída aqui como uma ideologia que afeta a educação em geral e o currículo em particular. Essa perspectiva obteve aceitação atacando algumas das desigualdades sociais que servem como um tipo de “currículo social central de cabeça para baixo” depois da Segunda Guerra Mundial, tanto na Grã-Bretanha quanto nos Estados Unidos. Os problemas de conflito intergrupal, racismo, antissemitismo, meio ambiente, pobreza, questões de gênero levaram alguns a procurar papéis ativos para as escolas ajudarem a transformar a cultura por meio do ensino da igualdade e da resolução de conflitos. No nível escolar, o Projeto de Estudos Culturais nas Escolas antes mencionado promoveu o entendimento dos alunos sobre questões controversas e tentou avançar nos processos de resolução de conflitos e esclarecimento de valores. Um resultado direto foi a extensão da “educação para o entendimento mútuo” para todos os outros professores no Reino Unido. A ideologia crítica procurava empoderar todos que trabalham na escola - professores, administradores e alunos. Mesmo assim, conforme observa Eisner, elas tendem a enfatizar o negativo e não o positivo - e suas críticas penetrantes provavelmente não têm muito impacto sobre a política. Concluindo, pode até ser que a melhor maneira de revelar e desenterrar os valores do currículo de uma escola seja por meio da exploração direta da prioridade que o currículo dá a uma ou a todas as seis ideologias curriculares acima. 8. DESENVOLVIMENTO DO CURRÍCULO As mudanças políticas, econômicas, sociais, jurídicas e tecnológicas em culturas durante este século levaram o currículo a ser modificado, adaptado e radicalmente alterado em instituições educacionais. Essas mudanças afetaram o significado da educação. O desenvolvimento do currículo tem sido o meio pelo qual grupos responsáveis têm tentado lidar com a mudança das ex- 25 periências educacionais que os alunos experimentam na escola. O desenvolvimento do currículo é um processo sistemático e crítico de concretizar valores educacionais como ideais e imagens válidas, e de transformar esses em propostas de ação na forma de programas de ensino e aprendizagem que, hipoteticamente, serão concretizados na realidade. Tal visão prepara o trabalho de desenvolvimento curricular como uma iniciativa de pesquisa, convidando para uma investigação de nossa parte. Nossa imaginação é abastecida por nosso meio ambiente, por nossas experiências e por nossa linguagem. Se preferimos falar de “resultados” em vez de metas, de feedback em vez de evidências, de produtos em vez de aprendizagem, nós nos tornaremos escravos da racionalidade técnica. Johnson adotou uma visão técnica do desenvolvimento do currículo como os processos por meio dos quais uma série de objetivos, ou de resultados pretendidos na aprendizagem, devem ser concretizados na sala de aula. Eu afirmaria que o termo desenvolvimento do currículo é um conceito que denota deliberadamente atividades planejadas envolvendo o projeto de cursos: suas metas, conteúdo, métodos e modos de avaliação e estilos de organizar os alunos em cursos de estudo e em padrões de experiência educacional como propostas válidas que pretendem educar os alunos. Para arriscar uma definição, cu diria que o desenvolvimento do currículo é o processo de planejamento, implementação e avaliação de cursos de estudo ou padrões de atividade educacional, os quais foram oferecidos como propostas para melhorias. Considerações filosóficas e o papel dos valores na ideologia educacional proposta são de crucial importância para nossa compreensão do currículo e da educação. A concepção de educação tomada em consideração por planejadores, professores e outros é instrumental em como esses cursos são desenvolvidos. Qualquer que seja a filosofia ou a base ideológica, um currículo envolve muito de um planejamento rigoroso e sistemático. O desenvolvimento do currículo depende de vários pressupostos. Em primeiro lugar, que a melhoria da educação e da experiência é possível e verdadeiramente justificável. Aceitar isso significa que as práticas atuais não são completas ou perfeitas. Um segundo pressuposto é que os indivíduos com uma responsabilidade educacional terão acesso a recursos e a outras formas de apoio que lhes permitirá contribuir para esforços que valem a pena numa direção positiva. Em terceiro lugar, essa mudança contínua na tecnologia, na cultura e, na verdade, até mesmo no conhecimento, torna o desenvolvimento do currículo um imperativo. Os professores, os pais, os alunos e os administradores são os parceiros no desenvolvimento do currículo para uma educação de melhor qualidade. Esses parceiros precisam estabelecer bastante claramente que propósitos têm. Essa declaração não deve ser confundida com a especificidade técnica fomentadapelo enfoque do modelo de objetivos mas, em vez disso, deve envolver uma declaração de metas: direções para as quais vale proceder. 26 Esses atores do currículo requerem apoio significativo. Os estilos de apoio à mudança curricular variam amplamente de uma cultura para outra. Na Grã-Bretanha, o Conselho de Escolas para o Currículo e Exames (School Council for Curriculum and Examinations) foi estabelecido em 1964 depois de uma tentativa do então Ministro da Educação (agora Departamento de Educação e Ciência), uma agência notável para disponibilizar recursos para programas experimentais. O propósito do Conselho das Escolas era: Realizar trabalho de pesquisa e desenvolvimento na Inglaterra e no País de Gales sobre currículos, métodos de ensino e exames nas escolas e sobre outras maneiras de ajudar os professores a decidir o que ensinar e como ensiná-lo. Em todo o seu trabalho, ele considera o princípio geral, expresso em sua constituição, de que cada escola deve ter a maior medida possível de responsabilidade por seu próprio currículo e métodos de ensino baseados nas necessidades de seus próprios alunos e desenvolvidos por seu próprio quadro de pessoal. (Conselho das Escolas para o Currículo e Exames, 1975, p. 7) Tal declaração é curiosamente similar àquela feita por Alfred North Whitehead na introdução de seu livro The aims of education (As metas da educação), publicado em 1929. É claro, hoje o Conselho não existe mais, e esse tipo de pensamento democrático foi substituído por um Currículo Nacional. O governo central aumentou seu poder e é certamente mais poderoso atualmente na Grã-Bretanha moderna do que nos anos de 1960 e 1970. Nas escolas norte-americanas, o grau de autonomia tido pelos professores para elaborar o currículo varia consideravelmente de estado para estado. Ainda que não permita totalmente plenos poderes da maneira que os professores britânicos historicamente tinham antes do advento do Grande Projeto de Lei para a Reforma Educacional (Great Educational Reform Bill - GERBIL) e do novo Currículo Nacional de 1988, o qual eliminou muito daquele julgamento e tomada de decisão independentes de questões envolvendo o currículo no nível escolar. Infelizmente, o Conselho das Escolas foi colocado contra a parede e o currículo agora é “telegrafado para as províncias”. O desenvolvimento curricular é um processo. Este geralmente envolve várias etapas ou estágios. Falando ideologicamente, acredito que ele seja mais bem experimentado pela escola individualmente por meio de equipes de participantes trabalhando no espírito da deliberação prática. Schwab (1969) não apenas forneceu um modelo ou um enfoque prático ao desenvolvimento do currículo, mas ele apresentou uma nova linguagem. Um dos principais problemas com o currículo é a atual natureza técnica antisséptica da teoria curricular. Talvez a melhor declaração sobre essa ideia seja apresentada por Whitehead em The aims of education, onde ele argumentava que cada escola precisava definir e planejar o seu próprio currículo. Isso não seria uma realidade numa verdadeira democracia? Há vários pontos de partida para o de- 27 senvolvimento curricular. Por exemplo: a) O domínio do conhecimento. Aqui nós examinamos as questões epis- temológicas ligadas à disciplina ou ao assunto que estamos desenvolvendo. O grupo de trabalho aproveita todo o julgamento informado e todas as fontes de conhecimento e, por meio de um exame cuidadoso, chega às metas ou objetivos do curso. b) Identificação de métodos ou estratégias para o ensino. Nesse ponto, estamos preocupados com a arte de ensinar o currículo proposto. Essa é sua pedagogia. c) A criação de materiais na forma de unidades. Essa é a ação de estruturar o conhecimento e os componentes afetivos e de habilidades de modo que eles tenham uma lógica interna. d) Julgamento ou avaliação do currículo na prática. Por exemplo, a avaliação do aluno por meio da escrita de um ensaio estruturado, de exames subjetivos e assim por diante. e) Informações à equipe do projeto por meio de feedback e deliberação e reflexão adicionais no currículo em ação. Os critérios acima não indicam indiretamente nenhum ponto de partida em particular, como é o caso da identificação de objetivos específicos. Minha experiência tem sido a de que os professores não pensam em objetivos em primeiro lugar e, quando solicitados a fazê-lo, eles encontram nisso grande dificuldade. Em vez disso, eles pensam no conteúdo na forma de unidades temáticas, tópicos e material que eles incluiríam. O currículo, como a educação em geral, é uma atividade racional e com propósito. Porém, os propósitos, ou virtudes, do currículo variam conforme os filósofos e as ideologias. Para Aristóteles, a meta da educação é permitir que o aluno tanto goste quanto não goste do que deveria gostar. 9. TIPOS DE CURRÍCULO a) Currículo formal. Os planos de estudo acadêmico oferecidos pela instituição. O conteúdo, os objetivos e as preparações formalizadas para a aprendizagem. b) Currículo informal. As “atividades extracurriculares” que são organizadas ao redor do currículo formal como sociedades, clubes esportivos, jogos. c) Currículo nulo. Esse é o currículo que as escolas não ensinam, mas que talvez seja tão importante quanto o currículo formal. Eisner (2002, p. 97) argumenta que uma dimensão importante são os processos intelectuais que as escolas enfatizam e então negligenciam sua imple- mentação, e a outra é a disciplina que está ausente de um currículo formal. d) Currículo real. Esse é o currículo que realmente é implementado e seguido e que pode não apresentar fidelidade no plano formal para o currículo. 28 e) Currículo oculto. O currículo que está latente ou escondido, mas presente na cultura escolar. As crianças aprendem muitas coisas que a escola não planeja, por exemplo, como colar. Ele também inclui valores-chave, por exemplo, em uma escola particular religiosa onde a regra não-escrita é que “silêncio vale ouro”. 10. CURRÍCULO, QUALIDADE E LIBERDADE O primeiro requisito para uma reforma educacional é a escola como uma unidade, com seu currículo aprovado baseado em suas próprias necessidades e expandido por seu próprio quadro de pessoal. Se falharmos em assegurar isso, nós simplesmente caímos de... um estado vil de idéias inertes em outro. Alfred North Whitehead, The aims of education and other essays (1929, p. 21) Podemos reconhecer prontamente que Whitehead era um defensor da liberdade e da escolha através do desenvolvimento curricular baseado na escola e na liberdade dos educadores locais de efetuar reformas de modo democrático. Infelizmente, a Inglaterra dos dias de Whitehead não é aquela dos tempos modernos, que lembra muito o modelo norte-americano de retirar da escola e do professor seus poderes e responsabilidades quanto ao desenvolvimento curricular. Ao contrário, os professores agem como funcionários numa burocracia vertical. E minha tarefa mostrar essa situação confusa, particularmente nas escolas e nas faculdades que tomam parte nos conflitos sobre qualidade, no advento da racionalidade técnica e no conflito que surgiu quando confrontadas com um modelo de educação impulsionado pela prática reflexiva. Existe muito desgaste e confusão. Os filósofos e os estudiosos do currículo devem começar a debater uma saída. Neste capítulo, meu plano é discutir criticamente: a) Uma concepção de currículo e qualidade, brevemente; b) A ideia de liberdade curricular baseada na escola que permita o de- senvolvimento do currículo e do professor; c) O enorme desperdício de recursos, particularmente na preparação e na retenção de professores; d) Diferenças na liberdade acadêmica e no desenvolvimento curricular para professores de ensino fundamental, médio e universitário. Mesmo assim, há críticos importantes que argumentam (Apple, 1995) que a situação curricularatual é dominada por conservadores, técnicos e burocratas e que é um tanto mítico presumir que os estudiosos do currículo já tiveram uma “voz” de alguma significação para causar impacto numa mudança curricular. Apple (1995, p. 39) afirmou: A Direita fez um bom trabalho ao mostrar que as decisões sobre o currículo, sobre o conhecimento de quem deve ser tornado “oficial” são questões inerentemente do poder político e 29 cultural. Além disso, Apple sustenta que, dentre os últimos quarenta anos, é difícil encontrar mais do que alguns exemplos em que os estudiosos, especificamente dentro do campo curricular, tiveram algum impacto significativo nos debates (1995, p. 38-39). A “Direita” política está indo bem. Os neoconservadores tiveram sucesso em marginalizar as vozes das mulheres, dos pobres e das minorias, e continuam a tirar o poder dos educadores que foram desrespeitados como “liberais intelectuais”, os quais são vistos como parte do problema. Vivemos uma “sobrevivência dos mais ricos”, dados os recursos e as bolsas de estudo educacionais que são mais desigualmente distribuídos àqueles que já têm status e recursos socioeconômicos altos (McKernan, 2004). A tarefa central e o desafio intelectual da vida moral e intelectual é discutir maneiras pelas quais a riqueza ou a igualdades verdadeiras que nós defendemos na educação podem ser recuperadas e como essas idéias estão relacionadas ao currículo, à qualidade e à escolha na situação crítica atual. Eu também devo prefaciar minhas observações com o comentário de que essa é uma tarefa em que os filósofos não causaram uma impressão muito boa naqueles que concebem as políticas educacionais. Este capítulo amplia meus argumentos sobre a “retórica da qualidade” na educação norte-americana e a tese dos “dilemas de valores”, a qual eu elaborei como um conflito sobre qualidade entre duas racionalidades concorrentes: os agentes dominantes que obedecem à gestão técnica e aqueles engajados na hermenêutica prática e crítica. O conflito sobre a qualidade ideológica pode ser ilustrado pela referência aos seguintes dilemas de valores: padrões versus expressão; produtividade versus excelência; medição versus entendimento; treinamento versus educação; controle versus liberdade; unidade versus diversidade; objetividade versus subjetividade e uniformidade versus imaginação. E suficiente dizer que os conflitos curriculares são conflitos sobre valores: a racionalidade técnica está em total controle do nosso sistema nacional e estadual de educação. Mesmo assim, isso não deve impedir que a mente do educador procure melhorias na intenção e na realidade. 11. OBJETIVOS OU RESULTADOS NÃO-PREVISTOS OU NÃO-PLANEJADOS ESTÃO SEMPRE SENDO ALCANÇADOS Um dos melhores insights apresentados foi a ideia de Stenhouse (1975) de que a educação é bem-sucedida na medida em que resultados não-previstos estejam sendo alcançados. Esses objetivos “não-previstos” são o tipo de aprendizagem com uma mente direcionada à crítica e à investigação. O novo conhecimento é precisamente isso - ele não era conhecido de antemão, e é criado pelo processo educacional e a paixão de um aprendiz comprometido com a atividade construtivista. Isso é semelhante ao currículo zero, que não é ensinado ou planejado, mas 30 aprendido como resultado da educação. 12. PADRÕES E CURRÍCULO Fora da discussão atual sobre objetivos de ensino e comportamentais, pode-se dizer que devemos proceder com nosso trabalho racionalmente. No final, a educação é realmente uma iniciação dos alunos a atividades que valem a pena. Essas experiências que valem a pena são direcionadas a metas e contêm uma variedade de padrões. Dewey (1956, p. 9) escreveu: A criança é o ponto inicial, o centro e o fim. Seu desenvolvimento, seu crescimento são o ideal. Ela, por si só, fornece o padrão. Ao crescimento da criança, todos os estudos são subservientes. Eles são instrumentos valorizados à medida que servem às necessidades de crescimento... Literalmente, devemos tomar nossa posição em relação à criança e nossa partida a partir dela. E ela, e não a disciplina, que determina tanto a qualidade quanto a quantidade da aprendizagem. O currículo frequentemente é fragmentado e falta a ele coerência. Algumas forças poderosas implementaram vários projetos destinados a melhorar os “padrões”, e nós encontramos novos padrões não apenas para os alunos, mas para os programas de educação dos professores, associações profissionais, práticas de avaliação e assim por diante. Muitos argumentam que essa racionalização está nos conduzindo pela estrada até um Currículo Nacional, como o encontrado na Grã-Bretanha, na Irlanda, na França e em outras nações das quais nós tivemos muitas influências educacionais. Os governos, não apenas na Europa Ocidental, têm sido atraídos à perspectiva social-mercandl devido à sua ênfase em economias com corte de custos, responsabilização e indicadores comportamentais de desempenho. Dessa forma, o conceito de “padrões”, atualmente, está ligado a modelos de eficiência em vez de a uma preocupação mais nostálgica e tradicional por padrões acadêmicos. Em 1983, a Comissão Nacional para a Excelência em Educação publicou seu relatório A nadou at nsk (Uma Nação de Risco) e concluiu que os educadores tinham que “adotar padrões rigorosos e mensuráveis e expectativas mais altas para o desempenho acadêmico e a conduta dos alunos”. 13. A NATUREZA DA AVALIAÇÃO COMO JULGAMENTO PROFISSIONAL O conceito de avaliação com frequência é interpretado de forma restrita e amplamente malcompreendido. A maioria pensa nele como uma “mentalidade de correção” quando, na verdade, ele é mais semelhante a um “julgamento”. A maioria dos relatos tradicionais sobre a avaliação tentou imitar a quarta etapa do Modelo de Tyler (1949) da avaliação de fins, geralmente significando “Os alunos atingiram os objetivos comportamentais (de desempenho) desejados e especificados?”. Isso frequentemente se baseia na suposição de que testes sobre o desempenho do 31 aluno são a melhor ferramenta de avaliação. Eu aludirei aos resultados do aluno em “avaliação”, o que acredito ser um tipo bastante diferente de ato de julgamento daquele que os elabora- dores de políticas ou o público veem como sendo a educação: publicamente responsável, ou então a “responsabilização” e o valor pelo dinheiro e por recursos. As questões sobre o desenvolvimento curricular não são meramente teóricas e práticas, são também altamente sociais e políticas. Quem terá o poder de autorizar a mudança? Como o corpo docente, os alunos, os administradores e outros devem ser envolvidos na mudança curricular? Avaliação é a realização de julgamentos baseados em evidências reunidas de modo a atribuir “valor” ou a falta dele a uma pessoa, programa, currículo ou sistema. A avaliação pode ser quantitativa ou qualitativa. Outro tipo de julgamento se preocupa se os programas e os currículos educacionais são válidos como práticas inovadoras - aqui o objetivo é julgar o currículo em ação como uma preocupação programática. O novo módulo de teclados em TI (tecnologia da informação) justifica seus custos de início de operações? Esse é o propósito da avaliação do programa curricular, ou o aprimoramento do curso - ele “tem sucesso?”. O módulo em TI faz o que se pretende que ele faça? Os materiais das unidades são relevantes, apropriados aos conceitos-chave? Boa parte dos melhores trabalhos para o aprimoramento da educação estão dentro desse domínio. Também existe a autoavaliação dos professores, um fator altamente válido quanto ao nosso próprio desempenho. Finalmente, há os julgamentos feitos por outros sobre o desempenho do professor, por exemplo, a revisão de pares, ou o que é conhecido como “apreciação”. Por exemplo, aquelas listas de verificação que são usadas com educadores em formação e em serviço a fim de apreciar seu desempenho.Então há a pesquisa educacional e curricular que é feita principalmente por pesquisadores externos concentrando-se no currículo a fim de compreender os efeitos do ensino, da aprendizagem e do desenvolvimento curricular. Imagine, por exemplo, uma socióloga feminista que pode examinar as escolhas de currículo para meninas e meninos numa análise de hipóteses concebidas em termos de carreira ou de escolhas de faculdades baseada em sua teoria de preconceito de gênero-socialização. Ou, o exame de um especialista em leitura e a pesquisa de um currículo em termos de seu nível de eficiência para combinar o nível correto de leitura com a idade cronológica e o lugar na turma. A pesquisa-ação interna sobre o professor pode se concentrar nas maneiras pelas quais a igualdade de gênero pode ser melhorada dentro da estrutura da sala de aula - digamos, monitorando de perto a fim de garantir que as perguntas feitas aos meninos e às meninas tenham uma proporcionalidade igual. Parece que a avaliação, a apreciação, a pesquisa e a responsabilização final, todas se tornaram seriamente obscurecidas, mal compreendidas e, infelizmente, mal utilizadas por alunos e profissionais da área da educação. Os educadores iniciantes e em serviço e os elaboradores de 32 políticas precisam separar essas várias artes de julgamento reflexivas e fazer determinações sobre quais servem a diferentes públicos de forma correta. Não é uma questão simples - mas muitos dos problemas curriculares atuais existem porque tal ética de trabalho não existia. Durante os anos de 1960, havia uma preocupação com a avaliação de novos e inovadores programas: o desenvolvimento do curso de matemática, ciências biológicas, humanidades e assim por diante. Essa ideia de avaliação de programa no desenvolvimento curricular mudou rapidamente para responsabilização e avaliação do aluno. Verdadeiramente, testes determinantes e medição parecem ser a única preocupação em recentes iniciativas em educação de nível estadual e federal. O financiamento está politicamente ligado ao progresso - digamos, à melhoria da matemática e da leitura - como evidenciado em notas obtidas por alunos em testes. Essa visão restrita da avaliação precisa ser revista por educadores e elaboradores de políticas responsáveis. Após a metade do século XII, a teoria da avaliação se desenvolveu rapidamente, principalmente em resposta aos muitos projetos de desenvolvimento curricular. A teoria da avaliação no currículo precisa levar em conta, separadamente, sobre cada uma dessas funções. Com muita frequência, os resultados dos testes dos alunos são usados para decidir inteiramente o destino do currículo e o desempenho do professor, e os dados são usados para se tomar decisões de forma inapropriada. Stenhouse argumentou (1975, p. 122) que “A avaliação deveria conduzir o desenvolvimento e estar integrada a ele. Então a distinção entre desenvolvimento e avaliação é destruída e os dois se fundem e se tornam ‘pesquisa’”. 14. A NATUREZA POLÍTICA DA AVALIAÇÃO Com muita frequência, as decisões são de cunho político e não no melhor interesse do que é válido em termos educacionais. E crucial que as pessoas certas estejam encarregadas da avaliação. Barry MacDonald, o avaliador do Projeto do Currículo de Humanidades, estabelecido no Reino Unido, inventou um modelo de avaliação descrito como “democrático” (Hamilton, 1976). É de certa forma surpreendente ler sobre a “avaliação do empoderamento” (Fetterman, 2001) atualmente como uma “nova” forma quando, na verdade, ela se parece muito com o modelo de “avaliação democrática” de MacDonald, ao dar a todos os usuários de um programa uma “voz” na avaliação. Essencialmente, MacDonald via a avaliação como um ato extremamente político e defendia que havia três tipos de avaliação: a burocrática, a autocrática e a democrática. A avaliação burocrática é oferecida como um serviço a agentes do governo central. Ela não é independente - o controle fica com os valores dos burocratas que controlam os recursos. Os avaliadores iniciam aceitando os valores dos burocratas e tentam ajudá-los em sua missão. Entende-se que a avaliação apresentará dados que ajudarão os burocratas a impulsionar sua missão ou política. 33 A avaliação autocrática é uma forma de serviço de avaliação condicionada, quase independente em sua natureza, para agentes governamentais ou a autoridade central que oferece “validação externa” da política ou das políticas centrais em troca de conformidade com as suas recomendações. O avaliador retém titularidade dos dados - dessa forma, não permite que os clientes mudem ou influenciem as recomendações para avaliação uma vez feitas pelo avaliador. O avaliador frequentemente é aquele que procura refúgio nos princípios da pesquisa, na comunidade da pesquisa, na objetividade e nas tradições positivistas da ciência. O avaliador é um perito e “juiz” único. No modelo de MacDonald de avaliação democrática, a titularidade é tida por todas as partes interessadas no programa sob avaliação. Dessa forma, parecería que todas as críticas sobre o Modelo de avaliação do empoderamento (Fetterman, 2001) podem bem ser merecidas. No modelo democrático a avaliação é um serviço para a comunidade educacional e as partes interessadas. Ele entende que várias questões e valores estão embutidos e procura avaliar democraticamente ao permitir a titularidade e o direito de recurso a todos os participantes. O avaliador é um agente honesto que permite que todos tenham acesso aos dados. Além disso, há uma tentativa de fazer com que a avaliação possa ser lida e seja acessível a todos - não apenas a uma elite culta. MacDonald argumentava que as principais características são: confidencialidade, negociação e acesso. Fetterman e colaboradores (Fetterman, 2001; Fetterman et al., 1996) promoveram a “avaliação do empoderamento” argumentando que ela é democrática e que compreende três partes: em primeiro lugar, uma descrição da declaração de “missão” do programa; em segundo lugar, um “inventário” no qual os valores e a ideologia do que está sendo almejado sejam explorados por todos aqueles com um interesse pessoal no projeto; em terceiro lugar, um “planejamento para o futuro”, no qual as estratégias são trabalhadas para permitir que o programa inovador avance. Fetterman (2001, p. 147) também usa a avaliação como um exercício de informação e resolução de problemas semelhante ao caráter da pesquisa-ação: Talvez o que distinga o discurso sobre empoderamento mais claramente seja seu reconhecimento e profundo respeito pela capacidade das pessoas de criar conhecimento sobre suas próprias experiências e soluções para elas. Eu diria que um clima de suspeitas e de falta de confiança nas escolas e nos professores foi criado deliberadamente durante as últimas décadas, principalmente por legisladores e elaboradores de políticas que desejam que os professores e as escolas provem que são competentes. A ironia é que o movimento pela responsabilização pressiona os educadores a obter resultados, mas faz pouco para possibilitar-lhes assumir responsabilidade pela criação de seus currículos. Frequentemente, os únicos dados coletados são notas de provas, e isso, às vezes, registra uma 34 aprendizagem trivial porque a tecnologia da indústria das provas está disponível. Com bastante frequência, esses dados são usados erroneamente para colocar a culpa nos programas, professores e, ultimamente, nas instituições de formação de professores. 14.1. Avaliação do programa curricular A avaliação é a atribuição de “validade” ou valor a um programa, atividade, curso e conjunto de materiais experimentais, alunos, professores ou sistemas escolares. É a atribuição de um julgamento como seu resultado, o que é a melhor evidência para uma ação futura, ou possivelmente uma não ação, quanto ao tema da investigação. A avaliação é um julgamentode valor e tem vários propósitos: tomar decisões sobre alunos individualmente (o que eu consideraria mensuração) e professores; tomar decisões sobre programas educacionais; e, finalmente, tomar decisões sobre sistemas, administradores e regulamentações. O uso da avaliação para fazer a apreciação de um aluno e a melhoria dos cursos é um tipo mais útil para aperfeiçoar a educação do que os outros dois tipos. Stufflebeam (1971) postulou que a avaliação contava como a reunião de informações nas quais se deve basear para tomar decisões quanto ao valor de programas educacionais, pessoas e sistemas. A avaliação está então aberta a uma ampla variedade de testes empíricos, quando apropriado, assim como a estilos qualitativos de julgamento. Ela está claramente preocupada em fazer julgamentos de valor sobre algum aspecto da atividade educacional, seja ele alunos, professores ou projetos escolares/curriculares. MacDonald (1973, p. 1-2, citado em Stenhouse, 1975, p. 112) defendia a “avaliação democrática” desta maneira: A avaliação é o processo de conceber, obter e comunicar informações para a orientação da tomada de decisões educacionais com relação a um programa especificado. Também devemos ter em mente que a pesquisa e a avaliação diferem entre as nações. Nos Estados Unidos, os professores e as escolas não são os agentes que tomam decisões sobre avaliação. Essas decisões são tomadas por supervisores nos Departamentos de Educação Estaduais, que têm o poder de liderança administrativa para controlar a educação escolar. Em sistemas cen- tralizados como na Irlanda, na França e na Suécia, as decisões são tomadas por funcionários do governo para todo o sistema escolar. Como o modelo de objetivos se originou nos Estados Unidos, e tem uma história longa e dominante lá, a ênfase sempre tem sido em usar os objetivos no currículo, pois eles são as metas de todo o trabalho de avaliação. Isso também faz parte, acredito eu, do curioso romance que os estudiosos da educação têm tido com a ciência e a tecnologia. Isso quer dizer que nós somente saberemos se um currículo funciona se os objetivos forem alcançados. Eu afirmei neste livro que há alternativas ao modelo de fins-meios de justificar o currículo por meio do alcance de objetivos. 35 Devemos nos perguntar “Qual é o público mais importante para a avaliação?”. Eu digo que são os professores. Os professores perguntarão, “Eu ou meus alunos teremos benefícios com esse currículo?”. Nos Estados Unidos, os currículos são desenvolvidos como “diretivas” a serem implementadas pelos professores, a pergunta-chave sendo “Ele funcionará?”. Isso é bastante diferente das preocupações colocadas pelos professores, que se preocupam mais que um currículo inovador ofereça algo que tenha valor para os alunos. Além disso, o que é considerado tendo valor varia conforme as escolas e os alunos. Portanto, um modelo baseado em objetivos pede um resultado Reprovado/Aprovado, quando o que é necessário é uma descrição completa e compacta da compreensão das complexidades de um currículo em prática em diferentes escolas. Stenhouse (1975, p. 109) sugeriu: Pode-se argumentar que as avaliações convencionais do tipo por objetivos não são dirigidas a compreender o processo educacional. Elas operam em termos de sucesso ou falha. Mas um programa é sempre uma mistura de ambos, e uma mistura que varia conforme o cenário. O problema, me parece, é que em vez de fazer perguntas para ser investigador dos problemas levantados pelo currículo, o estado concebeu o desenvolvimento curricular para ser a oferta de soluções de fora da escola. A avaliação é estabelecida politicamente como uma atividade externa, não como uma obrigação superior profissional interna. Na verdade, de todos os públicos mais diretamente afetados pelo currículo, os alunos, os pais, a comunidade e os professores frequentemente têm o menor poder de tomar decisões. Isso acontece porque o estado não vê a escola ou seus trabalhadores como capazes de tomar decisões sobre o currículo. Se o estado realmente visse os professores como pesquisadores e desenvolvedores, ele permitiria que as escolas se engajassem em trabalho de pesquisa e desenvolvimento curricular, e seria possível toda uma revisão e um plano escolar para o crescimento. Em resumo, a estratégia adotada nos Estados Unidos funciona contra os professores como pesquisadores e agentes do desenvolvimento profissional. 15. AVALIAÇÃO DOS PROFESSORES A avaliação dos professores e a revisão por pares dos professores universitários está na moda em escolas e faculdades atualmente. Ela parece conter dois aspectos: “avaliativo” (para tomar decisões sobre mérito, promoção e até mesmo demissão); e “desenvolvimentista” (para auxiliar no crescimento na carreira, na competência no ensino, no planejamento em serviço, na aprendizagem e assim por diante). Ela também é um fenômeno internacional, tendo sido estabelecida como um Regulamento Estatutário na Inglaterra em 2000, a ser administrado pela Junta de Administradores para cada escola naquele país. No Canadá, as províncias estão fazendo da avaliação de professores uma lei. A Lei da 36 Qualidade em Sala de Aula, de 2001, e o Programa de Testagem de Professores de Ontário foram dois dos comprometimentos governamentais no projeto. O programa abrangente foi anunciado pela primeira vez em maio de 2000. O Programa de Testagem de Professores de Ontário garantirá que tanto os professores novos quanto os experientes tenham uma formação atualizada, conhecimento e habilidades para ajudar os alunos a terem sucesso. A Lei da Qualidade em Sala de Aula, de 2001, instituiu mais dois componentes do programa governamental de testagem de professores. Os pontos de destaque do Programa de Testagem de Professores de Ontário incluem: a) Um teste de qualificação para novos professores em Ontário; b) Um sistema abrangente de apreciação de desempenho; c) A exigência de desenvolvimento profissional obrigatório; d) Um teste de proficiência em línguas para os professores que vêm para Ontário e receberam sua formação numa língua que não seja o inglês ou o francês; e) Um programa de indução para novos professores; f) Um sistema de reconhecimento da excelência do professor. Esse sistema permite que os alunos e os pais forneçam feedback aos professores. Os professores são avaliados duas vezes em seus dois primeiros anos e depois duas vezes por ano em ciclos de três anos pelo vice-diretor ou pelo diretor da escola. Posicionamentos de pais e alunos são apenas um componente dessas avaliações de desempenho, que também incluirão: O nível de comprometimento do professor com os alunos; O conhecimento do professor sobre o currículo, e outros fatores. As avaliações são planejadas a cada três anos para professores experientes e duas vezes em cada um dos dois primeiros anos para novos professores ou para aqueles que se transferem para outra junta escolar. O Programa de Testagem de Professores de Ontário se baseia em programas de outras jurisdições. O governo afirma que isso é semelhante aos requisitos de outras profissões, como médicos, advogados, enfermeiros, arquitetos e terapeutas ocupacionais. Isso se origina de recomendações dos parceiros de educação de Ontário e de recomendações da Comissão Real sobre a Aprendizagem, de 1995. Alguns, é claro, estão enraizados em noções de desenvolvimento profissional do professor mas, com maior frequência, os esquemas de avaliação são implementados por meio de “indicadores de desempenho” como uma forma de responsabilização, dados nos quais basear, digamos, decisões sobre mérito, indicações para efetivação no emprego, até mesmo para se livrar de professores universitários que parecem não estar trabalhando eficientemente em termos dos esquemas e regras estabelecidos. A estabilidade no emprego foi, por todas as intenções e propósitos, abolida e substituída porrevisão por pares, o que pode ter efeitos políticos quando executado por administradores e colegas com diferenças individuais e profissionais. Na verdade, 37 até mesmo o formulário padrão para medir a “eficiência do professor” usado nas escolas públicas da Carolina do Norte, não foi desenvolvido por professores experientes, mas sim por psicólogos acadêmicos. Ele não diz nada sobre o conteúdo da disciplina em si, apenas em que tipo de atividade estava sendo realizada, por exemplo, questionamento ou aula expositiva, e assim não é impactante. Esses esquemas de avaliação foram implementados na forma de “Qualidade do professor” num sistema instrumental obcecado por jogar um jogo de números. Esses “indicadores de desempenho” não vêm da profissão de professor, mas sim de agentes externos com um objetivo. A justificativa é que esses são dados confiáveis sobre a qualidade do ensino. As percepções sobre a eficiência do professor tida pelos professores diferem muito daquelas dos funcionários estaduais e da LEA, que implementa indicadores de desempenho dos professores. O que os políticos e os elaboradores de políticas têm em mente é uma ideologia social de mercado na qual a educação é vista como um produto que deve ser controlado. Elliott escreveu coerentemente sobre a investida dessa mentalidade social de mercado como um dispositivo implementado por forças de mercado conservadoras (1993, p. 51-64). 16. AUTOAVALIAÇÃO DOS PROFESSORES Talvez a característica mais significativa do educador profissional seja a vontade de se sujeitar a uma autoavaliação escrutinadora para fins de auto- melhoramento. Não podemos ser profissionais reflexivos sem o estudo de nossa prática. Uma crítica à autoavaliação é que ela pode realmente ter falta de objetividade (Kelly, 1989, p. 204). Mesmo assim, essas dificuldades podem ser transpostas pela revisão por pares, na qual os colegas, familiarizados com a agenda e o trabalho do professor, podem realizar um estudo avaliativo dos mesmos. Nas universidades públicas da Carolina do Norte, todo o corpo docente (mesmo aqueles com estabilidade) deve passar por uma revisão por pares pelo menos uma vez a cada cinco anos a fim de continuar em seu cargo. Normalmente isso significa inventariar o relatório anual para listar as classificações dos membros do corpo docente quanto ao ensino, extensão e pesquisa com base numa escala de cinco pontos, sendo que a eficiência mínima é estabelecida em 2.0. A pesquisa-ação é útil para fins de autoavaliação do corpo docente ou das escolas e está crescendo em distritos escolares em que o desenvolvimento profissional é valorizado. 17. MENSURAÇÃO DOS ALUNOS Mensurar é medir e quantificar. Por exemplo, se solicito uma mensuração do valor de minha casa, recebo um número quantitativo no valor de, digamos, US$200.000,00. Prefiro pensar na mensuração como uma medição ou um julgamento baseado em números. Isso me ajuda a entender que esse tipo de julgamento é bastante distinto das declarações de valor como “Esse é um 38 bom módulo de história”. Os dados das mensurações por si só não são suficientes para exprimir um julgamento verdadeiro de um currículo. E por isso que múltiplas formas de avaliação podem adicionar solidez e confiabilidade ao trabalho de avaliação. Muito do que parece contar como avaliação é estabelecido dentro dos parâmetros do “modelo de objetivos” da avaliação curricular. Ou seja, o aluno teve um comportamento que apresenta evidências de um entendimento de que o resultado declarado de aprendizagem pretendido foi alcançado? A testagem do conhecimento domina nessa visão do julgamento como uma avaliação das conquistas dos alunos. Muitos resultados aqui têm a ver com modificação da aprendizagem, de modo que o comportamento desejado seja apresentado pelos alunos. Isso leva, muitas vezes, a queixas por parte dos professores de que os testes estaduais determinam o tipo de experiências curriculares que os alunos têm - os professores “ensinarão para o teste” a fim de obter resultados. Esse é exatamente o tipo de coisa que está acontecendo nos Estados Unidos devido às pressões políticas da Lei Nenhuma Criança Deixada para Trás, de 2001. Além disso, esses objetivos que podem facilmente ser dominados e ensinados tenderão a monopolizar o currículo. A avaliação, como outras formas de julgamento, não é uma tarefa fácil. Stenhouse fez a importante observação de que a simples avaliação da conquista de objetivos se preocupa apenas com o sucesso ou a falha do programa. Ela não se preocupa com uma compreensão deste. Ela mensura sem explicar (Stenhouse, 1975, p. 95). Na verdade, o Capítulo 4 defendeu as limitações dos objetivos, que distorcem a estrutura e a epistemologia apropriadas da disciplina sendo estudada. Minha posição sobre a mensuração é que, com treinamento ela é satisfatória, mas quando se trata de indução às formas de conhecimento como uma educação, então a pré-especificação de fins é uma profunda distorção. A maioria dos professores universitários e dos professores escolares segue alguma forma de “avaliação somativa”, na qual os alunos são testados pelas notas no final de um curso. O professor Denis Lawton, da Universidade de Londres, certa vez comentou que isso era como “promover inteligência militar quando a guerra tivesse acabado”. Seu argumento era óbvio - deixar a avaliação como somativa não ajudará o aluno que concluiu seus estudos. A avaliação deveria melhorar um aluno, não tentar “provar” o que ele aprendeu. 18. PESQUISA-AÇÃO E AVALIAÇÃO A pesquisa-ação é a investigação realizada por um profissional para melhorar a qualidade dessa prática em um cenário social por intermédio da pesquisa da ação, pelo profissional, de maneira reflexiva. Uma técnica para refletir sobre a ação é uma modificação do conceito de triangulação (Denzin, 1970), que o autor chama de quadrangulação. Ela procura usar vários atores, dados, métodos de pesquisa e teorias para obter discernimento sobre o problema que se apresenta (McKernan, 1996). 39 O Projeto de Ensino da Ford no Reino Unido solicitou aos professores que obtivessem uma perspectiva mais abrangente sobre a teoria, os atores e os métodos de pesquisa por “triangulação” correlacionai e colaborativa dos dados, atores e métodos. O autor demonstrou o uso da triangulação em tentativas de ensinar a metodologia de pesquisa-ação (McKernan, 1996). Porém, esse método de triangulação pode ser ainda mais reforçado adicionando-se uma dimensão plena à técnica de pesquisa: a quadrangulação não é apenas um poderoso método de pesquisa, mas é uma estratégia de avaliação interessante para hipóteses curriculares sendo testadas em ação. Trow (1957) sugeriu que os pesquisadores sociais deveriam abandonar os argumentos de favorecer um método em favor de outro. Os lados, ou planos, da quadrangulação são: Teoria/conceitos: ver um currículo de forma conceituai; Atores e participantes: frequentemente haverá múltiplos atores, alunos, professores e assim por diante - suas perspectivas podem ser vistas individualmente e contrastadas com outros atores; Dados e evidências: dados qualitativos e quantitativos podem ser comparados; Métodos: triangulando vários métodos como anotações de campo com gravação em vídeo ou combinando dados de questionários com relatos de entrevistas estruturadas. Quanto mais rigorosos os dados e as perspectivas, mais poderosa a validade dos resultados. Considere o caso do professor que usa a discussão em sala de aula quando adota um papel “neutro”. O professor permite que um pesquisador de fora filme a ação em sala de aula. Essa colaboração do professor e do pesquisador representa o primeiro plano ou lado do quadrilátero. O segundo lado envolve os alunos assistirem a um videoclipe da discussão juntamente com o professor. Esse relato é então discutido pelo professor e pelo pesquisador sozinhos e, finalmente,o vídeo é visto por outros professores na escola envolvidos no projeto do currículo. Várias teorias de ação prática e métodos como entrevistas podem ser usados com os alunos e os professores para produzir novas perspectivas e hipóteses sobre como melhorar a discussão como uma estratégia para a compreensão. Precisamos esclarecer que a “quadrangulação” não se refere apenas a usar quatro conjuntos de atores - mas sim múltiplos métodos, atores, dados e conceitos/teorias, todos juntos para se conectar ao estudo do problema de pesquisa. Dessa maneira podemos trazer à luz uma melhor “teoria fundamentada” para explicar o que está acontecendo no cenário sendo pesquisado. A pesquisa-ação procura mudar e melhorar uma situação problemática por meio da testagem de formas alternativas de ação humana sobre um problema e do monitoramento dos efeitos por intermédio da pesquisa. Uma vez que os dados tiverem sido reunidos, o resultado 40 crítico da pesquisa-ação é fazer um julgamento de escolha quanto ao que fazer em seguida. Dessa forma, a investigação da ação possibilita o julgamento de escolhas de valor e a realização de avaliações da ação. As técnicas de pesquisa se dividem em vários tipos: • Técnicas de narrativa e observação, como observação participante e não- - participante, registros de episódios, estudo de caso, diário/revistas, registros em vídeo e em fotografia, listas de verificação, escalas de classificação e observações de campo; • Técnicas de investigação e autorrelatório incluindo escalas de atitudes, questionários, entrevistas e histórias de vida; • Técnicas pedagógicas como brainstorming, coordenador neutro em discussão, seminários sobre investigação-ação e assim por diante; • Técnicas críticas como quadrangulação, avaliações de alunos e professores, revisão por pares, triangulação, crítica literária e especialização. O propósito nesse caso não é meramente descrever e interpretar, mas criticar uma intervenção (McKernan, 1996). 19. RESPONSABILIZAÇÃO Como servidores públicos, somos responsabilizados pelos resultados de nosso desempenho profissional. Os alunos, os administradores e até mesmo os pais, juntamente com os professores, estão sendo responsabilizados atualmente. A verdadeira pergunta vem a ser “Que tipo de responsabilização final é apropriada?”. Por exemplo, indicadores de qualidade, desenvolvidos por professores (Elliott, 1993), forneceriam dados que disponibilizariam os indicadores de qualidade do professor. Hamilton (1976) nos lembra de que a responsabilização existe pelo menos desde a época de Sócrates. Por exemplo, o aspecto mais importante da sociedade grega não era o processo democrático de eleições, mas sim a chamada para prestar contas daqueles que tinham altos cargos no estado, de forma a julgar seu desempenho. Um desses eventos notórios foi o próprio julgamento de Sócrates. Nós frequentemente negligenciamos isso em nosso processo democrático contemporâneo. Um recente artigo no jornal New York Times comentando o Relatório da Comissão que investigava falhas no serviço de inteligência relacionadas ao 11 de setembro gracejava que, mesmo sendo louvável, o relatório estava sem contundência, no sentido de que não culpava nenhuma pessoa ou agência. O propósito de uma avaliação é julgar. A responsabilização acontece após o fato. Ou seja, ela somente entra em cena após ações profissionais terem sido realizadas. A verdadeira pergunta não é se os professores universitários, os professores escolares e os administradores são responsáveis, mas como essa operação de responsabilização deve ser conduzida. Dois grandes modelos de responsabilização estão em operação. O primeiro é o padrão ou 41 tipo de critério instrumental, pré-especificado como resultados pretendidos. Isso conta como um tipo extrínseco de responsabilização, como o modelo de objetivos de Tyler. Em segundo lugar está um modelo de desenvolvimento profissional, que vê a qualidade como intrinsecamente ligada ao trabalho profissional (Sockett, 1976), que admite a adesão a princípios da prática em vez de a resultados corporificados no desempenho dos alunos. Tal modelo apoia a tese deste livro - a de que o aprimoramento não vem da pré-especificação e da testagem de comportamento, mas sim de que os padrões e os valores educacionais, que Elliott chama de “ética educacional”, estão em aderir a princípios embutidos no processo de educação em si e não em seus resultados. Essa é uma tarefa complexa, mas que não deveria desencorajar os educadores, pois sua realização resultará em mais oportunidades para melhorar. Outra observação deve ser feita nesse ponto - os professores precisam estar envolvidos nesse tipo de exercício de responsabilização eles mesmos, assim como precisam estar envolvidos na pesquisa, na avaliação de cursos, na apreciação e na avaliação. Até agora, em nossa democracia, os professores geralmente são excluídos do envolvimento em todas essas atividades que, no final das contas, se baseiam em seu profissionalismo e desenvolvimento. E um cenário muito estranho. É necessário um Conselho de Professores e Escolas para o Currículo e a Pesquisa. 20. AS ESCOLAS COMO COMUNIDADES DEMOCRÁTICAS CRÍTICAS DE APRENDIZAGEM A escola é o melhor lugar para os professores desenvolverem o currículo e o ensino, pois permite aos profissionais exercitar seu julgamento em relação ao desenvolvimento de suas artes reflexivas. Para fazer isso, acredito que os professores precisem de um apoio significativo - e não apenas de natureza monetária. Os professores requerem o desenvolvimento do currículo e tempo de pesquisa. Os professores precisam ser capazes de se reunir como equipes de desenvolvimento curricular e como pesquisadores. Por que os professores não são avaliados em termos de sua pesquisa e extensão assim como de suas atividades de ensino, como os professores de faculdades o são? Um fim para essa divisão de trabalho será muito útil a fim de tornar os professores das escolas, assim como os professores universitários, melhores artistas. Os professores precisam de acesso a redes colaborativas. Algumas já foram estabelecidas, por exemplo, a Classroom Action Research NetWork - CARN (Rede de Pesquisa-Ação em Sala de Aula), com sede na Faculdade de Educação da Universidade de Norwich, em East Anglia. A organização produz a revista de classe internacional chamada Educational Action Research (Pes- quisa-Ação Educacional), da qual muitos autores são professores que atuam em sala de aula de todo o mundo. 42 REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS APPLE, M. (1979) Ideology and Cuiriculum, London: Routledge and Kegan Paul. Bendey, J. (1963) An Outline of American Philosophy, Paterson, NJ: Littlefield, Adams and Co. BOBBITT, F. 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