Prévia do material em texto
Cláudio Henrique Chadu Santos Ely Zago Mauro Luiz Begnini Natal Junio Pires Sebastião Francelino da Cruz Revisão técnica Fernanda Ferraz Lima Wilson de Sousa Benjamin Química geral I Catalogação elaborada pelo Setor de Referência da Biblioteca Central Uniube Q41 Química geral I / Cláudio Henrique Chadu Santos ... [et al.]. – Uberaba : Universidade de Uberaba, 2017. 172 p. : il. Programa de Educação a Distância – Universidade de Uberaba. Inclui bibliografia. ISBN 1. Química. 2. Química – Estudo e ensino. 3. Ligações químicas. I. Santos, Cláudio Henrique Chadu. II. Universidade de Uberaba. Programa de Educação a Distância. CDD 540 © 2017 by Universidade de Uberaba Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, da Universidade de Uberaba. Universidade de Uberaba Reitor Marcelo Palmério Pró-Reitor de Educação a Distância Fernando César Marra e Silva Coordenação de Graduação a Distância Sílvia Denise dos Santos Bisinotto Editoração e Arte Produção de Materiais Didáticos-Uniube Projeto da capa Agência Experimental Portfólio Revisão técnica Fernanda Ferraz Lima Wilson de Sousa Benjamin Edição Universidade de Uberaba Av. Nenê Sabino, 1801 – Bairro Universitário Sobre os autores Cláudio Henrique Chadu Santos Mestre em Química (Físico-Química) pela Universidade Federal de Uberlândia. Especialista em Educação a Distância pela Universidade de Uberaba. Graduado em Química pela Universidade Federal de Uberlândia. Docente da Universidade de Uberaba na modalidade presencial e a distância. Possui experiência no ensino técnico tendo trabalhado como Professor substituto no Centro Técnico Federal (CEFET) Unidade Araxá. Ely Zago Licenciado em Química pelas Faculdades Integradas São Tomaz de Aquino, pós -graduado em Metodologia do Ensino Superior pela Universidade Federal de Santa Catarina e especializado em Química pela Universidade Católica de Minas Gerais. Mauro Luiz Begnini Doutor em Química Orgânica (Síntese Orgânica) pela Universidade de São Paulo (FFCLRP). Mestre em Química Orgânica (Síntese Orgânica) pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Graduado em Química Industrial pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Atualmente é professor na Universidade de Uberaba nos Cursos de Licenciatura em Química, Farmácia Industrial e Biomedicina. IV UNIUBE Natal Junio Pires Doutorado em Educação pela Universidade São Francisco (USF) com período sanduíche na Universidad Pedagogica Nacional (Bogotá/Colômbia) dentro do programa PDSE/2014 do MEC financiado pela CAPES. Mestrado em Química, com ênfase em Química Analítica, pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Graduado em Química (Licenciatura e Bacharelado) pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Professor nível D401 do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (CEFET/MG). Tem experiência na área de Química e Educação, atuando principalmente nos seguintes temas: biopolítica, governamentalidade na perspectiva foucaultiana, políticas públicas de educação, educação científica, ensino de química, química inorgânica, biocombustíveis e técnicas espectroanalíticas. Sebastião Francelino da Cruz Doutorado em Química pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Mestrado em Química (área de concentração: físico-química) pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Licenciatura e Bacharelado em química pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Professor na Universidade de Uberaba (Uniube) de 2002 a 2012, atuando nos cursos de licenciatura em química, engenharia química, engenharia de produção, biomedicina e tecnologia em produção sucroalcooleira. De 2008 a 2012 foi diretor do curso de licenciatura em Química da Universidade de Uberaba (Uniube). Tem experiência na área de Química, com ênfase em polímeros e em educação, atuando principalmente nos seguintes temas: educação, ensino a distância, reciclagem de polímeros. Professor efetivo e Diretor Geral do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo-IFSP, campus Avaré-SP. Sumário Apresentação ................................................................................................ VII Capítulo 1 Unidades de medida, notação científica e algarismos significativos ... 1 1.1 As unidades de medida ................................................................................................2 1.1.1 Um pouco da história das medidas ......................................................................2 1.1.2 Unidades de medidas ...........................................................................................3 1.2 Utilizando a informação numérica na ciência ................................................................5 1.2.1 Massa e peso .......................................................................................................6 1.2.2 Comprimento ........................................................................................................8 1.2.3 Volume .................................................................................................................8 1.3 Expressando valores em notação científica e algarismos significativos no cotidiano ...9 1.3.1 Notação científica .................................................................................................9 1.3.2 Algarismos significativos ....................................................................................11 1.4 Conclusão....................................................................................................................16 Capítulo 2 Uma breve introdução à química ..................................................17 2.1 Uma grande proposta, uma breve história ..................................................................19 2.2 A visão moderna da estrutura atômica ........................................................................21 2.3 Pesos atômicos ou massas atômicas .........................................................................24 2.4 A continuidade histórica: ideias de formação e estudando o átomo ...........................29 2.5 Mecânica quântica e os orbitais atômicos ...................................................................36 2.6 Representações de orbitais .........................................................................................41 2.7 Átomos polieletrônicos ................................................................................................43 2.8 Configurações eletrônicas ...........................................................................................44 2.9 Conclusão....................................................................................................................48 Capítulo 3 Conhecendo a tabela periódica ....................................................49 3.1 Histórico da tabela periódica .......................................................................................50 3.2 Relacionando a tabela periódica à distribuição eletrônica ..........................................54 3.3 As séries dos lantanídeos e actinídeos .......................................................................55 3.3.1 Lantanídeos .......................................................................................................55 3.3.2 Actinídeos ..........................................................................................................55 3.4 As dezoito colunas (famílias ou grupos) ......................................................................56 3.5 Os blocos s, p e d ........................................................................................................573.5.1 Elementos do bloco s e p ...................................................................................57 3.5.2 Elementos do bloco d .........................................................................................59 3.6 Configurações eletrônicas e a tabela periódica...........................................................60 VI UNIUBE 3.7 Carga nuclear efetiva ..................................................................................................63 3.8 Tamanhos de átomos e íons .......................................................................................65 3.9 Energia de ionização ...................................................................................................68 3.10 Afinidades eletrônicas................................................................................................74 3.11 Conclusão ..................................................................................................................76 Capítulo 4 Ligações químicas – conceitos básicos ........................................79 4.1 Conceitos básicos sobre ligações químicas ................................................................80 4.1.1 Ligação iônica ....................................................................................................84 4.1.2 Ligação covalente ..............................................................................................85 4.1.3 Símbolo de Lewis para os átomos .....................................................................87 4.2 Formação de ligações químicas ..................................................................................89 4.2.1 Ligação em compostos iônicos ..........................................................................91 4.2.2 Ligações covalentes e estruturas de Lewis ........................................................94 4.3 Estrutura eletrônica de Lewis ......................................................................................96 4.4 A regra do octeto .........................................................................................................98 4.5 Prevendo estruturas de Lewis ...................................................................................101 4.5.1 Compostos de hidrogênio ................................................................................102 4.5.2 Ressonância .....................................................................................................103 4.6 Exceções à regra do octeto .......................................................................................104 4.7 Ligação metálica........................................................................................................109 4.7.1 As principais ligas metálicas .............................................................................109 4.8 Breve história do DNA – uma “ligação” entre a química e a vida ................................. 111 4.9 Conclusão.................................................................................................................. 111 Capítulo 5 Forças intermoleculares – teorias e aplicações ............................ 115 5.1 Origem das forças intermoleculares ..........................................................................116 5.2 Relações com os objetos do cotidiano ......................................................................118 5.3 Modelos atômicos, tabela periódica e ligações químicas: um pequeno retorno ....... 118 5.4 Compreendendo moléculas polares e apolares ........................................................122 5.5 Forças intermoleculares e suas relações com as propriedades dos compostos e da matéria .....................................................................................................................124 5.5.1 Tipos de forças intermoleculares..........................................................................125 5.5.2 Forças de interações tipo íon -dipolo ....................................................................125 5.5.3 Forças de interações tipo dipolo -dipolo ...............................................................126 5.5.4 Forças de Van der Waals ou dipolo induzido e instantâneo ................................128 5.5.5 Forças de interação de hidrogênio (ligações ou pontes de hidrogênio) ........... 129 5.6 Conclusão..................................................................................................................131 Capítulo 6 As forças intermoleculares e suas consequências ........................ 133 6.1 As consequências das forças intermoleculares nas propriedades dos compostos orgânicos ......................................................................................................................134 6.1.1 As forças intermoleculares ...............................................................................134 6.2 Polaridade dos compostos e suas consequências ...................................................134 6.3 Viscosidade ..............................................................................................................140 6.4 Conclusão..................................................................................................................142 UNIUBE VII Capítulo 7 As propriedades físicas da matéria ..............................................143 7.1 Propriedades da matéria ..........................................................................................144 7.1.1 Densidade ........................................................................................................146 7.2 Estados físicos da matéria .......................................................................................153 7.2.1 Estado sólido ....................................................................................................154 7.2.2 Estado líquido ...................................................................................................154 7.2.3 Estado gasoso .................................................................................................154 7.2.4 Plasma: o quarto estado da matéria ...............................................................155 7.2.5 Ponto de fusão (PF) ........................................................................................155 7.2.6 Ponto de ebulição (PE) ...................................................................................156 7.2.7 Viscosidade .....................................................................................................156 7.3 Conclusão..................................................................................................................158 VIII UNIUBE Apresentação Prezado(a) aluno(a). Quando nos deparamos com o estudo de química, iniciamos memorizando fórmulas e conceitos, vendo os professores apresentarem a sequência de conteúdos, logicamente organizados, que se repete na maioria dos livros desta disciplina. Passamos, depois, para o curso superior e pouco ou nada mudou em relação a isso. Existirá outro caminho diferente e que seja viável? A resposta é: sim. Mas, que metodologia empregar? Para esta pergunta não existe uma resposta definitiva. Em nosso cotidiano, várias situações são comuns e nos conduzem a uma pequena reflexão. Por exemplo, você já imaginou por que o gelo derrete e a água evapora? Por que as folhas das árvores mudam de cor no outono? Por que os alimentos levam mais tempo para estragar quando mantidos refrigerados, ou como nosso organismo usa os alimentos para manter a vida? Esses pequenos questionamentos da vida evidenciam a importância da química como uma ciência aplicada. A química fornece respostas para essas e outras incontáveis perguntas. A química é o estudo das propriedades dos materiais e das mudanças sofridas por estes. Um dos prazeresde aprender química é ver como os princípios químicos estão presentes em todos os aspectos de nossa vida, desde atividades cotidianas, como acender um fósforo, até as mais complexas, como o desenvolvimento de novos medicamentos. Você está apenas começando a viagem de aprender química. De certo modo, este primeiro livro será seu guia no início dessa viagem. À medida que você estudar, tenha em mente que os princípios e conceitos químicos aprendidos são ferramentas para ajudá lo(a) a entender melhor o mundo ao seu redor, e não fins em si mesmos. O primeiro capítulo prepara a base para nossos estudos fornecendo uma visão geral da Química e estabelece alguns conceitos fundamentais sobre a formação da matéria. Em seguida, passaremos a estudar as transformações da matéria, as quais são possíveis por meio das reações químicas que frequentemente ocorrem. X UNIUBE Uma compreensão dessas transformações depende, essencialmente, de uma visão microscópica das partículas formadoras da matéria. Assim, começaremos fazendo uma abordagem dos átomos e sua constituição. Nesta mesma linha, passaremos a abordar as propriedades intrínsecas dos átomos. A partir daí, daremos o primeiro passo para o entendimento da formação e transformação da matéria, ou seja, como e por que os átomos se unem, formando o que denominamos moléculas. Dessa forma compreenderemos a razão pela qual existe uma grande diversidade de materiais e substâncias que encontramos no nosso cotidiano, cada uma apresentando uma aplicação diferente, de forma a dar mais conforto para a nossa vida. A seguir, entenderemos como essas moléculas (entidades microscópicas) interagirão para formar aquilo que conseguimos enxergar com nossos olhos (mundo macroscópico). Ao final do livro entenderemos também por que algumas substâncias são usadas para determinados fins, baseando se em suas propriedades, que dependem essencialmente do tipo de interação existente entre as partículas constituintes da matéria. Assim, iniciamos o fascinante estudo da química, presente em nosso dia a dia. Bom estudo a todos Newton Gonçalves Garcia / Renata de Oliveira Introdução Iniciamos, aqui, parte fundamental da sua formação como professor de língua inglesa: a fonética. Porém, além de se dedicar ao estudo dessa importante faceta da língua, você deve se preparar para ensiná-la ao seu grupo de alunos. Você que já iniciou ou inicia agora seus estudos da língua inglesa cer- tamente já teve dificuldades com a pronúncia desse idioma. Isso é algo esperado de ocorrer já que se trata de um idioma com origens na língua anglo-saxã, portanto, com características distintas de nosso idioma de origem latina. Apesar desse aspecto, por meio do estudo da fonética, é possível con- seguir uma pronúncia inteligível aos falantes nativos e não nativos do idioma, como frisa Underhill (200?, p.92) em: The aim of pronunciation teaching can no longer be to get students to sound [...] like native speakers, or more like the teacher […]. The primary aim must be to help learners to com- municate successfully when they listen or speak in English, often with other non-native speakers. O objetivo do ensino da pronúncia não pode ser mais fazer com que os alunos soem como falantes nativos ou como seu professor. O objetivo primário deve ser ajudar os aprendizes a se comunicar com Fonética: a sonoridade da língua inglesa Capítulo 1 Natal Junio Pires Introdução Neste capítulo apresentaremos algumas considerações introdutórias sobre os aspectos relacionados às medidas. Abordaremos, também, uma análise histórica do surgimento da necessidade de se fazer medidas, uma vez que quase tudo aquilo que temos – roupas, carros, casa e outros – é produzido com partes que foram medidas e é vendido em partes medidas (quilograma, metro, unidades etc.). Sendo assim, verificaremos a importância de se conhecer as principais unidades de medidas. Enfatizaremos também a importância das medidas dentro do laboratório de ciências, como parte fundamental do método científico. Conhecidas as unidades básicas de medidas, torna -se necessário aprender como elas devem ser expressas, de maneira a facilitar a sua escrita, o entendimento e o uso da notação científica e dos algarismos significativos. Finalmente, vamos abordar a relação entre precisão e exatidão com algarismos significativos, quando se expressam resultados de medidas diversas. Esses conhecimentos são de fundamental importância para a sua formação profissional. Nesse sentido, podemos confirmar a importância da matemática como uma ferramenta indispensável a qualquer campo da ciência. Unidades de medida, notação científica e algarismos significativos Capítulo 1 Notação científica Expressão de números na forma N x 10n. Algarismos significativos Dígitos de uma medida, até o primeiro dígito incerto da notação científica. Exemplo: 0,0380 ml, ou seja, 3,80 x 10–2 ml, uma medida com três algarismos significativos. 2 UNIUBE Objetivos Esperamos que, ao término dos estudos deste capítulo, você seja capaz de: • entender a origem das unidades de medidas; • compreender os vários tipos de unidades de medidas do sistema métrico decimal; • expressar valores usando a notação científica; • relacionar os conceitos de precisão e exatidão com algarismos significativos; • realizar corretamente a leitura de equipamentos graduados. Esquema • Um pouco da história das medidas. • Unidades de Medidas: massa, peso, comprimento e volume. • Algarismos significativos. • Precisão e exatidão. 1.1 As unidades de medida “Todo conhecimento que não pode ser expresso por números é de qualidade pobre e insatisfatória.” (Lord Kelvin) 1.1.1 Um pouco da história das medidas Desde a Antiguidade, o homem sentiu a necessidade de realizar medidas para facilitar a sua vida cotidiana. Entretanto a falta de uniformidade entre as unidades de medida dificultava a relação entre outras comunidades e aquilo que foi criado para facilitar as transações passava a ser um problema. Surgia uma necessidade de padronizar as unidades de medida para que outros povos pudessem fazer uso do mesmo conjunto e assim se chegar a um denominador comum. Em 1789, para tentar resolver o problema, o Governo francês solicitou à Academia de Ciências da França que criasse um sistema de medidas. Então foi criado o sis- tema métrico decimal. Mais tarde, várias nações pas- Sistema métrico Sistema que define o conjunto de unidades com as quais devemos realizar as medidas. UNIUBE 3 saram a adotar esse sistema, inclusive o Brasil, aderindo à Convenção do Metro. Esse sistema adotou, inicialmente, três unidades básicas de medida: o metro, o litro e o quilograma. saiba mais No decorrer do tempo, em virtude do crescente avanço científico e tecnológico, houve a necessidade de se realizar medições cada vez mais precisas e diversificadas. Dessa forma, em 1960, o sistema métrico decimal passou a ser substituído pelo Sistema Internacional de Unidades (SI), um pouco mais complexo e sofisticado. Este sistema foi também adotado pelo Brasil em 1962 e ratificado pela Resolu- ção no 12 de 1988, do Conselho Nacional de Metrologia, Normalização e Qua- lidade Industrial – Conmetro, passando a ser de uso obrigatório em todo o território nacional. 1.1.2 Unidades de medidas Fazer química requer a observação de reações químicas e mudanças físicas. Por exemplo, vamos supor que você misture duas soluções no laboratório e observe a formação de um sólido amarelo -ouro. O sólido é mais denso do que a água e ele afunda no tubo de ensaio. Para compreender uma reação química, de forma mais completa, os químicos geralmente recorrem a observações quantitativas que envolvem informação numérica. Por exemplo, se dois compostos reagirem entre si, quantoproduto é formado? Há liberação de calor no processo? Em caso afirmativo, em que quan- tidade? A cor e a aparência das substâncias, a liberação ou não de calor ou se o processo ocorre rápido ou lentamente são observações qualitativas. Verifique que não esta- mos nos referindo a nenhuma medida e a nenhum número. SAIBA MAIS Podemos então concluir que as observações quantitativas envolvem informações numéricas. PARADA PARA REFLEXÃO 4 UNIUBE Em química, medidas quantitativas de tempo, massa, volume e distância, entre outras, são comuns. Uma das áreas que mais se desenvolveu em ciência, a nanotec- nologia, estuda a matéria em escala nanométrica. Um nanômetro (nm), que equivale a 1 x 10–9 m (metro), é uma dimensão comum em Química e em Biologia. SAIBA MAIS Por exemplo, uma típica molécula tem aproximadamente 1 nm de largura e uma bactéria tem aproximadamente 1.000 nm de comprimento. A comunidade científica escolheu uma versão modificada do sistema métrico como sistema padrão para o armazenamento e a divulgação de medidas. Esse sistema decimal, usado internacionalmente em ciência, é chamado de Système International d’Unités (Sistema Internacional de Unidades), abreviado por SI. Todas as unidades SI são derivadas de unidades -base. Algumas estão apre- sentadas a seguir, no Quadro 1. Quadro 1: As sete unidades fundamentais de medidas (SI) Propriedade física Nome da unidade Símbolo Comprimento Metro m Massa Quilograma kg Tempo Segundo s Corrente elétrica Ampère A Intensidade luminosa Candela cd Quantidade de matéria Mol mol Temperatura Kelvin K Quando se trabalha com quantidades maiores ou menores, as unidades podem ser convenientemente expressas por meio de prefixos, conforme definidos no Quadro 2. Nanotecnologia Parte da ciência que realiza estudos com partículas da ordem de 10 nm. UNIUBE 5 Vamos ver os exemplos seguintes para compreendermos melhor. • A distância de Uberaba a Uberlândia é de 115.000 m. Para não escrever um número tão grande podemos dizer, de forma equivalente, que a distância entre essas duas cidades é de 115 km. • Da mesma forma, a massa de um caminhão vazio é de 13.000.000 g. Para não termos que escrever este número tão grande, podemos dizer que esse caminhão pesa 13.000 kg, que é equivalente a 13 toneladas. Desse modo, sempre que for conveniente, buscamos formas alternativas de expressar essas grandezas no intuito de simplificar nossos resultados. Ao ex- pressar a massa de uma formiga, é mais “elegante” dizermos que ela tem massa igual a 4 mg (miligramas) do que 0,000004 kg. O Quadro 2, a seguir, apresenta alguns prefixos que são comumente emprega- dos para expressar grandezas de massa, comprimento, energia, entre outras. Quadro 2: Prefixos usados no SI Prefixo Abreviação Significado Exemplo Mega - M 106 1 megametro (Mm) = 1 x 106 m Quilo -* k 103 1 quilômetro (km) = 1 x 103 m Deci - d 10–1 1 decímetro (dm) = 1 x 10–1 m Centi -* c 10–2 1 centímetro (cm) = 1 x 10–2 m Mili -* m 10–3 1 miligrama (mg) = 1 x 10–3 g Micro -* µ** 10–6 1 micrograma (µg) = 1 x 10–6 g Nano -* n 10–9 1 nanograma (ng) = 1 x 10–9 g Pico - p 10–12 1 picograma (pg) = 1 x 10–12 g * Esses prefixos são os mais empregados em química. ** Esta é uma letra grega pronunciada como “mi”. 1.2 Utilizando a informação numérica na ciência A preparação de materiais no laboratório, como parte integrante do curso de química, exigirá de você muitos cálculos. Você coletará dados numéricos e os utilizará para calcular um resultado ou procurará por correlações entre conjuntos de dados. 6 UNIUBE 1.2.1 Massa e peso Há aqui uma distinção importante! Massa é a medida da quantidade de matéria que um corpo possui. A massa de um corpo não varia quando sua posição é mudada. Por outro lado, o peso de um corpo é a medida da atração gravitacional que a Terra exerce sobre o corpo e esta varia com a distância a que o objeto se encontra em relação ao centro da Terra. O peso de um objeto na superfície da Lua (g = 1,62 m/s2) é diferente do seu peso na superfície da Terra (g = 9,80 m/s2), embora o corpo tenha a mesma massa. Um homem de massa 70 kg tem: Na Lua à P = m x g à P = 70 kg x 1,62 m/s2 = 113,4 N Na Terra à P = m x g à P = 70 kg x 9,80 m/s2 = 686 N Dessa forma, temos então que um homem de 70 kg é mais pesado na superfície da Terra que na superfície da Lua, embora sua massa seja a mesma nesses dois locais. SAIBA MAIS Pelo fato de a massa de um corpo não variar com a sua posição, a massa é propriedade mais fundamental de um corpo do que seu peso. No entanto esta- mos acostumados a usar o termo “peso” quando nos referimos à massa, uma vez que a pesagem é uma forma de medir a massa. Assim, precisamos ter em mente que estas duas grandezas (peso e massa) são diferentes. A unidade SI básica de massa é o quilograma (kg), conforme apresentado no Quadro 3. Essa unidade básica é singular, uma vez que usa o prefixo quilo -, em vez de usar somente a palavra grama. Obtêm -se outras unidades para massa, adicionando -se prefixos à palavra grama. O Quadro 3 apresenta algumas subunidades utilizadas para expressar a massa de um corpo. UNIUBE 7 Quadro 3: Algumas unidades de massa do SI Unidade Fator de conversão Quilograma, kg 1 kg Grama, g 1.000 g = 1 kg Miligrama, mg 1.000 mg = 1 g Micrograma, µg 1.000 µg = 1 mg Nanograma, ng 1.000 ng = 1 µg A unidade de massa, o quilograma, é a massa do protótipo internacional do quilograma, que nada mais é do que um cilindro, constituído de uma liga de 90% de massa de platina (Pt) e 10% de massa de irídio (Ir). Observe com atenção o Quadro 4 a seguir: Quadro 4: Alguns valores aproximados de massa de objetos comuns Medida Massa (kg) Universo observável ~1052 Sol 1,99 x 1030 Terra 5,98 x 1024 Lua 7,36 x 1022 Tubarão ~103 Humano ~102 Rã ~10–1 Mosquito ~10–5 Bactéria ~1 x 10–15 Átomo de hidrogênio 1,67 x 10–27 Elétron 9,11 x 10–31 O metro é a unidade padrão de comprimento (distância) no SI. O metro é definido como a distância percorrida pela luz no vácuo em 1/299.792.458 de segundo. SAIBA MAIS 8 UNIUBE 1.2.2 Comprimento Quadro 5: Valores aproximados de comprimento típicos em nosso cotidiano Medida Tamanho (m) Distância da Terra ao mais remoto quasar* 1,4 x 1026 Distância da Terra à mais remota galáxia normal 9 x 1025 Distância da Terra à mais próxima grande galáxia (M 31, galáxia Andrômeda) 2 x 1022 Distância do Sol à mais próxima estrela (Centauri) 4 x 1016 Um ano -luz 9,46 x 1015 Raio médio da órbita da Terra ao redor Sol 1,50 x 1011 Distância média da Terra à Lua 3,84 x 108 Distância do equador ao polo Norte 1,00 x 107 Raio médio da Terra 6,37 x 106 Altitude típica de um satélite orbitando a Terra 2 x 105 Comprimento de um campo de futebol 9,1 x 101 Tamanho de uma partícula de poeira ~ 10– 4 Tamanho das células da maioria dos organismos ~ 10–5 Diâmetro do átomo de hidrogênio ~ 10–10 Diâmetro do núcleo atômico ~ 10–14 Diâmetro de um próton ~ 10–15 * Quasar: objeto extragalático brilhante e muito distante. Também é chamado de quasars, abreviação de quasi ‑stellar radio source, ou seja, fontes de rádio quase-estelares que estão entre os mais misteriosos objetos do nosso universo. 1.2.3 Volume O volume é, às vezes, medido em litros ou mililitros no sistema métrico. Um litro (1 l) é um decímetro cúbico (1 dm3) ou 1.000 centímetros cúbicos (1.000 cm3). Um mililitro (1 ml) é 1 cm3. Veja só! No SI, o metro cúbico é a unidade -base de volume e o decímetro cúbico substitui a unidade métrica, o litro. SAIBA MAIS UNIUBE 9 Diferentes espécies de vidrarias são usadas para medir os volumes de líquidos. Por exemplo, o volume de um líquido a ser transferido para outro recipiente pode ser transferido, comuma exatidão maior, ao se utilizar uma bureta em vez de uma pipeta graduada. Algumas vezes devemos combinar duas ou mais unidades para descrever uma quantidade. Por exemplo, podemos expressar a velocidade de um carro como 80 km/h (quilômetros por hora). Lembre -se de que a notação algébrica x1 significa 1/x e, aplicando esta notação a unidades, nota -se que h–1 significa 1/h, ou “por hora”. Dessa maneira, a unidade de velocidade poderia ser expressa como km x h–1. 1.3 Expressando valores em notação científica e algarismos significativos no cotidiano Na química, medimos e calculamos várias coisas, de maneira que devemos ter clareza em como usar os números. Então, nesta seção, discutiremos dois as- pectos relacionados ao uso de números: a notação utilizada para expressar números muito grandes e números muito pequenos e uma indicação de até que ponto realmente conhecemos os números que estamos usando. 1.3.1 Notação científica Usamos a notação científica quando estamos trabalhando com números muito grandes ou muito pequenos. Por exemplo: • 197 gramas de ouro contém, aproximadamente, 602.000.000.000.000.000.000.000 átomos de ouro. • A massa de um átomo de ouro é, aproximadamente, 0,000.000.000.000.000 .000.000.327 gramas. Ao trabalhar com números tão grandes ou tão pequenos, é conveniente escrevê -los em notação científica, também chamada de exponencial. IMPORTANTE! 10 UNIUBE Na notação científica ou exponencial, um número é expresso como produto de dois números: N x 10n. SAIBA MAIS O primeiro número, N, é chamado de termo dígito e é um número entre 1 e 10. O segundo número, 10n, o termo exponencial, é alguma potência inteira de 10. Por exemplo, 1.234 é escrito em notação científica como 1,234 x 103, ou seja, 1,234 multiplicado por 10, três vezes. Veja um exemplo: 1.234 = 1,234 x 10 x 10 x 10 = 1,234 x 103 Por outro lado, qualquer número menor do que 1, como 0,01234, é escrito como 1,234 x 10–2. Esta notação nos diz que 1,234 deve ser dividido duas vezes por 10 para se obter 0,01234. Agora, observe como fazermos essa conversão no exemplo a seguir: 1 2 1 1 1, 234üüüüüüüüüüü 10 .10 −− − = Sendo assim: 4.300.000 = 4,3 × 106 e 0,000348 = 3,48 × 10–4 Como fazer? Um dos problemas enfrentados pelos estudantes é a determinação correta de n. Sendo assim, vamos aprender, a seguir, uma regra simples para encontrar tal valor em um exemplo! Considere o número seguinte: 4.300.000 • agora, posicione a vírgula após o último número à direita: 4.300.000; • mova a vírgula para a esquerda até que o número esteja entre 1 e 10. Isto resultará em 4,300 000; • observe que, para conseguir isto, a vírgula “andou” seis posições para a es- querda. Daí temos que n vale 6, que é um valor positivo; UNIUBE 11 • portanto podemos escrever que 4.300.000 = 4,3 × 106. Considere agora o número 0,000348 • neste caso a vírgula já está posicionada pela própria natureza do número (é menor que 1); • dessa forma, iremos movimentá -la para a direita até obter um número entre 1 e 10. Isso resulta em 00003,48. Neste exemplo, a vírgula foi deslocada quatro casas para a direita; • daí o valor de n, neste caso, é –4 (valor negativo). Portanto 0,000348 = 3,48 x 10–4. 1.3.2 Algarismos significativos Existem duas espécies de números: números obtidos pela contagem ou a partir de definições são números exatos. Estes são conhecidos com absoluta exatidão. IMPORTANTE! Por exemplo: • O número exato de pessoas em uma sala fechada pode ser contado e não existe dúvida nenhuma sobre essa quantidade. • Uma dúzia de ovos é definida como sendo exatamente 12 ovos. Atenção... Nem mais, nem menos! Números obtidos de medidas não são exatos. Toda medida que fazemos envolve um valor estimado. Por exemplo, suponha que seja pedido para você medir o comprimento desta página com uma precisão de 0,1 mm. Como você faria isso? Veja a menor divisão (linhas de calibração) sobre a régua é 1 mm. Uma tentativa para medir 0,1 mm requer uma estimativa. Se três pessoas diferentes medirem o comprimento da página com uma aproximação de 0,1 mm, elas darão a mesma resposta? 12 UNIUBE Provavelmente não. Nós trabalhamos com esse problema usando algarismos significativos. Suponha a medida de uma distância realizada com uma régua e que o valor en- contrado tenha sido de 343,5 mm. O que significa este número? No julgamento de quem fez a medida, a distância é maior do que 343,4 mm, porém menor do que 343,6 mm. A melhor estimativa é 343,5 mm. O número 343,5 mm contém 4 algarismos significativos. Atenção, pois o último dígito é o que chamamos de algarismo duvidoso, ou seja, é um algarismo obtido a partir de uma estimativa. Entretanto, mesmo assim, ele é considerado um algarismo significativo. IMPORTANTE! Ao expressar números obtidos em medidas, deve -se apresentar não mais do que um dígito estimado (duvidoso). Como a pessoa que realizou a medida não está certa de que o dígito 5 está correto, não teria sentido expressar a distância como 343,53 mm (dois algarismos duvidosos!). Para entender mais claramente o papel desempenhado pelos algarismos significativos ao se expressar o resultado de uma medida, considere a Figura 1. Provetas são usadas para medir volumes de líquidos quando não se requer um alto grau de exatidão. As linhas de calibração em uma proveta de 50 ml apresentam incrementos de 1 ml. Assim a estimativa do volume de um líquido é de 0,2 ml (1/5 de um incremento de calibração) com uma razoável certeza. Dessa forma, podemos medir o volume do líquido em uma proveta e expressá -lo como sendo 38,6 ml, isto é, com três algaris- mos significativos. Buretas são usadas para medir volumes de líquidos quando uma alta exatidão é re- querida. As linhas de calibração em uma bureta de 50 ml apresentam incrementos de 0,1 ml, permitindo -nos fazer estimativas de 0,02 ml (1/5 de um incremento de calibração) com razoável certeza. Por exemplo, usando uma bureta de 50 ml, pode- -se medir um volume de 38,57 ml (quatro algarismos significativos) do líquido com boa exatidão. Observe na Figura 2 como fica a marca desse volume em uma bureta. SAIBA MAIS UNIUBE 13 Figura 1: Escala de uma proveta mostrando o posicionamento do menisco em 38,6 ml Figura 2: Escala de uma bureta mostrando o posicionamento do menisco em 38,57 ml Quando se faz uma medida ou um conjunto delas, é interessante que conheça- mos a exatidão e precisão dos nossos resultados. A exatidão refere -se a quanto um resultado se aproxima do valor correto. Imagine a seguinte situação: dois indivíduos estão realizando, em um laboratório, uma série de três medidas cada um, para determinação de ácido acetilsalicílico em um comprimido de aspirina. O Quadro 6, a seguir, resume os resultados obtidos por tais indivíduos. Quadro 6: Massa de ácido acetilsalicílico em mg/comprimido de aspirina Testes Indivíduo 1 Indivíduo 2 Medida 1 510 504 Medida 2 506 502 Medida 3 505 497 Média 507 501 Em um comprimido de aspirina há 500 mg de ácido acetilsalicílico (valor verdadeiro). Analisando os resultados obtidos, vê -se que o resultado do indivíduo 2 é mais exato do que o resultado do indivíduo 1, já que este último é o que mais se aproxima do valor verdadeiro. 14 UNIUBE Já a precisão refere -se a quanto os valores obtidos em uma medida concordam entre si, ou seja, quanto mais próximo um do outro forem os resultados, diz -se que maior será a precisão da medida. Assim o conjunto de medidas cujos resul- tados sejam 25,2 ml, 25,6 ml e 25,4 ml é mais preciso do que o conjunto que apresenta os valores 25,3 ml, 25,9 ml e 26,2 ml, uma vez que os últimos resulta- dos estão mais dispersos em relação à média quando comparados com o primeiro conjunto. Com o mesmo raciocínio você pode verificar que o indivíduo 2 apresentamaior precisão, embora o seu resultado não possua boa exatidão. O ideal para qualquer conjunto de resultados é que ele possua boa precisão e exatidão. Porém nem sempre é possível atingir essas duas metas em uma metodologia científica. O que se faz geralmente é um conjunto maior de medidas para que possam ser conseguidas, precisão e exatidão aceitáveis, já que o valor médio de um conjunto, na maioria das vezes, é o valor mais representativo de uma medida. SAIBA MAIS Avaliando a exatidão pelo erro absoluto ou erro relativo Uma forma de se avaliar a exatidão de uma medida é calcular o erro absoluto (Ea) ou o erro relativo (Er). Ea = | Vexperimental – Vverdadeiro | Er = | Vexperimental – Vverdadeiro | x 100 Vverdadeiro Na determinação de ácido acetilsalicílico, podemos obter os seguintes resultados, empregando as equações acima. Indivíduo 1 Ea = 7 mg/comprimido Er = 1,4% Indivíduo 2 Ea = 1 mg/comprimido Er = 0,2% Analisando os resultados anteriores, concluímos facilmente que o indivíduo 2 realizou a determinação mais exata, pois em sua determinação há os menores erros absoluto e relativo. EXEMPLIFICANDO! UNIUBE 15 Os algarismos significativos servem para mostrar a precisão com a qual as medidas foram realizadas, assumindo que a medida tenha sido realizada por uma pessoa capacitada. A seguir são apresentadas algumas regras para uso de algarismos significativos. I – Números diferentes de zero sempre serão algarismos significativos. Por exemplo, 38,57 ml apresenta quatro algarismos significativos; 288 g apresenta três algarismos significativos. II – Os zeros algumas vezes são algarismos significativos e outras vezes não. a) Zeros posicionados no início de um número (são usados apenas para posicionar a vírgula decimal) nunca serão significativos. Por exemplo, 0,052 g apresenta dois algarismos significativos, enquanto 0,00364 m têm apresenta. Estes dois números também podem ser representados por notação científica, como 5,2 x 10–2 g e 3,64 x 10–3 m, respectivamente. b) Zeros entre números diferentes de zero sempre serão significativos. Por exemplo, 2.007 g apresenta quatro algarismos significativos; 6,08 km apresenta três. c) Zeros no fim de um número decimal são sempre significantes, pois indicam a precisão da medida. Por exemplo, 380,0 cm e 440,0 m têm quatro algarismos significativos cada um. Estes números também poderiam ser representados por notação científica, como sendo 3,800 x 102 cm e 4,400 x 102 m, respectivamente. III – Números exatos podem ser considerados como tendo infinitos algarismos significativos. Por exemplo, 1 km é exatamente igual a 1.000 m e 1.000 ml é exatamente 1 l. IV – Na soma ou diferença de números que não apresentam a mesma quantidade de algarismos significativos será retido o número de casas decimais daquele valor que é menos preciso. Por exemplo: 37,24 ml + 10,3 ml = 47,54 ml (resultado na calculadora) 16 UNIUBE A forma correta é expressá -lo apenas com três algarismos significativos, ou seja, 47,5 ml. 27,87 g – 21,2342 g = 6,6358 g (resultado na calculadora). O valor deve ser expresso como 6,64 g. V – Na multiplicação ou divisão, o número de algarismos significativos na resposta final não deve ser maior do que o menor número de algarismos significativos. Por exemplo: 12,34 cm x 1,23 cm = 15,1782 cm2 (resultado na calculadora). O valor correto deve apresentar três algarismos significativos, ou seja, 15,2 cm2. Arredondamento de números No arredondamento de números, durante os cálculos, algumas convenções devem ser seguidas. Nos cálculos, arredonde para cima se o dígito imediatamente posterior ao algarismo duvidoso for superior a 5 e para baixo se for inferior a 5. Quando o número termina em 5, arredonde sempre para o número par mais próximo. Por exemplo, o número 5,35 deve ser arredondado para 5,4 e o 7,65 para 7,6. Durante a realização de cálculos, é prudente em várias etapas realizar todos os cálculos e fazer o arredondamento apenas na última operação. Se possível, armazene os dígitos na memória da calculadora durante as várias etapas. SAIBA MAIS 1.4 Conclusão Nos estudos da química, sempre nos deparamos com equações matemáticas e medidas de massas e volumes, expressos em equipamentos de diferentes níveis de precisão. Para isso é importante o estudo que acabamos de realizar, pois, conhecendo unidades de medidas e algarismos significativos, podemos resolver essas equações matemáticas e os problemas encontrados dentro dos estudos químicos. Com a notação científica, podemos representar, de uma maneira mais simples, pequenos ou grandes números encontrados também no estudo da química. Por exemplo, quando falamos em mol de uma molécula X, estamos falando de uma quantidade equivalente a 6,02 x 1023 moléculas de X. Caso não usássemos a notação científica, deveríamos representar da seguinte maneira: 602300000000000000000000 moléculas de X. Este é apenas um entre os inúmeros exemplos de aplicação correta da notação científica utilizada em química. Uma breve introdução à química Capítulo 2 Cláudio Chadu / Ely Zago Introdução Há muito tempo, a fama injusta – de difícil – da química vem sendo mantida junto aos alunos, principalmente do ensino médio, que a têm como disciplina distante da realidade e sem função. Mas a crescente sofisticação das técnicas instrumentais de análise química, principalmente com a introdução de computadores nas escolas e em laboratórios, melhores técnicas de acompanhamento e resolução de problemas, contribui para desmistificar e levar o aluno a se interessar por esta ciência. Nos últimos anos, a química vem tomando novos rumos, tornando -se mais aceita na sociedade. O desafio no momento é acabar com aquelas frases construídas sem informação científica nenhuma, tais como: 1) “Não vou mais comer pão de padaria, pois é química pura”. Essa é uma frase realmente injusta, porque todos os componentes do pão feito em nossas casas são também produtos químicos. A farinha de trigo, por exemplo, é amido puro. Amido é um carboidrato formado por elementos químicos, tais como carbono, hidrogênio e oxigênio, ou seja, é química. 2) “Não sou adepto dos produtos reciclados, eles podem estar contaminados”. Realmente isso pode acontecer em função da ganância humana. Mas não é muito mais barato reciclar do que fazer de novo? Se vamos reciclar, vamos diminuir drasticamente a quantidade de lixo acumulado em aterros sanitários mal construídos e que, na maioria das vezes, contamina os lençóis freáticos. 18 UNIUBE Tenho certeza de que você já falou uma dessas frases até mesmo sem pensar! Este primeiro capítulo tem como principal objetivo mostrar que a química está presente em todo nosso ciclo de vida e até mesmo além dele. Em alguns momentos, a química parece mágica, pois cuida das transformações da matéria. Você já pensou que as moléculas que constituem seu corpo já foram utilizadas para constituir outros seres vivos? Sim, já foram. Preste atenção ao nosso diálogo: No seu almoço de hoje você saboreou um belo bife acebolado. — De onde veio a carne? — Do boi ou da vaca (não vamos discriminar). — Como os animais abatidos se alimentavam? — De capim. — Quem “alimentou” o capim? — Os nutrientes oriundos do metabolismo das bactérias. — Quem alimentou as bactérias? — Os restos mortais de vegetais e animais que formam a matéria orgânica. É, meu amigo! Nossas moléculas já foram utilizadas milhões e milhões de vezes por outros seres. E ainda temos a coragem de xingar os nossos desafetos de germes. Não queremos aqui desapontá -lo. Mas, para al- guns, germe é elogio. Todas as informações acima são para dizer da seriedade dos nossos pro- pósitos de estudar química. Objetivos Neste capítulo, nosso foco principal será identificar historicamenteos principais cientistas e suas contribuições para a evolução científica até os dias atuais, construindo assim bases teóricas que contribuirão para o processo de aprendizagem e que cercam os conceitos iniciais do estudo da química, valorizando -a como uma ciência verdadeiramente importante e atuante em nosso dia a dia. Para tal lançaremos mão de exemplos do cotidiano para explicar fatos e fenômenos, utilizando uma linguagem simples, mas retratando a realidade de tais fatos científicos. UNIUBE 19 Esquema O que veremos neste capítulo: • Introdução ao histórico da Química. • A evolução histórica do estudo do átomo. • O estudo da eletrosfera. • O diagrama de Linus Pauling. 2.1 Uma grande proposta, uma breve história De fato, nós, professores de química da Universidade de Uberaba, adoramos viver, amar, contribuir socialmente para a vida. Por isso aceitamos o grande desafio: ensinar química a distância. Formar professor/educador de química: essa é a nossa meta. E mais, a cada dia, trabalhamos para aumentar a “legião” de “seres humanos” com um objetivo único: contribuir, direta ou indiretamente, para a preservação, ou até mesmo para a reconstrução, em alguns casos, do nosso tão desgastado e explorado planeta azul. Portanto informar, formar para a cumplicidade da vida e saber educar são os nossos grandes objetivos. A maior de todas as perguntas é: onde começa e onde termina a química? A resposta é simples e direta: ela não tem um começo e não tem um fim. O que você é? De que você é construído? Para que você se alimenta? O que são os seus cabelos? que são suas vestes e seus produtos higiênicos? Olhando à sua volta, você vê o quê? O que é belo, o que é feio? São várias perguntas com uma única resposta: tudo é construído por infinitas combinações de elementos químicos, portanto tudo é química. Agora, sem vermos ou conhecermos você, podemos afirmar sem medo de errar que você, nós e tudo mais que constitui o universo somos química pura. Tudo consiste em um grande entendimento científico. 20 UNIUBE A química não é uma ciência antiga como a matemática, a astronomia ou a física, que tiveram seus princípios científicos iniciados há muitos séculos antes de Cristo. Mas a Bíblia narra fatos como a “multiplicação do pão” e a “transformação” da água em vinho, produtos que, para serem fabricados, necessitam de fermentação, que nada mais é do que um processo químico. Como será que os egípcios conservavam seus corpos após a morte? Pode apostar: química de alto nível. Segundo Aristóteles (384 -322 a.C.), tudo era constituído por quatro elementos básicos: fogo, terra, ar e água. Este pensamento influenciou muito a evolução da ciência como um todo e durou até o século XVI. No início do século XVII, foi que realmente apareceram conceitos que marcaram a química como ciência. Processos, como separação de misturas e o estudo das propriedades de seus componentes, foram denominados ALQUIMIA. A alquimia, uma mistura de ciências, arte e magia, nasceu durante a Idade Média, tendo como objetivo a busca da longevidade da vida, contribuindo muito com o diagnóstico e a produção de produtos para a cura de doenças. Mas o objetivo maior era a pedra filosofal, aquela que, com um simples toque, transformava qualquer metal em ouro. Não com objetivo econômico, mas sim religioso, em virtude de esse metal ser maleável e quase não sofrer corrosão. Ele era utilizado para esculpir peças para rituais religiosos. Nesse fato histórico, os chineses têm uma contribuição relevante na evolução da química como ciência. Vários conceitos metalúrgicos foram criados e os chineses descobriram a pólvora, utilizada inicialmente na fabricação de fogos de artifício. Nos séculos XVII e XIX, grandes nomes surgiram, tais como Lavoisier, Berzelius, Gay -Lussac, Dalton, Avogrado, Kekulé e tantos outros, que nortearam princípios científicos, caracterizando a química como uma ciência investigativa. A inquisição, em determinados momentos, interrompeu este crescimento e, em outros, contribuiu para ele. No século XX, tivemos realmente uma grande evolução. IMPORTANTE! UNIUBE 21 No século XX, o avanço tecnológico colocou a química, em vários momentos, como a ciência da destruição, em outros momentos, como a ciência da transformação e, no momento atual, como a ciência da salvação. Pretendemos mostrar que os avanços científicos conseguiram melhorar a qualidade de vida dos seres vivos, incluindo, claro, os seres humanos. Uma das nossas metas, durante todo o curso, é fornecer um material bem fundamentado, para a compreensão dos princípios da química e a utilização destes princípios nas mais variadas disciplinas relacionadas com as ciências ambientais e da própria vida. Não esqueça... Ninguém aprende para você. Os caminhos importantes para você dominar este curso são: muita leitura, muita motivação, dedicação e realização de todas as atividades propostas. Você está aprendendo para ensinar! IMPORTANTE! Para dar continuidade a nosso assunto, vamos voltar ao século XIX, lá pelo ano de 1807, quando o inglês John Dalton deu um caráter científico para o átomo, baseando -se empiricamente nas “Leis ponderais das reações químicas” (este assunto será estudado um pouco mais adiante!). 2.2 A visão moderna da estrutura atômica A matéria, como sabemos, é feita de partículas extraordinariamente pequenas, e a menor partícula é o átomo. A maioria dos elementos é encontrada na natureza como misturas de isótopos e em proporção relativamente constante. O silício, por exemplo, existe na natureza em proporção fixa de três isótopos, com 14, 15 e 16 nêutrons, respectivamente. Nem todos os átomos de um mesmo elemento possuem a mesma massa. As massas do elemento podem ser identificadas por análises em um equipamento denominado espectrômetro de massas. Por exemplo, se formos analisar a massa de uma amostra de Neônio pura, a maior parte dos átomos tem 3,32 x 10-24 kg, ou seja, cerca de 20 vezes a massa do átomo de hidrogênio. No entanto alguns 22 UNIUBE átomos de neônio são aproximadamente 22 vezes mais pesados do que o átomo de hidrogênio e outros aproximadamente 21 vezes mais (Figura 1). Os três tipos de átomos têm o mesmo número atômico e são, sem nenhuma dúvida, átomos de neônio. Figura 1: Espectro de massas do neônio. Localização dos picos no eixo x dá a massa dos átomos e as intensidades dão o número relativo de átomos de cada massa A partir desta observação, cientistas notaram que o núcleo atômico deve conter outras partículas subatômicas além dos prótons e sugeriram que ele também deve conter partículas eletricamente neutras, chamadas de nêutrons. Como os nêutrons não possuem carga, eles não afetam a carga do núcleo nem o número de elétrons do átomo. Porém eles aumentam substancialmente a massa do núcleo do átomo e, por isso, um número diferente de nêutrons no núcleo dá origem a átomos de massas diferentes, mesmo que os átomos pertençam ao mesmo elemento. Isótopos Isótopos são espécies de átomos que contêm o mesmo número atómico Z, assim constituindo o mesmo elemento químico, embora tenham um número de massa diferente. Os átomos que são isótopos têm entre si o mesmo número de prótons no núcleo, ocupando o mesmo lugar na tabela periódica. UNIUBE 23 Por exemplo, alguns átomos de hidrogênio têm um próton e dois nêutrons, como podemos observar na Figura 2. Figura 2: Isótopos do Hidrogênio É importante notar que a maior parte dos elementos químicos conta com mais de um isótopo. Apenas 21 elementos possuem um único isótopo natural. Podemos classificar os isótopos em isótopos estáveis e isótopos instáveis, ou radioativos. Um isótopo radioativo apresenta uma relação inadequada entre o número de prótons e de nêutrons para manter a estabilidade nuclear. A noção de estabilidade, entretanto, não é exata,considerando que há isótopos quase estáveis devido a um tempo de neutralização excessivamente longo. O isótopo radioativo possui um núcleo atômico instável diante do balanço de nêutrons e prótons, fazendo com que o núcleo emita energia ao mudar de forma sob condições mais estáveis. Os isótopos instáveis possuem um período de desintegração em que a energia é emitida sob a forma de raios beta (elétrons ou prótons), alfa (núcleos de hélio) ou gama (energia eletromagnética). Como fazer O magnésio possui três isótopos com massas 24, 25 e 26. a) Escreva o símbolo químico completo para cada um deles. b) Quantos nêutrons existem no núcleo de cada um dos isótopos? 24 UNIUBE Solução: a) O magnésio tem número atômico 12, logo todos os átomos de magnésio contêm 12 prótons e 12 elétrons. Os três isótopos são, portanto, representados por 2412Mg, 2512Mg e 2612Mg . b) O número de nêutrons em cada isótopo é o número de massa menos o número de prótons (A = Z + N). O número de nêutrons em cada um dos núcleos de cada isótopo é, portanto, 12, 13 e 14, respectivamente. 2.3 Pesos atômicos ou massas atômicas Mesmo sabendo que um átomo de carbono sempre possui 6 prótons e 6 elétrons, não podemos afirmar que um átomo de carbono deve ter qualquer número es- pecífico de nêutrons. Alguns átomos de carbono que encontramos na natureza têm 6 nêutrons. O número de massa desses átomos é 12 e são escritos como carbono-12, cujo símbolo é 126C. Outros átomos de carbono têm 6 prótons e 7 nêutrons e, portanto, número de massa 13, sendo escritos como carbono-13, cujo símbolo é 136C. Outros têm 6 prótons e 8 nêutrons, sendo escritos como carbono-14 ou 146C. Pratique: Quantos nêutrons existem em cada isótopo de oxigênio? Escreva o símbolo de cada isótopo. a) Oxigênio-16 b) Oxigênio-17 c) Oxigênio-18 Isóbaros Os isóbaros constituem átomos de diferentes números de prótons que, no entanto, possuem o mesmo número de massa (A). Portanto, ainda que sejam átomos de elementos químicos distintos, eles possuem a mesma massa, pois um maior número de prótons será compensado por um menor número de nêutrons e assim por diante. Logo terão propriedades físicas e químicas diferentes, como podemos observar a seguir: 146C 147N UNIUBE 25 A massa de um próton é 1,6726 x 10-24 g, mas este número é tão pequeno que é mais conveniente usar outra unidade, denominada massa atômica (u), para descrever sua massa. 1 u = 1,666054 x 10-24 g e 1 g 6,02214 x 1023 u A massa atômica de um elemento na tabela periódica é a média ponderada das massas (em u) de seus isótopos encontrados na terra. É possível encontrar a massa atômica de um elemento usando as massas de seus isótopos e suas abundâncias relativas. Por exemplo, o carbono encontrado na natureza é composto de 98,93% de 12 C e 1,07% de 13 C. As massas desses núcleos são 12 u e 13,000335 u, respectivamente. Calculamos a massa atômica do carbono a partir da abundância fracionada de cada isótopo e da massa daquele isótopo: (0,9893)(12 u) + (0,0107)(13,00335 u) = 12,01 u A massa atômica de cada elemento é também conhecida como o peso atômico do elemento. Como fazer Sendo as quantidades naturais (abundância isotópica) dos três isótopos estáveis de magnésio, são 78% para o magnésio-24 (23,98504 u), 10,00% para o magnésio-25 (24,9858 u) e 11,01% para o magnésio-26 (25,9829 u), calcule a massa atômica do magnésio. Solução: (0,7899 x 23,99 u) + (0,1 x 24,99 u) + (0,1101 x 25,98 u) = 24,31 u Isótonos Os isótonos são átomos de diferentes números de prótons e de massa, que, no entanto, possuem o mesmo número de nêutrons, ou seja, são elementos distintos com propriedades físicas e químicas diferentes, como podemos observar a seguir: Para o B, temos que: 26 UNIUBE N = A + Z N = 11 – 5 N = 6 Para o Be, temos que: N = A + Z N = 10 – 4 N = 6 Para Dalton, na combinação, seria sempre mantida a proporção de um para um entre os elementos, ele sugeriu que estas combinações fossem denominadas moléculas. Portanto a molécula da água seria “HO”. Posteriormente, Gay -Lussac e Avogadro demonstram que nem todas as molé- culas obedecem à proporção de um para um. Assim a molécula da água torna- -se H2O. O modelo atômico de Dalton contribuiu muito para o progresso da ciência no século XIX. Porém, ainda no século XIX, vários cientistas descobriram uma série de fenô- menos, tais como a condução de corrente elétrica por soluções, o raio X etc., que não podiam ser explicados pelo modelo atômico de Dalton. Originou -se, então, a suspeita de uma possível ligação entre matéria e energia elétrica. Hoje, como Dalton explicaria a eletricidade, os ímãs, a radioatividade ou a energia que os seres vivos con- somem em seus movimentos? Grande tacada a do Dalton! Mas a molécula de água fica mais bonitinha assim: TROCANDO IDEIAS! Radioatividade Propriedade que certos elementos têm de emitir espontaneamente radiações corpulares ou eletromagnéticas. UNIUBE 27 Joseph John Thomson, cientista inglês, trabalhando melhor com raios catódicos, concluiu em 1897 que esses raios, na verdade, eram partículas menores que os átomos e que possuíam carga elétrica negativa. Pronto, estava aí a desco- berta dos elétrons! Thomson propôs que o átomo seria formado por uma esfera de carga elétrica positiva e, em sua superfície, haveria os elétrons, com carga negativa, anulando assim a carga elétrica do átomo. Pouco tempo depois, o alemão Eugene Goldstein descobre, por meio dos raios catódicos, uma nova partícula. Esta partícula tinha um peso de 1.836 vezes mais que o do elétron e tinha carga elétrica positiva. Estava descoberto o próton. Foi o cientista inglês Ernest Rutherford (1871 -1937), em 1908, quem apresentou uma nova fase para o átomo, demonstrando sua divisibilidade, em função de novas experiências com o espalhamento de partículas alfa (α). Estas também são conhecidas como núcleos de átomos hélio (He) e serão oportunamente estudadas no capítulo sobre radioatividade. Para testar o modelo atômico de Thomson, Rutherford colocou polônio radiativo dentro de um bloco de chumbo e bombardeou uma finíssima lâmina de ouro com partículas alfa, emitidas pelo polônio. Estas saem de um bloco de chumbo por um canal e encontram pela frente a finíssima lâmina de ouro (0,0001 mm de espessura), atravessando -a e colidindo com uma peça cilíndrica revestida internamente com sulfeto de zinco, que é fluorescente. Na trajetória das partículas alfa, apareceu uma fluorescência constante. Mas, de tempo em tempo, fora desta trajetória, surgiram pontos luminosos. Material radiativo Bloco de chumbo Lâmina de ouro Figura 3: Experimento de bombardeamento de partículas α de Rutherford Fonte: Acervo EAD-Uniube. Alfa Primeira letra do alfabeto grego. Lâmina Fragmento chato e delgado de qualquer substância. 28 UNIUBE A interpretação dada por Rutherford foi: a) a maioria das partículas atravessava a lâmina de ouro, então a matéria era praticamente oca, embora a lâmina de ouro parecesse compacta; b) o átomo devia ser constituído de uma parte central, denominada núcleo, com carga elétrica positiva, pois repelia violentamente as partículas alfa, também de carga positiva, quando estas passavam próximo ao núcleo; c) analisando o número de partículas que sofreram desvio, bem menor em relação às de trajetórias normais, chegou -se à conclusão de que o tamanho do núcleo seria 100.000 vezes menor que o tamanho normal do átomo, e o núcleo era quem realmente contribuía com a maior parte para a massa das substâncias. A relação seria como colocar uma bola pequena no centro de um estádio de futebol (o Mineirão, por exemplo), em que a bola seria o núcleo e o resto do estádio, uma região provável de se encontraroutras partículas (os elétrons); d) porém, se o átomo tivesse apenas núcleo positivo e nada mais, a matéria seria eletricamente positiva. Para contornar este problema, Rutherford admitiu que a carga nuclear seria equilibrada por elétrons em movimento para não colidirem com o núcleo. Em resumo, o átomo seria muito parecido com o sistema solar: o núcleo representaria o sol e os elétrons seriam os planetas, girando em órbitas circulares, formando o que se denominou eletrosfera. O modelo de Rutherford descrito anteriormente contribuiu enormemente para o entendimento da estrutura da matéria, mas apresentava algumas deficiências. Rutherford foi obrigado a admitir que os elétrons (carga negativa) giravam em torno do núcleo (carga positiva), pois, se ficassem parados, eles seriam atraídos pelo núcleo e o átomo entraria em colapso, da mesma forma que um satélite em órbita cairia sobre o planeta. Mas os elétrons não se comportavam assim, pois, se assim fosse, a matéria seria destruída. No entanto, ao admitir que os elétrons se movimentam em torno do núcleo, Rutherford acabou criando um paradoxo. A física clássica diz que uma partícula em movimento circular (situação em que o elétron se encontra) está constantemente perdendo energia. Dessa forma, se o elétron emitisse energia, a sua velocidade de rotação diminuiria com o tempo e o elétron acabaria indo de encontro ao núcleo em movimento espiralado. Como sair desse impasse se isso não é observado na prática? Estas dúvidas exemplificam mais uma vez o modo pelo qual a ciência evolui. UNIUBE 29 Alguns anos mais tarde, o físico dinamarquês, Niels Bohr, introduziu a justificativa para o comportamento do elétron. Com base em seus estudos, ele postulou que os elétrons giram ao redor do núcleo em órbitas bem definidas e, ao girarem, não irradiam energia. Para completar a história, em 1932, outro inglês, James Chadwick, descobriu outra partícula subatômica de massa muito próxima à do próton, porém sem carga elétrica, mas que contribui para a massa total do átomo. Essa partícula passou a ser chamada de nêutron. Portanto podemos resumir as propriedades das partículas fundamentais de um átomo da seguinte maneira: Quadro 1: Comparação entre as propriedades de prótons, elétrons e nêutrons Partículas Natureza Carga relativa Massa relativa Prótons Positiva +1 1 Nêutrons Nula 0 1 Elétrons Negativa –1 1/1.836 Portanto: • O nêutron possui massa relativa igual a um, carga relativa igual a zero e é simbolizado por N. • O próton possui massa relativa igual a um e carga relativa igual a mais um (+1). • O elétron possui massa relativa 1.836 vezes menor que a do próton e carga relativa igual a menos um (–1). 2.4 A continuidade histórica: ideias de formação e estudando o átomo De acordo com os conceitos vistos até aqui, podemos perceber que a formação da natureza, incluindo animais, vegetais, terra, ar e tudo que se pode ver, sentir e palpar, é química. Epa! No amor não tem química. Mas, se tem amor, há hormônios. Se há hormônios, tem estrutura química. Portanto até o amor é química! SAIBA MAIS 30 UNIUBE Pela proximidade dos conceitos envolvendo química com nosso dia a dia, podemos tirar vantagens destes fatos corriqueiros. E, para que possamos entender o que virá pela frente, vamos aprofundar um pouco mais no estudo do átomo segundo os postulados de Bohr. Algumas situações do nosso cotidiano em que a química se faz presente: 1. Passeando por uma cidade, por menor que seja, sempre há uma rua que é o centro comercial com luminosos de cores diferentes para chamar a atenção dos fregueses para os mais variados produtos. Esses luminosos geralmente são de gás neônio, vapor de sódio ou vapor de mercúrio. 2. Outro fato curioso é a leitura de código de barra. Hoje, em tudo que você compra esse código está presente. Pela leitura desse código, é informado o preço, a data de fabricação, o lote de produção e outras informações. 3. E as comemorações de passagem de ano! Todos os anos vemos espetáculos pirotécnicos, com várias colorações sendo emitidas após as explosões. PARADA PARA REFLEXÃO Percebemos que, em todas as situações, há o envolvimento de luminosidade. Como será então que ocorrem estes fenômenos? O que dá cor aos fogos de artifício? O que explica a fosforescência de alguns materiais? Muito simples! Preste atenção. Baseando -se nos postulados de Bohr, podemos responder a essas indagações: • Os elétrons nos átomos giram em órbitas circulares, ao redor do núcleo, nas chamadas camadas ou níveis de energia; • A esses elétrons são permitidas somente algumas energias fixas em seu movimento ao redor do núcleo, energia esta que não é suficiente para que o elétron irradie energia, permanecendo assim em um estado estacionário de energia. • Quando os elétrons do átomo absorvem energia (quantum de energia), seja na forma de luz, calor ou eletricidade, ele (elétron) “salta” de um nível de menor energia para um de maior. Quando isto acontece, dizemos que o elétron foi “excitado” (Figura 4). UNIUBE 31 • Ao retornar ao seu nível inicial, o elétron emite ondas eletromagnéticas (fótons de luz), que chamamos de espectro atômico (Figura 4). Energia absorvida Luz emitida (Fóton) "Salto Quântico" Energia crescente K L M f Figura 4: O “salto” quântico do elétron Podemos ainda, para explicar a da situação 2, ir um pouco mais longe. Com a descoberta do “salto” quântico, Albert Einstein em 1916 lançou as bases teóricas para a criação de pequenos feixes com altas concentrações de energia. Durante a Segunda Guerra Mundial, seu estudo ficou esquecido, sendo retomado em 1953 por outros cientistas que descobriram um dispositivo capaz de emitir ondas, porém de forma descontínua. Apesar de a descoberta não ser atribuída a Einstein, ele levaria todo o mérito. Em sua investigação, descobriu a emissão estimulada, condição necessária para se ter o equilíbrio térmico da radiação com a matéria. Estava criado o laser, feixes de luzes contínuas, de alta intensidade e de frequência bem definidas. Hoje o laser é aplicado em vários campos, desde pesquisas até cirurgias médicas, em leitores de CD e DVD, impressoras e na indústria em geral. Ah! Então o que ocorre na verdade é um fenômeno físico?! E nós que achávamos que eram corantes que produziam as cores dos fogos de artifício! SAIBA MAIS Todos os conceitos utilizados até agora têm como objetivo claro o estudo da eletrosfera e o comportamento dos elétrons nesta. Albert Einstein (1879 -1955) Físico e matemático, nascido em Ulm (Württemberg, sul da Alemanha), formulou a Teoria da Relatividade Generalizada em 1919. Laser Light amplification by stimulated emission of radiation, ou simplesmente “amplificação da luz por emissão estimulada por radiação”. 32 UNIUBE Bohr, servindo -se da teoria quântica de Max Planck, utilizou o átomo de hidrogênio e, em 1913, conseguiu formular seu novo modelo, como descrito nos postulados anteriormente. Em uma análise mais aprofundada da eletrosfera, concluiu que as camadas (níveis) possuíam subcamadas (subníveis) e que os elétrons na verdade se encontravam nestes locais. Figura 5: Níveis ou camadas de energia Lembre: quando o átomo é “excitado”, ele salta de um nível de menor energia para um de maior, portanto existe uma ordem crescente que rege esses níveis. Consequentemente os subníveis também possuem uma ordem crescente de energia e cada um comporta um número máximo de elétrons. Vejamos a seguir: Vamos dar mais uma olhada no Quadro 2. Quadro 2: Níveis, subníveis de energia e quantidade total de elétrons por camada CAMADA NÍVEL SUBNÍVEL ELÉTRONS TOTAIS K 1 s 2 L 2 s, p 8 M 3 s, p, d 18 N 4 s, p, d, f 32 O 5 s, p, d, f 32 P 6 s, p, d 18 Q 7 s 2 UNIUBE33 Podemos perceber que cada nível possui certa quantidade de subníveis e, como vimos que cada subnível comporta um número máximo de elétrons, podemos concluir o número de elétrons que cada nível possui. Exemplo 1: • A camada “K” possui somente o subnível “s”, que comporta no máximo 2 elétrons, portanto essa camada (nível) acomoda 2 elétrons. • A camada “L” possui os subníveis “s” e “p”, que comportam no máximo 2 e 6 elétrons respectivamente, portanto essa camada (nível) acomoda 8 elétrons e assim por diante. Vamos fazer uma analogia simples, mas que nos ajudará no entendimento de todo conceito visto até agora. Vamos imaginar que o átomo seja um condomínio (horizontal), onde as casas sejam os níveis (ou camadas), os quartos sejam os subníveis e os elétrons, as pessoas que habitam esses “lares”. Então vejamos: • A “casa” K (nível 1) possui o “quarto” s (subnível), o qual comporta 2 “pessoas” (elétrons). • A “casa” L (nível 2) possui os “quartos” s e p (subníveis), os quais comportam 2 e 6 “pessoas” (elétrons) respectivamente, formando a seguinte representação: 1s2 2s2 2p6 1 é o nível (camada K) s é o subnível 2 é o número de elétrons em que em que 2 é o nível (camada L) s é p subníveis 2 e 6 são os número de elétrons Essas informações serão importantes para entendermos como construir o diagrama de Linus Pauling e como pode ser obtida a ordem crescente de energia dos subníveis. PARADA PARA REFLEXÃO 34 UNIUBE Lembre : Cada camada possui um número máximo de elétrons que são distribuídos nos subníveis na sua ordem crescente. Como esses subníveis comportam um número máximo de elétrons, fica fácil montar o diagrama: Exemplo 1: 1s2 2s2 2p6 3s2 3p6 3d10 2 elétrons na camada K 8 elétrons na camada L 18 elétrons na camada M ... .. ... . 2 + 6 + 10 = 18 elétrons E sucessivamente para as camadas: N com 32 elétrons O com 32 elétrons P com 18 elétrons Q com 2 elétrons Após a montagem, devemos traçar uma diagonal de cima para baixo cortando os subníveis. Isso revela que a energia dos elétrons aumenta de acordo com as diagonais do diagrama de Pauling e não de acordo com os níveis energéticos de Bohr. K L M N O P Q 1s2 2s2 3s2 4s2 5s2 6s2 7s2 2s6 3s6 4s6 5s6 6s6 3s10 4s10 5s10 6s10 4s14 5s14 UNIUBE 35 Segundo Pauling, o átomo do estado fundamental, isolado ou neutro, apresenta os seus elétrons em ordem crescente de energia, como mostrado nas setas do diagrama. Distribuição eletrônica em ordem crescente: 1s2 2s2 2p6 3s2 3p6 4s2 3d10 4p6 5s2 4d10 5p6 6s2 4f14 5d10 6p6 7s2 5f14 6d10 Observação: um átomo necessariamente não possuirá todos os níveis (camadas) de energia, isso dependerá do seu número atômico (Z), ou seja, de seu número de elétrons. Esse fator é que influenciará o tamanho do átomo no seu raio atômico. Exemplo 2: Oxigênio (O) = (número atômico) 8 → 1s2 2s2 2p4 Explicando melhor: Camada K ou nível energético 1 (1s2) = 2 elétrons. Camada L ou nível energético 2 (2s2 e 2p4) = 6 elétrons. Nos conceitos a seguir, veremos que, para a formação de uma ligação química, o que nos interessa é a última camada preenchida, ou seja, a camada mais externa ou também chamada de camada de valência. Atividade 1 Agora faça você mesmo a distribuição eletrônica para os exemplos a seguir: a) 20Mg f) 41Nb b) 17Cl g) 19K c) 31Ga h) 34Se d) 27Co i) 79Au e) 10Ne j) 21Sc AGORA É A SUA VEZ 36 UNIUBE Veremos também nos estudos a seguir que, a partir das informações já adquiridas, podemos relacionar a distribuição eletrônica dos átomos com a disposição da tabela periódica. 2.5 Mecânica quântica e os orbitais atômicos Ao estudarmos a proposta de De Boglie e o princípio da incerteza de Heisenberg, percebemos que estas ideias caracterizam de forma distinta aspectos do comportamento das partículas microscópicas. No entanto havia a necessidade de uma nova teoria que agregasse essas duas ideias. Assim, como a mecânica clássica não as incorporava, era necessário o desenvolvimento de uma nova mecânica que levasse em conta os fenômenos quânticos, deixando para trás conceitos clássicos, como o de trajetória de uma partícula ou o movimento de um elétron em uma órbita. Essa nova mecânica, denominada mecânica quântica, foi desenvolvida a partir das ideias de De Broglie, Heisenberg, Schrödinger, Dirac, entre outros. A equação de onda apresentada por Schrödinger é bastante complexa e, para resolvê-la, é necessário um conhecimento matemático avançado. Portanto, para facilitar, vamos abordar alguns aspectos importantes dessa equação de maneira qualitativa, sem entrar em pormenores sobre as operações matemáticas envolvidas. No ano de 1933, Erwin Schrödinger recebeu o prêmio Nobel de Física pela formulação da Teoria da Mecânica Quântica. A mecânica quântica determina que só se pode estudar o comportamento de sistemas microscópicos em termos de “probabilidades”. Dessa forma, não podemos utilizar expressões, tais como a trajetória de um elétron pode ser encontrado, mas sim a região de maior probabilidade em que um elétron, que é o orbital atômico, passando estes sistemas a serem descritos por uma função de onda, representada pela letra grega Ψ (Psi). Antes disso, em 1926, Schrödinger havia formulado uma equação de onda para descrever o comportamento de sistemas microscópicos, em que considerava o comportamento dualístico de uma partícula se movimentando em três dimensões. A equação proposta é: ∂2Ψ /∂x2 + ∂2Ψ /∂y2 + ∂2Ψ /∂z2 + 8π2m/ h2 (E − V )Ψ = 0 UNIUBE 37 Sendo, Ψ a função de onda relacionada à partícula; m a massa; E a energia total do sistema; V a energia potencial da partícula. Quando esta equação é resolvida, temos como solução as funções de onda (Ψ), as quais oferecem todas as informações associadas à partícula em cada estado de energia permitido. A função de onda pode assumir qualquer valor numérico positivo ou negativo. No entanto, para que ela retrate um sistema real, como o átomo, seus valores devem ser sempre números reais e positivos. Assim Max Born interpretou a função de onda levando em consideração o quadrado do valor absoluto de Ψ, |Ψ|2 como sendo a densidade de probabilidade de se localizar o elétron em uma dada posição em torno do núcleo. Desse modo, para obtermos a probabilidade P de encontrar a partícula em um sistema unidimensional descrita por Ψ no intervalo entre x e x + dx, devemos multiplicar a densidade de probabilidade, |Ψ|2, pela dimensão infinitesimal da vizinhança dx, estabelecendo-se que P = |Ψ|2 · dx. No caso de uma partícula que se movimenta em três dimensões, como um elétron em um átomo, a possibilidade de encontrarmos o elétron nas vizi- nhanças de um dado ponto, em um volume infinitesimal dv(dv = dx dy dz), é dada por: P = |Ψ|2 · dv No modelo mecânico-ondulatório, consideramos que o elétron demonstra ca- racterísticas tanto de uma onda quanto de uma partícula. Assim um elétron não é mais tido como uma partícula que se move em um orbital distinto. Considera- mos a posição do elétron como sendo a probabilidade de um elétron estar em vários locais ao redor do núcleo. A solução da equação de Schrödinger para o átomo de hidrogênio produz o que é conhecido como funções de ondas, que dão origem aos orbitais. Para cada orbital haverá uma densidade eletrônica diferente no espaço com uma determi- nada quantidade de energia. Por exemplo, o orbital de menor energia para o átomo de hidrogênio é mostrado na Figura 6. 38 UNIUBE Figura 6: Distribuição da densidade eletrônica no estado fundamental do átomo de hidrogênio O modelo da mecânica quântica não se refere a órbitas porque o movimento do elétron em um átomo não pode ser medido ou localizado com precisão. IMPORTANTE!Ao utilizarmos a mecânica ondulatória, veremos que cada elétron em um átomo é caracterizado por quatro parâmetros, que são chamados de números quânti- cos. O tamanho, a forma e a orientação espacial da densidade de probabilidade de um elétron são determinados por três desses números quânticos. Além disso, os níveis energéticos de Bohr são divididos em subcamadas eletrônicas, e os números quânticos especificam o número de estados (ou orbitais) em cada subcamada. As camadas são estabelecidas por um número quântico principal n, que pode assumir números inteiros a partir da unidade. Algumas vezes essas camadas são representadas pelas letras K, L, M, N, O, P e Q e assim por diante, que correspondem, respectivamente, a n = 1, 2, 3, 4, 5... Devemos observar que este número quântico, e somente este, também está relacionado com o modelo de Bohr e a distância de um elétron a partir do núcleo, ou a sua posição. O segundo número quântico, l, também conhecido com angular ou azimutal, significa a subcamada, que é apresentada por uma letra minúscula – s, p, d, ou f. Está correlacionada à forma da subcamada eletrônica. Além disso, a quanti- dade dessas subcamadas está limitada pela magnitude de n. UNIUBE 39 Valor de l 0 1 2 3 Letra utilizada s p d f O número de estados energéticos para cada subcamada é estabelecido pelo terceiro número quântico, ml, também designado como magnético. Para uma subcamada s, há somente um estado energético, enquanto para as camadas p, d e f há, respectivamente, três, cinco e sete estados ou orbitais. Os espectros atômicos demonstram que os elétrons nos átomos ocupam esta- dos de energia ou níveis de energia discretos. O modelo mecânico-quântico possibilita somente certas combinações de números quânticos para descrever estes estados. As combinações permitidas de números quânticos podem ser determinadas a partir das seguintes regras: Regras para selecionar as combinações permitidas de números quânticos: • Os três números quânticos (n, l e ml) são todos números inteiros: 0,1,2,3... • O número quântico principal (n) não pode ser 0. Os valores permitidos para n são, portanto, 1,2,3,4... • O número quântico angular (l) pode ser qualquer número inteiro entre 0 e n-1. Se n = 3, por exemplo, l pode ser 0, 1 ou 3 • O número quântico magnético (ml) pode ser qualquer número inteiro entre -l e +l As combinações permitidas dos números quânticos n, l e ml para os orbitais nas quatro primeiras camadas são dadas na Tabela 1. Tabela 1: Combinações permitidas de números quânticos para as camadas n = 1, 2, 3 ou 4 nn l ml Notação Subcamada (subnível) Número de orbitais na subcamada (subnível ) Número de elétrons necessários para preencher a subcamada (subnível) 1 0 0 1s 1 2 Total na 1ª camada = 2 2 0 0 2s 1 2 6 Total na 2ª camada = 82 1 1, 0, -1 2p 3 40 UNIUBE 3 0 0 3s 1 2 6 10 Total na 3ª camada = 18 3 1 1, 0, -1 3p 3 3 2 2, 1, 0, -1, -2 3d 5 4 0 0 4s 1 2 6 10 14 Total na 4ª camada = 32 4 1 1, 0, -1 4p 3 4 2 2, 1, 0, -1, -2 4d 5 4 3 3, 2, 1, 0, -1, -2, -3 4f 7 Podemos observar na tabela que, quando n = 4, existem 4 subcamadas (4 sub- níveis), ou seja, l (0, 1, 2 e 3). Essas subcamadas são chamadas de 4s, 4p, 4d e 4f. O número dado na designação de uma subcamada (subnível) é o número quântico principal, n; a letra seguinte designa o valor do número quântico angu- lar l. Existe um orbital 4s (quando l = 0, há apenas um valor possível para ml = 0). Existem três orbitais 4p (quando l = 1, há três valores possíveis para ml = 1, 0 e -1). Existem cinco orbitais 4d (quando l = 2, há quatro valores possíveis para ml = 2, 1, 0, -1, -2). Existem sete orbitais 4f (quando l = 3, há sete valores possíveis para ml = 3, 2, 1, 0, -1, -2 -3). Para cada orbital temos uma quantidade de energia envolvida, como pode ser observado na Figura 7. Cada quadrícula simboliza um orbital; os orbitais de mesma subcamada, como 2p, estão agrupados juntos. Quando o elétron está em um orbital de menor energia (o orbital 1s), podemos dizer que o átomo está no seu estado fundamental. Quando o elétron está em qualquer outro orbital, o átomo está em estado excitado. Sabemos que o elétron pode ser excitado para um orbital de mais alta energia pela absorção de um fóton de energia apropriada. Figura 7: Diagrama completo de níveis energéticos utilizando o modelo mecânico ondulatório UNIUBE 41 2.6 Representações de orbitais Os orbitais são regiões na eletrosfera do átomo onde é máxima a probabilidade de se encontrar o elétron. IMPORTANTE! Os orbitais são demonstrados por nuvens eletrônicas e são distintos para cada tipo de interação. Os orbitais do tipo s são esféricos, como podemos observar na Figura 8. Figura 8: Representações de superfícies limite para os orbitais 1s, 2s e 3s Os orbitais do tipo p têm forma de duplo ovoide. Para o orbital de tipo p, há três possibilidades, pois há três orientações espaciais possíveis (x, y, z), como po- demos observar na Figura 9. Da mesma maneira que os orbitais s, os orbitais p ampliam de tamanho quando passam de 2p para 3p e assim em diante. Figura 9: Representação da densidade eletrônica e dos três orbitais p 42 UNIUBE Se n é igual ou maior que 3, temos os orbitais d. Existem 5 orbitais d neste caso. As orientações possíveis para os orbitais são mostradas na Figura 10. Um dos orbitais localiza-se no plano xy e é chamado de orbital 3dxy. Os orbitais 3dxz e 3dyz têm a mesma forma, mas se localizam entre os eixos do sistema de coor- denadas nos planos xz e yz. Temos ainda o orbital nesta subcamada localizado ao longo dos eixos x e y, chamado de orbital 3dx-2y2. A maioria do espaço ocupado no quinto orbital reside ao longo do eixo z e este orbital é chamado de orbital 3dz2. Figura 10: Representação da densidade eletrônica e dos cinco orbitais d Existem 7 orbitais f possíveis quando n for superior a 4. As formas são ainda mais complexas, como pode ser observado na Figura 11. Figura 11: Representação da densidade eletrônica e dos sete orbitais f UNIUBE 43 2.7 Átomos polieletrônicos A mecânica quântica é satisfatória para descrição do átomo de hidrogênio, que possui apenas um elétron. Assim é natural o surgimento da pergunta: como ficaria a descrição da estrutura eletrônica se tivéssemos mais de um elétron? Para obtermos essa resposta, precisamos considerar os orbitais e suas energias e ainda como os elétrons ocupam estes orbitais. Em um átomo polieletrônico, para determinado valor de n, a energia de um orbital aumenta de acordo com o aumento do valor de l. IMPORTANTE! Spin eletrônico e o princípio da exclusão de Pauli Após estudos de espectros de linhas de átomos polieletrônicos, cientistas no- taram algumas características. O que antes aparentava ser apenas uma linha, na verdade, eram duas linhas muito próximas, o que significa dizer que havia mais níveis de energia do que era suposto. Então houve uma propriedade in- trínseca que foi denominada spin eletrônico. O elétron age como se fosse uma esfera minúscula rodando em torno do seu próprio eixo. Relacionado a cada elétron está um momento de spin (rotação), que deve estar orientado para cima ou para baixo. O quarto número quântico magnético de spin, ms, está associado a este momento de spin, para o qual há dois valores possíveis (+1/2 e -1/2), um para cada uma das orientações de spin, como po- demos observar na Figura 12. Figura 12: Elétron girando ao redor de seu eixo nas direções de seu campo magnético 44 UNIUBE Para definir a forma com que os estados eletrônicos são preenchidos com elétrons, devemos usar o princípio da exclusão de Pauli, outro conceito quântico-mecânico que determina que cada estado ou orbital eletrônico pode comportar um máximo de dois elétrons, que devem possuir valoresde spin opostos. Nem todos os estados possíveis em um átomo estão preenchidos com elétrons. Para a maior parte dos átomos, os elétrons ocupam os orbitais energéticos mais baixos possíveis nas camadas e subcamadas eletrônicas, dois elétrons por estado. Quando todos os elétrons preenchem as menores energias possíveis, podemos dizer que o átomo está em seu estado fundamental. A configuração eletrônica ou a estrutura de um átomo apresenta a maneira segundo a qual estes orbitais são ocupados. Os elétrons de valência são aqueles que ocupam a camada preenchida mais externa. Esses elétrons são muito importantes, pois participam da ligação entre os átomos para formar os agregados atômicos e moleculares. Alguns átomos possuem configurações eletrônicas estáveis, isto é, os orbitais dentro da camada eletrônica mais externa ou de valência estão totalmente preenchidos. Somente dois elétrons podem ocupar um orbital e, se existem dois elétrons dentro de um orbital, os spins destes elétrons têm que estar emparelhados. IMPORTANTE! 2.8 Configurações eletrônicas A configuração eletrônica representa a estrutura eletrônica de um átomo com todos os orbitais preenchidos e o número de elétrons que cada orbital possui. No estado fundamental de átomos com muitos elétrons, os elétrons preenchem orbitais atômicos de forma que a energia total do átomo seja a menor possível. Sendo assim, podemos considerar que um átomo tem sua menor energia quando todos os seus elétrons estão no orbital 1s, mas isso nunca pode acontecer. O átomo de hidrogênio em seu estado fundamental tem um elétron no orbital 1s, portanto sua configuração eletrônica é 1s1. Conjunto de números quânticos n = 1, l = 0, ml = 0, ms = +1/2 UNIUBE 45 No estado fundamental do átomo de hélio (Z = 2), os elétrons preenchem um orbital 1s, assim sua configuração eletrônica é 1s2. Conjunto de números quânticos n = 1, l = 0, ml = 0, ms = +1/2 n = 1, l = 0, ml = 0, ms = -1/2 Esse tipo de representação é o que chamamos de configuração de quadrículas, em que cada orbital é representado por uma quadrícula e cada elétron por uma meia seta. A meia seta apontada para cima representa o spin +1/2 e para baixo o -1/2. Elétrons emparelhados são aqueles que possuem spins opostos quando estão em um mesmo orbital . Regra de Hund De acordo com a Regra de Hund, o arranjo mais estável dos elétrons é aquele com o número máximo de elétrons desemparelhados, com o mesmo sentido de spin, o que torna a energia total de um átomo o mais baixa possível. Lembre: no estado fundamental, o número de elétrons do átomo será igual ao número atômico Z. Assim vamos analisar a distribuição eletrônica do carbono (Z = 6). Um átomo de carbono tem seis elétrons. O sexto elétron pode ficar junto com o anterior no orbital 2p ou deve ocupar um orbital 2p diferente? Segundo a Regra de Hund, a melhor configuração para o átomo de carbono é 1s22s22px12py1, que também pode ser escrita na forma compacta como 1s22s22p2: 46 UNIUBE Conjunto de números quânticos n = 2, l = 2, ml = 0, ms = +1/2 Como vimos anteriormente, o diagrama de Pauling é uma ótima ferramenta para a distribuição dos elétrons em um átomo. Vejamos algumas distribuições eletrônicas de alguns elementos mais leves e a atribuição dos seus respectivos números quânticos: Li (Z = 3) 1s22s1 n = 2, l = 0, ml = 0, ms = +1/2 Be (Z = 4) 1s22s2 n = 2, l = 0, ml = 0, ms = –1/2 B (Z = 5) 1s22s22p1 n = 2, l = 1, ml = -1, ms = +1/2 C (Z = 6) 1s22s22p2 n = 2, l = 1, ml = 0, ms = +1/2 N (Z = 7) 1s22s22p3 n = 2, l = 1, ml = +1, ms = +1/2 O (Z = 8) 1s22s22p4 n = 2, l = 1, ml = -1, ms = –1/2 Como fazer Agora faça você mesmo a configuração de quadrículas para o Na (Z = 11) e P (Z = 15). Quais os números quânticos? Quantos elétrons desemparelhados possuem esses dois átomos? UNIUBE 47 Metais de transição Vamos observar dois elementos muito comuns, o cobre e o cromo, que não obedecem ao Diagrama. A seguir, temos a configuração eletrônica teórica, ou seja, a prevista seguindo o diagrama e a real de acordo com os dados experi- mentais. Esse é um caso bem conhecido e a resposta padrão para ele é dizer que, como os orbitais d são degenerados, o ideal é que todos tenham o mesmo preenchimento, seja parcialmente ou totalmente preenchido, e, para isso, existe a transferência interna de um elétron do orbital s para o orbital d. Se os orbitais d têm a mesma energia, então como podemos ter quatro orbitais parcialmente preenchidos e um “vazio” sendo os cinco idênticos do ponto de vista energético? Por isso, ao gerar um “desequilíbrio energético”, parece que a natureza seguiu uma distribuição mais simétrica no caso do cobre e do cromo. Ao observarmos a tabela periódica, podemos levantar algumas questões interessantes acerca do comportamento do elétron. O terceiro período termina com o argônio, cuja configuração eletrônica é 3s23p6. Percebemos então que os elétrons são adicionados antes ao orbital 4s antes dos orbitais 3d serem preenchidos. Isso ocorre devido ao efeito de blindagem, ou seja, o orbital 3d no átomo está concentrado em uma região mais afastada em relação à camada interna constituída por 18 elétrons. Logo a carga nuclear sentida pelos elétrons d é bem menor do que a carga total do núcleo. Lantanídeos e actinídeos Os lantanídeos e os actinídeos são os elementos químicos localizados no grupo 3 da Tabela Periódica que ocupam, respectivamente, o sexto e o sétimo período. Dessa forma os lantanídeos apresentam sempre seis níveis eletrônicos e os actinídeos apresentam sempre sete níveis eletrônicos. Do Ce em diante, os orbitais 4f começam a ser ocupados. Podemos observar a configuração eletrônica para o La: [Kr]6s25d14f1. Os elementos Ce-Lu têm os orbitais 4f preenchidos e são chamados lantanídeos ou elementos terras raras. Os elementos Th-Lr têm os orbitais 5f preenchidos e são chamados actinídeos. 48 UNIUBE No próximo capítulo, voltaremos a falar dos orbitais, relacionando -os com a tabela periódica. 2.9 Conclusão De todas as Ciências, a Química é a mais recente, porém, em um curto espaço de tempo, tem sido a que mais evoluiu e contribuiu para o entendimento de vários fenômenos que ocorrem na natureza e em nossas vidas. Ao longo dos tempos os cientistas já procuravam entender e dominar esses fenômenos. Os precursores foram os Alquimistas, que, na busca dos seus objetivos, conseguiram desenvolver reações e descobrir novas substâncias importantes para os processos industriais. Sabe -se hoje que eles contribuíram muito, mas seus argumentos, baseados na teoria dos quatro elementos, não foram consolidados. Assim a ideia de que a matéria teria sido formada por átomos voltou ainda mais forte, dando início ao seu processo evolutivo. Referências BROWN, T.; LEMAY, H.; BURSTEN, B. Química, a ciência central, 9. ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2005. p. 182 -206. Capítulo 3 Conhecendo a tabela periódica Cláudio Chadu / Ely Zago Introdução Já pensou se em um supermercado o setor de alimentos estivesse junto com os produtos de higiene pessoal? Ou o setor de enlatados junto com hortifrutigranjeiros? Isso ocorreria nas drogarias. Imagine a dificuldade que era para encontrar uma aspirina. Hoje isso seria quase impossível visto que temos mais de 200.000 itens entre produtos de beleza, fármacos e medicamentos. Caso fôssemos comprar farinha de milho no supermercado, pense o tamanho da confusão se cada uma não tivesse suas especificidades em seu rótulo. Com a falta de informações, você poderia correr o risco de comprar farinha de trigo no lugar da farinha de milho! De maneira análoga, temos a tabela periódica! São mais de cem elementos,cada um com seu nome e suas propriedades físicas e químicas. Por que o nome tabela periódica? Já são quase dois séculos de pesquisas, estudos e modificações e, com certeza, ainda não se chegou ao final desta montagem. Periódico(a) Que sucede ou aparece com intervalos regulares. 50 UNIUBE Objetivos Esperamos que, ao término dos estudos deste capítulo, você seja capaz de: • conhecer o breve histórico sobre o desenvolvimento da tabela periódica; • entender a configuração eletrônica e a construção da tabela pe- riódica; • estudar as propriedades periódicas e aperiódicas dos elementos químicos; • identificar cada um dos períodos da tabela periódica com suas respectivas propriedades; • enumerar cada uma das famílias da tabela periódica com suas respectivas propriedades; • identificar os diferentes formatos da tabela periódica, isto é, a po- sição dos períodos (longo e curto); • relacionar configuração eletrônica às famílias da tabela periódica; • explicar diferenças entre metais e não metais quanto às suas pro- priedades. Esquema Veremos neste capítulo: • Histórico da tabela periódica. • Relacionando a tabela periódica à distribuição eletrônica. • Os períodos (linhas) e famílias (grupos). • Os blocos s, p e d. 3.1 Histórico da tabela periódica O nome tabela periódica é devido à periodicidade, ou seja, à repetição de propriedades. De intervalos em intervalos, como ocorre com as fases da lua, que mudam durante o mês e se repetem mês após mês. SAIBA MAIS UNIUBE 51 Agora, você, com os estudos de modelos atômicos, sabedor de que tudo está inserido em um grande contexto que se chama QUÍMICA, entenderá uma perfeita organização natural, montada ao longo de muito tempo. À medida que os elementos químicos foram sendo descobertos, os estudiosos observaram semelhanças entre as propriedades físicas e químicas em determinados grupos desses elementos. Experimentalmente, procurava -se selecionar os elementos em conjuntos de propriedades semelhantes, colocando -os em ordem, no qual suas propriedades variavam gradativamente. Em 1817, o cientista Döbereiner, baseado no “bom senso”, chamou a atenção para a existência de diversos grupos de três elementos com propriedades semelhantes. Em cada grupo, colocavam -se os elementos na ordem crescente de suas massas atômicas, e a massa dos elementos intermediários era aproximadamente a média aritmética das outras massas. Por exemplo: A massa atômica do Lítio é 6,9 e a do Potássio, 39,1. Fazendo o cálculo de acordo com Döbereiner: 2 = massa atômica dolítio+massa atômica do potássioMassa atômica do sódio Outros exemplos: 2 = massa atômica doCl+massa atômica do IMassa atômica do Br Massa atômica do Cloro _____ 35,5 Massa atômica do Iodo ______ 126,9 Massa atômica do Bromo ____ 79,9 52 UNIUBE 2 = massa atômica do Zn+massa atômica do HgMassa atômica do Cd Massa atômica do Zinco _____ 65,4 Massa atômica do Mercúrio __ 200,6 Massa atômica do Cádmo ____ 112,4 K 2 = massa atômica doCs+massa atômicaMassa atômica do Rb Massa atômica do Césio _____ 132,9 Massa atômica do Potássio ___ 39,1 Massa atômica do Rubídio ___ 85,5 Com o número crescente de elementos encontrados na natureza, as tríades de Döbereiner perderam o significado, pois outros elementos que tinham propriedades químicas semelhantes desrespeitavam a regra das tríades. Em 1862, Chancortois imaginou que seria mais fácil o entendimento se a organi- zação dos elementos estivesse em ordem crescente de suas massas atômicas sobre uma espiral traçada na superfície de um cilindro. Porém, para massas atômicas mais elevadas, não se observava nenhuma obediência à regra. Em 1869, Lothar Meyer e Dimitri Ivanovich Mendeleyev fizeram pesquisas inde- pendentes e lançaram, no mesmo ano, classificações quase idênticas. O primeiro construiu uma tabela baseando -se nas propriedades físicas dos ele- mentos (densidade, ponto de fusão, ponto de ebulição etc.). Mendeleyev dedicou -se mais ao estudo das propriedades químicas desses elementos como reações com o oxigênio, ácidos, hidretos etc. O grande mérito desses cientistas foi o de terem descoberto que, observando os elementos na ordem crescente de suas massas atômicas, de tempos em tempos, repetiam -se muitas propriedades físicas e químicas. E assim foi lançada a Lei da Perio dicidade dos Elementos: “Muitas propriedades físicas e químicas dos elementos são funções periódicas de suas massas atômicas”. SAIBA MAIS Tríades Conjunto ou grupo de três; trindade; trilogia. UNIUBE 53 Considerando que naquela época só se conheciam cerca de 60 elementos e que os elementos de massa atômica elevada eram mal conhecidos, somos obrigados a aceitar que, apesar de muito incompleta, a tabela periódica de Mendeleyev foi um grande passo para se ter o modelo atual. As lacunas encontradas no modelo a seguir seriam as previsões das propriedades físicas e químicas de elementos que posteriormente foram descobertos. A descoberta dos gases nobres em 1894 obrigou a introdução de uma nova coluna, denominada grupo zero, na tabela primitiva. Em 1911, Van der Broek sugeriu que a carga nuclear do elemento (atual número atômico) seria o número de ordenação do elemento na tabela, isto é, se o elemento tem apenas um próton, ele ocupará a posição número 1. Se o elemento tem 25 prótons, ele ocupará a posição de número 25 e assim por diante. Com a descoberta das configurações eletrônicas dos átomos, a tabela periódica recebeu uma nova interpretação, isto é, pelo número de elétrons. Este estudo foi iniciado por Bohr em 1922. Dê uma olhada agora como ficou a tabela periódica. Figura 1: Tabela periódica atual. Elétrons Partículas contidas no átomo com carga negativa. 54 UNIUBE 3.2 Relacionando a tabela periódica à distribuição eletrônica Como já vimos, a atual tabela está montada em sequência dos elementos quí- micos, quanto ao seu número atômico (Z), em linhas horizontais, denominadas PERÍODOS, e nos GRUPOS quanto às suas propriedades químicas. Você percebeu que as sete camadas do diagrama de Pauling coincidem com os sete períodos da tabela periódica? Isto não é coincidência, então vamos conhecer um pouco mais sobre essas relações. Observe a configuração eletrônica dos mesmos elementos citados anteriormente: Na = 1s2; 2s2; 2p6 e 3s1 Al = 1s2; 2s2; 2p6; 3s2 e 3p1 S = 1s2; 2s2; 2p6; 3s2 e 3p4 Ar = 1s2; 2s2; 2p6; 3s2 e 3p6 Se colocarmos essas distribuições em ordem crescente de níveis, poderemos perceber uma semelhança entre eles: Quadro 1: Distribuição eletrônica em níveis (camadas) 11Na 13Al 16S 18Ar K = 2 K = 2 K = 2 K = 2 L = 8 L = 8 L = 8 L = 8 M = 1 M = 3 M = 6 M = 8 Veja, o sódio, o alumínio, o enxofre e o argônio possuem 3 camadas (K, L e M), portanto são do terceiro período. Logo átomos que estão em um mesmo período possuem o mesmo número de camadas eletrônicas. A configuração eletrônica dos quatro elementos nos informa que o número má- ximo de camadas é três, portanto, como já vimos, pertencem ao terceiro período da tabela periódica. UNIUBE 55 O número máximo de camadas determina o período, mas não podemos esquecer a sobreposição de alguns orbitais quanto à questão energética. SAIBA MAIS Vejamos o exemplo do elemento ferro (Z = 26): 1s2 2s2 2p6 3s2 3p6 4s2 3d6 Subnível de maior energia Última camada (determina o período) Assim os sete períodos são: 3.3 As séries dos lantanídeos e actinídeos 3.3.1 Lantanídeos Os elementos deste período são os de número atômico 57 (latânio) a 71 (lutêcio), totalizando 15. Os lantanídeos localizam -se no sexto período. 3.3.2 Actinídeos Os elementos deste período são os de número atômico 89 (actíneo) a 103 (laurêncio), totalizando também 15. Os actinídeos localizam-se no sétimo período, são todos radioativos, sendo que os de número atômico 89 a 92 são naturais, e os de 93 ao 103, artificiais. 1o período, muito curto, com 2 elementos, H e He 2o período, curto, com 8 elementos, do Li ao Ne 3o período, curto, com 8 elementos, do Na ao Ar 4o período, longo, com 18 elementos, do K ao Kr 5o período, longo, com 18 elementos, do Rb ao Xe 6o período, muito longo, com 32 elementos, do Cs ao Rn 7o período, incompleto, com 25 elementos, do Fr ao... 56 UNIUBE Como são 15 lantanídeos e 15 actinídeos, eles são desdobrados em duas séries, colocadas logo abaixo da tabela. Os actinídeos são todos radioativos, sendo que os de número atômico 93 a 103 são todos artificiais, isto é, obtidos em laboratório, não sendo encontrados na natureza. Os elementos de número atômico 93 (netúnio) e 94 (plutônio) são também produzidos artificialmente, mas já foram encontrados, embora em pequena quantidade, na natureza. Figura 2: Períodos da tabela periódica 3.4 As dezoito colunas (famílias ou grupos) As colunas (verticais) da tabela são chamadas de grupos ou famílias. Os elementos que estão em uma mesma coluna têm propriedades químicas semelhantes, tendo como principal característica em comum o mesmo número de elétrons na última camada (camada de valência). Vamos começar nossa explicação pelas famílias A. Figura 3: Famílias A da tabela periódica UNIUBE 57 3.5 Os blocos s, p e d 3.5.1 Elementos do bloco s e p As famílias A são chamadas de elementos representativos e os átomos que nelas se encontram têm suas distribuições eletrônicas terminadas em ns ou ns, np. Exemplos: 11Na: 1s2 2s2 2p6 3s1 9F: 1s2 2s2 2p5 Portanto as famílias A são caracterizadas pelos elétrons da camada mais externa, ou seja, os elementos de uma mesma família apresentam a mesma configuração na última camada, por este motivo se assemelham quimicamente. Vamos ver mais um exemplo: 11Na: 1s2 2s2 2p6 3s1 19K: 1s2 2s2 2p6 3s2 3p6 4s1 Podemos perceber que ambos os elementos possuem 1 elétron na última camada. Primeiro exemplo: Mg = (12) 1s2; 2s2; 2p6 e 3s2. Ca = (20) 1s2; 2s2; 2p6; 3s2; 3p6 e 4s2. Sr = (38) 1s2; 2s2; 2p6; 3s2; 3p6; 4s2; 3d10; 4p6 e 5s2. O magnésio, o cálcio e o estrôncio têm a mesma configuração na última camada, isto é, ns2. Os três elementos formam substâncias com características semelhantes. Portanto ambos pertencem à família 2A. 58 UNIUBE Segundo exemplo: O = (8) 1s2; 2s2 2p4. S = (16) 1s2; 2s2;2p6; 3s2 e 3p4. Se = (34) 1s2; 2s2;2p6; 3s2; 3p6; 4s2;3d10 e 4p4. O oxigênio, o enxofre e o selênio têm a mesma configuração na última camada, isto é, ns2 np4. Os três elementos formam substâncias com características semelhantes. Portanto ambos pertencem à família 6A. Além de serem indicadas por números e letras, essas famílias recebem também nomes característicos. Quadro 2: As famílias A da Tabela Periódica Algumas observações importantes: • O elemento químico hidrogênio (H) é mostrado no grupo1 (família 1A), pois apresenta 1 elétron em sua camada de valência, porém não faz parte da família dos metais alcalinos, porque apresenta propriedades químicas diferentes. • No mesmo período do hidrogênio temos o gás nobre hélio (He), que é mostrado no grupo 18 (família 8A ou zero) e que apresenta 2 elétrons em sua camada de valência, mas não pertence à família 2A, ou seja, é uma exceção. UNIUBE 59 3.5.2 Elementos do bloco d As famílias B são chamadas de elementos de transição, pois suas propriedades são intermediárias às propriedades dos elementos do bloco s (grupos 1 e 2) e dos elementos do bloco p (grupos 13 a 18). Figura 3: Famílias B da tabela periódica Os elementos deste bloco têm como principal característica apresentar o seu elétron mais energético situado em um subnível d. Vejamos alguns exemplos: Escândio (21Sc) – 1s2 2s2 2p6 3s2 3p6 4s2 3d1 Titânio (22Ti) – 1s2 2s2 2p6 3s2 3p6 4s2 3d2 Como podemos perceber nos exemplos anteriores, o subnível mais energético desses elementos é o 3d, porém sua última camada é a 4s. Portanto, para os elementos destes grupos, a localização na família ou grupo não é feita utilizando o número de elétrons da camada de valência, mas sim o número de elétrons existentes no seu subnível mais energético (d). Então, de acordo com a distri- buição eletrônica do escândio e titânio, suas famílias serão: Escândio: como o subnível mais energético é o d, contendo 1 elétron, este ele- mento está situado na família 3B. Titânio: como o subnível mais energético é o d, contendo 2 elétrons, este ele- mento está situado na família 4B. 60 UNIUBE E assim por diante para todos os elementos terminados nos subníveis d. Tabela 1: As famílias B e seus subníveis de referência 3B 4B 5B 6B 7B 8B 1B 2B d1 d2 d3 d4 d5 d6 d7 d8 d9 d10 3.6 Configurações eletrônicas e a tabela periódica Podemos observar uma associação entre as configurações eletrônicas dos átomos e a tabela periódica. Ao realizarmos a análise da distribuição eletrônica do átomo, podemos estabelecer onde ele se localiza na tabela periódica. Vimos que todos os elementos da família 2A têm configuração mais externa ns2, assim como os elementos da família 3A têm configuração mais externa ns2np1. A tabela foi elaborada com base nas tendências, ou seja, periodicidades das propriedades químicas e físicas. Enfatizamos que a tabela periódica é o guia para a ordem na qual os orbitais são preenchidos. Os elementos são agrupados pelos tipos de orbital dentro dos quais são colo- cados. Vimos na mecânica quântica os orbitais s, p, d e f. Como pode ser ob- servado na Figura 4, a tabela periódica está agrupada e dividida por blocos de acordo com o tipo de orbital preenchido. Figura 4: Diagrama de blocos dos orbitais de valência da tabela periódica UNIUBE 61 Para o preenchimento dos orbitais s, p, d e f, são necessários 2, 6, 10 e 14 elétrons respectivamente. 1s, 2p, 3d e 4f são o primeiro subnível de cada orbital, respectivamente. IMPORTANTE! Agora vamos observar a configuração eletrônica dos elementos do grupo 7A, cuja camada mais externa é ns2np5, família dos halogênios. Na tabela periódica, o flúor é o primeiro elemento e seu número atômico é igual a 9. A forma abreviada para o flúor é F: [He]3s23p5 e, assim como acontece com todos os outros elementos desta família, à medida que o átomo aumenta sua camada, temos um valor maior. Podemos apresentar as configurações para os elementos de todas as famílias. Vejamos o exemplo do chumbo Pb (Z = 82). Observe a Figura 4 para encontrar a configuração completa para este elemento passando pela tabela periódica e mostrando cada período no qual podemos observar a ocupação dos orbitais. Façamos a distribuição completa para o chumbo: 1s22s22p63s23p64s23d104p6 5s24d106s24f145d106p2, neste caso, temos seis períodos, 3 é o menor valor possível que n pode ter para um orbital d e 4 é o menor valor possível que n pode ter para um orbital f. Se somarmos todos os índices superiores na distribuição eletrônica, esta deve ser igual ao número de elétrons disponível no elemento, no caso, 82. Também podemos utilizar a tabela periódica para determinarmos a distribuição eletrônica condensada do chumbo. A distribuição eletrônica condensada é aquela na qual o primeiro gás nobre que se encontra anteriormente ao elemento é mostrado. Vamos analisar o caso do chumbo, Pb, quando recorremos a tabela, temos o xenônio, Xe, (Z = 54). Logo podemos escrever a distribuição sendo: [Xe] 6s2, 4f14, 5d10, 6p2. As distribuições eletrônicas condensadas para alguns átomos podem ser observadas na Tabela 2. 62 UNIUBE Tabela 2: Configuração eletrônica condensada Número atômico Z Elemento Distribuição eletrônica Número atômico Z Elemento Distribuição eletrônica 1 H 1s1 55 Cs[Xe] 6s1 2 He 1s2 56 Ba [Xe] 6s2 3 Li [He] 2s1 57 La [Xe] 5d16s2 4 Be [He] 2s2 58 Ce [Xe] 4f15d16s2 5 B [He] 2s22p1 59 Pr [Xe] 4f36s2 10 Ne [He] 2s22p6 64 Gd [Xe] 4f75d16s2 11 Na [Ne] 3s1 71 Lu [Xe] 4f145d16s2 12 Mg [Ne] 3s2 79 Au [Xe] 4f145d106s1 13 Al [Ne] 3s23p1 80 Hg [Xe] 4f145d106s2 18 Ar [Ne] 3s23p6 81 Ti [Xe] 4f145d106s26p1 19 K [Ar] 4s1 82 Pb [Xe] 4f145d106s26p2 20 Ca [Ar] 4s2 86 Rn [Xe] 4f145d106s26p6 21 Sc [Ar] 3d14s2 87 Fr [Rn] 7s1 22 Ti [Ar] 3d24s2 88 Ra [Rn] 7s2 31 Ga [Ar] 3d104s24p1 89 Ac [Rn] 6d17s2 36 Kr [Ar] 3d104s24p6 90 Th [Rn] 6d27s2 37 Rb [Kr] 5s1 91 Pa [Rn] 5f26d17s2 38 Sr [Kr] 4d15s2 93 Np [Rn] 5f46d17s2 39 Y [Kr] 4d25s2 96 Cm [Rn] 5f176d17s2 46 Pd [Kr] 4d10 101 Md [Rn] 5f137s2 47 Ag [Kr] 4d105s1 102 No [Rn] 5f147s2 54 Xe [Kr] 4d105s25p6 103 Lr [Rn] 5f146d17s2 Interligando conceitos O boro tem número atômico (Z = 5) e encontrado na natureza como mistura de 2 isótopos, 10B e 11B, com abundâncias de 19,9% e 80,1%, respectivamente. Assim podemos evidenciar a diferença dos 2 isótopos mediante a diferença do número de nêutrons no núcleo. Para o 10B temos 5 nêutrons, enquanto para o 11B temos 6 nêutrons. As configurações eletrônicas dos dois isótopos são idên- ticas, 1s22s22p1, uma vez que cada um possui 5 elétrons. UNIUBE 63 Analisando a representação dos orbitais pela configuração de quadrículas para um átomo 11B, temos: Os elétrons do nível de valência são 2s2, 2p1 e os elétrons do nível 1s2 repre- sentam os elétrons do cerne, que representamos como [He]. Quando represen- tamos a configuração eletrônica condensada, temos [He]2s22p1. 3.7 Carga nuclear efetiva A carga nuclear de um átomo é determinada pelo número de prótons presentes no núcleo deste átomo, sendo denominada número atômico (Z). Logo Z = carga nuclear = número de prótons. A carga nuclear efetiva trata-se da carga sofrida por um elétron em um átomo polieletrônico, não sendo igual à carga no núcleo devido ao efeito dos elétrons internos. Cada elétron de um átomo é protegido (blindado) do efeito de atração da carga nuclear pelos elétrons do mesmo nível de energia e pelos elétrons dos níveis mais internos, especialmente. Somente a Carga Nuclear Efetiva (Zef) age de fato sobre os elétrons. A carga nuclear efetiva que age sobre um elétron é dada por: Zef = Z – S Sendo, Zef = carga nuclear efetiva; Z = carga nuclear (número atômico); S = constante de blindagem. Á medida que se aumenta o número médio de elétrons protetores (S), a carga nuclear efetiva (Zef) diminui. 64 UNIUBE Para determinar Zef, os elétrons são separados em grupos e para cada um há uma constante de blindagem correspondente. Para qualquer elétron de um grupo, a constante de blindagem S constitui-se da soma das seguintes parcelas: • zero para qualquer grupo exterior ao elétron em consideração; • 0,35 para cada um dos outros elétrons do mesmo grupo que o elétron em consideração, com exceção do grupo 1s, para o qual usa-se o valor 0,30; • se o elétron em consideração pertencer a um grupo (ns, np), cada elétron do nível (n –1) contribui com 0,85 e cada elétron dos níveis mais internos contribui com 1,00; • se o elétron em consideração pertencer a um grupo (nd) ou (nf), cada elétron dos grupos mais internos contribui com 1,00. Vamos observar os exemplos a seguir: H (Z = 1) 1s1 Zef (1s) = 1 – 0 = 1 Be (Z = 4) 1s2, 2s2 Zef (2s) = 4 – [(1 x 0,35) + ( 2 x 0,85 )] = 1,95 F (Z = 9) 1s2, 2s2, 2p5 Zef (2p) = 9 – [(6 x 0,35) + ( 2 x 0,85 )] = 5,20 Mg (Z = 12) 1s2, 2s2, 2p6, 3s2 Zef (2p) = 12 – [(1 x 0,35) + (8 x 0,85) + (2 x 1,00)] = 2,85 Ni (Z = 28) 1s2, 2s2, 2p6, 3s2, 3p6, 4s2, 3d8 Zef (4s) = 28 – [(1 x 0,35) + (16 x 0,85) + (10 x 1,00)] = 4,05 UNIUBE 65 Zef (3d) = 28 - [(7 x 0,35) + (18 x 1,00)] = 7,55 Zef (1s) = 28 - [(1 x 0,30)] = 27,70 Para elementos do mesmo grupo da tabela periódica: Elemento Li Na K Rb Cs Zef 1.30 2,20 2,20 2,20 2,20 A carga nuclear efetiva que age sobre o elétron mais externo dos elementos de grupo igual da tabela periódica é aproximadamente a mesma. Isso é devido a Z aumentar e S também aumentar de cima para baixo no grupo. Assim, como os aumentos são mais ou menos iguais, o valor de Zef é mais ou menos o mesmo. Para elementos do mesmo período da tabela periódica: Elemento Li Be B C N O F Ne Zef 1,30 1,95 2,60 3,25 3,90 4,55 5,20 5,85 A carga nuclear efetiva age sobre o elétron mais externo dos elementos do mesmo período da tabela periódica e aumenta de acordo com o número atômico (da esquerda para a direita). Isso ocorre, pois Z aumenta mais do que S da esquerda para a direita no período, o que faz com que Zef aumente da esquerda para a direita no período. A força de atração entre o elétron e o núcleo é dependente da magnitude da carga nuclear efetiva, atuando no elétron, e da média da distância entre o núcleo e o elétron. IMPORTANTE! 3.8 Tamanhos de átomos e íons Estabelecemos o tamanho de um átomo pelo tamanho de seu orbital ocupado mais externo. Por exemplo, o tamanho de um átomo de sódio é o tamanho de seu orbital 3s ocupado por um único elétron, enquanto o tamanho de um átomo de cloro é determinado pelo tamanho de seus três orbitais 3p. A forma mais simples de se estabelecer o tamanho de um átomo é determinar a distância entre os átomos em uma amostra do elemento. Na Figura 5 podemos conferir como se determina o raio atômico de um elemento. 66 UNIUBE Figura 5: Ilustração do raio atômico Um átomo de cloro, por exemplo, tem um diâmetro de 198 pm (pm = picômetro; 1 pm = 10-12 m). O raio de um átomo de cloro tem, portanto, 99 pm, que é a metade entre os dois átomos de cloro no Cl2. Podemos observar na Figura 6. Figura 6: Cálculo do raio atômico do átomo de cloro Há três definições muito utilizadas para o raio atômico: raio de Van der Waals, raio iônico e raio covalente. De acordo com a definição, o termo pode ser adotado apenas para átomos isolados ou também para átomos em matéria condensada, ligados covalentemente em moléculas, ou em estados ionizados e excitados. Podemos obter seu valor por meio de medições experimentais ou calculando a partir de modelos teóricos. O valor do raio pode estar relacionado ao estado e ao contexto do átomo. Os elétrons não têm órbitas ou intervalos bem definidos, seus posicionamentos são descritos como distribuições de probabilidade que diminuem progressivamente à medida que se afastam do núcleo. Em matéria condensada e moléculas, as nuvens de elétrons dos átomos normalmente se sobrepõem e alguns dos elétrons são capazes de percorrer uma grande região que envolve dois ou mais átomos. UNIUBE 67 Na maioria das definições, os raios dos átomos neutros isolados vão de 30 a 300 pm, ou de 0,3 a 3 ångströms. Assim o raio de um átomo é mais de 10.000 vezes o raio do seu núcleo e menos de 1/1000 do comprimento de onda da luz visível (400-700 nm). Os átomos podem ser modelados como esferas, sendo que este é apenas um modelo aproximado, mas que pode oferecer explicações quantitativas e previ- sões para alguns fenômenos, como a densidade de líquidos e sólidos, a difusão de fluidos por meio de peneiras moleculares, a disposição de átomos e íons em cristais e o tamanho e forma de moléculas. Os raios atômicos sofrem variação de forma previsível e que pode ser explicada por meio da tabela periódica. Os raios normalmente diminuem ao longo de cada período (linha) da tabela, dos metais alcalinos aos gases nobres, e aumentam para baixo em cada grupo (coluna), por exemplo. O raio aumenta de forma acentuada entre o gás nobre no final de cada período e o metal alcalino no início do período seguinte. Estas tendências dos raios atômicos, bem como de outras propriedades quími-cas e físicas dos elementos, são explicadas pela teoria do átomo de concha de elétrons. Os raios atômicos diminuem na tabela periódica porque, à medida que o número atômico aumenta, o número de prótons aumenta ao longo do período, mas os elétrons extras são somados somente à mesma concha quântica. Assim a carga nuclear efetiva em direção aos elétrons mais externos aumenta, atraindo os elétrons mais externos mais próximos. Dessa forma, a nuvem de elétrons se contrai e o raio atômico diminui. Os raios atômicos podem ser usados para determinar muitos aspectos da quí- mica, como algumas propriedades físicas e químicas. A tabela periódica auxilia no estabelecimento do raio atômico e fornece uma série de tendências. Conforme você começa a se mover para frente ou para baixo na tabela periódica, surgem tendências que auxiliam na explicação de como os raios atômicos se modificam. Os tamanhos dos íons demonstram as mesmas tendências que os tamanhos dos átomos, porém os ânions são maiores e os cátions são menores que seus átomos originais. IMPORTANTE! 68 UNIUBE 3.9 Energia de ionização A energia de ionização é outra propriedade relacionada com a configuração eletrônica. Trata-se da energia mínima necessária para remover um elétron de um átomo no seu estado fundamental e que se relaciona à energia exigida para a reação: X0(g) → X+(g) + e− A notação de estado gasoso (g) destaca que os átomos devem estar isolados uns dos outros. Esta também é a energia de ligação do último elétron a ser posto no átomo. Assim que o elétron é totalmente removido, o átomo passa a ser um íon positivo (cátion), por isso o processo é chamado de ionização. O elétron que possui maior energia e está menos atraído pelo núcleo é o mais facilmente removível. A energia para remover este primeiro elétron mais externo é chamada primeira energia de ionização. Quando há átomos com mais de um elétron removível, dizemos que a energia para remover um segundo elétron é a segunda energia de ionização e assim por diante. A segunda energia de ionização é a energia necessária, portanto, para provocar o seguinte processo: X+(g) → X+2(g) + e− UNIUBE 69 A energia de ionização, cuja unidade é dada normalmente em kJ/mol (quilojoules por mol), também é uma propriedade periódica que varia com o número atômico e, geralmente, quanto maior este for, maior será a carga nuclear do elemento e maior será a atração dos elétrons pelo núcleo, sendo mais difícil sua ionização. Assim a energia de ionização tende a aumentar durante o período. Alguns fatores que influenciam a energia de ionização: • o tamanho do átomo; • a carga do núcleo; • o efeito de proteção das camadas internas; • o tipo de orbital em que se encontra o elétron; • a proximidade do elétron em relação ao núcleo. A tendência da energia de ionização em um período, para os elementos representativos, é de aumentar da esquerda para a direita, pois uma grande atração do núcleo sobre a eletrosfera causa uma maior energia de ionização. A tendência dentro do grupo é da energia de ionização diminuir de cima para baixo, pois, como o tamanho do átomo aumenta neste sentido, os elétrons ficam mais distantes do núcleo e se torna mais fácil removê-los. Ou seja, quanto maior o tamanho do átomo, menor será a primeira energia de ionização, o que torna esta propriedade inversamente proporcional ao tamanho atômico. 70 UNIUBE Vejamos a energia de ionização para os elementos do sódio até o argônio na Tabela 3. Podemos observar que as energias de ionização aumentam de mag- nitude quando os elétrons são removidos: EI1 → EI2 → EI3 etc. Tabela 3: Valores da energia de ionização (EI) em KJ.mol-1 para o segundo período da tabela periódica Elemento EI1 EI2 EI3 EI4 Na 496 4560 Mg 738 1450 7730 Al 578 1820 2750 11600 Si 786 1580 3230 4360 P 1012 1900 2910 4960 S 1000 2250 3360 4560 Cl 1251 2300 3820 5160 Ar 1520 2670 3930 5770 Os elétrons s são mais eficazes na proteção do que os elétrons p. Como con- sequência, a formação de s2p0 se torna mais oportuna. Quando um segundo elétron é posto em um orbital p, a repulsão elétron-elétron é aumentada. Quando esse elétron é removido, a configuração s2p3 resultante é mais estável do que a configuração inicial s2p4. Logo temos uma diminuição na energia de ionização. Podemos observar este comportamento no gráfico a seguir. UNIUBE 71 No gráfico é possível observar a primeira energia de ionização versus o número atômico. Os pontos mais abaixos demarcam o início de um período (metais alcalinos) e os pontos mais altos, o fim de um período (gases nobres). As tendências periódicas nas primeiras energias de ionização dos elementos representativos também podem ser observadas na Figura 7. Figura 7: As primeiras energias de ionização para os elementos representativos nos primeiros seis períodos. A energia de ionização geralmente aumenta da esquerda para a direita e diminui de cima para baixo Interligando conceitos Agora, vamos observar a tabela 4 na qual estão representados os valores da carga nuclear efetiva (Zef) sobre os elétrons mais externos de alguns elementos do terceiro período, assim como os valores da primeira energia de ionização correspondente. Tabela 4: Valores da carga nuclear de elementos do (Zef) segundo período da tabela periódica expressos em kj.mol–1 Elemento Zef Energia de Ionização / kJ mol-1 Al 3,50 577,6 Si 4,15 786,5 P 4,80 1011,8 S 5,45 999,6 Cl 6,10 1251,1 72 UNIUBE Podemos notar que, ainda que a carga nuclear efetiva do enxofre seja maior que a do fósforo, sua energia de ionização é menor. Isso se dá porque a configuração eletrônica do P é [Ne]3s23p3, ou seja, o subnível 3p encontra-se parcialmente preenchido, o que é uma configuração estável. Assim ionizar o P é mais difícil do que o S. Na tabela, o Al terá o maior raio atômico, pois sua carga nuclear efetiva é a menor. O Cl terá a afinidade eletrônica mais negativa, pois sua configuração eletrônica é [Ne]3s23p5, logo ele tem tendência de ganhar um elétron para obter a configuração do argônio. Como fazer O cloreto de tionila, SOCl2, é um importante agente de coloração e também agente oxidante em química orgânica. Ele é preparado industrialmente por meio de transferência de um átomo de oxigênio de SO3 para SCl2. SO3(g) + SCl2(g) → SO2(g) + SOCl2(g) Qual dos elementos envolvidos nesta reação (S, O, Cl) deve ter a menor energia de ionização? E o menor raio? Justifique. Resolução: Recorrendo à tabela periódica, observamos que o enxofre possui a menor energia de ionização, pois seus elétrons de valência estão no nível três e sua carga nuclear efetiva é menor que a do cloro. O oxigênio possui o menor raio, pois seus elétrons de valência estão no nível 2, enquanto os elétrons de valência do enxofre e do cloro estão no nível 3. Configurações eletrônicas de íons Quando os elétrons são removidos de um átomo para formar um cátion, eles são sempre removidos primeiro do orbital com o maior número quântico principal disponível, n. Vamos ver um exemplo para a formação de íons cátions: Cátions: primeiro, os elétrons são removidos do orbital com o maior número quântico principal, n: Li (1s2, 2s1) → Li+ (1s2) Fe ([Ar]3d6, 4s2) → Fe3 + ([Ar]3d5) UNIUBE 73 Para a formação de íons ânions: Ânions: os elétrons são adicionados ao orbital com o mais baixo valor de n dis- ponível: F (1s2, 2s2, 2p5) → F− (1s2, 2s2, 2p6) Como fazer: Coloque os seguintes elementos em ordem crescente de energia de ionização: F, O, S e justifique sua resposta. Solução: S < O < F O S está no terceiro período da tabela periódica, enquanto o O e o F estão no segundo. Assim os elétrons do S são menos atraídos pelo núcleo do que os elétrons do O e F, logo é mais fácil ionizar o S do que os demais elementos.Em relação ao O e F, será mais fácil ionizar o O, já que a sua carga nuclear efetiva é menor que a do F. Como fazer: Coloque as seguintes espécies em ordem crescente de tamanho: O2-, Na+, F- e F e justifique sua resposta. Solução: Na+ < F < F- < O2- O cátion será o menor de todos, pois os cátions são sempre menores que seus átomos de origem. O flúor e o oxigênio estão no mesmo período da tabela pe- riódica. Como os ânions são maiores que seus átomos de origem, o íon O2- será o maior da série. Como fazer: Para retirar o segundo elétron do lítio é necessária uma maior quantidade de energia do que para retirar o quarto elétron do carbono. Explique. 74 UNIUBE Solução: A configuração eletrônica do lítio é [He]2s1, assim, ao perder um elétron, o lítio adquire a configuração do hélio. Já a configuração eletrônica do carbono é [He]2s2 2p2, logo, para adquirir a configuração do gás nobre, o carbono preci- saria perder quatro elétrons. Por isso é mais fácil retirar dois elétrons do carbono do que do lítio. 3.10 Afinidades eletrônicas Há átomos que, apesar de já terem todos os seus próprios elétrons, ainda são capazes de receber elétrons extras com facilidade. Esta capacidade é denominada afinidade por elétrons, ou eletroafinidade. Átomos de elementos com alta eletroafinidade transformam-se em íons negativos (ânions) bastante estáveis ao receberem elétrons extras. Os átomos que não aceitam elétrons facilmente, ou seja, átomos de elementos com baixa eletroafinidade, formam ânions instáveis. Afinidade eletrônica ou eletroafinidade é a medida da capacidade de um átomo de receber um ou mais elétrons. Essa capacidade se refere a átomos isolados, o que ocorre no estado gasoso. A energia implicada na afinidade eletrônica pode ser medida nas mesmas unidades do potencial de ionização. Normalmente, a unidade utilizada é o elétron volt. O valor da eletroafinidade é, geralmente, negativo, no entanto pode também ser positivo. Quanto mais negativo o valor da afinidade eletrônica, maior a facilidade do átomo para receber um ou mais elétrons. De forma contrária, quanto mais positivo esse valor, mais será necessário “forçar” o átomo para que receba elétrons. Assim como o potencial de ionização, a variação da afinidade eletrônica na tabela periódica tende a ser contrária à variação do raio atômico. Vamos ver o exemplo da adição de um elétron ao átomo de cloro, que é acompanhado por variação de energia de - 349 KJ/mol, em que o sinal negativo indica que a energia é liberada durante o processo. Assim a afinidade eletrônica do cloro é - 349 KJ/mol. Cl(g) + e- → Cl-(g) ∆E = - 349 KJ/mol. [Ne]3s2, 3p5 [Ne]3s2, 3p6 UNIUBE 75 É importante compreender as diferenças entre energia de ionização e afinidade eletrônica. A energia de ionização mede a facilidade com que um átomo perde um elétron, enquanto a afinidade eletrônica mede a facilidade com que um átomo ganha um elétron. Ar(g) + e- → Ar- ∆E > 0 [Ne]3s2, 3p6 [Ne]3s2, 3p6, 4s1 Como ∆E > 0, o íon Ar- é instável e não se forma. Os valores das afinidades eletrônicas em KJ/mol para alguns elementos da tabela periódica podem ser observados na Tabela 4. Quanto mais negativa a afinidade eletrônica, maior a atração do átomo por um elétron. Podemos, então, dizer que se ∆E > 0 o íon negativo é mais alto em energia que o átomo ou o elétron separadamente. Tabela 4: Valores de afinidade eletrônica para alguns elementos da tabela periódica Como o foco desta unidade é o estudo da tabela periódica, vamos então apro- fundar no estudo dos atómos que a formam, utilizando como parâmetros o raio atômico, a energia de ionização e a afinidade eletrônica. 76 UNIUBE Após o estudo desses itens, podemos perceber que alguns átomos terão comportamento parecido enquanto outros não e que estas propriedades são fatores importantes para se formar uma ligação química, tema do nosso próximo capítulo. Até lá! 3.11 Conclusão A tabela periódica é a organização dos elementos em ordem crescente de número atômico. Os elementos que possuem propriedades químicas semelhantes são alocados nas mesmas colunas, ou seja, nos grupos ou famílias. Os elementos classificados como metálicos são a grande maioria da tabela e estão localizados do lado esquerdo e no meio. Os não metálicos ou ametais estão localizados do lado direito superior. Os semimetais, conhecidos também por metaloides, fazem parte da linha que separa os metais dos ametais, por possuírem propriedades intermediárias. A tabela periódica é dividida em três classes de elementos. Os elementos representativos são aqueles nos quais o último subnível completo termina em s ou p. Os elementos que terminam em subnível d são chamados de transição. Já os terminados em 4f e 5f são chamados respectivamente de lantanídeos e actinídeos. Referência BROWN, Theodore L.; LEMAY, H. Eugene; BURSTEN JÚNIOR, Bruce E. Química, a ciência central. 9. ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2005. p. 220 -244. UNIUBE 77 Anexo – tabela periódica atual Capítulo 4 Ligações químicas – conceitos básicos Natal Junio Pires Introdução Neste capítulo serão discutidos conceitos sobre ligações químicas que permitem o entendimento da natureza microscópica da matéria. Vale destacar que os conceitos aqui trabalhados são essenciais para entender o conteúdo, principalmente no que diz respeito à distribuição eletrônica e a propriedades periódicas. Cabe ressaltar que as discussões sobre tais conceitos trabalhados não se esgotam aqui, pois perpassam as outras unidades temáticas do curso. Quanto à metodologia, trata -se de ensino experimental que envolve elaboração de ideias referentes aos conceitos trabalhados. O estudo da química torna -se mais concreto quando o aluno vivencia o que ele está estudando. Portanto, sempre que possível, procurou -se estabelecer um vínculo entre aquilo que se aprende e o cotidiano. Alguns procedimentos experimentais serão realizados nos encontros presenciais, mas alguns dados são apresentados como atividade para discussão. As atividades propostas priorizam a discussão dos conceitos aprendidos, e não a simples memorização ou aplicação de fórmulas matemáticas. Desse modo, a análise e a reflexão do conhecimento são necessárias, fazendo com que, mesmo a distância, você faça inferências, comparações, estabeleça relações e interpretações a fim de propiciar o desenvolvimento de habilidades cognitivas. Objetivos Esperamos que, ao término dos estudos deste capítulo, você seja capaz de: 80 UNIUBE • compreender os vários tipos de ligação química entre os elementos; • montar as estruturas de Lewis para moléculas simples; • descrever a importância da regra do octeto nas ligações químicas bem como suas exceções; • interpretar o modelo de ligação iônica por meio do modelo de transferência de elétrons; • entender a ligação covalente, utilizando o modelo de partilhamento de elétrons; • aplicar os conceitos construídos em situações práticas; • analisar diversos tipos de materiais e utilizá -los para determinado fim com base em suas propriedades. Esquema O que veremos neste capítulo: • Os conceitos iniciais sobre as ligações químicas. • As ligações iônicas e covalentes. • A simbologia de Lewis para os átomos. • A formação das ligações iônicas e covalentes. • Estrutura eletrônica de Lewis e regra do octeto. • Exceções à regra do octeto. • Ligações metálicas. • Ligações químicas e o DNA humano. 4.1 Conceitos básicos sobre ligações químicas Veja que, aos poucos, estamos aprofundando cada vez mais nossos conhecimentos, por isso não acumular dúvidas passa a ser um procedimento importante para que você possa ter um bom aproveitamento e também para evitar dificuldades de entendimento à medida que caminharmos para novas descobertas,tudo bem? Então, nas duas primeiras unidades de estudo, pudemos registrar que toda a matéria é constituída de átomos e que eles são os formadores de materiais simples como a folha deste capítulo que você lê agora, como a água que bebemos, como o sal que consumimos e, até mesmo, de organismos mais complexos, como o nosso corpo. UNIUBE 81 Veja o que afirma o professor Richard Feynman (2006) em um dos livros que escreveu: a ideia mais importante para o conhe- cimento humano é que todas as coisas são formadas por átomos. Neste quarto capítulo, vamos discutir sobre a maneira como os átomos se unem para formar as substâncias químicas, já que eles raramente ficam isolados, de maneira que cada substância tem a sua fórmula, por exemplo: Figura 1: Substâncias químicas Fonte: Acervo EAD – Uniube. Podemos utilizar como exemplo a junção das letras do alfabeto na formação de palavras em que as letras poderiam ser comparadas aos átomos e as moléculas às palavras. Na formação de palavras, nós não podemos simplesmente ir juntando as letras, veja: ‘addo’, em português, não tem significado, por outro lado, se organizarmos essas letras, surgirá a palavra ‘dado’, que já passa a ter um significado. Percebemos então que ambas as uniões estabelecidas – átomos e Richard Feynman (1918 -1988) Ganhador do Prêmio Nobel de física e professor respeitado no California Institute of Technology. 82 UNIUBE letras – não ocorrem de qualquer forma, certo? Deve haver, neste caso, condições apropriadas para que a ligação aconteça entre eles, tais como: afinidade, contato e energia. Mas como os cientistas chegaram às fórmulas, ou seja, às combinações dos átomos, que formam as moléculas? A História nos mostra que o caminho foi longo. No início do século XIX, Dalton imaginava que os átomos sempre se uniam de um a um, de maneira que a fórmula da água, em vez de ser H2O, seria HO. Somente depois de muito tempo, aproximadamente na metade do século XIX, com as contribuições dos resultados dos estudos e experimentos de Avogrado e Canizzaro, é que se consolidou a noção de molécula que conhecemos atualmente, em que várias circunstâncias podem acontecer para que elas sejam constituídas. John Dalton (1766 -1844): químico e físico inglês, fundador da teoria atômica moderna. Lorenzo Romano Amadeo Carlo Avogadro (1766 -1856): cientista italiano, nascido em Turim, que formulou a hipótese sobre a composição molecular dos gases (1811). Stanislao Cannizzaro (1826 1910): químico italiano nascido em Palermo, pioneiro no desenvolvimento da teoria atômica moderna, cujas exposições foram fundamentais para a classificação dos elementos em termos de seus pesos atômicos. SAIBA MAIS Veja alguns exemplos: (a) por um único átomo – o hélio (He); (b) por mais de um átomo do mesmo elemento – o oxigênio (O2); (c) por átomos de elementos diferentes – a água (H2O). Os cientistas sabem, há muito tempo, que a chave para a interpretação das propriedades de uma substância química passa primeiro pelo conhecimento e pela compreensão da sua estrutura e das suas ligações: • estrutura – forma com que os átomos estão arranjados no espaço; • ligações – definem as forças que mantêm os átomos adjacentes (vizinhos) unidos. UNIUBE 83 A partir desses conhecimentos, passamos a obter artificialmente, por meio da síntese química, novos materiais, mais resistentes e úteis que os formados naturalmente. Veja alguns exemplos: • medicamentos mais eficientes contra as doenças; • produtos que amenizam as tarefas cotidianas do lar; • muitas outras coisas para melhorar a qualidade de vida. Mas o que de fato é uma ligação química? Quando detalhamos o que seria ligação, estávamos falando justamente sobre a ligação química, por isso já até a conceituamos, não é mesmo? Vamos, agora, ver outras abordagens, classes e importâncias que a ligação química exerce sobre a formação das moléculas, dando assim continuidade aos nossos estudos. Veja a Figura 2 e perceba a estrutura do DNA (ácido desoxirribonucleico), na forma de dupla hélice, que nos possibilita indagar: por que sua forma é helicoidal – em hélices? Dupla hélice Hélice 01 Hélice 02 Figura 2: Exemplo de um DNA para visualização do formato dupla hélice 84 UNIUBE A resposta está relacionada à geometria das ligações químicas ao redor de cada um de seus átomos. Os fatores específicos dessas geometrias se tornarão mais evidentes à medida que se aprender mais a respeito de estrutura e ligações químicas. Nossos objetivos agora são de explicar: (a) a maneira como os átomos se arranjam em compostos químicos; (b) o que os mantém unidos. Para isso podemos começar observando como se relacionam a estrutura e as ligações em uma molécula de modo a compreender as suas propriedades químicas e físicas. De composto a composto, os átomos do mesmo elemento participarão da ligação e da estrutura de maneira semelhante. Essa consistência permite desenvolver um conjunto de princípios que se aplicam aos mais variados sistemas químicos, incluindo desde aqueles simples até os que apresentam estruturas complexas, como o DNA. Vamos discutir agora sobre duas classes de ligações químicas? Mantenha em mente tudo o que você aprendeu sobre as propriedades periódicas. Este conhecimento será muito importante em nosso estudo, pois elementos de uma mesma família tendem a ter o mesmo comportamento quando se ligam a outro elemento. IMPORTANTE! Nos próximos capítulos veremos que alguns compostos covalentes conduzem cor- rente elétrica em meio aquoso porque eles reagem com a água para formar íons, num processo denominado ionização. SAIBA MAIS 4.1.1 Ligação iônica Interação de natureza eletrostática entre íons resultantes da transferência com- pleta de um ou mais elétrons de um átomo ou grupo de átomos para outro. UNIUBE 85 4.1.2 Ligação covalente Resultam do compartilhamento de um ou mais pares de elétrons. Ligação Química Ligação Covalente Ligação Iônica Compartilhamento de elétrons Transferência de elétrons Estes dois tipos de ligações representam dois extremos, porém toda ligação entre átomos possui, de certa forma, um grau de caráter iônico e outro também de caráter covalente. Substâncias contendo ligações predominantemente iônicas são denominadas compostos iônicos. Já aqueles que se mantêm unidos principalmente por ligações covalentes são denominados compostos covalentes. Algumas propriedades normalmente associadas com vários compostos iônicos e covalentes são apresentadas no Quadro 1. As diferenças nessas propriedades podem ser entendidas pela diferença entre os átomos ou íons. Quadro 1: Propriedades de compostos iônicos e covalentes Compostos iônicos Compostos covalentes 1. Eles são sólidos com alto ponto de fusão (tipicamente > 400 °C). 1. Eles são gases, líquidos ou sólidos, com baixos pontos de fusão (tipicamente < 300 °C). 2. Muitos são solúveis em solventes polares, tal como a água. 2. Muitos são insolúveis em solventes polares. 3. Maioria é insolúvel em solventes apolares, tal como hexano (C8H12), tetracloreto de carbono (CCl4). 3. Maioria é solúvel em solventes apolares, tal como hexano (C8H12), tetracloreto de carbono (CCl4). 4. Quando fundidos, conduzem corrente elétrica pelo fato de existirem partículas carregadas livres (íons). 4. Quando líquidos ou fundidos, eles não conduzem corrente elétrica. 5. Soluções aquosas conduzem bem a corrente elétrica pelo fato de existirem partículas móveis carregadas em meio líquido (íons). 5. Soluções aquosas são péssimas condutoras de corrente elétrica pelo fato de não existirem partículas móveis carregadas em meio líquido (íons). 6. Eles são formados geralmente por dois elementos com relativa diferença de eletronegatividade, normalmente ummetal e um não metal. 6. Eles são formados por dois ou mais elementos com eletronegatividades diferentes, geralmente não metais. 86 UNIUBE E você? Já se perguntou por que os átomos se unem? Nos capítulos anteriores, você aprendeu que os elétrons estão distribuídos num átomo em várias camadas. A camada mais externa recebe a denominação camada de valência e, consequentemente, nela se encontram os elétrons de valência. IMPORTANTE! Para você entender o motivo pelo qual os átomos se unem, faz -se necessário relembrar um conceito extremamente importante, que é a valência de um átomo. Os elétrons em um átomo estão divididos em dois grupos: • Elétrons de valência são os da camada mais externa de um átomo e são os que determinarão as propriedades químicas do átomo, uma vez que as reações químicas resultam da perda, do ganho ou do rearranjo dos elétrons da camada de valência. • Elétrons das camadas internas não se relacionam com o comportamento químico. Considere, agora, os elementos do grupo principal (aqueles do Grupo A, da tabela periódica, conforme você aprendeu no Capítulo 3). Os elétrons de valên- cia estão distribuídos nos orbitais s e p, da camada mais externa (Quadro 2). Já aqueles elétrons acomodados em subcamadas d preenchidas (orbitais d) são denominados elétrons de camadas internas. Para os elementos do grupo principal, o número de elétrons de valência é igual ao número do grupo. PARADA OBRIGATÓRIA Devido ao fato de todos os elementos de um grupo periódico terem o mesmo número de elétrons de valência, podemos afirmar que isso se relaciona com a semelhança das propriedades químicas entre componentes do grupo. Quando se consideram os elétrons de valência para elementos de transição, observamos uma diferença. Agora, os elétrons estão nos orbitais ns e (n–1)d, conforme se pode notar no Quadro 2. Os elétrons restantes são internos. Da UNIUBE 87 mesma forma que, para os elementos do grupo principal, os elétrons do grupo de valência para metais de transição governarão as propriedades químicas de tais elementos. Quadro 2: Elétrons de valência e de camadas internas para diversos elementos comuns Elementos Grupo periódico Elétrons internos Elétrons de valência Elementos do grupo principal Na 1A 1s22s22p6 = [Ne] 3s1 Si 2A 1s22s22p6 = [Ne] 3s23p2 As 5A 1s22s22p63s23p63d10 = [Ar]3d10 4s24p3 Elementos de transição Ti 4B 1s22s22p63s23p6 = [Ne] 3d24s2 Co 8B [Ne] 3d74s2 Mo 6B [Ar] 4d65s1 4.1.3 Símbolo de Lewis para os átomos No decorrer da Primeira Guerra Mundial, dois americanos, G. N. Lewis e Irving Langmuir, e o alemão Walther Kossel publicaram ideias similares e importantes sobre ligações químicas. Destacaremos aqui as ideias de Lewis, que introduziu uma maneira útil de se representar os elétrons na camada de valência de um átomo. O símbolo do elemento representa o núcleo do átomo junto com os elétrons internos. Considere, por exemplo, o átomo de sódio (Na). 88 UNIUBE Átomos que possuem até quatro elétrons de valência, os quais são representados por pontos, são colocados um de cada vez em torno do símbolo do elemento. Quando se tem mais do que quatro elétrons, estes devem ser colocados ao lado de algum outro elétron que lá já esteja. Atualmente tais representações são denominadas símbolos de Lewis. O Quadro 3 a seguir apresenta alguns símbolos de Lewis para os elementos do grupo principal do segundo e terceiro períodos. Quadro 3: Símbolo de Lewis para alguns elementos Analisando a distribuição dos elétrons de valência em torno de um átomo em quatro pares, entendemos que cada camada de valência de um elemento principal do grupo pode acomodar um total de oito elétrons. Tal característica é chamada de octeto de elétrons. UNIUBE 89 A tendência de um elemento químico de apresentar oito elétrons na camada de valência será muito importante em nossa discussão sobre ligações químicas, já que um octeto de elétrons em torno de um átomo é considerado uma configuração estável. Essa ideia pode ser racionalizada com base no fato de que os gases nobres, com exceção do hélio, têm oito elétrons de valência e, dessa forma, não possuem reatividade. Os gases hélio, neônio e argônio não se envolvem em nenhuma reação química, enquanto os outros gases nobres apresentam pequena reatividade química. Como comentado anteriormente, as reações químicas envolvem mudanças na camada de elétrons de valência. Assim podemos atribuir a inexistente ou pequena reatividade dos gases nobres à estabilidade de sua configuração eletrônica representada genericamente como sendo ns2 np6. O fato de o hidrogênio em seus compostos apresentar dois elétrons em sua camada de valência pode ser entendido como uma busca da configuração eletrônica do He. 4.2 Formação de ligações químicas Conseguiu perceber por que os átomos se unem? Isso mesmo! Eles fazem as ligações no sentido de obterem um octeto completo, adquirindo assim estabilidade. Reação química é um processo em que substâncias são transformadas em outras substâncias por meio do rearranjo, recombinação ou separação de átomos. SAIBA MAIS Ao ocorrer uma reação química entre dois átomos, os seus elétrons de valência irão se reorganizar, fazendo com que uma força atrativa – uma ligação química – ocorra entre eles. Conforme já dissemos anteriormente, as ligações ocorrem em dois tipos gerais, iônica e covalente, e sua formação pode ser descrita por meio dos símbolos de Lewis. 90 UNIUBE Assim que ocorre a ligação iônica (quando um ou mais elétrons são transferidos de um átomo para outro), criam -se íons positivos (cátions) e negativos (ânions). Veja a seguir a reação entre o sódio e o cloro, em que um elétron do átomo de sódio é transferido para um átomo de cloro, formando o cátion Na+ e o ânion Cl–. RELEMBRANDO Observe a configuração eletrônica do sódio e do cloro antes da ligação: Na 1s2 2s2 2p6 3s1 Cl 1s2 2s2 2p6 3s2 3p5 Como o sódio transferiu seu elétron para o cloro, ele ficou com uma carga positiva e sua nova configuração é: Na+:1s2 2s2 2p6. Dessa forma a sua camada de valência passa a ser formada pelos orbitais 2s e 2p, que somam um total de 8 elétrons (octeto completo!). Se você analisar esta configuração eletrônica, concluirá que é a do gás nobre neônio, Ne. Por outro lado, o cloro recebeu um elétron do sódio e sua carga passou a ser negativa. A configuração do íon cloro passa a ser a do gás nobre argônio, Ar. Cl–:1s2 2s2 2p6 3s2 3p6 Observe que a camada de valência, formada pelos orbitais 3s e 3p, possui um total de 8 elétrons. Note que, em torno de cada átomo de cloro, tem -se um total de 8 elétrons. PARADA PARA REFLEXÃO UNIUBE 91 Neste caso, ocorreu uma ligação química a partir de uma força atrativa de natureza eletrostática entre os íons positivos e negativos. Por outro lado, já na ligação covalente, em que os elétrons são compartilhados e não transferidos, dois átomos de cloro, para completar o seu octeto, precisam apenas compartilhar um par de seus elétrons, sendo um elétron de cada átomo, para formar a ligação covalente. Analisando atentamente as estruturas de Lewis, percebemos mais uma vez a diferença entre a ligação iônica e a covalente. Na verdade, nas duas situações, o que acaba ocorrendo é o emparelhamento dos elétrons desemparelhados nos átomos participantes das ligações, para formar espécies que apresentem oito elétrons na posição do par de elétrons entre os dois átomos ligados. Podemos perceber com isso uma significante diferença entre ligações iônicas e ligações covalentes. Na molécula de cloro (Cl2), o par de elétrons é compartilhado igualmente pelos dois átomos. Já no cloreto de sódio (NaCl), o par de elétrons passou a fazer parte da camada de valência do cloro. Vale ressaltar aqui que os dois tipos de ligação – transferênciacompleta de elétrons e compartilhamento igual dos elétrons – são casos extremos. Na grande maioria das substâncias, os elétrons são geralmente compartilhados de forma desigual. Sendo assim, pode -se pensar que este compartilhamento desigual de elétrons poderá levar a uma alteração das propriedades físicas e químicas dos compostos. 4.2.1 Ligação em compostos iônicos Quando se coloca sódio metálico, na presença de cloro gasoso, acontece uma reação explosiva, ou seja, uma reação que ocorre muito rápido e com liberação de grande quantidade de energia: “calor”, para formar o cloreto de sódio, da mesma forma que o cálcio metálico e o oxigênio reagem para formar o óxido de cálcio. Nos dois casos relatados, o produto formado é um composto iônico: no primeiro caso, temos o NaCl, que contém íons Na+ e Cl–, e, na segunda situação, o CaO é composto por íons Ca2+ e O2–. 92 UNIUBE ∆Hº (variação de entalpia) representa a quantidade de calor envolvida na reação. Uma reação química acontece ou absorvendo (endotérmica) ou liberando (exotérmica) calor. Para uma reação endotérmica tem-se ∆Hº>0 e, para uma reação exotérmica, tem-se um ∆Hº<0. SAIBA MAIS Na(s) + 1/2Cl2(g) → NaCl(s) ΔHO = –411,12 kJ/mol Ca(s) + 1/2O2(g) → CaO(s) ΔHO = –635,09 kJ/mol Na frente das reações acima, aparece uma grandeza que denominamos variação de entalpia (∆Ho). Essa é uma grandeza muito importante em química, que se relaciona com a quantidade de calor liberada ou absorvida no decorrer de uma reação química. Quando o valor de ∆Ho for precedido pelo sinal negativo, temos o que denominamos reações exotérmicas. No caso representado acima, temos um exemplo do comportamento químico geral dos elementos nesses grupos periódicos, que podem ser compreendidos com base nas propriedades periódicas descritas no Capítulo 2. Na formação do NaCl, o sódio precisa doar um elétron para o cloro e cada átomo de cloro tem que receber um elétron. Com base nessa informação, demonstre que a combinação entre cálcio e flúor resulta em CaF2 e que entre o cloro e o alumínio forma-se AlCl3. AGORA É A SUA VEZ No Capítulo 2, você deve ter compreendido que os metais alcalinos e alcalinos-terrosos apresentam baixas energias de ionização. Dessa forma, relativamente pouca energia é necessária para remover os elétrons de valências desses elementos de modo a formar os cátions com configuração de gás nobre. Diferentemente, os elementos imediatamente anteriores ao Grupo 8A (os halogênios e os elementos do Grupo 6A) têm elevadas afinidades eletrônicas. Neste caso, tais elementos formarão os ânions por meio da adição de elétrons, de modo que, na maioria dos casos, ter -se -á um íon com uma configuração eletrônica equivalente à do gás nobre seguinte. UNIUBE 93 Esta tendência para atingir uma configuração de gás nobre pelo ganho ou pela perda de elétrons é importante na química dos elementos do grupo principal. Outra característica muito importante é o fator energético favorável à formação dos compostos. Em todas as reações químicas em que a formação dos produtos é favorecida, ou seja, reações químicas espontâneas, estes têm energia potencial química mais baixa do que os reagentes. A estrutura resultante de um composto, seja ele iônico ou covalente, é aquela que tem a energia potencial mais baixa, ou seja, a maior estabilidade termodinâmica. O fato de elementos químicos reagirem entre si para formar substâncias e estas reagirem para formar outras mais estáveis (produtos de uma reação química) vem sendo aproveitado pela humanidade há muito tempo. Um exemplo é a energia liberada durante a combustão da gasolina no motor de um automóvel, a explosão de dinamite para a construção de estrada e túneis etc. Isso tudo só é possível porque os produtos dessas reações são mais estáveis do que aqueles que se tinha no início. Sendo assim, mantenha sempre em mente o seguinte: tudo na natureza tende ao estado de menor energia (maior estabilidade). IMPORTANTE! Atividade 1 O etanol (C2H5OH) é uma substância que vem sendo usada como combustível de automóveis no Brasil. O uso do etanol como combustível decorre do fato de que sua combustão libera uma grande quantidade de energia (em forma de calor e trabalho mecânico). Na combustão do etanol, ocorre uma reação com oxigênio e forma -se gás carbônico (CO2) e água, além de vários outros subprodutos, resultantes da combustão incompleta. a) Considerando a discussão acima, qual contém maior quantidade de energia: reagentes ou produtos? Justifique sua resposta. b) Considerando a resposta do item anterior, quem seria mais estável: reagentes ou produtos? Explique sua afirmação. AGORA É A SUA VEZ 94 UNIUBE 4.2.2 Ligações covalentes e estruturas de Lewis E a ligação covalente? Como representá -la pelos símbolos de Lewis? Embora este esquema seja um tanto quanto simplista, ele é útil para se fazer uma previsão do tipo de ligação e, consequentemente, das propriedades físicas das substâncias obtidas a partir das várias combinações possíveis. Assim podemos prever que um composto obtido a partir de Ca (metal) e flúor (não metal) será um composto iônico, com ponto de fusão relativamente alto e que, quando dissolvido em água, conduzirá corrente elétrica. Por outro lado, um composto formado entre carbono (não metal) e oxigênio (não metal) terá características de um composto covalente. IMPORTANTE! Como vimos anteriormente, na ligação covalente, os pares de elétrons são compartilhados entre os átomos ligados. Exemplos de compostos contendo ligações covalentes incluem os gases na nossa atmosfera (O2, N2, H2O e CO2), combustíveis comuns C3H8 (componente do gás de cozinha), CH3CH2OH (usado como combustível em automóveis), CH4 (gás natural usado em usinas termoelétricas) e a maioria dos compostos em nosso organismo. As ligações covalentes também mantêm unidos os átomos em íons comuns como HSO3–, CO32–, CN–, NH4+, NO3–, SO42– e PO43–. Considere, por exemplo, o sulfato de sódio (Na2SO4), o principal componente do giz. UNIUBE 95 Vamos entender os princípios básicos de estrutura e ligação, usando como exemplos moléculas e íons mais simples, porém os mesmos princípios aplicam-se a moléculas complexas, desde a aspirina a proteínas e DNA, que apresentam milhares de átomos. Você deve ter notado que as moléculas e os íons que acabamos de mencionar são compostos formados inteiramente por não metais. Um ponto importante a ser ressaltado é que, em moléculas e íons constituídos apenas por átomos de não metais, os átomos estão unidos por ligações covalentes. Diferentemente, a presença de um metal em uma fórmula é um sinal de que o composto é provavelmente iônico. Ligação Covalente Não metal + Não metal Hidrogênio + Não metal Ligação Iônica Metal + Não metal Hidrogênio + Metal 96 UNIUBE Atividade 2 Faça uma previsão do tipo de ligação existente entre os seguintes pares de elementos com o auxílio da tabela 1 e da tabela periódica, apresentando duas possíveis propriedades físicas do composto formado. a) Ca e Cl b) C e O c) K e Br d) C, H e N Atividade 3 Os metais alcalinos não são encontrados na natureza na forma elementar, mas sim combinados com outros elementos. Os metais alcalinos, quando obtidos na forma elementar, são tão reativos que não podem ser deixados expostos ao ar, pois reagem com o oxigênio. O sódio, por exemplo, é guardado em querosene para evitar o contato com o ar. A água não pode ser usada no lugar do querosene, porque o sódio reage violentamente com ela. Relacione as ideias de energia, estabilidade e reatividade para explicar esses fatos. AGORA É A SUA VEZ 4.3 Estrutura eletrônica de Lewis Como já mencionamos em momentos anteriores, a ligação covalente é resultante do compartilhamento de um ou mais pares de elétrons entre átomos.Dessa forma o par de elétrons entre os dois átomos de uma molécula de H2 é representado por um par de pontos ou uma linha. UNIUBE 97 Tais representações são denominadas estruturas eletrônicas de Lewis, ou estrutura de Lewis. Aprendemos agora uma sistemática para escrever as estruturas de Lewis para diferentes compostos. As estruturas simples de Lewis podem ser desenhadas começando com símbolos de Lewis para os átomos e, posteriormente, arranjando os elétrons de valência para formar as ligações. Considere que queiramos criar a estrutura de Lewis para a molécula de flúor (F2). Comecemos com o símbolo de Lewis para o átomo de flúor. O flúor pertence ao grupo 7A, portanto possui sete elétrons de valência. Dispondo os elétrons aos pares em torno do flúor, percebemos que o símbolo de Lewis mostra que o átomo de F apresenta um único elétron desemparelhado, ao lado de três pares de elétrons. Já no F2 os elétrons desemparelhados, sendo um de cada átomo de F, estão emparelhados, formando a ligação covalente. Uma diferenciação importante entre os pares de elétrons é feita aqui. O par de elétrons da ligação F–F é o par de ligação, ou par ligado. Os outros seis pares que estão livres em torno do átomo de flúor são denominados pares isolados. Pelo fato de eles não estarem envolvidos na ligação, também são chamados de elétrons não ligantes. Os pares isolados podem ser muito importantes na estrutura. Estando na mesma camada de valência que os elétrons envolvidos nas ligações, eles podem influenciar a forma da molécula, determinando, por exemplo, a sua polaridade. Toda linha existente entre dois ou mais elementos simboliza o compartilhamento de um par de elétrons. Assim duas linhas (ligação dupla) simbolizam o compartilhamento de dois pares de elétrons; três linhas (ligação tripla) são o compartilhamento de três pares de elétrons. IMPORTANTE! 98 UNIUBE Na molécula de flúor, observamos a formação de uma única ligação. Essa liga- ção é denominada ligação simples. Entretanto existem moléculas nas quais os átomos fazem mais do que uma única ligação. Exemplos são o dióxido de car- bono, CO2, e o nitrogênio, N2, em que os átomos apresentam ligações múltiplas, ou seja, compartilham mais de um par de elétrons. Na molécula do dióxido de carbono, o átomo de carbono compartilha dois pares de elétrons com cada átomo de oxigênio e, portanto, está ligado a cada O por uma ligação dupla. A camada de valência de cada átomo de oxigênio no CO2 tem dois pares de ligação e dois pares isolados. Já no nitrogênio os dois átomos de nitrogênio compartilham três pares de elé- trons, portanto estão ligados por uma ligação tripla. Observe que cada átomo de N possui um único par isolado. Como você verá no Capítulo 4, o par isolado assume um papel importantíssimo na configuração espacial de algumas molé- culas, sendo que esta estará intimamente relacionada com as forças intermole- culares que atuam entre elas, sendo uma das responsáveis pelas propriedades físicas das substâncias. 4.4 A regra do octeto Como escrever uma estrutura de Lewis para um composto qualquer? Existe alguma sistemática para isto? A partir de agora, procuraremos uma resposta para essas perguntas. Uma observação importante pode ser feita sobre as moléculas que você viu até aqui: cada átomo (exceto H) tem na camada de valência quatro pares de elétrons, assim cada um atingiu uma configuração de gás nobre, ou seja, está rodeado por um octeto de elétrons. A tendência das moléculas e íons poliatômicos de possuir estruturas em que oito elétrons cercam cada átomo é conhecida como regra do octeto. Na molécula de nitrogênio, uma ligação tripla é necessária para que se tenha um octeto em torno de cada átomo de nitrogênio. No átomo de carbono e em ambos os átomos de oxigênio no CO2, a configuração do octeto é atingida por meio da formação de ligações duplas. UNIUBE 99 Embora a regra do octeto seja largamente aplicada, há exceções. Felizmente, mui- tas serão óbvias, como quando um elemento faz mais de quatro ligações ou quando ocorre um número ímpar de elétrons. IMPORTANTE! Alguns passos podem ser seguidos para se escrever as estruturas de Lewis para os compostos. Vamos tomar o formaldeído (metanal), CH2O, como exemplo: (KOTZ e TREICHEL, 2005). SAIBA MAIS 1. Escolha do átomo central. O átomo central é geralmente aquele com a afinidade eletrônica mais baixa. No CH2O, por exemplo, o átomo central é C. Você reconhecerá que certos tipos de átomos aparecem frequentemente como átomo central, entre eles C, N, P e S. Halogênios são em geral átomos terminais que formam uma única ligação com outro átomo, mas podem ser átomos centrais quando combinados com O nos oxiácidos (como HClO4). O oxigênio é o átomo central na água, mas, em conjunção com o carbono, nitro- gênio, fósforo e halogênios, é em geral um átomo terminal. O hidrogênio é um átomo terminal porque ele faz uma única ligação. 100 UNIUBE As eletronegatividades relativas dos átomos podem também ser usadas para se escolher o átomo central. IMPORTANTE! 2. Determine o número total de elétrons de valência na molécula ou íon. Em uma molécula neutra, esse número será a soma dos elétrons de valência de cada átomo. Para um ânion, adicione um número de elétrons igual à carga negativa e para um cátion, retire um número de elétrons igual à carga positiva. O número de pares de elétrons de valência será metade do número total de elétrons de valência Elétrons de valência = 12e– ou 6 pares de e–. = 4 para o C e (2 x 1 para 2 átomos de H) + 6 para o O. Para compostos simples, o primeiro átomo em uma fórmula é frequentemente o átomo central (por exemplo, SO2, NH4+, NO3–). Entretanto este não é sempre o caso. Exceções notáveis incluem a água (H2O) e a maioria dos ácidos comuns (HNO3 e H2SO4), em que o hidrogênio ácido é geralmente escrito primeiro, mas em que N ou S são os átomos centrais. IMPORTANTE! 3. Coloque um par de elétrons entre cada par de átomos ligados para formar uma ligação simples. Aqui, três pares de elétrons são usados para fazer três ligações simples (que são representadas por linhas únicas). Falta usar três pares de elétrons. 4. Use todos os pares restantes como pares isolados em torno de cada átomo terminal (exceto H) de modo que cada átomo esteja rodeado por oito elétrons. Se, depois disso feito, houver elétrons sobrando, atribua -os ao átomo central. UNIUBE 101 Se o átomo central for um elemento do terceiro período ou de um período maior, ele pode acomodar mais de oito elétrons. Aqui todos os seis pares foram atribuídos, mas o átomo de carbono tem par- ticipação em apenas três deles. 5. Se o átomo central contiver menos de oito elétrons nesse ponto, mova um ou mais pares isolados dos átomos terminais para uma posição intermediária entre o átomo central e o terminal para formar ligações múltiplas. Como regra geral, ligações duplas ou triplas são formadas quando ambos os átomos pertencem à seguinte lista: C, N, O ou S. Isto é, ligações como C=C, C=N, C=O e S=O serão encontradas frequentemente. 4.5 Prevendo estruturas de Lewis As estruturas de Lewis são úteis para se obter uma perspectiva da estrutura e da química de uma molécula ou íon. As diretrizes para se desenhar as estruturas de Lewis são úteis, mas os químicos podem também se basear em padrões de ligação em moléculas semelhantes. 102 UNIUBE 4.5.1 Compostos de hidrogênio O número de ligações formadas por um elemento pode ser facilmente derivado a partir de sua estrutura de Lewis. Um exemplo que podemos citar é o seguinte: se não há nenhuma carga, o nitrogênio tem cinco elétrons de valência. Dois elétrons estão na forma de par isolado, enquanto os outros três estão como elétrons desemparelhados com um elétron de outro átomo. Dessa forma espera-se que o átomo de N forme três ligaçõesem moléculas sem cargas e isso é o que de fato ocorre. Do mesmo modo, espera -se que o carbono forme quatro ligações; o oxigênio, duas e o flúor, uma, conforme pode ser notado no esquema a seguir. Na química presente em nosso cotidiano, os hidrocarbonetos (compostos formados apenas por carbono e hidrogênio) são de extrema importância. Eles estão presentes no gás de cozinha, nos combustíveis, no gás natural etc. Os primeiros dois membros da série denominada alcanos (os hidrocarbonetos mais simples) são CH4 e C2H6. Você poderia então perguntar qual seria a estrutura de Lewis do terceiro membro da série: o propano, C3H8? Neste ponto, devemos imaginar que os átomos dessa série formam ligações de maneira previsível. Conforme discutimos anteriormente, o carbono deverá formar quatro ligações, enquanto o hidrogênio poderia ligar -se a somente outro átomo. Dessa forma o único arranjo de átomos que atenderia a esses critérios apresenta três átomos de carbono unidos por ligações simples carbono -carbono. As outras posições em torno dos átomos de carbono são completadas com átomos de hidrogênio, de modo que teremos, assim, três átomos de hidrogênio nos dois átomos carbonos da extremidade da molécula e dois hidrogênios no átomo de carbono no meio: UNIUBE 103 4.5.2 Ressonância Vamos agora aplicar os conceitos aprendidos anteriormente à molécula de ozônio, O3, um gás instável, azul, com um odor irritante característico e que protege a Terra e seus habitantes da radiação ultravioleta intensa do Sol. Observamos que há duas maneiras possíveis de se escrever a estrutura de Lewis para a molécula: Tais estruturas são equivalentes no sentido de que cada uma delas apresenta uma dupla ligação de um lado do átomo central de oxigênio e uma ligação simples do outro. Supondo que qualquer uma delas fosse a estrutura real do ozônio, deveríamos ter uma das ligações mais curta (O=O) do que a outra (O–O). A estrutura verdadeira da molécula de ozônio mostra que este não é o caso. Sendo assim, o que se pode concluir é que nenhuma dessas estruturas de Lewis representa corretamente as ligações de ozônio. Um importante cientista, Linus Pauling, propôs a teoria da ressonância para resolver o problema. Segundo ele, as estruturas de ressonância representam a ligação em uma molécula qualquer ou em um íon quando uma única estrutura de Lewis não descreve precisamente a estrutura eletrônica verdadeira. Linus Carl Pauling (1901 -1994) Foi um dos maiores químicos de todos os tempos e certamente um cidadão muito importante neste século, pois foi a única pessoa a receber o famoso Prêmio Nobel por duas vezes, por motivos completamente diferentes. 104 UNIUBE Desse modo as estruturas alternativas apresentadas para o ozônio são denominadas estruturas de ressonância. Suas ligações são idênticas e energeticamente iguais. Você então deve enxergar que a estrutura real da molécula do ozônio é uma mistura, ou híbrido de ressonância, das estruturas de ressonância equivalentes. Esta conclusão é coerente com resultados experimentais que mostram que a ligação O–O tem comprimento de 127,8pm, valor intermediário entre o comprimento médio de uma ligação dupla O=O (121pm) e uma ligação simples O–O (132pm). Descrever uma molécula como uma mistura de diferentes estruturas de ressonância é o mesmo que descrever uma cor de tinta como uma mistura de cores primárias. A tinta verde é uma mistura da tinta amarela com a tinta azul. Não podemos descrever o verde com base em apenas uma das cores (azul ou amarelo), mas sim uma mistura das duas. Um outro hidrocarboneto, o benzeno, é um exemplo clássico em que a ressonância é usada para representar uma estrutura. A molécula de benzeno é um anel de seis átomos de carbono com seis ligações carbono -carbono equivalentes (e um átomo de hidrogênio ligado a cada átomo de carbono). Todas as ligações entre os átomos de carbono têm 144pm de comprimento, que é um valor intermediário entre o comprimento médio de uma ligação dupla C=C (134pm) e uma ligação simples C–C (154 pm). 4.6 Exceções à regra do octeto Será que todas as moléculas que conhecemos seguem a regra de octeto? Existirão exceções? Embora a maioria dos compostos e dos íons moleculares obedeça à regra do octeto, existem algumas exceções, incluindo as moléculas e os íons que possuem um número menor do que quatro pares de elétrons em torno do átomo central. Duas outras situações são aquelas em que se tem mais do que quatro pares e aquelas em que se tem um número ímpar de elétrons. O elemento químico boro, um não metal do Grupo 3 ou 3A, apresenta três elétrons de valência e, sendo assim, poderemos esperar que ele forme três ligações covalentes com outros elementos não metálicos. Este resultado leva a uma camada de valência com somente seis elétrons para o boro em seus compostos, dois a menos do que um octeto. Dos compostos de boro, muitos desse tipo são conhecidos, incluindo alguns compostos comuns, como o ácido bórico (B(OH)3) UNIUBE 105 (usado em colírios para os olhos), o bórax (Na2B4O5(OH)4.8H2O) (empregado na produção de sabões) e os trialetos de boro (BBr3 e BI3) (importantes em sínteses orgânicas). Aqueles compostos de boro, tais como o BF3, em que faltam dois elétrons para se completar o octeto, são bastante reativos. Como sabemos, o átomo de boro pode acomodar um quarto par de elétrons, mas somente quando este par é fornecido por um outro átomo, já que ele não apresenta mais um elétron para compartilhar com um outro átomo. Moléculas ou íons com pares isolados podem desempenhar esse papel. Você se lembra do par de elétrons isolado sobre o átomo de nitrogênio na molécula de amônia? Neste caso, a amônia reage com BF3 para formar o H3N à BF3. A ligação entre os átomos de B e N utiliza um par de elétrons originado do átomo de N (par isolado). Um outro exemplo, agora com um íon, é a reação do fluoreto (F–) com BF3 para formar o íon BF4–. Ligação coordenada é aquela em que o par de elétrons da ligação provém de apenas um dos átomos. Esse tipo de ligação também era denominado ligação dativa. Entretanto atualmente se recomenda a utilização do termo ligação coordenada. EXPLICANDO MELHOR Bórax Este mineral comum, utilizado em sabões, contém um ânion interessante, B4O5(OH)42–. Este íon de boro e oxigênio apresenta dois átomos de B rodeados por quatro pares de elétrons e dois átomos de B rodeados por apenas três pares.Triflureto de Boro Ácido Bórico Átomo d B rodeado por 4 pares de elétrons Átomo d B rodeado por 3 pares de elétrons 106 UNIUBE O tipo de ligação abordado anteriormente apresenta uma característica peculiar que é o fato de o par de elétrons da ligação ser oriundo de apenas um dos átomos que estão ligados. Esta ligação é denominada ligação covalente coordenada. Nas estruturas de Lewis, uma ligação covalente coordenada pode ser designada por uma seta (→) que aponta do átomo que doa o par de elétrons para o átomo que o recebe. Por outro lado, existem aqueles elementos em que um dos átomos acaba aceitando mais do que oito elétrons na camada de valência. Os elementos do terceiro período ou em períodos mais elevados frequentemente apresentam esta tendência. Na maioria dos compostos e dos íons nessa categoria, o átomo central está ligado a átomos pequenos como o flúor, o cloro ou o oxigênio. A partir da fórmula de um composto, é natural percebermos que existe um número maior de elétrons na camada de valência de determinado átomo. Vamos considerar o hexafluoreto de enxofre, SF6, gás formado pela reação do enxofre com excesso de gás flúor. O enxofre é o átomo central nesse composto e o flúor liga -se geralmente a apenas outro átomo com uma ligação simples de um par de elétrons, por exemplo, no HF (usado para escrever em vidros) e CF4. Como são necessáriasseis ligações S–F no SF6, concluímos que haverá seis pares de elétrons na camada de valência do átomo de enxofre. Quando se tem mais do que quatro grupos ligados a um átomo central tem -se forte evidência de que existem mais de oito elétrons em torno do referido átomo. Uma observação importante aqui é que apenas elementos do terceiro período e períodos mais elevados da Tabela Periódica formam compostos e íons em que o octeto é expandido. Elementos do segundo período, tais como B, C, N, Ligação covalente coordenada UNIUBE 107 O tipo de ligação abordado anteriormente apresenta uma característica peculiar que é o fato de o par de elétrons da ligação ser oriundo de apenas um dos átomos que estão ligados. Esta ligação é denominada ligação covalente coordenada. Nas estruturas de Lewis, uma ligação covalente coordenada pode ser designada por uma seta (→) que aponta do átomo que doa o par de elétrons para o átomo que o recebe. Por outro lado, existem aqueles elementos em que um dos átomos acaba aceitando mais do que oito elétrons na camada de valência. Os elementos do terceiro período ou em períodos mais elevados frequentemente apresentam esta tendência. Na maioria dos compostos e dos íons nessa categoria, o átomo central está ligado a átomos pequenos como o flúor, o cloro ou o oxigênio. A partir da fórmula de um composto, é natural percebermos que existe um número maior de elétrons na camada de valência de determinado átomo. Vamos considerar o hexafluoreto de enxofre, SF6, gás formado pela reação do enxofre com excesso de gás flúor. O enxofre é o átomo central nesse composto e o flúor liga -se geralmente a apenas outro átomo com uma ligação simples de um par de elétrons, por exemplo, no HF (usado para escrever em vidros) e CF4. Como são necessárias seis ligações S–F no SF6, concluímos que haverá seis pares de elétrons na camada de valência do átomo de enxofre. Quando se tem mais do que quatro grupos ligados a um átomo central tem -se forte evidência de que existem mais de oito elétrons em torno do referido átomo. Uma observação importante aqui é que apenas elementos do terceiro período e períodos mais elevados da Tabela Periódica formam compostos e íons em que o octeto é expandido. Elementos do segundo período, tais como B, C, N, O e F, comportam um máximo de oito elétrons na sua camada de valência. Considerando o nitrogênio vemos que ele forma compostos e íons como o NH3, o NH4+ e NF3, mas o NF5 não é conhecido. O fósforo, elemento do terceiro período pertencente à mesma família do nitrogênio, forma as espécies PH3, PH4+ e PF3. Porém este elemento pode acomodar até cinco ou seis pares de elétrons de valência em compostos, tais como o PF5, ou em íons como o PF6–. O arsênico, o antimônio e o bismuto, elementos abaixo do fósforo no Grupo 5A, são semelhantes ao fósforo em seu comportamento. Lembra -se do Capítulo 2 sobre as propriedades periódicas? Como explicar tais diferenças? Atualmente a explicação para o comportamento contrastante entre os elementos do segundo e terceiro períodos baseia -se no número de orbitais na camada de valência destes átomos. Elementos do segundo período apresentam quatro orbitais de valência (um orbital 2s e três orbitais 2p). No Capítulo 2, vimos que cada orbital acomoda no máximo dois elétrons. Isto resulta em um total de oito elétrons ao redor de um átomo. Já, quando se consideram elementos do terceiro período e posterior, os orbitais d na camada exterior possuem energia muito parecida com aquela dos orbitais s e p, de modo que agora poderemos ter os orbitais s, p e d envolvidos nas ligações. Exemplificando, para o fósforo, os orbitais 3d se unem aos orbitais 3s e 3p como orbitais de valência. Dessa forma os orbitais d juntamente com os outros (s e p) fornecem ao elemento a possibilidade de acomodar 12 elétrons (ou mais). Existem, entretanto, moléculas que apresentam um número ímpar de elétrons. Exemplos são os óxidos de nitrogênio – NO, com 11 elétrons de valência, e NO2, com 17 – que fazem parte de um pequeno grupo de moléculas estáveis com número ímpar de elétrons. Com um número ímpar de elétrons torna -se impossível escrever estruturas que obedeçam à regra do octeto para essas moléculas. No entanto este fato não nos impossibilita de escrever uma estrutura de Lewis para tais moléculas. Ela poderá ser escrita e representará de forma aproximada as ligações presentes na molécula. Para a molécula de NO2, teremos as estruturas representadas a seguir. Observe o elétron desemparelhado sobre cada molécula. 108 UNIUBE Uma evidência experimental para o NO2 indica que a ligação entre N e O é intermediária entre uma ligação dupla e uma tripla. Já para o NO tem -se que é praticamente impossível apresentar uma estrutura de Lewis que consiga explicar as observações experimentais acerca de tal composto. Sendo assim, faz se necessária uma outra teoria sobre ligação para se entender a ligação presente no NO. Estes dois óxidos do nitrogênio, NO e NO2, pertencem a um grupo de substâncias químicas denominadas radicais livres. Os radicais livres são espécies químicas que apresentam elétrons desemparelhados. Esses elétrons desemparelhados fazem com que tais espécies se tornem bastante reativas. Estes compostos estão muito envolvidos com a poluição do meio ambiente. Pequenas quantidades de NO são liberadas pelos escapamentos de veículos. Este NO transforma -se em NO2 rapidamente e se decompõe na presença da luz solar e do oxigênio para formar mais NO, bem como ozônio, O3. Este ozônio formado na baixa atmosfera passa também a ser um poluente muito prejudicial ao sistema respiratório. Radicais livres podem ser gerados em nosso organismo, por exemplo, quando somos expostos à radiação ionizante. Esses radicais são altamente reativos e podem causar sérios danos à nossa saúde. EXPLICANDO MELHOR NO2(g) + O2(g) → NO(g) + O3(g) Estes dois óxidos de nitrogênio, NO e NO2, apresentam características próprias, uma vez que sua reatividade não é tão alta a ponto de poderem ser isolados em laboratório. O NO2, quando é resfriado, sofre um processo de dimerização, ocorrendo o emparelhamento dos elétrons desemparelhados, formando o N2O4. Atividade 4 Com base no que foi discutido anteriormente, explique o fato de existir o composto PCl5 e não existir o NCl5. AGORA É A SUA VEZ UNIUBE 109 4.7 Ligação metálica Diferentemente da ligação iônica que ocorre entre íons positivos e negativos, a ligação metálica só ocorre entre metais. Nesse tipo de ligação química, temos átomos que tendem a perder elétrons, os elétrons de valência, e, ao ocorrer tal perda, transformam -se em cátions. Como diminuem de tamanho, aproximam -se uns dos outros num arranjo cris- talino, sendo que ao redor desse aglomerado de cátions estarão os elétrons que antes perten- ciam à camada de valência de cada um. Esse amontoado de elétrons, circundando os cátions, recebe o nome de “mar de elétrons livres” ou “nuvem de elétrons livres”. É devido a essa nu- vem de elétrons livres que ocorre a estabilização da estrutura metálica, funcio- nando como uma cola que une os cátions do cristal metálico. Ao representar um cristal metálico formado por átomos iguais, o mais sensato seria escrever Fen, Cun etc., uma vez que a substância metálica é constituída por um número infindável (n) de átomos metálicos. Por simplificação, representa- -se um metal apenas por seu símbolo: Fe, Cu etc. Há substâncias metálicas formadas por metais diferentes e recebem o nome de Ligações metálicas. 4.7.1 As principais ligas metálicas Independentemente de ser uma substância metálica formada por um único elemento metálico, ou mais de um, a estrutura do mar de elétrons livres oferece à substância uma elevada capacidade de conduzir corrente elétrica e também calor. Isto se deve à grande mobilidade dos elétronslivres. Para qualquer meio conduzir corrente elétrica, ele deve possuir cargas livres (íons ou elétrons). Nos metais o “mar de elétrons” é responsável pelo fato de fios de cobre conduzirem a eletricidade até nossas casas. Esses elétrons também são responsáveis pela relativa facilidade com a qual os metais conduzem o calor. Ao colocar uma colher de metal sobre a chama de um fogão, podemos sentir rapidamente a transmissão de calor até nossas mãos. SAIBA MAIS 110 UNIUBE Liga metálica Constituição Latão 67% de cobre (Cu) + 33% de zinco (Zn) Bronze 90% de cobre (Cu) + 10% de estanho (Sn) Ouro branco Ouro (Au) + níquel (Ni 20% a 50%) Ouro 18 quilates 18 g Ouro + 6 g de prata ou cobre Ouro 12 quilates 12 g de Ouro + 12 g de prata ou cobre Aço carbono 98% de ferro (Fe) + 2% de C Aço inox 74% de aço carbono + 18% de Cr + 8% de Ni Ímã 63% de Fe + 20% de Ni + 12% de Al + 5% Co Amálgama dental Hg + outros metais como Sn, Ag, Cu, Cd Solda elétrica 67% de Pb + 33% de Sn Essas substâncias podem ser moles ou duras, porém, contrastando com as substâncias iônicas, não são de todo quebradiças, pois, ao se deslocar alguns cátions do cristal, o mar de elétrons estabiliza -os novamente, não ocorrendo repulsão imediata. As substâncias metálicas são estáveis em conformidade com o cristal que conseguem formar e, por isso, possuem elevadas temperaturas de fusão, como as substâncias iônicas. Atividade 5 Nenhuma teoria convencional de ligação química é capaz de justificar as propriedades dos compostos metálicos. Investigações indicam que os sólidos metálicos são compostos de um arranjo regular de íons positivos, no qual os elétrons das ligações estão apenas parcialmente localizados. Isto significa dizer que se tem um arranjo de íons metálicos distribuídos em um “mar” de elétrons móveis. Com base nestas informações, é correto afirmar que os metais, geralmente: a) Têm elevada condutividade elétrica e baixa condutividade térmica. b) São solúveis em solventes apolares e possuem baixas condutividades térmica e elétrica. c) São insolúveis em água e possuem baixa condutividade elétrica. d) Conduzem com facilidade a corrente elétrica e são solúveis em água. e) Possuem elevadas condutividades elétrica e térmica. AGORA É A SUA VEZ UNIUBE 111 4.8 Breve história do DNA – uma “ligação” entre a química e a vida As pessoas têm usado materiais para armazenar informações desde o tempo das pinturas em cavernas. A natureza já faz isso há milhões de anos por meio do que conhecemos como ácido desoxirribonucleico (DNA). O DNA é formado por duas hélices que se mantêm unidas uma à outra. Cada hélice da molécula da dupla hélice do DNA consiste em três unidades: um fosfato, uma molécula desoxirribose (uma molécula de açúcar com um anel de cinco membros) e uma base nitrogenada. As bases do DNA podem ser uma entre quatro moléculas: adenina (A), guanina (G), citosina (C) ou timina (T). Um pergunta natural de se fazer é: por que o DNA tem duas hélices com o esqueleto O – P – O – C – C – C na parte exterior e as bases nitrogenadas no interior? Este fato pode ser explicado pelas propriedades das ligações entre as moléculas das bases ligadas ao esqueleto. Os átomos de H, unidos ao N, na molécula de adenina possuem carga positiva e isso resulta numa forma especial de ligação, denominada ligação de hidrogênio, com a molécula de base da cadeia vizinha. Sendo assim, a ligação química acaba sendo uma força diretora no processo de armazenamento das informações genéticas dos indivíduos, sustentando dessa forma a vida. Você terá uma noção mais detalhada da importância da ligação de hidrogênio em estudos posteriores. Você aprenderá muito sobre ligação de hidrogênio no próximo capítulo. Este conhecimento vai ajudá -lo a entender uma série de fenômenos importantes. 4.9 Conclusão A combinação ou recombinação de átomos dá origem a várias substâncias diferentes, mas já vimos que essas interações entre átomos ocorrem segundo regras, ou tendências destes próprios átomos. Na grande maioria, os átomos adquirem estabilidade quando apresentam oito elétrons na camada mais externa, também chamada de camada de valência, seguindo a configuração eletrônica dos gases nobres. As ligações iônicas possuem como principal característica a geração de cátions e ânions, ou seja, formam -se forças eletrostáticas. As ligações covalentes se caracterizam pelo compartilhamento de elétrons por dois ou mais átomos e as ligações metálicas que ocorrem entre átomos metálicos, formando ligas. DNA Uma molécula chamada de ácido desoxirribonucleico, que é usada para armazenar informação genética que permite aos seres vivos se reproduzirem. Cada célula viva contém pelo menos uma molécula de DNA para controlar a produção de proteínas e carregar informação genética de uma geração de células para a próxima. 112 UNIUBE Os elétrons participantes das ligações, elétrons de valência, podem ser representados por símbolos de pontos, chamados de símbolos de Lewis. Às vezes as estruturas de Lewis são insuficientes para representar uma molécula. Esses compostos são descritos usando duas ou mais estruturas de ressonância, sendo vistos como uma mistura destas estruturas múltiplas. Atividade 6 6.1 Que características as partículas devem apresentar em um meio para que haja passagem de corrente elétrica em um sistema? 6.2 Por que, quando fundido, o cloreto de sódio conduz corrente elétrica? 6.3 Quantas ligações covalentes os elementos da família do nitrogênio precisam estabelecer para completarem seu octeto? 6.4 Suponha que, em um outro universo, os elementos apresentem a tendência a completar o noneto (nove elétrons na camada de valência) e não o octeto como aprendemos nesta unidade. Uma ligação covalente é estabelecida quando três elétrons são compartilhados entre dois átomos. Sendo assim, desenhe a estrutura de Lewis para os compostos que seriam formados a partir de: a) hidrogênio e oxigênio; b) hidrogênio e flúor. 6.5 O elemento fósforo tem fórmula molecular P4. Proponha uma estrutura de Lewis para esta molécula. (Pense: cada átomo de fósforo deve se ligar a outros três átomos de fósforo.) Atividade 7 7.1 Classifique os compostos listados abaixo como covalentes ou iônicos. CH4, KF, CO, SiCl4 e BaCl2. 7.2 Escreva a estrutura de Lewis para o AlCl3. Mostre que no AlCl3 o alumínio não atende à regra do octeto. 7.3 Escreva estruturas de Lewis aceitáveis para os seguintes poluentes atmosféricos: a) SO2; b) NO2; c) O3; d) CO; e) SO3; f) (NH4)2SO4. Qual deles é um sólido? AGORA É A SUA VEZ UNIUBE 113 7.4 Os seguintes dados foram encontrados em um Handbook (livro com uma série de propriedades químicas e físicas de elementos e compostos). Cânfora – C10H16O – cristais incolores, densidade de 0,990g/cm3 a 25ºC, sublima a 204ºC, insolúvel em água e muito solúvel em água e éter. Cloreto de praseodímio – PrCl3 – cristais verde -azulados em forma de agulhas, densidade de 4,02g/cm3 a 25ºC, ponto de fusão igual a 786ºC, ponto de ebulição igual a 1.700 ºC, solubilidade em água fria igual a 103,9 g/ml e muito solúvel em água quente. Você descreveria cada um desses compostos como iônico ou covalente? Por quê? 7.5 Explique por que HCl é uma molécula polar e Cl2 não é uma molécula polar. 7.6 Explique por que uma solução de NaCl conduz corrente elétrica enquanto uma solução de sacarose (açúcar comum) não conduz. E álcool etílico (C2H5OH) em água conduzirá? Explique. 7.7 Cerâmicas são compostos inorgânicos tal como Al2O3 (utilizado na fabricação de velas de ignição para motores e substrato para peças microeletrônicas), SiO2 (isolante elétrico em microeletrônica), Fe3O4 (usado na produção de memórias de computadores) e SiC (um abrasivo). Com base em seus conhecimentos, diga qual o tipo (caráter) deligação (iônica ou covalente) predomina em cada um dos compostos, justificando a sua escolha. Atividade integradora O uso de materiais e ligação química Para realização desta atividade, você deverá pesquisar sobre um determinado material com o objetivo de entender suas propriedades e explicá -las com base nos modelos de ligação química, verificando como a utilização desse material para fabricar diferentes objetos e artefatos do cotidiano urbano, industrial e rural relaciona -se com essas propriedades. Procure se informar sobre os processos de obtenção do material estudado, a distribuição das reservas de matéria -prima para sua obtenção no Brasil e no mundo, assim como as implicações sociais e ambientais da sua produção e uso. Você deverá escolher o material a ser estudado entre os seguintes grupos: • Metais – ferro e aço. • Metais – alumínio e cobre. AGORA É A SUA VEZ 114 UNIUBE • Materiais cerâmicos – vidros e tijolos refratários. • Materiais de origem natural – madeira, papel, fibras vegetais. • Novos materiais – biomateriais, catalisadores, polímeros condutores, nanomateriais. • Plásticos e borrachas. • Silício e outros materiais usados na fabricação de componentes eletrônicos. No relatório que deve ser feito sobre o material, você deverá responder às questões e atender às demandas: 1) Qual é a origem do material considerado? Como ele é produzido e/ou extraído? Descreva todas as fases do processo de extração e do processo industrial de produção. Qual é o impacto ambiental e social de sua produção e extração? Quais são as reservas potenciais em uso das matérias -primas para fabricação desse material no Brasil? 2) Descreva uma aplicação de um produto em que esse material é usado. Deixe claro que propriedades fazem com que o material seja indicado para esse uso. 3) Quais são os principais impactos ambientais e sociais decorrentes do uso desse material? 4) Como o uso do material estudado pode contribuir ou não para o desenvolvimento sustentável? 5) Selecione, prepare e apresente algum experimento relacionado ao “seu” material. Referências FEYNMAN, R. P. O prazer da descoberta. Lisboa: Gradiva, 2006. KOTZ, J. C.; TREICHEL, J. P. Química geral e reações químicas. v. 2. 3. ed. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 2005. Forças intermoleculares – teorias e aplicações Capítulo 5 Mauro Luiz Begnini Introdução Caro(a) aluno(a), Neste capítulo serão abordados conceitos sobre as ligações químicas e as propriedades físicas dos compostos, possibilitando que estes sejam classificados como polares ou apolares. Assim, por meio da análise das forças intermoleculares que são exercidas em cada composto estudado, será possível compreender as propriedades diferenciadas de um composto em relação ao outro. Para facilitar a assimilação dos conceitos e das aplicações das forças intermoleculares, é necessária a compreensão de vários outros conceitos, principalmente o de eletronegatividade, uma propriedade periódica já estudada no primeiro capítulo. Ao avançarmos em nossos estudos, você perceberá que as discussões sobre os conceitos trabalhados não se esgotam neste capítulo, mas perpassam os outros capítulos temáticos do curso. Durante os encontros presenciais, o conteúdo será trabalhado também na forma experimental. A experimentação em química contribui para um resultado mais significativo da aprendizagem. Considerando o objetivo do curso, que é formar um professor -educador, diversos conceitos e experimentos são realizados com materiais alternativos, com o objetivo de despertar a criatividade inata de cada um. As atividades propostas nos capítulos de estudos buscam a discussão e reflexão sobre conceitos e traçam o perfil das habilidades a serem desenvolvidas durante o curso, fazendo com que, mesmo a distância, haja o diálogo e a discussão entre educador e educando. Assim sendo, desejamos a você bons estudos! 116 UNIUBE Objetivos Esperamos que, ao término dos estudos deste capítulo, você seja capaz de: • reconhecer as moléculas; • identificar moléculas polares e apolares; • caracterizar as forças intermoleculares em uma molécula; • estudar as características físicas e químicas dos diferentes com- postos; • reconhecer as forças intermoleculares; • interpretar a influência das forças intermoleculares nas proprie- dades dos compostos. Esquema O que veremos neste capítulo: • As origens das forças intermoleculares. • Os estudo das moléculas polares e apolares. • Forças intermoleculares e suas relações com as propriedades. dos compostos e da matéria. • Os vários tipos de interações. 5.1 Origem das forças intermoleculares Em nosso dia a dia, ouvimos comentários sobre assuntos diversos. Com certeza, colesterol, triglicérides e diabetes já foram temas de alguns destes. Estes temas, e ainda outros, apresentam determinadas características que são tocantes às propriedades de alguns compostos. Essas propriedades são regidas pelas forças intermoleculares desses compostos. Cada composto possui diferente somatório de forças que transferem características próprias para a molécula. Isso causa influência nas propriedades químicas, tais como solubilidade, densidade, tensão superficial, ponto de fusão, ponto de ebulição, entre outros. Assim, com o estudo das forças, começamos a entender como a matéria se forma e como se organizam os compostos. A dar um pouco de espaço entre as palavras desta frase origem das forças intermoleculares é a eletronegatividade, uma propriedade periódica de extrema importância. Eletronegatividade É a capacidade que um átomo tem de atrair para si o par eletrônico que ele compartilha com outro átomo em uma ligação química. UNIUBE 117 A eletronegatividade varia de forma regular e periódica à medida que o número atômico aumenta. Veja de forma esquemática: Eletronegatividade Como mostra o esquema, a eletronegatividade cresce da esquerda para a direita, nos períodos, e de baixo para cima, nas famílias. Os gases nobres, por não apresentarem tendências a receber ou compartilhar elétrons, não serão agora estudados. Observe a escala a seguir: Figura 1: Eletronegatividades dos elementos Como se pode perceber, a eletronegatividade é uma propriedade mensurável. O flúor é o elemento mais eletronegativo e os metais são os menos eletronegativos. Perceber isto é muito importante para a compreensão do caráter polar e apolar das ligações covalentes que veremos mais adiante. 118 UNIUBE 5.2 Relações com os objetos do cotidiano Agora que compreendemos o significado de eletronegatividade, vamos ver quais são as consequências dela em uma ligação química e em uma molécula. Mas, antes, vejamos algumas perguntas: • Óleo de soja é solúvel em água? E gordura de porco ou vaca dissolve na água? Por quê? • Sal de cozinha (NaCl) dissolve na água? E, na gasolina, dissolve? Por quê? • Como faço para tirar mancha de gordura de um tecido ou de um material? Com água pura? Bem, diante de tantos questionamentos, vamos trabalhar. Você sabe o que é uma ligação polar ou apolar? Lembre -se do conceito de eletronegatividade que vimos há pouco! Para você compreender melhor o assunto, não deixe de voltar aos primeiros capítulos e rever os conceitos de modelos atômicos! SAIBA MAIS 5.3 Modelos atômicos, tabela periódica e ligações químicas: um pequeno retorno Como vimos nos Capítulos 1 e 2, foram propostos vários modelos atômicos para a representação do átomo e, a partir desses, fica fácil compreender a formação das ligações químicas. Este será nosso assunto agora. Considere a molécula de HF. O par de elétrons da ligação hidrogênio – flúor não é atraído igualmente pelos átomos. Isso se deve ao fato de os átomos não possuírem a mesma eletronegatividade. Na ligação química apresentada,que não é estática, o flúor é UNIUBE 119 muito mais eletronegativo que o hidrogênio (veja na escala de eletronegatividade de Pauling, na página anterior). Com isto, os elétrons da ligação permanecem por mais tempo próximos do flúor e menos tempo próximos do hidrogênio, caracterizando assim um polo negativo e um polo positivo parcial. É importante perceber que esta formação de polos deve -se à desigualdade do compartilhamento dos elétrons da ligação e isso é decorrente da diferença de eletronegatividade entre os átomos de hidrogênio e de flúor. Assim fica fácil perceber que a ligação é covalente, pois ocorre o compartilhamento, mas desigual devido à eletronegatividade, criando polos, sendo, portanto, um exemplo clássico de ligação covalente polar. Vimos que a ligação iônica ocorre entre espécies químicas com cargas elétricas opostas (cátions e ânions). Por esse motivo, toda e qualquer ligação iônica é polar. Por exemplo, o sal de cozinha (NaCl) é um composto iônico e se dissolve na água, portanto é um solvente polar. Toda e qualquer ligação iônica é polar IMPORTANTE! Em uma ligação covalente, não existe um elemento que perde e um outro que recebe elétrons, mas existe sim um compartilhamento de elétrons entre os átomos desta ligação. Significa que não ocorre formação de cátions e ânions nesse tipo de interação atômica. Entretanto, quando a ligação covalente se faz entre átomos diferentes, um deles tende a atrair o par eletrônico ligante para perto de si, produzindo cargas elétricas parciais de cada lado da ligação. Como no exemplo da molécula de HF, o HCl também possui diferentes átomos e, portanto, diferentes eletronegatividades, o que confere um caráter polar para a ligação e, como consequência, para a molécula. Ligação covalente polar Ligação entre átomos com diferentes eletronegatividades ou com compartilhamento desigual dos elétrons da ligação. 120 UNIUBE Toda e qualquer ligação iônica é polar. LIGAÇÃO COVALENTE POLAR Par de elétrons ligantes atraído mais fortemente pelo Cloro que pelo Hidrogênio IMPORTANTE! Já uma ligação covalente apolar ocorre quando os átomos que fazem a ligação química entre eles possuírem a mesma eletronegatividade ou igual comparti- lhamento de elétrons. Veja o exemplo: Uma molécula de gás cloro (Cl2): LIGAÇÃO COVALENTE APOLAR Par de elétrons igualmente atraído pelos 2 cloros Podemos observar que esta molécula é composta de dois átomos iguais, que possuem a mesma eletronegatividade, sendo, portanto, uma molécula sem polos, ou seja, apolar. Vejamos alguns exemplos de ligações, acompanhadas do respectivo valor da diferença da eletronegatividade (∆), entre os elementos que as compõem. UNIUBE 121 Observando o exemplo acima, podemos perceber que uma ligação covalente apolar ocorre quando a eletronegatividade dos elementos for igual e, à medida que a diferença de eletronegatividade aumenta, o caráter polar de uma ligação covalente também aumenta. Quando essa diferença se acentua muito, teremos um caso extremo de ligação polar, ou seja, não ocorre mais ligação covalente (compartilhamento de elétrons), mas sim ligação iônica (transferência dos elétrons para o elemento mais eletronegativo). Percebeu como é fácil analisar moléculas que possuem somente uma ligação covalente? O resultado disto, se a ligação é polar ou apolar, é transferido para a molécula. Mas, se a molécula contiver mais ligações, como interpretar? Neste caso, para facilitar a compreensão do caráter polar ou apolar de uma molécula composta por mais de uma ligação covalente, passaremos a utilizar os termos vetor ou soma vetorial. A figura abaixo é uma representação de um deslocamento. Imagine que um jogador, em um campo de futebol, saia do ponto A e corra em direção ao ponto B. Em seguida, desloque-se para o ponto C. Figura 2: Deslocamento de vetores Vetor É uma grandeza matemática caracterizada por direção, sentido e módulo. 122 UNIUBE O somatório desse deslocamento pode ser obtido por meio da representação do vetor, com origem no ponto A e em direção ao ponto C, que chamamos de soma vetorial. Figura 3: Soma de vetores 5.4 Compreendendo moléculas polares e apolares Como já visto, em uma molécula de HCl ocorre o aparecimento de polos, devido à diferença de eletronegatividade entre os átomos. Como ela tem somente uma ligação, a molécula como um todo adquire características de molécula polar. Essa polarização tem uma direção, um sentido e uma intensidade, que são dependentes da diferença da eletronegatividade entre os átomos, o que caracteriza um vetor. Assim sendo, podemos conceituar que um vetor momento de dipolo ou momento dipolar é aquele que representa a polarização de uma ligação covalente e é representado pela letra grega mi . Este vetor possui direção, módulo e sentido e é orientado no sentido do polo positivo para o negativo da ligação polar. Já as ligações apolares possuem o momento de dipolo nulo, ou seja, = zero. Quando há moléculas com mais de dois átomos, essa análise fica um pouco mais complexa, pois cada ligação possui um momento de dipolo. Consequentemente, deve -se levar em consideração a geometria das moléculas para poder resolver o somatório dos vetores e verificar se a molécula é polar ou apolar. Se for nulo, a molécula é apolar; caso contrário, a molécula possui um caráter polar. Não se esqueça! O caráter polar ou apolar de uma molécula, com mais de dois átomos, é expresso pelo vetor momento de dipolo resultante da molécula. Se for nulo, a molécula será apolar e, caso contrário, será polar. IMPORTANTE! Para compreendermos melhor, vamos verificar alguns exemplos de moléculas simples e suas características: UNIUBE 123 Quadro 1: Fórmula molecular e representação geométrica de alguns compostos * Neste caso, quando considerarmos o par de elétrons não ligantes na estrutura, teremos a geometria trigonal plana; quando este não for considerado na estrutura, teremos a geometria angular. 124 UNIUBE 5.5 Forças intermoleculares e suas relações com as propriedades dos compostos e da matéria A intensidade das forças intermoleculares em diferentes substâncias varia em uma grande faixa, mas elas são muito mais fracas que ligações iônicas e covalentes. Dessa forma é necessário menos energia para evaporar um líquido ou fundir um sólido do que para quebrar ligações covalentes em moléculas. Por exemplo, são necessários apenas 16 kJ/mol para vencer as atrações intermoleculares entre as moléculas de HCl no estado líquido para evaporá-lo. No entanto a energia para dissociar HCl em átomos de HCl requer 431 kJ/mol. Portanto, quando uma substância molecular, como HCl, transita entre os estados sólido, líquido e gasoso, as moléculas em si permanecem intactas. Esse mesmo exemplo pode ser considerado para uma molécula de água. Quando fervemos a água e ela evapora, não estamos quebrando as suas moléculas, mas assim apenas separando umas das outras. SAIBA MAIS A intensidade das forças intermoleculares é refletida por meio das muitas pro- priedades dos líquidos, entre elas, o ponto de ebulição. Por exemplo, uma vez que as forças entre as moléculas de HCl são fracas, este entra em ebulição a apenas –85oC à pressão atmosférica. Um líquido entra em ebulição quando se formam bolhas de seu vapor. As moléculas de um líquido devem vencer as forças de atração para separar -se e formar um vapor. Quanto mais fortes as forças de atração, maior é a temperatura na qual o líquido entra em ebulição. De forma similar, o ponto de fusão de um sólido aumenta à medida que as forças intermoleculares ficam mais fortes. Para ajudar na compreensão desse assunto, vamos estudar agora os tipos de forças atrativas entre moléculas neutras. UNIUBE 125 5.5.1 Tipos de forças intermoleculares• forças de Van Der Waals (dipolo instantâneo) • forças dipolo -dipolo (dipolo permanente) • forças de ligação de hidrogênio (antes chamadas de ponte de hidrogênio) • forças íon -dipolo Essas forças são também chamadas forças de Van der Waals em homenagem a Johannes Van Der Waals, que desenvolveu a equação para determinar o desvio de gases do comportamento ideal. A força atrativa íon -dipolo é importante em soluções. Todas as quatro forças são eletrostáticas por natureza, envolvendo atrações entre espécies positivas e negativas. Todas tendem a ser até 15% menos fortes que as ligações covalentes e iônicas. Agora, passaremos a estudar cada força, separadamente, para depois fazermos al- gumas considerações sobre suas implicações nas propriedades dos compostos. 5.5.2 Forças de interações tipo íon -dipolo Uma força íon -dipolo existe entre um íon e a carga parcial em certo lado de uma molécula polar. As moléculas polares possuem dois polos (são dipolos); elas têm um lado positivo e outro negativo. P o r exemplo, HCl é u ma mo l é cu l a polar, porque as eletronegatividades dos átomos de H e Cl são diferentes, con- forme visto anteriormente. Os íons positivos são atraídos pelo lado negativo de um dipolo, enquanto os negativos são atraídos pelo lado positivo. A magnitude da atração aumenta conforme a carga do íon ou a magnitude do dipolo aumenta. As forças íon -dipolo são especialmente importantes em soluções de substâncias iônicas em líquidos polares, como uma solução de NaCl em água. Esse tipo de interação explica por que muitos compostos, preferencialmente iônicos, dissolvem-se em água, como o sal de sozinha (NaCl). Observe e analise a figura. Figura 4: Interação entre moléculas 126 UNIUBE A Figura 4 demonstra a interação preferencial entre moléculas, que, quando em ausência de campo magnético externo, orientam-se em relação aos íons. Esse exemplo pode facilmente explicar o fenômeno de solvatação de íons quando em meio aquoso. Considerando a dissolução de sal de cozinha (NaCl) em água, os íons sódio (Na+) interagem com a parte negativa do momento magnético de uma molécula de água, ou seja, os átomos de oxigênio, enquanto os íons cloretos (Cl–) interagem com a parte positiva da molécula de água. Na figura abaixo, pode -se perceber melhor esse tipo de interação, que caracteriza o fenômeno da solvatação por interações do tipo íon -dipolo. Figura 5: Íons solvatados A parte negativa da molécula da água (parte do oxigênio) se orienta em direção ao cátion, ou seja, o íon sódio, enquanto a parte positiva da água (parte dos hidrogênios) se orienta em direção ao ânion cloreto. Isso acontece quando essa solução aquosa não está submetida a nenhum campo magnético externo. Assim sendo podemos dizer que moléculas polares neutras se atraem quando o lado positivo de uma molécula está próximo do lado negativo de outra. 5.5.3 Forças de interações tipo dipolo -dipolo Por outro lado, forças tipo dipolo -dipolo são efetivas somente quando moléculas polares estão muito próximas, sendo elas geralmente mais fracas que as forças íon -dipolo. Em líquidos, as moléculas polares estão livres para movimentar -se em relação às outras. Duas moléculas que se atraem passam mais tempo próximas uma da outra que duas moléculas que se repelem, tendo como efeito a atração entre elas. Assim chegamos a uma conclusão experimental: Solvatação Fenômeno pelo qual os íons em solução estão interagindo com moléculas de água através de interação tipo íon -dipolo, possibilitando a estabilidade desses íons em solução aquosa. UNIUBE 127 Em moléculas com massas e tamanhos aproximadamente iguais, a força das atrações intermoleculares cresce com o aumento da polaridade. O quadro a seguir relaciona várias substâncias com massas moleculares semelhantes, mas com diferentes momentos de dipolo. Pode -se observar que o ponto de ebulição da substância aumenta porque o momento de dipolo da molécula também aumenta. Quadro 2: Substâncias e suas propriedades Como exemplos de substâncias orgânicas que apresentam esse tipo de inte- ração intermolecular, podemos citar o metanal, a acetona e o éter dimetílico ou metílico. No esquema a seguir, pode -se analisar esse tipo de interação que acontece entre as moléculas citadas. 128 UNIUBE Esse tipo de interação é mais forte que as moléculas que apresentam interações de London e, como consequência, moléculas que possuem essa interação, comparativamente, possuem ponto de ebulição, viscosidade e tensão superficial maiores que moléculas que apresentam apenas interações de London. 5.5.4 Forças de Van der Waals ou dipolo induzido e instantâneo Esses tipos de interação são mais fracas que as do tipo dipolo -dipolo. Como não pode haver forças tipo dipolo -dipolo entre átomos e moléculas apolares, deve existir algum tipo de interação atrativa porque gases apolares podem ser liquefeitos. A origem de suas atrações foi proposta inicialmente em 1930 por Fritz London, um físico germano -americano. London identificou que o movimento de elétrons em um átomo ou molécula pode criar um momento de dipolo instantâneo. Em uma coleção de átomos de hélio, por exemplo, a distribuição média de elétrons ao redor de cada núcleo é esfericamente simétrica. Os átomos são apolares e não possuem momento permanente. Entretanto a distribuição instantânea dos elétrons pode ser diferente da distribuição média. Se pudéssemos congelar o movimento de elétrons de um átomo de hélio em determinado instante, os elétrons poderiam estar em um lado do núcleo. Apenas, nesse momento, o átomo teria um momento de dipolo instantâneo. Como os elétrons se repelem, os movimentos em um átomo influenciam os movimentos dos elétrons em seus vizinhos. Assim o dipolo temporário em um átomo pode induzir um dipolo similar em um átomo adjacente, fazendo com que os átomos sejam atraídos entre si. Essa interação atrativa é chamada de forças de dispersão de London (ou meramente forças de dispersão). Tal força, como as dipolo–dipolo, é significativa somente quando as moléculas estão próximas. A figura abaixo mostra uma representação esquemática desse tipo de interação. Figura 6: Forças de dispersão de London As forças de dispersão ocorrem entre todas as moléculas. Não importa se elas são polares ou apolares. As moléculas polares sofrem interações dipolo-dipolo, mas elas também sofrem forças de dispersão ao mesmo tempo. UNIUBE 129 Na realidade, estima -se que as forças de dispersão são responsáveis por mais de 80% da atração total entre as moléculas e as atrações dipolo -dipolo respondem pelo resto. Quando comparadas às forças relativas das atrações intermoleculares, as seguintes generalizações devem ser consideradas: • Quando as moléculas têm massas moleculares e formas comparáveis, as forças de dispersão são aproximadamente iguais. Nesse caso, as diferenças em magnitudes das forças atrativas devem -se às diferenças nas forças de atração dipolo -dipolo, com a maioria das moléculas polares tendo as atrações mais fortes. • Quando as moléculas diferem muito em suas massas moleculares, as forças de dispersão tendem a ser decisivas. Nesse caso, as diferenças nas magnitudes das forças atrativas podem, geralmente, ser associadas com as diferenças nas massas moleculares, com a molécula mais massiva tendo as atrações mais fortes. Compostos formados apenas por carbono e hidrogênio (hidrocarbonetos) possuem somente forças de Van der Walls ou dipolo induzido (forças fracas). Esses compostos, na prática, são essencialmente apolares e imiscíveis (que não podem ser misturados) em água. IMPORTANTE! 5.5.5 Forças de interação de hidrogênio (ligações ou pontes de hidrogênio) Quando, em uma molécula, tivermos o hidrogênio ligado a um dos três átomos mais eletronegativos da tabela (F, O, N),haverá uma grande diferença de eletronegatividade entre eles, levando a uma grande polarização dessa ligação, o que acarretará, no hidrogênio, uma deficiência grande de elétrons. Essa deficiência leva o hidrogênio a interagir com o par de elétrons de uma molécula vizinha, resultando em uma interação muito forte entre as moléculas, a qual chamamos de interação de hidrogênio ou ponte de hidrogênio. Trata -se de uma interação mais forte do que as do tipo dipolo -dipolo. Na água (H2O), no fluoreto de hidrogênio (HF) e na amônia (NH3), líquidos ou sólidos, são essas forças que mantêm as moléculas unidas. Ligações de hidrogênio São interações que ocorrem entre moléculas que apresentam átomos de H ligados diretamente a átomos de F, O ou N. 130 UNIUBE É por meio das ligações de hidrogênio que conseguimos explicar por que determinadas moléculas pequenas, como a água (H2O), possuem propriedades diferenciadas. Nesse sentido, por que a água – molécula pequena – tem um ponto de ebulição de 100 ºC? Isso pode ser explicado pela atuação das ligações de hidrogênio intermoleculares, que fazem com que as moléculas fiquem muito próximas umas das outras. Na figura a seguir, podemos verificar esse tipo de interação. Acima pode -se observar a interação de hidrogênio entre alguns compostos. Na letra a, as interações com fluoreto de hidrogênio; na letra b, as interações que ocorrem entre moléculas de água; na letra c, entre álcoois e, na letra d, as interações entre ácidos carboxílicos. É importante sublinhar que esse tipo de interação intermolecular é muito forte e proporciona modificações profundas nas propriedades dos compostos que podem formar esse tipo de interação. Em geral, o ponto de ebulição aumenta com o aumento da massa molecular, devido ao aumento das forças de dispersão. Alguns compostos apresentam exceção para esse tipo de tendência. O mais notável é a água. Nesses casos o ponto de ebulição é muito mais alto do que esperaríamos com base em sua massa molecular e sua pequena estrutura. Além disso, tem alto ponto de fusão, UNIUBE 131 alto calor específico e alto calor de vaporização. Cada uma dessas propriedades indica que as forças intermoleculares na água são muito fortes. Essas atrações intermoleculares na água resultam da ligação de hidrogênio. A ligação de hidrogênio é um tipo especial de atração intermolecular entre o átomo de hidrogênio em uma ligação polar (particularmente uma ligação H–F, H–O ou H–N) e um par de elétrons não compartilhado em um íon ou átomo pequeno e eletronegativo que esteja próximo (geralmente um átomo de F, O ou N em outra molécula). Esse tipo de interação é explicado pela eletronegatividade. Como F, N e O são muito eletronegativos, uma ligação entre o hidrogênio e qualquer um desses três elementos é bastante polar, com o hidrogênio no lado positivo. Uma das consequências observáveis do efeito da ligação de hidrogênio nas moléculas é quando comparamos as densidades do gelo e da água. Em muitas substâncias, as moléculas no sólido são mais densamente empacotadas do que no líquido. Assim a fase sólida é mais densa que a fase líquida. Contrariamente, a densidade do gelo a 0oC (0,917 g/cm3) é menor que a da água líquida (1,00 g/ cm3), de forma que o gelo flutua na água líquida. No estado líquido, cada molécula de água sofre variações contínuas de interações com seus vizinhos. A ligação de hidrogênio é uma componente principal dessas interações. As moléculas estão tão próximas quanto possível, mesmo que seus movimentos térmicos mantenham -nas em constante movimento. Entretanto, quando a água congela, as moléculas assumem o arranjo aberto e ordenado. Esse arranjo otimiza as interações de ligação de hidrogênio entre as moléculas, mas ele cria uma estrutura menos densa para o gelo se comparada com a da água. Uma determinada massa de gelo ocupa maior volume que a mesma massa de água líquida. O conhecimento das f orças intermoleculares é de extrema importância para a análise das alterações nas propriedades físico -químicas dos compostos. Isso será visto logo mais adiante em outros capítulos do Curso. 5.6 Conclusão As forças intermoleculares agem de forma diferente nos três estados de agregação que conhecemos, dando características macroscópicas e microscópicas diferentes em cada uma delas. Nos gases, estas forças são praticamente desprezíveis, pois o movimento das moléculas neste estado é 132 UNIUBE aleatório. Nos líquidos estas forças são fortes o suficiente para manter as moléculas próximas umas das outras, contudo elas ainda possuem um certo movimento. Nos sólidos as forças atrativas são mais fortes e mantêm as moléculas em posições específicas, restringindo o movimento entre elas. Nestas moléculas agem diferentes tipos de interações intermoleculares. As forças dipolo -dipolo aumentam com o aumento da massa molar e a forma da molécula e dependem da polaridade destas moléculas. As ligações de hidrogênio ocorrem em substâncias que possuem ligações de hidrogênio (H) com flúor (F) ou oxigênio (O), ou nitrogênio (N). As forças de dispersão de London, ou também chamadas de dipolo instantâneo -dipolo induzido, sofrem uma certa variação, deixando tais moléculas momentaneamente polarizadas, induzindo à polarização de moléculas adjacentes. Por causa destas particularidades em cada tipo de interação, elas assumem intensidades de forças variáveis. As interações entre íon -dipolo são mais fortes, seguidas das ligações de hidrogênio, dipolo -dipolo e as mais fracas, as forças de dispersão de London. Essas interações interferem em várias propriedades físicas das substâncias: viscosidade, tensão superficial e temperatura de ebulição. Referências BROWN, T.; LEMAY, H.; BURSTEN, B. Química, a ciência central. 9. ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2005. p. 262. As forças intermoleculares e suas consequências Capítulo 6 Mauro Luiz Begnini Introdução Neste capítulo, apresentaremos modelos explicativos que relacionam as características das partículas que constituem as substâncias (átomos, moléculas, íons) com a força de interação entre elas. Sempre buscando relações entre as propriedades das substâncias e suas aplicações no cotidiano, este capítulo reúne uma série de conceitos já abordados anteriormente e que são essenciais para a compreensão de fenômenos presentes no nosso dia a dia. Objetivos Esperamos que, ao término dos estudos deste capítulo, você seja capaz de: • entender as propriedades das substâncias em função do tipo de interação intermolecular; • relacionar as propriedades das substâncias em função do tipo de interação intermolecular; • compreender por que a água não se mistura com óleo; • reconhecer grupos polares e apolares em uma estrutura um pouco mais complexa; • compreender a existência da viscosidade nos líquidos bem como suas aplicações em nosso dia a dia. Esquema • Consequências das forças intermoleculares nas propriedades dos compostos orgânicos. • Polaridade dos compostos e suas consequências. • Viscosidade. 134 UNIUBE 6.1 As consequências das forças intermoleculares nas propriedades dos compostos orgânicos 6.1.1 As forças intermoleculares Pelo estudo das forças intermoleculares que acabamos de abordar no capítulo “Forças intermoleculares – teoria e aplicação” deste livro, vimos que elas são interações existentes entre moléculas, caracterizando grande parte de suas propriedades físico -químicas, e esse estudo nos ajudará a entender muitas propriedades familiares de líquidos e sólidos. Neste capítulo, passaremos a examinar as modificações ou as consequências diretas da atuação de forças intermoleculares nas propriedades físico -químicas dos compostos. Mas o que seriam as propriedades físico -químicas de um composto? Na verdade são essas propriedades que caracterizamas substâncias! Entre elas podemos citar: a polaridade, a densidade, a viscosidade, que é definida como a resistência de um fluido (líquido ou gás), o ponto de fusão e ebulição, que está relacionado com a polaridade e outras. Iniciaremos nosso estudo com a polaridade dos compostos, principalmente os orgânicos. Mas como reconhecer uma função orgânica? Ou comod dar nome a ela? É importante deixar claro que ainda não estamos estudando o nome (nomenclatura) dos compostos ou funções orgânicas. Para isso teremos capítulos mais específicos adiante! No entanto já aparecem algumas nomenclaturas inseridas dentro do contexto deste estudo. 6.2 Polaridade dos compostos e suas consequências Uma das grandes preocupações do ser humano ao longo dos tempos foi a de estudar as observações que acontecem à sua volta e usar esse conhecimento em benefício próprio, entendendo o porquê de alguns acontecimentos. Começaremos agora a explorar este fantástico mundo em que somos espectadores de fatos cotidianos associados à química. UNIUBE 135 Imaginemos a seguinte situação experimental ou prática. De posse de um funil de separação de 125 ml, um aluno fez a adição de 50 ml de água e, em seguida, 50 ml de n -hexano. Sabendo que os dois compostos são líquidos à temperatura ambiente e são incolores, qual seria o resultado esperado? Uma solução composta por uma única fase (homogênea)? Ou duas fases (heterogênea)? Essa situação pode ser interpretada ao se analisar a polaridade das duas substâncias envolvidas na situação! IMPORTANTE! Sabemos que a água é um composto com relativo caráter polar (solvente universal), que pode ser explicado pela soma vetorial, como representado a seguir. Esse caráter polar é decorrente da diferença de eletronegatividade entre os átomos de oxigênio e hidrogênio e também da geometria trigonal plana da molécula da água. Observe: Vamos analisar agora a molécula de n -hexano, um hidrocarboneto. Vimos, no Capítulo 5, que compostos que possuem somente carbono e hidrogênio, independentemente de ser saturado ou insaturado, possuem caráter apolar na prática, mesmo que entre carbono e hidrogênio exista uma pequena diferença de eletronegatividade (∆ = 0,4). Assim sendo o n -hexano possui caráter apolar. Pela regra do semelhante dissolve semelhante, água e n -hexano não serão miscíveis e formarão uma solução heterogênea visível, mesmo sendo suas substâncias incolores. 136 UNIUBE Propriedades fisiológicas dos alcanos (hidrocarbonetos*) Os alcanos mais simples (gasosos) possuem propriedades anestésicas. Alcanos líquidos podem ser muito tóxicos, especialmente pelo fato de que, quando inalados, eles atingem os pulmões, dissolvendo os lipídeos (substâncias de natureza apolar) das membranas celulares dos alvéolos, dificultando as trocas gasosas, levando a um quadro semelhante a uma pneumonia. Em contato com a pele eles podem ocasionar dermatites. *Grupo de moléculas orgânicas formadas apenas por carbono e hidrogênio. EXPLICANDO MELHOR Utilizando esse tipo de análise, podemos observar que diferentes compostos pertencem ao mesmo grupo funcional. Por exemplo, os álcoois. Deduzimos que o aumento da cadeia carbônica (aumento da fração hidrocarbônica) do álcool diminui a solubilidade em água. O Quadro 1 demonstra a solubilidade em água de alguns álcoois. Quadro 1: Solubilidade de álcoois em água Nome Fórmula estrutural Solubilidade em água (g/100 g de H2O) Metanol CH3OH Ilimitada Etanol CH3CH2OH Ilimitada Propanol CH3CH2CH2OH Ilimitada Butanol CH3CH2CH2CH2OH 7,9 Pentanol CH3CH2CH2CH2CH2OH 2,3 Hexanol CH3CH2CH2CH2CH2CH2OH 0,6 Heptanol CH3CH2CH2CH2CH2CH2CH2OH 0,2 Octanol CH3CH2CH2CH2CH2CH2CH2CH2OH 0,05 Entendemos por função orgânica um grupo de átomos que carrega um conjunto característico de propriedades químicas em uma molécula orgânica. Desta forma a função orgânica álcool é caracterizada pela presença de uma hidroxila ligada diretamente ao carbono de uma cadeia carbônica, o qual realiza apenas simples ligações. UNIUBE 137 Os álcoois possuem grande solubilidade em água em decorrência da ligação de hidrogênio (ponte de hidrogênio) do grupamento – OH com a molécula de água (isso foi estudado no capítulo “Forças intermoleculares – teoria e aplicação”, do primeiro volume!). Se aumentarmos a cadeia carbônica do álcool em até três carbonos, poderemos observar diferenças pouco significativas na solubilidade dos álcoois em água, ou seja, metanol, etanol e propanol são muito solúveis. A partir de quatro carbonos (butanol), essa solubilidade diminui gradualmente com o aumento do número de carbonos da cadeia. Percebemos na prática, que o octanol é praticamente insolúvel em água. Essa diminuição da solubilidade pelo aumento da cadeia se deve ao aumento da contribuição apolar pela fração hidrocarbônica (somente carbonos e hidrogênios), tornando a polaridade do composto cada vez menos semelhante à da água. Veja na representação abaixo: Generalizando, podemos dizer que a fração hidrocarbônica da molécula, formada por átomos de carbono e hidrogênio, não possui afinidade com a água, pois é a parte apolar (sem polos) da molécula. Quanto maior for essa fração, menos solúvel em água será o composto. Alguns grupos que possuem caráter polar, como (–OH), (–NH2) e (–COOH), possuem boa afinidade com a água (interações de hidrogênio). A presença desses grupos contribui para a solubilização do composto em água. As partes da molécula que contenham grupos polares são chamadas hidrofílicas (boa solubilidade em água) e contribuem para o aumento da solubilidade do composto em água. IMPORTANTE! A fração hidrocarbônica (apolar) de uma molécula é chamada de hidrofóbica (medo de água), e sua presença contribui para que o composto possua pouca ou nenhuma solubilidade em água. Chamamos de substância hidrofóbica toda espécie que não interage com a água e, quando a substância tem afinidade com a água, chamamos essa espécie de hidrofílica. Uma cadeia de hidrocarboneto é considerada hidrofóbica, enquanto grupos hidroxilas (–OH) são hidrofílicos. 138 UNIUBE O caráter anfipático do sabão Substâncias que apresentam em sua estrutura uma parte hidrofílica e outra hidrofóbica são denominadas anfipáticas, dessa forma são capazes de interagir com substâncias polares e apolares. Os sabões, detergentes, xampus etc. que usamos todos os dias possuem substâncias com esta característica. Isso explica por que conseguimos remover a sujeira empregando tais produtos. Imagine que você esteja com as mãos sujas de óleo de cozinha, uma substância apolar. Você não consegue remover o óleo de sua mão com água, pelo fato de esta substância ter caráter polar, não interagindo assim com o óleo. Quando usamos um detergente ou sabão conseguimos remover facilmente o óleo com água. Por que será que isso acontece? A explicação é bastante simples. Como no detergente e no sabão temos uma substância anfipática, a sua parte apolar interagirá com as moléculas de óleo (semelhante interage com semelhante) e a parte polar, com as moléculas de água. Dessa forma a água arrasta o óleo de nossas mãos, deixando -as limpas. O mesmo acontece todo dia quando lavamos com um xampu nossos fios de cabelos engordurados. SAIBA MAIS Seguindo esse raciocínio, observamos que álcoois e outros compostos que contenham mais que um grupamento hidroxila na cadeia, ou outro grupo que possibilite interações de hidrogênio com a água, apresentam uma grande solubilidade em água. Assim sendo tanto o 1, 2, 3 propanotriol (glicerina) como o etanodiol apresentam uma boa solubilidade em água devido à formação de interações de hidrogênio entre as hidroxilas do álcool e a água. Dessa maneira compostos que possuem várias hidroxilas em sua fórmula estrutural possibilitam a formação de muitas interações de hidrogêniocom a água e assim possuem uma boa solubilidade e são chamados de hidrossolúveis. Por outro lado, compostos que possuem uma longa cadeia de carbonos e apenas uma hidroxila apresentam pequena solubilidade em água e são chamados de lipossolúveis. UNIUBE 139 Para exemplificar esse tipo de comportamento das substâncias, vamos analisar as vitaminas de nossa alimentação, que são substâncias nutrientes, indispensáveis para a à nossa dieta alimentar. O que determina se uma vitamina pertence a um grupo ou a outro? Certamente, essa classificação é dependente da estrutura da vitamina e pode ser claramente interpretada pela presença ou ausência de grupamentos polares. A presença de vários grupos hidrófilos (hidrofílicos) tende a fazer com que essa vitamina seja muito solúvel em água, ou seja, hidrossolúvel. Esse tipo de característica é encontrada na vitamina C, presente principalmente em frutas cítricas. Ao contrário, a ausência de grupamentos hidrófilos faz com que se prepondere a fração hidrocarbônica, apolar, diminuindo a solubilidade da vitamina em água. Esse tipo de estrutura química é encontrada na vitamina A, caracterizando uma vitamina lipossolúvel, ou seja, insolúvel em água. As vitaminas são classificadas em dois grandes grupos: Hidrossolúveis (hidro = água) e Lipossolúveis (lipo = gordura) As hidrossolúveis são aquelas que se dissolvem em água, e as lipossolúveis são aquelas que se dissolvem bem em óleos e gorduras e são praticamente insolúveis em água. Observando essas estruturas químicas, podemos concluir que: • a presença de vários grupamentos – OH (grupos hidrófilos) determina uma grande solubilidade em água para a vitamina C; • a enorme cadeia carbônica formada apenas por carbono e hidrogênio (hidrófobo) predomina sobre a presença de apenas um grupo hidrófilo e, assim, a vitamina A não possui solubilidade em água. PARADA PARA REFLEXÃO 140 UNIUBE Polaridade das vitaminas e hipervitaminose As vitaminas hidrossolúveis apresentam grande solubilidade em água e podem ser facilmente eliminadas de nosso organismo pelos rins, sendo assim excretadas na urina, uma vez que esta é composta em sua maior parte por água. Dessa forma devemos repor estas vitaminas diariamente por meio de hábitos alimentares adequados. Por outro lado, as vitaminas lipossolúveis não exibem uma grande solubilidade em água e, assim, acumulam -se no fígado para serem liberadas à medida que o organismo necessitar. Um grande excesso pode levar o indivíduo a um quadro de hipervitaminose, no qual a vitamina passa a funcionar como uma substância tóxica para ele. Uma dose pequena de vitamina A, equivalente a 7,5 mg diários, por um período de apenas 25 dias, já é suficiente para causar efeitos tóxicos, tais como dores de cabeça, irritabilidade, pequena perda de cabelo e ressecamento da pele com ulcerações. SAIBA MAIS 6.3 Viscosidade Uma das propriedades características de um líquido é a habilidade de fluir. A medida dessa habilidade é denominada viscosidade. SAIBA MAIS Imagine uma situação: você tem em suas mãos um copo com água e um outro com mel. O copo que contém a água pode ser esvaziado rapidamente, enquanto o copo em que está o mel demora muito mais tempo para ser esvaziado. Quanto maior a viscosidade de um líquido, mais lentamente ele flui. Um dos fatores mais importantes na viscosidade de uma substância são as forças intermoleculares existentes entre as moléculas constituintes do material em questão. Grandes forças intermoleculares mantêm as moléculas unidas, não deixando que elas “escorreguem” entre si. Assim podemos compreender por que a água tem uma viscosidade maior que as moléculas de benzeno. Em termos de interações, as moléculas de água estão unidas por fortes ligações de hidrogênio (pontes de hidrogênio), enquanto as moléculas de benzeno estão unidas por fracas forças do tipo dipolo induzido -dipolo induzido. Dessa forma as moléculas de benzeno escorregam entre si com grande facilidade, mas, para que as moléculas de água se movam, as fortes ligações de hidrogênio precisam UNIUBE 141 ser rompidas. Ácido fosfórico, H3PO4, e glicerol, C3H8O3, são bastante viscosos à temperatura ambiente devido às numerosas ligações de hidrogênio que essas moléculas fazem entre si. E atenção: uma ideia errônea que muitas pessoas acabam tendo é aquela de que forças intermoleculares do tipo dispersões de London não contribuem para a alta viscosidade de alguns líquidos. Um exemplo para romper com esse mito é o caso do azeite de oliva que consiste em moléculas com longas cadeias de carbono e é aproximadamente cem vezes mais viscoso do que o etanol, uma molécula pequena com apenas dois átomos de carbono e um de oxigênio. Essas cadeias longas do óleo são maleáveis e entrelaçam entre si (como se fosse um espaguete cozido) e dessa forma, quanto maior a cadeia, maior o entrelaça- mento, portanto maior a viscosidade. A viscosidade também sofre grande influência da temperatura. Quanto maior for a temperatura do líquido, menor a viscosidade. IMPORTANTE! A água, por exemplo, a 100 °C é 6 vezes maior do que a 0 °C. Isso quer dizer que a água a 100 °C poderá escoar por um cano 6 vezes mais rápido do que a 0 °C. Os cientistas ainda não conseguiram explicar por que a água, com seu grande número de ligações de hidrogênio, não apresenta maior viscosidade. Quem sabe um dia você poderá nos fornecer essa explicação! SAIBA MAIS Uma aplicação importante da viscosidade se encontra na indústria automotiva. A Sociedade dos Engenheiros Automotivos (SAE) dispõe de uma grande quantidade de óleos lubrificantes, os quais são classificados segundo o grau de viscosidade que apresentam. De acordo com esse órgão, os óleos lubrificantes podem ser divididos em dois grupos: aqueles que são adequados para o “verão”, cuja 142 UNIUBE viscosidade é medida a altas temperaturas (SAE 20, SAE 30, SAE 40, SAE 50 e SAE 60), e aqueles de “inverno” (winter, em inglês), identificados pela letra W, com viscosidade medida em baixas temperaturas (SAE 0W, SAE 5W, SAE 10W, SAE 15W, SAE 20W e SAE 25W). A escolha do óleo ideal é de grande importância para a vida útil do motor. Um óleo fino (menos viscoso) evita o atrito entre as peças do motor, enquanto um óleo mais grosso (mais viscoso) leva a um gasto maior de combustível. No mercado existe o que se denomina óleos multiviscosos, que atendem a duas exigências. Eles são indicados para temperaturas baixas, assim como para altas. Com isso obtém -se um desempenho maior, pois eles se comportam como óleos mais “finos” (ideal para o inverno) no momento da partida do motor, garantindo assim boa lubrificação e menor resistência ao atrito das peças quando o motor está frio. Para exemplificar, tome por base o óleo classificado como SAE 10W/40, que, em baixas temperaturas, comporta-se como um óleo SAE 10W, facilitando a partida a frio. Já em altas temperaturas, comporta-se como um produto SAE 40, garantindo a formação de uma camada lubrificante suficientemente espessa para proteção dos componen- tes do motor. Comparando um óleo SAE 20W/40 com um SAE 20W/50, pode -se dizer que, a baixas temperaturas (ou na partida a frio), eles têm a mesma viscosidade, porém a altas temperaturas o óleo SAE 20W/50 propicia a formação de uma camada mais grossa do que um lubrificante SAE 20W/40. SAIBA MAIS 6.4 Conclusão Acabamos de estudar, neste capítulo, a relação entre polaridade e viscosidade com as forças intermoleculares, presentes em compostos orgânicos, e como podemos explicar algumas condições físico -químicas dessas espécies. Esses conhecimentos são importantes quando aplicados a situações cotidianas que apresentam problemáticas, em razão de a interação entre as moléculas não ser efetiva. Além disso, o estudo das forças intermoleculares pode nos orientar em situações decontrole de qualidade de matérias -primas, por exemplo, a viscosidade, tão empregada e conhecida nos mais diversos segmentos industriais, químicos e biotecnológicos. As propriedades físicas da matéria Capítulo 7 Sebastião Francelino da Cruz Introdução Neste capítulo serão discutidos conceitos sobre as propriedades físicas que permitem a identificação de substâncias sólidas, líquidas ou gasosas. Vários conceitos são essenciais para o entendimento deste capítulo e principalmente para o estudo sobre forças intermoleculares. Cabe res- saltar que as discussões sobre os conceitos trabalhados não se esgotam neste capítulo, pois perpassam as outras unidades temáticas do curso. Quanto à metodologia, trata -se de ensino experimental, que envolve elaboração de ideias e conduz a conceitos trabalhados. O estudo da química torna -se mais concreto quando o aluno vivencia o que está sendo estudado. Portanto temos atividades teóricas e práticas, as quais poderão ser realizadas em sua própria casa com materiais domésticos. Alguns procedimentos experimentais serão realizados nos encontros presenciais, e outros dados são apresentados como atividade para discussão. As atividades propostas priorizam a discussão dos conceitos estudados e não a simples memorização ou aplicação de fórmulas matemáticas. Desse modo faz-se necessário um trabalho operativo do conhecimento e, mesmo a distância, espera -se que o aluno faça infe- rências, comparações, estabeleça relações, interpretações gerando uma discussão entre educador e educando, propiciando o desenvolvi- mento de habilidades cognitivas. O texto a seguir serve como alicerce para a discussão dos conceitos trabalhados neste capítulo. As atividades estão colocadas ao longo do texto, no final ou, quando necessário, é indicada outra leitura obrigató- ria, a qual é essencial para a construção do conhecimento. Alguns conceitos essenciais também estão presentes em outros capítulos e será sugerida a leitura ou releitura destes, se necessário. 144 UNIUBE Então vamos começar nossa viagem pelo mundo da química! Objetivos Esperamos que, ao término dos estudos deste capítulo, você seja capaz de: • conceituar e identificar as propriedades da matéria, de suas várias formas de transformação, produção e utilização; • analisar dados obtidos nos experimentos e/ou fornecidos em tabelas, elaborando conclusões a partir de suas análises; • selecionar e organizar informações para compreensão de situações -problema referentes às propriedades dos materiais; • relacionar as propriedades físicas da matéria com as proprieda- des microscópicas; • utilizar instrumentos de medição e cálculo aplicados à química; • entender métodos e procedimentos próprios das ciências natu- rais, aplicando -os ao cotidiano. Esquema • Propriedades da matéria. • Densidade. • Determinação da densidade de sólidos. • Bureta. • Proveta. • Determinação da densidade de líquidos. • Variação da densidade em função da temperatura. • Estados físicos da matéria. • Plasma: o quarto estado da matéria. • Ponto de fusão. • Ponto de ebulição. • Viscosidade. 7.1 Propriedades da matéria Sempre que tocamos ou medimos a massa de algo, estamos tratando diretamente com matéria. Toda a química preocupa -se com as propriedades da matéria e, particularmente, com como uma forma de matéria pode ser convertida em outra. UNIUBE 145 Propriedades da matéria são características físico -químicas que permitem identificar e diferenciar materiais. De fato matéria é algo difícil de ser definido com precisão, sem se apoiar em ideias avançadas da física das partículas elementares, mas uma definição de trabalho imediata é que matéria é qualquer coisa que tenha massa e ocupe lugar no espaço. Agora, pare e tente identificar no seu cotidiano o que é matéria e o que não é. Portanto cadeira, água e brinquedos são formas de matéria; radiação eletromagnética e justiça não são. Se você realizou o exercício, notou que os diferentes materiais identificados possuem propriedades que permitem identificá-los e diferenciá -los. Estas características são chamadas de propriedades da matéria. Podemos analisar as características de uma substância química de duas formas: primeiro por meio de uma análise macroscópica, caso em que se estudam as características que podemos perceber sem a ajuda de instrumentos, como o gosto de substância, o cheiro, o estado físico (sólido, líquido ou gasoso), a cor entre outras, ou por meio de uma análise microscópica, realizada com a ajuda de um microscópio. Por meio deste tipo de análise podemos, por exemplo, observar como estão organizadas as partículas no estado líquido, sólido ou gasoso de uma substância. A química está intimamente envolvida com as “propriedades da matéria”, e estas características macroscópicas estão relacionadas diretamente com as propriedades microscópicas que veremos em nosso curso. Você deve ter percebido que propriedades, como cheiro, sabor, cores, podem nos ajudar na diferenciação de materiais. SAIBA MAIS As propriedades das substâncias podem ser classificadas de duas formas: como extensivas ou intensivas. Propriedades extensivas: são diretamente proporcionais à quantidade de matéria da substância presente na amostra. Por exemplo: massa (m) e volume (V). Propriedades intensivas: independem da quantidade de matéria. Por exemplo: temperatura (T), pressão (p), cor e densidade (d). Neste capítulo, abordaremos as seguintes propriedades: densidade, ponto de fusão e ebulição e viscosidade. 146 UNIUBE 7.1.1 Densidade De todas as propriedades que podemos utilizar para diferenciar um material, a densidade é uma das mais importantes, que é definida como a relação entre a massa de uma substância e o volume que ela ocupa. Por meio de conceitos simples e fatos do cotidiano, o educador pode levar o aluno a uma viagem no mundo da Química. Muitos pensam que a densidade é apenas o resultado de uma operação arit- mética de divisão entre a massa e o volume de uma substância, mas esse conceito é muito mais amplo e está relacionado a outros, como compressão e empacotamento. Por exemplo: quanto maior for o empacotamento dos átomos, mais densa será a substância. Assim podemos definir densidade ou massa específica como a quantidade de matéria que se pode colocar em um determinado espaço, mas especificamente em um determinado volume. Quanto maior o valor da densidade de um material, maior a quantidade de massa presente no espaço abordado. O diamante, por exemplo, possui uma densidade de 3,52 g/cm3, indicando que no espaço de 1 cm3 cabe uma massa de 3,52 g de diamante. Já a densidade da pedra preciosa rubi é de 4,10 g/cm3, indicando que no mesmo espaço de 1 cm3 ocupado por 3,52 g de diamante cabe uma maior massa de rubi: 4,10 g. A densidade recebe o nome de massa específica porque indica, especificamente, a quantidade de material que cabe em um determinado volume. IMPORTANTE! O cálculo da densidade é feito utilizando a equação a seguir: Mas lembre -se de que o volume pode apresentar -se sob outras unidades. Então torna -se necessária a transformação para a unidade em que se deseja realizar o cálculo, de acordo com a proporcionalidade: 1 cm3 = 1 ml 1 dm3 = 1 l 1 l = 1.000 ml UNIUBE 147 Existem várias situações que podem levar o aluno ao entendimento do conceito de densidade. A melhor metodologia para auxiliar a construção do conhecimento é utilizar fatos experimentais que envolvam elaboração de ideias que conduza o aluno aos conceitos trabalhados. O simples fato de blocos de gelo flutuarem na água traz evidência de várias propriedades físico -químicas. Vamos ver alguns exemplos em que a densidade é aplicada para caracterizar um material. 7.1.1.1 Aplicações da densidade A seguir serão descritas algumas situações emque a densidade é utilizada no nosso cotidiano para caracterização de materiais. Densidade da urina Você já notou que, ao se fazer um exame clínico de urina, uma das características analisadas é a densidade? A densidade normal da urina humana varia de 1,003 g/ml a 1,030 g/ml. Valores fora desta faixa têm valor de diagnóstico. Por exemplo: a urina de uma pessoa que sofre de diabetes melito contém maior quantidade de açúcar, assim terá uma densidade maior do que a normal. Por outro lado, uma pessoa que sofre de diabetes insípido terá a urina com densidade em torno de 1,00 g/ml em virtude da grande quantidade de água excretada. Osteoporose e densidade óssea Osteoporose é uma enfermidade que diminui a massa óssea como resultado da deficiência em compostos de cálcio. Os ossos de uma pessoa com osteoporose são frágeis e suscetíveis à fratura. As mudanças de densidade óssea são medidas por meio de técnicas radiográficas ou imagens de ultrassom para determinar a presença da perda de cálcio. Caracterização do leite: O leite é constituído principalmente por água, gordura, vitaminas, proteínas, enzimas, lactose e substâncias minerais. A densidade do leite varia entre 1,023 g/ml e 1,040 g/ml, a 15 °C. O valor médio é 1,032 g/ml. O leite com alto teor de gordura apresenta menor densidade em relação ao leite com baixo teor de gordura, sendo uma das características determinada nos laticínios para assinalar quanto ao tipo do leite. A densidade de substâncias líquidas e sólidas pode ser medida por meio de experimentos simples, por exemplo, a medição da massa e do volume de determinado líquido ou de técnicas mais sofisticadas como as realizadas na densiometria óssea. 148 UNIUBE Nos encontros presenciais serão realizados experimentos para determinação de densidades de algumas substâncias sólidas e líquidas, mas alguns experimentos são fáceis de ser realizados e podem ser executados em sua própria casa. 7.1.1.2 Determinação da densidade de sólidos Para determinação da densidade de um sólido precisamos determinar a sua massa e o seu volume. A massa é determinada simplesmente pesando o sólido em uma balança de precisão. Já o volume pode ser determinado por meio do método de deslocamento de volume. Este método consiste em colocar o material em uma vidraria graduada, a qual contém certa quantidade conhecida de um líquido no qual o sólido não flutue. Entre as vidrarias que podem ser utilizadas estão as buretas e as provetas, que deverão ser escolhidas de acordo com a dimensão do sólido. Portanto o volume do sólido é obtido fazendo -se a diferença entre o volume final e o volume inicial. Ao anotar o volume, o aluno deve tomar o cuidado de olhar corretamente a posição do menisco para não haver erro na leitura da medida. Figura 1: Menisco Fonte: Desenho; Acervo EAD-Uniube. Bureta Uma bureta é um tubo graduado de vidro com uma torneira na sua parte inferior, usada para medir e escoar líquidos. As buretas variam, em tamanho, de 1 a 100 ml. Uma bureta com capacidade para 50 ml é subdividida em intervalos de 0,1 ml. Buretas que possuem capacidades de 10 ml ou menos são classificadas como microburetas. Menisco É a curvatura que os líquidos experimentam devido às diferenças de forças físicas que ocorrem entre o líquido e o recipiente e entre as próprias moléculas do líquido. UNIUBE 149 Figura 2: Bureta Fonte: Desenho; Acervo EAD-Uniube. O escoamento do líquido a partir da bureta é geralmente controlado por uma torneira feita de vidro ou teflon. O último tipo não requer lubrificante, sendo especialmente útil quando o titulante é um álcali. A torneira feita de vidro deve ser suavemente untada com lubrificante do tipo vaselina. As buretas são utilizadas em análises volumétricas, tais como a titulação ácido-base. Proveta Figura 3: Proveta Fonte: Desenho; Acervo EAD-Uniube. Uma proveta ou cilindro graduado é um frasco cilíndrico com graduações, destinado a medidas aproximadas de volume de líquidos. Pode ser de vidro ou de material plástico. Não pode ser aquecido e é menos preciso que as buretas. 7.1.1.3 Determinação da densidade de líquidos A densidade do líquido pode ser determinada analogamente à densidade do sólido, medindo -se a sua massa e determinando o seu volume. Entretanto, no caso dos líquidos, uma alteração relativamente pequena na temperatura pode afetar consideravelmente o valor da densidade, enquanto a alteração de pressão tem que ser relativamente alta para que o valor da densidade seja afetado. 150 UNIUBE A densidade apresenta variações periódicas com o número atômico, mas essas variações não são regulares, já que a relação entre as propriedades físicas e a configuração eletrônica não é direta. A densidade também pode ser medida experimentalmente, utilizando -se vidrarias específicas. Os densímetros (aerômetros ou ainda flutuadores) são os aparelhos utilizados para determinação da densidade de líquidos. Constituem -se de uma coluna de vidro graduada, a qual termina num tipo de bulbo com forma aerodinâmica e na qual se deposita um lastro ou peso. O aparelho é mergulhado no líquido, atingindo o equilíbrio numa posição vertical. Neste ponto, o peso do aparelho é igual ao empuxo, ou seja, ao peso do volume líquido deslocado: Figura 4: Densímetro Fonte: Desenho; Acervo EAD-Uniube. Um exemplo de aerômetros que podemos encontrar no nosso cotidiano são aqueles dispositivos que são colocados em um recipiente ao lado da bomba de álcool nos postos de abastecimento. Este tipo de medida é muito fácil de se fazer e é rápido, mas não tem muita precisão. Os aerômetros são calibrados para uma única temperatura de referência e apresentam uma grande variedade de escalas. Utilizando a densidade podemos medir indiretamente outras propriedades do material. Cada ramo da indústria criou sua própria escala baseando -se na densidade de seus materiais. Por exemplo, a densidade do álcool é 0,79 g/ml e a densidade da água é próxima de 1,0 g/ml dependendo da temperatura. Portanto a densidade de soluções de álcool e água deve ficar entre 0,79 e 1,0 g/ml. Vale ressaltar que há soluções com maior quantidade de álcool, que tendem a ficar mais próximas da densidade do álcool, enquanto soluções com menor quantidade de álcool tendem a ficar próximas da densidade da água. UNIUBE 151 As indústrias de bebidas destiladas utilizam esta relação para medir o teor de álcool em um densímetro conhecido por alcoômetro. Do mesmo modo, a indústria de laticínios tem o lactômetro para medir o teor de lactose. Figura 5: Picnômetro Fonte: Desenho; Acervo EAD-Uniube. Os picnômetros são pequenos frascos de volume definido. Os mais comuns são os de 1 ml, 2 ml, 5 ml, 10 ml e 25 ml. Picnômetros são utilizados para a determinação de densidades de líquidos e sólidos, além de serem vidrarias mais precisas que os densímetros. 7.1.1.4 Variação da densidade com a temperatura A temperatura de uma amostra da matéria afeta diretamente os valores numéricos de suas propriedades. A densidade é um exemplo particularmente importante. Embora a mudança na densidade da água de acordo com a temperatura pareça pequena, ela afeta profundamente nosso ambiente. Por exemplo, à medida que a água de um lago esfria, sua densidade aumenta e a água mais densa afunda. Isso continua até que a temperatura da água atinja 4,0 °C. Se água é resfriada a 0 °C, forma -se o gelo sólido, que, por ser menos denso que a água, flutua nela. O Quadro 1 apresenta a variação da densidade da água em função da temperatura. Quadro 1: Variação da densidade da água em função da temperatura – °C 152 UNIUBE Experimentando na cozinha Experimentando na cozinha são roteiros de aulas práticas com materiais de fácil aquisição ou que você pode até mesmo encontrar na cozinha de sua casa.Estas práticas devem ser realizadas para uma melhor compreensão dos conceitos estudados. A realização de experimentos contribui significativamente para a construção do conhecimento, despertando no aluno um senso prático de observação. Experimento 1: comparando a densidade de líquidos Materiais e reagentes necessários: – Copo de 200 ml – Água – Groselha – Azeite – Mel – Álcool etilíco Procedimento experimental: • Coloque um pouco de groselha na água de maneira que esta fique ligeiramente corada de vermelho. A adição de groselha é feita somente para facilitar a visualização. • Coloque a solução de água e groselha no copo de 200 ml. • Em seguida, cuidadosamente, coloque o azeite na superfície da água corada. Utilize um lápis ou caneta para fazer a adição, deixando o azeite escorrer lentamente. • Utilizando o mesmo procedimento anterior, adicione o álcool etílico. • Finalmente, adicione o mel. • Observe atentamente o resultado e registre detalhadamente estas observações. EXPERIMENTANDO UNIUBE 153 Experimento 2: comparando a densidade de sólidos e líquidos Materiais e reagentes necessários: – Copo de vidro – Pedaço de borracha – Pedaço de palito – Pedaço de rolha ou cortiça – Plástico – Água – Azeite – Groselha – Mel – Álcool Etílico Procedimento experimental: • Neste experimento, vamos utilizar o mesmo copo com os líquidos que foram utilizados no experimento anterior. • Agora, com cuidado, coloque o pedaço de borracha, o pedaço de palito, o pedaço de rolha ou cortiça e por fim o plástico. • O que você observa? Compare a densidade dos sólidos em relação à dos líquidos. • É possível verificar que a madeira e a rolha ficam à superfície do álcool. O plástico coloca -se na superfície do azeite, e o pedaço de borracha fica na superfície do mel. • Mais uma vez, observe atentamente o resultado e registre detalhadamente estas observações. EXPERIMENTANDO 7.2 Estados físicos da matéria Para analisarmos o estado físico de um material, devemos levar em consideração o tipo de força que existe entre as partículas que constituem o material: atrações ou repulsões. A seguir, faça um resumo, apresentando as principais características dos estados físicos da matéria. 154 UNIUBE 7.2.1 Estado sólido Prevalecem as forças atrativas. O material terá suas partículas constituintes bem próximas e unidas. Logo: • Forças atrativas > forças repulsivas. • Partículas muito próximas umas das outras. • Pouca energia cinética (Ec), isto é, as partículas estão impossibilitadas de se movimentarem. • Forma fixa em virtude de as forças de atração prevalecerem sobre as for- ças de repulsão. • À temperatura constante, o volume é fixo. Como as partículas estão imóveis, o espaço ocupado por elas não varia. 7.2.2 Estado líquido Prevalecem as forças repulsivas. O material terá suas partículas bem afastadas. Logo: • Forças atrativas ≈ forças repulsivas. • Partículas nem muito afastadas, nem muito próximas. Num estágio interme- diário entre o sólido e o gasoso. • Energia cinética (Ec) maior que no estado sólido, mas menor que no estado gasoso. As partículas adquirem certa mobilidade. • Perde a forma fixa devido à diminuição das forças de atração. • À temperatura constante, o volume mantém -se fixo, pois a mobilidade das partículas é limitada. 7.2.3 Estado gasoso Ocorre uma proximidade entre a intensidade das forças atrativas e repulsivas. Logo: UNIUBE 155 • Forças atrativas < forças repulsivas. • Partículas muito afastadas umas das outras. • Muita energia cinética (Ec), isto é, as partículas tendem a ficar o mais distante umas das outras. • Forma fixa inexistente toma a forma do recipiente que a contém. • Volume fixo inexistente ocupa o espaço total do recipiente onde se encontra. 7.2.4 Plasma: o quarto estado da matéria O quarto estado da matéria é o plasma, originado dos gases. É um intermediário da fusão nuclear e, por isso, alvo de pesquisa da física moderna. O plasma é um conjunto quase neutro de partículas eletricamente carregadas, formado pela ionização de átomos e moléculas por excitação energética de radiações eletromagnéticas, calor (radiação térmica), micro -ondas etc. Este processo faz com que haja a formação de íons que, durante a recombinação de seus elétrons, emitem radiação visível ou não. Exemplo comum de plasma é o fogo e a aurora boreal e austral, formada pela excitação de átomos da atmosfera por correntes de partículas carregadas do vento solar. Existiria ainda um quinto estado da matéria, que ocorre quando os átomos são resfriados até os elétrons pararem de girar. 7.2.5 Ponto de fusão (PF) Entende -se por ponto de fusão o ponto em que um material passa do estado sólido para o estado líquido. Para um material passar para o estado líquido é necessário calor, pois este faz com que as partículas (átomos, moléculas, íons) que o formam se separem ou, pelo menos, que aumente a distância entre elas. O valor da temperatura em que ocorre essa mudança de fase sólida para fase líquida recebe o nome de ponto de fusão. Essa temperatura única somente ocorre quando estamos aquecendo substâncias puras, uma vez que as misturas, ao mudarem de fase, só a fazem com variação da temperatura. Por exemplo: a água, substância pura, tem ponto de fusão igual a 0 ºC e o ferro, também uma substância pura, tem seu ponto de fusão a 1.536 ºC, o que significa que a água transforma -se de sólida em líquida quando atinge 0 ºC, ao passo que o ferro só mudará da fase sólida para a líquida a 1.536 ºC. Energia cinética É a quantidade de força aplicada sobre um objeto ao longo de um deslocamento, para tirá -lo do repouso e colocá -lo a uma velocidade v. 156 UNIUBE 7.2.6 Ponto de ebulição (PE) Define -se ponto de ebulição como a temperatura em que um corpo passa do estado líquido para o estado gasoso. Para que isto ocorra é necessário calor, que faz com que as partículas (átomos, moléculas, íons) que o formam se separem, ou pelo menos que aumente a distância entre elas. O valor da temperatura em que ocorre essa mudança de fase líquida para fase gasosa recebe o nome de ponto de ebulição. Essa temperatura única só ocorre quando estamos aquecendo substâncias puras, uma vez que as misturas, ao mudarem de fase, só a fazem com variação da temperatura. Por exemplo: a água, substância pura, tem temperatura de ebulição (t.e.) igual a 100 ºC e o ferro, também uma substância pura, tem uma t.e. de 3.000 ºC, o que significa que a água transforma -se de líquida em vapor quando atinge 100 ºC, ao passo que o ferro só mudará da fase líquida para a gasosa a 3.000 ºC. Quanto mais fortes forem as atrações entre as partículas constituintes de um material, maior será a temperatura de fusão e a temperatura de ebulição, pois maior quantidade de calor será necessária para a separação dessas partículas e, por conseguinte, a mudança de estado físico. SAIBA MAIS 7.2.7 Viscosidade Outra propriedade utilizada para caracterizar fisicamente um material é a viscosidade, definida como a resistência apresentada por um líquido de fluir (escoamento). Na indústria de óleos, cosméticos, vernizes e tintas, a viscosidade constitui uma de suas principais preocupações, por isso essas indústrias empregam diversos instrumentos de medida de grande precisão. A viscosidade dos líquidos vem do atrito interno, isto é, das forças de coesão entre moléculas relativamente juntas. Desta maneira, enquanto a viscosidade dos gases cresce com o aumento da temperatura, nos líquidos ocorre o oposto. Com o aumento da temperatura, aumenta também a energia cinética média das moléculas, diminuindo assim o intervalo de tempo em que as moléculas passam uma junto da outra, tornando menos efetivas as forçasintermoleculares, consequentemente, menor será a viscosidade. O octano, por exemplo, tem viscosidade de 0,706 cP a 0 °C e 0,433 cP a 40 °C. A temperaturas mais altas, quanto maior a energia cinética das moléculas, maior a facilidade para vencer as forças atrativas entre as moléculas. UNIUBE 157 Os conceitos sobre forças intermoleculares, que foram vistos nos Capítulos 5 e 6 deste livro, são extremamente importantes para o entendimento deste conteúdo. IMPORTANTE! Figura 6: Viscosímetro – Ostwald Fonte: Acervo EAD-Uniube. Os viscosímetros são aparelhos destinados à medição da viscosidade dos líquidos. Segundo a lei de Poiseuille para o escoamento de líquido viscoso num tubo estreito: “A vazão é inversamente proporcional ao comprimento do tubo e ao coeficiente de viscosidade do líquido; é diretamente proporcional à quarta potência do raio do tubo e à diferença das pressões entre suas extremidades”. Na maioria dos viscosímetros, é feita a medida do tempo gasto por uma quantidade definida de líquido para fluir através de um tubo de raio e comprimento conhecidos. Os exemplos mais comuns de viscosímetros são os de Engler, Ostwald, Barber e os de Saybolt -Furol, usados na indústria de lubrificantes. O viscosímetro de Ostwald mede, basicamente, o tempo de escoamento de um líquido através de um tubo capilar de comprimento L, conforme mostra a Figura 6. Se considerarmos dois líquidos (um deles tomado como padrão, normalmente a água, cuja viscosidade é 1.000 centipoise a 20 °C), teremos apenas duas variáveis no escoamento através do viscosímetro: o próprio tempo de escoamento e a massa ocupada pelo líquido. Chamando de “2” o líquido padrão e de “1” o líquido cuja viscosidade se deseja medir e aplicando a equação de Poiseuille para ambos os líquidos, pode -se chegar à seguinte equação: 158 UNIUBE Em que: d = densidade t = tempo de escoamento (s) η = viscosidade relativa (lê -se: centipoise) 7.3 Conclusão No estudo da formação da matéria, introduzimos os estudos das propriedades macroscópicas e microscópicas, interagindo-as com as propriedades extensivas e intensivas da matéria. Dessa forma foi trabalhada a densidade de sólidos e líquidos e as várias maneiras de se determinar seus valores, apresentando técnicas precisas, como a picnometria. Apresentamos ainda os estados da matéria e a viscosidade de líquidos e como estas propriedades são totalmente dependentes da temperatura. Além dos estudos teóricos desenvolvidos no capítulo, trabalhamos algumas propostas para experimentos práticos que podem ser executados com materiais alternativos encontrados em nossas casas com facilidade. A densidade de metais pode ser medida pelo método de pesagem e deslocamento de volume, utilizando uma proveta. Por meio da medida de densidade, podemos determinar se o metal é uma liga ou não. IMPORTANTE! Grupo 1 Massa do chumbo 13,23 g Volume de água na proveta 5,0 ml Volume final da proveta (água + chumbo) 6,11 ml Grupo 2 Massa do alumínio 5,56 g Volume de água na proveta 30,0 ml Volume final da proveta (água + metal) 31,99 ml UNIUBE 159 Grupo 3 Massa do estanho 8,56 g Volume de água na proveta 30,0 ml Volume final da proveta (água + metal) 31,21 ml Observe as densidades aproximadas de algumas substâncias nas tabelas a seguir: Substância d/(g cm–3) Substância d/(g cm–3) Aço inoxidável 7,9 Latão 8,4 Água 1,0 Mercúrio 13,6 Álcool 0,79 Níquel 8,9 Alumínio 2,7 Ouro 19,3 Chumbo 11,3 Platina 21,4 Cobre 8,9 Prata 10,5 Estanho 7,26 Vidro 2,6 Ferro 7,9 a) Determine o resultado da densidade obtido por cada grupo de alunos e calcule o erro relativo percentual para cada resultado. Não se esqueça de considerar os valores de densidade aproximados que estão nas tabelas anteriores. Experimental Tabelado Tabelado V V Er x 100 V − = Experimental b) Indique qual dos grupos obteve melhor exatidão em seu experimento. Justifique sua resposta calculando o erro relativo percentual. c) Se os alunos trabalhassem com massas maiores de metais, o valor da densidade calculada seria o mesmo? Justifique sua resposta. Sugestão: calcule o volume do metal, fazendo a diferença entre o volume final (água + metal) e o volume inicial. Vamostra = Vfinal – Vinicial 160 UNIUBE UNIUBE 161 Anotações ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________