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Bens ou coisas (res) são todos os objetos suscetíveis de conceder uma utilidade qualquer ao homem. A pessoa que pode dispor de uma coisa, usufruí-la ou até destruí-la é titular do direito mais amplo. Para nós, “bens” têm esse sentido, pois aqui incluímos as coisas não materiais. AS COISAS IN PATRIMONIO As coisas patrimoniais são aqueles bens que entram para o patrimônio dos indivíduos, são as coisas suscetíveis de propriedade privada. As coisas in patrimônio dividem-se em res mancipi e res nec mancipi, em coisas corpóreas e incorpóreas, em móveis e imóveis. Res Mancipie e Res Nec Mancipi Res mancipi eram as coisas mais úteis para os romanos primitivos, enquanto as res nec mancipi eram as coisas de menor importância. considerando-se os imóveis como as coisas de maior valor. As res mancipi eram as coisas mais úteis, mais valiosas. Assim, a terra e tudo que auxiliava em sua exploração estavam nessa categoria. A transferência da propriedade das res mancipi era realizada por meio dos atos formais da emancipação, enquanto as res nec mancipi se transferiam por simples tradição. Coisas Corpóreas e Coisas Incorpóreas Coisa corpórea (res corporalis) é uma coisa material percebida pelos sentidos, que se pode tocar É incorpóreo o que os sentidos não podem perceber, como um crédito, por exemplo. As coisas incorpóreas são os direitos de crédito, o direito à herança. O direito de propriedade era considerado coisa corpórea, os outros direitos eram considerados coisas incorpóreas. A distinção entre as coisas corpóreas e incorpóreas é interessante sob o aspecto da posse, pois apenas as coisas corpóreas podiam ser objeto de posse, que é o poder físico exercido sobre a coisa. Móveis e Imóveis Coisas móveis são as que se podem deslocar sem perda ou deterioração de sua substância. As imóveis são as que, ao contrário, não podem ser deslocadas. Estabelece-se diferença nos prazos de usucapião: para os móveis era de um ano, para os imóveis, de dez anos. O furto só é possível para as coisas móveis. COISAS EXTRA PATRIMONIUM Consideram-se coisas fora do patrimônio tudo que não pode entrar para o acervo do indivíduo, nem é suscetível de apropriação privada. Há duas classes de coisas extra patrimonium: uma diz respeito às coisas de direito humano (res humani iuris); outra diz respeito às coisas de direito divino (res divini iuris). Res Humani Iuris São as res communes e as res publicae. Res communes são as coisas que, por sua natureza, não podem ser apropriadas pelo indivíduo; são de uso comum a todos, como o ar, a água corrente, os rios etc. Res publicae são as coisas de uso comum a todos, mas propriedade do povo romano, como as estradas, os portos etc. Res Divini Iuris Distinguiam-se três espécies de res divini iuris: as res sacrae, as res religiosae e as res sanctae. Res sacrae são as coisas consagradas aos deuses superiores, como os templos, as estátuas dos deuses, os bosques sagrados. Res religiosae são os lugares dedicados aos mortos, como os edifícios e os terrenos destinados às sepulturas. Res sanctae são as coisas que, apesar de não dedicadas aos deuses, possuem caráter religioso, como os muros e as portas da cidade, os marcos dos campos. PATRIMÔNIO Os direitos obrigacionais, também chamados pessoais, têm em mira o crédito, como direito imaterial. O direito real é uma faculdade que pertence a uma pessoa, com exclusão de qualquer outra, incidente diretamente sobre uma coisa determinada, oponível erga omnes, isto é, perante todos. O direito obrigacional é uma faculdade, relação transitória entre um credor e um devedor que tem por objeto prestação devida por este àquele, podendo ser de dar, de fazer e não fazer alguma coisa. O conjunto de direitos reais e de direitos obrigacionais ou pessoais forma os direitos do patrimônio. O patrimônio é o conjunto de direitos reais e obrigacionais, ativos e passivos, pertencentes a uma pessoa. No Direito Romano, nem todas as pessoas detinham capacidade para possuir patrimônio. Era necessário que a pessoa fosse um pater familias. Os escravos, a mulher e os filhos sob o pátrio poder não possuíam patrimônio. BENS E COISAS: OBJETO DO DIREITO O objeto do Direito pode ser a existência mesma da pessoa, seus atributos da personalidade: a honra, a liberdade, a manifestação do pensamento. O objeto do Direito pode traduzir-se também em uma atividade da pessoa; uma prestação; um fazer ou deixar de fazer algo. Entende-se por bens tudo o que pode proporcionar utilidade aos homens. Bem, numa concepção ampla, é tudo que corresponde a nossos desejos, nosso afeto em uma visão não jurídica. No campo jurídico, bem deve ser considerado aquilo que tem valor, abstraindo-se daí a noção pecuniária do termo. Coisas são os bens apropriáveis pelo homem. Assim, todos os bens são coisas, mas nem todas as coisas merecem ser denominadas bens. O sol, o mar, a lua são coisas, mas não são bens, porque não podem ser apropriados pelo homem. Na verdade, há bens jurídicos que não podem ser nomeados como coisas, como é o caso da honra, da liberdade, do nome. BENS CORPÓREOS E INCORPÓREOS Bens corpóreos são aqueles que nossos sentidos podem perceber: um automóvel, um animal, um livro. Os bens incorpóreos não têm existência tangível. São direitos das pessoas sobre as coisas, sobre o produto de seu intelecto, ou em relação a outra pessoa, com valor econômico: direitos autorais, créditos, invenções. As coisas corpóreas podem ser objeto de compra e venda, enquanto as incorpóreas prestam-se à cessão. As coisas incorpóreas não podem ser objeto de usucapião nem de transferência pela tradição. MÓVEIS E IMÓVEIS Imóveis são aqueles bens que não podem ser transportados sem perda ou deterioração, enquanto móveis são os que podem ser removidos, sem perda ou diminuição de sua substância, por força própria ou estranha. Regime dos Bens Móveis São três as categorias de bens móveis: por natureza, por antecipação e por determinação da lei. São móveis por natureza “os bens suscetíveis de movimento próprio, ou de remoção por força alheia, sem alteração da substância ou da destinação econômico-social” (art. 82). São, portanto, as coisas corpóreas que se podem movimentar, por força própria ou alheia, com exceção daquelas que se agregam aos imóveis. O direito moderno reconhece a categoria dos móveis por antecipação. São bens que, incorporados ao solo, destinam-se à separação e serão convertidos em móveis, como é o caso de árvores que se converterão em lenha, ou da venda de uma casa para demolição. O art. 83 considera móveis por determinação legal: “I – as energias que tenham valor econômico; II – os direitos reais sobre objetos móveis e as ações correspondentes; III – os direitos pessoais de caráter patrimonial e respectivas ações.” BENS FUNGÍVEIS E INFUNGÍVEIS Bens fungíveis são aqueles que podem ser substituídos por outros do mesmo gênero, qualidade e quantidade, tais como cereais, peças de máquinas, gado etc. Bens infungíveis são aqueles corpos certos, que não admitem substituição por outros do mesmo gênero, quantidade e qualidade, como um quadro de Portinari, uma escultura ou qualquer outra obra de arte. Fungíveis são as coisas avaliadas e consideradas no comércio em sua massa quantitativa, enquanto infungíveis são as coisas consideradas em sua massa individual. A vontade das partes não pode tornar fungíveis coisas infungíveis, por faltar praticidade material, mas a infungibilidade pode resultar de acordo de vontades ou das condições especiais da coisa, à qual, sendo fungível por natureza, se poderá atribuir o caráter de infungível. Assim, uma garrafa de vinho pode ser emprestada apenas para uma exposição:por vontade da parte, o que é fungível torna-se infungível. É no Direito das Obrigações que a diferença avulta de importância: o mútuo é o empréstimo de coisas fungíveis, ao contrário do comodato, que é o empréstimo de coisas infungíveis (arts. 579 e 586). O dinheiro é bem fungível por excelência, o mais constante objeto das obrigações de dar coisa incerta. Poderá tornar-se infungível se se tratar de moeda retirada de circulação e, portanto, objeto de coleção. BENS CONSUMÍVEIS E NÃO CONSUMÍVEIS De acordo com o art. 86, “são consumíveis os bens móveis, cujo uso importa destruição imediata da própria substância, sendo também considerados tais os destinados à alienação”.4 A característica da consuntibilidade pode ser de fato, como os alimentos, ou de direito, como o dinheiro. São inconsumíveis os bens que admitem uso reiterado, sem destruição de sua substância. Tal qualidade deve ser entendida no sentido econômico e não no sentido vulgar, pois tudo que existe na face da terra inexoravelmente será consumido, ou ao menos deixará de ser o que é, para ser transformado. Algo que normalmente é inconsumível, isto é, permite reiterado uso, como um livro, por exemplo, pode ser considerado consumível se estiver nas prateleiras de uma livraria, pronto para ser alienado, amoldando-se à dicção legal do art. 86. Não se pode confundir a noção de coisas consumíveis com a de coisas fungíveis: em regra, é fato, coisa fungível é sempre consumível, mas pode acontecer que coisa infungível seja consumível. É o exemplo do vinho raro que mencionamos na seção 16.4. O vinho é essencialmente consumível, mas pode ser infungível. Do mesmo modo, coisa fungível pode não ser consumível, como, por exemplo, um automóvel de série de uma montadora ou os livros de uma livraria destinados à venda. Deve-se entender como bens consumíveis todos aqueles que podem desaparecer por um só ato de utilização. Inconsumíveis são aqueles que permitem uso continuado, sem acarretar sua destruição total ou parcial. BENS DIVISÍVEIS E INDIVISÍVEIS De acordo com o art. 87, “bens divisíveis são os que se podem fracionar sem alteração, na sua substância, diminuição considerável de valor, ou prejuízo do uso a que se destinam”. A noção o artigo seguinte, ao dizer que “os bens naturalmente divisíveis podem tornar-se indivisíveis por determinação da lei ou por vontade das partes”. São indivisíveis: I – os bens que se não podem partir sem alteração na sua substância; II – os que, embora naturalmente divisíveis, se consideram indivisíveis por lei, ou vontade das partes.” BENS SINGULARES E COLETIVOS As coisas singulares podem ser simples e compostas. Singulares simples são as coisas constituídas de um todo formado naturalmente ou em consequência de um ato humano, sem que as respectivas partes integrantes conservem sua condição jurídica anterior, como, por exemplo, um animal, um edifício. Singulares compostas são as coisas que se juntam, unindo diferentes objetos, corporeamente, em um só todo, sem que desapareça a condição particular de cada um. BENS RECIPROCAMENTE CONSIDERADOS: PRINCIPAIS E ACESSÓRIOS. PERTENÇAS Depois de haver descrito os bens considerados em si mesmos, o legislador preocupa-se em classificar os bens, uns em relação aos outros, distinguindo-os em principais e acessórios. O art. 92 define: “Principal é o bem que existe sobre si, abstrata ou concretamente; acessório, aquele cuja existência supõe a do principal.” E dispunha o art. 59 do Código anterior: “Salvo disposição especial em contrário, a coisa acessória segue a principal.”7 O acessório pode não seguir o principal, pois a própria lei admite o contrário, embora a regra seja acessorium sequitur principale (o acessório segue o principal). O contrato, a vontade das partes, pode também subverter o princípio geral. Benfeitorias Benfeitorias são obras ou despesas feitas na coisa, para o fim de conservá-la, melhorá-la ou embelezá-la. Veja o que expusemos acerca das pertenças, cujo conceito pode se confundir com o de benfeitorias. Benfeitorias são obras, portanto, decorrentes da ação humana. Excluem-se de sua noção os acréscimos naturais ou cômodos, que se acrescem à coisa sem intervenção humana (art. 97 do atual Código). BENS PÚBLICOS E PARTICULARES Segundo o art. 98, “são públicos os bens do domínio nacional pertencentes às pessoas jurídicas de direito público interno; todos os outros são particulares, seja qual for a pessoa a que pertencerem. Parágrafo único. Não dispondo a lei em contrário, consideram-se dominicais os bens pertencentes às pessoas jurídicas de direito público a que se tenha dado estrutura de direito privado.” De acordo com nosso direito, são bens públicos as coisas corpóreas e incorpóreas pertencentes ao Estado, em geral, com suas subdivisões administrativas; tais bens estão submetidos a regime especial.