Prévia do material em texto
Qualidade de Vida no Trabalho 1ª edição 2017 Qualidade de Vida no Trabalho 3 Palavras do professor Primeiramente, damos as boas-vindas à disciplina Qualidade de Vida no Trabalho! Esta disciplina buscará ofertar a você a oportunidade de refletir, critica- mente, sobre a sua formação profissional e sobre o fenômeno organiza- cional. A forma como o ser humano é impactado pelo contexto do tra- balho, em meio à sociedade. Assim, busca-se provocá-lo para a atuação profissional ética, engajada com formas sustentáveis e respeitosas sobre si mesmo e sobre os outros. A disciplina tem por objetivo apresentar a você uma proposta de atuação que articule os interesses organizacionais com os interesses dos colabo- radores e da sociedade, como um todo, pois serão apresentados conheci- mentos que o instrumentalize a identificar problemas e propor estratégias de superação. Exemplos de boas práticas, metodologias e leituras bem estruturadas lhe estimularão a acreditar na necessidade de construir qua- lidade de vida no contexto do trabalho. A disciplina contempla oito unidades que visam a abordar conceitos que vão desde o fenômeno do trabalho e seus contextos, suas transforma- ções, bem como conceitos com saúde e práticas organizacionais mais articuladas à promoção da saúde e bem-estar no contexto organizacio- nal. Em termos de trabalho com o conteúdo, os temas serão acompanhados de informações necessárias e exemplos práticos que contribuirão para o bom andamento do curso. Sejam todos bem-vindos e bom curso! 1 4 Unidade 1 Qualidade de Vida no Trabalho: aspectos introdutórios, históricos e principais conceitos Para iniciar seus estudos Convidamos você a participar ativamente desta unidade na qual tratare- mos sobre os aspectos introdutórios, conceituais e históricos que influen- ciaram o surgimento da Qualidade de Vida no Trabalho (QVT). Seguindo nosso estudo, vamos conhecer os principais conceitos e abordagens e demonstrar como a promoção de saúde e do bem-estar inserem-se no ambiente organizacional. Objetivos de Aprendizagem • Fatores introdutórios, conceituais e históricos que influenciaram o surgimento da Qualidade de Vida no Trabalho (QVT). Principais conceitos e abordagens. Como a promoção de saúde e do bem- -estar inserem-se no ambiente organizacional. 5 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 1 - Qualidade de Vida no Trabalho: aspectos introdutórios, históricos e principais conceitos 1.1 O contexto organizacional não é mais o mesmo há muito tempo Desde meados da década de 1970, a temática Qualidade de Vida no Trabalho (QVT) vem ganhando espaço dentro do contexto organizacional. Em razão de inúmeras transformações no contexto do trabalho, demandando novos formatos de gestão e de produção, as pessoas vêm sendo impactadas diretamente, física e psicologicamente. Com a alvorada do século XXI e as novas Tecnologias de Informações e de Comunicações (TICs), houve uma acelera- ção, significativa, na troca de conhecimentos, estimulando de forma ampla o processo de geração e disseminação de inovações na cadeia produtiva, de forma que o ciclo de vida de produtos tornou-se cada vez mais diminuto. Isso obrigou as organizações a buscarem se reinventar na maneira de gerirem seus negócios (com mais eficiência e eficácia). As implicações para as pessoas foram “certeiras”. O contexto organizacional tornou-se um âmbito, preponde- rantemente, gerador de impactos negativos. E o trabalho acarretou uma condição de vilão à saúde e ao bem- -estar do indivíduo, aquilo que o historiador marxista britânico Eric John Ernest Hobsbawm (1996) destacou como práticas aprimoradas de modelos de gestão focadas no desempenho organizacional, de equipes e individuais, geradoras de “mal-estar” em relação à qualidade da vida de quem trabalha. Assista ao video A Little Girl Gives Coins To A Street Musician And Gets The Best Surprise In Return disponível no seguinte link <https://www.youtube.com/watch?v=fj6r3-sQr58>. 6 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 1 - Qualidade de Vida no Trabalho: aspectos introdutórios, históricos e principais conceitos Isso implica dizer que, quanto maiores forem as exigências para a produção/gestão do trabalho, mais desgastante a quem trabalha, ou seja, maior será o Custo Humano do Trabalho (CHT). Logo, buscar melhorar a Qualidade de Vida no Trabalho passou a ser uma necessidade, pois quanto menor for o esforço despendido para lidar com questões laborais (entenda-se, aqui, aspectos físico-fisio-biomecânicos, cognitivos e socioafetivos) melhora a qualidade de vida de quem trabalha. Não deixe de participar do Fórum Desafio no Ambiente Virtual e dividir suas ideias com os colegas! 1.1.1 De que trabalho estamos falando? Figura 1.1 - Trabalho Fonte: <https://pt.123rf.com> - ID 64974967 7 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 1 - Qualidade de Vida no Trabalho: aspectos introdutórios, históricos e principais conceitos Para entender do que estamos falando, sobre o que se denomina trabalho, iniciemos com alguns números for- necidos pela ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO (OIT) em 2013: Figura 1.2 – Quantidade de pessoas afetadas pelo trabalho 2,02 MILHÕES de pessoas vieram a óbito em razão de enfermidades relacionadas ao trabalho 160 MILHÕES de trabalhadores foram diagnosticados, em todo o mundo, com doenças de ordem ocupacional Legenda: A Organização Internacional do Trabalho tem monitorado o impacto que a atividade laboral infringe sobre a saúde dos indivíduos. Fonte: OIT (2013). Num contexto como esse, o que você imagina que acontece? Será que parte desses números tem relação com o modo de gestão e produção aos quais os trabalhadores estejam submetidos? Provavelmente você chegou à con- clusão de que não é possível se falar de crescimento de qualquer organização, ou mesmo de um país, de forma sustentável, com base em condições laborais ruins. O Custo Humano do Trabalho (CHT) precisa ser equacio- nado, levando em conta o alcance da produtividade desejada, bem como as condições de trabalho e as suas consequências decorrentes. Custo Humano do Trabalho (CHT) refere-se àquilo que é despendido pelo trabalhador (de forma individual e coletiva) física, cognitiva e psicologicamente, em resposta a exigências de tarefas e modelos de gestão/produção adotados por uma organização. Glossário 8 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 1 - Qualidade de Vida no Trabalho: aspectos introdutórios, históricos e principais conceitos Só para ficar mais claro, vejamos o esquema a seguir: Figura 1.3 – Dimensões do Custo Humano no Trabalho COGNITIVA PENSAR Atenção Memória Aprendizagem Tomar decisões Resolver problemas FÍSICA AGIR Gestos Movimentos Emprego de Força PSICOLÓGICA SENTIR Reações afetivas Sentimentos Estado de humor Fonte: Adaptada de Silva (2016). É importante destacar que o impacto das condições do trabalho precisa ser dimensionado no que tange às ações, aos pensamentos e aos sentimentos das pessoas, frente ao que têm de realizar e produzir, pelo modelo de gestão ao qual estejam imbricados, seja numa organização, seja pelo próprio mercado, sempre numa relação entre o individual e a esfera coletiva (sociedade num sentido lato). Medeiros (apud ALFENAS, 2013, p. 16-18) identificou que, frequentemente, os maiores custos ao trabalhador são da ordem do cognitivo e do afetivo, mais precisamente no que tange ao reconhecimento e ao crescimento profissional. É nesse tipo de contexto que se apresentam algumas propriedades para o tipo de trabalho que impactam a qua- lidade de vida das pessoas. São elas: 1. O IMPACTO PRECISA SER MANIFESTO, ou seja, externo ao indivíduo para que possa ser men- surável e dimensionado, por exemplo, sob formas de constrangimentos para suas atividades, adoecimentos;2. A FORMA DE AVALIAR O QUANTO “CUSTA” AOS INDIVÍDUOS O TRABALHO passa pela maneira como cada um lida com o próprio trabalho e como se relaciona com outros que traba- lham. A relação a ser enfocada é a forma como cada um cria seu estratagema frente às atividades que precisam desempenhar no trabalho, e as condições para a sua execução, bem como o modo como o coletivo (re)cria esses estratagemas frente às situações reais de trabalho, pois é assim que se expressam os modos de agir, pensar e sentir dos trabalhadores diante das situações que experimentam; 3. SITUAÇÕES GERADORAS DE BEM-ESTAR OU MAL-ESTAR NO CONTEXTO DO TRABALHO determinam o tipo de Qualidade de Vida no Trabalho a ser vivenciada pelos indivíduos. Para se falar em geração de bem-estar ou mal-estar no trabalho, é preciso entender as dimensões desse trabalho. 9 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 1 - Qualidade de Vida no Trabalho: aspectos introdutórios, históricos e principais conceitos 1.1.2 Dimensões do Trabalho O contexto em que o trabalho é experimentado pelos indivíduos engloba noções de organização, as condições às quais as pessoas estão submetidas, o processo ao qual se estruturam as ações dos indivíduos, bem como as relações sociais. O trabalho possui, dentre suas dimensões, características interdependentes articuladas: 1. ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO (OT) – composta por uma prescrição (informal/formal) das práticas a serem realizadas e que delimitarão um dado desempenho requerido; 2. CONDIÇÕES DE TRABALHO (CT) – formadas por circunstâncias e características que impelem influência direta às práticas realizadas, e ao desempenho esperado; 3. RELAÇÕES SOCIAIS DE TRABALHO (RST) – definem e são circunscritas pelas interações sociais no contexto em que se situam. É justamente no dimensionamento dessas questões básicas acerca do trabalho que reside boa parte dos proble- mas e impactos (bons ou ruins) a serem debatidos sobre Qualidade de Vida no Trabalho. Cabe aqui um apontamento importante aos debates que você estudará, nesta e nas próximas unidades, a relação entre o que se vê na imagem a seguir: Figura 1.4 – Indivíduo e contexto organizacional INDIVÍDUO CONTEXTO ORGANIZACIONAL CUSTO HUMANO DO TRABALHO QUALIDADE DE VIDA CONDIÇÕES MERCADO RESULTADOS Fonte: Adaptada de Silva (2016). Nesse cenário de mudanças, não se pode falar em Qualidade de Vida no Trabalho sem que se pese a forma como as condições no contexto organizacional cobram do indivíduo, nem sem considerar o contexto ao qual o trabalho desse indivíduo esteja estruturado. Numa relação de parte e todo, tal qual o célebre poeta Gregório de Matos (1992) em seu poema “Ao braço do mesmo menino Jesus quando aparece”, descreve: O todo sem a parte não é todo, A parte sem o todo não é parte, Mas se a parte o faz todo, sendo parte, Não se diga, que é parte, sendo todo. 10 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 1 - Qualidade de Vida no Trabalho: aspectos introdutórios, históricos e principais conceitos Não se pode debater Qualidade de Vida dos indivíduos no contexto onde executam seu Trabalho sem algum entendimento sobre como esse trabalho se configura dentro de uma delimitação socioambiental. Numa relação de parte e todo o lócus do trabalho, em seu sentido material, organizacional e social, é onde acontecem as ativi- dades laborais e as estratégias construídas, coletiva e individualmente, que intermedeiam o impacto sobre os indivíduos que trabalham. Trata-se da forma como esse trabalho promove saúde e bem-estar aos indivíduos. Locus: é uma palavra do latim, que significa literalmente “lugar”, “posição” ou “local”. Glossário Uma “boa pedida” para se aprofundar sobre a relação conflituosa entre trabalho e indivíduo é o filme “Agonia e êxtase” que conta a história do pintor renascentista Michelangelo e seu trabalho na Capela Sistina. 1.2 Qualidade de Vida e sua construção conceitual Se nos idos de 1970, discutir Qualidade de Vida no Trabalho significava seguir um itinerário de debates sobre evidenciar-se a precariedade da qualidade de vida em seu contexto laboral, na década seguinte (1980) houve a evolução para uma discussão mais ampla sobre a QVT com a emergência de novos modelos de gestão do traba- lho, principalmente no Japão (com os Ciclos de Controle de Qualidade) e nos Estados Unidos (com foco na Qualidade Total). Os Ciclos de Controle de Qualidade constituem-se como um modelo de gestão que foca, no conjunto de suas ações, na busca da qualidade em cada etapa do processo, da mais simples à mais complexa. 11 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 1 - Qualidade de Vida no Trabalho: aspectos introdutórios, históricos e principais conceitos Já nos anos de 1990 e 2000, como destaca Silva (2016), assumem os holofotes modelos de gestão oriundos do continente europeu, a se destacarem França, Alemanha, Dinamarca, Suécia, Noruega, Holanda e Itália, que adi- cionam, em seus modos de funcionamento do trabalho, o elemento de satisfação do cliente (interno e externo). A autora ainda traz, em seu debate sobre o conceito de Qualidade de Vida no Trabalho (QVT), um compilado de perspectivas sobre a concepção de Qualidade de Vida no Trabalho ao longo das décadas: Quadro 1.1 – Perspectiva Histórica das Concepções sobre QVT Concepções sobre QVT Descrição QVT como VARIÁVEL Foco na reação do indivíduo ao trabalho. QVT como ABORDAGEM Foco no indivíduo em detrimento do resultado. QVT como MÉTODO Foco na melhoria do ambiente de trabalho com vistas a tornar o trabalho mais produtivo e mais satisfatório. QVT como UM MOVIMENTO Foco na estruturação social do trabalho, sob a lógica das relações entre trabalhadores e organização. QVT como TUDO Sem foco estabelecido graças a ações de forma multidirecional: competição (mercado externo), qualidade, baixa taxa de produtividade e problemas de reclamações e da própria aquitetura organizacional. QVT como NADA Visto apenas como um “modismo”. Fonte: Adaptada de Silva (2016, p. 34). O conceito de Qualidade Total refere-se a uma estratégia organizacional orientada para a cultura de que todo processo organizacional (e aqui estão envolvidos, também, distribuido- res, fornecedores e demais parceiros de negócios) precisa estar alinhado com exigências de qualidade em sua execução. Assim, apresentam-se três formas em que, corriqueiramente, se justifica debater Qualidade de Vida no Trabalho nos dias contemporâneos: 1. SOCIAL – o trabalho tem função central na vida dos indivíduos (na ordem do econômico, político, tec- nológico e cultural) e um dos elementos mais desafiadores é a harmonização do bem-estar de quem trabalha com a satisfação de outros atores sociais (afeta direta ou indiretamente) organizações, clientes, fornecedores etc. 2. ORGANIZAÇÕES – as estratégias de enfrentamento diante das condições existentes no contexto corpo- rativo serão decisivas na consolidação da Qualidade de Vida no Trabalho. 3. INDIVIDUAL – a construção de um estado de promoção de saúde e bem-estar ao trabalhador é também valorizar o indivíduo. 12 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 1 - Qualidade de Vida no Trabalho: aspectos introdutórios, históricos e principais conceitos 1.2.1 Definições sobre Qualidade de Vida no Trabalho A fim de se definir o que é Qualidade de Vida no Trabalho, faz-se necessário dispender atenção a dois aspectos: o conceito em si e a ênfase dada a ele. Isso posto, Silva (2016) compilou uma série de definições sob essa ótica. Quadro 1.2 – Perspectiva histórica sobre o conceito de QVT Década Conceito em si 1970 Atendimento de necessidades e aspirações humanas, calcado na ideia de humanização e responsabilidade social da empresa (WALTON, 1973). 1980 Maneira de pensar a respeito das pessoas, participação na resolução de problemas, enriquecimento do trabalho, melhoria no ambientede trabalho (NADLER; LAWLER, 1983). 1990 Fatores físicos, tecnológicos e sociopsicológicos que renovam o clima organizacional (FERNANDES, 1996). 2000 Busca pela conciliação entre interesses antagônicos de trabalhadores e patrões (DOURADO; CARVALHO, 2005). Fonte: Adaptado de Silva (2016, p. 35-37). Assim, um desdobramento necessário à nossa tentativa de definir o que é QVT é a ênfase dada, em cada momento histórico, à QVT: Quadro 1.3 – Ênfase dada em cada concepção histórica sobre o QVT Década Ênfase dada 1970 Humanização e responsabilização social com foco no poder da empresa. 1980 Visão humanista no ambiente de trabalho. 1990 Bem-estar do trabalhador e produtividade das empresas. 2000 Instrumento de controle dos funcionários. Fonte: Adaptado de Silva (2016, p. 35-37). No “frigir dos ovos”, a concepção mais atual, e que mais é aceita sobre QVT, é a apresentada por Ferreira (apud SILVA, 2016, p. 37): Engloba duas perspectivas diferentes: 1. Sob a ótica das organizações, visa à promoção de bem-estar individual e coletivo, o desenvol- vimento pessoal dos trabalhadores e o exercício da cidadania organizacional nos ambientes de trabalho. 13 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 1 - Qualidade de Vida no Trabalho: aspectos introdutórios, históricos e principais conceitos 2. Sob a ótica dos sujeitos, indica o predomínio de vivências de bem-estar no trabalho, de reco- nhecimento institucional e coletivo, de possibilidade de crescimento profissional e de respeito às características individuais. Isso implica dizer que a ênfase atribuída à concepção de QVT vigente é a “[...] modificação das variáveis do con- texto organizacional geradoras de mal-estar e que comprometem a QVT. [Ou seja, a adoção e promoção de práticas organizacionais, sob o] viés preventivo” (FERREIRA apud SILVA, 2016, p. 37). Segundo Silva (2016), existem duas abordagens para se discutir a Qualidade de Vida no Trabalho: a assistencia- lista e a preventiva. Em ambos os casos, o foco debruça-se sobre a relação tríade entre indivíduo, organização e contexto social. Figura 1.5 – Três atores sobre QVT QVTPreventiva Assistencialista CONTEXTO SOCIAL INDIVÍDUO ORGANIZAÇÃO Fonte: Silva (2016). O que ampara cada abordagem é a concepção do fenômeno “trabalho”. Enquanto a abordagem assistencialista concebe o trabalho como algo punitivo, sofrente e de sacrifício, pois entende que o trabalhador precisará ser assistido em suas necessidades e demandas. A abordagem preventiva concebe o trabalho sob a ótica de valori- zação positiva, ou seja, associa a percepção de trabalhar à noção de empenho e esforço com vistas a se atingir um dado objetivo, o que dota ao trabalho a conotação de atividade prazerosa, que viabiliza bem-estar e reconheci- mento de alcance de objetivos/metas pessoais. O trabalho é considerado uma categoria social estruturante, ou seja, é entendido como as ati- vidades realizadas pelo ser humano em sua relação com o ambiente que o circunda, produ- zindo efeitos sobre este e sobre o próprio homem, construindo, assim sua própria existência, identidade e concepção (a perspectiva com a qual analisa) do mundo. 14 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 1 - Qualidade de Vida no Trabalho: aspectos introdutórios, históricos e principais conceitos 1.3 Promoção de saúde e bem-estar nas organizações Para iniciar este item, apresentamos um pensamento do filósofo existencialista Jean-Paul Sartre (2012, p. 280): “[...] a escolha é possível em um sentido, mas o que não é possível é não escolher. Posso sempre escolher, mas devo saber que, se não escolho, escolho ainda”. Figura 1.6 - Saúde e Vida Fonte: <https://pt.123rf.com> - ID 39330802 Neste tópico, será trazida à baila dos debates a concepção de saúde e a importância de ações que fomentem sua promoção no âmbito social (mais amplo) e no contexto organizacional (mais específico). 1.3.1 A saúde de quem trabalha Há muitos anos (desde a década de 1970), discutir os elementos que envolvem a compreensão sobre como a saúde impacta a vida das pessoas vai muito além do monitoramento de indicadores de doença. pois inclui a abrangência de fatores psicossociais. Os fatores descritos por Siqueira e Martins (2013) são traçados, justamente, na tríade de inter-relação: contexto social, organização e indivíduo. São eles: 1. estratégias de enfrentamento; 2. adesão ao tratamento; 3. padrão socioeconômico; 15 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 1 - Qualidade de Vida no Trabalho: aspectos introdutórios, históricos e principais conceitos 4. acesso a procedimentos terapêuticos; 5. redes de suporte social; 6. crenças individuais/ culturais, e; 7. adoção de comportamentos que incrementem a expectativa de vida. Em especial quanto aos três últimos itens, as autoras explicitam seu impacto direto na consecução ou não de qualidade de vida, e sua contribuição ao bem-estar dos indivíduos. Esses determinantes sociais estão na van- guarda de debates sobre promoção de saúde em vários níveis: micro, meso e macrossociais. Neste tópico, nos focaremos ao conceito de saúde social e seus determinantes, haja vista essa concepção ser a base para o entendimento sobre Qualidade de Vida no Trabalho. Saúde social é entendida como: “[...] um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não somente ausência de afeções e enfermidades. A saúde passou, então, a ser mais um valor da comunidade que do indivíduo” (OMS, 2016). Glossário Para a própria Organização Mundial de Saúde (OMS, 2016), a arena de discussão sobre a saúde é no espaço da coletividade. Então, não falaremos mais em saúde simplesmente, e sim de saúde social, com o intuito de se deba- ter os fatores que determinam seu estabelecimento, os quais, para Siqueira e Martins (2013), são: (a) o entorno social; (b) a integração social, e; (c) o suporte social. Definamos, então, o que são e como se integram cada um desses determinantes: 1. ENTORNO SOCIAL – Conjunto de pessoas que possuem um vínculo forte com o indivíduo e exercem significativa influência em sua vida. 2. INTERAÇÃO SOCIAL – participação de um indivíduo em relacionamentos sociais. 3. SUPORTE SOCIAL – Crença individual de que se é considerado importante (“quisto”), valori- zado e pertencente a uma rede social. Rede social refere-se a um coletivo circunscrito por um convívio social que permite ao indiví- duo processar, mentalmente (cognitiva e psicologicamente) sua percepção sobre o contexto em que vive. Glossário 16 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 1 - Qualidade de Vida no Trabalho: aspectos introdutórios, históricos e principais conceitos Figura 1.7 – Conceitos que representam determinantes que impactam a saúde no contexto social SUPORTE social ENTORNO socialINTEGRAÇÃO social SAÚDE SOCIAL Fonte: Adaptada de Siqueira e Martins (2013). As autoras apresentam esses determinantes de forma articulada, mas dão maior ênfase ao último. Dentre as várias razões, isso deve-se ao impacto da percepção que o indivíduo constrói sobre o mundo à sua volta é deter- minante na forma de se estabelecer práticas de saúde no âmbito social. Percepção é denominada como o processo mental de organização e interpretação das impressões sensoriais orientadas para a compreensão do ambiente. Atua como “filtro”, organizando os estímulos externos. Glossário Sob essa ótica, perceber (conceito psicológico de natureza cognitiva) o suporte social disponível demanda a uti- lização de três tipos diferentes de crenças: (a) ser quisto por outros (suporte emocional); (b) ser valorizado por outras pessoas (suporte informacional); e se sentir pertencente a um coletivo (suporte instrumental). 17 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 1 - Qualidade de Vida no Trabalho: aspectos introdutórios, históricos e principais conceitos Figura1.8 – Percepção de SUPORTE SOCIAL Suporte INFORMACIONAL (Valorização dos outros) Suporte INSTRUMENTAL (Rede social) + Suporte EMOCIONAL PERCEPÇÃO DE SUPORTE SOCIAL Fonte: Adaptada de Siqueira e Martins (2013). Com base em um modo de ser coletivo, aparece o conceito que indivíduo e gestores organizacionais estabele- cem para a consecução da qualidade de vida: a concepção de “estar”, “bem” ou “mal”, diante a um contexto do trabalho. 1.3.2 Bem-estar e mal-estar nas organizações Nas palavras de Sartre, apresentadas anteriormente, temos a noção de escolha, que nos leva sempre a um resul- tado, dá base para se debater o processo de produção do “bem-estar” ou do “mal-estar” no âmbito das organi- zações. Escolher fazer algo ou se omitir tem efeito sempre certo: alguma consequência surgirá. 18 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 1 - Qualidade de Vida no Trabalho: aspectos introdutórios, históricos e principais conceitos Figura 1.9 - A relação entre o “bem” e o “mal” nas organizações Fonte: <https://pt.123rf.com> - ID 31060368 O bem-estar e o mal-estar no contexto do trabalho está no cerne dos debates nas organizações contemporâneas. Conforme salienta Ferreira (2011), é imperativo delinear de forma clara e concisa a diferença entre “bem-estar” e “mal-estar” para que se possa consolidar uma definição sobre o conceito de Qualidade de Vida no Trabalho (QVT). Se estamos falando de Qualidade de vida no Trabalho, é óbvio que a origem do que se entenderá agradável (bem-estar) ou desagradável (mal-estar) será manifestada no contexto das situações de trabalho, de forma indi- vidualizada ou coletiva, e que provocará, nos indivíduos, sentimentos muito específicos ou, pelo menos associa- dos a essas situações. É importante notar que tanto o bem-estar quanto o mal-estar dizem respeito a julgamentos que os trabalha- dores fazem com relação ao contexto de produção ao qual estejam inseridos e que estejam relacionados a seu estado físico, psicológico e social. Figura 1.10 - Elementos constitutivos do que é “bem-estar”. Modalidades mais comuns: Alegria, amizade, confiança, conforto, disposição, equidade, equilíbrio, estima, felicidade, harmonia, justiça, liberdade, prazer, respeito, satisfação, segurança e simpatia. Presença de sentimentos isolados ou associados: CaracterísticaO QUE É? Sentimento agradável ORIGEM Situações de Trabalho MANIFESTAÇÃO Individual ou coletiva BEM ESTAR Fonte: Adaptada de Silva (2016, p. 30). 19 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 1 - Qualidade de Vida no Trabalho: aspectos introdutórios, históricos e principais conceitos Quanto mais positiva a percepção do trabalhador sobre o seu estado biopsicossocial melhor será sua percepção de bem-estar e vice-versa. Logo, cabe destacar que as representações de bem-estar e mal-estar estão associa- das a consequências individuais e/ou coletivas. A dinamismo referente a essas percepções envolve a eficiência e a eficácia das estratégias de mediação frente às exigências relacionadas ao contexto em que o indivíduo trabalha os seguintes aspectos. Biopsicossocial é um conceito amplo que visa a estudar a causa ou o progresso de doenças utilizando-se de fatores biológicos (genéticos, bioquímicos etc.), fatores psicológicos (estado de humor, de personalidade, de comportamento etc.) e fatores sociais (culturais, familiares, socioeconômicos, médicos etc.). Glossário Quanto mais bem-sucedidas as estratégias construídas para enfrentar situações adversas ou mesmo as condi- ções existentes no contexto laboral, mais há a prevalência da percepção de bem-estar individual e/ou coletivo e maior será a incidência de qualidade de vida no trabalho saudável. Figura 1.11 – Elementos constitutivos do que é “mal-estar” Modalidades mais comuns: Aborrecimento, antipatia, aversão, constrangimento, contrariedade, decepção, desânimo, desconforto, descontentamento, desrespeito, embaraço, incômodo, indisposição, menosprezo, ofensa, perturbação, repulsa e tédio. Presença de sentimentos isolados ou associados: CaracterísticaO QUE É? Sentimento desagradável ORIGEM Situações de Trabalho MANIFESTAÇÃO Individual ou coletiva MAL ESTAR Fonte: Adaptada de Silva (2016, p. 30). O equilíbrio dessas forças é a cruzada travada pelo(s) trabalhador(es) na busca por sua integridade biopsicosso- cial. Isso significa que, quanto mais bem planejadas as ações deles na formulação de estratégias de enfrenta- mento diante das condições laborais, mais conservada a saúde do(s) trabalhador(es) estará(ão). 20 Considerações finais Ao longo desta unidade, você estudou os seguintes pontos: • TRABALHO: existem duas perspectivas: uma que concebe o tra- balho como algo punitivo, sofrente e de sacrifício, e outra aborda- gem que concebe o trabalho sob a ótica de valorização positiva, ou seja, associa a percepção de trabalhar à noção de empenho e esforço, com vistas a se atingir um dado objetivo, o que dota ao trabalho a conotação de atividade prazerosa. • O CUSTO HUMANO DO TRABALHO (CHT) trata do quanto (física, cognitiva e psicologicamente) despende o indivíduo ao desempe- nhar tarefas sob as exigências de gestão/produção adotadas por uma organização. • A NOÇÃO DE SAÚDE SOB A ÓTICA DO SOCIAL: a arena de dis- cussão acontece no espaço do coletivo e os fatores que deter- minam seu estabelecimento são: o entorno social; a integração social; e o suporte social. • QUALIDADE DE VIDA NO TRABALHO - QVT: pode ser definida como a promoção de práticas organizacionais, sob o viés preven- tivo, a fim de promover situações, no contexto do trabalho, gera- doras de bem-estar. • LÓCUS DO TRABALHO: em seu sentido material, organizacional e social, é onde acontecem as atividades laborais e as estratégias construídas, coletiva e individualmente, e que intermedeiam o impacto sobre os indivíduos que trabalham. Referências bibliográficas 21 ALFENAS, R. A. S. Qualidade de vida no trabalho na administração pública: concepções de gestores e avaliação por subordinados. Disser- tação (Mestrado em Sustentabilidade e Qualidade de Vida) – UNIFAE, São João da Boa Vista, 2013. Disponível em: <https://mestradounifae.wikis- paces.com/file/view/RICARDO+AUGUSTO+DA+SILVA+ALFENAS.pdf>. Acesso em: 9 maio 2017. FERREIRA, L. “Somos a cara da prefeitura? Então somos a cara aban- donada.” Ergonomia da atividade aplicada à Qualidade de Vida no Trabalho no contexto do serviço público municipal. – Universidade de Brasília, Brasília, DF, 2011. Disponível em: <http://repositorio.unb.br/ bitstream/10482/10272/1/2011_LuizaFerreiraRezendeMedeiros.pdf>. Acesso em: 31 outubro 2017. HOBSBAWM, E. J. E. A era das revoluções: Europa 1789-1848. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996. MATOS, G. Obra Poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992. Disponí- vel em: <http://objdigital.bn.br/Acervo_Digital/Livros_eletronicos/Cro- nica%20do%20Viver%20Baiano%20Seiscentista.pdf>. Acesso em: 30 mar. 2017. ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO (OIT). A prevenção das doenças profissionais. Genebra: OIT, 2013. Disponível em: <http:// www.oitbrasil.org.br/sites/default/files/topic/gender/doc/safeday2013_ final_1012.pdf>. Acesso em: 2017. SARTRE, J.P. O existencialismo é um humanismo. Petrópolis: Vozes, 2012. SILVA, A. Q. Diagnóstico, política e programa de qualidade de vida no trabalho em uma instituição pública brasileira: a percepção dos tra- balhadores como premissa para mudanças no contexto organizacional. Dissertação (Mestrado em Administração) – UnB, Brasília, 2016. Referências bibliográficas 22 SIQUEIRA, M. M. M.; MARTINS, M. C. F. Promoção de saúde e bem-estar em organizações. In: BORGES, L. O.; MOURÃO, L. O Trabalho e as organi- zações. Atuações a partir da psicologia. Porto Alegre: Artmed, 2013. WORLD HELTH ORGANIZATION.Conceito de Saúde segundo OMS / WHO, 2016. Disponível em: <http://cemi.com.pt/2016/03/04/conceito- -de-saude-segundo-oms-who/>. Acesso em: 31 mar. 2017. 24 2Unidade 2 O design dos Programas de Qualidade de Vida no Trabalho Para iniciar seus estudos O fator humano e a importância do seu papel como diferencial num mer- cado amplamente competitivo têm influenciado grandemente as orga- nizações a repensar os modelos de gestão, processos, liderança etc. Tais mudanças buscam melhorar a relação entre organização e colaborado- res, mas, também, tornar o ambiente de trabalho um local em que haja prazer e satisfação na execução das tarefas e na relação com os outros colaboradores. Por conta disso, as organizações têm investido em programas voltados à Qualidade de Vida no Trabalho (QVT), conforme as necessidades especí- ficas de cada uma delas. Mas, qual o procedimento adotado na escolha de um programa de qua- lidade de vida? Existem modelos diferenciados? Quais são alguns deles e quais os seus propósitos/impactos para a organização e colaboradores? Nesta unidade, você terá a oportunidade de aprofundar seus conheci- mentos sobre a QVT, suas modelagens e o impacto desses programas na produtividade e bem-estar na organização, respondendo às questões acima. Aproveite a leitura e bom estudo! 25 Objetivos de Aprendizagem • Diferentes modelagens de Programas de Qualidade de Vida no Trabalho; • Alcance e impacto; • QVT como um projeto institucional nas organizações: o capital humano. 26 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 2 - O design dos Programas de Qualidade de Vida no Trabalho 2.1 O Capital Humano e a Qualidade de Vida no Trabalho: qual a relação? Como pessoas, temos a necessidade de nos sentirmos valorizados por aqueles com quem mantemos contato, não é verdade? Mais que isso, o reconhecimento faz com que nos sintamos importantes para o outro. No campo organizacional não é diferente. Diante disso, os produtos e serviços, os processos, as marcas, a gestão, a venda e o marketing são realizados por pessoas. Nesse sentido, o fator humano é a mola pela qual uma organização funciona e se torna um diferencial competitivo no mercado econômico/comercial. Mas, sempre foi assim? Infelizmente não! Segundo Chiavenato (2009), na era industrial, o sucesso das organi- zações era medido pela quantidade acumulada de bens (edifícios e máquinas, por exemplo) representando seu capital financeiro e sucesso – ou mais importante –; entretanto, com a era da informação, outros “ativos tangíveis e invisíveis” têm assumido esse papel, tais como: • Capital interno: refere-se à estrutura interna, cultura, modelos e sistemas administrativos, informática etc.; • Capital externo: relações entre organização e fornecedores, clientes, marcas, patentes etc. Além disso, Chiavenato faz referência a um terceiro ativo pelo qual as organizações reconheceram sua importân- cia como um potencial competitivo no mercado: o capital humano, você já ouviu falar? Vamos compreender do que se trata, leia atentamente o que Chiavenato (2009, p. 38-39) nos esclarece: [...] é o capital de gente, talentos e competências. A competência de uma pessoa envolve a capa- cidade de agir em diversas situações, tanto para criar ativos tangíveis como intangíveis [...] basica- mente constituído de talentos e competência das pessoas. A partir desse conhecimento, perceba que uma organização tem como capitais: sua estrutura, suas relações e o seu pessoal – dotado de conhecimento e competências para produzir, gerar lucro e evoluir no mercado. Desse modo, temos a percepção sobre o valor – pois não se trata mais de olhar para as pessoas como um recurso, mas como um capital que deve circular e trazer benefícios organizacionais. Com a era da informação, as organizações têm mudado a percepção para os seus colaborado- res, valorizando-os como profissionais que fazem a diferença e geram lucro – como principais ativos – como seu capital humano. Compreendendo a importância do capital humano, as organizações passaram a buscar alternativas que favo- recessem a retenção e o desenvolvimento desses profissionais que pudessem trazer inovação ao seu negócio, justamente por “habilidade de se reinventar e desenvolver novas formas de desempenhar suas atividades” e, consequentemente, para a própria organização (CARMO; SANTANA; TRIGO, 2015, p. 143). 27 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 2 - O design dos Programas de Qualidade de Vida no Trabalho Percebeu a mudança na percepção das organizações para as pessoas? Grande mudança, não é mesmo? Justa- mente por isso, algumas questões mereceram sérias considerações, por exemplo: de que modo podemos valori- zar as pessoas? Como tornar o espaço de trabalho prazeroso e motivador para que o colaborador possa executar suas atividades? Como equilibrar as necessidades das organizações e dos colaboradores, trabalhando com qua- lidade de vida ambiente organizacional? Figura 2.1 - Capital Humano nas Organizações Legenda: Os colaboradores são os responsáveis pela movimentação dos processos, investi- mentos, ações e fazem o negócio funcionar, por isso, são chamados de capital. Fonte:ID da imagem: 41461799 Diante das questões apresentadas, realizaram-se estudos e pesquisas, que pudessem valorizar o capital humano; porém, mais do que isso, buscava-se melhorar as condições de trabalho (incluindo tarefas e espaço físico ade- quado), ressignificar o trabalho e produzir um ambiente no qual houvesse um bom relacionamento entre os colaboradores; dito de outra forma, era necessário trabalhar a qualidade de vida na organização, entendida como a “percepção de bem-estar, a partir das necessidades individuais, ambiente social e econômico e expectativas de vida” (LIMONGI-FRANÇA, 2011, p. 167). Ressignificação é o método utilizado em neurolinguística para fazer com que pessoas pos- sam atribuir novo significado a acontecimentos através da mudança de sua visão de mundo. Glossário 28 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 2 - O design dos Programas de Qualidade de Vida no Trabalho Considerando a valorização do capital humano, percebemos que a QVT busca formas de atender não somente às necessidades do seu cliente externo, mas primordialmente do cliente interno (colaboradores); pois, segundo Chiavenato (2010, p. 487) a “organização que investe diretamente no colaborador está, na realidade, investindo indiretamente no cliente”. Capital humano é o conjunto de capacidades, conhecimentos, competências e atributos de personalidade que favorecem a realização de trabalho de modo a produzir valor econômico. Glossário Com base nessas considerações, algumas questões merecem ser analisadas: quais fatores servem como aná- lise para construção/organização de uma gestão da QVT em uma organização? Que modelos são construídos a partir desses fatores? Continue a leitura e descubra a importância desses temas para que o objetivo da QVT seja alcançado! 2.2 A Gestão da Qualidade de Vida no Trabalho: fatores e modelos de programas implantados nas organizações Seguindo a linha de pensamento até aqui apresentada, indicamos que o processo de gerir a Qualidade de Vida numa organização envolve a construção de um projeto institucional que vise o respeito ao seu capital humano e o aumento da produtividade e qualidade como metas a serem alcançadas. Convém, contudo, entendermos o que significa a Gestão da Qualidade de Vida no Trabalho (GQVT), não é mesmo? Limongi-França (2011, p. 167) a define como: A capacidade de administrar o conjunto das ações, incluindo diagnóstico, implantação de melho- rias e inovações gerenciais, tecnológicas e estruturais no ambiente de trabalho alinhada e cons- truída na cultura organizacional, com prioridade absoluta para o bem-estar das pessoas na orga- nização. Perceba que a preocupação com o bem-estardas pessoas na organização está ancorada em ações que a poten- cializem - a GQVT - como prioridade absoluta, justamente pela necessidade e retorno nesse investimento. Assim, para que essas ações aconteçam, alguns fatores são passíveis de discussão na construção de modelos/progra- mas de QVT, segundo Chiavenato (2010, p. 487-488): • A satisfação com o trabalho executado; • As possibilidades de futuro na organização; • O reconhecimento pelos resultados alcançados; • O salário percebido; • Os benefícios auferidos; 29 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 2 - O design dos Programas de Qualidade de Vida no Trabalho • O relacionamento humano dentro da equipe e da organização; • O ambiente psicológico e físico de trabalho; • A liberdade de atuar e responsabilidade de tomar decisões; • As possibilidades de estar engajado e de participar ativamente. Você deve ter observado que, muito mais do que aspectos diretamente ligados à saúde física, outros pontos foram abordados pelo autor, tais como: salário, carreira, relacionamento e possibilidades de atuação, por exem- plo; compreensível, por entendermos ser a saúde compreendida e definida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em sua carta de constituição no ano de 1946, como um completo bem-estar físico, mental e social. O filme “Tempos Modernos” (1936), no qual o personagem principal é interpretado por Charles Chaplin, aponta as mudanças ocasionadas pela industrialização e mecanização e os efeitos na saúde e bem-estar dos trabalhadores. Apesar de ser um filme antigo, serve-nos como reflexão para pensar a importância do humano nas relações de trabalho, o sofrimento e a QVT como meio de produzir melhor e com mais saúde emocional, física e psicológica para os colaboradores. Um clássico que merece ser visto! Ainda assim, Limongi-França (2012) assegura que o grande desafio da QVT é a relação entre a produtividade e a dimensão humana, oferecendo condições básicas de saúde e segurança no ambiente de trabalho ao seu capital humano; mais ainda, “bem-estar no sentido de manter-se íntegro como pessoa, cidadão e profissional” (LIMONGI-FRANÇA, 2012, p. 45). Com base nessas considerações, fica claro que o fundamento para a construção de programas de QVT é o bem- -estar do colaborador, considerada como “um profundo respeito pelas pessoas”, segundo Chiavenato (2010, p. 487). Os programas de QVT são importantes ferramentas utilizadas pelas organizações para que haja um equilíbrio entre o aumento da produtividade e o respeito ao fator humano no tra- balho. Desse modo, as atividades realizadas na organização, seu ramo de atividade, as necessidades dos colaboradores, a produtividade e o próprio ambiente de trabalho serão importantes na estruturação e o design de programas de QVT eficazes. Por conseguinte, abordaremos alguns modelos de programas de QVT e o objetivo pelo qual foi criado, pensando na definição de QVT e o bem-estar do trabalhador. Se você nunca participou de algum programa voltado para 30 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 2 - O design dos Programas de Qualidade de Vida no Trabalho a Qualidade de Vida no Trabalho, convidamos a observar o foco de cada modelo apresentado no quadro 2.1 a seguir, bem como de sua eficácia! Vamos lá? Quadro 2.1 – Modelos de QVT mais importantes MODELO FATORES/DIMENSÕES Nadler e Lawler O modelo em questão se fundamenta nos seguintes fatores: 1. Participação dos colaboradores nas decisões; 2. Reestruturação do trabalho através do enriquecimento de tarefas e de grupos autônomos de trabalho; 3. lnovação no sistema de recompensas para influenciar o clima organizacional; 4. Melhoria no ambiente de trabalho quanto a condições físicas e psicológicas, horário de trabalho etc. Hackman e Oldhan Fundamentado no desenho de cargos que afeta psicologicamente os colaboradores, contribuindo para benefícios no âmbito pessoal e do trabalho, sendo as dimensões: 1. Variedade de habilidades: requer conhecimentos, capacidades das pessoas; 2. ldentidade da tarefa: realização do trabalho até o final, de modo que o resultado seja percebido como palpável a quem executá-lo; 3. Significado da tarefa: percepção de que o trabalho realizado impacta na execução das tarefas de outras pessoas; 4. Autonomia: possibilidade de uma pessoa executar suas tarefas com independência; 5. Retroação do próprio trabalho: proporcionar o retorno a fim de que a pessoa se autoavalie; 6. Retroação extrínseca: retorno dado pelos superiores e clientes sobre as tarefas executadas; 7. lnter-relacionamento: as tarefas devem propiciar relacionamento com outras pessoas (colegas de trabalho, clientes etc.). 31 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 2 - O design dos Programas de Qualidade de Vida no Trabalho Walton Segundo o autor, oito dimensões são importantes nesse modelo: 1. Compensação justa e adequada: remuneração recebida com justiça, equilibrando o valor justo pelo trabalho realizado internamente e a remuneração oferecida pelo mercado de trabalho; 2. Condições de segurança e saúde no trabalho: jornada de trabalho e ambiente físico que proporcione bem-estar; 3. Utilização e desenvolvimento de capacidades: possibilidades de utilização das capacidades do colaborador na execução das tarefas, compreender o processo pelo qual realiza seu trabalho, obter autonomia e feedback; 4. Oportunidades de crescimento contínuo e segurança: possibilidades de crescimento e desenvolvimento na carreira, bem como a segurança para continuar no emprego; 5. Integração social na organização: apoio mútuo, eliminação das barreiras presentes nas hierarquias e preconceitos; 6. Constitucionalismo: democracia no ambiente de trabalho, clareza dos direitos e deveres do trabalhador e possibilidade de recorrer das decisões arbitrárias; 7. Trabalho e espaço total de vida: equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, de modo que o primeiro não consuma todo o tempo do colaborador; 8. Relevância social da vida no trabalho: a organização deve ser comprometida com a responsabilidade social, trazendo orgulho ao colaborador em trabalhar nela. Fonte: Adaptado de Chiavenato (2010, p. 488-490). Você deve ter percebido que os modelos acima apresentados preocuparam-se nos fatores/dimensões pelos quais a QVT assume um papel de extrema relevância para pensar o bem-estar do colaborador! Com isso, pode- mos entender que, aspectos como relações humanas, ambiente físico, responsabilidade social, autonomia, exe- cução das tarefas, feedback etc. afetam psicologicamente e podem ser motivadores para que a produtividade esteja relacionada ao fator humano. 32 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 2 - O design dos Programas de Qualidade de Vida no Trabalho Ainda assim, além dos três mais importantes modelos que você acabou de conhecer, somam-se os Programas de Bem-Estar do colaborador, cuja finalidade é prevenir problemas de saúde; o impacto desses programas refletem na vida fora do trabalho, melhorando o padrão/comportamentos voltados para a saúde pessoal, como por exem- plo: no incentivo à prática de exercícios físicos, escolha por uma alimentação saudável e conhecimento sobre os riscos de saúde referentes à pressão sanguínea, coração, obesidade, estresse etc. (CHIAVENATO, 2010).. Qual(is) dos programas de QVT apresentado(s) você indicaria para uma empresa do setor de telemarketing? Figura 2.2 - Educação Alimentar a QVT Legenda: Uma das formas de poder atuar com a QVT é o programa de bem-estar do colaborador, no qual a organiza- ção oferece orientação/educação para estilo de vida saudável, como por exemplo: uma dieta alimentar adequada. Fonte:ID da imagem: 60619273 Por conseguinte, podemos apontar outros programas e ações com foco na Qualidade de Vida no Trabalho e os resultados positivos, comumentedesenvolvidos nas organizações, além daqueles já apontados: Quadro 2.2 - Programas e Ações de QVT PROGRAMAS/AÇÕES RESULTADOS Musicoterapia Aumento da autoestima e desempenho na área profissional, melhoria nas relações interpessoais, auxílio na tolerância ao estresse e na prevenção de doenças. 33 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 2 - O design dos Programas de Qualidade de Vida no Trabalho Controle de álcool e drogas Reduz os riscos de acidentes no trabalho, melhora a saúde e autoestima, diminuindo assim o número de faltas. Preparação para a aposentadoria Propicia a motivação e a satisfação profissional, melhoria da autoestima e os relacionamentos interpessoais, descoberta de novas habilidades e aceitação para outro momento de vida. Ginástica Laboral Auxilia na prevenção e reabilitação de doenças ocupacionais, com diminuição de acidentes de trabalho e absenteísmo, além do aumento da produtividade. Terapias Alternativas (Yoga, Meditação) Aumento da tolerância ao estresse, melhora no relacionamento interpessoal, aumento da produtividade. Programas Educacionais (Campanhas, palestras, autoconhecimento, integração e lazer) Diminuem o estresse e auxiliam na compreensão e conscientização sobre as possibilidades de mudanças de atitudes que instiguem à liberdade e responsabilidade pessoal no que tange à saúde, motiva o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal. Higiene e Segurança no Trabalho Diminuem os riscos de acidente de trabalho, faltas e aumentam a produtividade. Avaliação de Desempenho Atua diretamente na satisfação pessoal do trabalhador que, ao ser reconhecido pelo trabalho executado - com um feedback adequado -, objetiva aumentar/melhorar seu desempenho pessoal. Ergonomia (Ambiente físico adequado) Torna o ambiente de trabalho eficiente e proporciona maior conforto, reduzindo acidentes. Fonte: Adaptado de Alves (2011) e Limongi-França (2011). Viu só como as organizações podem contribuir de modo significativo no desenvolvimento e implantação de pro- gramas de QVT que atendam às necessidades dos colaboradores? Somam-se a isso programas de prevenção ao HIV/Aids, câncer, riscos e acidentes de trabalho, melhoria da imagem do empregado, cidadania etc. (LIMONGI- -FRANÇA, 2011). Podemos compreender que a escolha das ações e programas escolhidos, como projeto institucional, prevê a retenção, desenvolvimento e possibilidades de melhoria na relação organização-empregador, valorizando seu bem/capital mais precioso: o humano. 34 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 2 - O design dos Programas de Qualidade de Vida no Trabalho Figura 2.3 - A QVT e o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional Legenda: Na vida pessoal dos colaboradores, é importante a preocupação com o ser humano em sua totalidade, ao propor ações que promovam seu bem-estar, a conscientiza- ção nos colaboradores sobre um equilíbrio entre a vida pessoal e profissional. Fonte: ID da imagem : 52462095 A temática Qualidade de Vida no Trabalho alcançou um patamar tão importante no meio empresarial que as organizações brasileiras – nos seus mais diversos ramos de atividades – são avaliadas e premiadas, fazendo parte das 150 melhores empresas para trabalhar, em que se avalia a satisfação e motivação dos colaboradores de mais de 200 (duzentas) organi- zações no Brasil. Você pode conhecê-las lendo o guia VOCÊ S/A – As 150 Melhores Empresas para Você Trabalhar, da Editora Abril. Uma ótima indicação para conhecer as novidades no ramo e as práticas de gestão de QVT. Agora que você aprendeu sobre os diferentes modelos e programas/ações de QVT, continue a leitura e compre- enda o impacto dessas ações nas organizações, bem como o seu alcance. 35 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 2 - O design dos Programas de Qualidade de Vida no Trabalho 2.3 O impacto e alcance dos programas de QVT nas organizações Até o momento, você aprendeu o quanto a QVT é importante para que a produtividade numa organização aumente e que o objetivo da implantação dos programas está no respeito e bem-estar dos colaboradores, não é verdade? Diante disso, surgem algumas perguntas: qual o impacto e o alcance dessas ações/programas para as organizações e colaboradores? Numa pesquisa realizada com profissionais da área de RH, Limongi-França (2011) verificou que a preocupação das organizações ao investir em QVT está direcionada à retenção dos seus talentos/capital humano, aumentar a satisfação dos seus colaboradores, conscientização sobre o bem-estar bio-psico-social-espiritual dos mesmos e, por fim, a procura por alternativas preventivas custa mais barato e melhora a vida do seu pessoal. Agora, adentramos um aspecto de grande relevância organizacional: a capacidade de que os programas de QVT reduzam custos (com saúde, faltas etc.), maximizem a oferta de produtos e serviços e, ainda assim, cuidem do bem-estar dos colaboradores nos mais diversos âmbitos (bio-psico-social-espiritual)! Nesse sentido, há uma respeito às questões de espiritualidade – não direcionadas a uma religião específica, mas à elevação, alegria no trabalho, vida interior (REGO; CUNHA; SOUTO, 2007). Por sua vez, Alves (2011) relata a importância da responsabilidade das organizações em promover um espaço em que a QVT seja uma prioridade; pois, os afastamentos causados por acidentes de trabalho e ações trabalhistas podem ser muito maiores que a promoção de ações preventivas. Dito de outra forma, trata-se de um investi- mento e não um custo. No que se refere aos três mais importantes modelos de QVT apresentados por Chiavenato (2010), cada um deles apresente um impacto e/ou relevância para sua execução: • Nadler e Lawner: com a implementação baseada nos quatro fatores apresentados (participação dos colaboradores nas decisões, reestruturação do trabalho, inovação no sistema de recompensas e melho- rias no ambiente de trabalho) é possível perceber uma melhoria da QVT na organização; • Hackman e Oldhan: as dimensões baseadas no desenho de cargos proporcionam recompensas que automotivam as pessoas por produzirem satisfação pessoal; • Walton: As oito dimensões referem-se aos vários modos de perceber o ambiente de trabalho, os relacio- namentos e a satisfação pessoal; com isso, afetarão consideravelmente o modo como os colaboradores agirão na execução de suas tarefas (aumento da produtividade) e, de igual modo, suas relações mais saudáveis no ambiente de trabalho. Baseados nos modelos acima, entendemos que o impacto das propostas discutidas para a promoção da QVT nas organizações impacta especificamente no aumento da produtividade, na satisfação pessoal de seus colaborado- res e na criação de um ambiente com relações sociais respeitosas e saudáveis. Ademais, a partir de tais mudanças, o significado e a percepção do trabalho passará por alterações sob a pers- pectiva de todos aqueles que façam parte da organização: serão compreendidos como sujeitos valorizados no ambiente de trabalho, um novo modo de conceber a execução das tarefas pela gestão, o conceito de saúde e sua relação com o trabalho etc. Nessa perspectiva, a atuação da QVT não se limita ao local de trabalho, ações e programas estão direcionados à responsabilidade social: campanhas internas para doações de roupas/sangue/brinquedos, conscientização sobre a água/meio ambiente etc. 36 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 2 - O design dos Programas de Qualidade de Vida no Trabalho Além de promover a união entre a equipe de trabalho, a valorização de ações que propiciem atitude de respon- sabilidade social favorece maior visibilidade, indica o comprometimento da organização para as causas sociais. Com isso, o alcance das ações voltadas para o cliente interno, repercutiria na aquisição de novos e antigos clien- tes externos e na melhoria da imagem organizacional. Lembra darevista 150 melhores empresas para trabalhar? Esse é um aspecto que também é avaliado como um bom local de trabalho! Os programas de QVT impactam profundamente na satisfação do colaborador e, conse- quentemente na produtividade; além disso, promovem o alcance da melhoria da imagem organizacional para novos e antigos clientes externos. Pense por um momento: você não gostaria de trabalhar numa organização em que as pessoas fossem com- prometidas com as necessidades sociais da atualidade? Provavelmente sim! Imagine que isso faria parte da sua atividade laboral! Interessante, não acha? Figura 2.4 - A responsabilidade social e a QVT Legenda: Por meio do trabalho no qual se valoriza a responsabilidade social, as ações de QVT podem alcançar mais clientes externos. Fonte:ID da imagem : 29767501 Com isso, podemos entender que a preocupação da organização com a QVT e seu capital humano faz parte do entendimento desse ativo como um diferencial competitivo; e que, o design ou implantação de um programa está relacionado às necessidades de bem-estar bio-psico-social-espiritual do colaborador, com impacto na pro- dutividade e imagem da organização no âmbito social. 37 Considerações finais Chegamos ao término da Unidade de Estudo 2 - O design dos Programas de Qualidade de Vida no Trabalho! Por meio do estudo, você aprendeu sobre: • O significado do termo: capital humano e sua importância para as organizações; • A relação entre qualidade de vida e capital humano na consolida- ção de um projeto instituição para o bem-estar dos colaboradores; • O entendimento do capital humano como diferencial competi- tivo, ao adotar programas de QVT; • O conceito de QVT como profundo respeito aos colaboradores e sua relação com a produtividade; • O conceito de Gestão de Qualidade de Vida no Trabalho para a administração das ações de QVT numa organização; • Os principais fatores estudados para criação/design dos modelos de QVT; • Os três modelos mais importantes de QVT no trabalho: Nadler e Lawner, Hackman e Oldhan, e de Walton; • Programas e ações comumente implementados nas organizações brasileiras e seu impacto; • A importância do olhar humanizado para a criação dos progra- mas de QVT; • A preocupação das organizações ao investir em QVT para reten- ção dos seus talentos/capital humano, aumentar a satisfação dos seus colaboradores e um olhar sobre o bem-estar bio-psico-social- -espiritual dos mesmos; • O impacto e alcance dos programas de QVT e seus benefícios. Referências bibliográficas 38 ALVES, E. F. Programas e ações em qualidade de vida no trabalho. Revista INTERFACEHS, v. 6, n. 1, abr. 2011. CARMO, D. R. do; SANTANA, L. C. de; TRIGO, A. C. Revista de Iniciação Científica – RIC Cairu, v. 2, n. 2, p. 133-155, jun. 2015. CHIAVENATO, I. Gestão de pessoas: o novo papel dos recursos humanos nas organizações. 3. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010. ______. Recursos humanos: o capital humano das organizações. 8. ed. Rio da Janeiro: Elsevier, 2009. LIMONGI-FRANÇA, A. C. Práticas de recursos humanos PRH: conceitos, ferramentas e procedimentos. São Paulo: Atlas, 2011. ______. Qualidade de vida no trabalho – QVT: conceitos e práticas nas empresas da sociedade pós-industrial. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2012. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Constituição da Organiza- ção Mundial da Saúde (OMS/WHO) – 1946. Disponível em: <http://www. direitoshumanos.usp.br/index.php/OMS-Organiza%C3%A7%C3%A3o- -Mundial-da-Sa%C3%BAde/constituicao-da-organizacao-mundial-da- -saude-omswho.html>. Acesso em: 2 abr. 2017. REGO, A.; CUNHA, M. P. e; SOUTO, S. Espiritualidade nas organizações e comprometimento organizacional. RAE-eletrônica, v. 6, n. 2, jul./dez. 2007. 3 40 Unidade 3 Estruturação de Programas de Qualidade de Vida no Trabalho Para iniciar seus estudos Nesta unidade você é convidado a participar de forma ativa. Serão tra- tados aqui os aspectos extrínsecos e intrínsecos inerentes a Programas de Qualidade de Vida no Trabalho – PQVT. Será apresentada a estru- turação de PQVTs: o foco, os benefícios esperados e seus estágios para implantação Objetivos de Aprendizagem • As várias etapas envolvidas nos Programas de Qualidade de Vida no Trabalho. • Aspectos intrínsecos e extrínsecos. 41 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 3 - Estruturação de Programas de Qualidade de Vida no Trabalho 3.1 Qualidade de Vida no Trabalho – aspectos a serem considerados Atualmente vemos um considerável crescimento na valorização do capital humano no contexto do trabalho. Conforme vimos na Unidade 1, se nos idos de 1970 e 1980 o foco foi na produção, e depois nos processos, ape- nas em meados de 1990 começou a se cogitar acrescer as pessoas à equação corporativa. Isso é notório quando se avalia o aumento na quantidade de pesquisas e sobre a forma como as pessoas se relacionam com o trabalho e na busca de maneiras de se melhorar a dinâmica dessa relação. Figura 3.1 – Mudança de Enfoque do Capital nas corporações. Legenda: Houve um descolamento do Capital Financeiro para a chamada Era do conhecimento, do Capital Intelectual. Fonte: Elaborada pelo autor (2017). É a partir da reflexão sobre os modelos de gestão que não mais valorizam apenas a racionalidade das leis de mer- cado, mas sim as pessoas, e, por conseguinte, a Qualidade de Vida no Trabalho, que, são agora evidenciados os fatores que fomentam a satisfação de empregados, entendidos então como parte integrante das empresas. Mas como encontrar a medida, o equilíbrio ideal entre o aumento e a sustentabilidade dos níveis de produtividade e atender à qualidade de vida de quem produz/atua (trabalha)? 3.1.1 Aspectos extrínsecos ao Programa de Qualidade de Vida no Trabalho (PQVT) Ao redor do globo terrestre, com as fortes exigências mercadológicas, o quadro funcional das corporações tem modificado seu perfil. Pois, como destaca Boog (2002) grande parte dos profissionais tem buscado relações profissionais com organizações que tenham na sua carteira de projetos ações relacionadas à qualidade de vida, assim como empreendimentos relacionados à formação e à requalificação dos funcionários. Programas que, em linhas gerais, combatam, diretamente, a fadiga organizacional, e que fomentem melhorias qualitativas na natureza das tarefas e na forma como a empresa pensa a organização do trabalho: isso pode ser traduzido, por exemplo, na disponibilização de maior autonomia e possibilidade de participação dos trabalhadores em proces- sos de tomada nas decisões. 42 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 3 - Estruturação de Programas de Qualidade de Vida no Trabalho Para ficar mais ilustrativo vejamos o caso da AVAST SOFTWARE: 1. A empresa possui sede na cidade de Praga em Portugal, e marca presença em 30 países diferentes, inclu- sive no Brasil. Para seus dirigentes corporativos QVT é uma questão estratégica. 2. Desde 2014 a empresa tem investido agressivamente em ações e projetos que se foquem na QVT. Uma de suas premissas é estruturar ações que valorizem o ambiente físico das sedes da empresa e que tenham efeito estimulante no potencial de inovação das pessoas. Isso se deve ao fato de que, para a AVAST, empresas líderes em seus segmentos dão prioridade à criação de um ambiente físico que maximizasse a comunicação entre os funcionários. 3. O foco, nessa medida, foi promover uma sensação de bem-estar e oferecer oportunidades para movi- mentos criativos. Só foi possível alavancar um projeto dessa envergadura a partir do momento em que foram envolvidos profissionais das diversas áreas da empresa – Financeira, Facilities, Recursos Humanos, Engenharia, por exemplo, que contribuíram, ativamente, para o sucesso do projeto. 4. Se o alvo dessa empreitada eram os próprios funcionários, nada mais natural que envolvê-los nas ações e, assim, carinhosamentetodo funcionário era denominado de “Avastians”. 3.1.1.1 A relação entre a Produtividade e Qualidade de Vida no Trabalho Lembremos das unidades anteriores, em que vimos que o trabalho é um dos elementos centrais na formação da identidade das pessoas, pois ele possibilita o desenvolvimento de habilidades, sendo que é pelo e no trabalho que o indivíduo se relaciona e se expressa na sociedade, por meio de aspectos como escolhas profissionais, o(s) local(is) de trabalho, da mesma forma no que tange à sobrevivência/subsistência de si e da família. Qualidade de Vida no Trabalho pode ser pensada para aqueles que estão à margem da eco- nomia, os desempregados/desocupados, por exemplo? Isso é tão verdade, que a existência ou a ausência desse TRABALHO pode refletir problemas financeiros, baixa autoestima, problemas nas relações sociais etc. Em ambos os casos esses problemas são causados pelo/sem o trabalho. Fadiga Organizacional – FO, tipo de desgaste comportamental e emocional decorrente de exaustão laboral, ou oriundo de práticas de assédio moral, ou advindas da pressão na tomada de decisões importantes no contexto organizacional. Glossário 43 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 3 - Estruturação de Programas de Qualidade de Vida no Trabalho Figura 3.2 – Sem-teto e Sem-trabalho. Fonte: 123rf.com ID: 16436893 Lancman e Uchida (2003), pesquisadores sobre o trabalho e seu impacto sobre a subjetividade dos trabalha- dores, identificaram o aparecimento de elementos de insatisfação, medo, angústia, dor, receio, sofrimento e infelicidade, em razão justamente da sub ou hiperutilização das capacidades psíquicas, cognitivas e físicas dos trabalhadores colocados, pois elementos como esses são encontrados em situações caracterizadamente, impo- sitivas de rigidez: • de horários; • de ritmo; • de formação; • de informação; • de aprendizagem; • de nível de instrução e de diploma; • de rapidez de aquisição de conhecimentos teóricos e práticos; • de experiência; • de adaptação da cultura ou à ideologia da empresa. Dessa feita, pensar em ações que se dediquem a melhorar a QVT nas organizações é pensar em “[...] progra- mas [que se dediquem a] criar uma organização mais humana, mediante maior grau de responsabilidade e de autonomia no trabalho, [com] recebimento mais constante de feedback sobre o desempenho, maior variedade e adequação de tarefa e ênfase no desenvolvimento pessoal do indivíduo” (GIL, 2007, p. 276). Se o foco é gerar comprometimento, e criação de vínculos, no contexto organizacional, ou mesmo laboral apenas, é preciso engendrar programas que oportunizem o “envolvimento nas decisões que influenciam suas áreas de trabalho”. (GIL, 2007, p. 276). 44 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 3 - Estruturação de Programas de Qualidade de Vida no Trabalho Engendrar. É um verbo transitivo direto, pode significar inventar; criar de maneira imagina- tiva: engendrar - desculpas; engendrar - motivos. Função Pronominal, pode significar criar; ocasionar o aparecimento de alguma coisa sem origem aparente: engendrar apartamentos; engendram-se efeitos para os medicamentos.. Glossário Nesse sentido qualquer programa que vise melhoria precisa ter em suas premissas o entendimento de que é imprescindível só melhorar algo que se conheça. Por exemplo, dimensionar a percepção dos indivíduos sobre o que interfere na qualidade vida interna e na própria organização do trabalho. Logo, será singular identificar e dimensionar o quanto se é considerado importante aos trabalhadores, por exem- plo, a relevância dotada a questões como: Figura 3.3 – Questões consideradas relevantes aos trabalhadores. Fonte: Adaptada de Gil (2007). 3.1.2 Aspectos intrínsecos para se estruturar um PQVT Partindo do pressuposto de que para qualquer ação que deseje atender parâmetros promotores de saúde e bem- -estar no contexto do trabalho é preciso levar em conta que estes dotam a Qualidade de Vida no trabalho de seu caráter mais difícil de lidar: sua condição subjetiva, pois será conforme a percepção do trabalhador sobre como entende o posicionamento assumido sobre o contexto laboral em que atua e os sistemas de valores que suas ações se orientarão. Isso demanda do próprio trabalhador recursos psicológicos como: autoeficácia e resiliên- cia. 45 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 3 - Estruturação de Programas de Qualidade de Vida no Trabalho Autoeficácia - capacidade de realização de ações específicas e envolve aspectos como a confiança do indivíduo, sua capacidade de fazer uso de conhecimentos adquiridos. Está diretamente ligada a questões como criatividade e mudança. Glossário Resiliência - Capacidade desenvolvida por um indivíduo ou um grupo, de enfrentamento diante a adversidade. Para tanto é preciso sobreviver e sair fortalecido(a) pela situação. Glossário 3.1.2.1 Modelos que subsidiam a estruturação de Programas de Qualidade de Vida no Trabalho Ogata e Simurro (2009) nos apresentam alguns modelos explicativos que articulam mudança comportamental à Promoção de Saúde no contexto do Trabalho. 3.1.2.2 Modelo de bem-estar (WELLNESS) do National Wellness Institute O primeiro modelo apresentado por Ogata e Simurro (2009) baseia-se no aparecimento de estágios de mudan- ças em nível comportamental nas pessoas. Os estágios são divididos em quatro momentos (Pré-contemplação, Contemplação, Preparação/Ação e Manutenção do comportamento). A. PRÉ-CONTEMPLAÇÃO Nessa fase as pessoas não conseguem mudar seus comportamentos, pois não têm consciência de que suas ações, então problemáticas, são a razão de não conseguirem atuar de forma mais saudável e não conseguem estabelecer o nexo causal entre suas ações e as consequências advindas destas. 46 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 3 - Estruturação de Programas de Qualidade de Vida no Trabalho Figura 3.4 – Escolhas. Fonte: freepik.com ID: 765208 B. CONTEMPLAÇÃO Nesse estágio as pessoas até têm a pretensão, a capacidade e a dimensão de atuar de forma diferente, mas entendem que correr os riscos inerentes à mudança será muito caro. Figura 3.5 – Reflexão sobre as escolhas. Legenda: As pessoas temem mudanças diante dos riscos. Fonte: 123rf.com ID: 47284342 C. PREPARAÇÃO/AÇÃO Além da pretensão de agir diferente há vontade de se arcar com os riscos a serem cobrados pela mudança na forma de atuar. Em geral, para que a mudança se estabeleça há a necessidade de se perpetuar o novo compor- tamento por pelo menos seis meses. 47 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 3 - Estruturação de Programas de Qualidade de Vida no Trabalho Figura 3.6 – Preparar, apontar, agir. Fonte: 123rf.com ID: 44155179 D. MANUTENÇÃO O foco não é mais os riscos cobrados mais os ganhos com o novo comportamento implantado na fase de prepa- ração/ação. Figura 3.7 – Avaliar as escolhas implantadas. Fonte: 123rf.com ID 44284786 48 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 3 - Estruturação de Programas de Qualidade de Vida no Trabalho 3.1.2.3 Modelo de Promoção de Saúde no Ambiente de Trabalho Um segundo modelo apresentado por Ogata e Simurro (2009) é conhecido como modelo de Promoção de Saúde no Ambiente de Trabalho que contempla, também, quatro estágios: A. SENSIBILIZAÇÃO Os trabalhadores podem ser sensibilizados através de ações formativas que contemplem a discussão coletiva (através da elaboração de uma rede de apoio) daquilo que possa afetar sua saúde, positiva ou negativamente. B. MOTIVAÇÃO Um indivíduo só agirá de forma diferente quando estiver motivado para tal. E os indicadores que possibilitarão identificar essa mudança de comportamento serão: quando este buscar ampliar os conhecimentos, informações e habilidades que domine, e que o capacitem a criar oportunidades para mudar. C. CONSTRUÇÃO DEHABILIDADES E CONHECIMENTOS Será a partir do estabelecimento de metas alcançáveis, da capacidade de controlar, dar feedback, mostrar resul- tados e estabelecer novas metas que se propiciam e se efetivam mudanças comportamentais em qualquer nível. D. OPORTUNIDADE E AMBIENTE Será através da consolidação (formação de hábito) de um novo comportamento que uma pessoa motivada cria oportunidades para perpetuar ações que promovam a saúde no ambiente de trabalho. 49 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 3 - Estruturação de Programas de Qualidade de Vida no Trabalho 3.1.2.4 Modelo WELCOA Outro modelo explicativo apresentado pelos autores (OGATA; SIMURRO, 2009), o WELCOA (instituição norte- -americana Wellness Councils of America) traz um rol de sete premissas que são encontradas quando se busca entender a dinâmica da gestão de PQVTs: Figura 3.8 – Premisssas de PQVTs. Fonte: Ogata e Simurro (2009) 50 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 3 - Estruturação de Programas de Qualidade de Vida no Trabalho 3.1.2.5 Modelo de Larry Chapman Basicamente esse modelo explicativo estrutura suas explanações em três submodelos: Figura 3.9 – Modelo de Larry Chapman. Fonte: Ogata e Simurro (2009). O submodelo BÁSICO diz respeito apenas a ações lúdicas, e que se caracterizam pelo voluntariado como pre- missa para participação. Isso implica em um baixo índice (praticamente nulo) de redução dos fatores de risco. Nesse tipo de mobilização há o empreendimento de ações genéricas, com pouco envolvimento social e sem um momento avaliativo quanto aos resultados alcançados. Já o submodelo INTERMEDIÁRIO foca suas ações na busca em reduzir fatores de risco, pois prioriza o fomento à saúde e se caracteriza também pelo voluntarismo de seus participantes. Há um incremento nos níveis de partici- pação social, pois, de forma restrita, aparece, em cena, a figura de incentivos, com um tímido processo avaliativo dos resultados. Agora, no que concerne ao submodelo AVANÇADO há, de maneira evidenciada, a busca pela redução dos fato- res de risco à saúde. Já se inicia o que será falado aqui em um Programa estruturado de QVT. Ou seja, com uma variedade, planejada, ações no contexto organizacional. E relaciona, diretamente, a análise dos níveis de produ- tividade e de bem-estar quando se realizam avaliações, ao longo de todo o processo. 3.2 A Estruturação de Programas de Qualidade de Vida no Trabalho – foco e benefícios esperados na implantação Para Paschoal, Torres e Porto (2010) ao se implantar um Programa de Qualidade de Vida no Trabalho (PQVT) há que se considerar o tipo de suporte ofertado às pessoas na organização. “Por exemplo, o fator gestão de desem- penho envolve práticas que incluem estabelecimento de metas, valorização de novas ideias e atualização dos funcionários para uso de novas tecnologias” (PASCHOAL; TORRES; PORTO, 2010, p.1060). Todas precisam preco- nizar o desenvolvimento das habilidades e potenciais do trabalhador. Isso tem efeito direto em âmbitos objetivos e subjetivos no que tange à realização do bem-estar no trabalho. Ao se pensar nos aspectos extrínsecos e intrínsecos, através de ações que contemplem a gestão do desempenho, da oferta de suporte social e material, da estruturação de políticas de carreira, por exemplo, busca-se a melhora da Qualidade de Vida no Trabalho. Mas como dimensionar isso, quais resultados esperar? 51 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 3 - Estruturação de Programas de Qualidade de Vida no Trabalho E, assim, a partir da Implantação de PQVTs vêm à tona benefícios, tais como: Figura 3.10 – Melhorias esperadas com a implantação de PQVTs. Fonte: Ogata e Simurro (2009). 3.3 A Estruturação de Programas de Qualidade de Vida no Trabalho – estágio de implementação. Quando se pretende encampar e implementar um Programa de Qualidade de Vida no Trabalho (PQVT) é preciso ter em mente três direcionamentos que podem ser dados: 1. Fomento Motivacional; 2. Promoção da saúde e bem-estar; e 3. Aumento da produtividade. Com base nessas questões é que se pode entender a dinâmica de um Programa voltado para a Qualidade de Vida no Trabalho. Nas próximas unidades será debatido cada um dos estágios de implantação de um Programa de Qualidade de Vida no Trabalho (PQVT). Por hora atentemo-nos apenas em elencar quais são esses estágios e como se caracterizam. Limongi-França (2003) – e posteriormente aprimorado em estudo realizado por Coutinho, Maximiano e Limongi- -França (2010) – define que as fases que constituem um Programa de Qualidade de Vida no Trabalho são: Figura 3.11 – Fases de um PQVT. Fonte: Adaptado de Limongi-França (2003). 52 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 3 - Estruturação de Programas de Qualidade de Vida no Trabalho A. DIAGNÓSTICO Essa fase compreende o momento em que se coletam as informações necessárias para se estabelecer um enten- dimento suficiente sobre a dinâmica de funcionamento de uma organização, concomitantemente às caracterís- ticas sociais e condições em que ocorre o trabalho e a percepção de bem-estar ou mal-estar decorrente dessas condições. B. SENSIBILIZAÇÃO Nessa fase se promove: (1) a troca das perspectivas (visões) que cada um dos atores organizacionais tem sobre as condições de trabalho, e; (2) a construção de um entendimento consensual de meios de modificá-las. C. PREPARAÇÃO Será nessa fase em que se realizará a seleção dos mecanismos organizacionais em que se embasarão as ações de fomento de Qualidade de Vida no Trabalho, por meio da utilização de mecanismos/recursos necessários para sua execução: equipe do PQVT, modelos de atuação e os instrumentos a serem utilizados. D. IMPLEMENTAÇÃO A partir das prioridades e do cronograma estabelecidos, nessa fase serão realizadas mudanças relacionadas a questões como: 1. A tecnologia empregada; 2. A organização do trabalho; 3. O modelo de gestão vigente; 4. O ambiente físico e práticas; e 5. A política organizacional relacionada a pessoas. E. MONITORAMENTO E AVALIAÇÃO Nesse momento se dá a avaliação das ações referentes ao PQVT, com o intuito de se mensurar como a implan- tação das mudanças se consolidou, para então se avaliar a manutenção ou a evolução das ações no contexto organizacional. A fim de se mensurar de forma mais objetiva a implementação de um PQVT faz-se neces- sária a utilização de indicadores que dimensionem sua evolução, tais como: (a) ação social e ecológica da empresa; (b) atividades esportivas, culturais e de lazer; (c) ausência de insalubri- dade e de preconceitos; (d) grau de autonomia para execução no trabalho; (e) nível de com- prometimento dos atores organizacionais (dirigentes, empregados, clientes e fornecedores); (f) imagem organizacional; (g) clareza nos procedimentos referentes à execução do trabalho; (h) nível cultural; (i) valorização dos serviços pelos outros setores da empresa; entre outros. 53 Considerações finais Ao longo desta unidade, tivemos contatos com os seguintes pontos: • ASPECTOS EXTRÍNSECOS: diz respeito às ações que se dediquem a criar uma organização mais humana, com maior grau de res- ponsabilidade e de autonomia no trabalho. PQVTs só podem gerar comprometimento se houver a criação de vínculos, no contexto organizacional, pois oportunizam o envolvimento dos trabalha- dores nas decisões que influenciam seu trabalho. • ASPECTOS INTRÍNSECOS: diz respeito às ações que levem em conta a condição subjetiva do trabalho. É a percepção do traba- lhador sobre o trabalho e o contexto laboral em que atua, ou seja, os sistemas de valores em que suas ações se orientarão. Em geral, é a análise de como o próprio trabalhador utiliza de recursos psi- cológicos como: autoeficácia e resiliência. • BENEFÍCIOS AO SE IMPLANTAR UM PQVT: (1) Melhoria do estilo de vida dos trabalhadores; (2) Redução dos fatoresde risco, a níveis individuais; (3) Elevação e estabelecimento da capacidade de controle da própria saúde; (4) Melhoria na gestão de fatores de estresse; (5) Elevação da qualidade dos relacionamentos interpes- soais no âmbito profissional; (6) Níveis de inteligência emocional e motivação elevados, e; (7) Melhoria da percepção de bem-estar no contexto organizacional. • ESTUTURAÇÃO DE PQVT: (1) diagnóstico; (2) sensibilização; (3) preparação; (4) implementação, e; (5) monitoramento e avaliação. Referências 54 BISPO, P. Uma empresa que inspira qualidade de vida. Portal RH, 2016. Disponível em:<http://www.rh.com.br/Portal/Qualidade_de_Vida/Mate- ria/10318/uma-empresa-que-inspira-qualidade-de-vida.html>. Acesso em: 5 abr. 2017. BOOG, G. G. Manual de gestão de pessoas e equipes. v. 2 – Estratégias e Tendências. São Paulo: Gente, 2002. COUTINHO, M.L.G.; MAXIMIANO, A.C.A.; LIMONGI-FRANÇA, A.C. Implan- tação de programas de qualidade de vida no trabalho com o modelo de gestão de projetos. Revista de Gestão e Projetos - GeP, [S.l.], v. 1, n. 1, p. 172-189, june 2010. Disponível em: <http://www.revistagep.org/ojs/ index.php/gep/article/view/11>. Acesso em: 05 abr. 2017. GIL, A. C. Gestão de Pessoas - enfoque nos papéis profissionais. São Paulo: Atlas, 2007. LANCMAN, S.; UCHIDA, S. Trabalho e subjetividade: o olhar da psicodinâ- mica do trabalho. Caderno de Psicologia Social e do Trabalho, 6:79- 90, dec. 2003. Disponível em: <https://www.revistas.usp.br/cpst/article/ view/25852>. Acesso em: 05 abr. 2017. LIMONGI-FRANÇA, A. C. As pessoas na organização. São Paulo: Gente, 2002. ______. Qualidade de vida no trabalho – QVT. Conceitos e práticas nas empresas da sociedade pós-industrial. São Paulo: Atlas, 2003. OGATA, A.; SIMURRO, S. Como planejar e gerenciar o melhor programa para a sua empresa. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009. PASCHOAL, T.; TORRES, C.; PORTO, J. B. Felicidade no trabalho: relações com suporte organizacional e suporte social. RAC, Curitiba, v. 14, n. 6, p. 1054-1072, nov./dez. 2010. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ rac/v14n6/v14n6a05.pdf>. Acesso em: 5 abr. 2017. 56 4Unidade 4 QVT: Diagnóstico: organizações e pessoas Para iniciar seus estudos Caro(a) estudante, nesta unidade, estudaremos aspectos importantes sobre a qualidade de vida no trabalho relacionada ao clima e à cultura organizacional, à atuação estratégica da liderança nas organizações e às metodologias que as organizações utilizam para avaliarem o processo de implementação da qualidade de vida no trabalho. Objetivos de Aprendizagem • Cultura e clima organizacional e tipos de organizações. • Tipos de lideranças e o papel do gestor. • O papel do RH e dos colaboradores nas organizações. • Estresse e ergonomia no trabalho. • Metodologias para realizar diagnósticos em QVT. 57 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 4 - QVT: Diagnóstico: organizações e pessoas 4.1 Cultura e Clima Organizacional: fatores que influenciam a Qualidade de Vida no Trabalho Primeiramente, é importante que você compreenda que a Qualidade de Vida no Trabalho (QVT) é um termo amplo que envolve saúde, motivação, satisfação, cultura e clima organizacional, as condições de trabalho propi- ciadas pelas empresas, estresse, estilos de liderança, entre outros aspectos, correto? Neste tópico você aprenderá como a cultura organizacional está atrelada à qualidade de vida no trabalho, ou seja, como se dá essa relação. Antes de entramos nessa relação, é importante você compreender o conceito de cultura organizacional. Nesse sentido, podemos conceituar a cultura de uma empresa como o conjunto de artefatos, valores e crenças que são compartilhados e construídos pelos colaboradores ao longo da vida da organização. Perceba que a cultura organizacional é o somatório de cada contribuição da cultura individual dos colaboradores. Assim, a cultura é uma rede de sentidos que é construída e formada ao longo da vida organizacional. Para o autor Kanaane (2009), o conceito de cultura organizacional é formado por três dimensões: • Material: envolve o sistema produtivo. • Psicossocial: abrange o sistema de comunicação e interação dos envolvidos. • Ideológica: composta pelo sistema de valores presente na organização. Perceba que se você observar as relações interpessoais que são estabelecidas nas organizações, você conse- guirá identificar os sinais que apontam para uma cultura existente, por meio, por exemplo, das interações que podem refletir o grau de formalidade dos ambientes organizacionais. Outro fator que também aponta para a cultura organizacional é a presença de um maior ou menor grau de flexibilidade das relações estabelecidas pelos membros e as condições de participação dos grupos existentes nas organizações (KANAANE, 2009). Assim, os grupos sociais que participam da construção da cultura organizacional apresentam uma concepção de quali- dade de vida no trabalho que deve ser percebida pelas organizações que desejam atuar de forma estratégica em um mercado cada vez mais competitivo. A cultura de uma organização envolve, ainda, os significados que são compartilhados pelos participantes, o sentido atribuído às atividades desempenhadas no dia a dia, os ritos, as crenças, os gestos e todos os símbolos que refletem e proporcionam um sentido para as pessoas. Mas aí você pergunta: qual a relação entre a cultura organizacional e a qualidade de vida no trabalho? É exatamente a esse ponto que gostaria de chegar com você. As empresas que se preocupam com a qualidade de vida no trabalho e, como consequência, implementam um conjunto de melhorias em direção à busca de satisfação das necessida- des pessoais e organizacionais, refletem uma cultura permeada por valores humanos e não apenas por valores capitalistas da sociedade moderna. A cultura de uma organização que se preocupa com a qualidade de vida das pessoas é aquela que acredita que as pessoas são agentes de mudanças e são as principais responsáveis por transformarem as informações, matéria-prima, e demais insumos, no produto ou serviço que deve ser disponi- bilizado ao mercado-alvo das empresas. A figura a seguir representa a integração entre cultura organizacional e qualidade de vida no trabalho. Figura 4.1 – Cultura Organizacional Legenda: Consequência positiva para as organizações quando a cultura da empresa reflete a preocupação com as pessoas como um de seus valores corporativos. Fonte: Elaborada pelo autor (2017). 58 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 4 - QVT: Diagnóstico: organizações e pessoas Dentro desse contexto da cultura organizacional, a QVT passa a ser concebida como um conjunto de escolhas orientadas para o bem-estar dos colaboradores em direção a um equilíbrio dinâmico dos fatores biológico, psi- cológico, social e organizacional das pessoas (TAVEIRA, 2013; LIMONGI-FRANÇA, 2003). Assim, a cultura orga- nizacional pode ser percebida pelo nível de sinergia presente no sistema organizacional, que é resultante das energias emanadas por cada colaborador em suas interações sociais. Essas interações podem estar relacionadas à cooperação, colaboração e participação, ou às relações conflituosas não administradas, como as competições e rivalidades grupais (LIMONGI-FRANÇA, 2003). Sinergia é uma cooperação das pessoas, em que o resultado alcançado ou o todo é maior que a soma de cada parte. Glossário Perceba que a cultura organizacional e a qualidade de vida impactam, principalmente, no aspecto físico do ambiente, que deve ser planejado para atender não somente às necessidades físicas e psíquicas dos colaborado- res, mas proporcionar melhores condições de vida e, consequentemente, maior produtividade e desempenho às organizações e às pessoas (LIMONGI-FRANÇA, 2003). Dessa forma, uma empresa que apresenta em sua cultura organizacional dimensões relacionadas à QVTnão negligencia os aspectos físicos do ambiente quanto à iluminação, à ergonomia e à disposição do layout, que são de fundamental importância para o alcance da eficiência na execução das tarefas e que minimizam a predispo- sição para doenças causadas pelo trabalho (TAVEIRA, 2013; LIMONGI-FRANÇA, 2003). Como a QVT envolve várias dimensões do comportamento organizacional, é de fundamental importância para as empresas compreenderem a relação tanto da cultura quanto do clima organizacional no contexto da qualidade de vida dos trabalhadores. Perceba que essa compreensão propicia às organizações uma fonte de informação sobre o que pode ser implementado no ambiente de trabalho para torná-lo cada vez mais harmonioso e alinhado aos objetivos organizacionais e às aspirações dos trabalhadores. Essa descrição que acabamos de compreender constitui uma percepção de clima da organização, ou seja, a busca pela satisfação das necessidades fisiológicas, de pertencimento a um grupo social, das necessidades de estima e de autorrealização no ambiente organizacio- nal, compreendem o processo de ajustamento entre os objetivos das pessoas e das organizações (BOOG, 2002). Nesse sentido, afirma Boog (2002) que o clima organizacional positivo sinaliza um bom funcionamento da equipe e alcance das metas definidas pelas organizações. Concebido como um atributo pertencente tanto ao indivíduo como à organização, o clima organizacional relaciona-se, principalmente, a uma boa convivência no local de trabalho. Dessa forma, quanto mais positiva for a expectativa dos dirigentes em relação à participação dos tra- balhadores, maior a necessidade de um clima organizacional afetivo (BOOG, 2002). Assim, é importante que você compreenda que o clima organizacional também está relacionado ao processo de descrição e compreen- são do comportamento humano. Diante disso, é importante que as empresas busquem promover incentivos no ambiente do trabalho com a finalidade de demonstrar aos colaboradores que sua participação é de fundamental importância na construção de um clima harmonioso, permeado por afetos positivos nas organizações (BOOG, 2002). O clima organizacional é composto por afetos positivos ou negativos, ou seja, expectativas, anseios e necessidades dos colaboradores e suas relações interpessoais no contexto organizacional. A figura a seguir ilus- tra o conceito de alguns aspectos que caracterizam o clima organizacional. 59 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 4 - QVT: Diagnóstico: organizações e pessoas Figura 4.2 – Clima Organizacional Legenda: A figura ilustra alguns componentes do clima organizacional como afe- tos positivos, expectativas, necessidades, dentre outros. Fonte: Elaborada pelo autor (2017). Para Boog (2002), a motivação está estritamente relacionada ao clima organizacional. Tal fato pode ser expli- cado, pois a motivação, quando estimulada no local de trabalho, provoca reações diferentes de comportamentos nos colaboradores. Nesse sentido, quando a reação é positiva, a motivação entre os membros cresce e a percep- ção de clima motivacional aumenta. Como consequência, as relações de satisfação no trabalho e de interesse dos colaboradores pelo trabalho ou atividade desempenhada contribuem positivamente tanto para a qualidade de vida do funcionário quanto para o alcance dos resultados da empresa. Por outro lado, a ausência de motivação entre os funcionários provoca uma insatisfação das necessidades e a percepção do clima organizacional tende a ser negativa ou “carregada”. Para Boog (2002), um clima organizacional negativo é caracterizado por estados de agressividade, apatia e insatisfação no espaço laboral, o que impacta de forma direta na qualidade de vida, pois pode acarretar patologias aos colaboradores. O que você precisa compreender é que o clima organizacional é a expressão dos sentimentos dos empregados em relação aos valores, às políticas e práticas de gestão de recursos huma- nos e à forma de relacionamento estabelecida no trabalho. Assim, o clima organizacional influencia diretamente o estado motivacional das pessoas e é influenciado tam- bém pelos estímulos motivacionais promovidos no ambiente de trabalho. Boog (2002) afirma que o clima orga- nizacional pode ser compreendido, ainda, como a forma com que o colaborador percebe a empresa como agra- dável ou desagradável, e isso é um resultado da satisfação por parte do colaborador em relação ao ambiente propiciado para se trabalhar pela organização. Como fatores relacionados à satisfação, podemos citar os senti- mentos positivos do colaborador em relação ao trabalho, como a percepção de realização, de reconhecimento do trabalho em si, da responsabilidade e do progresso na organização. Como fatores de descontentamento rela- cionados aos afetos negativos, os colaboradores podem perceber uma visão negativa das políticas empresariais e da administração, a supervisão, o salário e as más condições de trabalho. Perceba que todos esses fatores podem impactar na qualidade de vida dos colaboradores, o que os conduzirá à ineficiência de suas atividades laborais e à insatisfação não só com o trabalho, mas com a vida como um todo (BOOG, 2002). 60 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 4 - QVT: Diagnóstico: organizações e pessoas Um clima organizacional positivo conduz ao equilíbrio da satisfação das necessidades pessoais e profissionais, certo? Por outro lado, o clima organizacional tenso ou negativo resulta na frustração das necessidades, o que provoca insegurança e conflitos entre os colaboradores. Assim, o clima organizacional envolve um conjunto de variáveis que identificam os aspectos que precisam ser melhorados no locus do trabalho, em busca da satisfação e da qualidade de vida dos trabalhadores (BOOG, 2002). A figura a seguir ilustra a relação entre clima organiza- cional e qualidade de vida dos colaboradores. Figura 4.3 – Clima organizacional e Qualidade de Vida dos Trabalhadores Legenda: Resultados de um clima organizacional positivo e sua relação com a melhoria da qualidade de vida no trabalho. Fonte: Elaborada pelo autor (2017). Para Boog (2002), é importante que as empresas identifiquem como os trabalhadores que são expostos a uma série de estímulos oriundos da organização e do ambiente de trabalho atribuem significados similares aos aspec- tos que são importantes no contexto organizacional, como, por exemplo, as políticas e sistemas de remunera- ções. Dessa forma, as percepções dos colaboradores constituem a base de definição de um clima organizacional. Na próxima seção, será apresentada a você a importância do papel do gestor na implementação da qualidade de vida no trabalho, bem como os tipos de organizações existentes e as possíveis formas de liderança. 4.2 As organizações e o papel das lideranças Para Kanaane (2009), a finalidade de uma organização está relacionada aos propósitos delineados para aquela empresa e à forma como as organizações desejam impactar o ambiente interno e externo. Nesse sentido, as influências no ambiente externo e interno refletem o estágio em que se encontra a organização, e os recursos que serão utilizados para operacionalizar a missão e os objetivos organizacionais. Perceba que alguns fatores relacionados ao clima e à cultura organizacional podem mobilizar ou estagnar os sistemas administrativos, esses últimos utilizados como “ponte” para o alcance dos resultados organizacionais. Você deve ter percebido que existem vários tipos de organizações, como as organizações públicas, privadas, filantrópicas ou do terceiro setor. Como organizações públicas, podemos citar o Instituto Nacional de Segurança Social; as organizações privadas você já sabe que são constituídas pelas empresas lucrativas em geral; como organizações filantrópicas, temos as associações sem fins lucrativos; e, como as do terceiro setor, as Organiza- ções Não Governamentais (ONGs). Pois bem, o queé importante você compreender é que todos esses tipos de organizações, com ou sem fins lucrativos, apresentam um objetivo, uma peculiaridade, uma cultura e um clima organizacional, mesmo diante das mudanças requeridas por uma economia globalizada. Os objetivos estabelecidos pelas organizações refletem em si mesmos um conjunto de definições que são esta- belecidas como pré-requisitos necessários para o desenvolvimento organizacional. Nesse sentido, os objetivos podem ser conceituados como os diferentes caminhos a serem trilhados pelas empresas por meio dos indivíduos e grupos, com a finalidade de operacionalizar a razão de existência da organização – missão (KANAANE, 2009). 61 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 4 - QVT: Diagnóstico: organizações e pessoas Ainda sobre os objetivos organizacionais, existem organizações que apresentam objetivos genéricos e filosóficos que refletem os parâmetros fundamentais de sua existência, os objetivos econômicos e financeiros relaciona- dos ao desempenho financeiro almejado e os objetivos sociais que projetam a responsabilidade das organiza- ções com a comunidade externa (KANNANE, 2009). Dessa forma, os objetivos assinalam os caminhos planejados pelas organizações, as quais definirão os seus sistemas administrativo, tecnológico, social e comportamental. A figura a seguir esquematiza o conceito de objetivos organizacionais. Figura 4.4 – Conceito de objetivo Legenda: Conceito de objetivo e sua relação na definição dos sistemas organizacionais Fonte: Elaborada pelo autor (2017). Você sabia que o conceito de objetivo está relacionado ao tipo de organização? Vale ressaltar que as mudanças que ocorrem no ambiente organizacional exigem cada vez mais uma entrega rápida, customizada e de alta qualidade das organizações. Como consequência, as organizações, para atender a essa demanda, passam a exigir cada vez mais de seus profissionais. Nesse contexto, uma das necessidades das organizações, nos dias de hoje, é desenvolver as competências, sejam elas técnicas ou comportamentais dos seus colaboradores e líderes, investindo cada vez mais na aprendizagem e no treinamento empresarial. Um pro- fissional que é demandado para atender às exigências das organizações e que se destaca como intermediador do alcance dos objetivos organizacionais é o líder ou gestor. Assim, é importante você compreender o papel do gestor ou lideranças nas organizações. Vamos estudar juntos? Em relação ao papel do gestor e da liderança, sabe-se que um dos desafios empresariais é administrar as compe- tências profissionais e organizacionais para que se possam alcançar as metas. Nesse sentido, o papel da liderança é se responsabilizar pela entrega dos objetivos organizacionais e pela geração do desempenho de suas equipes. Para Boog (2002), as empresas devem buscar conhecer a forma como a liderança influencia no desempenho das equipes e isso dependerá do estilo de liderança assumido por cada gestor. Uma das exigências da atualidade é exercer uma liderança de pessoas orientando-as para o alcance de resulta- dos em curto, médio e longo prazo. Assim, o papel do gestor de pessoas é gerenciar o desempenho das pessoas, considerando suas competências profissionais e organizacionais, e buscando um ajuste de interesses entre os esforços individuais e as metas organizacionais (TAVEIRA, 2013; BOOG, 2002). Dessa forma, você percebeu que 62 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 4 - QVT: Diagnóstico: organizações e pessoas a liderança, quando exercida de forma correta ou adequada ao objetivo da organização, é preponderante para o bom funcionamento de qualquer empresa, seja de grande, médio ou pequeno porte. Assim, para que isso ocorra, é preciso que os profissionais que assumem a liderança apresentem uma visão holística de toda a organização, ou seja, que compreendam que a organização e os colaboradores precisam alcançar a satisfação no trabalho, que é uma das dimensões da qualidade de vida no trabalho (KANAANE, 2009; LIMONGI-FRANÇA, 2003). Ainda para Boog (2002), o gerente deve também conjugar o alcance dos resultados com pessoas e sempre bus- car técnicas de invocação para manter a competitividade das organizações. O líder ou o gestor que assume uma determinada liderança é também responsável pela transição das mudanças que acontecem no ambiente interno das empresas, propaga os valores e crenças da cultura organizacional, é quem lidera o grupo, intermedeia os conflitos e deve dispor de uma capacidade para transitar entre os objetivos individuais e organizacionais. Todos esses atributos justificam a importância e o diferencial de um líder nas organizações. Dessa maneira, podemos observar que a liderança é a arte de influenciar os colaboradores para alcançarem resultados e buscarem o melhor de seu desempenho em suas atividades laborais. O líder deve ser capaz de estabelecer relacionamentos e aproximar-se o máximo de seus colaboradores para conhecer os seus anseios, necessidades e desejos, realizar o ajustamento de cargos, esclarecer dúvidas quanto à progressão de carreira na empresa e ser um exemplo em seu discurso e prática organizacional. Para Kanaane (2009), é importante que as lideranças considerem os aspectos subjetivos que incluem as necessidades, expectativas, sentimentos dos funcionários e as ações de sucesso exe- cutadas por sua equipe, com base para um desempenho profissional de excelência. Nesse sentido, o gestor deve desenvolver uma gestão orientada para o indivíduo. Na visão de Kanaane (2009), esse tipo de gestão parte do pressuposto de que o sujeito é o centro do processo de trabalho, pois a tarefa é executada por ele e, a partir disso, é possível identificar aspectos que reforçam e facilitam o desempenho individual e grupal como, por exemplo, a própria liderança que tende a propiciar autonomia às pessoas e aos grupos; a administração do próprio tempo pelo indivíduo no ambiente de trabalho; uma facilitação do processo de aprendizagem; independência em termos tanto do pensamento como da ação; valorização da criatividade, acentuando a realização individual e/ou grupal; estímulo à responsabilidade pessoal e profissional; estímulo ao feedback nas interações pessoais e profissionais; maximização das aptidões e habilidades; autode- senvolvimento do indivíduo e estímulo aos estados empáticos e relações interpessoais. A figura a seguir apre- senta o conceito de liderança centrada no indivíduo. Figura 4.5 – Liderança centrada no indivíduo Legenda: A figura esquematiza a visão da liderança que valoriza o indivíduo no centro da gestão. Fonte: Elaborada pelo autor (2017). 63 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 4 - QVT: Diagnóstico: organizações e pessoas Uma liderança centrada no indivíduo é aquela que considera o poder pessoal inerente a cada indivíduo, valoriza o trabalho em equipe para o alcance dos objetivos e executa a administração do conflito que pode vir a ocorrer no ambiente do trabalho. Perceba que esse estilo de liderança busca capacitar o grupo ao processo de tomada de decisão, e não à tomada de decisão individual, pois o que se busca nesse processo de gestão é a maximização das potencialidades de liderança de todos os colaboradores da organização (KANAANE, 2009). Dessa forma, quando a decisão é em nível grupal, o clima organizacional é favorável ao consenso, uma vez que a perspectiva de todos os indivíduos é considerada em processo de interação e troca de experiências e valores. Assim, o gestor ou líder que adota uma administração centrada no indivíduo tende a conseguir maior flexibilidade e liberdade de ação de toda a equipe no alcance dos resultados organizacionais (KANAANE, 2009; BOOG, 2002). Para Kanaane (2009), os líderes ou gestores atuais lidam ainda com um paradoxo que é ao mesmo tempo mediar as necessidades da organização, quando orienta seus liderados para o alcance dos resultados a partir daconsecu- ção das tarefas e, ao mesmo tempo, deve propiciar condições que facilitem o alcance das expectativas e necessi- dades dos colaboradores. Nesse sentido, a liderança deve priorizar esse equilíbrio entre variáveis organizacionais e individuais como fundamental para a determinação do estilo comportamental adotado, pois, ao atender aos objetivos organizacionais, o gestor deve disponibilizar recursos para que os colaboradores possam se engajar com as tarefas, e sentirem-se responsáveis pela execução das atividades. Vale ressaltar que, a partir da realização das tarefas, os colaboradores devem perceber que poderão alcançar parte ou totalidade de suas necessidades e expectativas. Nesse processo de percepção de equilíbrio das necessidades organizacionais e individuais, uma melhoria de qualidade de vida é alcançada, pois as pessoas perceberão que são consideradas pela organiza- ção como “seres humanos”, capazes de alcançar sua autorrealização e maximizar sua autoestima. Para Kanaane (2009), além da melhoria de qualidade de vida, o gestor alcançará qualidade dos serviços e eficácia organizacio- nal. Perceba que o grande desafio de um líder é conciliar as necessidades, expectativas e desejos das pessoas e tarefas sem perder de vista a consecução dos objetivos e metas organizacionais (KANAANE, 2009; BOOG, 2002). Nesse sentido, os estilos de lideranças podem ser compreendidos a partir de quatro perspectivas teóricas que são: de personalidade; comportamental; contingencial e carismática. Para Limongi-França (2003), a teoria dos traços ou da personalidade foi o que deu início ao estudo do tema liderança. Dessa forma, essa teoria considera a perspectiva psicológica para enfatizar a personalidade como um fator determinante da liderança. Nesse caso, o líder é concebido como aquele que apresenta em seu código genético características de personalidade de lide- rança que seriam preponderantes para fazer ou torná-lo líder nas organizações. Perceba que a Teoria Genética é considerada como a abordagem mais antiga de liderança, pois a capacidade de um líder poderia ser transmitida geneticamente, ou seja, o líder nasce líder e não pode ser formado ao adquirir determinadas competências ou habilidades. Nesse sentido, o líder é inato e, ao nascer, apresenta características próprias de líder, como traços de personalidade, estatura, inteligência, comunicação, poder de influência, motivação e flexibilidade, entre outros. A figura a seguir apresenta a concepção da liderança inata. Figura 4.6 – Visão da liderança inata Legenda: Traços considerados de um líder inato. Fonte: Elaborada pelo autor (2017). 64 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 4 - QVT: Diagnóstico: organizações e pessoas Já em relação à teoria comportamental, resultado do movimento das relações humanas, a liderança é resultante de uma competência possível de ser estudada, aprendida e desenvolvida. Assim, para Limongi-França (2003), a abordagem comportamental é focada no que o líder faz e como é estabelecida sua relação com os liderados. Dessa forma, a teoria comportamental propõe a possibilidade de “preparo” dos líderes para exercerem a lide- rança de forma autocrática (centralizador), democrática (permite a participação das pessoas), orientada para a tarefa (foca nos resultados, metas, redução de custos e alta qualidade) ou um líder-gestor de pessoas (valo- riza o colaborador, estimula as relações humanas). A teoria contingencial, por sua vez, advoga que a liderança se relaciona às demandas situacionais, ou seja, são certas situações que determinarão o surgimento do líder nas organizações. Dessa forma, os diferentes contextos vivenciados pela organização influenciarão a eficácia da liderança (LIMONGI-FRANÇA, 2003; BOOG, 2002). Assim, é importante que você compreenda que a aborda- gem situacional parte do pressuposto de que a liderança emana do líder, dos liderados, do contexto do trabalho e da especificidade de cada organização, ou seja, está atrelada a um conjunto de variáveis que determinam o desempenho do líder. Trata-se de uma relação de liderança que envolve a influência dos liderados sobre o líder (LIMONGI-FRANÇA, 2003). Na concepção das teorias carismáticas, a liderança é ramificada em “transformacional”, “carismática” e “lide- rança visionária”. Nesse sentido, a liderança transformacional acontece quando ocorre uma elevação de motiva- ção do líder e liderados, ou seja, um contribui para a elevação do processo de motivação do outro. Para Limongi- -França (2003), uma das características do líder transformador é sua capacidade de enfatizar a importância, aos seus liderados, do valor dos resultados organizacionais e das formas de alcançá-los. Perceba que a liderança transformacional relaciona-se com a qualidade de vida no trabalho, pois o liderado atinge um nível de matu- ridade, voltando-se para o bem-estar dos colegas, da organização e da sociedade (LIMONGI-FRANÇA, 2003; BOOG, 2002). Dessa forma, a liderança transformacional contribui para a conscientização dos liderados, o enga- jamento, a busca da autorrealização, o desenvolvimento das pessoas, um desempenho para além do cargo e uma disseminação dos valores da empresa (LIMONGI-FRANÇA, 2003). Assim, a liderança carismática gera uma aceitação incondicional e envolvimento emocional e aceitabilidade das habilidades do líder, que são percebidas de forma positiva pelos liderados (LIMONGI-FRANÇA, 2003). Nesse contexto, ainda temos a liderança visionária, que é centrada na habilidade de o líder criar uma visão do futuro para além do alcance das metas organizacionais. A teoria do carisma considera esse adjetivo, “o carisma”, como um traço pessoal ou uma qualidade relacional que é percebida como um poder de referência pelos seguidores. Vale ressaltar que existe, ainda, a abordagem da teoria transacional que concebe a liderança como uma troca ou uma transação de informações, discussão mútua que ocorre entre um líder e seus liderados sobre as estratégias para se alcançar os objetivos empresariais. A teoria transacional permite ao líder reforçar, formalmente ou infor- malmente, o desempenho de seus liderados. Nesse tipo de liderança transacional, existe um fluxo de transações relacionado a benefícios mútuos entre o líder e o liderado. O papel do líder transacional é analisar o cumprimento dos padrões estabelecidos, ajustar o trabalho e recompensar as metas alcançadas. A figura a seguir apresenta as características da liderança transformacional e transacional. Figura 4.7 – Determinantes da liderança transacional e transformacional Legenda: Características da liderança transacional e da transformacional. Fonte: Elaborada pelo autor (2017). 65 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 4 - QVT: Diagnóstico: organizações e pessoas Para Boog (2002), a liderança pode ser classificada como participativa ao permitir a possibilidade de comuni- cação, aprendizagem, conhecimento, inovação e estímulo à autonomia. Limongi-França (2003) e Boog (2002) defendem que a liderança participativa tem como finalidade criar um diferencial competitivo, pois acentua e permite a participação efetiva dos indivíduos e, como resultado, a organização desenvolve uma cultura de com- prometimento e união e maior qualidade de vida no trabalho. Limongi-França (2003) apresenta ainda a liderança de alta performance orientada para a formação de equipes de trabalho. Assim, o líder atua como desenvolvedor de talentos, pois contribui para a criação e estímulo de novas competências de seus liderados. Agora que você conheceu os tipos de liderança, é importante que você compreenda que cada gestor adotará um estilo de liderança, conforme seus valores, personalidade, habilidades e competências, demanda do con- texto organizacional e orientação para resultados. Em quaisquer estilos adotados, para que os líderes efetivem o seu desempenho, a organização deve estimular o tipo de liderança que melhorse adapte ao seu contexto e objetivo organizacional, ser receptiva à criatividade, estimular a inovação, a integração, criar estímulos que con- duzam à satisfação, à aprendizagem e ao conhecimento no espaço laboral (LIMONGI-FRANÇA, 2003; BOOG, 2002). Assim, cada líder deve dispor de um conjunto de competências que orientem suas ações para a maximi- zação do potencial humano com vistas a alcançar os resultados organizacionais. O líder deve estar consciente dos múltiplos papéis que deve desenvolver na organização como gestor de metas e processos, gestor de pessoas, intermediador de mudanças no ambiente organizacional, gestor de resultados, mentor, desenvolvedor dos cola- boradores e propiciador de estímulos motivacionais aos seus liderados. Assim, o líder deve estar concatenado com o ambiente externo e, ao mesmo tempo, contribuir para a formação de valores e desenvolvimento de com- petências das pessoas na organização (ULRICH et al., 2013). Vale ressaltar que o papel da gestão de pessoas é de fundamental importância para apoiar o líder no desenvolvimento das pessoas. 4.3 O papel estratégico da Administração dos Recursos Humanos No tópico anterior, quando vimos sobre a liderança e a qualidade de vida no trabalho, você deve ter percebido que o papel da área de recursos humanos é fundamental como apoio às estratégias organizacionais e para o alinhamento das pessoas às diretrizes e à missão da organização, certo? Pois bem, as pessoas não contribuem somente para a vida produtiva das organizações, como também constituem o principal fator que confere vitali- dade às atividades e processos organizacionais, dispõem de um potencial inovador e criativo e são responsáveis por modelarem os contextos e situações que conduzem as organizações a seu patamar competitivo (DAVEL; VERGARA, 2013). Para os autores Davel e Vergara (2013), a gestão de pessoas, comumente conhecida como “administração de recursos humanos (ARH)”, ao longo de seu desenvolvimento como área de gestão de pessoas, apoiou-se em téc- nicas, instrumentos e modelos para administrar as pessoas, e foi incorporando outras variáveis, como estratégia e ambiente. Ainda, nesse contexto, a ARH, como campo teórico e prática social, desenvolveu-se a partir de uma visão racional, objetiva e normativa dos indivíduos (concebidos como mais um recurso que poderia ser utilizado para o alcance dos resultados empresariais) nas organizações. Na visão de Davel e Vergara (2013), a ARH percebe as pessoas dentro do modo “ter”, ou apenas a partir de um foco objetivo e racional, pelos quais a organização estabelece suas relações de produtividade e lucratividade. O que se percebe são as transformações pelas quais a ARH tem passado durante as últimas décadas, e que resultaram em três abordagens dominantes: funcionalista, estratégica e política (DAVEL; VERGARA, 2013). Assim, é muito importante que você as conheça. Nesse sentido, a abordagem funcionalista reafirma o desenvolvimento do campo teórico em ARH que, ao longo de seu processo histórico, embasou-se em torno de técnicas, procedimentos e ferramentas. A partir da concepção funcionalista, a ARH busca maximizar a produtividade, orientando os resultados para a busca de vantagens competitivas para a empresa. Perceba que a ARH funcionalista reflete um conjunto articulado de atividades em que os resulta- 66 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 4 - QVT: Diagnóstico: organizações e pessoas dos desejados pela organização podem ser alcançados por uma ação voluntária e programada pelas funções de atração, seleção, retenção, incentivos, treinamentos e processo de remuneração das pessoas. A figura ilustra as atividades do RH funcionalista: Figura 4.8 – RH funcionalista Legenda: Características da abordagem funcionalista do RH. Fonte: Elaborada pelo autor (2017). Com as mudanças e exigências do ambiente, a ARH passa a considerar outras variáveis, como a abordagem estra- tégica, as forças do ambiente, da competição internacional e nacional (DAVEL; VERGARA, 2013). Dessa forma, as forças que impulsionam a competitividade mundial, as mudanças no mercado de trabalho, a ética empresarial e mudanças ambientais são preponderantes para a abordagem estratégica de ARH. Perceba que a ARH estratégica é aquela que busca alinhar seus objetivos com a demanda do ambiente organizacional. Já na abordagem política, a ARH atua como uma intermediária entre as necessidades e demandas do indivíduo e organização e suas dimensões políticas, bem como atua nas divergências que envolvem os interesses das pessoas. A partir dessa abordagem, a ARH parte do pressuposto de que as questões sociais, organizacionais e individuais podem ser conflituosas, e que o seu papel como gestora de pessoas é buscar integrar os interesses da organização e dos colaboradores. Para Davel e Vergara (2013), a partir dessas quatro abordagens, a ARH pode ser classificada como ‘‘leve” quando considera as pessoas como fatores-chave para a competitividade organizacional e “pesada” quando foca somente no lado funcionalista e instrumental da ARH. O que você deve compreender é que as críticas à ARH se referem às contradições inerentes às funções atuais da gestão de pessoas que, ao mesmo tempo, demanda das pessoas atitudes individualistas, empregabilidade, flexibilidade, adaptabilidade e atitudes coletivistas para trabalhar em equipe, comprometimento, adesão a uma cultura forte, qualidade (DAVEL; VERGARA, 2013). A sub- jetividade seria, então, um aspecto de fundamental importância a ser considerado pela ARH, pois as pessoas passariam a ser compreendidas como de permanente interação, que externalizam sua subjetividade por meio da palavra e de comportamentos não verbais. Assim, a gestão de pessoas nas organizações não pode centrar-se em um conjunto de políticas e práticas, ou somente na responsabilidade de um departamento ou de uma função, mas em objetivos que possam criar vantagens competitivas para a organização por meio das pessoas, e que essas vantagens possam também ser orientadas aos colaboradores (DAVEL; VERGARA, 2013). Perceba que a postura assumida pela ARH é preponderante para a qualidade de vida no trabalho. Na próxima seção são apresentadas as metodologias para realizar diagnósticos em QVT. 67 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 4 - QVT: Diagnóstico: organizações e pessoas Aprenda mais sobre objetividade e subjetividade na administração de pessoas! Veja o link: <https://www.youtube.com/watch?v=iFqxX_djrZE>. 4.4 Metodologias para realizar diagnósticos em QVT Você aprendeu que um dos resultados da promoção de ações ou implementação de programas de Qualidade de Vida no Trabalho (QVT) é o estímulo à motivação e ao engajamento dos trabalhadores, resultando em benefícios tanto para a empresa quanto para seus colaboradores. Nesse sentido, as empresas podem cometer equívocos ao desenvolver programas padronizados de QVT desvinculados do planejamento estratégico e sem o investi- mento necessário. Perceba que cada ferramenta ou programa de qualidade deve apresentar um direcionamento ou uma especificidade de acordo com o ramo de atuação da empresa. O objetivo de um diagnóstico em QVT é identificar os problemas e limitações das atividades no espaço laboral, analisar a adequação dos recursos físicos e humanos e desenvolver um planejamento de ações que pode ser implementado visando à saúde do trabalhador e à consecução dos objetivos empresariais (LIMONGI-FRANÇA, 2003). Uma metodologia eficiente utilizada para diagnosticar a qualidade de vida no trabalho é capaz de identificar o nível de estresse no trabalho, incapacidade laboral, doença ocupacional e fornece informações para o desenvolvimento de técnicas e programas para corre- ção de diversos comportamentos no trabalho – ergonomia e ginástica laboral. A figura a seguir ilustra o objetivo de um diagnóstico na QVT. Figura 4.9 – Resultados do diagnóstico de QVT Legenda:A figura aponta para um dos resultados do diagnóstico na QVT Fonte: Elaborada pelo autor (2017). Uma das principais metodologias que podem ser utilizadas no diagnóstico de QVT é o desenvolvimento de pla- nejamento estratégico de acordo com a especificidade de cada empresa, no qual constarão as ações e programas de QVT a serem desenvolvidos e implementados na organização. Para Boog (2002), o planejamento estratégico deve apresentar como metodologia os resultados dos diagnósticos, as possíveis ações de melhorias, inovações gerenciais e inovações tecnológicas que poderão ser implementadas, no ambiente de trabalho, para o alcance de condições plenas de desenvolvimento humano na realização das tarefas. Um diagnóstico pode ser executado para avaliar diversas condições intrínsecas à empresa e aos seus colabo- radores (LIMONGI-FRANÇA, 2003) e, como resultado, permitir a implementação de uma remuneração justa, desenvolvimento de um ambiente físico, psicológico e social mais saudável, política de benefícios sociais aos colaboradores, entre outros benefícios. As empresas podem, ainda, utilizarem-se de escalas de QVT para men- surarem o estágio da QVT em seu locus de trabalho, medidas estatísticas, avaliação de desempenho, programas de treinamento, estudo da ergonomia, todas essas metodologias contribuindo para a promoção da Qualidade de Vida no Trabalho. 68 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 4 - QVT: Diagnóstico: organizações e pessoas Vale destacar que metodologias que buscam mensurar o impacto dos programas de higiene e segurança do trabalho são preponderantes para se manter um ambiente de trabalho seguro e agradável, no qual os colabora- dores produzem e desenvolvem seu potencial de forma melhor, minimizando o absenteísmo, afastamentos e a rotatividade para as empresas (LIMONGI-FRANÇA, 2003; BOOG, 2002). Finalizamos aqui esta unidade! No próximo tópico, é apresentada a síntese do que foi estudado por você! Espero você na próxima unidade! Bons estudos e até a próxima! 69 Considerações finais Caro(a) estudante, nesta unidade você compreendeu que: • as empresas que se preocupam com a qualidade de vida no traba- lho implementam, como consequência, um conjunto de melho- rias em direção à busca de satisfação das necessidades pessoais e organizacionais; • o clima organizacional positivo sinaliza um bom funcionamento da equipe e o alcance das metas definidas pelas organizações; • o clima organizacional é composto por afetos positivos ou negati- vos, ou seja, expectativas, anseios e necessidades dos colaborado- res e suas relações interpessoais no contexto organizacional; • o clima organizacional influencia diretamente no estado moti- vacional das pessoas e é influenciado também pelos estímulos motivacionais promovidos no ambiente de trabalho. • os objetivos estabelecidos pelas organizações refletem um con- junto de definições que são estabelecidas como pré-requisitos necessários para o desenvolvimento organizacional; • as empresas devem buscar conhecer a forma como a liderança influencia no desempenho das equipes e isso dependerá do estilo de liderança assumido por cada gestor; • uma das exigências da atualidade é exercer uma liderança de pes- soas orientando-as para o alcance de resultados em curto, médio e longo prazo; • a liderança, quando exercida de forma correta ou adequada ao obje- tivo da organização, é preponderante para o bom funcionamento de qualquer empresa, seja de grande, médio ou pequeno porte. Referências bibliográficas 70 BOOG, G. G. Manual de gestão de pessoas e equipes. v. 2 – Estratégias e Tendências. São Paulo: Gente, 2002. DAVEL, E.; VERGARA, S. Gestão com Pessoas, Subjetividade e Objetividade nas Organizações. In: DAVEL, E.; VERGARA, S. (Orgs). Gestão com pessoas e subjetividade. São Paulo: Atlas, 2013. pp. 3-28. KANAANE, R. Comportamento humano nas organizações: o homem rumo ao século XXI. São Paulo: Atlas, 2009. LIMONGI-FRANÇA, A. C. Qualidade de Vida no Trabalho – QVT: Concei- tos e práticas nas empresas da sociedade pós-industrial. São Paulo: Atlas, 2003. TAVEIRA, I. M. R. Representações sociais da Qualidade de Vida no Tra- balho. Curitiba: CRV, 2013. ULRICH, Dave et al. RH de dentro para fora. Porto Alegre: Bookman, 2013. 72 5Unidade 5 QVT: a fase de sensibilização Para iniciar seus estudos Nesta unidade você é convidado(a) a participar de forma ativa. Especial- mente porque será tratada uma das fases primordiais de um Programa de Qualidade de Vida no Trabalho: a fase da Sensibilização. Para tanto, será necessário tratar de temas como o ser humano e suas várias dimensões, a autorrealização humana, bem como, valores e aspectos situacionais, as necessidades humanas e suas fontes de motivação. Objetivos de Aprendizagem • Principais resistências. • Fontes de motivação. • As necessidades humanas. • Valores e aspectos situacionais. • A autorrealização humana. • O ser humano e suas várias dimensões. Nesta unidade, é imprescindível entender algo que o psicanalista italiano Contardo Calligaris (2016, s. p.) nos ilustra bem: Podemos ter visões e convicções diferentes, mas as dife- renças tornam as discussões mais proveitosas. Devemos aproveitar as discordâncias. O intento do debate é articu- lar a complexidade dos fatos e das escolhas possíveis. A fase é identificada por Limongi-França (2003) como sendo a fase de sensibilização, ou seja, uma etapa caracterizada pela adoção de ações 73 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 5 - QVT: a fase de sensibilização que focam na construção de consensos, de um entendimento pactuado sobre meios para modificar as perspec- tivas (visões) que cada um dos atores organizacionais tem sobre as condições de trabalho. Mas para entender como se dá a dinâmica nessa fase, será necessário entender quem é o “ser humano”, aquilo que o realiza, suas necessidades e os motivos que impelem seu comportamento. Impelir – significa arremessar; lançar com força para algum lugar. Também significa estimu- lar; despertar o interesse por. Glossário Assim, nesta unidade trataremos de delimitar uma compreensão sobre o ser humano e suas dimensões consti- tuintes, bem como os valores que referendam suas escolhas e ações, suas necessidades e como estas mobilizam o comportamento humano. 74 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 5 - QVT: a fase de sensibilização 5.1 O ser humano e suas várias dimensões Segundo a Organização Mundial de Saúde (2016), compreender o que é “ser humano” é vê-lo de forma integral. Significa dimensionar nas ordens: (a) biológica, (b) psicológica, (c) social, e; (d) espiritual. Figura 5.1 – Dimensões do Ser Humano Legenda: As 4 dimensões integradoras do ser humano. Fonte: Elaborada pelo autor (2017). Vejamos cada uma delas: 1º a dimensão biológica: Essa dimensão engloba os aspectos físicos do corpo, desde a anatomia e fisio- logia até a inter-relação entre os órgãos e sistemas relacionados à sobrevivência humana. 2º a dimensão psicológica: Essa dimensão envolve os aspectos ligados a processos e fenômenos psíqui- cos, tais como: personalidade, comportamento manifesto, atenção, percepção, inteligência, linguagem, julga- mento, pensamento, emoções, sentimentos, memória, desejos, vontades. 3º a dimensão social: Nessa dimensão estão focados os aspectos que discutem o cotidiano. Ou seja, são aspectos ligados à vida em sociedade, os fatores econômicos, os políticos, os ideológicos, os culturais. Assim, está incluída a interação entre pessoas e grupos, onde são construídos e pactuados regras e valores para um dado convívio. 4º a dimensão espiritual: Aqui reside a noção de que algo transcende a vida, pois se traduz como a parte imaterial do ser humano. Não está ligada, necessariamente, a vivênciasreligiosas em si, mas sim a questões como pertencimento a algo, autopercepção, uma abertura da consciência ao significado e à totalidade de vida. A dimensão espiritual é a busca pelo sentido ou significado para a existência. 75 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 5 - QVT: a fase de sensibilização Uma “boa pedida” para se aprofundar sobre o debate acerca do que significa “humano” é assistir ao filme “O Homem Bicentenário”, que conta a história de um robô que busca se tor- nar humano por meio de ações que vão desde utilizar roupas até comprar a própria liberdade. Para fechar esse tópico, convidamos você a assistir a este vídeo do TED - Ideas worth spreading, intitulado: “Você é humano?”. Acesse pelo link: <https://www.ted.com/talks/ze_frank_are_ you_human?language=pt-br>. 5.2 A autorrealização humana Para se debater esse tópico apresentamos a seguinte citação que norteará nosso debate: A autorrealização é o processo de se realizar por intermédio de esforço e alcance sustentado do seu próprio potencial, talentos e gostos. Essa realização encontra-se mais profundamente no que será descrito brevemente como lazer sério e trabalho motivado, ou as ocupações sérias. A autor- realização também é possível no lazer baseado em projetos, mas aí é significativamente mais superficial do que nas ocupações sérias de longo prazo com suas atrativas carreiras de envolvi- mento (STEBBINS, 2016, p. 874). Tendo como referência a perspectiva apresentada por Stebbins (2016), podemos identificar três maneiras de se obter a realização: Lazer Sério Refere-se a um tipo de atividade sistemática (de média ou longa duração) que é caracterizada por sua condi- ção amadora, voluntária ou de um “passatempo”. E, dessa maneira, tem condições de possibilitar a uma pessoa engajamento pessoal e se realizar, haja vista demandar o emprego de habilidades, conhecimentos e experiências já consolidadas ou mesmo novas. A realização desse tipo de atividade se dá pela construção de algo, do desen- volvimento pessoal. 76 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 5 - QVT: a fase de sensibilização Lazer Eventual Esse é um tipo de atividade explicitamente imediata, que promove, intrinsecamente, a partir de sua realização despretensiosa, sensações gratificantes, agradáveis. Tem um cunho essencialmente hedônico, e seu engaja- mento ocorre ao nível da pura diversão ou prazer ali encontrado. Diferente do lazer sério, que tem por objetivo “alcançar algo”, “construir algo”, o lazer eventual ocupa-se da vivência, da experiência, a realização do momento. Hedônico – relativo a hedonismo, (do grego hedonê, “prazer”, “vontade”) é uma teoria ou doutrina filosófico-moral que afirma ser o prazer o bem mais valioso da vida humana. (SOUZA, [s.d.]) Glossário Trabalho Motivado Esse tipo de atividade tem efeito de engajamento baseado na noção de que os participantes possuem uma devoção arrebatante (um tipo de conexão forte/positiva) com um trabalho do qual se orgulhe de executar. Nor- malmente está ligada à vivência de uma carreira. A realização vinculada à realização de uma história pessoal e de objetivos bem definidos, também está relacionada ao reconhecimento dos pares. Assim, trata-se de uma maneira de compreender sua relação com a capacidade de sobrevivência , sustento. Lembremos das unidades anteriores, em que vimos que o trabalho é um dos elementos centrais na formação da identidade das pessoas, pois ele possibilita o desenvolvimento de habilidades, sendo que é pelo e no trabalho que o indivíduo se relaciona e se expressa na sociedade, por meio de aspectos como escolhas profissionais, o(s) local(is) de trabalho, da mesma forma no que tange à sobrevivência/subsistência de si e da família. 5.3 Valores e aspectos situacionais Quando se debatem situações de consenso ou acordo grupal, um entendimento coletivo, um grande desafio que surge é como alinhavar ou consensuar a forma como cada pessoa enxerga o mundo a sua volta? Como tornar, unânime a opinião de todos os envolvidos? A resposta a esse entrave parece residir no conceito de valores. Segundo Schwartz (2006), valores podem ser definidos como um conjunto de crenças que norteiam os comportamentos das pessoas. Melhor dizendo, um conjunto de crenças que guiam a forma como os indivíduos julgam (avaliam) comportamentos, outras pessoas e fatos/acontecimentos, de maneira a organizar em grau de importância o que acontece à sua volta. 77 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 5 - QVT: a fase de sensibilização Crença – Afirmações que amparam a maneira de entender o mundo à sua volta. Glossário Segundo Gouveia (2003) os valores possuem aspectos mentais, cognitivos, comportamentais. E, por essa razão, estão intrinsecamente ligados à satisfação das necessidades humanas, pois, conforme o autor, os valores são utilizados como critérios que orientam a adoção deste ou daquele comportamento pelas pessoas, sempre como foco evitar a aparição de necessidades individuais em situações onde a harmonia social possa ser ameaçada. Nessa correlação, forma identificados 24 valores básicos referentes aos seres humanos: Figura 5.2 – Valores humanos básicos Legenda: Valores básicos do bem-estar subjetivo dos seres humanos. Fonte: Adaptado de Gouveia (2003, p. 434-436). Esses valores humanos básicos, ainda segundo o autor, são classificados conforme um dado padrão aplicado, ou seja, no âmbito individual ou coletivo, considerando que as orientações pessoais e as sociais não agem de forma concorrente. 78 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 5 - QVT: a fase de sensibilização Figura 5.3 – Tipologia de valores humanos Legenda: Padrão universal dos valores humanos Fonte: Adaptado de Gouveia (2003). O padrão, identificado por Gouveia (2003), salienta que, ao adotar um dado valor, o indivíduo o utilizará como um princípio que o guie no dia a dia. São classificados atendendo a tipologia a seguir: (a) Valores pessoais – a adoção desse tipo de valores explicita o foco usualmente adotado em relações pessoais, que visam alcançar metas pessoais, os quais procurarão garantir seus próprios benefícios; (b) Valores centrais – O termo central explicita o caráter adjacente desses valores; eles estão lotados de valores pessoais e sociais; e (c) Valores sociais – Esse tipo de valores tem como premissa a convivência entre as pessoas. O foco desses valo- res são as relações interpessoais, ou seja, são valores relacionados a interesses coletivos. Logo, a relação que se estabelece é de indivíduos que buscam aceitação, integração e harmonia num dado contexto específico. Premissa – Fato inicial a partir do qual se inicia um raciocínio ou um estudo (DICIO, 2017). Glossário 79 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 5 - QVT: a fase de sensibilização Segundo essa ótica, os valores humanos podem ser classificados segundo o foco aos quais os indivíduos envol- vidos desejem empregar: (a) Pessoais; (b) Centrais, e; (c) Sociais. Essa tipologia ainda contempla uma subclassifi- cação, levando em conta a função psicossocial ao valor humano empregado, conforme podemos identificar na figura que segue. Figura 5.4 – Tipologia dos valores humanos Legenda: Estrutura dos valores humanos Fonte: Adaptado de Gouveia (2003, p. 436-437). 5.4 Necessidades humanas e fontes de motivação A fim de iniciar esse tópico, apresentamos a você o seguinte questionamento: Por que fazemos o que fazemos? Assista ao vídeo do TED – Tony Robbins em “Por que fazemos o que fazemos?”, disponí- vel no link: <https://www.ted.com/talks/tony_robbins_asks_why_we_do_what_we_ do?language=pt-br#t-730612>. 80 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 5 - QVT: a fase de sensibilização Para Robbins (2014), para explicar o “agir da forma que agimos”, ou o “fazer o que fazemos”, remete ao conceito de motivação, ou seja, um estado mutáveldependente de diversos fatores internos, tais como saúde, atitudes, memória, objetivos, percepções; e fatores externos, como estímulos, recompensas, punições, contexto etc. Motivação – Radical de origem latina “movere” = movimento. O que no possibilita dizer que motivação se equivale a uma condição que energiza e orienta as ações das pessoas. Normal- mente, está associada a ideias como: vontade, energia, ação, objetivo, obstinação e a própria emoção. Glossário Mas isso não explica, não satisfatoriamente, a seguinte questão: O que provoca você a agir? Nesse sentido, para Kanaane (2009), a motivação provoca de forma mais intensa o desempenho em ações que exijam criatividade, reflexão, análise ou interação com pessoas, e, provoca, de forma menos intensa, ações caracte- rizadas por uma atuação psicomotora, repetitiva, rotineira. Mas como explicar o que e quando? Robbins (2002) apresenta um compilado teórico de várias teorias que bus- cam explicar por que agimos da forma que agimos. Primeiramente, listemos as teorias. Na sequência, temos a relação das teorias classificadas pelo foco, as quais se prestam empregar para explicar o comportamento das pessoas. Figura 5.5 – O foco das teorias motivacionais Legenda: Teoria de motivação no foco do trabalho. Fonte: Adaptada de ONU (2002). 81 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 5 - QVT: a fase de sensibilização Na sequência, temos um detalhamento mais organizado das teorias motivacionais com foco na FINALIDADE e no CONTEÚDO: Abraham Maslow na Teoria da Hierarquia das Necessidades define: a) Motivações são necessidades não satisfeitas. b) As necessidades podem ser organizadas em uma escala ou hierarquia. c) As necessidades mais básicas têm prioridade. d) Necessidades superiores só surgem à medida que necessidades básicas são atendidas. A figura 5.6 define a pirâmide de Hierarquia da Necessidades Humanas. Figura 5.6 – Pirâmide de Hierarquia das Necessidades Legenda: Pirâmide das necessidades dividida hierarquicamente mostrando que as necessida- des de nível mais baixo devem ser satisfeitas antes das necessidades de nível mais alto. Fonte: 123rf.com. ID17619855 82 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 5 - QVT: a fase de sensibilização Alderfer na Teoria ERC (existência, relacionamento e crescimento) define: a) Semelhante à teoria de Maslow, mas: b) Não há hierarquia no desenvolvimento nem prioridade. c) Várias necessidades podem ser “ativadas” ao mesmo tempo, conforme a situação. d) Frustração de necessidades superiores aumenta as necessidades inferiores (regressão). A figura 5.7 em formato de pirâmide Alderfer contradiz Maslow na Teoria ERC. Figura 5.7 - Teoria ERC Legenda: Pirâmide de Clayton Alderfer sobre as necessidades da existência, do relacionamento e do crescimento. Fonte: Elaborada pelo autor (2017) Herzberg com a Teoria dos dois Fatores, define: a) Higiênicos: extrínsecos, quando faltam geram insatisfação. b) Motivacionais: intrínsecos, quando excelentes, geram satisfação. Vamos ver a Figura 5.8, a seguir. 83 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 5 - QVT: a fase de sensibilização Figura 5.8 - Teoria dos dois fatores de Herzberg Legenda: Teoria dos dois fatores que causam motivação e satisfação das pessoas no ambiente de trabalho. Fonte: Elaborada pelo autor (2017) McLelland com a Teoria das Necessidades Adquiridas identificou 3 grandes necessidades. A intensidade delas varia de pessoa para pessoa: a) Realização (n-Ach): busca da qualidade, sucesso, desejo de fazer melhor, de solucionar problemas, de empre- ender (Alto n-Ach é sentir-se motivado por desempenho, gosto por responsabilidade, feedback e riscos mode- rados). b) Poder (n-Pow): busca do controle e influência sobre as pessoas, status, prestígio, comando (Alto n-Pow é o tipo de motivação encontrado em líderes, alta necessidade de poder, baixa necessidade de associação). c) Associação (n-Afil): busca da aceitação, harmonia, socialização, amor e amizade (Alto n-Afil é motivar-se pelo relacionamento com as pessoas). Como mostra a figura 5.8 a seguir. Figura 5.9 - Teoria das Necessidades Adquiridas de McLelland Legenda: Três necessidades que são aprendidas e socialmente adquiridas na interação do indivíduo com o ambiente. Fonte: Adaptada de Robbins (2002) 84 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 5 - QVT: a fase de sensibilização Numa comparação, mais estreita, é possível constatar em que aspectos essas teorias se baseiam para entender as fontes da motivação humana: Figura 5.10 – Comparação entre as teorias com foco na finalidade e no conteúdo Legenda: Resumo das Teorias de Motivação Fonte: Elaborada pelo autor (2017). 85 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 5 - QVT: a fase de sensibilização Continuando com as teorias, vejamos as que se focam EM PROCESSOS EXTERNOS para explicar o porquê de nossas ações. As Teorias motivacionais com foco em processos externos o modelo que explicita duas atitudes distintas dos indivíduos sobre os fatores que motivam o seu comportamento, são: McGregor (Teoria X e Y) Teoria X: a. Pessoas detestam ação, têm pouca ambição e prezam a segurança, evitam responsabilidades; b. Dominadas pelas necessidades inferiores; c. Precisam ser coagidas e controladas. Teoria Y: d. Pessoas gostam de ação, gostam de tomar decisões, e de definir próprios objetivos, buscam responsabi- lidades; e. Dominadas pelas necessidades superiores; f. Precisam ser estimuladas com tarefas desafiadoras e delegação. A Figura 5.11 mostra os aspectos dessas duas Teorias X e Y. Figura 5.11 - Teoria X e Y de McGregor Legenda: Conceitos antagônicos da influência de uma pessoa sobre a outra. Fonte: Elaborada pelo autor (2017) 86 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 5 - QVT: a fase de sensibilização Edwin Locke com a Teoria da Definição de Objetivos parte da Premissa: o alcance de objetivos é a maior fonte de motivação. Para aumentar a motivação para atingir os objetivos: a. Objetivos claros, específicos, difíceis e com feedback conduzem a desempenhos melhores. b. Significado, aceitação e comprometimento para com o objetivo aumentam quando há participação na definição dos próprios objetivos. c. Quanto maior a complexidade e interdependência das tarefas, mais os objetivos devem ser fixados pela equipe responsável. d. O feedback precisa ser imediato, específico e focado nos processos e resultados e não na pessoa. Só fixar objetivos claros, específicos, difíceis e oferecer feedback imediato e específico não é suficiente! É funda- mental: a. Ter confiança na própria capacidade de atingir o objetivo (autoeficácia). b. Ter conhecimentos e habilidades para alcançar os objetivos. c. Ter oportunidade / condições / recursos para desempenho. d. Receber reconhecimento / recompensa significativa quando os objetivos forem atingidos. Na Figura 5.12 veremos a Teoria da Definição de Objetivos e suas metas. Figura 5.12 - Teoria da Definição de Objetivos de Locke Legenda: Teoria de fixação da definição de metas como fator de motivação profissional. Fonte: Elaborada pelo autor (2017) 87 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 5 - QVT: a fase de sensibilização Adams defende a Teoria da Equidade onde os indivíduos comparam-se com outros e buscam a equidade (equi- líbrio) nas recompensas. Frente à iniquidade negativa quanto à ação, os indivíduos adotaram uma ou mais das seguintes estratégias: a) Modificar contribuições, reduzindo o esforço/quantidade da ação. b) Modificar resultados, reduzindo a qualidade da ação. c) Modificar a autoimagem, percebendo agir menos que os outros. d) Modificar a imagem dos outros, desvalorizar a ação alheia. e) Buscar outros referenciais de comparação. f) Abandonar a situação/trabalho. A Figura 5.13 mostra essas estratégias:Figura 5.13 - Teoria da Equidade de Adams Legenda: Teoria da equidade e critérios de justiça no ambiente de trabalho Fonte: Elaborada pelo autor (2017) 88 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 5 - QVT: a fase de sensibilização Vroom defende a Teoria da Expectativa afirmando que a motivação é um produto de 3 fatores, que devem ocor- rer simultaneamente: a) Valência: diz respeito a quanto uma pessoa deseja um resultado específico. É o valor subjetivo relacionado a incentivo ou recompensa. b) Instrumentalidade: é a crença de que a obtenção do resultado está ligada a uma recompensa. Se os esforços do indivíduo forem devidamente recompensados, haverá uma relação positiva, caso contrário será negativa. c) Expectativa: a percepção de que o conjunto de esforços o levará ao resultado desejado. É a expectativa de poder alcançar o resultado. d) Em sua teoria, Vroom considera que o nível motivacional é resultado das relações esforço-desempenho, desempenho-recompensa e recompensa-metas pessoais. Essa teoria sustenta que a motivação do indivíduo acontece quando ele crê na recompensa decorrente de seu esforço, ou seja, quando há um motivo que o faça perseguir um determinado objetivo. A figura 5.14 mostra a Teoria de Vroom. Figura 5.14 - Teoria de Expectância de Vroom Legenda: Teoria da motivação organizacional. Fonte: Robbins (2002) 89 Considerações finais Ao longo desta unidade, tivemos contatos com os seguintes pontos: • O SER HUMANO E SUAS DIMENSÕES: é composto pelas dimen- sões (a) biológica, (b) psicológica, (c) social, e (d) espiritual. • REALIZAÇÕES HUMANAS: O ser humano, em geral, atinge rea- lizações quando realiza certos tipos de atividades, tais como: (a) lazer sério, (b) lazer eventual, e (c) trabalho motivado. • VALORES E ASPECTOS SITUACIONAIS: Os valores humanos são divididos em 1) Pessoais: (a) Valores de Experimentação (são exemplos, valores básicos, como emoção, estimulação e prazer sexual) e (b) Valores de Realização (são exemplos, valores bási- cos, como autodireção, êxito, poder, prestígio e privacidade); 2) Centrais: (a) Valores de Existência (são exemplos, valores bási- cos, como estabilidade pessoal, saúde, sobrevivência) e (b) Valo- res Suprapessoais (são exemplos, valores básicos, como beleza, conhecimento, justiça social, maturidade), e; 3) Sociais: (a) Valo- res Normativos (são exemplos, valores básicos, como obediência, ordem social, religiosidade, tradição) e (b) Valores Interacionais (são exemplos, valores básicos, como afetividade, apoio social, convivência, honestidade). • NECESSIDADES E FONTES DE MOTIVAÇÃO HUMANAS: Com base em várias teorias motivacionais é possível elencar as seguin- tes necessidades humanas como fontes de motivação: autorre- alização, crescimento, estima, poder, questões sociais, relaciona- mentos, afiliação, segurança, existência e fisiológicas. Referências bibliográficas 90 CALLIGARIS, C. De que lado você está? Folha de São Paulo, 24 mar. 2016. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/colunas/contardocalliga ris/2016/03/1753317-de-que-lado-voce-esta.shtml>. Acesso em: 12 abr. 2017. GOUVEIA, V. V. A natureza motivacional dos valores humanos: evidên- cias acerca de uma nova tipologia. Estudos em Psicologia, v. 8, n. 3, p. 431-443, 2003. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/epsic/ v8n3/19965>. Acesso em: 15 abr. 2017. KANAANE, R. Comportamento Humano nas Organizações. São Paulo: Saraiva, 2009. LIMONGI-FRANÇA, A. C. Qualidade de vida no trabalho – QVT. Concei- tos e práticas nas empresas da sociedade pós-industrial. São Paulo: Atlas, 2003. PREMISSA. In: Dicionário Online de Português. [2017]. Disponível em: <https://www.dicio.com.br/premissa/>. Acesso em: 21 jul. 2017. ROBBINS, S. Comportamento organizacional. São Paulo: Prentice Hall, 2002. ______; SOBRA, F.; JUDGE, T.A. Comportamento organizacional. Teoria e prática no contexto brasileiro. São Paulo: Pearson, 2014. SCHWARTZ, S. H. Há aspectos universais na estrutura e no conteúdo dos valores humanos? In: ROS, M.; GOUVEIA, V. V. Psicologia social dos valo- res humanos: desenvolvimentos teóricos, metodológicos e aplicados. São Paulo: Senac, 2006. p.55-85 91 SOUZA, J. P. O paradoxo de Epicuro e o grande arquiteto do universo. (s. d.). Disponível em: <https://sites.google.com/site/filosofiapereira/filo- sofos/epicuro/o-paradoxo-de-epicuro-e-o-grande-arquiteto-do-uni- verso>. Acesso em: 21 jul. 2017. STEBBINS, R. A. Educação para a autorrealização: processo e contexto. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 41, n. 3, p. 873-888, jul./set. 2016. Disponível em:<http://www.seer.ufrgs.br/educacaoerealidade/ article/view/51738>. Acesso em: 14 abr. 2017. WORLD HELTH ORGANIZATION (WHO). Conceito de Saúde segundo OMS / WHO, 2016. Disponível em: <http://cemi.com.pt/2016/03/04/ conceito-de-saude-segundo-oms-who/>. Acesso em: 31 mar. 2017. 93 6Unidade 6 Qualidade de Vida no Trabalho: a fase de implantação Para iniciar seus estudos Olá, caro estudante! Muito bom tê-lo nesta unidade de aprendizagem! Aprenderemos juntos sobre as medidas ou estratégias que são utili- zadas pelas organizações para melhorar as condições de trabalho e de vida dos colaboradores. Já é de seu conhecimento que a motivação e o comprometimento com a execução das tarefas são preponderantes para um diferencial competitivo organizacional, certo? Assim, aprenderemos como as empresas podem organizar-se de forma competitiva para imple- mentarem a QVT em seus ambientes empresariais! Espero que possamos aprender muito nessa unidade! Vamos lá? Objetivos de Aprendizagem Nesta unidade de aprendizagem, você irá compreender: • Estratégias para implantar programas de QVT. • Sistemas de recompensa e aspectos críticos relacionados à QVT. • Atuação sistêmica da QVT. 94 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 6 - Qualidade de Vida no Trabalho: a fase de implantação 6.1 Programas de Qualidade de Vida – QVT Os processos de mudanças os quais as empresas vêm enfrentando em decorrência dos constantes avanços tecno- lógicos e da demanda cada vez mais personalizada por parte dos clientes têm exigido uma posição diferenciada das organizações em relação à qualidade e à produtividade. Para que as empresas possam sobreviver nesse mercado tão fluido e mutável, a participação dos trabalhadores nos processos organizacionais é de fundamental importância. Nesse sentido, o modelo de gestão das organizações que reconhece a importância das pessoas – considerando- -as o seu principal capital intelectual e desenvolvendo programas e medidas que visam à melhoria das condições de trabalho e de vida dos funcionários – terá como resultados mais motivação e comprometimento dos seus funcionários com as tarefas realizadas (LIMONGI, 2003). Uma administração estratégica de recursos humanos busca sempre uma retenção dos seus melhores funcionários; perceba que condições de trabalho que resultam na qualidade de vida dos funcionários é um fator diferenciador e competitivo das empresas. As empresas devem buscar perceber seus colaboradores como parceiros do negócio e, dessa forma, galgar uma posição melhor no mercado (BOOG, 2002). Quando se discute qualidade de vida no trabalho, vários conceitos podem ser abordados, como a promoção de atividades voluntárias, áreas destinadas ao lazer, estímulos motivacionais no trabalho, administração do tempo dis- ponível, ginástica laboral, maior participação nos resultados, entre outros temas (LIMONGI, 2003). Nesse sentido, os programas de QVT, quando implementados de forma eficaz, apresentam resultados que refletem na redução do absenteísmo e do presenteísmo, no aumento da produtividade, no alcance da eficiência nas atividades, na melho- ria do clima organizacional, no bem-estar físico e psicológico e na saúde em geral dos colaboradores. Absenteísmo: Ausência doindivíduo no local ou espaço em que seria obrigatória sua pre- sença. Presenteísmo: Compreende-se a presença física do colaborador no espaço laboral, porém, com ausência de produtividade. Assim, o colaborador está presente no trabalho, mas men- talmente ausente. Glossário Perceba que os resultados alcançados com os programas de QVT dependerão da especificidade de cada um, con- forme for implementado pelas organizações. Existem empresas que desenvolvem programas que incentivam uma alimentação saudável; outras estabelecem estratégias de incentivo ao consumo de frutas e fibras na alimentação. Como resultado, as empresas buscam controle ou redução do peso corporal e desenvolvem programas de preven- ção da obesidade. Algumas empresas também incentivam as boas práticas de hábitos diários, divulgando-os em cartazes e na intranet, tudo isso buscando a melhoria da qualidade de vida dos seus colaboradores. Em termos gerais, o tema QVT desenvolve-se com a finalidade de promover boas condições de vida e bem-estar das pessoas. Vale ressaltar que as organizações bem-sucedidas serão aquelas que conseguirem equilibrar os objetivos organizacionais e os objetivos individuais dos seus colaboradores (BOOG, 2002). A figura a seguir rela- ciona os benefícios de um programa de qualidade de vida. 95 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 6 - Qualidade de Vida no Trabalho: a fase de implantação Figura 1 - Resultados de um programa de QVT. Legenda: A figura ilustra os benefícios dos programas de qualidade de vida, incluindo bem-estar, saúde, felicidade e produtividade, entre outros. Fonte: <https://sergiobatistacoach.files.wordpress.com/2014/05/qualidade-de-vida.jpg> Perceba que existem empresas que apresentam uma concepção errônea de qualidade de vida no trabalho, cen- trando suas ações somente na promoção da segurança no trabalho e da saúde de seus trabalhadores. Ao contrá- rio de uma visão míope sobre a QVT, vale relembrar que ela diz respeito a um melhor ambiente para trabalhar-se, a um relacionamento positivo com o superior, a estímulos motivacionais, à satisfação de trabalhar na empresa e, de forma geral, ao bem-estar de todos (LIMONGI, 2002; 2003). Um dos resultados de um diagnóstico sobre a Qualidade de Vida no Trabalho é a identificação das competências que os colaboradores necessitam desenvolver com a finalidade de aumentar seus conhecimentos e suas expe- riências e proporcionar melhores resultados empresariais (LIMONGI, 2002; 2003). Nesse sentido, faz-se neces- sária a adoção de programas de QVT que são planejados e executados por empresas que realmente voltam suas estratégias para o bem-estar de seus colaboradores. Tais programas podem atuar na prevenção de problemas de saúde dos colaboradores por meio de incentivos de exercícios, uma boa prática alimentar e bons hábitos diários. Na visão do autor Chiavenato (2006), em um Programa de Qualidade de Vida no Trabalho (PQVT), é possível auxiliar os funcionários a identificarem os riscos que podem impactar a saúde de cada um; estimular e promover práticas educativas para que conheçam os riscos de saúde relacionados à pressão sanguínea elevada, ao fumo, à obesidade, à dieta pobre e ao estresse. Dessa forma, um PQVT tem como uma de suas finalidades encorajar os funcionários a adotarem um estilo de vida mais saudável por meio de exercícios, boa alimentação e acompanha- mento do estado de saúde. Muito embora as empresas desenvolvam atividades orientadas ao bem-estar dos colaboradores, tal atitude não é suficiente para proporcionar um ambiente tranquilo, seguro, agradável; diante disso, é importante a adoção de programas de QVT, que aprimoram de forma positiva o clima e a cultura organizacionais, o comportamento das pessoas e a eficácia organizacional. Na próxima seção, serão apresentadas a você as etapas para a implantação do PQVT. Vamos lá? 96 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 6 - Qualidade de Vida no Trabalho: a fase de implantação 6.2 Implantação de PQVT Uma empresa que desenvolve e implementa um programa de QVT, além de tornar o ambiente de trabalho mais propício para a execução das atividades, configura-se como uma empresa mais competitiva, pois agrega valor aos seus produtos e serviços. Para Limongi (2002; 2003), a princípio, os PQVT foram desenvolvidos com o obje- tivo de atender à ergonomia, à medicina e à segurança do trabalho, ou seja, promover a saúde em geral dos colaboradores. Dessa forma, a saúde e a integridade do trabalhador foram aliadas aos fatores de melhoria do desempenho e maximização da produtividade da empresa. Assim, afirma Limongi-França (2007), para a exe- cução de um PQVT, é necessário considerar um conjunto de critérios de QVT que levem em conta o potencial humano, a saúde e a segurança no trabalho dos colaboradores. O quadro a seguir aponta alguns critérios a serem considerados em um PQVT. Quadro 1 - Critérios a serem considerados em PQVT. CRITÉRIOS FOCO Organizacional Imagem, treinamento e desenvolvimento, processos e tecnologia, comitês de decisão, ausência de burocracia e rotinas pessoais. Biológico Semana interna de prevenção de acidentes, controle de riscos ergonômicos (PPRA), ambulatório médico, ginástica laboral, refeição, saúde, comissão (CIPA). Psicológico Recrutamento e seleção, avaliação do desempenho, camaradagem, carreira, salário, vida das pessoas. Social Convênios comerciais, tempo livre, lazer, filhos, cesta básica, previdência privada, financiamento de cursos. Legenda: O quadro apresenta os critérios que devem ser considerados em PQVT, como critérios organizacionais, biológicos, psicológicos e sociais. Adaptado de Limongi-França (2007). Assim, um PQVT envolve atos legislativos, ações orientadas para a humanização da organização, fatores físicos, sociológicos, tecnológicos e psicológicos que contribuem para o alcance da satisfação dos colaboradores. Em relação à abordagem sociotécnica da QVT, esta envolve a pessoa, o trabalho e a organização e concebe o ser humano em suas dimensões biológica, psicológica e social. A dimensão biológica refere-se às características físicas construídas ao longo da vida; a dimensão psicológica aos aspectos afetivos, emocionais e de raciocínio; e a dimensão social abrange os valores, as crenças, a família, o trabalho e a comunidade a que os grupos per- tencem (LIMONGI, 2007). Perceba que, com a evolução do conceito de QVT, foi incorporada a dimensão organizacional, que considera variáveis culturais e aspectos dos ambientes organizacionais e também as práticas e políticas administrativas. Para Limongi (2002; 2003), a partir desse contexto de evolução do conceito da QVT é que surgiu o instrumento denominado critérios de análise BPSO-96, Biológica, Psicológica, Social e Organizacional. Assim, os primeiros PQVTs receberam o nome de PPS – Programas de Promoção da Saúde – e consideraram os seguintes aspectos: • atividades de coordenação do PPS que seriam responsáveis pelos resultados das atividades implantadas; • mobilização e sensibilização da alta administração e definição do investimento para o PPS; 97 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 6 - Qualidade de Vida no Trabalho: a fase de implantação • mapeamento das necessidades dos colaboradores, utilizando-se aplicação de questionário para defini- ção do escopo do programa; • planejamento de custos e recursos da empresa disponíveis para a implantação do PPS. O que você deve compreender é que os programas de QVT, quando implementados de forma eficiente, pos- suem a capacidade de proporcionarem resultados excelentes nas empresas. Perceba que é possível realizar a relação entre QVT e produtividade; nesse sentido, os administradores realizam um investimento no bem-estar da empresa e, como consequência, maximizam a produtividade, o que torna as organizações mais competitivas (LIMONGI-FRANÇA, 2007). A produtividade é um critériocompetitivo para as organizações, uma vez que define a sobrevivência das empre- sas em relação ao cumprimento de seus objetivos e metas. Nesse sentido, afirma Limongi-França (2004, p. 44), que a produtividade é “o grau de aproveitamento pelos meios utilizados para produzir serviços e bens, a pers- pectiva é aproveitar ao máximo os vários recursos disponíveis para chegar no resultado desejado, e superando o mercado competitivo”. Assim, a produtividade faz parte da atuação sistêmica de um PQVT. Os programas de QVT geram melhorias no comportamento e estilo de vida dos colaboradores e melhorias na organização quanto a competividade e desenvolvimento das pessoas. Ao definir seus programas de QVT, as empresas assumem um compromisso de desenvolverem estratégias de valorização dos seus colaboradores, garantindo mais qualidade na entrega das demandas dos produtos e serviços e disponibilizando um ambiente afetivo para que a produtividade possa ser alcançada em longo prazo. A QVT, para Limongi (2002; 2003), inclui, além de boas condições de trabalho, um plano de cargos e salários coerente com a carreira; assim, o cargo deve ser interessante, desafiador e compensador de tal forma que possa ser um estímulo ao comprometimento e à produtividade dos colaboradores. Com o objetivo de acompanhar as melhorias da QVT, as empresas podem utilizar-se de indicadores da qualidade e da produtividade, que deverão apresentar as especificidades de cada objetivo empresarial. O maior ganho para as empresas com um PQVT é a satisfação dos colaboradores com as atividades que realizam; de forma direta, tal resultado impacta na satisfação dos clientes e em maior qualidade nos processos. A figura a seguir ilustra os benefícios proporcionados por um PQVT: 98 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 6 - Qualidade de Vida no Trabalho: a fase de implantação Figura 2 – Benefícios de um PQVT. Legenda: A figura ilustra, em formato de ciclo, os benefícios de um programa de qualidade de vida no tra- balho, o que inclui, por exemplo, equilíbrio nas relações com a família, trabalho e comunidade. Fonte: <http://boaspraticasfarmaceuticas.blogspot.com.br/2010/08/qualidade-de-vida-no-trabalho-e-saude.html> Antes de apresentar para você o passo a passo de implantação de um PQVT, ressalta-se que é importante para as organizações criarem uma visão a ser percebida pelo funcionário de que a empresa na qual ele se encontra inse- rido está desenvolvendo estratégias voltadas para o bem-estar de seus colaboradores, e que essas estratégias abrangem o ambiente interno e externo das organizações. Limongi (2004) indica a necessidade da legitimidade das práticas de gestão no trabalho, a qual se relaciona com a qualidade e a aceitação das decisões empresariais pela maioria, respeitando o posicionamento da minoria, os direitos e deveres de cada um, as decisões estratégicas e comportamentais, tudo isso com a finalidade de orien- tar as empresas a alcançarem um melhor desempenho econômico-financeiro. Assim, você deve perceber que a legalidade, a legitimidade e a produtividade são fatores que, dentro de um PQVT, irão garantir um pleno desen- volvimento do potencial humano. Você sabia que é importante que as pessoas legitimem um Programa de Qualidade de Vida no Trabalho, ou seja, que aceitem e internalizem os aspectos relacionados à QVT? Isso trans- mite credibilidade ao programa e contribui para mais eficiência organizacional e realização humana nas empresas. 99 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 6 - Qualidade de Vida no Trabalho: a fase de implantação A aceitação dos colaboradores das atividades definidas no PQVT é essencial para a obtenção de excelência pro- fissional por parte deles, ou seja, reforça as práticas e os valores de QVT (LIMONGI, 2004). Tal atitude legitima a integridade das pessoas, maximiza sua aprendizagem, contribui para o crescimento delas dentro da empresa e permite que elas se identifiquem com a cultura da empresa. A criação da identidade dos colaboradores com os valores empresariais influencia as pessoas a sentirem-se motivadas a produzirem cada vez melhor. Para os autores, também é importante que, durante a implementação do programa, sejam considerados os aspectos que conduzem ou conduzirão as mudanças nas organizações, bem como o engajamento dos cola- boradores e o monitoramento das atividades que serão implementadas no programa de qualidade de vida. Os programas de QVT não precisam ser necessariamente custosos para as empresas; podem ser desenvolvidos pro- gramas de baixo custo, por exemplo, ações diárias nas empresas que fornecem informações sobre a qualidade da alimentação, a importância da prática de exercícios físicos, as vantagens de um trabalho em equipe e de um clima organizacional positivo (CHIAVENATO, 1999). O modelo de implantação do PQVT elaborado por Fernandes (1996) apresentou a importância do apoio das várias áreas de conhecimentos teóricos e técnicos sobre QVT, composto por cinco etapas: 1) as ações de sensibi- lização que serão utilizadas na empresa; 2) a preparação da equipe responsável pelo projeto; 3) a fase de coleta de informações sobre as condições do trabalho na empresa – diagnóstico; 4) o cronograma de implantação das etapas do programa de qualidade; e 5) a avaliação de como o programa está sendo desenvolvido e sua forma de disseminação para os outros setores. A figura a seguir ilustra os eixos relacionadas ao PQVT. Figura 3 – Variáveis relacionadas ao PQVT. Legenda: A figura ilustra os eixos compreendidos pela PQVT, como meio ambiente, saúde e bem-estar e vínculo com a comunidade. Fonte: http://3.bp.blogspot.com/_UOuRODUYWHQ/TRjHtDA3RlI/AAAAAAAAABg/7LDACGzBKDE/s1600/18847.jpg Para a implantação de um Programa de QVT, deve-se considerar ainda (SILVA, 1997): • Uma coordenação que realize o gerenciamento, o planejamento, a implantação e a avaliação do PQVT com vistas a futuram correções. • Capacidade de sensibilização da direção da empresa. • Disponibilidade para ouvir os funcionários e permitir sua participação, pois o programa deve considerar as necessidades dos colaboradores. 100 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 6 - Qualidade de Vida no Trabalho: a fase de implantação Caro estudante, assista ao vídeo https://www.youtube.com/watch?v=qoxW13XryFM e reforce mais seu aprendizado sobre QVT! Faça anotações em seu caderno. Existem, dessa forma, vários autores que discorrem sobre as etapas de implantação de um PQVT. A seguir, apre- sento a você, de uma forma geral e detalhada, cinco etapas para a implantação de um PQVT na percepção de Limongi (2007; 2003; 2002) e O’Donell (2000). 6.2.1 Fases de Implantação de PQVT 1° Fase - Sensibilização: A fase de sensibilização não deve envolver dicas de saúde ou de comportamento organizacional que são divulga- das aos colaboradores de forma isolada, mas informações associadas a outros dados que serão relevantes e farão sentido para os colaboradores. Ou seja, um PQVT deve apresentar uma grande fonte de informação que mobi- lize e sensibilize os colaboradores de uma empresa para uma mudança de hábitos ou de postura no ambiente empresarial. Sendo assim, mais do que apresentar informações aos colaboradores, é necessário mostrar que existem formas de prevenção a doenças que podem surgir em decorrência de péssimos hábitos no espaço labo- ral. Perceba que essas ações conjuntas compõem a sensibilização no PQVT. A sensibilização em um PQVT pode ser compreendida como a forma de transmissão de informações aos cola- boradores de uma empresa, com o objetivo de aumentar sua compreensão sobre as condições de trabalho, de tal forma que possam agir proativamente com o objetivo de mudarem os seus hábitos e usufruírem de um bom estado de saúde. Nas organizações, a sensibilização diz respeito a ações que chamam a atenção das pessoas para maximizarem o seu nível de interesse sobre osaspectos relacionados à saúde no ambiente do trabalho. Dessa forma, podem ser desenvolvidas diversas ações para manter as pessoas saudáveis. Essas ações podem ser classificadas em ações de recuperação, proteção e promoção da saúde. As ações de recuperação da saúde são aquelas orientadas para as pessoas que já se encontram doentes e têm por finalidade estimular uma recuperação do ponto de vista físico, psicológico e social. As ações de proteção da saúde são orientadas à prevenção dos indivíduos a agentes nocivos presentes no trabalho, à utilização de equipamentos de proteção individual no trabalho e à vacinação. As ações de promoção da saúde, por sua vez, orientam para a prevenção de doenças. Sobre as doenças no espaço laboral, afirma Limongi (2012, p. 107) que: As LER/Dort – lesões por esforços repetitivos ou distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho – são as doenças de maior prevalência entre as relacionadas ao trabalho em nosso país. De acordo com o INSS, são a segunda causa de afastamento do trabalho no Brasil... As lesões atingem o trabalhador no auge de sua produtividade e experiência profissional, já que a maior incidência ocorre na faixa de 30 a 40 anos. A figura a seguir apresenta uma estratégia de sensibilização que pode ser utilizada em um PQVT. 101 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 6 - Qualidade de Vida no Trabalho: a fase de implantação Figura 4 – Estratégias de sensibilização de um PQVT: Mudança de postura e hábitos. Legenda: Mudança de hábitos Fonte: <http://kinexfisioterapia.com.br/2016/07/20/voce-sabe-sentar-serie-habitos-sem-dor/ Em um PQVT, é necessário ainda trabalhar os aspectos relacionados à não exclusão dos participantes, buscar transformar as crenças limitadoras em crenças possibilitadoras, responsabilizar os colaboradores pelo “ser” (coparticipante do processo), realizar o preparo e a capacitação da equipe multidisciplinar que vai atuar no PQVT, disseminar a filosofia de que a qualidade de vida no trabalho é igual a qualidade do “ser”. Também é preciso trabalhar a percepção do empregador, que não deve conceber os programas de prevenção como uma despesa, mas sim como um investimento, ou seja, trabalhar também a falta sensibilização do empregador. Os programas de QVT podem ser realizados em forma de grupos de apoio e podem ser uti- lizadas ações educacionais, de mudanças de comportamento e muitas atividades vivenciais e práticas com a finalidade de estimular o colaborador a desenvolver o sentimento de per- tencimento no PQVT! 2° Fase - Preparação Você deve compreender que, apesar de as implantações de programas de QVT serem específicas de cada orga- nização, é possível padronizar algumas fases a serem implementadas, tomando-se como referência um bom marco teórico e técnico voltado para o PQVT. Nessa fase de preparação, as ferramentas institucionais que serão utilizadas para o desenvolvimento do programa de QVT (como a definição de modelos, a escolha dos compo- 102 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 6 - Qualidade de Vida no Trabalho: a fase de implantação nentes da equipe que irá conduzir o projeto) são estruturadas, com o objetivo de garantir um resultado positivo para as organizações. 3º Fase - Diagnóstico Esta fase envolve a coleta de informações relacionadas ao funcionamento e à natureza da parte técnica da empresa. Essas informações devem ser comparadas com as características sociais referentes à percepção de satis- fação dos trabalhadores sobre as condições de trabalho disponibilizadas pela empresa. É aqui que os programas são estruturados para serem implementados de forma que possam realmente modificar os comportamentos ou hábitos negativos dos colaboradores. Por essa razão a fase de diagnóstico é necessária: para que os programas possam ser realizados considerando os aspectos que realmente serão alvo das ações de um PQVT. Um exemplo são os programas que visam à prevenção da hipertensão; nesse caso prático, é necessário que os participantes recebam feedback ou resposta sobre seu estado de saúde. Tal ação ou diagnóstico permitirá à pessoa estabelecer um sentido entre seu estado de saúde e as ações ou os objetivos do PQVT. O colaborador, dessa forma, será induzido a modificar o seu comportamento para uma situação de melhoria positiva de saúde. Perceba que podem ser formados grupos de apoio e que é de fundamental importância que os colaboradores se identifiquem com as ações e com as pessoas que irão compor o PQVT. É muito importante desenvolver estraté- gias bem consolidadas e legitimadas pelos participantes em PQVT para que, no término do programa, os com- portamentos negativos que forem diagnosticados como prejudiciais à saúde não sejam reincidentes. 4° fase - Concepção e Implantação do Projeto Nesta fase, é elaborado um cronograma detalhando prazos e datas para a efetivação das ações de melhorias dentro da organização. São elaborados os programas a partir das informações verificadas no diagnóstico. Nesta fase, é importante que a equipe envolvida no projeto disponha de informações reais para que as melhorias pos- sam ser realizadas de forma eficiente e eficaz. A figura a seguir ilustra os dados de uma pesquisa realizada em 2011 com mais de 500 gestores sobre o que eles pensam sobre o PQVT: 103 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 6 - Qualidade de Vida no Trabalho: a fase de implantação Figura 5 – O que dizem os gestores dos programas de qualidade de vida. Legenda: A figura demonstra os dados sobre uma pesquisa de opinião dos gestores sobre o PQVT. Nesse sentido, 70% dos entrevistados afirmaram que a qualidade de vida é um imperativo estratégico para as organizações. Fonte: http://www.brasil247.com/pt/247/seudinheiro/51363/Qualidade-de-vida-um-benef%C3%ADcio-que- -n%C3%A3o-tem-pre%C3%A7o.htm Dessa forma, a quarta fase visa proporcionar aos colaboradores das empresas um programa de qualidade de vida saudável, conforme as necessidades diagnosticadas. Na prática, as organizações devem aliar o conteúdo do PQVT com as ações de melhoria a serem alcançadas. Assim, seria incoerente divulgar ações de um programa de controle de peso se é uma prática no ambiente de trabalho o consumo de alimentos de alto teor calórico ou de alto nível de açúcar. Um programa de qualidade de vida no trabalho deve implementar ações orientadas para uma alimentação sau- dável, hábitos de atividades físicas e o próprio cardápio da empresa deve ser composto por refeições com ali- mentos saudáveis. Perceba que o PQVT é estratégico, pois as práticas de melhorias de vida devem ser alinhadas às estratégias da organização, ou seja, o ambiente interno organizacional deve ser modificado para que o PQVT possa ser legitimado pelos participantes. 104 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 6 - Qualidade de Vida no Trabalho: a fase de implantação 5° Fase - Avaliação e difusão Nesta última fase do programa de QVT, são analisados os resultados alcançados no início do processo. É neces- sário que as informações analisadas sejam as mais reais possíveis para que seja realizada uma comparação com o que foi planejado e o que foi realizado. Tal ação é importante para que os desvios sejam corrigidos e os acertos possam ser divulgados para toda a orga- nização. É sempre importante a realização a avaliação do programa para que as ações sejam mais eficazes, o que tornará a melhoria da qualidade de vida dos funcionários prioridade na organização, tendo como resultado um melhor desempenho organizacional. Sobre o PQVT, afirma Fernandes (1996, p. 62) que: [...] deve-se salientar que não basta decidir adotar simplesmente a sigla QVT, sem a inclusão de esforços estruturados para orientar mudanças no sistema de recompensas, mudanças de tec- nologia e no ambiente de trabalho, mudanças nos métodos de gestão para promover processos participativos e envolvimento dos empregados e, mais importante,sem uma sólida base filosófica e acreditar no milagroso efeito na satisfação dos trabalhadores. Vale ressaltar que nessa última fase são importantes ações com o intuito de reforçar algumas práticas importan- tes para que o programa de QVT possa ser consolidado, por exemplo: • A importância de um gestor que seja responsável pelo programa de qualidade de vida no trabalho e que assuma uma postura de líder de tal forma que as pessoas possam identificar-se e assumir a necessidade da mudança. • É necessário convencer os colaboradores de “empoderamento” (ou empowerment) na medida em que possam colaborar com suas opiniões e sugestões de melhoria para o PQVT. • Vale frisar que a existência de material impresso é importante para que os colaboradores possam apre- sentá-lo para seus familiares e recorrerem às ações do PQVT caso tenham dúvidas. • O apoio organizacional é preponderante para que todos os organizadores possam dar credibilidade às ações do PQVT e difundirem entre si as práticas de melhoria de saúde. Empoderar: Verbo que se refere ao ato de dar ou conceder poder para si próprio ou para outrem. Empowerment: Conceito de Administração de Empresas que significa “descentraliza- ção de poderes”, ou seja, sugere uma maior participação dos trabalhadores nas ativi- dades da empresa ao lhes ser dada maior autonomia de decisão e responsabilidades. Fonte: <https://www.significados.com.br> Glossário 105 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 6 - Qualidade de Vida no Trabalho: a fase de implantação Figura 6 – Ações de melhoria de um PQVT. Legenda: A figura ilustra ações positivas de um PQVT, como redução da rotatividade, melho- ria de postura, redução de acidentes e melhoria do bem-estar, entre outras. Fonte: <http://temasemdebate.comriobranco.com/07/pausa-para-combater-o-estresse-no-ambiente-de-trabalho/> Perceba que existem alguns aspectos críticos a serem considerados em um PQVT, por exemplo, a cultura da organização e sua disponibilidade em assumir a implementação do programa. A legitimidade do programa é um fator importante, pois a organização, por meio de uma liderança, deve assumir a postura e criar no ambiente do trabalho um sentimento (que possa ser percebido pelos colaboradores) de que as ações do PQVT realmente são para a melhoria do clima organizacional e do bem-estar em geral de seus colaboradores. Na próxima seção, são apresentados alguns aspectos críticos de um PQVT e a necessidade de uma atuação sistêmica organizacional. 106 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 6 - Qualidade de Vida no Trabalho: a fase de implantação 6.2.2 Sistemas de recompensa O QVT busca extrair o melhor que o colaborador tem a oferecer para a organização e aumentar o seu nível de satisfação com o desempenho de suas funções. Podemos notar que o PQVT estabelece profundo respeito com o ser humano e auxilia no atingimento da satisfação, da produtividade e do nível alto de qualidade. Organizações entendem que para atingir o seu cliente externo elas precisam primeiro cuidar do seu cliente interno, proporcionando recompensas e benefícios para o funcionário que contribui e atende aos padrões esta- belecidos no PQVT. De acordo com Chiavenato (1999), as organizações que valorizam e aplicam recompensas aos colaboradores estão investindo diretamente no cliente externo. Algumas empresas estabelecem recompensas para os seus colaboradores em função do alcance e da efetivação das ações do PQVT. Essas recompensas podem ser realizadas em forma de prêmios ou ações que estimulem o colaborador a não ter recaídas em sua mudança de hábito. Podemos citar alguns fatores que representam que o QVT atua de forma construtiva e positiva na organização quando: o colaborador está satisfeito com o trabalho realizado; enxerga futuro profissional dentro da empresa; quando é reconhecido pelo trabalho executado; o salário está de acordo com os padrões trabalhistas; há um sistema de benefícios e recompensas obtidos pelo trabalho executado, entre outros. De acordo com o novo modelo de gerenciamento de pessoas, notamos que o sistema de recompensa será efi- ciente ao passo que consiga agregar valor ao conteúdo e ao contexto do cargo pelo qual o colaborador é res- ponsável. O sistema de recompensa funcionará como um modelo de planos de recompensas e incentivos que impulsionem a satisfação, a melhoria no comportamento, a melhoria de tarefas, o clima organizacional e a reor- ganização do trabalho. Compreenderá tanto as recompensas diretas (comissões, salário, PL, benefícios sociais) como as indiretas (promoções, elogios, desenvolvimento da pessoa no trabalho etc.). No modelo de QVT de Nadler e Lawler, segundo Chiavenato (1999), os sistemas de recompensa deverão estar associados com os resultados obtidos pelo funcionário e com as recompensas adicionais. Essa combinação tem por objetivo influenciar a motivação do colaborador na busca por melhores salários em troca de resultados supe- riores. Podemos chamar essa combinação de remuneração variável. Atualmente, as empresas buscam inovações nos sistemas de remuneração por entenderem que isso afeta o clima da organização. Assim, o PQVT tem papel fundamental na implantação e na execução para garantir o atin- gimento do objetivo da organização. Quanto mais funcionários satisfeitos, melhores serão o clima e a qualidade na entrega do trabalho. 6.2.3 Aspectos críticos de um PQVT Como foi abordado inicialmente, um PQVT deve atuar de forma holística, ou seja, de forma sistêmica; isso quer dizer que deve envolver toda a organização. Para que isso ocorra, a postura das empresas deve ser a de assumir o PQVT como uma ação de melhoria para o ambiente interno e principalmente para os colaboradores. O PQVT considera que o bem-estar no ambiente de trabalho contribui diretamente para a produtividade dos colaboradores e que esse fator está totalmente relacionado a um dos objetivos dos sistemas de recompensas que se destinar a reforçar os estímulos motivacionais no ambiente de trabalho (KANAANE, 2009). Dessa forma, quanto melhor o desempenho do colaborador no ambiente de trabalho, maior sua chance de ser reconhecido e recompensado na organização. Por outro lado, afirma Gil (2001), as dificuldades oriundas dos PQVT podem estar relacionadas aos custos para a empresa e à ausência de percepção de que o PQVT tem, como alvo principal, os colaboradores e não a organi- 107 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 6 - Qualidade de Vida no Trabalho: a fase de implantação zação. A ausência da adesão da alta administração também constitui uma barreira para o PQVT. Nesse sentido, é importante que as empresas percebam que os programas de QVT estão direcionados à efetivação de melhoria organizacional, à satisfação do indivíduo e a condições favoráveis para que as pessoas possam desenvolver suas atividades. É necessário que exista uma reconciliação entre os objetivos dos indivíduos e os objetivos propostos pela organização. Reforça ainda Gil (2001) que os programas de qualidade de vida no trabalho têm como objetivo criar uma organização mais humanizada. O quadro a seguir discorre sobre os aspectos positivos gerados pelos programas de QVT: Quadro 2 - Aspectos positivos gerados pelos programas de QVT. Camada Biológica (18%) Redução de doenças/faltas • redução no número de doenças/ afastamento. • menor absenteísmo, distanciamento ou diminuição da doença. • menos falta ao trabalho. Redução de custos com assistência médica melhoria no estilo de vida • ação concreta e determinada para a promoção da saúde. • importância de um estilo de vida mais saudável. • modelos de vida sadia para melhorar o estilo de vida. • as empresas estão investindo pesadamente em programas de QVT e estão cuidando do bem-estar físico e emocional de seus funcionários. Camada Psicológica (15%) Melhor satisfação interna • funcionáriosmais satisfeitos. • aumenta o grau de satisfação dos funcionários. Melhoria na autoestima/imagem dos funcionários / Aumento da motivação • mais motivação e comprometimento. • reforça o vínculo dos funcionários. • aumenta o grau de responsabilidade. 108 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 6 - Qualidade de Vida no Trabalho: a fase de implantação Camada Social (18%) Empregados mais conscientes e politizados • as pessoas estão mais conscientes da importância de manter um estilo de vida saudável. • população mais questionadora. • novo perfil profissional interessado em sua própria qualidade de vida. • funcionários com mais alto grau de exigência. Melhoria do clima organizacional (relacionamentos) • relacionamentos mais saudáveis. • integração dos funcionários. Aumento da preocupação com qualidade de vida • pessoas e empresas têm demonstrado interesse crescente pelo tema. • maior conscientização sobre QVT. • muitas ações estão sendo feitas. • preocupação com o bem-estar dos trabalhadores. • alto grau de receptividade. Camada Organizacional (49%) Aumento da produtividade • funcionários saudáveis e satisfeitos produzem mais e melhor. • empregado saudável é produtivo. Aumento da competitividade • habilidade para conseguir novos clientes. • as empresas que não se modernizam estarão fadadas ao fim de sua existência. • conseguirem melhor vantagem competitiva. • estão organizacional mais arrojada/competitiva Imagem da empresa • marketing para a empresa. • melhor imagem externa. • os consumidores buscam produtos de empresas cuja identificação com a imagem é positiva. • aparecem na mídia, ganham prêmios. 109 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 6 - Qualidade de Vida no Trabalho: a fase de implantação Redução dos custos • redução das perdas de processos e do trabalho ISO 9000 • exigências para certificação ISO 9000. • QVT tem sido associada à ISO 9000. • crescentes necessidades das empresas de obterem certificações ISO. Exigência de qualidade • resultados da empresa. • otimização dos recursos da empresa. • lucratividade. • melhores resultados. • emprego saudável gera lucro. Legenda: O quadro descreve as vantagens da implementação do PQVT nas dimensões Biológica, Psicológica, Social e Orga- nizacional (BPSO). Fonte: Limongi-França (2003, p. 138). Quando as organizações não apresentam barreiras para a implantação do PQVT, o resultado é uma visão biopsi- cossocial da qualidade de vida no trabalho orientada para a preocupação do indivíduo em todas as suas dimen- sões. Nesse sentido, a saúde passa a não ser concebida como a ausência de doença, mas como uma necessidade, conforme corrobora Boog (2002). Dessa forma, um PQVT permite autonomia no trabalho, feedbacks constantes sobre o desempenho, ajustes de tarefas, ênfase no desenvolvimento pessoal do indivíduo e equilíbrio entre os objetivos dos indivíduos em situação de trabalho e os propostos pela organização. 110 Considerações finais Nesta unidade, você compreendeu: • O modelo de gestão das organizações, que reconhece a impor- tância das pessoas como sendo o seu principal capital intelectual e desenvolve programas e medidas que visam à melhoria das con- dições de trabalho e de vida dos funcionários. • As empresas devem buscar perceber seus colaboradores como parceiros do negócio e, dessa forma, galgar uma posição melhor no mercado. • Os programas de QVT, quando implementados de forma eficaz, apresentam resultados que se refletem na redução do absente- ísmo e do presenteísmo, em aumento da produtividade, alcance da eficiência nas atividades, melhoria do clima organizacional, bem-estar físico e psicológico e melhoria da saúde em geral dos colaboradores. • Os resultados alcançados com os programas de QVT depen- derão da especificidade de cada programa implementado pelas organizações. • O tema QVT desenvolve-se com a finalidade de promover boas condições de vida e bem-estar das pessoas. Vale ressaltar que as organizações bem-sucedidas serão aquelas que conseguirem equilibrar os objetivos organizacionais e os objetivos individuais dos seus colaboradores. • Um dos resultados de um diagnóstico sobre a Qualidade de Vida no Trabalho é a identificação das competências que os colabo- radores necessitam desenvolver com a finalidade de ampliarem seus conhecimentos e suas experiências e proporcionar melhores resultados empresariais. • Em um programa de qualidade de vida no trabalho – PQVT, é possível auxiliar os funcionários a identificarem os riscos que podem impactar a saúde de cada um; estimular e promover práti- cas educativas para os funcionários a fim de que estes conheçam os riscos de saúde relacionados à pressão sanguínea elevada, ao fumo, à obesidade, à dieta pobre e ao estresse. Referências bibliográficas 111 CHIAVENATO, I. Gestão de Pessoas: o novo papel dos recursos humanos nas organizações. Rio de Janeiro: Campus, 1999. ______. Recursos humanos: O capital humano das organizações. 8. ed., 3. reimpr. São Paulo: Atlas, 2006. BOOG, Gustavo G. Manual de gestão de pessoas e equipes. Vol. 2 – Estratégias e Tendências. São Paulo: Gente, 2002. Fernandes, E. C. Qualidade de vida no trabalho. Salvador: Casa da Qua- lidade, FGV, 1996. GIL, Antônio Carlos. Gestão de pessoas. São Paulo: Editora Atlas S. A., 2001. KANAANE, Roberto. Comportamento humano nas organizações: o homem rumo ao século XXI. São Paulo: Atlas, 2009. LIMONGI, Ana Cristina. Qualidade de Vida no Trabalho – QVT: Concei- tos e práticas nas empresas da sociedade pós-industrial. São Paulo: Atlas, 2012. LIMONGI, Ana Cristina. As pessoas na organização. São Paulo: Gente, 2002. ______. Práticas de Recursos Humanos – PRH: conceitos, ferramentas e procedimentos. São Paulo: Atlas, 2007. ______. Qualidade de Vida no Trabalho – QVT: Conceitos e práticas nas empresas da sociedade pós-industrial. São Paulo: Atlas, 2003. 112 LIMONGI-FRANÇA, Ana Cristina. Qualidade de vida no Trabalho – QVT: conceito e práticas nas empresas da sociedade pós-industrial. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2004. SILVA, Marco Aurélio; MARCHI, Ricardo. Saúde e Qualidade de Vida no Trabalho. Rio de Janeiro: Best Seller, 1997. 7 114 Unidade 7 QVT: monitoramento e avaliação Para iniciar seus estudos Nesta unidade, você é convidado a participar de forma ativa. Especial- mente nesta unidade, será tratada a fase que dá forma e aprimorara as ações de um Programa de Qualidade de Vida no Trabalho: a fase de Monitoramento e Avaliação. Para tanto, será necessário tratar conceitos e ferramentas que instrumentalizam gestores e profissionais a atuar de forma eficiente para melhorar as práticas organizacionais, medindo (com indicadores) e avaliando com práticas de comunicação com foco no rela- cionamento interpessoal, tal como um sistema de feedback. 7 115 Objetivos de Aprendizagem • Indicadores. • Sistemas de feedback. • Feedback positivo e feedback negativo. • Sistemas de comunicação interpessoal em QVT. Para iniciarmos nossas discussões, façamos uso de algumas concepções importantes e que nortearam os trabalhos nesta unidade. 1ª) Em geral, é mais fácil identificar Programas de QVT quando associados às práticas de Gestão de Pessoas nas organizações. 2ª) Para tanto, é necessário ter uma visão situacional de QVT (cada con- texto socioeconômico e político é, via de regra, muito particular). 3ª) Logo, é preciso ter em mente que qualidade de vida no trabalho é um conceito amplo, flexível e contingencial. Sendo assim, o cerne desta unidade (Monitoramento e Avaliação) con- centra-se na aplicação de ferramentas e instrumentos de controle sobre processos, ou seja, nosso itinerário contempla discutirmos formas de mensurar as ações que envolvamQVT e práticas sobre como atuar corre- tiva e preventivamente sobre suas dimensões. Cerne - Núcleo, do francês «cerne”, que significa cír- culo. Essa palavra também é usada para descrever a parte central ou mais importante de alguma coisa ou assunto. Fonte: <https://www.significados.com.br/ cerne/> Glossário 116 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 7 - QVT: monitoramento e avaliação 7.1 Indicadores Qualquer Programa de Qualidade de Vida no Trabalho pressupõe: (a) que existirão ações articuladas e planejadas; (b) que serão necessários elementos de controle para todo o processo: antes, durante e após sua execução. Mas como mensurar isso? Como dar forma e volume, ou seja, dimensionar o quanto algo acontece e, ainda mais, descrever a qualidade com a qual algo é realizado? Uma resposta a esse questionamento parece encontrar enca- minhamento na aplicação de indicadores. Segundo Silva et al. (2014, p. 21): [...] em poucas palavras, [indicadores] são referências quantitativas ou qualitativas que servem para indicar se as atividades de um [programa] estão sendo bem executadas [...] ou se os objetivos foram alcançados [...]. Ainda conforme os autores, se há a necessidade de identificar se um PQVT está indo na direção certa ou se necessita de ajustes, ou mesmo mudança de estratégia para voltar a caminhar rumo aos seus objetivos, então há que se cogitar a utilização de indicadores de processo. Nessa mesma perspectiva, quando se deseja entender e dimensionar se os objetivos foram alcançados, estamos nos referindo a indicadores que meçam os objetivos alcançados, os indicadores de resultados, e acompanhar as mudanças que o PQVT alcançou, os indicadores de impactos. Figura 7.1 – Tipos de Indicadores. Legenda: Indicadores de processo, resultados e impacto. Fonte: Adaptada de Silva (2014). 117 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 7 - QVT: monitoramento e avaliação Outro elemento que se faz necessário na mensuração e dimensionalidade de indicadores em programas e pro- jetos e outras ações é o quesito meios de verificação. Figura 7.2 – Mensuração e dimensionalidade de indicadores PQVT. Legenda: Meios de verificação Fonte: Adaptada de Silva (2014). Conforme essa leitura, obviamente, não é tarefa simples esquadrinhar indicadores que deem a dimensão de efe- tividade da realização de PQVT. Mas os próprios autores destacam algumas características que podem auxiliar no momento de construir indicadores aplicados à Qualidade de Vida no Trabalho. Segue esquema ilustrativo: Figura 7.3 – Características de bons indicadores. Legenda: A figura mostra características de bons indicadores para PQVT. Fonte: Adaptada de Silva (2014). 118 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 7 - QVT: monitoramento e avaliação 7.1.1 Indicadores de Qualidade de Vida no Trabalho A fim de estabelecer os indicadores específicos para monitoramento das ações de um PQVT e avalição dos resul- tados alcançados e dos impactos gerados, será necessário antes elencar quais os critérios que subsidiarão essa escolha. Segundo Vasconcelos (2001), há critérios relacionados a essa tarefa; vamos a eles: 1. Compensação Justa e adequada: neste primeiro critério, são relacionadas as questões remuneratórias. 2. Condições de Trabalho: neste critério, são discutidas as condicionantes que possibilitam ou não a exe- cução das atividades laborais. 3. Uso e desenvolvimento de capacidades: o foco deste critério relaciona-se a questões como talentos humanos e capital intelectual. 4. Oportunidade de crescimento e segurança: aqui, estamos falando de planos de carreira e oportunida- des de crescimento profissional e organizacional. 5. Integração social na Organização: neste, são tratados a diversidade humana nas organizações e os relacionamentos interpessoais. 6. Constitucionalismo: neste critério, são abarcados os direitos laborais e seu dimensionamento junto à privacidade e à possibilidade de expressão de opiniões. 7. Trabalho e Espaço Total da Vida: neste critério, são enfocados os elementos que impactam no equilí- brio entre a vida pessoal e a vida profissional. 8. Relevância do Trabalho na Vida: diz respeito à percepção sobre a empresa, sobre a responsabilidade social da empresa frente a seu entorno social, à qualidade dos produtos/serviços entregues. Figura 7.4 – Construção de indicadores de QVT. Legenda: Critérios norteadores Fonte: Adaptada de Vasconcelos (2001). A partir desses critérios, podemos, então, relacionar indicadores e quais indicadores nortearão o monitoramento de atividades e práticas na implementação e execução de um PQVT. Vasconcelos (2001) relaciona os critérios a determinados indicadores de Qualidade de Vida no Trabalho, conforme a tabela que segue: 119 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 7 - QVT: monitoramento e avaliação Tabela 7.1 – Critérios e indicadores. CRITÉRIOS INDICADORES RELACIONADOS À QUALIDADE DE VIDA NO TRABALHO Compensação justa e adequada Equidade interna e externa Justiça na compensação Partilha de ganhos de produtividade Condições de trabalho Jornada de trabalho razoável Ambiente físico seguro e saudável Ausência de insalubridade Uso e desenvolvimento de capaci- dades Autonomia Autocontrole relativo Qualidades múltiplas Informações sobre o processo total do trabalho Oportunidade de crescimento e segurança Possibilidade de carreira Crescimento pessoal Perspectiva de avanço salarial Segurança de emprego Integração social na organização Ausência de preconceitos Igualdade Mobilidade Relacionamento Senso Comunitário Constitucionalismo Direitos de proteção à pessoa Privacidade pessoal Liberdade de expressão Tratamento imparcial Direitos trabalhistas Trabalho e espaço total da vida Papel balanceado no trabalho Estabilidade de horários Poucas mudanças geográficas Tempo para lazer da família Relevância do trabalho na vida Imagens da organização Responsabilidade social da organização Responsabilidade pelos produtos/serviços Práticas de emprego Legenda: Critérios e indicadores relacionados à QVT. Fonte: Adaptada de Vasconcelos (2001). 120 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 7 - QVT: monitoramento e avaliação 7.2 Sistemas de feedback Para compreender o que são sistemas de feedback, gostaria de apresentar uma descrição, mais geral, e que vem da química/biologia, para iniciarmos a construção desta compreensão: O que essa citação nos ilustra é que, para que haja o alcance de um resultado, há a necessidade de controlar as ações que influenciam e determinam tal resultado. Como destacam Damke et al. (2011), fomentar um sistema de controle (feedback) apresenta graus de dificuldade importantes a serem considerados, haja vista quais intenções de ação sobre o ambiente organizacional estarão vigentes. Pois, como dizem os próprios autores: [...] traduzir intenções em ações práticas e, por conseguinte, estabelecer indicadores de controle sobre estas se torna um desafio complexo, característica que motivou diversos estudos sobre a relação entre utilizar sistemas de controle formais e implementar estratégias (DAMKE et al., 2011, p. 75). Mas antes de debatermos sobre a sistematização de controles e estímulos, feedbacks e indicadores, existem dois conceitos que precisam ser alinhados em nosso debate, e que a definição com a qual iniciamos este tópico des- tacou: “O controle por feedback pode ser positivo ou negativo”. Vamos a eles. A fim de proporcionar a ilustração de exemplos de indicadores sendo apli- cados na prática, seguem duas reportagens com empresas que executam PQVTs: (a) <http://exame.abril.com.br/negocios/8-empresas-que-buscam- -dar-qualidade-de-vida-aos-funcionarios/> e (b) <https://www.outsideonline. com/1962466/best-places-work-2014>. Também chamado: Mecanismo de feedback; Alça de feedback; Mecanismo de retroa- limentação;Mecanismos de Controle O corpo usa sistemas de feedback para controlar algumas funções. Um sistema desse tipo utiliza um dos produtos de uma via, em geral o produto final, para controlar a ati- vidade dessa via e a quantidade do produto. O controle por feedback pode ser positivo ou negativo. Fonte: <http://www.labtestsonline.org.br/glossary/feedback>. 121 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 7 - QVT: monitoramento e avaliação 7.2.1 Feedback negativo Novamente, fazendo uso do recurso com o qual iniciamos nossas discussões sobre sistemas de feedback, inse- rimos a continuidade da citação e delineamos a noção de feedback negativo: No contexto organizacional, Kruglianskas e Giovannini (2004) identificam este tipo de feedback como o sistema de controle que dá limites a determinado tipo de ação que vem sendo desenvolvida, como que, aparando as arestas, na manutenção do que ocorre. 7.2.2 Feedback positivo Novamente, fazendo uso do recurso com o qual iniciamos nossas discussões sobre sistemas de feedback, inseri- mos a continuidade da citação e delineamos a noção de feedback negativo: No contexto organizacional, Kruglianskas e Giovannini (2004) identificam este tipo de feedback como o sistema de reforço que estimula e incentiva, e até mesmo a adoção de posturas criativas e inovadoras no intuito de man- ter o rumo ao alcance de resultados esperados. Para compreender um feedback negativo, pense em um termostato que regula a tem- peratura de sua casa e que essa regulagem esteja em 20ºC (a concentração do pro- duto final). Quando a temperatura cai, é acionado o sistema de feedback, o aquecedor acende e bombeia ar quente para dentro da casa. Quando a temperatura do ar chega a 20ºC, o termostato desliga o aquecedor (interrompe a formação do produto; inter- rompe a geração de ar quente). Um sistema de feedback negativo mantém um estado de equilíbrio, e é o tipo mais comum no corpo. Fonte: <http://www.labtestsonline.org.br/glossary/feedback>>. Um sistema de feedback positivo aumenta a velocidade de formação do produto. Tende a causar mudança, e não estabilidade. Pense em uma pessoa que trabalha muito e é elogiada por isso (recebe um feedback positivo). Ela passa a trabalhar mais ainda para receber mais elogios. Há alguns poucos sistemas de feedback positivo no corpo. Um exemplo é a lactação. A sucção do bebê provoca a secreção de mais prolactina, que estimula a produção de mais leite. Esse feedback é positivo porque o produto (leite) produz mais sucção e mais hormônio. Quando a criança deixa de ser amamentada, diminuem a produção de prolactina e de leite. Fonte: <http://www.labtestsonline.org.br/glossary/feedback> 122 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 7 - QVT: monitoramento e avaliação 7.2.3 Sistemas de feedback Segundo Cox III e Schleier (2013, p. 404): [...] um sistema de feedback não tem um ponto final”, mas oferece um monitoramento contínuo do fluxo para identificação das exceções. [O sistema de feedback é utilizado] de modo que se possa responder a uma exceção e reagir rápido para se manter um fluxo desejado. Assim, a fim de “controlar” as exceções e estimular “respostas mais ágeis”, Damke et al. (2011) nos apresentam uma categorização de quatro sistemas integrativos de controles e reforços, e que funcionam como um sistema de feedback que alinha as ações em programas em nível organizacional. Os sistemas elencados são: Figura 7.5 – Sistemas interativos de controle. Legenda: Sistemas de crenças, limites, diagnóstico e interativo. Fonte: Adaptada de Damke et al. (2011). 123 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 7 - QVT: monitoramento e avaliação Na tabela que segue, há uma descrição mais detalhada desses sistemas de controle e reforço: Tabela 7.2 – Sistemas de integrativos de feedback. SISTEMA DE CRENÇAS SISTEMA DE LIMITES SISTEMA DIAGNÓSTICO SISTEMA INTERATIVO Natureza do sistema Conjunto de crenças com- partilhadas que definem os va- lores fundamen- tais, propósitos e direções Declaração formal de limi- tes e de regras que devem ser respeitados Sistemas de fee- dback utilizados para acompanhar os resultados organi- zacionais e corrigir desvios em relação aos padrões de de- sempenho Sistemas de controle que os gestores utilizam regu- larmente para envolver os subordinados em atividades de decisão Propósito Proporcionar dinamismo e orientação para os compor- tamentos em busca de opor- tunidade Permitir criativi- dade individual dentro de limites determinados de liberdade Proporcionar motivação, recur- sos e informações importantes para garantir que estraté- gias organizacionais e objetivos sejam alcançados Focar a atenção organiza- cional nas incertezas estra- tégicas e, assim, provocar o aparecimento de novas iniciativas estratégicas Variáveis- -chave Valores funda- mentais Riscos a serem evitados Variáveis críticas de desempenho Incertezas estratégicas Exemplos Declarações de visão e missão, credos e propó- sitos (diretrizes gerais) Regras claras, limites e prescri- ções acerca de códigos de con- duta, sistemas de planejamento estratégico e sistemas de orça- mento de capital Resultados de pla- nos e orçamentos, sistemas de metas e objetivos, sistemas de monitoração e sistemas de vigilân- cia de receitas a. Garantir que o sistema é uma importante e recorrente agenda para discutir com subordinados; b. Garantir que o sistema foque toda a organização c. Promover a participação em reuniões face a face com os subordinados; d. Promover mudanças e de- bates contínuos por meio de suposições e planos de ação Legenda: Sistemas de integrativos de feedback. Fonte: Damke et al. (2011, p. 80). A articulação desses sistemas permite, conforme os autores, o alcance do equilíbrio de variáveis: 124 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 7 - QVT: monitoramento e avaliação Tabela 7.3 – Equilíbrio de variáveis Ponderar aspectos na conjuntura vigente estejam dispares: Crenças e incertezas Avaliar efeitos e causas Crenças e limites Apreciar aspectos práticos e teóricos Crenças e limites e incertezas Legenda: Como equilibrar variáveis. Fonte: Adaptada de Damke et al (2011). Um sistema de feedback nada mais pretende que ofertar controle e reforço por meio da utilização de indicadores que possibilitem o monitoramento a e avaliação das ações na busca de resultados esperados. 7.3 Sistemas de Comunicação em PQVT Figura 7.6 – Comunicação organizacional. Legenda: Elementos de comunicação. Fonte: 123rf.com ID: 41728565 Por que falamos? Por que nos calamos? Por que perguntamos? Por que afirmamos? Segundo Nasser e Medeiros (2007), toda a comunicação está carregada, implícita o explicitamente, de inten- cionalidade, muitas vezes, sem que seja para um destinatário objetivo, mas sempre a alguém, mesmo que de forma virtual. 125 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 7 - QVT: monitoramento e avaliação Imagine a seguinte cena. Você foi visitar sua família em sua cidade natal, “Alter D’oego”. Chegando lá, encontrou um velho amigo de infân- cia, popularmente, à época, conhecido como “Caniço” (vai vendo). Oportunamente, o “Caniço” havia ganhado um par de ingressos da partida da final do Campeonato de Futebol Amador da região, entre o time “Juntas de Aço-Tudo-Joga-Fora” e o time “Funerária Destino-Final”. E você, seja lá por qual razão, decidiu aceitar o convite. No dia e hora marcados nos ingressos, vocês encontraram-se em frente ao campinho da “Vila Gertrudes” para o tão esperado clássico. Escolheram o lugar. E, no momento que a equipe de arbitragem entrou em campo, seu amigo “Caniço” “abriu a caixa de ferramentas” e começou a “declamar” uma lista de impropérios e xingamentos que você nuncahavia ouvido. Assim que as equipes entraram, o “Caniço” cessou a “declamação” de “predicados” e sentou-se calmamente para curtir seu refresco e apreciar a partida. Ao longo de todo o jogo, não comentou nem agiu de forma parecida com o incidente que anteveio à partida, nem mesmo quando a partida terminou e o time “Funerária Destino-Final” sagrou-se campeão nos pênaltis (pois o “Caniço” sempre torceu pelo rival). Na hora de despedir-se e agradecer o agradável programa, você não resiste e questiona ao “Caniço”: “Você tem algum problema com o juiz?”. E seu colega, com um sorriso no rosto, responde: “Ah, ele é meu pai e prefeito da cidade. Sempre que ele vai apoiar um jogo, ele pede para eu fazer isso para ajudar as pessoas a lembrar que no campo ele é só um árbitro de futebol”. Nosso colega “Caniço” da historieta nos ilustrou uma característica primordial a qualquer sistema comunica- tivo: a intencionalidade. Segundo autores como Marques e Martino (2015), a comunicação não existe sem intencionalidade; sempre que emitimos algo, fazemos buscando algo. Lelo (2015, p. 112-113) complementarmente destaca que: [a] raiz do termo comunicação, [nos remente a um conjunto de implicações para o entendimento dos processos interacionais: 1) comunicação designa relações onde hajam elementos que se des- tacam de um fundo de isolamento; 2) há a intenção de romper o isolamento; 3) há uma realização em comum. Assim, podemos definir a comunicação como um processo de transmissão de certas informações, carregadas de significado, de um alguém para um outro alguém, por meio de práticas interacionais que utilizam certos símbo- los (consensualmente concebidos). Marques e Martino (2015) destacam que a comunicação, sendo um processo, é constituída por componentes que se articulam para efetivar a emissão e a receptividade de uma dada informação. São eles: (a) fonte; (b) transmissor; (c) canal; (d) receptor; (e) destinatário; e (f) fonte de ruído. Figura 7.7 – Processo de comunicação. Legenda: Elementos da comunicação. Fonte: Ponce Kochani; Casari Boccato; Polsinelli Rubi (2012, p. 260). 126 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 7 - QVT: monitoramento e avaliação Vamos entender um pouco mais cada componente desse processo: 1) Fonte: é quem gera a informação e a mune de significado (transformando-a em mensagem), podendo ser uma pessoa, um processo ou equipamentos. 2) Transmissor: refere-se a um processo ou equipamento que tem o papel de codificar a mensagem gerada e a transmite ao canal. 3) Canal: refere-se à via pela qual a mensagem é transmitida, podendo ser um equipamento ou espaço que liga quem transmite a quem recebe. 4) Receptor: refere-se a um processo ou equipamento que recebe e decodifica (traduz) a mensagem emitida. 5) Destinatário: é quem acolhe/recepciona a mensagem transmitida pela fonte e a decodifica (atribuindo a ela o significado compartilhado). Pode ser uma pessoa, um processo ou um equipamento. 6) Ruído: é caracterizado como perturbações indesejáveis que tendem a alterar, de maneira imprevisível, o pro- cesso de transmissão e recepção da mensagem. Já identificamos uma estrutura para o processo de comunicação; agora, precisamos delinear a dinâmica de fun- cionamento que configura a comunicação à condição de sistema. Na figura que segue, temos um esboço que nos apresenta uma arquitetura de um sistema comunicativo às organizações. Figura 7.8 – Perspectiva Dinâmica do Processo de Comunicação. Legenda: Dinâmica do processo de comunicação. Fonte: Adaptada de Martindale (1991). Mas por que é preciso “contabilizar” o processo comunicacional em Programas de Qualidade de Vida no Traba- lho? 127 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 7 - QVT: monitoramento e avaliação Segundo Tomasi e Medeiros (2007), qualquer processo de implantação organizacional precisa ser transmitido, em seus preceitos, princípios, expectativas e procedimentos, a todos os atores organizacionais envolvidos, sejam eles internos ou externos. Não será diferente com PQVTs, pois será necessária a transmissão de uma imagem que, conforme Nassar e Figueiredo (2007), suscitem e inspirem, em seus destinatários: CREDIBILIDADE - ENVOLVIMENTO - COMPROMETIMENTO Uma ação dessa natureza, como a implantação de um Programa de Qualidade de Vida no Trabalho, tem como objetivo passar a ideia, aos atores envolvidos, de que a organização está imbuída em fortalecer o contexto organizacional, o relacio- namento e o desenvolvimento de todos os stakeholders (sejam eles colaboradores, clientes, fornecedores ou acionistas). Tomasi e Medeiros (2007) destacam que, ao adotar uma sistematização da comunicação, alguns benefícios evidenciam-se: Figura 7.9 – Benefícios da Sistematização do Processo Comunicacional. Legenda: Processo comunicacional. Fonte: Adaptada de Tomasi e Medeiros (2007). Como apontam Guimarães et al. (2008), o sucesso em qualquer ação organizacional, seja um projeto, seja um programa, está na articulação dos indicadores à aplicação deste de forma a subsidiar a efetivação das ações planejadas e empreendidas. Isso fica bastante evidente quando os próprios autores destacam que, desde 2004, a partir de sua terceira edição, o PMBOK – Project Management Body of Knowledge já adotou, em seu conte- údo, o item “Gerenciamento de Comunicações do Projeto”. Stakeholders – Designa, em geral, “as partes interessadas”, os atores organizacionais, direta ou indi- retamente envolvidos com as ações no contexto organizacional; no caso, os interessados em um PQVT (GUIMARÃES et al., 2008). Glossário 128 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 7 - QVT: monitoramento e avaliação É justamente aqui que “amarramos os pontos” (conceitos e conteúdos) trabalhados nesta unidade: na articu- lação entre os indicadores, os sistemas de feedback e os sistemas de comunicação, todos aplicados a PQVTs. Segundo Limongi-França (2003), é o “pulo do gato” para efetivar a implementação de PQVTs, pois será por meio da gestão desses conhecimentos que se consolidarão os resultados alcançados. Ou seja, será por meio da arti- culação engendrada, tendo como base os dados levantados com a utilização dos indicadores construídos, a afe- rição estabelecida pelos sistemas de feedback e a disseminação dessas informações, realizada pelo sistema de comunicação, que os resultados alcançados vão tomando forma, recebendo significados. A autora destaca que, mesmo que o PQVT esteja alinhado com o planejamento estratégico organizacional, as ações do programa em si precisarão ser aperfeiçoadas no dia a dia, com correção de rumos e acompanhamento da dinâmica organizacional. Figura 7.10 – Monitoramento e Avaliação. Legenda: Monitoramento e avaliação do PQVT. Fonte: Adaptada de Limongi-França (2003). PMBOK – Project Management Body of Knowledge – O Guia PMBOK, ou Guia de Gestão de Pro- jetos, é um compilado (Body Knowledge) de práticas para a gestão de projetos. Esse material é desen- volvido pelo PMI – Project Manegement Institute. É considerado, pelos profissionais da área, a “bíblia” da gestão de projetos (GUIMARÃES et al., 2008). Glossário 129 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 7 - QVT: monitoramento e avaliação Ou seja, precisamente a fase de Monitoramento e Avaliação do PQVT. À medida que essa fase vai consolidando- -se, ter-se-á como parâmetro de sua efetivação uma melhor visão dos colaboradores e gestores sobre a identi- dade corporativa (podemos salientar isso como um indicador de referência). A autora destaca ainda que, por ser nessa fase que se oportuniza momentos de correção e ajustes no desdo- bramento do PQVT, evidenciam-se (manifestam-se) também questões sobre a operacionalização da estratégia organizacional em si, bem como o quanto a missão, a visão e os valores organizacionais estão consolidados junto aos atores organizacionais. Reforça-se, assim, a importância aser dada a essa fase e o seu impacto no alcance e na continuidade na vida organizacional. 130 Considerações finais Ao longo desta unidade, tivemos contatos com os seguintes pontos: • INDICADORES: referências quantitativas ou qualitativas que sina- lizam se as atividades do PQVT estão sendo bem executadas, se os objetivos foram ou estão sendo alcançados. Os indicadores podem ser quanto ao processo, quanto ao resultado e quanto ao impacto gerado. • SISTEMAS DE FEEDBACK: mecanismo de monitoramento das atividades (ações) de um programa no qual se baseia na execução de atividades de controle (Feedback Negativo) ou atividades de reforço/estímulo (Feedback Positivo). O foco sempre é o produto, resultado a ser alcançado. • SISTEMAS DE COMUNICAÇÃO: organização do processo de comunicação no contexto organizacional, normalmente vincu- lado a um programa ou projeto, e que estrutura e dinamiza as informações a serem disseminadas, por meio da gestão do conhe- cimento, nas interações desenvolvidas entre os atores organiza- cionais. Referências bibliográficas 131 ALBUQUERQUE, L. G.; FRANÇA, A. C. L. Estratégias de recursos humanos e gestão da qualidade de vida no trabalho: o stress e a expansão do con- ceito de qualidade total. Revista de Administração, v. 33, n. 2, p. 40-51, abr./jun. 1998. COX III, J. F.; SCHLEIER, J. G. Handbook da teoria das restrições. Porto Alegre: Bookman, 2013. DAMKE, E.; DA SILVA, E. D.; WALTER, S. A. Sistemas de controle e alinha- mento estratégico: proposição de indicadores. Revista Eletrônica de Estratégia & Negócios, [S.l.], v. 4, n. 1, p. 65-87, out. 2011. ISSN 1984- 3372. Disponível em: <http://www.portaldeperiodicos.unisul.br/index. php/EeN/article/view/540>. Acesso em: 24 abr. 2017. GUIMARÃES, A. K. G.; FIGUEIREDO, E. J. N.; PEDROSO, F. M. Gerenciamento de stakeholders: um fator crítico para o sucesso em projetos. Mundo Project Management, Rio de Janeiro, v.04, n.024, p. 62-67, dez./jan. 2008/2009. Disponível em: <http://www.mundopm.com.br/destaque- s2Ed24.shtml>. Acesso em: 24 abr. 2017. KRUGLIANSKAS, I.; GIOVANNINI, F. Organização eficaz. São Paulo: Nobel, 2004. LELO, T. V. Figuras do “comum” na comunicação: pensando as interações a partir de suas tensões. In: MARQUES, A.C.S.; MARTINO, M.S. (Org.) Teorias da comunicação: processos, desafios e limites. São Paulo: Plêiade, 2015. LIMONGI-FRANÇA, A. C. Qualidade de vida no trabalho – QVT. Concei- tos e práticas nas empresas da sociedade pós-industrial. São Paulo: Atlas, 2003. MARQUES, A. C. S.; MARTINO, M.S. Um olhar múltiplo sobre as teorias da comunicação. In: MARQUES, A.C.S.; MARTINO, M.S. (org.) Teorias da comunicação: processos, desafios e limites. São Paulo: Plêiade, 2015. 132 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 7 - QVT: monitoramento e avaliação MARTINDALE, C. Cognitive psychology: a neural-network approach. Pacific Grove: Brooks/Cole, 1991. NASSAR, P., FIGUEIREDO, R. O que é comunicação empresarial? São Paulo: Brasiliense, 2007. PONCE KOCHANI, A; CASARI BOCCATO, V.R.; POLSINELLI RUBI, M. Política de indexação para clippings: otimi- zação do tratamento temático em coordenadorias de comunicação social brasileiras. Rev. Interam. Bibliot, Medellín, v. 35, n. 3, p. 257-273, Dec. 2012. Disponível em: <http://www.scielo.org.co/img/revistas/rib/v35n3/ v35n3a2f1.jpg>. Acesso em: 25 abr. 2017. SILVA, E. M. S.; PENEIREIRO, F.M.; STRABELI, J.; CARRAZZA, L.R. Guia de elaboração de pequenos projetos socio- ambientais para organizações de base comunitária. Brasília: Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), 2014. Disponível em: <http://www.ispn.org.br/arquivos/Livro-CAPTA-final-em-baixa.pdf>. Acesso em: 24 abr. 2017. TOMASI, C., MEDEIROS, J.B. Comunicação empresarial. São Paulo: Atlas, 2007. VASCONCELOS, A. F. Qualidade de vida no trabalho> origens, evolução e perspectivas. Cadernos de Pesquisa em Administração, São Paulo, v.9, n.1, janeiro/março, 2001. Disponível em: <http://www.luzimarteixeira.com. br/wp-content/uploads/2009/06/qualidade-de-vida-no-trabalho-origem.pdf>. Acesso em: 24 abr. 2017. 134 8Unidade 8 O Futuro da QVT Para iniciar seus estudos O olhar sobre o fator humano nas organizações por meio dos programas de Qualidade de Vida tem trazido importantes resultados no que se refere à saúde do trabalhador, à melhoria do ambiente de trabalho, ao alcance dos objetivos organizacionais, ao incentivo à produtividade e ao aumento da lucratividade. Ainda assim, pensar o humano requer um olhar sistêmico para o mundo ao nosso redor. Por conta disso, o olhar para a gestão e os programas de QVT busca alcançar novos desafios com vistas ao futuro. Desse modo, as organizações vêm discutindo e implementando progra- mas que reconheçam um novo olhar para o significado do trabalho, o valor da sustentabilidade e, juntamente, a consciência social e ambiental para seus colaboradores – temas muito discutidos atualmente. Com isso, a presente unidade busca responder às seguintes questões: qual o futuro da QVT? Qual a relação entre QVT, sustentabilidade e cons- ciência social e ambiental? Gostou? Aprofunde a leitura e descubra mais sobre esse futuro promissor! Objetivos de Aprendizagem • A mudança da percepção do conceito de trabalho. • Sustentabilidade. • Consciência social, ambiental e qualidade de vida no trabalho. 135 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 8 - O Futuro da QVT 8.1 Trabalho: é possível uma nova concepção? O grande compositor e intérprete Fagner escreveu, em sua música chamada “Um homem também chora” (1983) e interpretada por Gonzaguinha: “e sem o seu trabalho, o homem não tem honra”. Partindo dessa consideração, surgem algumas reflexões importantes: qual o conceito de trabalho e sua importância/impacto? Quais concep- ções o norteiam? Podemos falar em uma nova concepção de trabalho na atualidade? Vejamos! Segundo o minidicionário Aurélio (2009, p. 748), o trabalho é definido como “Aplicação das forças e faculdade humanas para alcançar um determinado fim. Atividade coordenada, de caráter físico ou intelectual, necessária à realização de qualquer tarefa, serviço ou empreendimento”. Com base nisso, percebemos o caráter prático e ativo (físico ou intelectual) para alcançar determinada finalidade. Contudo, o conceito e o significado associados ao trabalho passaram por diversas mudanças ao longo dos anos. Mas por quê? Devemos pensar que as civilizações evoluíram e construíram modos diferenciados de relaciona- rem-se, alimentarem-se, produzirem e conseguirem lucros, não é verdade? Assim, devemos atentar para uma concepção histórica sobre o trabalho, vamos lá! Ao discutir o mundo do trabalho, Borges e Yamamoto (2004, p. 28) esclarecem que se pode falar em trabalho humano desde 8.000 a.C., com os caçadores e coletores vivendo em comunidades; ainda assim, presente tam- bém na “incipiente agricultura no Oriente Médio, China, Índia e norte da África, o trabalho escravo nas civiliza- ções antigas e a relação servil na Idade Média”. Qual o significado de trabalho para você? Na Grécia e em Roma, o trabalho era dividido em duas linhas/ vertentes: intelectual, artístico e político, relegado às elites; e braçal, que era realizado pelos escravos ou povos vencidos. A Revolução Industrial no século XVIII, a invenção da máquina a vapor e outros equipamentos tornaram possível um novo sistema de trabalho, no qual foram substituídos os trabalhos rurais e artesanais pelos referentes às indústrias (ORNELLAS; MONTEIRO, 2006). Ainda assim, Ovejero Bernal (2010) assinala que na Idade Média o conceito de trabalho foi inicialmente tomado como um castigo de Deus e desprezado como nas civilizações gregas. Entretanto, o trabalho ganha uma nova concepção trazida por Santo Agostinho, que o associa às obras e condena o ócio, bem como demonstra apreço aos serviços manuais ea outras atividades, valorizados pelos benefícios conferidos à comunidade. Perceba que o trabalho adquiriu um novo patamar: útil e necessário às pessoas, não é verdade? A respeito desse período, Méda (1998 apud OVEJERO BERNAL, 2010) revela que tal transformação sobre a concepção de trabalho permitiu que várias invenções pudessem ser aperfeiçoadas e que o trabalho foi tomado como uma atividade extremamente valorizada; mais que isso, abriu caminho para evoluções e mudanças futuras. 136 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 8 - O Futuro da QVT Figura 8.1: O trabalho foi visto como um fardo ou castigo. Legenda: O trabalho foi considerado por muitos anos, pelo cristianismo no período Feudal, como um fardo ou castigo, assumindo uma nova concepção: importante e essencial para as pessoas. Fonte: ID da imagem: 50744364. Mas que mudanças são essas? Avançando um pouco mais, o trabalho essencialmente manual e braçal nos cam- pos e nas colheitas da Inglaterra foi substituído pela vida urbana no século XVIII, com o advento da Revolução Industrial: horas intensas de trabalho, uso da força humana com pouco descanso, uso das “dóceis” mulheres e crianças (mais da metade) por serem mais baratos (HOBSBAWM, 2015). Nesse tocante, estamos adentrando no terreno do capitalismo e/ou produção capitalista, o qual estabeleceu a força de trabalho como uma mercadoria; em outras palavras, Borges e Yamamoto (2004, p. 29) assinalam que: [...] a situação socioeconômica existente tornava necessário ao indivíduo, desprovido de tudo, vender seu trabalho e, ao capitalista, adquiri-lo como meio de dar prosseguimento à produção de outras mercadorias, o que, sendo valor de troca, permite crescer seu capital. Nesta realidade se funda a noção de contrato de trabalho, surgindo o trabalho na forma de emprego assalariado. Observe que saímos de uma concepção de trabalho com catadores e coletores de uma comunidade, passando para o trabalho escravo e dividido (intelectual e braçal) e valorizado como fundamental às pessoas, até adentrar- mos uma concepção capitalista de trabalho assalariado. Ainda assim, “o trabalho será percebido como um fator de produção e como a relação contributiva que estabelece o vínculo entre o indivíduo e a sociedade” (OVEJERO BERNAL, 2010, p. 24). Por conseguinte, o trabalho foi ganhando modos de produção que oferecessem eficiência, maior produtividade, lucro e levando em consideração também o fator humano. Dito de outro modo, a administração científica (pri- meira metade do século XX) propôs uma integração entre as necessidades dos empregados e empregadores ao valorizar o trabalho árduo e associá-lo à prosperidade – sendo hierarquizado e subordinado. Ainda assim, por conta do surgimento do capitalismo, o trabalho está presente em nossa vida durante grande parte do tempo, não é verdade? O tempo que passamos nas atividades funcionais variam entre quatro e 12 horas e, mui- tas vezes, elas definem nossas identidades como psicólogos, enfermeiros, auxiliares, assistentes, gestores etc. Por que define nossa identidade? Quando você pega um ônibus, geralmente chama a pessoa que o dirige de moto- rista, não é mesmo? Exatamente porque somos reconhecidos a partir das atividades laborais e das nossas produ- ções. Um professor, por exemplo, ao ser encontrado por ex-alunos, é sempre relembrado como “o professor”. 137 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 8 - O Futuro da QVT Posto nesses termos, reconhecemos que, mais do que a identidade e sua representação no universo social, não podemos deixar de apontar as mudanças econômicas, globais e tecnológicas presentes na atualidade, não é mesmo? Postos de trabalhos, como o cargo de datilógrafo, perderam espaço porque o computador e a internet revolucionaram, dinamizaram e modificaram as relações e a organização do trabalho. Não somente isso, mas essa revolução tecnológica atrelou o trabalho à vida das pessoas de tal forma que muitos não conseguem desligar-se das suas atividades; vez por outra, acessam seus e-mails para verificar contratos, peças etc., não é mesmo? Outras pessoas não necessitam realizar seu trabalho na sede da empresa, o que é chamado de home-office (trabalho em casa) – tutores, gestores, trabalhadores da área de informática, consultores etc. Figura 8.2: A internet e a modalidade home-office de trabalho. Legenda: Com a chegada da internet e a revolução tecnológica, novos postos de empre- gos foram criados, mudando o conceito do significado do trabalho. Fonte: ID da imagem: 42109588 Diante desses novos postos de trabalho, podemos pensar em um novo modo de conceber o trabalho? A resposta é sim! Assim como você percebeu as diferentes formas de conceituar o trabalho ao longo do tempo, as organiza- ções buscaram compreender: quem é esse homem da atualidade? Quais são suas necessidades? O que o motiva a trabalhar? Com isso, Borges e Yamamoto (2004) especificam um novo modelo/conceito baseado na construção da socie- dade do bem-estar. O que isso significa? O olhar sobre o trabalho árduo e duro como referência ao sucesso cede espaço para a promoção do bem-estar social, em busca de melhores relações interpessoais e qualidade de vida no trabalho e fora dele. Você quer se inteirar mais sobre o home-office? Leia a matéria a seguir, que discute a ascen- são, as vantagens e dá dicas de como se dar bem nessa modalidade. Acesse o link: <http:// zh.clicrbs.com.br/rs/vida-e-estilo/empregos-e-carreiras/noticia/2016/12/home-office-e- -uma-opcao-de-trabalho-crescente-no-pais-8677410.html>. Acesso em: 30 maio 2017. 138 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 8 - O Futuro da QVT Conforme você tem aprendido ao longo desta disciplina, é importante observar o fator humano, suas motiva- ções, a relação entre saúde e qualidade de vida no trabalho, analisar as patologias associadas ao desempenho das atividades (estresse, por exemplo). Tudo isso também tem requerido das organizações uma gestão que favoreça o bem-estar dos seus colaborado- res e, consequentemente, melhore sua imagem social e aumente a produtividade em todos os níveis de trabalho – incluindo o home-office. Desse modo, as organizações buscam associar o bem-estar ao prazer em realizar o trabalho. Você deve estar se perguntando: como isso é possível? Sim... é possível! Por isso mesmo, grandes multinacionais têm investido em ambientes de trabalho menos estressores, roupas e sapatos mais leves, atividades ora em casa e ora na organiza- ção etc. Algumas dessas organizações são o Google e o Facebook; no Brasil, a Chili Beans. Não somente isso, mas devemos pensar, como gestores, que não se trata de um conceito que “está no papel”, mas de um modo diferenciado de lidar com os colaboradores, a organização do trabalho, sua relação com a sociedade e maneiras de contribuir socialmente para um mundo melhor. A questão é: de que maneira as organizações podem contribuir socialmente para as necessidades do mundo ao seu redor e melhorar a qualidade de vida? Continue a leitura e entenda como pode ser feito! 8.2 Consciência social e ambiental: qual sua relação com a QVT? Atualmente, nos cenários nacional e internacional, entidades dos mais diversos setores têm debatido a impor- tância e o cuidado com o meio ambiente; numerosas pesquisas revelam os prejuízos causados pela ação do homem e o impacto na saúde e para as futuras gerações. Têm ainda alertado para trabalhos humanitários, cam- panhas diversas voltadas para fome/frio (agasalhos), saúde (doação sangue, por exemplo) e ações de solidarie- dade de modo geral. Com isso, a conscientização a respeito de um outro vem exercendo forte impacto na motivação de diversas pes- soas no que se refere à sua conscientização social e ambiental, inquietando-as com a seguinte pergunta: de que modo eu posso ajudar? E as organizações, qual o seu papel nesse contexto? No ambiente organizacional, o conceito de consciênciasocial e ambiental possui uma forte relação com a responsabilidade social. Você já ouviu falar nesse conceito? Vamos saber do que se trata! Segundo Perseguini (2015, p. 4), a responsabilidade social é: [...] o conjunto de ideias e práticas que fazem parte da estratégia de uma organização (empresa), cujo objetivo é gerar benefícios para todas as partes envolvidas e interessadas na empresa (cha- madas de stakeholders) e evitar prejuízos. Segundo Silva (2013, p. 66), é “a obrigação que a organização tem de agir de maneira que sirva tanto aos interes- ses próprios como aos interesses da sociedade”. Desse modo, ambas as definições têm como pontos em comum um equilíbrio entre a organização e as pessoas envolvidas no negócio: acionistas, colaboradores, sociedade civil, clientes etc. (os stakeholders). 139 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 8 - O Futuro da QVT Uma ótima revista on-line que discute e debate o conceito de Responsabilidade social é o site: Responsabilidadesocial.com. Em formato de revista on-line, apresenta artigos, entre- vistas e atualizações sobre a área. Vale a pena conferir! Acesse o link e aprenda mais sobre o tema: <http://www.responsabilidadesocial.com/>. Quanto à sua história, Perseguini (2015) aponta que, no Reino Unido, o industrial e cientista político Robert Owen (1771-1858) iniciou atividades que privilegiavam o bem-estar dos seus colaboradores, como o combate ao tra- balho infantil, ofertando educação escolar; e a jornada de 10 horas. Ainda assim, aponta Howrad Bowen como pai da responsabilidade social devido à sua influência nos programas posteriores, após a publicação de seu livro em 1953, chamado “As responsabilidades sociais do homem de negócio” (PERSEGUINI, 2015). Perseguini (2015) indica que a expressão “Responsabilidade Social” começou a ser difundida no Brasil em mea- dos dos anos 1990, sendo o Instituto Ethos a referência em ações de responsabilidade social; esta foi desencade- ada por fatores importantes da época, por exemplo: • a conscientização ecológica devido aos desastres ambientais; • o impacto do crescimento tecnológico e científico dos países desenvolvidos no meio ambiente; • a globalização e a diversificação dos mercados de atuação; • a ampliação dos meios de comunicação (devido à internet) e a maior propagação de informações sobre o que estava acontecendo com o mundo e a natureza; • o aumento da opinião pública sobre a responsabilidade ética das organizações quanto ao meio ambiente. Você deve estar imaginando o quanto esses fatores afetaram na produção de modos diferenciados de a orga- nização lidar com os clientes interno, externo e a sociedade como um todo, não é mesmo? Mais que isso, pro- duziram uma conscientização sobre a responsabilidade de cada pessoa quanto à sua atitude frente ao meio ambiente (reciclagem, descarte do lixo, uso da água etc.). E no que tange às organizações, como elas foram afetadas quanto à consciência/responsabilidade social? Uma pesquisa denominada ‘’As Melhores Empresas em Cidadania Corporativa’’, realizada pela Revista Gestão RH, busca conhecer e divulgar as melhores práticas desenvolvidas nas organizações no que se refere à responsabili- dade social, ambiental e à preocupação com o capital humano e o meio no qual ele vive. 140 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 8 - O Futuro da QVT Figura 8.3: A Responsabilidade Social como uma ideia para um mundo melhor. Legenda: A atuação das práticas voltadas para a responsabilidade social reper- cute em ganhos ambientais para todo o planeta com menos danos. Fonte: ID da imagem: 26131149 O impacto dessa avaliação reflete em imagem positiva, perante a sociedade, que a organização revela no que concerne à preocupação com o meio ambiente, a sociedade e seus colaboradores. Para conhecer critérios e métodos por meio dos quais a Revista Gestão RH estabelece sua pesquisa para avaliar as melhores empresas em cidadania corporativa, clique no link: <http://www.gestaoerh.com.br/conteudo/pesquisas/C3e810bd4dc8eb2fda- 4d2415998890e59a8e9e4e.pdf>. Ao tratarmos da responsabilidade social de modo prático, é importante que reconheçamos as ferramentas pelas quais é possível estabelecer estratégias e práticas nessa área. Analise o quadro a seguir, pensando como um gestor: 141 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 8 - O Futuro da QVT Quadro 8.1 - Ferramentas para a Responsabilidade Social. FERRAMENTA ATUAÇÃO A parte da empresa Gerir claramente as ações que envolvem as relações éticas para todos aqueles interessados: governo, sociedade civil etc. Para isso, a organização divide essa atuação em três temas: preservação dos recursos ambientais; respeito à diversidade cultural; redução das desigualdades sociais. O ambiente para a responsabilidade social Conscientização sobre os abusos diante do meio ambiente e o dano causado por uso de materiais que danifiquem o ecossistema e, consequentemente, a vida em sociedade. Ação do educador Promover e consolidar a educação ambiental na própria organização e auxiliar demais setores civis de toda a sociedade (pessoas físicas e jurídicas) sobre o papel, contribuições, danos e possibilidades de auxiliar o meio ambiente por meio de práticas educativas ambientais. Ex.: cartilhas, palestras, treinamentos sobre o uso dos recursos naturais com cautela frente ao desperdício e suas consequências a médio e longo prazos. Legenda: Responsabilidade Social Fonte: Adaptado de Perseguini (2015). Perceba que a responsabilidade social não se resume ao meio ambiente/natureza, mas diz respeito à diversidade e à história dos povos e à desigualdade social e econômica de onde está instalada. Qual a relação desse conceito com a QVT? Você deve imaginar que a preocupação com o meio ambiente, o uso dos recursos ambientais e os danos causa- dos na própria organização refletem imediatamente na qualidade de vida do colaborador: por exemplo, o con- trole de poluentes – caso seja uma indústria. Mais que isso, atua no combate às desigualdades sociais no local onde está estabelecida – oferecendo emprego, contribuindo com escolas, parques e campanhas de combate à fome e ao frio. No tocante à educação ambiental, a organização possibilita que o aprendizado favoreça a conscientização de seus colaboradores para refletir e/ou repensar suas ações diante da comida, uso da água, consumismo etc. Pode ainda estender sua educação ambiental para escolas e centros de educação formais e informais. 142 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 8 - O Futuro da QVT Figura 8.4: Todos por um mundo melhor como parte da educação ambiental. Legenda: A educação ambiental é uma importante ferramenta nas organizações para influenciar e cons- cientizar as pessoas sobre sua responsabilidade no que se refere ao meio ambiente e ao próximo. Fonte: Freepik Com base nessas informações, Limongi-França (2012) faz-nos conhecer as escolas de pensamento em Quali- dade de Vida no Trabalho, assinalando a Escola Socioeconômica, que se fundamenta nos princípios da igualdade social, proteção dos vulneráveis, liberdade com autonomia, entre outros. Apontamos como principais pautas da atuação dessa abordagem a responsabilidade e os projetos sociais, a preservação do meio ambiente e o desen- volvimento sustentável (GIDDENS, 1998). No que tange às questões ambientais, diversos mecanismos de certificação objetivam estimular a responsabi- lidade social nas organizações, sendo oferecidos selos e/ou certificados usados em propagandas e na própria marca da organização por meio de critérios que possibilitem recebê-los. Conheça algumas dessas certificações e suas atribuições: Quadro 8.2 - Selos e qualificações para estimular a Responsabilidade Social nas organizações. SELO/CERTIFICADO SIGNIFICADO/ATUAÇÃO Empresa amiga da criança Disponibilizado para organizações que não fazem uso do trabalho infantile auxiliam na melhoria da qualidade de vida de crianças e adolescentes. Criado pela Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos (Abrinq). ISO 14000 Criada pela Organização Internacional de Normatização (ISO) com a intenção de certificar organizações que atuam com ações ambientais. AA 1000 Possui um cunho social de reconhecimento da organização com os seus principais parceiros (stakeholders). Foi criado pelo Instituto de Responsabilidade Social e Ética em 1996. 143 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 8 - O Futuro da QVT AS 800 Intitulada de Social Accountability 800 (Responsabilidade Social 800), está relacionada às relações trabalhistas: ausência de trabalho infantil, escravo e discriminações. Foi criada pelo Conselho de Prioridades Econômicas da Agência de Credenciamento (CEPAA) em 1997. ABNT-ISO 26000 Conhecida como Norma Internacional ISO 26000 – Diretrizes sobre Responsabilidade Social, estabelece sete princípios norteadores de responsabilidade social, são eles: Accountability (ato de responsabilizar-se); transparência, comportamento ético, respeito pelos interesses das partes envolvidas, respeito pelo Estado de Direito, respeito pelas normas internacionais de comportamento e aos direitos aos humanos. Legenda: Selos e Qualificações. Fonte: Eon (2015). A partir do quadro, você pode perceber que a Responsabilidade Social se efetiva como uma importante ferra- menta nas organizações para a expansão da Qualidade de Vida, não somente de seus colaboradores, mas de todos os envolvidos em suas relações: governo, clientes, fornecedores, comunidade etc. Diante disso, a preocupação com a questão ambiental deve perpassar toda a organização. Nesse contexto, Bar- bieri (2007, p. 153), ao discutir a importância da gestão ambiental e sua responsabilização por todos os setores, pode referir-se ao trabalho que deve ser realizado quanto à responsabilidade social ao assinalar: Em primeiro lugar está o comprometimento com a sua efetivação por parte da alta direção ou dos proprietários, se estes forem os dirigentes. Um alto grau de envolvimento facilita a integração das áreas da empresa e permite a disseminação das preocupações ambientais entre funcionários, fornecedores, prestadores de serviço e clientes. Um bom sistema é aquele que consegue integrar o maior número de partes interessadas para tratar as questões ambientais. O engajamento de toda a organização é essencial para que o trabalho seja eficiente. Além disso, não podemos esquecer que se trata também de reconhecer a responsabilidade social como parte da dimensão apontada no modelo de QVT de Walton, a relevância social na vida do trabalhador – conforme estudado na Unidade 2 –, no qual se reconhece a relevância social como parte importante do trabalho na vida do colaborador (CHIAVENATO, 2010). Quais ações você pode realizar em sua casa, família ou bairro que possa contribuir para um mundo melhor? Quanto a isso, notemos que se trata do engajamento em uma perspectiva individual, em que é prezada uma consciência social/ambiental, e em uma perspectiva organizacional, na qual se percebe uma gestão que prioriza o individual – de cada colaborador – e o geral: stakeholders e o meio ambiente, com vistas ao futuro de todas as gerações seguintes. Ou seja, uma preocupação presente nas práticas que envolvem a QVT em uma perspectiva de presente e futuro. 144 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 8 - O Futuro da QVT Agora que você aprendeu a respeito de uma conscientização social e ambiental, abordaremos um assunto corre- lato: a sustentabilidade. Sabe o que significa? Qual sua importância para as organizações e para a QVT? Prossiga a leitura e descubra as respostas! 8.3 Sustentabilidade e organizações: qual o impacto desta relação? Você já ouviu alguém falar sobre sustentabilidade? Provavelmente sim, não é verdade? O conceito tem sido uti- lizado com frequência no discurso de diversos profissionais: arquitetos, engenheiros, designers de interiores e pelos próprios executivos e gestores. Mas o que significa? Sobre o conceito de sustentabilidade, a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (1988, p. 9), da Organização das Nações Unidas (ONU), declarou ser “a capacidade de satisfazer as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem suas próprias necessidades” Segundo Oliveira et al. (2012), o surgimento do conceito de sustentabilidade está atrelado ao aumento acelerado da capacidade de produção; mais que isso, os autores apresentam alguns eventos importantes: • Em 1968, foi criado o Clube de Roma, com a intenção de discutir assuntos como política, economia, meio ambiente e desenvolvimento sustentável, elaborando, assim, o relatório Limites do Conhecimento (1972). • No ano de 1973, o francês Maurice Strong apresentou o conceito de Ecodesenvolvimento – desenvol- vimento alternativo, separando politicamente os países centrais e os periféricos (em desenvolvimento), alertando para a necessidade de garantia dos periféricos de crescer. • Ainda em 1973, a Declaração de Cocoyok, fruto da reunião da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio-Desenvolvimento (UNCTAD) e do Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas (UNEP), apontou o papel dos países desenvolvidos nas questões de subdesenvolvimento. Por outro lado, Nascimento (2012) aborda o tema da sustentabilidade por duas vias: Biologia/ecologia : “capacidade de recupe- ração e reprodução dos ecossistemas (resiliência) em face de agressões antrópi- cas (uso abusivo dos recursos naturais, desflorestamento, fogo etc.) ou naturais (terremoto, tsunami, fogo etc.)” (NASCIMENTO, 2012, p. 53). Economia: “padrão de produção e consu- mo em expansão no mundo, sobretudo no último quarto desse século, não tem possibilidade de perdurar” (NASCIMENTO, 2012, p. 53). ID da imagem: 50765911 ID da imagem: 28828740 145 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 8 - O Futuro da QVT Com base nos conceitos apresentados, percebemos que o conceito de sustentabilidade está vinculado ao cui- dado e ao planejamento de atividades de produção que levem em consideração o uso dos recursos naturais e os seus efeitos para a humanidade – especificamente porque alguns recursos naturais importantes não são renováveis: a água, por exemplo. Mais que isso, a palavra nos remete à ideia do compromisso que as organizações e os países, de um modo geral, possuem em avaliar e pesar o econômico, as pessoas e o planeta, não somente para o momento atual, mas para as futuras gerações também – sustentando-o. Figura 8.5: A perspectiva de sustentabilidade. Legenda: O conceito de sustentabilidade pressupõe um cuidado com o pla- neta e seus recursos naturais para a nossa e as futuras gerações. Fonte: ID da imagem: 14853028 Agora que você sabe a definição do termo e sua origem, o conceito de sustentabilidade prevê o chamado desen- volvimento sustentável, conceituado por Lenzi (2006) como aquele que satisfaz as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras em satisfazer suas próprias necessidades. A partir desses conceitos, as práticas de sustentabilidade estão baseadas em dimensões importantes: o tripé da Sustentabilidade ou Triple Bottom Line. Veja a imagem a seguir e suas aplicações de acordo com Amato Neto (2015): Triple Bottom Line: O conceito Triple Bottom Line (TBL) originou-se de um estudo realizado em 1994; baseia-se em três linhas que, em português, significam pessoas, planeta e lucro, como bases para a elaboração de estratégias para o alcance da sustentabilidade (OLIVEIRA, 2012). Glossário 146 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 8 - O Futuro da QVT Figura 8.6: Tripé da Sustentabilidade. Legenda: Tripé da sustentabilidade. Fonte: Amato Neto (2015, p. 12). • A dimensão econômica: produção de bense prestação de serviços para geração de lucro, porém, levando em consideração as questões sociais com políticas internas e externas (comunidade, sindicatos etc.) e a luta contra a pobreza e a desigualdade social. • A dimensão da qualidade de vida e trabalho: relaciona-se ao investimento em programas que favore- çam a potencialidade dos colaboradores, promovendo a saúde/proteção e o desenvolvimento de planos de sustentabilidade financeira deles. • A dimensão social: compreende mobilidade urbana, fome, epidemias, educação, reconhecendo valores e crenças das comunidades às quais governo e organizações pertencem como importante meio a ser preservado e difundido. A preocupação da sustentabilidade em promover o desenvolvimento sustentável em níveis micro e macro per- passa as três dimensões supracitadas; mais que isso, envolve diversos setores da sociedade civil para que todos sejam beneficiados; inclusive você, sentado agora, estudando esta disciplina. Conseguiu perceber? Partindo para uma concepção organizacional, a sustentabilidade corporativa deriva do desenvolvimento susten- tável e das três dimensões citadas no Tripé da Sustentabilidade; isso posto, a empresa é sustentável quando gera lucro para os acionistas, ao mesmo tempo em que protege o meio ambiente e melhora a vida das pessoas com as quais interage (SAVITZ; WEBER, 2007 apud BRUNORO, 2013). Assim, Brunoro (2013) acentua que, referente ao trabalho e à sustentabilidade corporativa, algumas organiza- ções criam códigos de condutas respaldadas no conceito do Trabalho Decente da OIT e na Declaração Universal dos Direitos Humanos como forma de prezar pelo bem-estar dos colaboradores, pela ergonomia e pela quali- dade de vida no trabalho. Mais que isso, como princípio da sustentabilidade no ambiente organizacional, as práticas de emprego preveem como importante consideração: 147 Qualidade de Vida no Trabalho | Unidade 8 - O Futuro da QVT Quadro 8.3: Práticas de emprego. Práticas de emprego Companhias consideram empregados como valiosos parceiros no negócio, respeitando seus direitos a práticas justas de trabalho, salários e benefícios competitivos, e um seguro e um ambiente de trabalho “family-friendly” (alvo da sustentabilidade) De fato, companhias que adotam esse princípio reconhecem que a preocupação em investir em empregados está alinhada com os melhores interesses em logo prazo dos empregados, da comunidade e da companhia. Assim, as empresas se esforçam para aumentar e manter altos níveis de satisfação dos empregados e respeitar os padrões internacionais e industriais dos direitos humanos (alvo da sustentabilidade). Legenda: Práticas de emprego. Fonte: Brunoro (2013, p. 86). Perceba que há uma preocupação sobre como a organização do trabalho e as atividades realizadas podem impactar no negócio, na motivação e na saúde dos colaboradores, não é mesmo? Assim, a sustentabilidade está diretamente relacionada com o desenvolvimento sustentável dos seus colaboradores e da própria organização para gerar lucro e apoiar o planeta. A opção por trabalhar com energia limpa, reciclagem e reutilização de materiais descartados ou pela conscien- tização dos colaboradores em realizar tais práticas em suas próprias casas podem ser considerados meios essen- ciais pelos quais se reconhece a sustentabilidade como gerador de lucro e saúde. Por fim, é importante compreender que, além das questões ambientais, a questão ética faz parte do princípio pelo qual as organizações devem primar suas práticas de negócio e produção, projetando o bem-estar das futu- ras gerações e a qualidade de vida dos seus colaboradores – importante aspecto no qual a QVT se baseia como prática atual e futura. O filme/documentário 2012: tempo de mudança, dirigido por João Amorim, realiza uma via- gem de acompanhamento do jornalista americano Daniel Pinchbeck, buscando um equilí- brio entre a sabedoria das tribos e o método científico. É uma ótima indicação para compre- ender melhor a necessidade da sustentabilidade! 148 Considerações finais Chegamos ao término da Unidade de Estudo 8 – O Futuro da QVT! Nesta unidade, aprendemos: • O conceito de trabalho e o modo como este foi reconhecido ao longo dos tempos. • O impacto da tecnologia no conceito e significado do trabalho na atualidade, bem como uma nova concepção de trabalho. • A relação entre o novo conceito de trabalho e a QVT. • Os conceitos de consciência social/ambiental e sua importância para a QVT. • O significado da responsabilidade social e suas ferramentas. • O impacto da responsabilidade social na imagem e nas práticas organizacionais. • Exemplos de selos e certificações/qualificações os quais as organizações recebem por privilegiarem a responsabilidade social. • As práticas de responsabilidade social, por meio da QVT, plane- jam atividades que reconhecem o presente e o futuro. • Conceituação de sustentabilidade e sustentabilidade corpora- tiva, bem como seu histórico e princípios aplicáveis no trabalho. • A importância da ética nos negócios e práticas realizadas nas organizações com vistas ao bem-estar local e geral. • O Tripé da Sustentabilidade e suas dimensões. • O conceito de desenvolvimento sustentável. • A importância da sustentabilidade como prática presente e futura nos programas de QVT. Referências bibliográficas 149 AMATO NETO, João. A era do ecobusiness: criando negócios sustentá- veis. Barueri, DSP: Manole, 2015. BARBIERI, José Carlos. Gestão Ambiental Empresarial: Conceitos, Mode- los e Instrumentos. São Paulo: Saraiva, 2007. BORGES, Lívia de Oliveira; YAMAMOTO, Oswaldo Hajime. O Mundo do Trabalho. In.: ZANELLI, José Carlos; BORGES-ANDRADE, Jairo Eduardo; BASTOS, Antonio Virgílio Bittencourt (Org.). Psicologia, organizações e trabalho no Brasil. Porto Alegre: Artmed Editora, 2004, p.24-62. BRUNORO, Claudio Marcelo et al. Sustentabilidade Corporativa, Respon- sabilidade Social Corporativa e Trabalho: uma abordagem teórica. In.: Marco Antonio Silveira (org.). Inovação para Desenvolvimento de Orga- nizações Sustentáveis: Trabalho, Fatores Psicossociais e Ambiente Sau- dável. – Campinas, SP: CTI (Centro de Tecnologia da Informação “Renato Archer”), 2013, p. 79-100. CHIAVENATO, Idalberto, Gestão de pessoas: o novo papel dos recursos humanos nas organizações. 3. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010. COMISSÃO MUNDIAL SOBRE MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO - CMMAD. Nosso futuro comum. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1988. EON, Fábio. O que é responsabilidade social? Revista Responsabiliade- Social.com, 2015 [on-line]. Disponível em: <http://www.responsabili- dadesocial.com/o-que-e-responsabilidade-social/>. Acesso em: 29 abr. 2017. 150 FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Mini Aurélio: o dicionário da lín- gua portuguesa. 8. ed. Curitiba: Positivo, 2010. GIDDENS, Anthony. A terceira via. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1998. HOBSBAWM, Eric J. A era das revoluções 1789-1848. 35. ed. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 2015. LENZI, Cristiano Luis. Sociologia ambiental: risco e sustentabilidade na modernidade. São Paulo: Anpocs/Edusc, 2006. LIMONGI-FRANÇA. Ana Cristina. Qualidade de vida no trabalho – QVT: conceitos e práticas nas empresas da sociedade pós-industrial. 2. ed. – São Paulo: Atlas, 2012. MORIN, Estelle M. Os sentidos do trabalho. Revista de Administração de Empresas, RAE, v. 41, n. 3, Jul./Set. 2001. NASCIMENTO, Elimar Pinheiro do. Trajetória da sustentabilidade: do ambiental ao social, do social ao econômico. Estudos Avançados, 26 (74), 2012, p. 51-64. OLIVEIRA, Lucas Rebello de et al. Sustentabilidade: da evolução dos con- ceitos à implementação como estratégia nas organizações. Produção, v. 22, n. 1, p. 70-82, jan./fev. 2012. ORNELLAS, Thuê Camargo Ferraz de; MONTEIRO, Maria Inês. Aspectos históricos, culturais e sociais do trabalho.Revista Brasileira de Enfer- magem, 2006 jul-ago; 59(4): 552-5. OVEJERO BERNAL, Anastasio. Psicologia do trabalho em um mundo globalizado: como enfrentar o assédio psicológico e o estresse no traba- lho. Tradução: Juliana dos Santos Padilha. - Porto Alegre: Artmed, 2010. 151 PERSEGUINI, Alayde (Org.). Responsabilidade social. São Paulo: Pearson Education do Brasil, 2015. SILVA, Reinaldo Oliveira. Teorias da administração. 3. ed. São Paulo: Pearson Education do Brasil, 2013.