Prévia do material em texto
MINISTÉRIO DA SAÚDE GRUPO HOSPITALAR CONCEIÇÃO GERÊNCIA DE SAÚDE COMUNITÁRIA Porto Alegre - RS Março de 2017 Hospital Nossa Senhora da Conceição S.A. Atenção à Saúde da Gestante em APS Maria Lucia Medeiros Lenz Rui Flores Organizadores 2ª edição Atenção à Saúde da Gestante em APS Grupo Hospitalar Conceição Diretoria Diretor-Superintendente Adriana Denise Acker Diretor Administrativo e Financeiro Ibanez Ferreira Filter Diretor Técnico Mauro Fett Sparta de Souza Gerente do Serviço de Saúde Comunitária Lândia Maria Araújo Cunha Coordenador do Serviço de Saúde Comunitária Simone Faoro Bertoni Apoio Técnico em Monitoramento e Avaliação de Ações de Saúde Rui Flores MINISTÉRIO DA SAÚDE GRUPO HOSPITALAR CONCEIÇÃO GERÊNCIA DE SAÚDE COMUNITÁRIA Porto Alegre - RS Março de 2017 Hospital Nossa Senhora da Conceição S.A. Atenção à Saúde da Gestante em APS Maria Lucia Medeiros Lenz Rui Flores Organizadores 2ª edição Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) B823a Brasil. Ministério da Saúde. Grupo Hospitalar Conceição. Gerência de Saúde Comunitária Atenção à saúde da gestante em APS / organização de Maria Lucia Medeiros Lenz, Rui Flores. – 2.ed. – Porto Alegre: Hospital Nossa Senhora da Conceição, 2017. 302 p.: il.: 30 cm. ISBN 978-85-61979-29-4 1.Medicina de família e comunidade. 2.Atenção primária em saúde. 3.Saúde da gestante. I.Lenz, Maria Lucia Medeiros. II.Flores, Rui. III.Título CDU 616-055.5/.7:618.2-082 Catalogação elaborada por Luciane Berto Benedetti, CRB 10/1458. Todos os direitos reservados. É permitida a reprodução parcial ou total desta obra, desde que citada a fonte e que não seja para venda ou qualquer fim comercial. A responsabilidade pelos direitos autorais de textos e imagens desta obra é de responsabilidade dos autores de cada um dos capítulos. O livro poderá ser acessado na integra na página do Grupo Hospitalar Conceição (Ensino e Pesquisa, Gerência de Ensino e Pesquisa, Publicações, http://escola.ghc.com.br/index.php/2013-06-05-18- 36-26). Agradecimentos Agradecemos às gestantes, seus bebês e suas famílias, que nos escolhem como profissionais para cuidar de sua saúde e representam a principal motivação para a realização de nosso trabalho. Aos colegas do Serviço de Saúde Comunitária, em especial àqueles que participam ativamente do monitoramento e avaliação da atenção à saúde da gestante em seu território. Aos demais colegas do Grupo Hospitalar Conceição, responsáveis pelos segundo e terceiro níveis de atenção e sempre dispostos a fortalecer a rede de atenção à saúde, em especial ao Dr Marcelo Ivo Campagnolo, médico ginecologista e obstetra do Ambulatório de Alto Risco do HNSC. A bibliotecária Luciane Benedetti que continua sendo uma grande parceria. Dedicatória Ciência e caridade (1897) de Pablo Picasso Dedicamos nossa Linha-guia de Atenção à Saúde da Gestante em APS (2a Edição) ao Dr Sergio Moreira Espinosa, grande colega e amigo, falecido abruptamente em maio de 2014. Espinosa foi preceptor do Programa de Residência Médica em Ginecologia e Obstetrícia do HNSC e, por vários anos, recebeu, sempre com muito apreço, os residentes do Programa de Medicina de Família e Comunidade do SSC. Entusiasmado e competente profissional, foi Fundador do Setor de Gravidez de Alto risco e Medicina Fetal no HNSC, responsável pelo Setor de ultrassonografia do Serviço de Ginecologia e Obstetrícia do HNSC e coordenador do Programa de Planejamento Familiar. Exigente e afetuoso. Adorava ensinar. Gostava muito de aprender. Nas edições anteriores de nossas Linhas-guia de Atenção à Saúde da Gestante participou como revisor atento e meticuloso. Durante nossos encontros pelo hospital, que nunca se restringiam a assuntos de trabalho, trocávamos ideias sobre a vida em família, a saída de casa dos filhos, a chegada dos netos, sobre arte, lazer e, principalmente, sobre viagens. Adorava palpitar nos roteiros. Motivou-me a conhecer a inesquecível Collioure. “E quando chegares a Barcelona e entrares no Museu Picasso, logo a tua direita, verás o quadro mais lindo do Museu e que mais me emocionou”. Segui(mos) seus passos. Tal como a tela, assim era ele: ciência e caridade. Maria Lucia Medeiros Lenz Organizadores Maria Lucia Medeiros Lenz Rui Flores Revisão Bibliográfica e Ficha Catalográfica Luciane Benedetti Autores Agente Comunitária de Saúde Ana Lúcia da Costa Maciel (Apoio à Gerência SSC) Assistentes Sociais Agda Henk (US Coinma) Edelves Vieira Rodrigues (Escola GHC) Marina Lemos (Residente RIS/GHC) Enfermeiras Lisiane Andreia Devinar Périco (US Divina Providência) Lisete Maria Ambrosi (Coordenadora da Linha Mãe- Bebê do HNSC) Farmacêuticas Elineide Gomes dos S. Camillo (Apoio Matricial Farmácia SSC) Jaqueline Misturini(Apoio Matricial Farmácia SSC) Médicos de Família e Comunidade Camila Giugliani (Professora do DMS/FAMED/UFRGS) Carmen L. C. Fernandes (US Barão de Bagé) Daniela Montano Wilhelms (Monitoramento & Avaliação) Felipe Anselmi Corrêa (US Santíssima Trindade) José Mauro Ceratti Lopes (US Conceição) Lêda Chaves Dias (US Coinma) Lucas Wollmann (US Sesc) Lúcia Naomi Takimi (Secretaria Municipal de Sapucaia do Sul) Margarita Silva Diercks (CEPAPS/SSC) Maria Lucia Medeiros Lenz (Monitoramento & Avaliação) Martha Farias Collares (US Barão de Bagé) Raul Miguel Alles (US Costa e Silva) Renata Pekelman (Escola GHC) Rodrigo Caprio Leite de Castro (US Jardim Itu e Professor do DMS/FAMED/UFRGS) Rosane Glasenapp (US Santíssima Trindade Rui Flores (Monitoramento & Avaliação) Médico Infectologista Breno Riegel Santos (HNSC) Médica Obstetra Denise Gomes Cidade (Hospital Materno Infantil de Brasília e Professora da ESCS/DF) Nutricionistas Bruna Franzoni(Apoio Matricial Nutrição SSC) Lena Azeredo de Lima (Apoio Matricial Nutrição SSC) Natália Miranda Jung (Apoio Matricial Nutrição SSC) Renata Escobar Coutinho (Apoio Matricial Nutrição SSC) Odontólogas Ananyr Porto Fajardo (Escola GHC) Caroline Machado Weber (Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre) Daniel Demétrio Faustino-Silva (US Sesc) Maria Helena Zanella (Apoio à Gerência SSC) Mariana Loch dos Reis (US Floresta) Psicólogas Gisele Milman Cervo (US Sesc) Maria Amália Machado Silveita (US Conceição) Paula Xavier Machado (US Jardim Itu) Apresentação Apresentamos a 2ª edição da Atenção à Saúde da Gestante em Atenção Primária à Saúde (APS). Trata-se da atualização da 1ª edição publicada, em2011, resultado de revisão, atualização e ampliação de recomendações escritas por profissionais do Serviço de Saúde Comunitária em 2001, 2006 e 2008. O período de gestação, parto e puerpério envolve grandes mudanças e requer uma adaptação à chegada do novo membro à família, constituindo-se, assim, momento de maior vulnerabilidade e, ao mesmo tempo, propício para o desenvolvimento de ações preventivas e de promoção à saúde a serem realizadas por profissionais da APS. Atualizamos estas recomendações de boas práticas baseados na nossa vivência em APS, nas melhores evidências científicas disponíveis e nos depoimentos de mães, gestantes e familiares. Contamos também com a colaboração de colegas dos níveis secundário e terciário da atenção do Grupo Hospitalar Conceição (GHC) e de outros serviços. No entanto, trata-se de um conjunto de recomendações em que não são contempladas todas as situações clínicas, cenários de prática ou, ainda, características e valores dos usuários. Sendo assim, a finalidade deste material não é substituir o julgamento de cada profissional ou, menor ainda, a individualidade de cada pessoa assistida, durante a decisão do cuidado mais adequado. Em todo o processo de revisão, procuramos integrar os diferentes olhares das diversas categorias profissionais, objetivando o estímulo para a adoção de uma abordagem integral e qualificada para as gestantes e suas famílias. Maria Lucia Medeiros Lenz Rui Flores Sumário 1. O ACOMPANHAMENTO PRÉ-NATAL NO SERVIÇO DE SAÚDE COMUNITÁRIA DO GRUPO HOSPITALAR CONCEIÇÃO.....................................................................17 1.1 A atenção pré-natal no Serviço de Saúde Comunitária ....................................................................... 17 1.2 Gestantes em situação de rua ............................................................................................................. 18 1.3 Indicadores de avaliação da atenção pré-natal no SSC...................................................................... 19 2. A CONSULTA PRÉ-CONCEPCIONAL DO CASAL ..................................................23 2.1 Recomendações específicas para a mulher ........................................................................................ 23 2.2 Recomendações específicas para o homem ....................................................................................... 28 2.3 Recomendações ao casal que deseja gestar ...................................................................................... 30 2.4 Situações especiais.............................................................................................................................. 31 3. ABORDAGEM DA GESTANTE, DIAGNÓSTICO DE GESTAÇÃO, ANAMNESE E ORIENTAÇÕES ............................................................................................................35 3.1 Abordagem da gestante ....................................................................................................................... 35 3.2 Diagnóstico de gestação ...................................................................................................................... 36 3.3 Expectativas em relação à gestação.................................................................................................... 37 3.4 Anamnese da gestante......................................................................................................................... 38 3.5 Orientações às gestantes..................................................................................................................... 39 4. ASPECTOS PSICOAFETIVOS NA GESTAÇÃO ......................................................47 4.1 Introdução............................................................................................................................................. 47 4.2 Aspectos psicoafetivos presentes na gestação, no parto e no puerpério............................................ 47 4.3 Gravidez na Adolescência.................................................................................................................... 51 4.4 Identificação de sinais e sintomas de sofrimento psíquico na gestação ............................................. 52 4.5 Rede de Saúde Mental......................................................................................................................... 56 4.6 Considerações finais ............................................................................................................................ 56 5. O EXAME FÍSICO DA GESTANTE ...........................................................................59 5.1 Exame físico na primeira consulta de pré-natal ................................................................................... 59 5.2 Descrição detalhada de alguns aspectos do exame físico .................................................................. 59 5.3 Propedêutica fetal................................................................................................................................. 67 6. SOLICITAR E AVALIAR EXAMES COMPLEMENTARES ........................................71 6.1 Hemograma.......................................................................................................................................... 71 6.2 Tipagem sanguínea, fator RhD e Coombs........................................................................................... 72 6.3 Eletroforese de hemoglobina ............................................................................................................... 73 6.4 Glicemia de jejum e teste de tolerância à glicose ................................................................................ 73 6.5 Exame qualitativo de urina (EQU, Uroanálise ou Urina Tipo 1) e Urocultura com antibiograma ....... 77 6.6 IgG e IgM para toxoplasmose .............................................................................................................. 79 6.7 Teste rápido para sífilis e VDRL........................................................................................................... 82 6.8 Teste rápido para HIV ou sorologia (anti-HIV I e II) ............................................................................. 84 6.9 Teste rápido para Hepatite B e sorologia............................................................................................. 85 6.10 Sorologia para rubéola ....................................................................................................................... 86 6.11 Ecografia obstétrica e morfológica ..................................................................................................... 86 6.12 Outros exames ................................................................................................................................... 87 6.13 Exames complementares a serem solicitados para o parceiro.......................................................... 91 6.14 Quadro resumo dos exames complementares, avaliação e conduta ................................................ 92 7. IMUNIZAÇÃO NA PRÉ-CONCEPÇÃO, GESTAÇÃO E PUERPÉRIO NO ACOMPANHAMENTO PRÉ-NATAL DE BAIXO RISCO............................................... 99 7.1 Recomendações gerais ........................................................................................................................ 99 7.2 Vacinas recomendadas para mulheres em idade fértil, gestantes e puérperas pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Ministério da Saúde – Brasil ............................................................. 101 7.3 Vacinas recomendadas para gestantes pela Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) ............ 105 7.4 Recomendações do Centers for Disease Control and Prevention (CDC) ......................................... 1087.5 Classificação do uso das vacinas durante a gestação pelo U.S. Food and Drug Administration (FDA) .................................................................................................................................................................. 110 7.6 Viagem durante a gestação e necessidade de imunização............................................................... 111 7.7 Imunização passiva durante a gravidez ............................................................................................. 111 7.8 Rastreio pré-natal de doenças imunopreveníveis .............................................................................. 111 7.9 A vigilância sobre a condição de vacinação dos contatos da gestante ............................................. 112 7.10 A vacinação de mulheres que estão amamentando ........................................................................ 112 8. NUTRIÇÃO NA GESTAÇÃO E PUERPÉRIO......................................................... 115 8.1 Avaliação nutricional da gestante....................................................................................................... 115 8.2 Recomendações nutricionais na gestação......................................................................................... 119 8.3 Orientações alimentares em situações comuns na gestação............................................................ 124 8.4 Orientações alimentares em situações especiais na gestação ......................................................... 128 8.5 A alimentação adequada e a prevenção de Diabetes Mellitus Gestacional ..................................... 130 8.6 ALIMENTAÇÃO DA NUTRIZ.............................................................................................................. 131 9. SAÚDE BUCAL NA GESTANTE ............................................................................ 139 9.1 Acompanhamento clínico da gestante pela Equipe de Saúde Bucal no SSC ................................... 139 9.2 Educação em saúde individual e coletiva na saúde bucal ................................................................. 147 9.3 Orientações sugeridas à equipe de saúde para serem fornecidas à gestante.................................. 149 10. MEDICAMENTOS NA GESTAÇÃO E PUERPÉRIO ............................................ 155 11. DIREITOS SOCIAIS RELACIONADOS À GESTAÇÃO........................................ 161 11.1 Direitos sociais.................................................................................................................................. 161 11.2 Gestantes vítimas de violência......................................................................................................... 162 11.3 Gestantes em vulnerabilidade social................................................................................................ 163 11.4 Direitos trabalhistas das gestantes e puérperas .............................................................................. 163 12. O TABAGISMO E A GESTAÇÃO ......................................................................... 169 12.1 Introdução......................................................................................................................................... 169 12.2 O tabagismo passivo ........................................................................................................................ 170 12.3 O tabagismo na mulher .................................................................................................................... 172 12.4 O tabagismo na gestação................................................................................................................. 175 12.5 Tratamento do tabagismo nas gestantes ......................................................................................... 181 12.6 Tratamento farmacológico na amamentação................................................................................... 188 12.7 Recaída ............................................................................................................................................ 188 12.8 Sumário e Recomendações (RODRIGUEZ-THOMPSON, 2016) .................................................... 189 12.9 Considerações finais ........................................................................................................................ 190 13. DIAGNÓSTICO E MANEJO DE INTERCORRÊNCIAS CLÍNICAS MAIS FREQUENTES............................................................................................................195 13.1 Náuseas, vômitos e hiperêmese ...................................................................................................... 195 13.2 Constipação e hemorróidas ............................................................................................................. 196 13.3 Azia................................................................................................................................................... 196 13.4 Síndrome do corrimento vaginal ...................................................................................................... 196 13.5 Condiloma ........................................................................................................................................ 197 13.6 Sífilis ................................................................................................................................................. 197 13.7 Gonorréia e Clamídia ....................................................................................................................... 198 13.8 Herpes simples................................................................................................................................. 198 13.9 Síndromes hemorrágicas ................................................................................................................. 199 13.10 Distúrbios hipertensivas que complicam a gestação ..................................................................... 200 13.11 Diabetes mellitus na gestação ....................................................................................................... 201 13.12 Infecção do tracto urinário (ITU)..................................................................................................... 202 13.13 Trabalho de Parto Prematuro (TPP) .............................................................................................. 203 13.14 Gestação prolongada ..................................................................................................................... 204 13.15 Ruptura prematura de membranas ................................................................................................ 205 13.16 Asma .............................................................................................................................................. 205 13.17 Anemia ........................................................................................................................................... 205 14. FATORES DE RISCO GESTACIONAL E SERVIÇOS DE REFERÊNCIA NO GHC DE ATENÇÃO À SAÚDE DA GESTANTE E DO FETO ..............................................209 14.1 Fatores de risco indicativos de realização do pré-natal em serviços de APS ................................. 209 14.2 Fatores de risco indicativos de encaminhamento ao pré-natal de alto risco ................................... 211 14.3 Fatores de risco indicativos de encaminhamento à urgência/emergência obstétrica. .................... 212 14.4 Serviços de referência para atenção à saúde da gestante e do feto no Hospital Nossa Senhora da Conceição................................................................................................................................................. 213 15. ABORDAGEM FAMILIAR PERINATAL.................................................................21915.1 Aspectos Gerais da Consulta com a Família da Gestante .............................................................. 219 15.2 Intervenções dirigidas às diversas fases do pré-natal e pós-parto.................................................. 221 15.3 Intervenções dirigidas às diversas fases do pré-natal e pós-parto às gestantes e puérperas com sistemas familiares não tradicionais e/ou modificados ............................................................................ 223 16. ATIVIDADES COLETIVAS DE EDUCAÇÃO E SAÚDE NA GESTAÇÃO..............225 16.1 A importância das atividades coletivas com gestantes.................................................................... 225 16.2 Tipos de atividades coletivas com gestantes................................................................................... 226 16.3 Organizando as atividades coletivas................................................................................................ 229 17. O ACOMPANHAMENTO PRÉ-NATAL E O AGENTE COMUNITÁRIO DE SAÚDE (ACS)...........................................................................................................................235 17.1 Identificação de gestantes na comunidade...................................................................................... 235 17.2 Acompanhar as gestantes para um adequado pré-natal ................................................................. 235 17.3 A visita domiciliar à gestante e sua família ...................................................................................... 236 17.4 A visita no puerpério......................................................................................................................... 238 18. ATENÇÃO À GESTANTE NO PERÍODO PERINATAL: A HUMANIZAÇÃO DO PARTO E DO NASCIMENTO......................................................................................239 18.1 Introdução......................................................................................................................................... 239 18.2 A humanização do parto e do nascimento: conceitos iniciais.......................................................... 241 18.3 A Política Nacional de Humanização (PNH): a base para a humanização do parto e do nascimento .................................................................................................................................................................. 241 18.4 A humanização do parto e do nascimento traduzida em Leis e Portarias ....................................... 242 18.5 Boas práticas de atenção ao parto e ao nascimento ....................................................................... 244 18.6 Parto Cesáreo: indicador da avaliação do modelo de atenção ao parto ......................................... 247 18.7 Satisfação com o parto..................................................................................................................... 249 18.8 A humanização do parto e do nascimento no Grupo Hospitalar Conceição.................................... 250 18.9 Considerações finais ........................................................................................................................ 251 19. A CONSULTA NO PUERPÉRIO........................................................................... 255 19.1 Escutar com empatia ........................................................................................................................ 255 19.2 Identificar sentimentos e dificuldades............................................................................................... 256 19.3 Avaliar condições clínicas e ginecológicas ...................................................................................... 257 19.4 Orientar a puérpera .......................................................................................................................... 258 19.5 Orientar método anticoncepcional.................................................................................................... 259 19.6 Identificar sinais de alerta e intercorrências no puerpério................................................................ 261 19.7 Orientar amamentação..................................................................................................................... 263 20. SITUAÇÕES ENVOLVENDO ABORTAMENTO................................................... 267 20.1 Definição e classificação de aborto .................................................................................................. 268 20.2 História clínica .................................................................................................................................. 271 20.3 Fatores de risco associados a aborto espontâneo........................................................................... 273 20.4 Condutas frente às situações de abortamento................................................................................. 274 20.5 Planejamento familiar pós-abortamento........................................................................................... 278 20.6 Aspectos de saúde mental em relação ao abortamento.................................................................. 280 20.7 Aspectos legais sobre abortamento no Brasil .................................................................................. 281 21. ANEXOS............................................................................................................... 285 O acompanhamento pré-natal no Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 17 1. O ACOMPANHAMENTO PRÉ-NATAL NO SERVIÇO DE SAÚDE COMUNITÁRIA DO GRUPO HOSPITALAR CONCEIÇÃO Maria Lucia Medeiros Lenz Rui Flores “Minha gravidez foi ótima, não tive nenhum problema, mas mesmo assim eu acho muito importante consultar todo o mês (no mínimo uma vez por mês), traz mais segurança para a gente”. Gestante moradora do território de atuação do SSC 1.1 A atenção pré-natal no Serviço de Saúde Comunitária A atenção pré-natal de baixo risco, realizada no Serviço de Saúde Comunitária (SSC) em conjunto por médico de família e enfermeiro, refere-se às consultas ou visitas programadas da mulher gestante e seu parceiro, complementadas com o cuidado dos demais profissionais de saúde da equipe, sempre que necessário. O objetivo da assistência pré-natal é assegurar o nascimento de um bebê saudável com um mínimo de risco para a mãe. Os seguintes itens são propostos em busca desses objetivos: estimar uma idade gestacional precisa, identificar situações de risco associadas a complicações, avaliar continuamente o estado de saúde da mãe e do feto, orientar preventiva e antecipadamente e rastrear problemas de saúde de maneira a evitar ou minimizar morbidade (LOCKWOOD; MAGRIPLES, 2016). No território de atuação do SSC do Grupo Hospitalar Conceição (GHC) nascem aproximadamente 1.000 crianças a cada ano e as consultas de pré-natal e de puericultura encontram-se entre os vinte principais motivos de consulta em nossas Unidades de Saúde (BRASIL. Ministério da Saúde. Grupo Hospitalar Conceição. Gerência de Saúde Comunitária, 2016). Sendo assim, a atenção à saúde da gestante e criança continuam sendo ações prioritárias no SSC, que como serviço de Atenção Primária à Saúde (APS), é porta de entrada de um sistema de saúde e caracteriza-se pela integralidade do cuidado, coordenação das diversas necessidades de saúde e continuidade da atenção (STARFIELD, 2002). Altas coberturas de pré-natal, obtidas nos últimos anos (BRASIL. Ministério da Saúde. Grupo Hospitalar Conceição. Gerência de Saúde Comunitária, 2016), levam os serviços de APS a se preocuparem fundamentalmente com a qualidade do acompanhamento a gestante (VICTORA; CESAR, 2003). A atenção qualificadadepende da provisão de recursos e da organização de rotinas com ações comprovadamente benéficas, evitando-se intervenções desnecessárias e estabelecendo-se relações de confiança entre as famílias e a equipe e autonomia da gestante. Considera-se uma atenção pré-natal de qualidade aquela com início precoce, periódica, completa e com ampla cobertura. O início do acompanhamento no primeiro trimestre da gestação permite a realização oportuna de ações preventivas, de diagnósticos mais precoces e de ações de promoção à saúde. Além disso, possibilita a identificação no momento oportuno de situações de alto risco que envolvem encaminhamentos para outros pontos da atenção, permitindo melhor planejamento do cuidado (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016). Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 18 A periodicidade do pré-natal deve ser adequada a cada gestante em particular, ou seja, as gestantes em situações de maior risco, precisam ser acompanhadas mais de perto. Mulheres sem pré- natal apresentam maiores riscos, tais como prematuridade, natimortalidade, mortalidade materna (CUNNINGHAM et al, 2016). O número de consultas, assim como a forma de agendamento devem ser pactuados com a gestante. O Ministério da Saúde (MS) preconiza um número mínimo de 6 consultas de pré-natal (consultas médicas intercaladas com consultas de enfermagem) e que devem acontecer com periodicidade mensal até a 28ª semana, quinzenal da 28ª até a 36ª semana e semanal da 36ª a 41ª semana. Essa periodicidade é a recomendada de forma tradicional, embora alguns estudos tenham evidenciado que, para gestantes sem riscos gestacionais, um número reduzido de consultas pode ser proposto (CUNNINGHAM et al, 2016). A gestante também deve ser encaminhada para consulta com a equipe de saúde bucal, de preferência no segundo trimestre. Assim, no SSC, as ações consideradas como fundamentais no acompanhamento pré-natal - que serão desenvolvidas detalhadamente nos próximos capítulos dessa Rotina de Atenção - são as seguintes: aconselhar o casal durante o período pré-concepcional; diagnosticar a gestação; procurar estabelecer vínculos, escutar, orientar e esclarecer dúvidas; orientar uma alimentação saudável e controlar o ganho de peso; atentar para o uso de medicamentos e tabagismo na gestação; realizar exame físico; solicitar e avaliar exames complementares; prescrever suplementação e orientar vacinação; diagnosticar e manejar intercorrências clínicas mais frequentes; encaminhar a gestante para atendimento odontológico; orientar direitos sociais e de apoio à gestante; identificar fatores de risco e referenciar ao pré-natal de alto-risco, quando necessário; conhecer os diferentes recursos disponíveis de atenção à gestante no GHC; realizar uma abordagem familiar adequada; realizar atividades de educação e saúde e visitas domiciliares; orientar sobre o período perinatal; realizar abordagem adequada das situações que envolvem abortamento e prover cuidados de puerpério. Um guia resumo das principais recomendações estará disponível em cada sala de atendimento (Anexo 1) com o objetivo de auxiliar os profissionais para uma consulta mais imediata. Priorizamos ações de promoção e prevenção à saúde que são realizadas por um grupo de profissionais com formações diversas e que atuam de forma integrada, sendo assim, privilegiados na realização de um pré-natal qualificado. Além disso, a gestação é um momento especial para a formação e o fortalecimento de vínculos entre equipe e família, entre diferentes famílias da comunidade e, principalmente, do vínculo entre os pais e o futuro bebê, condição fundamental para o desenvolvimento saudável de qualquer criança. 1.2 Gestantes em situação de rua A Gerência de Saúde Comunitária conta com uma equipe de Consultório na Rua atenta às mulheres com suspeita de gestação. São oferecidos exames tais como: teste rápido de gestação, teste rápido de HIV e teste rápido de VDRL. Uma vez gestante e HIV positiva será levada diretamente a Unidade de Prevenção e Transmissão Vertical (UPTV). Se gestante e considerada moradora do território do SSC (sem endereço fixo, mas circula e/ou mora na área de atuação da Unidade de Saúde) será levada à US. A consulta deverá acontecer no mesmo dia ou agendada prontamente para a data mais próxima. Será feito um número de registro no GHC e aberto um prontuário na US (sem número, apenas O acompanhamento pré-natal no Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 19 “Consultório na Rua”, com identificação dos contatos da equipe do Consultório na Rua). As consultas de pré-natal serão realizadas conforme rotina do SSC. A gestante (ou puérpera) deverá sair da consulta com a próxima agendada, sendo esse agendamento para a US ou no Serviço de Pré-natal de alto risco. Caso a gestante não tenha comparecido à reconsulta na US, a Equipe do Consultório na Rua deverá ser informada para que possa realizar busca ativa. 1.3 Indicadores de avaliação da atenção pré-natal no SSC Ações de saúde e seus resultados são avaliados com o objetivo de monitorar o progresso junto às metas, motivar todos os envolvidos no processo (população e profissionais), descobrir oportunidades para melhorar continuamente a qualidade da atenção e otimizar recursos (UNITED STATES. Departament of Health and Human Services. Centers for Disease Control and Prevention, 2011). Para que seja possível avaliar estas ações, um sistema de informação, quer seja de prontuário individual, de família ou informações contidas em boletins de atendimento, se faz necessário. Através dele podemos identificar, por exemplo, se as gestantes do nosso território fazem pré-natal, se iniciam precocemente esse acompanhamento e se as recomendações mínimas preconizadas estão sendo seguidas. Os indicadores de processo e resultado utilizados para avaliar a atenção pré-natal no Serviço de Saúde Comunitária e o sistema de informação específico da atenção à saúde da gestante no SSC permitem um monitoramento, ou seja, analisar continuamente os indicadores obtidos (BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância Epidemiológica, 2009) e uma avaliação, que consiste fundamentalmente em fazer um julgamento de valor a respeito de uma intervenção para ajudar na tomada de decisões (CONTANDRIOPOULOS et al, 1997 apud BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância Epidemiológica, 2009). Lembramos que existem dois tipos de informação referentes à gestante: as que são registradas no prontuário, em formulário específico de pré-natal (Anexo 2) e no cartão da gestante, que irão auxiliar o profissional que realiza o pré-natal na continuidade do acompanhamento e, as que são registradas no boletim de atendimento, permitindo uma melhor vigilância à saúde das gestantes no que diz respeito à cobertura e qualidade do pré-natal oferecido. Os resultados são sistematicamente divulgados às equipes e coordenação do SSC através de um relatório mensal, que consiste numa versão mais simplificada e contém apenas os principais indicadores e, um relatório anual, que contempla todos os resultados encontrados e de diferentes fontes, quer sejam do SSC, GHC ou provenientes da Secretaria Municipal de Saúde. 1.3.1 Indicadores de processo1 • Educação permanente dos profissionais (mínimo de uma atualização/ano em pré-natal); • Distribuição de rotina de pré-natal atualizada aos profissionais do SSC (atualização e distribuição da rotina a cada 2 anos); • Cobertura de pré-natal (meta de 95% das gestantes do território); Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 20 • Índice de Kessner modificado (TAKEDA, 1993) adequado (meta de 89% de pré-nataladequado); • Percentual de gestantes que consultaram com o dentista (meta de 86% das gestantes em pré-natal nas US do SSC) 1.3.2 Indicadores de resultado e impacto • Coeficiente de incidência de sífilis congênita a cada 1.000 nascidos vivos (meta de até 1:1000 nascidos vivos); • Proporção de RN vivos de baixo peso em relação ao total de RN vivos (admite-se um percentual de 10%); • Proporção de RN vivos prematuros em relação ao total de RN vivos (admite-se um percentual de 10%); • Coeficiente de Mortalidade Infantil(inferior a 10 óbitos em 1.000 nascidos vivos). Referências BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolos da atenção básica: saúde das mulheres. Brasília, DF: Ed. Ministério da Saúde, 2016. Disponível em: <http://189.28.128.100/dab/docs/portaldab/publicacoes/protocolo_saude_mulher.pdf> Acesso em: 8 ago. 2016. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância Epidemiológica. Hanseníase: monitoramento e avaliação: manual de capacitação em monitoramento e avaliação. Brasília, DF: Ed. Ministério da Saúde, 2009. BRASIL. Ministério da Saúde. Grupo Hospitalar Conceição. Gerência de Saúde Comunitária. Apoio Técnico em Monitoramento e Avaliação. Sistema de Informações em Saúde do Serviço de Saúde Comunitária (SIS-SSC/GHC). Boletim Informativo Mensal, jul. 2016. mímeo. contato: frui@ghc.com.br, mlenz@ghc.com.br CUNNINGHAM F. G. et al. Obstetrícia de Willians. 24. ed. Porto Alegre: AMGH, 2016. LOCKWOOD, C. J.; MAGRIPLES, U. Initial prenatal assessment and first-trimester prenatal care. UpToDate, 2016. Disponível em: <http://www.uptodate.com/contents/initial-prenatal-assessment-and- first-trimester-prenatal-care?source=see_link§ionName=Airline+travel&anchor=H28#H28>. Acesso em: 9 ago. 2016. STARFIELD, B. Atenção primária: equilíbrio entre necessidades de saúde, serviços e tecnologia. Brasília, DF: Unesco, 2002. TAKEDA, S. M. P. Avaliação da Unidade de Atenção Primária: modificação dos indicadores de saúde e qualificação da atenção. 1993. Dissertação (Mestrado)-Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, 1993. UNITED STATES. Departament of Health and Human Services. Centers for Disease Control and Prevention. Office of the Director, Office of Strategy and Innovation. Introduction to program evaluation for public health programs: a self-study guide. Atlanta, GA: Centers for Disease Control and Prevention, 2011. Disponível em: <https://www.cdc.gov/eval/guide/cdcevalmanual.pdf>. Acesso em: 1 set. 2016. 1 As metas ou situações consideradas ideais foram apontadas a partir de resultados esperados pela literatura e/ou comparando resultados encontrados local e nacionalmente. O acompanhamento pré-natal no Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 21 VICTORA, C. G.; CESAR, J. A. Saúde materno-infantil: padrões de morbimortalidade e possíveis intervenções. In: ROUQUAYROL, M. Z.; ALMEIDA FILHO, N. Epidemiologia & saúde. 6. ed. Rio de Janeiro: Medsi, 2003. A consulta pré-concepcional do casal Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 23 2. A CONSULTA PRÉ-CONCEPCIONAL DO CASAL Maria Lucia Medeiros Lenz Felipe Anselmi Correa “Antes de engravidar, eu procurei o médico. Queria saber se estava tudo bem, ainda mais que eu já estou com 35 anos.” Gestante moradora do território de atuação do SSC/GHC A consulta pré-concepcional, embora nem sempre aconteça, é parte integrante dos cuidados pré-natais e tem por objetivo possibilitar ações preventivas e o tratamento de patologias que possam prejudicar o curso saudável de uma gestação. Esta consulta deve ser realizada com o casal. Homens e mulheres deveriam se preparar para uma gravidez, seguindo recomendações que reduzam riscos e promovam estilos de vida mais saudáveis. Existem evidências que muitas intervenções reduzem alguns resultados desfavoráveis na gestação que incluem malformações, perda fetal, baixo peso ao nascer e prematuridade (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2016). O profissional de saúde, durante esta consulta, poderá também reconhecer precocemente as expectativas em relação à gravidez, o momento que a família está vivenciando e a sua história de vida. As seguintes recomendações devem ser observadas, visando identificar problemas, avaliar e manejar riscos e prevenir doenças e malformações congênitas. 2.1 Recomendações específicas para a mulher 2.1.1 Anamnese • Questionar sobre problemas de saúde, tais como: epilepsia, diabetes, hipertensão, doenças psiquiátricas, infecções sexualmente transmissíveis (sífilis, por exemplo), fenilcetonúria, colagenoses (lupus e outras), distúrbios da tireóide (mulheres com sintomas de hipotireoidismo devem ser rastreadas para a doença da tireóide), doenças tromboembólicas, outras doenças infecciosas (rubéola, varicela, toxoplasmose, hepatite B, infecção urinária) e histórico vacinal (MAGALHÃES; SANSEVERINO, 2011; CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2016). Recomenda-se realizar triagem para sintomas de depressão e orientar as mulheres deprimidas quanto ao risco de exacerbação durante gravidez e puerpério e da possibilidade de ter que suspender tratamento (CUNNINGNAM et al, 2016). • Recomenda-se avaliar a possibilidade da mulher ser vítima de violência doméstica (passada ou atual). Estima-se que a prevalência é alta e que, excluindo pré-eclampsia, a violência doméstica é mais prevalente que qualquer outra condição clínica detectável nas consultas de pré-natal. Além disso, a violência pode se agravar na gestação, logo o período pré-concepcional oferece oportunidade de rastrear esse problema (CUNNINGNAM et al, 2016). Todas as mulheres devem ser encorajadas a conhecer direitos, recursos da comunidade, sociais e judiciais para lidar com parceiros abusadores/agressivos. A exposição à violência por parceiro íntimo associa-se a ocorrência de recém-nascidos de baixo peso, Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 24 parto prematuro, hipertensão, hiperêmese, infecções, anemia, tabagismo e uso de álcool ou outras drogas. O aconselhamento e intervenção pode reduzir a violência praticada pelo parceiro íntimo e melhorar o resultado da gestação (LOCKWOOD; MAGRIPLES, 2016; DELAHUNTA; TULSKY, 1996; CUNNINGHAM et al, 2016). • Identificar uso de medicamentos especialmente para tratamento da hipertensão, epilepsia, tromboembolismo, depressão e ansiedade. Verificar uso de vitaminas em excesso e também o uso dermatológico de isotretinoína e etretinato. Qualquer medicamento deve ser revisado e substituído antes da concepção, conforme grau de risco (MAGALHÃES; SANSEVERINO, 2011; CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2016). Recomendamos leitura do Capítulo 10 (Medicamentos na gestação e puerpério) e também consulta junto ao Sistema Nacional de Informação sobre Teratógenos (SIAT) que é um serviço gratuito e está sediado no Serviço de Genética Médica do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Informações são fornecidas sobre os efeitos na gestação de medicamentos e de outros agentes químicos, físicos e biológicos, de acordo com seu público alvo (pacientes ou profissionais) e podem ser obtidas por telefone (+55 51 3359-8008), e-mail (siat@gravidez- segura.org) ou pelo site (gravidez-segura.org) (HOSPITAL DE CLÍNICAS DE PORTO ALEGRE, 2016). • Identificar hábitos nocivos tais como tabagismo ativo ou passivo, uso de bebidas alcoólicas e de outras drogas, evitando qualquer julgamento (CUNNINGHAM et al, 2016). A exposição pré-natal ao álcool é aprincipal causa de retardo mental passível de prevenção e nenhum nível seguro do consumo de álcool foi estabelecido (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2016). O uso de tabaco, álcool e drogas ilícitas deverá ser suspenso com a anticoncepção (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2016). O capítulo 12 (Tabagismo e suas peculiaridades na gestação) aborda de forma detalhada os riscos do tabagismo ativo e passivo, assim como o adequado manejo para a interrupção deste hábito. • Identificar história gineco-obstétrica, especialmente o número de gestações, tipo de parto, peso ao nascer e intercorrências como abortamento, perdas fetais, hemorragias, pré- eclâmpsia. Estimular para que o intervalo entre as gestações seja de, no mínimo, dois anos. Mulheres que tiveram parto por cesariana devem ser orientadas a esperar 18 meses antes da próxima gestação. Mulheres que abortaram devem ser tranquilizadas quanto a baixa probabilidade de reincidência. Caso tenham tido três ou mais abortamentos, devem ser investigadas e manejadas de acordo com a causa. Mulheres com história de um parto prematuro ou recém-nascido de baixo peso ao nascer devem ser avaliados para causas remediáveis de serem resolvidas antes da próxima gravidez e devem ser informados sobre os benefícios potenciais do tratamento com progesterona durante a gravidez subsequente. Durante a visita pré-concepcional, uma mulher com um natimorto anterior deve receber aconselhamento sobre o aumento do risco de novos resultados adversos na gravidez e pode necessitar apoio. Avaliação adequada para identificar a causa da morte fetal anterior deve ser realizada, caso não não tenha sido feito como parte da investigação inicial. Os fatores de A consulta pré-concepcional do casal Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 25 risco passíveis de serem modificados antes de uma nova gestação devem ser manejados (por exemplo, o uso do tabaco) (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2016). • Avaliar as condições de trabalho e orientar sobre os riscos de exposição a tóxicos ambientais (asbesto, chumbo, mercúrio, radiação, pesticidas, solventes). Mulheres que trabalham com lactentes e crianças jovens também devem ser orientadas sobre a redução do risco de infecção por citomegalovírus através de precauções universais tais como: o uso de luvas de látex e de lavagem das mãos após o manuseio de fraldas ou após exposição a secreções respiratórias (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2016). Em relação a exposição tóxicos ambientais recomenda-se evitar peixes como tubarão, espadarte, cavala e lofotálito e comer no máximo 360g (duas porções) de atum enlatado e no máximo 180g de atum-voador por semana (devido ao risco de exposição ao metilmercúrio). Recomenda-se fazer dosagem sanguínea de chumbo se houver fator de risco (imigração recente de ou residência em áreas contaminadas, moradia próxima de fonte de chumbo, trabalhadora com chumbo ou coabitante com alguém que seja, trabalhadora com cerâmica envernizada com chumbo, consumos de substâncias não alimentares, uso de medicamentos, ervas ou terapias alternativas e complementares, uso de cosméticos ou determinados alimentos importados, renovação ou reforma de casa antiga sem uso de medidas de controle de risco, consumo de água contaminada por chumbo, antecedente de exposição ao chumbo ou evidência de aumento na carga de chumbo, coabitação com alguém identificado com nível elevado de chumbo) (CUNNINGHAM et al, 2016). • Identificar na história familiar do casal situações de risco para doença genética (e oferecer consulta com especialista), tais como: idade avançada (>35 anos), familiares portadores ou afetados por doença genética (ex: defeitos do tubo neural, fenilcetonúria, talassemias) ou malformações, consanguinidade, história familiar de retardo mental (ou atraso no desenvolvimento), exposição ambiental com risco para o feto, uso crônico de medicamentos potencialmente teratogênicos, triagem sérica materna alterada, alterações na ultra- sonografia (translucência nucal ou morfológica) e história de natimorto ou abortamentos de repetição (3 ou mais abortamentos espontâneos) (MAGALHÃES; SANSEVERINO, 2011; CUNNINGHAM, 2016). O encaminhamento para consulta com geneticista no período pré- concepcional pode ser realizado através do sitema de agendamento GERCON da Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre-RS. • Estimular hábitos saudáveis tais como alimentação adequada (ver capítulo 8. Alimentação saudável na gestação e puerpério), manutenção do peso ideal e atividade física. Para a mulher, alcançar um peso saudável antes da gravidez reduz os riscos de defeitos do tubo neural, parto prematuro, diabetes, cesariana e doença hipertensiva e tromboembólica que estão associados com a obesidade. Todas as mulheres devem ter o seu IMC calculado anualmente. Mulheres com um IMC ≤18.5 kg/m2 ou ≥25 kg/m2 devem ser aconselhadas sobre os riscos para a sua própria saúde e os riscos para futuras gestações, incluindo infertilidade. O manejo de excesso de peso (IMC de 25 a 29,9 kg/m2) deve concentrar-se na Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 26 alteração dos padrões alimentares e de atividade física para prevenir o desenvolvimento da obesidade e para produzir perda de peso moderada. Já o manejo da obesidade (IMC ≥30 kg/m2) deve centrar-se em produzir perda de peso substancial ao longo de um período prolongado. A presença de comorbidades em pacientes com sobrepeso e obesidade devem ser considerados ao decidir sobre as opções de tratamento (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2016). A atividade física, para homens e mulheres, que resulta em benefícios significativos à saúde consta de atividades que fortalecem a musculatura (mínimos de duas vezes na semana) combinada com atividades físicas aeróbicas. Preconiza-se 2h e 30 min de atividade física aeróbica moderada ou 1h e 15min de atividade física aeróbica vigorosa semanalmente, distribuidas ao longo da semana em episódios de no mínimo 10min (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2016). • Identificar estado vacinal. A Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) apresenta calendários de imunização específicos para adolescentes na faixa etária de 11 a 19 anos e adultos na faixa etária de 20 a 59 anos, tanto de vacinas disponíveis na rede pública quanto privadas (SOCIEDADE BRASILEIRA DE IMUNIZAÇÕES, 2016a; SOCIEDADE BRASILEIRA DE IMUNIZAÇÕES,2016b), que podem ser utilizados para orientar a avaliação e as recomendações necessárias. Recomenda-se estar atento especialmente para o estado vacinal contra doenças que afetam diretamente a saúde do bebê tais como rubéola, varicela e hepatite B (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2016). As vacinas com vírus vivo (ex: varicela-zóster, sarampo, caxumba, rubéola, pólio, varicela e febre amarela) não são recomendadas durante a gestação. Além disso, em condições ideais, deve-se esperar um mês ou mais entre a vacinação e as tentativas de engravidar. No entanto, a administração inadvertida das vacinas contra o sarampo, caxumba e rubéola (MMR) ou varicela durante a gestação em geral não deve ser considerada indicação para interromper a gestação (CUNNINGHAM et al, 2016). 2.1.2 Exame físico • Exame físico da paciente: realizar ausculta cardio-respiratória, palpar a tireóide, aferir pressão arterial, realizar antropometria (verificação de peso e da altura) e calcular o índice de massa corporal (IMC). O excesso de peso é um dos fatores de risco obstétricos mais comuns, sendo risco para diabetes, distúrbios hipertensivos na gestação, maior taxa de cesarianas e aumento de complicações anestésicas e pós-operatórias. No entanto, a perda de peso durante a gestação não é recomendada por aumento no risco de defeitos de fechamento do tuboneural, logo, programa para redução de peso deve ser realizada no período pré-concepcional e não durante a gestação (MAGALHÃES; SANSEVERINO, 2011). • Exame ginecológico completo: realizar exame de mamas, estimular o autoexame e coletar material para exame citopatológico do colo uterino. O rastreamento do câncer de colo uterino a partir de 25 anos em todas as mulheres que iniciaram atividade sexual, e deverá A consulta pré-concepcional do casal Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 27 ser repetido a cada três anos, se os dois primeiros exames anuais forem normais (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016). 2.1.3 Exames complementares • Solicitar hemograma, glicemia de jejum, exame de urina (EQU), VDRL, sorologia para Toxoplasmose (IgG) e Anti-HIV (sempre com aconselhamento e consentimento). Solicitar sorologia para rubéola se houver dúvida quanto ao histórico vacinal. Se IgG negativo para rubéola, indicar vacinação (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016). A vacina deve ser realizada pelo menos um mês antes de suspender a anticoncepção (RILEY, 2016), embora alguns autores recomendam aguardar 90 dias (MAGALHÃES; SANSEVERINO, 2011). No entanto, caso a vacina tenha sido realizada inadvertidamente em gestante, a interrupção da gestação não é recomendada por tratar-se de um risco teórico (RILEY, 2016). • O Ministério da Saúde (MS) recomenda triagem para hepatite B e C para o casal no período pré-concepcional (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016). Segundo o Centers for Disease Control and Prevention (2016), não há evidências mostrando que a triagem pré-concepção para a hepatite C, entre mulheres de baixo risco, melhore resultados perinatais, no entanto, a triagem para mulheres de alto risco é recomendada (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2016). As mulheres que são positivos para hepatite C e desejam engravidar devem ser aconselhadas sobre a infectividade incerta, a ligação entre a carga viral e transmissão neonatal, a importância de evitar drogas hepatotóxicas e o risco de doença hepática crônica. Mulheres que estão sendo tratadas para a hepatite C devem ter seus planos reprodutivos revistos (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2016). • Mulheres sexualmente ativas e com risco elevado para infecção por clamídia (histórico de ISTs, múltiplos parceiros sexuais, uso inconsistente de preservativo, trabalho sexual e uso de drogas) devem ser rastreadas na consulta pré-concepcional (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2016). • Recomenda-se triagem em todas as mulheres negras para doença falciforme. Instruir as mulheres com traço ou doença falciforme (CUNNINGNAM, 2016) quanto a testagem do parceiro para aconselhamento genético, a necessidade de suspender medicamentos contra- indicados e quanto as possíveis complicações na gestação em curso com doença falciforme (ex: anemia, episódios de dor, necessidade de transfusão, infecções, trombose) (VICHINSKY, 2016). 2.1.4 Prescrições • Ácido fólico. O uso de ácido fólico reduz significativamente (em 50 a 70 por cento) o risco de defeitos no tubo neural (incluindo a espinha bífida, anencefalia e encefalocele). A dose recomendada é de 0,4mg/dia (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2016; BRASIL. Ministério da Saúde, 2016) pelo menos 30 dias antes da concepção. Sendo que as mulheres com antecedentes de feto com este tipo de malformação (ou em uso de Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 28 ácido valpróico ou carbamazepina) devem fazer uso de 4mg de ácido fólico/dia, pelo menos 30 dias antes da concepção (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016; HOCHBERG; STONE, 2016). Recomenda-se o uso de 0,4mg/dia até o final da gestação, para prevenção de malformações (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016) e para atender às necessidades de crescimento do feto e da placenta (HOCHBERG; STONE, 2016). 2.2 Recomendações específicas para o homem 2.2.1 Anamnese • Realizar história clínica e incluir condições clínicas em curso que possam prejudicar a sua saúde reprodutiva. Várias condições têm sido associados a problemas de diminuição da qualidade do esperma e fertilidade, incluindo a obesidade, diabetes mellitus, varicocele, infecções sexualmente transmissíveis (IST) e tratamentos para câncer durante a infância (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2016). • Identificar medicamentos em uso. Um grande número de medicamentos pode afetar a contagem de esperma e sua qualidade, incluindo agentes alquilantes, bloqueadores dos canais de cálcio, cimetidina, colchicina, corticosteróides, ciclosporina, eritromicina, gentamicina, neomicina, metadona, nitrofurantoína, fenitoína, espironolactona, sulfasalazina, tetraciclina e tioridazina (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2016). • Identificar hábitos nocivos como tabagismo ativo ou passivo, ingestão de bebidas alcoólicas e uso de outras drogas. Especificamente relacionado a gestação, o uso do tabaco tem sido associado com uma contagem de esperma diminuida e morfologia anormal de espermatozóides, motilidade e capacidade de fertilização. Evidências recentes sugerem que a nicotina e outras substâncias químicas nos cigarros também pode induzir o dano oxidativo ao DNA do esperma. Além disso, o fumo passivo pode provocar a morte prematura e doenças em crianças e adultos que não fumam. As mulheres grávidas que estão expostas ao fumo passivo têm chances 20% maiores de dar à luz um bebê de baixo peso ao nascer do que as mulheres que não estão expostos ao fumo passivo durante a gravidez. Os efeitos do consumo de álcool sobre a qualidade do esperma não são claras. Alguns estudos têm demonstrado que o consumo moderado pode proteger contra danos ao DNA, talvez em parte devido ao efeito antioxidante de algumas bebidas alcoólicas. Outros estudos têm mostrado que o álcool pode ser prejudicial ao DNA do esperma. Em um estudo realizado em um centro de tratamento de dependência de alcoólicos, o nível de testosterona, o volume de sêmen, contagem de espermatozóides e o número de espermatozóides morfologicamente normais e motilidade foram menores entre os homens que abusaram do álcool do que os homens que não fizeram. Várias drogas também têm sido associadas a infertilidade masculina (redução da produção de testosterona, contagem de esperma ou qualidade do sêmen), incluindo a maconha, cocaína e os esteróides anabólicos (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2016). • Os homens devem também ser questionados sobre seu ambiente de trabalho. Exposições a metais, solventes, desreguladores endócrinos ou pesticidas no trabalho podem prejudicar a A consulta pré-concepcional do casal Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 29 qualidade do esperma, o que pode levar a infertilidade ou aborto. Além disso os homens podem transportar produtos químicos para casa em suas roupas, pele e sapatos, e ocasionar a exposição de suas famílias. Trocar de roupas e sapatos antes, ou imediatamente depois de chegar em casa, pode reduzir a quantidade de produtos químicos. Se potenciais riscos forem identificados, uma consulta com um especialista em medicina do trabalho pode ajudar em uma investigação mais detalhada e recomendações (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2016). • Estimula-se identificar transtornos mentais. Evidências recentes sugerem que a depressão paterna durante o desenvolvimento pós-natal do filho de um casal pode influenciar significativamente na saúde emocional e comportamental da criança, mesmo após o ajuste para a depressão materna e depressão paterna durante um estágio de desenvolvimento diferente da criança; tais malefícios a longo prazo podem ser evitados com a identificação e encaminhamento para profissionais de saúde mental. Além disso, os pais com depressão podem ter um efeito negativosobre interações mãe-criança, e são menos propensos a se envolver em certas interações pai-filho, como brincar ao ar livre com seus filhos. Por outro lado, a boa saúde mental dos pais reduz os efeitos de depressão materna em seu filho (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2016). • Identificar na história familiar do casal risco para doença genética (e oferecer consulta com especialista), tais como: idade avançada (>35 anos), familiares portadores ou afetados por doença genética (ex fenilcetonúria, talassemias) ou malformações, consanguinidade, história familiar de retardo mental (ou atraso no desenvolvimento), exposição ambiental com risco para o feto, uso crônico de medicamentos potencialmente teratogênicos, triagem sérica materna alterada, alterações na ultra-sonografia (translucência nucal ou morfológica) e história de natimorto ou abortamentos de repetição (3 ou mais abortamentos espontâneos) (MAGALHÃES; SANSEVERINO, 2011; CUNNINGHAM et al, 2016). O encaminhamento para consulta com geneticista no período pré-concepcional pode ser realizado através do sitema de agendamento GERCON da Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre-RS. • Estimular hábitos saudáveis tais como alimentação adequada, manutenção do peso ideal e atividade física. • A atividade física, para homens e mulhres, que resulta em benefícios significativos à saúde consta de atividades que fortalecem a musculatura (mínimos de duas vezes na semana) combinada com atividades físicas aeróbicas. Preconiza-se 2h e 30 min de atividade física aeróbica moderada ou 1h e 15min de atividade física aeróbica vigorosa semanalmente, distribuidas ao longo da semana em episódios de no mínimo 10min (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2016). • Identificar estado vacinal. O estado de imunização de homens deve ser revisto como parte de uma avaliação pré-concepcional e as vacinas apropriadas devem ser oferecidas. A Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) apresenta calendários de imunização específicos para adolescentes na faixa etária de 11 a 19 anos e adultos na faixa etária de 20 a 59 anos, tanto de vacinas disponíveis na rede pública quanto privadas (SOCIEDADE Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 30 BRASILEIRA DE IMUNIZAÇÕES, 2016a; SOCIEDADE BRASILEIRA DE IMUNIZAÇÕES,2016b), para orientar esta avaliação. 2.2.2 Exame físico • Recomenda-se o rastreio de homens adultos para hipertensão e obesidade, com aferição de TA, peso, altura e IMC (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2016). 2.2.3 Exames complementares • O Ministério da Saúde preconiza a solicitação de VDRL, anti-HIV e a investigação de hepatite B e C para o casal na consulta pré-concepcional (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016). • Recomenda-se ainda rastreio para distúrbios lipídicos em homens com 35 anos ou mais (assim como os homens 20-35 anos de idade com diabetes, história familiar de doença cardiovascular ou hiperlipidemia familiar ou múltiplos fatores de risco de doença cardíaca coronária). Recomenda-se rastreio para diabetes mellitus tipo 2 em homens com hipertensão ou hiperlipidemia. Homens com 50 anos de idade ou mais devem fazer rastreio de cancer colorectal. Recomenda-se ainda triagem de rotina para câncer de testículo entre os homens jovens ou câncer de próstata entre os homens com 50 anos de idade ou mais velhos (45 anos ou mais de idade para homens com risco acrescido, por exemplo, negros ou homens afro-americanos e aqueles com história familiar de câncer de próstata) (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2016). 2.3 Recomendações ao casal que deseja gestar Aos casais que desejam engravidar, manter relações sexuais sem proteção, cinco dias antes da data prevista para a ovulação (9o dia em um ciclo padrão de 28 dias), podendo realizá-las em dias alternados, até cinco dias após a ovulação (19o dia em um ciclo padrão de 28 dias) (MAGALHÃES; SANSEVERINO, 2011). O Ministério da Saúde descreve critérios para iniciar investigação de infertilidade, assim como os exames complementares passíveis de serem solicitados na APS quando disponíveis ou quando o serviço especializado não é de fácil acesso. Mulheres sem concepção, com menos de 30 anos e mais de dois anos com vida sexual ativa (mais de um ano, para as que encontram-se entre 30 e 39 anos e mais de 6 meses, para as que se encontram entre 40-49 anos) devem ser encaminhadas para serviço especializado em infertilidade. Cônjuges em vida sexual ativa, sem uso de contraceptivos, e que possuem fator impeditivo de concepção (obstrução tubária bilateral, amenorréia prolongada, azoospermia, etc.), independente do tempo de união, também devem ser encaminhados. Da mesma forma, na vigência de duas ou mais interrupções gestacionais subsequentes. Na situação de dificuldade de acesso a esse serviço e/ou dependente da disponibilidade, os exames iniciais podem ser solicitados nas US de APS. Dosagens hormonais (FSH, TSH, T4 livre e Prolactina) para a mulher, e espermograma A consulta pré-concepcional do casal Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 31 para o homem são os exames iniciais. Homens com espermograma alterado, devem repetí-lo após um mês, mantido alterado, deve ser encaminhado ao urologista (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016). 2.4 Situações especiais 2.4.1 Mulher ou parceiro infectados pelo vírus HIV Segundo recomendações do Ministério da Saúde (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016), o controle pré-concepcional no casal portador do HIV pressupõe a recuperação dos níveis de linfócitos T- CD4+ (parâmetro de avaliação da imunidade) e a redução da carga viral de HIV circulante para níveis indetectáveis. Esses cuidados, acrescidos das técnicas de assistência preconizadas para a concepção em casais HIV+ (soro discordantes ou soro concordantes) e das ações para a prevenção da transmissão vertical durante toda a gestação, parto e pós-parto, incluindo a não amamentação, permitem que a gestação ocorra em circunstância de risco reduzido para a mulher e o bebê, promovendo melhores resultados maternos e perinatais. O casal que deseja gestar deve ser encaminhado a Unidade de Prevenção da Transmissão Vertical (ver capítulo 14. Fatores de risco gestacional e serviços de referência no GHC de atenção à saúde da gestante). 2.4.2 Mulheres diabéticas e/ou hipertensas As mulheres diabéticas e hipertensas devem ser informadas dos riscos na gestação. Ser diabética aumenta o risco materno de complicações crônicas como retinopatia, nefropatia, cardiopatia, neuropatia e, aumenta o risco do recém-nascido apresentar malformações, morte perinatal e prematuridade. O planejamento da gestação em mulheres diabéticas reduz o risco de complicações. É importante otimizar o controle metabólico (hemoglobina glicada < 6,5%) antes da concepção, sem acarretar risco indevido de hipoglicemia materna (CUNNINGHAM et al, 2016). As mulheres devem ser encorajadas a manter um método contraceptivo eficaz até atingir um bom controle da glicose. Outras medidas compreendem a substituição do hipoglicemiante oral por insulina (conforme necessidade de manejo medicamentoso), associada ao acompanhamento dietético e nutricional, uso de ácido fólico e atividade física. Essas condutas têm reduzido o risco, a níveis próximos às gestantes sem diabetes, da ocorrência de malformações congênitas e de algumas causas de mortalidade perinatal (MORTON- EGGLESTON; SEELY, 2016). Quanto à hipertensão, o aumento da mortalidade materna e perinatal relaciona-se principalmente à sobreposição da pré-eclâmpsia, retardo de crescimento intra-uterino, prematuridade, descolamento prematuro de placenta, natimorto e de complicações maternas com o comprometimento de órgãos vitais (AUGUST, 2016). As mulheres em idade reprodutiva com hipertensão crônica devem ser aconselhadassobre a eventual necessidade de alterar o esquema anti-hipertensivo antes da concepção, além de serem melhor avaliadas quanto a presença de hipertrofia ventricular, retinopatia e doença renal (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2016; CUNNINGNAM et al, 2016). Os inibidores da enzima conversora da angiotensina e os antagonistas dos receptores da angiotensina II são contra-indicados durante a gravidez e devem ser suspensos ou substituídos (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2016). Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 32 As mulheres hipertensas ou diabéticas deverão realizar o pré-natal no ambulatório de alto-risco (ver capítulo 14. Fatores de risco gestacional e serviços de referência no GHC de atenção à saúde da gestante e feto). 2.4.3 Mulheres com transtornos psiquiátricos Transtorno bipolar. Mulheres em idade reprodutiva com transtorno bipolar devem ser aconselhadas quanto ao risco de recidivas durante a gestação, especialmente após interrupção do tratamento de manutenção com estabilizador do humor. A prevenção de recaída e uma estratégia de manejo para o transtorno bipolar devem ser planejados antes da concepção (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2016). Transtornos de ansiedade e depressão. Mulheres em idade reprodutiva com transtornos depressivos e de ansiedade que desejam engravidar devem ser informadas sobre os riscos potenciais de uma doença não tratada durante a gravidez e sobre os riscos e benefícios de vários tratamentos durante a gravidez. Vários estudos têm demonstrado um risco aumentado de defeitos cardíacos associados ao uso de inibidores da recaptação da serotonina. Um estudo recente descobriu que tomar bupropiona durante a gravidez pode aumentar o risco de certos defeitos cardíacos. Uma série de estudos identificaram riscos para o feto e recém-nascido associados ao uso de medicamentos antidepressivos (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2016). Esquizofrenia. Mulheres em idade reprodutiva com esquizofrenia devem ser aconselhados, em conjunto com o parceiro ou outro membro da família, sempre que possível, sobre os riscos da gravidez em sua condição. Eles devem ser orientados sobre a importância do pré-natal. Prevenção de recaída e uma estratégia de manejo da doença devem ser planejados antes da concepção (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2016). Mulheres com doenças psiquiátricas que necessitam acompanhamento especializado (transtornos psicóticos, depressão grave) devem ser encaminhadas ao Pré-natal de alto risco (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016). 2.4.4 Mulheres em uso de medicamentos de forma regular O uso regular de medicamentos é frequente e estima-se que 90% das mulheres consumam pelo menos um medicamento durante a gestação. Mulheres com epilepsia, por exemplo, quando em uso de ácido valpróico ou em tratamento com mais de um fármaco, apresentam risco aumentado de malformações (CUNNINGHAM et al, 2016). Existem substâncias consideradas seguras ou sem evidência de risco e que, se necessário, devem ser escolhidas (ver capítulo 10. Medicamentos na gestação e puerpério). Um recurso que pode ser utilizado pelas equipes da APS é o SIAT (Sistema Nacional de Informação sobre Agentes Teratogênicos). Trata-se de um serviço gratuito de informação para médicos e pacientes sobre os efeitos de medicamentos e de outros agentes químicos, físicos e biológicos na gestação. Esse serviço encontra-se localizado no Serviço de Genética Médica do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. A consulta pré-concepcional do casal Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 33 As consultas ao SIAT são destinadas a: • gestantes; • mulheres que planejam engravidar; • pais de crianças que nasceram com algum tipo de malformação ou alteração de comportamento cujas mães foram expostas a algum agente externo potencialmente nocivo para o nenê (medicamentos, drogas, infecções, radiações, etc.); • mulheres que estejam amamentando ou que planejam amamentar; • profissionais de saúde que estejam assistindo pacientes em alguma das situações de risco teratogênico e • profissionais da saúde que desejem informações atualizadas sobre o tema. Como fazer a consulta? • A consulta pode ser realizada por telefone através do número (51) 3359-8008 ou e-mail para siat@gravidez-segura.org. O site http://gravidez-segura.org/ é a página do SIAT onde podem ser encontradas mais informações. Referências AUGUST, P. Management of hypertension in pregnant and postpartum women. UpToDate, 2016. Disponível em: <http://www.uptodate.com/contents/management-of-hypertension-in-pregnant-and- postpartum- women?source=machineLearning&search=risco+hipertens%C3%A3o+gesta%C3%A7%C3%A3o&select edTitle=2~150§ionRank=1&anchor=H15#H15>. Acesso em: 17 ago. 2016. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolos da atenção básica: saúde das mulheres. Brasília, DF: Ed. Ministério da Saúde, 2016. Disponível em: <http://189.28.128.100/dab/docs/portaldab/publicacoes/protocolo_saude_mulher.pdf>. Acesso em: 08 ago. 2016. CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. Preconception health and health care. Atlanta, 2016. Disponível em: <http://www.cdc.gov/preconception/index.html>. Acesso em: 10 ago. 2016. CUNNINGHAM, F. G. et al. Obstetrícia de Willians. 24. ed. Porto Alegre: AMGH, 2016. DELAHUNTA, E. A.; TULSKY, A. A. Personal exposure of faculty and medical students to family violence. JAMA, Chicago, v. 275, n. 24, p. 1903, 1996. HOCHBERG, L; STONE, J. Folic acid supplementation in pregnancy. UpToDate, 2016. Disponível em: <http://www.uptodate.com/contents/folic-acid-supplementation-in- pregnancy?source=machineLearning&search=%C3%A1cido+f%C3%B3lico+gesta%C3%A7%C3%A3o& selectedTitle=5~150§ionRank=2&anchor=H17#H17>. Acesso em: 16 ago. 2016. HOSPITAL DE CLÍNICAS DE PORTO ALEGRE. Porto Alegre, 2016. Sistema Nacional de Informações sobre Agentes Teratogênicos (SIAT). Gravidez segura: idade e seus riscos. 2016. Disponível em: <http://gravidez-segura.org/index.php?option=com_content&task=view&id=3&Itemid=5>. Acesso em: 10 maio 2010. LOCKWOOD, C. J.; MAGRIPLES, U. Initial prenatal assessment and first-trimester prenatal care. UpToDate, 2016. Disponível em: <http://www.uptodate.com/contents/initial-prenatal-assessment-and- first-trimester-prenatal-care?source=see_link§ionName=Airline+travel&anchor=H28#H28>. Acesso em: 9 ago. 2016. Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 34 MAGALHÃES, J. A.; SANSEVERINO, M. T. V. Aconselhamento pré-concepcional. In: FREITAS, F. et al. Rotinas em obstetrícia. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2011. MORTON-EGGLESTON, E.; SEELY, E. W. Pregestational diabetes: preconception counseling, evaluation, and management. UpToDate, 2016. Disponível em: <http://www.uptodate.com/contents/pregestational-diabetes-preconception-counseling-evaluation-and- management?source=machineLearning&search=preconceptional+counseling+diabetes&selectedTitle=1~ 150§ionRank=1&anchor=H1058002514#H1058002514>. Acesso em: 16 ago. 2016. RILEY, L. E. Rubella in pregnancy. UpToDate, 2016. Disponível em: <http://www.uptodate.com/contents/rubella-in- pregnancy?source=machineLearning&search=vacina+rub%C3%A9ola+gesta%C3%A7%C3%A3o&select edTitle=3~116§ionRank=1&anchor=H8#H8>. Acesso em: 14 ago. 2016. SOCIEDADE BRASILEIRA DE IMUNIZAÇÕES. Calendário de Vacinação SBIm adolescente: recomendações da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) – 2016/2017. Brasília, DF, 2016a. Disponível em: <http://sbim.org.br/images/calendarios/calend-sbim-adolescente-2016- 17.pdf>.http://sbim.org.br/images/files/calend-sbim-mulher-20-59-anos-2015-16-151119-spread.pdf. Acesso em: 16 dez. 2016. SOCIEDADE BRASILEIRA DE IMUNIZAÇÕES. Calendário de VacinaçãoSBIm Adulto: Recomendações da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) – 2016/2017. Brasília, DF,2016b. Disponível em: <http://sbim.org.br/images/calendarios/calend-sbim-adulto-2016- 17.pdf>.http://sbim.org.br/images/files/calend-sbim-mulher-20-59-anos-2015-16-151119-spread.pdf. Acesso em: 16 dez. 2016. VICHINSKY, E. P. Pregnancy in women with sickle cell disease. UpToDate, 2016. Disponível em: <http://www.uptodate.com/contents/pregnancy-in-women-with-sickle-cell- disease?source=machineLearning>. Acesso em: 13 ago. 2016. Abordagem da gestante, diagnóstico de gestação, anamnese e orientações Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 35 3. ABORDAGEM DA GESTANTE, DIAGNÓSTICO DE GESTAÇÃO, ANAMNESE E ORIENTAÇÕES Maria Lucia Medeiros Lenz José Mauro Ceratti Lopes “Eu recebi muitas orientações no pré-natal, as mais importantes foram aquelas que alertaram para o não uso de álcool e drogas. Acho importante que as orientações não sejam contraditórias, senão a gente fica confusa” Gestante moradora do território de atuação do SSC/GHC 3.1 Abordagem da gestante Antes de abordar sobre os aspectos que envolvem especificamente o diagnóstico da gestação, as expectativas em relação a esse período, as informações importantes ou as orientações a serem fornecidas às gestantes, aspectos de um método de abordagem da gestante será descrito. Na APS, a abordagem a ser utilizada pelos profissionais de saúde, para garantir que no processo de cuidado sejam contempladas as necessidades e expectativas da pessoa assistida, é aquela representada pelo Método Clínico Centrado na Pessoa (MCCP) (STEWART, 2014). No Brasil esse método é denominado Abordagem Centrada na Pessoa (ACP) (GUSSO; LOPES, 2012) e é representado por quatro componentes: (1) Explorando a saúde, a doença e a experiência com a doença; (2) Entendendo a pessoa como um todo, inteira; (3) Elaborando um projeto comum de manejo; (4) Intensificando a relação profissional-pessoa. Estes quatro componentes, embora sejam apresentados de forma separada, estão estreitamente interligados. O profissional habilidoso move-se com empenho num “ir e vir” entre os quatro componentes, seguindo as “deixas” ou “dicas” da pessoa. Essa técnica “de ir e vir” é o conceito chave para utilizar a ACP durante as consultas, o que requer prática e experiência. Os subitens a seguir referem-se a ACP adaptada às gestantes, ao casal e ressalta-se a importância de contemplar momentos da consulta específicos para a gestante (LOPES, 2015). 3.1.1 Explorando a saúde, a doença e a experiência com a doença Durante as consultas do pré-natal, deve-se explorar o que representam os conceitos de saúde, gestação e maternidade; identificar as expectativas da gestante com relação a estes aspectos; a sua experiência pessoal ou familiar com saúde, gestação e maternidade (gestações anteriores, gestações na família ou de pessoas conhecidas); desenvolver uma abordagem biomédica qualificada no que se refere ao manejo e acompanhamento clínico da gestação (anamnese, exame clínico adequado, exames de laboratório e orientações); entender a dimensão da gestação, parto e maternidade para a gestante através da identificação dos sentimentos, idéias, efeitos em suas atividades e expectativas. 3.1.2 Entendendo a pessoa como um todo, inteira Durante as consultas de pré-natal, deve-se buscar conhecer e entender a gestante em sua individualidade, em todos os seus contextos: • a história de vida da gestante e os seus aspectos pessoais e de desenvolvimento fisico e emocional; Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 36 • o seu contexto próximo, sua família, seu emprego, sua comunidade e suporte social e • o seu contexto distante, sua cultura, comunidade e ecossistema. Estes aspectos podem ser melhor abordados através da identificação da historia de desenvolvimento pessoal da gestante, da etapa do ciclo de vida em que se encontra, da construção conjunta de um genograma e/ou do estabelecimento de sua rede social (ecomapa). 3.1.3 Elaborando um projeto comum de manejo A parceria entre o profissional e a gestante (casal) numa relação de trabalho conjunto no processo de elaboração do cuidado pré-natal e na tomada de decisão é o grande diferencial ao se utilizar uma ACP. Ao individualizar recomendações, desenvolve-se um projeto conjunto entre o profissional e a gestante e para isso, recomenda-se:. • identificar de forma conjunta os problemas e as prioridades no cuidado pré-natal; • estabelecer, de comum acordo, os objetivos do cuidado e o manejo das situações apresentadas na gestação e • definir os papéis de cada um, da gestante e do profissional, no cuidado pré-natal. 3.1.4 Intensificando a relação profissional-pessoa Ao buscar uma relação mais horizontal, deve-se fazer uso de aptidões e habilidades de comunicação que facilitem e intensifiquem a relação profissional-pessoa, tais como promover a empatia; utilizar o autoconhecimento pessoal e profissional para identificar aspectos que facilitam e aprimoram o relacionamento profissional-gestante e identificar e trabalhar aspectos relacionados à transferência e contratransferência, que possam interferir nesse acompanhamento. Muito importantes no alcance desses componentes são a disponibilidade e empatia do profissional. 3.2 Diagnóstico de gestação Frente a suspeita de gestação, qualquer profissional da equipe deverá realizar prontamente, ou agendar para o menor prazo, uma consulta médica ou de enfermagem. As consultas subsequentes serão agendadas com o profissional de escolha da família. Um acompanhamento pré-natal eficiente deve propiciar ações de promoção, prevenção e recuperação, identificar precocemente gestações de alto-risco e planejar de modo eficaz o manejo de cada situação específica (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016). A confirmação da gravidez pelo profissional poderá ser feita através da anamnese, do exame físico e dos resultados dos exames complementares, quando forem necessários (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016). Presume-se que há gestação quando ocorrer: atraso menstrual, manifestações clínicas (náuseas, vômitos, tonturas, salivação excessiva, mudança no apetite, aumento da frequência urinária e sonolência) e/ou modificações anatômicas (aumento do volume da mama, hipersensibilidade nos mamilos, tubérculos de Montgomery, saída do colostro pelo mamilo, coloração violácea vulvar, cianose vaginal e cervical) (FREITAS et al, 2006). Abordagem da gestante, diagnóstico de gestação, anamnese e orientações Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 37 A probabilidade de gestação aumenta com a presença de amolecimento da cérvice, aumento do volume uterino, aumento da revascularização das paredes vaginais (pode-se observar pulsação da artéria vaginal nos fundos de saco laterais) e positividade do teste rápido de gravidez (TRG) ou da fração beta do hCG (B-hCG) no soro materno. O B-hCG torna-se positivo a partir do oitavo ou nono dia após a fertilização, ou seja, antes que se perceba o atraso menstrual (FREITAS et al, 2006). O TRG depende do insumo, mas na maioria torna-se positivo após 7 dias de atraso (BRASIL. Ministério da Saúde, 2013). Em caso de resultado negativo com suspeita de gestação, um B-hCG poderá ser solicitado (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016). A certeza da gestação dá-se com a presença de batimentos cardíacos fetais (BCF) detectados por sonar (a partir da 10a semana), a percepção dos movimentos fetais (a partir da18a a 20a semana), e através da ultrassonografia (saco gestacional com 4-5 semanas de gestação, vesícula vitelina e atividade cardíaca como primeira manifestação do embrião com 6 semanas menstruais) (FREITAS et al, 2006). O aumento do volume uterino na gestante permiterelacioná-lo a idade gestacional, conforme Quadro 1. Quadro 1 - Relação da idade gestacional de acordo com o tamanho uterino. Semanas de IG Tamanho uterino Até 6ª semana Não ocorre alteração Até 8ª semana Dobro do normal 10ª semana Aumento de 3x o tamanho habitual, mas ainda não alcança a sínfise púbica 12ª semana Ocupa toda a pelve, palpado na sínfise 16ª semana Na metade da distância entre a sínfise púbica e cicatriz umbelical 20ª semana Na cicatriz umbilical A partir da 20ª semana Existe uma relação aproximada entre as semanas e a altura uterina, mas quanto mais próximo do parto, menos fiel a correspondência Fontes: FREITAS et al, 2006; BRASIL. Ministério da Saúde, 2016. Calcular tão logo quanto possível a idade gestacional é de fundamental importância. Costuma-se estimar a data provável do parto (DPP) adicionando sete dias à data da última menstruação e subtraindo três meses (regra de Naegele). No entanto, sem um histórico de menstruações regulares, previsíveis, cíclicas e espontâneas a sugerir ciclos ovulatórios, é difícil estimar a idade gestacional com base na anamnese e exame físico (CUNNINGHAM et al, 2016). 3.3 Expectativas em relação à gestação Frente a suspeita de uma gestação, ou de seu diagnóstico, é fundamental oferecer a pessoa uma escuta ativa buscando identificar quais as suas expectativas, e do casal, em relação à gestação, em que circunstâncias ela está ocorrendo, os desejos, os medos e ansiedades, de forma acolhedora e evitando julgamentos. Subsequentemente, deve-se abordar a história de vida da gestante e outros aspectos que podem contribuir para o cuidado pré-natal, pois na gestação, além de grandes transformações no corpo, há uma importante transição existencial (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016). Somente com a melhor compreensão do contexto em está ocorrendo esta gestação, em que momento do ciclo de vida da família, torna-se possível pensar e planejar um acompanhamento individualizado e consequentemente Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 38 mais adequado. A aceitação da gravidez por parte do ambiente social imediato vale ser avaliada, pois poderá reforçar (ou não) a tendência da mulher para a maternidade (GUTFREIND, 2010). Quando as gestações não são desejadas, aumenta a probabilidade de acontecerem manobras abortivas em situação de risco, hiperêmese gravídica e repercussões emocionais que poderão influenciar na saúde da gestante e do bebê. Nessa circunstância, recomenda-se oferecer ambiente acolhedor e privativo para escutar a mulher de forma aberta e não julgadora e oferecer mediação de conflitos pessoais e/ou familiares decorrentes de gravidez não planejada. Questionar abertamente sobre intenção de abortar sem julgamento ou intimidação (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016). Caso identifica-se a intenção de abortar, recomenda-se orientar situações em que o aborto é permitido por lei e sobre riscos de práticas inseguras de interrupção da gravidez (hemorragia, infecção, perfuração uterina, infertilidade, morte) (ver capítulo 20. Situações envolvendo abortamento). Deve-se agendar um retorno para reavaliação e, se ocorrer abortamento, assegurar planejamento reprodutivo para evitar nova gestação indesejada (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016). Quando o diagnóstico de gestação é realizado especialmente em adolescentes, principalmente com idade entre 10 e 14 anos incompletos (ou pessoa com deficiência), é necessário atentar para a possibilidade de violência sexual. As normas técnicas e legais do Ministério da Saúde para a condução da situação devem ser seguidas, conforme a Norma Técnica Prevenção e Tratamento dos Agravos Resultantes da Violência Sexual contra Mulheres e Adolescentes e Aspectos Jurídicos do Atendimento às Vitimas de Violência Sexual (BRASIL. Ministério da Saúde, 2012). Os serviços de referência para essas situações no Hospital Nossa Senhora da Conceição e Hospital Fêmina são os Centros Obstétricos. 3.4 Anamnese da gestante Durante a primeira consulta de pré-natal, principalmente se a consulta pré-concepcional não foi realizada, é importante, além de atentar para as demandas trazidas pela gestante, obter a história clínica e familiar da paciente, identificando especialmente a presença de: história prévia de hipertensão arterial sistêmica (HAS), cardiopatias, diabetes, trombose venosa, infecções, infecções sexualmente transmissíveis (IST) e problemas de saúde mental ou cognitivos. Torna-se importante avaliar a rede familiar e social da gestante, a presença de companheiro, o relacionamento familiar e conjugal para identificar conflitos e também a ocorrência de violência (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016). Da mesma forma é importante identificar o nível educacional, tipo de moradia, saneamento, renda familiar, benefícios recebidos (ex: Bolsa Família), atividades realizadas no trabalho e exposições ambientais tais como: demasiado esforço físico, estresse, jornada de trabalho, exposição à agentes nocivos (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016). Os direitos sociais da gestante serão melhor abordados no capítulo 11. Os antecedentes familiares também devem ser pesquisados. Doenças hereditárias, gemelaridade, diabetes, hanseníase, transtorno mental, doença neurológica, grau de parentesco com o pai do bebê, pré-eclâmpsia, hipertensão, tuberculose, câncer de mama ou ovário, deficiências e malformações e IST do parceiro (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016). Deve-se identificar o uso de medicamentos (eventual ou contínuo) e, se necessário, suspendê- los ou substituí-los por outros melhor estudados quanto à segurança à saúde da mãe e do bebê. Em Abordagem da gestante, diagnóstico de gestação, anamnese e orientações Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 39 caso de dúvidas, orientamos a leitura do Capítulo 10 (Medicamentos na gestação e puerpério) e também a possibilidade de consultar o SIAT (Sistema Nacional de Informação sobre Agentes Teratogênicos) via telefone (51 3359-8008) (HOSPITAL DE CLÍNICAS DE PORTO ALEGRE, 2016). A história obstétrica busca conhecer o número de gestações anteriores, a ocorrência de partos prematuros, tipo de parto, intervalos entre os partos, peso do bebê ao nascimento, a ocorrência de aborto, de perdas fetais, hemorragias, diabetes, pré-eclâmpsia, eclampsia e outras situações relacionadas a um maior risco para a saúde da mãe e bebê. Muitas complicações obstétricas tendem a ocorrer em uma gravidez subsequente (CUNNINGHAN et al, 2016). A cada consulta é importante avaliar o risco gestacional. O capitulo 14 aborda fatores de risco gestacionais e serviços de referência no GHC. Recomenda-se às gestantes encaminhadas aos serviços de referência manter acompanhamento na APS por meio de consultas médicas, odontológicas e de enfermagem, visitas domiciliares, busca ativa, ações educativas e outras, de forma sempre individualizada, de acordo com o grau de risco e necessidades da gestante (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016). Todos os profissionais de saúde devem reconhecer os principais sinais de alerta na gestação (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016), os quais implicam em avaliação médica imediata, entre eles: • sangramento vaginal • cefaléia, escotomas visuais, epigastralgia, edema excessivo • contrações regulares, perda de líquido • diminuição da movimentação fetal • febre A gestante, ao vincular-se com o profissional de saúde, receberá uma carteira com as informações atualizadas sobre a sua gestação. Esse documento servirá de elo entre o serviço que prestou assistência pré-natal e o hospital (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016). As informações sobre o acompanhamento pré-natal também devem ser registradas no prontuário individual em formulário específico, semelhante à carteira de pré-natal (Anexo 2 - Ficha de prontuário para acompanhamentopré- natal). Esses formulários são reconhecidos como úteis na avaliação de risco e para garantir um registro completo e sistemático da gestação (LOCKWOOD; MAGRIPLES, 2016a). 3.5 Orientações às gestantes O número de informações a serem fornecidas às gestantes é consistente. Os profissionais devem procurar repassá-las de maneira clara, respeitando prioritariamente o interesse da gestante e parceiro e considerando também o período gestacional. Fornecer orientações escritas em materiais educativos e estimular a participação da gestante em grupos e cursos para gestantes e familiares representam uma alternativa de otimizar o tempo da consulta e, principalmente, oferecer espaço para aprofundar discussões (ver capítulo 16. Atividades de edução e saúde na gestação). 3.5.1 Orientações mais propícias para o primeiro trimestre: • Importância do pré-natal. A gestante deve ser informada sobre os objetivos e a importância do pré-natal. Mulheres sem pré-natal apresentam maiores riscos, tais como Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 40 prematuridade, natimortalidade, mortalidade materna (CUNNINGHAM et al, 2016). O número de consultas, assim como a forma de agendamento devem ser pactuados com a gestante. O Ministério da Saúde preconiza um número mínimo de 6 consultas de pré-natal (consultas médica intercaladas com consultas de enfermagem) e que devem acontecer com periodicidade mensal até a 28ª semana, quinzenal da 28ª até a 36ª semana e semanal da 36ª a 41ª semana. Essa periodicidade é a recomendada de forma tradicional, embora alguns estudos tenham evidenciado que, para gestantes sem riscos gestacionais, um número reduzido de consultas pode ser proposto (CUNNINGHAM et al, 2016). A gestante também deve ser encaminhada para consulta com a equipe de saúde bucal, de preferência no segundo trimestre. É importante ressaltar que a gestação não contraindica tratamento dentário, incluindo radiografia dos dentes (CUNNINGHAM et al, 2016). Na vigência de trabalho de parto e/ou com 41 semanas de idade gestacional, deve ser encaminhada ao Centro Obstétrico maternidade (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016). • Participação do pai. A participação do pai no pré-natal, no parto e nos cuidados com o recém-nascido deve ser incentivada. Segundo recomendação da OMS, o cuidado pré-natal precisa ser estendido para o casal e para a família, não se restringindo apenas ao cuidado da mulher e do seu filho (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016). O Capítulo 15 (Abordagem familiar perinatal) sugere uma metodologia para a abordagem familiar no período perinatal. • Mudanças físicas e psicológicas. Orientar sobre as mudanças físicas e psicológicas que ocorrem na gestação e procurar identificar especialmente a presença de depressão. Recomenda-se que todas as mulheres grávidas sejam avaliadas, pelo menos uma vez, durante a gestação (ou no período pós-parto) para detectar depressão e sintomas de ansiedade usando uma ferramenta validada como forma de triagem (LOCKWOOD; MAGRIPLES, 2016b). O capítulo 4 (Aspectos psicoafetivos da gestação) aborda essa questão. • Atividades de trabalho. Se a gravidez não for complicada, a gestante pode permanecer em suas atividades laborais, sem interrupção, até o início do trabalho de parto. No entanto, a segurança no trabalho e as exigências físicas da atividade na mulher devem ser consideradas, especialmente em mulheres que apresentam maior risco de parto prematuro (LOCKWOOD; MAGRIPLES, 2016a). • Sexualidade. Identificar e discutir sentimentos comuns relacionados à sexualidade como: rejeição pelo companheiro, medo de lesar o feto, modificação na libido, ansiedade (ver capítulo 4. Aspectos psicoafetivos da gestação). A gestante deve ser orientada que a atividade sexual na gestação não encontra-se associada a nenhum resultado adverso. Atividade sexual, mesmo no 3º trimestre, não encontra-se associada ao aumento do risco para trabalho de parto prematuro e deve ser evitada apenas em situações especiais como hemorragia, ruptura prematura de membranas e trabalho de parto prematuro vigente (LOCKWOOD; MAGRIPLES, 2016a). • Atividade física. Mulheres em gestações não complicadas devem ser encorajadas a manter a prática de atividade física. Os riscos são mínimos e identificam-se benefícios, entre eles: Abordagem da gestante, diagnóstico de gestação, anamnese e orientações Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 41 melhora da aptidão física, controle do ganho de peso gestacional, redução da dor lombar e, possivelmente, uma redução no risco de desenvolver diabetes gestacional ou pré-eclâmpsia. Recomenda-se exercício de intensidade moderada (capaz de manter uma conversa normal durante o exercício), que inclui exercícios aeróbicos e treinamento de força, realizada durante 30 minutos diários, cinco a sete dias por semana. As mulheres até então sedentárias devem iniciar com uma periodicidade de três vezes na semana e por 10-20 minutos e ir aumentando gradualmente. Esportes com risco maior de quedas devem ser evitados pela possibilidade de lesões articulares e trauma abdominal. O trauma abdominal pode resultar em descolamento da placenta, o que pode levar à morte fetal. O mergulho também deve ser evitado pela possibilidade de também causar dano fetal Recomenda-se às mulheres com alto risco de parto prematuro ou restrição do crescimento fetal que reduzam a sua atividade física no segundo e terceiro trimestres (LOCKWOOD; MAGRIPLES, 2016a). • Alimentação e suplementação. Orientar a gestante para uma alimentação saudável, suplementação de ferro, ácido fólico e ganho de peso adequado na gestação (ver capítulo 8. Nutrição na gestação e puerpério). O pré-natal é uma oportunidade importante para discutir riscos como sobrepeso e obesidade, e aconselhar sobre alimentação e exercício como forma de adquirir um ganho de peso adequado (LOCKWOOD; MAGRIPLES, 2016a). • Imunizações. Identificar estado vacinal e orientar imunizações (ver capítulo 7. Imunização na pré-concepção, gestação e puerpério no acompanhamento pré-natal de baixo risco). • Saúde bucal. Orientar sobre hábitos saudáveis à saúde bucal como escovação dos dentes e uso de fio dental e orientar sobre a importância de consultar, durante a gestação (de preferência no segundo trimestre), com a equipe de saúde bucal (ver capítulo 9. Saúde bucal na gestação) • Violência. Recomenda-se avaliar a possibilidade da gestante ser vítima de violência (passada ou atual). Estima-se que a prevalência é alta e que, excluindo pré-eclampsia, a violência doméstica é mais prevalente que qualquer outra condição clínica detectável nas consultas de pré-natal (CUNNINGHAM et al, 2016). O profissional deve estar ciente de sinais de abuso tais como contusões, ferimentos, depressão, absenteismo em consultas. A exposição à violência por parceiro íntimo está associado a um risco aumentado de recém- nascidos de baixo peso e parto prematuro. O aconselhamento e intervenção, que deve ser coordenada com o serviço social (CUNNINGHAM et al, 2016) pode reduzir a violência praticada por parceiro íntimo e melhorar o resultado da gestação. A gestante com história de ter sofrido violência no passado pode apresentar distúrbios psicológicos desencadeados pelo processo normal do trabalho de parto e a discussão destas questões com a gestante podem aliviar um pouco este sofrimento (LOCKWOOD; MAGRIPLES, 2016a). • Bebidas alcoólicas e cafeína. Identificar o hábito (muito comum entre mulheres de 18 a 44 anos) de ingerir bebidas alcoólicas e recomendar a sua cessação. O álcool está associado com efeitos negativos durante toda a gestação, inclusive a defeitos físicos e alterações psíquicas e de desenvolvimento neurocomportamental denominados de Síndrome Alcoólico Fetal. Não foi determinada uma quantidade segura do volume de álcoolque possa ser Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 42 ingerida durante a gestação, sendo assim, a abstinência é recomendada. Mulheres com padrões de consumo pesados deve ser encaminhadas para tratamento profissional especializado (LOCKWOOD; MAGRIPLES, 2016a). A associação de efeitos adversos (abortamento, prematuridade, restrição do crescimento fetal) e o uso pesado de cafeína (cerca de 5 xícaras por dia ou 500mg de cafeína) é controversa. Recomenda-se que o seu consumo seja limitado a 300 mg diários (cerca de 3 xícaras de 150 ml) (CUNNINGHAM et al, 2016). • Tabagismo. São efetivas as intervenções sobre gestantes tabagistas. A gestante deve ser informada que parar de fumar em qualquer estágio da gestação traz benefícios. Entre os riscos relacionados ao tabagismo (passivo ou não) durante a gestação, encontramos: baixo peso ao nascer, restrição do crescimento fetal, parto prematuro, aborto espontâneo, ruptura prematura de membranas, placenta prévia, descolamento prematuro de placenta, morte fetal e morte neonatal. (LOCKWOOD; MAGRIPLES, 2016a). Recomendamos leitura do capítulo 12. O tabagismo e a gestação, que aborda os riscos e forma de abordagem da mulher gestante tabagista. • Drogas ilícitas. Recomenda-se identificar o uso de drogas ilícitas como maconha, cocaína, crack e outras drogas em gestantes. A gestante pode não admitir o uso de drogas devido a culpa sobre o seu efeito sobre a gravidez ou por temer consequências legais, incluindo a perda da guarda dos filhos. Poucos estudos randomizados avaliaram a abordagem ideal para toxicodependentes grávidas. Estudos observacionais sugerem que a combinação de tratamento de abuso de substâncias com pré-natal abrangente pode reduzir a frequência de algumas complicações maternas e neonatais, tais como sofrimento fetal, baixo peso ao nascer e síndrome de abstinência logo após o nascimento. A cocaína pode causar vasoconstrição dos vasos uterinos, que é o principal mecanismo provável de lesão fetal e placentário levando a descolamento prematuro de placenta, aborto espontâneo, prematuridade e morte fetal. As gestantes devem ser orientadas para não utilizarem maconha na gestação e lactação. Embora não existam estudos de alta qualidade que mostrem efeitos adversos da maconha no desfecho da gestação, existem estudos conflitantes (LOCKWOOD; MAGRIPLES, 2016a). Em relação ao tolueno, solvente comumente usado em tintas e colas, quando utilizado no início da gestação por inalação intencional, está associado a alteração semelhante à síndrome alcoólica fetal (CUNNINGHAM et al, 2016). • Viagens. Em relação a viagens, os riscos às gestantes estão associados principalmente à exposição de infecções endêmicas (ex: malária, Zika virus) e/ou ambientais. O destino, a facilidade de acesso a serviços de saúde no local e as condições de saneamento devem ser considerados, antes de desaconselhar ou não. Em viagens de automóvel todas as gestantes devem usar o cinto de segurança de três pontos, mantendo o abdômen livre, a porção superior deve cruzar sobre o peito, entre os seios, e a inferior deve cruzar o corpo sobre a pélvis. Em viagens de avião, a maioria das companhias aéreas permitem passageiras gestantes até 37 semanas. Em longas viagens de avião recomenda-se movimentar os Abordagem da gestante, diagnóstico de gestação, anamnese e orientações Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 43 membros inferiores e o uso de meias elásticas visto que o seu emprego é efetivo na redução do risco de trombose (LOCKWOOD; MAGRIPLES, 2016a). • Hipertermia. A elevação da temperatura corporal materna por doença febril ou outra fonte (por exemplo, banheira de hidromassagem ou sauna) no primeiro trimestre da gravidez pode estar associado com um risco aumentado de anomalias congênitas e defeitos do tubo neural. Recomenda-se o uso de antipirético no caso de febre, e evitar banheira de hidromassagem ou sauna no primeiro trimestre de gestação (LOCKWOOD; MAGRIPLES, 2016a). • Infecções. Algumas infecções são especialmente prejudiciais na gestação e algumas intervenções devem ser tomadas para minimizar o risco. Algumas das principais infecções são: influenza, tétano, difteria, coqueluche, toxoplasmose, citomegalovirus, varicela, parvovirus, listeria. Em relação a exposição ao ZiKa vírus durante a gestação e a sua associação com microcefalia congênita, as mulheres grávidas devem ser aconselhadas a adiar viagens para áreas de maior risco. Mulheres que precisam viajar devem ser aconselhadas a tomar precauções contra picadas de mosquito, incluindo vestir roupas de mangas compridas e calças compridas, ficar em lugares com ar condicionado, dormir sob um mosquiteiro e usar repelente de insetos. Além disso, as mulheres gestantes cujos parceiros do sexo masculino tenham viajado para regiões afetadas devem se abster de atividade sexual ou usar preservativos até o término da gestação (LOCKWOOD; MAGRIPLES, 2016a). 3.5.2 Orientações mais propícias para segundo e terceiro trimestre: • Sinais de alerta. Identificar a cada consulta de pré-natal a ocorrência de sangramento vaginal, perda de líquido vaginal, diminuição na movimentação fetal, sinais de trabalho de parto e sintomas associados a pré-eclampsia. Entre os sintomas de pré-eclâmpsia encontram-se: cefaléia que não resolve com analgésico comum, alterações visuais (visão borrada, luzes diante dos olhos), dor abdominal no quadrante superior direito (LOCKWOOD; MAGRIPLES, 2016b). Os sintomas de pré-eclampsia podem aparecer tanto na gestação quanto no puerpério imediato. • Momento do parto. Orientar sobre questões, por exemplo, de quando (em que momento) procurar a maternidade de referência, sobre sinais e sintomas de trabalho de parto, tipo de parto, alívio da dor, cuidados pós-parto e amamentação. Essas informações são consideradas úteis para que os futuros pais prepararem-se melhor para o parto e parentalidade (LOCKWOOD; MAGRIPLES, 2016b). (ver capítulo 18, Atenção à gestante no período perinatal: humanização do parto e do nascimento). • Visita a maternidade. Estimular e orientar visita à maternidade que pode ser realizada indo diretamente ao Centro Obstétrico, sem necessidade de agendamento prévio (ver capítulo 18, Atenção à gestante no período perinatal: humanização do parto e do nascimento). A gestante tem direito, garantido por lei (Lei nº 11.108, de 7/04/2005, regulamentada pela Portaria GM 2.418, de 2/12/2005), a um acompanhante de sua escolha durante o trabalho de parto, no parto e no pós-parto (BRASIL, 2005; BRASIL. Ministério da Saúde, 2005). Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 44 • Consulta de puerpério. Orientar sobre a importância da consulta de puerpério (ver capítulo 19, A consulta de puerpério) e os cuidados com o recém-nascido (LOCKWOOD; MAGRIPLES, 2016b). • Amamentação. Orientar sobre a amamentação e sobre a importância do aleitamento materno, caso a mãe não tenha nenhum impeditivo para a prática. Existem boas evidências de que intervenções educacionais e de apoio melhoram as taxas de aleitamento materno (LOCKWOOD; MAGRIPLES, 2016b). Referências BRASIL. Lei n. 11.108, de abril de 2005. Altera a Lei no 8.080, de 19 de setembro de 1990, para garantir às parturientes o direito à presença de acompanhante durante o trabalho de parto, parto e pós-parto imediato, no âmbito do Sistema Único de Saúde - SUS. 2005. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2005/Lei/L11108.htm>. Acesso em 08 ago. 2016. BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria GM n. 2.418, de 2 de dezembro de 2005. Regulamenta, em conformidade com o art. 1º da Lei nº 11.108, de 7 de abril de 2005, a presença de acompanhante para mulheres em trabalho de parto, parto e pós-parto imediatonos hospitais públicos e conveniados com o Sistema Único de Saúde - SUS. 2005. Disponível em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2005/prt2418_02_12_2005.html>. Acesso em: 08 ago. 2016. ______. Prevenção e tratamento dos agravos resultantes da violência sexual contra mulheres e adolescentes e aspectos jurídicos do atendimento às vítimas de violência sexual: norma técnica. 3. ed. Brasília, DF: Ed. Ministério da Saúde, 2012. Disponível em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/prevencao_agravo_violencia_sexual_mulheres_3ed.pdf> Acesso em: 04 ago. 2016. ______. Protocolos da atenção básica: saúde das mulheres. Brasília, DF: Ed. Ministério da Saúde, 2016. Disponível em: <http://189.28.128.100/dab/docs/portaldab/publicacoes/protocolo_saude_mulher.pdf>. Acesso em: 08 ago. 2016. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Teste rápido de gravidez na atenção básica: guia técnico. Brasília, DF: Ed. Ministério da Saúde, 2013. Disponível em:<http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/teste_rapido_gravidez_guia_tecnico.pdf>. Acesso em: 04 de julho de 2016. CUNNINGHAM, F. G. et al. Obstetrícia de Willians. 24. ed. Porto Alegre: AMGH, 2016. FREITAS, F. et al. Rotinas em obstetrícia. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2006. GUSSO, G.; LOPES, J.M.C. Tratado de medicina de Família e Comunidade, ARTMED, Cap 13, 1ª ed. 2012. GUTFREIND, C. Narrar, ser mãe, ser pai & outros ensaios sobre a parentalidade. Rio de Janeiro: Difel, 2010. HOSPITAL DE CLÍNICAS DE PORTO ALEGRE. Serviço de Genética Médica. Sistema nacional de informações sobre agentes teratogênicos (SIAT). Gravidez segura. 2016. Disponível em: <http://gravidez-segura.org>. Acesso em: 16 ago. 2016. LOCKWOOD, C. J.; MAGRIPLES, U. Initial prenatal assessment and first-trimester prenatal care. UpToDate. 2016a. Disponível em: <http://www.uptodate.com/contents/initial-prenatal-assessment-and- Abordagem da gestante, diagnóstico de gestação, anamnese e orientações Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 45 first-trimester-prenatal-care?source=see_link§ionName=Airline+travel&anchor=H28#H28> Acesso em: 09 ago. 2016. ______. Prenatal care (second and third trimesters). UpToDate. 2016b. Disponível em: <http://www.uptodate.com/contents/prenatal-care-second-and-third-trimesters?source=see_link>. Acesso em: 09 ago. 2016. LOPES, J.M.C. Método de Abordagem Centrado na Pessoa, PROMEF, Ciclo 10 Vol 2, pag 9, 2015. STEWART, M. Patient-centered medicine: transforming the clinical method. 3 ed. Abingdon, United Kingdon: Redcliffe Medical; 2014. Aspectos psicoafetivos na gestação Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 47 4. ASPECTOS PSICOAFETIVOS NA GESTAÇÃO Gisele Milman Cervo Maria Amália M. Silveira Paula Xavier Machado Neste capítulo, pretende-se abordar aspectos psicoafetivos presentes na gestação, no parto e no puerpério. Além disso, busca-se auxiliar profissionais de equipes de Atenção Primária à Saúde (APS) a compreenderem e trabalharem essa temática nas consultas. Serão problematizadas ações de promoção, prevenção e tratamento em saúde mental nesta fase do ciclo vital. Os conceitos teóricos serão trabalhados sob a ótica das novas configurações familiares, de modo a pensar a família no seu sentido ampliado. 4.1 Introdução A constituição da maternidade é um processo que se inicia muito antes da gestação, a partir de relações e identificações estabelecidas com os cuidadores e demais figuras de referência ao longo da vida, e traz consigo fantasias conscientes e inconscientes do que é ser mãe. Os aspectos transgeracionais e culturais também entram em cena neste processo (PICCININI et al, 2008). Deste modo, considerando o atual momento da nossa sociedade, encontraremos diversas representações sobre ser gestante e diferentes configurações familiares onde a gestação pode ocorrer. Segundo Lévi-Strauss (1976), são os vínculos entre os indivíduos que criam a família, de modo que esta não é uma entidade fixa. E as variações possíveis desses vínculos caracterizam as diversas formas de configuração famíliar. Podemos, também, compreender que parentalidade não é sinônimo de parentesco e filiação, e pode ser exercida por pessoa sem vínculo legal ou de consanguinidade com a criança (ZAMBRANO, 2006). Sendo assim, encontraremos nos pré-natais realizados na APS famílias compostas pela gestante e sua mãe, um irmão ou outro familiar, gestantes solteiras, casais hetero ou homoafetivos, recasamentos, entre outros. É importante acolher as diferentes famílias que se apresentam a nós, compreendendo que a gestação, o parto e o nascimento são momentos de crise evolutiva com forte potencial de mudanças e formação de vínculos em geral. 4.2 Aspectos psicoafetivos presentes na gestação, no parto e no puerpério Quando pensamos na chegada de um novo bebê, precisamos incluir situações diversas, pois nem todas as famílias que terão um bebê planejavam ter um filho naquele momento. Assim, a descoberta de algumas gestações pode ser muito festejada, enquanto a notícia para outras famílias pode não ser tão bem aceita. É importante não julgar as reações das famílias, pois, mesmo quando o bebê foi desejado, é comum que os pais sintam insegurança e ambivalência em relação à decisão de ter um filho, questionando-se se estão mesmo preparados, se esse era o melhor momento para engravidar e o quanto estão dispostos a renunciarem a outras escolhas para priorizar a chegada de um novo membro no sistema familiar. Nas famílias em que essas reflexões ainda não estavam sendo realizadas, a gestação pode causar um rechaço inicial ou um susto muito grande e os pais precisarão de tempo para processar a notícia e elaborar a situação. Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 48 A gestação por si só gera sentimentos ambivalentes, uma vez que este fenômeno implica grandes mudanças, tanto interpessoais quanto intrapsíquicas, e envolve perdas e ganhos (MALDONADO, 1976). Sendo assim, é importante que o profissional que realiza a consulta de pré-natal oportunize um espaço de diálogo à gestante e à família e, através de uma escuta atenta, tente compreender que sentimentos, desejos, medos e expectativas estão em jogo neste processo (LEBOVICI, 1987). Oportunizando espaço para que a gestante expresse tanto afetos de aceitação da gravidez, quanto dúvidas e inseguranças, o profissional permitirá a construção de um vínculo de confiança com ela e sua família. A vivência de oscilações entre momentos de maior excitação com a gravidez e outros de maior sensibilidade ou tristeza ocorre tanto devido a alterações hormonais, quanto a mudanças no papel social dos pais e nas representações que vão tendo do seu bebê (ROTHSTEIN, 2013). Antes que a gestante encontre com seu bebê real após o nascimento, ela se relacionará com um bebê imaginário. Este filho imaginário costuma ser um produto de diversas experiências que a mãe viveu desde pequena e antecede o momento da concepção - nas brincadeiras infantis ou nas fantasias adolescentes, as representações de filho já estão presentes (SOULÉ, 1987). Ainda que o bebê imaginado seja diferente do bebê real, no transcorrer da gestação a mãe pode ir sentindo os movimentos do feto ou vê-lo nas ultrassonografias, o que vai viabilizando uma aproximação entre o bebê fantasiado pela mãe e o bebê tal como é. O pai também passa por esse processo de imaginar e idealizar como será seu filho e, tal como a mãe, precisará aproximar o bebê do seu mundo psíquico com o filho que está chegando. Assim, a parentalidade não se inicia apenas com a gravidez ou nascimento do bebê, pois as identificações infantis também interferem no modo como os pais vão vivenciar sua parentalidade.Em relação ao uso de ultrassonografias na gestação, Rothstein (2013) refere que ver o bebê vivo dentro do corpo materno confirma a aptidão da gestante como procriadora, bem como evidencia a coexistência entre mãe e feto, sendo esse um esboço do processo de diferenciação mãe/bebê. Através da tecnologia, o corpo da gestante ganha então transparência e é possível se conectar com o que se passa com o feto no seu interior. Mas não é só o corpo que pode ficar suscetível a uma maior troca entre o interior e o exterior: o psiquismo da gestante também ganha transparência na gravidez e ela passa a ficar mais permeável a ideias, sentimentos, fantasias e desejos que, de outra forma, seguiriam inacessíveis. Esta condição psíquica particular da gestação, em que o pré-consciente e o inconsciente chegam à consciência, foi chamada por Bydlowski de “transparência psíquica” (ROTHSTEIN, 2013). Este fenômeno é favorecido pelo duplo status do bebê, que está presente no interior do corpo materno e na sua psique, mas ainda está ausente da realidade externamente perceptível. Stern (1997) também dedica uma atenção especial ao período gestacional e às transformações da gestante, referindo que nesta fase a mãe sofre alterações na sua organização psíquica e vivencia a constelação da maternidade, que se configura como uma nova série de tendências de ação, sensibilidades, fantasias. Ainda que o autor esclareça que esse não é um fenômeno universal e nem obrigatório, ele costuma aparecer na maioria das mulheres que vivem em sociedades ocidentais atualmente. Aspectos psicoafetivos na gestação Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 49 Stern (1997) explica que, quando uma mulher ingressa no universo da maternidade, ela passa a se haver com quatro grandes temas: • vida e crescimento - se pergunta se será capaz de manter a vida e o crescimento do(a) filho(a); • relacionar-se primário – se será capaz de se envolver emocionalmente com o bebê e adaptar-se a ele, suprindo suas necessidades afetivas e psíquicas; • matriz de apoio – se conseguirá criar e manter uma rede de apoio para ela e o bebê; • reorganização de identidade – se será capaz de transformar sua própria identidade e assumir novas funções. É importante que o profissional de saúde esteja atento a esses temas quando for acompanhar gestantes e puérperas, de modo a investigar como a mulher está vivenciando tais questões na gravidez e na relação com o bebê. Em relação à escuta que se faz da gestante e acompanhante nas consultas de pré-natal e puericultura, é importante atentar não apenas para o que os pais viveram na sua infância e vida adulta, mas principalmente para a forma como conseguem falar sobre suas experiências e que sentido atribuíram a essas vivências. Bowlby (1989) refere que não é somente o que ocorreu no passado dos pais que marca a forma como eles se relacionam com seu bebê, e sim a forma como a história passada é organizada psiquicamente e narrada. Pais que conseguem ter livre acesso a suas lembranças e organizá-las coerentemente, contando sobre suas vivências e relacionando-as de forma coerente com as emoções suscitadas, tendem a estabelecer um vínculo de apego seguro com seu bebê. Enquanto pais que relatam suas vivências sem afeto ou com contradições abundantes, sem se conectarem com o que sentiram, têm mais dificuldade de construir um apego seguro. Sabe-se que, na clínica perinatal, os sintomas apresentados pelo bebê podem se relacionar a fantasmas parentais. Assim, tais sintomas têm a marca da problemática parental, uma vez que conflitos infantis dos pais podem determinar as identificações da criança. O processo de filiação é permeado pela transmissão consciente e inconsciente da história infantil dos progenitores, de seus conflitos inconscientes, da relação com seus pais (ZORNIG, 2010). A seguir, procura-se descrever os aspectos psicológicos envolvidos na gestação a partir da divisão dessa em três trimestres e o que é mais marcante em cada um deles. 4.2.1 Primeiro trimestre Neste período, é importante avaliar em que condições essa gestação está ocorrendo: se com ou sem companheiro, a existência de outros filhos, as experiências com gestações anteriores, se planejou a gestação e as condições socioeconômicas da família. Deve-se considerar necessidades intelectuais, emocionais, sociais e culturais das mulheres, seus filhos e famílias, e não somente oferecer um cuidado biológico (BRASIL. Ministério da Saúde, 2006). Como já mencionado, neste período, ocorrem sentimentos ambivalentes relativos à aceitação da nova condição de mãe. A mulher busca, na primeira consulta de pré-natal, a confirmação de sua gestação e de suas condições para gestar. Podem surgir sentimentos de insegurança, medo de aborto e desejo de saber se o bebê está bem. A gestante pode buscar o serviço de saúde como um recurso que Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 50 lhe dará apoio e tranquilidade para superar e esclarecer suas dúvidas (BRASIL. Ministério da Saúde, 2006). Os profissionais de saúde devem ficar atentos a sinais e sintomas sugestivos de dificuldade na aceitação da gestação (BRASIL. Ministério da Saúde, 2012). Caso a gestante expresse que não deseja a criança e que pensa em um aborto, é importante respeitá-la, escutar os motivos e manter atitude acolhedora sem julgamentos morais, a fim de não afastá-la e não aumentar seu sentimento de culpa e desamparo. Estimula-se que ela reflita sobre os motivos da escolha e ajuda-se a pensar sobre as consequências do aborto em sua vida. A intervenção deve ser no sentido de proteger a gestante de atitudes impulsivas ou de exposição a riscos para si e para o bebê. Ao longo do primeiro trimestre, a gestante ainda não sente os movimentos do feto e nem o percebe objetivamente, as mudanças corporais são discretas e as manifestações mais comuns de ambivalência são sentimentos de dúvidas entre estar ou não grávida, ainda que com confirmação clínica. Há um misto de sentimentos de alegria, irrealidade, apreensão e, em alguns casos, franca rejeição. Mudanças na identidade e no papel ocorrem também com o homem, uma vez que a paternidade é compreendida como transição emocional e existencial (BRASIL. Ministério da Saúde, 2012; MALDONADO, 1976). Costuma ocorrer maior sonolência durante o início da gestação, que pode ser entendida como uma defesa biológica, pois proporciona ao organismo maior repouso, ao mesmo tempo em que proporciona que a mulher vá assimilando aos poucos as transformações corporais e psíquicas. Também, algumas mulheres podem ficar mais ansiosas e apresentar insônia (SOIFER, 1992). Enjôos e vômitos, embora desconfortáveis, podem ter a função de evidenciar a gravidez, já que ainda não há maiores mudanças corporais e nem movimentos fetais neste período. Em alguns casos, vômitos e diarreias podem sinalizar a ambivalência da gestante. Assim, ressalta-se a importância de avaliar singularmente o significado dos sintomas para cada gestante (SOIFER, 1992). 4.2.2 Segundo trimestre Neste período, o bebê já é melhor percebido pela maioria das mulheres. Os movimentos do feto, a ausculta cardíaca, a visualização de sua imagem ecográfica favorecem essa percepção. Além disso, há a alteração do esquema corporal da mulher (SOIFER, 1992). Diante da maior percepção do bebê, o desejo e a atividade sexual do casal podem sofrer alterações. Podem, por exemplo, aflorar fantasias sobre como é a relação sexual na presença de um terceiro ou o receio de machucar o feto durante o ato sexual. O profissional de saúde pode abordar essa flutuação normal da atividade sexual na consulta de pré-natal (SILVA; FIGUEIREDO, 2005). Durante as primeiras percepções do movimento do feto, a gestante pode sentir uma sensação estranha e nova, ainda indefinida,que não se parece com um ser humano mexendo-se. A identificação mais discriminada dos movimentos do bebê vem aos poucos. Algumas mulheres podem ter o embotamento da percepção e negar tais movimentos como uma forma de lidar com a ansiedade e o desconhecido. É importante ficar atento a situações de negação maciça (SOIFER, 1992). O parceiro também costuma passar por transformações psíquicas na gestação e pode apresentar sinais de ansiedade relativos à capacidade de proteger a família, ao novo papel de cuidador, Aspectos psicoafetivos na gestação Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 51 a ficar de fora da relação com a criança, entre outros (SOIFER, 1992). A escuta do parceiro e o incentivo para que participe ativamente das consultas é importante. 4.2.3 Terceiro trimestre No final da gestação persistem sentimentos relativos ao desempenho dos papeis materno e paterno, à saúde do bebê e à acolhida do novo membro na família nuclear e ampliada. Costumam surgir sentimentos relacionados ao parto e a sua imprevisibilidade, o medo da dor e o medo da morte. Há receio de que o trabalho de parto possa dilacerar a genitália e que isso tenha efeitos na feminilidade (SARMENTO; SETÚBAL, 2003), subsistindo então a ideia de irreversibilidade relativa à imagem corporal anterior à gravidez (SILVA; FIGUEIREDO, 2005). A proximidade do parto pode preocupar a gestante, uma vez que o hospital é um ambiente desconhecido e “assustador”. Estimular uma visita prévia à maternidade é valido para que a família sinta-se mais segura e tranquila, minimizando a ansiedade. O Hospital Nossa Senhora da Conceição recebe gestantes e acompanhantes interessados em visitar o centro obstétrico diariamente e sem necessidade de agendamento prévio (ver capítulo 14. Fatores de risco gestacional e serviços de referência no GHC de atenção à saúde da gestante e do feto). No fim do terceiro trimestre, espera-se que a mãe viva uma condição psicológica especial, chamada por Winnicott (2000) de Preocupação Materna Primária. A sensibilidade da gestante fica aumentada no término da gestação e após as primeiras semanas do nascimento do filho(a), o que permite que ela se adapte intimamente às necessidades iniciais do bebê, devotando-se de um modo muito particular a ele. A atenção da mãe se descentra das demais tarefas, para voltar-se sensivelmente ao que o bebê demanda, permitindo que seus movimentos espontâneos sejam acolhidos e que ele possa ir se constituindo. Mães muito operativas, que realizam de modo mais mecânico o cuidado do bebê e que apresentam dificuldade de sintonizar com o ritmo e necessidade do filho, podem provocar- lhes reações de invasão. Nesses casos, o bebê pode ter o seu “continuar a ser” interrompido ou alterado. Importante salientar que o bebê vai se constituindo desde à concepção, havendo continuidade entre a vida intrauterina e perinatal. Desde o útero, o bebê interage com seu ambiente pré-natal (pode ouvir a voz da mãe e outros estímulos externos, chutar e movimentar-se, ter trocas com irmãos nas gestações gemelares, entre outros). Assim, as vivências da gestante (se sentiu-se bem e amparada na gestação, se sofreu violência nesse período, se fez uso de drogas e medicações…) precisam ser escutadas, não só no que dizem respeito à mãe, mas também no que concerne às marcas prénatais que ficam no bebê. (WILHEIM, 2000). 4.3 Gravidez na Adolescência Dentre os fatores relacionados pelos autores como predisponentes à gestação na adoloescência, estão o contexto cultural atual, mais liberal que outrora, o início da puberdade e da menarca, que vêm ocorrendo cada vez mais cedo, assim como o início da vida sexual. Segundo a Unesco, em pesquisa realizada em 2001, a média da primeira relação sexual é de 14 - 15 anos (HERCOWITS, 2002). Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 52 Abandono escolar, baixo nível de escolaridade da adolescente, companheiro e família, ausência de planos futuros e repetição de modelo familiar (mãe também adolescente) são fatores de risco (RODRIGUES, 2010). Tanto Hercowits (2002) quanto Rodrigues (2010) elencam outros comportamentos típicos da adolescência como propulsores da gravidez nesta etapa, como o "pensamento mágico", ou seja, a sensação de invulnerabilidade e onipotência, a ideia de que "isso nunca vai acontecer comigo", associado ao desconhecimento sobre a sexualidade e sua saúde reprodutiva. O contexto social onde a adolescente está inserida, as dificuldades de relacionamento familiar e a baixa autoestima podem levar à gestação precoce. Para essas adolescentes a gravidez também pode trazer a possibilidade de mudança de status, bem como também ser encarada como um evento normal, não problemático e aceito dentro das normas e costumes da cultura que está inserida. Quanto às repercussões da gravidez na adolescência, elas podem ser de caráter orgânico e principalmente psicossocial, com um possível isolamento e afastamento do grupo de amigos. Também no plano educacional, as pesquisas referem altos índices de abandono escolar e da profissionalização após a gestação. Do ponto de vista psicológico, é frequente que se encontre jovens inseguras e receosas quanto ao seu futuro como mães, tendo-se em conta que a gravidez é sabidamente um momento de maior sensibilidade e instabilidade emocional. É importante estar atento à saúde psíquica da adolescente, oferecendo uma escuta acolhedora, disponível a esclarecer dúvidas e oferecer informações referentes a este período. Uma vez diagnosticada a gravidez, é importante ficar atento para que o pré-natal esteja voltado às necessidades das adolescentes, estimulando a participação do parceiro, e na ausência deste, um familiar responsável da rede de apoio da jovem. Importante também reconhecer que o significado da gravidez na adolescência é múltiplo, variando caso a caso. A gravidez e a maternidade na adolescência podem tanto romper com a trajetória imaginária que a adolescente havia traçado para sua vida, quanto podem ser fruto de um projeto desejado. Hercowitz (2002, p. 392) ainda traz casos em que a gestação não havia sido planejada, mas “passou a ser desejada pelo casal e até mesmo pela família que tem muitas vezes uma reação inicial de rejeição mas, num segundo momento, passa a aceitá-la e até a apoiá-la”. 4.4 Identificação de sinais e sintomas de sofrimento psíquico na gestação A gestação e o pós parto são períodos de alto risco em relação ao desenvolvimento de transtornos psiquiátricos. A depressão pós parto é o mais prevalente deles e atinge, no Brasil, quase 20% das mulheres (MORAES et al, 2006). Reconhece-se a importância de incluir na rotina de pré-natal cuidados relativos à saúde mental materna, uma vez que o transtorno mental materno é um dos fatores de risco ao desenvolvimento biopsicossocial da criança. O impacto da doença mental materna tem sido estudado a partir de aspectos tanto do neurodesenvolvimento e de fatores intrauterinos, quanto de impactos psicossociais da parentalidade e da experiência infantil (NEWMAN et al, 2016). É fundamental que no pré natal a gestante seja orientada sobre mudanças psicológicas que ocorrem na gestação e que se procure identificar a presença de sinais de ansiedade e de depressão. Aspectos psicoafetivos na gestação Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 53 Recomenda-se que todas as mulheres grávidas sejam avaliadas, pelo menos uma vez, durante a gestação ou no período pós parto, para detectar sintomas de depressão e ansiedade. Indica-se que a avaliação seja realizada através da Escala de Depressão Pós Natal de Edimburgo (Quadro 1), instrumento de rastreamento validado no Brasil, de baixo custo e de fácil aplicação pelos profissionais de saúde (FIGUEIRA et al, 2009; LOCKWOOD; MAGRIPLES, 2016). A aplicaçãodessa Escala não dura mais do que cinco minutos. Trata-se de um instrumento de auto-registro composto de 10 questões, cujas opções são pontuadas de 0 a 3, de acordo com a presença ou a intensidade do sintoma. A somatória dos pontos perfaz escore de 30, sendo considerado de sintomatologia depressiva valor igual ou superior a 12, como definido na validação da escala em uma amostra brasileira. Os itens abordam sintomas psiquicos como humor depressivo, sintomas fisiológicos e alterações do comportamento (RUSCHI et al, 2007). Nas consultas, caso a mulher ou a família apresentem sinais e sintomas de transtornos mentais ou histórico de adoecimento mental, sugere-se que os profissionais com formação em saúde mental da equipe ou da rede municipal de saúde sejam acionados para avaliação do caso (ver serviços de referência no subitem 4.5. Rede de Saúde Mental). 4.4.1 Ansiedade e depressão na gestação e no pós parto Ansiedade materna na gestação pode estar relacionada a problemas no temperamento infantil, no comportamento, no desenvolvimento cognitivo, a problemas emocionais e comportamentais na infância e na adolescência e inclusive em mudanças na estrutura cerebral. Contudo, é evidente que estes problemas são influenciados por fatores presentes desde o nascimento que vão além da influência intrauterina e do humor da mãe. Fatores ambientais, tais como a exposição a conflitos, violência interpessoal, privações sociais e deslocamentos são claramente importantes para entender o impacto da saúde mental materna e o desenvolvimento neurológico infantil. Os estudos atuais apontam relações de associação entre os aspectos descritos e não relações causais (NEWMAN et al, 2016). As mulheres são duas vezes mais vulneráveis a desenvolver episódios depressivos durante a vida e, ao contrário do que se imaginava anteriormente, a gravidez e o puerpério não oferecem proteção particular contra esse transtorno de humor. Os poucos dados disponíveis sobre a depressão durante a gravidez, ou depressão pré natal (DPN), sugerem que 7,5 a 20% das mulheres podem desenvolver um episódio de depressão maior durante a gravidez. A incidência desse transtorno do humor é maior no segundo e no terceiro trimestres de gestação. Além disso, mulheres com DPN têm 6,5 vezes mais chance de desenvolver depressão pós parto (DPP) (SILVA; ALMEIDA; QUARANTINI, 2009). Os mesmos autores referem que os fatores de risco para DPN são semelhantes àqueles de qualquer episódio depressivo, incluem história de depressão, ausência de parceiro, dificuldades conjugais, falta de apoio social, pobreza, violência familiar, aumento do estresse cotidiano e abuso de substâncias psicoativas. Também ressaltam que a DPN está associada a história de abortos prévios, gravidez não planejada e ambivalênica relacionada à gravidez. Mulheres com problemas de saúde, que requerem repouso no leito, também apresentam mais sintomas depressivos. Eles consideram ainda que mulheres que desenvolvem depressão durante a gravidez têm prejuízo na função social, embotamento Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 54 emocional, preocupações excessivas acerca da gravidez e inseguranças infundadas quanto a sua habilidade de tornar-se mãe. Investigações psicossociais identificaram fatores associados de forma significativa a DPP, dentre eles: história pessoal e familiar de depressão (não necessariamente relacionada à gestação), blues puerperal, estressores crônicos concomitantes (p. ex., luto e dificuldades financeiras), expectativas pré- natais frustradas no pós parto, falta de apoio social, vulnerabilidade pessoal, traços ansiosos de personalidade, relacionamentos familiares ou conjugais problemáticos e pobreza (SILVA; ALMEIDA; QUARANTINI, 2009). Mulheres que já tiveram DPP estão em maior risco de desenvolvê-lo em gestações subsequentes. Isso acontece em até metade das pacientes. Também está estabelecido que sintomas depressivos antes do parto são preditores de DPP. Uma porção substancial de depressões "pós-parto" começa durante a gravidez, embasando a hipótese de uma depressão única "perinatal", um continuum da DPN ao longo do período pós parto. O quadro clínico inclui: humor deprimido na maior parte do dia, anedonia, alterações de sono, apetite e psicomotoras, fadiga, sentimentos de inutilidade e/ou culpa inapropriada, prejuizo da concentração e da capacidade de tomar decisões, bem como pensamentos recorrentes de morte e/ou suicídio (SILVA; ALMEIDA; QUARANTINI, 2009). Mulheres submetidas a violência física atual ou no passado têm risco aumentado de depressão, tanto durante a gravidez quanto no puerpério. Abuso físico atual ou passado também pode resultar em interrupção da amamentação, com maior risco de doenças no bebê e aumento de sua vulnerabilidade a efeitos potencialmente deletérios da depressão materna (SILVA; ALMEIDA; QUARANTINI, 2009). A DPP deve ser diferenciada do blues puerperal (ou baby blues) e da psicose puerperal. O blues é uma alteração de humor não-patológica, comum no puerpério (85% das puérperas), que se resolve após 2 a 3 semanas do parto e se caracteriza por instabilidade de humor, choro fácil, tristeza, ansiedade e sentimentos de dependência, ou seja, sintomas depressivos com menor intensidade e repercussão que os da DPP. A psicose puerperal é rara e grave (0,1% das puérperas) e inicia-se precocemente no puerpério (dentro de 2 a 3 dias). Ela caracteriza-se por alucinações visuais e auditivas, delírios relacionados à morte do bebê, negação do nascimento ou necessidade de matar o bebê, agitação psicomotora e sintomas maniatiformes (SILVA; ALMEIDA; QUARANTINI, 2009). A depressão não tratada durante a gestação também está associada a má nutrição materna, baixa adesão ao atendimento médico pré-natal e aumento do uso de álcool e outras substâncias psicoativas. Os tratamentos regulares para depressão, isolados ou combinados, incluem terapia interpessoal, terapia cognitivo-comportamental (TCC), grupos de suporte, fototerapia, medicações anti-depressivas. As pesquisas apoiam a indicação de psicoterapia interpessoal individual e grupal com o tratamento eficaz (SILVA; ALMEIDA; QUARANTINI, 2009). Avalir o suporte social da mulher é igualmente importante. Recomenda-se orientar o cônjuge ou acompanhante e os familiares sobre os sinais, sintomas e tratamento dos transtornos mentais, bem como sobre a importância do cuidado pré-natal e da adoção de um estilo de vida saudável. Aspectos psicoafetivos na gestação Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 55 Quadro 1 - Escala de Depressão Pós-parto de Edimburgo (EPDS). Nome: Data: Idade do bebê: Pontuação: Aplicador da escala: Dado que teve um bebê há pouco tempo, gostaríamos de saber como se sente. Por favor, sublinhe a resposta que mais se aproxima dos seus sentimentos nos últimos 7 dias. Obrigado. Nos últimos 7 dias: Pontuação 1. Tenho sido capaz de rir e ver o lado divertido das coisas. Tanto como antes 0 Menos do que antes 1 Muito menos do que antes 2 Nunca 3 2. Tenho tido esperança no futuro. Tanta como sempre tive 0 Menos do que costumava ter 1 Muito menos do que costumava ter 2 Quase nenhuma 3 3. Tenho-me culpado sem necessidade quando as coisas correm mal. Sim, a maioria das vezes 3 Sim, algumas vezes 2 Raramente 1 Não, nunca 0 4. Tenho estado ansiosa ou preocupada sem motivo. Não, nunca 0 Quase nunca 1 Sim, por vezes 2 Sim, muitas vezes 2 5. Tenho-me sentido com medo ou muito assustada, sem motivo. Sim, muitas vezes 3 Sim, por vezes 2 Não, raramente 1 Não, nunca 0 6. Tenho sentido que são coisasdemais para mim. Sim, a maioria das vezes não consigo resolvê-las 3 Sim, por vezes não tenho conseguido resolvê-las como antes 2 Não, a maioria das vezes resolvo-as facilmente 1 Não, resolvo-as tão bem como antes 0 7. Tenho-me sentido tão infeliz que durmo mal. Sim, quase sempre 3 Sim, por vezes 2 Raramente 1 Não, nunca 0 8. Tenho-me sentido triste ou muito infeliz. Sim, quase sempre 3 Sim, muitas vezes 2 Raramente 1 Não, nunca 0 9. Tenho-me sentido tão infeliz que choro. Sim, quase sempre 3 Sim, muitas vezes 2 Só às vezes 1 Não, nunca 0 10. Tive ideias de fazer mal a mim mesma. Sim, muitas vezes 3 Por vezes 2 Muito raramente 1 Nunca 0 EPDS – Orientações para cotação. As respostas são cotadas de 0, 1, 2 e 3, de acordo com a gravidade crescente dos sintomas. As questões 3, 5, 6, 7, 8, 9 e 10 são cotadas inversamente (3, 2, 1, 0). Cada item é somado aos restantes para obter a pontuação total. Uma pontuação de 12 ou mais indica a probabilidade de depressão, mas não a sua gravidade. Fonte: MGFAMILIAR, [S.I.d] 4.4.2 Gestação de alto risco Mulheres cuja gestação seja de alto risco (ver capítulo 14. Fatores de risco gestacional e serviços de referência no GHC de atenção à saúde da gestante e do feto) estão mais vulneráveis a apresentarem sinais de sofrimento psíquico. Nessas gestações, pode haver maior dificuldade de Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 56 adaptação emocional por caráter diferente da sua condição de gestar (não pertencer às gestantes “normais”). Além disso, o fator de risco em si é um componente estressante. Quando a condição clínica de risco preexiste à gestação, essa pode ser encarada como nova chance de vida ou o triunfo sobre a doença. Por outro lado, pode haver rotura do equilibrio emocional anteriormente adquirido, com frequente deterioração ou perda da autoestima e surgimento de sentimento de incompetência, o que pode levar à dificuldade de vinculação. Nesses casos, é importante que a gravidez seja planejada, com avaliação pré concepcional e início oportuno de gestação, se possível. Se a condição de risco é diagnosticada durante a gestação, a mulher experimenta reações associadas à vivência do luto pela “morte da gravidez” idealizada. Pode haver sentimentos de culpa, raiva, censura (BRASIL. Ministério da Saúde, 2010). 4.5 Rede de Saúde Mental Gestantes com transtornos mentais, em fase de crise aguda, devem ser avaliadas nas Emergências de Saúde Mental do município (PORTO ALEGRE. Prefeitura Municipal. Secretaria Municipal de Saúde, 2011). São elas: • Emergência de Saúde Mental IAPI. Rua Três de Abril, 90 (Centro de Saúde IAPI - fundos). Bairro IAPI. Telefone 32893456. • Pronto Atendimento em Saúde Mental Vila dos Comerciários. Rua Professor Manoel Lobato, 151. Bairro Santa Tereza. Telefones 32894112, 32894040 ou 32894008. Adolescentes gestantes dependentes químicas, com idade entre 12 e 17 anos, podem ser encaminhadas, via sistema de regulação da Prefeitura Municipal de Porto Alegre, para internação. O GHC possui internação psiquiátrica para adolescentes adictas em período gestacional. 4.6 Considerações finais Neste capítulo, foram abordados os aspectos psicoafetivos envolvidos na gestação, tanto para a gestante, quanto para seus familiares. Há diferentes maneiras de as famílias lidarem com a notícia da gravidez e com as mudanças - físicas, psíquicas e afetivas - presentes em cada trimestre da gestação. Para contemplar essa multiplicidade de significados vividos na gestação e na maternidade, buscou-se um olhar ampliado para o tema, de modo a realizar uma escrita que abrisse a possibilidade de pensar sobre o assunto através de diferentes perspectivas. Atentou-se também para a importância de o profissional cuidar da saúde mental materna, visto que as condições emocionais da mãe tem um papel fundamental para o desenvolvimento do bebê. Para auxiliar na identificação do estado emocional materno, foram abordados diferentes sinais de sofrimento psíquico, bem como foram descritos sintomas presentes em quadros de ansiedade, depressão pós- parto, baby blues e na psicose puerperal. Quando verificado um significativo sofrimento psíquico na gestante, orienta-se que ela seja acompanhada com especial atenção pela equipe de APS e pela Rede de Saúde Mental. Ao profissional de saúde, fica o convite para escutar empaticamente e evitar orientações excessivas, bem como para transmitir informações simples, claras e de acordo com o interesse e Aspectos psicoafetivos na gestação Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 57 individualidade de cada gestante (SARMENTO; SETÚBAL, 2003). Assim, a contribuição do capítulo vai ao encontro de qualificar os cuidados perinatais. Referências BRASIL. Ministério da Saúde. Atenção ao pré-natal de baixo risco. Brasília, DF: Ed. Ministério da Saúde, 2012. Caderno de Atenção Básica, n. 32. Disponível em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/cadernos_atencao_basica_32_prenatal.pdf>. Acesso em: 05 out. 2016. ______. Gestação de alto risco: manual técnico. Brasília, DF: Ed. Ministério da Saúde, 2010. Disponível em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/gestacao_alto_risco.pdf>. Acesso em: 07 out. 2016. ______. Pré-natal e puerpério: atenção qualificada e humanizada: manual técnico. Brasília, DF: Ed. Ministério da Saúde, 2006. Disponível em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_pre_natal_puerperio_3ed.pdf>. Acesso em: 05 out. 2016. BOWLBY, J. Uma base segura: aplicações clínicas da teoria do apego. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989. FIGUEIRA, Patrícia et al . Escala de Depressão Pós-natal de Edimburgo para triagem no sistema público de saúde. Revista de Saúde Pública, São Paulo, v. 43, p. 79-84, ago. 2009. Suplemento 1. Disponível em: <http://www.scielosp.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034- 89102009000800012&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 05 out. 2016. HERCOWITZ, A. Gravidez na adolescência. Pediatria Moderna, São Paulo, v. 38, n. 8, p. 392-395, ago. 2002. LEBOVICI, S. O bebê, a mãe e o psicanalista. Porto Alegre: Artes Médicas, 1987. LÉVI-STRAUSS, Claude. As estruturas elementares do parentesco. Petrópolis: Vozes, 1976. LOCKWOOD, C. J.; MAGRIPLES, U. Prenatal care (second and third trimesters). UpToDate. 2016b. Disponível em: <http://www.uptodate.com/contents/prenatal-care-second-and-third- trimesters?source=see_link>. Acesso em: 09 ago. 2016. MALDONADO, Maria Tereza. Psicologia da gravidez, parto e puerpério. Petrópolis: Vozes, 1976. MGFAMILIAR. Escala de Depressão Pós-parto de Edimburgo (EPDS). [S.l.d]. Disponível em: <http://www.mgfamiliar.net/LiteratureRetrieve.aspx?ID=115391>. Acesso em: 16nov. 2016. MORAES, I.G.S. et all. Prevalência da depressão pós-parto e fatores associados. Revista de Saúde Pública, São Paulo, v. 40, n. 1, p. 65-70, fev. 2006. Disponível em: <http://www.scielosp.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034- 89102006000100011&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 05 out. 2016. NEWMAN, L. et. al. Early origins of mental disorder - risk factors in the perinatal and infant period. BMC Psychiatry, London, v. 16, p. 270, jul. 2016. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4966730/>. Acesso em: 05 out. 2016. PICCININI, C.A. et al. Gestação e a constituição da maternidade. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 13, n. 1, p. 63-72, mar. 2008. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-73722008000100008&lng=en&nrm=iso>. Acesso em 23 set. 2016. PORTO ALEGRE. Prefeitura Municipal. Secretaria Municipal de Saúde. Fluxo gestante saúde mental. Porto Alegre: SMS,2011. Disponível em: <http://lproweb.procempa.com.br/pmpa/prefpoa/sms/usu_doc/fluxo_gestante_saude_mental.pdf>. Acesso em: 5 out. 2016. RODRIGUES, R.M.. Contracepção e gravidez na adolescência. Nascer e Crescer, Porto, v. 19, n. 3, p. 201, 2010. ROTHSTEIN, S. W. Corpos em transparência: útero-feto-psiquismo. In: MARIN, I. K.; ARAGÃO, R. O. Do que fala o corpo do bebê. São Paulo: Escuta, 2013. p. 115-125. Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 58 RUSCHI, G. E. C. et al. Aspectos epidemiológicos da depressão pós parto em amostra brasileira. Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, v. 29, n. 3, p. 516-524, 2009. SARMENTO, R.; SETÚBAL, M. S. V. Abordagem psicológica em obstetrícia: aspectos emocionais da gravidez, parto e puerpério. Revista de Ciências Médicas, Campinas, v. 12, n. 3, p. 261-268, jul./set. 2003. Disponível em: <file:///C:/Documents%20and%20Settings/usuario/Meus%20documentos/Downloads/1260-2534-1- SM.pdf>. Acesso em: 5 out. 16. SILVA, A. I.; FIGUEIREDO, B. Sexualidade na gravidez e após o parto. Psiquiatria Clínica, Braga, v. 3, n. 25, p. 253-264, 2005. Disponível em: <http://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/4720/1/SEXUALIDADE%20NA%20GRAVIDEZ.pdf>. Acesso em: 5 out. 2016. SILVA, I.; ALMEIDA, A.; QUARANTINI, L. A depressão durante a gravidez e a lactação. In: ______. Depressão: do neurônio ao funcionamento social. Porto Alegre: Artmed, 2009. p. 67-84. SOIFER, R. Ansiedades específicas da Gestação. In: ______. Psicologia da gravidez, parto e puerpério. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992. p.21-49 SOULÉ, M. O filho da cabeça, o filho imaginário. In: BRAZELTON, T. et al. (Org.). A dinâmica do bebê. Porto Alegre: Artes Médicas, 1987. p.132-167 STERN, D. A constelação da maternidade. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997. LOCKWOOD, C. J.; MGRIPLES, U. Prenatal care: second and third trimesters. UpToDate, 2016. Disponível em: <http://www.uptodate.com/contents/prenatal-care-second-and-third- trimesters?source=see_lin>. Acesso em 07 out. 2016. WILHEIM, J. Psiquismo pré e perinatal. In: CARON, N. (Org.) A relação pais-bebê: da observação à clínica. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2000. p.135-173. WINNICOTT, Donald. Preocupação materna primária. In: WINNOCOTT, D. Da pediatria à psicanálise. Rio de Janeiro: Imago, 2000. p. 491-498. ZAMBRANO, Elizabeth. Parentalidades "impensáveis": pais/mães homossexuais, travestis e transexuais. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, v. 12, n. 26, p. 123-147, dez. 2006. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-71832006000200006&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 23 set. 2016. ZORNIG, S.M.A-J. Tornar-se pai, tornar-se mãe: o processo de construção da parentalidade. Tempo Psicanalítico, Rio de Janeiro, v. 42, n. 2, p. 453-470, jun. 2010. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101- 48382010000200010&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 23 set. 2016. O exame físico da gestante Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 59 5. O EXAME FÍSICO DA GESTANTE Lucia Naomi Takimi Lucas Wollmamm “Eu acho importante medir a pressão. Minha cunhada teve pressão alta na gravidez e foi um susto. Cada vez que eu ia consultar no pré-natal, ficava atenta para a minha pressão, que ficou sempre baixa, ainda bem.” Puérpera moradora da área de atuação do SSC/GHC Cuidado pré-natal significa “cuidado antes do nascimento” e inclui educação, aconselhamento, triagem e tratamento para monitorar e promover o bem-estar da gestante e do feto. A mudança está em descobrir qual tipo de cuidado e em qual intensidade será considerado suficiente para garantir uma boa qualidade da atenção para gestantes de baixo risco. Logo, intervenções de efetividade comprovada, cujos benefícios superam os riscos e são aceitas pela gestante e sua família, devem ser oferecidos (DI MARIO et al, 2005). Deve-se enfatizar a anamnese, visando identificar a idade gestacional, detectar fatores de risco clínicos que possam interferir na gestação, intercorrências gestacionais prévias, historia familiar sugestiva de doenças genéticas e fatores de risco psicossociais (ver Capítulo 3. Abordagem da gestante, diagnóstico de gestação, anamnese e orientações). No entanto, o exame físico que será descrito neste capítulo, complementa a vigilância em saúde da gestação atual, auxiliando, junto com os exames complementares, a diagnosticar precocemente patologias que possam surgir durante este período. 5.1 Exame físico na primeira consulta de pré-natal Durante a primeira consulta, além de calcular a idade gestacional, o profissional deve estar atento para patologias prévias assim como para as que possam desenvolver-se precocemente durante o período gravídico. Idealmente, a primeira consulta deveria ocorrer próximo da 10ª semana de gestação (NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH CLINICAL EXCELLENCE, 2008). O exame físico da gestante na primeira consulta pode ser dividido em exame físico completo e gineco-obstétrico (BRASIL. Ministério da Saúde, 2006). Nas consultas subseqüentes, a avaliação deve ser mais dirigida aos aspectos específicos da gestação (BUCHABQUI; ABECHE; NICKEL, 2011). Além disso, profissionais de saúde devem estar alertas para sinais e sintomas de violência doméstica e à mulher deve ser dada oportunidade de se expor, em um local onde se sinta segura (NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH CLINICAL EXCELLENCE, 2008). 5.2 Descrição detalhada de alguns aspectos do exame físico A seguir, neste capítulo, comentaremos o exame físico recomendado pelo Ministério da Saúde (BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Básica. Departamento de Atenção Báscia, 2013), sob a luz das evidências encontradas até a presente revisão, além de detalhar a técnica para melhor executá-lo, nas consultas de pré-natal. Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 60 5.2.1 Cálculo e anotação da idade gestacional Confirmada a gestação (ver Capítulo 3. Abordagem da gestante, diagnóstico de gestação, anamnese e orientações), a idade gestacional (IG) e a data provável do parto (DPP) devem ser estabelecidas. Os métodos habitualmente usados para calcular IG compreendem: interrogatório sobre a amenorréia; avaliação do tamanho uterino, especialmente no primeiro trimestre, e biometria ecográfica (FESCINA et al, 2011). Interrogatório sobre a amenorréia: O cálculo do tempo transcorrido desde o primeiro dia da última menstruação (DUM) é o método de eleição para calcular a IG em mulheres com ciclos menstruais regulares, que não estavam usando contraceptivos hormonais ou não estavam em aleitamento nos últimos meses. A data provável do parto (DPP) pode ser calculada facilmente com o gestograma (ou disco obstétrico). Caso não haja um, pode- se determiná-la mediante o uso de uma destas regras (FESCINA et al, 2011): • Naegele: some 7 dias a DUM e então subtraia 3 meses (por exemplo, se DUM em 10 março, a DPP será em 17 de dezembro; se DUM em 27 de junho, a DPP será em 4 de abril); • Wahl: a DUM some 10 dias e ao mês subtraia 3; • Pinard: ao último dia da menstruação some 10 e ao mês subtraia 3; • 280 dias: a partir da DUM, conte 280 dias sobre um calendário. A data correspondente ao dia 280 será a DPP. Outra possibilidade é o uso de aplicativos para celular e tablet. O TelessaúdeRS disponibilizou o aplicativo “Calculadora Gestacional” para download gratuito nas plataformas Android e Apple. É possível fazer o cálculo da DPP a partir da DUM ou dos dados da ecografia. Avaliação do tamanho uterino: O quadro 1 apresenta o tamanho uterino relacionado à idade gestacional. O uso de uma curva padrão de crescimento uterino permite correlacionar a idade gestacional calculada a cada consulta (figura 1).Ver, a seguir, item 5.2.5 - Medida da altura uterina e palpação obstétrica. Lembrar situações que possam vir a alterar a correlação normalmente encontrada entre semana gestacional e tamanho uterino (FESCINA et al, 2011): miomas, patologias trofoblásticas (mola), gestação múltipla, polidrâmnio, oligodrâmnio, restrição do crescimento intrauterino (RCIU), malformações fetais e macrossomia fetal. Quadro 1 - Relação da idade gestacional de acordo com o tamanho uterino. Semanas de IG Tamanho uterino Até 6ª semana Não ocorre alteração Até 8ª semana Dobro do normal 10ª semana Aumento de 3x o tamanho habitual, mas ainda não alcança a sínfise púbica 12ª semana Ocupa toda a pelve, palpado na sínfise 16ª semana Na metade da distância entre a sínfise púbica e cicatriz umbelical 20ª semana Na cicatriz umbilical A partir da 20ª semana Existe uma relação aproximada entre as semanas e a altura uterina, mas quanto mais próximo do parto, menos fiel a correspondência Fontes: FREITAS et al, 2006; BRASIL. Ministério da Saúde, 2016. O exame físico da gestante Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 61 Biometria fetal por ecografía A ecografia obstétrica deve ser solicitada para cálculo da idade gestacional quando não for possível determinar a IG pela anamnese (DUM incerta) e exame físico, se a mulher apresenta ciclos menstruais irregulares ou se houver discrepância entre a altura uterina e a idade gestacional calculada (ZOLOTOR; CARLOUGH, 2014; MARTINS-COSTA et al, 2011). O exame deve ser realizado preferencialmente até 14 semanas de gestação. O comprimento cabeça-nádegas (CCN) é a medida de biometria fetal considerada padrão no primeiro trimestre (ainda que em gestações muito precoces possa se utilizar o diâmetro do saco gestacional). Entre 7 e 10 semanas de gestação, a medida do CCN associa-se a um erro no cálculo da IG de +/- 3 dias; entre 10 e 14 semanas, o erro é de +/- 5 dias, aumentando progressivamente com a evolução da gestação (BUCHABQUI; ABECHE; NICKEL, 2011). 5.2.2 Medida da pressão arterial A medida da pressão arterial é recomendada na consulta pré-concepcional e em todas as consultas do pré-natal (INSTITUTE FOR CLINICAL SYSTEMS IMPROVEMENT, 2012; BUCHABQUI; ABECHE; NICKEL, 2011; ZOLOTOR; CARLOUGH, 2014), pois a melhor estratégia para diagnosticar a hipertensão na gestação parece ser a detecção precoce de uma pressão arterial anormal. Apesar de não haver evidências diretas que a pesquisa regular da pressão arterial reduza a mortalidade materna ou perinatal, eticamente não seria possível permitir estudos sem este exame ou tratamento com grupos- controle. Além disso, o estabelecimento de desordens hipertensivas em quaisquer categorias é geralmente assintomático. Por essa razão, somente a pesquisa universal pode detectá-las precocemente, sendo um teste simples, barato e aceitável para as pacientes, recomenda-se em bases empírica (INSTITUTE FOR CLINICAL SYSTEMS IMPROVEMENT, 2012). Uma mudança importante e universalmente aceita ocorrida nos últimos anos foi o abandono do edema como critério para o diagnóstico de pré-eclâmpsia. Também, aumentos relativos de 15mmHg e 30mmHg para pressão diastólica (PAD) e sistólica (PAS), respectivamente, não são mais reconhecidos como definidores de hipertensão. Atualmente, são consideradas uma PAS > 140 mmHg e/ou PAD > 90 mmHg para definição de aumento de pressão arterial na gestação (BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica, 2013). O uso de limiares absolutos para PAS e PAD não é arbitrário, há evidência suportanto seu uso, de estudos de desfecho em diferentes níveis de PA. Estes pontos de corte alertam profissionais de saúde e pacientes para doenças hipertensivas e são estabelecidos em práticas clínicas e de pesquisa. Finalmente, o uso da “diminuição” dos sons (fase IV de Korotkoff) não é mais recomendado, e a fase V de Korotkoff (desaparecimento dos sons) deve ser usada como PAD. Isto remove importantes áreas de potencial variação na pesquisa e prática clínica que confundiam a padronização (RHODES, 2009). As desordens hipertensivas serão também abordadas no capítulo 13 (Diagnóstico e manejo das intercorrências clínicas mais frequentes). A pré-eclâmpsia é definida como hipertensão e proteinúria excessiva, ocorrendo a partir de 20 semanas da gestação (INSTITUTE FOR CLINICAL SYSTEMS IMPROVEMENT, 2012; NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH CLINICAL EXCELLENCE, 2008). O quadro 2 apresenta as condutas frente aos achados durante medida da pressão arterial da gestante. Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 62 Quadro 2 - Níveis de pressão arterial (PA) , avaliação e conduta recomendada. Achado Avaliação e Conduta Valores da pressão inferiores a 140/90 mmHg • Manter calendário habitual • Cuidar da alimentação • Praticar atividade física Valores da PA, ≥140/90 mmHg e <160/110, sem sintomas e sem ganho ponderal maior que 500 g semanal Paciente com suspeita de pré-eclâmpsia leve: • Repetir medida após período de repouso (preferencialmente após quatro horas) • Remarcar consulta em até 7 dias • Orientar para presença de sintomas como: cefaléia, epigastralgia, escotomas, edema, redução no volume ou presença de “espuma” na urina, redução de movimentos fetais • Verificar presença de proteína preferencialmente em dosagem em urina de 24 horas (positivo: a partir de 300 mg/24h) ou uroanálise tipo 1 (EQU). Níveis de PA superiores a 140/90 mmHg com proteinúria positiva em teste rápido e/ou sintomas clínicos (cefaléia, epigastralgia, escotomas, reflexos tendíneos aumentados), ou Paciente assintomática porém com níveis de PA superiores a 160/110 mmHg (crise hipertensiva) Paciente com suspeita de pré-eclâmpsia grave: Encaminhar para emergência obstétrica Paciente com hipertensão arterial crônica moderada ou grave, ou em uso de medicação anti-hipertensiva Paciente de risco: Referir ao pré-natal de alto risco. Caso a paciente esteja utilizando drogas contraindicadas na gestação (ver capítulo 10. Medicamentos na gestação e puerpério) estas devem ser suspensas ou substituídas, se necessário. Fonte: Adaptado de: BRASIL. Ministério da Saúde, 2013; BRASIL. Ministério da Saúde. secretaria de Atenção à Saúde.Departamento de Atenção Básica,, 2016; ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 2014. 5.2.3 Recomendações específicas para detecção de pré-eclâmpsia Além das medidas de pressão arterial em todas as consultas, a avaliação de risco individual na primeira consulta, a testagem para proteinúria e educação da gestante de risco para reconhecer os sintomas de pré-eclâmpsia fazem parte de uma estratégia mais ampla para detecção de pré-eclâmpsia (DI MARIO et al, 2005; NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH CLINICAL EXCELLENCE, 2008). Aquelas que apresentam fatores de risco para pré-eclâmpsia (quadro 3) devem ser acompanhadas com maior frequência. Recomenda-se solicitar os seguintes exames basais no início da gestação às gestantes com alto risco para desenvolver pré-eclâmpsia: • hemograma com plaquetas, • creatinina, • ácido úrico, • E.Q.U. • proteinúria e calciúria de 24 horas (estes dois últimos apenas na presença de 1+ de proteína no E.Q.U.) • ecografia no primeiro trimestre, para uma datação precisa da IG. A OMS refere, no entanto, que no mínimo um terço dos casos de pré-eclâmpsia ocorrem em mulheres com pressão arterial normal. Hipertensão ou proteinúria podem estar ausentes em 38% das mulheres com eclâmpsia e 10-15% das pacientes com Síndrome HELLP (RHODES, 2009). Sendo O exame físico da gestante Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 63 assim, conforme descrito no Capítulo 3 ( Abordagem da gestante,diagnóstico de gestação, anamnese e exame físico), toda gestante deve ser alertada para necessidade de procurar IMEDIATAMENTE um profissional de saúde se experimentar algum dos sintomas de pré-eclâmpsia, tanto na gestação quanto no puerpério imediato, que incluem: • cefaléia intensa; • alterações visuais, como visão borrada ou luzes diante dos olhos; • dor intensa no epigastro ou rebordo costal; • edema súbito, se central especialmente (DI MARIO et al, 2005; NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH CLINICAL EXCELLENCE, 2008). Quadro 3 - Fatores de risco para Pré-eclâmpsia (PE). Fator de risco Comentários Evidência forte Primigestação Diabete mélito Gestação gemelar Irmã com PE Irmã, mãe ou avó com eclâmpsia HAS crônica PE sobreposta em gestação prévia Hidropsia fetal (não imune) Gestação molar Nova paternidade RR:2,4 (2,1 – 2,7) RR: 2-3 e maior se DM descompensado RR: 3 (2-4,2) RR: 3,3 (1,5-7,5) Respectivamente 37, 26 e 16% de PE 25% desenvolvem PE sobreposta 70% de recorrência RR: 10 RR: 10 Risco semelhante ao da primigestação Evidência média ou fraca IMC > 25 Idade média > 40 anos Uso de método anticoncepcional de barreira Maior duração da atividade sexual Aborto prévio Ganho excessivo de peso Inseminação artificial “Homem de risco” (parceria anterior teve PE) RR: 2,3-2,7 RR:3-4 Aumento do risco Diminuição do risco Diminuição do risco Aumento do risco Aumento do risco RR: 1,8 (1,2 – 2,6) Fonte: MARTINS-COSTA et al, 2011. Notas: RR, risco relativo IMC, índice de massa corporal Evidência forte, vários estudos demonstraram risco Evidência média ou fraca, alguns estudos demonstraram a associação Recomenda-se NÃO prescrever anti-hipertensivo para gestantes com HAS com valores de PA < 150/100 mmHg associada à pré-eclâmpsia ou à hipertensão crônica. Não há comprovação de benefícios para a mãe ou para o feto, exceto redução do risco de HAS grave, que é considerado insuficiente diante da exposição do feto ao risco potencial de comprometimento de seu crescimento (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016). As mulheres com hipertensão grave durante a gravidez devem receber tratamento com fármacos anti-hipertensivos (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 2014). Nas zonas em que a ingestão alimentar de cálcio é baixa, a suplementação de cálcio durante a gravidez (em doses de 1,5 a 2,0 g de cálcio elementar/dia) é recomendada para a prevenção da pré- eclâmpsia em todas as mulheres, mas especialmente em mulheres com alto risco de desenvolver a pré- eclâmpsia (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 2014). Se houver indicação de suplementação de ferro, os dois suplementos devem ser administrados separadamente, com várias horas de intervalo. Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 64 Recomenda-se uma dose baixa de ácido acetilsalicílico (75mg/dia) para a prevenção da pré- eclâmpsia em mulheres que têm risco elevado de desenvolver a condição. Essa medicação deve ser iniciada antes das 20 semanas de gravidez (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 2014). 5.2.4 Determinação do peso para avaliação do índice de massa corporal O IMC deverá ser calculado na primeira consulta de pré-natal e o ganho de peso durante a gestação será monitorado nas próximas visitas (INSTITUTE FOR CLINICAL SYSTEMS IMPROVEMENT, 2012; OPPERMANN et al, 2011). Os valores encontrados devem ser anotados no gráfico e o sentido da curva deve ser observado para avaliação no estado nutricional. Os quadros 4 e 5 apresentam respectivamente o risco gestacional de acordo com o IMC e o aumento de peso recomendado para mulheres gestantes levando em consideração o IMC pré-gestacional. Quadro 4 - Risco gestacional de acordo com o IMC na primeira consulta de pré-natal. Baixo Peso (IMC <18,5) Risco aumentado de trabalho de parto prematuro (Spinillo, 1998 apud ICSI) Sobrepeso (IMC 25,0 -29,9) Risco aumentado para diabete gestacional, hipertensão, pré-eclâmpsia, parto distócico, cesariana, indução do trabalho de parto, aumento de infecção na ferida operatória, tromboembolia venosa anteparto e complicações anestésicas] (Robinson, 2005 apud ICSI) Obesas (IMC> 30,0) Risco aumentado de hipertensão gestacional (Thornton apud ICSI). Fonte: INSTITUTE FOR CLINICAL SYSTEMS IMPROVEMENT, 2012. Quadro 5 - Aumento de peso recomendado para mulheres gestantes, segundo o IMC pré-gestacional. Categoria de peso IMC (kg/m2) Aumento total de peso (kg) Aumento de peso no segundo e terceiro trimestre (kg/sem) Baixo peso 12,0-18,4 12,5- 18,0 0,5 (entre 0,5-0,6) Peso normal 18,5-24,9 11,5-16,0 0,5 (entre 0,4-0,5) Sobrepeso 25,0-29,9 7,0-11,5 0,3 (entre 0,2-0,3) Obesidade >30,0 5,0-9,0 0,2 (entre 0,2-0,3) Fonte: Adaptado de Institute of Medicine, apud INSTITUTE FOR CLINICAL SYSTEMS IMPROVEMENT, 2012. 5.2.5 Medida da altura uterina e palpação obstétrica A medida da altura uterina não é exata e esta sujeita a erros inter e intraobservadores (INSTITUTE FOR CLINICAL SYSTEMS IMPROVEMENT, 2012). Apesar disso, é uma manobra simples e barata e amplamente usada em todas as consultas de pré-natal. Recomenda-se que seja realizada em todas as consultas de pré-natal após 20 semanas, com objetivo de auxiliar no monitoramento do crescimento fetal (ZOLOTOR; CARLOUGH, 2014). Realiza-se a aferição colocando a fita métrica apoiada sobre a borda superior da sínfise púbica e no fundo uterino, com a paciente em decúbito dorsal com a bexiga vazia. A medida deverá ser sempre registrada no gráfico com o objetivo de possibilitar a observação do padrão de crescimento e detectar alterações. O padrão de referência recomendado pelo Ministério da Saúde é a curva de altura uterina desenhada a partir de dados do CLAP - Centro Latino-Americano de Perinatologia (Figura 1). Em medidas abaixo do percentil 10 ou acima do percentil 90, deve-se primeiramente atentar para a possibilidade de erro de cálculo da idade gestacional, especialmente em casos onde o traçado O exame físico da gestante Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 65 esteja abaixo ou acima das curvas de referência, mas com a mesma inclinação. Se possível, deve-se solicitar ecografia e retorno em 15 dias para reavaliação (BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica, 2013). Quando acima do percentil 90, deve ser avaliada a possibilidade de polidrâmnio, macrossomia, gestação gemelar, mola hidatiforme, miomatose e obesidade. Quando abaixo do percentil 10, deverá ser investigado feto morto, oligodrâmnio, crescimento intrauterino restrito, fetos constitucionalmente pequenos ou situação transversa (BUCHABQUI; ABECHE; NICKEL, 2011). Pacientes com suspeita de alteração da altura uterina por causa patológica devem ser encaminhadas ao pré-natal de alto risco. Figura 1 - Curva de altura uterina (AU) e idade gestacional e desenho da posição aproximada da AU de acordo com a idade gestacional. Fonte: FESCINA et al, 2011 Recomenda-se realização de palpação obstétrica após 36 semanas de gestação (ZOLOTOR; CARLOUGH, 2014), através das manobras de Leopold-Zweisfel (Figura 2). Ela deve iniciar-se pela delimitação do fundo uterino, bem como de todo o contorno da superfície uterina (esse procedimento reduz o risco de erro da medida da altura uterina). A identificação da situação e da apresentação fetal é feita por meio da palpação obstétrica, procurando identificar os pólos cefálico e pélvico e o dorso fetal. Apresentações desfavoráveis para o parto vaginal devem ser confirmadas com ecografia (NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH CLINICAL EXCELLENCE, 2008). Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição66 Figura 2 - Manobras de Leopold-Zweifel. Fonte: FESCINA et al, 2011 5.2.6 Pesquisa de edema O edema já foi tradicionalmente um importante critério diagnóstico para pré-eclâmpsia. Porém, por si, não é útil para predizer o desenvolvimento de pré-eclâmpsia porque é de baixa especificidade e sensibilidade (SMITH, 1993 apud INSTITUTE FOR CLINICAL SYSTEMS IMPROVEMENT, 2012). Edema isolado no final da gestação é freqüente (25% das gestações) e não representa maior risco. O American College of Obstetricians and Gynecologists define edema como “acúmulo generalizado de fluidos representado por mais de 1+ de edema depressível após 12 horas de repouso no leito, ou ganho de peso de 2,3 kg ou mais em uma semana” (INSTITUTE FOR CLINICAL SYSTEMS IMPROVEMENT, 2012). Nesse caso, ou se for identificado edema generalizado (face, tronco), há maior probabilidade de causa patológica e outros sinais de pré-eclâmpsia ou insuficiência cardíaca devem ser avaliados. Tratando-se de edema unilateral de membro inferior, acompanhado de sinais flogísticos, deve-se suspeitar de processos trombóticos e a gestante deve ser encaminhada para avaliação diagnóstica na emergência. 5.2.7 Exame especular, toque vaginal e rastreio de câncer de colo de útero Deve-se realizar exame pélvico na primeira consulta de pré-natal, através da inspeção da genitália externa e exame especular, com objetivo de avaliação de anormalidades do trato genitourinário e investigação de doenças sexualmente transmissíveis (ZOLOTOR, CARLOUGH, 2014; INSTITUTE FOR CLINICAL SYSTEMS IMPROVEMENT, 2012). O rastreamento para o câncer de colo de útero em gestantes deve seguir as recomendações de periodicidade e faixa etária como para as demais mulheres. A partir de 25 anos em todas as mulheres que iniciaram atividade sexual, e repetir a cada três anos, se os dois primeiros exames anuais forem normais (BRASIL. Ministério da Saúde, 2013). Após essa primeira avaliação, o exame pélvico e o toque vaginal devem ser realizados conforme necessidade, de acordo com queixas da paciente. Não é recomendada a realização de pelvimetria de rotina, pela sua falta de acurácia em predizer desproporção cefalopélvica (NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH CLINICAL EXCELLENCE, 2008). Em gestações a termo o toque vaginal pode ser útil da avaliação da apresentação fetal e dilatação cervical (INSTITUTE FOR CLINICAL SYSTEMS IMPROVEMENT, 2012). O exame físico da gestante Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 67 5.2.8 Descolamento de membranas amnióticas Apesar de ser uma prática pouco utilizada no Brasil, o descolamento de membranas amnióticas no exame cervical em gestantes com mais de 38 semanas de idade gestacional reduz a frequência de trabalho de parto pós-termo (>42 sem) em até 75%, reduzindo significativamente o risco de indução de parto (8,1% versus 18,8%), e aumenta a chance da gestante apresentar-se para o parto na fase ativa. Uma meta-análise dos estudos disponíveis examinando o uso do descolamento de membranas entre mulheres cuja colonização por estreptococo B-hemolítico era desconhecida não encontrou aumento significativo nas infecções periparto ou perinatal entre aquelas que se submeteram ao procedimento (INSTITUTE FOR CLINICAL SYSTEMS IMPROVEMENT, 2012). O maior benefício é visto na cérvice desfavorável da primigesta. O procedimento não evidenciou aumento dos desfechos adversos. O método recomendado é a inserção digital de 2-3 cm além do orifício cervical interno e “deslizamento” circunferencial duas vezes. Descolamento de membranas diário após 41 semanas tem-se mostrado mais efetivo que o uso de prostaglandinas em reduzir pós-datismo (ALLOTT, 1993 ; MAGNANN, 1999 apud INSTITUTE FOR CLINICAL SYSTEMS IMPROVEMENT, 2012). Antes da indução do trabalho de parto formal, deve-se oferecer à gestante com 41 semanas o exame pélvico para descolamento de membranas (NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH CLINICAL EXCELLENCE, 2008), que será realizado, após avaliação no Centro Obstétrico. 5.2.9 Exame rotineiro das mamas Embora a promoção do aleitamento materno seja uma tarefa importante a ser relizada durante o pré-natal, não se recomenda exame rotineiro das mamas com esse objetivo (NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH CLINICAL EXCELLENCE, 2008; ESPANHA. Ministerio de Sanidad y Política Social, 2011; ZOLOTOR; CARLOUGH, 2014). A maioria das mulheres com mamilos planos ou invertidos apresenta melhora com o avançar da gravidez, sem necessidade de qualquer tipo de tratamento (GIUGLIANI, 2011). Os tratamentos propostos ao longo do pré-natal mostram-se ineficazes e contraproducentes. Antecipar estes problemas reduz a confiança materna em suas possibilidades de amamentar (ESPANHA. Ministerio de Sanidad y Política Social, 2011). Problemas relacionados à amamentação devem ser identificados e corrigidos nos primeiros dias após o parto. 5.3 Propedêutica fetal 5.3.1 Ausculta dos batimentos cardíacos Os batimentos cardíacos fetais (BCFs) podem ser identificados a partir de 5 a 6 semanas por ecografia, a partir de 10-12 semanas de gestação com sonar Doppler e a partir de 18-20 semanas com estetoscópio de Pinnard (ICSI, 2012). No último trimestre deve-se procurar realizar a ausculta com a gestante em decúbito lateral esquerdo, evitando compressão de grandes vasos abdominais e eventual diminuição dos BCF. Nenhum estudo mostrou melhora nos desfechos perinatais com a identificação da ausculta cardíaca fetal, contudo pode confirmar que o feto está vivo. A indicação primária deste exame em todas as consultas apresenta beneficio psicológico para os pais (INSTITUTE FOR CLINICAL SYSTEMS Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 68 IMPROVEMENT, 2012; NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH CLINICAL EXCELLENCE, 2008; ESPANHA. Ministerio de Sanidad y Política Social, 2011; BUCHABQUI; ABECHE; NICKEL, 2011; ZOLOTOR; CARLOUGH, 2014). Ritmo regular e frequências entre 120 e 160 bpm são normais e podem ser medidas por um minuto ou em frações de 15 segundos multiplicados por quatro. Freqüências abaixo de 120 ou acima de 160 necessitam de avaliação complementar. Caso a gestante apresente febre, esta deve ser tratada. Deve-se suspeitar de sofrimento fetal encaminhar para avaliação no Centro Obstétrico (BRASIL. Ministério da Saúde, 2013). Após contrações uterinas, movimentação fetal ou estímulo mecânico sobre o útero, o aumento transitório dos BCFs (elevação de 15 batimentos por no mínimo 15 segundos) é sinal de boa vitalidade fetal (BUCHABQUI; ABECHE; NICKEL, 2011). No terceiro trimestre, o decúbito dorsal mais prolongado pode levar a compressão da veia cava inferior, causando hipotensão supina postural e acarretar queda da FC do feto (efeito Poseiro). A lateralização da paciente para a esquerda deve normalizar essa situação (BUCHABQUI; ABECHE; NICKEL, 2011). 5.3.2 Avaliação dos movimentos fetais percebidos pela mulher e/ou detectados no exame obstétrico Não é recomendada a avaliação de movimentos fetais como rotina, pois ela aumenta a ansiedade das pacientes, quantidade de avaliações posteriores e solicitação de exames sem redução da incidência de morte fetal intrauterina (ZOLOTOR; CARLOUGH, 2014;NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH CLINICAL EXCELLENCE, 2008; INSTITUTE FOR CLINICAL SYSTEMS IMPROVEMENT, 2012). Referências BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Atenção ao pré-natal de baixo risco. Brasília, DF: Ed. Ministério da Saúde, 2013. Disponível em: <http://189.28.128.100/dab/docs/portaldab/publicacoes/caderno_32.pdf>. Acesso em: 14 jul. 2016. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Pré-natal e puerpério. Atenção qualificada e humanizada. Manual Técnico. Brasília, DF: Ed. Ministério da Saúde, 2006. Disponível em:<http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_pre_natal_puerperio_3ed.pdf> Acesso em: 14 jul. 2016[1] BRASIL. Ministério da Saúde. Controle dos cânceres do colo do útero e da mama. 2. ed. Brasília, DF: Ed. Ministério da Saúde, 2013. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolos da atenção básica: saúde das mulheres. Brasília, DF: Ed. Ministério da Saúde, 2016. Disponível em: <http://189.28.128.100/dab/docs/portaldab/publicacoes/protocolo_saude_mulher.pdf>. Acesso em: 31 jul. 2016. BUCHABQUI, J. A.; ABECHE, A. M.; NICKEL, C. Assistência pré-natal. In: FREITAS, F. et al. Rotinas em obstetrícia. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2011. p. 23-43. DI MARIO, S. et al. What is the effectiveness of antenatal care? (Supplement). Copenhagen: WHO Regional Office for Europe, 2005. Disponível em:<http://www.euro.who.int/__data/assets/pdf_file/0005/74660/E87997.pdf> . Acesso em: 15 nov. 2016. O exame físico da gestante Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 69 ESPANHA. Ministerio de Sanidad y Política Social. Estrategia nacional de salud sexual y reproductiva. 2011. Disponível em: <http://www.msssi.gob.es/organizacion/sns/planCalidadSNS/pdf/equidad/ENSSR.pdf>. Acesso em: 26 jul. 2016. FESCINA, R. et al. Saude sexual y reproductiva: guías para el continuo de atención de la mujer y el recién nacido focalizadas en APS. Montevideo: CLAP/SMR, 2011. FREITAS, F et al. Rotinas em Obstetrícia. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2006 GIUGLIANI, E. R. J. Alojamento conjunto e amamentação. In: FREITAS, F. et al. Rotinas em obstetrícia. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2011. p. 419-433. INSTITUTE FOR CLINICAL SYSTEMS IMPROVEMENT. Routine prenatal care. Jul. 2012. Disponível em: <https://www.icsi.org/_asset/13n9y4/Prenatal.pdf>. Acesso em: 14 jul. 2016. MARTINS-COSTA, S. H. et al. Doença hipertensiva na gravidez. In: FREITAS, F. et al. Rotinas em obstetrícia. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2011. p. 523-552.rei NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CLINICAL EXCELLENCE. Antenatal care for uncomplicated pregnancies. London: NICE, 2008. Atualizado em mar. 2016. Disponível em: <https://www.nice.org.uk/guidance/cg62/resources/antenatal-care-for-uncomplicated-pregnancies- 975564597445>. Acesso em: 14 jul. 2016. OPPERMANN, M. L. R. et al. Nutrição da gestante. In: FREITAS, F. et al. Rotinas em obstetrícia. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2011. p. 246-259. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Recomendações da OMS para a prevenção e tratamento da pré-eclâmpsia e da eclâmpsia. 2014. Disponível em : <http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/44703/11/9789248548338_por.pdf>. Acesso em: 31 jul. 2016. RHODES, C. Ambulatory blood pressure monitoring in hypertensive pregnancies. 2009. 228 f. Dissertação. (Mestrado)-University of Birmingham, Birmingham, ,jul. 2009. Disponível em : <http://etheses.bham.ac.uk/461/1/Rhodes09MPhil.pdf>. Acesso em: 19 jul. 2016. ZOLOTOR, A. J.; CARLOUGH, M. C. Update on prenatal care. American Family Physician, North Carolina, v. 89, n. 3, p. 199-208, Feb. 2014. Solicitar e avaliar exames complementares Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 71 6. SOLICITAR E AVALIAR EXAMES COMPLEMENTARES Lucia Naomi Takimi Lucas Wollmamm “Eu fiz vários exames, duas vezes. O exame que eu acho mais importante é a ecografia morfológica, pois podemos saber se todos os órgãos do bebê são normais. A minha maior preocupação quando eu estava grávida era se ele era normal. Se tivesse uma alteração, eu gostaria de saber antes. Acho que sabendo poderia me precaver. Não iria pegar também os médicos de surpresa na hora do parto.” Puérpera moradora do território de atuação do SSC/GHC O cuidado pré-natal, além de educação, aconselhamento e tratamento, inclui a realização de exames complementares para monitorar e promover o bem-estar da gestante e do feto. As recomendações correntes tentam esclarecer quais os cuidados e em que intensidade são considerados suficientes para garantir uma boa qualidade da atenção às gestantes de baixo risco. Somente intervenções de comprovada eficácia, cujos benefícios sobrepõem-se aos possíveis riscos, e aquelas aceitáveis pela gestante e sua família, devem ser oferecidos (DI MARIO, 2005). Em relação aos exames complementares, a gestante deve ser informada sempre, e de forma compreensível, sobre a finalidade do exame, como ele será realizado, quais os possíveis riscos para si e para o feto, os tipos de resultados que podem surgir (i.e. probabilidade, risco), a chance de ocorrência de resultados falso-positivo ou falso-negativo e as opções que ela terá, mediante resultado obtido (NATIONAL CO-ORDINATING CENTRE FOR WOMWN´S AND CHILDREM´S HEALTH, 2005 apud KIRKHAM et al, 2005). Uma proposta sistemática deve integrar a melhor evidência em um modelo de consentimento informado e compartilhado. Sugere-se que os profissionais registrem sempre todos os exames solicitados e também, se for o caso, a informação de que a gestante deixou de realizá-lo. Os exames complementares mínimos a serem solicitados no acompanhamento pré-natal buscam avaliar fundamentalmente as condições hematológicas, possível incompatibilidade Rh e ABO, doenças infecciosas e afecções que possam interferir diretamente na saúde da gestante e de seu filho, tais como: malformações fetais, diabetes e transtornos hipertensivos. Considera-se também como mais um momento para a prevenção de câncer ginecológico. A pesquisa de doenças infecciosas na gestante é guiada por alguns critérios, tais como: prevalência da doença na população geral, em recém-nascidos e crianças, sintomas em gestantes, sintomas nos bebês, exames diagnósticos, tratamento e eficácia da interrupção da transmissão vertical. A seguir, serão descritos exames realizados durante o acompanhamento pré-natal, a análise de seus resultados e recomendações. 6.1 Hemograma Recomenda-se solicitar dosagem de hemoglobina (Hb) e hematócrito para todas as gestantes na sua primeira consulta de pré-natal e no segundo (recomendação dos autores) e terceiro trimestre (BRASIL. Ministério da Saúde 2016a). Segundo a Organização Mundial da Saúde, a deficiência de ferro é uma das carências nutricionais mais comuns entre gestantes (PEÑA-ROSAS et al, 2015). A principal causa é uma dieta Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 72 insuficiente em ferro absorvível, uma demanda aumentada por ferro na gestação não coberta pela dieta, uma perda de ferro devido a infecções parasitárias, principalmente ancilostomíase e outras perdas sanguíneas. Alimentos ricos em ferro são descritos na tabela 1 do Capítulo 8 (Nutrição na gestação e puerpério ). A deficiência crônica de ferro é a principal causa de anemia, mas outros motivos como infecções agudas ou crônicas (p.ex. malária, tuberculose, SIDA, câncer) que causem inflamação; deficiência de folato e vitaminas B2, B12, A e C; e doenças genéticas ou adquiridas, que afetem a síntese de hemoglobina, produção de eritrócitos ou a sobrevivência destes, como talassemia e drepanocitose (ou anemia falciforme) podem ser fatores independentes ou superpostos (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2015). A concentração de hemoglobina menor que 11g/dl - apesar de reconhecer-se que durante o segundo trimestre a concentração de Hb costuma diminuir aproximadamente 0,5g/dL - caracteriza a presença de anemia. A prevalência global de anemia entre gestantes foi estimada em 38,2% em 2011, sendo que no Brasil a prevalência foi de 32% (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2015). A anemia durante a gestação pode estar associada a um risco aumentado de baixo peso ao nascer, mortalidade perinatal e trabalho de parto prematuro. Hemoglobina entre 8-11g/dl indica anemia leve a moderada. Hemoglobina abaixo de 8 g/dl considera-se anemia grave, está indicado encaminhamento ao CentroObstétrico para avaliação e posterior acompanhamento no Pré-natal de Alto Risco. Se anemia estiver presente, recomenda-se tratar (120 mg/dia de ferro elementar, uma hora antes das refeições, de preferência com suco de frutas cítricas), avaliar a presença de parasitose intestinal (não recomendado tratar durante o primeiro trimestre) e acompanhar com a solicitação de nova hemoglobina e ferritina após 30 dias. O tratamento deve ser mantido até que a hemoglobina alcance níveis superiores a 11g/dl e, a seguir, deve-se voltar a dose profilática (30-60 mg/dia de ferro elementar) até o terceiro mês pós-parto. Em situação de hemoglobina abaixo de 8g/dl, ou seja, na presença de anemia grave, a gestante deve ser encaminhada para o pré-natal de alto risco (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016a). 6.2 Tipagem sanguínea, fator RhD e Coombs Recomenda-se solicitar tipagem sanguínea ABO e fator RhD na primeira consulta de pré-natal (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016a; ZOLOTOR; CARLOUGH, 2014). Em mulheres com fator RhD negativo, deve ser solicitada a tipagem sanguinea com fator RhD do pai da criança e o teste de Coombs indireto da gestante. Se a gestante tiver antecedente de hidropsia fetal ou neonatal, independente do Rh, também deve ser solicitado o Coombs indireto. Se o Coombs for negativo, deve-se repetí-lo a cada 4 semanas, a partir da 24ª semana. Quando for positivo (gestante sensibilizada), deve-se referir a gestante ao pré-natal de alto risco (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016a). Recomenda-se que a imunoglobulina anti-D seja realizada em até 72 horas após o parto em todas as as mulheres com RhD negativo não sensibilizadas (Coombs indireto negativo) e um recém- nascido com RhD positivo (BRASIL, Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica, 2013). Solicitar e avaliar exames complementares Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 73 Também deve ser indicada imunoglobulina anti-D em mulheres RhD negativo não sensibilizadas, dentro de 72 horas, nas seguinte situações (BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica, 2013; ZOLOTOR; CARLOUGH, 2014): • após procedimentos invasivos (amniocentese e biópsia de vilos coriônicos); • sangramento vaginal em 2º ou 3º trimestre; • abortamento e morte fetal intrauterina; • após trauma abdominal; • gestação ectópica; • gestação molar e • versão externa. 6.3 Eletroforese de hemoglobina Recomenda-se a investigação de hemoglobinopatias no primeiro trimestre, com hemograma e eletroforese de hemoglobina, em gestantes de descendência africana, mediterrânea ou do sudeste asiático; se tiver antecedentes familiares de anemia falciforme ou apresentar história de anemia crônica. Gestantes sem essas características podem ser avaliadas apenas com hemograma. Se o exame apresentar anemia microcítica não-ferropriva (com ferritina normal), a eletroforese de hemoglobina deve ser solicitada (INSTITUTE FOR CLINICAL SYSTEMS IMPROVEMENT, 2012; AMERICAM CONGRESS OF OBSTETRICIANS AND GYNECOLOGISTS, 2007). O Ministério da Saúde, no entanto, recomenda o rastreio universal devido ao alto grau de miscigenação da população brasileira e orienta a interpretação da eletroforese de hemoglobina da seguinte forma (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016a): • HbAA: sem doença falciforme; • HbAS: heterozigose para hemoglobina S ou traço falciforme, sem doença falciforme. • HbAC: heterozigose para hemoglobina C, sem doença falciforme. • HbA com variante qualquer: sem doença falciforme; • HbSS ou HbSC: doença falciforme. Gestantes com doença falciforme, devem ser encaminhadas ao ambulatório de alto risco (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016a). 6.4 Glicemia de jejum e teste de tolerância à glicose Recomenda-se a solicitação de glicemia de jejum na primeira consulta de pré-natal e no terceiro trimestre da gestação. Em gestantes que iniciam iniciam o pré-natal após 24 semanas ou que tiveram rastreio positivo no início da gravidez deve ser realizado o teste de tolerância com 75g de glicose. Até recentemente, a definição mais empregada de diabetes gestacional era “alteração no metabolismo dos carboidratos, de intensidade variável, que se inicia ou é reconhecida pela primeira vez na gestação, podendo ou não persistir após o parto”. Essa definição incluía variado espectro de hiperglicemias, desde valores diagnósticos do diabetes manifesto até valores que, fora da gestação, caracterizam a tolerância diminuída à glicose; incluía também as hiperglicemias pré-gestacionais não diagnosticadas previamente. Atualmente, a American Diabetes Association (ADA) e a International Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 74 Association of Diabetes and Pregnancy Study Groups (IADPSG) e colaboradores e a Organização Mundial da Saúde (OMS), distinguem duas formas de hiperglicemia diagnosticada na gravidez: o diabete – hiperglicemia que alcança os valores diagnósticos para diabetes fora da gestação; e o diabete gestacional – uma condição mais leve e menos heterogênea do que a definida antes com esse termo (OPPERMANN et al, 2013). É muito importante conhecer o tipo de diabetes associado ao estado disglicêmico, já que acarretará diferentes desfechos ao longo da gestação e do desenvolvimento fetal. A diabetes pré- gestacional (independente de ser DM1 ou DM2) é mais severo porque seus efeitos iniciam precocemente, na concepção, levando a um risco aumentado de abortos, malformações congênitas severas e restrição do crescimento fetal, principalmente nos casos não adequadamente controlados (RAY apud NEGRATO et al, 2010). Além das complicações fetais, desfechos maternos também são mais relevantes, especialmente na presença de complicações prévias como retinopatia, nefropatia e hipertensão. Diabete identificado antes da segunda metade da gestação, provavelmente trata-se de doença pré-existente não diagnosticada (NEGRATO et al, 2010). O diabete mélito gestacional (DMG), diagnosticado na segunda metade da gestação, afeta principalmente o crescimento fetal com tendência à macrossomia. Para que a gestante possa realizar uma decisão informada sobre testagem para DMG, deve-se informá-la que (NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLECE, 2008, NEGRATO et al, 2010): • em muitas mulheres, o DMG responderá a alterações na dieta e exercícios. A proposta inicial para DMG consiste em indicar uma dieta que permita adequado ganho ponderal e normalização da glicemia. O total calórico da dieta deve permitir ganho de peso em torno de 300-400g por semana após o segundo trimestre de gestação. Atividades físicas regulares são parte do tratamento de DMG, considerando-se sempre se há contra-indicações obstétricas (NEGRATO et al, 2010); • algumas mulheres (entre 10-20%) necessitarão de hipoglicemiantes orais ou insulinoterapia, se mudanças de hábito falharem em manter controle glicêmico ideal durante um período de uma a duas semanas (jejum<95mg/dl, 1h pós-prandial <140mg/dl, 2h pós-prandial <115mg/dl) (NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLECE, 2008; NEGRATO et al, 2010); • se o diabete gestacional não for detectado e controlado há um pequeno risco de complicações no parto, como macrossomia fetal, traumas durante o parto (para si e o bebê), indução do trabalho de parto ou cesariana, hipoglicemia neonatal e morte perinatal (NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLECE, 2008); • um diagnóstico de DMG vai levar a um aumento da monitorização e talvez de intervenções durante a gestação e parto (NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLECE, 2008). O potencial benefício do reconhecimento e tratamento do DMG inclui redução nos estados mórbidos da mulher e/ou do bebê durante ou imediatamente após a gestação, assim como os benefícios da reduçãodo risco de progressão para o diabete tipo 2 a longo prazo e/ou gestações futuras sendo Solicitar e avaliar exames complementares Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 75 complicadas por um diabete pré-existente ou DMG (NATIONAL COLLABORATING CENTRE FOR WOMENN’S AND CHILDREN’S HEALTH, 2008). Várias estratégias têm sido propostas com objetivo de rastrear DMG ao longo da gestação. No GHC recomenda-se uma estratégia semelhante à preconizada pelo Ministério da Saúde - em dois momentos, com pontos de corte de glicemia em jejum > 100mg/dl e 2hs após 75g de glicose > 140mg/dl - mas com ponto de corte menor em relação a glicemia de jejum (> 100mg/dl) em função da tendência da glicemia de jejum ser menor durante a gravidez (NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLECE, 2008) - Figuras 1 e 2. Outras recomendações utilizam pontos de corte mais baixo para glicemia de jejum, como por exemplo a recomendação da International Association of Diabetes in Pregnancy Study Groups (IADPSG), atualmente também referendada pela OMS. Contudo, estudos demonstraram que quando comparadas, estratégias mais agressivas e mais conservadoras identificaram de maneira semelhante a ocorrência de desfechos perinatais (WENDLAND et al, 2012). Recomenda-se o rastreio de DMG em todas as gestantes com a dosagem da glicemia de jejum como primeiro teste, caso a gestante inicie o pré-natal antes de 24 semanas de gestação. Em gestantes que iniciam o pré-natal após 24 semanas ou que tiveram rastreio positivo no início da gravidez deve ser realizado o teste de tolerância com 75g de glicose. Figura 1 - Fluxograma de acompanhamento a partir do resultado da glicemia de jejum na 1a consulta. Fonte: Os autores. Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 76 É importante lembrar que os testes glicêmicos devem ser realizados após 3 dias de uma dieta com consumo de mais de 150g de carboidratos, diariamente; a paciente não deve fumar durante a realização do exame e deve permanecer sentada ou deitada. 6.4.1 Fatores de risco para DMG A gestante é considerada com risco para DMG quando apresentar um ou mais dos seguintes fatores (NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE, 2008; INSTITUTE FOR CLINICAL SYSTEMS IMPROVEMENT, 2012; BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica, 2013, FEDERAÇÃO BRASILEIRA DAS ASSOCIAÇÕES DE GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA, 2011): • idade > 35 anos; • obesidade (IMC > 30kg/m²) ou ganho de peso excessivo na gravidez atual1; • diabete mélito em parente de primeiro grau; • crescimento fetal excessivo, polidrâmnio, hipertensão ou pré-eclâmpsia na gravidez atual; • antecedentes obstétricos de macrossomia (peso > 4,5kg) , morte fetal ou neonatal, perdas gestacionais de repetição, malformações, polidrâmnio, hipoglicemia neonatal ou Síndrome do desconforto respiratório; • DMG prévio; • uso de drogas hiperglicemiantes, Síndrome dos Ovários Policísticos. Figura 2 - Fluxograma de acompanhamento a partir de 24 semanas de gestação Fonte: Os autores 1 O quadro 3 do Capítulo 8 (Nutrição na gestação e puerpério) apresenta o ganho de peso habitual de acordo com o estado nutricional da gestante. Solicitar e avaliar exames complementares Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 77 6.4.2 Acompanhamento no pós-parto Para as pacientes com diagnóstico de DMG, deve-se oferecer aconselhamento sobre estilo de vida (controle de peso, dieta e exercício) e um TTG 75g 6 semanas após o parto, usando os critérios da OMS para diabete fora da gestação (glicemia jejum >126 mg/dl e/ou glicemia > 200mg/dl 2 horas após a carga de glicose) (BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica, 2013). Pacientes que se apresentam com glicemia de jejum entre 100-125 mg/dl são classificados com glicemia de jejum alterada e aqueles cuja glicemia se apresenta entre 140-199mg/dl 2 horas após a carga, intolerância a glicose, ambos os estados classificados como pré-diabetes. Se o teste for normal, considerar realizar no mínimo uma glicemia de jejum anualmente, no seguimento. Níveis de HBA1C maiores que 6,5% devem ser considerados diagnósticos de DM. É importante fornecer informações sobre o risco de DMG nas futuras gestações, oferecer pesquisa para diabetes quando a mulher estiver planejando futuras gestações e indicar TTG 75g glicose precocemente na próxima gestação. 6.5 Exame qualitativo de urina (EQU, Uroanálise ou Urina Tipo 1) e Urocultura com antibiograma Os exames EQU e Urocultura devem ser solicitados na primeira consulta e novamente no segundo (recomendação dos autores) e terceiro trimestre (BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica, 2013; BRASIL. Ministério da Saúde, 2015b; BRASIL, Ministério da Saúde, 2016a). O trato urinário e os rins sofrem várias alterações fisiológicas, funcionais e anatômicas durante a gravidez. No início da gestação, as alterações hormonais levam ao aumento na freqüência miccional, que volta no final da gestação como consequência dos fatores mecânicos. Cerca de 50% das gestantes irão apresentar glicosúria em algum momento da gestação. Pode também ocorrer aminoacidúria substancial causada pela diminuição de sua reabsorção tubular. A excreção de proteínas na urina pode duplicar, sendo que o limite aceitável para gestantes é de 300mg/24h. Pode ocorrer leve alcalemia e redução da osmolalidade. Quanto ao sedimento urinário, é aceitável 1 a 2 hemácias por campo de grande aumento, sendo discutível a presença de leucocitúria como manifestação normal na gestação (RAMOS et al, 2011). A Uroanálise ou EQU tipicamente consiste de uma análise de tira reagente e avaliação microscópica de uma amostra de urina. Detecta: densidade, pH, estearase leucocitária, nitritos, proteína, glicose, corpos cetônicos, urobilinogênio, bilirrubinas, sangue e hemoglobina. Análise microscópica detecta células e elementos formados, como cilindros e cristais, os quais sugerem pistas diagnósticas. Idealmente, deveria ser realizada no consultório, para avaliar rapidamente sintomas urinários e auxiliar no planejamento da conduta a ser tomada. O teste rápido de proteinúria está indicado para mulheres com hipertensão na gestação. Considera-se normal < 10mg/dl; traços entre 10 e 30 mg/dl; (+) 30mg/dl; (++) 40 a 100 mg/dl; (+++) 150 a 350 mg/dl e (++++) > 500 mg/dl. A presença de proteinúria (um + ou mais) deve ser seguida de solicitação de proteinúria de 24h, sendo um dos sinais para diagnóstico de pré-eclâmpsia. Na presença de traços de proteinúria e hipertensão e/ou edema ou na presença de Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 78 proteinúria maciça, referir ao Centro Obstétrico. A gestante deverá ser acompanhada no Pré-natal de Alto Risco (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016b). Considera-se: leucocitúria, a presença acima de 10.000 células/ml ou 5 células/campo.; hematúria, a presença acima de 10.000 células/ml ou de 3-5 hemácias por campo; proteinúria, alterado acima de 10mg/dl (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016a). Na presença de leucocitúria, deve-se realizar urocultura buscando confirmar a presença de infecção do trato urinário (ITU). Na indisponibilidade para realizar urocultura, tratar empiricamente. Na presença de cilindrúria, hematúria sem ITU ou sangramento genital e proteinúria maciça ou dois exames seguidos com traços de proteinúria, avaliar em consulta médica e, caso necessário, referir ao Pré-natal de Alto Risco. Na Urocultura, o critério original para o diagnóstico de bacteriúria assintomática (BA) é mais de 100.000 UFC/ml em duasamostras consecutivas, na ausência de sintomas urinários. A detecção de mais de 100.000 UFC/ml numa amostra de jato médio é aceita como uma alternativa adequada e mais prática, apesar de somente 80% das mulheres terão uma bacteriúria verdadeira, aumentando para 95% se 2 ou mais culturas forem positivas com o mesmo organismo. Devido ao desempenho baixo da uroanálise de tiras reagentes, urocultura quantitativa continua sendo o padrão-ouro para diagnóstico (SMAILL; VASQUEZ, 2015). A urocultura deve ser repetida após 7-10 dias do término do tratamento, que deve ser guiado pelo antibiograma (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016a; RAMOS et al, 2011). O capítulo 13 (Diagnóstico e manejo das intercorrências clínicas mais frequentes) apresenta diferentes esquemas possíveis para tratamento. Para as mulheres com bacteriúria assintomática, após tratamento e urocultura de controle negativa, é sugerido solicitar exames mensais até o parto ou a utilização de terapia supressiva até o término da gestação (LOCKWOOD; MAGRIPLES, 2016; RAMOS et al, 2011). Na ocorrência de dois ou mais episódios de ITU na gestação, deve-se prescrever profilaxia antimicrobiana, independente da presença ou não de fatores predisponentes. Para a profilaxia, os antibióticos mais utilizados são a nitrofurantoína (100mg), a ampicilina (500mg) ou a cefalexina (500mg) por via oral, com uma dose à noite, até duas semanas após o parto. As gestantes em geral devem ser orientadas a manter uma ingestão adequada de líquidos e urinar com freqüência (RAMOS et al, 2011). A prevalência de BA em gestantes é de 2 a 10%, justificando-se, portanto o seu rastreamento no pré-natal. Entre as gestantes com BA não tratadas, 30 a 40% irão desenvolver ITU sintomática e 25-50% poderão apresentar pielonefrite. O tratamento da BA diminui em 77% a incidência de pielonefrite (NNT= 7), sendo a principal razão para rastrear e tratar BA em todas as gestantes (MARTINS-COSTA et al, 2013). A pesquisa de BA por urocultura de jato médio é recomendada para todas as gestantes na primeira consulta de pré-natal. Uma urocultura obtida entre 12-16 semanas de gestação identifica 80% das mulheres que desenvolverão BA, com um adicional 1-2% de identificação pela repetição mensal do exame (BACHMAN, 1993 apud INSTITUTE FOR CLINICAL SYSTEMS IMPROVEMENT, 2012). Em relação ao tratamento da BA, é preciso levar em consideração a sensibilidade bacteriana e a segurança do fármaco. A duração do tratamento – curta (3 a 5 dias) ou longa (7 a 10 dias) – é assunto de debate na literatura. São descritos índices de cura de 70 a 80% com curso de antimicrobianos de três dias. No caso de falha do tratamento ou recorrência da infecção, deve-se tratar com antibiótico apropriado para o microrganismo de acordo com a cultura e os testes de sensibilidade (MARTINS- COSTA et al, 2013). Solicitar e avaliar exames complementares Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 79 Gestantes que apresentarem o estreptococo do grupo beta-hemolítico (GBS) na urocultura poderão receber profilaxia em trabalho de parto para prevenir a infecção neonatal de início precoce (LOCKWOOD; MAGRIPLES, 2016). Sendo assim, recomenda-se registrar esse achado na carteira da gestante. É importante lembrar que quadros de disúria, com urocultura negativa, podem ser uretrites causadas por Chlamydia tracomatis ou gonococo. Se leucocitúria estiver presente, aumenta-se a probabilidade. Investigar e tratar parceria sexual, também (COAD; FRIEDMAN; GEOFFRION, 2012). Na presença de pielonefrite (sintomas sistêmicos), referir imediatamente ao Centro Obstétrico (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016a). 6.6 IgG e IgM para toxoplasmose Recomenda-se solicitar IgG e IgM para toxoplasmose na primeira consulta de pré-natal e repetir o exame no segundo e terceiro trimestre, conforme resultado do primeiro exame. Se IgG reagente e IgM não reagente, indica doença prévia e não é necessário repetir no terceiro trimestre. Se IgG não reagente e IgM reagente, indica doença recente, iniciar o tratamento, encaminhar ao Pré-natal de Alto Risco e repetir o exame após três semanas. Se IgG e IgM reagentes, existirão dúvidas quanto a época da infecção. Nestes casos, se o teste de avidez de IgG for fraca ou a gestação for maior que 16 semanas, existe possibilidade da infecção ter ocorrido na gestação e então deve-se iniciar tratamento e encaminhar ao AR. Se a avidez for forte e gestação for < 16 semanas, é provável que a doença seja prévia. Se gestante for IgG e IgM não reagente, ela não está imune e deve-se orientar medidas de prevenção e repetir o exame no segundo e terceiro trimestre (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016a). Em casos de resultado de sorologia inconclusivo ou duvidoso, é possível confirmar o diagnóstico através de sorologias pregressas (quando houver) e repetição das sorologias (se possível por método Elisa para evitar resultados falso-positivos ou infecções passadas). O Quadro 1 oferece alguns indicadores de probabilidade de infecção a serem utilizados de acordo com resultado das sorologias e o Quadro 2 apresenta a interpretação dos exames e condutas. Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 80 Quadro 1 - Indicadores de probabilidade de diagnóstico de toxoplasmose Categoria diagnóstica e critérios para diagnóstico de infecção durante a gestação Diagnóstico definitivo • Viragem sorológica • RN infectado Diagnóstico provável • IgG superior a 300 UI/mL* • Baixa avidez de IgG* • IgG materna aumentando três vezes ou mais* Diagnóstico possível • Avidez de IgG intermediária na segunda metade da gestação* • IgG inferior a 300UI/mL e apenas um exame no momento do parto* • IgG inferior a 300UI/mL e apenas um exame no pré-natal, na segunda metade da gestação* Diagnóstico improvável • IgG inferior a 300 UI/mL e alta avidez de IgG com idade gestacional superior a 16 semanas* • IgG estável com exames realizados na segunda metade da gestação* Fonte: VARELLA, 2007 Nota: * Resultados associados a presença de IgM reagente Quando recomendado o tratamento, o esquema com espiramicina é usado na dose de 1g (3.000.000 UI), de 8 em 8 horas, via oral. O esquema tríplice consiste em pirimetamina, 25mg, de 12/12 horas, por via oral; sulfadiazina, 1.500mg, de 12/12 horas, por via oral; e ácido folínico, 10mg/dia, para a prevenção de aplasia medular causada pela pirimetamina (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016a). As orientações preventivas para evitar infecção são as seguintes: lavar as mãos ao manipular alimentos; lavar bem frutas, legumes e verduras, antes de se alimentar; não ingerir carnes cruas, mal cozidas ou mal passadas, incluindo embutidos (salames, copa, etc); evitar contato com o solo e terra de jardim, se isso for indispensável, usar luvas e lavar bem as mãos após essa atividade; evitar contato com fezes de gato no lixo ou solo; após manusear carne crua, lavar bem as mãos, assim como a superfície que entrou em contato com o alimento e todos os utensílios utilizados; não consumir leite e seus derivados crus, não pasteurizados, sejam de vaca ou cabra; propor que outra pessoa limpe a caixa de areia dos gatos e, caso isso não seja possível, tentar limpá-la e trocá-la diariamente usando luvas e pazinha; alimentar os gatos com carne cozida ou ração, não deixando que façam a ingestão de caça; lavar bem as mãos após contato com os animais (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016a). Solicitar e avaliar exames complementares Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 81 Quadro 2 - Resultados de IgG e IgM, conduta e seguimento. continua Resultados Situação IgG IgM Interpretação Conduta Ecografia Seguimento positiva negativa Imunidaderemota. Gestante com doença antiga ou toxoplasmose crônica. Não há necessidade de novas sorologias - - negativa negativa Suscetibilidade Programa de prevenção primária (ver abaixo conduta em caso de soroconversão) - Repetição de sorologia de 2/2 ou de 3/3 meses e no momento do parto. positiva positiva Possibilidade de infecção durante a gestação Fazer automaticamente o teste de avidez de IgG na mesma amostra. Avisar a paciente e/ou o médico assistente imediatamente. Avidez forte: infecção adquirida antes da gestação. Não há necessidade de mais testes. Avidez fraca: possibilidade de infecção adquirida na gestação. Iniciar espiramicina imediatamente. Ecografia fetal mensal Ecografias normais: manter espiramicina até o parto. Ecografia alterada: mudar para esquema tríplice (após 18 semanas). Investigação completa do RN. Primeira sorologia no 1º trimestre de gestação negativa positiva Infecção muito recente ou IgM falso positivo Iniciar espiramicina imediatamente. Repetir sorologia em três semanas. IgG positivou: confirma infecção. Ecografia fetal mensal Ecografias normais: manter espiramicina até o parto. Ecografia alterada: mudar para esquema tríplice (após 18 semanas). Investigação completa do RN. IgG continua negativa: suspender espiramicina. Prevenção primária. Repetir sorologia de 3/3m e no momento do parto positiva negativa Imunidade remota. Gestante com doença antiga ou toxoplasmose crônica. Não há necessidade de novas sorologias - - negativa negativa Suscetibilidade Programa de prevenção primária (ver abaixo conduta em caso de soroconversão) - Repetição de sorologia de 2/2 ou de 3/3 meses e no momento do parto positiva positiva Possibilidade de infecção durante a gestação Se a gestante tiver menos de 30 semanas: iniciar espiramicina. Gestante com 30 semanas ou mais de gestação: iniciar diretamente com esquema tríplice. Fazer teste de avidez de IgG. Ecografia fetal mensal Ecografias normais: manter espiramicina até o parto. Ecografia alterada: mudar para esquema tríplice (após 18 semanas). Investigação completa do RN. Primeira sorologia após o 1º trimestre negativa positiva Infecção muito recente ou IgM falso positivo Iniciar espiramicina imediatamente. Repetir sorologia em três semanas. IgG positivou: confirma infecção. Ecografia fetal mensal Ecografias normais: manter espiramicina até o parto. Ecografia alterada: mudar para esquema tríplice (após 18 semanas). Investigação completa do RN. IgG continua negativa: suspender espiramicina. Prevenção primária. Repetir sorologia de 3/3m e no momento do parto Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 82 Quadro 2 - Resultados de IgG e IgM, conduta e seguimento. continuação Resultados Situação IgG IgM Interpretação Conduta Ecografia Seguimento positiva negativa Possibilidade de falso negativo da IgG na amostra anterior, por método inadequado. Provável imunidade remota. Exceção – primeira sorologia (negativa) bem no início da gestação e exame subseqüente no final da gestação ou no momento do parto com IgG muito alta: possibilidade de infecção durante a gestação com IgM muito fugaz. Analisar também a possibilidade de IgM falso negativo. Se possibilidade de infecção adquirida na gestação, iniciar com esquema tríplice. Investigação completa do RN. - - negativa negativa Suscetibilidade Manter o programa de prevenção primária. - Repetir sorologia no momento do parto positiva positiva Certeza de infecção durante a gestação A paciente e o médico devem ser avisados pelo laboratório, para não retardar a conduta. Se a gestação tiver menos de 30 semanas: iniciar imediatamente com espiramicina. Se a gestação tiver 30 semanas ou mais: iniciar diretamente com esquema tríplice. Ecografia fetal mensal Ecografias normais: manter espiramicina até o parto. Ecografia alterada: mudar para esquema tríplice (após 18 semanas). Investigação completa do RN. Amostras subsequentes, na gestante inicialmente com IgG -/IgM - negativa positiva Infecção muito recente ou IgM falso positivo Iniciar espiramicina imediatamente. Repetir sorologia em três semanas. IgG positivou: confirma infecção. Se a gestação tiver 30 semanas ou mais: iniciar diretamente com esquema tríplice. IgG continua negativa: suspender espiramicina. Prevenção primária. Manter sorologia de 2/2 m ou de 3/3 m e no momento do parto. Ecografia fetal mensal Ecografias normais: manter espiramicina até o parto. Ecografia alterada: mudar para esquema tríplice (após 18 semanas). Investigação completa do RN. Fonte: BRASIL. Ministério da Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas, 2010. 6.7 Teste rápido para sífilis e VDRL Recomenda-se solicitar Teste rápido para sífilis ou VDRL na primeira consulta de pré-natal, no terceiro trimestre da gestação, no momento do parto ou em caso de abortamento (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016a). Solicitar e avaliar exames complementares Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 83 Os benefícios da detecção e tratamento da doença são elevados para a mãe e a criança (LOCKWOOD; MAGRIPLES, 2016). Todas as mulheres devem ser triadas sorologicamente para sífilis precocemente na gestação, se possível, logo após o diagnóstico de gestação, através de testes rápidos (TR) disponíveis nas unidades de saúde. Torna-se importante lembrar de ofertar o exame também ao parceiro. As mulheres grávidas infectadas pela sífilis podem transmitir a infecção ao feto, causando sífilis congênita, com consequências graves na gestação em 80% dos casos. Cerca de 25% resultam em natimortos ou abortos espontâneos, e outros 25% dos recém-nascidos apresentam baixo peso ao nascimento ou infecção grave, estando os dois casos associados a um maior risco de morte perinatal. Contudo, o fardo da sífilis congênita ainda é geralmente subestimado (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 2008). Gestante com exame de triagem positivo para sífilis deve realizar um teste adicional não treponêmico quantitativo (no GHC, VDRL), porque o resultado (titulação) é essencial para monitorar a resposta ao tratamento e a ocorrência de reinfecção. Em caso de gestante, o tratamento deve ser iniciado com apenas um teste reagente, treponênico ou não treponêmico, sem aguardar o resultado do segundo teste, salvo se história de tratamento e seguimento bem documentados. Segundo Telessaúde-RS (SOUZA, 2016), recomenda-se tratar sempre as parcerias sexuais da gestante portadora de sífilis, independente do tempo de contato. Se a parceria sexual apresentar teste negativo, tratar como sífilis recente (lembrar da possibilidade de janela imunológica). Se teste positivo, tratar conforme estadiamento clínico e sorológico da gestante. Se o diagnóstico da gestante for apenas laboratorial, com duração desconhecida, deve-se tratar o casal como sífilis latente tardia. Recomenda-se que gestantes soropositivas, mesmo com títulos baixos de VDRL, devem ter esse exame solicitado mensalmente até o parto, inclusive àquelas com tratamento adequado e testes não treponêmicos sequenciais demonstrando redução adequada dos títulos no passado, pelo risco de reinfecção. A elevação de títulos em testes não treponêmicos, na gestante, em duas diluições (por exemplo, de 1:16 para 1:64) indica reinfecção ou falha terapêutica e deve ser iniciadoum novo tratamento para o casal. No caso de falência na diminuição dos títulos, o intervalo de observação é 6-12 meses. Quanto aos casos previamente tratados, em relação à gestação atual, se os títulos permanecerem altos e estáveis, neste intervalo de 6-12 meses do tratamento, deve-se repetir o tratamento ou investigar neurossífilis. Esta foi uma mudança importante que o CDC (WORKOWSKI; BOLAN, 2015) adotou: neurossífilis pode ocorrer em qualquer estágio da sífilis, não se restringindo à fase terciária, e incluiu manifestações oculares como neurossífilis. Enfatiza-se que o tratamento não é com penicilina benzatina e sim com penicilina cristalina EV, com a paciente hospitalizada. Logo, em suspeita de neurossífilis, a gestante deve ser encaminhada para tratamento hospitalar. Mais detalhes sobre o tratamento da sífilis na gestação foram apresentados no capítulo 13 (Diagnóstico e manejo das intercorrências clínicas mais frequentes) no item 13.6 Destaca-se ainda que o Brasil é signatário junto à OPAS/OMS para a eliminação da transmissão vertical do HIV e da sífilis nas Américas. Em 2011, foi instituída a Rede Cegonha, entre cujas ações, no âmbito do componente pré-natal encontram-se a prevenção e o tratamento das ISTs, HIV/aids e Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 84 hepatites virais, com disponibilização de testes rápidos de HIV e sífilis, com posterior inclusão de testagem para hepatite B e C. Em 2014, a OPAS criou o Comitê Regional para Validação da Eliminação da Transmissão Materno-Infantil de HIV e sífilis, que certificará os países que alcançarem (BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de DST AIDS e Hepatites virais, 2015): • Taxa de transmissão vertical do HIV ≤ 2% E incidência de HIV pediátrico ≤ 0,3 caso/1.000 nascidos vivos; • Taxa de incidência de sífilis congênita ≤ 0,5 casos/1.000 nascidos vivos; • Cobertura de pré-natal (pelo menos 1 consulta) ≥ 95%; • Cobertura de testagem para HIV e sífilis em gestantes ≥ 95%; • Cobertura de tratamento com ARV em gestantes HIV+ ≥ 95%; e • Cobertura de tratamento com penicilina em gestantes com sífilis ≥ 95%. A notificação é obrigatória no caso de sífilis adquirida, sífilis em gestante, sífilis congênita, hepatites virais B e C, aids, infecção pelo HIV, infecção pelo HIV em gestante, parturiente ou puérpera e criança exposta ao risco de transmissão vertical do HIV, conforme a Portaria nº 1.271, de 6 de junho de 2014 (BRASIL.Ministério da Saúde, 2014). 6.8 Teste rápido para HIV ou sorologia (anti-HIV I e II) Recomenda-se realizar teste rápido para HIV na US na primeira consulta de pré-natal e solicitar sorologia (Anti-HIV I e II) no terceiro trimestre (BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das Doenças Sexualmente Transmissíveis, Aids e Hepatites, 2016). Seguimos, no entanto, a recomendação da UPTV do GHC que é a de solicitar Anti-HIV também no segundo trimestre. Na admissão no Centro Obstétrico (C.O.) do HNSC um último teste rápido é sempre realizado, dado haver soroconversões tardias nas gestações. Desta forma não se deixa de surpreender nenhum caso dessa natureza. A justificativa para rastreamento universal centra-se na possibilidade da transmissão vertical ser substancialmente reduzida com intervenções apropriadas (ex: uso antirretrovirais na gestação; infusão de zidovudina periparto; indicação de cesariana, caso a gestante não tenha recebido tratamento antirretroviral na gestação ou nos casos de falha ao tratamento (carga viral acima de 1000 cópias) ou em caso de carga viral desconhecida após as 35 semanas de gestação; substituição do leite materno) (LOCKWOOD; MAGRIPLES, 2016). As gestantes com resultados reagentes para o HIV (mesmo sem a confirmação diagnóstica em segunda amostra) devem ser encaminhadas para serviços de atenção especializada em DST/AIDS de referência. As gestantes em pré-natal nas US do SSC devem ser encaminhadas diretamente à Unidade de Prevenção e Transmissão Vertival (UPTV) do HNSC nas terças ou quintas às 12:00. Os parceiros, mesmo das gestantes não reagentes, devem ser rastreados. Parceiros HIV positivos (casais sorodiscordantes) também devem ser encaminhadas à UPTV. Após essa primeira consulta, novo encaminhamento da US deverá ser feito via GERCON. Em função da alta sensibilidade dos testes rápidos, todos os indivíduos recém-diagnosticados devem realizar imediatamente o exame de carga viral, contagem de linfócitos T CD4 e genotipagem do HIV. Esses exames podem ir sendo solicitados na APS à gestante encaminhada à UPTV. Os dois Solicitar e avaliar exames complementares Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 85 primeiros devem ser solicitados pelo SADT, já a genotipagem é um exame feito externamente (em São Paulo) e exige-se que seja solicitado em um formulário específico que encontra-se no repositório. Para mais detalhes sobre a abordagem diagnóstica da infecção pelo HIV na gestação, parto e puerpério, consultar o “Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Prevenção da Transmissão Vertical de HIV, Sífilis e Hepatites Virais”, disponível em <http://www.aids.gov.br/pagina/publicacoes>. 6.9 Teste rápido para Hepatite B e sorologia Recomenda-se solicitar teste rápido para Hepatite B ou sorologia (HBsAg) na primeira consulta de pré-natal e no terceiro trimestre (BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das Doenças Sexualmente Transmissíveis, Aids e Hepatites, 2016). Se a gestante for HBsAg não reagente e o seu esquema vacinal for desconhecido ou incompleto, deve-se indicar vacina. Para a gestante HBsAg reagente deve-se solicitar HBeAg e transaminases (ALT/TGP e AST/TGO) e encaminhá-la ao pré-natal de Alto Risco (BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das Doenças Sexualmente Transmissíveis, Aids e Hepatites, 2016). Quando a gestação ocorre em paciente portadora de infecção crônica pelo HBV com perfil imunológico HBsAg reagente/HBeAg reagente, ocorre um grave risco para o RN, pois sem a imunoprofilaxia adequada no momento do parto, mais de 90% das crianças irão desenvolver infecção aguda pelo HBV, e poderão progredir para infecção crônica com complicações da doença hepática crônica na idade adulta. Entretanto, com a administração de imunoglobulina (HBIg) e vacinação para hepatite B, o risco de transmissão reduz-se para 5% a 10%. Nas gestantes com perfil imunológico HBsAg reagente/HBeAg não reagente, o risco de transmissão perinatal é menor, de 10%-40%, mas sendo observada progressão para infecção crônica em parcela significativa das crianças sem a imunoprofilaxia adequada. A imunoprofilaxia combinada de HBIg e vacina previne a transmissão perinatal da hepatite B em mais de 90% dos RN (BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de DST AIDS e Hepatites Virais, 2015). No caso de gestantes que apresentarem o perfil HBsAg reagente/HBeAg não reagente, a determinação dos níveis séricos de HBV-DNA deverá ser realizada em primeira consulta (avaliação inicial) e repetida ao final do segundo trimestre da gestação. A decisão de terapia profilática deverá ser realizada na 28ª semana de gestação (BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de DST AIDS e Hepatites Virais, 2015). Em casos de níveis séricos elevados de HBV-DNA ou perfil imunológico HBeAg reagente, somente a imunoprofilaxia passiva-ativa do RN pode não ser suficiente para adequada prevenção da transmissão perinatal, podendo falhar em 10-15% dos casos, sendo indicada a terapia antiviral profilática, com tenofovir. Gestantes que apresentarem viremiaelevada ou HBV-DNA superior a 107 UI/mL deverão ser informadas de que há risco de transmissão perinatal, mesmo com advento de adequada imunoprofilaxia para o RN, e que o uso de lamivudina no último trimestre da gestação para redução da replicação viral poderá aumentar a eficácia protetora da combinação de vacina e HBIg Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 86 (BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de DST AIDS e Hepatites Virais, 2015). 6.10 Sorologia para rubéola A gestante deve ser rastreada quanto à sua imunidade contra rubéola (IgG), caso não tenha sido feito na pré-concepção (LOCKWOOD; MAGRIPLES, 2016). As gestantes suscetíveis (IgG não reagente) devem ser aconselhadas sobre os riscos da infecção durante a gravidez e devem ser orientadas a se vacinarem no puerpério imediato para proteção das futuras gestações (NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE, 2008; INSTITUTE FOR CLINICAL SYSTEMS IMPROVEMENT, 2012; FESCINA et al, 2011; LOCKWOOD; MAGRIPLES, 2016). Em Nota Técnica (NT) do MS (http://www.dive.sc.gov.br/conteudos/imunizacao/notas- tecnicas/nota-tecnica-rubeola.pdf) a recomendação é a de não solicitar IgM devido ao fato da maioria das gestantes apresentarem-se imunizadas e também da possibilidade de falso positivo na gestação. Segundo ainda a NT, a sorologia deveria ficar restrita às gestantes com manifestações clínicas ou que entraram em contato com pessoa acometida por doença exantemática. Em caso de contato com caso suspeito de rubéola, o método ideal para o diagnóstico é a pesquisa de anticorpos específicos, já que o diagnóstico clínico frequentemente pode ser confundido com outras doenças virais e a história de infecção no passado não é confiável. A IgM específica para rubéola faz o diagnóstico rapidamente, mas somente na fase aguda (esta presente até 30 dias após a infecção). Com IgM negativa, o diagnóstico fica ancorado nos níveis de IgG: um aumento quádruplo no título em intervalo de duas semanas faz o diagnóstico de doença atual. Sendo assim, após um contato com pessoa com rubéola deve-se solicitar a gestante IgG e IgM e repetir o exame em 15 dias, orientando quanto a provável infecção e prognóstico perinatal, este último com base na idade gestacional (MARTINS-COSTA et al, 2013). Em casos confirmados de infecção aguda materna, encaminhá-la ao Pré-natal de Alto Risco. 6.11 Ecografia obstétrica e morfológica Até o momento não existem evidências de que realização de ecografia obstétrica de rotina em gestações de baixo risco melhore desfechos perinatais (INSTITUTE FOR CLINICAL SYSTEMS IMPROVEMENT, 2012; ZOLOTOR; CARLOUGH, 2014). Apesar disso, é um exame realizado de maneira quase universal no acompanhamento pré-natal. Dessa forma, recomenda-se que seja solicitado em momentos nos quais possa acrescentar informações oportunas, com o máximo de fidedignidade. E que também seja utilizado no contexto de reforço de vínculo com o serviço de saúde, valorizando a necessidade da realização de medidas que tenham impacto comprovado no período gestacional. A ultrassonografia deve ser solicitada precocemente na gestação quando há incerteza sobre a data da última menstruação, quando a mulher apresentava ciclos menstruais irregulares ou quando houver discrepância entre a altura uterina e a idade gestacional presumida (ZOLOTOR; CARLOUGH, 2014). Também recomenda-se solicitação precoce desse exame àquelas gestantes com fatores de risco para pré-eclâmpsia (ver capítulo 5 - Exame físico da gestante - quadro 3). Solicitar e avaliar exames complementares Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 87 O melhor período para solicitação de ecografia sem indicação específica ao longo do pré-natal é entre 18 e 20 semana de idade gestacional, quando a ecografia ainda apresenta boa acurácia na avaliação da idade gestacional, poderá identificar a presença de malformações fetais (com baixa sensibilidade) e também poderá determinar o sexo da criança. Não há recomendação de solicitação de ecografia após 24 semana de gestação. Outra situação completamente distinta é a indicação do exame ultrassonográfico mais tardiamente na gestação, por alguma situação específica orientada por suspeita clínica, notadamente como complemento da avaliação da vitalidade fetal ou outras características gestacionais ou do feto. Está comprovado que, em gestações de alto risco, a ultra-sonografia com dopplervelocimetria possibilita a indicação de intervenções que resultam na redução da morbimortalidade perinatal (BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas, 2010). No quadro 3, lista-se condições cuja vigilância fetal antenatal através de ecografia pode ser benéfica em reduzir morbimortalidade (LISTON; SAWCHUCK; YOUNG, 2007). Não há recomendação para solicitação de ecografia morfológica de rotina, sendo um exame complementar na avaliação de suspeita de anomalia fetal, com base em história/exame obstétrico, resultado de exame laboratoriais ou ecografias obstétricas prévias. Ecografias em três dimensões permitem uma visualização em planos fetais inacessíveis à imagem em duas dimensões, contudo não existe evidência de benefício em relação à maior eficácia de diagnósticos fetais (AMERICAN CONGRESS OF OBSTETRICIAN AND GYNECOLOGISTS, 2009). Quadro 3. Historia obstétrica previa, gestação atual e condições associadas com aumento de morbimortalidade perinatal. Historia obstétrica prévia Materna ou fetal Distúrbios hipertensivos da gestação Descolamento de placenta Restrição de crescimento intrauterino Morte fetal Gestação atual Materna Pós-datismo (> 42 semanas) Distúrbios hipertensivos da gestação Diabete Mélito prévio Diabete gestacional que necessite de insulinoterapia Ruptura prematura de membranas amnióticas Descolamento de placenta crônico (estável) Isoimunização Pesquisa sérica alterada de aneuploidias (hCG ou AFP) na ausência de anormalidade fetal confirmada Acidentes de transito durante a gestação Sangramento vaginal Obesidade mórbida Idade maternal avançada Reprodução assistida Fonte: LISTON; SAWCHUCK; YOUNG, 2007. 6.12 Outros exames 6.12.1 Parasitológico de fezes Solicitar somente se anemia presente ou outras manifestações sugestivas. O diagnóstico e tratamento das parasitoses intestinais deveria ser realizados antes da gestação. Nenhuma droga antiparasitária é considerada totalmente segura na gestação. Mulheres com parasitoses intestinais só devem ser tratadas na gestação quando o quadro clínico for exuberante ou as infecções forem maciças, Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 88 não sendo recomendado o tratamento durante o primeiro trimestre da gestação. Medidas profiláticas, como educação sanitária, higiene correta das mãos, controle da água, dos alimentos, do solo, devem ser encorajadas devido ao impacto positivo que geram sobre a ocorrência de parasitoses intestinais (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016a). 6.12.2 Sorologia para hepatite C Segundo “Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Prevenção da Transmissão Vertical de HIV, Sífilis e Hepatites Virais” (BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de DST AIDS e hepatites virais, 2015), não se recomenda a pesquisa de anti-HCV de rotina no pré-natal devido aos baixos índices de detecção do agravo em gestantes, e ainda não existe imunoprofilaxia ou intervenção medicamentosa que possam prevenir a transmissão vertical da hepatite C. Deve-se realizar a sorologia em gestantes com fator de risco como: infecção pelo HIV, ausência de infecção pelo HIV e uso de drogas ilícitas, antecedentes de transfusão outransplante antes de 1993, mulheres submetidas a hemodiálise, aquelas com elevação de aminotransferases sem outra causa clínica evidente e profissionais de saúde com história de acidente com material biológico. Não há evidências científicas que recomendem uma via de parto preferencial com o propósito de prevenir a transmissão vertical. Recomenda-se evitar procedimentos invasivos, parto laborioso e tempo de ruptura de membranas maior que seis horas para minimizar a possibilidade de transmissão vertical. 6.12.3 Cultura de GBS (Estreptococo do Grupo Beta-hemolitico) Estima-se que 10% a 30% das gestantes são colonizadas por GBS nas áreas vaginal ou retal na forma transitória, intermitente ou crônica. Na ausência de prevenção, 50% dos recém-nascidos são colonizados por GBS durante o parto e 2% vão desenvolver uma enfermidade invasiva (FESCINA et al, 2011). No entanto, as diretrizes nacionais e internacionais divergem a respeito da recomendação de rastreamento de GBS na gravidez, usualmente feito entre 35 a 37 semanas de gestação, com cultura de swab coletado, primeiro, do intróito vaginal e, depois, do reto. Em revisão sistemática sobre a eficácia da profilaxia antibiótica intraparto em mulheres colonizadas por GBS (OHLSSON; SHAM, 2013), não foram encontradas diferenças em desfechos neonatais como mortalidade geral, mortalidade por infecção causada por GBS ou por outras bactérias, infecção tardia por GBS, sepse por outras bactérias não-GBS ou infecção puerperal. Houve uma redução na incidência de infecção precoce por GBS (NNT=25). Contudo, os autores alertam para o alto risco de viés encontrado nos estudos e concluem que a indicação de profilaxia intraparto não é suportada por evidências conclusivas. Atentam também para a quantidade de reações alérgicas aos antibióticos apresentada pelas gestantes, além do aumento da quantidade de bactérias resistentes e o efeito da exposição do recém-nascido a tais bactérias. Sendo assim, não recomenda-se o rastreio de GBS durante o pré-natal até o surgimento de evidências de benefício mais consistentes. Essa recomendação está alinhada com os últimos protocolos de atenção ao pré-natal de baixo risco do Ministério da Saúde. Solicitar e avaliar exames complementares Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 89 Buchabqui, Abeche e Nickwel (2011) alertam para algumas situações em que as gestantes são candidatas à profilaxia antibiótica intraparto: urocultura positiva para GBS na gestação atual; RN de gestação anterior acometido por sepse neonatal por GBS; trabalho de parto pré-termo (menos de 37 semanas); ruptura prematura de membranas amnióticas (rupreme) em pré-termo; rupreme por 18 horas ou mais e febre durante o trabalho de parto. 6.12.4 Pesquisa de clamídea O Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas (ACOG) recomenda rastreio de clamídea para todas as mulheres grávidas na primeira consulta pré-natal com o método NAAT (Nucleic acid amplification test). O CDC recomenda o rastreio de clamídea e gonococo às gestantes < 25 anos e as mulheres mais velhas em maior risco de infecção (por exemplo, as mulheres com um novo parceiro sexual, mais de um parceiro sexual, um parceiro sexual com parceiros simultâneos, ou de um parceiro sexual com infecção sexualmente transmissível) (LOCKWOOD; MAGRIPLES, 2016). No entanto, no GHC, a testagem é através de sorologia para clamídea, sendo realizada fora do hospital e não é rotina o rastreio universal em gestantes (Informação por contato direto com profissionais do Pré-natal do Alto Risco e do Laboratório). O tratamento da infecção por gonorreia e clamídea está descrito no capítulo 13 (Diagnóstico e manejo de intercorrências clínicas mais frequentes) e deve ser considerado em caso de sintomas (disúria com urocultura negativa, por exemplo) ou em gestantes pertencentes à grupo de risco. 6.12.5 Rastreamento para disfunção da tiróide A variabilidade das manifestações do hipotireoidismo durante a gestação são similares àquelas que ocorrem em pacientes não gestantes e podem incluir fadiga, intolerância ao frio, constipação e ganho de peso. Os sintomas podem ser subestimados ou atribuídos à gestação em si e muitas pacientes são assintomáticas. O hipotireoidismo pode ter efeitos adversos adicionais na mãe e criança, dependendo da severidade do mesmo. O diagnóstico de hipotireoidismo primário durante a gestação é baseado no TSH elevado, específico para cada trimestre (acima de 2,5 no primeiro trimestre ou 3,0 no segundo e terceiro trimestre) em conjunção com um T4 livre diminuído. Hipotireoidismo subclínico é definido como uma concentração de TSH elevada, específica por trimestre, e uma concentração de T4 livre normal. O rastreio universal de mulheres gestantes assintomáticas para disfunção da tireóide durante o primeiro trimestre é controverso. Sugere-se uma abordagem focada ao invés de rastreio universal (ROSS, 2016). Mulheres oriundas de áreas de insuficiência de iodo moderada a severa; sintomas de hipotireoidismo; história familiar ou pessoal de tireopatias; história pessoal de anticorpos anti- tireoperoxidase (TPO); diabete tipo 1; radiação da cabeça e pescoço; abortos recorrentes; obesidade mórbida ou infertilidade. Em mulheres que se encaixam nos critérios de risco, mede-se TSH no primeiro trimestre como rastreio para hipotireoidismo. Se o TSH é normal, nenhum teste adicional é necessário. Se o TSH é >2,5 mU/L, mede-se T4 livre para determinar o grau de hipotireoidismo. Em gestantes com hipotireoidismo subclínico (TSH >2,5mU/L com T4 livre normal), também mede-se anti-TPO. Todas as gestantes recém-diagnosticadas com hipotireoidismo (TSH além da referência normal para o trimestre [>2,5mU/L no primeiro trimestre e >3,0 mU/ no segundo e terceiro trimestre] com T4 livre Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 90 baixo) devem ser tratadas com levotiroxina. Sugere-se também reposição em gestantes com hipotireoidismo subclínico (TSH acima do valor para o trimestre específico, com T4 livre normal). Para pacientes com hipotireoidismo moderado a severo, deve-se iniciar com reposição plena (1,6 mcg/kg/dia) enquanto pacientes com TSH <10 mU/L podem tornar-se eutireóideas com doses menores e pode-se iniciar com 1mcg/kg/dia. TSH deve ser medido a cada 4 semanas durante a primeira metade da gestação para ajustes de doses necessários. O objetivo do tratamento é manter o TSH dentro do limite para cada trimestre (0,1 a 2,5 mU/L, 0,2 a 3 mU/L e 0,3 a 3 mU/L para o primeiro, segundo e terceiro trimestres, respectivamente). A dose necessária de T4 pode aumentar durante a gestação em mulheres com prévio hipotireoidismo ou hipotireoidismo subclínico. Para mulheres com hipotireoidismo compensado que ficam grávidas, sugere-se aumento imediato da dose de levotiroxina no momento do diagnóstico de gravidez. Pode-se conseguir isto aumentando a dose diária para um total de 9 doses por semana (o dobro da dose diária, dois dias por semana). Uma alternativa ao aumento preventivo da dose é medir o TSH assim que a gestação for confirmada, então novamente 4 semanas depois, 4 semanas após cada mudança na dose de T4 e no mínimo uma vez a cada trimestre. A dose deve ser ajustada conforme necessário a cada 4 semanas, para atingir um nível de TSH normal, conforme o trimestre. Um aumento na frequência de perdas fetais e partos prematuros tem sido relatado em mulheres eutireoideas com altas concentrações de anti-TPO. Apesar dos dados serem conflitantes, tratamento com levotiroxina de gestantes eutireoideas com anti-TPO pode diminuir riscos. Profissionais do Pré-natal de AR do HNSC sugerem rastreamento universal de tireoideopatias com a solicitação de TSH e T4 livre. Se TSH alterado, pedir anti-TPO. Se anti-TPO e T4 livre estiverem normais e o médico de famíliase sentir confortável em manejar, deverá tratar com levotiroxina e acompanhar a normalização. Se a gestante apresentar anti-TPO positivo, encaminhar para o pré-natal de alto risco e, se possível, já iniciar tratamento. 6.12.6 Pesquisa de aneuploidias fetais A incidência de síndrome de Down é de 1 para 1440 nascimentos em mulheres de 20 anos e 1 para 338 nascimentos em mulheres de 35 anos (ZOLOTOR; CARLOUGH, 2014). A pesquisa para síndrome de Down deve ser oferecida em serviços de saúde que possam fornecer aconselhamento pré e pós teste, onde os benefícios e riscos do programa de triagem, assim como as consequências de um resultado de exame positivo possam ser explicados para a mulher - os testes de rastreamento para síndrome de Down apresentam taxa de falsos-positivos de 90% a 95% e falsos negativos também são possíveis (ZOLOTOR; CARLOUGH, 2014). Informações específicas sobre a pesquisa da síndrome de Down incluem (NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLECE, 2008): • as condutas conforme os resultados sejam positivos ou negativos; • as decisões que precisam ser tomadas em cada fase da pesquisa e suas conseqüências; • o fato que a pesquisa não fornece um diagnóstico definitivo e uma explicação completa do escore de risco obtido, após testagem, é necessário; Solicitar e avaliar exames complementares Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 91 • informações sobre biópsia de vilosidades coriônicas e amniocentese e • informações acuradas sobre a síndrome de Down. O teste combinado (quadro 4) deve ser oferecido para rastreamento de síndrome de Down entre 11 a 14 semanas de gestação. Os testes triplo ou quádruplo devem ser oferecidos se o pré-natal iniciar tardiamente, entre 15 a 20 semanas (NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLECE, 2008). Quadro 4 - Exames solicitados para rastreamento da síndrome de Down. Testes Idade Gestacional (semanas) Taxa de detecção Estrategia de Rastreio PAPP-A* e beta-hCG livre com TN** 10-14 82%-87% Teste combinado AFP***, beta-hCG livre e estriol nao-conjugado 15-20 69% Teste triplo AFP***, beta-hCG livre, estriol nao-conjugado e inibina-A 15-20 81% Teste quádruplo Fonte: adaptado de: AMERICAN COLLEGE OF OBSTETRICIANS AND GYNECOLOGISTS, 2007; BERKOWITZ, 2006; CUCKLE, 2005; MALONE, 2005; SIMPSON, 2007 apud INSTITUTE FOR CLINICAL SYSTEMS IMPROVEMENT, 2012. Notas: *PAPP-A : pregnancy-associated plasma protein-A; **TN: transluscencia nucal; ***AFP: alfa-feto proteina Na presença de prega nucal aumentada (≥6mm) ou algum marcador sérico alterado a gestante deve ser encaminhada para especialista em Medicina Fetal para investigação complementar (ZOLOTOR; CARLOUGH, 2014). Este acompanhamento tem o intuito de diagnosticar de forma mais precisa a patologia, oferecer melhor esclarecimento ao casal quanto ao prognóstico do bebê, quanto à necessidade de investigação adicional e quanto ao risco de recorrência para uma próxima gestação (SANSEVERINO et al, 2011). 6.12.7 Sexagem fetal O exame de sexagem fetal é realizado através de uma coleta de sangue da mãe. Pode ser feito a partir da 8ª semana de gestação e permite identificar o sexo de feto com grande acurácia (> 97%). Este exame não faz parte da avaliação pré-natal do SUS, estando disponível na rede de laboratórios privados. 6.13 Exames complementares a serem solicitados para o parceiro A iniciativa Pré-Natal do parceiro do MS tem como objetivo preparar o homem para a paternidade ativa e consciente, assim como detectar precocemente doenças, atualizar a carteira vacinal e incentivar a participação em atividades educativas nos serviços de saúde. A última versão da Caderneta da Gestante do MS (BRASIL. Ministério da Saúde,2016b) traz espaço para o registro de vacinas (Antitetânica, Hepatite B e Febre Amarela), dados de exame físico (Peso, Altura, IMC e TA), consulta odontológica e exames complementares do parceiro (hemograma, tipagem sanguinea e fator Rh, glicemia, teste rápido para sífilis/VDRL, teste rápido para HIV/anti-HIV, hepatite C, HbsAg, lipidograma e eletroforese de hemoglobina (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016b). Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 92 No Capítulo 2 (Consulta pré-concepcional do casal) foram abordadas as recomendações, de forma mais detalhada, preconizadas para o parceiro (item 2.2), que inclui dados de anamnese, exame físico e critérios para a solicitação de exames complementares. 6.14 Quadro resumo dos exames complementares, avaliação e conduta O Quadro 5 apresenta os exames a serem solicitados de acordo com a idade gestacional da gestante, baseado na recomendação de seis consultas mínimas de pré-natal, do Ministério da Saúde (BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica, 2013). Quadro 5 - Exames complementares a serem solicitados conforme idade gestacional. Período gestacional Exames complementares Hemograma Grupo sanguíneo, fator D (Rh) e Coombs indireto (se Rh negativa ou história de hidropsia fetal ou neonatal) Eletroforese de hemoglobina (se indicado) Glicemia de jejum E.Q.U e urocultura com antibiograma IgG e IgM para toxoplasmose Teste rápido/VDRL Teste rápido/Anti-HIV (sempre com aconselhamento pré e pós-teste) Citopatológico para prevenção Ca colo do útero – conforme rotina Programa da Mulher do SSC/GHC Teste rápido/HbsAg IgG para rubéola Ecografia obstétrica Primeira consulta de pré-natal ou antes da 20ª semana Obs: incluir às gestantes com critérios de risco para pré-eclampsia (Quadro 3 do Capítulo 5) os seguintes exames: Hemograma com plaquetas, creatinina, ácido úrico e ecografia precoce para datação precisa da IG. Proteinúria e calciúria de 24h será solicitado conforme resultado do EQU. Hemograma Coombs indireto (mensal a partir da 24s, se gestante Rh negativa) Glicemia de jejum ou TTG 75 mg glicose, se rastreio positivo ou se o início do pré-natal ocorreu após 24s E.Q.U e urocultura com antibiograma IgG e IgM para toxoplasmose (somente se IgG e IgM não reagentes no 1º exame) Entre 24-28 semanas Anti-HIV (sempre com aconselhamento pré e pós-teste) Hemograma Coombs indireto (mensal a partir da 24s, se gestante Rh negativa) E.Q.U e urocultura com antibiograma IgG e IgM para toxoplasmose (somente se IgG e IgM não reagentes no 1º exame) Teste rápido/VDRL Anti-HIV (sempre com aconselhamento pré e pós-teste) Entre 29-41 semanas Teste rápido/HbsAg Fonte: Os autores O Quadro 6 apresenta as condutas a partir dos resultados encontrados nos principais exames complementares solicitados à gestante. Solicitar e avaliar exames complementares Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 93 Quadro 6 - Condutas conforme resultados dos exames complementares. continua Exame/resultado Resultado/conduta Hemograma Hemoglobina >11g/dl Normal. A evidência é insuficiente para recomendar a favor ou contra a suplementação de ferro em gestantes não-anêmicas. A OMS recomenda suplementação universal, em gestantes de risco. Caso o profissional e a gestante optem pela suplementação de ferro, deve ser prescrito 40 mg/dia de Fe elementar, a partir da 20ª semana, 1 hora antes das refeições. Hemoglobina 8-11 g/dl Anemia leve a moderada. Solicitar EPF e tratar parasitoses (não recomendado tratar no primeiro trimestre). Prescrever sulfato ferroso (120 mg de Fe elementar/dia, 1h antes das principais refeições, em jejum e com frutas cítricas). Repetir em 30 dias o hemograma (com ferritina): se níveis estiverem subindo, manter tratamento até atingir 11g/dl e, depois, reduzir dosepara suplementação (40mg/dia) até 3m após nascimento do bebê. Se níveis inalterados ou diminuídos, verificar adesão e referenciar pré-natal de alto risco. Solicitar eletroforese de hemoglobina para gestantes com anemia microcítica não-ferropriva (com ferritina normal). Hemoglobina < 8 g/dl Anemia grave. Referenciar ao CO e pré-natal de alto risco. Gestante com fator RhD negativo Solicitar tipagem sanguinea e fator RhD do pai da criança e Coombs Indireto da gestante. Se gestante apresentar Coombs indireto negativo, repetir mensalmente a partir da 24ª semana. Recomenda-se que a imunoglobulina anti-D seja realizada em até 72 horas após o parto em todas as as mulheres com RhD negativo não sensibilizadas (Coombs indireto negativo) e com um recém- nascido com RhD positivo. Se gestante apresentar Coombs indireto positivo ou positivar, referenciar ao pré-natal de alto risco. Glicemia de Jejum na gestante com IG < 24 semanas < 85mg/dl e sem fatores de risco*, repetir glicemia de jejum com 24-28 semanas. Na presença de fator de risco (rastreamento positivo), solicitar TTG 75g entre 24-28 semanas. 85-99mg/dl Rastreamento positivo, solicitar TTG 75g entre 24-28 semanas. 100-125mg/dl Confirmar com novo exame. Alteração mantida, diagnostica DMG. > 126mg/dl Confirmar com novo exame. Alteração mantida, diagnostica DM. TTG 75g/2h Jejum <100 mg/dl, 2h <140mg/dl - rastreamento negativo Jejum > 100 mg/dl OU 2h > 140mg/dl - Diabetes gestacional Jejum > 126 mg/dl OU 2h > 200mg/dl - Diabetes EQU Leucocitúria (> 10.000 cel/ml ou > 5 cel/campo) - ver urocultura e, na impossibilidade de realizar urocultura, tratar empiricamente. Hematúria (> 10.000 cel/ml ou 3-5 hemácias/campo)- excluir sangramento vaginal. Hematúria com leucocitúria, ver urocultura. Cilindrúria, hematúria sem infecção urinária ou sangramento genital, investigar. Proteinúria:< 10mg/dl = normal; de 10 a 30mg/dl = traços; + (30mg/dl); ++ (40-100mg/dl); +++ (150- 350mg/dl); ++++ (>500mg/dl). Na presença de traços de proteinúria (isolada), repetir o exame em 15 dias, caso se mantenha, encaminhar ao pré-natal de alto risco. Proteinúria de + ou mais, solicitar proteinúria de 24h. Na presença de traços de proteinúria e hipertensão e/ou edema ou proteinúria maciça, referir ao CO. Urocultura positiva Se assintomática e > 100.000 UFC/ml, considera-se Bacteriúria assintomática. Tratar conforme antibiograma, repetir urocultura após 7-10 dias do término do tratamento e solicitar exames mensais até o parto. Se sintomática, realizar tratamento para ITU. Se suspeita de pielonefrite, encaminhar para o CO. Dois ou mais episódios de ITU na gestação indicam profilaxia antimicrobiana. Obs: a presença de GBS na urocultura deve ser registrada para que seja realizada profilaxia antimicrobiana em trabalho de parto (prevenção de infecção neonatal). Disúria com leucocitúria positiva e urocultura negativa, suspeitar de uretrites por clamídea ou gonococo. Investigar e tratar parceria sexual concomitante. IgG e IgM para Toxoplasmose IgM não reagente e IgG reagente: paciente imunizada, não necessita nova dosagem. IgM e IgG não reagentes: Repetir no 2º e 3º trimestre e orientar medidas preventivas (lavar as mãos ao manipular alimentos; lavar bem frutas, legumes e verduras, antes de se alimentar; não ingerir carnes cruas, mal cozidas ou mal passadas, incluindo embutidos (salames, copa, etc); evitar contato com o solo e terra de jardim, se isso for indispensável, usar luvas e lavar bem as mãos após essa atividade; evitar contato com fezes de gato no lixo ou solo; após manusear carne crua, lavar bem as mãos, assim como a superfície que entrou em contato com o alimento e todos os utensílios utilizados; não consumir leite e seus derivados crus, não pasteurizados, sejam de vaca ou cabra; propor que outra pessoa limpe a caixa de areia dos gatos e, caso isso não seja possível, tentar limpá-la e trocá-la diariamente usando luvas e pazinha; alimenstar os gatos com carne cozida ou ração, não deixando que façam a ingestão de caça; lavar bem as mãos após contato com os animais. IgM reagente e IgG reagente: Sugere infecção recente. Solicitar teste de avidez de IgG. Se avidez for fraca ou gestação for maior que 16 semanas, existe a possibilidade da infecção ter sido na gestação e deve-se então iniciar tratamento. Se avidez for forte e gestação for < 16 semanas, é provável que a doença tenha sido adquirida previamente a gestação. Gestantes IgM reagentes devem ser encaminhadas ao AR. Informações mais detalhadas sobre investigação e tratamento encontram-se nos quadros 1 e 2. Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 94 Quadro 6 - Condutas conforme resultados dos exames complementares. continuação Exame/resultado Resultado/conduta TR Sífilis reagente 1º Gestantes reagentes para sífilis devem ser consideradas infectadas e tratadas imediatamente, a menos que uma história de tratamento adequado esteja claramente registrada em prontuário e/ou carteira de pré-natal E testes não treponêmicos (VDRL) sequenciais realizados demonstrem redução adequada dos títulos, conforme estágio da sífilis. 2º Parceria sexual deve ser tratada também, independentemente do resultado do TR/VDRL 3º Notificar e registrar na carteira o tratamento (doses e datas) do casal. 4º Solicitar VDRL imediatamente, para acompanhamento do tratamento. 5º Seguimento da gestante com VDRL mensal até parto. Observar queda de 4 vezes nos títulos (= duas diluições), indicando cura. Se persistir titulação ou elevar-se, repetir o tratamento. VDRL reagente (em qualquer titulação) 1º Solicitar teste treponêmico (TR, se disponível) para confirmação diagnóstica. Caso TR não disponível, tratar a gestante e o parceiro. 2º Notificar e registrar na carteira o tratamento do casal (doses e datas) assim como as titulações mensais a serem solicitadas até o parto para a gestante. 3º Deve ser oferecido acompanhamento do casal e de toda a criança com mãe VDRL reagente no pré-natal, conforme ficha de acompanhamento que é enviada pelo Monitoramento e Avaliação (SSC) ao profissional que realiza o pré-natal, a partir da notificação ou da identificação de gestante VDRL reagente nos exames de laboratório.. Teste rápido/Anti-HIV TR ou anti-HIV reagente: aconselhamento pós-teste, encaminhar para a UPTV (Unidade de Prevenção da Transmissão Vertical) do HNSC para iniciar tratamento. Encaminhar preferencialmente com a emissão de CMCE (regulação da SMS de PA) ou de forma direta nas terças e quintas ao meio dia (será atendida e o encaminhamento com a emissão de CMCE será feito posteriormente). Orientar para: a importância da prevenção da transmissão vertical; aconselhamento sobre suspensão do aleitamento materno; sobre sexo seguro, reforçando o uso de camisinha. Solicitar: Carga viral, CD4 (SADT) e genotipagem do HIV (formulário específico - no repositório). Não reagente: repetir entre 24-28 semanas e entre 29-41semanas. Se o parceiro for anti-HIV reagente, da mesma forma a gestante deve ser encaminhada a UPTV (casal sorodiscordante). Teste rápido/HBsAg Negativo: vacinar a gestante que não teve a oportunidade de receber a vacina na rotina dos serviços (esquema básico: 3 doses, com intervalo de 1m entre 1a e 2a e de 6m entre 1a e 3a). Positivo: solicitar HBeAg e transaminases (ALT/TGP e AST/TGO) e encaminhá-la ao PNAR. Registrar na carteira da gestante. O RN receberá imunoglobulina (HBIg) até 72h após o parto e 1º dose da vacina nas primeiras 12 horas de vida e deverá ser confirmada imunidade pós-vacinal solicitando anti-HBsAg até 1 ano de idade. Fonte: Os autores Nota: * idade > 35 anos; obesidade (IMC > 30kg/m²) ou ganho de peso excessivo na gravidez atual; diabete mélito em parente de primeiro grau; crescimento fetal excessivo, polidrâmnio,hipertensão ou pré-eclâmpsia na gravidez atual; antecedentes obstétricos de macrossomia (peso > 4,5kg) , morte fetal ou neonatal, perdas gestacionais de repetição, malformações, polidrâmnio, hipoglicemia neonatal ou Síndrome do desconforto respiratório; DMG prévio; uso de drogas hiperglicemiantes, Síndrome dos Ovários Policísticos. Referências AMERICAN COLLEGE OF OBSTETRICIANS AND GYNECOLOGISTS. ACOG Practice Bulletin No. 101: ultrasonography in pregnancy. Obstetrics and Gynecology, New York, v. 112, n. 2, pt. 1, p. 451-461, feb. 2009. ______. Hemoglobinopathies in pregnancy. Washington, DC, 2007. Disponível em : <https://www.guideline.gov/summaries/summary/10920>. Acesso em: 29 set. 2016. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolos da atenção básica: saúde das mulheres. Brasília, DF: Ed. Ministério da Saúde, 2016a. Disponível em: <http://189.28.128.100/dab/docs/portaldab/publicacoes/protocolo_saude_mulher.pdf>. Acesso em: 08 ago. 2016. _____. Caderneta da gestante. 3. ed. Brasília, DF: Ed. Ministério da Saúde, 2016b. Disponível em: <http://www.cosemsrn.org.br/wp-content/uploads/2016/03/Caderneta-Gest-Internet.pdf>. Acesso em: 16 nov. 2016. _____. Portaria n. 1271, de 06 de junho de 2014. Define a Lista Nacional de Notificação Compulsória de doenças, agravos e eventos de saúde pública nos serviços de saúde públicos e privados em todo o território nacional, nos termos do anexo, e dá outras providências. 2014. Disponível em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2014/prt1271_06_06_2014.html>. Acesso em: 5 jul. 2016. Solicitar e avaliar exames complementares Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 95 BRASIL. Ministério da Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Gestação de alto risco: manual técnico. 5. ed. Brasília, DF: Ed. Ministério da Saúde, 2010. Disponível em : <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/gestacao_alto_risco.pdf>. Acesso em: 29 set. 2016. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Atenção ao pré-natal de baixo risco. Brasília, DF: Ed. Ministério da Saúde, 2013. Disponível em: <http://189.28.128.100/dab/docs/portaldab/publicacoes/caderno_32.pdf>. Acesso em: 14 jul. 2016. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Prevenção da Transmissão Vertical de HIV, Sífilis e Hepatites Virais. Brasília, DF: Ed. Ministério da Saúde, 2015. Disponível em: <http://www.aids.gov.br/sites/default/files/anexos/publicacao/2015/58572/pcdt_transmissao_vertical_miol o_10_08_pdf_5557e.pdf>. Acesso em: 29 set. 2016 BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das Doenças Sexualmente Transmissíveis, Aids e Hepatites Virais. Manual técnico para o diagnóstico da infecção pelo HIV. 2. ed. Brasília, DF: Ed. Ministério da Saúde, 2016. Disponível em: <http://www.aids.gov.br/sites/default/files/anexos/publicacao/2013/55594/manual_tecnico_hiv_2016_final _25_07_pdf_54115.pdf>. Acesso em: 29 set. 2016. BUCHABQUI, J. A.; ABECHE, A. M.; NICKEL, C. Assistência pré-natal. In: FREITAS, F. et al. Rotinas em obstetrícia. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2011. COAD, B.; FRIEDMAN, B.; GEOFFRION, R. Understanding urinalysis: clues for the obstetrician- gynecologist. Expert Review of Obstetrics & Gynecology, London, v. 7, n. 3, p. 269-279, 2012. Disponível em: <http://www.medscape.com/viewarticle/763579>. Acesso em: 19 set. 2016. DI MARIO, S. et al. What is the effectiveness of antenatal care? (Supplement). Copenhagen: WHO Regional Office for Europe, 2005. Disponível em: <http://www.euro.who.int/__data/assets/pdf_file/0005/74660/E87997.pdf>. Acesso em: 29 set. 2016. FEDERAÇÃO BRASILEIRA DAS ASSOCIAÇÕES DE GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA. Manual de gestação de alto risco. São Paulo, 2011. FESCINA, R. et al. Saude sexual y reproductiva: guías para el continuo de atención de la mujer y el recién nacido focalizadas en APS. Montevideo: CLAP/SMR, 2011. Disponível em: <http://www.paho.org/clap/index.php?option=com_docman&view=download&category_slug=salud-de- mujer-reproductiva-materna-y-perinatal&alias=416-salud-sexual-y-reproductiva-guias-para-el-continuo- de-atencion-de-la-mujer-y-el-recien-nacido-focalizadas-en-aps-3-ed-6&Itemid=219&lang=en>. Acesso em: 29 set. 2016. INSTITUTE FOR CLINICAL SYSTEMS IMPROVEMENT. Routine prenatal care. July 2012. Disponível em: <https://www.icsi.org/_asset/13n9y4/Prenatal.pdf>. Acesso em: 14 jul. 2016. KIRKHAM, C. et. al. Evidence-based prenatal care: part I. general prenatal care and counseling issues. American Family Physician, Kansas City, v. 71, n. 7, apr. 2005. Disponível em: <http://www.aafp.org/afp/2005/0401/p1307.pdf>. Acesso em: 29 set. 2016. LISTON, R.; SAWCHUCK, D.; YOUNG, D. Fetal health surveillance: antepartum and intrapartum consensus guideline. Journal of Obstetrics and Gynaecology Canada, Toronto, v. 29, n. 9, 2007 Supplement.4. Disponível em: <https://sogc.org/wp-content/uploads/2013/01/gui197CPG0709r.pdf>. Acesso em: 29 set. 2016. LOCKWOOD, C. J.; MAGRIPLES, U. Initial prenatal assessment and first-trimester prenatal care. UpToDate, 2016. Disponível em: <http://www.uptodate.com/contents/initial-prenatal-assessment-and- first-trimester-prenatal-care?source=see_link§ionName=Airline+travel&anchor=H28#H28>. Acesso em: 9 ago. 2016. MARTINS-COSTA, S. H. et al. Infecções na gestação. In: DUNCAN, B. B. et al. Medicina ambulatorial: condutas de atenção primária baseadas em evidências. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2013. p. 428-441. NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CLINICAL EXCELLENCE. Antenatal care for uncomplicated pregnancies. London, 2008. Atualizado em mar. 2016. Disponível em: <https://www.nice.org.uk/guidance/cg62/resources/antenatal-care-for-uncomplicated-pregnancies- 975564597445>. Acesso em: 14 jul. 2016. Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 96 NATIONAL COLLABORATING CENTRE FOR WOMEN’S AND CHILDREN’S HEALTH. Diabetes in pregnancy: management of diabetes and its complications from preconception to the postnatal period. Jul. 2008. Disponível em: <http://www.nice.org.uk/nicemedia/live/11946/41320/41320.pdf>. Acesso em: 6 nov. 2016. NEGRATO, C. A. et al. Dysglycemias in pregnancy: from diagnosis to treatment. Brazilian consensus statement. Diabetology & Metabolic Syndrome, Bethesda, v. 2, p. 27, 2010. Disponível em: <http://download.springer.com/static/pdf/399/art%253A10.1186%252F1758-5996-2- 27.pdf?originUrl=http%3A%2F%2Fdmsjournal.biomedcentral.com%2Farticle%2F10.1186%2F1758-5996- 2-27&token2=exp=1475180334~acl=%2Fstatic%2Fpdf%2F399%2Fart%25253A10.1186%25252F1758- 5996-2-27.pdf*~hmac=4f7e4db5295c6cc76f7818521862796cb21b9fb1c7e9755e14f7bbf4a2b4ab31>. Acesso em: 29 set. 2016. OHLSSON, A.; SHAH, V. S. Intrapartun antibiotics for known maternal group B streptococcal colonization. Cochrane Database Systematic Reviews., Oxford, n. 1, jan. 2013. Disponível em: <http://www.aafp.org/afp/2005/0315/p1153.pdf>. Acesso em: 29 set. 2016. OPPERMANN, M. L. R et al. Diabetes na gestação. In: DUNCAN, B. B. et al. Medicina ambulatorial: condutas de atenção primária baseadas em evidências. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2013. p. 421-428. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE. Eliminação mundial da sífilis congênita: fundamento lógico e estratégia para acção. 2008. Disponível em: < http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/43782/4/9789248595851_por.pdf>. Acesso em 29 set. 2016. PEÑA-ROSAS, J. P. et al. Daily oral iron supplementation during pregnancy.Cochrane Database of Systematic Reviews, Oxford, n. 7, 2015. Disponível em: <http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/14651858.CD004736.pub5/pdf>. Acesso em: 29 set. 2016. RAMOS, J. G. L. et al. Doença renal e gravidez.In: FREITAS, F. et al. Rotinas em obstetrícia. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2011. p. 507-522. ROSS, D. S. Hypothyroidism during pregnancy: clinical manifestations, diagnosis, and treatment. UpToDate, 2016. Disponível em: <https://www.uptodate.com/contents/hypothyroidism-during-pregnancy- clinical-manifestations-diagnosis-and-treatment> Acesso em: 14 dez. 2016. SANSEVERINO, M. T. et al. Investigação genética pré-natal. In: FREITAS, F. et al. Rotinas em obstetrícia. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2011. p. 70-81. SMAILL, F. M.; VAZQUEZ, J. C. Antibiotics for asymptomatic bacteriuria in pregnancy. Cochrane Database of Systematic Reviews, Oxford, n. 8, 2015. Disponível em : <http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/14651858.CD000490.pub3/pdf/standard>. Acesso em: 29 set. 2016. SOUZA, C. F. Como devem ser tratadas as parcerias sexuais de pacientes com sífilis? Pergunta da semana. Disponível em: <https://www.ufrgs.br/telessauders/perguntas/>. Acesso em: 29 set 2016. VARELLA, I. S. Prevalência de toxoplasmose aguda em gestantes, incidência de toxoplasmose congênita e desempenho de testes diagnósticos em toxoplasmose congênita. 206 f. Tese. (Doutorado em Epidemiologia)-Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2007. WENDLAND, E. M. et. al. Gestational diabetes and pregnancy outcomes--a systematic review of the World Health Organization (WHO) and the International Association of Diabetes in Pregnancy Study Groups (IADPSG) diagnostic criteria. BMC Pregnancy Childbirth, London, v. 12, p. 23, mar. 2012. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3352245/pdf/1471-2393-12-23.pdf>. Acesso em: 29 set. 2016. WORKOWSKI, K. A.; BOLAN, G. A. Sexually transmitted diseases treatment guidelines, 2015. MMWR: Morbidity and Mortality Weekly Report, Atlanta, v. 64, n. 3, jun. 2015.Disponível em: <http://www.cdc.gov/mmwr/pdf/rr/rr6403.pdf>. Acesso em: 07 set. 2016. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Diagnostic criteria and classification of hyperglycaemia first detected in pregnancy. Geneva, 2013. Disponível em: <http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/85975/1/WHO_NMH_MND_13.2_eng.pdf?ua=1>. Acesso em: 07 set. 2016. _____. The global prevalence of anaemia in 2011. Geneva, 2015. Disponível em: <http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/177094/1/9789241564960_eng.pdf?ua=1&ua=1>. Acesso em: 29 set. 2016. Solicitar e avaliar exames complementares Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 97 ZOLOTOR, A. J.; CARLOUGH, M. C. Update on prenatal care. Americam Family Physician, Kansas City, v. 89, n. 3, p. 199-208, feb. 2014. Disponível em: <http://www.aafp.org/afp/2014/0201/p199.pdf>. Acesso em: 29 set. 2016. Imunização na pré-concepção, gestação e puerpério no acompanhamento pré natal de baixo risco Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 99 7. IMUNIZAÇÃO NA PRÉ-CONCEPÇÃO, GESTAÇÃO E PUERPÉRIO NO ACOMPANHAMENTO PRÉ-NATAL DE BAIXO RISCO Lisiane Andreia Devinar Périco “Eu comecei o pré-natal no convênio e depois fui fazer no Posto de Saúde. Fiquei impressionada que eles tinham o registro das vacinas que eu já havia feito. Isso foi muito bom, porque só precisei fazer uma dose de reforço da antitetânica”. Gestante moradora do território de atuação do SSC A gestação tem sido associada à supressão da função imunológica (humoral e celular) devido à necessidade do organismo materno acomodar um "corpo estranho" (SOUZA; B. FILHO; FERREIRA, 2002) colocando a gestante, assim, numa condição de vulnerabilidade às doenças infecciosas. Além disso, recém-nascidos e lactentes jovens permanecem suscetíveis a diversas doenças causadas por vírus e bactérias durante os primeiros meses de vida (BRICKS, 2009). A vacinação no período gestacional pode ser uma ação de proteção para a saúde das gestantes e dos bebês, evitando algumas doenças através da imunização. Em determinadas situações, a vacinação de gestantes beneficiaria não apenas a mãe, mas também protegeria seu filho por meio da passagem de anticorpos pela placenta, pelo colostro e leite materno (BRICKS, 2006). Porém, somente alguns imunobiológicos são recomendados para mulheres grávidas, devido ao temor de que as vacinas possam causar danos à gestante e ao feto (BRICKS, 2006). Neste capítulo vamos abordar recomendações relacionadas à vacinação de mulheres em idade fértil, gestantes, puérperas e de seus contatos para orientação de médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde das equipes durante a realização do acompanhamento pré-natal no Serviço de Saúde Comunitária (SSC), considerando que a recomendação do profissional de saúde é o preditor mais consistente para a efetiva administração das vacinas indicadas. 7.1 Recomendações gerais Os critérios para indicação de vacinação estão permanentemente sendo revisados à luz de novos conhecimentos, visto que as imunizações são objeto permanente de pesquisas, fato que confere a este tema uma grande dinamicidade. Recomenda-se ao profissional de saúde que, no momento de indicação da vacinação para mulheres em idade fértil, gestantes e puérperas, revise publicações atualizadas (por exemplo, novos calendários de vacinação), como forma de superar a possível defasagem entre o conhecimento contido neste capítulo e a orientação mais atualizada. Orienta-se avaliar a história vacinal de mulheres em idade fértil, gestantes, puérperas e seus contatos através dos registros na carteira de vacinação e no sistema de informação utilizado pela unidade de saúde (prontuários e registros de vacinas), pois independentemente do período de atraso de uma vacina, não é necessário reiniciar os esquemas vacinais, somente completá-los seguindo as normas técnicas específicas para cada imunobiológico (KREBS; CUNHA, 2009). Apenas registros escritos e com data devem ser aceitos como evidência de vacinação (KREBS; CUNHA; 2009). Em algumas situações, o estado imune em relação à determinada doença pode ser avaliado laboratorialmente; se não for possível esta avaliação laboratorial, a vacina poderá ser Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 100 administrada, pois a vacinação de uma pessoa já imune não apresenta riscos adicionais, além das possíveis reações adversas descritas após a administração da vacina (AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS, 2006; CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2006). Alguns fatores, situações e condições podem ser considerados como possíveis contra indicações gerais à administração de todo imunobiológico e devem ser objeto de avaliação também na gestação e puerpério, podendo apontar a necessidade do adiamento ou da suspensão da vacinação. A contraindicação é entendida como uma condição do usuário a ser vacinado que aumenta, em muito, o risco de um evento adverso grave ou faz com que o risco de complicações da vacina seja maior do que o risco da doença contra a qual se deseja proteger. Para todo imunobiológico, considera-se como contraindicação a ocorrência de hipersensibilidade (reação anafilática) confirmada após o recebimento de dose anterior e a história de hipersensibilidade a qualquer componente dos imunobiológicos (BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis, 2014). Em geral, as vacinas bacterianas e virais atenuadas não devem ser administradas em gestantes, exceto nas situações de alto risco de exposição a algumas doenças virais preveníveis por vacinas como, por exemplo, a febre amarela. As gestantes não devem receber vacinas vivas, pois existe a possibilidade de passagem dos antígenos vivos atenuados para o feto e de causar alguma alteração como malformação, aborto ou trabalho de parto prematuro. Nas situações específicas de profilaxia estará indicada a imunização passiva, que prevê o recebimentode soros ou imunoglobulinas específicas, como a imunoglobulina específica contra varicela ou hepatite B ou imunoglobulina hiperimune (BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis, 2014). Após a vacinação com vacinas de vírus vivos recomenda-se evitar a gravidez durante um mês; entretanto, se a mulher engravidar antes desse prazo ou se houver aplicação inadvertida durante a gestação, o risco teórico não justifica o abortamento em nenhum desses casos (BRASIL. Ministério da Saúde, 2001). De maneira geral, não há contraindicação de aplicação de vacinas virais atenuadas para as mães que estejam amamentando, pois não foram observados eventos adversos associados à passagem desses vírus para o recém-nascido. No entanto, a vacina contra a febre amarela não está indicada para mulheres que estejam amamentando, razão pela qual a vacinação deve ser adiada até a criança completar seis meses de idade. Na impossibilidade de adiar a vacinação, deve-se avaliar o benefício pelo risco. Em caso de mulheres que estejam amamentando e tenham recebido a vacina, o aleitamento materno deve ser suspenso preferencialmente por 28 dias após a vacinação (mínimo de 15 dias) (BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis, 2014). Situações especiais são situações que devem ser avaliadas em suas particularidades para a indicação ou não da vacinação e devem ser manejadas em conjunto com os Centros de Referência em Imunobiológicos Especiais (CRIES). Mas uma atenção deve ser dada às falsas contra-indicações, que interferem de forma importante para diminuir a cobertura da vacinação em grupos-alvo como as gestantes, tornado-as suscetíveis. (BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis, 2014; BRASIL. Ministério da Saúde, 2016b). Imunização na pré-concepção, gestação e puerpério no acompanhamento pré natal de baixo risco Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 101 7.2 Vacinas recomendadas para mulheres em idade fértil, gestantes e puérperas pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Ministério da Saúde – Brasil As vacinas ofertadas na rotina dos serviços de saúde do país são definidas no âmbito do Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde através da publicação de Portarias Ministeriais contendo os Calendários de Vacinação, nos quais estão estabelecidos os tipos de vacina, o número de doses do esquema básico e dos reforços, a idade para a administração de cada dose e o intervalo entre uma dose e outra, no caso do imunobiológico cuja proteção exija mais de uma dose (BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis, 2014). Considerando o risco, a vulnerabilidade e as especificidades sociais, o PNI define calendários de vacinação com orientações específicas para grupos populacionais (crianças, adolescentes, adultos, gestantes, idosos e indígenas). Os calendários de vacinação atualmente vigentes estão regulamentados pela Portaria nº 1.533, de 19 de agosto de 2016 (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016b) e são atualizados sistematicamente por meio de informes e notas técnicas pela Coordenação Geral do PNI e foram recentemente alterados pela Nota Informativa 384 de 2016 (BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis, 2014, 2016c, 2017). A vacinação de mulheres em idade fértil oferecida pelo PNI está indicada no Calendário Nacional de Vacinação do Adolescente e do Adulto, sendo oportunizada proteção contra as doenças Hepatite B, Febre Amarela, Sarampo, Caxumba, Rubéola, Difteria, Tétano, Meningite C e as causadas pelo vírus HPV, através das vacinas Hepatite B (Hep B), Febre Amarela (FA), Tríplice Viral (TV), Dupla Adulto (dT), Meningocócica C conjugada e HPV. Neste mesmo calendário, a vacinação de rotina das gestantes recomendada pelo PNI é contra Hepatite B (vacina Hep B), Tétano combinado com a vacinação contra Difteria e contra a Coqueluche (vacinas dT, TT e DTPa) (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016b). As recomendações do PNI para vacinação de mulheres em idade fértil, gestantes e puérperas encontram-se resumidas no Quadro 1: Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 102 Quadro 1 - Recomendações do PNI publicadas no Calendário Nacional de Vacinação 2017 para vacinação de mulheres em idade fértil, gestantes e puérperas Recomendação Vacina Esquemas considerando histórico vacinal Não gestante de 10 a 59 anos Gestante Puérpera Hepatite B Três doses, com intervalo de 30 dias entre a primeira e a segunda dose e de 6 (seis) meses entre a primeira e a terceira dose (esquema 0, 1 e 6 meses). Com esquema vacinal incompleto, não reiniciar o esquema, apenas completá-lo conforme situação encontrada. Gestantes: administrar 3 (três) doses da vacina hepatite B ou completar esquemas de vacinação iniciados na infância ou adolescência, considerando o histórico de vacinação anterior e os intervalos preconizados entre as doses. Caso não seja possível completar o esquema durante a gestação, deverá concluir após o parto. SIM SIM SIM Febre Amarela Uma dose e um reforço, verificando situação vacinal SIM Em geral contra indicada. Deve ser considerada em situações em que o risco da doença supere o risco da vacina Amamentando: Contra-indicada, devendo ser adiada até a criança completar 6 meses de idade. Na impossibilidade de adiar a vacinação, o aleitamento materno deve ser suspenso preferencialmente por 28 dias após a vacinação (mínimo de 15 dias) Tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) Duas doses, com intervalo mínimo de 30 dias, para mulheres com 20 até 29 anos de idade, de acordo com histórico vacinal, de forma que todas recebam no mínimo duas doses na vida. Uma dose para mulheres de 30 a 49 anos de idade, verificando histórico vacinal. SIM Contra-indicada SIM Vacinas contra difteria, tétano e coqueluche: dT (ou TT, na falta de dT) e dTpa dT ou TT:Três doses, no esquema 0-2-4 meses, verificando histórico vacinal. Com esquema de vacinação básica completo, realizar reforço com uma dose de dT (dupla bacteriana do tipo adulto) ou TT (na falta de dT), a cada dez anos. Durante a gestação: com esquema de vacinação básica incompleto, uma dose de dTpa, da vigésima semana (20a) a trigésima sexta (36a) semana de gestação, preferencialmente entre a 27a e 36a semanas, podendo ser administrada até 20 dias antes da data provável do parto, seguida por doses de dT até completar o esquema 0-2-4 meses. Para todas as gestante, mesmo que estejam com o esquema de vacinação contra o tétano em dia: uma dose de dTpa a cada gestação. Vacina dT – SIM Vacina dTpa – NÃO Vacina dT – SIM Vacina dTpa – SIM, a cada episódio de gestação, independente do histórico vacinal Vacina dT – SIM Vacina dTpa – Recomendada o mais precoce possível caso não tenha recebido na gestação HPV Duas doses, no esquema 0-6 meses, em meninas de 9 a 14 anos SIM (de 9 a 14 anos) Contra-indicada SIM (de 9 a 14 anos) Meningocócica C conjugada Dose única ou reforço, conforme histórico vacinal. SIM (12 a 13 anos) NÃO NÃO Fonte: BRASIL. Ministério da Saúde, 2017. Imunização na pré-concepção, gestação e puerpério no acompanhamento pré natalde baixo risco Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 103 Outras vacinas poderão ser consideradas, dependendo de circunstâncias especiais. Estes casos poderão ser avaliados na própria unidade de saúde ou encaminhados para avaliação acompanhados de um relato por escrito aos Centros de Referência em Imunobiológicos Especiais (CRIEs), em Porto Alegre nos seguintes endereços: • Hospital Sanatório Partenon – Rua Bento Gonçalves, 3722 - Partenon – Tel: (51) 3336.8802 • Hospital Materno Infantil Presidente Vargas (HMIPV)- Av. Independencia, 661 - 6° andar, sala 602 - Centro – Tel: (51) 3289.3019 7.2.1 Descrição dos esquemas de vacinação de rotina para gestantes recomendados pelo PNI contra Hepatite B (vacina Hepatite B), Tétano combinado com Difteria e Coqueluche (vacinas dT e DTPa) A) Vacinação contra hepatite B (recombinante) As principais finalidades da vacinação contra a hepatite B são prevenir a doença aguda, impedir a cronificação da hepatopatia e sua evolução para a cirrose hepática e ou hepatocarcinoma e, ainda, contribuir na redução da transmissão viral. As características da transmissão do vírus requerem estratégias diferenciadas de vacinação e, por este motivo, o PNI oferece a vacina contra a hepatite B nos calendários da criança, adolescentes, adultos, idosos e gestantes. O esquema de vacinação recomendado pelo PNI para proteção de mulheres e gestantes contra hepatite B deve ser realizado da seguinte forma (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016b): Para pessoas a partir de 7 (sete) anos de idade Sem comprovação vacinal: administrar 3 (três) doses da vacina hepatite B com intervalo de 30 dias entre a primeira e a segunda dose e de 6 (seis) meses entre a primeira e a terceira dose (0, 1 e 6 meses). Com esquema vacinal incompleto, não reiniciar o esquema, apenas completá-lo conforme situação encontrada. Para gestantes em qualquer faixa etária e idade gestacional Administrar 3 (três) doses da vacina hepatite B ou completar esquemas de vacinação iniciados na infância ou adolescência, considerando o histórico de vacinação anterior e os intervalos preconizados entre as doses. Caso não seja possível completar o esquema durante a gestação, deverá concluir após o parto. Em situação de violência sexual contra mulheres e gestantes, é importante estar atento para a necessidade de administração de três doses da vacina quando a vítima não for vacinada ou doses adicionais se estiver com esquema vacinal incompleto para hepatite B e considerar a necessidade de uso de Imunoglobulina humana anti-hepatite B (IGHAHB) se a vítima for suscetível e o agressor AgHBs positivo ou pertencente a situação de risco (usuário de drogas, portador de DST/Aids, sorologia desconhecida para hepatite B, por exemplo). Quando indicada, a IGHAHB deverá ser aplicada o mais precocemente possível (até no máximo, 14 dias após a violência sexual). Em Porto Alegre, o atendimento de vítimas de violência sexual é realizado em centros de referência do Sistema Único de Saúde: Hospital Materno Infantil Presidente Vargas, Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Hospital Conceição e Hospital Fêmina. Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 104 B) Vacinação contra o tétano e coqueluche Tétano O esquema de vacinação de rotina contra o tétano é realizada em mulheres em idade fértil e gestantes para a prevenção do tétano no recém-nascido e para a proteção da gestante, sendo realizado com a vacina adsorvida difteria e tétano do tipo adulto (dT- dupla adulto) ou, na falta desta, com o toxóide tetânico (TT) e com a vacina adsorvida difteria, tétano e pertussis acelular tipo adulto (dTpa). Ao utilizar dT ou TT deve-se seguir as recomendações abaixo (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016b): • Mulheres a partir de 7 (sete) anos de idade, com esquema vacinal completo (3 [três] doses) para difteria e tétano, administrar 1 (uma) dose a cada 10 anos após a última dose. • Mulheres a partir de 7 (sete) anos de idade não vacinadas ou sem comprovação vacinal para difteria e tétano, administrar 3 (três) doses com intervalo de 60 dias entre as doses, mínimo de 30 dias. • Mulheres a partir de 7 (sete) anos de idade, com esquema incompleto para difteria e tétano, completar esquema de 3 (três) doses, considerando as doses anteriores, com intervalo de 60 dias entre as doses, mínimo de 30 dias. Em todos os casos, após completar o esquema básico (com 3 doses de DTP, tetra ou penta em menores de 7 anos ou com 3 doses de dT ou TT em maiores de 7 anos) e reforços, administrar reforço com a dT ou TT a cada 10 anos após a última dose. Em casos de ferimentos graves, comunicantes de casos de difteria, antecipar a dose quando a última foi administrada há mais de 5 (cinco) anos. A vacina dT pode ser administrada a partir da comprovação da gravidez, em qualquer período gestacional. Completar esquema até 20 dias antes do parto. Coqueluche O Ministério da Saúde passou a disponibilizar em janeiro de 2017 a vacina adsorvida difteria, tétano e pertussis (acelular) tipo adulto (dTpa) para as gestantes a partir da 20ª semana de gestação, visando a proteção da gestante e da criança contra a Coqueluche. Com a ampliação do período de vacinação da gestante para receber uma dose da vacina dTpa, pode-se gerar maior proteção para a criança, com efetividade estimada em 91%, bem como dar maior oportunidade para que a gestante ter acesso à vacinação. As mulheres que perderam a oportunidade de serem vacinadas durante a gestação, devem receber uma dose de dTpa no puerpério, o mais precoce possível. Apesar da vacina dTpa poder ser aplicada no puerpério, é importante ressaltar que esta estratégia só deve ser realizada como última opção, pois ao se vacinar uma gestante após o parto, não haverá transferência de anticorpos para o feto, consequentemente, há diminuição da possibilidade de proteção das crianças contra a coqueluche nos primeiros meses de vida. A vacinação no período do puerpério impede apenas que a mãe adoeça e possa ser uma fonte de infecção para o seu filho, não impedindo, portanto, que a criança, ao ter o contato com outra fonte de infecção, tenha o risco de adoecer. Imunização na pré-concepção, gestação e puerpério no acompanhamento pré natal de baixo risco Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 105 Orientações para avaliação, indicação e esquema de vacinação contra tétano, difteria e coqueluche com as vacinas dT, TT e dTpa em gestantes e puérperas: Na avaliação, é necessário sempre considerar o histórico de vacinação contra difteria e tétano (dT) ou com toxóide tetânico (TT). • Gestantes:independente do histórico vacinal de vacina contra a coqueluche,administrar 1 (uma) dose da vacina dTpa a cada gestação. A vacina é indicada para as gestantes da vigésima semana (20a) a trigésima sexta (36a) semana de gestação, preferencialmente entre a 27a e 36a semanas, podendo ser administrada até 20 dias antes da data provável do parto. • Gestantes NÃO vacinadas previamente contra tétano e difteria: administrar três doses de vacinas contendo toxóides tetânico e diftérico com intervalo de 60 dias entre as doses, sendo 2 (duas) doses de dT e uma dose de dTpa a partir da 20a semana de gestação, preferencialmente entre 27ª e 36ª semanas. • Gestantes vacinadas com uma dose de dT, administrar uma dose de dT e uma dose de dTpa (entre 20ª e 36ª semanas de gestação, preferencialmente entre 27ª e 36ª semanas) com intervalo de 60 dias entre as doses, mínimo de 30 dias. • Gestantes entre a 20ª a 36ª semanas de gestação, vacinada com duas doses de dT, administrar uma dose da dTpa preferencialmente entre 27ª e 36ª semanas. • Gestantes entre 20ª a 36ª semanas de gestação, vacinada com três doses de dT, administrar uma dose de dTpa preferencialmenteentre 27ª e 36ª semanas. • Gestantes entre a 20ª a 36ª semanas de gestação, vacinada com três doses de dT e com dose de reforço há menos de cinco anos, administrar uma dose de dTpa preferencialmente entre 27ª e 36ª semanas. • Gestantes entre 20ª a 36ª semanas de gestação, vacinada com três doses de dT e com dose de reforço há mais de cinco anos, administrar uma dose de dTpa preferencialmente entre 27ª e 36ª semanas. • Gestantes que não foram vacinadas durante a gestação, aplicar uma dose de dTpa no puerpério o mais precoce possível. 7.2.2 Vacina influenza (fracionada, inativada) - Gripe A vacinação com vacina inativada contra influenza é recomendada para pessoas que estão em risco aumentado para complicações severas da gripe, incluindo-se mulheres que estarão grávidas durante a temporada de influenza (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2006). Administrar esta vacina em qualquer idade gestacional (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016b). 7.3 Vacinas recomendadas para gestantes pela Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) O Quadro 2 apresenta o esquema vacinal indicado para gestantes pela SBIm. Observe que ele descreve as vacinas para uso em gestantes conforme sua recomendação rotineira, em situação especial Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 106 ou em sua contraindicação e é válido para o período 2016/2017 (SOCIEDADE BRASILEIRA DE IMUNIZAÇÕES, 2016). Quadro 2 - Calendário de Vacinação SBIm Gestante - Recomendações da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) – 2016/2017 continua DISPONIBILIZAÇÃO DAS VACINAS Vacinas Esquemas e recomendações Comentários Gratuitas nas UBS* Clinicas privadas de vacinação RECOMENDADAS Histórico Vacinal Conduta na gestação Previamente vacinada, com pelo menos três doses de vacina contendo o componente tetânico Uma dose de dTpa (entre a 27ª e 36ª semana de gestação) Em gestantes com vacinação incompleta tendo recebido apenas uma dose de vacina contendo o componente tetânico Uma dose de dT e uma dose de dTpa, sendo que a dTpa deve ser aplicada entre a 27ª e a 36ª semana de gestação. Respeitar intervalo mínimo de um mês entre elas. Em gestantes com vacinação incompleta tendo recebido apenas duas doses de vacina contendo o componente tetânico Uma dose de dTpa (entre a 27ª e 36ª semana de gestação) Tríplice bacteriana acelular do tipo adulto (difteria, tétano e coqueluche) – dTpa ou dTpa-VIP Dupla adulto (difteria e tétano) - dT Em gestantes com vacinação desconhecida. Duas doses de dT e uma dose de dTpa, sendo que a dTpa deve ser aplicada entre a 27ª e a 36ª semana de gestação.Adotar esquema 0 – 2 – 4 meses ou 0 – 2 – 6 meses. Respeitar intervalo mínimo de um mês entre elas. - A dTpa está recomendada em todas as gestações, pois além de proteger a gestante e evitar que ela transmita a Bordetella pertussis ao recém-nascido, permite a transferência de anticorpos ao feto protegendo-o nos primeiros meses de vida até que possa ser imunizado. - A melhor época para aplicação da dTpa é entre a 27ª e a 36ª semana, pois permite a transferência de maior quantidade de anticorpos maternos para o feto, mas pode ser aplicada a partir da 20ª semana. - Mulheres não vacinadas na gestação devem ser vacinadas no puerpério, o mais precocemente possível. - A vacina está recomendada mesmo para aquelas que tiveram coqueluche, já que a proteção conferida pela infecção não é permanente. - Na falta de dTpa, pode ser substituída por dTpa-VIP, ficando a critério médico o uso off label em gestantes. SIM, dT e dTpa SIM, dTpa e dTpa-VIP Hepatite B Três doses, no esquema 0 – 1 – 6 meses. A vacina hepatite B é recomendada para todas as gestantes suscetíveis SIM SIM Influenza (gripe) Dose única anual. A gestante é grupo de risco para as complicações da infecção pelo vírus influenza. A vacina está recomendada nos meses da sazonalidade do vírus, mesmo no primeiro trimestre de gestação. Desde que disponível, a vacina influenza 4V é preferível à vacina influenza 3V, inclusive em gestantes, por conferir maior cobertura das cepas circulantes. Na impossibilidade de uso da vacina 4V, utilizar a vacina 3V. SIM, 3V SIM, 3V e 4V Imunização na pré-concepção, gestação e puerpério no acompanhamento pré natal de baixo risco Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 107 Quadro 2 - Calendário de Vacinação SBIm Gestante - Recomendações da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) – 2016/2017 continuação DISPONIBILIZAÇÃO DAS VACINAS Vacinas Esquemas e recomendações Comentários Gratuitas nas UBS* Clinicas privadas de vacinação RECOMENDADAS EM SITUAÇÕES ESPECIAIS Hepatite A Duas doses, no esquema 0-6 meses. É vacina inativada, portanto, sem contraindicação. Já que no Brasil as situações de risco de exposição ao VHA são frequentes, a vacinação deve ser considerada. NÃO SIM Hepatites A e B Para menores de 16 anos: duas doses, aos 0 – 6 meses. A partir de 16 anos: três doses, aos 0 – 1 – 6 meses. A vacina combinada é uma opção e pode substituir a vacinação isolada das hepatites A e B. NÃO SIM Pneumocócicas Esquema seqüencial de VPC13 e VPP23 pode ser feito em gestantes de risco para doença pneumocócica invasiva (DPI) (consulte os Calendários de vacinação SBIm para pacientes especiais). -A VPC13 está licenciada até 17 anos e a partir dos 50 anos de idade, ficando a critério médico sua recomendação entre 18 e 49 anos de idade (off label). -VPC13 e VPP23 são vacinas inativadas, portanto, sem riscos teóricos para a gestante e o feto. NÃO SIM Meningocócica conjugada ACWY Uma dose. Considerar seu uso avaliando a situação epidemiológica e/ou a presença de comorbidades consideradas de risco para a doença meningocócica (consulte os Calendários de vacinação SBIm para pacientes especiais). -As vacinas meningocócicas conjugadas são inativadas, portanto sem risco teórico para a gestante e o feto, devendo ser consideradas em situações de risco epidemiológico. -Na indisponibilidade da vacina meningocócica conjugada ACWY, substituir pela vacina meningocócica C conjugada. NÃO SIM Meningocócica B Duas doses,com intervalo de um a dois meses. Considerar seu uso avaliando a situação epidemiológica e/ou a presença de comorbidades consideradas de risco para a doença meningocócica (consulte os Calendários de vacinação SBIm para pacientes especiais). A vacina meningocócica B é inativada, portanto sem risco teórico para a gestante e o feto, devendo ser considerada em situações de risco epidemiológico. NÃO SIM Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 108 Quadro 2 - Calendário de Vacinação SBIm Gestante - Recomendações da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) – 2016/2017 continuação DISPONIBILIZAÇÃO DAS VACINAS Vacinas Esquemas e recomendações Comentários Gratuitas nas UBS* Clinicas privadas de vacinação CONTRAINDICADAS Febre Amarela Contraindicada na gestação. Porém, o médico deve avaliar sua utilização quando os riscos de adquirir a doença superam os riscos potenciais de vacinação. Gestantes que viajam para países que exigem o Certificado Internacional de Vacinação e Profilaxia (CIVP) devem ser isentadas da vacinaçãopelo médico assistente, se não houver risco de contrair a infecção. É contraindicada em nutrizes até que o bebê complete 6 meses; se a vacinação não puder ser evitada, suspender o aleitamento materno por pelo menos 15 dias e preferencialmente por 30 dias após a imunização. SIM SIM Tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) Não vacinar na gestação. Pode ser aplicada no puerpério e durante a amamentação. SIM, para as puérperas de até 49 anos SIM, para as puérperas HPV Não vacinar na gestação. Se a mulher tiver iniciado esquema antes da gestação, suspendê-lo até o puerpério. Pode ser aplicada no puerpério e durante a amamentação. NÃO SIM, para puérperas Varicela (catapora) Não vacinar na gestação Pode ser aplicada no puerpério e durante a amamentação. NÃO SIM, para puérperas Dengue Não vacinar na gestação Contraindicada para mulheres amamentando NÃO NÃO Fonte: SOCIEDADE BRASILEIRA DE IMUNIZAÇÕES, 2016. Notas: *UBS-Unidade Básica de Saúde 14/09/16 – Sempre que possível, preferir vacinas combinadas. – Sempre que possível, considerar aplicações simultâneas na mesma visita – Qualquer dose não administrada na idade recomendada deve ser aplicada na visita subsequente. – Eventos adversos significativos devem ser notificados à autoridades competentes. – Algumas vacinas podem estar especialmente recomendadas para pacientes portadores de comorbidades ou em outra situação especial. Consulte os Calendários de vacinação SBIm para pacientes especiais. 7.4 Recomendações do Centers for Disease Control and Prevention (CDC) Segundo o Centers for Disease Control and Prevention (CDC), o risco para o feto em desenvolvimento com a vacinação da mãe durante a gravidez é essencialmente teórico. Não existem evidências de risco em vacinar as mulheres grávidas com vírus inativados ou vacinas bacterianas ou toxóides. Geralmente, as vacinas de vírus vivos são contra indicadas para mulheres grávidas devido ao risco teórico de transmissão do vírus da vacina para o feto. Se uma vacina de vírus vivo for inadvertidamente administrada em uma mulher grávida, ou se uma mulher engravidar dentro de 4 semanas após a vacinação, ela deve ser orientada sobre os potenciais efeitos sobre o feto (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2016). Quando vacinas vivas precisam ser utilizadas na vacinação de mulheres grávidas deve-se considerar a relação riscos versus benefícios, isto é, o risco que a vacinação oferece contra os benefícios de proteção em uma circunstância particular. Os benefícios da vacinação de mulheres grávidas geralmente superam os riscos potenciais quando a probabilidade de exposição à doença é alta, Imunização na pré-concepção, gestação e puerpério no acompanhamento pré natal de baixo risco Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 109 quando a infecção pode constituir um risco para a mãe ou o feto e quando é improvável que a vacina cause dano (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2016). 7.4.1 Considerações do CDC relacionadas com vacinas do Calendário de Vacinação Brasileiro As recomendações do CDC em relação à vacinação de gestantes com as vacinas disponíveis no sistema de saúde público brasileiro são semelhantes às recomendações do Ministério da Saúde e da Sociedade Brasileira de Imunizações. Vamos destacar algumas recomendações do CDC específicas, em caráter complementar às orientações que foram anteriormente referenciadas (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2016). Varicela Os efeitos da vacina contra o vírus varicela sobre o feto são desconhecidos, portanto, mulheres grávidas não devem ser vacinadas. Mulheres não gestantes vacinadas devem evitar engravidar por um mês após a vacinação. A virulência do vírus atenuado usado na vacina é menor que o do vírus selvagem e o risco para o feto, se houver, deve ser ainda menor. Se ocorrer a vacinação de uma mulher sem saber que estava grávida ou se ela engravidar dentro de 4 semanas depois da vacinação contra a varicela, ela deve ser orientada sobre a ausência de base teórica para evitar preocupação com o feto; porém, a vacinação contra a varicela durante a gravidez não deve ser considerada como um motivo para interromper a gravidez (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2007, 2014,2016). Raiva Considerando as potenciais consequências do tratamento inadequado da exposição à raiva e que não há associação entre anormalidades fetais e a vacinação antirrábica, a gravidez não é considerada uma contraindicação para profilaxia pós-exposição (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 1999, 2008). Zoster Vacina zoster não deve ser administrada em mulheres grávidas. Além disso, não está licenciada para os grupos etários que incluam mulheres de idades fértil tradicionais. Mas, na maioria dos casos, a decisão de interromper a gravidez não deve basear-se no fato de a vacina zoster ter sido administrada durante a gravidez (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2008b,2016). Influenza atenuada A vacina de vírus vivo atenuado contra influenza não é recomendada para uso durante a gravidez (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2013, 2016). Poliomielite inativada (IPV) Embora não existam efeitos adversos do IPV documentados entre mulheres grávidas ou seus fetos, a vacinação de mulheres grávidas deve ser evitada em termos teóricos. No entanto, se uma mulher grávida está em risco aumentado para infecção e requer proteção imediata contra a pólio, o IPV pode ser administrado de acordo com os intervalos recomendados para adultos (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2000, 2016). Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 110 7.5 Classificação do uso das vacinas durante a gestação pelo U.S. Food and Drug Administration (FDA) Tradicionalmente, o FDA classifica produtos (medicamentos e vacinas, entre outros) em uma de cinco categorias (A, B, C, D, ou X), com base no risco de efeitos adversos reprodutivos e de desenvolvimento ou, para certas categorias, na base do risco ponderado contra os potenciais benefícios, da seguinte forma: • Categoria A: Estudos adequados e bem controlados em mulheres não conseguem demonstrar um risco para o feto no primeiro trimestre, não há nenhuma evidência de um risco nos trimestres posteriores e a possibilidade de dano fetal parece remota. • Categoria B: estudos de reprodução em animais não conseguiram demonstrar um risco para o feto e não existem estudos adequados e bem controlados em mulheres grávidas ou estudos com animais demonstraram um efeito adverso, mas estudos adequados e bem controlados em mulheres grávidas têm falhado para demonstrar um risco para o feto durante o primeiro trimestre (e não há nenhuma evidência de risco em trimestres posteriores). • Categoria C: estudos de reprodução em animais demonstraram um efeito adverso sobre o feto e não existem estudos adequados e bem controlados em seres humanos, mas os benefícios potenciais podem justificar o uso da droga em mulheres grávidas, apesar dos potenciais riscos ou de que estudos de reprodução em animais não tenham sido realizados e que não existam estudos adequados e bem controlados em seres humanos. • Categoria D: Há evidência positiva de risco fetal humano com base em dados sobre reações adversas a partir da experiência de investigação ou de marketing ou estudos em seres humanos, mas os benefícios potenciais podem justificar o uso da droga em mulheres grávidas apesar dos riscos potenciais. • Categoria X: Estudos em animais ou seres humanos demonstraram anormalidades fetais e/ou existe evidência positiva de risco fetal humano com base em dados sobre reações adversas a partir da experiência de investigação ou de marketinge os riscos envolvidos no uso da droga em mulheres grávidas superam claramente benefícios potenciais. Em dezembro de 2014, o FDA publicou novas regras para classificação de produtos, excluindo as categorias A, B , C, D e X, trocando por resumos narrativos sobre os riscos de uso de uma substância ou medicamento durante a gravidez e as discussões sobre os dados que suportam esses resumos. Em março de 2017, a classificação da maioria das vacinas ainda não havia sido convertida para as novas regras e estão descritas nas bulas dos fabricantes em relação ao seu uso na gravidez da seguinte forma: • Categoria B: PapilomavírusHumano , Influenza (Fluarix , FluLaval , Afluria , Flublok , Flucelvax , Fluzone , Fluzoneintradérmica , Fluvirin , Fluad , FluMist) , encefalite japonesa (Ixiaro) , meningocócica (Menveo) , dTpa (Boostrix) , o meningococo B. • Categoria C: hepatite A, hepatite B, gripe (Fluzone alta Dose, FluMist) , MMR , meningocócica ACWY (Menactra , Menomune) , pneumocócica (Pneumovax23) , Td , dTpa (Adacel) , BCG, encefalite japonesa (JE- VAX) , raiva , febre tifóide. Imunização na pré-concepção, gestação e puerpério no acompanhamento pré natal de baixo risco Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 111 • Categoria D: Anthrax ,Vaccinia . As vacinas já convertidas em resumos narrativos são: • Pneumocócica (Prevnar13)® - "Os dados disponíveis sobre a Prevnar13® administrada em mulheres grávidas são insuficientes para informar os riscos associados à vacina durante a gravidez." • Pólio - "Estudos de reprodução animal não foram realizados com a vacina IPOL® e também não se sabe se a vacina IPOL® pode causar danos fetais quando administrado a mulheres grávidas ou se pode afetar a capacidade reprodutiva; a vacina IPOL® deve ser administrada em uma mulher grávida se claramente necessário". • Varicela - "Varivax® não deve ser administrada a mulheres grávidas; por vezes, pode causar infecção por varicela congênita. A gravidez deve ser evitada por três meses após a vacinação com Varivax®". • Febre Amarela - "Também não se sabe se a YF-195 VAX® pode causar danos fetais quando administrada em mulheres grávidas ou se pode afetar a capacidade reprodutiva. YF-VAX® deve ser administrada em uma mulher grávida apenas se claramente necessário". • Zoster - "Zostavax® não deve ser administrada em mulheres grávidas; por vezes, pode causar infecção por varicela congênita gravidez e a gravidez deve ser evitada durante três meses após a vacinação com Zostavax®". 7.6 Viagem durante a gestação e necessidade de imunização Uma mulher grávida que esteja planejando viajar deve conversar com o profissional de saúde que está acompanhando o seu pré-natal para receber orientações sobre as vacinas que são necessárias. Ao orientar uma gestante em situação de risco muito alto para ocorrer uma infecção natural pelos agentes de doenças ao viajar (viagens a áreas endêmicas ou na vigência de surtos ou epidemias), deve-se avaliar cada situação, sendo válido optar-se pela vacinação quando o benefício for considerado maior do que o possível risco. Para obter mais informações, consulte http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/o-ministerio/principal/secretarias/svs/viajante e http://sbim.org.br/calendarios-de-vacinacao/504-vacinas-para-o-viajante. 7.7 Imunização passiva durante a gravidez Não existe nenhum risco conhecido para o feto na imunização passiva das mulheres grávidas com preparações de imunoglobulinas (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2016). 7.8 Rastreio pré-natal de doenças imunopreveníveis Segundo o CDC, as mulheres devem ser avaliadas quanto à imunidade para rubéola e varicela e serem testadas para a presença de HBsAg durante a gravidez. Uma gestante HBsAg positivo deve ser cuidadosamente monitorizada para assegurar que a criança receba imunoglobulina (IGHB), comece a série de vacinas contra a hepatite B o mais tardar 12 horas após o nascimento e complete a série de vacinas contra hepatite B recomendado na programação (calendário vacinal). Mulheres suscetíveis à Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 112 rubéola e varicela devem ser vacinadas imediatamente após o parto (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2016). No SSC, recomenda-se a solicitação de IgG para rubéola, caso a gestante não tenha sido testada na consulta pré-concepcional, assim como o rastreio da hepatite B (ver Capítulo 6 - Solicitar e avaliar exames complementares na gestação). 7.9 A vigilância sobre a condição de vacinação dos contatos da gestante É necessário que durante o pré-natal também seja avaliada a história vacinal de comunicantes próximos à gestante, principalmente em relação às doenças transmissíveis no contato pessoa a pessoa que expõe mãe e bebê a riscos (por exemplo, rubéola), cuja proteção se dá através de vacinas e que não poderão ser administradas à gestante procurando-se, assim, diminuir riscos de exposição. Esta avaliação poderá ser feita através dos registros na carteira de vacinação e no sistema de informação utilizado pela unidade de saúde (prontuários e registros de vacinas). Encontrando-se indivíduos suscetíveis (não vacinados ou com esquema incompleto), as vacinas deverão ser administradas conforme os calendários de vacinação - ver calendários de vacinação de crianças, adolescentes, adultos e idosos em http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/o-ministerio/principal/leia-mais-o-ministerio/197- secretaria-svs/13600-calendario-nacional-de-vacinacao. 7.10 A vacinação de mulheres que estão amamentando Embora os vírus vivos em vacinas possam replicar nos vacinados (no caso, a mãe), não tem sido demonstrado que a maioria dos vírus vivos em vacinas sejam excretados no leite humano (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2016). O vírus da vacina contra a varicela não foi encontrado no leite humano (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2016). Embora o vírus da vacina contra a rubéola possa ser excretado no leite humano, o vírus não costuma infectar a criança e se a infecção ocorrer é bem tolerada, porque o vírus é atenuado (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2016). Vacinas inativadas, recombinantes, subunidades, polissacarídeos e vacinas conjugadas, bem como toxóides, não representam um risco para as mães que estão amamentando ou para as suas crianças (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2016). A amamentação é uma contra-indicação para a vacinação da mãe contra a varíola por causa do risco teórico de transmissão por contato de mãe para filho (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2016). A vacina contra a febre amarela deve ser evitada em mulheres que amamentam. No entanto, quando mães que amamentam não podem evitar ou adiar a viagem para áreas endêmicas de febre amarela em que o risco para a aquisição é alta, essas mulheres devem ser vacinadas (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2016). Para mulheres que estejam amamentando crianças com até 6 meses de idade, independentemente do estado vacinal, a vacinação contra febre amarela não está indicada, devendo ser adiada até a criança completar 6 meses de idade. Na impossibilidade de adiar a vacinação, como em situações de emergência epidemiológica, vigência de surtos, epidemias ou viagem para área de risco de contrair a doença, o médico deverá avaliar o benefício e o risco da Imunização na pré-concepção, gestação e puerpério no acompanhamento pré natal de baixo risco Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 113 vacinação. Em caso de mulheres que estejam amamentando e receberam a vacina, o aleitamento materno deve ser suspenso preferencialmente por 28 dias após a vacinação (mínimo de 15 dias) (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016). Referências AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS.Red book: 2006 report of the Committe on Infectious Diseases. 27th ed. Elk Grove Village, IL: American Academy of Pediatrics, 2006. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de normas de vacinação. 3. ed. Brasília, DF: Ed. Ministério da Saúde: Fundação Nacional de Saúde, 2001. ______. Nota Informativa n. 143/CGPNI/DEVIT/SVS/MS: Recomendações da vacinação contra febre amarela, após a declaração da Organização Mundial da Saúde. 2016a. Disponível em: <http://portalsaude.saude.gov.br/images/pdf/2016/janeiro/14/Nota-Informativa-143-Febre-Amarela-Site- A-a-Z.pdf>. Acesso em: 23 set. 2016. ______. Portaria MS n. 1533 de 18 de agosto de 2016. Redefine o Calendário Nacional de Vacinação, o Calendário Nacional de Vacinação dos Povos Indígenas e as Campanhas Nacionais de Vacinação, no âmbito do Programa Nacional de Imunizações (PNI), em todo o território nacional. 2016b. Disponível em: <http://www.brasilsus.com.br/index.php/legislacoes/gabinete-do-ministro/8827-portaria-n-1-533-de-18-de- agosto-de-2016>. Acesso em: 26 out. 2016. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis. Nota Informativa n. 384/CGPNI/DEVIT/SVS/MS. Informa sobre as mudanças no Calendário Nacional de Vacinação para o ano de 2017. Brasília. 2016c. Disponível em: <http://portalsaude.saude.gov.br/images/pdf/2016/dezembro/28/Nota-Informativa-384-Calendario- Nacional-de-Vacinacao-2017.pdf ______. Calendário Nacional de Vacinação 2017. 2017. Disponível em: <http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/o-ministerio/principal/leia-mais-o-ministerio/197-secretaria- svs/13600-calendario-nacional-de-vacinacao BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis. Manual de normas e procedimentos para vacinação. Brasília, DF: Ed. Ministério da Saúde, 2014. BRICKS, L. F. Gestação e lactação. In: CUNHA J. et al. Vacinas e imunoglobulinas: consulta rápida. Porto Alegre: Artmed, 2009. p. 299-309. ______. Vacinação na gestação. In. COUTO, J. C. F.; ANDRADE, T. E. Infecções perinatais. São Paulo: Guanabara Koogan, 2006. p. 653-670. CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. Closure of varicella-zoster virus–containing vaccines pregnancy registry - United States, 2013. MMWR: Morbidity and Mortality Weekly Report, Atlanta, v. 63, n. 33, p. 732-733, 2014. ______. General recommendations on immunization: recommendations of the Advisory Committee on Immunization Practices (ACIP). MMWR: Morbidity and Mortality Weekly Report, Atlanta, v. 55, n. RR- 15, p. 32-33, 2006. ______. Guidelines for vaccinating pregnant women. Atlanta, 2016. Disponível em: <http://www.cdc.gov/vaccines/pregnancy/hcp/guidelines.html>. Acesso em: 19 set. 2016. ______. Human rabies prevention: United States, 1999: recommendations of the Advisory Committee on Immunization Practices (ACIP). MMWR: Morbidity and Mortality Weekly Report, Atlanta, v. 48, n. RR- 1, p. 17, 1999. ______. Human rabies prevention — United States, 2008: recommendations of the Advisory Committee on Immunization Practices (ACIP). MMWR: Morbidity and Mortality Weekly Report, Atlanta, v. 57, n. RR-3, p. 20-21, 2008b. Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 114 ______. Poliomyelitis prevention in the United States: recommendations of the Advisory Committee on Immunization Practices (ACIP). MMWR: Morbidity and Mortality Weekly Report, Atlanta, v. 49, n. RR- 5, p. 14, 2000. ______. Prevention and control of seasonal influenza with vaccines: recommendations of the Advisory Committee on Immunization Practices - United States, 2013–2014. MMWR: Morbidity and Mortality Weekly Report, Atlanta, v. 62, n. RR-7, p. 30, 2013. ______. Prevention of herpes zoster: recommendations of the Advisory Committee on Immunization Practices (ACIP). MMWR: Morbidity and Mortality Weekly Report, Atlanta, v. 57, n. RR-5, p. 21, 2008b. ______. Prevention of varicella: recommendations of the Advisory Committee on Immunization Practices (ACIP). MMWR: Morbidity and Mortality Weekly Report, Atlanta, v. 56, n. RR-4, p. 28-31, 2007. KREBS, L. S.; CUNHA, J. Imunobiológicos: orientação geral para seu uso. In: CUNHA, J. et al. Vacinas e imunoglobulinas: consulta rápida. Porto Alegre: Artmed, 2009. p 199-207. SOCIEDADE BRASILEIRA DE IMUNIZAÇÕES. Calendário de vacinação da gestante. 2016. Disponível em: <http://sbim.org.br/images/files/calend-sbim-gestante-2016-17-160914c-spread.pdf>. Acesso em: 26 out. 2016. SOUZA, A I.; B. FILHO, M.; FERREIRA, L. O. C. Alterações hematológicas e gravidez. Revista Brasileira de Hematologia e Hemoterapia, São José do Rio Preto, v. 24, n. 1, mar. 2002. Nutrição na gestação e puerpério Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 115 8. NUTRIÇÃO NA GESTAÇÃO E PUERPÉRIO Bruna Franzoni Lena Azeredo de Lima Natália Miranda Jung Renata Escobar Coutinho "Pelo meu filho eu faço o que for preciso para me alimentar bem. Tudo o que eu agora aprendi que fará mal pra ele, eu evito comer. Minha prioridade agora é ele" "Estou me controlando porque na primeira gravidez engordei 24 kg. Na segunda engordei 11 kg. Hoje eu me cuido para não engordar muito porque sei o quanto é difícil voltar ao peso normal depois" Gestantes moradoras da área atuação do SSC/GHC A gestação é caracterizada por mudanças fisiológicas decorrentes do intenso crescimento e desenvolvimento fetal. Nesse período, as escolhas alimentares saudáveis e o ganho de peso adequado impactam positivamente na saúde da mulher e da criança, enquanto o contrário está associado a desfechos desfavoráveis (REMAKRISHNAN et al, 2012). O ambiente fetal é reconhecido por sua importante contribuição à saúde e influência na predisposição a doenças ao longo da vida. A hipótese das origens fetais das doenças do adulto, ou “Hipótese de Barker”, afirma que fatores ambientais, em particular a nutrição, agem na vida precoce, programando riscos adversos à saúde na vida adulta (PORTELLA et al, 2012). 8.1 Avaliação nutricional da gestante O estado nutricional materno, o peso pré-gestacional e o ganho de peso durante a gestação são fatores determinantes para o peso ao nascer, relação peso/comprimento e reserva adiposa do recém- nascido. O peso ao nascer e a adiposidade apresentam impacto na morbidade e mortalidade neonatal, além de parecerem afetar o peso e a saúde a longo prazo na vida adulta. Nesse contexto, tanto o baixo, quanto elevado peso ao nascer, podem aumentar o risco de desenvolvimento de diabetes, hipertensão e doença cardiovascular. O ganho de peso gestacional excessivo aumenta o risco de hipertensão, pré- eclâmpsia e diabetes gestacionais, bem como retenção do peso no pós-parto, contribuindo assim para o risco de tornarem-se obesas (FRASER et al, 2010; HOCHNER et al, 2012; MACONES, 2016). Objetivos da avaliação nutricional da gestante: • identificar as gestantes em risco nutricional no início da gestação; • identificar ganho de peso inadequado para a idade gestacional e • subsidiar orientação alimentar individualizada. Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 116 8.1.1 Avaliação do estado nutricional pré-gestacional e estimativa do ganho de peso na gestação A avaliação antropométrica é o meio mais acessível, não invasivo, rápido e recomendado para se avaliar o estado nutricional. • Calcular o cálculo do Índice de Massa Corpórea (IMC), utilizando o peso anterior à gravidez (peso pré--gestacional) informado pela gestante e sua estatura, conforme fórmula abaixo: IMC = Peso (Kg) Estatura (cm2) • Verificar conforme classificação do peso pré--gestacional (Quadro 1). Quadro 1 - Classificação do estado nutricional segundoIMC. IMC Classificação ≤ 18,5 Baixo peso 18,5-24,9 Eutrófico - Adequado 25- 29,9 Sobrepeso ≥ 30 Obesidade Fonte: BRASIL, 2004. O estado nutricional pré--gestacional define qual será a recomendação de ganho de peso a ser adotada durante a gestação. Essa informação pode ser colhida em qualquer momento da gestação para estimar o total de ganho de peso esperado ao final das 40 semanas. O peso pré--gestacional é o ponto de partida para o traçado da curva de ganho de peso representada no Quadro 2. • Estimar o ganho de peso durante a gestação conforme a classificação do IMC, para gestação individual ou gemelar (Quadros 3 e 4). Quadro 3 - Recomendação do ganho de peso na gestação. Estado nutricional Ganho total de peso (kg) Ganho de peso no 2º e 3º trimestres (kg/semana) Baixo peso 12,5- 18,0 0,5 (entre 0,5-0,6) Peso adequado 11,5-16,0 0,5 (entre 0,4-0,5) Sobrepeso 7,0-11,5 0,3 (entre 0,2-0,3) Obesidade 5,0-9,0 0,2 (entre 0,2-0,3) Fonte: Institute of Medicine, 2009. Quadro 4 - Recomendação do ganho de peso na gestação gemelar. Estado nutricional Ganho total de peso (kg) Ganho de peso no 2º e 3º trimestres (kg/semana) Baixo peso Sem recomendação devido a dados insuficientes Peso adequado 16,8 – 24,5 0,454 Sobrepeso 14,1 – 22,7 0,272 Obesidade 11,4 – 19,1 0,226 Fonte: Institute of Medicine, 2009. Nutrição na gestação e puerpério Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 117 Quadro 2 - Classificação do estado nutricional da mulher gestante. Classificação Conduta Exemplo Baixo Peso Curva de ganho de peso: deve apresentar inclinação ascendente, em direção ao estado nutricional adequado. Investigar história familiar, hiperemese gravídica, infecções, parasitoses, anemias, doenças debilitantes; fornecer orientação nutricional, visando à promoção do peso adequado e de hábitos alimentares saudáveis; agendar consulta de pré-natal em intervalos menores e encaminhar ao nutricionista (nas unidades em que há o profissional). Adequado Curva de ganho de peso: deve apresentar inclinação ascendente, mantendo-se no estado nutricional adequado. Acompanhar estado nutricional nas consultas de pré-natal Sobrepeso Obesidade Curva de ganho de peso: deve apresentar inclinações ascendentes, acompanhando as linhas que delimitam a faixa de sobrepeso (inferior ou superior) ou obesidade (inferior). Investigar obesidade pré-gestacional, edema, polihidrâmnio, diabetes gestacional, gravidez múltipla; identificar erros alimentares que contribuam para o excesso de peso e corrigir; o objetivo não deve ser a perda de peso, mas o ganho de peso recomendado; encaminhar ao nutricionista (nas unidades em que há o profissional). Fonte: BRASIL, 2004. Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 118 8.1.2 Acompanhamento do estado nutricional conforme idade gestacional A cada consulta pré-natal, recomenda-se: • verificar seu peso atual e estatura; • calcular o IMC e • inserir o IMC encontrado, conforme semana gestacional, na curva de acompanhamento nutricional da gestante (Figura 1 e Anexo 2). Figura1. Curva para acompanhamento nutricional durante a gestação Fonte: BRASIL. Ministério da Saúde, 2004. 8.1.3 Avaliação dietética Uma anamnese alimentar detalhada deve ser realizada a fim de identificar o padrão alimentar da gestante. Erros alimentares como pular refeições, restrições ou hábitos alimentares especiais, consumo de bebidas açucaradas, baixo consumo de alimentos fonte de cálcio, frutas e vegetais e o alto consumo de alimentos ricos em gordura e açúcares, devem ser detectados (WIDEN; SIEGA-RIZ, 2010; VITOLO, 2015). Nutrição na gestação e puerpério Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 119 Para tanto, o profissional deve questionar: • comportamento alimentar atual e em gestações prévias (Exemplo: dieta vegetariana, dietas restritivas, presença de transtorno alimentar, etc.); • número de refeições/dia; • presença de intolerância, aversão ou alergia a alimentos; • sintomas como pirose, vômitos, refluxo, gases ou constipação intestinal e sua possível associação com os hábitos alimentares; • consumo de refrigerantes, bebidas alcoólicas, cafeína, produtos dietéticos, açúcar e gordura em excesso; • existência de crenças e tabus alimentares por parte da gestante e/ou de sua família. O Quadro 5 apresenta maneiras de questionar o padrão alimentar e avaliar se encontra-se adequado. Quadro 5 - Padrão alimentar e possíveis inadequações a serem observadas. O que perguntar? O que é adequado? Quantas refeições realiza por dia? Seis refeições ao dia, com intervalos de 2-3h entre elas. Consome leite e derivados? Quantas vezes? Três porções de lácteos por dia (leite, iogurte, queijos). ** Caso a gestante tenha restrição quanto ao consumo de alimentos fontes, a suplementação de cálcio deve ser considerada. Consome habitualmente frutas e verduras na alimentação? Frutas: 2 unidades (100 a 150g a porção) por dia. Verduras: diariamente, no almoço e jantar. Consome feijão? Quantas vezes? Quatro vezes por semana, minimamente. Consome carnes? Qual tipo e quantas vezes? Carne vermelha, branca ou ovo: consumo diário Peixes: consumo semanal Ingere água diariamente? Garantir o consumo diário de água (mínimo 2l) e controlar/restringir o consumo de bebidas açucaradas. Fonte: VITOLO, 2015. 8.2 Recomendações nutricionais na gestação 8.2.1 Necessidades energéticas Mulheres eutróficas e com gestação única necessitam aumentar sua ingestão energética de 340 a 450 Kcal/dia, no segundo e terceiro trimestre respectivamente, para garantir o ganho de peso adequado. Não é necessário aumentar a ingestão energética no primeiro trimestre. As necessidades energéticas variam conforme o nível de atividade física, bem como idade, peso e altura de cada mulher (KAISER; CAMPBELL; ACADEMY POSITIONS COMMITTEE WOKGROUP, 2014). 8.2.2 Macronutrientes Proteínas: O conjunto feto-placenta consome aproximadamente 1kg de proteína durante toda a gestação, sendo que a maior demanda ocorre nos últimos seis meses. Para garantir esse aporte, recomenda-se uma ingestão protéica de 1,1g/Kg/dia para mulheres grávidas (IOM, 2006). Essa recomendação é um pouco maior do que a recomendação de 0,8g/kg/dia para mulheres adultas não grávidas. Para gestantes adolescentes, a recomendação é 1,7g/Kg/dia (até 15 anos completos) e 1,5g/Kg/dia (acima de 15 anos) (VITOLO, 2015). Carboidratos: As necessidades de carboidratos aumentam de 130 para 175g/dia durante a gravidez (INSTITUTE OF MEDICINE, 2006). Deve ser dada preferência para alimentos integrais, frutas, Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 120 legumes e verduras e o consumo de carboidratos altamente processados deve ser minimizado para ajudar no controle do ganho de peso. Recomenda-se uma ingestão de 28g de fibras/dia para mulheres grávidas, o que, juntamente com a ingestão adequada de líquidos, pode ajudar a prevenir ou reduzir a constipação. Gorduras: A ingestão de diferentes quantidades e tipos de gorduras têm sido relacionada com diferentes desfechos como peso, idade gestacional e neurodesenvolvimento (ABU-SAAD; FRASER, 2010; ROMBALDI BERNARDI et al, 2012). As gorduras trans são transportadas para a placenta, proporcionalmente à ingestão materna. O consumo desse tipo de gordura pode estar associado a uma menor ingestão materna de ácidos graxos essenciais (INNIS,2006). O consumo de gorduras trans deve ser evitado ou reduzido durante a gestação devido a seus efeitos negativos em desfechos cardiovasculares, possíveis efeitos adversos na gestação e ausência de efeitos benéficos (GARNER, 2016). 8.2.3 Micronutrientes Ferro: O aumento no requerimento de ferro ocorre devido às necessidades de desenvolvimento do feto/placenta e aumento eritrocitário materno. A quantidade recomendada para gestantes é de 27mg/dia. Há duas formas de ferro dietético: heme, mais biodisponível, encontrado nas carnes; e não- heme, menos biodisponível, encontrado nos alimentos de origem vegetal (HURRELL; EGLI, 2010; MEI et al, 2011). Segundo Vitolo (2015), a orientação alimentar deve priorizar a ingestão de ferro heme e melhorar a absorção do ferro não-heme, com a ingestão concomitante de alimentos ricos em vitamina C. As principais fontes dietéticas de ferro estão apresentados na tabela 1. Tabela 1 - Quantidade de ferro em 100g dos alimentos. Alimentos Porção (100g) Ferro (mg) Fontes de ferro heme Carne de gado cozida (patinho) 1 bife médio 3 Carne de porco (carré grelhado) 1 pedaço médio 1 Carne de porco (costela assada) 1 pedaço médio 0,9 Coração de frango cozido 12 unidades grandes 6,5 Fígado de boi cozido 1 bife médio 5,8 Fígado de galinha cru 2 unidades médias 9,5 Frango cozido (peito sem pele) 1 pedaço médio 0,3 Frango cozido (sobrecoxa sem pele) 2 unidades pequenas 1,2 Peixe cozido 1 filé médio 0,4 Fontes de ferro não-heme Beterraba cozida 4 fatias grandes 0,2 Beterraba crua ralada 5 colheres de sopa cheias 0,3 Feijão preto cozido 1 concha média 1,5 Melado 2 colheres de sopa 0,8 Ovo 2 unidades 1,5 Fonte: Adaptado de Vítolo, 2015 Cálcio: o feto acumula cerca de 30g de cálcio para o desenvolvimento esquelético, principalmente no último trimestre. Sabe-se que as modificações hormonais da gestação promovem maior absorção intestinal e aumentam progressivamente a retenção renal de cálcio ao longo das 40 semanas, possibilitando um melhor aproveitamento do cálcio ingerido (HACKER; FUNG; KING, 2012; VITOLO, 2015). Devido a essas adaptações, embora os requerimentos de cálcio estejam aumentados na gestação, as recomendações dietéticas são iguais às das mulheres em idade fértil: 1000mg (1300 mg Nutrição na gestação e puerpério Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 121 para adolescentes entre 14 a 18 anos de idade) (INSTITUTE OF MEDICINE, 2010). Na tabela 2, estão apresentados alguns alimentos e seu conteúdo médio de cálcio. Tabela 2 - Quantidade de cálcio por porção de alimento. Alimento Porção Cálcio (mg) Couve (crua) 5 folhas médias (100g) 135 Iogurte natural integral 1 unidade (200g) 240 Leite desnatado 1 copo de requeijão (250g) 307 Leite integral 1 copo de requeijão (250g) 298 Pão de queijo 2 unidades médias (80g) 198 Queijo minas fresco 1 fatia média (30g) 205 Queijo tipo prato 1 fatia média (25g) 129 Requeijão 1 colher de sopa cheia (30g) 78 Ricota 1 fatia média (35g) 73 Sardinha enlatada em molho de tomate 1 lata pequena (83g) 199 Fonte:As autoras Vitamina D: é importante na formação e mineralização do esqueleto fetal. No entanto, há poucos dados que permitam analisar o real efeito da suplementação do nutriente na gravidez e lactação. O fato da vitamina D ser sintetizada pela pele, com a exposição solar, torna mais complexa a determinação de um valor de ingestão diária (INSTITUTE OF MEDICINE, 2011). A recomendação para gestantes não difere da recomendação para mulheres não grávidas que é de 600 UI (INSTITUTE OF MEDICINE, 2010). As principais fontes alimentares de vitamina D são peixes, como sardinha, atum e salmão, gema de ovo, óleo de peixe e óleo de fígado de peixe (VITOLO, 2015). Ômega 3: Os ácidos graxos insaturados de cadeia longa (LC-PUFA) apresentam importante papel no desenvolvimento do cérebro e retina. Mulheres grávidas e lactantes devem ser encorajadas a consumir de 2 a 3 porções de peixes fontes de ácido docosahexaenóico (DHA), por semana, para atingir a recomendação de 200 mg/dia. Nogureira-de-Almeida et al, (2014) recomenda: • Ingerir boas fontes nutricionais de DHA, especialmente peixes ricos nesses nutrientes como salmão, atum e arenque; • O consumo de peixes como fonte de DHA deve ser feito de forma criteriosa, evitando-se o uso de peixes que não se tenha segurança quanto a sua origem, seja pelo risco de contaminação por metais pesados, seja pelo baixo teor de DHA encontrado nos peixes de cativeiro alimentados com ração não fortificada e • Independentemente da dieta, toda gestante deve receber suplemento diário de DHA na dosagem de 200 mg, preferencialmente obtido industrialmente através de algas para evitar a contaminação por metais pesados. Entretanto, os efeitos em longo prazo da suplementação, durante a gestação, no desenvolvimento cognitivo e visual da prole ainda não são conclusivos (GOULD; SMITHERS; MAKRIDES, 2013). Ácido fólico: As recomendações americanas para a prevenção de defeitos do tubo neural sugerem o consumo diário de suplementos contendo de 0,4 a 0,8 mg de ácido fólico, um mês antes da concepção, mantendo por 2 a 3 meses após. A Recommended Dietary Allowance (RDA) de ácido fólico para mulheres grávidas é de 0,6 mg. Suas principais fontes são os vegetais verde-escuros, leguminosas, frutas cítricas, fígado e leite (VITOLO, 2015). Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 122 Vitamina A: A recomendação (770 mcg/dia) é um pouco maior do que aquela para mulheres adultas não-grávidas, que é de 700mcg. O consumo de suplementos contendo altas doses de vitamina A (> 3000 mcg) parece ter efeito teratogênico e deve ser evitado (ROTHMAN et al, 1995; WORLD HEALTH ORGANIZATION, 1998). A recomendação de vitamina A é facilmente alcançada com o consumo de alimentos fonte (tabela 3) e seu consumo não precisa ser diário (pode-se incluir os alimentos em dias alternados ou 3 vezes por semana) (VITOLO, 2015). Tabela 3 - Quantidade de Vitamina A por porção de alimento. Alimento Porção Vitamina A (mcg) Abóbora cozida 3 colheres de sopa (108g) 95 de ER Batata doce cozida 1 fatia grande (90g) 1534 de ER Brócolis cozido 3 ramos médios (100g) 138 de ER Cenoura cozida picada 4 colheres de sopa cheia (100g) 2455 de ER Cenoura crua ralada 4 colheres de sopa cheia (50g) 1406 de ER Couve refogada 4 colheres de sopa cheias (80g) 307 de ER Espinafre refogado 4 colheres de sopa cheias (100g) 819 de ER Fígado de boi cozido 1 bife médio (100g) 10318 de ER Mamão formosa 1 fatia média (170g) 252 de ER Manga (Tommy) 1 unidade média (410g) 484 de ER Fonte:As autoras Vitamina C: A recomendação de 85 mg pode ser facilmente atingida com a ingestão de uma fruta fonte de vitamina C diariamente (tabela 4). Em uma revisão sistemática da Cochrane, o uso de suplementos de vitamina C, sozinho ou combinado com outras vitaminas, parece não exercer efeito protetor contra desfechos como prematuridade, baixo peso ao nascer, pré-eclâmpsia e óbito fetal ou neonatal (RUMBOLD et al, 2015). A gestante deve ser questionada quanto ao uso de suplementos vitamínicos (principalmente os efervescentes), devido à alta dosagem contida nesses suplementos. Tabela 4 - Quantidade de Vitamina C por porção de alimento. Alimento Porção Vitamina C (mg) Acerola fresca 5 unidades (25g) 419,4 Laranja 1 unidade média (160g) 112,89 Kiwi 1 unidade media (76g) 74,48 Morango 10 unidades médias (100g) 56,7 Mamão formosa 1 unidade média (170g) 78,2 Goiaba 1 unidade média (90g) 165,15 Fonte: VITOLO, 2015 Zinco: Deficiência de zinco na gestação tem sido associada à má-formação congênita e a restrição de crescimento. Estudos observacionais sugerem que a suplementação pode levar ao aumento de peso ao nascimento (JAMESON, 1993;GOLDENBERG et al, 1995). No entanto, uma revisão sistemática de 2015, sobre suplementação de zinco versus placebo durante a gravidez, constatou que a intervenção não melhora qualquer desfecho da gestação, com exceção de uma redução de 14% no nascimento prematuro em estudos com mulheres de baixa renda. (RR 0,86; 95% CI 0,76-,97) (OTA et al, 2015). Nutrição na gestação e puerpério Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 123 8.2.4 Água A recomendação da ingestão de água de 3 litros/dia foi baseada na mediana de ingestão da população americana, sendo que 2,3 litros devem ser ingeridos em forma de líquidos, principalmente água pura. O restante representa o conteúdo de água presente nos alimentos (VITOLO, 2015). 8.2.5 Adoçantes Os adoçantes são substitutos naturais ou artificiais do açúcar que conferem sabor doce com menor número de calorias por grama. A recomendação de edulcorantes para gestantes deve estar embasada na relação custo-benefício do uso desses produtos, sendo que seu uso deve ser reservado para os casos de diabetes (TORLONI et al, 2007; VITOLO, 2015). Durante a gestação, por causa da grande disponibilidade no mercado a escolha pelo adoçante deve ser cuidadosa, pois determinadas substâncias utilizadas em sua formulação podem ser prejudiciais neste período. Existem poucas informações sobre o uso da sacarina e ciclamato na gestação, e seus efeitos sobre o feto. Devido às limitadas informações disponíveis e ao seu potencial carcinogênico em animais, a sacarina e o ciclamato devem ser evitados durante a gestação (risco C). O aspartame tem sido extensivamente estudado em animais, sendo considerado seguro para uso na gestação (risco B), exceto para mulheres homozigóticas para fenilcetonúria (risco C). A sucralose e o acessulfame-K não são tóxicos, carcinogênicos ou mutagênicos em animais, mas não existem estudos controlados em humanos. Porém, como esses dois adoçantes não são metabolizados, parece improvável que seu uso durante a gestação possa ser prejudicial (risco B). A estévia, substância derivada de uma planta nativa brasileira, não produz efeitos adversos sobre a gestação em animais, porém não existem estudos em humanos (risco B). Concluindo, segundo as evidências atualmente disponíveis, o aspartame, a sucralose, o acessulfame-K e a estévia podem ser utilizados com segurança durante a gestação (TORLONI et al, 2007). 8.2.6 Bebidas alcoólicas O consumo de álcool durante a gestação pode ter conseqüências negativas para a saúde da dupla mãe-bebê. A teratogenia do álcool está amplamente demonstrada em numerosos estudos experimentais. A placenta é totalmente permeável à passagem do álcool para o feto, ou seja, a alcoolemia fetal é bastante similar à materna (SEGRE, 2010). Apesar da associação entre consumo aumentado de álcool durante a gestação e deficiências fisiológicas, comportamentais e cognitivas, não há consenso a respeito de nível de risco, ou se há um limite claro abaixo do qual o álcool não seria teratogênico (SEGRE, 2010; DE VIDO; BOGUNOVIC; WEISS, 2015). Já que não se pode afirmar se existe um “nível seguro” de álcool para ser consumido durante a gravidez, a “Academia Americana de Pediatria” e o “Colégio Americano de Obstetrícia e Ginecologia” recomendam abstinência não só para as mulheres que estão grávidas, mas também antes da concepção, pois os efeitos parecem ser maiores nas fases iniciais do desenvolvimento embrionário (PASSINI JÚNIOR, 2005; SEGRE, 2010). Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 124 8.2.7 Cafeína A cafeína é um estimulante do sistema nervoso central que está presente em grande quantidade de alimentos, tais como: café, guaraná, refrigerantes à base de cola, cacau, bebidas energéticas, chimarrão, chocolate e alguns chás. O consumo de altas doses de cafeína na gestação está associado ao aumento do risco de prematuridade, restrição de crescimento intra-uterino, baixo peso ao nascer e aborto espontâneo (PACHECO et al, 2007). A Food and Drug Administration (FDA) aconselha que as gestantes evitem, sempre que possível, alimentos contendo cafeína ou, pelo menos, mantenham, durante a gravidez, o consumo abaixo de 200mg/dia. Outros pesquisadores definem o limite de consumo para gestantes em 300mg diários (PACHECO et al, 2007). Em termos práticos, isso significa o consumo de até três xícaras (200ml) de café coado ou duas xícaras (200ml) de café instantâneo/solúvel ou 2 xícaras pequenas (50ml) de café expresso. O teor de cafeína pode variar muito, dependendo da marca, do modo de preparo e da concentração da bebida. Dois tabletes pequenos de chocolate equivalem em média a uma xícara (200ml) de café coado. A quantidade de três litros de refrigerantes do tipo cola representam um consumo de 300mg de cafeína. 8.2.8 Chás O uso de chás é parte do cotidiano de grande parte da população brasileira, constituindo uma questão relevante dada suas possíveis implicações tanto para a saúde e o desenvolvimento da criança quanto na saúde da mãe. Estudos experimentais realizados com ratos demonstraram sangramento e relaxamento uterino como os efeitos mais comuns decorrentes do consumo de extrato de plantas. Cabe ressaltar que a quantidade avaliada é excessivamente maior do que aquela usualmente ingerida através dos chás. Dessa forma, avalia-se que o resultado encontrado pode não ser extrapolado para humanos, uma vez que essa dosagem dificilmente é consumida através de chás. Há exemplos de estudos para erva-doce (Foeniculum vulgare), camomila (Matricaria chamomilla), erva-cidreira (Melissa officinalis ou lemon balm), extrato de boldo (coleus barbatus ou peumus boldus) e espinheira-santa (Maytenus ilicifolia) (VITOLO, 2015). Levando-se em consideração que o uso de plantas medicinais não é uma prática inócua e que não existem estudos epidemiológicos que comprovem a associação entre o consumo de chás, nas quantidades utilizadas na prática diária, e complicações no período gestacional, indica-se que essa prática seja avaliada individualmente no contexto de cada gestação. 8.3 Orientações alimentares em situações comuns na gestação 8.3.1 Náuseas e vômitos São situações comumente experimentadas por mulheres no início da gravidez. Embora popularmente conhecido como "enjôo matinal”, os sintomas de náuseas e vômitos podem ocorrer em qualquer momento do dia. A condição é geralmente leve e autolimitada, manifestando-se no primeiro trimestre, especialmente entre seis e 12 semanas. Apesar de normalmente cessar antes das 14 semanas de gestação, podem continuar até a 20ª semana (SHEEHAN, 2007; MATTHEWS et al, 2014). As gestantes devem ser tranquilizadas de que a impossibilidade de alimentar-se adequadamente nessa Nutrição na gestação e puerpério Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 125 fase não vai prejudicar a nutrição do bebê. A sua condição nutricional anterior à gravidez terá maior impacto na formação e no desenvolvimento do feto, e não a quantidade de nutrientes consumidas no momento (VITOLO, 2015). Além disso, algumas mulheres experimentam sensação de gosto metálico na boca e intensificação da capacidade olfativa, o que pode agravar os sintomas de náusea e vômito. A combinação desses fatores pode resultar em aversão a diferentes tipos de alimentos que antes da gravidez eram bem aceitos (EBRAHIMI; MALTEPE; EINARSON, 2010). Não há ensaios clínicos sobre a efetividade da maioria das recomendações nutricionais para essa condição. No entanto, algumas orientações alimentares são tradicionais e, segundo uma pesquisa, foram consideradas úteis para amenizar o desconforto provocado pelas náuseas e vômitos nesse período. (CHANDRA; MAGEE; EINARSON, 2003; SHEEHAN, 2007). O resumo dessas recomendações encontra-se no Quadro 6. Quadro 6 - Orientações alimentaresmais comuns para náuseas e vômitos. • Manter o nível de hidratação e eletrólitos adequados, ingerindo até 2 litros de água por dia em pequenos volumes, várias vezes ao longo do dia; • Às vezes outros líquidos, além da água pura, são mais bem tolerados. Por exemplo: suco de fruta diluído, chás claros, limonada, água aromatizada (ex: com gengibre), etc. • Realizar refeições pequenas e mais frequentes; • Evitar a sensação de “estômago vazio”, fazendo lanches leves a cada uma ou duas horas; • Prevenir a sensação de “estômago cheio”, evitando refeições muito volumosas, alimentos muito gordurosos e o consumo de líquidos junto às refeições; • Para as náuseas matinais, é indicado o consumo de biscoitos do tipo cream-cracker antes de se levantar da cama; • Para o gosto metálico na boca, é indicado mastigar pedaços de gelo, consumir picolés e ingerir bebidas geladas; • Alimentos salgados parecem auxiliar no manejo dos sintomas; • Evitar alimentos gordurosos, apimentados ou com cheiro forte ou desagradável. Fonte: SHEEHAN, 2007; EBRAHIMI; MALTEPE; EINARSON, 2010 Em 2014, foram publicadas duas meta-análises de ensaios clínicos randomizados sobre o efeito anti-emético do gengibre. A conclusão de ambas foi de que o gengibre é mais eficaz para o tratamento de náuseas e vômitos do que o placebo. Com base nesses estudos, o gengibre pode ser considerado um tratamento não medicamentoso seguro, eficaz e de baixo custo para náuseas e vômitos (EBRAHIMI; MALTEPE; EINARSON, 2010; LINDBLAD; KOPPULA, 2016). O American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG) afirma que: "o tratamento de náuseas e vômitos na gravidez com gengibre tem mostrado efeitos benéficos e pode ser considerado como uma opção não farmacológica". No entanto, o ACOG reconhece que a recomendação é baseada em evidências científicas limitadas ou inconsistentes (GIACOSA et al, 2015). A vitamina B6 (piridoxina) tem sido extensivamente estudada por sua propriedade anti-emética. Dois ensaios clínicos randomizados relataram que a vitamina B6 reduziu significativamente a gravidade dos sintomas em mulheres com náuseas e vômitos em comparação ao placebo. A eficácia da piridoxina tem sido utilizada como parâmetro de referência em vários estudos para comparar a eficácia do gengibre em reduzir a gravidade dos sintomas, apontando para efeitos superiores do gengibre em relação à vitamina B6 (EBRAHIMI; MALTEPE; EINARSON, 2010). A suplementação de vitamina B6 com 25mg três vezes ao dia (manhã, tarde e noite), foi considerada útil para amenizar esses sintomas (VITOLO, Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 126 2015). Outras opções de tratamento, de acordo com gravidade dos sintomas, foram abordadas na capítulo 13 (Diagnóstico e manejo de intercorrências clínicas mais frequentes). 8.3.2 Pirose Os sintomas de queimação ou azia são decorrentes do refluxo gastroesofágico e ocorrem mais comumente à noite e, especialmente, após as refeições. Na maioria dos casos, tende a ser um efeito da pressão do útero aumentado sobre estômago combinado com o relaxamento do esfíncter esofágico (VITOLO, 2015). Algumas orientações nutricionais (Quadro 7) podem ser indicadas para a redução do sintoma. Quadro 7 - Orientações alimentares mais comuns para azia e queimação. • Fracionamento da alimentação; • Reduzir o volume de cada refeição; • Comer devagar e mastigar bem; • Evitar situações de stress durante as refeições; • Não ingerir grandes quantidades de alimentos próximo do horário de deitar; • Evitar deitar-se nas duas horas seguintes às refeições; • Evitar o consumo de líquidos junto às refeições. Fonte: VITOLO, 2015 A restrição de alimentos ácidos, tais como frutas cítricas, pode comprometer a ingestão de vitaminas sem necessidade, pois a acidez das frutas não é maior do que a do ácido clorídrico, sendo o refluxo gastroesofágico o maior responsável por esse sintoma (VITOLO, 2015). O manejo farmacológico da pirose pode ser encontrada no capítulo 13 (Diagnóstico e manejo das intercorrências clínicas mais frequentes). 8.3.3 Picamalácia Diferentes termos são utilizados para descrever a desordem alimentar conhecida como picamalácia, caracterizada pela ingestão persistente e compulsiva de substâncias inadequadas, alimentos esdrúxulos, condimentos raros ou substâncias estranhas, com pequeno ou nenhum valor nutritivo, ou de substâncias comestíveis, mas não na sua forma habitual. Outros termos adotados são: pica, picacia, picacismo, malácia, geomania, pseudorexia, entre outros (AYETA et al, 2015). Essa prática não é comumente referida pela gestante, a não ser que seja questionada (VITOLO, 2015). As práticas de picamalácia mais comuns na gestação são pagofagia (ingestão excessiva de gelo), geofagia (ingestão de terra/barro) e amilofagia (ingestão de goma, principalmente de lavanderia) (YOUNG, 2010; AYETA et al, 2015). A etiologia desse comportamento ainda é desconhecida. Sugerem- se algumas hipóteses: questões culturais, stress psicológico, fome, dispepsia e deficiências de micronutrientes (YOUNG, 2010). É importante ressaltar que esse comportamento é prejudicial à gestação, pois há riscos de contaminação por substâncias tóxicas, diminuição no aporte de nutrientes saudáveis e infecção por parasitos intestinais (VITOLO, 2015). Nutrição na gestação e puerpério Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 127 8.3.4 Constipação intestinal e gases A constipação é um problema digestivo muito comum, sendo bastante freqüente no período gestacional (KAWAGUTI et al, 2008). As mudanças hormonais na gestação, principalmente o aumento da progesterona, relaxam a musculatura intestinal, diminuindo o peristaltismo. Como já é previsível que esse problema apareça ou se agrave a partir da 20ª semana gestacional, é importante que desde o início das consultas de pré-natal medidas preventivas sejam adotadas, mesmo que as queixas ainda não estejam presentes (VITOLO, 2015). Concomitantemente ao problema de constipação, é freqüente a formação excessiva de gases em mulheres gestantes. Clinicamente, a flatulência apresenta-se associada à dor, desconforto e/ou distensão abdominal. As causas do excesso de gases podem ser decorrentes de aerofagia (deglutição de ar durante o ato de comer e/ou beber) e/ou fermentação bacteriana excessiva dos conteúdos intestinais. (BRASIL, 2005) A constipação está relacionada a hábitos alimentares inadequados, especialmente a baixa ingestão de fibras e o baixo consumo de água. A recomendação preconizada do consumo de fibras para a população brasileira é de 25 a 30g por dia, para adultos saudáveis. Na gravidez, a recomendação é de 28g por dia. Não apenas a falta de fibras na dieta, mas também o baixo consumo de água contribui para o desenvolvimento da constipação intestinal. À medida que as fibras aumentam o bolo fecal, a água o torna mais macio, e é importante avaliar o padrão alimentar da gestante, pois o baixo consumo de água pode ser uma das causas da constipação. A correção desses hábitos pode contribuir para a melhora do sintoma. Nesse sentido, deve-se orientar a gestante a adequar sua ingestão hídrica e aumentar o consumo de grãos integrais, verduras e legumes, frutas, inclusive as desidratadas, especialmente a ameixa seca (SAFFIOTI et al, 2011). As orientações nutricionais para constipação também aplicam-se para as gestantes com formação excessiva de gases. Nesse caso específico, cabem ainda outras orientações, como: • Se suspeitar do leite, substituir por iogurte e observar; • Evitar alimentos flatulentos como: alho, batata doce, brócolis, cebola crua, couve, couve-flor, rabanete, repolho, etc; • Chá de erva doce auxilia a prevenir a aliviar a flatulência; • Evitar o uso de adoçante sorbitol, pois ele pode provocar gases;• Mamão e abacaxi ajudam a melhorar a digestão; • Iogurtes com lactobacilos vivos podem ajudar a combater os gases formados por outras bactérias intestinais; • Para reduzir a produção de gases causada pelo feijão, lentilha ou grão de bico, deixá-los de molho por 12 horas, trocando a água pelo menos três vezes durante esse período; • Evitar consumo de doces (açúcar, mel, chocolates, doces em geral), os quais podem provocar fermentação; • Procurar não conversar enquanto se alimenta para evitar a ingestão de ar; • A atividade física estimula o funcionamento do intestino e ajuda a expulsar os gases. Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 128 8.4 Orientações alimentares em situações especiais na gestação 8.4.1 Gestante gemelar A gestação gemelar requer uma quantidade adicional de 150kcal/dia, além das 300 calorias acrescentadas na gestação não gemelar. Esse requerimento é demonstrado em função da recomendação para ganho de peso gestacional ser maior. Em relação à ingestão protéica, o adicional de 20g, equivalente ao consumo 80g por dia, seria suficiente para atender às necessidades da gestante de gêmeos (MARES; CASANUEVA, 2002). É importante, na gestação gemelar, acompanhar de perto o ganho de peso recomendado e determinar a prescrição da ingestão energética através desse aspecto (VITOLO, 2015). 8.4.2 Gestante vegetariana A gestante vegetariana pode obter uma alimentação adequada e balanceada, porém é necessário monitorar os níveis de ferro, vitamina B12, vitamina D, zinco e cálcio e, se necessário, prescrever suplementação adequada. Gestantes e nutrizes vegetarianas devem ser estimuladas a ter uma alimentação variada e saudável (CRAIG, W. J. et al, 2009). 8.4.3 Transtornos Alimentares Os transtornos alimentares (TA) são desordens complexas, causadas e mantidas por diversos fatores sociais, psicológicos e biológicos. A Anorexia, Bulimia ou Transtorno do Comer Compulsivo (TCAP) têm impacto tanto fisiológico como psicossocial. A identificação e diagnóstico dos TA é difícil porque a pessoa com TA normalmente esconde o comportamento compensatório e o hábito alimentar. É importante investigar alguns pontos e ficar atento aos seguintes sinais: • história de um transtorno alimentar; • hiperemese gravídica; • ganho de peso abaixo do esperado para o período gestacional; • índice de massa corporal baixa; • hipercalemia ou outros distúrbios eletrolíticos; • desgaste no esmalte dos dentes; • preocupação excessiva com o ganho de peso (engordar); • desconforto para se pesar ou hábito de se pesar diariamente e mais de uma vez por dia; • sentimento de culpa em relação aos hábitos alimentares; • atitude compensatória depois de “comer demais” e • abuso ou uso ou de laxantes ou diuréticos, sem indicação. Estudos que compararam gestantes com e sem história de TA apontaram que a gravidez não planejada, o aborto induzido, o tabagismo, prática de dieta vegetariana, assim como a depressão e angústia com o ganho de peso gestacional foram mais comuns entre aquelas que tinham história de TA. O ganho de peso excessivo durante a gestação e os abortos espontâneos foi mais comum nas mulheres Nutrição na gestação e puerpério Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 129 com história de TCAP ou Bulimia. O TCAP também esteve associado a um menor crescimento do bebê no primeiro ano de vida. Cabe destacar que há necessidade de cuidados no puerpério pois os TA estão associados a maior incidência de depressão pós-parto, dificuldades na amamentação e na introdução da alimentação complementar do bebê (CROW, 2016). 8.4.4 Pós-cirurgia bariátrica Metade das mulheres que fizeram cirurgia bariátrica estão em idade reprodutiva. Se observa ultimamente a frequência de pré natais com mulheres pós cirurgia. A recomendação para quem realiza a cirurgia bariátrica é de que aguarde pelo menos 18 meses após a cirurgia para planejar a gravidez, além de manter o acompanhamento pós cirúrgicos onde fará suplementação de micronutrientes (se necessário), monitoramento do peso e da dieta. As cirurgias disabsortivas e restritivas podem levar a deficiências crônicas de ferro, cálcio, tiamina e a má absorção de gorduras que, durante uma gestação, irão se agravar comprometendo a saúde da mãe de do bebê. As mães submetidas à cirurgia de Capella podem apresentar obstrução intestinal devido à compressão intestinal causada pelo útero em crescimento. Nas gestantes pós cirurgia bariátrica deve-se atentar para deficiências maternas e suplementar os nutrientes (ferro, cálcio, proteína) de acordo com as deficiências e acompanhar rigorosamente o ganho de peso (BEARD; BELL; DUFFY, 2008). Uma metanálise sobre os desfechos maternos e neonatais em pós cirurgia bariátrica encontrou associações significativas com maior incidência de baixo peso ao nascer e anemia materna (definido como valores de hemoglobina <10 g/dL), sendo que um estudo apontou que a anemia materna ocorreu mais em gestantes jovens (GALAZIS et al, 2014). 8.4.5 Obesidade pré gestacional ou ganho de peso excessivo na gestação O estado nutricional pré gestacional e o padrão de ganho de peso durante a gestação são fatores que determinam o peso ao nascer, peso para comprimento e adiposidade. O peso ao nascer e adiposidade são importantes porque eles têm um grande impacto na morbidade e mortalidade neonatal, e também parecem afetar o peso adulto precoce e saúde a longo prazo (MACONES, 2016). A obesidade está associada a processos inflamatórios que têm efeitos sobre o funcionamento de órgãos, tecidos e a regulação da homeostase. No caso das gestantes, aumenta o risco de anormalidades do crescimento fetal, restrição do crescimento intrauterino e macrossomia, diabetes mellitus gestacional, pré-eclâmpsia e morte fetal (FRIAS; GROVE, 2012). O aconselhamento pré gestacional e no puerpério a mulheres com sobrepeso ou obesidade deve incluir informações sobre os riscos da obesidade e ganho de peso acima do recomendado pra mãe e pra criança. A gestante deve receber orientações sobre nutrição e atividade física entendendo o porque desses cuidados (MACONES, 2016). Foram conduzidos alguns estudos que avaliaram o ganho de peso gestacional em mulheres obesas. Cox Bauer e colaboradores realizaram um estudo com mulheres obesas (IMC>30 Kg/m2) comparando os desfechos entre as que perderam peso, mantiveram peso, ganharam o peso Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 130 recomendado e aumentaram o peso acima do recomendado pelo IOM. As gestantes que perderam peso tiveram duas vezes mais risco para recém nascidos de baixo peso, enquanto naquelas que que tiveram ganho de peso, dobrou o risco para hipertensão gestacional, pré eclâmpsia e apresentou quatro vezes mais chances de macrossomia. O estudo sugere reavaliação das recomendações do Institute of Medicine (COX BAUER et al, 2016). Não se aconselha o aumento de peso para as gestantes com IMC> 35 kg/m2 que estiverem ganhando peso abaixo do recomendado pelo IOM se o feto estiver crescendo adequadamente. Uma pequena perda de peso (<5 kg) ou manutenção do peso pode ser vantajoso, embora as análises de risco/benefício estejam em curso. Estudos que compararam gestantes com IMC>35 Kg/m2 que ganharam entre 2,7 e 6,4Kg mostraram resultados neonatais semelhantes ou até melhores (diminuição da macrossomia, hipertensão e intervenções obstétricas). Já nas gestantes com obesidade grau 1 (IMC entre 30 e 34,9 Kg/m2) o menor crescimento fetal esteve associado à perda de peso ou ao baixo ganho de peso durante a gravidez (MACONES, 2016). 8.5 A alimentação adequada e a prevenção de Diabetes Mellitus Gestacional Na presença de riscos de desenvolver diabetes durante a gestação,deve-se trabalhar na prevenção buscando o ganho de peso e alimentação adequada o quanto antes. Se houver nutricionista residente na unidade, a gestante pode imediatamente ser encaminhada para uma consulta com o nutricionista que irá acompanhar o ganho de peso gestacional e orientar a alimentação adequada. Ensaio clínico randomizado com gestantes com idade gestacional inferior a 20 semanas e com risco de DMG (IMC >30Kg/m2 ou com história de DG) mostrou que o aconselhamento individual realizado por enfermeiras capacitadas para dieta adequada e atividade física, controle de peso e um encontro em grupo com a nutricionista reduziu a incid~encia de DMG em 39% (KOIVUSALO et al, 2016). Se for diagnosticado o diabetes gestacional, a gestante será encaminhada para o Pré-natal de Alto Risco e receberá acompanhamento e orientações específicas, de acordo com a situação. Porém, se sabe que as usuárias devem continuar sendo acompanhadas pela equipe da Unidade de saúde. É importante saber que as necessidades calóricas variam de acordo com o peso pré gestacional e ganho de peso durante a gestação, se fazendo uma estimativa de quantas semanas faltam e quantos kilogramas se pode aumentar, assim se obtém a estimativa de ganho de peso semanal que deve ser compartilhada com a gestante e monitorada. De acordo com o ganho de peso semanal, se faz os ajustes na alimentação considerando o relato da semana. Na prática clínica, as mulheres muitas vezes exigem 1800-2500 kcal por dia. A ingestão de carboidratos deve ser distribuída entre as refeições e lanches para diminuir a hiperglicemia pós-prandial, sendo que não se deve utilizar dietas low carb (abaixo de 140g de carboidratos/dia ou menos do que 40% do valor calórico total do dia), para assegurar que não ocorra cetonúria. Além disso, uma dieta de baixo índice glicêmico global de fontes de carboidratos que são compostas principalmente de frutas, legumes e grãos integrais, com baixo consumo de produtos à base de farinha (por exemplo, pão e outros produtos de panificação) e batatas têm um efeito positivo sobre glicemia pós-prandial (COUNSTAN, 2016). Nutrição na gestação e puerpério Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 131 8.6 ALIMENTAÇÃO DA NUTRIZ As vantagens da amamentação e sua proteção contra infecções são conhecidas há bastante tempo, mas nas últimas duas décadas resultados de estudos epidemiológicos e biológicos indicam que a decisão de não amamentar uma criança tem prejuízos a longo prazo na saúde. Possivelmente, nenhum outro comportamento de saúde pode afetar desfechos tão diversos na mãe e no bebê, quanto a amamentação (VICTORA et al, 2016). 8.6.1 Recomendações nutricionais na lactação A alimentação adotada durante a gestação e lactação tem grande influência na aceitação de alimentos e preferências do bebê. Considerando que o sabor do leite materno é influenciado pelos alimentos e bebidas consumidos pela mãe, o paladar das crianças amamentadas é determinado pela alimentação da nutriz (BEAUCHAMP; MENNELLA, 2011). A lactação é o período de maior demanda energética e proteica do ciclo reprodutivo, sendo os requerimentos maiores do que no período gestacional (ACCIOLY; SAUNDERS; LACERDA, 2002; VITOLO, 2015). Na prática clínica, recomenda-se o acréscimo de 500 kcal/dia para nutrizes com ganho de peso gestacional adequado e 700 kcal/dia para aquelas com baixo ganho de peso. É importante ressaltar que a nutriz que apresenta excesso de peso deve consumir calorias em quantidade equivalente ao seu gasto energético total sem considerar acréscimos. Entretanto, neste período não se aconselha realizar “dieta restritiva”, por ser considerado um potencial fator de estresse que pode prejudicar a lactação (VITOLO, 2015). No que diz respeito ao aporte protéico, recomenda-se em média o acréscimo de 15g/dia. Os alimentos e quantidades a seguir contém 15 gramas de proteína e podem ser sugeridos às mulheres que estiverem amamentando: • 1 copo de iogurte + 1 copo de leite + 1 fatia de queijo • 1 ovo cozido + 1 copo de leite + 1 fatia de queijo • 2 copos de iogurte + 1 fatia de queijo • 2 copos de leite + 1 fatia de queijo • ½ bife de gado médio • ½ peito de frango médio • 1 coxa de frango A composição do leite materno é influenciada pela quantidade e tipo de lipídeos consumidos pela nutriz. Deve-se observar se a nutriz consome alimentos que contenham gordura insaturada (óleos vegetais, azeite de oliva, peixes, abacate, frutas oleaginosas), essenciais para o desenvolvimento cerebral do lactente (MAHAN; ESCOTT-STUMP, 2005). Considerando que a produção de leite materno é em média de 850 ml/dia, é fundamental estimular a ingestão hídrica. Recomenda-se o consumo mínimo de oito copos de água por dia, ou seja, 2 litros/dia. Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 132 8.6.2 Cólica do recém-nascido e amamentação A presença de cólicas é um sintoma prevalente no recém-nascido. Sua etiologia ainda não está bem estabelecida, podendo ser explicada por fatores psicológicos, gastrointestinais e hormonais (WESSEL et al, 1954; PARADISE, 1966; CAMPBELL, 1989; JAKOBSSON; LINDBERG,1983; LOTHE et al, 1990; WEISSBLUTH; WEISSBLUTH, 1992). Considerando-se que algumas substâncias consumidas pela mãe são transmitidas para o bebê através do leite materno, é importante que o profissional esteja atento aos seguintes aspectos (VITOLO, 2015): • o consumo de leite pode estar associado com as cólicas no bebê em situações que a mãe nunca teve o hábito de ingerir leite previamente a gestação e dá início a este hábito durante o período de amamentação. Por outro lado, se a nutriz sempre teve o hábito de consumir leite e seus derivados não se deve suspender esses alimentos; • a ingestão de alimentos estimulantes (chocolate, café, chimarrão, refrigerantes, chá preto e mate) pela nutriz pode estar associada com cólicas do lactente e • o esvaziamento completo da mama possibilita que o lactente receba o leite posterior, pobre em lactose, melhorando o sintoma da cólica. É importante que o profissional investigue as características da cólica, verifique se a técnica de amamentação está adequada e outros aspectos que podem estar associados com este sintoma, antes de retirar qualquer alimento da alimentação da mãe (VITOLO, 2015). 8.6.3 Alimentação da nutriz de um bebê com alergia à proteína do leite de vaca (APLV): A alergia à proteína do leite de vaca é a alergia alimentar mais comum em crianças pequenas, afetando cerca de 2% das crianças menores de 1 ano (RONA et al, 2007). A criança com APLV pode apresentar uma ampla gama de sinais e sintomas clínicos devido a respostas imunológicas às proteínas do leite de vaca, que podem ser imunoglobulina E (IgE) mediada e/ou não-mediada por IgE (JARVINEN- SEPPO, 2015). Entre os principais sintomas encontram-se vômitos, diarréia com ou sem muco e sangue, assadura perianal, cólica e irritabilidade, baixo ganho de peso e crescimento, urticária, dermatite atópica, refluxo, asma, angioedema, intestino preso, choque anafilático, entre outros. O manejo da APLV não difere do manejo de outras alergias alimentares e requer a exclusão total do alérgeno da dieta. No caso de crianças amamentadas, pode ser necessária a retirada completa de leite e derivados da dieta materna, se a criança tiver sintomas alérgicos e/ou problemas de crescimento. A eliminação da proteína do leite de vaca da dieta materna não é necessária se o lactente estiver sem sintomas e crescendo bem. Pode ser necessário avaliar a adequação nutricional da dieta materna, uma vez que a eliminação de lácteos pode comprometer a ingestão de nutrientes maternos. A suplementação de cálcio (1000mg /dia) é necessária, pois a necessidade desse mineral é alta durante a lactação (BUTTE; STUEBE, 2016). Otratamento da APLV deve incluir a educação alimentar e nutricional, com o objetivo de auxiliar a lactante a evitar o consumo de alimentos lácteos ou que contenham fontes de proteína de leite de vaca. É necessário instruir para a leitura do rótulo dos alimentos antes de consumi-los, atentar-se aos Nutrição na gestação e puerpério Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 133 cuidados para prevenir a contaminação cruzada e variar a dieta com receitas alternativas isentas de ingredientes com as proteínas (PINOTTI, 2013). Segue abaixo lista de alimentos (Quadro 8) e ingredientes (Quadro 9) que devem ser evitados. Quadro 8 - Alimentos que devem ser evitados em uma dieta isenta de leite. • Leite de vaca (todos os tipos: integral, desnatado, semi-desnatado, evaporado, reconstituído, fermentado, condensado, em pó, fluido, desidratado, maltado, sem lactose) • Queijo • Leite e queijo de cabra, de ovelha e de búfala • Iogurte, coalhada • Petit suisse • Bebida Láctea • Creme de leite • Nata, coalho, creme azedo • Soro do leite (whey protein) • Manteiga • Margarina que contenha leite • Ghee (manteiga clarificada) • Requeijão, cream cheese • Molho branco • Doce de leite, chantili, cremes doces, pudim Fonte: PINOTTI, 2013 Quadro 9 - Ingredientes que devem ser evitados em uma dieta isenta de leite. • Caseina • Caseinato (todos os tipos de amônio, cálcio, magnésio, potássio ou sódio) • Lactose • Lactoglobulina, lactoalbumina, lactoferrina • Gordura de manteiga, óleo de manteiga, éster de manteiga • Gordura anidra de leite • Lactato • Soro do leite, whey protein • Fermento lácteo • Cultura inicial de ácido lático fermentados em leite ou soro de leite • Composto lácteo, mistura láctea • Proteína láctea do soro do leite microparticulada • Diacetil (normalmente usado em cerveja ou pipoca amenteigada) • Aditivos que podem conter traços de leite: Corante, aroma ou sabor natural de manteiga, margarina, leite , caramelo, creme de coco, creme de baunilha, iogurte, doce de leite e de outros derivados de leite. Fonte: PINOTTI, 2013 Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 134 Referências ABU-SAAD, K.; FRASER, D. Maternal nutrition and birth outcomes. Epidemiologic Reviews, Baltimore, v. 32, p. 5-35, mar. 2010. ACCIOLY, E.; SAUNDERS, C.; LACERDA, E. Nutrição em obstetrícia e pediatria. Rio de Janeiro: Cult ura Médica, 2002. AYETA, A. C. et al. Fatores nutricionais e psicológicos associados com a ocorrência de picamalácia em gestantes. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, Rio de Janeiro, v. 37, n. 12, p. 571-577, dez. 2015. BEARD, J. H.; BELL, R. L.; DUFFY, A. J. Reproductive considerations and pregnancy after bariatric surgery: current evidence and recommendations. Obesity Surgery, Oxford, v. 18, n. 8, p. 1023-1027, aug. 2008. BEAUCHAMP, G.K., MENNELLA, J.A.; Flavor Perception in Human Infants: Development and Functional Significance. Digestion. 2011;83(Suppl 1):1-6. doi:10.1159/000323397.Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3202923/. Acesso em dez.2016 BRASIL. Ministério da Saúde. Vigilância alimentar e nutricional SISVAN: orientações básicas para a coleta, processamento, análise de dados e informação em serviços de saúde. Brasília, DF: Ed. Ministério da Saúde, 2004. BUTTE, N. F.; STUEBE, A. Maternal nutrition during lactation. UpToDate, oct. 2016. Disponível em: <https://www.uptodate.com/contents/maternal-nutrition-during-lactation>. Acesso em: 8 nov. 2016. CAMPBELL, J. P. Dietary treatment of infant colic: a double-blind study. Journal of the Royal College General Practitioners, Edinburgh, v. 39, n . 318, p. 11--14, 1989. CHANDRA, K.; MAGEE, L.; EINARSON A, K. G. Nausea and vomiting in pregnancy: results of a survey that identified interventions used by women to alleviate their symptoms. Journal of Psychosomatic Obstetrics and Gynaecology, Carnforth, v. 24, n. 2, p. 71–75, 2003. COUSTAN, D. R. Gestational diabetes mellitus: glycemic control and maternal prognosis. UpToDate, apr. 2016. Disponível em: <https://www.uptodate.com/contents/gestational-diabetes-mellitus-glycemic- control-and-maternal-prognosis>. Acesso em: 17 set. 2016. COX BAUER, C. M. et al. Maternal and neonatal outcomes in obese women who lose weight during pregnancy. Journal of Perinatology: official journal of the California perinatal association, Philadelphia, v. 36, n. 4, p. 278-283, apr. 2016. CRAIG, W. J.; MANGELS, A. R.; AMERICAN DIETETIC ASSOCIATION. Position of the American Dietetic Association: vegetarian diets. Journal of the American Dietetic Association, Chicago, v. 109, n. 7, p. 1266-1282, 2009. CROW, S. J. Eating disorders in pregnancy. UpToDate, dec. 2015. Disponível em: <https://www.uptodate.com/contents/eating-disorders-in-pregnancy>. Acesso em: 17 set. 2016 EBRAHIMI, N.; MALTEPE, C.; EINARSON, A. Optimal management of nausea and vomiting of pregnancy. International Journal of Women’s Health, v. 2, p. 241-248, aug. 2010. FRASER, A. et al. Association of maternal weight gain in pregnancy with offspring obesity and metabolic and vascular traits in childhood. Circulation, Dallas, v. 121, n. 23, p. 2557-2564, jun. 2010. FRIAS, A. E.; GROVE, K. L. Obesity: a transgenerational problem linked to nutrition during pregnancy. Seminars in Reproductive Medicine, New York, v. 30, n. 6, p. 472-478, dec. 2012. GALAZIS, N. et al. Maternal and neonatal outcomes in women undergoing bariatric surgery: a systematic review and meta-analysis. European Journal of Obstetrics & Gynecology and Reproductive Biology, Amsterdan, v. 181, p. 45–53, oct. 2014. GARNER, C. D. Nutrition in pregnancy. UpToDate, aug. 2016. Disponível em: <https://www.uptodate.com/contents/nutrition-in-pregnancy>. Acesso em:15 set. 2016. GIACOSA, A. et al. Can nausea and vomiting be treated with ginger extract? European Review for Medical and Pharmacological Sciences, Roma, v. 19, n. 7, p. 1291-1296, apr. 2015. Nutrição na gestação e puerpério Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 135 GOULD, J. F.; SMITHERS, L. G.; MAKRIDES, M. The effect of maternal omega-3 (n-3) LCPUFA supplementation during pregnancy on early childhood cognitive and visual development: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. The American Journal of Clinical Nutrition, Bethesda, v. 97, n. 3, p. 531-544, mar. 2013. GOLDENBERG, R. L. et al. The effect of zinc supplementations on pregnancy outcome. JAMA, Chicago, v. 274, n. 6, p. 463-468, 1995. HACKER, A. N., FUNG, E. B., KING, J. C. Role of calcium during pregnancy: maternal and fetal needs. Nutrition Reviews, New York, v. 70, n. 7, p. 397-409, jul. 2012. HOCHNER, H. et al. Associations of maternal pregnancy body mass index and gestational weight gain with adult offspring cardiometabolic risk factors: the Jerusalem perinatal family Follow-up study. Circulation, Dallas, v. 125, n. 11, p. 1381-1389, mar. 2012. HURREL, R.; EGLI, I. Iron bioavailability and dietary reference values. The American Journal of Clinical Nutrition, Bethesda v. 91, n. 5, p. 1461S-1467S, mar. 2010. INNIS, S. M. Trans fatty intakes during pregnancy, infancy and early childhood. Atherosclerosis. Supplements, Amsterdan, v. 7, n. 2, p. 17-20, 2006. INSTITUTE OF MEDICINE. Dietary reference intakes: the essential guide to nutrient requirements. Washington, DC: National Academy Press, 2006. ______. Dietary reference intakes for calcium and vitamin D. Washington, DC: National Academy Press, 2010. ______. Dietary reference intakes for calcium and vitamin D. Washington, DC: The National Academies Press, 2011. JAKOBSSON, I.; LINDBERG, T. Cow’s milk proteins cause infantile colic in breast-fed infants: a double -blind crossoverstudy. Pediatrics, Evanston, v. 71, n. 2, p. 268-2-71, feb. 1983. JAMESON, S. Zinc status in pregnancy: the effect of zinc therapy on perinatal mortality, prematurity, and placental ablation. Annals of the New York Academy of Science, New York, v. 678, p. 178-192, mar. 1993. JARVINEN-SEPPO, K. M. Milk allergy: clinical fatures and diagnosis. UpToDate, oct. 2016. Disponível em: <https://www.uptodate.com/contents/milk-allergy-clinical-features-and-diagnosis>. Acesso em: 22 out. 2016. KAISER, L. L.; CAMPBELL, C. G.; ACADEMY POSITIONS COMMITTEE WORKGROUP. Practice paper of the Academy of Nutrition and Dietetics abstract: nutrition and lifestyle for a healthy pregnancy outcome. Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics, New York, v. 114, n. 9, p. 1447, 2014. KAWAGUTI, F. S. et al. Constipação na gravidez. Revista Brasileira de Coloproctologia, Rio de Janeiro, v. 28, n. 1, p. 46-49, jan./mar. 2008. KOIVUSALO, S. B. et al. Gestational Diabetes Mellitus can be prevented by lifestyle intervention: the finnish gestational diabetes prevention study (RADIEL). Diabetes Care, New York, v. 39, n.1, p. 25-30, jan. 2016. LINDBLAD, A.; KOPPULA, S. Ginger for nausea and vomiting of pregnancy. Canadian Family Physician Médecin de Famille Canadien, Don Mills, v. 62, n. 2, p. 145, feb. 2016. LOTHE, L. et al. Motilin and infantile colic: a prospective study. Acta Paediatrica Scandinavica, Stockho lm, v. 79, n.4, p. 410-41-6, apr. 1990. MACONES, G. Weight gain and loss in pregnancy. UpToDate, mar. 2016. Disponível em: <https://www.uptodate.com/contents/weight-gain-and-loss-in-pregnancy>. Acesso em: 22 out. 2016. MAHAN, L. K.; ESCOTT--STUMP, S. Krause: alimentos, nutrição e dietoterapia. 11. ed. São Paulo: Roca, 2005. MARES, M.; CASANUEVA, E. Comer por três? Lineamientos para la alimentación y nutrición de la mujer con embarazo gemelar. Cuadernos de Nutricion, Delegación Cuauhtémoc, v. 25, p. 280-4, 2002. MATTHEWS, A. et al. Interventions for nausea and vomiting in early pregnancy (Review). Cochrane Database System Review, Geneva, n. 3, sept. 2015. Disponível em: Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 136 <http://www.cochrane.org/CD007575/PREG_interventions-nausea-and-vomiting-early-pregnancy>. Acesso em: 22 out. 2016. MEI, Z. et al. Assessment of iron status in US pregnant women from the National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES), 1999–2006. The American Journal of Clinical Nutrition, Bethesda v. 93, n. 6, p. 1312-1320, 2011. NOGUEIRA-DE-ALMEIDA, C. A. et al. I Consenso da Associação Brasileira de Nutrologia sobre recomendações de DHA durante gestação, lactação e infância. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE NUTROLOGIA, 27., 2014, São Paulo. Anais do Congresso. International Journal of Nutrology, [S.l.], v. 7, n. 3, p. 1-13, set. 2014. OTA, E. et al. Zinc supplementation for improving pegnancy and infant outcome. Cochrane Database System Review, Geneva, feb. 2015. Disponível em: <http://www.cochrane.org/CD000230/PREG_zinc- supplementation-improving-pregnancy-and-infant-outcome>. Acesso em: 22 out. 2016. PACHECO, A. H. D. R. N. et al. Consumo de cafeína entre gestantes e a prevalência do baixo peso ao nascer e da prematuridade: uma revisão sistemática. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 23, n. 12, p. 2807-2819, 2007. PARADISE, J. L. Maternal and other factors in the etiology of colic. JAMA, Chicago, v. 197, n. 3, p. 191- 199, jul. 1966. PASSINI JÚNIOR, R. Consumo de álcool durante a gestação. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, v. 27, n. 7, p. 373–375, 2005. PINOTTI, R. Guia do bebê e da criança com alergia ao leite de vaca. Rio de Janeiro: AC Farmacêutica, 2013. PORTELLA, AK; Kajantie, E; Hovi, P; Desai, M et al. Effects of in utero conditions on adult feeding preferences. Journal of Develop Origins of Health and Disease , [S.I.], v.3, n.3, p.140-152, 2012. REMAKRISHNAN, U. et al. Effect of women's nutrition before and during early pregnancy on maternal and infant outcomes: a systematic review. Paediatric and Perinatal Epidemiology, Oxford, v. 26, n. 1, p. 285-301, jul. 2012. Supplement. ROMBALDI BERNARDI, J. et al. Fetal and neonatal levels of omega-3: effects on neurodevelopment, nutrition, and growth. The Scientific World Journal, New York, v. 2012, p. 202473, 2012. RONA, R. J. et al. The prevalence of food allergy: a meta-analysis. The Journal of Allergy and Clinical Immunology, St. Louis, v. 120, n. 3, p. 638-46, jul. 2007. ROTHMAN, K. J. et al. Teratogenicity of high vitamin A intake. New England Journal of Medicine, London, v. 333, n. 21, p. 1369-1373, nov. 1995. RUMBOLD A, et al. Vitamin C supplementation in pregnancy. Cochrane Database of Systematic Reviews 2015, Issue 9. SAFFIOTI, R. F. et al. Constipação intestinal e gravidez. Femina, Rio de Janeiro, v. 39, n. 3, p. 163-168, 2011. SHEEHAN, P. Hyperemesis gravidarum--assessment and management. Australian family physician, Jolimont, v. 36, n. 9, p. 698-701, 2007. SEGRE, C. A. M (Coord.). Efeitos do álcool na gestante , no feto e no recém-nascido. São Paulo: Sociedade de Pediatria de São Paulo, 2010. TORLONI, M. R. et al. O uso de adoçantes na gravidez: uma análise dos produtos disponíveis no Brasil. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, Rio de Janeiro, v. 29, n. 5, p. 267-275, 2007. VICTORA, C. G. et al. Breastfeeding in the 21st century: epidemiology, mechanisms, and lifelong effect. Lancet, London, v. 387, n. 10017, p. 475-90, 2016. VITOLO, M. R. Nutrição: da gestação ao envelhecimento. Rio de Janeiro: Rúbio, 2015. DE VIDO, J.; BOGUNOVIC, O.; WEISS, R. D. Alcohol use disorders in pregnancy. Harvard Review of Psychiatry, St. Louis, v. 23, n. 2, p. 121, mar./apr. 2015. WEISSBLUTH, M.; WEISSBLUTH, L. Colic, sleep inertia, melatonin and circannual rhythms. Medical Hypotheses, Edinburgh, v. 38, n. 3, p. 224--228, jul. 1992. Nutrição na gestação e puerpério Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 137 WESSEL, M. A. et al. Paroxysmal fussing in infancy, sometimes called “colic”. Pediatrics, Evanston, v. 14,n. 5, p. 421--435, nov. 1954. WIDEN, E.; SIEGA-RIZ, A. M. Prenatal nutrition: a practical guide for assessment and counseling. Journal of Midwifery & Women’s Health, New York, v. 55, n. 6, p. 540-549, nov./dec. 2010. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Safe vitamin A dosage during pregnancy and lactation: recommendations and report of a consultation. Geneva, 1998. YOUNG, S. L. Pica in pregnancy: new ideas about an old condition. Annual Review of Nutrition, Palo Alto, v. 30, p. 403-422, aug. 2010. Saúde bucal na gestante Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 139 9. SAÚDE BUCAL NA GESTANTE Daniel Demétrio Faustino-Silva Mariana Loch Caroline Machado Weber “Sempre me disseram que gestante não podia ir no dentista, mas aqui no posto aprendi que é importante para a saúde do bebê que eu cuide dos meus dentes.” Gestante moradora do território de atuação do SSC/GHC A gestação é um acontecimento fisiológico, com alterações orgânicas naturais, mas que impõe aos profissionais da saúde a necessidade de conhecimentos para uma abordagem diferenciada. O estado da saúde bucal apresentado durante a gestação tem relação com a saúde geral da gestante e pode influenciar na saúde geral e bucal do bebê. A gestante apresenta situações especiais de tratamento para o atendimento odontológico, de modo que o dentista não só é responsável pelo atendimento eficaz e seguro à gestante, mas também se deve preocupar com a segurança do feto, garantindo que a paciente e a família sintam-se tranquilos com qualquer tratamento proposto (BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde, 2006). Costa, Saliba e Moreira (2002) concluíram que a atenção odontológica à gestante sereflete em benefícios para o bebê e sua família, promovendo assim, melhor qualidade de vida para todos. É importante que se esclareça os “mitos” e “medos” em relação ao tratamento odontológico durante a gestação, levando em consideração as crenças e aspectos culturais que permeiam esta questão no contexto das famílias e do território. Hoje, é cientificamente claro que procedimentos preventivos, diagnósticos e terapêuticos são seguros durante a gravidez e eficazes em manter e melhorar a saúde bucal das gestantes (SANZ; KORNMAN, 2013). Todo serviço de saúde deve estabelecer, como rotina, a busca ativa das gestantes de sua área de abrangência. A equipe multiprofissional de saúde deve trabalhar de forma integrada, a fim de qualificar a atenção à gestante durante o pré-natal, incluindo na avaliação global a saúde bucal (BRASIL. Ministério da Saúde, 2016). A seguir apresentaremos considerações e orientações para o acompanhamento odontológico durante o pré-natal pela equipe de saúde bucal, além de ações educativas relacionadas ao tema que devem ser realizadas pela equipe de Atenção Primária. 9.1 Acompanhamento clínico da gestante pela Equipe de Saúde Bucal no SSC Tendo em vista a importância do acompanhamento pré-natal pela equipe de saúde bucal, o Serviço de Saúde Comunitária (SSC) do Grupo Hospitalar Conceição (GHC), dentro da ação programática da gestante, estipulou um indicador de acompanhamento de saúde bucal, onde todas as gestantes da população sob sua responsabilidade devem ser atendidas, conforme prioridades e disponibilidade de horário para agendamento, levando em consideração a organização e metas individuais de cada unidade de saúde. Notou-se ao longo dos anos, que apenas encaminhar a gestante à consulta odontológica não parece ser efetivo. A partir disso, estratégias foram sendo elaboradas, a fim de estabelecer um vínculo entre a gestante e a equipe de saúde bucal, proporcionando maior adesão ao acompanhamento. Dentre essas estratégias, podemos destacar consultas sequenciais; coletivas; interconsultas; agendamento após ser apresentada à equipe de saúde bucal pelo seu profissional de referência do pré-natal; flexibilidade de agenda, aproveitando os momentos em que a gestante está na Atenção à Saúde da Gestante em APS Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 140 unidade. A partir da primeira consulta odontológica, que deve acontecer preferencialmente no segundo trimestre, algumas ações são recomendadas. Para uma adequada vigilância à saúde bucal da gestante, faz-se necessário registrar o atendimento odontológico na ficha de acompanhamento de pré-natal (Anexo 2), na carteira da gestante e nos boletins de atendimento, bem como na evolução, dentro do prontuário. O acompanhamento das gestantes pelas equipes de saúde bucal do SSC encontra-se resumido no Anexo 4. 9.1.1 Consulta odontológica na gestação De acordo com Gaffield et al (2001), uma pequena proporção de gestantes vai ao cirurgião- dentista durante a gravidez e isso porque a maioria tem dúvidas sobre a rotina de visitas nesse período. O acompanhamento odontológico vem sendo estudado há muitos anos, tal como no trabalho de Serrano e Delano (1969) realizado no Uruguai. Os autores observaram, no início de um programa de atendimento a gestantes, dois aspectos negativos muito marcantes: indiferença das mulheres grávidas, a não ser na presença de dor, e desconhecimento dos direitos aos aspectos preventivos e de reparação dos problemas bucais existentes. Após a realização do programa de atendimento, os autores concluíram que é perfeitamente viável um programa integral de atenção odontológica a gestantes, tendo sido bastante positiva a resposta das pacientes ao término do tratamento. Oliveira e Nadanovsky (2006) constataram que a dor na cavidade bucal é uma das mais citadas por gestantes e sugere que a dificuldade em obter tratamento se deve a duas razões: crenças populares e falta de informações proferidas pelos profissionais. Assim, ações que envolvam toda a equipe de saúde e com a participação ativa dos Agentes Comunitárias de Saúde (ACS) é uma forma eficiente de captar gestantes para o tratamento odontológico. Todo o tratamento odontológico essencial pode ser feito durante a gravidez, incluindo as exodontias não complicadas, tratamento periodontal, restaurações dentárias, tratamento endodôntico e colocação de próteses. As cirurgias mais invasivas, sempre que possível, devem ser programadas para o período pós-parto (CODATO; NAKAMA; MELCHIOR, 2008; ANDRADE, 2000). Segundo Scavuzzi e Rocha (1999), as instruções quanto à higiene bucal, raspagem supragengival e a aplicação tópica de flúor podem ser realizadas em qualquer época do período gestacional sem oferecer perigos ao feto. Todavia, durante o primeiro trimestre, a maioria das pacientes pode apresentar indisposição, enjôos matutinos e náuseas à menor provocação, fatores que podem dificultar o atendimento odontológico. Além disso, o abortamento natural e espontâneo é bastante comum nas primeiras semanas da gestação o que poderia ser atribuído equivocadamente ao procedimento odontológico caso a gestante tivesse consultado com o dentista nessa fase. O segundo trimestre de gestação é melhor época para o atendimento das gestantes. O terceiro trimestre da gravidez, particularmente nas últimas semanas, não é um bom período para um tratamento prolongado. Muitas pacientes, nesta época, têm a freqüência urinária aumentada, apresentam hipotensão postural, edema nos membros inferiores e sentem-se desconfortáveis na posição supina, devido a compressão causada pelo feto (HAAS, 2002). Portanto, quando possível, deve-se evitar todo e qualquer procedimento odontológico nas primeiras doze semanas e no final da gestação. Entretanto, Saúde bucal na gestante Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição 141 frente a situações de urgência odontológica, como nos casos de dor, devemos realizar o tratamento necessário, independentemente do período no qual a gestante se encontra (ANDRADE, 2000). As sessões de atendimento devem ser curtas e agendadas preferencialmente para a segunda metade do período da manhã, quando os episódios de enjôo são menos comuns. Outra preocupação seria de marcar consultas para as gestantes em horários diferentes dos das crianças que frequentam o consultório, prevenindo desta forma o possível contágio das doenças viróticas da infância. Neste mesmo sentido deve-se evitar o agendamento de consultas às gestantes quando o dentista ou auxiliar estiverem acometidos de gripes ou resfriados (FERREIRA, 1998). 9.1.2 Intercorrências frequentes a) Doença periodontal A gengivite associada à gravidez é caracterizada por um aumento na sua prevalência e gravidade durante o segundo e terceiro trimestres. Estudos de incidência e prevalência demonstram que a gravidade da inflamação gengival é significativamente mais alta na gravidez do que no pós-parto, ainda que os índices de placa permaneçam iguais nos dois grupos. Achados constatam que a gengivite associada à gravidez se apresenta semelhante à gengivite induzida pela placa, exceto pela nítida tendência em desenvolver sinais de inflamação na presença de relativamente pouca placa durante a gravidez (PALMER; SOORY, 2014). Raspagem supragengival e controle de placa com cuidados diários de higiene bucal devem ser realizados durante qualquer trimestre, uma vez que gengivite na gravidez é a condição mais comum. Algumas alterações importantes são encontradas durante a gestação, tais como: mudança na composição da placa, com o crescimento seletivo de patógenos periodontais, como Prevotella intermedia; modificação na resposta imune e na concentração de hormônios sexuais, como estrogênio e progesterona, que influenciam a resposta dos tecidos periodontais frente ao desafio bacteriano. Sendo assim, a gravidez