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Rossano Sartori Dal Molin (Org.) científica digital UM OLHAR PARA AS CONDIÇÕES SOCIAIS, CULTURAIS, DE GÊNERO E DE SAÚDE A TRANSVERSALIDADE NA ASSISTÊNCIA À SAÚDE DA MULHER NO BRASIL E- BO O K A C ES SO L IV RE O N L IN E - IM PR ES SÃ O P RO IB ID A 2 0 2 5 Edição © 2025 Científica Digital Texto © 2025 Os Autores 1a Edição - 2025 Acesso Livre - Open Access Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) T772 A transversalidade na assistência à saúde da mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde / Organização de Rossano Sartori Dal Molin. – Barueri-SP: Científica Digital, 2025. Formato: PDF Requisitos de sistema: Adobe Acrobat Reader Modo de acesso: World Wide Web Inclui Bibliografia ISBN 978-65-83998-57-6 DOI 10.37885/978-65-83998-57-6 1. Serviços e políticas de saúde voltados para mulheres. I. Molin, Rossano Sartori Dal (Organizador). II. Título. CDD 362.1082 Elaborado por Janaína Ramos – CRB-8/9166 Índice para catálogo sistemático: I. Serviços e políticas de saúde voltados para mulheres © COPYRIGHT - TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. A editora detém os direitos autorais sobre a edição e o projeto gráfico, enquanto os autores mantêm os direitos autorais de seus respectivos textos. Esta obra está licenciada sob a Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional, permitindo o download e compartilhamento integral ou parcial, desde que a fonte seja devidamente citada e os créditos atribuídos aos autores. É obrigatório que a obra permaneça em formato de Acesso Livre (Open Access), sem qualquer alteração. A catalogação em plataformas de acesso restrito ou com fins comerciais é estritamente proibida. CIENTÍFICA DIGITAL EDITORIAL LTDA Barueri - São Paulo - Brasil www.cientificadigital.org - contato@cientificadigital.org Diagramação e Arte Diego Santos Diogo Lima Imagens da Capa Adobe Stock - 2025 Rossano Sartori Dal Molin (Org.) A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde 2025 - BARUERI - SP 1ª EDIÇÃO científica digital Parecer e revisão por pares Os textos que compõem esta obra passaram por avaliação do Conselho Editorial e revisão por pares externos (Peer Review), recebendo a devida recomendação para publicação. Nota: Esta obra é fruto de um processo colaborativo, configurando-se como uma coletânea na qual os direitos autorais permanecem resguardados para os respectivos autores. Alguns capítulos podem ter origem em trabalhos anteriormente apresentados em eventos acadêmicos; no entanto, os autores foram orientados a adotar o devido rigor na prevenção do autoplágio. A responsabilidade pelo conteúdo de cada capítulo, assim como pela originalidade e integridade das informações publicadas, é inteiramente dos respectivos autores e autoras. O conteúdo da obra não reflete, necessariamente, a opinião da editora, dos organizadores ou dos membros do conselho editorial. Acesse a lista completa dos Membros do Conselho Editorial em www.editoracientifica.com.br/conselho CONSELHO EDITORIAL Prof. Dr. André Cutrim Carvalho Prof. Dr. Antônio Marcos Mota Miranda Profª. Ma. Auristela Correa Castro Prof. Dr. Carlos Alberto Martins Cordeiro Prof. Dr. Carlos Alexandre Oelke Profª. Dra. Caroline Nóbrega de Almeida Profª. Dra. Clara Mockdece Neves Profª. Dra. Claudia Maria Rinhel-Silva Profª. Dra. Clecia Simone Gonçalves Rosa Pacheco Prof. Dr. Cristiano Marins Profª. Dra. Cristina Berger Fadel Prof. Dr. Daniel Luciano Gevehr Prof. Dr. Diogo da Silva Cardoso Prof. Dr. Ernane Rosa Martins Prof. Dr. Everaldo dos Santos Mendes Prof. Dr. Fabricio Gomes Gonçalves Profª. Dra. Fernanda Rezende Prof. Dr. Flávio Aparecido de Almeida Profª. Dra. Francine Náthalie Ferraresi Queluz Profª. Dra. Geuciane Felipe Guerim Fernandes Prof. Dr. Humberto Costa Prof. Dr. Joachin Melo Azevedo Neto Prof. Dr. Jónata Ferreira de Moura Prof. Dr. José Aderval Aragão Prof. Me. Julianno Pizzano Ayoub Prof. Dr. Leonardo Augusto Couto Finelli Prof. Dr. Luiz Gonzaga Lapa Junior Prof. Me. Marcelo da Fonseca Ferreira da Silva Profª. Dra. Maria Cristina Zago Profª. Dra. Maria Otília Zangão Prof. Dr. Mário Henrique Gomes Prof. Dr. Marcus Fernando da Silva Praxedes Prof. Dr. Nelson J. Almeida Prof. Dr. Pedro Afonso Cortez Prof. Dr. Reinaldo Pacheco dos Santos Prof. Dr. Rogério de Melo Grillo Profª. Dra. Rosenery Pimentel Nascimento Prof. Dr. Rossano Sartori Dal Molin Prof. Me. Silvio Almeida Junior Profª. Dra. Thays Zigante Furlan Ribeiro Prof. Dr. Wescley Viana Evangelista Prof. Dr. Willian Carboni Viana Prof. Dr. Willian Douglas Guilherme APRESENTAÇÃO Esta obra é fruto de um esforço colaborativo que reuniu professores, estudantes e pesquisadores cujo envolvimento enriqueceu significativamente as discussões neste espaço formativo. Além disso, resulta de iniciativas interinstitucionais e ações voltadas ao incentivo à pesquisa, congregando especialistas de diversas áreas do conhecimento, vinculados a Instituições de Educação Superior, públicas e privadas, em âmbito nacional e internacional. Seu principal objetivo é fortalecer a integração entre instituições, tanto no Brasil quanto no exterior, por meio de redes de pesquisa comprometidas com a formação continuada de profissionais da educação. Para isso, busca-se a produção e a ampla disseminação do conhecimento em distintas áreas do saber. Expressamos nossa profunda gratidão aos autores pelo empenho, comprome- timento e dedicação na concepção e finalização desta obra. Esperamos que ela se consolide como um recurso didático-pedagógico valioso, atendendo às necessidades de estudantes, docentes de todos os níveis de ensino e demais interessados na temática. Rossano Sartori Dal Molin SUMÁRIO Capítulo 01 PARTO (DES) HUMANIZADO: AS CONSEQUÊNCIAS DA VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA EM PUÉRPERAS NA CONDIÇÃO DE VULNERABILIDADE SOCIAL Janiely Silva Sousa; Felipe Augusto Leques Tonial; Amanda Castro; Giorgia Kretzer Hinckel ' 10.37885/250819884 ...................................................................................................................................... 8 Capítulo 02 VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA E O PAPEL DA GESTÃO HOSPITALAR NA PROMOÇÃO DE BOAS PRÁTICAS NO PARTO E NASCIMENTO: UMA REFLEXÃO TEÓRICA Julyanne Maciel Maia Gonzales da Costa; Fernando Gomes Ceccon; Elitiele Ortiz dos Santos; Camila Goulart de Bitencourte; Maria Antônia Dutra Fernandes; Bianca do Canto Silva dos Santos; Vitória dos Santos de Andrade; Jéssica Olinda Carvalho e Silva; Láisa Emannuele Pereira Knapp; Lisie Alende Prates ' 10.37885/250920078 ....................................................................................................................................25 Capítulo 03 CIRURGIA DE AFIRMAÇÃO DE GÊNERO EM MULHERES TRANS: PERSPECTIVAS CLÍNICAS, ÉTICAS E CIRÚRGICAS DA VAGINOPLASTIA Bruno Henrique Campos Afonso; Beatriz Modesto Prata Reis; Calebe Pereira Reis; Douglas Reis Abdalla ' 10.37885/251020333 .....................................................................................................................................37 Capítulo 04 A VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA E SUAS MANIFESTAÇÕES, FATORES ASSOCIADOS E REPERCUSSÕES NA SAÚDE DA MULHER: UMA REVISÃO DE LITERATURA Ana Caroline Borges Lustosa; Aparício dos Anjos Sousa; Bruno Enéas Rolim Paiva; Gabriel Trindade de Carvalho; Jaaziel de Carvalho Costa; Jamilly Lima Silva; Keren Araújo Gomes; Maria Isabelly Sousa Santos; Sarah Araujo Moura Felix; Suyanne Freire de Macedo ' 10.37885/251020359 .....................................................................................................................................47 Capítulo 05 PRÉ-ECLÂMPSIA E ECLÂMPSIA: SINAIS, SINTOMAS E CUIDADOS DE ENFERMAGEM NA GESTAÇÃO DE ALTO RISCO Érika Piana Pontel; Rossano Sartori Dal Molin ' 10.37885/251120530 ......................................................................................................................................maio 2025. 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' 10.37885/251020333 03 CIRURGIA DE AFIRMAÇÃO DE GÊNERO EM MULHERES TRANS: PERSPECTIVAS CLÍNICAS, ÉTICAS E CIRÚRGICAS DA VAGINOPLASTIA Bruno Henrique Campos Afonso Mário Palmério Hospital Universitário Universidade de Uberaba (UNIUBE) Beatriz Modesto Prata Reis Universidade de Uberaba (UNIUBE) Calebe Pereira Reis Mário Palmério Hospital Universitário Universidade de Uberaba (UNIUBE) Douglas Reis Abdalla Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) https://dx.doi.org/10.37885/251020333 38 A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde RESUMO A cirurgia genital, ou vaginoplastia, é um procedimento fundamental no processo transexualizador para mulheres trans, visando alinhar a anatomia genital à iden- tidade de gênero e atenuar o sofrimento psicológico. Esta intervenção terapêu- tica demonstra impacto positivo na saúde mental e na qualidade de vida, com redução da ideação suicida e melhora no bem-estar geral. A demanda crescente por esses procedimentos, tanto no Brasil quanto internacionalmente, evidencia a necessidade de expandir o acesso e a capacitação profissional. As principais técnicas cirúrgicas, como a vaginoplastia por inversão peniana e o uso de enxerto intestinal, evoluíram para oferecer resultados funcionais e estéticos satisfatórios, incluindo a criação de um neoclítoris sensível. Apesar da comple- xidade e dos riscos inerentes, as taxas de satisfação são elevadas e os índices de arrependimento, baixos. A abordagem multidisciplinar e o aconselhamento pré-operatório são essenciais para o sucesso do tratamento, que se consolida como uma intervenção durável e eficaz na afirmação de gênero. Palavras-chave: Vaginoplastia; Mulheres Transgênero; Disforia de Gênero. 39 ISBN 978-65-83998-57-6 - Vol. 1 - Ano 2025 - www.cientificadigital.org INTRODUÇÃO A cirurgia de redesignação genital, também conhecida como vaginoplas- tia, constitui um procedimento fundamental no processo transexualizador para mulheres trans, apresentando primordial objetivo, o alinhamento da anatomia genital externa à identidade de gênero. O referido procedimento faz parte de uma abordagem terapêutica abrangente que visa atenuar o sofrimento psicológico associado à incongruência de gênero e promover o bem-estar biopsicossocial das pacientes em questão. Desta forma, para compreender adequadamente a relevância deste pro- cedimento, faz-se necessário estabelecer conceitos fundamentais relacionados à identidade de gênero e às especificidades da população transgênero. IDENTIDADE DE GÊNERO A identidade de gênero está relacionada com o senso interno e pessoal de ser homem, mulher, ambos, nenhum ou outra identidade fora do binário de gênero, independentemente do sexo biológico atribuído ao nascimento. Segundo informações da Associação Americana de Psiquiatria, a identidade de gênero é distinta da orientação sexual e reflete a autopercepção do indivíduo em relação ao seu gênero. Segundo estudo de Boucher e Chinnah (2020), que revisaram sobre a identidade de gênero, podendo esta ser influenciada por uma interação com- plexa de fatores, quais sejam: biológicos, ambientais e culturais, mas também incluindo evidências de diferenças neuro anatômicas, presença de influências hormonais pré-natais que moldam a percepção de gênero. Diante disso, a com- preensão atual reconhece a identidade de gênero como um espectro, abdicando concepções dicotômicas rígidas. DISFORIA DE GÊNERO A disforia de gênero é definida como o sofrimento psicológico resultante da incongruência entre o sexo biológico atribuídoao nascimento e a identidade de gênero do indivíduo (Saleem; Rizvi, 2017; Boucher; Chinnah, 2020). De acordo 40 A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde com o manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-5-TR), constitui um diagnóstico clínico que pode manifestar-se em diferentes fases da vida, desde a infância até a idade adulta, estando frequentemente associada a sintomas como ansiedade, depressão e ideação suicida. Estudos identificaram quatro conceitos centrais na experiência de dis- foria de gênero em adultos transgêneros: dissonância entre gênero atribuído e experimentado, interação com normas sociais, consequências sociais da identidade de gênero e processamento interno de rejeição e transfobia. Estes achados evidenciam que a disforia de gênero é intensificada por fatores sociais, como estigma e discriminação (Boucher; Chinnah, 2020; Blickensderfer et al., 2023; Sueters et al., 2023). MULHERES TRANSGÊNERO Mulheres transgênero são indivíduos que foram atribuídos ao sexo mas- culino ao nascimento, mas cuja identidade de gênero é feminina. É importante destacar que o termo «transgênero» não implica automaticamente disforia de gênero, pois nem todas as pessoas trans experimentam sofrimento clínico significativo (Boucher; Chinnah, 2020; Sueters et al., 2023). Mulheres trans podem buscar diferentes modalidades de intervenções de afirmação de gênero, que incluem transição social (mudança de nome, pronomes ou expressão de gênero), transição médica (terapia hormonal ou supressão puberal) ou transição cirúrgica (como vaginoplastia ou cirurgia de feminização facial) para alinhar seu corpo à sua identidade de gênero (Winter et al., 2016; Saleem; Rizvi, 2017; Kurth et al., 2022). ASPECTOS EPIDEMIOLÓGICOS No contexto brasileiro, observa-se um aumento significativo na demanda por cirurgias de redesignação genital, especialmente após sua inclusão no Sistema Único de Saúde (SUS) em 2008, regulamentada posteriormente pela Portaria GM/MS nº 2.803/2013. Este marco representa um avanço importante no reconhecimento dos direitos de saúde da população transgênero no país. 41 ISBN 978-65-83998-57-6 - Vol. 1 - Ano 2025 - www.cientificadigital.org Um estudo retrospectivo quantitativo, que analisou dados do DATASUS entre 2015 e 2019, identificou 171 cirurgias de redesignação sexual do sexo masculino para feminino realizadas no SUS, correspondendo a uma média de 3 procedimentos por mês. O ano de 2017 apresentou o maior número de operações registradas, totalizando 39 procedimentos (Nascimento et al., 2021). Apesar do crescimento observado na realização destes procedimentos, a oferta permanece limitada, gerando longas filas de espera que refletem barreiras significativas de acesso e evidenciam a necessidade de maior capacitação de equipes especializadas para atender adequadamente esta demanda crescente (Rocon et al., 2019). No cenário internacional, em especial nos Estados Unidos, a cirurgia de afirmação de gênero apresentou crescimento substancial, com aumento de aproximadamente três vezes no número de procedimentos realizados entre 2016 e 2019 (Wright et al., 2023). Segundo Scott e Colaboradores (2022), por meio dos dados do National Surgical Quality Improvement Project (NSQIP) demons- traram que, entre 2015 e 2019, 4.114 pacientes foram submetidos a cirurgias de afirmação de gênero, representando um incremento superior a 400% no período analisado. Corroborando estes achados, Wright e Cols (2023), identificou 48.019 pacientes que realizaram procedimentos cirúrgicos de afirmação de gênero, sendo que 52,3% apresentavam idade entre 19 e 30 anos, constituindo a faixa etária predominante para este tipo de intervenção. A análise epidemiológica revela que os procedimentos de redesignação genital não ocorrem de forma homogênea ao longo da vida, evidenciando padrões etários específicos para diferentes modalidades cirúrgicas. RELEVÂNCIA CLÍNICA E IMPACTO NA QUALIDADE DE VIDA Com relação à relevância clínica da cirurgia de redesignação genital vai além da adequação da anatomia sexual, mas também impacta positivamente na saúde mental e na qualidade de vida. Estudos apontam que o procedimento representa uma intervenção terapêutica efetiva para reduzir o sofrimento asso- ciado à incongruência de gênero. De acordo com Park et al. (2022), a cirurgia de afirmação de gênero é um tratamento durável que melhora o bem-estar geral do paciente, com alta 42 A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde satisfação, melhora da disforia e redução de comorbidades de saúde mental que persistem décadas após a cirurgia. Neste sentido Almazan e Cols (2021), apontam que a realização de cirurgia de gênero está associada à melhora do sofrimento psicológico, redução do tabagismo e da ideação suicida. Além disso, a saúde sexual após a vaginoplastia apresentou melhora substancial, pelo aumento na autoconfiança (Kitic et al., 2025). ASPECTOS ÉTICOS, LEGAIS E REGULAMENTARES As considerações éticas relacionadas a cirurgia genital em mulheres trans estão voltadas aos princípios do respeito à autonomia, beneficência e não maleficência. De acordo com a resolução nº 2427/2025 do Conselho Federal de Medicina (CFM), a autonomia da paciente é priorizada ao garantir que a decisão pela cirurgia seja informada, voluntária e precedida por avaliação adequada e acompanhamento multidisciplinar, que apresenta importância para uma ava- liação composta por profissionais da psiquiatria, endocrinologia e cirurgia, para minimizar riscos e assegurar que a cirurgia atenda efetivamente às necessidades biopsicossociais da paciente (Bhatt et al., 2022; Jedrzejewski et al., 2023). Além disso, a ética médica preconiza que o procedimento seja realizado em contextos que evitem discriminação, promovendo acesso equitativo a ser- viços de saúde especializados. Esta perspectiva é reforçada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) ao classificar a incongruência de gênero como uma condição que justifica intervenções cirúrgicas para alinhar o corpo à identidade de gênero (Robles et al., 2022; Baleige et al., 2022). Do ponto de vista legal, a cirurgia genital no Brasil é regulamentada pelo CFM e pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Desde 2008, o SUS incorporou o Processo Transexualizador. TÉCNICAS CIRÚRGICAS PARA REDESIGNAÇÃO GENITAL EM MULHERES TRANS O procedimento cirúrgico de afirmação de gênero é denominado vagi- noplastia, procedimento este complexo que visa criar uma genitália externa feminina (vulva) e um canal vaginal interno (Jiang et al., 2018). 43 ISBN 978-65-83998-57-6 - Vol. 1 - Ano 2025 - www.cientificadigital.org A técnica mais comummente utilizada é a vaginoplastia por inversão peniana, considerada o padrão-ouro cirúrgico na maioria dos casos primários (van der Sluis et al., 2023). Este procedimento envolve a desconstrução da anatomia peniana, utilizando a pele peniana invertida para formar um retalho que reveste a neovagina (Shoureshi et al., 2019; Ferrando, 2023). A pele escrotal e perineal excedente pode ser utilizada como enxerto de espessura total para aumentar a profundidade do canal neovaginal, especialmente em pacientes que foram submetidas à circuncisão ou que possuem pele peniana insuficiente. O pro- cedimento também inclui orquiectomia (remoção dos testículos), penectomia, encurtamento da uretra, clitoroplastia (criação de um neoclítoris a partir da glande do pênis, preservando o feixe neurovascular dorsal) e labioplastia (criação dos pequenos e grandes lábios). Estudos demonstram altas taxas de satisfação geral e funcional com esta técnica, com taxas de arrependimento muito baixas (Shoureshi; Dugi, 2019; Hontscharuk et al., 2021; van der Sluis et al., 2023). Para casos em que a pele peniana e escrotal é insuficiente, como em pacientes que passaram por bloqueiopuberal (resultando em hipoplasia penos- crotal), ou em casos de revisão cirúrgica, a vaginoplastia com enxerto intestinal surge como uma alternativa (Bustos et al., 2021;van der Sluis et al., 2023; Fer- rando, 2023). Esta técnica envolve a utilização de um segmento vascularizado do intestino (cólon sigmoide), mas também o íleo, permitindo a criação de um canal neovaginal. As vantagens incluem a obtenção de profundidade adequada (média de 15,3 cm, em comparação com 9,4 cm na inversão peniana), lubrifica- ção natural e uma menor tendência à contração e estenose, o que pode reduzir a necessidade de dilatação pós-operatória contínua (Bouman et al., 2014; van der Sluis et al., 2023; Ferrando, 2023). No entanto, é um procedimento mais complexo que requer uma abordagem abdominal (aberta, laparoscópica ou robótica) e envolve riscos associados à cirurgia intestinal, como fístulas, obs- trução, e a possibilidade de complicações como colite de desvio e excesso de secreção mucosa (Bouman et al., 2014; Bustos et al., 2021). A taxa de satisfação com o enxerto intestinal também é elevada, e alguns estudos sugerem uma maior capacidade de atingir o orgasmo em comparação com a inversão peniana (Bouman et al., 2014). A reconstrução genital completa é um objetivo central de todas as técni- cas de vaginoplastia e visa não apenas a funcionalidade para o coito receptivo, 44 A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde mas também uma aparência estética satisfatória e a resolução da disforia de gênero (Bustos et al., 2021; Hontscharuk et al., 2021). Esteticamente, busca criar uma vulva com clitóris sensível, grandes e pequenos lábios, e um meato uretral posicionado adequadamente. A criação de um neoclítoris sensível, a partir da glande peniana e seu feixe neurovascular, é um passo crucial e está associada à capacidade orgástica pós-operatória. Da mesma forma, a uretroplastia é funda- mental para evitar complicações como estenose meatal ou um jato urinário mal direcionado (Shoureshi et al., 2019). Procedimentos secundários ou de revisão são comuns, sendo a insatisfação com a aparência cosmética a principal razão para a reoperação. As revisões mais frequentes incluem labioplastia e recons- trução do capuz clitoridiano para otimizar os resultados estéticos e funcionais (Hontscharuk et al., 2021; Ferrando, 2023). A satisfação geral com o resultado cirúrgico permanece alta, mesmo quando ocorrem complicações. Uma abordagem multidisciplinar e um acon- selhamento pré-operatório detalhado sobre os resultados esperados, os riscos e a necessidade de cuidados pós-operatórios, como a dilatação, são essenciais para o sucesso do tratamento (Bustos et al., 2021; Hontscharuk et al., 2021). CONSIDERAÇÕES FINAIS A cirurgia genital, ou vaginoplastia, firma-se como um procedimento fundamental no processo transexualizador para mulheres trans, sendo uma intervenção terapêutica eficaz para o alinhamento da anatomia genital à iden- tidade de gênero. A relevância clínica desta cirurgia vai além da adequação anatômica, impactando positivamente na saúde mental, com redução do sofri- mento psicológico associado à incongruência e disforia de gênero, diminuição da ideação suicida e melhora geral no bem-estar e na qualidade de vida das pacientes. Portanto, a vaginoplastia é um pilar essencial na afirmação de gênero, promovendo saúde integral e aliviando a disforia de forma duradoura. 45 ISBN 978-65-83998-57-6 - Vol. 1 - Ano 2025 - www.cientificadigital.org REFERÊNCIAS ALMAZAN, A. N.; KEUROGHLAN, A. S. Association between gender-affirming surgeries and mental health outcomes. JAMA Surgery, v. 156, n. 7, p. 611-618, 2021. BALEIGE, A.; DE LA CHENELIÈRE, M.; DASSONNEVILLE, C.; MARTIN, M. J. Following ICD-11, rebuilding mental health care for transgender persons: leads from field experimentations in Lille, France. Transgender Health, v. 7, n. 1, p. 1-6, 2022. BHATT, N.; CANNELLA, J.; GENTILE, J. P. Gender-affirming care for transgender patients. Innovations in Clinical Neuroscience, v. 19, n. 4-6, p. 23-32, 2022. BLICKENSDERFER, K.; McCORMICK, B.; MYERS, J.; GOODWIN, I.; AGARWAL, C.; HORNS, J.; HOTALING, J. Gender-affirming vaginoplasty and vulvoplasty: an initial experience. Urology, v. 176, p. 232-236, jun. 2023. BOUCHER, F. J. 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' 10.37885/251020359 04 A VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA E SUAS MANIFESTAÇÕES, FATORES ASSOCIADOS E REPERCUSSÕES NA SAÚDE DA MULHER: UMA REVISÃO DE LITERATURA Ana Caroline Borges Lustosa Universidade Federal do Piauí (UFPI) Aparício dos Anjos Sousa Universidade Federal do Piauí (UFPI) Bruno Enéas Rolim Paiva Universidade Federal do Piauí (UFPI) Gabriel Trindade de Carvalho Universidade Federal do Piauí (UFPI) Jaaziel de Carvalho Costa Universidade Federal do Piauí (UFPI) Jamilly Lima Silva Universidade Federal do Piauí (UFPI) Keren Araújo Gomes Universidade Federal do Piauí (UFPI) Maria Isabelly Sousa Santos Universidade Federal do Piauí (UFPI) Sarah Araujo Moura Felix Universidade Federal do Piauí (UFPI) Suyanne Freire de Macedo Universidade Federal do Piauí (UFPI) https://dx.doi.org/10.37885/251020359 48 A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde RESUMO A violência constitui um grave problema social e de saúde pública, e, entre suas manifestações, destaca-se a violência obstétrica, caracterizada por abusos como a proibição da presença de acompanhantes, a realização de procedimentos desnecessários ou sem consentimento, a recusa de analgesia e a violação da privacidade. Assim, ela configura-se como uma violação dos direitos humanos fundamentais das mulheres. Desse modo, os impactos da violência obstétrica ultrapassam o campo físico, acarretando repercussões emocionais. Objetivo: identificar os principais fatores que influenciam a violência obstétrica e suas consequências no contexto da saúde. Método: A revisão integrativa realizada, fundamentada no método de Mendes, Silveira e Galvão (2008), utilizou o modelo PICo, para estruturar a pergunta de pesquisa e o protocolo PRISMA para seleção dos estudos, resultando em seis artigos que abordaram manifestações, fatores associados e repercussões da violência obstétrica. Resultados: Os achados evidenciam a naturalização dessa prática nos serviços de saúde, reforçada por falhas organizacionais, ausência de recursos, formação técnico-científica hegemônica e contexto cultural patriarcal, com prevalência significativa de maus-tratos relatados em diferentes países. Observa-se, portanto, a necessidade de protocolos assistenciais específicos e de ações intersetoriais que promovam uma atenção obstétrica humanizada, segura e respeitosa. Conclusão: O estudo atingiu seu objetivo ao sistematizar as manifestações, os fatores associados e as repercussões da violência obstétrica, fornecendo subsídios para futuras pesquisas e estratégias de enfrentamento. Palavras-chave: Parto; Trabalho de Parto; Violência Obstétrica. 49 ISBN 978-65-83998-57-6 - Vol. 1 - Ano 2025 - www.cientificadigital.org INTRODUÇÃO A violência configura-se como um grave problema social e de saúde pública, caracterizado por ser um fenômeno complexo, uma vez que se mani- festa por meio de atitudes agressivas em relações opressoras, podendo deixar sequelas irreparáveis nos indivíduos (Costa et al., 2022). Nesse contexto, entre os diversos tipos de violência existentes, destaca-se, no cenário brasileiro, a vio- lência obstétrica, que vem ganhando notória visibilidade e gerando discussões sobre as violações de direitos das mulheres durante a assistência à gestação, ao parto, ao puerpério e ao aborto (Leite et al., 2024). A violência obstétrica é definida, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), pela ocorrência de abusos, como a proibição da presença de acompanhantes, a realização de procedimentos médicos desnecessários ou sem o consentimento da gestante, a violação da privacidade, a recusa na administração de analgésicos, a violência física, entre outras práticas (Santos et al., 2024). Dessa forma, ela decorre de condutas dos profissionais de saúde que interferem no processo fisiológico do parto. Sob essa ótica, a violência obstétrica pode ser compreendida, em termos gerais, como uma violação dos direitos humanos fundamentais das mulheres, frequentemente invisibilizada nos serviços de saúde e, por extensão, na socie- dade (Nascimento et al., 2025). Além disso, a negligência diante dos processos fisiológicos femininos tem favorecido a consolidação de uma prática assistencial centrada em um saber técnico-científico hegemônico e unilateral, suprimindo o protagonismo feminino durante o parto. Essa perspectiva institucional, por sua vez, legitima condutas violentas e desrespeitosas, muitas vezes desprovidas de embasamento científico, que reforçam a despersonalização da mulher no contexto obstétrico e evidenciam uma forma de violência de gênero estrutural. Ademais, tais intervenções tendem a acelerar artificialmente o curso natural do parto, aumentando os riscos de desfechos adversos para o binômio mãe e recém-nascido (Melo et al., 2021). Outrossim, o estudo de Freitas e Aragão (2021) analisa a violência presente nos cenários de parto como uma prática incorporada à rotina dos serviços de saúde, a qual tende a ser naturalizada e banalizada, a ponto de as gestantes não se reconhecerem como vítimas. Os autores ainda destacam que a atenção 50 A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde às parturientes é frequentemente centrada em um modelo curativista, o qual enxerga o período gestacional como uma condição patológica que necessita ser controlada pelo poder médico, perspectiva essa enraizada na formação dos profissionais da saúde desde o contexto institucional. É notório que a violência obstétrica acarreta não apenas em consequên- cias físicas, mas provoca impactos profundos, devastadores e multifacetados na saúde mental das mulheres, configurando-se como uma causa significativa de trauma psicológico durante e após o parto. Neste viés, vivências marcadas por desrespeito e abusos contribuem diretamente para o desenvolvimento de sentimentos de medo, ansiedade, depressão e transtorno de estresse pós-trau- mático (TEPT), bem como afetam a capacidade das puérperas de estabelecerem vínculos com o bebê (Pereira et al., 2024). Observa-se, portanto, que a violência obstétrica permeia a experiência de milhares departurientes, as quais, frequentemente, não reconhecem tais práticas como violência em virtude do desconhecimento acerca do tema, mesmo diante da existência de diretrizes nacionais de assistência ao parto normal e humanizado. Torna-se evidente, assim, que essas normativas carecem de efeti- vidade plena para erradicar essa violação de direitos humanos, o que reforça a necessidade de desenvolvimento e implementação de protocolos assistenciais específicos, capazes de estabelecer parâmetros claros de conduta e promover a adesão às boas práticas obstétricas nos cenários de gestação (Andrighetto; Reinheimer, 2023). Logo, a abordagem crítica e aprofundada desse tipo de violência é de extrema relevância no âmbito social, ético e da saúde pública, pois trata-se de uma problemática que compromete a dignidade humana, perpetua desigual- dades de gênero e impacta negativamente a qualidade da atenção em saúde, exigindo ações integradas e intersetoriais para a promoção de uma assistên- cia segura, humanizada e equitativa às mulheres. À vista disso, este estudo partiu da seguinte indagação: como são descritas na literatura científica as manifestações, os fatores associados e as repercussões da violência obstétrica na saúde das mulheres? Neste contexto, esta revisão objetivou identificar os principais fatores que influenciam a violência obstétrica e suas consequências no contexto da saúde. 51 ISBN 978-65-83998-57-6 - Vol. 1 - Ano 2025 - www.cientificadigital.org MÉTODOS Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, fundamentada no método proposto por Mendes, Silveira e Galvão (2008) com adaptações, com o objetivo de identificar e sintetizar as manifestações, os fatores associados e as repercussões da violência obstétrica na saúde das mulheres. A construção da pergunta de pesquisa seguiu o modelo PICo, utilizado em estudos qualitativos, sendo: P (População) mulheres, I (Interesse) manifestações, fatores associados e repercussões, e Co (Contexto) atenção obstétrica, especialmente no momento do parto. A partir dessa estrutura, formulou-se a pergunta norteadora: “Como são descritas na literatura científica as manifestações, os fatores associados e as repercussões da violência obstétrica na saúde das mulheres?” A busca pelos estudos foi realizada na base de dados eletrônica PubMed, abrangendo publicações dos últimos 5 anos (2020 a 2025). A estratégia de busca utilizou descritores controlados do DeCS/MeSH que são termos padronizados para indexação de artigos científicos nas bases de dados de saúde. Os descri- tores foram empregados no idioma inglês para ampliar os resultados da busca, obtendo-se a seguinte estrutura: “obstetric violence” AND “childbirth” OR “labor, obstetric”, combinados por meio dos operadores booleanos AND e OR, conforme a lógica de cada base consultada. A seleção dos estudos seguiu as diretrizes do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA), contemplando várias etapas sequenciais. Inicialmente, realizou-se a identificação, que consistiu na busca dos estudos nas bases de dados e na organização das referências em um geren- ciador bibliográfico. Em seguida, ocorreu a triagem, na qual foram removidos os registros duplicados e feitas leituras dos títulos e resumos para a exclusão inicial dos estudos que não atendiam aos critérios. Posteriormente, procedeu-se à avaliação da elegibilidade, que envolveu a leitura completa dos textos para aplicação rigorosa dos critérios de inclusão e exclusão. Por fim, realizou-se a inclusão, que correspondeu à seleção final dos artigos que compuseram a amostra da revisão. Todo esse processo foi cuidado- samente documentado por meio de um fluxograma PRISMA, o qual apresenta 52 A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde de forma visual o número de registros identificados, excluídos e incluídos em cada etapa da seleção. Foram incluídos artigos originais disponíveis na íntegra gratuitamente, publicados em português, inglês ou espanhol, que abordassem a temática da violência obstétrica, descrevendo manifestações, fatores associados e/ou repercussões na saúde das mulheres. Foram considerados estudos de abor- dagem qualitativa, quantitativa ou mista. Foram excluídos artigos duplicados, dissertações, teses, editoriais, cartas ao editor, revisões de literatura narrativas ou integrativas e estudos que não apresentassem relevância ao tema da vio- lência obstétrica. Os dados extraídos dos estudos selecionados foram organizados em uma tabela, contendo: autor, ano, país, objetivo, tipo de estudo e principais achados (manifestações, fatores associados e repercussões). A análise dos resultados foi realizada por meio de uma síntese, buscando agrupar os conteúdos por similaridades e aspectos recorrentes, de modo a compreender a complexidade da violência obstétrica e suas implicações na saúde das mulheres. RESULTADOS A busca sistematizada na plataforma PubMed, conforme descrito na metodologia, resultou, inicialmente, na identificação de 136 referências. Após a etapa de triagem, foram excluídos 67 artigos, por não estarem disponíveis na íntegra, restando 69 estudos para avaliação inicial. Na análise dos títulos e resumos, 45 artigos foram excluídos por não apresentarem relação direta com a temática proposta, conforme os critérios estabelecidos. Assim, 24 artigos foram selecionados para a leitura completa e avaliação detalhada quanto à elegibilidade. Dentre esses, 18 artigos foram excluídos por não responderem à pergunta de pesquisa após a leitura na íntegra, totalizando uma amostra final composta por **6 artigos** que atenderam a todos os critérios de inclusão. O processo de seleção foi conduzido de forma criteriosa e está representado no fluxograma PRISMA, que evidencia cada etapa de exclusão e inclusão dos estudos, garan- tindo a transparência e reprodutibilidade da revisão integrativa. 53 ISBN 978-65-83998-57-6 - Vol. 1 - Ano 2025 - www.cientificadigital.org Os seis artigos incluídos foram organizados em uma tabela síntese contendo informações como: autor, ano, país, objetivo, tipo de estudo e princi- pais achados referentes às manifestações, fatores associados e repercussões da violência obstétrica na saúde das mulheres. A análise dos dados permitiu a identificação de padrões e aspectos recorrentes nos diferentes contextos pesquisados, conforme exposto na tabela a seguir. Imagem 1 - Fluxograma PRISMA Fonte: Elaborado pelos autores (2025). 54 A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde Tabela 1 – Características e principais achados dos estudos incluídos Autor (Ano) País Objetivo Tipo de estudo Principais achados (manifestações / fatores / repercussões) SILVA-FER- NANDEZ, C. S. (2023) R e v i s ã o de estu- dos inter- nacionais (com foco e m d i - ferentes contextos de aten- ção obs- tétrica) Analisar a asso- ciação entre as manifestações de violência obstétrica e o desenvolvimen- to de depressão pós-parto (DPP) e transtorno de es- tresse pós-traumá- tico (TEPT) durante a gestação, o parto e o puerpério. Revisão Siste- mática Revisão de 21 estudos; associação consistente entre OV e DPP/TEPT; manifestações ligadas: procedimen- tos sem consentimento (episiotomia/ cesariana), tratamento humilhante e negligência; fatores de risco: idade jovem, baixa escolaridade e vulnera- bilidade socioeconômica; reforça ne- cessidade de protocolos humanizados e suporte psicológico no pós-parto. HAKIM, S. et al. (2025) R e v i s ã o global (25 estudos, 15 países) Determinar a pre- valência global da violência obstétrica e identificar fatores de risco e proteção. Revisão Sis- temática e Meta Análise - Prevalência global (pool): 59% (95% CI 0.48–0.70; I² ≈ 99.5%). - Subdomínio mais comum: não-con- sentimento (37%). - Outras prevalências: abusofísico ≈ 28%; discriminação ≈ 20%; detenção ≈ 2%; episiotomia sem consentimento ≈ 27%; manobra de Kristeller ≈ 21%; pedido de dinheiro (corrupção) rela- tado em alguns estudos. - Fatores associados (meta-regres- são): presença de parteira reduz odds de OBV (OR ≈ 0.4); renda média/alta reduz odds (OR ≈ 0.5); parto vaginal associado a maior risco (OR ≈ 2.08). - Alta heterogeneidade entre estudos; limitações incluem definição não pa- dronizada de OBV e predominância de desenhos retrospectivos. Recomenda- ções: promover modelos com partei- ras, padronizar definições/medidas, reforçar consentimento informado e práticas de cuidado respeitoso. 55 ISBN 978-65-83998-57-6 - Vol. 1 - Ano 2025 - www.cientificadigital.org L A U R A K AT R I N A FRASER et al. (2024) P r e d o - m i n a n - temente países de alta ren- d a ( e s - tudos da E u r o p a , América do Norte e Ocea- nia) Estimar a preva- lência de violência obstétrica em paí- ses de alta renda e identificar os prin- cipais domínios de maus-tratos relata- dos por mulheres Revisão sis- temática e meta-análise de estudos quantitativos e qualitativos - Prevalência global de VO: 45,3% (IC95% 27,5–63,0; I² = 100%). - Tipos mais comuns: falta de infor- mação/consentimento, coerção, abuso verbal e físico, procedimentos dolorosos sem analgesia adequada, manobra de Kristeller (30,3%). - Subanálises: falta de analgesia (17,3%), pedidos de ajuda ignorados (19,2%), gritos/repreensões (19,7%). - Estudos qualitativos reforçaram os achados: falta de consentimento e comunicação deficiente foram temas centrais. - Houve variação entre países: maior prevalência em Chile, Alemanha e Itália; menor em EUA, França e Aus- trália. - Conclusão: mesmo em países de alta renda, a VO é altamente prevalente, destacando a necessidade de padro- nização conceitual, fortalecimento da humanização e capacitação pro- fissional 56 A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde EL FOUNTI KHSIM, I. et al. (2022) E s t u d o s incluídos realizados em vários p a í s e s (ex.: Ca- n a d á , E U A , Inglater- ra , A le- m a n h a , S u í ç a , Espanha, Turquia, Irã, Chi- na, Índia e outros) Identificar fatores de risco associados ao diagnóstico de transtorno de es- tresse pós-traumá- tico (PTSD) após o parto. Revisão siste- mática - Principais fatores de risco consis- tentes: intervenções obstétricas e violência obstétrica (ex.: cesárea de emergência — OR ≈ 3.79), lacerações perineais grau 3/4 (OR ≈ 2.77), mano- bras obstétricas (ex.: pressão fundal/ Kristeller), admissão neonatal em UTI, parto pré-termo. - Fatores psicológicos/antecedentes: depressão e/ou ansiedade durante a gravidez, história de doença mental prévia, eventos traumáticos prévios (incl. abuso sexual), dissociação pe- ritraumática, expectativas de dor intensa. - Fatores sociais: baixo suporte social (OR ≈ 5.56), características sociode- mográficas (p. ex. não-pertencer ao grupo étnico majoritário em alguns estudos). FAHEEM A. (2021) Índia Compreender a natureza da vio- lência obstétrica e os contextos orga- nizacionais que a favorecem em ins- tituições de saúde indianas Revisão siste- mática - Forma mais prevalente de VO: abuso verbal, seguido de abuso físico e com- portamentos desumanizantes. - Mulheres de castas inferiores, co- munidades muçulmanas e famílias de baixa renda são mais vulneráveis. - VO decorre de falhas do sistema de saúde, sobrecarga e falta de recursos, além de ambiente institucional abusi- vo e cultura patriarcal. - Pedidos de propina, episiotomias sem necessidade e ausência de con- sentimento informado são práticas frequentes. - O ambiente violento gera medo, pio- ra os desfechos de saúde e desestimu- la o uso futuro dos serviços de saúde 57 ISBN 978-65-83998-57-6 - Vol. 1 - Ano 2025 - www.cientificadigital.org JENKINS, H. et al. (2023) R e v i s ã o q u e i n - cluiu es- tudos da Turquia, P a l e s t i - na, Hong K o n g e Nova Ze- lândia Explorar as expe- riências, visões e entendimentos de mulheres sobre exames vaginais durante o cuidado intraparto. Revisão siste- mática e me- ta-etnografia qualitativa Seis estudos foram incluídos. Identifi- caram-se quatro construtos principais: sofrimento durante o exame, desafio à dinâmica de poder, cultura do parto centrada no colo uterino e contexto do cuidado. Concluiu-se que os exa- mes são frequentemente dolorosos e constrangedores, mas vistos como necessários; fatores como ambiente, privacidade e modelo de cuidado (ex.: continuidade de parteira) influenciam positivamente a experiência Fonte: Elaborado pelos autores (2025). DISCUSSÃO De acordo com Dencker et al. (2019), o medo do parto está relacionado a múltiplos fatores, como crenças culturais, poder socioeconômico, ausência de uma rede de apoio, experiências de traumas e abusos, e saúde mental precária. Diante desses possíveis fatores, o medo relacionado a violência obstétrica se fortalece, uma vez que, de forma rotineira acomete mulheres em trabalho de parto, como por exemplo a tomada de decisão sem o consentimento, omissão de informações, realização de procedimentos desnecessários, acarretando em diversos problemas na vida das mesmas, como o TEPT, a ansiedade, a depressão e implicações em futuras gestações e relacionamentos. A violência obstétrica pode se manifestar de diversas formas, podendo ser através da coerção, da falta de informação, do abuso físico, sexual e/ou mental, da falta de privacidade, entre outros. Essa violação tem como consequência, uma maior incidência de doenças mentais, desde a gravidez até o pós-parto, implicando negativamente tanto na maternidade como na vida pessoal dessas mulheres. A depressão pós-parto está associada às violências sofridas pelas mulheres durante a gravidez, levando a consequências de desamparo, violên- cia e falta de atenção ao recém-nascido. É de suma importância o apoio social 58 A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde para a mãe, como fator de proteção para que consiga lidar com essas situações (Silva et al., 2023). Segundo Faheem (2021), esse tipo de situação não ocorre apenas entre o profissional de saúde e a paciente, mas também com a questão organizacional, onde o ambiente de forma geral corrobora com ações abusivas. Os fatores rela- cionados ao ambiente podem ser a carência de treinamento dos profissionais, falta de medicamentos, falha na infraestrutura e discriminação entre as pacientes. Compreende-se que a violência obstétrica não se refere apenas ao ato direto para com a mulher, mas sim a uma falha anterior a realização do mesmo, ficando evidente que o problema deve ser resolvido desde a organização desse serviço, até chegar na paciente, promovendo um atendimento seguro e humanizado. A definição de experiência do parto feita por Taheri et al. (2018), diz que ela é baseada na autoavaliação da mulher, nas memórias de longo prazo do seu parto, manifestando o cumprimento de expectativas, confiança e participação na tomada de decisões. Uma experiência traumática, acarreta em mudanças, muitas vezes, durante toda a vida dessa mulher, ultrapassando as barreiras da maternidade. O treinamento de atenção plena a mulheres grávidas que sofrem com o medo do parto, tende a diminuir as intervenções obstétricas não urgentes, assim como um maior conhecimento sobre seus direitos, sendo uma ferramenta importante para combater a violência obstétrica (Veringa et al., 2022). Além da experiência traumática, a realização de manobras desnecessárias e dolorosas na paciente sem o seu consentimento, como episiotomia e manobra de Kristeller, tem um impacto negativo não só mentalmente, como fisicamente, acarretando uma experiência do parto negativa e piora nos desfechos de saúde. Experiências negativas durante o parto, impactamde forma direta na saúde mental da mãe, sendo necessárias estratégias para melhorar o apoio materno, apoio psicológico durante e após o parto, além de intervenções específicas para mulheres que passaram por traumas. Esse apoio é crucial para diminuir os efeitos desse impacto nocivo na vida dessas pacientes, como a depressão pós-parto (Bagherinia et al., 2025). Um apoio humanizado e personalizado favorece uma melhor satisfação em relação aos serviços de saúde, principalmente na gravidez, que é um período em que a busca por esses serviços aumenta, alem de ser um período de maior vulnerabilidade da mulher. Um relacionamento próximo entre o profissional de saúde e a paciente ajuda na tomada de decisão, possui menor 59 ISBN 978-65-83998-57-6 - Vol. 1 - Ano 2025 - www.cientificadigital.org necessidade de analgesia e consegue uma melhor satisfação com o serviço. Essa troca de informações de forma humanizada promove acolhimento e per- mite que a mulher possa ter mais autonomia nas decisões durante a gravidez, parto e pós-parto (Macpherson et al., 2016). CONCLUSÃO Nesse cenário, nota-se que o medo em relação ao parto está relacionado a diversos fatores que são fortalecidos pela violência obstétrica, que manifesta- -se desde verbalizações ofensivas, omissão de direitos e condutas agressivas e/ou desnecessárias, repercutindo negativamente no contexto psicossocial da vítima e prejudicando o relacionamento materno-infantil na fase puerperal. Não obstante, a violência obstétrica também refere-se a fatores ambientais anteriores ao parto, mas que o afetarão negativamente, como a infraestrutura precária, a falta de insumos necessários e o despreparo da equipe multiprofissional. Portanto, são necessárias estratégias de apoio materno no período ges- tacional e no parto, a fim de promover o conhecimento das gestantes acerca dos seus direitos, capacitar a paciente e o seu acompanhante para identificar situações de violência obstétrica, bem como amparar as vítimas de violência no intuito de minimizar as consequências provenientes dos fatídicos eventos. Dessa forma, o objetivo do presente estudo foi alcançado, tendo em vista que foram elencadas as manifestações, os fatores associados e as repercus- sões da violência obstétrica na saúde das mulheres, servindo como base para posteriores estudos que aprofundem na temática. Agradecimentos A equipe escritora agradece ao PET-Equidade (Programa de Educação pelo Trabalho), vinculado à Universidade Federal do Piauí (UFPI), campus Senador Helvídio Nunes de Barros, pela oportunidade de aprendizado sobre os principais temas que afligem à população e proporcionaram a escrita do presente estudo. 60 A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde REFERÊNCIAS ANDRIGHETTO, A.; REINHEIMER, C. S. Violência obstétrica: urgência de regulação legislativa no Brasil. Revista de Direito Sanitário, São Paulo, v. 23, n. 1, p. e0013, 2023. BAGHERINIA, M. et al. Prevalência de experiência de nascimento negativa: uma revisão sistemática e meta-análise. BMC Gravidez e Parto, v. 25, n. 1, p. 157, 14 fev. 2025. COSTA, L. D. et al. Violência obstétrica: uma prática vivenciada por mulheres no processo parturitivo. Revista de Enfermagem UFPE, Recife, v. 16, n. 1, 2022. DENCKER, A. et al. 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' 10.37885/251120530 05 PRÉ- ECLÂMPSIA E ECLÂMPSIA: SINAIS, SINTOMAS E CUIDADOS DE ENFERMAGEM NA GESTAÇÃO DE ALTO RISCO Érika Piana Pontel Centro Universitário da Serra Gaúcha (FSG) Rossano Sartori Dal Molin Centro Universitário da Serra Gaúcha (FSG) https://dx.doi.org/10.37885/251120530 62 A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde RESUMO Podem ocorrer complicações durante a gravidez que ameaçam a vida tanto da mãe quanto do filho. Dessas condições, a pré-eclâmpsia e a eclâmpsia, nas suas formas mais graves, são as principais causas de morbidade e mortalidade materno-fetais globalmente. A pré-eclâmpsia é definida como uma síndrome hipertensiva relacionada à gravidez, que surge após vinte semanas de gestação, com proteinúria acentuada e/ou disfunções maternas. Se não tratada, pode evo- luir para eclâmpsia — uma condição, às vezes fatal, marcada por convulsões e complicações. A enfermagem é um dos fatores mais importantes para acelerar o diagnóstico e evitar desfechos negativos numa abordagem em equipe. Portanto, o enfermeiro é o profissional de saúde que passa mais tempo com a gestante e acompanha de perto a vigilância clínica, identificando sinais de alerta do avanço da doença, realizando intervenções em tempo hábil e conduzindo a educação. Esta visão abrangente também está intimamente ligada à segurança e saúde da mãe e do bebê. Este capítulo consiste em uma revisão narrativa da literatura, baseada em fontes científicas recentes, com enfoque descritivo e interpretativo sobre os cuidados de enfermagem em gestantes com pré-eclâmpsia e eclâmpsia. Ele foi elaborado para sublinhar a importância da pré-eclâmpsia e da eclâmpsia nos aspectos clínicos, fisiopatológicos, diagnósticos e terapêuticos, em que a enfermagem desempenha papel na prevenção, na detecção precoce e no apoio ao cuidado pré-natal e pós-natal. Esta é uma revisão narrativa da literatura, com base em achados científicos recentes e publicações oficiais. Palavras-chave: Eclâmpsia; enfermagem;gravidez de alto risco; pré-eclâmpsia; saúde materna. 63 ISBN 978-65-83998-57-6 - Vol. 1 - Ano 2025 - www.cientificadigital.org INTRODUÇÃO Os distúrbios hipertensivos durante a gestação (DHG) continuam a ser um dos problemas mais complexos na saúde materno-fetal. A pré-eclâmpsia também é um distúrbio especialmente grave e clinicamente complexo, com início abrupto de hipertensão, associado a proteinúria, isquemia ou até falência de órgãos maternos. A eclâmpsia, por conseguinte, é o estágio final dos DHG, em que as mulheres desenvolvem convulsões tônico-clônicas que não podem ser atribuí- das a outra doença neurológica. Estas são complicações comuns na gravidez, com prevalência de 5–8%, e representam uma das principais causas de morte materna no Brasil (OMS, 2022). Estudos recentes indicam que a suplementação de cálcio, especialmente em altas doses, pode reduzir o risco de pré-eclâmpsia e melhorar os desfechos maternos e perinatais, especialmente entre as mulheres com baixa ingestão de cálcio (KINSHELLA et al., 2022). A ingestão diária de cálcio também reduzirá o risco de pré-eclâmpsia em até 55% quando tomada em forma de suplemento, acrescenta o Ministério da Saúde. Pode se desenvolver já a partir da 20ª semana de gravidez e, se não controlada, escalar para complicações que ameaçam a vida, incluindo falência hepática e renal, descolamento prematuro da placenta (separação da placenta da parede do útero) ou restrição do crescimento fetal. O conhecimento técnico e científico da enfermagem é fundamental para prevenir, identificar e enfrentar esses fenômenos. A implementação sistemática de protocolos e o treinamento contínuo da equipe de enfermagem estão dire- tamente relacionados à qualidade do cuidado e à redução de eventos adversos (SANTANA et al., 2021). Assim, o reconhecimento precoce e o controle do meca- nismo da doença são importantes para oferecer cuidados preventivos eficazes. DESENVOLVIMENTO A preeclâmpsia (PE) é uma das emergências obstétricas mais temidas e letais. Ocorre em mulheres após a 20ª semana de gestação. Este tipo de doença 64 A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde é grave, imprevisível e responsável por altas taxas de mortalidade materna e perinatal (COUTINHO et al., 2023). CLASSIFICAÇÃO E IDENTIFICAÇÃO OPORTUNA: UMA QUESTÃO DE MONITORAMENTO CLÍNICO A pré-eclâmpsia é diagnosticada com base na tríade clássica: hiper- tensão (≥ 140/90 mmHg), proteinúria (≥ 300 mg/24h) e/ou sinais de lesão de órgão-alvo como rins, fígado, cérebro, plaquetas. A presente manifestação do distúrbio incorpora mudanças no desenvolvimento placentário, levando a inflamação sistêmica e dano ao endotélio. Neste contexto, medir simplesmente a pressão arterial não é o suficiente para os enfermeiros. É necessário compreender os sinais e sintomas clínicos para formar um julgamento racional e tomar uma atitude. Uma revisão abran- gente da história médica do paciente e dos cuidados de acompanhamento de doenças anteriores — ou a detecção de complicações, como diabetes mellitus, hipertensão crônica, doença renal e doenças autoimunes — é essencial para identificar grávidas em alto risco. Outros fatores que contribuem para o aumento do risco incluem gravide- zes múltiplas, primiparidade, sobrepeso ou obesidade, idade materna avançada, baixo nível socioeconômico e cor/raça (FASANYA et al., 2021). Um estudo de Johnson e Louis (2022) relatou taxas elevadas de pré-eclâmpsia e mortalidade materna entre mulheres negras e pardas, em parte porque disparidades sociais dificultam que elas recebam um bom atendimento. Dor de cabeça intensa e persistente, alterações visuais, dor epigástrica e edema súbito, especialmente no rosto e nas mãos, são sinais de agravamento significativo do quadro clínico e exigem tratamento imediato. O tratamento imediato deve ser administrado caso algum desses sintomas ocorra. A detecção precoce é ainda a melhor salvaguarda — contra consequências potencialmente sérias, como uma hemorragia cerebral, insuficiência renal que quase sempre termina em morte para mãe e filho (KINSHELLA et al., 2022). 65 ISBN 978-65-83998-57-6 - Vol. 1 - Ano 2025 - www.cientificadigital.org ESTRATÉGIA DE ENFERMAGEM EM AÇÃO: VIGILÂNCIA E CUIDADO DE ENFERMAGEM A necessidade de enfermagem é óbvia. Convencionalmente, a PE envolve múltiplos sistemas do corpo humano; por isso, requer uma atitude cautelosa, atenta aos sinais mais sutis e pronta para resgatar de quaisquer mudanças clínicas. Muitas vezes, isso pode ser a diferença entre uma evolução favorável e um evento maior, dependendo de quão rapidamente a equipe o percebe. A enfermagem é essencial no atendimento clínico. Oliveira (2025) defende que o cuidado deve ser dinâmico, individualizado e científico. O enfermeiro serve para intercalar o tratamento técnico com hospitalidade, permitindo um cuidado abrangente aos pacientes. As obrigações incluem medições seriais da pressão arterial, avaliação dos sinais vitais, acompanhamento de alterações no estado clínico, realização de exames laboratoriais e garantia do bem-estar do feto. Além disso, o enfermeiro deve administrar quaisquer medicamentos prescritos, como anti-hipertensivos e sulfato de magnésio, e preparar para possíveis procedimentos obstétricos. Justamente neste momento, quando os pacientes estão mais ansiosos, isolados e solitários, precisam de um ouvinte atento e confortador. A mulher grávida com PE deve receber apoio emocional contínuo, por meio de escuta ativa, acolhimento e assistência psicológica. Essas práticas reduzem o medo, a ansiedade e a incerteza, fortalecendo o vínculo terapêutico e a adesão ao tratamento. Guiar bem o paciente sobre a doença, seu tratamento e os sinais de perigo são essenciais para melhorar as relações terapêuticas e promover a conformidade do paciente com o tratamento. A enfermagem eficaz deve fazer parte do treinamento contínuo de enfermeiros e parteiras. Profissionais atuali- zados sobre as novas diretrizes e protocolos clínicos oferecem cuidados mais seguros, humanizados e eficazes (OLIVEIRA et al., 2025). A DETECÇÃO E PREVENÇÃO DESTA DOENÇA Conhecer os tipos de tratamentos e medidas de prevenção disponíveis para pré-eclâmpsia é essencial para proteger a vida da mãe e da criança. Uma 66 A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde vez diagnosticada precocemente e tratada adequadamente, muitas vezes é controlável e não acarreta consequências graves. O tratamento, portanto, limita-se ao controle rigoroso da pressão alta, à terapia medicamentosa adequada e à vigilância clínica contínua. Em casos graves, o parto parece ser a única cura conhecida hoje, embora o sulfato de magnésio se destaque como um remédio eficaz para prevenir e tratar convul- sões ou eclâmpsia. Para prevenção, além de suplementos de cálcio, corrigir deficiências nutri- cionais (uma falta de vitamina D é uma delas) tem mostrado grande promessa (MACEDO, 2025). É também essencial aconselhar a mãe a buscar cuidados pré-natais regulares, a evitar maus hábitos, a consumir uma boa alimentação em quantidade suficiente e a engajar-se em exercícios de baixo impacto, bem como a ensinar-lhe técnicas de enfrentamento. Além de tratamentos não medicamentosos, o consumo real de sódio na dieta também deve ser reduzido. Fazer isso pode gerar lucros importantes na PE: ajuda a ajustar a pressão arterial e a eliminar fluidos, promovendo uma saúde mais abrangente para gestantes. Reduzir o consumo de alimentos processados, orientando as mulheres para alimentos naturais, não só minimizará os danos causados pela PE, como também ajudará a eliminar os agentes que a promovem, garantindo que nossas futuras gerações prosperem livres desta temida doença. Espera-se que a enfermagem continue desempenhando um papel transformador no cuidado à gestante com pré-eclâmpsiae eclâmpsia. O acom- panhamento clínico rigoroso, aliado à educação em saúde e à humanização do cuidado, é essencial para prevenir complicações e promover a segurança materno-fetal. Ao fornecer um serviço humanizado e educativo para o cuidado, o enfermeiro capacita a mulher grávida e sua família a tomar o controle de sua saúde, verificar sua condição e quaisquer deficiências, detectar complicações em estágio inicial e, assim, reduzir o risco de complicações. CONSIDERAÇÕES FINAIS A pré-eclâmpsia e a eclâmpsia são causas significativas de morbidade e mortalidade materna, exigindo atenção cuidadosa também para os bebês. A equipe de enfermagem deve monitorar gestantes com rigor e implementar medidas de 67 ISBN 978-65-83998-57-6 - Vol. 1 - Ano 2025 - www.cientificadigital.org tratamento adequadas para evitar complicações. A vigilância clínica e a edu- cação em saúde durante o pré-natal, o parto e o pós-parto, além da prevenção por meio da suplementação de cálcio e da adesão a protocolos clínicos, são essenciais para consolidar avanços na saúde materna. Reconhecer os fatores socioeconômicos que afetam a eclâmpsia e a pré-eclâmpsia é crucial, desta- cando a necessidade de políticas justas e de qualificação profissional contínua. Fortalecer cuidados baseados em evidências e práticas centradas no paciente é vital para melhorar a saúde materna e reduzir as disparida- des nos cuidados. REFERÊNCIAS CARDOSO, A. M. S. et al. Pré-eclâmpsia: uma revisão bibliográfica dos fatores de risco e estratégias preventivas. Recima21 – Revista Científica Multidisciplinar, v. 5, n. 3, p. e534954, mar. 2024. DOI: 10.47820/recima21.v5i3.4954. Disponível em: https://doi.org/10.47820/recima21.v5i3.4954. Acesso em: 23 out. 2025. COUTINHO, A. R. T. S. S. et al. 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Método: pesquisa qualita- tiva descritiva e exploratória realizada em Unidade Básica de Saúde no interior paulista entre agosto e setembro de 2020. Participaram 15 gestantes de modo presencial e com os cuidados de biossegurança. Adotou-se a análise temática suportado pelo software on-line Taguette® e a análise lexical de conteúdo por meio do IRAMUTEQ. Resultados: emergiram três temas centrais: (1) desafios da maternidade na pandemia, (2) efeitos do isolamento social e (3) estratégias para enfrentar a COVID-19. Considerações finais: os cuidados durante o pré- -natal podem incorporar novas formas de lidar com medos, dúvidase desejos relacionados à COVID-19 e extrapolar a dimensão individual para propor ações coletivas e intersetoriaisbaseados na Atenção Básica. Palavras-chave: Gestantes; cuidado pré-natal; covid-19; atenção primária à saúde; enfermagem; pesquisa qualitativa. 70 A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde INTRODUÇÃO Garantir um cuidado integral às gestantes e suas famílias torna-se um imperativo técnico-científico e ético-político com foco na promoção da saúde, na defesa de direitos e no fortalecimento de estratégias para o enfrentamento da pandemia de CoronovirusDisease2019 (COVID-19) no Sistema Único de Saúde (SUS).Nos últimos dois anos, constataram-se mudanças severas em diversas rotinas nos cuidados durante o pré-natal(1–4). Em particular, o objeto do presente estudo contempla os atendimentos de gestantes no pré-natal realizado nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) como um cenário privilegiado para a (re)(des)construção de ações individuais e coletivas que promovam a saúde, a solidariedade e o desenvolvimento humano digno ante às adversidades impostas pelo novo coronavíruscom foco nas necessidades em saúde e no compromisso com mudanças em seus territórios(5,6). Estudos indicam que a gravidez é uma fase mais vulnerável e requer cautelas adicionais para evitar a contaminação pelo novo coronavírus: Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2 (SARS-COV-2), ou seja, o agente etiológico da COVID-19(7,8). Isolamento, imunização de gestantes, repouso adequado, cuidados com sono, nutrição, hidratação, suporte emocional sobre possíveis contaminações do SARS-COV-2, cuidado personalizado, abordagem multiprofissional e atenção com uso de medicamentos são recomendações gerais e relevantes para o pré-natal(4,8–11). No tocante às pesquisas qualitativas sobre gravidez e COVID-19, iden- tificou-se uma exiguidade na literatura a fim de entender como gestantes, enfermeiras eobstetrizes lidam com barreiras de diferentes dimensões em seus cotidianos e como se protegem em um cenário de tantas instabilidades sociais, econômicas e culturais decorrentes desta pandemia e de outrasepidemias(12). Para agregar às discussões dessa área, delineou-se o seguinte objetivo: com- preender as perspectivas de gestantes sobre a pandemia de COVID-19 durante o pré-natal na Atenção Básica. 71 ISBN 978-65-83998-57-6 - Vol. 1 - Ano 2025 - www.cientificadigital.org MÉTODO Trata-se de uma pesquisa qualitativa, exploratória e descritiva, funda- mentada na Análise de Conteúdo e que ocorreu em uma Unidade Básica de Saúde (UBS), localizada em região periférica de um município do interior do Estado de São Paulo. Com base em 90 gestantes potencialmente elegíveis, definiu-se uma amostra oportunística(13) composta por 3 gestantes no teste piloto e 15 ges- tantesque atenderam os seguintes critérios de inclusão: estar regularmente cadastradas na UBS e não apresentar sinais e sintomas de nenhuma doença infectocontagiosa. Os instrumentos de coleta de dados foram um questionário de dados socio- demográficos e um instrumento com questões abertas sobre os sentimentos e percepções das gestantes diante da pandemia de COVID-19 durante o pré-natal. Durante os meses de agosto e setembro de 2020, sob supervisão de uma enfermeira (docente na área de Enfermagem e Saúde da Mulher, especialista em Obstetrícia e Mestre em Ciências da Saúde), o pesquisador principal (estudante de graduação em Enfermagem) conduziu entrevistas semiestruturadas com base em treinamento específico. As gestantes conviveram com ambos durante o Estágio Curricular Supervisionado na UBS. Destaca-se que as entrevistas foram conduzidas após as consultas de pré-natal em sala reservada e arejada, sendo que as equipes foram avisadas para evitar interrupções. Não houve situações de recusa ou desistência. Em seis encontros, as gestantes estavam acompanhadas por filhos, companheiros e ou outros familiares. As respostas foram gravadas com auxílio de aparelho portátil, modelo Sony Digital Voice Recorder 4GB-ICD-PX240®, a duração média das gravações foi de 7 minutos e 47 segundos e a transcrição verbatim foi realizada pelo pesquisador principal. Não ocorreu nenhum tipo de perda de informação ou problemas técnicos com as gravações. Durante as análises de dados qualitativos suportadas por softwares e a revisão crítica, um enfermeiro, Professor Doutor – com experiência em pesqui- sas qualitativas na área de Promoção da Saúde e Educação em Tecnologias 72 A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde – integrou a equipe de pesquisa para promover diálogos e adensamentos com o material empírico tratado. Com base em um processo indutivo, optou-se por uma triangulação de modalidades analíticas para compreender as respostas das gestantes conforme recomendações de análise temática e lexical conjugadas(14). As notas de campo ajudaram a refletir sobre percepções, emoções e atitudes na relação entrevis- tadas-pesquisador principal. Para a análise temática do corpus transcrito, cada integrante do grupo de pesquisadores trabalhou de modo independente(15), os pesquisadores adotaram o software on-line e gratuito Tagguete(16), versão 1.1.1-34-g70c4cf5, por se tratar de uma opção com comandos intuitivos e que permite a colaboração on-line. No tocante à análise lexical, utilizou-se o software Interface de Rpourles Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires (IRAMUTEQ) 0.7 Alfa 2(17,18). Essa etapa foi realizada pelo pesquisador principal e revisada pelo Professor Doutor. Dado o aproveitamento de 81,09% do corpus textual(17), optou-se por realizar a Classificação Hierárquica Descendente (CHD) para con- firmar ou infirmar os temas e subtemas obtidos associados a palavras plenas (substantivos, adjetivos e verbos)(13). Adotou-se como critério de saturação: a repetição de ideias semelhantes entre as respostas das gestantes e a presença de elementos associados às vivências delas durante o pré-natal realizado na atenção básica durante um período tão peculiar relacionado à pandemia de COVID-19(19,20). Após 4 reuniões on-line, foram definidos os temas e subtemas. As gestantes não tiveram acesso aos resultados das análises feitas até o presente momento. O sigilo dos dados foi assegurado por meio de acesso com senhas específicas pela equipe de pesquisadores e pelo uso da letra “G” e um número arábico aleatoriamente designado de 1 a 15. A presente pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pes- quisa da Faculdade de Medicina de Jundiaí (SP) sob o número de aprova- ção 4.170.342 e Certificado de Apresentação de Apreciação Ética (CAAE) 33601320.3.0000.5412. A escrita final foi orientada com base na versão do Consolidated criteria for REporting Qualitative research (COREQ) traduzida para o português falado no Brasil(21). 73 ISBN 978-65-83998-57-6 - Vol. 1 - Ano 2025 - www.cientificadigital.org RESULTADOS A caracterização das 15 gestantes indicou que a média de idade foi 23 anos, cujas idades variaram entre 20 e 26 anos, sendo que 10 (67%) eram multíparas e cinco (33%) eram primíparas. Sobre as etnias, oito (53%) se decla- raram pretas ou pardas e sete (47%) brancas. Com relação ao estado civil, 10 (67%) eram solteiras e cinco (33%) eram casadas ou em união estável. Quanto ao nível de formação, nove (60%) referiram ter ensino médio completo, oito (53%) trabalham no momento, 11 (73%) recebem bolsa família e ou algum tipo de auxílio emergencial durante a pandemia de COVID-19 e a média da renda familiar foi 1.700,00 reais. A análise temática do conteúdo identificou três temas centrais e oito subtemas (Figura 1): (1) desafios da maternidade na pandemia, (2) efeitos do isolamento social e (3) estratégias para enfrentar a COVID-19. Figura 1 - Temas centrais e seus subtemas relacionados às perspectivas de gestantes atendidas em pré-natal na Atenção Básica. Campo Limpo Paulista, SP, Brasil, 2021. Fonte: Elaborado pelos autores. 74 A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde DESAFIOS DA MATERNIDADE NA PANDEMIA Esse tema teve 38 destaques e foi associado à necessidade de (re)pensar formas de construir uma nova identidade materna, amamentar, planejar e realizar o parto. A “amamentação segura” foi um subtema que reforça a promoção do aleitamento materno com cuidados de higiene, convívio com distanciamento social e consideração das incertezas. “Eu quero amamentar, meu filho amamentei até um ano e dois meses, eu quero amamentar pelo menos um ano, do meu peito, não só do outro leite, mas eu sei que tudo depende...”. (G7). “Eu vou evitar levar ela em alguns lugares. Eu quero amamentar. Acho que não, porque é uma relação entre mim e a criança, eu quero muito amamentar, mas vamos ver”. (G9). O planejamento do “momento do parto” ao longo do pré-natal pode contribuir para reduzir ansiedades e medos, valorizar aspectos emocionais da gestante, defender direitos associados ao partejar, reconhecer fluxos e estru- turas dos serviços de saúde. “Como vai ser o parto com a pandemia... então, são vários fatores, que a gente fica imaginando e incomodando a gente, porque é diferente”. (G10). “Não parei para pensar ainda, acho que não tive coragem ainda para pensar nisso. Acho que vai ser a relação de afeto com as pessoas que, na hora que a gente mais precisa, não vão poder estar lá presente, dando apoio e carinho”. (G13). EFEITOS DO ISOLAMENTO SOCIAL Esse tema apresentou 56 destaques relacionados à condição de ter que se isolar ou manter o distanciamento social das pessoas significativas do conví- vio e das relações das gestantes: familiares, amigos, colegas de trabalho, entre outros. As gestantes indicam diferentes “problemas sociais” resultantes dessa. “Muito ruim, porque eu casei e minha mãe mora sozinha, para gente é muito difícil ficar mais distante, eu não saio tanto como eu gostaria de visitar meus parentes, só que com a minha mãe a gente tenta dar um jeitinho sempre, para gente se ver sempre, porque é complicado ficar longe”. (G1). 75 ISBN 978-65-83998-57-6 - Vol. 1 - Ano 2025 - www.cientificadigital.org “É ruim, porque a gente não pode sair para lugar nenhum, que nem meu chá de bebê, não vou ter chá de bebê, então é muito ruim”. (G3). “Para mim é um pouco perturbador, porque eu não tenho apoio de ninguém e cuidar de mais um ainda é mais difícil”. (G15). As questões financeiras e de inserção no mundo do trabalho foram expressas e demonstram a preocupação das gestantes com o atual contexto socioeconômico e político, bem como os vínculos empregatícios e condições para garantir o direito ao trabalho. “Coisa boa não, porque você vai ao mercado, os preços estão61 SUMÁRIO Capítulo 06 PERSPECTIVAS DE GESTANTES EM PRÉ-NATAL NA ATENÇÃO BÁSICA NO CONTEXTO DA PANDEMIA DE COVID-19 Maria Manoela Rodrigues; Matheus Vinicius de Sene; Alfredo Almeida Pina Oliveira ' 10.37885/251120531 .......................................................................................................................................68 Capítulo 07 CUIDADO AMPLIADO E TRANSVERSAL NA SAÚDE MENTAL MATERNA: UMA EXPERIÊNCIA NA APS EM PORTO VELHO Artur Ramos da Silva Neto; Bianca Espindola; Carlos José Ferreira Júnior; Emile Rafaela Ferreira Lisboa Lopes; Flávia Mayáre Freires Thomaz; Giulya Mendes Ohira de Rossi; Pedro Henrique Angeli Slemer; Isabela Farias Gualberto Duarte; Arlindo Gonzaga Branco Junior ' 10.37885/251220820 .....................................................................................................................................85 Capítulo 08 USO DE PSICOTRÓPICOS NA GESTAÇÃO DE ALTO RISCO: PREVALÊNCIA E FATORES ASSOCIADOS Gabriela Gubert Fernando; Tatiana da Silva Melo Malaquias; Leticia Gramazio Soares; Alexandra Bittencourt Madureira ; Maicon Henrique Lentsck; Tatiane Baratieri ; Marília Daniella Machado Araújo; Kátia Pereira de Borba; Sidiane de Moura Marochio; Maria do Carmo Fernandez Lourenço Haddad ' 10.37885/251220844 .....................................................................................................................................92 SOBRE O ORGANIZADOR .............................................................................................................. 109 ÍNDICE REMISSIVO ..................................................................................................................................110 ' 10.37885/250819884 01 PARTO (DES) HUMANIZADO: AS CONSEQUÊNCIAS DA VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA EM PUÉRPERAS NA CONDIÇÃO DE VULNERABILIDADE SOCIAL Janiely Silva Sousa Centro Universitário Estácio de Santa Catarina (ESTACIO) Felipe Augusto Leques Tonial Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Amanda Castro Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Giorgia Kretzer Hinckel Instituto Catarinense de Terapia Cognitiva (ICTC) https://dx.doi.org/10.37885/250819884 9 ISBN 978-65-83998-57-6 - Vol. 1 - Ano 2025 - www.cientificadigital.org RESUMO O presente artigo descreve e problematiza as formas de cuidado na assistência das mulheres em seus processos reprodutivos, tendo como ponto central a violência obstétrica em puérperas em condição de vulnerabilidade social, onde são identificadas ações de desumanização na assistência à gestação, parto e pós-parto. O objetivo desta pesquisa é, então, identificar as consequências de tais violências na vida de mulheres em situação de vulnerabilidade social. Foi feita uma revisão sistemática com produções científicas que contemplam o tema e que possuem como resultados informações a respeito da existência de procedimentos irregulares na atenção da mulher gestante, legitimando a prática da violência obstétrica em mulheres que estão em vulnerabilidade social. Com isso, possibilitam-se condições de problematizar a intensificação do sofrimento ético-político como consequência de tal desrespeito na vida de mulheres negras, pobres e negligenciadas pelo Estado e vítimas da violência obstétrica. Assim, a violação dos direitos reprodutivos é uma causa que precisa ser vista, discutida, enfatizada e confrontada em nossa sociedade. Palavras-chave: Violência obstétrica; vulnerabilidade social; garantia de direitos reprodutivos. 10 A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde INTRODUÇÃO O Parto humanizado é um direito da mulher gestante que tem como finalidade modificar os atendimentos realizados nos hospitais, principalmente nos serviços públicos, a fim de garantir que o momento do nascimento do bebê seja realizado de forma ética e profissional no cuidado da mãe e do recém-nas- cido. Na história do parto, entende-se esse momento como sinônimo de dor e sofrimento intenso, sendo possível a caracterização de uma cultura da dor, onde para se ter um filho(a) é necessário passar por um processo exaustivo que exige da mulher força e persistência (FIRMINO et al., 2020). A dor física perpassa o sofrimento social, que emerge principalmente em casos de violência obstétrica, quando a mulher é submetida a imposições médicas ou a atos desrespeitosos que são naturalizados. Nesse sentido, a dor passa a ser vista como parte do processo e a violência acaba sendo associada ao processo de dor, ou/e consequentemente, naturalizada (CARNEIRO, 2015). O parto é um episódio fisiológico que apresenta fenômenos bioquímicos e emocionais, em seu ato, e o nascimento de uma criança representa na sua grande maioria um momento de alegria para os pais e familiares que aguardam ansiosamente conhecer o novo membro (a) da família. A mulher em seu momento de dar à luz deve ser cuidada, respeitada, assistida, na possibilidade de obter um parto humanizado. Este cenário muitas vezes não ocorre como esperado, considerando as facetas que envolvem o contexto hospitalar em serviços públicos, onde a estrutura do local e procedimentos utilizados não favorecem a realização de um parto adequado (NAGAHAMA; SANTIAGO, 2008), o que, muitas vezes, pode acarretar em violência obstétrica. O termo “violência obstétrica” tem sido alvo de polêmicas, considerando que essa ação descreve a conduta de profissionais de saúde na assistência da gestação, no parto e no pós-parto, no qual o tratamento é agressivo com práticas desrespeitosas. O significado deste termo refere-se a um conjunto de violências que ocorrem na atenção obstétrica, ocasionado por profissionais. Tais ações refletem em discussão polêmica, em que atravessam os valores e a subjetividades do outro (SENA; TESSER, 2016). De acordo com Brandt et al. (2018, p.02), “violência obstétrica (V.O.) é o termo utilizado para agrupar todos os tipos de violência sofridos pela mulher 11 ISBN 978-65-83998-57-6 - Vol. 1 - Ano 2025 - www.cientificadigital.org durante a gravidez, parto, pós-parto e abortamento. As agressões acontecem de forma verbal, institucional, moral, física e psicológica”. A ocorrência da violência obstétrica é frequente, e a responsabilidade desta conduta também é uma questão de saúde pública, tendo em vista a constância dos relatos de mulheres que sofreram algum tipo de violência no parto ou no abortamento (BRANDT et al., 2018). O Ministério da Saúde instituiu, em 2000, o Programa de Humanização no Pré-Natal e Nascimento, através da Portaria/GM nº 569, de 01 de junho de 2000, propondo como estratégias principais: aprimorar o acesso, a cobertura e a qualidade do acompanhamento pré- natal, da assistência ao parto e do puerpé- rio. Esta política pública de assistência instituída pelo programa tem por base o direito à cidadania e à humanização nos serviços de saúde prestados à mulher. Segundo dados do Ministério da Saúde (2012), o acolhimento na atenção básica orienta-se pela integralidade do cuidado, desde o recebimento da mulher, a partir da promoção da escuta qualificada até a identificação das condições de vulnerabilidade existentes de acordo com o contexto social da mesma. Deve-se, portanto, proporcionar um ambiente em que a escuta das preocupa- ções e angústias da gestante seja possibilitada, permitindo a continuidade da assistência através de outros serviços de saúde, e em caso de necessidade, produzir vínculo com a equipe profissional. Um dos aspectos da violência obstétrica diz respeito à sua prevalência, tendo em vista um marcador racial e socioeconômico. O racismo e a desigualdade econômica dificultam o acesso ao atendimento humanizado e ao tratamento adequado para as parturientes negras e com baixa renda, que tem seu plano de parto e ações de saúde sob decisão da equipe médica, sendo atravessadas por discursos normalizadores, que reduzem sua fala e minimizam suas dores (THEOPHILO;um absurdo. Você não consegue sair, tudo que você vai fazer o gasto parece que é o dobro, é um medo de pegar doença, qualquer gripe já fala: estou com COVID(...). A médica estava me afastando, mas a empresa não quer considerar”. (G7). “Fica complicado em questão de serviço, porque eu trabalho com público, eu não sou registrada, sou anônima, autônoma, quero dizer. Então, querendo ou não, fica complicado por causa disso. Trabalho com eventos, então, não pode ter eventos porque você tem contato direto com o público, então nesse caso complicou”. (G11). Mesmo com o uso de tecnologias digitais de informação e comunicação associadas a diferentes dispositivos eletrônicos e de telefonia móvel, as ges- tantes enfatizam a sensação de isolamento e a impossibilidade de promover encontros familiares próprios da gravidez induzidas pela “vida em telas digitais”. “Mudou muita coisa, antes a gente podia sair fazer as coisas, agora totalmente, distanciou de todo mundo, só através de WhatsApp a gente se comunica”. (G2). “É bem triste, a gente não pode compartilhar a gravidez com os familiares, não poder fazer o chá de bebê, não poder fazer nada, só pelo celular, é bem triste, é bem diferente com o que a gente está acostumado a viver”. (G13). ESTRATÉGIAS PARA ENFRENTAR A COVID-19 Com 93 destaques, esse tema aglutinou medidas preventivas individuais e coletivas, bem como percepções sobre as fontes de informação e os meios de comunicação para buscar formas de cuidar de si e dos outros em tempos pandêmicos.As “medidas preventivas” mencionadas pelas gestantes indicaram 76 A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde lacunas sobre a proteção mais efetiva, em especial, nas visitas à família e refor- çaram a vacina contra COVID-19 como um recurso importante. “Mas as pessoas têm que continuar se cuidando, usar máscara e álcool em gel, porque não é algo que vai passar tão rápido, não tem a vacina, quando vier a vacina pelo que eu vi não sabe o tempo que vai durar no corpo da pessoa”. (G1). “Espero não receber muita visita, é muito arriscado, tanto para neném, quanto para minha avó que eu moro junto com ela também que já é de idade”. (G14). Contudo, convém indicar que houve falas contrárias ou com um posicio- namento negacionista de algumas medidas preventivas. “Horrível, tem que ficar o tempo todo com essa porcaria na cara [máscara], eu tenho bronquite, rinite, sinusite”. (G4). “Deveria acabar logo, sou sincera, porque, eles tentaram isolar tanto e olha o tanto de gente que morreu, então se tiver que acontecer, vai acontecer, sabe, que esse andar de máscara, vamos ser sincera, para quê?”. (G5). O “uso de máscaras” foi a principal estratégia associada a equipa- mento de proteção individual contra a transmissão do SARS-Cov-2 destacado pelas gestantes partícipes, porém com ressalvas sobre a usabilidade deste recurso no cotidiano. “(...) Usar máscara, às vezes incomoda, tem pessoas que tem rinite, essas coisas [problemas respiratórios], não consegue usar máscara direito. Tem lugar que, às vezes que você vai, você esquece não pode entrar, meio complicado, eu acho”. (G9). “Pensar que é horrível usar máscara dentro da própria casa para amamentar seu filho. Então, acho que vai ser bem complicado”. (G10). No tocante aos “meios de comunicação”, a televisão representou a principal fonte de informação para a maioria das gestantes. As mídias e redes sociais configuram outros canais de acesso às informações para compreender e lidar com os problemas da COVID-19. “Celular, jornal, as pessoas comentando, como que é, como a evolução é muito rápida dessa doença, muito rápida, ela atinge muitos órgãos”. (G8). 77 ISBN 978-65-83998-57-6 - Vol. 1 - Ano 2025 - www.cientificadigital.org “Na televisão assim, jornais que estão passando bastante e todas as redes sociais também. Está tendo [notícias] no Facebook”. (G9). “Às vezes, eu vejo na televisão. as pessoas veem e conversam e acabam falando”. (G11). Por fim, houve falas que ilustram a positividade sobre a “permanência em casa” e que permitem o reconhecimento de potencialidades a serem tra- balhadas pelas equipes da Atenção Básica, tais como: a proximidade com a família, a valorização do estar em casa e a qualidade da convivência com intuito de preservar a saúde. “Eu acho que muitas famílias estão se reunindo mais, por fora eu vejo que tem um lado bom, os pais estão ficando mais com as filhas, com os filhos, estão passando mais tempo, tendo mais aquele convívio”. (G10). “A gente fica preocupado, querendo ou não, se eu pegar afeta a criança também, então tem que tomar todo o cuidado do mundo. Em casa, a gente já tem meu pai com diabetes, minha mãe tem diabetes, então querendo ou não afeta eles também”. (G11). Posteriormente, a análise lexical por meio do IRAMUTEQ resultou nas seguintes estatísticas textuais associadas à CHD: 15 textos, 275 segmentos de texto (ST), 921 formas, 5269 ocorrências, 633 lemas, 536 formas ativas, 89 formas suplementares, seis classes lexicais e um aproveitamento de 81,09% do corpus total, equivalendo a 223 ST analisados estatisticamente. Para a construção do Filograma da CHD (Figura 2), selecionaram-se os léxicos (palavras ou termos carregados de sentido com base no objeto de estudo) com ppromover orientações sensíveis a aspectos físicos, emocionais e socioculturais e ao garantir isolamento com monitoramento remoto e ou domiciliar periódico(6). No contexto nacional, identificou-se apenas um protocolo de pesquisa qualitativa no cenário brasileiro com foco nas experiências de mulheres infectadas pelo novo coronavírus em um hospital universitário terciário e no levantamento de aspectos relacionados ao adoecer pela COVID-19(22). Em uma pesquisa qualitativa, conduzida remotamente com 15 gestantes em hospital da Turquia, contribuiu com a discussão detrês temas centrais: a busca de informações confiáveis para enfrentar o “desconhecido” novo coro- navírus, a reorganização das rotinas dos serviços de pré-natal e a compreensão das profundas mudanças no cotidiano e nas relações sociais(23). Em outro estudo qualitativo, com abordagem fenomenológica, participaram 19 gestantes vinculadas a centros de saúde pública na região nordeste do Irã e expressaram os efeitos comportamentais e emocionais provocados pela pandemia na regularidade dos cotidianos das gestantes, o enfrentamento das adversidades na gravidez, as limitações para acessar ações no pré-natal, o desenvolvimento de posturas resilientes e a adaptação às recomendações sanitárias(24). Cabe ressaltar que, a pandemia de COVID-19 provocou uma série de emoções negativas e um conjunto de informações falsas que prejudicam o cuidado adequado durante a gestação, o parto e o puerpério, interferindo nas relações das gestantes com os diferentes serviços e profissionais de saúde(7). 80 A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde Portanto, valorizar o papel estratégico de gestantes, enfermeiros e obstetrizes na compreensão das epidemias e pandemias por meio de fontes de informação fidedignas e de suportes variados com foco na família é essencial a fim de evitar a propagação de notícias falsas (fake News) e de estigmas sociais (12). Apesar do uso de máscaras ter sido mais evocado, as gestantes pouco enfatizaram ou não mencionaram medidas preventivas efetivas como a higie- nização frequente das mãos ou do uso do álcool gel para desinfecção(8,25). Incentivar a incorporação de medidas comportamentais para a prevenção da transmissão e do contágio do novo coronavírus deve ser abordada pelas equi- pes de Enfermagem e Saúde na Atenção Básica, (re) pensando estratégias que extrapolem a dimensão individual no enfrentamento da pandemia de COVID-19, tais como a consulta de Enfermagem com base na clínica ampliada, nas ações de telenfermagem, na vigilância em saúde, nos grupos educativos em saúde baseados na educação crítica, nas visitas domiciliárias e na articulação de ações intersetoriais no território para o enfrentamento de iniquidades. A permanência em casa manifestada pelas gestantes endossa a recomen- dação do distanciamento social durante a pandemia de COVID-19, exigindo o suporte emocional e social, o uso de plataformas on-line ou via smartphones, o monitoramento de sinais e sintomas de modo remoto pelas equipes de saúde e a avaliação de parâmetros próprios da gravidez para complementar os cuidados no pré-natal presencial(9). Entretanto, a dimensão do trabalho (ou sua falta ou precarização) também devem compor atividades intersetoriais no contexto das Redes de Atenção à Saúde (RAS) e foi um ponto de destaque levantado pelas entrevistadas. Tra- ta-se de um achado relevante para as discussões de uma visão ampliada de saúde e de defesa de direitos ameaçados em períodos críticos semelhantes à pandemia de COVID-19. Como limitações do estudo, entende-se que a realização das entrevistas em momento posterior à consulta pré-natal e somente pelo pesquisador principal pode ter restringido a profundidade das respostas das participantes, tampouco explorar certos aspectos emergentes ao longo do diálogo investigativo. A pre- dominância de mulheres jovens, pretas/pardas, solteiras e com ensino médio pode reforçar matizes e nuanças da gravidez e da maternidade que reproduzem potenciais equívocos ou visões estereotipadas sobre determinados contextos 81 ISBN 978-65-83998-57-6 - Vol. 1 - Ano 2025 - www.cientificadigital.org socioculturais e a pandemia de COVID-19.Por outro prisma, a triangulação de técnicas de análises objetivou explorar o corpus de modo mais ampliado e superar certas continências. O presente estudo indica que o pré-natal na Atenção Básica configura um cenário com potencialidades para auxiliar as mulheres na construção da identidade materna, na valorização de momentos familiares que antecedem o parto e o puerpério, no desenvolvimento de competências para a promoção do desenvolvimento infantil, na defesa dos direitos da gestante e sua família e no esclarecimento de notícias falsas ou equivocadas sobre a COVID-19. CONSIDERAÇÕES FINAIS As perspectivas das gestantes atendidas em pré-natal no contexto da Atenção Básica podem promover uma abordagem compreensiva com foco na garantia de um cuidado sensível às necessidades em saúde das mulheres no período gravídico-puerperal e podem permitir a construção de estratégias individuais, familiares, comunitárias e intersetoriais para o enfrentamento dos desafios da maternidade, a minimização dos efeitos negativos do isolamento social e a incorporação adequada de medidas preventivas baseadas nas melho- res evidências científicas disponíveis. Evidenciou-se a relevância da ação ativa do enfermeiro no processo de pré-natal, como consultas intercaladas com médicos e do protagonismo como educador em saúde, favorecendo um acompanhamento contínuo e integrado com as equipes multiprofissionais e de Enfermagem que cuidam da gestante e seus familiares com o intuito de promover uma rede de apoio para diminuir as ansiedades, preocupações e medos referentes ao partejar em tempos pandêmicos. Em suma, oferecer suporte presencial e ou on-line com intuito de promo- ver ações que incrementem as redes de apoio e de cuidado às gestantes, suas famílias e suas comunidades durante períodos de distanciamento social, que desenvolvam boas práticas para a prevenção da COVID-19 e que dialoguem sobre a construção contínua da maternidade em um contexto pandêmico global e ainda persistente. 82 A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde REFERÊNCIAS 1. 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Entre esses aspectos, a saúde mental materna permanece frequentemente negligenciada na Atenção Primária à Saúde, apesar de sua relevância para o bem-estar individual e familiar. Este capítulo tem como objetivo relatar uma experiência desenvolvida em uma Unidade de Saúde da Família em Porto Velho–RO, voltada à promoção da saúde mental materna e fundamentada na transversalidade do cuidado. Trata-se de um relato de experiência, de natureza descritiva e reflexiva, originado de uma ação educativa vinculada à campanha Maio Furta-Cor. A vivência evidenciou a importância das ações territorializadas, da escuta qualificada, do acolhimento e da educação em saúde na construção de um cuidado integral às mulheres. Conclui-se que a transversalidade constitui um eixo essencial para a efetivação de práticas equitativas, humanizadas e integradas, fortalecendo a assistência à saúde da mulher no âmbito da Atenção Primária. Palavras-chave: Saúde da Mulher; Transversalidade; Atenção Primária à Saúde. 87 ISBN 978-65-83998-57-6 - Vol. 1 - Ano 2025 - www.cientificadigital.org INTRODUÇÃO Historicamente, a maternidade foi construída socialmente sob o ideal da mulher forte, plena e abnegada, sustentada pelo mito do amor materno incon- dicional e da figura da “boa mãe”. Essa concepção romantizada, amplamente difundida ao longo do século XX, contribuiu para a invisibilização do sofrimento psíquico feminino no ciclo gravídico-puerperal, ao desconsiderar a complexi- dade e a diversidade das experiências maternas (Azevedo; Arrais, 2006). Como consequência, emoções como medo, insegurança, exaustão e ambivalência foram naturalizadas, reforçando a sobrecarga emocional das mulheres. Somente nas últimas décadas a saúde mental materna passou a ser reconhecida como dimensão essencial do cuidado integral, impulsionada por evidências científicas que demonstram seu impacto sobre o vínculo materno-in- fantil, o desenvolvimento da criança e a dinâmica familiar. Estudos indicam que até 25% das puérperas podem apresentar sintomas compatíveis com depressão pós-parto, frequentemente subdiagnosticados nos serviços de saúde (Fiocruz, 2025), revelando uma lacuna persistente no cuidado ofertado. Nesse cenário, a campanha Maio Furta-Cor, idealizada em 2021, surgiu com o objetivo de ampliar a visibilidade da saúde mental materna e romper com narrativas homogêneas da maternidade. A escolha da cor furta-cor, que se transforma conforme a luz, simboliza a pluralidade de sentimentos que atravessam essa vivência, legitimando emoções como tristeza, culpa, cansaço e ambivalência (Maio Furta-Cor, 2021). Apesar dos avanços normativos, importantes desafios persistem na Aten- ção Primária à Saúde (APS). Embora as diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS) preconizem práticas baseadas na integralidade, na escuta qualificada, no acolhimento e na interdisciplinaridade (Brasil, 2017), muitas mulheres ainda enfrentam barreiras de acesso ao cuidado em saúde mental, especialmente em contextos marcados por vulnerabilidades sociais, desigualdades de gênero e limitações estruturais. A transversalidade, nesse contexto, emerge como estratégia fundamental para integrar dimensões biológicas, emocionais, sociais, culturais e de gênero no cuidado à saúde da mulher. Trata-se de um eixo que permite ampliar a 88 A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde compreensão do processo saúde-doença e fortalecer intervenções mais sen- síveis, equitativas e resolutivas na APS. É à luz desse referencial que o presente capítulo apresenta um relato de experiência desenvolvido em uma Unidade de Saúde da Família em Porto Velho–RO, voltado à promoção da saúde mental materna e fundamentado nos princípios da transversalidade do cuidado. DETALHAMENTO DA EXPERIÊNCIA Trata-se de um trabalho do tipo relato de experiencia onde a ação de promoção da saúde mental materna foi desenvolvida no mês de maio de 2025, em alusão à campanha nacional Maio Furta-Cor, em uma Unidade de Saúde da Família localizada na cidade Porto Velho, Rondônia. A atividade integrou as ações curriculares da disciplina Integração Ensino-Saúde-Comunidade do curso de Medicina de uma instituição privada de ensino e foi previamente autorizada pela coordenação da unidade de saúde, curso de medicina e acompanhada integralmente pelo docente responsável. A escolha do território ocorreu em razão do vínculo prévio estabelecido entre estudantes e comunidade. O público-alvo da intervenção foi composto por gestantes, puérperas, familiares e funcionárias que se encontravam na unidade durante o período da ação, realizada no dia 16 de maio, das 8h às 11h. A participação ocorreu de forma espontânea, mediante convite aberto realizado pela equipe organiza- dora. A presença de mulheres em diferentes fases do ciclo reprodutivo favore- ceu o compartilhamento intergeracional de experiências sobre a maternidade. A metodologia adotada baseou-se na roda de conversa, estratégia dia- lógica sustentada pelos princípios da educação popular em saúde, que valoriza a escuta, o saber das participantes e a construção coletiva do conhecimento. Como recurso didático, foi utilizado o flyer oficial da campanha Maio Furta-Cor, ao qual se acrescentou uma capa personalizada elaborada pelos estudantes. Também foram produzidos banners e camisas alusivas à campanha, ampliando sua visibilidade no território (Maio Furta-Cor, 2021). O ambiente foi cuidadosamente preparado no auditório da USF, com decoração em tons furta-cor e disposição circular das cadeiras, de modoa estimular horizontalidade e participação ativa. Uma mesa de café da manhã 89 ISBN 978-65-83998-57-6 - Vol. 1 - Ano 2025 - www.cientificadigital.org com alimentos simples foi organizada para acolher as participantes e criar um clima de conforto e proximidade. A intervenção teve início com apresentação da equipe e contextualização sobre a campanha Maio Furta-Cor, destacando seu surgimento e relevância para a saúde mental materna (Maio Furta-Cor, 2021). A dinâmica “Caixa dos Sentimentos” constituiu a estratégia central para estimular a participação. Uma caixa contendo palavras representativas de diferentes sentimentos foi passada entre as participantes, que liam o conteúdo e, caso desejassem, compartilhavam experiências relacionadas. A atividade favoreceu a expressão de emoções frequentemente silenciadas e promoveu identificação entre as mulheres. Durante toda a atividade, a equipe realizou escuta qualificada, validação de sentimentos e orientações sobre serviços de apoio disponíveis na rede de atenção psicossocial, como USF, CAPS e serviços de instituições de ensino superior. Quando identificados sinais de sofrimento psíquico, as mulheres foram orientadas quanto à importância de buscar acompanhamento especializado. Ao final da atividade, realizou-se síntese dos principais pontos discutidos, reforçando-se a importância do autocuidado e do fortalecimento de vínculos comunitários. A ação foi registrada em diário de campo e documentação foto- gráfica, respeitando os aspectos éticos. A experiência revelou grande interesse das mulheres pelo tema, bem como a carência de espaços de escuta sensível e acolhedora no cotidiano da Atenção Primária. DISCUSSÃO A experiência desenvolvida na USF demonstrou a relevância da trans- versalidade como eixo estruturante do cuidado à saúde da mulher, especialmente no que se refere à saúde mental no período gravídico-puerperal. A transversa- lidade, entendida como articulação entre saberes, setores e práticas, permite superar abordagens fragmentadas e promover um cuidado integral sensível às condições sociais, culturais e subjetivas das mulheres (Brasil, 2017). Na Atenção Primária à Saúde, essa perspectiva é estratégica, pois é nesse nível que se constroem vínculos, se reconhecem necessidades e se pro- movem ações de cuidado contínuo. A atividade evidenciou que a saúde mental 90 A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde materna ainda ocupa um lugar secundário nos fluxos assistenciais, apesar da alta prevalência de sofrimento psíquico decorrente de transtornos como depressão e ansiedade no ciclo gravídico-puerperal (Azevedo; Arrais, 2006; Fiocruz, 2025). O compartilhamento de vivências durante a roda de conversa eviden- ciou obstáculos enfrentados por mulheres na busca por cuidado, em especial o silenciamento emocional decorrente de uma cultura que idealiza a materni- dade como experiência exclusivamente positiva. A campanha Maio Furta-Cor demonstrou-se potente ao permitir que a pluralidade de sentimentos fosse reconhecida como legítima, rompendo narrativas hegemônicas e contribuindo para a humanização do cuidado. A dinâmica da “Caixa dos Sentimentos” favoreceu a expressão de emoções e permitiu que as participantes percebessem que suas experiências não eram isoladas. Essa troca afetiva tem valor terapêutico indireto ao reduzir a culpa individual e fortalecer vínculos comunitários, alinhando-se aos princípios da educação popular em saúde, que preconizam a horizontalidade e o diálogo como práticas transformadoras (Liduianee et al., 2019). A atuação da equipe organizadora, ao promover escuta qualificada e orientar sobre serviços da rede, reafirma o papel da APS como ordenadora do cuidado. A vinculação das participantes à USF e aos serviços de apoio psicos- social possibilita intervenções precoces e construção de projetos terapêuticos singulares. A experiência mostrou que, quando acolhidas, as mulheres tendem a buscar mais ativamente os serviços de saúde. Do ponto de vista pedagógico, a atividade revelou-se potente na formação de estudantes da área da saúde. A interação com o território e a escuta das vivências das mulheres ampliam o olhar dos futuros profissionais e fortalecem competências essenciais, como comunicação, sensibilidade social e capacidade de análise crítica do processo saúde-doença. A integração ensino- -serviço-comunidade emerge, assim, como eixo estruturante para uma formação ética e humanizada. Apesar dos resultados positivos, desafios importantes foram identifi- cados, como a limitação temporal da ação, a dificuldade de acompanhamento longitudinal e o estigma associado aos transtornos mentais. Tais questões reforçam a necessidade de institucionalizar ações permanentes voltadas à saúde mental materna na APS. 91 ISBN 978-65-83998-57-6 - Vol. 1 - Ano 2025 - www.cientificadigital.org Neste sentido, a transversalidade do cuidado não se reduz a um prin- cípio teórico, mas se concretiza nas práticas que reconhecem as mulheres em sua integralidade, considerando suas condições de vida, vulnerabilidades e potências. Promover saúde mental materna é, portanto, promover equidade, cidadania e justiça social. Agradecimentos (opcional) A ação educativa desenvolvida demonstrou que práticas territorializadas, sustentadas pela escuta qualificada, pelo acolhimento e pela educação em saúde, configuram estratégias potentes para a promoção do cuidado, fortalecimento das redes de apoio e redução do estigma relacionado ao sofrimento psíquico no ciclo gravídico-puerperal. Além disso, reafirma-se a importância de processos formativos comprometidos com uma abordagem crítica, sensível e socialmente responsável, capazes de preparar futuros profissionais para reconhecer e atuar diante das múltiplas dimensões que atravessam a maternidade. Por fim, destaca-se a necessidade de fortalecimento de políticas públicas que priorizem a saúde mental materna como eixo estruturante do cuidado à mulher. Garantir que a transversalidade se materialize no cotidiano dos serviços implica reconhecer as mulheres em sua integralidade, promover equidade e assegurar que suas vivências e necessidades sejam acolhidas de forma con- tínua e humanizada. REFERÊNCIAS AZEVEDO, D. M.; ARRAIS, A. R. Saúde mental materna e as representações sociais da maternidade: um olhar sobre a depressão pós-parto. Psicologia: Reflexão e Crítica, v. 19, n. 2, p. 269–276, 2006. BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Atenção Básica. Brasília: Ministério da Saúde, 2017. FIOCRUZ. Campanha Maio Furta-Cor debate saúde mental materna. Fundação Oswaldo Cruz, 2025. LIDIUANNE, L. et al. A saúde mental na atenção básica: a construção de grupo. UNA-SUS, 2019. MAIO FURTA-COR. Campanha pela saúde mental materna. Disponível em: https://maiofurtacor. com.br. Acesso em: 10 jun. 2025. https://maiofurtacor.com.br https://maiofurtacor.com.br ' 10.37885/251220844 08 USO DE PSICOTRÓPICOS NA GESTAÇÃO DE ALTO RISCO: PREVALÊNCIA E FATORES ASSOCIADOS Gabriela Gubert Fernando Universidade Estadual do Centro Oeste (Unicentro) Tatiana da Silva Melo Malaquias Universidade Estadual do Centro Oeste (Unicentro) Leticia Gramazio Soares Universidade Estadual do Centro Oeste (Unicentro) Alexandra Bittencourt Madureira Universidade Estadual do Centro Oeste (Unicentro) Maicon Henrique Lentsck Universidade Estadual do Centro Oeste (Unicentro) Tatiane Baratieri Universidade Estadual do Centro Oeste (Unicentro) Marília Daniella Machado Araújo Universidade Estadual do Centro Oeste (Unicentro) Kátia Pereira de Borba Universidade Estadual do Centro Oeste (Unicentro) Sidiane de Moura Marochio Universidade Estadual do Centro Oeste (Unicentro) Maria do Carmo Fernandez Lourenço Haddad Universidade Estadual do Centro Oeste (Unicentro) https://dx.doi.org/10.37885/251220844 93 ISBN 978-65-83998-57-6 - Vol. 1 - Ano 2025 - www.cientificadigital.orgRESUMO Objetivo: Investigar a prevalência do uso de substâncias psicoativas por gestantes de alto risco e averiguar as associações com os fatores sociodemo- gráficos e de saúde. Método: Estudo observacional transversal, no estado do Paraná, Brasil, no qual participaram gestantes de risco gestacional interme- diário ou alto. Os dados foram coletados por meio de questionário sociode- mográfico e do Alcohol, Smoking And Substance Involvement Screening Test (ASSIST). A análise dos dados foi por meio da estatística descritiva e testes de associação. Resultados: As participantes foram 20 gestantes com idade entre 21 e 43 anos, maioria em união estável, com ensino médio completo, renda de até 2 salários-mínimos, e possuíam mais de uma gestação. Dentre as patologias apresentadas durante a gestação destacaram-se a hipertensão arterial, anemia e as infecções de trato urinário. A prevalência do uso de substâncias psicoativas foi de 10% para o tabaco e 5% para a maconha. Conclusão: A prevalência do uso de substâncias psicoativas pelas participantes neste estudo foi baixa e não foram observadas correlações significativas entre o consumo das substâncias e os fatores sociodemográficos e de saúde investigados. Palavras-chave: Gestantes; Psicotrópicos; Prevalência. 94 A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde INTRODUÇÃO As substâncias psicoativas (SPAs) são compostos químicos que atuam diretamente no sistema nervoso central (SNC), alterando a percepção, o humor, a consciência e o comportamento dos indivíduos. Elas podem ser classificadas em três principais grupos, conforme seu efeito sobre o SNC: depressoras (como o álcool, os benzodiazepínicos e os opiáceos), estimulantes (como a cocaína, a nicotina e as anfetaminas) e perturbadoras (como a maconha, o LSD e outras drogas alucinógenas) (Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas, 2017). Globalmente, o uso de SPAs representa um grave problema de saúde pública. Segundo o Relatório Mundial sobre Drogas de 2024, mais de 292 milhões de pessoas usaram drogas em 2022, um aumento de 20% em relação à década anterior. Os jovens são os mais vulneráveis ao uso de drogas e os mais afetados pelos transtornos associados ao seu uso em várias partes do mundo. As substâncias mais prevalentes são cannabis, opióides, anfetaminas, cocaína e alucinógenos. A cannabis permanece como a substância ilícita mais consumida no mundo, com cerca de 228 milhões de usuários (United Nations Office on Drugs and Crime, 2024). No Brasil, dados do III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas revelam que 66,4% da população entre 12 e 65 anos já fez uso de álcool ao menos uma vez na vida, enquanto 33,5% já usou tabaco. Entre as substâncias ilícitas, a mais consumida é a maconha, seguida por cocaína, crack, solventes e ecstasy (Bastos et al., 2017). Além disso, uma análise nacional estimou que aproximadamente 28,7% das gestantes brasileiras consomem algum tipo de substância psicoativa durante a gestação, com destaque para o álcool e tabaco (Lopes et al., 2021). O uso de SPAs durante a gestação acarreta sérios riscos à saúde da mãe e do feto. Substâncias como o álcool, por exemplo, atravessam facilmente a placenta, podendo levar ao Transtorno do Espectro Alcoólico Fetal (TEAF), caracterizado por atraso no desenvolvimento neuropsicomotor, dismorfismos faciais e comprometimento cognitivo (Brasil, 2022). O consumo de tabaco está associado ao baixo peso ao nascer, prematuridade, descolamento prematuro da placenta e morte súbita do lactente (Szulczewski et al., 2025). Drogas ilícitas, como a cocaína e o crack, aumentam o risco de restrição do crescimento intrauterino, asfixia perinatal, aborto espontâneo, infecções 95 ISBN 978-65-83998-57-6 - Vol. 1 - Ano 2025 - www.cientificadigital.org congênitas e alterações neurológicas de longo prazo (Batista et al., 2023). Já a exposição intrauterina à maconha tem sido relacionada a déficits de atenção, problemas de memória e redução das habilidades cognitivas na infância (De Genna, 2022). Além dos efeitos diretos no bebê, o uso de SPAs compromete a adesão ao pré-natal, aumenta o risco de complicações obstétricas e está frequentemente associado a fatores psicossociais como violência doméstica, depressão, baixa escolaridade e pobreza, o que agrava ainda mais a vulnerabilidade da gestante (Marangoni et al., 2022). Frente a esse cenário, o Ministério da Saúde lançou o Programa Brasil Saudável que prioriza, entre outros objetivos, ações intersetoriais de promoção da saúde, prevenção de doenças crônicas e cuidado integral à população em situação de vulnerabilidade, como gestantes usuárias de SPAs. Tais ações visam garantir maior qualidade na atenção pré-natal, reduzir complicações gestacio- nais e promover ambientes mais saudáveis para mães e bebês (Brasil, 2025). Portanto, reconhecer e intervir precocemente no uso de substâncias psicoativas durante a gestação é essencial para a promoção da saúde mater- no-infantil e a prevenção de agravos. Deste modo, este estudo teve por objetivo investigar a prevalência do uso de substâncias psicoativas por gestantes de alto risco e averiguar as associações com os fatores sociodemográficos e de saúde. MÉTODOS Estudo observacional transversal, norteado pelos preceitos do relatório de redação Strengthening the Reporting of Observational studies in Epidemiology (STROBE) (Von Elm et al., 2008). A pesquisa foi realizada em um Ambulatório Médico de Especialidades (AME) de um município do estado do Paraná, Brasil. O AME é um serviço secundário ambulatorial que compõe a Rede de Atenção à Saúde, conta com atendimento multiprofissional às condições com- plexas de saúde. Entre as principais especialidades presentes no AME estão cirurgia geral, neuropediatra, cardiologia, ginecologia e obstetrícia, oftalmologia, endocrinologia e pediatra de alto risco. 96 A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde Participaram da pesquisa gestantes, com idade acima de 18 anos, com condições de saúde física e mental para responder os questionários, a partir do primeiro trimestre de gestação. A seleção das participantes foi por conveniência não probabilística. As ges- tantes atendidas no serviço foram abordadas pela pesquisadora enquanto aguar- davam as consultas e convidadas a participar da pesquisa. Após o aceite, foram orientadas sobre os objetivos do estudo e os aspectos éticos envolvidos. O uso de substâncias psicoativas não foi um critério de inclusão. Os dados foram coletados durante o mês de maio de 2024, em local pri- vativo e reservado para este fim. As participantes responderam às perguntas do questionário sociodemográfico, contendo informações como idade, escolaridade, situação conjugal, filhos, profissão, vínculos empregatícios, dados da gestação atual e antecedentes obstétricos. Para informações sobre o uso de substâncias psicoativas, foi aplicado o questionário de autorrelato Alcohol, Smoking And Substance Involvement Screening Test (ASSIST) (Humeniuk et al., 2010) que contém informações sobre uso de álcool e outras drogas principalmente nos últimos 90 dias. A duração das entrevistas em média foi de 15 minutos. O ASSIST foi validado no Brasil como Teste de Triagem do Envolvimento com Álcool, Cigarro e Outras Substâncias, foi desenvolvido por um grupo inter- nacional de pesquisadores e profissionais especialistas em dependências em resposta a alta carga para a saúde pública associada ao uso de substâncias psicoativas no mundo, sob a supervisão da Organização Mundial da Saúde (OMS). Ele foi concebido para aplicação no âmbito da atenção primária à saúde, onde o uso nocivo ou prejudicial de substâncias entre os pacientes pode passar despercebido ou se agravar. O questionário ASSIST obtém informações dos pacientes sobre o uso de substâncias ao longo da vida esobre o uso de substâncias e problemas associados nos últimos três meses. Determina um escore de risco para cada substância utilizada. O escore obtido para cada substância se enquadra em uma categoria de risco (“baixo”, “moderado” ou “alto”), que determina a intervenção mais apropriada para esse nível de uso (“nenhum tratamento”, “intervenção breve” ou “encaminhamento para avaliação e tratamento especializado”, respectivamente). 97 ISBN 978-65-83998-57-6 - Vol. 1 - Ano 2025 - www.cientificadigital.org Após responderem os questionários e realizado o cálculo do escore, as par- ticipantes receberam o feedback imediato com as intervenções apropriadas para cada risco, estabelecidas pelo ASSIST, com duração aproximada de 15 minutos. Os resultados foram analisados por meio da estatística descritiva e para as associações, o Teste Exato de Fischer. A variável dependente é o uso de substâncias (lícitas e ilícitas) e as variáveis independentes foram os dados socioeconômicos e de saúde. A pesquisa obedeceu a Resolução 466/2012 e foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa. RESULTADOS Participaram da pesquisa 20 gestantes acompanhadas no pré-natal de alto risco no Ambulatório Médico de Especialidade, Paraná, Brasil. As participantes possuíam entre 21 e 43 anos, 50% residiam no município de Guarapuava. A maioria das participantes teve três ou menos gestações (85%), e 30% estava na primeira gestação, conforme podem ser observados na tabela 1. 98 A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde Tabela 1 – Caracterização das gestantes de alto risco atendidas no Ambulatório Médico de Especialidades (n=20), Paraná, Brasil, 2024. N (%) Es co la rid ad e Ensino fundamental incompleto 4 (20) Ensino fundamental completo 1 (5) Ensino médio incompleto 3(15) Ensino médio completo 7 (35) Ensino superior incompleto 2 (10) Ensino superior completo 3 (15) Re nd a Menor que 1 salário-mínimo 6 (30) De 1 a 2 salários-mínimos 9 (45) De 3 a 5 salários-mínimos 4 (20) De 6 ou mais salários-mínimos 1 (5) Co r/ ra ça Branca 9 (45) Parda 10 (50) Negra 1 (5) Es ta do C iv il Solteira 2 (10) União Estável 12 (60) Casada 6(30 Fonte: Autores, 2025 Quanto à idade gestacional no momento da entrevista, uma gestante estava abaixo das 12 semanas (5%), 25% das entrevistadas estavam entre as 12 e 24 semanas, a maioria entre 24 e 36 semanas (60%) e apenas 10% estavam acima das 36 semanas. Em relação ao vínculo empregatício, 50% tem vínculo e 50% em situação de desemprego, entretanto 40% das participantes informaram receber algum benefício social, entre eles o seguro-desemprego (5%), Benefício de Prestação Continuada (BPC) (5%) e Programa Bolsa Família (30%). Com relação as patologias apresentadas, 55% relataram não possuir nenhuma condição de saúde anterior à gestação. As patologias mais comuns apresentadas foram a hipertensão arterial (HA) e o hipotireoidismo (15%), seguidas por diabetes mellitus (DM), epilepsia, hipertireoidismo, Síndrome do Ovário Policístico (SOP), talassemia e lúpus (5% cada). Entre as patologias 99 ISBN 978-65-83998-57-6 - Vol. 1 - Ano 2025 - www.cientificadigital.org desenvolvidas durante a gestação, a mais comum foi a HA, presente em 60% das participantes, a segunda patologia mais apresentada durante a gravidez foram as infecções de trato urinário, presentes em 25%, seguida pela anemia (15%), hiperemese gravídica (10%), eclâmpsia e DM em 5% cada. Quanto ao uso de medicações contínuas, 40% utilizavam antes da gestação e 80% relataram utilizar alguma medicação durante a gestação. Quanto à saúde mental, 25% das gestantes tiveram ansiedade diagnosticada em algum momento da vida e 15% com depressão, a maioria (60%) não apresentava distúrbios mentais. O histórico obstétrico de gestações anteriores apontou grande ocorrência de abortos (20%), seguidos por prematuridade e baixo peso ao nascer com 10% respectivamente, levantou-se também histórico de polidrâmnio em gestações anteriores de uma participante (5%), paralisia cerebral, gestação anembrioná- ria e gravidez ectópica com 5% cada. A idade gestacional de descoberta da gravidez foi variada, 15% das participantes identificaram a gestação antes das 4 semanas, 35% se descobriram gravidas entre 4 e 6 semanas, 25% entre 7 e 8 semanas e 25% com 9 semanas ou mais. Sobre o uso de substâncias psicoativas, somente 15% das gestantes referiram nunca terem feito uso de substâncias, enquanto 80% relataram uso de álcool, 25% de tabaco, 15% de maconha e 10% de cocaína ao menos uma vez na vida. Entretanto, a maioria relatou que pararam o uso durante a gestação e apenas uma gestante referiu uso da maconha nos últimos 3 meses e duas referiram a não interrupção do tabaco. Deste modo, a prevalência do uso de substância psicoativas durante a gestação pelas participantes foi 10% para o tabaco e 5% para a maconha, conforme descrito na figura 1. Figura 1 – Uso de substâncias psicoativas por gestantes de alto risco (n=20) atendidas no Ambulatório Médico de Especialidades, Paraná, Brasil, 2024. Fonte: Os autores, 2025 A partir da aplicação do questionário “ASSIST” foi possível obter maiores informações sobre o uso das substâncias psicoativas. Entre as duas usuárias que relataram o consumo do tabaco e seus derivados nos últimos três meses, uma obteve a pontuação de 15 pontos, enquanto a outra 21 pontos no escore final, indicando “Risco Moderado” de desenvolver problemas de saúde e de outros tipos e podem estar enfrentando alguns desses problemas no momento. Para 100 A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde este risco, a intervenção indicada foi uma breve intervenção, de 3 a 15 minu- tos. A intervenção breve consistiu em dar retorno aos pacientes com o cartão de feedback do ASSIST através de técnicas simples de entrevista motivacional e instruções de autoajuda para diminuir ou parar o uso de substâncias e infor- mações específicas sobre o tabaco. Em relação a maconha, apenas uma gestante fez um uso esporádico nos últimos três meses, obtendo pontuação 2 no escore final, indicando “Baixo Risco”. A intervenção preconizada pelo ASSIST nestes casos é orientar a paciente permanecer em abstinência e desincentivar o uso. Quanto à associação dos fatores sociodemográficos e gestacionais com o uso de substâncias psicoativas, foi realizado o teste exato de Fisher, o qual é mais indicado para amostras pequenas. Em todas as análises, não houve associação estatisticamente significativa entre as variáveis testadas, o que pode ser observado no valor de “p”, do Teste. Por ser uma pequena amostra, não se pode generalizar os resultados para outras populações. Também não é possível afirmar categoricamente que não existem associações entre as variáveis, pois além do pequeno número de participantes, foi coletado dados de apenas um local, com um grupo específico de gestantes, em determinado período, conforme pode ser observado na tabela 2. 101 ISBN 978-65-83998-57-6 - Vol. 1 - Ano 2025 - www.cientificadigital.org Tabela 2 – Associação dos fatores socioeconômicos e gestacionais com o uso de substâncias psicoativas lícitas e ilícitas pelas participantes (n=20), Paraná, Brasil, 2024. Uso de substâncias psicoa- tivas Sim Não Total P* União estável Sim 15 3 18 1.000 Não 2 0 2 Baixa renda Sim 5 1 6 1.000 Não 12 2 14 Vínculo empregatício Sim 9 1 10 1.000 Não 8 2 10 Doenças mentais pré-exis- tentes Sim 6 2 8 0.537 Não 11 1 10 Doenças na gestação Sim 13 2 15 0.601 Não 1 0 1 Antecedentes de compli- cações obstétricas Sim 7 1 8 1.000 Não 10 2 12 *Valor de “P” do Teste Exato de Fisher Fonte: Os autores, 2025 DISCUSSÃO Os resultados demonstraram a prevalência do uso de substâncias psi- coativas em 10% para o tabaco e 5% para maconha pelas gestantes. Este dado também foi evidenciado em um estudo em Bandeirantes,PR, que identificou em 19,2% o uso de drogas de abuso pelas participantes (Silva et al., 2020). A pre- valência identificada neste estudo pode ser considerada baixa, entretanto foi realizada numa amostra pequena. Porém, é um grave problema de saúde pública, pois estas gestantes são estratificadas como alto risco e envolve um cuidado mais específico (Paraná, 2018). O uso de substâncias psicoativas durante a gestação pode ocasionar danos à saúde materno e infantil, afetando também o crescimento e desenvol- vimento da criança, além de inúmeros outros problemas sociais e familiares que envolverão a mãe e filho (Santa et al., 2020). Observa-se que o álcool e a 102 A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde cocaína tiveram seu uso interrompido durante a gestação, enquanto o tabaco e a maconha não. Um estudo realizado pela Universidade Estadual de Campinas, SP, observou que aproximadamente 57% das usuárias de cocaína interrompe- ram o uso por conta da gestação, e 50% interromperam o uso do álcool, após uma breve orientação sobre os riscos houve redução ainda maior do consumo de álcool e maconha, enquanto as tabagistas reduziram o número de cigarros consumidos diariamente (Tamashiro et al., 2020). O uso de substância como cigarro e maconha durante a gestação per- manece como um desafio significativo de saúde pública, mesmo diante das evidências científicas que apontam os riscos associados ao desenvolvimento fetal. A persistência desse comportamento entre gestantes está associada a uma complexa interação de fatores sociais, psicológicos e biológicos. A conti- nuidade do uso dessas substâncias frequentemente se relaciona com o contexto socioeconômico e cultural. Estudos indicam que mulheres em situação de vulne- rabilidade econômica, com menor acesso à educação ou pertencentes a grupos onde o uso dessas substâncias é socialmente aceito, têm maior probabilidade de continuar o consumo durante a gestação. Além disso, a normalização do uso da maconha em algumas regiões, devido à sua legalização ou descriminalização, pode minimizar a percepção dos riscos (Marangoni et al., 2022). Gestantes que fazem o uso de cigarro e maconha frequentemente enfren- tam altos níveis de estresse, ansiedade ou depressão, associados a fatores como gravidez não planejada, violência doméstica ou insegurança financeira. Nesses casos, o uso dessa substância pode ser percebido como uma forma de aliviar sintomas emocionais ou lidar com situações adversárias (Brasil, 2022). Além disso, a gravidez pode agravar questões pré-existentes de saúde mental, como transtornos de ansiedade ou depressão, levando ao consumo como uma forma de aliviar os sintomas. Nesse contexto, as diretrizes do Programa Brasil Saudável (Brasil, 2025), lançado pelo Ministério da Saúde, reforçam a importância de ações integradas de promoção à saúde, prevenção e cuidado integral às populações em situação de vulnerabilidade, como as gestantes usuárias de substâncias psicoativas. O pro- grama propõe a articulação entre atenção primária, serviços especializados e políticas intersetoriais, visando a redução das desigualdades sociais e a ampliação do acesso a serviços de saúde de qualidade. Dentre suas estratégias, destacam-se 103 ISBN 978-65-83998-57-6 - Vol. 1 - Ano 2025 - www.cientificadigital.org o fortalecimento do pré-natal, a qualificação dos profissionais de saúde para o acolhimento e manejo dos casos de uso de substâncias, e o estímulo à criação de redes de apoio psicossocial para essas mulheres. A implementação efetiva dessas ações pode contribuir para a redução do uso de substâncias na gestação e para a promoção da saúde do binômio mãe-filho. Nesse aspecto, destaca-se o papel do profissional enfermeiro junto às gestantes vulneráveis, especialmente no âmbito da Atenção Primária à Saúde, visto que este é o ponto de atenção mais próximo da população, com responsa- bilidade pela longitudinalidade e coordenação do cuidado, garantindo atenção integral às mulheres. Nesse contexto, considerando o vínculo estabelecido com as mulheres no período gravídico-puerperal, o profissional enfermeiro se mostra fundamental para identificar agravos e intervir em tempo oportuno, contribuindo para a redução de morbimortalidade materna e infantil. Quanto aos fatores socioeconômicos das participantes observou-se que são mulheres jovens (21 a 43 anos), em idade fértil, com baixa renda (até dois salários-mínimos), a maioria com escolaridade até o ensino médio. Outro estudo (Bianchini et al., 2018), corrobora com estes dados, onde identificou que 90% das participantes estavam em idade fértil, entre 15 e 40 anos, e 30% tinham menos de 20 anos. O uso de substâncias psicoativas por mulheres e jovens tem aumentado muito nas últimas décadas, favorecendo danos à saúde, e maior probabilidade de se tornarem dependentes destas substâncias (San- tana et al., 2021). O fato de ser uma gestante dependente de substâncias psicoativas, tor- na-se um problema de maior relevância, provocando diversas consequências de saúde ao binômio mãe-filho, como aborto, parto prematuro, baixo peso ao nascer, hipertensão arterial materna, eclampsia, entre outros, além de colaborar para o aumento dos índice de morbidade e mortalidade materno e infantil (WHO, 2016). Verificou-se neste estudo que muitas das participantes já apresentavam comorbidades antes da gestação e que várias gestantes desenvolveram outras patologias associadas à gestação, sendo 60% HA, 25% infeção urinária, 15% anemia, 10% hiperemese gravídica e 5 % eclâmpsia e diabetes mellitus. Essas condições de saúde podem ser ocasionadas ou agravadas pelo uso de subs- tâncias psicoativas. 104 A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde Destaca-se que muitos fatores agravantes devido ao uso de substâncias psicoativas por gestante trazem consequências à saúde, tais como o abandono familiar, falta de condições socioeconômicas para sustentar à família, violência e maus-tratos e outros mais. Uma revisão sistemática no qual se verificou as consequências do uso de cannabis durante a gravidez e lactação identificou que os impactos de longo prazo na saúde psicológica da criança incluem aumento nas taxas de sintomas depressivos e ansiedade, bem como delinquência (Grant et al., 2020). Nesse âmbito, a atuação do enfermeiro é fundamental, pois além de fazer articulação no âmbito da Rede de Atenção à Saúde frente às comorbidades e riscos das gestantes vulneráveis, considerando sua proximidade no contexto da Atenção Primária à Saúde, por meio do estabelecimento de vínculos de confiança, também atua em conjunto com os serviços de assistência social a fim de atender as questões sociais e econômicas, viabilizando a prevenção de agravos e redução de riscos às mulheres, crianças e suas famílias. As análises das variáveis não demonstraram neste estudo associação estatisticamente significativa, entretanto outros estudos apontaram algumas associações entre esses dados, como ser casada e ter concluído o ensino médio como fatores de proteção para o uso de substâncias psicoativas, enquanto idade materna superior a 24 anos foi um fator de risco (Arribas et al., 2021). Outro estudo verificou que mulheres com menor renda familiar tiveram associação com o uso de tabaco durante a gestação (Curry et al, 2022). Outros estudos corroboram com estes dados, onde verificaram que mulheres com menor escolaridade e a maior ocorrência de abandono escolar fizeram uso de tabaco, álcool e drogas ilícitas durante a gestação (Curry et al., 2022; Kassada et al., 2013; Crisóstomo et al., 2022; Porto et al., 2018). Um estudo indicou também a associação do tabagismo com a restrição de crescimento intrauterino, o etilismo com a anemia e as drogas ilícitas com as infecções de trato urinário alto. O uso das substâncias psicoativasapresentou-se também associado a menor idade da sexarca e gravidez na adolescência (Curry et al., 2022). Alguns estudos também fizeram associação entre o acompanhamento da gestante no pré-natal com o uso de substâncias psicoativas, onde averiguaram que o número inadequado de consultas de pré natal e ser multigesta aumenta em cinco vezes a chance de etilismo, enquanto a suplementação inadequada 105 ISBN 978-65-83998-57-6 - Vol. 1 - Ano 2025 - www.cientificadigital.org aumenta em oito vezes o tabagismo. A participação em grupos de gestantes e a orientação de profissionais de saúde quanto ao risco de usar drogas de abuso durante a gestação atuaram como fatores de proteção (Kassada et al., 2013; Crisóstomo et al., 2022; Porto et al., 2018). Considerando o exposto, é importante destacar que o instrumento ASSIST é um importante aliado durante as consultas de enfermagem para intervir nas situações de risco em populações vulneráveis, auxiliando no manejo dos casos de uso de substâncias. Este estudo apresentou como limitação o pequeno tamanho da amostra, e foi realizado em apenas um serviço de saúde, restringindo o número de par- ticipantes. Percebeu-se durante a coleta de dados que muitas gestantes têm medo de falar sobre a temática, por receio de perder a guarda do filho e outras omitem o uso de substância temendo denúncias ou punições, dificultando que intervenções mais efetivas possam ser realizadas. Deste modo, o vínculo entre o serviço e a gestante é fundamental para estabelecer relação de confiança e credibilidade, oportunizando orientações e a adesão ao plano terapêutico. Ao identificar a prevalência do uso de substâncias psicoativas pelas parti- cipantes, a pesquisa fornece dados essenciais para a elaboração de programas de prevenção e cuidados específicos. Na prática assistencial, esses achados podem orientar os profissionais de saúde, em especial o enfermeiro da Atenção Primária à Saúde, por seu vínculo de confiança estabelecido com a população, a adotarem abordagens mais eficazes no acompanhamento pré-natal, identi- ficando gestantes em risco e oferecendo orientações personalizadas sobre os danos potenciais à saúde materno-fetal. CONCLUSÃO Neste estudo foi possível traçar o perfil socioeconômico das partici- pantes, que eram mulheres jovens, a maioria em união estável, com ensino médio completo e possuíam mais de uma gestação. A patologia predominante desenvolvida durante a gestação foi a hipertensão arterial e infecção urinária. Quanto à prevalência do uso de substâncias psicoativas durante a gesta- ção, foram identificadas entre as participantes que 10% fizeram uso de tabaco 106 A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde e 5% de maconha. Não foram observadas correlações significativas entre o consumo das substâncias e os fatores socioeconômicos e de saúde investigados. Durante a gestação, ocorreu a redução do consumo de substâncias psi- coativas pela maioria das mulheres, prezando por um desfecho favorável para mãe e prole. Diante desse cenário, é essencial que políticas públicas, tais como o Programa Brasil Saudável, que traz na diretriz: “II Redução das iniquidades e ampliação dos direitos humanos e proteção social com ênfase a ações de atenção a grupos populacionais específicos em territórios prioritários”, e nos objetivos 02.5 “Intensificar a atenção a crianças, adolescentes, jovens, mulheres e pessoas idosas” e 02.9 “Intensificar a atenção às pessoas usuárias de álcool e/ou outras drogas e outros públicos específicos para determinadas doenças e infecções”, sejam desenvolvidas com foco na prevenção e no suporte às gestantes. A educação sobre os riscos associados ao uso de substâncias psicoa- tivas, bem como o fortalecimento da saúde mental e da rede de apoio social, são estratégias fundamentais para reduzir a prevalência deste comportamento, a abordagem deve ser multidisciplinar, envolvendo profissionais de saúde, assistentes sociais e educadores. Evidencia-se que há necessidade de seguimento e estabelecimento de vínculo de confiança com as mulheres, em especial na APS, para promover intervenções em tempo oportuno e de forma integral, englobando ações aten- dam aos aspectos biopsicossociais. Nesse contexto, o profissional enfermeiro se apresenta como o principal responsável pelo seguimento das gestantes vulnerá- veis, com importância fundamental para atingir às diretrizes do Brasil Saudável. Além disso, pesquisas futuras são necessárias para avaliar a eficácia de intervenções direcionadas e para compreender melhor as consequências do uso de substâncias psicoativas durante a gestação. Estudos longitudinais podem oferecer dados valiosos sobre o desenvolvimento infantil em casos de exposi- ção a substâncias, permitindo que estratégias de intervenção sejam ajustadas e aprimoradas. Assim, a discussão sobre o uso de substâncias psicoativas na gestação de alto risco deve continuar a evoluir, com o objetivo de promover a saúde materno-infantil de forma eficaz e abrangente. 107 ISBN 978-65-83998-57-6 - Vol. 1 - Ano 2025 - www.cientificadigital.org REFERÊNCIAS ARRIBAS, C. G. S. M. et al. Estudo transversal sobre o consumo de drogas por gestantes em quatro hospitais públicos do município de Recife a partir da aplicação do Alcohol, Smoking and Substance Involvement Screening Test (ASSIST). Rev. Med. Minas Gerais, 2021; 31:e31109. DOI: 10.5935/2238- 3182.20210047. BASTOS, F. I. P. M. et al. (org.). III Levantamento Nacional sobre o uso de drogas pela população brasileira. Rio de Janeiro: FIOCRUZ/ICICT, 2017. 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DOI: 10.1590/1980-265X-TCE-2021-0266en. 108 A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde PARANÁ. Secretaria de Estado da Saúde. Linha guia Rede Mãe Paranaense. 7. ed. Curitiba: SESA, 2018. Disponível em: https://www.saude.pr.gov.br/sites/default/arquivos_restritos/files/documento/2020-09/ LinhaGuiaMaeParanaense_2018.pdf PORTO, P. N. et al. Fatores associados ao uso de álcool e drogas por mulheres gestantes. Rev. Rene, 2018; 19:e60044. DOI: 10.15253/2175-6783.2018193116. SANTANA, E. A. S. et al. Drogas ilícitas e lícitas e suas consequências durante a gestação: uma revisão da literatura. Res. Soc. Dev., 2021; 10(13):e529101321409. SECRETARIA NACIONAL DE POLÍTICAS SOBRE DROGAS (BR). Efeitos de substâncias psicoativas: módulo 2. 11. ed. Brasília: SENAD, 2017. 146 p. (SUPERA). SILVA, F. T. R. et al. Prevalence and factors associated with the use of drugs of abuse by pregnant women. Rev. Bras. 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SOBRE O ORGANIZADOR Rossano Sartori Dal Molin Obstetra e Sexólogo Clínico, Especialista em Gestão do Trabalho Pedagógico, Especialista em Anatomia Funcional, MBA em Gestão de Instituições de Ensino Superior, sendo esse último com estágio na University of Turku na Finlândia, onde desenvolveu estudos acerca da pedagogia da inovação e o uso de indicadores na gestão universitária. Especialista em Pedagogia Empresarial e Educação Corporativa e Especialista em Gestão em Saúde. Mestre pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, na linha de pesquisa intitulada Estudos e Práticas da Saúde da Mulher, Criança e Adolescente. Doutor em Pediatria e Saúde da Criança pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS, onde desenvolveu pesquisas na temática da asma infantil. Têm experiência na área da saúde e educação. Professor da FSG Centro Universitário e Diretor da Escola de Saúde Pompéia. Lattes: http://lattes.cnpq.br/2340234461009114 ÍNDICE REMISSIVO A Atenção Primária à Saúde: 69, 86, 87, 89, 96, 103, 104, 105 C COVID-19: 68, 69, 70, 71, 72, 73, 75, 76, 78, 79, 80, 81, 82, 83, 84, 107 Cuidado Pré-Natal: 62, 69 D Disforia de Gênero: 38, 39, 40, 44 E Eclâmpsia: 61, 62, 63, 64, 65, 66, 67, 99, 103 Enfermagem: 23, 24, 34, 35, 36, 60, 61, 62, 63, 65, 66, 67, 69, 71, 80, 81, 82, 105 G Garantia de Direitos Reprodutivos: 9, 27 Gestantes: 16, 20, 23, 30, 49, 59, 62, 66, 67, 68, 69, 70, 71, 72, 73, 74, 75, 76, 77, 78, 79, 80, 81, 82, 88, 93, 94, 95, 96, 97, 98, 99, 100, 101, 102, 103, 104, 105, 106, 107, 108 Gestão Hospitalar: 25, 26, 28, 29, 30, 31, 32, 33 Gravidez de Alto Risco: 62 M Mulheres Transgênero: 38, 40 P Parto: 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28, 29, 30, 31, 33, 34, 35, 36, 48, 49, 50, 51, 54, 56, 57, 58, 59, 60, 66, 67, 74, 79, 81, 87, 91, 103 Parto Humanizado: 10, 14, 15, 24, 26, 29, 30, 33, 35 Pré-Eclâmpsia: 61, 62, 63, 64, 65, 66, 67 Prevalência: 11, 48, 54, 55, 60, 63, 90, 92, 93, 95, 99, 101, 105, 106, 107 Psicotrópicos: 92, 93 S Saúde da Mulher: 22, 26, 27, 47, 71, 86, 87, 89 Saúde da Mulher: 22, 26, 27, 47, 71, 86, 87, 89 Saúde Materna: 23, 35, 62, 67 T Trabalho de Parto: 19, 23, 36, 48, 57 Transversalidade: 86, 87, 88, 89, 91 V Vaginoplastia: 37, 38, 39, 40, 42, 43, 44 Violência Obstétrica: 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 17, 18, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28, 29, 30, 31, 32, 33, 34, 35, 36, 47, 48, 49, 50, 51, 52, 53, 54, 55, 56, 57, 58, 59, 60 Violência Obstétrica: 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 17, 18, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28, 29, 30, 31, 32, 33, 34, 35, 36, 47, 48, 49, 50, 51, 52, 53, 54, 55, 56, 57, 58, 59, 60 Vulnerabilidade Social: 8, 9, 11, 16, 17, 18 VENDA PROIBIDA - acesso livre - OPEN ACCESS científica digital www.cientificadigital.org | contato@cientificadigital.org https://twitter.com/EditoraCientfi1 https://www.youtube.com/channel/UCjN42grxlbW3gllZHhbxTqA https://www.cientificadigital.org mailto:contato%40cientificadigital.org?subject= https://www.facebook.com/editoracientifica https://www.instagram.com/editoracientifica/ 01 PARTO (DES) HUMANIZADO: AS CONSEQUÊNCIAS DA VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA EM PUÉRPERAS NA CONDIÇÃO DE VULNERABILIDADE SOCIAL Janiely Silva Sousa Felipe Augusto Leques Tonial Amanda Castro Giorgia Kretzer Hinckel 10.37885/250819884 02 VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA E O PAPEL DA GESTÃO HOSPITALAR NA PROMOÇÃO DE BOAS PRÁTICAS NO PARTO E NASCIMENTO: UMA REFLEXÃO TEÓRICA Julyanne Maciel Maia Gonzales da Costa Fernando Gomes Ceccon Elitiele Ortiz dos Santos Camila Goulart de Bitencourte Maria Antônia Dutra Fernandes Bianca do Canto Silva dos Santos Vitória dos Santos de Andrade Jéssica Olinda Carvalho e Silva Láisa Emannuele Pereira Knapp Lisie Alende Prates 10.37885/250920078 03 CIRURGIA DE AFIRMAÇÃO DE GÊNERO EM MULHERES TRANS: PERSPECTIVAS CLÍNICAS, ÉTICAS E CIRÚRGICAS DA VAGINOPLASTIA Bruno Henrique Campos Afonso Beatriz Modesto Prata Reis Calebe Pereira Reis Douglas Reis Abdalla 10.37885/251020333 04 A VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA E SUAS MANIFESTAÇÕES, FATORES ASSOCIADOS E REPERCUSSÕES NA SAÚDE DA MULHER: UMA REVISÃO DE LITERATURA Ana Caroline Borges Lustosa Aparício dos Anjos Sousa Bruno Enéas Rolim Paiva Gabriel Trindade de Carvalho Jaaziel de Carvalho Costa Jamilly Lima Silva Keren Araújo Gomes Maria Isabelly Sousa Santos Sarah Araujo Moura Felix Suyanne Freire de Macedo 10.37885/251020359 05 PRÉ-ECLÂMPSIA E ECLÂMPSIA: SINAIS, SINTOMAS E CUIDADOS DE ENFERMAGEM NA GESTAÇÃO DE ALTO RISCO Érika Piana Pontel Rossano Sartori Dal Molin 10.37885/251120530 06 PERSPECTIVAS DE GESTANTES EM PRÉ-NATAL NA ATENÇÃO BÁSICA NO CONTEXTO DA PANDEMIA DE COVID-19 Maria Manoela Rodrigues Matheus Vinicius de Sene Alfredo Almeida Pina Oliveira 10.37885/251120531 07 CUIDADO AMPLIADO E TRANSVERSAL NA SAÚDE MENTAL MATERNA: UMA EXPERIÊNCIA NA APS EM PORTO VELHO Artur Ramos da Silva Neto Bianca Espindola Carlos José Ferreira Júnior Emile Rafaela Ferreira Lisboa Lopes Flávia Mayáre Freires Thomaz Giulya Mendes Ohira de Rossi Pedro Henrique Angeli Slemer Isabela Farias Gualberto Duarte Arlindo Gonzaga Branco Junior 10.37885/251220820 08 USO DE PSICOTRÓPICOS NA GESTAÇÃO DE ALTO RISCO: PREVALÊNCIA E FATORES ASSOCIADOS Gabriela Gubert Fernando Tatiana da Silva Melo Malaquias Leticia Gramazio Soares Alexandra Bittencourt Madureira Maicon Henrique Lentsck Tatiane Baratieri Marília Daniella Machado Araújo Kátia Pereira de Borba Sidiane de Moura Marochio Maria do Carmo Fernandez Lourenço Haddad 10.37885/251220844RATTNER; PEREIRA, 2018). Neste contexto, a violência obstétrica surge na antemão da integralidade no cuidado, devendo ser mapeada e discutida, para fins de desnaturalização da violência associada à dor do parto e visando a promoção à saúde no puerpério, de forma equânime (LANSKY et al., 2019). Considerando o exposto, o objetivo desta pesquisa é identificar as consequências da violência obstétrica em puérperas na condição de vulnerabilidade social. 12 A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde MÉTODO Este artigo é uma revisão sistemática, sendo então uma pesquisa biblio- gráfica de cunho descritivo. Foi utilizada a abordagem qualitativa. Uma pesquisa bibliográfica tem como objetivo esclarecer um problema de pesquisa, a partir de fundamentações científicas em bancos de dados bibliográficos (TREINTA et al., 2014). A elaboração da produção se realiza por meio de levantamento de materiais relacionados ao tema, e leitura integral dos artigos selecionados. Para obter uma produção concisa e coerente, é necessário constância nas leituras, com intuito de ser assertivo no embasamento teórico (LIMA; MIOTO, 2007). De acordo com Lima e Mioto (2007), a pesquisa bibliográfica possui etapas para uma construção sistemática. Entre elas temos, como primeiro passo, a definição do percurso metodológico que busca exemplificar as ideias relacionadas ao tema. Em um segundo momento é necessário realizar a escolha dos procedimentos utilizados, que envolve a elaboração do projeto de pesquisa, investigação das soluções, análise explicativa das soluções e síntese integra- dora. Como terceiro passo, temos a apresentação do percurso da pesquisa que contém detalhamento da investigação das soluções, análise explicativa das soluções e síntese integradora das soluções. Uma revisão sistemática refere-se à produção acadêmica original que contém rigor metodológico, e utiliza-se de métodos específicos e sistemáticos para coleta e análise de dados de forma crítica. Nesse modo de pesquisa, sugere-se que seja elaborada em sete passos, sendo eles, formulação de per- gunta, localização dos estudos, avaliação crítica dos estudos, coleta de dados, análise e apresentação dos dados, interpretação dos dados, aprimoramento e atualização da revisão (ROTHER, 2007). Como passo inicial para a seleção de material, foi feita uma pesquisa em Banco de Dados (SciElo e BVS-psi), a partir dos seguintes descritores: Violência Obstétrica e hospitais públicos, sofrimento e parto, dor e parto (em português). No total, foram encontrados 62 artigos no Scielo, e 183 no BVS- -psi. Em uma segunda etapa, foi realizada uma seleção dos artigos encontrados, considerando o ano de publicação de 2000 a 2019 e a assertividade em relação ao tema da pesquisa. A partir desta seleção, restaram 23 artigos pelo Scielo, e 06 no BVS- psi. 13 ISBN 978-65-83998-57-6 - Vol. 1 - Ano 2025 - www.cientificadigital.org Discussão: Problematização quanto a Violência Obstétrica A Violência obstétrica é uma realidade presente no Brasil que ocorre de forma naturalizada. Essa ação é frequente na assistência à gestação, parto e pós-parto, onde existe uma relação entre sofrimento e um saber que institui relações de poder entre os (as) profissionais de saúde e a mulher atendida. Esta correlação é estabelecida por um contexto histórico em que caracteriza a mulher como objeto de sofrimento, onde seu desejo é anulado (AGUIAR; D’OLIVEIRA, 2011). “No contexto do parto a mulher é esquecida e tomada como objeto, um não sujeito, na medida em que tem a sua subjetividade desconsiderada nesta relação” (BARBOZA; MOTA, 2016, p.04). Segundo as autoras: A violência que ocorre no contexto do parto é uma das formas de violência de gênero considerada como parte da rotina dos serviços de saúde, inserida aos fluxos das maternidades. Esta violência que muitas vezes é vivenciada pelas mulheres de forma silenciosa, por medo ou por opressão, produz angústia num momento em que deveria estar ocorrendo acolhimento e cuidado (BARBOZA; MOTA, 2016, p.04). Historicamente, o parto era realizado por mulheres parteiras considera- das figuras de saber. Neste contexto os cuidados com a mãe e a criança eram oferecidos no conforto de sua casa. Com as mudanças dos últimos séculos, o cenário do parto modifica-se para o contexto hospitalar: o (a) médico (a) como detentor do saber e controle dos corpos (COSTA, 2000). Deste modo, a mulher deixa de escolher a forma que deseja seu parto e passa a responder por imposições no âmbito hospitalar que não são escla- recidas, nem mesmo a gestante ou acompanhante da mesma são consulta- dos (DINIZ, 2001). No momento do parto, em muitos casos, a mulher encontra-se em uma situação desconfortável por não possuir voz diante as decisões sobre o seu corpo. Nesses casos, a mulher acredita que é incapaz de opinar sobre os pro- cedimentos obstétricos realizados, considerando que em sua grande maioria os (as) profissionais presentes durante o parto hospitalar são do sexo masculino, vistos como figuras do poder-saber médico. Neste sentido, é possível constatar que há uma predominância da participação masculina nestes espaços, ainda 14 A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde que, historicamente, a realização do parto esteja associada a figura feminina como as parteiras (COSTA, 2000). Dessa maneira, a violência obstétrica pode estar associada à violência institucional caracterizada por práticas discriminatórias em relação ao gênero, classe social e raça. A distinção que ocorre entre as mulheres atendidas, está relacionada a um conjunto de atributos, como ser mulher, pobre e de baixa escolaridade, caracterizando-as como objetos de intervenções médicas. Fatores como dificuldades econômicas e estruturais estão presente nos serviços públi- cos como agravante deste cenário de violências, principalmente, nos hospitais públicos (AGUIAR; D’OLIVEIRA, 2011). Em muitos casos, considerando a realidade socioeconômica de muitas famílias, as mulheres que realizam acompanhamento pelo SUS utilizam-se desse serviço por ser o único meio de acesso possível. Muitas vezes, durante a gesta- ção e período de pós-parto, a mulher que adere ao serviço público encontra-se fragilizada por não ser acolhida, sendo negligenciada por alguns profissionais na omissão de cuidados (DINIZ et al., 2015). Neste contexto, o desrespeito com as mulheres no atendimento está atrelado a uma cultura que estabelece quem é bem atendido e quem “não merece” tal assistência, mesmo sendo direito de todos (ASSIS, 2018). Este posi- cionamento discriminatório expõe um comportamento machista, que defende o conceito de que “mulher tem mesmo é que sofrer”, legitimando ações que violam profundamente a vida de mulheres em seus diversos papéis sociais, sendo mães, filhas, esposas, trabalhadoras, amigas e cidadãs de direitos, que devem ser respeitadas (DINIZ, 2001). Em função disso, novas formas de atender as mulheres na gestação foram instituídas no parto e pós-parto, com intuito de assegurar às pacientes atenção, acolhimento e um parto humanizado, com procedimentos adequados, onde a mulher se sinta parte do nascimento de seu filho ou filha. Desta forma hoje, no Brasil, o Parto Humanizado é um direito da mulher gestante, instituído no Brasil pela Portaria nº 569/GM, do Ministério da Saúde, levando em consideração os seguintes objetivos: a. Proporcionar à gestante e ao recém-nascido um atendimento digno e de qualidade; b. Reduzir as altas taxas de morbimortalidade materna, perinatal e neonatal; c. Melhorar o acesso, a cobertura e 15 ISBN 978-65-83998-57-6 - Vol. 1 - Ano 2025 - www.cientificadigital.org a qualidade do acompanhamento pré-natal, assistência ao parto e puerpério e assistência neonatal; d. Aprimorar a assistência à saúde da gestante nos níveis ambulatorial, básico e especializado;SOBRE O ORGANIZADOR ÍNDICE REMISSIVOe. Integrar todos os níveis da assistência à gestante, ao parto e ao recém-nascido; f. Implantar Centros de Regulação Obstétrica e Neonatal nos níveis estadual, regional e municipal, com atendimento rápido e qualificado, de acordo com a demanda da população específica, ou seja, a gestante e o recém-nascido (BRASIL, 2000, p.01). No Brasil, o parto humanizado ainda precisa ser disseminado, pois atra- vés dessa prática pode ser possível a desmistificação quanto ao parto normal como um procedimento muito dolorido que acarreta pavor entre as mulheres. Segundo Faúndes e Cecatti (1991), nos hospitais privados, o parto normal tam- bém não é tão acessível às mulheres, em virtude do lucro e ganho de tempo, resultantes do procedimento da cesariana. O Brasil apresenta um dos maiores índices deste procedimento. Os autores destacam que, na década de 1980, o procedimento de cesárea era realizado com uma taxa de 30,9% com base em uma amostra representativa da população em geral. Estes dados revelam que as cesáreas realizadas no Brasil possuíam uma ocorrência maior em mulheres que fazem parte de famílias com poder aquisitivo e renda mensal considerável (FAÚNDES; CECATTI, 1991). Com isso, durante o procedimento do parto, seja ele normal ou cesárea, a mulher encontra-se assustada, angustiada e fragilizada, sendo necessário rece- ber acompanhamento e apoio no que diz respeito a suas decisões. No processo de gestação, parto e pós-parto, a mulher possui direito ao parto humanizado estabelecido pela Portaria nº 569/GM do Ministério da Saúde, que assegura o cuidado à gestante em diversos procedimentos, sendo indispensável um (a) acompanhante durante todo o tempo em que a mulher estiver no hospital (BRASIL, 2000). Neste contexto, o papel do (a) acompanhante possibilita à mulher o acolhimento, visto que a atenção aos fatores relacionados ao parto podem prevenir ações desrespeitosas, uma vez que a mulher neste momento muitas vezes não possui condições de questionar os procedimentos utilizados, ou mesmo condições de se defender frente a violências, físicas e psíquicas. De acordo com Diniz (2001), as mulheres ficam expostas para treinamento de técnicas no processo do parto, onde algumas manobras como episiotomia, fórceps e cesarianas, são realizadas sem o consentimento e esclarecimento 16 A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde da necessidade de realização de tal método. Essas ações são frequentes, prin- cipalmente quando a mulher atendida faz parte de um contexto de pobreza, considerando que esses procedimentos são recomendados apenas em situações de extrema urgência. Viver em condição de vulnerabilidade social, já é resultado de uma vio- lência do Estado, onde os direitos fundamentais e os direitos humanos não são assegurados. A vulnerabilidade social pode ser definida por ausências diversas, sendo a precariedade no acesso a renda, desigualdade e fragilidade nos víncu- los afetivos e relacionais como fatores principais (CARMO; GUIZARDI, 2018). Ao atender este público, o (a) profissional de saúde não possui, em muitos casos, a atenção necessária nas informações prestadas. Isso ocorre por consi- derar que as usuárias do serviço que estão inseridas no contexto da pobreza, não são “dignas” de receber um atendimento adequado (DINIZ et al., 2015). A negligência de cuidados ocorre neste contexto não só pelo fato de ser mulher, mas, principalmente, quando se trata de uma parcela da população que vivencia diariamente o processo de exclusão. Nesta parcela se incluem as mulheres pobres, negras, adolescentes, prostitutas, usuárias de drogas, etc., vítimas de discriminação, preconceito e desumanização (DINIZ et al., 2015). A violência aqui discutida não acontece por fatores isolados, e sim é resul- tado de um conjunto de crueldades que possui o peso da distinção de classes sociais, o preconceito exposto pelo contexto em que vive a mulher, bem como por questões de gênero e a notória discriminação racial e de classe (ASSIS, 2018). Mulheres em vulnerabilidade social estão mais propensas a qualquer tipo de violência. Neste cenário de dor e sofrimento, a negligência de cuidados é posta de forma explícita, e existente em diversos contextos, sendo comum o processo de exclusão a partir de suas características. Essa violência, presente na sociedade contemporânea, permite que a mulher seja vista como objeto o tempo todo, sendo o contexto hospitalar apenas um dos locais que violam constantemente as mulheres (DINIZ et al., 2015). Outro ponto comum na vida de mulheres gestantes ou puérperas, em sua conjuntura social e econômica, é a falta de apoio e fragilidade existente no âmbito familiar, sendo a ausência paterna um fator frequente. Em função disso, o processo da gestação até o pós-parto é encarado pela mulher como algo difícil, e nessas circunstâncias, o puerpério é um momento que pode ser 17 ISBN 978-65-83998-57-6 - Vol. 1 - Ano 2025 - www.cientificadigital.org considerado mais sobrecarregado para a mãe, visto que ocorrem mudanças significativas na dinâmica familiar com a chegada de um bebê. A mulher se encontra vulnerável por não ter com quem contar, e nesse sentido procura auxílio nos serviços públicos oferecidos, sendo que grande parte dessas mães não conhecem seus direitos e quando são vítimas de violência obstétrica, não compreendem o que lhe ocorreu. A dor e desamparo experienciada por puérperas, provocam um conflito de sentimentos quanto à forma que foram atendidas no parto, período em que a mulher não consegue assimilar as variáveis causadoras de seu sofri- mento. O processo de dor durante a gestação e o parto, ocorre por se tratar de um fenômeno biológico, porém, a história do parto possui uma naturalização da dor que é resultado também de uma construção sociocultural, onde sentir dor é normal, e desta forma, a mulher é criticada e julgada por expressar seu sofrimento (BARBOZA; MOTA, 2016). As consequências da violência obstétrica em puérperas em vulnerabilidade social As implicações da desumanização no parto manifestam-se na vida de puérperas em vulnerabilidade social de forma velada, sendo comum nessa situação a falta de clareza sobre a origem do seu sofrimento (AGUIAR; D’OLI- VEIRA, 2011). A mulher sente-se envergonhada pela exposição do seu corpo e comentários inapropriados quanto a sua vida e o nascimento de seu filho (a). Sente-se invadida quanto às técnicas e procedimentos utilizados que lhe cau- sam dor e desconforto, sente-se humilhada ao receberem frases moralizantes expressas pelos (as) profissionais presentes na sala de parto, sente-se inibida do seu desejo e angustiada com a contenção do seu corpo, que em algumas circunstâncias são amarrados na maca. Por fim, a mulher sente-se abandonada (FERNANDES; SÃO BENTO; XAVIER, 2019). Esse cenário de abusos, onde procedimentos cruéis são utilizados sem necessidade, pode acarretar em óbitos. A moralização no momento do parto é um indício de não assistência conforme sua necessidade. Este fato ocorre não somente em mulheres com gravidez de risco, mas também por extensão do status social e econômico da mulher (LEAL, 2014). 18 A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde É importante notar que as consequências da violência obstétrica, apre- sentam-se na vida de puérperas de forma ativa, pois exercem profundos efeitos, como sofrimento que podem ser de curto ou de longo prazo. Após ser submetida a uma experiência de desumanização no parto, ao retornar a sua rotina, a mulher enfrenta seus dias com um vazio no processo de cicatrização, na tentativa de lidar com os conflitos internos e com falta de compreensão do que lhe ocorreu. Torna-se perceptível que a violência obstétrica produz na mulher uma experiência de dor como fator biológico e sofrimento intenso ao passar por um processo de desumanização decorrentede questões sociais, fatores existentes em um modelo de cuidado que seleciona o público que pode receber cuidados e uma assistência adequada. Neste contexto, a mulher em vulnerabilidade social não recebe o mesmo tratamento que uma mulher pertencente a uma classe social mais elevada, que em geral é branca e com escolaridade superior. Em con- sequência, vemos que a atenção dos (as) profissionais de saúde às mulheres em vulnerabilidade é reduzida se comparada à atenção prestada às mulheres de classes sociais prestigiadas em sociedade (BARBOZA; MOTA, 2016). Neste sentido, percebemos que de fato existe uma dor no momento do parto que é de natureza biológica e comum, porém a discussão deste estudo contempla também um sofrimento que transcende a dor biológica. O sofrimento produzido na mulher em vulnerabilidade é decorrente do que denominamos, segundo Sawaia (2001), de sofrimento ético-político, atrelado ao processo de exclusão social, sendo de ordem socioeconômica, étnico-racial, gênero e geracional. A mulher inserida neste contexto é vista como inferior àquelas que estão nos espaços de poder em sociedade. O conceito de sofrimento ético-político permite compreender as con- sequências da violência obstétrica como parte de uma questão social consti- tuída pela desigualdade. Com isso, a mulher em condição de vulnerabilidade social, em muitos casos, para além da dor natural e biológica do parto, carrega consigo um sofrimento que extrapola essa dor e se configura como parte de um processo de exclusão a que este sujeita em sua vida, sofrimento fruto de discriminação social. O sofrimento derivado da violência obstétrica é resultado de injustiças sociais em que exclui essas mulheres de serem assistidas, sendo negligenciadas e desamparadas. O sofrimento ético-político retrata questões sociais que se 19 ISBN 978-65-83998-57-6 - Vol. 1 - Ano 2025 - www.cientificadigital.org repetem historicamente, propiciando o sentimento de inferioridade e levando as pessoas nessas condições a acreditar que não possuem valor na sociedade, sendo colocadas no lugar de subalterno e inferior (SAWAIA, 2001). Tentativas de contornar essa prática, a curto e longo prazo No processo de reconhecer-se vítima, as puérperas enfrentam dificulda- des em encontrar os recursos necessários para legitimar seus direitos. A cons- cientização sobre a violação ocorrida desperta um sentimento de impotência que dificulta a busca dos recursos cabíveis de forma imediata. Deste modo, o não compartilhamento desse crime cometido intensifica o sofrimento da mulher, pois o período de silêncio pode durar anos, ou até mesmo toda uma vida, tornando-se assim, o desencadeador de processos como transtorno de ansiedade, estresse pós-traumático, depressão pós-parto em múltiplos níveis (SIPIÃO; VITAL, 2015). De acordo com Barboza e Mota (2016): Por ser uma violência silenciosa e institucionalizada, os maus tratos às mulheres durante o trabalho de parto expressos através da violência física e psicológica provocam importante sofrimento psíquico nas mulheres, práticas que são naturalizadas e reproduzidas nas rotinas dos hospitais de todo o país (BARBOZA; MOTA, 2016, p.03). A participação ativa dos (as) profissionais na assistência à gestação e puerpério é de suma importância na promoção de saúde e bem-estar da mulher, que deve receber cuidado integral ao corpo e ao emocional, na prática de humanização do parto. Desta forma, possibilita-se a vivência de momento de respeito. Contudo, na atuação do profissional de saúde, o processo de desamparo também é presente, pois estes não recebem apoio institucional que vise qualificar a humanização do trabalho prestado à comunidade. Este apoio poderia estar atrelado a rodas de conversas, supervisão de equipe, e acolhi- mento ao (à) profissional em situações de desequilíbrio emocional, resultantes da sobrecarga diária. Com a possibilidade de acolhida ao (à) profissional de saúde, o cenário de humanização do parto obteria potenciais para a efetivação desta ação na realidade dos hospitais públicos. De acordo com Barboza e Mota (2016): 20 A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde A humanização no parto é adotada como política oficial no Brasil no ano 2000, com o Programa de Humanização no Pré-natal e Nascimento (PHPN), que foi lançado com o objetivo de abranger centenas de instituições e garantir a equidade/cidadania de todas as gestantes, com a efetivação de um atendimento integral e completo, como todos os exames preconizados e garantia de vaga para o parto, e com estímulos financeiros para os municípios que aderissem ao programa (BARBOZA; MOTA, 2016, p.09). A importância da divulgação sobre o que define a violência obstétrica é uma das formas de prevenção que podem atenuar a incredulidade que o assunto ainda sofre. A divulgação deste fenômeno pode ser realizada através de meios de comunicação como, internet, redes sociais, TV, rádio, palestra em serviços públicos, panfletagem, etc. O (a) profissional como um cidadão, também poderá ter acesso a maio- res informações sobre a ocorrência deste fato, tendo implicações diretas em seu processo de trabalho, como a não omissão de informações sobre o que se trata a violência obstétrica. Não prestar informações à população também é uma forma de violência. A mulher em seu processo gestacional e de parturição deve ser a primeira a ser informada e esclarecida sobre os procedimentos em seu corpo (BARBOZA; MOTA, 2016). Apesar de os meios de denúncias disponíveis não apresentarem a eficá- cia necessária, as puérperas podem acessá-los como medida inicial. Os meios disponíveis, segundo Diniz et al. (2015), estão relacionados em: Divulgar a Central de Atendimento à Mulher – Disque 180 e capacitá-la para receber denúncias de violência obstétrica: casos de violação dos direitos das mulheres na assistência ao pré natal, parto, pós-parto e abortamento devem ser encaminhados também à ouvidoria do serviço e do SUS, e mesmo ao Ministério Público (DINIZ et al., 2015, p.06). Neste sentido, é necessário potencializar os meios de denúncias exis- tentes, com a implantação de fiscalização pública na área da saúde, que visem à garantia de direitos da mulher gestante ou puérpera na prevenção de novas vítimas. O combate ao crime de violência obstétrica permite que os órgãos responsáveis apresentem medidas urgentes quanto ao enfrentamento desta violação dos direitos reprodutivos. 21 ISBN 978-65-83998-57-6 - Vol. 1 - Ano 2025 - www.cientificadigital.org CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste artigo, pode-se problematizar o fato de que na violência obstétrica ocorre um domínio sobre o corpo da mulher. Este domínio caracteriza-se como uma relação de poder baseada na relação médico-paciente, tendo em vista o conhecimento teórico e técnico que os (as) profissionais de saúde possuem e a condição precária de acesso à informação destas pacientes. Assim, estas mulheres são colocadas em uma posição inferior ao não tomarem decisões sobre seu corpo. O ato de recriminar a mulher em sua fala ou comportamento é reflexo de uma sociedade machista que desvaloriza a mulher em seus diversos papéis sociais, legitimando ações violentas pautadas nas relações de gênero (COSTA, 2000). O sofrimento decorrente deste processo é caracterizado como sofrimento ético-político. Outro dado interessante apresentado nesta pesquisa diz respeito a uma grande parcela de mulheres que recebem intervenções dolorosas durante a assis- tência ao parto, caracterizando-as como população desfavorecida de cuidados, atenção e acolhimento, por sua condição socioeconômica. O preconceito em relação a este público é fruto de um processo de exclusão naturalizado social- mente. Isso, por sua vez, submete as mulheres em situação de vulnerabilidade a uma situação de inferioridade, humilhação e desumanização no momento do parto, sendo este processo atravessado pelo que denominamos de sofrimentoético-político (SAWAIA, 2001). Considerando o contexto de mulheres que não tiveram acesso à informa- ção, surgem questões como: O que é a violência obstétrica? Quais os direitos da mulher gestante? O que se caracteriza como desumanização no parto? A falta dessas informações contribui para que tais ações de violência continuem acon- tecendo na assistência à gestante, no parto e pós-parto. Ao ampliar tais infor- mações, torna-se possível a garantia dos direitos reprodutivos, permitindo que essas mulheres sejam cuidadas, acolhidas e principalmente respeitadas. Com essas ações de cuidado, a mulher sente-se empoderada, segura e amparada diante ao seu processo reprodutivo e adquire, então, a autonomia sobre sua vida e sobre as intervenções realizadas em seu corpo (SILVA; SILVA; LÉBEIS, 2014). Desta forma, as consequências da violência obstétrica na vida dessas mulheres, deixam marcas do medo, da vergonha e da culpa, em razão das violências físicas e psíquicas sofridas, decorrentes da desigualdade social que 22 A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde institui o merecimento em receber uma assistência adequada, reforçando uma já marcada por processos de exclusão. Falar sobre as consequências da violência obstétrica na vida de mulheres é falar sobre a diversidade de negligências que ocorrem no decorrer da vida, sejam por parte do Estado, da família ou da sociedade em um sentido mais amplo. Cabe, então, ampliar o conhecimento a respeito destas violências, e garantir a mulher o direito de ser cuidada, de ser acolhida, e principalmente, respeitada (NAGAHAMA; SANTIAGO, 2008), independente da situação social em que esta se encontra. Conforme Silva, Silva e Lébeis (2014), a humanização do parto é uma forma de devolver a mulher, a autonomia, o poder sobre seu corpo, o prazer com a chegada da criança e a confiança no processo e nos (as) profissionais. O sofrimento das mulheres no Brasil pode ser também consequência da violência obstétrica, o motivo que causa sofrimento em suas vidas nem sempre é acessível, visto que sofrer no parto é considerado algo “normal” em uma cultura de dor e sofrimento (BARBOZA; MOTA, 2016). Assim, é necessária a conscientização dos envolvidos no processo da gestação, parto e pós-parto, sendo os (as) profissionais, usuárias do serviço e acompanhantes, encarregados em proporcionar à mulher autonomia na partici- pação de seu próprio ciclo de vida (SILVA; SILVA; LÉBEIS, 2014). As formas de prevenção e promoção da saúde da mulher devem ser realizadas quanto saúde pública em espaços comunitários e serviços públicos. Medidas de cuidados como palestras, panfletagem, oficinas e grupos de apoio psicossocial devem ser adotados em conjunto ao pré-natal desde o início da gestação, visando estratégias de enfrentamento ao combate a violência obstétrica, garantindo fácil acesso à informação de qualidade, bem como os meios de denúncias na conscientização da mulher sobre seus direitos reprodutivos. Por fim, cabe salientar que em sua atuação, a psicologia contribui com ações de inclusão na garantia dos direitos humanos. Dispõe de atenção integral ao ser humano, oferecendo escuta qualificada, acolhimento, apoio e empatia, estando atenta ao discurso do sujeito em sofrimento, para que não ocorram negligências no decorrer deste processo. Em situações em que há violação de direitos, é fundamental o acompanhamento e apoio psicossocial, direcionados pelos órgãos responsáveis, a fim de legitimar o ocorrido com ações pertinentes à garantia de direitos, onde o (a) profissional pode orientar sobre os meios de denúncias, a fim de prevenir novos casos de violência obstétrica. 23 ISBN 978-65-83998-57-6 - Vol. 1 - Ano 2025 - www.cientificadigital.org REFERÊNCIAS AGUIAR, J. M.; D’OLIVEIRA, A. F. P. L. Violência institucional em maternidades públicas sob a ótica das usuárias. Interface - Comunicação, Saúde, Educação, v. 15, n. 36, p. 79–92, 2011. ASSIS, J. F. DE. Interseccionalidade, racismo institucional e direitos humanos: compreensões à violência obstétrica. Serviço Social & Sociedade, n. 133, p. 547–565, 2018. 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Práticas de atenção ao parto e os desafios para humanização do cuidado em dois hospitais vinculados ao Sistema Único de Saúde em município da Região Sul do Brasil. Cadernos de Saúde Pública, v. 24, n. 8, p. 1859–1868, 2008. ROTHER, E. T. Revisão sistemática X revisão narrativa. Acta Paulista de Enfermagem, v. 20, n. 2, p. 5–6, 2007. SAWAIA, B. As artimanhas da Exclusão. Análise psicossocial e ética da desigualdade social. 2a ed. Petrópolis - RJ: Editora Vozes, 2001. SENA, L. M.; TESSER, C. D. Violência obstétrica no Brasil e o ciberativismo de mulheres mães. Interface - Comunicação, Saúde, Educação, v. 21, n. 60, p. 209–220, 2016. SILVA, E. R. DA; SILVA, L. F. DA; LÉBEIS, M. A. O Parto Humanizado no contexto do sistema único de saúde (SUS): O Enfermeiro como mediador e incentivador dessaprática. Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa, p. 14, 2014. SIPIÃO, J. P.; VITAL, B. V. S. C. Violência Obstétrica: O silêncio das Inocentes. 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' 10.37885/250920078 02 VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA E O PAPEL DA GESTÃO HOSPITALAR NA PROMOÇÃO DE BOAS PRÁTICAS NO PARTO E NASCIMENTO: UMA REFLEXÃO TEÓRICA Julyanne Maciel Maia Gonzales da Costa Fernando Gomes Ceccon Elitiele Ortiz dos Santos Camila Goulart de Bitencourte Maria Antônia Dutra Fernandes Bianca do Canto Silva dos Santos Vitória dos Santos de Andrade Jéssica Olinda Carvalho e Silva Láisa Emannuele Pereira Knapp Lisie Alende Prates https://dx.doi.org/10.37885/250920078 26 A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde RESUMO Esta reflexão teórica teve como objetivo analisar o papel da gestão hospitalar na prevenção da violência obstétrica e na promoção de boas práticas no parto e nascimento. Apesar de muitas vezes invisibilizada e naturalizada, essa violência compromete a qualidade de vida pós-parto, a amamentação e a saúde mental das puérperas, gerando medo, angústia e solidão. Nesse cenário, a gestão hospitalar surge como elemento estratégico para a prevenção e enfrentamento do problema. Seus principais papéis incluem: estabelecer protocolos e diretri- zes baseados em evidências; promover capacitação e educação permanente em comunicação não violenta e parto humanizado; monitorar a qualidade do atendimento por indicadores e satisfação das pacientes; criar canais seguros de denúncia e acolhimento; e investir em infraestrutura e recursos humanos adequados. Destaca-se a Educação Permanente em Saúde como eixo central para qualificação contínua e transformação das práticas. Ao estimular uma cultura institucional de respeito, empatia e humanização, a gestão não apenas cumpre seu dever, mas favorece uma assistência obstétrica de qualidade, tornando o parto uma experiência de empoderamento e bem-estar para as mulheres. Embora apresente limitações por não abordar especificidades regio- nais nem a evolução das políticas, esta reflexão oferece subsídios relevantes para gestores e profissionais, reforçando a urgência de práticas humanizadas no cuidado materno. Palavras-chave: Violência obstétrica; gestão hospitalar; parto humanizado; saúde da mulher. 27 ISBN 978-65-83998-57-6 - Vol. 1 - Ano 2025 - www.cientificadigital.org INTRODUÇÃO A violência obstétrica constitui uma violação dos direitos das mulheres, com consequências significativas para sua saúde física e mental. Trata-se de um tipo de violência exercida por profissionais de saúde durante o atendimento à mulher na gestação, parto, pós-parto ou abortamento, manifestando-se por ações, omissões ou condutas que provoquem sofrimento físico, psicológico ou sexual, além da perda de autonomia e do poder de decisão sobre seu corpo e seu processo reprodutivo. Isso inclui desde a negação de direitos básicos até a medicalização excessiva do parto (Zanardo et al, 2017; Medeiros; Nascimento, 2022; Leite et al, 2024). Para orientar a assistência à saúde da mulher, o Brasil dispõe de políticas e diretrizes específicas, como a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PNAISM), que estabelece a promoção da saúde, a prevenção de agravos e a garantia de direitos reprodutivos. Além disso, as Diretrizes Nacionais de Atenção ao Parto e Nascimento e a Política Nacional de Humanização do Parto e Nascimento (PNH) fornecem um referencial para a prática de cuidados humanizados, centrados na mulher, respeitando sua autonomia, escolhas e protagonismo. Embora essas políticas ofereçam uma base sólida sobre como a assistência deveria ocorrer, ainda é necessário avançar na sua efetiva imple- mentação nos serviços de saúde, garantindo que os princípios previstos se traduzam em práticas concretas. Apesar de frequentemente ser invisibilizada e naturalizada, a violência obstétrica pode comprometer profundamente a vivência da maternidade. Estudo com 385 puérperas, por exemplo, verificou que a violência obstétrica afeta diretamente a qualidade de vida pós-parto, impactando na saúde men- tal, autoestima e sintomas de estresse pós-traumático (Kohan; Mena-Tudela; Youseflu, 2025). A pesquisa “Nascer no Brasil” evidenciou que mulheres que vivenciam situações de violência obstétrica podem encontrar menor apoio da equipe de saúde no estabelecimento da amamentação. É possível também que os efeitos negativos da violência obstétrica estejam associados a um risco aumentado de desenvolver depressão e outros transtornos mentais no pós- -parto, os quais também interferem na prática e continuidade do aleitamento materno (Leite et al, 2023). 28 A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde Estudo no Peru com 139 mulheres revelou que todas relataram violên- cia física e 97,8% violência psicológica durante o parto. Após essas situações, relataram sintomas como medo, angústia, ansiedade, frustração e sensação de solidão (Marcos-Garces et al, 2025). Nesse cenário, a gestão hospitalar desempenha um papel estratégico e inadiável na prevenção e no enfrentamento dessa problemática. Ao assumir seu papel na promoção de boas práticas, a gestão pode transformar o ambiente institucional em um espaço de acolhimento, respeito e cuidado humani- zado. A implementação de protocolos baseados em evidências, a capacitação contínua das equipes, o monitoramento da qualidade assistencial e o estímulo à cultura do respeito e da escuta são ações fundamentais para garantir o pro- tagonismo da mulher no processo de parto e nascimento (Souza et al, 2018). Diante disso, este trabalho teve como objetivo refletir sobre o papel da gestão hospitalar na prevenção da violência obstétrica e na promoção de boas práticas no parto e nascimento. MÉTODO Este estudo caracteriza-se como uma reflexão teórica, a qual consiste em uma abordagem metodológica que possibilita o exame crítico e sistematizado de conceitos, práticas e teorias existentes, buscando aprofundar a compreensão sobre determinado tema a partir da análise da produção científica, documentos oficiais e referências conceituais pertinentes (Minayo, 2014; Gil, 2019). De acordo com Lakatos e Marconi (2017), a reflexão teórica permite ao pesquisador construir um arcabouço conceitual consistente, sem a necessi- dade de coleta de dados empíricos, privilegiando a revisão crítica de literatura e a interpretação fundamentada. Esse método é especialmente indicado para trabalhos que buscam problematizar e ampliar o debate em áreas que deman- dam compreensão contextualizada, como as práticas de gestão hospitalar e os desafios na humanização do parto. Para a elaboração desta reflexão, foram selecionadas publicações cien- tíficas sobre violência obstétrica, gestão em saúde e políticas de humanização, com busca realizada na Biblioteca Virtual em Saúde em junho de 2025. A aná- lise e a discussão dos conteúdos seguiram os papeis e as ações atribuídas à 29 ISBN 978-65-83998-57-6 - Vol. 1 - Ano 2025 - www.cientificadigital.org gestão hospitalar para a promoção de ambientes seguros, respeitosos e éticos no cuidado obstétrico (Minayo, 2014). RESULTADOS E DISCUSSÃO A gestão hospitalar pode representar elemento estratégico na transfor- mação do cuidado obstétrico. Além de administrar recursos e infraestrutura, pode ser responsável por promover uma culturainstitucional que valorize o parto humanizado, o respeito aos direitos das mulheres e a segurança do paciente. Entre os principais papeis da gestão hospitalar na promoção de boas práticas e na erradicação da violência obstétrica, destacam-se: 1) o estabelecimento de protocolos e diretrizes; 2) a capacitação e educação permanente dos pro- fissionais; 3) o monitoramento e avaliação da qualidade do atendimento; 4) a criação de canais de denúncia e acolhimento; 5) o investimento em infraes- trutura e recursos; e 6) a promoção de um ambiente pautado no respeito e na humanização do cuidado. A implementação de protocolos e diretrizes claras e fundamentadas em evidências é fundamental. Tais documentos podem desencorajar intervenções desnecessárias, promover a fisiologia do parto e assegurar o consentimento livre e informado, conforme recomendam a Organização Mundial da Saúde e as Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal (Brasil, 2017; Who, 2018; Menezes et al, 2020). A pesquisa sinaliza que a utilização de protocolos assistenciais padronizados incentiva a realização de intervenções eficazes e desencoraja aquelas que se mostram ineficazes ou potencialmente prejudiciais (Mehndiratta et al, 2017). A gestão deve investir também em ações de capacitação e educação permanente dos profissionais. A Educação Permanente em Saúde (EPS) é um conceito dinâmico e transformador, essencial para a qualificação contí- nua das práticas profissionais no Sistema Único de Saúde (SUS) e em outros contextos de cuidado. Diferente da educação continuada, que se concentra na atualização pontual de conhecimentos e técnicas por meio de cursos e treina- mentos, a EPS se configura como um processo de aprendizagem-trabalho que ocorre no cotidiano das instituições e dos serviços de saúde. Ela se pauta na problematização do processo de trabalho, na reflexão crítica sobre as práticas 30 A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde e na construção coletiva de soluções para os desafios enfrentados no dia a dia (Brasil, 2004; Ceccim, 2005). A EPS vai além da qualificação individual; ela busca a reorganização dos processos de trabalho e a integração entre ensino, gestão, atenção e controle social. Sua finalidade é promover a melhoria da qualidade dos serviços de saúde, a humanização do cuidado e o fortalecimento do SUS, garantindo que as práticas estejam sempre alinhadas às necessidades da população e aos princípios da integralidade, equidade e universalidade (Ceccim; Feuerwerker, 2004; Gigante; Campos, 2016). Em síntese, a EPS é uma ferramenta estratégica para a mudança nas práticas de saúde, impulsionando a inovação e a capacidade de resposta dos sistemas de saúde aos desafios contemporâneos. Nas ações de formação profissional, é importante abordar sobre comu- nicação não violenta, direitos das gestantes, técnicas de manejo da dor e parto humanizado. Ainda deve ser reforçada a importância de escuta ativa e de empatia no atendimento às pacientes, além de ações que promovam a autonomia e o protagonismo das mulheres (Bohren et al, 2015; Menezes et al, 2020; Pinto et al, 2021; Adriani et al, 2023; Azevedo et al, 2023; Leite et al, 2024; Yalley et al, 2024). A revisão aponta que a falta de capacitação e de educação permanente dos profissionais está associada à realização de técnicas inadequadas, configu- rando-se como um obstáculo à implementação das boas práticas de atenção ao parto e nascimento (Oliveira et al, 2020). Portanto, entende-se que a importância de investimento institucional para a realização destas ações, pois elas podem contribuir para a sensibilização da equipe no reconhecimento e na prevenção da violência obstétrica, configurando como aspecto imprescindível no contexto da formação de profissionais (Menezes et al, 2020; Cardoso et al, 2023; Leite et al, 2024; Mesquita et al, 2024). Outro aspecto relevante da atuação da gestão hospitalar diz respeito ao monitoramento e à avaliação da qualidade do atendimento, considerando que a disponibilidade e o uso adequado das informações em saúde são essen- ciais para subsidiar a tomada de decisões. (Nicolotti; Lacerda, 2022). Para isso, podem ser utilizadas estratégias como a criação de instrumentos para verificar a satisfação das pacientes e seus acompanhantes, a análise de indicadores rela- cionados aos desfechos obstétricos (como taxas de cesariana, parto, episiotomia, amamentação na primeira hora de vida) e a realização de auditorias internas. 31 ISBN 978-65-83998-57-6 - Vol. 1 - Ano 2025 - www.cientificadigital.org Estudo desenvolvido com 78 puérperas em unidade obstétrica demonstrou a necessidade de considerar a satisfação das usuárias, visando a melhoria da assistência. Os autores consideram que a avaliação da satisfação representa um indicador de qualidade da assistência ao nascimento (Queiroz et al, 2007). Portanto, infere-se que o monitoramento e a avaliação da qualidade do atendi- mento podem auxiliar na identificação de fragilidades e na implementação de ações direcionadas para a melhoria contínua dos serviços. Ainda se considera que o monitoramento e a avaliação da qualidade do atendimento podem se dar por meio da criação de canais de denúncia e aco- lhimento. É essencial que os hospitais implementem canais de denúncia que sejam seguros e de fácil acesso, permitindo que as mulheres relatem casos de violência obstétrica (Leite et al, 2024). Além disso, deve-se oferecer um serviço de acolhimento e suporte psicológico às mulheres que sofreram violência obs- tétrica, garantindo que suas queixas sejam ouvidas, acolhidas e investigadas com transparência, imparcialidade e responsabilidade (Aguiar, 2010). Tese sobre a violência institucional em maternidades públicas destaca a dificuldade que as mulheres enfrentam para denunciar casos de violência obstétrica e ressalta a importância da criação de espaços de ouvidoria e acolhimento para essas situações (Aguiar, 2010). Na mesma direção, revisão epidemiológica reforça que a denúncia é uma ferramenta essencial para que as mulheres possam expor situações de violência obstétrica ocorridas em qual- quer etapa do ciclo reprodutivo. Nesse sentido, é fundamental que os serviços de saúde estimulem não apenas as mulheres, mas também seus familiares/ acompanhantes e profissionais da área, a relatarem essas situações, garantindo a existência de canais de comunicação apropriados, seguros e acessíveis para esse propósito (Leite et al, 2024). O investimento em infraestrutura e recursos também representa uma atribuição da gestão hospitalar, sendo essencial para a prevenção da violência obstétrica e a promoção de boas práticas no parto e nascimento. A oferta de uma infraestrutura adequada, com salas de parto que assegurem conforto e privacidade, aliada à presença de recursos humanos em número suficiente e com qualificação adequada, são fatores que favorecem a adoção de boas práticas e contribuem para a redução da violência. 32 A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde A pesquisa “Nascer no Brasil” evidenciou que muitas instituições hospi- talares apresentavam escassez de equipamentos e ausência de profissionais especializados (Bittencourt et al., 2014). Nessa perspectiva, estudos apontam que deficiências na infraestrutura hospitalar, a falta de leitos e a carência de profissionais de saúde contribuem para a ocorrência da violência obstétrica (Menezes et al., 2020; Leite et al., 2024). Corroborando com esse panorama, pesquisa de abordagem qualitativa realizada na região Sul do Brasil com 23 médicos destacou a necessidade de melhorias estruturais nas instituições como estratégia para prevenir práticas de violência obstétrica (Sens; Stamm, 2019). Logo, considera-se que todos os aspectos mencionados contribuem para a promoção de um ambiente pautado no respeito e na humanizaçãodo cuidado. Para isso, é essencial que a cultura organizacional hospitalar seja fundamentada em valores como respeito, empatia e acolhimento. Essa postura deve se refletir tanto nas relações entre os profissionais da equipe quanto no atendimento prestado às pacientes e seus familiares, promovendo um ambiente seguro, acolhedor e humanizado (Brasil, 2013; Brasil, 2014). Estudo destaca que a humanização exige uma postura profundamente humana baseada em dignidade, respeito e acolhimento por parte dos profis- sionais. Os autores destacam que os valores e princípios éticos devem permear todas as atividades institucionais para promover um cuidado solidário e humano (Backes; Lunardi; Lunardi Filho, 2006). Sob a mesma perspectiva, pesquisa aponta que a cultura organizacional pode favorecer a implementação de ações voltadas à humanização (Calegari; Massarollo; Santos, 2015). Diante do exposto, a análise dos estudos permite ponderar que a gestão hospitalar se destaca como um elemento fundamental e estratégico para a transformação do cuidado obstétrico, atuando não apenas na administração de recursos e infraestrutura, mas também na promoção de uma cultura orga- nizacional pautada em valores essenciais como respeito, empatia e humaniza- ção. A adoção de protocolos claros, a capacitação contínua dos profissionais, o monitoramento rigoroso da qualidade do atendimento, a criação de canais seguros para denúncias e o investimento em infraestrutura adequada são ações essenciais para prevenir a violência obstétrica e fomentar práticas respeitosas e humanizadas. Dessa maneira, o fortalecimento dessa cultura institucional, aliado à garantia de condições adequadas para o desempenho dos profissionais, resulta 33 ISBN 978-65-83998-57-6 - Vol. 1 - Ano 2025 - www.cientificadigital.org em uma significativa melhoria na experiência das mulheres e seus familiares durante o parto, constituindo um compromisso ético e social indispensável para a qualidade da assistência obstétrica. CONSIDERAÇÕES FINAIS A violência obstétrica é uma violação grave dos direitos das mulheres que precisa ser combatida. Nesse cenário, a gestão hospitalar desempenha um papel estratégico na sua erradicação, assumindo uma responsabilidade ética, legal e social. Cabe às instituições de saúde atuar de maneira proativa, implementando políticas efetivas, promovendo a capacitação contínua das equipes, monitorando a qualidade do atendimento e fortalecendo uma cultura institucional pautada no respeito, na dignidade e na humanização do cuidado. Isso inclui a adoção de protocolos claros, a criação de canais eficazes para denúncias e a garantia de um ambiente acolhedor e seguro para as mulheres. Ao priorizar o cuidado respeitoso à vida, os hospitais não apenas cumprem seu dever institucional, mas também contribuem para uma sociedade mais justa e para que a vivência do parto se transforme em um momento de empoderamento, bem-estar e satisfação para as mulheres. Esta reflexão teórica pode ser considerada limitada por ter sido produzida a partir de estudos secundários, que não contemplam todas as particularidades regionais e contextuais das instituições hospitalares, especialmente em um país com desigualdades territoriais marcantes como o Brasil. Outra limitação refere-se à constante evolução das práticas de saúde e das políticas públicas, o que pode tornar algumas referências bibliográficas parcialmente desatualizadas diante das mudanças recentes no cenário da atenção obstétrica. Por outro lado, esta reflexão aborda fatores atrelados aos papeis da gestão hospitalar para a promoção do parto humanizado e a prevenção da violência obstétrica. Destaca a importância de uma cultura organizacional centrada em valores como respeito, empatia e acolhimento, ampliando a compreensão sobre o papel estratégico da gestão para além da administração de recursos. Ademais, ressalta medidas concretas, como a implementação de protocolos, capacitação profissional e canais de denúncia, que podem subsidiar gestores e formuladores de políticas na tomada de decisões para a melhoria da assistência obstétrica. 34 A Transversalidade na Assistência à Saúde da Mulher no Brasil: um olhar para as condições sociais, culturais, de gênero e de saúde Assim, contribui para o avanço do debate acadêmico e para a sensibilização de profissionais e gestores quanto à urgência de práticas humanizadas no cuidado às mulheres durante o parto. REFERÊNCIAS Adriani, P. A. et al. Construction of educational technology on non-violent communication between health professionals: an experience report. Revista Brasileira de Enfermagem, v. 76, p. e20220414, 2023. Aguiar, J. M. Violência institucional em maternidades públicas: hostilidade ao invés de acolhimento como uma questão de gênero. 2010. 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