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JANETE ALVES GOMES PROJETO DE INTERVENÇÃO 2024 PROJETO DE INTERVENÇÃO Janete Alves Gomes PRESIDENTE Frei Thiago Alexandre Hayakawa, OFM DIRETOR GERAL Jorge Apóstolos Siarcos REITOR Frei Gilberto Gonçalves Garcia, OFM VICE-REITOR Frei Thiago Alexandre Hayakawa, OFM PRÓ-REITOR DE ADMINISTRAÇÃO E PLANEJAMENTO Adriel de Moura Cabral PRÓ-REITOR DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO Dilnei Giseli Lorenzi COORDENADOR DO NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA - NEAD Franklin Portela Correia CENTRO DE INOVAÇÃO E SOLUÇÕES EDUCACIONAIS - CISE Franklin Portela Correia CURADORIA TÉCNICA Aracelia Maria Sagrado Lovato DESIGNER INSTRUCIONAL Luiza Cunha Canto Correia de Morais Benedito José de Carvalho REVISÃO ORTOGRÁFICA Aline Fernanda Bellozo PROJETO GRÁFICO Centro de Inovação e Soluções Educacionais - CISE CAPA Centro de Inovação e Soluções Educacionais - CISE DIAGRAMADORES Andréa Ercília Calegari © 2024 Universidade São Francisco Avenida São Francisco de Assis, 218 CEP 12916-900 – Bragança Paulista/SP CASA NOSSA SENHORA DA PAZ – AÇÃO SOCIAL FRANCISCANA, PROVÍNCIA FRANCISCANA DA IMACULADA CONCEIÇÃO DO BRASIL – ORDEM DOS FRADES MENORES A AUTORA JANETE ALVES GOMES Graduada em serviço social pela Faculdade Paulista de Serviço social de São Caetano do Sul (1994) e Mestre em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC - SP (2008). É assistente social concursada da Prefeitura de Santo André desde 2000 até a presente data. Coordenou os seguintes serviços: Casa Abrigo Regional do ABC para mulheres ameaçadas de morte; Gerência de Desenvolvimento Comunitário; Centro de Referência da Mulher em Situação de Violência. Atuou na As- sessoria dos Direitos da Mulher e em Centros de Referência de Assistência Social – CRAS. No momento atua no Centro de Referência Especializado de Assistência Social – CREAS. Integrou o Conselho Municipal de Direitos da Mulher e o Conselho Municipal de Assistência Social. Foi colaboradora do Consórcio Intermunicipal do ABC - Grupo de Trabalho Gênero e Raça. Integrou a Comissão de Instrução da Comissão de Ética - do Conselho Regional de Serviço Social. Foi professora do curso de graduação em serviço social da Faculdade Tijucussu/ UNIESP (2008 a 2010); professora do curso de Gradua- ção em Serviço Social e da Pós Graduação em Psicopedagogia da Faculdade de Mauá – FAMA/UNIESP (2009 a 2014). Professora do curso de Serviço Social da Universida- de Camilo Castelo Branco – Unicastelo/Universidade Brasil (2014 a 2017); Professora do curso de serviço social da faculdade Anhanguera/ KROTON, em São Bernardo do Campo (2014- 2018), onde também foi professora do curso de pós-graduação na Polí- tica de Assistência Social e demais Políticas Públicas. Assistente Social pela Fundação do ABC com atuação nos Hospitais de Campanha de Santo André - abril a outubro/2020. Professora em Cursos Livres para Assistentes Sociais sobre Relatórios e Pareceres Sociais, 2020 e 2021; Intervenções com Famílias nas Situações de Violência contra Crianças e Adolescentes, 2021; Perícia Social e Assistência Técnica Social, 2021; Assistente Técnica Social Judicial, 2021. SUMÁRIO UNIDADE 01: O SERVIÇO SOCIAL NA CONTEMPORANEIDADE ....................6 1. O debate sobre o objeto do Serviço Social: reflexão sobre a atuação do Serviço Social frente à questão social .................................................................................6 2. Competências e atribuições do assistente social: o fazer na contemporaneidade ................................................................................................................................14 3. Espaços sócio-ocupacionais e dimensões políticas da prática do assistente social ................................................................................................................................19 UNIDADE 02: FORMAÇÃO PROFISSIONAL EM SERVIÇO SOCIAL .................28 1. O projeto de trabalho profissional e a elaboração do projeto de intervenção .....29 2. A dimensão técnico-operativa nos processos de trabalho dos assistentes sociais ................................................................................................................................38 3. Sistematização para o processo interventivo e investigativo ..............................42 UNIDADE 03: EXERCÍCIO PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL E O ESTÁGIO SUPERVISIONADO ................................................................................56 1. O estágio supervisionado na formação profissional do assistente social ...........57 2. A legalidade e a legitimidade da atividade do estágio supervisionado ................59 3. A supervisão em serviço social e a sua metodologia ..........................................68 UNIDADE 04: O PROJETO DE INTERVENÇÃO COMO INSTRUMENTAL DO SERVIÇO SOCIAL ....................................................................................................78 1. O grupo como instrumento de intervenção profissional do serviço social .........78 2. O serviço social e o trabalho com grupos: o histórico e a intervenção do assistente social no trabalho com grupos ...............................................................................83 3. Trabalho com grupos: dinâmicas, sociodrama, organização de fóruns, conferências e oficinas ............................................................................................86 6 1 O Serviço Social na contemporaneidade UNIDADE 1 O SERVIÇO SOCIAL NA CONTEMPORANEIDADE INTRODUÇÃO A presente unidade busca contextualizar o surgimento da questão social no bojo do desenvolvimento do capitalismo e a atuação do Serviço Social, especialmente na contemporaneidade. A questão social é o objeto de intervenção do Serviço Social, profissão que surge como estratégia ao seu enfrentamento para assegurar a reprodução do capital. O primeiro tópico de ensino tratará do Serviço Social na contemporaneidade e a atuação profissional frente à questão social. Além disso, abordará o processo de desenvolvimento do capitalismo e a afirmação da sociedade burguesa, bem como a importância da resistência da classe trabalhadora na superação das desigualdades sociais. Neste cenário, analisaremos as requisições conservadoras da profissão. O segundo tópico debaterá acerca do fazer profissional e as competências e as atribuições do assistente social, situando a importância da aproximação da profissão à tradição marxista como possibilidade de apreensão da realidade social, a construção do Projeto Ético Político da Profissão, a Lei de Regulamentação profissional e as Diretrizes Curriculares. O terceiro tópico estudará a dimensão política da prática do assistente social e de seu fazer profissional, além de apresentar os espaços sócio-ocupacionais e suas possibilidades para desenvolvimento das competências e das atribuições privativas. 1. O DEBATE SOBRE O OBJETO DO SERVIÇO SOCIAL: REFLEXÃO SOBRE A ATUAÇÃO DO SERVIÇO SOCIAL FRENTE À QUESTÃO SOCIAL Esta seção tratará do surgimento e do desenvolvimento do capitalismo, cujo modo de produção demandou a ampliação do trabalho, bem como sua degradação na contemporaneidade. A pauperização e a precarização da classe trabalhadora pela necessidade de acumulação do capital promoveram o surgimento da chamada questão social, para a qual as políticas sociais emergiram como resposta. Nesse contexto histórico nasceu o Serviço Social, inicialmente como forma de contenção da classe trabalhadora. O amadurecimento da profissão superou as requisições conservadoras ao construir seu projeto profissional na direção oposta do projeto burguês do capital. 7 1 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Projeto de intervenção 1.1. DESENVOLVIMENTO DO CAPITALISMO E A QUESTÃO SOCIAL Para realizar o debate sobre a questão social, faz-se necessário compreender o processo de desenvolvimento do capitalismo e a solidificação da sociedade burguesa, assim como o da necessária luta travada pelaPor quê? ` Para quê? ` Para quem? ` Como? ` Com que meios? ` Em que tempo? Cabe aqui esclarecermos a distinção entre projeto e projeto de intervenção. Para isso, recorreremos às autoras Ahlert et al. (2018, p. 12): “nem todo projeto é um projeto de intervenção, e nem toda intervenção é um projeto, já que a formulação de um projeto nem sempre é criado com o fim de intervir numa situação, ou em uma instituição”, a exemplo dos projetos de pesquisa. Para as autoras, a formulação do projeto está além dos espaços sócio-ocupacionais, pois vincula-se a “inquietações pessoais” sem, por exemplo, implicar na melhoria de condições dos usuários. O projeto, por sua parte, se apresenta como um conjunto de ações des- critas mediante uma proposta operativa, que demanda planejamento, com prazos e recursos previamente determinados. É uma proposta que busca responder a uma necessidade específica através da implementação de uma série de estratégias. Se trata de “um instrumento técnico-administra- tivo de execução de empreendimentos específicos, direcionados para as 35 2 Projeto de intervenção U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co mais variadas atividades interventivas e de pesquisa no espaço público e no espaço privado” (TEIXEIRA, 2009, p. 05). O projeto não responde necessariamente a uma proposta de intervenção, ele pode responder sim- plesmente a um questionamento que carrega produção científica, sem ne- cessariamente intervir na realidade. Por sua parte, o projeto de intervenção nasce de uma proposta de ação interven- tiva que busca a transformação de um bem ou serviço, depois de ter identifica- do problemas, vicissitudes, necessidades dentro de um espaço institucional, me- diante o qual se planeja soluções e estra- tégias que contribuam no desenvolvimen- to institucional. Se trata do planejamento de um conjunto de ações coordenadas, que visem, mediante a intervenção, en- contrar formas para melhorar o atendi- mento de demandas específicas, a fim de contribuir no trabalho desenvolvido pela instituição. (AHLERT et al., 2018, p. 11-12) Assim, realizado o esclarecimento pertinente, pontuamos que esta seção visa ao en- foque no projeto de intervenção. Seu objetivo é qualificar os serviços prestados a fim de encontrar soluções para situações postas como desafios a serem respondidos, que “melhorem o atendimento, a receptividade, a qualidade, entre outros aspectos que te- nham como direção as necessidades sociais e a garantia de direitos dos usuários” (AHLERT et al., 2018, p.12) Para que o assistente social possa ter o projeto de trabalho como estratégia de reco- nhecimento profissional, o projeto deve ser escrito, não pode estar apenas na cabeça do profissional, a sua materialização é fundamental. É necessário que ele possa ser acessado, acompanhado e entendido. Assim, a sua formulação deve conter alguns ele- mentos fundamentais [...]. (COUTO, 2009, p. 7) Quadro 01. Formulação do projeto de trabalho Figura 05. Ponto de interrogação – conceito de pesquisa Fo nt e: 1 23 R F. ELEMENTOS CARACTERÍSTICAS Identificação, delimitação e justificativa Identificação das expressões da questão social que serão objeto da intervenção profissional. Nessa etapa de identificação, o assistente social deve fundamentar a necessidade da execução do projeto e priorizar as principais demandas para responder às necessidades relativas ao público-alvo. Objetivos O que se pretende realizar e quais são os objetivos a serem alcançados, que devem ser realizáveis. Essa definição dá a clareza necessária para compreender a proposta da intervenção profissional. 36 Formação Profissional em Serviço Social 2 ELEMENTOS CARACTERÍSTICAS Metas É preciso quantificar e qualificar o trabalho proposto. Essas metas precisam estar relacionadas com os objetivos. É obrigatória a apresentação de indicadores que vão medir a efetividade do trabalho. A intervenção presume uma transformação sobre a realidade posta como desafio. Sua avaliação é necessária para que se apresentem os resultados a serem alcançados e como se pretende chegar a eles. Também deve ser informado como o trabalho será monitorado, para que sejam avaliados os resultados. Recursos O projeto precisa explicitar os recursos necessários para a execução. Devem ser apresentados os recursos financeiros a serem gastos e é necessário formular propostas orçamentárias e de desembolso financeiro, factíveis para a tender às demandas dos usuários, sujeitos do projeto. Além disso, devem ser apresentados os recursos humanos e materiais. Controle social É a previsão do controle e a avaliação e a descrição do que será avaliado, de que forma, em que tempo, com quais instrumentos e quem realizará a avaliação. Ainda, como o conhecimento produzido na intervenção realizada será potencializado. Fonte: adaptado de Couto (2009, p. 7). O projeto de intervenção também deve apresentar: ` Metodologia do trabalho. A metodologia refere-se ao detalhamento pormenorizados das ações a serem realiza- das e a periodicidade delas, que precisam ser registradas em um cronograma, onde deve conter as atividades, as datas de realização, o profissional responsável pela ativi- dade, os materiais utilizados etc. É importante também haver um cronograma físico-financeiro dos recursos a serem levantados, bem como um cronograma com apresentação de recursos humanos e materiais. Por fim, o projeto de intervenção deve apresentar: ` Cronograma. ` Referências bibliográficas: as obras utilizadas na elaboração. ` Anexos: documentos consultados (opcionais). ` Apêndices: documentos produzidos pelo responsável pela elaboração do projeto (opcionais). 37 2 Projeto de intervenção U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Há várias demandas importantes em diversas áreas que justificam a elaboração de projetos interventivos: relativos à moradia, à saúde, assistência social, educação, no enfrentamento das violações de direitos e violências contra crianças, adolescentes, mu- lheres, idosos, pessoas com deficiência, entre outras categorias. É importante ouvir os interesses e conhecer as necessidades da população e não ela- borar projetos do ponto de vista apenas do que o profissional avalia ser importante, sem realizar a escuta os usuários. Para isso, é fundamental o estudo social e a apreensão crítica da realidade social, dos seus determinantes, do que se apresenta como proble- ma social e demandas coletivas. Figura 06. Gerenciamento de projetos Fonte: 123RF. É necessário que o assistente social reúna habilidades e competências profissionais exigidas pelo projeto ético-político construído pelo conjunto da categoria. Há desafios pos- tos no cotidiano profissional dimensionados pelas contradições da relação capital e trabalho em uma sociedade capitalista, em que a profissão exige que o assistente social atue nas necessidades sociais geradas pela dominação e pela exploração da classe trabalhadora. Todos os assistentes sociais, quando da ocupação de um espaço profissio- nal, estão desafiados a estabelecer projetos de trabalho que possam lhes assegurar o reconhecimento do valor social de seu trabalho e que servirão de instrumento potente na busca de afirmação do projeto ético político pro- fissional. (COUTO, 2009, p. 12) 38 Formação Profissional em Serviço Social 2 2. A DIMENSÃO TÉCNICO-OPERATIVA NOS PROCESSOS DE TRABALHO DOS ASSISTENTES SOCIAIS Nesta seção, abordaremos as dimensões interventivas da profissão do assistente so- cial. Albiero e Alves (2018, p. 299 apud IAMAMOTO, 2000, p. 4), ao analisarem os desafios postos ao serviço social, apontam três dimensões que devem ser de grande importância na atuação do profissional assistente social: ` Ético-política. ` Teórico-metodológica. ` Técnico-operativa. Será enfatizado que a dimensão técnico-operativa é indissociável das demais dimensões da profissão, que são a teórico-metodológica e a ético-política. Elas interagem entre si en- quanto mediação da práticaprofissional (MARTINELLI, 2005 apud FÁVERO, 2005, p. 20). 2.1 A DIMENSÃO ÉTICO-POLÍTICA A dimensão ético-política diz respeito ao compromisso do assistente social com os objetivos da profissão e com a defesa de direitos dos usuários do serviço social. An- cora-se no pensamento crítico profissional balizado pela teoria social crítica – marxista. Essa perspectiva fundamenta os valores éticos e políticos da classe trabalhadora. No Código de Ética de 1993 estão ex- pressos os valores éticos reconhecidos como fundamentais para a construção de uma sociedade justa e igualitária, como: Figura 07. Valores Fo nt e: 1 23 R F. ` Defesa dos direitos humanos. ` Liberdade. ` Cidadania. ` Democracia. ` Equidade. ` Justiça social. ` Respeito à diversidade. ` Pluralismo. 39 2 Projeto de intervenção U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Além disso, o documento afirma a “opção por um projeto profissional vinculado ao pro- cesso de construção de uma nova ordem societária, sem dominação, exploração de classe, etnia e gênero” e traz como pressuposto a recusa do preconceito e das formas de discriminação (CFESS, 2012b, p. 24). É ao projeto social aí implicado que se conecta o projeto profissional do Serviço Social - e cabe pensar a ética como pressuposto teórico-político que remete ao enfrentamento das contradições postas à profissão, a partir de uma visão crítica, e fundamentada teoricamente, das derivações ético-políticas do agir profissional. 2.2 A DIMENSÃO TEÓRICO METODOLÓGICA A dimensão teórico-metodológica também se apoia na teoria social crítica de Marx. Somente uma teoria social crítica é capaz de desvelar as bases materiais de produção e reprodução do capitalismo responsáveis pela dominação e pela exploração de uma classe – a trabalhadora –, que geraram historicamente desigualdades sociais, produzi- das pelas suas diversas expressões da questão social. 2.3 A DIMENSÃO TÉCNICO-OPERATIVA E SUA INDISSOCIABILIDADE COM AS DIMENSÕES ÉTICO-POLÍTICA E TEÓRICO-METODOLÓGICA No ano de 2020, o Conselho Federal de Serviço Social (CFESS) publicou a sistema- tização e a análise de registros da opinião técnica emitida pelo assistente social em relatórios, laudos e pareceres, objeto de de- núncias éticas presentes em recursos disci- plinares julgados pelo referido Conselho. O relatório aponta o fato de os debates em torno do registro em serviço social se- rem “assunto ainda não suficientemente adensados, persistindo no meio profissio- nal imprecisões e falta de discernimento em relação ao uso, conteúdo e finalidade do re- gistro, incluindo sua própria denominação” (CFESS, 2020, p. 22). Algumas indagações sobre a questão são levantadas no relatório: A sistematização é uma necessidade presente no cotidiano do trabalho realizado pelo assistente social, e o registro é um instrumento de defesa dos direitos. Contudo, há um desafio presente no interior da categoria sobre as dificuldades apresentadas em torno de sua operacionalização. Sobre esse aspecto, o relatório CFESS traz a contribuição da citação da autora Soares (2013 apud CFESS, 2002, p. 22): Figura 08. Texto do estudo de caso Fo nt e: 1 23 R F. ` O que são registros em serviço social? 40 Formação Profissional em Serviço Social 2 Afirma Soares que “um dos desafios hoje para o Serviço Social é concretizar o Projeto Ético Político da profissão no dia a dia do serviço, por isso é impor- tante a reflexão sobre o registro em Serviço Social, pois o ‘registro escrito é uma objetivação do trabalho profissional e como tal é uma expressão do exercício profissional’. A dimensão técnico-operativa refere-se ao fazer profissional por meio do domínio e da apli- cação dos instrumentos e das técnicas do serviço social, utilizados para se chegar a uma finalidade. Além disso, diz respeito à intervenção profissional e à sua instrumentalidade. A autora Yolanda Guerra chama a atenção para a importância do entendimento de que a intervenção profissional não se reduz à dimensão técnico-instrumental, sob o risco de limitar as demandas profissionais apenas às exigências do mercado, pois tratam-se de ações instrumentais manipulatórias. (GUERRA, 2000, p. 10-11). Além disso, a in- serção da profissão na ordem capitalista permite compreender que a instrumentalidade consolida a profissão e articula as dimensões instrumental, técnica, teórica e política (GUERRA, 2016, p. 50-51). Instrumentos dizem respeito ao arsenal necessário para o fazer profissional. Alguns deles são apresentados a seguir. Quadro 02. Instrumentos operativos do serviço social ` Quais são as nomenclaturas para documentos e registros convencionadas pelos órgãos de representação da profissão? ` Quais são os elementos necessários para identificá-los? ` No documento ainda são apresentadas outras indagações, por “fugirem às possibilidades/ limites” do trabalho: ` A qualidade do registro sempre reflete a qualidade do trabalho profissional? ` Pode existir uma dificuldade especial para traduzir na escrita particularidades do t rabalho realizado? ` O trabalho efetivado poderia, em algumas situações, ser mais qualificado do que seu registro? (CFESS, 2020, p. 22). INSTRUMENTO CARACTERÍSTICAS Acolhimento social Escuta qualificada visando estabelecer um diálogo, identificar problemas e construir vínculos entre o usuário e o profissional. Atendimento social Escuta qualificada que envolve um conjunto de ações voltadas ao atendimento de famílias e de indivíduos, visando ao acesso aos direitos sociais, políticos e civis dos usuários nas diferentes políticas setoriais. 41 2 Projeto de intervenção U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Fonte: elaborado pela autora. INSTRUMENTO CARACTERÍSTICAS Acompanhamento social Escuta qualificada com o objetivo de apreender a situação-problema apresentada pelo usuário, a fim de proceder nas orientações, nos encaminhamentos, nas intervenções e no planejamento para acompanhamento social, caso seja necessário. Entrevista Escuta qualificada para o conhecimento e a intervenção na realidade dos usuários. É necessário o planejamento e a definição da melhor técnica de entrevista, de acordo com a finalidade a ser alcançada. Visita domiciliar Atendimento no domicílio. Requer planejamento (finalidade para a realização da entrevista). Pode ser visita familiar ou institucional. Grupo Reunião de pessoas em torno de um objetivo comum e com temas relativos ao cotidiano e às necessidades delas. Oficina Reunião de pessoas na qual os usuários participam ativamente, não apenas recebem informações ou apresentam produto. Reunião Encontro de duas ou mais pessoas com o propósito de discutir temas definidos previamente, inerente aos interesses dos participantes. Assembleia Reunião com um número grande de usuários com o objetivo de definir, encaminhar e votar em determinada proposta de interesse coletivo. No processo de trabalho profissional, o assistente social pode lançar mão de vários instrumentos para viabilizar processos reflexivos, acessos, direitos e conquistas que possibilitem cidadania para a popu- lação usuária. Cabe ao profissional definir os ins- trumentos necessários para cada demanda, como resposta e alcance das finalidades. Os instrumentos elencados também estão na dimen- são do respeito, da ética e do direito ao processo in- formativo sobre sua situação e sobre os conflitos ins- talados na vida dos sujeitos. Figura 09. Grande grupo de pessoas formando um círculo Fo nt e: 1 23 R F. 42 Formação Profissional em Serviço Social 2 PARA REFLETIR 3. SISTEMATIZAÇÃO PARA O PROCESSO INTERVENTIVO E INVESTIGATIVO Além da dimensão interventiva, também é inerente ao serviço social a investigativa, que configura a pesquisa em serviço social, pois é necessário conhecer para intervir. Ambas as dimensões estão interligadas, pois tratam-se da pesquisa sobre a realidade social para nela intervir. De acordo com Iamamoto (2009, p. 8), a pesquisa é um processo sistemáticode ações que investiga, interpreta e desvenda um objeto. A sistematização do trabalho realizado pelos assistentes sociais é necessária e inerente à pesquisa. Para o Serviço Social, o processo de sistematização da prática permite: identificar e problematizar as condições do exercício profissional, os fenôme- nos existentes, selecioná-los e classificá-los, identificar suas características, as dificuldades, lacunas, a necessidade de aprofundamento teórico para me- lhor compreendê-los e a da adoção de determinado referencial-teórico que permita interpretá-los, funcionando como um momento pré-teórico da maior relevância (IAMAMOTO, 2009, p. 8) De acordo com a autora, o processo de sistematização do trabalho indica a necessida- de de elaborar o projeto de intervenção. Figura 10. Grupo de pessoas com conceito de pesquisa A dimensão técnico-operativa do serviço social não pode ser analisada de forma isolada, pois é articulada com as demais dimensões da profissão – a técnico-operativa e a ético-política. A instrumentalidade é a propriedade inerente e essencial presente no processo de trabalho do assistente social, por meio do qual a profissão lança mão das dimensões técnico-operati- va, teórico-metodológica e ético-política para o alcance dos objetivos profissionais. Fonte: 123RF. 43 2 Projeto de intervenção U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co É a pesquisa em serviço social que fornece elementos de análise sobre a produção e a reprodução da vida social no capitalismo e sua concepção política sobre o processo de dominação e de exploração da classe trabalhadora. A partir do processo de conhe- cimento da realidade, possibilita-se a intervenção na perspectiva de sua transformação. A pesquisa também subsidia a formulação de políticas públicas que atendam às necessida- des dos usuários. A realização de entrevistas, de visitas domiciliares, de registros de atendi- mentos e de acompanhamentos sociais aproxima do cotidiano e configura-se como prática investigativa. Alguns desses instrumentos são considerados privativos do assistente social. Da mesma forma, a realização do processo metodológico do estudo social, da perícia social e de seu registro nos relatórios, nos laudos e nos pareceres sociais concretiza a di- mensão investigativa da profissão. A sistematização da prática profissional do assistente social é necessária e extremamente relevante, processo que se materializa na utilização dos instrumentos e das técnicas, sistematiza o cotidiano profissional visa à sua reflexão. 3.1 INSTRUMENTOS UTILIZADOS NA COMUNICAÇÃO ESCRITA A sistematização está presente em alguns instrumentos extremamente relevantes para a garantia de direitos dos usuários, como os relatórios. Fávero (2009) pontua que os registros, mais usualmente elaborados por as- sistente social (em referência àqueles que instruem autos processuais), são o informe, o relatório, o laudo e o parecer. [...] pontua ainda que esses regis- tros, ao serem juntados aos autos, passam a ser “meios de comunicação de mensagens.” Isto é, comunica-se “uma mensagem de uma área específica do conhecimento a profissionais de outras áreas do conhecimento, os quais, ao realizar a leitura, o farão com determinados objetivos e a partir de deter- minadas perspectivas, nem sempre coincidentes com as do profissional que emitiu a mensagem [...].” (FÁVERO, 2009, p. 632-633). Os relatórios são registros elaborados para o Sistema de Justiça e subsidiam decisões a respeito da vida de indivíduos. Além disso, são um instrumento utilizado na prática profissional dos assistentes so- ciais em qualquer espaço sócio-ocupacio- nal de atuação profissional. Ao receber uma demanda à qual o as- sistente social deva responder por meio de um relatório, ele precisa se atentar à demanda avaliativa solicitada e respon- dê-la a partir da realização do estudo so- cial. O registro elaborado pelo assistente social é considerado o diálogo realizado entre usuário e demais profissionais (juiz, promotor, psicólogo, advogado etc.), que expres- sará a realidade dos sujeitos envolvidos na situação posta para estudo. Trataremos do estudo social e de sua importância no decorrer da unidade. Figura 11. O quê? por quê? Quem? Fo nt e: 1 23 R F. 44 Formação Profissional em Serviço Social 2 Magalhães (2006) também traz o debate sobre o processo da comunicação escrita e apresenta estratégias no uso, que devem ser expressas nos documentos escritos. A autora sinaliza como a rotina de escrever relatórios não pode se tornar uma prática alienante. É fundamental “[...] desenvolver a capacidade crítica [...], posicionamento profissional e o pensar coletivo [...]” (MAGALHÃES, 2006, p. 72 e 88). Além disso, ela mostra a necessidade do hábito da leitura e do contato com a linguagem escrita para o enriquecimento do vocabulário e sugere como estratégias a organização e a planificação das ideias e a elaboração de roteiro para o desencadeamento do texto. Ainda, chama a atenção sobre a necessidade de se evitar o mero relato descritivo, focando apenas no que deve ser transmitido sobre a demanda avaliativa (MAGALHÃES, 2006, p. 72-73). Sugestões/questões para avaliar a coerência e a consistência de um registro: ` O texto que escrevi está claro, coerente e completo? ` As informações e os relatos são precisos e necessários ou, ao contrário, dizem respeito à minha tendência à prolixidade? ` Tudo o que escrevi é essencial à compreensão do texto ou alguns dados interessariam apenas a mim como subsídios para a avaliação? ` A linguagem que utilizei está adequada? ` A forma de expressão condiz com a linguagem escrita? ` Os pronomes e as expressões de tratamento foram usados adequadamente? ` Ao me referir à análise que fiz, utilizei a mesma pessoa em todo o texto, isto é, usei sem- pre o impessoal ou a primeira pessoa do plural? (MAGALHÃES, 2006, p. 75). Quadro 03. Instrumentos utilizados na comunicação escrita – relatórios TIPOS DE RELATÓRIOS CARACTERÍSTICAS Informativos Informa dados ou fatos na triagem ou no decorrer do acompanhamento. Ao extrapolar simples informações, devem conter sugestões ou parecer. Circunstanciados Elaborados em situação de emergência, ao ser identificada situação de risco. Devem conter parecer. De visita domiciliar Resultam de visitas domiciliares ou institucionais que são utilizadas pelos usuários. Detalhes devem ser evitados. De acompanhamento Precisa conter registro de intervenções realizadas. Geralmente, é utilizado internamente para o profissional que realiza o acompanhamento. De inspeção Similar ao relatório de visita: descreve o que foi observado. Fonte: adaptado de Magalhães (2006, p. 63-64). 45 2 Projeto de intervenção U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co A Lei que regulamenta a profissão do assistente social dispõe como atribui- ções privativas do profissional a reali- zação de laudos e pareceres sociais, assim como as perícias sociais. A Lei nº 8.662/1993 estabelece sobre a pro- fissão de assistente social: Art. 5º Constituem atribuições privati- vas do Assistente Social IV - realizar vistorias, perícias técnicas, laudos periciais, informações e parece- res sobre a matéria de Serviço Social. (BRASIL, 1993, [n. p.]) O registro do estudo ou da perícia social realizado por assistentes sociais, assim como seu parecer ou indicativos de alternativas para a situação estudada se dá no relatório ou no laudo social (FÁVERO, 2005, p. 21). Quadro 04. Estrutura do relatório, do laudo e do parecer social Figura 12. Qual é a sua história? Fo nt e: 1 23 R F. DOCUMENTO ESTRUTURA Relatório social Deve conter o registro do objeto de estudo, a identificação dos sujeitos envolvidos e um breve histórico da situação, a finalidade à qual se destina, os procedimentos utilizados, os aspectos significativos levantados na entrevista e a análise da situação. Laudo social Introdução indicando a demanda judicial e os objetivos do trabalho; identificação das pessoas envolvidas na açãoe que direta e indiretamente estão incluídas no estudo; metodologia utilizada para a efetivação do trabalho (entrevistas, visitas, contatos, estudos documental e bibliográfico etc.) e a definição breve de alguns conceitos utilizados, na medida em que o receptor da mensagem contida nesse documento não necessariamente tem familiaridade com os conhecimentos da área do serviço social. Parecer social O parecer social sintetiza a situação, apresenta uma breve análise e aponta conclusões ou indicativos de alternativas que expressarão o posicionamento profissional frente ao objeto de estudo. Esse documento pode ser a parte final de um laudo ou pode ser realizado em razão de determinação judicial, com base em conteúdos já documentados nos autos e/ou em informações complementares. Fonte: adaptado de Fávero (2005, p. 27-29). 46 Formação Profissional em Serviço Social 2 O relatório social apresenta o registro de forma descritiva e interpretativa, podendo ser mais detalhado, e o registro de uma ou mais entrevistas, iniciais ou de acompanhamen- to. O laudo social é utilizado como uma das evidências que instruirá o processo e que poderá dar suporte à decisão e à sentença judicial. O relatório social e o laudo social são diferenciados apenas pelo ponto de vista da fun- damentação técnica do parecer. O segundo, além de apresentar análises fundamenta- das, precisa ser conclusivo e conter sugestões de alternativas. Todos os registros que o assistente social junta [...] serão, a partir daí, meios de comunicação de mensagens. Comunica-se, então, uma mensagem de uma área específica do conhecimento a profissionais de outras áreas do conhecimento, os quais, ao realizar a leitura, o farão com determinados obje- tivos e a partir de determinadas perspectivas, nem sempre coincidentes com as do profissional que emitiu a mensagem. (FÁVERO, 2009, p. 30) 3.2 O ESTUDO SOCIAL O estudo social é um processo metodológico de apreensão da realidade social presente no pro- cesso de trabalho do assistente social, que perpassa a trajetória histórica do serviço social desde o início da profissão. Atualmente, seu marco está previsto na Lei de Regulamentação da Profissão, Lei nº 8.662/1993, nos artigos 4º e 5º, que dispõe sobre as compe- tências (artigo 4º) e as atribuições privativas (artigo 5ª) dos assistentes sociais (CFESS, 2012b, p. 44-45). Art. 4º Constituem competências do Assistente Social: XI - realizar estudos sócio-econômicos com os usuários para fins de bene- fícios e serviços sociais junto a órgãos da administração pública direta e indireta, empresas privadas e outras entidades. O assistente social é o profissional com competências para analisar os determinantes sócio-históricos-culturais que condicionam a vida dos sujeitos. Esse processo se dá por meio da realização do estudo social, cuja finalidade é conhecer, de forma crítica, uma determinada situação, expressão da questão social, posta como desafio a ser resolvido. O registro desse estudo ou perícia realizado, com suas conclusões, soluções de alter- nativas e parecer, concretizam-se no registro do relatório ou do laudo social. O estudo social é um processo de trabalho de competência do assisten- te social. Tem como finalidade conhecer e interpretar a realidade social na qual está inserido o objeto da ação profissional, [...], a expressão da questão social ou o acontecimento ou situação que dá motivo à intervenção.” (FÁVE- RO, 2005, p. 21) Figura 13. Estudo de caso Fo nt e: 1 23 R F. 47 2 Projeto de intervenção U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Os conhecimentos em matéria de serviço social, registrados nos relatórios, nos laudos ou nos pareceres, geralmente são referência e, no caso dos processos, podem servir de prova documental com vistas a contribuir com magistrado na decisão sobre determi- nada ação judicial. No sistema de justiça, o estudo social é realizado com a finalidade de instruir o processo com conhecimentos da área de serviço social e recebe também o nome de perícia social. O estudo social como processo metodológico possibilita o conhecimento da realidade social. Por meio dele pode-se levantar a forma como é determinada realidade dos sujei- tos, como ela se configura em termos territoriais, regionais e nacional, a forma de vida dos indivíduos e de suas famílias, suas condições materiais etc. 3.3 OS ASPECTOS ÉTICOS ENVOLVIDOS NA COMUNICAÇÃO ESCRITA DOS ASSISTENTES SOCIAIS Há aspectos e cuidados éticos a serem observados e considerados nos registros elabo- rados nos documentos e nos instrumentos do fazer profissional dos assistentes sociais. No ano de 2020, o Conselho Federal de Serviço Social (CFESS) apresentou uma sis- tematização com base em conteúdo de recursos processuais disciplinares sobre de- núncias éticas relativas à opinião técnica emitida por assistentes sociais em informes, prontuários, relatórios, laudos ou pareceres sociais e outros documentos, produzidos a partir de atendimentos, estudos e avaliações sociais, socioeconômicas ou perícias (CFESS, 2020, p. 11). A sistematização incluiu a forma como seu resultado é expresso no registro; linguagem utilizada no registro - se alinhada à particularidade do Serviço Social; terminologias e conteúdo que extrapolem para especificidades de outras áreas profissionais; sintonia com a finalidade profissional ou institucio- nal; conteúdos que extrapolem as atribuições e competências profissionais. (CFESS, 2020, p. 12) Ainda conforme a sistematização do CFESS, foi observado se o conteúdo estava em conformidade com as atribuições privativas dos assistentes sociais, se os registros es- tavam de acordo com a ética profissional e se a fundamentação teórico-metodológica era pertinente à profissão. No tocante ao CRESS de origem, dos 16 recursos éticos analisados, dois (12,5%) são oriundos do CRESS-MG, um (6,25%) do CRESS-SC, dois (12,5%) do CRESS-PR e 11 (68,75%) do CRESS-SP. Perito: especialista em determinada área de conhecimento, no caso, em serviço social – é nomeado para realizar um estudo e emitir um parecer a respeito, a fim de que a autoridade solicitante tome uma decisão segundo o entendimento técnico (FÁVERO, 2005, p. 21) GLOSSÁRIO 48 Formação Profissional em Serviço Social 2 Em relação às denúncias, a maioria dos recursos éticos deu-se nas seguintes regiões: Quadro 05. Temáticas e interfaces entre os espaços ocupacionais Região Sul Região Sudeste 18,75% 81,25% Santa Catarina e Paraná São Paulo e Minas Gerais Sendo a maioria (68,75%) da 9ª região/ CRESS - São Paulo (CFESS, 2020, p. 16). ESPAÇO OCUPACIONAL DE ATUAÇÃO DO PROFISSIONAL TEMÁTICA INSTITUIÇÃO DESTINATÁRIA DO REGISTRO CREAS Tentativa de estabelecimento de convívio entre pai e filho(a) que es- tava sob guarda unilateral materna. Poder Judiciário – Vara de Família SAS/MUNICIPAL (perita autôno- ma, extra SAS) Benefício assistencial (plágio). Instituto Nacional de Seguridade Social – INSS Unidade prisional Progressão de pena. Poder Judiciário – Vara Criminal Tribunal de Justiça – Poder Judiciário Cadastro para adoção de criança. Vara da Infância e da Juventude Hospital Alta sem retaguarda de pessoa em tratamento de dependência de psicoativos. Sem registro 49 2 Projeto de intervenção U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Fonte: adaptado de CFESS (2020, p. 18-19). ESPAÇO OCUPACIONAL DE ATUAÇÃO DO PROFISSIONAL TEMÁTICA INSTITUIÇÃO DESTINATÁRIA DO REGISTRO Tribunal de Justiça – Poder Judiciário Guarda. Poder Judiciário – Vara de Família Prefeitura Municipal/ Conselho Tutelar Medida socioeducativa. Poder Judiciário – Vara da Infância e da Juventude Prefeitura Municipal/CREAS POP Interdição. Poder Judiciário – Vara Cível ONG Regulamentação de visitas. Poder Judiciário – Vara de Família Organização destinada à execu- ção de medida de internação de adolescente Medida socioeducativa. Poder Judiciário – Vara da Infância e da Juventude Centro de Detenção Provisória Progressão. Poder Judiciário – VaraCriminal Tribunal de Justiça Modificação de guarda. Poder Judiciário – Vara de Família Hospital especializado Violência sexual contra crianças e adolescentes. Sem registro Prefeitura Municipal – atendimento ao servidor Condições de trabalho que pode- riam ter agravado deficiência física. Poder Judiciário – Trabalhista Tribunal de Justiça Poder Judiciário Regulamentação de visitas. Poder Judiciário – Vara de Família Centro de saúde Denúncia de negligência contra pessoa idosa com problemas de saúde. Sem registro 50 Formação Profissional em Serviço Social 2 Verifica-se nos dados apresentados no quadro que, em relação às situações que de- mandaram a intervenção profissional, a maioria (12) refere-se à área sociojurídica, rela- cionadas à instrução processual nas varas de família e sucessões, nas varas criminais, nas varas da infância e da juventude, nas varas cíveis, na justiça do trabalho e na previ- dência social (como recurso para Benefício de Prestação Continuada – BPC). As outras três apresentam interface indireta com a mesma área: situações de violência sexual, internação compulsória e tentativa de restabelecimento do convívio entre pai e filho(a) (CDESS, 2020, p. 17-18). Os recursos éticos analisados, [...] não tragam dados que permitam traçar o perfil profissional das/os assistentes sociais denunciadas/os, sinalizam para [...] hipóteses que nos auxiliam a compreender a persistência dessa prática: algumas/alguns não acompanharam a renovação do Serviço Social brasilei- ro ou não a compreendem [...]. (CFESS, 2020, p. 77-78) Os dados e a sistematização do relatório do CFESS mostram a indissociabilidade das dimensões técnico-operativas “sempre na perspectiva de unidade” (CFESS, 2020, p. 68), com as dimensões teórico-metodológica e ético-política, e que estas devem ser as- sumidas “como foco de ações, debates, capacitações, discussões em todo espaço co- letivo possível” (CFESS, 2020, p. 68),. O relatório aponta que, por meio dessas dimen- sões, os profissionais com defasagem na formação profissional podem “se apropriar de debates centrais da profissão e exercitar mediações entre singularidade, particularidade e universalidade” (CFESS, 2020, p. 68). Por fim, é apontado no relatório ser fundamental a discussão sobre a complexidade que envolve a relação profissional, o estudo e o trabalho social com famílias, destacando ser um tema que representa, para os profissionais, muitas armadilhas, tendo sido observa- das em vários recursos éticos disponibilizados para a análise do CFESS. Para saber mais sobre o relatório de sistematização realizado com base em conteúdo de recursos processuais disciplinares, que envolveram denúncias éticas relativas à opinião téc- nica emitida por assistentes sociais expressa e/ou registrada em documentos, acesse o link: Assim, há que se colocar um imperativo para a profissão: Ousar saber para ousar transformar (IAMAMOTO, 2009, p. 17). SAIBA MAIS PARA REFLETIR Disponível em: http://www.cfess.org.br/arquivos/registros-opiniao-tecnica.pdf. Acesso em: 15 dez. 2021. 51 2 Projeto de intervenção U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co OBJETO DE APRENDIZAGEM O profissional de serviço social. Da formação do profissional a pratica. CONCLUSÃO O serviço social é uma profissão extremamente importante, porque dos seus profissionais se requer o desvelamento da realidade social e dos seus determinantes presentes na vida dos trabalhadores. Nesse contexto, é fundamental o reconhecimento do assistente social como trabalhador assalariado que vive das mesmas condições da classe trabalhadora. Nos espaços sócio-ocupacionais, o profissional deve conhecer os objetivos das institui- ções empregadoras, a correlação de forças existente nelas, a população usuária aten- dida, suas necessidades etc. É nessa perspectiva que se afirma o projeto ético-político da profissão, que ao lado de outros projetos profissionais, faz frente ao projeto do capi- tal, na direção da construção de outra ordem societária, sem dominação e exploração de qualquer natureza. É necessário um profissional com habilidades e competências para atuar nas contradi- ções da sociedade, visualizando possibilidades de intervenções efetivas e que propor- cione o acesso e os direitos da população usuária e contribua para o enfrentamento das desigualdades sociais. É fundamental a capacidade profissional de fazer o estudo da realidade por meio do processo metodológico do estudo social. Nesse sentido, também reside a importância da capacidade profissional de sistematização dessa realidade e de seu registro nos documentos técnicos, que deve ser realizado com o devido cuidado técnico e ético. Há desafios postos, conforme aponta Iamamoto: Assim, um desafio é romper as unilateralidades presentes nas leituras do trabalho do assistente social com vieses ora fatalistas, ora messiânicos, tal como se constata no cotidiano profissional (IAMAMOTO, 1992). ` A formação profissional balizada no projeto profissional e na oposição ao projeto do capital, com dimensão na superação da questão social e de suas diversas expressões, na direção da mudança e no alcance de uma nova sociabilidade. ` O projeto de intervenção e a sua importância na identificação e na superação de uma situação problema-problema relativa a uma expressão da questão social. ` A dimensão técnico-operativa indissociável das dimensões teórico-metodológica e ético- política como mediação necessária no processo de trabalho dos assistentes sociais. ` A importância da sistematização para o registro da realidade social apreendida no processo investigativo da profissão e como requisito para o processo interventivo com foco na superação de violações de direitos e para seu acesso pelos usuários. 52 Formação Profissional em Serviço Social 2 As primeiras superestimam a força e a lógica do comando do capital no processo de (re) produção, submergindo a possibilidade dos sujeitos de atri- buírem direção às suas atividades. Com sinal trocado, no viés voluntarista, a tendência é silenciar ou subestimar os determinantes histórico-estruturais objetivos que atravessam o exercício de uma profissão, deslocando a ênfase para a vontade política do coletivo profissional, que passa a ser superesti- mada, correndo-se o risco de diluir a profissionalização na militância stricto sensu. (IAMAMOTO, 2009, p. 9) Assim, há também espaço para alternativas no exercício profissional que atenda ao projeto construído coletivamente pela categoria e que ainda se encontra em construção, por meio da capacidade de operar a mediação por intermédio das dimensões da profis- são – técnico-operativa, teórico-metodológica e ético-política – e do exercício crítico e reflexivo, contribuindo para o enfrentamento das desigualdades sociais e possibilitando acessos aos direitos e à cidadania. 53 2 Projeto de intervenção U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AHLERT, Betina et al. 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Sistematização e análise de registros da opi- nião técnica emitida pela/o assistente social em relatórios, laudos e pareceres, objeto de denúncias éticas presentes em recursos disciplinares julgados pelo conselho federal de serviço social (CFESS). Brasília: CFESS, 2020. Disponível em: http://www.cfess.org.br/arquivos/registros-opiniao-tecnica.pdf. Acesso em: 15 dez. 2021. FÁVERO, Eunice Teresinha. O estudo social. Fundamentos e particularidades da sua construção na área Judiciária. In: Conselho Federal de Serviço Social (CEFESS) (org.). O estudo social em perícias, laudos e 54 Formação Profissional em Serviço Social 2 pareceres técnicos. Contribuição ao debate no Judiciário, Penitenciário e na Previdência Social. 5. ed. São Paulo: Cortez, 2005. FÁVERO, Eunice Teresinha. Instruções sociais de processos, sentenças e decisões. In: Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS); Conselho Federal de Serviço Social (CFESS). 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São Paulo: Veras, 2006. 55 2 Projeto de intervenção U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co 56 Exercício profissional do assistente social e o estágio supervisionado 3 UNIDADE 3 EXERCÍCIO PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL E O ESTÁGIO SUPERVISIONADO INTRODUÇÃO O estágio supervisionado em serviço social [...] é um processo didático-pedagógico que se consubstancia pela indissociabilidade entre estágio e supervisão acadêmica e profissional (ABEPSS, 2010, p. 14 apud CRESS, [s. d.], p. 8). Trata-se de uma atividade teórico-prática imprescindível que se efetiva na inserção do estudante nos espaços sócio-ocupacionais de atuação de assistentes sociais, cuja finalidade é a formação nas dimensões técnico-opera- tiva, teórico-metodológica e ético-política necessárias para o exercício profissional. Para a profissão, o estágio no processo de formação, por meio da supervisão acadêmi- ca e profissional, é necessário para compreender a contradição existente na relação de capital e trabalho, que se constitui pela exploração e pela dominação da classe traba- lhadora pelos donos do capital e que produz condicionantes sócio-econômico-culturais na vida dos sujeitos, presentes nas expressões da questão social, como as vulnerabili- dades e os riscos sociais e pessoais. Para a efetivação do estágio, as instâncias organizativas como a Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS) e Conselho Federal de Serviço So- cial (CFESS) normatizaram e aprovaram um conjunto de instrumentos legais que, so- mados a outros marcos, como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e a Lei Nacional sobre o Estágio, sustentam a formação profissional pautada no projeto ético-político do serviço social com respostas às demandas das classe trabalhadora, em oposição do projeto do capital. No capítulo 1, será abordado o estágio supervisionado na formação profissional do assistente social. Serão apresentados os princípios norteadores do estágio supervisio- nado, os pressupostos necessários para a realização do estágio e o contexto sócio-his- tórico-político da formação em serviço social no Brasil O capítulo 2 tratará da legalidade e da legitimidade da atividade do estágio supervi- sionado, por meio do resgate dos percursos da construção das normativas do estágio supervisionado; o estágio supervisionado nas regulamentações profissionais do assis- tente social no Brasil; o estágio supervisionado nas regulamentações da formação pro- fissional do assistente social no Brasil e o estágio supervisionado nas regulamentações do ensino superior. O capítulo 3 trará um breve contexto da trajetória histórica da supervisão em serviço social nas suas modalidades, a supervisão direta de estágio e sua metodologia, as 57 3 Projeto de intervenção U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co atribuições dos envolvidos no processo de estágio e o fórum de supervisão como um importante espaço político de interlocução dos sujeitos envolvidos nesse processo, com vistas a qualificar a formação profissional. 1. O ESTÁGIO SUPERVISIONADO NA FORMAÇÃO PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL O estágio é parte integrante da formação em serviço social e deve ser pensado no con- texto de formação a partir das mudanças da profissão, especificamente nas décadas de 1980 e 1990, no bojo do processo de sua renovação, rompendo com seu caráter conservador, por meio do movimento de reconceituação. Essa trajetória profissional está situada nas mudanças políticas, econômicas e sociais do período, na abertura democrática do país, com o final da ditadura militar. Foram mu- danças ocorridas no capitalismo por meio da instalação dapolítica neoliberal e do des- monte das políticas sociais públicas, cujas consequências de ordem econômica tiveram rebatimentos sociais, sendo visualizadas no campo do trabalho, como o desemprego e a elevação da pobreza da classe trabalhadora (NICOLAU; SANTOS, 2016, p. 381). As décadas de 1980 e 1990 foram cenário para a construção de um projeto profissional sob direção da Associação Brasileira de Ensino de Serviço Social (ABESS) e do Centro de Documentação e Pesquisa em Políticas Sociais e Serviço Social (CEDEPSS), tendo a parti- cipação do Conselho Federal de Serviço Social (CFESS), do Conselho Regional de Serviço Social (CRESS) e da Executiva Nacional dos Estudantes de Serviço Social (ENESSO). Nesse contexto sócio-histórico houve aprovação e revisão do Código de Ética de 1986 e sua revisão posterior, culminando na aprovação do Código de Ética de 1993, a Lei nº 8.662/93, que regulamenta a profissão de Serviço Social e as Diretrizes Curriculares da ABEPSS, de 1996. 1.1. O CONTEXTO SÓCIO-HISTÓRICO-POLÍTICO DA FORMAÇÃO EM SERVIÇO SOCIAL NO BRASIL No contexto do neoliberalismo e no seu enfrentamento contra o desmonte das políticas sociais públicas e da política educacional, especificamente do ensino superior, a con- trarreforma do Estado e os impactos na política de educação superior trazem novas configurações para a formação profissional e, consequentemente, novos rebatimentos no processo de supervisão de estágio. No campo da formação e do exercício profissional, o projeto profissional dos anos de 1980/1990 foi resultado de um processo de resistência teórico-política, por intermédio de uma teoria social crítica, a marxista, desvendamento da realidade social enquanto totalidade. Passou-se a exigir profissionais com formação que os tornasse aptos na apreensão das dimensões dessa realidade conjuntural e estrutural. A formação profissional do assistente social se expressa em uma concepção de ensino-aprendizagem fundada na relação dinâmica entre Estado e so- ciedade, resultante de determinações macros societárias que estabelecem limites e possibilidades para a inserção profissional nos espaços sócio-o 58 Exercício profissional do assistente social e o estágio supervisionado 3 SAIBA MAIS cupacionais das instituições. A formação profissional se propõe a “preparar cien- tificamente quadros profissionais capazes de responder às exigências de um projeto profissional coletivamente construído e historicamente situado” (IAMA- MOTO, 1992, p. 163). A formação profissional não pode ser confundida com a simples preparação para o emprego. Ainda que não possa desconsiderá-lo, a formação profissional exige o necessário entendimento crítico da Universidade como instituição para formação profissional. (NICOLAU; SANTOS, 2016, p. 382) A produção no campo do estágio formulada pelas Diretrizes Curriculares para o curso de serviço social, aprovadas em 1996 pela ABEPSS, fundamenta o debate sobre a formação profissional, sendo parte dos seus princípios mais relevantes a interlocução entre supervisão acadêmica e profissional, e a garantia da supervisão sistemática e acadêmica, de forma que é impensável a separação desses processos. A supervisão de estágio deve ser realizada por professor supervisor e pelo profissional de campo, com base no plano de estágio elaborado conjuntamente entre a unidade de ensino e a unidade de campo de estágio. O processo de supervisão se dá pela inserção do estudante como estagiário nos espaços sócio-ocupacionais de trabalho do assisten- te social, pelo seu acompanhamento, pela reflexão da prática profissional e sua siste- matização e por meio da apreensão das dimensões teórico-metodológica, ético-política e técnico-operativa do exercício profissional. Como parâmetros principais de referência destacam-se o Código de Ética do profissional (1993) e a Lei nº 8.662/93 (Lei de Regulamentação da Profissão). Esta é a lógica curri- cular proposta para a superação da fragmentação (LEWGOY, 2013, p. 70-71, 74 e 76). Essas referências também se encontram na Política Nacional de Estágio (PNE) (ABEPSS, 2010, [n. p.]), outro instrumento pedagógico relevante. O estágio supervisionado curricular apresenta-se nas modalidades obrigatório e não obrigatório e como processo didático-pe- dagógico, trazendo a supervisão acadêmica e profissional como processos inseparáveis. Ainda de acordo com Lewgoy (2013, p. 79), o estágio possibilita ao estudante de ser- viço social se aproximar e se identificar com o mundo profissional e com a dinâmica da realidade social, o que exige a confirmação de seu compromisso ético-político com a profissão, ao passo que prepara o estudante para a inserção no mercado de trabalho com condições de dar respostas profissionais. Plano de estágio É um instrumento de planejamento das atividades de estágio, previsto pela Lei nº 11.788/2008, que deve ser construído conjuntamente pelo supervisor acadêmico, pelo supervisor de cam- po e pelo estudante. É o que norteará o processo de ensino-aprendizagem, por isso, precisa considerar as dimensões ético-política, teórico-metodológica e técnico-operativa. Para saber mais, acesse o link Disponível em: https://www.cressrj.org.br/cartilhas/o-que-voce-precisa-saber-sobre-es- tagio-em-servico-social-orientacoes-eticas-e-legais/. Acesso em: 2 fev. 2022. 59 3 Projeto de intervenção U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co IMPORTANTE Os princípios norteadores para a realização do estágio requerem: Consonância com os princípios do Código de Ética de 1993; Indissociabili- dade entre as dimensões teórico-metodológica, ético-política e técnico-ope- rativa do exercício profissional; Articulação entre formação e exercício profis- sional; Indissociabilidade entre estágio e supervisão acadêmica e de campo; Articulação entre universidade e sociedade; Unidade entre teoria e prática; Interdisciplinaridade, com respeito aos marcos que regulamentam a profis- são; Articulação entre ensino, pesquisa e extensão. (CFESS, [s. d.], p. 8) São pressupostos para o estágio: ` Construção do perfil profissional pretendido, crítico, criativo, propositivo, investigativo e comprometido com os valores e os princípios que norteiam o projeto ético-político profissional. ` Estágio realizado conjuntamente pelo supervisor acadêmico e de campo, requerendo encontros periódicos entre eles. ` Supervisão direta de estágio em serviço social como atividade privativa do assistente social em pleno gozo de seus direitos profissionais. ` Processo coletivo de ensino-aprendizagem no qual se realizam observações, registros, análises e atuações do estagiário no campo de estágio, bem como a avaliação do processo de aprendizagem. ` Construção de conhecimentos e de competências para o exercício da profissão. ` Avaliação do processo de estágio e do desempenho discente de forma contínua, assegurando a participação dos diferentes segmentos envolvidos (supervisores acadêmicos e de campo e estagiários) (CRSS, [s. d.], p. 9). 2. A LEGALIDADE E A LEGITIMIDADE DA ATIVIDADE DO ESTÁGIO SUPERVISIONADO A análise sobre a base legal operativa do estágio supervisionado em serviço social não deve prescindir do debate das dimensões teórico-metodológica e ético-política no pro- cesso formativo e no cotidiano do trabalho. O cotidiano profissional apresenta a imediaticidade das ações requisitadas aos assis- tentes sociais, seja pelas instituições ou pela população demandatária das interven- ções, o que pode se tornar um exercício profissional alienante e alienador e de práticas manipulatórias junto aos sujeitos. De acordo com Guerra (2007, p. 9-10), o cotidiano é o lugar de realizar a reprodução social, em que aparecem as funções exigidas do serviço social pelo Estado e pelas ins- tituições que respondem ao projeto capitalista: intervir na vida dos sujeitos e nas suas demandas imediatas. São ações instrumentais imediatas insuficientes para responder à complexidade das demandas apresentadas. 60 Exercício profissional do assistentesocial e o estágio supervisionado 3 Esse é o espaço fundamental para os estudantes de serviço social, por meio do estágio supervisionado, apreenderem quais são as demandas requisitadas pela classe trabalhadora que chega aos serviços e às políticas públicas nas quais estão inse- ridos os assistentes sociais. São demandas complexas que exi- gem intervenções de outra ordem que não sejam as imediatas. Aqui reside a necessidade da reflexão sobre o cotidiano pro- fissional permeado pelas contradições postas pelo capitalismo para a manutenção do status quo, ou seja, pela naturalização das desigualdades sociais e pela sua individualização e culpa- bilização dos sujeitos, portanto, o não questionamento sobre as expressões da questão social presentes na sua vida e, por fim, a manutenção da exploração da classe trabalhadora. Yolanda Guerra realiza o debate sobre a instrumentalidade pre- sente no processo de trabalho dos assistentes sociais como reconhecimento social da profissão (GUERRA, 2007, p. 2-3). Para a reflexão do cotidiano profissional e para as respostas necessárias, é fundamental olhar para o projeto político profissional e para os instrumentos legais da profissão. Nesse percurso teórico-prático, a compreensão dos instrumentos normativos profissionais no processo de formação como inerentes ao estágio supervisionado é fundamental (LEWGOY, 2013, p. 73). A proposta do estágio curricular na perspectiva da superação da fragmentação do pro- cesso ensino-aprendizagem e prática é considerada um desafio profissional, exigindo criticidade frente à apreensão da realidade social e à postura ética na construção de intervenções que atendam às reais necessidades dos sujeitos. [...] no âmbito técnico-instrumental, os pressupostos teóricos que informam a construção de um dado projeto de formação profissional não estão dissocia- dos. Além disso, esta concepção expressa elementos preciosos do projeto ético-político do Serviço Social, tendo como referência o Código de Ética Profissional [...]. (LEWGOY, 2013, p. 74-75) 2.1. AS NORMATIVAS SOBRE A SUPERVISÃO DIRETA DE ESTÁGIO EM SERVIÇO SOCIAL O conjunto de documentos e de normativas legais a respeito da supervisão direta de estágio em serviço social é um marco importante e fundamental para a compreensão de que a formação e o trabalho profissional são inseparáveis. Assim, os principais ele- mentos que envolvem a realização do estágio supervisionado estão presentes em do- cumentos e leis, sendo marco legal de referência para a profissão: Figura 01. Pobres e ricos Fo nt e: 1 23 R F. ` Lei de Regulamentação da Profissão nº 8.662/1993 ` Código de Ética do Assistente Social (1993) ` Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) (1996) 61 3 Projeto de intervenção U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Mais do que normativas, o conjunto que forma o estatuto legal e respalda o estágio super- visionado em serviço social apresenta conteúdo ético-político construído pela profissão nas últimas três décadas, a partir da necessidade de sua renovação, assegurando um exercício profissional crítico na perspectiva da mudança social e da emancipação humana. [...] o estatuto legal das normativas profissionais carregam conteúdos ético- -políticos, o que demonstra que o Conjunto CFESS-CRESS, nestas últimas décadas, também caminhou par e passo com o movimento de renovação da profissão, para sustentar e assegurar uma concepção ampla de regulação profissional. (CFESS, [s. d.], p. 7) 2.2. O ESTÁGIO SUPERVISIONADO NAS REGULAMENTAÇÕES PROFISSIONAIS DO ASSISTENTE SOCIAL NO BRASIL A Lei de Regulamentação da Profissão de Assistente Social (Lei nº 8.662/1993) estabelece a supervisão de estagiários de serviço social, sendo que apenas assistentes sociais podem assu- mir atividades de supervisão direta de estagiários, por ser uma atribuição privativa da profissão. ` Resolução CFESS nº 533/2008 ` Lei nº 11.788/2008 – Lei do Estágio ` Diretrizes Curriculares da ABEPSS (1996) ` Política Nacional de Estágio (PNE) (2009) Figura 02. Regulamentos REGULAMENTOS CONFORMIDADE DIRETRIZCONDUTA PROCEDIMENTO LIMITAÇÃO PADRÃO REGRAS LEI Fonte: 123RF 62 Exercício profissional do assistente social e o estágio supervisionado 3 Art. 5º Constituem atribuições privativas do Assistente Social: VI - treinamento, avaliação, e supervisão direta de estagiários de Serviço Social. (BRASIL, 1993, [n. p.]) A lei também dispõe sobre o credenciamento dos campos de estágio, a designação de profissionais para a supervisão e a realização do estágio em serviço social privativo para os estudantes dessa área. Art. 14. Cabe às Unidades de Ensino credenciar e comunicar aos Conselhos Regionais de sua jurisdição os campos de estágio de seus alunos e designar os assistentes sociais responsáveis por sua supervisão. Parágrafo único. Somente os estudantes de Serviço Social, sob supervisão direta de assistente social em pleno gozo de seus direitos profissionais, po- derão realizar estágio de Serviço Social. (BRASIL, 1993, [n. p.]) O Código de Ética Profissional dispõe que só podem assumir funções de supervisor de estágio os assistentes sociais que forem do quadro profissional da instituição e estive- rem obrigatoriamente registrados no CRESS, jurisdição de sua atuação profissional. Assim, constitui infração ética assumir supervisão de estágio de instituição na qual o profissional não atua como assistente social (CRESS, [s. d.], p. 22). Art. 4º É vedado ao/à assistente social: e- Permitir ou exercer a supervisão de aluno/a de Serviço Social em Insti- tuições Públicas ou Privadas que não tenham em seu quadro assistente so- cial que realize acompanhamento direto ao/à aluno/a estagiário/a. (CFESS, 2012, p. 28) A partir da aprovação da Lei de Estágio nº 11.788/08, o Conselho Federal de Serviço Social expediu a Resolução nº 533/2008 que regulamenta a supervisão direta de es- tágio no serviço social. É um instrumento que representa a luta contra a precarização da educação e que tem rebatimentos na formação profissional dos assistentes sociais (CRESS, [s. d.], p. 23). A referida Resolução dispõe que a supervisão de estágio em serviço social é uma ativi- dade privativa do assistente social: Art. 2º. A supervisão direta de estágio em Serviço Social é atividade pri- vativa do assistente social, em pleno gozo dos seus direitos profissionais, devidamente inscrito no CRESS de sua área de ação, sendo denominado supervisor de campo o assistente social da instituição campo de estágio e supervisor acadêmico o assistente social professor da instituição de ensino. (CFESS, 2008, p. 3) Sobre relação entre unidade acadêmica e instituição que recebe o estudante, a Resolu- ção dispõe sobre atribuições dos supervisores acadêmicos e de campo na abertura do estágio e no decorrer de sua realização. Art. 4º. A supervisão direta de estágio em Serviço Social estabelece-se na relação entre unidade acadêmica e instituição pública ou privada que recebe o estudante, sendo que caberá: 63 3 Projeto de intervenção U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co I) ao supervisor de campo apresentar projeto de trabalho à unidade de ensi- no incluindo sua proposta de supervisão, no momento de abertura do campo de estágio; II) aos supervisores acadêmico e de campo e pelo estagiário construir plano de estágio onde constem os papéis, funções, atribuições e dinâmica proces- sual da supervisão, no início de cada semestre/ano letivo. (CFESS, 2008, p. 3) A responsabilidade da supervisão direta cabe a ambos os supervisores (acadêmico e de campo): Art. 8º. A responsabilidade ética e técnica da supervisão direta é tanto do supervisor de campo, quanto do supervisor acadêmico, cabendo a ambos o dever de: I. Avaliar conjuntamente a pertinência de abertura e encerramento do campo de estágio; II. Acordar conjuntamente o início do estágio, a inserção do estudante no cam- po de estágio, bem como o número de estagiários por supervisor de campo, limitado ao númeromáximo estabelecido no parágrafo único do artigo 3º; III. Planejar conjuntamente as atividades inerentes ao estágio, estabelecer o cronograma de supervisão sistemática e presencial, que deverá constar no plano de estágio; IV. Verificar se o estudante estagiário está devidamente matriculado no se- mestre correspondente ao estágio curricular obrigatório; V. Realizar reuniões de orientação, bem como discutir e formular estraté- gias para resolver problemas e questões atinentes ao estágio; VI. Atestar/ reconhecer as horas de estágio realizadas pelo estagiário, bem como emitir avaliação e nota. (CFESS, 2008, p. 4) Informações importantes sobre a Resolução nº 533/08: ` Os supervisores acadêmicos e de campo devem ser ASSISTEN- TES SOCIAIS e estar regulares quanto à sua situação no Conse- lho Regional de Serviço Social (do contrário, constitui-se exercício ilegal da profissão). ` A instituição campo de estágio deve assegurar os seguintes re- quisitos básicos: espaço físico adequado, sigilo profissional, equi- pamentos necessários, disponibilidade do supervisor de campo para acompanhamento PRESENCIAL da atividade de aprendiza- gem, dentre outros requisitos, nos termos da Resolução CFESS nº 493/2006, que dispõe sobre as “condições éticas e técnicas do exercício profissional do assistente social” – ou seja, é irregular a realização do estágio que não ocorra no local onde o supervisor de campo desenvolve o trabalho profissional. SAIBA MAIS 64 Exercício profissional do assistente social e o estágio supervisionado 3 2.3. O ESTÁGIO SUPERVISIONADO NAS REGULAMENTAÇÕES DA FORMAÇÃO PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL NO BRASIL As Diretrizes Curriculares do Curso de Serviço Social foram construídas nacionalmente e aprovadas pela ABEPSS no ano de 1996. Elas apresentam pressupostos, princípios e diretrizes que orientam o projeto pedagógico de cada unidade de formação em serviço so- cial. O estágio, de acordo com a proposta das Diretrizes Curriculares, é referência para a formação profissional, tendo como um dos princípios a chamada indissociabilidade entre supervisão acadêmica e profissional e a supervisão acadêmica e de campo. [...] tratam o estágio supervisionado como um momento ímpar do pro- cesso ensino-aprendizagem, elemento síntese da relação teoria-prática, da articulação entre pesquisa e intervenção profissional, e que se con- substancia como exercício teórico-prático, mediante a inserção do/a alu- no/a nos diferentes espaços ocupacionais das esferas pública e privada. (CFESS, [s. d.], p. 11) As Diretrizes Curriculares da ABEPSS indicam também o perfil do profissional de serviço social, sendo seus requisitos: ` Caso não haja convenção ou acordo escrito sobre a obrigatorie- dade do assistente social em assumir atividades de supervisão de campo, é prerrogativa do profissional a decisão de desempenhar ou não essa atividade. ` Supervisores acadêmicos e de campo, com a participação de es- tagiários, devem elaborar plano de estágio, devendo o supervisor de campo manter cópia no local de realização do estágio. ` O limite MÁXIMO de estagiários por supervisor de campo é de 01 (um) estagiário, para cada 10 (dez) horas semanais de trabalho – ou seja, após a aprovação da Lei das 30 horas semanais, cada su- pervisor poderá ter, no máximo, 03 (três) estagiários – observando a carga horária semanal do assistente social. ` A inexistência de supervisão direta de estágio caracteriza-se EXERCÍCIO ILEGAL DA PROFISSÃO POR PARTE DO ESTAGIÁ- RIO, estando, este, sujeito às penalidades existentes na legislação brasileira. (CFESS, [s. d.], p. 23) Conheça a Resolução nº 533/08 na íntegra: CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL – CFESS. Resolução CFESS nº 533, de 29 de setembro de 2008. Regulamenta a supervisão direta de estágio no Serviço Social. Disponível em: http://www.cfess.org.br/arquivos/Resolucao533.pdf. Acesso em: 22 nov. 2021. 65 3 Projeto de intervenção U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Em 2009 foi aprovada a Política Nacional de Estágio (PNE) da ABEPSS por meio da participação do CFESS e da ENESSO, representando para a formação profissional as diretrizes gerais para o estágio, em conformidade com as diretrizes curriculares da ABEPSS de 1996. A Política Nacional de Estágio é um importante instrumento para a construção do estágio nas unidades de formação acadêmicas. Fornece elementos para a análise do estudante quanto aos processos de interpretação e intervenção na realidade social frente às con- tradições da sociedade capitalista, dessa forma, subsidiando-os para a prática profis- sional por meio da compreensão das dimensões teórico-metodológicas, ético-políticas e técnico-operativas. Todos esses instrumentos representam maturidade profissional frente às necessidades de efetivação do projeto profissional. ` Atua nas expressões da questão social, formulando e implementando propostas para seu enfrentamento, por meio de políticas sociais públicas, empresariais, de organizações da sociedade civil e movimentos sociais; ` Possui formação intelectual e cultural generalista crítica, competente em sua área de de- sempenho, com capacidade de inserção criativa e propositiva, no conjunto das relações sociais e no mercado de trabalho; ` É comprometido com os valores e princípios norteadores do Código de Ética do/a Assistente Social. ` Dessa forma, o estágio supervisionado é um dos elementos pedagógicos que colaboram para fomentar esse perfil do futuro profissional. (CRESS, [s. d.], p. 11-12) Figura 03. Conceito de estágio ESTÁGIO Fonte: Adaptado de 123RF. META HABILIDADES CONHECIMENTO MENTORIA PRÁTICA OPORTUNIDADE TREINAMENTO 66 Exercício profissional do assistente social e o estágio supervisionado 3 2.4. O ESTÁGIO SUPERVISIONADO NAS REGULAMENTAÇÕES DO ENSINO SUPERIOR Dois instrumentos legais destacam-se no estágio supervisionado nas regulamentações do ensino superior no Brasil: Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1996. Lei nº 11.788 de 2008. São dois os princípios do estágio supervisionado disposto na LDB de 1996: O princípio da autonomia universitária que atribui a responsabilidade de nor- matização para as instituições de Ensino Superior. O princípio regulatório da relação entre o estágio supervisionado e o merca- do de trabalho, que estabelece que estágio supervisionado não caracteriza vínculo empregatício. Figura 04. Conceito de estágio Fonte: 123RF. ESTÁGIO META HABILIDADES EXPERIÊNCIAS MENTOR DESENVOLVIMENTO PESSOAL TREINAMENTOOPORTUNIDADE A Lei prevê a responsabilidade das unidades de ensino superior na realização de estágio, define o caráter pedagógico e não trabalhista do processo de estágio e tem ainda como finalidade a proteção do estudante estagiário com garantia de cobertura previdenciária. 67 3 Projeto de intervenção U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Quanto à Lei que dispõe sobre o estágio de estudantes (Lei nº 11.788/2008), regula- menta nacionalmente o estágio nas instituições de ensino nos níveis superior, profissio- nal, médio, especial e dos anos finais do Ensino Fundamental, assim como na modali- dade profissional da educação de jovens e adultos (artigo 1º). O estágio se apresenta nas modalidades obrigatório e não obrigatório e não gera vín- culo empregatício. A Lei nº 11.788/2008 define o lugar social do estagiário nos espaços ocupacionais e na sociedade, enquanto sujeito de direitos em processo de formação, ao estabelecer o número de estagiários em relação à quantidade de supervisores da instituição concedente, conforme disposto no artigo 17. Art. 17. O número máximo de estagiários em relação ao quadro de pessoal das entidades concedentes de estágio deverá atender às seguintes proporções: I – de 1 (um) a 5 (cinco) empregados: 1 (um) estagiário; II – de 6 (seis) a 10 (dez) empregados: até 2 (dois) estagiários; III – de 11 (onze) a 25 (vinte e cinco) empregados: até 5 (cinco) estagiários; IV – acima de 25 (vinte e cinco) empregados: até20% (vinte por cento) de estagiários. (BRASIL, 2008, [n. p.]) Informações importantes sobre a Lei nº 11.788, de 25 de setembro de 2008: ` O termo de compromisso deve estar associado ao planejamento das atividades do estagiário, acordadas entre instituição de ensino, parte concedente (instituição campo) e estagiário – toda atividade de estágio deve ser planejada através do PLANO DE ESTÁGIO, que deve estar sempre disponível em qualquer situação de fiscalização. ` O estagiário deve ser acompanhado por professor indicado pela instituição de formação e por um supervisor da parte concedente. ` O supervisor de campo deve ser do quadro de funcionários da instituição concedente – isto é, deve possuir VÍNCULO DE TRABALHO, sendo vedada, então, a supervisão oferecida por voluntários ou por aqueles que prestam serviços na condição de terceirizados, conforme parecer emitido pela assessoria jurídica do CFESS (Parecer Jurídico nº 36/2010). ` A jornada máxima de estágio de nível superior é de 30 horas semanais ou de 6 horas diárias. ` O estagiário tem direito a recesso de 1 mês, compatível com o período de 1 ano de realização do estágio, preferencialmente associado às férias escolares. ` As atividades de extensão só poderão ser equiparadas a estágio se O estágio é legalmente responsabilidade das unidades de formação e de ensino. ` Caso a inserção do estagiário não cumpra os requisitos legais existentes na Lei Federal, caracteriza-se, assim, vínculo empregatício – podendo o estagiário responder legalmente por falsidade ideológica e exercício ilegal de profissão e as instituições responsáveis por não garantirem direitos trabalhistas, dentre outras ilegalidades. (CRESS, [s. d.], p. 20) IMPORTANTE 68 Exercício profissional do assistente social e o estágio supervisionado 3 3. A SUPERVISÃO EM SERVIÇO SOCIAL E A SUA METODOLOGIA Figura 05. Perguntas mais frequentes Fo nt e: 1 23 R F. ` A supervisão é a expressão da indissociabilidade entre trabalho e formação profissional: duas dimensões da profissão se articulam para a realização da síntese das determinações que envolvem o exercício profissional: as condições concretas apresentadas no mercado de trabalho, as condições subjetivas do sujeito e a necessidade de qualificá-las permanentemente. Trata-se da dimensão formativa presente no projeto profissional. ` A supervisão é a expressão da unidade entre teoria e prática: é um processo metodológico dialético no qual teoria e prática são inseparáveis. É a partir do referencial teórico que se constrói alternativas e respostas profissionais para o enfrentamento das situações postas como problemas da realidade social. ` A supervisão não pode ser compreendida desvinculada de seus componentes teórico, ético e político: trata-se da compreensão do significado social do serviço social na coletividade brasileira, de um projeto profissional que estabelece conexão aos demais projetos de sociedade. ` A supervisão não pode ser realizada, independentemente das características das políticas sociais e das formas de prevenção das expressões da questão social adotadas pelo Estado: é continuamente mediada pelas questões que particularizam as políticas sociais tanto em relação à educação superior, especialmente a supervisão de estagiários, quanto em relação às demais políticas sociais setoriais, por exemplo, nas modalidades de supervisão de políticas sociais, entidades, programas e projetos, equipe, assistentes sociais e estagiários. ` Na supervisão se realiza a unidade entre ensino e aprendizagem: o objeto de conhecimento é realidade social dinâmica com suas situações concretas. Ensinar e aprender se apresentam como experiências indissociáveis do processo de supervisão que no estágio tomam forma na relação entre supervisão acadêmica e de campo e supervisão profissional. Os sujeitos envolvidos na discussão sobre o exercício profissional são os estudantes, as equipes profissionais e os supervisores. Braga e Guerra (2009, p. 2) se referem à importância da super- visão como “atribuição sociopro- fissional” fundamental à forma- ção e à capacitação profissional e listam algumas modalidades de supervisão e pressupostos gerais a partir dos quais se deve partir. A realização da supervisão no serviço social no Brasil perpassa sua trajetória históri- ca. Quanto à supervisão aos projetos e aos programas sociais, vem adquirindo várias denominações, formas e conteúdo. As autoras Braga e Guerra (2009, p. 6) resgatam 69 3 Projeto de intervenção U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co esse processo histórico, afirmando que o referencial sobre o tema remonta às primeiras ações do serviço social na perspectiva da assistência técnica, que se vinculavam à orientação técnica e às entidades privadas de filantropia, na assistência e na orientação das obras sociais. Além de orientação, a supervisão também exercia controle e fiscali- zação sobre essas entidades. Na década de 1960, no processo desenvolvimentista do país, houve a ampliação das instituições sociais. A supervisão era denominada como assistência técnica em serviço social nas modalidades de assessoria, consultoria, supervisão e orientação, como parte das estratégias dos organismos internacionais (ONU, OEA, CEPAL, entre outros) de eliminar os obstáculos à mudança e ao desenvolvimento, cuja perspectiva foi da fis- calização e do controle dos programas, visando à sua eficácia e eficiência. A profissão passou a ter dimensão política, ampliando suas funções para exercer a administração e o planejamento no âmbito das políticas sociais (BRAGA; GUERRA, 2009, p. 8). A segunda metade dos anos de 1970, com o contexto político de crise da ditadura mi- litar e da autocracia, rumo ao processo de democratização e à construção de um novo projeto profissional do serviço social, diante da incorporação de referenciais críticos das ciências sociais e dos temas relativos às lutas sociais, o modelo burocrático da assis- tência técnica ou da supervisão foi questionado. A incorporação do controle social na perspectiva democrática de atendimento às demandas da classe trabalhadora passou ser a direção presente na construção do projeto ético-político profissional. Autocracia é uma forma autoritária de governo em que o poder político estatal se concentra em um único governante. Ela perdurou por mais de duas décadas no Brasil, entre os anos de 1960 e 1980, período em que foi instaurada a ditadura militar. A supervisão em serviço social acompanha os contextos sociopolítico-econômicos bra- sileiro, e sua direção pode adotar uma perspectiva dependente controladora ou eman- cipadora e de autonomia dos sujeitos. A nosso juízo, a supervisão, seja ela de projetos, programas e políticas so- ciais e de equipes/assistentes sociais e estagiários, é atravessada pelas contradições da realidade social, na qual encontra-se inserida a instituição e os sujeitos sociais e políticos. Nela comparecem um conjunto de interesses e de demandas divergente e, muitas vezes, antagônico. Com base nessa premissa, entendemos que a supervisão pode adotar uma perspectiva con- trolista ou emancipadora, ou seja, pode ser realizada na direção da demo- cratização das decisões e da emancipação política dos sujeitos. (BRAGA; GUERRA, 2009, p. 11) Assim, a supervisão passou a ter um caráter formativo, exigindo qualificação teórico- -metodológica dos profissionais, embasados em uma teoria social-crítica e de pesquisa acerca da realidade social, da vida dos sujeitos e das instituições, postura investigativa e propositiva de ações, estratégias e alternativas direcionadas aos profissionais ou às GLOSSÁRIO 70 Exercício profissional do assistente social e o estágio supervisionado 3 equipes supervisionadas. Trata-se de um viés político da supervisão, embasada na relativa autonomia profissional (BRAGA; GUERRA, 2009, p. 12-13). 3.1. SUPERVISÃO DE ESTÁGIO A supervisão direta de estágio é privativa de assistentes sociais, conforme disposto na Leiclasse trabalhadora, frente aos impactos desse sistema no processo de dominação e de exploração vivenciados por esta. A gênese das desigualdades sociais tem explicação no sistema capitalista, que surgiu no século XV com o advento da crise do feudalismo na Europa Ocidental. Esse sistema organizava-se como um projeto de acumulação de capital, ou seja, promovia o aumento e a concentração da riqueza de uma classe em detrimento e submissão de outra. No capitalismo, o trabalho “transfere e cria valor”, sendo considerado um elemento característico ao cotidiano dos trabalhadores, por isso está presente nas relações sociais e na luta travada historicamente pela classe trabalhadora. O trabalho fundou a sociabilidade humana. Com o passar dos séculos, ele não deixou de ser fundamental para a reprodução da vida humana. [...] o trabalho continua a ser o eixo fundamental da sociabilidade humana; a dimensão capaz de criar uma natureza humana, isto é, a atividade capaz de nos tornar seres portadores de uma natureza diversa da dos outros seres naturais. (GRANEMANN, 2009, p. 3) De acordo com Antunes (2008, p. 2-3), os indivíduos, ao mesmo tempo que transformam a natureza, transformam a si mesmos, ao passo que convertem o trabalho em “elemento central do desenvolvimento da sociabilidade humana”. Mas, se por um lado, podemos considerar o trabalho como um momento fundante da vida humana‚ ponto de partida no processo de humanização, por outro lado, a sociedade capitalista o transformou em trabalho assalariado, alienado, fetichizado. O que era uma finalidade central do ser social converte-se em meio de subsistência. A força de trabalho torna-se uma mercadoria, ainda que especial, cuja finalidade é criar novas mercadorias e valorizar o capital. Converte-se em meio e não primeira necessidade de realização humana. (ANTUNES, 2008, p. 3) Na sociedade do capital, o capitalista expropria do trabalhador parte do que lhe deveria ser pago, denominado por Marx como a “mais valia”. De acordo com Granemann (2009, p. 15), se antes ele produzia para manter as neces- sidades, sua subsistência, nesse modelo ele passa a produzir voltado para uma lógica de gerar lucro a quem detém os meios de produção. Assim, a força de trabalho do trabalhador nessa relação torna-se uma mercadoria. Segundo a autora, é esta a sociabilidade possível no modo capitalista. Figura 01. Pirâmide da classe de trabalho Fo nt e: 1 23 R F. 8 1 O Serviço Social na contemporaneidade Veja sobre o processo de produção do capital e Teoria da mais valia em: ` MARX, Karl. Livro 1: O processo de produção do capital. In: O Capital – crítica da economia política. 12. ed. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1988. v. I. ` MARX, Karl. Livro 1: O processo de produção do capital. In: O Capital – crítica da economia política. 12. ed. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1988a, v. II. ` MARX, Karl. Livro 2: O processo de circulação do capital. In: O Capital – crítica da economia política. 5. ed. São Paulo: Difel, 1987, v. III. ` MARX, Karl. Teorias da Mais Valia – história crítica do pensamento econômico. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980. Figura 02. Exploração do trabalhador Fo nt e: 1 23 R F. O modo como o processo de produção se organiza estabelece a dominação e a exploração do homem pelo homem, especialmente pelo capitalismo, gerando classes antagônicas e desigualdades sociais. Pelo fato de existir força de trabalho disponível para o mercado, essa lógica situa os trabalhadores em condição de subordinação ao capital que, por sua vez, aproveita-se de sua situação desfavorável para a prática da exploração. Aqueles que não conseguem inserção no mercado de trabalho necessitam recorrer às políticas sociais (TAVARES, 2009, p. 17). No marxismo, as classes sociais são integradas por sujeitos coletivos e compõem a estrutura do sistema capitalista. Na análise de Frederico (2009, p. 1-2) sobre o marxismo, o desenvolvimento da sociedade capitalista estabelece confronto permanente entre duas classes: a dos proprietários dos meios de produção e a dos trabalhadores assalariados. A explicação sobre o processo de dominação e exploração da classe trabalhadora no sistema capitalista só é possível por meio de uma teoria social crítica, identificada neste sentido na teoria marxista ao revelar as consequências e os impactos para os trabalhadores, sendo sua pauperização e sua condição de dominados e explorados. Marx compreendeu o essencial e dele extraiu as tendências e as leis gerais da ordem capitalista. A partir daí, apreendeu as categorias da rea- lidade, as quais permanecem atuais, na medida em que o fim capitalista continua sendo acumular. Em sendo assim, as mesmas categorias toma- das por Marx para compreender a sociedade capitalista do século XIX nos permitem, hoje, compreender as desigualdades sociais do século XXI. (TAVARES, 2009, p. 3) SAIBA MAIS 9 1 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Projeto de intervenção SAIBA MAIS A questão social expressa um conjunto de desigualdades econômicas, políticas, sociais e culturais e da pobreza crescente resultante da contradição capital/trabalho às quais está exposta a classe trabalhadora. Ela está inscrita no processo de produção e de reprodução das relações sociais, no desenvolvimento do capitalismo e na consolidação da classe burguesa. Assim como se inscreve no empreendimento da luta da classe operária frente ao processo de sua pauperização e nesse contexto, impõe a necessidade da intervenção do Estado frente ao atendimento das necessidades da classe trabalhadora. Esse processo é constitutivo da sociedade capitalista que estabelece a contradição entre o proletariado e a burguesia. [...] para explicitar o que se entende como questão social. Em primeiro lugar, vale lembrar que está na base do trabalho teórico presente na crí- tica da economia política empreendida por Marx, com a colaboração de Engels, a perspectiva de desvelar a gênese da desigualdade social no capitalismo, tendo em vista instrumentalizar sujeitos políticos – tendo à frente o movimento operário – para sua superação. Esse processo, diga- -se, a configuração da desigualdade e as respostas engendradas pelos sujeitos a ela, se expressa na realidade de forma multifacetada como questão social. (BEHRING; SANTOS, 2009, p. 5) Somente com atitude investigativa e crítica e com base no movimento histórico da sociedade e da realidade social é que se pode apreender a questão social, desvencilhando do senso comum e de abordagens funcionalistas das expressões da questão social, especialmente na contemporaneidade. De acordo com Behring (2008 apud BEHRING, 2009, p. 7-8), a apreensão da questão social deve incorporar os componentes de resistência e de ruptura presentes nas formas de enfrentamento dela, pois considera o conceito impregnado de luta de classes, sem o que se pode recair em uma política social de controle sobre os trabalhadores pobres, e não de viabilização de direitos. A profissionalização do Serviço Social deve se traduzir em especialização do trabalho coletivo e está intrinsicamente articulada ao surgimento da questão social, como já sinalizado, no período do desenvolvimento do capitalismo, quando o movimento operário já se colocava como classe “para si” (BEHRING, 2009), buscando estratégias de resistência e de luta para a superação da sociedade capitalista. Apenas a consciência de classe, sobre sua condição de dominada e explorada, pode travar a luta e superar o sistema capitalista. Figura 03. Desigualdade social Fo nt e 12 3R F. 10 1 O Serviço Social na contemporaneidade SAIBA MAIS 1.2. Desenvolvimento capitalista no Brasil e a questão social É importante entender o desenvolvimento do capitalismo e da luta de classes em cada sociedade. No Brasil, o processo de industrialização pós-abolição da escravatura foi marcado pela exclusão social de grupos sociais e pelas desigualdades instauradas na formação da nossa naçãode Regulamentação da Profissão nº 8.662/1993. A crise do capital tem impactos nos processos de trabalho com alteração nas relações de trabalho e na precarização dos trabalhadores. Essa face se revela nos formatos dos contratos de trabalho temporários ou por tempo determinado, na redução da jornada de trabalho com redução de salário, baixos salários, duplo vínculo trabalhista e baixos salários, entre outros. Para assistentes sociais o quadro não é diferente, e especificamente no processo de formação profissional, traz rebatimentos nos estágios supervisionados e nos proces- sos de supervisão. A lógica do mercado também atravessa o campo da supervisão de estágio ao prescindir da lógica pedagógica da formação. Figura 06. Por que? Quem? Qual? Quando? Onde? O que? ? ? ? ? ? ? Por que? Quem? Qual? Quando? Onde? O que? Fonte: 123RF. Essas são algumas das problematizações sobre as lógicas que polarizam a supervisão de estágio e que, de acordo com Braga e Guerra (2009, p. 18), colaboram para que a prática de estágio seja reduzida a: 1) execução de tarefas conferidas institucionalmente ao aluno, presta- ção de serviços, execução de atividades meio para solucionar problemas institucionais; 2) lócus de articulação, ou pior, de aplicação da teoria na prática; 3) espaço de repetição das ações realizadas pelos assistentes sociais; 4) ações voltadas para secretariar o assistente social. (BRAGA; GUERRA, 2009, p. 18) 71 3 Projeto de intervenção U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Em relação ao processo de ensino-aprendizagem no campo de estágio, a autora Bu- riolla (2003) afirma que se constituiu como um momento privilegiado. Para Buriolla (2003), o processo de ensino-aprendizagem desenvolvidos no cam- po de estágio, deve compreender a supervisão como um momento privilegiado. Todavia, muitas vezes o que se observa no processo de estágio acaba sendo posturas de caráter instrumental, desconfigurando sua objetividade. Guerra e Bra- ga (2009, p. 19) afirmam que essa atitude tem levado supervisores a referenciar o estágio como “prestação de serviços” e não como um momento privilegiado da formação profissional. (BURIOLLA, 2003 apud OLIVEIRA; SANTOS, 2019, [n. p.]) De acordo com as autoras, essas requisições não têm sido objeto de questionamento pelos estudantes, uma vez que a procura pelo estágio com possibilidades de remune- ração tem sido alvo de disputa por eles, em função do desemprego e da situação de pauperização às quais estão submetidos enquanto classe trabalhadora. Outra questão relevante para a discussão se refere à ausência da articulação entre uni- dade de ensino e campo de estágio, que pode ser consequência do desconhecimento das diretrizes por parte dos supervisores, da ausência de capacitação e da concepção da supervisão como uma prática da vontade dos assistentes sociais. O estágio é o processo privilegiado em que o aluno adquire a capacidade de análise e de observação da problematização das questões da realidade social apresentadas no campo, relativas às desigualdades estruturais de gênero, étnico-raciais e de classe social que produzem violências. O processo de supervisão possibilita aos estagiários entender os limites e as possibi- lidades visualizados, frente aos desafios presentes nos espaços sócio-ocupacionais postos para a intervenção profissional. 3.2. AS ATRIBUIÇÕES DOS ENVOLVIDOS NO PROCESSO DE ESTÁGIO As unidades de ensino e os campos de realização do estágio supervisionado são espaços privilegiados para reflexões, problematizações e busca de respostas, contribuindo para a formação de um perfil profissional investigativo, crítico e propositivo (CRESS, [s. d.], p. 9). Quadro 01. Sujeitos envolvidos no estágio e suas atribuições SUJEITO ENVOLVIDO ATRIBUIÇÃO Coordenador de estágio ` Esfera de organização e gestão da política de estágio, indicando a necessidade de todas as unidades de formação acadêmica terem essa instância fundamental para o encaminhamento do estágio com qualidade. ` Atua articulada às coordenações de curso ou departamentos, de modo a viabilizar as demandas de qualificação do estágio como elemento central da formação profissional. 72 Exercício profissional do assistente social e o estágio supervisionado 3 Fonte: adaptado de CRESS ([s. d.], p. 9-10). SUJEITO ENVOLVIDO ATRIBUIÇÃO Estagiário ` Sujeito investigativo, crítico e interventivo inserido no processo de orientações éticas e legais de ensino-aprendizagem, a quem cabe conhecer e compreender a realidade social. ` Deve atuar construindo coletivamente conhecimentos e experiências que solidifiquem a qualidade de sua formação, mediante o enfrentamento de situações presentes na ação profissional, identificando as correlações de forças, os sujeitos e as contradições da realidade social. Supervisor de campo ` Assistente social, a quem cabe a inserção, o acompanhamento, a orientação e a avaliação do estudante no campo de estágio, em conformidade com o plano de estágio elaborado em consonância com o projeto pedagógico e com os programas institucionais vinculados aos campos de estágio. Supervisor(a) acadêmico ` Assistente social, a quem cabe orientar os estagiários e avaliar seu aprendizado, em constante diálogo com o supervisor de campo, visando à qualificação do estudante durante o processo de formação e de aprendizagem da dimensão técnico- operativa, alicerçada nos aspectos teórico- metodológico e ético-político da profissão, em conformidade com o plano de estágio. Todos esses sujeitos compõem uma dimensão educativa cujos limites se apresentam no cotidiano do processo de supervisão. Daí a importância do fórum de supervisão, um espaço político de interlocução desses sujeitos com vistas a compor estratégias de superação dos limites e defesas da qualidade da formação. A dimensão educativa é um espaço contraditório que também possibilita ao assistente social, profissional e estagiário, construir e mediar a expressão de si mesmo como indivíduo social. Vale lembrar ainda que os limites do fazer profissional independem da vontade política dos sujeitos profissionais. São determinações que se apresentam nas relações de trabalho, nas condições institucionais do mercado de trabalho, bem como em dimensões sociais que perpassam e conformam a esfera da formação profissional. Por fim, esses limites alteram as condições nas quais se estabelecem os projetos de forma- ção e a disputa pela sua materialização. (NICOLAU; SANTOS, 2016, p. 386) 73 3 Projeto de intervenção U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co As unidades de ensino devem apoiar e, mais do que isso, propor o fórum de supervisão, possibilitar e estimular a participação dos supervisores de campo. Constituem algumas das finalidades do fórum: Figura 07. Conceito de trabalho em equipe Fonte: 123RF. ` Fortalecer o estágio como momento estratégico de formação dos assistentes sociais; ` Propiciar espaço político-pedagógico de formação dos supervisores; ` Proporcionar a organização dos profissionais para o enfrentamento das questões relati- vas à formação e ao exercício profissional; ` Fomentar a discussão sobre o estágio em Serviço Social, tomando como referências formais: as diretrizes curriculares em vigor, a Lei de regulamentação da profissão, o Código de Ética Profissional, a legislação nacional referente a estágio, a Resolução CFESS nº 533/2008, o parecer jurídico nº 012/98 da assessoria jurídica do CFESS e a Política Nacional de Estágio; ` Contribuir para o aprimoramento do processo de formação profissional; ` Tratar e encaminhar questões que envolvam a dimensão ética do estágio, prevendo respos- tas coletivas às situações corriqueiras. (ABEPSS, 2010, p. 36 apud CRESS, [s. d.], p. 28-29) 74 Exercício profissional do assistente social e o estágio supervisionado 3 OBJETO DE APRENDIZAGEM Figura 08. Tempo para aprender o conceito Fonte: 123RF. Reflita sobre o estágio como dimensão educativa, sendo uma das expressões daprá- tica social do assistente social, vinculado ao projeto ético-político profissional; sobre formação e o exercício profissional e a indissociabilidade entre ambos; sobre a pro- posta de estágio e a sua lógica curricular: a superação da fragmentação do processo de ensino e aprendizagem. CONCLUSÃO A supervisão de estágio se constitui como espaço privilegiado da profissão no que tan- ge à formação teórico-prática e ético-política. A crise do capital intrínseca ao sistema capitalista impõe uma lógica de mercado e vem alterando a esfera das políticas socais, as relações de trabalho e suas condições postas no cotidiano. Altera também as condi- ções de estágio e o processo de supervisão. Há limites e desafios cotidianos postos no processo de supervisão, sendo um dos maiores o de propagar o projeto ético-político do serviço social brasileiro, construído coletivamente pela categoria e que exige posturas crítica e ético-políticas sobre fazer profissional – em um cotidiano que tem se revelado avesso aos direitos sociais. (LEWGOY, 2013, p. 68). Assim, o estágio supervisionado deve se constituir em um espaço que possibilite a reflexão crítica das ações profissionais, que capacite estudantes para desenvolver um processo investigativo sobre os determinantes sociopolítico-culturais que se põem nas vidas dos sujeitos, sua análise crítica dessa realidade e o desenvolvimento de capa- cidade argumentativa, a fim de construir e renovar o instrumental técnico-profissional (BRAGA; GUERRA, 2009, p. 20). Conhecimento Capacita Você 75 3 Projeto de intervenção U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co PARA REFLETIR [...] falar da supervisão direta de estágio implica em abrir um campo de reflexão e de debate em que estágio e supervisão figurem como ações e relações intrínsecas ao saber-fazer do serviço social. [...] Deste modo, pode-se confirmar a complexidade que a envolve, pois diz respeito ao fato de que formação e exercício profissional estão imersos em um conjunto de relações sociais, o que faz com que sua compreensão não deva se esgotar em seu sentido estrito do fazer cotidiano. (CFESS, [s. d.], p. 7) 76 Exercício profissional do assistente social e o estágio supervisionado 3 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENSINO E PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL – ABEPSS. Política Nacional de Estágio da Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social – ABEPSS, Brasília, 2010. Dis- ponível em http://www.cfess.org.br/arquivos/pneabepss_maio2010_corrigida.pdf. Acesso em: 23 fev. 2022. BRAGA, Maria Elisa; GUERRA, Yolanda. Supervisão em Serviço Social. In: Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS); Conselho Federal de Serviço Social (CFESS) (org.). Serviço Social: Direitos sociais e competências profissionais. Brasília: CFESS/ABEPSS, 2009, p. 1-25. Disponível em: cres- srn.org.br/files/arquivos/46m757L928C08m9UzW7b.pdf. Acesso em: 7 dez. 2021. BRASIL. Lei n º 8.662, de 7 de junho de 1993. Dispõe sobre a profissão de Assistente Social e dá outras providências. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8662.htm. Acesso em: 19 nov. 2021. BRASIL. Lei nº 11.788, de 25 de setembro de 2008. Dispõe sobre o estágio de estudantes; altera a redação do art. 428 da Consolidação das Leis do Trabalho – CLT, aprovada pelo Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943, e a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996; revoga as Leis n. º 6.494, de 7 de setembro de 1977, e 8.859, de 23 de março de 1994, o parágrafo único do art. 82 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, e o art. 6º da Medida Provisória nº 2.164-41, de 24 de agosto de 2001; e dá outras providências. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2008/lei/l11788.htm. Acesso em: 11 dez. 2021. CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL – CFESS. Resolução CFESS nº 273/93. Institui o Código de Ética Profissional do/a Assistente Social e dá outras providências. Brasília: Conselho Federal de Serviço So- cial, 2012. Disponível em: http://www.cfess.org.br/arquivos/CEP_CFESS-SITE.pdf. Acesso em: 22 nov. 2021. CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL – CFESS. Resolução CFESS nº 533, de 29 de setembro de 2008. Regulamenta a supervisão direta de estágio no Serviço Social. Disponível em: http://www.cfess.org.br/ arquivos/Resolucao533.pdf. Acesso em: 22 nov. 2021. CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL – CFESS. Meia formação não garante um direito. O que você precisa saber sobre a supervisão direta de estágio em Serviço Social. [S. l.]: CFESS, [s. d.]. Disponível em: http:// www.cfess.org.br/arquivos/BROCHURACFESS_ESTAGIO-SUPERVISIONADO.pdf. Acesso em: 8 dez. 2021. CONSELHO REGIONAL DE SERVIÇO SOCIAL (RJ) – CRSS. O que você precisa saber sobre estágio em Serviço Social? Orientações éticas e legais. Rio de Janeiro: Conselho Regional de Serviço Social, [s. d.], Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.cressrj.org.br/wp-content/uploads/2020/05/cartilhas-o-que-voce-preci- sa-saber-sobre-estagio-em-servico-social-orientacoes-eticas-e-legais.pdf. Acesso em: 8 dez. 2021. GUERRA, Yolanda. A Instrumentalidade no trabalho do Assistente Social. Cadernos do Programa de Ca- pacitação Continuada para Assistentes Sociais. Capacitação em Serviço Social e Política Social. Módulo 4: O trabalho do assistente social e as políticas sociais. Belo Horizonte: CFESS/ABEPSS- UNB, 2007. Disponível em: http://www.uel.br/cesa/sersocial/pages/arquivos/GUERRA%20Yolanda.%20A%20instrumentalidade%20 no%20trabalho%20do%20assistente%20social.pdf. Acesso em: 23 fev. 2021. LEWGOY, Alzira Maria Baptista. O estágio supervisionado em serviço social: desafios e estratégias para a ar- ticulação entre formação e exercício profissional. Temporalis, Brasília, ano 13, n. 25, p. 63-90, jan./jun. 2013. Disponível em: https://periodicos.ufes.br/temporalis/article/view/4850. Acesso em: 11 dez. 2021. 77 3 Projeto de intervenção U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co NICOLAU, Maria Célia Correia; SANTOS, Tássia Rejane Monte. O estágio no processo da formação pro- fissional em Serviço Social: dimensão socioeducativa e os desafios à contracorrente. Revista Katálysis, Florianópolis, vol. 19, n. 3, p. 380-388, out./dez. 2016. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rk/a/9PSWXy3t- S3FCSkgV9sk6PzR/?lang=pt. Acesso em: 11 dez. 2021. OLIVEIRA, Marcelo Nascimento de Oliveira; SANTOS, Ilza Martins. Estágio Supervisionado em Serviço So- cial: desafios à formação profissional na contemporaneidade. In: CONGRESSO PARANAENSE DE ASSIS- TENTES SOCIAIS: “O trabalho do/a assistente social em tempo de retrocessos: defesa de direitos e lutas emancipatórias”, 7, 2019, Ponta Grossa. Anais [...]. Ponta Grossa: CRESS/PR, 2019. 78 O projeto de intervenção como instrumental do serviço social 4 UNIDADE 4 O PROJETO DE INTERVENÇÃO COMO INSTRUMENTAL DO SERVIÇO SOCIAL INTRODUÇÃO A presente unidade abordará o projeto de intervenção como instrumental do serviço social. Trata-se de instrumentos do fazer profissional nos diferentes espaços sócio-ocu- pacionais da atuação profissional dos assistentes sociais. A utilização desse instrumental pela categoria, faz com que o trabalho pro- fissional se qualifique permanentemente, pois favorece o acompanhamento das ações; sua avaliação, não só do ponto de vista dos resultados institucio- nais esperados, mas dos compromissos profissionais construídos. (SALVA- DOR, 2018, p. 4). Nesse sentido, o grupo é uma importante ferramenta do trabalho coletivo que possibilita espaços de reflexão acerca dos problemas e das dificuldades sociais presentes no co- tidiano das famílias e que devem encontrar respostas coletivas que visem à conquista de direitos e de mudança social. A no primeiro tópico iremos apresentar o grupo como instrumento de intervenção profissional do serviço social e o acompa- nhamento grupal como ação socioeducati- va. Já no segundo abordaremos o serviço social e o trabalho com grupos, contextu- alizando o histórico e a intervenção do as- sistente social no trabalhocom grupos no processo de renovação do serviço social. Por fim no terceiro tópico serão apresen- tadas algumas metodologias do trabalho com grupos, como dinâmicas, organiza- ção de fóruns, conferências e oficinas. 1. O GRUPO COMO INSTRUMENTO DE INTERVENÇÃO PROFISSIONAL DO SERVIÇO SOCIAL O grupo como instrumento de intervenção profissional do serviço social situa-se no caráter pedagógico da intervenção do assistente social. Historicamente, as práticas educativas coletivas desenvolvidas pelos assistentes sociais têm a finalidade de seu controle pela classe dominante “para a obtenção da adesão e do consentimento dos Figura 01. Quebra-cabeça de formação com a palavra Project Fo nt e: 1 23 R F. 79 4 Projeto de intervenção U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co processos de produção e reprodução social ligados à exploração econômica e à domi- nação político-ideológica sobre o trabalho”. Essa concepção vai mudando gradativa- mente, conforme a profissão passa pelo processo de renovação. Na atualidade, as práticas educativas são vinculadas ao compromisso com a perspectiva emancipatória da classe trabalhadora, balizada pelo projeto ético-político profissional do serviço social consolidado nos anos de 1980 e 1990 (ABREU; CARDOSO, 2009, p. 1). Portanto, no momento em que a profissão se redefine a partir do paradigma crítico-dialético e constrói seu projeto ético-político, firma-se um novo princí- pio educativo. Esse coloca em movimento, [...] uma “pedagogia emancipa- tória” que, no contexto do processo histórico, visa a contribuir para subverter a maneira de pensar e de agir dos homens enquanto totalidade histórica e assim subverter a ordem intelectual e moral estabelecida no capitalismo. (MIOTO, 2009, p. 2). 1.1 O ACOMPANHAMENTO GRUPAL COMO AÇÃO SOCIOEDUCATIVA De acordo com Mioto e Lima (2009, p. 15), as ações profissionais e a intervenção no ser- viço social devem ter como parâmetro a dimensão técnico-operativa, que é compreendida como o espaço entre o projeto ético-político profissional e as respostas às demandas postas no cotidiano dos assistentes sociais nos diversos espaços sócio-ocupacionais. [...] implica destacar categorias que possibilitem realizar esse trânsito. Pro- põe-se então, neste trabalho, adotar a ação profissional como o vetor fun- damental para o desvelamento dos processos do fazer profissional. Sua eleição vincula-se ao entendimento de que a ação é a menor unidade de análise, e, ao mesmo tempo, condensa todas as dimensões constitutivas do exercício profissional. (MIOTO; LIMA, 2009, p. 15) Entende-se por ação socioeducativa o conjunto de atividades de caráter dialógico e participativo. São ações planejadas, orientadas aos objetivos do serviço social e co- nectadas ao conjunto de outras ações desenvolvidas nos processos socioassistenciais, de planejamento e gestão e dos processos político-organizativos (MIOTO, 2009, p. 9). Essas atividades podem ser realizadas em grupos de várias naturezas e finalida- des, como socioeducativos, de convivên- cia familiar, entre outros, além de oficinas e campanhas. Além disso, elas são muito comuns na Política de Assistência Social e têm por objetivo desenvolver o processo educativo com propostas construídas pelo conhecimento e pela análise crítica da re- alidade social vivenciada pelos usuários. A dimensão educativa é intrínseca ao serviço social, e a partir da instalação do pensa- mento crítico no interior da profissão, por meio da construção do projeto ético-político, também “firma-se um novo princípio educativo” (MIOTO, 2009, p. 499 apud MOREIRA, 2015, p. 86). Figura 02. Atividades socioeducativa Fo nt e: 1 23 R F. 80 O projeto de intervenção como instrumental do serviço social 4 Moreira (2015, p. 86) se refere a Iamamoto (2008), a Abreu (2002) e a Vasconcelos (1997) como autoras que situam o serviço social no bojo do processo de reprodução material e social da classe trabalhadora, onde a dimensão so- cioeducativa das ações profissionais, mediatizadas pelas políticas sociais, apresenta-se inscrita no campo político-ideológico no que tange à obtenção/ superação do consenso. (MOREIRA, 2015, p. 86) As ações socioeducativas são realizadas junto aos usuários nos espaços sócio-ocupacio- nais de atuação dos assistentes sociais, especialmente na Política de Assistência Social, e devem estar articuladas ao processo emancipatório dos grupos e indivíduos que os permita apreender de forma crítica e consciente a realidade social com vistas à sua mudança. Por outro lado, requer o rompimento com a lógica tradicional e conservadora da profissão, de caráter disciplinador, calcado nos objetivos institucionais e em respostas imediatas e frag- mentadas às necessidades da população, requisitadas pelo sistema capitalista. O serviço social influenciou Paulo Freire e foi influenciado por sua obra, no que se re- fere às ações socioeducativas, no sentido de ação cultural utilizada por Freire (LIMA; CARLOTO, 2009, p. 128). As autoras destacam a concepção educativa na perspectiva crítica de Paulo Freire, questionadora das relações de dominação, na qual “o educador é o que sabe; o que pensa; o que o que disciplina; [...] o sujeito do processo”, enquanto os educandos são “meros objetos”. Em contraposição a essa forma de educação ele propõe a educação (ou ação cultural) problematizadora, libertária, que tem como pressupostos a humanização de ambos, educador e educando, o pensar autêntico, e, não, educação como doação, como entrega do saber. Isso prevê o companhei- rismo de ambos, educador e educando. Isto implica num que fazer, conceito que representa a união entre teoria e a prática, reflexão e ação. (LIMA; CAR- LOTO, 2009, p. 129). Uma das abordagens mais utilizadas na esfera das ações educativas é a grupal. As ações em grupo são fundamentais porque a reunião de pessoas possibilita espaços de reflexão coletiva por meio do processo educativo. Figura 03. Grupo multiétnico de pessoas e conceito de atividade Fonte: 123RF. 81 4 Projeto de intervenção U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co O grupo socioeducativo é um espaço fortalecido para a fala, a escuta, as trocas e a expo- sição de dificuldades coletivas e de reconhecimento de potencialidades para a articulação e a mobilização, com vistas ao alcance de resolução dos problemas sociais coletivos. Escutar é obviamente algo que vai mais além da possibilidade auditiva de cada um. Escutar, no sentido aqui discutido, significa a disponibilidade per- manente por parte do sujeito que escuta para a abertura à fala do outro, ao gesto do outro, às diferenças do outro. Isto não quer dizer, evidentemente, que escutar exija de quem realmente escuta sua redução ao outro que fala. Isto não seria escuta, mas auto-anulação. A verdadeira escuta não diminui em mim, em nada, a capacidade de exercer o direito de discordar, de me opor, de me posicionar. (FREIRE, 2005b, p. 119 apud LIMA; CARLOTO, 2009, p. 137). O trabalho em grupo possibilita aos seus participantes a produção de um novo sentido e olhar para a situação apresentada, promovendo a transformação de questões individu- ais em vivências coletivas, ampliando conhecimento, com possibilidade de conhecer e se reconhecer de outras maneiras. Conforme aponta Moreira (2015), a motivação para o trabalho em grupo é muito diversificada e vai desde intervir junto ao um número maior de pessoas, até possibilitar aos participan- tes do grupo reflexões que permitam identificar que as questões que afligem a um indivíduo são semelhantes àquelas que atingem aos demais […] O tra- balho com grupos aparece assim como o intento de deslocar para o âmbito da coletivização questões que são comumente individualizadas (MOREIRA, 2015, p. 118 apud PEQUENO; TRINDADE; NOVAES, 2018, p. 3). O grupo é um instrumento educativo que possibilita a conscientização por meio do pro- cesso reflexivo. Nesse processo, as autoras se referem à manutenção do sujeito quanto ao momento do desvelar o mundo ao outro: aindaque no grupo ele inicie o esforço de desvelamento aos outros, “[...] é preciso que estes se tornem sujeitos do ato de desve- lar” (FREIRE, 2005a, p. 194 apud LIMA; CARLOTO, 2009, p. 136). Dois conceitos de Paulo Freire devem estar presentes no desenvolvimento das ações socioeducativas: autonomia e cidadania, cuja metodologia de abordagem está centra- da no diálogo. Por autonomia Freire compreende o processo gradativo de amadurecimento que ocorre durante toda a vida, propiciando ao indivíduo a capacidade de decidir e, ao mesmo tempo, de arcar com as conseqüências dessa decisão, assumindo, portanto, responsabilidades. Nas palavras do autor a autonomia, deve ser entendida enquanto amadurecimento do ser para si, é processo, é vir a ser. Não ocorre em data marcada. É neste sentido que uma peda- gogia da autonomia tem de estar centrada em experiências estimuladoras da decisão e da responsabilidade, vale dizer, em experiências respeitosas da liberdade. (2005b, p.121) Em relação a cidadania, termo citado e usa- do à exaustão nos planejamentos pedagógicos contemporâneos e de uso freqüente na PNAS/SUAS, Freire afirma que conceito vem casado com a concepção de participação, de ingerência nos destinos históricos e sociais do contexto onde se está. (LIMA; CARLOTO, 2009, p. 132) 82 O projeto de intervenção como instrumental do serviço social 4 O desenvolvimento de ações socioeduca- tivas requer a articulação das dimensões teórico‐metodológica e ético‐política na definição dos procedimentos operativos. Conforme Moreira (2015, p. 75), a operacio- nalização do exercício profissional a partir do uso de instrumentos e técnicas está vin- culada a algum referencial teórico e à com- preensão ético‐política do trabalho. Figura 04. Autonomia AUTONOMIA Fo nt e: 1 23 R F. [...] é importante assinalar que as ações socioeducativas se constituem como processos que se constroem e se reconstroem continuamente, não existindo modelos pré-definidos. Porém, para desenvolvê-las, é necessário estabelecer um alto grau de coerência entre a direção teórico-metodológica e ético-política e a definição dos objetivos e dos procedimentos operativos. Essa coerência é necessária à medida que são os procedimentos que dão materialidade às possibilidades de os sujeitos aprenderem novas formas de se relacionarem e se posicionarem na sociedade em que vivem (MIOTO, 2009, p. 12-13) É importante a compreensão por parte dos assistentes sociais sobre a articulação das dimensões da profissão, sem que uma se sobreponha à outra. Os instrumentos e as técnicas utilizados no fazer profissional estão repletos de conteúdo teórico-metodológi- co e não devem deixar de lançar mão dos aspectos ético-políticos. Guerra (2007, p. 168) constata que a tendência de atribuir-se aos instrumen- tos e técnicas um status maior do que àquele que é conferido aos demais componentes da ação profissional — como o seu significado ético-político e a direção social que é conferida à intervenção — acaba por encarar os ins- trumentos e as técnicas como algo independente, autônomo, descolando-os do projeto profissional e transformando “o que é acessório em essencial” (Ibidem, p. 169). (MOREIRA, 2015, p. 77) A proposição de ações socioeducativas com indivíduos, grupos e famílias requer: [...] em primeiro lugar conhecimento. Conhecimento do espaço sócio-ocupa- cional e do campo em que o assistente social está inserido. Os espaços sócio- -ocupacionais se organizam a partir de um conjunto de princípios e finalidades voltado, especialmente, à execução de determinadas políticas sociais. Estão estruturados dentro de um campo de proposições, recursos e diretrizes volta- das ao atendimento de determinadas necessidades/direitos de cidadania ou de determinados segmentos da população. Conhecer o espaço de trabalho implica ter informações sobre as postulações legais referentes a ele e às políti- cas sociais correspondentes, entender a dinâmica de organização e funciona- mento desses espaços e conhecer o próprio objeto de trabalho desse campo. Ou seja, compreender como se expressam nesses espaços os princípios e diretrizes das políticas sociais e o debate teórico-metodológico em torno de seu objeto (saúde, assistência social, educação). Assim, a qualificação técnica e teórica do assistente social possibilita, por um lado, um processo educativo (informação/reflexão) qualificado e resulta em análises fundamentadas des- IMPORTANTE 83 4 Projeto de intervenção U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co 2. O SERVIÇO SOCIAL E O TRABALHO COM GRUPOS: O HISTÓRICO E A INTERVENÇÃO DO ASSISTENTE SOCIAL NO TRABALHO COM GRUPOS Durante anos, o serviço social brasileiro teve como intervenção profissional os métodos de caso, grupo e comunidade sob influência do pensamento positivista junto aos seus agentes. [...] podemos perceber o quão presente a influência positivista esteve nas reflexões dos profissionais de Serviço Social sobre o tema em pauta durante a década de 1970 e mesmo em meados da década seguinte. O trabalho dos agentes de Serviço Social tinha como fim sempre o indivíduo, independen- temente das ações profissionais realizadas. O viés da ajuda circundava no- tadamente a lógica do trabalho dos então chamados “assistentes sociais de grupo” (CBCISS, ibidem, p. 57). Mas não uma “ajuda” nos moldes iniciais da nossa profissão, marcada por ações persuasivas e coercitivas. Tais ações deram lugar a uma ajuda menos autoritária, mas ainda norteadas por vieses conservadores. (MOREIRA, 2015, p. 66-67) De acordo com Moreira (2015, p. 68), a ação com grupos é algo antigo no exercício profissional do assistente social. O autor afirma que Zélia Torres (1977) cita que o primeiro trabalho de conclusão de curso realizado sobre grupos se deu no ano de 1955, na Escola de Serviço Social de Minas Ge- rais. A partir de 1968, as ações de grupo diversifi- caram‐se e passaram para o status de atividades que tinham por objetivos “facilitar as reflexões, o diálogo sobre assuntos complexos e controverti- dos e a melhor compreensão e aproveitamento da vivência social do outro” (TORRES, 1977 apud MOREIRA, 2015, p. 73). ses espaços. São essas que viabilizam o encaminhamento de ações para a desburocratização dos serviços e para a criação de espaços de gestão demo- crática, com participação dos usuários. As ações socioeducativas requerem também conhecimento das demandas/necessidades dos usuários, tanto nas suas singularidades, como no conjunto dos usuários ao longo do tempo (co- nhecimento cumulativo). Esse conhecimento se completa com as informações sobre o território onde vivem os usuários que buscam a instituição ou o servi- ço. (MIOTO, 2009, p. 9-10, grifo nosso) Figura 05. Trabalhos com grupo Fo nt e: 1 23 R F. 84 O projeto de intervenção como instrumental do serviço social 4 2.1 A INTERVENÇÃO DO ASSISTENTE SOCIAL NO TRABALHO COM GRUPOS NO PROCESSO DE RENOVAÇÃO DO SERVIÇO SOCIAL Para Moreira (2015), o processo de renovação do serviço social no Brasil, por meio do Movimento de Reconceituação da profissão no que se refere às dimensões teóri- co‐metodológicas, técnico‐operativas e ético‐políticas, significou a revisão do passado conservador em nossa profissão, mas sem realizar as mesmas mudanças no campo de seus aportes ténico-instrumentais. Já na atualidade, destaca a necessidade de “encarar esse desafio de ‘transitar da bagagem teórica acumulada ao enraizamento da profissão na realidade’ sem reduzir a discussão ao tecnicismo” (IAMAMOTO,2003, p. 52 apud MOREIRA, 2015, p. 83-84). Figura 06. Modelo de logotipo que representa crianças brincando juntas de mãos dadas em círculos, união de trabalhadores e reunião de funcionários Fonte: 123RF Esse processo de transformação pelo qual passou o Serviço Social em nosso país — e que teve como traço diferencial a apropriação da teoria social marxista no conjunto de suas elaborações profissionais — teve re- flexos diretos na cultura profissional e reaproximou os assistentes sociaisdas abordagens presentes na educação popular baseada na proposta pe- dagógica de Paulo Freire. O contato com o pensamento progressista do pedagogo recifense já havia se iniciado anos atrás (mais precisamente da segunda metade da década de 1950 até o golpe de 64), a partir da influ- ência de diversas organizações sociais, como, por exemplo, o Movimento de Educação de Bases (MEB), Centros Populares de Cultura (CPC) e o Movimento de Cultura Popular (MCP). Organizações estas que passam a ser sufocadas pelo golpe de 1964. A crise profissional que se dá a partir da década de 1970 é o terreno onde inscrevem-se os esforços no sentido da elaboração de um novo perfil pedagógico no Serviço Social. No bojo do Movimento de Reconceituação e com bases nas condições sócio-históricas 85 4 Projeto de intervenção U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co já experimentadas anos anteriores (onde se destaca o movimento pela Te- ologia da Libertação) gestam-se no trabalho do assistente social práticas pedagógicas que têm como elemento central a emancipação pelas classes subalternas (ABREU, 2002, p. 113). As políticas de caráter participacionista em modelos integrativos e subalternizantes passaram por questionamen- tos e foram sendo ultrapassadas, abrindo assim possibilidades para formas mais politizadas, críticas e conscientes de participação dos indivíduos. (MO- REIRA, 2015, p. 85) Quadro 01. Tendências do trabalho com grupos e a função pedagógica do assistente social Década de 1970 Buscou-se romper com o serviço social tradicional. A função pe- dagógica do assistente social e suas transformações seguem, ao longo da história, em consonância aos contextos sociopolíticos nos quais o serviço social se insere. Década de 1980 Os anos de 1980 significaram a restauração dos processos demo- cráticos. Contudo, os resquícios repressivos e autoritários do regime que se esgotara, a variação nas formas de enfrentamento da questão social por parte do Estado, a política desenvolvimentista em curso e as resistências dos setores organizados da classe trabalhadora requereram do serviço social redefinições operacionais adequadas funcionalmente ao projeto modernizador. Década de 1990 Essa década marcou a materialização dos fundamentos do projeto ético-politico profissional condensados em três dos mais importantes produtos de referência para o serviço social brasileiro: o Código de Ética Profissional de 1993, a Lei de Regulamentação da Profissão (Lei nº 8.662/1993) e as Diretrizes Curriculares de 1996. De acordo com Netto (1996b, p. 117), na segunda metade da déca- da de 1990, o serviço social estava marcado pela “agudização da luta ideopolítica” entre diferentes projetos profissionais existentes e “pelas demandas profissionais imediatas”. Fonte: adaptado de Moreira (2015, p. 86-88). Há a necessidade de se travar debates sobre as tendências atuais do trabalho com grupos e a função pe- dagógica do assistente social, considerando as necessidades postas pelas classes dominantes de (re)organização da cultura. Mesmo que as “novas” requisições postas ao assistente social lhe imponham a revisão e a atuali- zação das formas, técnicas e instrumentos de atuação, a preservação da funcionalidade da profissão exige-lhe a manutenção do conteúdo controlista e integrador. (GUERRA, 2007, p. 166 apud MOREIRA, 2015, p. 88) Mioto (2009 apud MOREIRA, 2015, p. 91) destaca que as ações socioeducativas com grupos (e também com indivíduos e famílias) ganham materialidade e legitimidade, ao passo que se inscrevem articuladamente aos processos de trabalho institucionais. 86 O projeto de intervenção como instrumental do serviço social 4 IMPORTANTE 3. TRABALHO COM GRUPOS: DINÂMICAS, SOCIODRAMA, ORGANIZAÇÃO DE FÓRUNS, CONFERÊNCIAS E OFICINAS O processo educativo se dá com a utilização de vários recursos que incorporam diversas técnicas, como dinâmicas de grupo, recursos audiovisuais, entre outras. De acordo com Mioto (2009, p. 12), a escolha da forma de abordagem, dos instrumentos e das técnicas a serem utilizadas dependem “dos objetivos propostos para ação, dos destinatários das ações, e das características das instituições e dos profissionais. Portanto, todo o seu percurso necessita de planejamento e avaliação sistemática.” (MIOTO, 2009, p. 12). Entretanto, existem desafios postos a serem enfrentados no fazer profissional: Para Mioto (2009), os principais dilemas e desafios a serem enfrentados são de duas grandezas: técnica e ética. A primeira diz respeito às dificulda- des de se construir processos educativos em situações, na maior parte das vezes, adversa, onde a urgência por “respostas rápidas” tem sido a tônica atual apresentada aos assistentes sociais. Quanto à ética, a autora refere-se aos dilemas que o próprio processo educativo impõe sobre a natureza das mudanças a serem realizadas, pois, questiona ela, até que ponto o respeito por valores que perpetuam a posição de subalternidade deve prevalecer? (MOREIRA, 2015, p. 94-95). 3.1 DINÂMICA DE GRUPO Segundo Torres (1985, p. 67), “a dinâmica de grupo surgiu nos EUA, no final da déca- da de 1930, como resultado de um desen- volvimento operado no interior de algumas profissões, sendo elas: psicologia, edu- cação, administração de empresas etc.”. A aplicação prática da dinâmica de grupo objetivava “facilitar a compreensão dos fe- nômenos sociais por parte dos membros que compunham o grupo, como ensinar às pessoas novos comportamentos através da vivência.” (1985, p. 67). Assim, a di- mensão pedagógica do trabalho do assis- tente social fica notadamente evidenciada (TORRES, 1985 apud MOREIRA, 2015, p. 67). A dinâmica de grupo é uma técnica profissional. De acordo com Moreira (2015, p. 75), os instrumentos são mediadores do trabalho que ganham significado quando postos em prática, com finalidade de alcançar determinado objetivo planejado. Há exigências profissionais postas aos assistentes sociais, como o conhecimento do espaço socio- -ocupacional de sua inserção, e se expressam os princípios e as diretrizes das políticas sociais, o conhecimento do perfil da população usuária e das suas demandas e a compreensão dos territórios onde vivem espaços de participação sociopolítica, assim como na própria rede de serviços. Figura 07. Dinâmica de grupo Fo nt e: 1 23 R F. 87 4 Projeto de intervenção U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Importante destacar a direção adotada na dinâmica de grupo, sendo encontradas perspectivas como as destacadas por Moreira, como a ausência de referência à re- flexão crítica que possibilite o questionamento ao pensamento positivista tradicional dominante, que remonta aos primórdios do desenvolvimento do trabalho com grupo (MOREIRA, 2015, p. 79). Para Vasconcelos (1997, p. 173 apud MOREIRA, 2015, p. 94), as dinâmicas de grupo, dependendo de como são encaminhadas, podem ter efeitos negativos para o trabalho, e cita casos em que os participantes do grupo não têm clareza dos objetivos das ativi- dades, fazendo com que eles se sintam constrangidos. Além disso, chama a atenção para outra dimensão em que as dinâmicas podem ser orientadas “a partir de uma ação pedagógica de cunho subalternizante ou através de uma intervenção socioeducativa de caráter emancipatório” (MOREIRA, 2015, p. 94) Questionamos a utilização de dinâmicas de grupo como mero instrumento para movimentação, motivação, esclarecimentos, alívio de tensão, quando não sim- plesmente como controle dos grupos. Por outro lado, quando os grupos popu- lares fazem uso das dinâmicas de grupo nas e para suas lutas, elas podem se traduzir em instrumentos riquíssimos por possibilitar diferentes formas de parti- cipação, aparecimento das semelhanças e diferenças nas relações sociais: da solidariedade ao egoísmo, da subserviência à rebeldia, produzindo conteúdo a serem analisados pelos envolvidos no processo. A utilização das dinâmicas nes- sa direção depende diretamente dos objetivos a serem alcançados e da forma como sãoutilizadas pelos diferentes profissionais [...] no trabalho com grupos. (VASCONCELOS, 1997, p. 178 apud MOREIRA, 2015, p. 94) Mioto apresenta a necessidade de reflexões sobre a dinâmicas de grupo. Sob o prisma da dimensão socioeducativa, Moreira acredita que as ações pedagógicas de perspecti- va emancipatória apresentam “significativo potencial para trabalhar os valores subalter- nizantes do senso comum” trazidos pelos usuários, e é por meio de intervenções que possibilitam aos sujeitos a elaboração de reflexões críticas “e, como isso, a identificação de contradições que esses valores são minados e abrem-se as possibilidades para construção de outros de nova ordem.” (MOREIRA, 2015, p. 95). 3.2 OFICINAS Oficinas podem ser realizadas em diversos espaços sócio-ocupacionais de atuação de assistentes sociais. Aqui abordaremos a oficina com famílias na Política de Assistência Social, no âmbito do Serviço de Proteção e Atendimento Integral à Família (PAIF). Consistem na realização de encontros previamente organizados, com objeti- vos de curto prazo a serem atingidos com um conjunto de famílias, por meio de seus responsáveis ou outros representantes, sob a condução de técnicos de nível superior do CRAS. A opção de se trabalhar com um conjunto de famílias decorre da compreen- são de que as pessoas estão em contínuo processo de interação com o ou- tro. Por isso se afirma que o ser humano é relacional, necessita do diálogo, da participação e da comunicação. Nesse sentido, as pessoas passam a concretizar a sua existência produzin- do, recriando e realizando-se nas suas relações com o outro. Os membros familiares, portanto, se realizam no grupo familiar, ao passo que as famílias 88 O projeto de intervenção como instrumental do serviço social 4 se percebem nos contextos comunitários e territoriais em que estão inseri- das, ou ainda na interação com suas redes (que podem não estar no mesmo território). (BRASIL, 2012, p. 23-24) As oficinas com indivíduos e famílias têm por finalidade possibilitar espaço de reflexão so- bre temas de interesse das famílias, que perpassem seu cotidiano, como vulnerabilidades, riscos, discriminação, preconceito, violação de direitos, violência, entre outros, assim como a reflexão sobre vulnerabilidades, riscos e potencialidades identificadas no território. Alguns dos objetivos das oficinas com famílias são: ` Possibilitar o alcance de aquisições. ` Contribuir com o fortalecimento de sua função protetiva. ` Contribuir com o fortalecimento dos laços comunitários. ` Viabilizar o acesso a direitos. ` Garantir o protagonismo. ` Mobilizar para a participação social. ` Contribuir com a prevenção a riscos. Os Centros de Referência de Assistência Social se constituem como espaços fortalecidos para a realização de oficinas com famílias, onde pode ser problematizada a reflexão das situações apresentadas em seus territórios, além de ques- tões naturalizadas e individualizadas vivencia- das pelas famílias e seu entendimento de que são problemas e dificuldades coletivas, ou seja, que atingem outros indivíduos e outras famílias. Assim, por meio da troca das vivências, possi- bilita-se alternativas para o enfrentamento e o alcance de processos de mudança e de desen- volvimento do protagonismo e da autonomia dos sujeitos e, com isso, a prevenção de situa- ções de risco social (BRASIL, 2012, p. 24). Figura 08. Comunidade social Fo nt e: 1 23 R F. COMUNIDADE 89 4 Projeto de intervenção U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Quadro 02. Escopo das oficinas com famílias no PAIF NA ESFERA FAMILIAR NA ESFERA COMUNITÁRIA/TERRITORIAL Fomentar vivências que questionem padrões esta- belecidos e estruturas desiguais, estimulando o de- senvolvimento de autoestima positiva dos membros das famílias; Estimular a identificação das vulnerabilidades e recursos do território e seus impactos na vida das famílias, promovendo a reflexão sobre a realidade vivenciada, o fortalecimento das redes sociais de apoio, a identificação das articulações intersetoriais necessárias e a mobilização para a potencialização da rede de proteção social do território; Estimular a socialização e a discussão de projetos de vida, a partir de potencialidades coletivamente identificadas; Promover espaços de vivência que contribuam para a autocompreensão, ou seja, que possibilitem aos membros das famílias apreenderem-se como resul- tado das interações entre os contextos familiar, co- munitário, econômico, cultural, ambiental entre outros nos quais estão inseridos, assumindo-se como sujei- tos capazes de realizar mudanças, pois “quanto mais sabemos por que agimos como agimos (...) provavel- mente seremos mais capazes de influenciar nossos próprios futuros” Possibilitar a discussão sobre as situações viven- ciadas pelas famílias e as diferentes formas de lidar com tais situações, por meio da reflexão sobre os direitos, os papéis desempenhados e os interesses dos membros das famílias; Proporcionar o compartilhamento de experiências, o desenvolvimento das habilidades de negociação e mobilização, com vistas ao exercício do protagonis- mo e autonomia; Propiciar a melhoria da comunicação e fomentar a cooperação entre os membros das famílias; Fomentar a reflexão sobre a importância e os meios de participação social, inclusive por meio do estímulo à participação nas atividades de planejamento do PAIF, bem como em espaços públicos de consulta popular e/ ou deliberativos (comitês, conselhos, associações) para a garantia dos direitos e o exercício da cidadania. Romper com preconceitos, estereótipos e formas violentas de interação e repensar os papéis sociais no âmbito da família. Fonte: adaptado de Brasil (2012, p. 25-26). É importante ressaltar que as várias temáticas que podem ser sugeridas para serem discutidas nas oficinas devem ser adaptadas às necessidades das famílias e às carac- terísticas dos territórios da moradia. Assim, deve-se planejar as oficinas para a realida- de e a necessidade da demanda da comunidade local. Sabemos que o Serviço Social desenvolve uma ação de cunho sócio-edu- cativo na prestação de serviços sociais, viabilizando o acesso aos direitos e aos meios de exercê-los, contribuindo para que necessidades e interesses dos sujeitos de direitos adquiram visibilidade na cena pública e possam, de 90 O projeto de intervenção como instrumental do serviço social 4 fato, ser reconhecidos. Portanto, é necessário que busquemos o compro- misso com os direitos e interesses dos usuários, na defesa da qualidade dos serviços prestados, em contraposição à herança conservadora do passado. (PEQUENO; TRINDADE; NOVAES, 2018, p. 9). Assim, nas abordagens e discussões das temáticas grupais, é importante considerar as sugestões dadas pelos usuários e as questões pelas quais perpassam sua realidade social. Alguns dos temas significantes para a abordagem nos grupos e nas oficinas são: ` Desigualdade de gênero ` Desigualdade étnico-racial ` Racismo ` Diversidade ` Preconceito ` Discriminação ` Direitos sociais ` Direitos humanos ` Configurações familiares ` Cidadania ` Violação de direitos ` Violência ` Trabalho infantil ` Paternidade responsável ` Masculinidade As oficinas podem apresentar diferentes formatos quanto à sua composição no decorrer dos encontros, destacando-se as formas: aberta e fechada. As oficinas denominadas “abertas” recebem novos integrantes a qualquer instante do pro- cesso de operacionalização da oficina, ou seja, não há uma restrição à entrada de novos integrantes – mesmo que no último encontro da oficina (caso a oficina seja operacionalizada em mais de um encontro). Já o formato fechado restringe a inserção de novos componentes após sua inicialização. SAIBA MAIS 91 4 Projeto de intervenção U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co 3.3 FÓRUNS E CONFERÊNCIAS Entre as ações voltadas para a mobiliza- ção e a participação social de usuários, trabalhadores e movimentossociais em espaços democráticos de controle social, destacamos os conselhos, as conferências e os fóruns de discussão sobre as diversas políticas públicas, como a assistência so- cial, a educação, a saúde, a habitação etc. Os conselhos, por exemplo, são instân- cias de participação populares nos espa- ços públicos. Para Raichellis (2006, p. 73 apud IAMAMOTO, 2009, p. 24), eles po- dem estimular a partilha de poder e a intervenção de seus atores (representantes do governo, da sociedade civil, dos trabalhadores e dos usuários das políticas) em proces- sos decisórios, estimulando ainda a interlocução pública nas relações políticas entre os governos locais e os cidadãos. No entanto, há desafios na participação popular a serem superados, em função de inte- resses contraditórios nesses espaços de disputas políticas: Os Conselhos, perfilando uma nova institucionalidade nas ações públicas, são instâncias em que se refratam interesses contraditórios e, portanto, espaços de lutas e disputas políticas. Por um lado, eles dispõem de po- tencial para fazer avançar o processo de democratização das políticas so- ciais públicas. Permitem atribuir maior visibilidade às ações e saturar as políticas públicas das necessidades de diferentes segmentos organizados da sociedade civil, em especial os movimentos das classes trabalhadoras. Por outro lado, são espaços que podem ser capturados por aqueles que apostam na reiteração do conservantismo político, fazendo vicejar as tradi- cionais práticas clientelistas, o cultivo do favor e da apropriação privada da coisa pública segundo interesses particularistas, que tradicionalmente im- pregnaram cultura política brasileira e, em especial, as instâncias de poder na esfera municipal. Esvazia-se, assim, o potencial de representação que dispõem os Conselhos, reduzidos a mecanismos formais de uma democra- cia procedimental (COUTINHO, 2006; BEHRING; BOSCHETTI, 2006 apud IAMAMOTO, 2009, p. 24). A escolha entre o formato aberto ou fechado deve ser realizada pela equipe técnica respon- sável por sua operacionalização, a partir da temática a ser abordada, do perfil dos participan- tes e das dimensões (reflexão, convivência, ação) a serem enfatizadas nas oficinas. A alta rotatividade de participantes prejudica a formação de vínculos, em especial quando a oficina tem como temáticas questões conflituosas ou delicadas. No entanto, uma oficina com caráter mais informativo e preventivo pode enriquecer-se com a inserção de novos partici- pantes. (BRASIL, 2012, p. 30) Figura 09. Fórum de discussão Fo nt e: 1 23 R F. 92 O projeto de intervenção como instrumental do serviço social 4 Os assistentes sociais têm importante papel nas instâncias participativas (CFESS, 2010, p. 59-60). Entre elas, destacam-se na Política de Saúde: Participar dos conselhos de saúde (locais, distritais, municipais, estaduais e nacional), contribuindo para a democratização da saúde enquanto política pública e para o acesso universal aos serviços de saúde; Contribuir para a discussão democrática e a viabilização das decisões apro- vadas nos espaços de controle social e outros espaços institucionais; Estimular a educação permanente dos conselheiros de saúde, visando ao fortalecimento do controle social, por meio de cursos e debates sobre temá- ticas de interesse dos mesmos, na perspectiva crítica; Estimular a criação e/ou fortalecer os espaços coletivos de participação dos usu- ários nas instituições de saúde por meio da instituição de conselhos gestores de unidades e outras modalidades de aprofundamento do controle democrático; Participar na organização, coordenação e realização de pré-conferências e/ ou conferências de saúde (local, distrital, municipal, estadual e nacional); Democratizar junto aos usuários e demais trabalhadores da saúde os locais, datas e horários das reuniões dos conselhos de políticas e direitos, por local de moradia dos usuários, bem como das conferências de saúde, das demais áreas de políticas sociais e conferências de direitos; Socializar as informações com relação a eleição dos diversos segmentos nos conselhos de políticas e direitos. (CFESS, 2010, p. 59-60) Outro importante exemplo de instâncias de participação popular são as conferências, que são espaços públicos de discussão que reúnem o governo e os integrantes da so- ciedade civil para discutirem e avaliarem as diversas políticas sociais e proporem diretri- zes de ação. As reuniões são realizadas periodicamente e suas deliberações orientam a implantação das políticas públicas relacionadas à saúde, à educação, à assistência social, à habitação, entre outras. As conferências podem ser entendidas como grandes eventos em que a população, os trabalhadores, o governo e as organizações da sociedade civil se reúnem para discutir as políticas públicas. Importantes conquis- tas relacionadas à implantação de serviços, benefícios, políticas públicas, entre outros, foram frutos de deliberações e aprovações nas diversas conferências. Por exemplo, a IV Conferência Nacional de Assistência So- cial, realizada em 2003, deliberou e aprovou a construção e a implementação do Siste- ma Único de Assistência Social (SUAS). Os conselhos, juntamente com os governos, realizam o chamamento das conferências e elas ocorrem nos âmbitos municipal, estadual e nacional. Alguns municípios realizam processos de pré-conferências, o que atribui maior participação dos usuários. Figura 10. Diversidade e cooperação Fo nt e: 1 23 R F. 93 4 Projeto de intervenção U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Os assistentes sociais têm papel fundamental na organização das conferências e espe- cialmente na articulação e na mobilização para participação da população, bem como na condução dos grupos. 3.4 MOBILIZAÇÃO, PARTICIPAÇÃO E CONTROLE SOCIAL NA ÁREA DA SAÚDE Assim como em outras políticas públicas, na política de saúde, os assistentes sociais po- dem desenvolver ações voltadas para a mobilização e a participação social de usuários e familiares, além de participarem como trabalhadores dos espaços de controle social, como conselhos, conferências, fóruns etc., na luta pela defesa e pelo direito à saúde. As ações desenvolvidas possibilitam a organização da população “enquanto sujeitos políticos, que possam inscrever suas reivindicações na agenda pública da saúde” (CFESS, 2010, p. 57). A articulação e a mobilização para a participação popular fazem parte das in- tervenções realizadas pelos assistentes sociais e são fundamentais para o exer- cício democrático. O grupo é um impor- tante instrumento para essa atividade. A política da saúde é um espaço privilegiado, em que se destacam as ações desenvolvidas pelos assistentes sociais: Figura 11. Defesa pelo direito à saúde Fo nt e: 1 23 R F. • estimular a participação dos usuários e familiares para a luta por melhores condições de vida, de trabalho e de acesso aos serviços de saúde; • mobilizar e capacitar usuários, familiares, trabalhadores de saúde e mo- vimentos sociais para a construção e participação em fóruns, conselhos e conferências de saúde e de outras políticas públicas; • contribuir para viabilizar a participação de usuários e familiares no processo de elaboração, planejamento e avaliação nas unidades de saúde e na políti- ca local, regional, municipal, estadual e nacional de saúde; • articular permanentemente com as entidades das diversas categorias pro- fissionais a fim de fortalecer a participação social dos trabalhadores de saú- de nas unidades e demais espaços coletivos; • participar da ouvidoria da unidade com a preocupação de democratizar as questões evidenciadas pelos usuários por meio de reuniões com o conselho diretor da unidade bem como com os conselhos de saúde (da unidade, se houver, e locais ou distritais), a fim de coletivizar as questões e contribuir no planejamento da instituição de forma coletiva; • participar dos conselhos de saúde (locais, distritais, municipais, estaduais e nacional),contribuindo para a democratização da saúde enquanto política pública e para o acesso universal aos serviços de saúde46; • contribuir para a discussão democrática e a viabilização das decisões apro- vadas nos espaços de controle social e outros espaços institucionais; 94 O projeto de intervenção como instrumental do serviço social 4 • estimular a educação permanente dos conselheiros de saúde, visando ao fortalecimento do controle social, por meio de cursos e debates sobre temá- ticas de interesse dos mesmos, na perspectiva crítica; • estimular a criação e/ou fortalecer os espaços coletivos de participação dos usuários nas instituições de saúde por meio da instituição de conselhos gestores de unidades e outras modalidades de aprofundamento do controle democrático; incentivar a participação dos usuários e movimentos sociais no processo de elaboração, fiscalização e avaliação do orçamento da saúde nos níveis nacional, estadual e municipal; • participar na organização, coordenação e realização de pré-conferências e/ou conferências de saúde (local, distrital, municipal, estadual e nacional); • democratizar junto aos usuários e demais trabalhadores da saúde os lo- cais, datas e horários das reuniões dos conselhos de políticas e direitos, por local de moradia dos usuários, bem como das conferências de saúde, das demais áreas de políticas sociais e conferências de direitos; • socializar as informações com relação a eleição dos diversos segmentos nos conselhos de políticas e direitos; • estimular o protagonismo dos usuários e trabalhadores de saúde nos diver- sos movimentos sociais; • identificar e articular as instâncias de controle social e movimentos sociais no entorno dos serviços de saúde. (CFESS, 2010, p. 59-60) Assim, a mobilização e participação social realizada por assistentes sociais referem-se à articulação com vistas a fortalecer os espaços de participação social como fóruns, con- ferências, conselhos de direitos e de políticas públicas, entre outros, para estabelecer relações com determinadas demandas institucionais e, assim como no caso da política de saúde, traçar alternativas que visem ao acesso aos direitos sociais (CFESS, 2010, p. 58). 3.5 ASSEMBLEIAS COM FAMÍLIAS NOS PROJETOS DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL Nas intervenções habitacionais, o trabalho técnico social é o conjunto de ações que visam promover a autonomia e o protagonismo social, planejadas para criar mecanismos capazes de viabilizar a participação dos beneficiários nos processos de decisão, implantação e manutenção dos bens/serviços, adequando-os às necessidades e à realidade dos grupos sociais atendidos, além de incentivar a gestão participativa para a sustentabilidade do empreendimento. (BRASIL, 2013, p. 4) As assembleias com as famílias fazem parte do trabalho técnico-social e do projeto do trabalho técnico-social. São reuniões ampliadas, com maior número de participantes, realizadas com o objetivo de socializar informações sobre algum projeto relacionado diretamente às famílias e que impactam em suas vidas, ou também com a finalidade de votação de algum projeto. 95 4 Projeto de intervenção U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Alguns exemplos de assembleias estão relacionados a: Projetos habitacionais Projetos socioambientais Esses projetos geralmente são referentes às intervenções de urbanização, remoção de famílias de determinados territórios de risco físico, canalizações de córregos situados nas proximidades de moradias etc. É importante ressaltar que os recursos governa- mentais destinados aos projetos de obras estão atrelados aos recursos para o trabalho social, ou seja, a realização da obra está atrelada à do trabalho social. Assim, o assistente social é um profissional importante tanto na atuação técnica quanto na coordenação do trabalho social. Sua atuação nas intervenções de habitação de inte- resse social e no trabalho socioambiental está pautada no controle social exercido pela população e na participação social, cujas intervenções o povo é protagonista. O horizonte do trabalho social é a melhoria da qualidade de vida das pesso- as, a defesa dos direitos sociais, o acesso à cidade, à moradia, aos serviços públicos, o incentivo e o fortalecimento da participação e da organização autônoma da população. (BRASIL, 2011, p. 24) Figura 12. Assembleias com famílias Fonte: 123RF. Além das assembleias, o trabalho desenvolvido por assistentes sociais na política ha- bitacional compreende o trabalho grupal. Algumas das abordagens nos grupos com famílias abrange os seguintes eixos: 96 O projeto de intervenção como instrumental do serviço social 4 Esse trabalho é importante, por exem- plo, quando há a necessidade da remo- ção de famílias para outros territórios que não sejam sua moradia, quando estas residiam em área de risco, e es- pecialmente quando as famílias pas- sam a residir em outras habitações di- ferentes das suas, encaminhadas para residirem em prédios de apartamentos, sendo uma novidade para elas. Mobilização e organização comunitária. Geração de trabalho e renda. Educação sanitária e ambiental. Figura 13. Organização de voluntários na recepção de donativos Fo nt e: 1 23 R F. Quadro 03. Sugestões de conteúdo para ser desenvolvido nos grupos – trabalho técnico-social EIXOS AÇÕES Mobilização e organização comunitária ` Apoio à formação e/ou à consolidação das organizações representativas da população e das comissões para tratar de assuntos comuns (acompanhamento de obras, de jo- vens, de mulheres); ` Capacitação de lideranças e de grupos representativos so- bre processos de gestão; ` Comunitária; papel das associações e dos grupos representati- vos, formalização e legalização das entidades representativas; ` Estímulo aos processos de informação e de mobilização comunitária e à promoção de atitudes e condutas sociais vinculadas à melhoria da qualidade de vida; ` Estabelecimento e formalização de parcerias envolven- do poder público e sociedade civil para a realização de ações integradas, visando fortalecer as potencialidades locais, promover a articulação e contribuir com a conti- nuidade das ações; 97 4 Projeto de intervenção U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co EIXOS AÇÕES Mobilização e organização comunitária ` Integração com o entorno, em termos de relações funcionais; ` Convivência com o meio ambiente; ` Estímulo à inserção da organização comunitária da área em movimentos sociais mais amplos e em instâncias de controle e gestão social; ` Promoção de atitudes e condutas ligadas ao zelo e ao bom funcionamento dos equipamentos sociais e comunitários disponibilizados; ` Estabelecimento de parcerias e de integração com as de- mais políticas e programas do município; ` Nos casos de verticalização das habitações, os princípios de gestão condominial (legislação, objetivos, organização e fun- cionamento), e a convivência das famílias em condomínios; ` Nas intervenções de saneamento, planejamento do processo de mobilização por meio do desenvolvimento de ações como: constituição ou fortalecimento dos conselhos existentes, reu- niões de planejamento comunitário, palestras, assembleias, audiências públicas, campanhas educativas, entre outros. Geração de trabalho e renda ` Ações para a redução do analfabetismo; Capacitação e requa- lificação profissional planejadas de acordo com a realidade sócioeconômica dos beneficiários e vocação econômica local; ` Estímulo à produção alternativa e à organização de grupos de produção e cooperativismo, respeitadas as particulari- dades da população beneficiada; ` Estímulo a processos cooperativos de produção, tendo como referência os conceitos de economia solidária; ` Fomento e implementação de atividades educativas ligadas à separação e à reciclagem de resíduos sólidos; ` Empreendimentos para gestão dos resíduos sólidos que en- volvam catadores, priorizando o atendimento nas ações de assistência socialpara garantir a inclusão social e a eman- cipação econômica, a formação e a capacitação dos cata- dores para atuação no mercado de recicláveis e programas de ressocialização de crianças e adolescentes envolvidas. Educação sanitária e ambiental ` Promoção do processo educativo que esclareça e valorize a infraestrutura implantada e que busque mudanças de atitudes em relação ao meio ambiente e à vida saudável, na redução de doenças e na melhoria dos níveis de saúde da população; ` Preparação da comunidade para a correta utilização das habitações, especialmente no que diz respeito às unida- des sanitárias e à rede de esgoto; 98 O projeto de intervenção como instrumental do serviço social 4 OBJETO DE APRENDIZAGEM O objeto de estudo desta unidade referiu-se ao caráter educativo/pedagógico do serviço so- cial. Estudamos a importância dos instrumentos e das técnicas do fazer profissional articula- dos às dimensões teórico-metodológica e ético-política utilizados no cotidiano da profissão. Mioto e Lima (2009, p. 19-20) apontam para a importância das ações dos processos políti- co-organizativos direcionados à esfera pública na perspectiva da participação popular: As ações articuladas nesse eixo privilegiam e incrementam discussões e as encaminham para a esfera pública. Seu foco principal consiste em dinamizar e instrumentalizar a participação dos sujeitos, sempre respeitando o potencial político e o tempo dos envolvidos. As ações consideram sempre as necessi- dades imediatas, mas prospectam, a médio e a longo prazos, a construção de novos padrões de sociabilidade entre os sujeitos, porque estão guiadas pela premissa da democratização dos espaços coletivos e pela criação de condições para a disputa com outros projetos societários. A universalização, a ampliação e a efetivação do acesso aos Direitos são debatidas nos mais diferentes espaços, especialmente de Controle Social, nos quais são questio- nadas as relações estabelecidas no espaço sócioocupacional, na comunidade e nas mais diferentes instituições. (MIOTO; LIMA, 2009, p. 19-20) As ações socioeducativas têm como objetivo a coletivização de demandas individuais. As ações grupais, que também foram objeto de estudo, são importantes instrumentos de intervenção profissional, assim como outros instrumentos e técnicas de trabalho grupal como as oficinas, as assembleias e as conferências, que afirmam a importância do trabalho coletivo na perspectiva da articulação e da mobilização como formas de cidadania e mudança social. EIXOS AÇÕES Educação sanitária e ambiental ` Demonstração das responsabilidades dos beneficiários na correta utilização e preservação dos serviços implantados, tanto os individuais como os coletivos; ` Promoção de campanhas educativas para promoção da saúde, correta utilização e preservação dos serviços im- plantados e uso racional da água e da energia elétrica; ` Estímulo à busca de parcerias para promoção, em caráter permanente, das ações de educação ambiental; ` Divulgação de informações, programas e projetos de natu- reza ambiental para ampliação da consciência ecológica das populações. Fonte: adaptado de CAIXA ECONÔMICA FEDERAL (2013, p. 17-18). 99 4 Projeto de intervenção U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co CONCLUSÃO As perspectivas do trabalho socioeducativo podem ser de várias ordens, por exemplo, o de manter o status quo e o de caráter disciplinador. Além disso, pode ter caráter eman- cipador e crítico da realidade social, com vistas à sua mudança. [...] a orientação e o acompanhamento como ações de natureza socioe- ducativa que, como os próprios nomes indicam, interferem diretamente na vida dos indivíduos, dos grupos e das famílias. Movimentam-se no terreno contraditório “tanto do processo de reprodução dos interesses de preser- vação do capital, quanto das respostas às necessidades de sobrevivência dos que vivem do trabalho” (YASBEK, 1999, p. 90). São determinadas pelo paradigma teórico-metodológico e ético-político dos profissionais que as realizam de acordo com 3 determinados projetos de profissão e de socie- dade. (MIOTO, 2009, p. 2-3) Conforme afirma Mioto, a orientação e o acompanhamento, enquanto ações socioe- ducativas, integram o projeto ético-político do serviço social. O trabalho realizado na perspectiva coletiva por meio de grupos possibilita a reflexão dos sujeitos a respeito dos determinantes sociais, econômicos, culturais e territoriais presentes na realidade de cada um. Além disso, possibilita formas de enfrentamentos das desigualdades postas no cotidiano, a articulação e a mobilização para conquistas de cidadania e o exercício democrático de participação. Os grupos podem ser [...] espaço facilitador da criação de vínculos e de surgimento de demandas, no que tange o individual e o coletivo. Isto porque, no grupo, os usuários apresentam realidade de vida diversificadas e a elaboração e execução das atividades realizadas, busca sempre caminhar de forma a que todos se sin- tam acolhidos, e que o trabalho executado possa ter seus limites ampliados a partir da construção e apropriação do conhecimento adquirido. O resultado das ações profissionais dos assistentes sociais está relacionado a uma direção que deve ser a do projeto profissional construído pela categoria. [...] acredita-se que grande parte das descrenças atribuídas às intenções e aos resultados das ações profissionais reside na incoerência presente entre aquilo que se diz ou o que se pretende fazer e aquilo que realmente se faz ou em como se faz, uma vez que a opção por determinados procedimentos (abordagens, instrumentos, técnicas e outros recursos) é determinada pelo contexto e pelo conteúdo a ser mediado para se alcançar a finalidade pros- pectada. O como fazer das ações está diretamente relacionado à escolha do paradigma, implicando o reconhecimento, em dado período histórico, da sua validade argumentativa e a sua capacidade de responder concretamente às questões colocadas pela realidade. É através da clareza na compreensão e na proposição do como se constrói uma intervenção profissional menos improvisada e mais legítima teoricamente, via que permite demonstrar a co- erência pela qual é possível resgatar valores e realizar mudanças. (MIOTO; LIMA, 2009, p. 23) GLOSSÁRIO 100 O projeto de intervenção como instrumental do serviço social 4 Essa realidade favorece o trabalho do Serviço Social, pois é um fator facilitador para se traçar estratégias de enfrentamento as demandas e que contribui para o fomento do pensamento crítico sobre as condições de vida desses usuários não apenas no âmbito individual, mas também, na sociedade em que estão inseridos. (PEQUENO; TRINDA- DE; NOVAES, 2018, p. 8-9) O serviço social, por meio de seu projeto de intervenção no desenvolvimento de ações sócio-educativas, possibilita a cidadania e o acesso aos direitos, contribuindo para o exercício de cidadania dos indivíduos enquanto sujeitos de direitos. Assim, o projeto de intervenção, alinhado ao projeto ético-político que vem sendo construído pelo conjunto da categoria de assistentes sociais, tem a direção de oposição ao projeto do capital. A partir das obras de Paulo Freire, Pedagogia do oprimido e Ação cultural para a liber- dade, ele “passa a compreender que não é suficiente desvelar a realidade para que haja conscientização ou consciência crítica, mas que é necessário transformar essa realidade pela ação prática sobre ela” (LIMA; CARLOTO, 2009, p. 131). PARA REFLETIR 101 4 Projeto de intervenção U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABESS/CEDEPSS. Proposta básica para o projeto de formação profissional. Serviço Social & Socieda- de: o serviço social no século XXI. São Paulo, n. 50. ABREU, M. M.; CARDOSO, F. G. Mobilização social e práticas educativas. In: Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS); Conselho Federal de Serviço Social (CFESS) (org.). Serviço Social: direitos sociais e competênciasprofissionais. Brasília: CFESS/ABEPSS, 2009, p. 1-17. Disponível em: http:// www.cressrn.org.br/files/arquivos/zD3ifq80Dt7Az49Q4j7x.pdf. Acesso em: 4 jan. 2022. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENSINO E PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL – ABEPSS; CONSELHO FE- DERAL DE SERVIÇO SOCIAL – CFESS. Serviço Social: direitos sociais e competências profissionais. Brasília: CFESS/ABEPSS, 2009, v. 1. BRASIL. Lei nº 8.662, de 7 de junho de 1993. Dispõe sobre a profissão de Assistente Social e dá outras providências. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8662.htm. Acesso em: 19 nov. 2021. BRASIL. Ministério das Cidades. Trabalho social e intervenções habitacionais: reflexões e aprendizados sobre o seminário internacional. Brasília, 2011. Disponível em: https://antigo.mdr.gov.br/images/stories/Arqui- vosSNH/ArquivosPDF/Publicacoes/Cidades_Web_Final_02.pdf. Acesso em: 7 fev. 2022. BRASIL. Código de ética do/a assistente social. Resolução CFESS nº 273/93. Institui o Código de Ética Profissional do/a Assistente Social e dá outras providências. Brasília: Conselho Federal de Serviço Social, 2012. 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São Paulo: Cortez, 2006. COUTO, Berenice Rojas. Formulação de projeto de trabalho profissional. In: Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS); Conselho Federal de Serviço Social (CFESS). Serviço social: direi- tos sociais e competências profissionais. Brasília: CFESS/ABEPSS, 2009. Disponível em: http://www.cressrn. org.br/files/arquivos/429f4p9h466ylSR97U4f.pdf. Acesso em: 20 dez. 2021. GUERRA, Y. A Instrumentalidade no trabalho do assistente social. Cadernos do Programa de Capacita- ção Continuada para Assistentes Sociais. Capacitação em Serviço Social e Política Social. Módulo 4: O tra- balho do assistente social e as políticas sociais. CFESS/ABEPSS - UNB, 2000. Rev. e atual. para palestra mi- nistrada no Simpósio Mineiro de Assistentes Sociais, Belo Horizonte, maio 2007, CRESS – 6. reg. Disponível em: http://www.uel.br/cesa/sersocial/pages/arquivos/GUERRA%20Yolanda.%20A%20instrumentalidade%20 no%20trabalho%20do%20assistente%20social.pdf. 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São Paulo: Cortez, 2015. 103 4 Projeto de intervenção U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co PEQUENO, L. F.; TRINDADE, V. A. de S.; NOVAES, P. A. M. Serviço social e trabalho com grupo: reflexões preliminares sobre seus impactos no processo saúde-doença dos usuários do grupo de anticoagulação (TAP). In: 16º Encontro Nacional de Pesquisadores em Serviço Social. Anais [...]. Vitória: ENPESS, 2018, v. 16, n. 1. Disponível em: https://periodicos.ufes.br/abepss/article/view/22568. Acesso em: 17 fev. 2022. SALVADOR, Maria E. Projetos de intervenção – instrumento para visualização do trabalho do assistente social nos diferentes espaços sócio-ocupacionais. In: ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISADORES EM SERVIÇO SOCIAL, 16., 2018, Vitória. Anais [...]. Vitória: ENPESS, 2018. TEIXEIRA, J. B. Formulação, administração e execução de políticas públicas. In: CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL. Serviço social: direitos sociais e competências profissionais. Brasília: CFESS/ABEPSS/ CEAD-UnB, 2009. TORRES, Z. Grupo: instrumento de serviço social. Petrópolis: Vozes, 1977. O Serviço Social na contemporaneidade 1. O debate sobre o objeto do Serviço Social: reflexão sobre a atuação do Serviço Social frente à questão social 2. Competências e atribuições do assistente social: o fazer na contemporaneidade 3. Espaços sócio-ocupacionais e dimensões políticas da prática do assistente social Formação Profissional em Serviço Social 1. O projeto de trabalho profissional e a elaboração do projeto de intervenção 2. A dimensão técnico-operativa nos processos de trabalho dos assistentes sociais 3. Sistematização para o processo interventivo e investigativo Exercício profissional do assistente social e o estágio supervisionado 1. O estágio supervisionado na formação profissional do assistente social 2. A legalidade e a legitimidade da atividade do estágio supervisionado 3. A supervisão em serviço social e a sua metodologia O projeto de intervençãopelo destino dado aos antigos escravos e pela ausência do Estado. [...] os momentos mais importantes de nossa história foram marcados pela composição das elites e pela exclusão da participação popular. Da indepen- dência ao fim do regime militar, as transformações modernizadoras foram realizadas “pelo alto”. A própria industrialização não se deu num confronto da burguesia com o mundo agrário. Ao contrário, foi o capital da cafeicultura que bancou o desenvolvimento industrial. Desde o início, portanto, não tivemos uma oposição aberta entre uma “burguesia progressista” e os “retrógrados latifundiários”. (FREDERICO, 2009, p. 3) De acordo com Behring e Santos (2009, p. 14), somente é possível compreender a origem, a função social e a dimensão contraditória do direito por meio do conhecimento e da análise da formação social, do modo pelo qual em determinada sociedade as relações sociais foram e são estruturadas e observando o movimento das classes sociais para revelar e ocultar formas de dominação. A industrialização nascente no início do século XX precisava de mão de obra devido ao descarte da mão de obra brasileira escrava, ocorrida após abolição da escravatura em 1888. Os ex-escravizados ficaram à margem do mercado de trabalho, sendo condenados à marginalidade e ao racismo. Nesse período, o país recorreu ao trabalho dos imigrantes europeus, mas estes trouxeram para o Brasil as formas de consciência e de organização da classe trabalhadora por meio do movimento anarquista e das greves operárias. A década de 1930 marcou alterações na intervenção do Estado nas relações de trabalho, de acordo com Frederico (2009, p. 4), tendo o Estado de reconhecer as relações desiguais entre os compradores e os vendedores da força de trabalho. O reconhecimento do trabalho assalariado se deu na década seguinte, mais precisamente em 1943, com a criação e a Consolidação das Leis de Trabalho. Segundo o mesmo autor, a presença estatal politizou o mercado de trabalho, que se transformou no campo de batalha das classes antagônicas e não mais na esfera privada dos litígios individuais. Assim, de caso de polícia, como foram tratadas as greves do movimento operário no início do século, passou a ser caso político, em um ato privilegiado das lutas sociais. Especialmente a partir do final da década de 1960, com o contexto da ditadura militar, o país viveu tempos desfavoráveis, adiando as reformas democráticas e a ampliação A obra O que Fazer?, de Lênin, distingue a consciência de classe em si, que não ultrapassa uma perspectiva corporativa, sem consciência da sua condição para classe para si, quando esta compreende as razões estruturais da sua condição de exploração e empreende a luta para a superação do sistema capitalista. 11 1 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Projeto de intervenção de direitos sociais, período impactado pela ideologia e pela repressão imposta pelo governo militar, exigindo resistência de grupos e movimentos. O Serviço Social então ficou responsável por traçar um novo perfil profissional, prático e crítico que atendesse às demandas do novo cenário e com finalidade de efetivação da ruptura com a prática conservadora da profissão. Entre as décadas de 1970 e 1980, enquanto nos países desenvolvidos o processo de reestruturação produtiva levou ao enfraquecimento do sindicalismo, no Brasil, que ainda vivia o processo de ditadura militar, em seu processo de crise, assistia-se a retomada da atividade associativa. Houve o crescimento do número de associações e sindicatos e a formação das centrais sindicais, momento no qual estouraram as greves por todo o Brasil (FREDERICO, 2009, p. 7). O III Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais em 1979, denominado Congresso da Virada, representou a ruptura com o Serviço Social conservador e demarcou a renovação da profissão via construção de um projeto vinculado às lutas das classes sociais pelos direitos e do movimento teórico-ético e político no Serviço Social frente às formas e às estratégias de luta da classe trabalhadora. Os anos de 1980 foram considerados a década de ascensão das lutas dos movimentos sociais expressas na Constituição de 1988, necessárias para contrapor o avanço do neoliberalismo mundial nos anos de 1990, como apontado por Behring e Santos (2009, p. 10), promovendo o desemprego estrutural para grande parcela dos trabalhadores, ocasionado pelas transformações do mundo do trabalho e da mundialização do capital, desregulamentação de direitos e corte dos gastos públicos na área social. A nossa, digamos assim, “modernidade à brasileira” contém o pior dos dois mundos: as desvantagens do subdesenvolvimento, que não chegou a co- nhecer o Welfare State, acrescidas da selvageria do capitalismo financeiriza- do. A crise de acumulação, vivida pelo sistema mundial de mercadorias, ace- na para um longo período de barbárie na periferia, cuja face mais visível é o desemprego e suas sequelas: a marginalidade e a violência urbana. A nova etapa vivida pelo capitalismo tardio produziu uma alteração na estrutura da sociedade e, portanto, nas classes sociais, e exige, com lógica implacável, a total submissão dos antigos Estados-Nacionais. (FREDERICO, 2009, p. 9) Figura 04. Democracia na prisão Fo nt e: 1 23 R F. Behring e Santos (2009, p. 7) afirmam: O Serviço Social no Brasil e no mundo surge enquanto estratégia de dar um tratamento sistemático à questão social e de frear o movimento operário, por um lado; e por outro, para assegurar as condições gerais de reprodução do capital no momento fordista-keynesiano, após a Segunda Guerra Mundial. SAIBA MAIS 12 1 O Serviço Social na contemporaneidade CURIOSIDADE 1.3. CRISE CONTEMPORÂNEA DO CAPITALISMO, POLÍTICA SOCIAL E SERVIÇO SOCIAL DIANTE DA QUESTÃO SOCIAL As políticas sociais e as referências de proteção social são respostas geralmente setorializadas, focalizadas e fragmentadas às expressões da questão social no capitalismo. [...] o crescimento do desemprego levou ao aumento da demanda por prote- ção social e por maiores gastos públicos. Na América Latina, pode-se iden- tificar uma “virada continental para o neoliberalismo” no final dos anos de 1980. (BEHRING, 2009, p. 11) No Brasil, a chegada do neoliberalismo foi considerada tardia, relacionada com o processo de redemocratização e questões político-econômicas internas, analisada por Behring (2003 apud BEHRING, 2009, p. 11) que pontua sobre a inscrição do conceito de seguridade social na Constituição de 1988. O Estado de bem-estar social, ou Estado-providência, ou Estado social, é um tipo de organização política, económica e sócio-cultural que coloca o Estado como agente da promoção social e organizador da economia [...] O Estado de bem-estar social moderno nasceu na década de 1880, na Alemanha, com Otto von Bismarck, como alternativa ao liberalismo económico e ao socialismo. Behring sinaliza sobre a existência de uma segunda fase do neoliberalismo voltada aos programas sociais, articulando focalização, privatização e descentralização. Ela firma tratar-se de “desuniversalizar e assistencializar” as ações cortando os gastos sociais e contribuindo para o equilíbrio financeiro do setor público (BEHRING, 2009, p. 11-12). Uma política social residual que soluciona apenas o que não pode ser enfrentado pela via do mercado, da comunidade e da família. Cita a renda mínima, como carro-chefe de tal proposição, combinada à solidariedade por meio das organizações na sociedade civil (BEHRING, 2009, p. 11-12). Além disso, ao final da década de 1990, o resultado do referido programa não traz impacto ao crescimento da pobreza, do desemprego e da desigualdade, ao lado de uma enorme concentração de renda e riqueza no mundo, ao mesmo tempo que prevalecem taxas de crescimento e maiores endividamentos públicos e privados, com predomínio do capital especulativo sobre o investimento produtivo, do que o Brasil é um exemplo. É necessário nesse contexto tecer o cenário políticocomo instrumental do serviço social 1. O grupo como instrumento de intervenção profissional do serviço social 2. O serviço social e o trabalho com grupos: o histórico e a intervenção do assistente social no trabalho com grupos 3. Trabalho com grupos: dinâmicas, sociodrama, organização de fóruns, conferências e oficinase cultural do momento, no qual instalou-se uma crise da democracia (WOOD, 2003 apud BEHRING, 2009, p. 12), com visível esvaziamento das instituições democráticas, além do aprofundamento do individualismo e do consumismo, por exemplo. Disponível em: http://wikipedia.br.nina.az/Estado_de_bem-estar_social.html. Acesso em: 25 nov. 2021. 13 1 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Projeto de intervenção Behring fundamenta sobre a política social atender aos requisitos do capital mas também às necessidades do trabalho, uma vez que para muitos se trata de uma questão de sobrevivência. É um contexto importante da luta de classes, da reivindicação e da defesa de condições dignas de sobrevivência em face da ofensiva capitalista, em termos do corte de recursos públicos para a reprodução da força de trabalho. Nesse contexto, é importante situar a luta no terreno do Estado, que se constitui como espaço de hegemonia do capital, ou seja, atende aos seus interesses (BEHRING, 2009, p. 20). Assim, a autora conclui sobre as políticas sociais serem concessões e ao mesmo tempo conquistas dos trabalhadores, podendo ser mais flexíveis a depender da correlação de forças entre as classes sociais e seus segmentos. Além disso, no período de expansão, a margem de negociação se amplia, e na recessão, ela se restringe. No setor público a contrarreforma do Estado (BEHRING, 2003), que pudemos tratar em texto anterior no âmbito deste curso, no contexto da crise do capital, como vimos, vem implicando um redirecionamento das políticas sociais, com fortes implicações para as condições de trabalho. Do ponto de vista físico, há toda sorte de dificuldades, no âmbito da implementação de políticas pobres para os pobres, focalizadas e residuais, considerando o (des)financiamento em curso e a concepção focalista em vigor. (BEHRING, 2009, p. 20) No campo profissional, nas palavras de Elaine Rossetti Behring, havia a tendência de uma redefinição do trabalho, reduzido ao plantão de emergência e ao monitoramento da terceirização do “trabalho desprofissionalizado”, realizado junto aos usuários, por exemplo, de ONGs. Não se tinha tempo assegurado para estudos e reflexão do cotidiano profissional, para pensar e desenvolver projetos de intervenção ou de organização junto aos usuários. O profissional não era requisitado para pensar, articular e elaborar projetos de atendimento às necessidades individuais e coletivas. Conforme Behring (2009 p. 21), o assistente social era requisitado para operar o projeto de gestão da pobreza, e não do seu combate ou erradicação, que o reitera junto a indivíduos e famílias e para as quais se transferia responsabilidades de reprodução. O produto era o acesso a políticas minimalistas, como as de transferência de renda, que no Brasil estão longe de propiciar processo redistributivo, ao mesmo tempo ressaltando seu impacto imediato e importante na vida dos seus usuários. Tratava-se de requisições conservadoras de um perfil profissional sem criticidade adequado às exigências das políticas neoliberais e da vigilância dos pobres em oposição ao projeto de formação profissional vinculado às Diretrizes Curriculares da ABEPSS de 1996. São as mudanças contemporâneas do Estado, conforme apontado por Behring (2009, p. 21): Essas mudanças contemporâneas mais gerais – a contrarreforma do Esta- do, a reestruturação produtiva e a financeirização do capital – têm impactos deletérios nas condições cotidianas de trabalho, na medida em que aumen- ta a demanda por benefícios e serviços exponencialmente com o aumento da desigualdade e da pauperização absoluta e relativa, no mesmo passo em que diminuem as condições de atendimento físicas, éticas e técnicas, o que incluem impactos também na remuneração do funcionalismo público. (BEHRING, 2009, p. 21) 14 1 O Serviço Social na contemporaneidade PARA REFLETIR De acordo com Guerra (2000, p. 10), as requisições da profissão são de ordem instrumental para responder às demandas contraditórias do capital e do trabalho. Em contrapartida, a autora reflete sobre as exigências das respostas profissionais, que são instrumentais, ou seja, que não se reduzem ao atendimento e à manutenção da ordem vigente do projeto burguês. É necessário que as intervenções profissionais passem pela razão crítica conectada aos referenciais técnico-operativo, teórico-metodológico e ético-político e que possibilitem a emancipação humana (GUERRA, 2000, p. 11). De acordo com a autora, instrumentalidade também é mediação, que permite passar de ações meramente instrumentais e imediatas para o exercício profissional crítico e competente. Conforme Guerra (2000, p. 14), a instrumentalidade da profissão é, portanto, a capacidade de operar transformação. O serviço social pode construir alternativas que sejam instrumentais à superação da ordem social do capital. Segundo Guerra (2000, p. 9-10), respostas imediatas às situações para responder à realidade do cotidiano são insuficientes para responder à complexidade das demandas cotidianas profissionais. 2. COMPETÊNCIAS E ATRIBUIÇÕES DO ASSISTENTE SOCIAL: O FAZER NA CONTEMPORANEIDADE Iamamoto (2009, p. 33) afirma que o trabalho do assistente social nos diversos espaços ocupacionais particulariza suas competências e atribuições profissionais e seu significado social no processo de reprodução das relações sociais, diante das transformações ocorridas no trabalho e nas relações entre Estado e sociedade civil na ofensiva neoliberal. Portanto, os trabalhos desses profissionais são distintos, e evidencia-se a importância da dimensão ético-política no exercício da profissão. A aproximação da profissão com a tradição marxista forneceu a base teórico- metodológica para apreender a realidade social na perspectiva de totalidade e possibilitou a construção um processo de hegemonia contra o conservadorismo. Alicerçou a edificação do projeto ético político profissional nos fins da década de 1970 e nas posteriores, culminando no arcabouço de documentos legais na década de 1990, constituídos pela Lei de Regulamentação da Profissão - Lei nº 8.662, de 7 de junho de 1993, pela Resolução CFESS 273/93, que instituiu o Código de Ética Profissional de 1993, e pelas Diretrizes Curriculares de 1997. Esse marco regulatório dá sustentação legal ao exercício profissional dos(as) assistentes sociais e subsidia respostas profissionais em defesa dos interesses da classe trabalhadora na direção da construção de uma nova ordem societária sem dominação e exploração da classe trabalhadora. 15 1 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Projeto de intervenção São requisitos da profissão a perspectiva nas dimensões: ` Técnico-operativa: trata-se do modo de ser da profissão, o fazer profissional, o modo como aparece no movimento das três dimensões. ` Teórico-metodológica: diz respeito à interlocução entre história, teoria e método, requerendo conhecimento sobre a apreensão da realidade em seu movimento dialético. ` Ético-política: está relacionada ao caráter contraditório do Serviço Social, por estar inserida em um espaço de interesses sociais divergentes na sociabilidade do capital. Requer do profissional a formação de uma consciência teórica. 2.1. O CÓDIGO DE ÉTICA PROFISSIONAL No processo de abertura política no Brasil, após o declínio da ditadura militar, o Serviço Social vivenciou um profundo processo de renovação. Nessas mudanças ocorridas na sociedade brasileira, com o acúmulo profissional, o Serviço Social se desenvolveu teórica e praticamente. No início dos anos de 1990, apresentou-se como profissão reconhecida e legitimada. Nesse contexto, o Código de Ética Profissional de 1986 foi revisado, culminando na aprovação do atual Código de Ética Profissional por meio da Resolução CFESS nº 273, de 13 de março de 1993. O presente Código de Ética expressa a concepção de uma nova direção societária que supõe a erradicação dos processos de dominação, exploração e opressão e que possibilite aos trabalhadoresseu pleno desenvolvimento. Estes instrumentos normativos, que ora reapresentamos, são a materialização do Projeto Ético-Político profissional construído nos últimos 30 anos no seio da categoria, haja vista que formulados para dar sustentação legal ao exercício profissional dos/as assistentes sociais, mas que não se restringem a essa dimensão. Pelo contrário, fortalecem e respaldam as ações profissionais na direção de um projeto em defesa dos interesses da classe trabalhadora e que se articula com outros sujeitos sociais na construção de uma sociedade anticapitalista (BRASIL, 2012, p. 14) Constituem princípios fundamentais dispostos no Código de Ética (BRASIL, 2012, p. 23-24): I. Reconhecimento da liberdade como valor ético central e das demandas políticas a ela inerentes - autonomia, emancipação e plena expansão dos indivíduos sociais; II. Defesa intransigente dos direitos humanos e recusa do arbítrio e do autoritarismo; III. Ampliação e consolidação da cidadania, considerada tarefa primordial de toda sociedade, com vistas à garantia dos direitos civis sociais e políticos das classes trabalhadoras; IV. Defesa do aprofundamento da democracia, enquanto socialização da participação política e da riqueza socialmente produzida; 16 1 O Serviço Social na contemporaneidade V.Posicionamento em favor da equidade e justiça social, que assegure universalidade de acesso aos bens e serviços relativos aos programas e políticas sociais, bem como sua gestão democrática; VI. Empenho na eliminação de todas as formas de preconceito, incentivando o respeito à diversidade, à participação de grupos socialmente discriminados e à discussão das diferenças; VII. Garantia do pluralismo, através do respeito às correntes profissionais democráticas existentes e suas expressões teóricas, e compromisso com o constante aprimoramento intelectual; VIII. Opção por um projeto profissional vinculado ao processo de construção de uma nova ordem societária, sem dominação, exploração de classe, etnia e gênero; IX. Articulação com os movimentos de outras categorias profissionais que partilhem dos princípios deste Código e com a luta geral dos/as trabalhadores/as; X. Compromisso com a qualidade dos serviços prestados à população e com o aprimoramento intelectual, na perspectiva da competência profissional; XI. Exercício do Serviço Social sem ser discriminado/a, nem discriminar, por questões de inserção de classe social, gênero, etnia, religião, nacionalidade, orientação sexual, identidade de gênero, idade e condição física. Os princípios dispostos no Código de Ética apontam uma direção a ser seguida, traduzidos em compro- missos acordados coletivamente pela categoria e expressados no projeto profissional em construção a ser operacionalizado cotidianamente nos espaços ocupacionais. O Código de Ética regula, entre outros: ` Direitos ` Deveres ` Responsabilidades ` Relação com usuários ` Relação com os profissionais ` Relação com entidades da sociedade civil ` Relação com a justiça ` Sigilo profissional IMPORTANTE SAIBA MAIS 17 1 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Projeto de intervenção 2.2. O FAZER PROFISSIONAL E A LEI DE REGULAMENTAÇÃO PROFISSIONAL O Serviço Social constitui-se pelas dimensões ético-política (poder), teórico-metodológica (saber) e técnico-operativa (fazer), as quais interagem enquanto mediações da prática profissional em diferentes espaços sócio-ocupacionais. A Lei nº 8.662, de 7 de Junho de 1993, regulamenta o exercício profissional, e seu artigo 4º dispõe sobre as competências do assistente social (BRASIL, 2012, p. 44-45): Art. 4º Constituem competências do Assistente Social: I - elaborar, implementar, executar e avaliar políticas sociais junto a órgãos da administração pública, direta ou indireta, empresas, entidades e organizações populares; II - elaborar, coordenar, executar e avaliar planos, programas e projetos que sejam do âmbito de atuação do Serviço Social com participação da sociedade civil; III - encaminhar providências, e prestar orientação social a indivíduos, grupos e à população; IV - (Vetado); V - orientar indivíduos e grupos de diferentes segmentos sociais no sentido de identificar recursos e de fazer uso dos mesmos no atendimento e na defesa de seus direitos; VI - planejar, organizar e administrar benefícios e Serviços Sociais; VII - planejar, executar e avaliar pesquisas que possam contribuir para a análise da realidade social e para subsidiar ações profissionais; VIII - prestar assessoria e consultoria a órgãos da administração pública direta e indireta, empresas privadas e outras entidades, com relação às matérias relacionadas no inciso II deste artigo; IX - prestar assessoria e apoio aos movimentos sociais em matéria relacionada às políticas sociais, no exercício e na defesa dos direitos civis, políticos e sociais da coletividade; X - planejamento, organização e administração de Serviços Sociais e de Unidade de Serviço Social; XI - realizar estudos sócio-econômicos com os usuários para fins de benefícios e serviços sociais junto a órgãos da administração pública direta e indireta, empresas privadas e outras entidades. A referida lei apresenta ainda dispositivos jurídicos e normativos sobre o caráter privativo da profissão, ou seja, o que pode ser realizado apenas por assistentes sociais. Por outro lado, o contexto abre um leque de possibilidades de desenvolvimento do trabalho autônomo/liberal, como a realização de assessoria, consultoria, perícias técnicas, laudos periciais e pareceres sobre a matéria de Serviço Social. São vários os campos de atuação do trabalho autônomo/liberal do(a) assistente social, dentre os quais podemos citar o empresarial, o governamental, o não governamental, o judicial, o 18 1 O Serviço Social na contemporaneidade da sociedade civil, os movimentos sociais, as associações etc. Todas estas atividades encontram-se dispostas no artigo 5º da Lei de Regulamentação da Profissão (BRASIL, 2012, p. 45-47): Art. 5º Constituem atribuições privativas do Assistente Social: I - coordenar, elaborar, executar, supervisionar e avaliar estudos, pesquisas, planos, programas e projetos na área de Serviço Social; II - planejar, organizar e administrar programas e projetos em Unidade de Serviço Social; III - assessoria e consultoria e órgãos da Administração Pública direta e indireta, empresas privadas e outras entidades, em matéria de Serviço Social; IV - realizar vistorias, perícias técnicas, laudos periciais, informações e pareceres sobre a matéria de Serviço Social; V - assumir, no magistério de Serviço Social tanto a nível de graduação como pós-graduação, disciplinas e funções que exijam conhecimentos próprios e adquiridos em curso de formação regular; VI - treinamento, avaliação e supervisão direta de estagiários de Serviço Social; VII - dirigir e coordenar Unidades de Ensino e Cursos de Serviço Social, de graduação e pós-graduação; VIII - dirigir e coordenar associações, núcleos, centros de estudo e de pesquisa em Serviço Social; IX - elaborar provas, presidir e compor bancas de exames e comissões julgadoras de concursos ou outras formas de seleção para Assistentes Sociais, ou onde sejam aferidos conhecimentos inerentes ao Serviço Social; X - coordenar seminários, encontros, congressos e eventos assemelhados sobre assuntos de Serviço Social; XI - fiscalizar o exercício profissional através dos Conselhos Federal e Regionais; XII - dirigir serviços técnicos de Serviço Social em entidades públicas ou privadas; XIII - ocupar cargos e funções de direção e fiscalização da gestão financeira em órgãos e entidades representativas da categoria profissional. Atribuições privativas dizem respeito às atividades inerentes apenas aos profissionais de Serviço Social, não podendo ser exercidas por nenhum outro profissional. 19 1 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Projeto de intervenção SAIBA MAISPara além dos instrumentos legais da profissão como o Código de Ética e a Lei de Regulamentação Profissional, o Conselho Nacional de Serviço Social lançou mão de vasta legislação que dispõe sobre o cotidiano dos profissionais e contribuiu para embasar a categoria. Os Assistentes Sociais levaram para os Conselhos Regionais de Serviço Social e para o Conselho Federal de Serviço Social suas demandas vivenciadas nos espaços sócio- ocupacionais e que lhes respondem por meio de documentos legais de subsídio da prática profissional, como as Resoluções. Um dos exemplos é a Resolução CFESS nº 493/2006, de 21 de agosto de 2006, que dispõe sobre as condições éticas e técnicas do exercício profissional do assistente social. A Lei nº 12.317, de 26 de agosto de 2010, acrescentou um dispositivo à Lei nº 8.662, de 7 de junho de 1993, para dispor sobre a duração do trabalho do assistente social, que passou a ser de jornada de 30 horas semanais. ` O artigo 1º da Lei nº 8.662, de 7 de junho de 1993, passa a vigorar acrescida do artigo 5º- A: “Art. 5º-A. A duração do trabalho do Assistente Social é de 30 (trinta) horas semanais”. ` O artigo 2º afirma que aos profissionais com contrato de trabalho em vigor na data de publica- ção desta Lei é garantida a adequação da jornada de trabalho, vedada a redução do salário. Consulte a Resolução CFESS nº 493/2006, de 21 de agosto de 2006: CONSELHO FEDERAL DO SERVIÇO SOCIAL – CFESS. Resolução CFESS nº 493/2006, de 21 de agosto de 2006. Dispõe sobre as condições éticas e técnicas do exercício profissio- nal do assistente social. É de suma importância que os assistentes sociais acompanhem regularmente as novas resoluções, mantendo-se atualizados em suas atribuições, competências e intervenções profissionais, evitando ainda incorrerem em questões éticas. 3. ESPAÇOS SÓCIO-OCUPACIONAIS E DIMENSÕES POLÍTICAS DA PRÁTICA DO ASSISTENTE SOCIAL O assistente social é um trabalhador assalariado, orientado por um projeto profissional resultante de um processo histórico de construção coletiva da categoria, assentado no processo histórico e sustentado por valores humanos. É o profissional do qual se exige atuação desvinculada de abordagens conservadoras, cujas intervenções para as situações sociais não devam ter cunho de avaliação como problemas pessoais e, portanto, de resoluções individuais pelo próprio sujeito. SAIBA MAIS Disponível em: http://www.cfess.org.br/arquivos/Resolucao_493-06.pdf. Acesso em: 14 jan. 2022. 20 1 O Serviço Social na contemporaneidade A análise da questão social como objeto de intervenção profissional demanda uma atuação profissional com visão crítica da realidade social, baseada no reconhecimento dos determinantes socioeconômicos e culturais das desigualdades sociais. Contudo, o cotidiano profissional nos espaços ocupacionais, via de regra, é permeado por interferências de empregadores na autonomia do profissional. Os espaços ocupacionais retratam as alterações ocorridas no trabalho na contemporaneidade, trazendo no seu bojo a precarização dos trabalhadores, especialmente pelas mudanças na base da produção, com as inovações tecnológicas na lógica da intensificação da produtividade. O mercado de trabalho exige novas requisições e novos perfis profissionais, alterando os espaços ocupacionais e o processo de trabalho, com solicitações de atribuições profissionais direcionadas às habilidades e às competências. Além disso, aponta para uma tensão entre o trabalho controlado e submetido ao poder do empregador, as demandas dos sujeitos de direitos e a relativa autonomia do profissional para perfilar seu trabalho. Assim, o trabalho do assistente social encontra-se sujeito a um conjunto de determinantes externos, que fogem ao seu controle do indivíduo e impõem limites, socialmente objetivos, à consecução de um projeto profissional coletivo no cotidiano do mercado de trabalho. Alargar as possibilidades de condução do trabalho no horizonte daquele projeto exige estratégias político- profissionais que ampliem bases de apoio no interior do espaço ocupacional e somem forças com segmentos organizados da sociedade civil, que se movem pelos mesmos princípios éticos e políticos. (IAMAMOTO, 2009, p. 16) Os espaços sócio-ocupacionais para a atuação dos assistentes sociais são amplos, especialmente nos serviços governamentais e não governamentais. As instituições públicas estatais têm sido as maiores empregadoras de profissionais dessa área (IAMAMOTO, 2009, p. 5), sendo a administração direta a que mais emprega, especialmente na esfera estadual, seguida da municipal. Iamamoto (2009, p. 5) revela que os assistentes sociais funcionários públicos sofrem os efeitos da reforma do Estado e da precarização das relações de trabalho, por exemplo, a redução dos concursos públicos, a contenção salarial, a falta de incentivo à carreira, a terceirização acompanhada de contratação precária e temporária, com perda de direitos, entre outros aspectos. Iamamoto (2009, p. 5) se refere à área de saúde como líder na absorção de assistentes sociais – 25,83% dos profissionais em atividades em São Paulo, em decorrência dos processos de implantação do Sistema Único de Saúde (SUS). Ela também cita a municipalização das políticas públicas como possibilidade de ampliação do mercado de trabalho para os assistentes sociais. Ainda para a autora em pauta, os novos canais de controle da sociedade civil organizada apresentam-se como viabilidade de formulação, de gestão e de controle das políticas sociais, representando uma ampliação das possibilidades de trabalho profissional. Ressaltam-se como instâncias de participação e controle social os Conselhos de Saúde e Assistência Social e Previdência nos níveis nacional, estadual e municipal, assim como os Conselhos de Defesa de Direitos dos segmentos prioritários para a assistência social: criança e adolescente, idoso e pessoas com deficiência. 21 1 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Projeto de intervenção Quadro 01. Espaços sócio-ocupacionais de realização de competências e atribuições do assistente ESPAÇOS SÓCIO-OCUPACIONAIS ATRIBUIÇÕES Assistência social Atuação nos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS), Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CRE- AS), Centros para População em Situação de Rua (Centro POP), Centros de Referência para Mulheres em Situação de Violência, Serviços de Acolhimento Institucional para Crianças e Adolescentes, Execução de Medidas Socioeducativas, entre outros. Saúde Atuação em unidades de saúde, Saúde da Família, Unidades de Pronto Atendimento, Serviços de Especialidades, Hospitais Públicos e privados, entre outros. Ministério Público Atuação nas Promotorias: idoso, infância e juventude, entre outras. Polícia Segurança pública em instituições policiais, em programas de políti- cas públicas de segurança, entre outros. Assistência Judiciária Defensorias Públicas. Judiciário Vara da Infância e Juventude, Varas de Família e Varas da Infância e da Juventude. Educação Atuação em escolas, faculdades e universidades. Habitação Atuação em serviços de habitação de interesse social. Fonte: elaborado pela autora. Foi aprovada a Lei nº 13.935/2019 que determina que o Poder Público assegure o atendi- mento psicológico e socioassistencial aos alunos da rede pública de educação básica. A norma é fruto do PLC 60/2007 (PL 3.688/2000, na Câmara), aprovado pelo Congresso em setembro de 2019. A aprovação desta lei abrirá espaços sócio-ocupacionais para os assistentes sociais. SAIBA MAIS Disponível em: https://www.lipsum.com/feed/html 22 1 O Serviço Social na contemporaneidade Iamamoto (2009, p. 17), em pesquisa sobre o perfil dos profissionais, revela sobre o Estado ser o maior empregador dos assistentes sociais, que assumem a característica de servidores públicos. Eles se tornam agentes de intervenção do Estado no espaço privado dos conflitos familiares. Tem-se aí uma dupla possibilidade. De um lado,a atuação do(a) assistente social pode representar uma “invasão da privacidade” através de condutas autoritárias e burocráticas, como extensão do braço coercitivo do Estado (ou da empresa). De outro lado, ao desvelar a vida dos indivíduos, pode, em contrapartida, abrir possibilidades para o acesso das famílias a recur- sos e serviços, além de acumular um conjunto de informações sobre as expressões contemporâneas da questão social pela via do estudo social. (IAMAMOTO, 2009, p. 19) Figura 07. Trabalhadores sociais Saúde pública Assistente Social Infantil Saúde Mental Abuso de substância Serviço Social Escolar Pesquisa e Indicação de Cliente Aconselhamento em Grupo Desastres Naturais Fonte: 123RF. 23 1 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Projeto de intervenção PARA REFLETIR O assistente social também é um profissional liberal cujas atribuições privativas para esta finalidade estão dispostas no artigo 5º da Lei nº 8662/93, que regulamenta a profissão. Algumas formas indiretas de prestações de serviços são: ` Órgãos governamentais ` Órgãos não-governamentais ` Empresas privadas ` Assessoria e consultoria empresarial ` Assessoria e consultoria na gestão de pessoas ` Trabalho Técnico Social (TTS) ` Assessoria e consultoria no terceiro setor ` Assessoria e consultoria na área jurídica ` Assessoria e consultoria estatal ` Questão urbana e assessoria aos movimentos sociais ` Assessoria e consultoria previdenciária No campo empresarial, os assistentes sociais têm sido chamados a atuar como assessores e/ou consultores a partir da demanda de adequação do ambiente organizacional aos critérios empresariais de eficiência, eficácia e rentabilidade, pautados na lógica da lucratividade e da acumulação do capital. No âmbito do Estado, esses profissionais contribuem como assessores nos órgãos governamentais na elaboração e no gerenciamento das políticas sociais e na formulação e na execução de programas. As competências da formação profissional e as experiências no desenvolvimento das políticas sociais fazem do assistente social um profissional requisitado para atuar na gestão das políticas sociais. O trabalho do assistente social é indissociável dos dilemas vivenciados pela classe trabalhadora na sociedade do capital e que nas suas lutas e conquistas históricas também sofrem perdas. Há desafios postos para a categoria profissional que requerem a incorporação da teoria social crítica no conjunto da profissão, além de respostas profissionais às expressões da questão social nos diversos espaços ocupacionais de inserção do assistente social (IAMAMOTO, 2009, p. 36). 24 1 O Serviço Social na contemporaneidade Objeto de aprendizagem Reflita sobre a atuação do Serviço Social frente à questão social na contemporaneidade. O Serviço Social tem na questão social o objeto da sua intervenção profissional e compreende o conjunto das expressões das desigualdades estruturais da sociedade capitalista, que tem raiz na produção social coletiva, em que há apropriação privada dos frutos do trabalho por parte de uma pequena parcela da sociedade. CONCLUSÃO Os direitos sociais, ao serem conquistados e regulamentados em lei, não significam a superação das desigualdades sociais e das formas de opressão presentes no cotidiano dos trabalhadores. A luta por direitos está determinada pela dinâmica da luta de classes e envolve disputas ideológicas quanto à concepção de sociedade e de projeto societário que se deseja afirmar. Esse é um processo que precisa de organização política da classe trabalhadora. É fundamental conhecer os avanços históricos obtidos pelos embates das classes, sem perder de vista a compreensão sobre a prevalência dos interesses do capital. Nesse contexto de tensão entre capital e trabalho se inserem os assistentes sociais, com o desafio de assegurar a direção do projeto profissional na perspectiva da mobilização para as possibilidades de transformação social, permitindo espaços de fortalecimento dos processos de luta e resistência, no acesso a direitos e à cidadania e contribuindo na superação das expressões da questão social. Exige-se competência teórico-metodológica e compromisso ético-político com os valores democráticos duramente conquistados e que devem ser assegurados. 25 1 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Projeto de intervenção REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANTUNES, Ricardo. Século XXI: nova era da precarização estrutural do trabalho? In: Seminário Nacional de Saúde Mental e Trabalho. São Paulo, 28 - 29 nov. 2008. Disponível em: http://www.cressrn.org.br/files/ arquivos/LxkqK1F4gd8eDW4w38w0.pdf. Acesso em: 6 dez. 2021. BEHRING, Elaine Rossetti. Política social no contexto da crise capitalista. 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Acesso em: 14 jan. 2022. 26 1 O Serviço Social na contemporaneidade GUERRA, Yolanda. A Instrumentalidade no trabalho do assistente social. Cadernos do Programa de Capacitação Continuada para Assistentes Sociais. Capacitação em Serviço Social e Política Social. Módulo 4: O trabalho do assistentesocial e as políticas sociais. CFESS/ABEPSS - UNB, 2000. Rev. e atual. Palestra ministrada no Simpósio Mineiro de Assistentes Sociais, BH, maio 2007, CRESS-6ª. Disponível em: http:// www.uel.br/cesa/sersocial/pages/arquivos/GUERRA%20Yolanda.%20A%20instrumentalidade%20no%20tra- balho%20do%20assistente%20social.pdf. Acesso em: 14 jan. 2022. IAMAMOTO, Marilda Villela. O Serviço Social na contemporaneidade: trabalho e formação profissional. 5. ed. São Paulo: Cortez, 2001. 326 p. IAMAMOTO, Marilda Villela. Os espaços sócio-ocupacionais do assistente social. 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Acesso em: 22 nov. 2021. 27 1 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Projeto de intervenção 28 Formação Profissional em Serviço Social 2 UNIDADE 2 FORMAÇÃO PROFISSIONAL EM SERVIÇO SOCIAL INTRODUÇÃO O serviço social é uma profissão que atua nas contradições da relação ca- pital e trabalho e que tem um projeto construído coletivamente pelo conjun- to da categoria desde o final da década de 1970 no país. As mudanças ocorri- das no mundo profissional, da mesma forma que influenciam as condições de sobrevivência dos trabalhadores, também afetam as condições de tra- balho dos assistentes sociais que são parte da mesma classe. Esta unidade apresentará uma discussão acerca da formação profissional em serviço social e fornecerá subsídios de reflexão sobre a prática desta profissão de viés interven- tivo e investigativo. A seção 1 abordará o projeto de trabalho profissional e a elaboração do projeto de intervenção como um instrumento necessário da profissão frente à ação interventiva. Também apresentará o marco da construção do projeto ético-político pro- fissional, construído coletivamente pelo conjunto da categoria em uma conjuntura polí- tica desfavorável no Brasil, no contexto da ditadura militar. A seção 2 apresentará a dimensão técnico-operativa nos processos de trabalho dos assistentes sociais e debaterá a reflexão sobre a articulação dessa dimensão às demais dimensões da profissão: a teórico-metodológica e a ético-política. Ainda, abordare- mos a importância da instrumentalidade no exercício da profissão, que vai além dos instrumentos dos quais os profissionais lançam mão no fazer profissional. A seção 3 trará o estudo sobre a dimensão interventiva e investigativa da profissão na defesa de direitos dos usuários e a importância do processo de sistematização para esse alcance. Abordará ainda a importância da sistematização e do registro necessá- rios para o fazer profissional, importante para a garantia de direitos, os instrumentos utilizados pelos assistentes sociais e o estudo social como processo metodológico de apreensão da realidade. Figura 01. Treinamento profissional, soluções de educa- ção, especialização e melhoria das habilidades profissionais Fo nt e: 1 23 R F. 29 2 Projeto de intervenção U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co 1. O PROJETO DE TRABALHO PROFISSIONAL E A ELABORAÇÃO DO PROJETO DE INTERVENÇÃO O serviço social emerge no período de desenvolvimento industrial do país no âmbito da divisão internacional do trabalho e das relações entre o Estado e a sociedade resultante dos determinantes socioeconômico-sociais. [...] a profissão é tanto um dado histórico, indissociável das particularidades assumidas pela formação e desenvolvimento da sociedade brasileira no âm- bito da divisão internacional do trabalho, quanto resultante dos sujeitos so- ciais que constroem sua trajetória e redirecionam seus rumos. Considerando a historicidade da profissão - seu caráter transitório e socialmente condicio- nado - ela se configura e se recria no âmbito das relações entre o Estado e a sociedade, fruto dedeterminantes macro-sociais que estabelecem limites e possibilidades ao exercício profissional, inscrito na divisão social e técnica do trabalho e nas relações de propriedade que a sustentam. Mas uma pro- fissão é, também, fruto dos agentes que a ela se dedicam cai seu protago- nismo individual e coletivo. (CFESS, 2012a, p. 39) No Brasil, entre 1960 e 1980, período de instalação da ditadura militar, é também quando se iniciou o processo de renova- ção do serviço social, denominado como Reconceituação do Serviço Social, mo- vimento desencadeado em diversos paí- ses latino-americanos. Esse movimento propôs a ruptura teórica e política que demandou o rompimento com as práticas profissionais conserva- doras. Além disso, requisitou um perfil profissional crítico, capaz de atuar nas de- mandas desafiadoras postas à profissão. Em 1979, no processo de crise da ditadura militar e no limiar da redemocratização bra- sileira, o serviço social brasileiro passou a construir um projeto profissional compromis- sado com os interesses da classe trabalhadora. Figura 02. Social Fo nt e: 1 23 R F. No Brasil, com o processo de renovação do serviço social, a partir de 1979, a profissão vem construindo um projeto profissional comprometido com os interesses da classe trabalhadora. Esse processo teve seu marco no III Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais – III CBAS, em 1979, na Cidade de São Paulo. O evento ficou conhecido como gênese, ou seja, o surgi- mento do projeto ético-político da profissão, que avançou nos anos 1980, consolidou-se na década de 1990 e está em construção permanente. IMPORTANTE 30 Formação Profissional em Serviço Social 2 1.1 O PROJETO ÉTICO-POLÍTICO DO SERVIÇO SOCIAL O sistema capitalista contém em seu projeto as dimensões de dominação, de subordi- nação e de exploração dos trabalhadores. Por sua vez, os trabalhadores fazem frente e constroem seus projetos na direção oposta do proposto pelo capital. De acordo com Braz e Teixeira, todo projeto em uma sociedade classista é portador de uma dimensão política. É a disputa entre os projetos societários que determina a ordem vigente ou sua transformação. Assim, o plano ético-político do serviço social, como os demais, constitui- -se em projeto coletivo na direção da mudança social (BRAZ; TEIXEIRA, 2009. p. 4). Num exercício de sistematização, podemos identificar os elementos consti- tutivos do projeto ético‐político do Serviço Social e os componentes que o ma- terializam no processo sócio‐histórico da profissão. São eles: a. o primeiro se relaciona com a explicitação de princípios e valores ético‐políticos; b. o segundo se refere à matriz teóricometodológica em que se ancora; c. o terceiro emana da crítica radical à ordem social vigente – a da sociedade do capital – que produz e reproduz a miséria ao mesmo tempo em que exibe uma produção monumental de riquezas; d. o quarto se manifesta nas lutas e posicionamentos políticos acumula- dos pela categoria através de suas formas coletivas de organização po- lítica em aliança com os setores mais progressistas da sociedade bras- ileira. (BRAZ; TEIXEIRA, 2009. p. 7-8) É comum na categoria profissional haver assistentes sociais com o discurso da inviabilidade do projeto ético-político sob argumento da ineficiência no fazer profissional. “Nada mais falso”, de acordo com diversos autores e pesquisadores da categoria, como Braz e Teixeira (2009, p.12), que analisam o referido posicionamento profissional como “visão pobre” que não encontra espaço de sustentação. Portanto, é necessário a defesado projeto profissional do serviço social, pois ele é um instru- mento que, aliado aos demais, oferece elementos para enfrentar as adversidades postas no cotidiano profissional (BRAZ; TEIXEIRA, 2009, p. 12). É fundamental não perder de vista o projeto profissional. Não são raras as requisições imediatas que chegam ao cotidiano trabalho dos assistentes sociais, facilmente levando para seu atendimento momentâneo, sem questionamentos da verdadeira demanda. Por isso, é fundamental a reflexão desse cotidiano profissional. Assim, também é importante a articulação dos assistentes sociais com profissionais de sua categoria e com as demais áreas, ao passo que a mudança social não cabe apenas a uma profissão e, menos ainda, a um profissional. IMPORTANTE 31 2 Projeto de intervenção U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co O segundo dispõe sobre os direitos e os deveres do assistente social no desenvolvi- mento de suas atribuições junto aos usuá- rios e em sua relação com eles, com demais profissionais, com instituições, com a justi- ça, entre outros. Além desses instrumentos, a profissão reúne um arsenal teórico e legal produzido pela categoria na defesa dos di- reitos sociais e dos próprios profissionais. O arsenal teórico se refere a toda pesquisa e sistematização por parte da categoria sobre a apreensão crítica e totalizante da questão social nas suas múltiplas expressões e dos determinantes socioeconômico-culturais, aos quais está exposta a classe trabalhadora e que influenciam na ocorrência de situações de vulnerabilidades e riscos sociais e pessoais. O arsenal legal diz respeito às legislações sociais que asseguram direitos à população brasileira, conforme disposto na Constituição de 1988 e nas demais legislações que regulamentaram esses direitos. Entre as várias leis, podemos destacar: O serviço social foi construindo outros instrumentos legais que definem as compe- tências e os valores éticos e orientam o trabalho profissional do assistente social. Na atualidade, são eles: Figura 03. Conceito para ajuda de organização, projeto de meio ambiente ou trabalho social Fo nt e: 1 23 R F. ` Lei nº 8.662/1993, que regulamenta a profissão. ` Código de Ética do Assistente Social (1993). ` Lei Orgânica da Saúde (1990). ` Estatuto da Criança e do Adolescente (1990). ` Lei Orgânica da Assistência Social – LOAS (1993). ` Estatuto do Idoso (2003). ` Lei Maria da Penha (2006). ` Estatuto da Igualdade Racial (2010). 32 Formação Profissional em Serviço Social 2 O serviço social dispõe ainda de instrumen- tos legais específicos, como uma série de resoluções aprovadas especialmente pelo Conselho Federal de Serviço Social. Essas legislações norteiam a atuação profissional nos espaços ocupacionais e são frutos das demandas vivenciadas pela categoria e das requisições institucionais que ferem a ética profissional, bem como os direitos dos su- jeitos atendidos pela profissão. É necessário o reconhecimento dos determinantes presentes no cotidiano pro- fissional dos assistentes sociais em todos os espaços ocupacionais da realização do trabalho, no âmbito público ou no privado. Isso se dá por sua condição de trabalhador as- salariado que intervém na tensão e nas contradições da relação entre capital e trabalho. ` Sistema Único de Assistência Social – SUAS (2011). ` Estatuto da Juventude (2013). ` Estatuto da Pessoa com Deficiência (2015). Figura 04. Regulamentos – imagem com palavras- -chave e ícones Procedimento Contuda Padrão Conformidade RestriçãoDiretriz Lei Regras Fo nt e: 1 23 R F. Acesse o site do Conselho Federal de Serviço Social e conheça as resoluções que orientam e normatizam o exercício profissional de assistentes sociais. Entretanto, apesar dessa condição, é necessário reconhecer a existência de possibili- dades do exercício de sua autonomia profissional no processo de trabalho. Isso permite desenvolver as ações comprometidas com o projeto profissional na direção dos interes- ses da classe trabalhadora. Embora os princípios norteadores do projeto profissional estejam fundados na perspectiva da construção de uma outra sociedade, é nos parâmetros do capitalismo que se materializa a profissão, e o assistente social é chamado a prestar serviços que podem corroborar o status quo ou atuar para criar outras formas de sociabilidade, que problematizem a organização da socie- dade. (COUTO, 2009, p. 2) SAIBA MAIS Disponível em: http://www.cfess.org.br/visualizar/menu/local/resolucoes-do-cfess. Acesso em: 15 dez. 2021. 33 2 Projeto de intervenção U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Nesse sentido, é importante que o profissional conheça a instituição à qual está vin- culado, a correlação de forças, a população usuária, suas demandas e interesses e a política executada. A identificação institucional é fundamental para o projeto de trabalho. Que tipo de instituição é? Pública ou privada? Qual é a sua finalidade? Como se organiza? Que recursos usa na sua manutenção? Como se estabelecem as relações de poder? Por que requisitou o assistente social? Em que medida presta serviços à população? Como absorve os demandatários na órbita ins- titucional? Quais são as necessidades sociais da população que se propõe a atender e de que forma? Há espaço institucional para alterações nessa organização? A resposta a esses questionamentos fornece ao assistente so- cial a identificação mínima necessária para construir uma proposta que seja exequível. (COUTO, 2009, p. 4) O cotidiano profissional dos assistentes sociais é permeado pelas exigências das insti- tuições empregadoras, requisitadas pelo capital e pelas solicitações imediatas da popu- lação usuária, que são demandas coletivas da classe trabalhadora. É importante estar ciente de que se tratam de demandas complexas que não podem ser respondidas de forma simplista, que leve à individualização de fenômenos sociais e à culpabilização da população pela sua situação de vulnerabilidade. Nesse contexto, o fato de lançar mão dos instrumentos teóricos e legais da profissão constitui respostas e formas de enfrentamento das requisições postas aos assistentes sociais que não condizem com seu projeto profissional. Dessa forma, a elaboração de projetos de intervenção também elabora respostas e, ao fazê-lo, os profissionais apropriam-se e ressignificam sua prática, produzindo novos compromissos de cunho crítico com a realidade em que atuam. De acordo com ABEPSS e CFESS (2009, p. 5 e 16), os espaços sócio-ocupacionais do assistente social são: ` Esfera estatal. ` Instâncias públicas de controle democrático. ` Empresas capitalistas. ` Fundações empresariais. ` Organizações privadas não lucrativas. ` Organizações da classe trabalhadora. [...] o projeto de trabalho não é um mero instrumento, ele deve condensar as possibilidades e os limites colocados ao profissional na execução da sua intervenção. Deve iluminar sua constante avaliação da eficácia de seus SAIBA MAIS 34 Formação Profissional em Serviço Social 2 1.2 A CONSTRUÇÃO DO PROJETO DE INTERVENÇÃO O projeto de trabalho é um dos instrumentos de consolidação e de fortalecimento do projeto ético-político profissional. A formulação dele pelo assistente social estabelece seu compromisso com o projeto construído coletivamente pela profissão e com as de- mandas da população. A elaboração do projeto de intervenção deve preceder a identificação de uma situação- -problema relativa a uma expressão da questão social, posta como desafio a ser supe- rado. Situação-problema trata-se de determinada situação posta como desafio identi- ficada para resolução. O profissional deve levantar perguntas básicas no momento de criar o projeto, como: instrumentos, técnicas e conhecimentos para atingir as metas propostas, que devem estar articuladas aos elementos presentes no espaço sócio-o- cupacional, como também referendarem os compromissos profissionais. (COUTO, 2009, p. 13) ` O quê? `