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A Gênese da Questão Social no 
Brasil
Apresentação
A expressão questão social está cada vez mais recorrente na sociedade atual. Tornou-se algo 
discutido em todos os espaços da vida social. Mas, afinal, o que é a questão social? Como essa 
expressão foi criada e para explicar qual realidade? Estudar e intervir na vida social dos sujeitos 
requer a compreensão apurada sobre esse tema.
Nesta Unidade de Aprendizagem, você verá como a questão social se desenvolveu enquanto 
produto do sistema capitalista, em especial no Brasil. A compreensão desse processo é fundamental 
para que você entenda as expressões da questão social na atualidade.
Bons estudos.
Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
Definir questão social.•
Identificar o modo de produção capitalista e a sua relação com a gênese da questão social.•
Reconhecer o processo histórico de reconhecimento da questão social.•
Desafio
Quando um assistente social se refere às expressões da questão social, está se referindo aos 
diversos tipos de mazelas existentes na sociedade, as quais são frutos da contradição inerente da 
relação capital x trabalho. Sabe-se também que o processo de reconhecimento da questão social no 
Brasil foi lento e suas principais facetas ainda estão presentes na sociedade atual.
Sabendo dessas informações, imagine que você é um assistente social e foi convidado a construir 
um estudo socio-histórico sobre uma determinada comunidade remanescente de quilombo, de 
modo a mapear as principais expressões da questão social, além de propor intervenções.
 
Você deve redigir um texto dissertativo elencando as principais mazelas sociais existentes nessa 
comunidade, as suas relações com a questão social como um produto histórico e as possíveis 
intervenções a serem efetivadas no enfrentamento destas expressões.
Infográfico
A definição sobre questão social é muito controversa, autores de diferentes correntes do 
pensamento social têm concepções distintas sobre a sua gênese e atual formatação. 
Porém, existe uma definição amplamente aceita em todo mundo e em diferentes teorias sociais. 
Sendo essa definição a utilizada pelo serviço social, de modo a entender a questão social, além 
de produzir reflexões sobre as diferentes realidades sociais encontradas.
Neste Infográfico, você vai ver o que é a questão social.
Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino!
Conteúdo do livro
O conceito de questão social remonta ao início do processo de transição entre o modo de produção 
feudal e o capitalista. Esse processo foi lento e forjado por diferentes variáveis que modificam os 
aspectos característicos da questão social nos diferentes países.
No capítulo A Gênese da questão social no Brasil, da obra Questão social, direitos humanos e 
diversidade, base teórica desta Unidade de Aprendizagem, você vai poder se aprofundar na 
compreensão do que é a questão social e como ela se desenvolveu enquanto produto do modo de 
produção capitalista, especialmente no Brasil. 
Boa leitura.
QUESTÃO SOCIAL, 
DIREITOS HUMANOS 
E DIVERSIDADE
Anarita Salvador
A gênese da Questão 
Social no Brasil
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
  Definir Questão Social.
  Identificar o modo de produção capitalista e sua relação com a gênese 
da Questão Social.
  Reconhecer o Processo histórico de reconhecimento da Questão Social.
Introdução
A Questão Social remonta à transição entre o modo de produção feudal 
e o capitalista. Esse processo foi lento e forjado por diferentes variáveis. 
Assim, os aspectos característicos da Questão Social são distintos nos 
diferentes países.
Neste capítulo, você vai ver como a Questão Social se desenvolveu 
enquanto produto do sistema capitalista, em especial no Brasil. A compre-
ensão desse processo é fundamental para você entender as expressões 
da Questão Social na atualidade.
O que é a Questão Social?
A Questão Social é objeto de estudo de diversos pesquisadores. Para entendê-la, 
eles buscam compreender as diversas relações travadas nas sociedades humanas, 
em especial na capitalista. Como você pode imaginar, essa busca demanda grande 
esforço teórico. Nesse sentido, você pode considerar que a Questão Social é um 
conceito utilizado para possibilitar a compreensão da realidade social.
Um equívoco comum relacionado a essa expressão é a sua redução concei-
tual. Diversas pessoas acreditam que Questão Social é sinônimo de pobreza. 
Desfazer esse entendimento envolve compreender o seguinte: a pobreza, a 
miséria e as desigualdades sociais são antiquíssimas na história da humanidade, 
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mas existe uma forma relativamente nova de geração dessas discrepâncias, 
surgida a partir da consolidação das formas de produção capitalistas.
Após a passagem do feudalismo para o capitalismo, este último se conso-
lidou como modo de produção dominante a partir do século XIX. Alicerçado 
no desenvolvimento das forças produtivas, ele provocou o surgimento de uma 
nova forma de pobreza: “[...] era radicalmente nova a dinâmica da pobreza que 
então se generalizava [...] a pobreza crescia na razão direta em que aumentava 
a capacidade social de produzir riquezas” (NETTO, 2001, p. 42).
Portanto, não são a desigualdade social e a pobreza sem distinção que são 
compreendidas como Questão Social, e sim aquelas que têm a sua existência 
atrelada ao modo de produção capitalista. Como você sabe, o escravismo e 
o feudalismo também são sistemas geradores dessas mazelas. Contudo, no 
capitalismo a sua existência é única e socialmente produzida.
A Questão Social corresponde, sobretudo, às condições degradantes sur-
gidas a partir da consolidação do capitalismo. Esse sistema, ao construir as 
bases de produção e reprodução da vida social, gera de forma inversamente 
proporcional a situação de miséria, pobreza e exclusão social da classe que vive 
do trabalho. Assim, a Questão Social condensa o conjunto de desigualdades 
e lutas sociais produzidas e reproduzidas no movimento contraditório das 
relações sociais (IAMAMOTO, 2008).
Você deve notar que esse conceito não surge apenas a partir das perversas 
condições de vida às quais está submetida a classe trabalhadora. Ele também 
é produto do reconhecimento dessa classe enquanto sujeito político. Assim, as 
lutas sociais estão incorporadas à constituição da Questão Social e do processo 
de evolução política, marca perene da modernidade.
Dessa forma, fica claro que na base do processo de produção da Questão 
Social estão as relações sociais antagônicas entre capitalistas e trabalhado-
res. Está nessa relação a chave de análise desse conceito e das correlações 
produzidas a partir dele. Veja:
A Questão Social não é senão as expressões do processo de formação e desen-
volvimento da classe operária e de seu ingresso no cenário político da socie-
dade, exigindo seu reconhecimento como classe por parte do empresariado e 
do Estado. É a manifestação, no cotidiano da vida social, da contradição entre 
o proletariado e a burguesia, a qual passa a exigir outros tipos de intervenção 
mais além da caridade e repressão (IAMAMOTO, 2008, p. 77).
É no cerne da complexa relação da exploração do trabalho pelo capital 
que são forjadas as diversas expressões da Questão Social. Além disso, por 
meio da correlação de forças entre as classes sociais, são esculpidas as formas 
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e a amplitude da Questão Social. No cotidiano da sociedade, há diversas e 
multifacetadas expressões da Questão Social. Todas elas são produzidas a 
partir da acumulação privada daquilo que é socialmente produzido.
O conceito de Questão Social auxilia na compreensão da produção e da 
reprodução das relações sociais de opressão e exploração de uma classe sobre 
a outra. Porém, no cotidiano profissional do assistentesocial, esse conceito 
se dilui diante da realidade vivida. Assim, a Questão Social se manifesta das 
mais variadas formas: na fome e na miséria, na drogadição, na violência e 
também nos transtornos mentais.
Ou seja, ao estudar a Questão Social, você obtém também as bases teóricas 
e metodológicas para compreender a sociedade atual. Dessa forma, você pode 
refletir sobre as relações nela produzidas de forma ampliada e complexificada, 
enxergando além da aparência do fenômeno social.
Para entender melhor como a pobreza mudou de configuração a partir da imple-
mentação do capitalismo, considere a figura de um camponês que vivia nas terras 
de um senhor feudal. Lá, ele possuía ferramentas de trabalho rudimentares e a forma 
de manejo da terra era simples. Portanto, ele dominava a função. Tinha a capacidade 
de arar a terra, plantar as sementes, colher o resultado de seu trabalho e armazenar a 
produção. No feudo, viviam o trabalhador e os seus descendentes. Eles participavam 
da vida social e cultural da comunidade e possuíam responsabilidades junto ao senhor 
feudal. Este, por sua vez, também tinha deveres para com os trabalhadores.
Nesse cenário, embora a pobreza e a miséria pudessem existir, eram originadas 
pelas condições de produção da época, pela ausência de melhores instrumentos de 
trabalho e de tecnologias que se sobrepusessem às intempéries da natureza ou das 
doenças. Quando a colheita era produtiva e o lucro existia, essa era uma conquista 
de todos. Independentemente do estrato social e mesmo com a desigualdade entre 
os grupos, todos participavam da apropriação da produção.
Na sociedade capitalista, esse suposto camponês é subserviente ao proprietário da 
terra. Dependendo das demandas da produção, o proprietário contrata certo número 
de trabalhadores, que conhecem e dominam apenas uma etapa da produção. A quan-
tidade de camponeses necessária para a produção na terra é cada vez menor, pois a 
mecanização incentiva o êxodo para os centros urbanos. Esse camponês não pertence 
mais à terra. Ele passa a ser dispensável, dada a quantidade de trabalhadores disponíveis 
no mercado. O seu saber é descartável e ele não pode mais se apropriar da produção. 
Além de realizar um trabalho alienado, esse camponês não tem mais vinculação, não se 
liga à terra. A sua sobrevivência, assim, é uma constante busca por condições cada vez 
mais precárias de venda da sua força de trabalho, único recurso produtivo que lhe resta.
3A gênese da Questão Social no Brasil
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A Questão Social e o capitalismo
Ao longo da sua história, a fi m de produzir os bens que melhor atendiam às suas 
necessidades, o homem passou a utilizar a matéria-prima disponível na natureza 
para criar objetos. Esses objetos, transformados em mercadoria, levaram o 
homem a se organizar economicamente. Assim, se constituiu o mercado. Como 
você pode imaginar, esse processo histórico não foi nada simples, rápido ou 
fácil. Durante centenas de anos, a forma de produzir mercadorias e de garantir 
a sua circulação foi se complexifi cando e se desenvolvendo cada vez mais.
Na Baixa Idade Média, por volta do século XIV, o modo de produção 
feudal começou a entrar em colapso. Isso ocorreu devido a inúmeros fatores. 
Entre eles, você pode considerar: o surgimento da burguesia, que passou a ter 
uma forte influência nas crescentes cidades alimentadas pelo comércio cada 
vez mais diversificado; e o declínio do poder centrado nos senhores feudais, 
enfraquecidos pela crise no campo e pelas revoltas camponesas.
Concomitantemente a esse processo, o embrionário capitalismo começou 
a se fortalecer com a expansão dos comércios. Assim, foram criadas cada vez 
mais rotas comerciais, o que possibilitou a circulação de mercadorias entre 
as populações. A expansão marítima, o surgimento dos centros urbanos e 
o avanço tecnológico provocado pelo aprimoramento das forças produtivas 
levaram a humanidade a uma forma totalmente nova de produzir.
Esse processo de transformações ocorreu durante os séculos XIV e XVII. 
Porém, não se deu de forma linear. A sua formatação adquiriu características es-
pecíficas em cada momento e espaço. Contudo, uma característica se generalizou 
em todos os tempos e locais: a exclusão dos trabalhadores dos avanços obtidos.
Para aprender mais sobre esse processo histórico, acesse o 
link a seguir e leia texto As Bases Constitutivas da “Questão 
Social”.
https://goo.gl/FGiUYf 
A gênese da Questão Social no Brasil4
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Os trabalhadores — que durante séculos foram servos vinculados à terra e, 
portanto, a ela pertenciam — foram esvaziados de suas relações de pertenci-
mento e responsabilização. Além disso, ficaram relegados à sua própria sorte 
e obrigados a viver como trabalhadores livre. Esse trabalhador expropriado de 
sua vinculação cultural, social e econômica à terra se viu compelido a buscar 
nos nascentes centros urbanos formas de sobrevivência para si e sua prole.
Nas cidades onde o novo sistema fabril se instalava, havia demanda por 
esses trabalhadores. Porém, com cada vez mais camponeses sendo expulsos 
das terras e mudando-se para as cidades, começou a aumentar o número de 
trabalhadores livres sem vagas de emprego. Veja:
Quando surgem as cidades nas quais os habitantes se ocupam total ou principal-
mente do comércio e da indústria, passam a ter necessidade de obter do campo o 
suprimento de alimentos. Surge, portanto, uma divisão do trabalho entre cidade 
e campo. Uma se concentra na produção industrial e no comércio, o outro na 
produção agrícola para abastecer o crescente mercado representado pelos que 
deixaram de produzir o alimento que consomem (HUBERMAN, 1979, p. 51).
Nesse processo, o Estado também se desenvolve, respondendo à demanda 
das forças produtivas. À medida que se consolidavam, essas forças demanda-
vam um Estado forte e organizado para regular as relações sociais. Responsável 
pela organização legal e pelas forças de coesão e coerção social, o Estado se 
tornou necessário e muito relevante para a expansão capitalista.
O processo de acumulação primitiva de capital ocorreu por meio da extração 
da mais valia dos trabalhadores. Afinal, havia um exército de trabalhadores 
desempregados disposto a se submeter aos mais terríveis contextos de traba-
lho mediante a garantia de condições mínimas de sobrevivência. A enorme 
população de trabalhadores nas cidades começou a enfrentar um novo tipo de 
pobreza e miséria. A relação de produção já não garantia aos trabalhadores 
condições de sobrevivência. Além disso, não possibilitava a sua inserção na 
nova organização política e social.
Todos esses fatores tiveram um papel importante na formação do sistema 
capitalista tal como você o conhece hoje. Com o desenvolvimento do modo 
de produção capitalista em si, se intensificaram esses processos. A partir 
da industrialização, se aprofundou a vigência das leis capitalistas, fazendo 
emergir, no século XIX, o fenômeno do pauperismo.
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O pauperismo é um fenômeno social caracterizado pela pobreza extrema, a miséria 
absoluta. Esse termo é utilizado para definir a situação de vida dos trabalhadores que 
vivenciaram o processo de industrialização dos países desenvolvidos nos séculos XVIII 
e XIX. Até hoje, ele é usado para descrever a ausência plena de condições dignas de 
sobrevivência advindas inerentemente da contradição capital versus trabalho.
Nesse mesmo século, o capitalismo consolidou as suas bases de expansão e 
dominação, passando pela industrialização da produção. A Primeira Revolução 
Industrial foi fomentada pelo desenvolvimento do tear e da máquina a vapor. 
Como você pode notar, esse cenário reforça a compreensão de que o desenvol-
vimento tecnológico — que garantiu o aperfeiçoamento das forças produtivas 
— foi um dosgrandes fatores de consolidação do modo de produção capitalista.
Nesse contexto, a classe trabalhadora tinha a sua força vital explorada ao 
máximo. As crianças e as mulheres se viam compelidas a realizar jornadas de 
trabalho cada vez mais extenuantes. Além disso, as condições de vida eram 
extremamente insalubres e degradantes, como você pode ver na Figura 1. Au-
tores como Didi-Huberman e Hobsbawm trazem reflexões e relatos minuciosos 
sobre essas condições de vida. Antes deles, Marx e Engels já denunciavam 
em seus escritos as perversas condições de vida em que se encontrava grande 
parcela da classe trabalhadora, em especial na Inglaterra e na França.
Figura 1. Condições de vida da classe trabalhadora na 
Londres do século XIX.
Fonte: Goucher e Walton (2011, p. 258).
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O fenômeno da miséria, essencial à compreensão histórica do capitalismo, 
também assume um viés contraditório. Assim, a barbárie das condições de 
existência levou ao surgimento da solidariedade entre os trabalhadores. Supe-
rando as diferenças, eles começaram a enfrentar de forma coletiva as mazelas 
que vivenciavam. Assim, como afirma Santos (2015, p. 38):
[...] inúmeros protestos de diferentes segmentos da classe trabalhadora [...] 
foram gestando um dos genuínos “produtos” da terceira década do século 
XIX: a consciência de classe [...] [houve] a passagem do que eram as primei-
ras percepções do proletariado, reconhecendo-se como tal em sua condição 
econômica, ao reconhecimento da necessidade política do seu protagonismo, 
como classe, no enfrentamento daquelas condições.
As transformações vividas pela classe trabalhadora na sua constituição 
enquanto classe social possibilitaram a organização dos mais diferentes mo-
vimentos sociais. Tais movimentos tinham como demanda central a mudança 
das condições de vida e de trabalho daqueles que viviam da venda da sua 
força produtiva. Isso evidencia o caráter histórico das relações sociais. Os 
trabalhadores percebiam, portanto, que a revolução social era possível.
Movimentos anteriores a 1830 já indicavam a resistência às condições 
insalubres de vida e trabalho, bem como a organização dos trabalhadores 
contra as ações do capital. Os movimentos sociais conhecidos como ludismo 
e cartismo deram os primeiros sinais da organização social e política que os 
trabalhadores desenvolviam.
O ludismo foi um movimento operário ocorrido entre 1811 e 1812 na Inglaterra. Os 
operários das fábricas, revoltados com a incorporação de maquinário e a diminuição da 
mão de obra, passaram a quebrar as máquinas e outros equipamentos como forma de 
protesto. Esse movimento teve fim com a criação do primeiro sindicato de trabalhadores.
O cartismo, por sua vez, foi um movimento operário ocorrido entre 1839 e 1847 na 
Inglaterra. Ele foi marcado pela luta sindical de caráter classista. Teve na defesa da demo-
cracia junto ao Poder Legislativo a sua principal reivindicação, sintetizada na Carta do Povo.
Como reflexo das agruras sofridas, em especial pela classe trabalhadora, a 
crise econômica da década de 1840 começou a se processar em diversos países 
da Europa. Ela culminou nas revoltas de junho de 1848. Após ser massacrado, 
7A gênese da Questão Social no Brasil
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o movimento operário que manteve uma guerra civil contra o Estado burguês 
deixou um legado claro do inevitável antagonismo dessas classes sociais.
Os países centrais do capitalismo viram um refluxo do movimento dos 
trabalhadores após a derrota de junho de 1848. Além disso, ocorreu uma fase 
de expansão capitalista, apenas interrompida temporariamente pela Comuna 
de Paris, em 1871. Esta foi a última grande insurgência desse intenso ciclo 
de movimentos trabalhistas na Europa. Como você viu, esses movimentos 
tornaram a Questão Social elemento central na luta de classes e na construção 
de estratégias de enfrentamento. Estavam presentes aí os nascentes direitos 
civis e sociais, marcos do século seguinte.
O reconhecimento da Questão Social no Brasil
A partir do século XIX, ocorreram mudanças estruturais no caráter interna-
cional e globalizado da economia capitalista. Houve a incorporação da divisão 
internacional do trabalho e a mudança para a fase imperialista do capital. Isso 
gerou profundos impactos na produção de riquezas, bem como na organização 
da classe trabalhadora.
Nessa fase, a Questão Social continuou a ser produzida e reproduzida. Para 
entender o seu desenvolvimento, você deve considerar as particularidades histórico-
-culturais de cada período e de cada país. Como você viu, no núcleo da Questão 
Social entre 1800 e 1930 estavam a consolidação da classe trabalhadora enquanto 
classe social, as suas condições de vida e de trabalho, bem como as lutas sociais 
por ela travadas. No novo momento da história da humanidade, as relações se 
complexificaram e demandam novas concepções que subsidiem a sua análise.
O Brasil entrou tardiamente no modo de produção capitalista. Como você sabe, 
até hoje o País convive com formas rudimentares de produção e reprodução social. 
Assim, o cenário nacional possui características específicas, que você vai ver a 
seguir. Porém, aqui não há a pretensão de esgotar a temática. Afinal, a constituição 
e a complexidade da Questão Social se reformulam a partir das mudanças sociais.
O Brasil está inserido no rol dos países que adotaram o capitalismo tardio. 
Enquanto o mundo vivenciava a mudança do modo de produção feudal para 
o modo de produção capitalista, o Brasil estava ainda sendo incorporado ao 
“mundo civilizado”. O capitalismo, ao adentrar o Brasil enquanto modo de 
produção, encontrou uma sociedade fértil para lançar suas bases já no modelo 
monopolista. Sem tradição democrática e marcada por relações sociais e 
econômicas de exploração e opressão, a classe trabalhadora brasileira não 
impôs resistência à nova forma de produzir.
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A base agrícola e de cultura escravocrata da burguesia brasileira adaptou-se 
facilmente às diretrizes capitalistas. Dessa forma, houve uma “modernização 
arcaica” da economia e da produção de mercadorias no Brasil:
O processo brasileiro difere inteiramente do europeu, que é o modelo clássico. 
O capitalismo brasileiro avança devagar, aproveita as brechas para avançar 
mais rápido, transige sempre com as relações políticas mais atrasadas e as 
econômicas que as asseguram, manobra, recua, compõe-se. Gera uma burgue-
sia tímida, que prefere transigir a lutar, débil e por isso tímida, que não ousa 
apoiar-se nas forças populares, senão episodicamente, que sente a pressão do 
imperialismo, mas receia enfrentá-la, pois receia mais a pressão proletária 
(SANTOS, 2015, p. 105).
Em paralelo à formação da burguesia nacional, ocorria o fortalecimento 
da classe trabalhadora. A partir da transição entre os séculos XIX e XX, essa 
classe começou a ser influenciada pelo movimento anarquista e pelo ideário 
comunista, especialmente com a chegada de trabalhadores imigrantes do 
continente europeu.
Embora houvesse aqui uma concepção que reforçava o perfil de um povo 
“gentil e ordeiro” diante das péssimas condições de trabalho, o movimento 
trabalhista começou a ganhar força no cenário urbano. As greves e ocupações 
se tornaram conhecidas do povo e uma tendência ao enfrentamento ao sistema 
de dominação passou a ser forjada nos sindicatos e organizações políticas.
Historicamente, no Brasil, as mazelas sociais advindas das desigualdades 
de classe foram tratadas como “casos de polícia”. Os acusados de vadiagem 
ou aqueles que não eram compreendidos socialmente como “pobres merece-
dores” eram destinados ao poder policial. O avanço dos ideários anarquistas 
e comunistas nos países desenvolvidos, atrelado ao tom conservador da bur-
guesia e do Estadono Brasil, fez com que a Questão Social fosse reconhecida 
enquanto “caso de política”. Assim, foi antecipado e garantido um conjunto de 
leis trabalhistas e sociais que visavam a enfrentar as mazelas sociais.
Portanto, no Brasil, o direcionamento populista de organização da socie-
dade se deu a partir de um falso consenso de classes, por meio de alianças 
entre a burguesia e o Estado. Este buscava estabelecer direitos pelo alto. 
Assim, desconstruía o protagonismo das classes subalternas (SANTOS, 2012). 
Contudo, mesmo durante momentos de dissolução dos direitos políticos, os 
direitos trabalhistas foram mantidos. Nessa lógica, foi construído lentamente 
um conjunto de leis e políticas para garantir a efetivação desses direitos.
Essas condições estavam atreladas a uma organização político-social que 
impunha ao Estado a modernização das condições para a garantia da produ-
9A gênese da Questão Social no Brasil
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ção capitalista no País. As ações do Estado deveriam, portanto, possibilitar 
a garantia das condições infraestruturais de desenvolvimento. Entre outras 
condições basilares demandadas, destaca-se a responsabilização pelo salário 
indireto, a ser organizado por meio de políticas sociais que possibilitassem a 
reprodução da classe trabalhadora.
No Brasil, o desenvolvimento do capitalismo e o reconhecimento da Questão 
Social enquanto conceito atrelado a esse sistema compõem a estrutura básica 
para a manutenção e a ampliação do próprio capitalismo. Portanto, você pode 
considerar que o modelo predatório do desenvolvimento capitalista encontrou no 
Brasil um terreno fértil de expansão e de maximização das estratégias de lucro.
A perspectiva da intervenção na Questão Social por meio de políticas 
sociais surgiu como produto do reconhecimento político da classe trabalha-
dora. Assim, essa intervenção se relaciona ao agravamento das condições de 
vida dos trabalhadores brasileiros. Eles passaram a demandar a mediação do 
Estado em diversas expressões da Questão Social, buscando proteção social 
ou direitos sociais muitas vezes violados.
Na contemporaneidade, é necessário pensar em formas de enfrentar as 
multifacetadas expressões da Questão Social. O enfrentamento envolve a 
atenção às necessidades dos trabalhadores e a afirmação de políticas sociais 
universais. Além disso, passa pela democratização da economia, da política 
e da cultura na construção da esfera pública.
A atual Questão Social refere-se à ampliação do trabalho na sociedade 
capitalista. Hoje, existe a degradação do trabalho, a perda e o desaparecimento 
de muitas categorias e postos de emprego. Essa realidade se amplia quando 
o Estado passa a se retirar do campo social com cortes, privatizações e a 
sistemática regressão dos investimentos na efetivação dos direitos sociais.
Na atualidade, a partir da intensificação da contradição capital versus traba-
lho, em tempos de capitalismo neoliberal, é possível identificar o aumento das 
expressões da Questão Social, configuradas por indicadores sensíveis existentes 
na sociedade. Nesse contexto, você deve considerar três pontos centrais: o au-
mento do desemprego em nível mundial, a falta de postos de trabalho e a emersão 
de formas precarizadas de trabalho e salário, isto é, a perda dos vínculos formais.
Nesse processo, você pode notar que há prevalência do desenvolvimento 
econômico em detrimento do desenvolvimento social das políticas gover-
namentais, tanto nos países centrais como nos periféricos. Isso tem levado 
à “banalização do humano” e à radicalização das necessidades sociais. Tal 
questão é facilmente perceptível em um país de economia frágil como o Brasil.
Como você viu ao longo deste capítulo, o debate acerca da Questão Social 
é bastante complexo. Essa complexidade se deve à inteira e irrestrita vincula-
A gênese da Questão Social no Brasil10
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ção da Questão Social com elementos macroestruturais, como as condições 
econômicas, políticas e culturais de determinado território e de dado momento 
histórico. Compreender a gênese da Questão Social no mundo e, em particular, 
no Brasil é fundamental. Só assim você pode refletir com mais argumentos 
e embasamento sobre as configurações contemporâneas da Questão Social.
É bastante comum o uso equivocado do plural da expressão “Questão Social” para 
se fazer referência às suas diversas expressões. Porém, o uso do plural pode levar à 
compreensão errônea de que há mais de uma Questão Social. O correto é afirmar que 
existem múltiplas e multifacetadas expressões da Questão Social.
GOUCHER, C.; WALTON, L. História mundial: jornadas do passado ao presente. Porto 
Alegre: Penso, 2011.
HUBERMAN, L. História da riqueza do homem. 15. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.
IAMAMOTO, M. V. Serviço social em tempo de capital fetiche: capital financeiro, trabalho 
e questão social. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2008. 
NETTO, J. P. Cinco notas a proposíto da “questão social”. Revista Temporalis, v. 2, n. 3, 2001.
SANTOS, J. S. “Questão social”: particularidades no Brasil. São Paulo: Cortez, 2015.
Leituras recomendadas
ARAÚJO, A. C. et al. As bases constitutivas da “questão social”: aproximações histó-
ricas. In: JORNADA INTERNACIONAL DE POLÍTICAS PÚBLICAS, 7., 2015. Anais... São 
Luís: UFMA, 2015. Disponível em: . 
Acesso em: 28 set. 2018.
BRANCO, R. C. “Questão Social” na origem do capitalismo: pauperismo e luta operária 
na teoria social de Marx e Engels. 2006. 181 f. Dissertação (Mestrado) - Universidade 
Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2006.
CASTEL, R. As metamorfoses da questão social: uma crônica do salário. Petrópolis: Vozes, 1998.
11A gênese da Questão Social no Brasil
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Conteúdo:
Dica do professor
A gênese da questão social está intimamente relacionada ao modo de produção capitalista. Assim, é 
essencial que você possa compreender o processo de reconhecimento da questão social no Brasil e 
suas características históricas, assim como a sua intrínseca relação com os direitos e as políticas 
sociais brasileiras.
Assista ao vídeo da Dica do Professor para conhecer mais sobre a relação da questão social com o 
capitalismo. 
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Exercícios
1) Quando se afirma que a questão social é fruto inalienável do modo de produção capitalista, 
reitera-se a sua vinculação com a sociedade vigente.
Tal afirmação é verdadeira por qual motivo?
A) Porque as mazelas sociais como fome, pobreza e desemprego surgiram na humanidade a 
partir do nascimento do modo de produção capitalista.
B) Porque foi no modo de produção capitalista que a luta de classes surgiu, principal condição 
para a validação da questão social como conceito.
 
C) Porque é no capitalismo que a exploração do homem pelo homem acontece de forma 
deliberada e sistemática, na busca incessante pelo lucro.
D) Porque no feudalismo não havia a questão social, pois a produção era igualmente dividida 
entre senhores e servos.
E) Porque a pobreza e a miséria, principais faces da questão social, não poderiam ser geradas na 
humanidade sem que existisse a luta de classes.
2) As organizações e as lutas sociais da classe trabalhadora foram elementos essenciais para a 
efetivação do conceito de questão social. Com relação à dinâmica política inerente à questão 
social, entre 1811 e 1812, ocorreu um intenso movimento de trabalhadores, o qual marcou a 
história devido ao seu caráter peculiar, tendo como objetivo a destruição do maquinário e do 
equipamento das fábricas em repúdio à diminuiçãoda mão de obra.
Assinale a alternativa que nomeia corretamente esse movimento de massa.
A) Cartismo.
B) Liga dos comunistas.
C) Anarquismo.
D) Ludismo.
E) Socialismo.
3) Ao afirmar que “a questão social que, sendo desigualdade, é também rebeldia, por envolver 
sujeitos que vivenciam as desigualdades e a ela resistem e se opõem”, Iamamoto (1998) 
reforça qual percepção de questão social?
A) A questão social como fruto do processo no qual a classe trabalhadora ao produzir 
enfrentamentos e lutas sociais que denunciam e combatem as mazelas sociais tornam-se 
sujeitos políticos e, portanto, sujeitos de direitos.
B) A questão social representa a compreensão da classe trabalhadora sobre a sua própria 
condição e a negação desta pelos trabalhadores como forma de garantir um consenso de 
classes.
C) A questão social como reflexo dos movimentos sociais e das lutas sociais da classe 
trabalhadora e que nem sempre se refere a mazelas e problemas nas condições de vida e 
trabalho dessa classe, mas sim na sua forma de se relacionar.
D) A questão social como produto criado pela classe trabalhadora como forma de ampliação do 
movimento socialista na busca pela implantação de um sistema dominado pelo proletariado.
E) A questão social como fruto do reconhecimento pelo Estado das péssimas condições de vida 
e de trabalho da classe trabalhadora a partir das necessidades da classe capitalista, a qual 
sempre reconheceu os trabalhadores como sujeitos políticos de direitos.
4) “Uma burguesia tímida, que prefere transigir a lutar, débil e por isso tímida, que não ousa 
apoiar-se nas forças populares, senão episodicamente, que sente a pressão do imperialismo, 
mas receia enfrentá-la, pois receia mais a pressão proletária.”
No que tange a essa percepção da burguesia brasileira, assinale a alternativa correta.
A) Mesmo vivendo um capitalismo primitivo no Brasil, a burguesia nacional é um grupo 
homogêneo.
B) A burguesia nacional recusou-se a utilizar o estado brasileiro como estratégia de manutenção 
do poder e de manipulação da classe trabalhadora.
C) A burguesia nacional não se beneficiou do populismo político, pois a existência de um Estado 
não servia a seus interesses.
D) A burguesia nacional incentivava a organização dos trabalhadores como forma de melhorar as 
condições de trabalho, fato que aumentaria os seus próprios lucros.
E) A burguesia brasileira desde sua gênese aliou-se ao estado nacional e utilizou de medidas 
populistas na busca de um consenso de classes que a beneficiava.
5) A partir da compreensão ampliada do que é questão social, assinale a alternativa que 
apresenta as principais expressões da questão social no Brasil.
A) Fome, miséria e terrorismo.
B) Fome, adoecimento mental e imigração.
C) Violência, desemprego e miséria.
D) Desemprego, terrorismo e adoecimento mental.
E) Violência, terrorismo e fome.
Na prática
No exercício cotidiano do assistente social as expressões da questão social são dinâmicas e 
complexas: nem sempre o conceito de questão social está claro para os usuários dos serviços 
desses profissionais.
Diante dessa percepção, um assistente social foi convidado a realizar uma atividade educativa 
sobre a saúde do trabalhador em um sindicato de costureiras.
Essas profissionais costuram de forma tercerizada para uma empresa téxtil. O profissional em 
questão se depara com um debate sobre as condições de trabalho e necessita elucidar o conceito 
de questão social para as trabalhadoras.
Neste Na Prática, você vai ver essa situação. 
Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino!
Saiba +
Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor:
Questão social e serviço social
O vídeo aborda a gênese da questão social no mundo e no Brasil, abordando a intrínseca ligação 
desse conceito com a profissão do assistente social.
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Gênese do serviço social no Brasil
O seguinte vídeo apresenta um breve resumo histórico a respeito do surgimento do serviço social 
no contexto brasileiro.
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https://www.youtube.com/embed/Co_Qaq3l35o
https://www.youtube.com/embed/kkJIJCQpGvs

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