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A questão social presente nas lutas 
sociais e o embate ao 
neoliberalismo
Apresentação
Seja bem-vindo! 
 
O conjunto de indicadores relevantes para aferir o estado social de um país forma-se a partir de um 
núcleo universalmente aceito: acesso à educação, oportunidade de emprego, nível de renda, 
condições habitacionais, expectativa de vida, assistência a saúde, proteção do trabalho e segurança 
social.
Considerando esses indicadores, o Brasil se encontra, enfim, numa situação de pobreza severa, 
injusta e inaceitável, a qual não exige nenhum esforço para ser percebida.
Nesta Unidade de Aprendizagem, você vai aprender o conceito da questão social, a relação com as 
lutas sociais e o embate com o neoliberalismo.
Bons estudos.
Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
Definir as características da questão social.•
Relacionar os problemas da questão social com as lutas sociais.•
Contrastar a questão social com o neoliberalismo, mostrando o embate existente entre esses 
polos.
•
Desafio
As diferentes formas de trabalho e suas mudanças ao longo dos anos vêm trazendo à tona um 
cenário de precarização. As mudanças e crises do modo de produção capitalista transformaram as 
formas de gestão da força de trabalho, alterando os métodos e as formas de acumulação capitalista 
e transformando o mercado de trabalho. 
 
Grandes polos industriais sofrem com essa problemática, em meio a crises e mudanças constantes 
nos modos de produção. Muitas vezes ocorrem ondas de demissão em massa, porém nem sempre 
esse contingente consegue se realocar no mercado de trabalho formal. 
 
Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino!
Cite quais estratégias você poderá utilizar para a mobilização desses indivíduos e para a efetivação 
desse projeto.
Infográfico
São características da ideologia neoliberal: 
 
1) O individualismo, a competitividade e a desigualdade como necessários e naturais. 
2) A liberdade reduzida à liberdade de mercado. 
3) A não intervenção do Estado na economia. 
4) A privatização de empresas estatais. 
5) A redução de gastos sociais com políticas públicas, com as estruturas e com os salários de 
servidores públicos. 
6) A terceirização. 
7) A flexibilização das relações de trabalho.
Tudo isso tende a ocasionar um alargamento dos níveis de desigualdade social e pode ser 
comprovado com a lacuna que existe entre os mais ricos e o mais pobres no Brasil. Um 
levantamento do IBGE, no ano de 2017, apontou que 1% dos mais ricos no Brasil ganham 36,1 
vezes mais que a metade mais pobre do País.
Veja, no Infográfico a seguir, os índices de desigualdade no Brasil e um comparativo com a Coreia 
do Sul, para analisarmos a situação descrita. 
 
Aponte a câmera para o 
código e acesse o link do 
conteúdo ou clique no 
código para acessar.
https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/a96fecda-c8cb-49d2-9f33-e579dd72f2ca/7c985a45-af9e-4f36-920f-1337e0153390.jpg
Conteúdo do livro
As fases de expansão e crise do capitalismo, desde a Era Medieval até os dias atuais, podem ser 
relacionadas com a crescente precarização do Estado e do trabalho. Essas precarizações se 
relacionam intimamente com as expressões da questão social e, concomitantemente, com os 
processos de resistência e de luta, travadas entre mercado e população, e suas consequências. 
 
No capítulo A questão social presente nas lutas sociais e o embate ao neoliberalismo, da obra 
Questão social e serviço social, você compreenderá sobre os conceitos da questão social e e suas 
expressões perante um cenário de exploração do trabalho como um dos eixos fundantes do 
capitalismo impulsionado pela ideologia neoliberal. Verá também, como o neoliberalismo toma 
corpo no Brasil dos anos 1990.
Revisão técnica:
Luciana Bernadete de Oliveira
Graduada em Ciências Políticas e Econômicas 
Especialista em Administração Financeira 
Mestre em Desenvolvimento Regional
Marcia Paul Waquil
Assistente Social 
Mestre em Educação 
Doutora em Educação
Catalogação na publicação: Karin Lorien Menoncin CRB -10/2147
L732q Lima, Andréia Saraiva.
Questão social e serviço social [ recurso eletrônico ] / 
Andréia Saraiva Lima; [revisão técnica: Luciana Bernadete 
de Oliveira, Marcia Paul Waquil]. – Porto Alegre: SAGAH, 
2018.
ISBN 978-85-9502-391-8
1. Serviço social. I. Título.
CDU 36
1_Iniciais.indd 2 11/04/2018 09:28:10
A questão social presente 
nas lutas sociais e o embate 
ao neoliberalismo
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
 � Definir as características da questão social.
 � Relacionar os problemas da questão social com as lutas sociais.
 � Contrastar a questão social com o neoliberalismo, mostrando o embate 
existente entre estes pólos.
Introdução
Neste capítulo, vamos estudar os problemas da questão social, desta-
cando-os como elementos presentes nas lutas sociais pela manutenção 
e pela ampliação dos direitos, principalmente frente aos entraves gerados 
pelo sistema capitalista e neoliberal que, cada vez mais, promove a des-
politização dos movimentos sociais. Estar atento aos aspectos estruturais 
da questão social é fundamental para a análise de suas particularidades.
Características da questão social no contexto 
capitalista neoliberal e globalizado
Partindo da conceituação da questão social, imediatamente, temos uma 
sólida base para relacioná-la com o contexto socioeconômico no qual esta-
mos inseridos no Brasil e nos demais países capitalistas do mundo. Temos 
como pano de fundo o capitalismo, o neoliberalismo e a globalização, não 
somente econômica, mas cultural, na qual a questão social se coloca e se 
inter-relaciona.
Na interpretação aqui assumida, a questão social é indissociável da sociedade capitalista 
e, particularmente, das configurações assumidas pelo trabalho e pelo Estado na expansão 
monopolista do capital. A gênese da questão social na sociedade burguesa deriva do 
caráter coletivo da produção contraposto à apropriação privada da própria atividade 
humana – o trabalho –, das condições necessárias à sua realização, assim como de seus 
frutos. É inseparável da emergência do “trabalhador livre”, que depende da venda de 
sua força de trabalho como meio de satisfação de suas necessidades vitais. Assim, a 
questão social condensa o conjunto das desigualdades e lutas sociais, produzidas e 
reproduzidas no movimento contraditório das relações sociais, alcançando plenitude de 
suas expressões e matizes em tempo de capital fetiche (IAMAMOTO, 2008, p. 155-156).
A partir da definição de questão social proposta por Iamamoto (2008), 
precisamos adentrar na gênese ou origem do termo e seus significados. Faz-
-se luz sobre a natureza relacional entre questão social, objeto de intervenção 
dos assistentes sociais, e as desigualdades produzidas e reproduzidas pelo 
sistema capitalista.
A origem da questão social não é um consenso para toda a categoria dos 
assistentes sociais (profissionais inseridos na divisão sociotécnica do trabalho), 
mas grande parte dos autores de linha marxista atesta que a questão social 
advém da contradição entre o proletariado e a burguesia, na formação da classe 
operária que resistia à exploração e exigia direitos. Entretanto, a autora assinala 
que o termo questão social não foi tratado por Marx. A questão social tem 
seu núcleo fundado na ‘lei da acumulação capitalista’, sendo sua “[...] gênese 
explicada pelo processo de acumulação ou reprodução ampliada do capital 
[...]” (SANTOS, 2008, p. 29). Esse processo é, também, relacional. Precisamos 
ter claro que a natureza do ser humano é a convivência coletiva, e, portanto, o 
homem necessita viver em sociedade e relacionar-se com o outro. Dessa forma, 
se estabelecem as relações para a satisfação de suas necessidades materiais, 
religiosas, espirituais, culturais e de toda ordem.
Na sociedade capitalista as relações se desenvolvem sob a lógica do capital 
e de sua produção e reprodução. O capital eo mercado ditam as formas e 
os meios de produção, circulação, troca e consumo de mercadorias; ditam 
comportamentos e valores éticos e morais.
Desde o século VI a.C., na Grécia Antiga, já havia o relacionamento co-
mercial entre os povos. Havia a importação e a exportação de mercadorias, 
principalmente por via marítima, para o Egito, a Ásia Menor e a Sicília, por 
A questão social presente nas lutas sociais e o embate ao neoliberalismo2
exemplo. Os gregos forjavam suas moedas em prata, bronze e liga de ouro e 
prata, as quais serviam também como fonte de renda. Logo, havia mercado, 
comércio e capital. Contudo, ainda não se tratava de uma sociedade capitalista, 
como a conhecemos.
Com o desenvolvimento das sociedades capitalistas a partir da Idade 
Moderna, sucessora da Era Medieval nos séculos XVI a XVII (d.C.), a desi-
gualdade social e econômica sofreu ainda maior agravo, especialmente com a 
consolidação desse período histórico a partir da Revolução Industrial Europeia 
nos séculos XVIII e XIX. 
Vivia-se o período do capitalismo industrial marcado pela superexploração 
da mão de obra do trabalhador e pelo alargamento das desigualdades sociais, 
econômicas, políticas e culturais. Os trabalhadores rurais migravam para as 
periferias das cidades europeias, especialmente Londres e Paris (berços do 
pensamento difundido pelo economista liberal Adam Smith), para trabalhar 
nas indústrias. 
Tendo em vista que a primeira Revolução Francesa tenha durado, aproxi-
madamente, 80 anos (de 1760 a 1840), a superexploração dos trabalhadores 
que dedicavam cerca de 15 horas de trabalho diárias nas indústrias ocorria 
desde os primórdios do capitalismo. Diante desse contexto, os trabalhadores 
se revoltaram e passaram a reivindicar direitos trabalhistas através de mani-
festações, greves e paralisações, além de organizarem-se em associações de 
trabalhadores e sindicatos. 
É importante lembrar que a exploração da força de trabalho visa à extração 
da mais-valia, ou seja, do lucro advindo do trabalho excedente do trabalhador. 
Trata-se da força de trabalho não paga pelo empregador ou o excedente ao 
que seria necessário para a realização da manufatura do produto, gerando o 
lucro pretendido. Por exemplo, o trabalhador recebe um salário equivalente 
a 30 horas semanais, mas trabalha 44 horas semanais, conforme contrato de 
trabalho, sendo que seu empregador adiciona ao valor do produto final o gasto 
com os salários dos empregados. Esse excedente trabalhado gera o lucro sobre 
a mão de obra comprada pelo empregador.
O capitalismo concorrencial sofre transformações e começa a formar con-
glomerados econômicos, ou seja, a monopolização de indústrias e empresas, 
especialmente no ramo automobilístico. Inicia-se o período do capitalismo 
monopolista no qual existe a possibilidade de fusão (ou truste) de empresas, 
ou ainda, a compra de uma pela outra por meio de investimentos em ações. 
Por essa prática, grande parte do mercado não seria regulado pela lei da livre 
concorrência, mas estaria vinculado ao monopólio ou ao oligopólio, não 
significando, entretanto, a eliminação da competição.
3A questão social presente nas lutas sociais e o embate ao neoliberalismo
Segundo Netto (2005), o objetivo do capitalismo monopolista é o de am-
pliar os lucros e a acumulação de capital, controlando os mercados. Para 
isso, o mercado regula os preços das mercadorias através lei da oferta e da 
procura. Para obter maior lucro a partir da extração da mais valia determina 
a existência de um exército de trabalhadores sobrantes ou de reserva. E o que 
isso significa? Isso quer dizer que à medida que mais profissionais de deter-
minada área estão desempregados e menos vagas de trabalho são ofertadas 
nessa mesma área, mais barata se tornará essa mão de obra. Os profissionais 
necessitados de trabalho e emprego se colocarão à disposição do mercado por 
valores inferiores à qualidade dos serviços prestados.
Paralelamente a esse fator temos, ainda, o subemprego que diz respeito a 
vagas de emprego compatíveis com baixas qualificações e salários, assumidas 
por profissionais altamente qualificados para esses cargos. E tal situação ocorre 
com maior frequência em momentos em que o mercado de trabalho está restrito 
e busca ampliar seu lucro através da extração da mais valia.
A desqualificação dos profissionais mediante os avanços tecnológicos 
também é outro fator relevante para o aumento das desigualdades sociais 
e econômicas, alargando as manifestações da questão social. Trata-se do 
desenvolvimento tecnológico aliado às precárias condições de capacitação 
profissional e inclusão tecnológica e digital ofertadas pelos serviços públicos 
às classes de trabalhadores. Nesse caso, o empregador que necessitava um de-
terminado tempo de trabalho de seu empregado para produzir um determinado 
produto ou serviço passa, a partir da implantação de tecnologias avançadas, 
a necessitar da metade do tempo do trabalhador e, por vezes, pode reduzir o 
número de empregados, produzindo ainda mais.
Com o investimento tecnológico aplicado pelo empregador, o trabalhador 
com menores habilidades desenvolvidas em nível tecnológico passa a ser 
descartável ou até mesmo desnecessário, cabendo, nesse caso, segundo o 
pensamento neoliberal, aos trabalhadores excluídos dos meios de produção, 
o investimento autônomo, empreendedor e proativo em sua capacitação.
O aprofundamento das desigualdades sociais e a ampliação do desemprego atestam 
ser a proposta neoliberal vitoriosa, visto serem estas suas metas ao apostar no mercado 
como a grande esfera reguladora das relações econômicas, cabendo aos indivíduos a 
responsabilidade de “se virarem no mercado” (IAMAMOTO, 2008, p. 141).
A questão social presente nas lutas sociais e o embate ao neoliberalismo4
As características da ideologia neoliberal vão, nesse sentido, valorizando: 
o individualismo, a competitividade e a desigualdade como necessários e 
naturais; a liberdade reduzida à liberdade de mercado; a não intervenção do 
Estado na economia (Estado mínimo); a privatização de empresas estatais; 
a redução de “gastos sociais” com políticas públicas, com as estruturas e 
com os salários de servidores públicos; a terceirização; a flexibilização das 
relações de trabalho. Nessa estrutura socioeconômica implantada pelos go-
vernos capitalistas, a visão de questão social está reduzida à simples exclusão 
social, gerando políticas públicas seletivas, focalizadas e fragmentadas, não 
correspondendo ao real enfrentamento às múltiplas expressões da questão 
social e à satisfação das necessidades da população.
Relação entre a questão social e as lutas sociais
A questão social advém, portanto, das desigualdades de renda, de direitos, de 
acesso aos meios de produção e aos frutos dessa mesma produção. A mesma 
e única questão social manifesta-se sob diferentes matizes, oriundos do modo 
de produção capitalista.
Nesse contexto capitalista e de ideologia neoliberal, especialmente após os 
anos 1970 no mundo, e no Brasil mais intensamente nos anos 1990, a questão 
social e as políticas sociais de enfrentamento a ela são compreendidas como 
‘gastos públicos’ e precisam ser cortados. Nessa lógica, os direitos sociais e 
trabalhistas sofrem uma “[...] ofensiva neoliberal para o seu desmantelamento 
[...]” especialmente nos anos 1990 (COUTO, 2004, p. 146-147).
Historicamente, os trabalhadores lutam por direitos sociais e trabalhis-
tas. Os movimentos sociais no Brasil iniciaram-se pelas greves e revoltas 
dos operários das indústrias, explorados pelos proprietários dos meios de 
produção. Um exemplo disso é a existência de organizações coletivas de 
trabalhadores desde a segunda metade do século XIX. Além desses mo-
vimentos sindicais e políticos, temos o exemplo dos movimentos sociais 
que lutaram pela redemocratização do Brasil, além dos grupos sociais 
representativos de lutas pela distribuição de terras, pelo direito de ha-
bitação para todos, de igualdade de direitos de gênero, grupos étnicos, 
geracionais,entre outros.
Esses movimentos sociais instituídos foram essenciais no processo de 
intensas negociações para a promulgação da Constituição Federal de 1988. 
As lutas sociais por conquistas de direitos se deram em contextos extrema-
mente hostis, avançando gradativamente no enfrentamento à questão social 
exacerbada pela desigualdade histórica de distribuição de trabalho e renda.
5A questão social presente nas lutas sociais e o embate ao neoliberalismo
Devemos reconhecer que as lutas contra a ditadura impulsionaram o surgi-
mento de muitos movimentos sociais, mesmo sob perseguições políticas, espe-
cialmente na década de 1970 e 1980, havendo uma significativa diversificação 
de lutas. Algumas dessas lutas foram as intensas mobilizações pelas eleições 
diretas (movimento Diretas Já, por exemplo), que ocorreram de 1982 a 1984. 
Esse movimento, sendo o ápice de uma trajetória de enfrentamentos e lutas pela 
redemocratização, foi vitorioso, culminando nas eleições presidenciais de 1985.
Contudo, após a promulgação da Constituição Federal de 1988, os políti-
cos e os empresários de ideologia neoliberal passaram a derrocar os direitos 
conquistados através de Emendas Constitucionais. Foram tomadas medidas 
fortes de desregulamentação do trabalho, de enfraquecimento dos sindicatos, 
de redução das intervenções estatais na área social e de fortalecimento do 
mercado e das atenções ao capital financeiro.
Juntamente a essas medidas, dá-se, de forma mais intensa, a globalização 
ou mundialização da economia. Segundo Iamamoto (2008), a mundialização 
da “sociedade global” é acionada pelos grandes grupos industriais transna-
cionais (que fazem concessões, acordos e ajustes financeiros). Esses grupos 
são articulados ao mundo das finanças e possuem o suporte das instituições 
financeiras que passam, por sua vez, a operar o capital que rende juros.
Para a autora, o capital financeiro assume o comando do processo de acu-
mulação, envolvendo a economia, a sociedade, a política e a cultura, atingindo, 
dessa forma, o universo do trabalho e a própria classe trabalhadora e suas 
respectivas lutas. Ela defende, ainda, que as demandas sociais e, por consequ-
ência, os direitos sociais resultantes das lutas dos trabalhadores organizados 
sofrem uma vasta regressão, também pela prevalência da ordem neoliberal. 
Em pleno capitalismo monopolista ou financeiro, a acumulação de ca-
pital não poderia ser sustentada apenas pela produção e comercialização de 
mercadorias e pela especulação da bolsa de valores sobre a extração da mais 
valia dos trabalhadores; a acumulação se dá também pelas taxas de juros que 
aumentam os lucros milionários que a dívida pública produz e oferece aos 
grandes banqueiros.
O aumento da dívida pública é estimulado pela aplicação de juros mais 
altos que o próprio Produto Interno Bruto (PIB). Dessa forma, o Brasil, por 
exemplo, não consegue arrecadar o suficiente para cobrir os juros elevados, 
ficando à mercê dos grandes bancos e fundos internacionais.
A financeirização do capitalismo contemporâneo deve-se a que as transações 
financeiras (isto é, as operações situadas da esfera da circulação) tornam-
-se, sob todos os sentidos, hipertrofiadas e desproporcionais em relação à 
A questão social presente nas lutas sociais e o embate ao neoliberalismo6
produção real de valores – tornam-se dominantemente especulativas. Os 
rentistas e os possuidores de capital fictício (ações, cotas de investimentos 
e títulos de dívidas públicas) extraem ganhos sobre valores frequentemente 
imaginários – e só descobrem isso quando, nas crises do ‘mercado financeiro’, 
papéis que, à noite, ‘valiam’ X , na bela manhã seguinte passam a valer - X ou, 
literalmente, a não valer nada, [...] ( NETTO; BRAZ, 2006, p. 232). 
O embate existente entre a questão 
social e o neoliberalismo
E qual seria o papel do Estado em tudo isso? Isso dependerá do regime de 
Estado do qual estamos falando. Para Couto (2004), existem três regimes 
de estado a serem destacados: O primeiro é o Estado Corporativista conser-
vador que atua quando a família não supre as necessidades básicas de seus 
membros, mas o faz a partir do princípio da subsidiariedade. Nesse modelo 
de Estado, os programas sociais possuem a noção de seguridade social e os 
direitos dependem de classe, ou seja, não são iguais para todos. Esse modelo 
é assumido na Áustria, França, Alemanha e Itália.
O segundo é o estado liberal, aplicado nos EUA, Canadá e Austrália e 
que provê assistência aos comprovadamente pobres. Estabelece benefícios 
mínimos, não estimulando a substituição ao trabalho. Nesse regime, Estado 
e mercado intervêm nas expressões da questão social. 
E, por fim, o regime social-democrata, que possui o princípio do universa-
lismo, da igualdade e da democratização de direitos sociais. Persegue o pleno 
emprego e valoriza o direito ao trabalho igualmente ao direito à renda. Nesse 
regime, o Estado assume e socializa os custos das famílias. Foi aplicado em 
países da Europa e nos EUA até a chegada dos anos 1970 e da crise econômica 
conhecida como “crise do Petróleo”. O Estado Providência ou welfare state foi 
amplamente instituído e bem-sucedido. Porém, o seu sucesso não impediu os 
neoliberais de responsabilizarem o welfare state pela crise e por ter promovido 
“gastos” excessivos do Estado.
O Estado, sob qualquer regime, por ser uma instituição organizacional de 
natureza política-administrativa, é detentor do poder soberano para governar 
um povo. E, no caso de uma democracia, assume a responsabilidade de garantir 
direitos igualitários a toda a população, promover a participação popular em 
eleições de seus representantes e possuir uma Constituição Federal. Contudo, 
o Estado que assume um regime neoliberal e capitalista conservador prima 
por valores que cercam a acumulação de capital em estritos nichos de poder 
econômico e político.
7A questão social presente nas lutas sociais e o embate ao neoliberalismo
Nessa lógica, o Estado serve como garantidor do funcionamento do sistema 
de acumulação e de reprodução da força de trabalho. Para garantir apenas a 
sobrevivência dessa necessária mão-de-obra utilizada pelos grandes produtores, 
oferece serviços públicos de mínima qualidade e alcance, salários cada vez 
mais achatados, empregos escassos e mal pagos. Além disso, flexibiliza os 
direitos trabalhistas, valoriza as formas precárias de contratação e aleija os 
direitos conquistados. Dessa forma, consegue enfraquecer os movimentos 
sociais e os sindicatos das categorias de trabalhadores e, em consequência, 
garantir mais recursos para os investimentos em grandes empresas e projetos 
que beneficiem os grandes investidores nacionais e estrangeiros.
 A alienação e a despolitização da sociedade geral e dos movimentos so-
ciais promovidas pelo sistema capitalista e pelo seu regime de Estado vigente 
também são efetivadas através dos meios de comunicação em massa. São 
estratégias historicamente conhecidas implantadas no Brasil desde o golpe 
de 1964, quando os EUA, com a vinda da Central Intelligence Agency (CIA), 
teriam lançado mão de contrapropagandas do governo do então presidente 
Jango, temendo ser um governo comunista, o qual colocaria a economia 
norte-americana sob ameaça.
Voltando à estratégia neoliberal na contemporaneidade, com o enfra-
quecimento das relações de trabalho e a escassez de vagas no mercado, os 
trabalhadores desmobilizam-se das suas lutas por direitos. Ademais, a ideia 
constantemente vendida de que os trabalhadores e os servidores públicos são 
a causa dos males da economia nacional afetam sobremaneira a convicção 
do contraditório.
Nesse sentido, a questão social em suas múltiplas manifestações se inten-
sifica e causa ainda maior impacto na economia, uma vez que o trabalhador 
desempregado, subempregado ou empregado irregularmente fragiliza ou 
perde a capacidade de suprir suas necessidades básicas, bem como as de sua 
família. Esse fator “bola de neve” só faz aumentar a crise econômica e social.
Entretanto,a inadimplência e a perda de condições dignas de moradia, 
de alimentação, de educação e de manutenção da saúde são compreendidas 
pelos governos neoliberais como problemas causados pela falta de empre-
endedorismo econômico, de competitividade de mercado e até mesmo pela 
incompetência para gerir a crise. A questão social passa a ser caso de polícia 
quando um movimento social ocupa um prédio abandonado e insalubre para 
garantir seu direito à habitação e pressionar o poder público para assegurá-la. 
Ou, ainda, quando a ausência de políticas públicas intersetoriais articuladas 
promovem a “higienização” de espaços públicos com a simples retirada de 
pessoas em situação de rua e de drogadição daqueles locais. Trata-se de uma 
A questão social presente nas lutas sociais e o embate ao neoliberalismo8
manifestação da questão social criminalizada e tratada como caso de polícia 
quando deveriam ser observados os multifatores determinantes da condição 
humana apresentada por aquela população.
Assim, podemos afirmar que o exemplo da situação de rua e drogadição 
é uma forte expressão da questão social, e, por ser multifatorial e complexa, 
exige do Estado e da sociedade ações inteligentes e igualmente complexas. 
As muitas faces da questão social precisam ser estudadas para serem en-
frentadas realmente. No Brasil contemporâneo, “[...] a velha questão social 
metamorfoseia-se, assumindo novas roupagens. Ela evidencia, hoje, a imensa 
fratura entre o desenvolvimento das forças produtivas do trabalho social e as 
relações sociais que o impulsionam [...]” (IAMAMOTO, 2008, p. 144). 
As desigualdades sociais exacerbadas pelo modo de produção capitalista 
imprimem na sociedade civil a responsabilidade de mobilizar-se para garantir 
a materialidade dos seus direitos. Para tanto, os movimentos sociais que de-
fendem os interesses coletivos são de vital importância, especialmente diante 
de cenários políticos, econômicos e ideológicos pouco representativos dos 
interesses e das necessidades da maioria da população brasileira.
Últimas considerações 
Para entendermos o conceito de questão social vimos que há a necessidade de 
estudarmos, minimamente, o contexto socioeconômico no qual as múltiplas 
expressões da questão social se manifestam. Nesse sentido, a questão social é 
indissociável do modo de produção capitalista e suas interfaces com o projeto 
neoliberal e com a mundialização da economia.
Fica explícito que a acumulação de capital, associada à ideologia neoliberal, 
fortalece a multiplicação e o agravamento das expressões da questão social. 
Da mesma forma, fica claro que os governos neoliberais pretendem diminuir o 
significado e as causas da questão social, vendendo a ideia de que as políticas 
públicas devem ser focalizadas, meritocráticas e pulverizadas. Assim, a ação 
do Estado sobre as políticas e os serviços públicos é mínima e policialesca. 
Além do mais, tendem a vender a ideia de que a questão social é fruto da falta 
de protagonismo e empreendedorismo dos cidadãos que não souberam lidar 
com a crise econômica.
Por isso, a importância de compreendermos o capitalismo, em seu momento 
atual, que age não somente pela exploração do trabalhador, visando a extração 
da mais valia, mas, também, pela financeirização do capital através da apli-
cação de altas taxas de juros em prol dos banqueiros e das grandes fortunas. 
Da mesma forma, a importância de conhecermos as estratégias de alienação, 
9A questão social presente nas lutas sociais e o embate ao neoliberalismo
desmobilização dos trabalhadores e dos diferentes movimentos sociais. E, por 
fim, impõe-se a necessidade de nos apropriarmos do conhecimento acerca do 
sistema vigente, no qual estamos inseridos, por ser o capitalismo monopolista 
e financeiro articulado à ideologia neoliberal, na qual os valores são muito 
mais econômicos que humanos sociais e coletivos.
Nesse contexto, se insere o Assistente Social que precisa ter a habilidade 
de analisar o contexto ao qual o sujeito de sua ação está inserido, evitando cair 
na lógica individualista e culpabilizadora propagada pela lógica neoliberal. O 
assistente social, enquanto profissional inserido na divisão sociotécnica do 
trabalho, tem enquanto objeto de intervenção a questão social que é, em sua 
gênese, estrutural.
COUTO, B. R. O Direito social na sociedade brasileira: uma equação possível? São Paulo: 
Cortez, 2004.
IAMAMOTO, M. V. Serviço social em tempo de capital fetiche: capital financeiro, trabalho 
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nível em: . Acesso em: 14 jul. 2017.
Leituras recomendadas
MORAIS, O. Grécia antiga. [S.l.]: Central da História, 2017. Disponível em: . Acesso em: 16 ago. 2017.
SUA PESQUISA. Economia na Grécia antiga. [S.L.]: Sua Pesquisa, [2017]. Disponível 
em: . Acesso 
em: 16 ago. 2017.
A questão social presente nas lutas sociais e o embate ao neoliberalismo10
Encerra aqui o trecho do livro disponibilizado para 
esta Unidade de Aprendizagem. Na Biblioteca Virtual 
da Instituição, você encontra a obra na íntegra.
Dica do professor
Uma das características do capitalismo concorrencial diz respeito à formação de conglomerados 
econômicos, ou seja, monopólios industriais e empresariais que se estendem por diversos países, 
agregando empresas concorrentes e ampliando cada vez mais suas áreas de atuação. Esse 
movimento traz consigo impactos positivos, que se relacionam com um crescente avanço 
tecnológico, e negativos, quando advêm do ingresso dessas multinacionais, desestabilizando as 
pequenas empresas locais.
Nesta Dica do Professor, traremos alguns apontamentos sobre empresas multinacionais e 
processos de globalização. 
 
Confira. 
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Exercícios
1) A exploração da força de trabalho visa à extração do lucro advindo do trabalho excedente 
do trabalhador. Trata-se da força de trabalho não paga pelo empregador ou o excedente ao 
que seria necessário para a realização da manufatura do produto, gerando o lucro 
pretendido. Esse processo também é conhecido como:
A) excesso.
B) fundo monetário.
C) capital de giro.
D) mais-valia.
E) mais-lucro.
2) O capitalismo concorrencial tende a sofrer transformações e busca estabelecer um processo 
de formação de conglomerados econômicos, ou seja, a monopolização de indústrias e 
empresas. Esse é o chamado capitalismo monopolista, no qual existe a possibilidade de fusão 
de empresas, ou ainda, a compra de uma pela outra por meio de investimentos em ações. De 
acordo com Netto (2005), qual é o objetivo do chamado capitalismo monopolista?
A) Ampliar os lucros e a acumulação de capital por meio da ampliação dos direitos trabalhistas.
B) Ampliar os lucros e a acumulação de capital por meio de parcerias público-privadas.
C) Ampliar os lucros e a acumulação de capital exercendo o controle sobre os mercados.
D) Reduzir os gastos de produção por meio da troca de tecnologias.
E) Reduzir os gastos de produção por meioda compra em larga escala.
3) A desqualificação dos profissionais mediante os avanços tecnológicos é um fator que 
colabora para o aumento das desigualdades sociais e econômicas, ampliando assim as 
manifestações da questão social. Esses trabalhadores, com menores habilidades 
desenvolvidas em nível tecnológico, passam a ser desnecessários para o mercado capitalista. 
Seguindo a lógica neoliberal, qual é o destino desses profissionais excluídos do mercado 
formal?
alessandra matias
Realce
alessandra matias
Realce
A) Trabalhar no investimento autônomo, empreendedor e proativo de sua capacitação.
B) Trabalhar no investimento coletivo, buscando formas de enfrentamento dos grandes 
monopólios.
C) Buscar formas de capacitação junto às indústrias para sua manutenção no mercado de 
trabalho.
D) Buscar formas de capacitação junto ao Estado para sua manutenção no mercado de trabalho.
E) Desenvolver novas tecnologias para suprir as demandas dessas indústrias.
4) Para que possamos obter um melhor entendimento do conceito de questão social, é 
necessário que se tenha a compreensão sobre o contexto socioeconômico no qual as 
múltiplas expressões da questão social se manifestam. Para tal, podemos dizer que a 
questão social é indissociável do:
A) modo de produção capitalista e suas interfaces com o projeto socialista.
B) modo de produção escravista e suas interfaces com o projeto neoliberal.
C) modo de produção feudal e suas interfaces com o projeto neoliberal.
D) modo de produção capitalista e suas interfaces com o projeto neoliberal.
E) modo de produção capitalista e suas interfaces com o projeto agrícola.
5) Qual é o objeto de intervenção do profissional assistente social enquanto profissional 
inserido na divisão sociotécnica do trabalho?
A) A luta de classes.
B) A questão social.
C) A luta contra o sistema capitalista.
D) A questão do trabalho.
E) A garantia de direitos.
alessandra matias
Realce
alessandra matias
Realce
alessandra matias
Realce
Na prática
Em meio ao cenário de precarização do trabalho e aumento do desemprego formal, a assistente 
social Luiza é incumbida de organizar uma cooperativa de trabalhadores para trabalhar em uma 
recém criada usina de reciclagem no seu município. 
Para desempenhar tal tarefa, ela terá de seguir alguns procedimentos para a constituição dessa 
cooperativa. Neste Na Prática, veja quais são eles. 
 
Saiba +
Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor:
1985 - 30 anos de democracia: Diretas Já
Conheça mais sobre a democracia e o processo de Diretas Já, com o vídeo indicado.
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https://www.youtube.com/embed/d8O5jTahTXo

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