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Resumo M16 – Anemias Carenciais Fundamentos de Hematopoiese e Fisiologia A hematopoiese é o processo de formação das células sanguíneas a partir de células-tronco hematopoiéticas localizadas principalmente na medula óssea. Esse processo é altamente regulado e essencial para manter o equilíbrio do organismo entre produção, destruição e necessidade de células sanguíneas. Ciclo de Vida das Hemácias · A hemácia (eritrócito) é uma célula anucleada, rica em hemoglobina, especializada no transporte de oxigênio e dióxido de carbono. · Meia-vida: · Adultos: cerca de 120 dias. · Neonatos: cerca de 90 dias (devido a diferenças na composição da hemoglobina e no metabolismo celular). · Após esse período, são destruídas no baço e no fígado por macrófagos do sistema mononuclear fagocítico. · O ferro liberado é reutilizado para a produção de novas hemácias. Estímulo para Produção de Hemácias · Quando ocorre hipoxemia (redução da oferta de oxigênio nos tecidos), o rim atua como sensor. · As células intersticiais peritubulares do rim produzem e liberam eritropoetina (EPO). · A EPO age na medula óssea sobre as células-tronco hematopoiéticas, estimulando sua diferenciação em proeritrócitos, que amadurecem até se tornarem hemácias maduras. Estrutura da Hemoglobina · A hemoglobina é a principal proteína das hemácias. · É formada por 4 cadeias globínicas: · 2 cadeias alfa (codificadas no cromossomo 16). · 2 cadeias beta (codificadas no cromossomo 11). · Cada cadeia está ligada a um grupo heme, que contém ferro no estado ferroso (Fe²⁺) capaz de se ligar reversivelmente ao oxigênio. · Assim, a hemoglobina é a chave para o transporte de oxigênio dos pulmões aos tecidos. Papel da Vitamina B12 e do Ácido Fólico na Eritropoiese A produção de hemácias exige a síntese adequada de DNA, para que as células precursoras se multipliquem e amadureçam corretamente. · Vitamina B12 (cobalamina): · Essencial para a síntese da timina, uma base nitrogenada fundamental para o DNA. · Atua como cofator na reciclagem do folato, permitindo sua forma ativa. · Ácido Fólico (vitamina B9): · Cofator na síntese de purinas e pirimidinas, além de aminoácidos. · Sem folato, a replicação do DNA fica prejudicada. · A deficiência de B12 ou folato prejudica a divisão celular → núcleo não acompanha o crescimento do citoplasma, originando hemácias grandes e imaturas (megaloblastos), típicas das anemias megaloblásticas. Regulação e Necessidades Nutricionais Para que a eritropoiese seja eficaz, o organismo depende de diversos nutrientes: · Ferro → componente do grupo heme, essencial para ligação do oxigênio. · Vitamina C → aumenta a absorção intestinal do ferro. · Vitamina B12 e ácido fólico → essenciais para síntese de DNA. · Cobre → cofator enzimático na maturação celular, auxiliando no metabolismo do ferro. · Proteínas adequadas → fornecem aminoácidos para a síntese das cadeias globínicas. Destruição e Reciclagem das Hemácias · Após sua vida útil, as hemácias são fagocitadas por macrófagos. · O heme é degradado em biliverdina e bilirrubina, que são transportadas para o fígado e excretadas na bile. · O ferro é liberado e armazenado como ferritina ou hemossiderina, sendo reutilizado para novas hemácias. · Esse ciclo de produção e destruição garante o equilíbrio hematológico. Em resumo, a hematopoiese é um processo dinâmico que depende de múltiplos fatores (EPO, ferro, vitaminas, cofatores), sendo a base para compreender como surgem as anemias carenciais quando um desses elementos falha. Eritrograma e Conceito de Anemia O eritrograma é o conjunto de parâmetros laboratoriais obtidos no hemograma, voltado especificamente para a avaliação dos glóbulos vermelhos (hemácias). Ele fornece dados quantitativos e qualitativos fundamentais para identificar anemias, suas características morfológicas e auxiliar no diagnóstico diferencial. Conceito de Anemia A anemia é definida como a redução da concentração de hemoglobina, hematócrito ou do número de eritrócitos no sangue periférico abaixo dos valores de referência para idade, sexo e altitude (WHO, 2021). Valores de referência (aprox.): · Adultos homens: Hb 13,5–17,5 g/dL. · Adultos mulheres: Hb 12–16 g/dL. · Crianças (2–12 anos): Hb 11–14,5 g/dL. Sintomas principais: · Fadiga, fraqueza, palidez cutâneo-mucosa. · Dispneia aos esforços, taquicardia, palpitações. · Cefaleia, tontura, sonolência. · Em casos graves: insuficiência cardíaca, síncope. 👉 Importante: anemia não é um diagnóstico final, mas um sinal clínico-laboratorial. Sempre deve-se investigar a causa subjacente (carencial, hemolítica, genética, inflamatória etc.). Parâmetros do Eritrograma Cada índice do eritrograma traz informações específicas sobre quantidade, tamanho, conteúdo e variação das hemácias: a) Hemoglobina (Hb) · Reflete a concentração da proteína responsável pelo transporte de oxigênio. · É o principal parâmetro para definir se o paciente está anêmico. · Valores abaixo do limite → diagnóstico de anemia. b) Hematócrito (Ht) · Representa a proporção do volume de sangue ocupado pelas hemácias (%). · Medido após centrifugação do sangue → separação em plasma, camada leucocitária e massa eritrocitária. · Pode sofrer influência de: · Desidratação → aumenta Ht (hemoconcentração). · Hipervolemia (ex.: gestação) → diminui Ht (hemodiluição). c) Hemácias (RBC – Red Blood Cells) · Contagem total de eritrócitos por volume de sangue. · Útil para calcular índices derivados (VCM, HCM, CHCM). · A quantidade isolada tem menos valor diagnóstico que os índices associados. d) Volume Corpuscular Médio (VCM) · Indica o tamanho médio das hemácias. · Fórmula: · Classificação morfológica: · Microcítica ( 100 fL): anemias megaloblásticas (B12/folato), álcool, doenças hepáticas. e) Hemoglobina Corpuscular Média (HCM) · Representa a quantidade média de hemoglobina por hemácia. · Fórmula: · Interpretação: · Hipocrômica: HCM baixa (pouco pigmento → anemia ferropriva). · Normocrômica: HCM normal (ex.: anemias hemolíticas). · Hipercrômica: pouco frequente; pode sugerir esferocitose hereditária. f) Concentração de Hemoglobina Corpuscular Média (CHCM) · Mostra a concentração de Hb em relação ao volume das hemácias. · Fórmula: · Valores baixos → hipocromia (hemácias pálidas, como na anemia ferropriva). · Valores altos → podem indicar erro laboratorial, esferocitose hereditária ou hemólise (plasma turvo). g) RDW (Red Cell Distribution Width) – Índice de Anisocitose · Mede a variação de tamanho entre as hemácias. · RDW aumentado: anisocitose, típica da anemia ferropriva. · RDW normal: mais comum em talassemias e anemias de doença crônica. Interpretação Integrada – Raciocínio Clínico O diagnóstico não deve ser baseado em apenas um índice, mas sim na associação dos parâmetros. Exemplos: · Anemia ferropriva → Hb ↓, Ht ↓, VCM ↓ (microcítica), HCM ↓, CHCM ↓, RDW ↑. · Anemia megaloblástica → Hb ↓, VCM ↑ (macrocítica), HCM ↑/normal, RDW ↑. · Anemia de doença crônica → Hb ↓, VCM normal ou baixo, ferritina ↑ (inflamação). · Talassemia minor → VCM ↓, mas RDW normal, hemácias relativamente preservadas. Portanto, o eritrograma é essencial não apenas para confirmar a presença de anemia, mas também para direcionar a investigação da etiologia. Ele permite classificar as anemias em microcíticas, normocíticas ou macrocíticas, além de definir se são hipocrômicas ou normocrômicas, facilitando o diagnóstico diferencial. Anemia Ferropriva Epidemiologia e Importância Clínica · É a causa mais frequente de anemia no mundo. · Prevalência global: 20–30% da população (OMS). · No Brasil: · Criançasdesigualdade social e falta de suplementação eficaz. Causas (Etiologia) A anemia ferropriva surge quando o aporte de ferro não supre a demanda corporal. Principais mecanismos: a) Ingesta inadequada · Dieta pobre em ferro biodisponível (pouca carne vermelha). · Dieta baseada em cereais e vegetais sem fortificação. b) Aumento das necessidades · Gravidez e lactação. · Crescimento acelerado na infância e adolescência. · Esporte de alta performance (maior destruição mecânica de hemácias e sudorese). c) Perdas crônicas de ferro · Menstruação abundante. · Sangramentos gastrointestinais (úlceras, parasitoses, câncer). · Doação de sangue frequente. d) Má absorção intestinal · Doença celíaca, gastrite atrófica, pós-bypass gástrico, doença inflamatória intestinal. · Interações medicamentosas (inibidores de bomba de prótons, fitatos, taninos do chá/café). Fisiopatologia O ferro é essencial para a formação do grupo heme, que compõe a hemoglobina. 1. O ferro é absorvido principalmente no duodeno e jejuno proximal, favorecido pelo pH ácido do estômago. 2. Uma vez absorvido, é transportado pela transferrina no plasma até os tecidos. 3. É armazenado no fígado, baço e medula óssea sob a forma de ferritina. 4. A deficiência de ferro reduz a síntese de hemoglobina → eritropoiese ineficaz → hemácias pequenas e pálidas (microcitose e hipocromia). 5. Em estágios avançados, o organismo não consegue manter a oxigenação adequada dos tecidos → sintomas sistêmicos. Quadro Clínico a) Impactos em Gestantes · Parto prematuro. · Pré-eclâmpsia. · Abortamento espontâneo. · Depressão no puerpério. · Maior risco de insuficiência cardíaca e mortalidade materna. b) Impactos Fetais · Restrição de crescimento intrauterino. · Óbito intrauterino. · Prematuridade e baixo peso ao nascer. c) Em Crianças · Infecções de repetição (imunidade prejudicada). · Irritabilidade, apatia, anorexia. · Déficit de atenção e dificuldades de aprendizagem. · Redução no desenvolvimento cognitivo e motor. d) Sintomas Gerais (inespecíficos) · Fadiga e cansaço fácil. · Cefaleia e tontura. · Sonolência. · Dificuldade de concentração. e) Sinais Físicos Característicos · Unhas quebradiças (coiloníquia). · Queda de cabelo. · Glossite atrófica (língua lisa e dolorosa). · Pica (alotriofagia): desejo de comer substâncias não nutritivas (gelo, argila, papel). · Sinais cardíacos/respiratórios: taquicardia, sopro sistólico, dispneia, edema. Diagnóstico Laboratorial · Hemoglobina/Hematócrito → reduzidos. · VCM → diminuído (microcitose). · HCM/CHCM → diminuídos (hipocromia). · RDW → aumentado (anisocitose, tamanhos diferentes de hemácias). · Ferritina sérica → baixa (principal marcador de deficiência de ferro). · Ferro sérico → baixo. · TIBC (capacidade total de ligação do ferro) → aumentado. · Saturação da transferrina → reduzida. 🔎 Diferenciar: · Deficiência de ferro sem anemia: apenas ferritina baixa. · Anemia ferropriva: alterações em Hb + VCM + ferritina. Tratamento a) Ferro Oral (primeira linha) · Dose: 3–6 mg de ferro elementar/kg/dia. · Duração: 3–6 meses, até normalização da ferritina e hemoglobina. · Reavaliação: hemograma + reticulócitos após 30–45 dias. · Espera-se: reticulocitose e aumento da Hb ≥ 1 g/dL. Tipos de ferro oral: 1. Sais ferrosos (mais comuns e baratos): · Sulfato ferroso (20% de ferro elementar). · Fumarato ferroso (33%). · Gluconato ferroso (12%). 2. Ferro quelado (complexado a aminoácidos): melhor tolerabilidade. 3. Ferripolimaltose: pode ser administrado com alimentos, menos efeitos adversos (disponível no SUS desde 2023). 4. Ferro lipossomal: encapsulado em bicamada lipídica, com absorção independente da dieta e menos efeitos adversos. 👉 Efeitos colaterais do ferro oral: gosto metálico, náusea, dor abdominal, constipação ou diarreia. b) Ferro Endovenoso (EV) Indicações: · Anemia grave sem resposta ao ferro VO. · Intolerância absoluta ao ferro oral. · Perdas sanguíneas elevadas (ex.: sangramento gastrointestinal crônico). · Doença inflamatória intestinal. · Pacientes em quimioterapia ou diálise. · Pós-bypass gástrico (absorção prejudicada). Exemplos: · Sacarato de óxido férrico → 3 mg/kg (dose máxima 500 mg por infusão). · Carboximaltose férrica → altas doses em menor tempo (não indicada em crianças). 👉 Efeitos adversos EV: alteração do paladar, náusea, hipotensão/hipertensão, dor local, escurecimento da pele em caso de extravasamento. c) Prevenção · Suplementação universal em lactentes e gestantes. · A SBP recomenda ferro profilático em lactentes com ou sem fatores de risco, ajustando a dose conforme prematuridade ou baixo peso. · Fortificação alimentar (farinhas enriquecidas com ferro e ácido fólico). Resumindo a Lógica da Doença 1. Causa → dieta pobre, perda, maior demanda ou má absorção. 2. Fisiopatologia → queda nos estoques de ferro → síntese inadequada de Hb → hemácias microcíticas e hipocrômicas. 3. Clínica → sintomas gerais (fadiga) + sinais específicos (pica, unhas quebradiças, glossite). 4. Diagnóstico → ferritina baixa + alterações no eritrograma. 5. Tratamento → ferro oral (preferencial), EV em casos selecionados. 6. Prevenção → suplementação em grupos de risco. 👉 Essa parte é a mais extensa porque a anemia ferropriva é a principal carência hematológica no mundo e precisa ser bem entendida. Anemias Megaloblásticas (Deficiência de B12 e Ácido Fólico) As anemias megaloblásticas são caracterizadas por hemácias grandes (macrocitose) e alterações morfológicas decorrentes da síntese deficiente de DNA. Ocorrem principalmente por carência de vitamina B12 (cobalamina) ou ácido fólico (vitamina B9). Fisiopatologia · Tanto a vitamina B12 quanto o ácido fólico são fundamentais para a síntese de DNA. · Quando faltam, há atraso na divisão nuclear, enquanto o citoplasma cresce normalmente → isso gera células grandes, com núcleo imaturo e citoplasma relativamente maduro (megaloblastos). · O resultado é uma eritropoiese ineficaz, com destruição intramedular de precursores e hemácias anormais chegando à circulação periférica. · Além da anemia, podem ocorrer leucopenia e plaquetopenia (pancitopenia). Vitamina B12 (Cobalamina) a) Metabolismo · Obtida exclusivamente de alimentos de origem animal (carne, leite, ovos, fígado). · Estoque corporal: 2 a 3 mg no fígado → suficiente para 2 a 4 anos sem reposição. · Absorção: 1. No estômago, a B12 se liga ao fator intrínseco (FI), produzido pelas células parietais gástricas. 2. O complexo B12-FI é absorvido no íleo terminal. · Sem o fator intrínseco, a absorção é inviável (ex.: anemia perniciosa). b) Causas de Deficiência · Dietéticas: vegetarianos estritos/veganos sem suplementação. · Má absorção: gastrite atrófica, gastrectomia, bypass gástrico, doença de Crohn, doença celíaca. · Deficiência de FI: anemia perniciosa (doença autoimune). · Uso de medicamentos: metformina, inibidores da bomba de prótons. Ácido Fólico (Vitamina B9) a) Metabolismo · Fontes: vegetais verdes folhosos, frutas, fígado, carne. · Estoque corporal: apenas 5 mg no fígado → dura 3 a 4 meses (menor reserva que a B12). · Participa da síntese de purinas e pirimidinas e da conversão de homocisteína em metionina. b) Causas de Deficiência · Dietéticas: ingestão insuficiente (álcool, dietas pobres). · Má absorção: doença celíaca, ressecção jejunal, doença de Crohn. · Aumento da demanda: gravidez, lactação, crescimento. · Medicamentos: anticonvulsivantes (fenitoína), metotrexato, sulfas. Epidemiologia · Estudo na Holanda (2016, com 3.000 pacientes anêmicos): · 7,5% apresentavam anemia macrocítica. · 1,4% com deficiência de vitamina B12. · 0,5% com deficiência de folato. · Anemia perniciosa = causa mais comum de deficiência de B12 no mundo. · Deficiência de folato é rara em países com fortificação alimentar (ex.: Brasil, EUA). Quadro Clínico a) Sintomas Gerais (ambas deficiências) · Fraqueza, fadiga, dispneia aos esforços, palpitações. · Palidez cutâneo-mucosa. · Glossite de Hunter (língua lisa, vermelha e dolorida). · Esplenomegalia discreta. b) Sintomas Neurológicos (exclusivos da deficiência de B12) · Parestesias (formigamento). · Alteraçõesdo equilíbrio e marcha (degeneração combinada da medula espinhal). · Dores lancinantes em MMII. · Distúrbios visuais. · Déficits cognitivos, irritabilidade, depressão. 👉 A deficiência de folato não causa sintomas neurológicos. Diagnóstico Laboratorial Hemograma: · Anemia macrocítica (VCM ↑). · RDW aumentado. · Reticulócitos baixos (produção insuficiente). · Pancitopenia possível (queda de leucócitos e plaquetas). · Esfregaço: neutrófilos hipersegmentados. Dosagens séricas: · Vitamina B12: · Deficiência = 300 pg/mL (> 221 pmol/L). · Folato: · Deficiência = 4 ng/mL (> 9,1 nmol/L). Exames adicionais: · Ácido metilmalônico: ↑ na deficiência de B12 (normal na deficiência de folato). · Homocisteína: ↑ em ambas deficiências. Diagnóstico Diferencial · Anemia megaloblástica por B12: presença de sintomas neurológicos + ácido metilmalônico elevado. · Anemia megaloblástica por folato: quadro semelhante, mas sem sintomas neurológicos + ácido metilmalônico normal. · Outras causas de macrocitose: alcoolismo, hepatopatias, uso de certos fármacos (hidroxiureia, zidovudina). Tratamento Vitamina B12: · Casos leves: 1000 mcg/dia VO por 1–2 meses. · Casos graves ou com sintomas neurológicos: 1000 mcg IM/EV 1x por semana durante 1–2 meses. · Manutenção: pode ser mensal IM, principalmente em anemia perniciosa. Ácido Fólico: · 1 a 5 mg/dia VO por 1–2 meses. · Gravidez: suplementação profilática obrigatória para prevenir defeitos do tubo neural. ⚠️ Importante: nunca repor apenas ácido fólico em pacientes com suspeita de deficiência de B12, pois isso pode mascarar a anemia e agravar os sintomas neurológicos irreversíveis da deficiência de B12. Resumindo a Lógica das Anemias Megaloblásticas 1. Causa → deficiência de B12 (falta de FI, dieta vegana, cirurgia) ou folato (alcoolismo, má absorção, fármacos). 2. Fisiopatologia → falha na síntese de DNA → megaloblastos → macrocitose e eritropoiese ineficaz. 3. Clínica → sintomas gerais + glossite; se for deficiência de B12 → sintomas neurológicos. 4. Laboratório → VCM ↑, neutrófilos hipersegmentados, reticulócitos baixos, ácido metilmalônico (↑ na deficiência de B12). 5. Tratamento → reposição oral ou parenteral de B12 e folato, conforme a causa e gravidade. Anemia por Deficiência de Cobre Importância do Cobre na Hematopoiese · O cobre é um micronutriente essencial que atua como cofator de várias enzimas envolvidas em processos metabólicos fundamentais. · No sangue e na hematopoiese, sua principal função é facilitar o metabolismo do ferro. Principais funções do cobre: · Participa da atividade da ferroxidase (ceruloplasmina), enzima que oxida Fe²⁺ → Fe³⁺, permitindo que o ferro seja ligado e transportado pela transferrina. · Auxilia no transporte e mobilização do ferro dos estoques (fígado, baço, medula) para a síntese de hemoglobina. · Atua na maturação de células hematopoiéticas (eritrócitos e leucócitos). 👉 Sem cobre → o ferro não é adequadamente mobilizado → há acúmulo de ferro nos tecidos, mas anemia sideroblástica-like no sangue (ferro não aproveitado). Epidemiologia · É uma causa rara de anemia carencial. · Geralmente associada a condições clínicas específicas: · Cirurgias bariátricas (gastrectomia, bypass gástrico). · Síndromes de má absorção intestinal (Crohn, doença celíaca). · Nutrição parenteral prolongada sem suplementação adequada. · Desnutrição grave. · Pode ocorrer em pacientes com excesso de zinco (competição pela absorção intestinal). Fisiopatologia 1. Deficiência de cobre → redução da atividade da ceruloplasmina. 2. O ferro não consegue ser adequadamente oxidado e liberado dos depósitos hepáticos e esplênicos. 3. Isso leva a um quadro paradoxal: estoques de ferro normais ou aumentados, mas baixa utilização na medula óssea. 4. Resultado: · Anemia microcítica, normocítica ou macrocítica (dependendo do estágio e associação). · Eritropoiese ineficaz, semelhante à sideroblástica. · Neutropenia frequente (diferencial com mielodisplasia). Quadro Clínico · Sintomas gerais de anemia: fadiga, palidez, dispneia aos esforços, taquicardia. · Manifestações neurológicas (em casos graves e prolongados): alterações de marcha, parestesias, degeneração da medula espinhal (semelhante à deficiência de B12). · Neutropenia → predisposição a infecções bacterianas e fúngicas. · Pode coexistir com sintomas de carência múltipla de micronutrientes em pacientes desnutridos ou pós-bariátricos. Diagnóstico Laboratorial Parâmetro Deficiência de Ferro Deficiência de B12/Folato Deficiência de Cobre VCM ↓ (microcítica) ↑ (macrocítica) Variável (↓, normal ou ↑) Ferritina ↓ Normal/↑ Normal B12 Normal ↓ Normal Folato Normal ↓ Normal Cobre sérico Normal Normal ↓ Neutropenia Rara Possível (grave) Frequente Morfologia Microcitose, hipocromia Megaloblastos, neutrófilos hipersegmentados Anemia tipo sideroblástica, diseritropoiese Ou seja: · Se há anemia + neutropenia em paciente com história de cirurgia bariátrica ou nutrição parenteral prolongada, deve-se pensar em deficiência de cobre. Diagnóstico Diferencial · Pode simular síndrome mielodisplásica (SMD) → por pancitopenia + diseritropoiese. · Pode simular anemia sideroblástica → ferro presente, mas não utilizado. · Deve ser diferenciada de deficiência de ferro, B12 ou folato → pedindo dosagem de cobre sérico. Tratamento · Reposição de cobre: · Oral: preferida em casos leves/moderados e se não houver má absorção grave. · Endovenosa (EV): indicada em casos graves, quando há má absorção intestinal ou necessidade de rápida correção. · Ajustar também a ingesta de zinco, pois excesso de zinco reduz absorção de cobre. · Monitorar parâmetros hematológicos (Hb, leucócitos, ferritina, cobre sérico). Resumindo a Lógica da Deficiência de Cobre 1. Causa: desnutrição, cirurgia bariátrica, nutrição parenteral sem suplementação, excesso de zinco. 2. Fisiopatologia: ferro não mobilizado (deficiência funcional), prejudicando eritropoiese. 3. Clínica: anemia + fadiga + neutropenia + (às vezes) sintomas neurológicos. 4. Diagnóstico: cobre sérico baixo + diseritropoiese no sangue e medula. 5. Tratamento: reposição de cobre (oral ou EV). 👉 Essa é uma anemia rara, mas cai em provas porque pode mimetizar síndromes mielodisplásicas e confundir com anemia ferropriva refratária. Diagnóstico Diferencial Laboratorial das Anemias Carenciais O hemograma e os exames complementares permitem diferenciar os três principais tipos de anemias carenciais. Parâmetros Básicos do Hemograma · Hemoglobina (Hb): reduzida em todas as anemias. · Hematócrito (Ht): reduzido, acompanha queda da Hb. · Contagem de hemácias (RBC): baixa em geral. · VCM (volume corpuscular médio): indica o tamanho médio das hemácias → parâmetro mais importante para classificar as anemias. · HCM e CHCM: avaliam a quantidade/concentração de hemoglobina por hemácia (útil para diferenciar anemias hipocrômicas e normocrômicas). · RDW (índice de anisocitose): indica variação de tamanho entre hemácias → útil para diferenciar ferropriva (RDW aumentado) de talassemia (RDW normal). Perfil Laboratorial da Anemia Ferropriva · VCM: ↓ (microcitose). · HCM/CHCM: ↓ (hipocromia). · RDW: ↑ (anisocitose – tamanhos variados de hemácias). · Ferritina sérica: ↓ (principal marcador da deficiência de ferro). · Ferro sérico: ↓. · TIBC (capacidade total de ligação do ferro): ↑ (transferrina “vazia” tentando captar ferro). · Saturação da transferrina: ↓. · Morfologia no esfregaço: hemácias microcíticas, hipocrômicas, anisocitose, poiquilocitose. 👉 Diagnóstico confirmado pela ferritina baixa. Perfil Laboratorial da Anemia Megaloblástica (Deficiência de B12 e/ou Folato) · VCM: ↑ (macrocitose, geralmente > 110 fL). · RDW: ↑ (variação no tamanho dos eritrócitos). · Reticulócitos: ↓ (eritropoiese ineficaz). · Morfologia no esfregaço: · Hemácias macrocíticas e ovalócitos. · Neutrófilos hipersegmentados (> 5 lobos). · Vitamina B12 sérica: ↓ (· Ácido metilmalônico: · ↑ na deficiência de B12. · Normal na deficiência de folato. 👉 Diferencial essencial: deficiência de B12 causa sintomas neurológicos, deficiência de folato não. Perfil Laboratorial da Anemia por Deficiência de Cobre · VCM: variável (pode ser microcítica, normocítica ou macrocítica). · Ferritina sérica: normal (estoques de ferro preservados). · Ferro sérico: normal ou aumentado (ferro está presente, mas não é mobilizado). · Cobre sérico: ↓. · Ceruloplasmina sérica: ↓. · Leucograma: neutropenia é frequente. · Morfologia no esfregaço: diseritropoiese (eritrócitos anormais), pode simular síndrome mielodisplásica. 👉 Diagnóstico confirmado por cobre sérico baixo + neutropenia em paciente com fatores de risco (cirurgia bariátrica, nutrição parenteral prolongada). Tabela Comparativa Parâmetro Anemia Ferropriva Anemia Megaloblástica (B12/Folato) Anemia por Deficiência de Cobre VCM (tamanho da hemácia) ↓ (microcítica) ↑ (macrocítica) Variável (↓, N, ↑) HCM/CHCM ↓ (hipocrômica) Normal/↑ Normal RDW ↑ ↑ Normal/↑ Ferritina sérica ↓ Normal/↑ Normal Ferro sérico ↓ Normal/↑ Normal/↑ Saturação transferrina ↓ Normal Normal Vitamina B12 Normal ↓ ( 3h30). · Carboximaltose férrica: permite reposição rápida em altas doses. Contraindicada em crianças e gestantes