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Princípios
· PRINCÍPIO DA PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA OU DE NÃO CULPABILIDADE
- No Brasil, esse princípio apenas foi expressamente previsto a partir da CF/88 (antes dela, existia de forma implícita como decorrência da cláusula do devido processo legal).
· Nos Tratados Internacionais o princípio costuma aparecer como “presunção de inocência”, enquanto na CF o termo utilizado é “presunção de não culpabilidade”, pois nossa Carta sequer utiliza o termo “inocente”. Apesar disso, Gustavo Badaró afirma que os termos devem ser usados como sinônimos.
- Consiste no direito de não ser declarado culpado até o trânsito em julgado da sentença condenatória, com observância do devido processo legal e a possibilidade de uso de todos os meios de prova pertinentes a sua defesa (ampla defesa) e para destruição da credibilidade das provas apresentadas pela acusação (contraditório).
- Duas regras fundamentais decorrem desse princípio, uma regra de tratamento e outra regra probatória (ou regra de juízo):Regra probatória
- Diz que a acusação é quem deve provar a culpabilidade do réu, e não este provar sua inocência.
- Nessa acepção, a presunção de inocência confunde-se com o in dubio pro reo. Devemos, no momento de valoração das provas, favorecer o réu em caso de dúvida, pois não é dele a obrigação de provar que não praticou o delito (prova diabólica). 
- O in dubio pro reo, entretanto, como qualquer direito, não é absoluto:
· Só tem incidência até o trânsito em julgado da sentença condenatória.
· Por esse motivo, na revisão criminal (que pressupõe uma sentença condenatória ou absolutória imprópria transitadas em julgado) não se fala em in dubio pro reo, mas em in dubio contra reo. O ônus da prova recai exclusivamente sobre o postulante, ou seja, o réu é quem deve provar a presença de alguma das hipóteses do art. 621, CPP. Regra de tratamento
- É regra que o réu responda o processo em liberdade, sendo a privação cautelar da liberdade medida excepcional. 
- Disso decorre: vedação de prisões processuais automáticas ou obrigatórias (ex lege); impossibilidade de execução provisória da sanção penal.
- Tratamento extraprocessual = 
· Preservação da imagem, dignidade e privacidade do réu.
· Vedação da publicidade abusiva. Vedação da condenação “indireta ou informal”.
· Divulgação de informações sobre investigações de forma discreta e com a devida contextualização.
- Continuando, é preciso verificar o atual estágio de amadurecimento jurisprudencial acerca da execução provisória da pena: 
· 1º MOMENTO = DESNECESSIDADE DO TRÂNSITO EM JULGADO (HC 126.292)
- Possível a execução provisória de acórdão penal condenatório proferido por Tribunal de segunda instância quando ali esgotada a jurisdição (mesmo que sujeito a Resp ou RE; mesmo que ausentes os requisitos da preventiva).
- Usava-se o argumento de que deveria ser feita uma ponderação entre a presunção de inocência e a efetividade da função jurisdicional.
- O exame dos fatos e das provas se esgota nas instâncias ordinárias. O Resp e RE não configuram desdobramento do duplo grau de jurisdição, pois não são recursos de ampla devolutividade (reexame de provas não pode ser levantado nesse tipo de recurso – vide Súmula 279/STF e 7/STJ).
- Em nenhum país do mundo, depois de observado o duplo grau de jurisdição, a execução de uma condenação fica suspensa aguardando referendo da Corte Suprema.
- Portanto, as decisões judiciais não impugnáveis por recursos com efeito suspensivo seriam dotadas de eficácia imediata.
· 2º MOMENTO = NECESSIDADE DO TRÂNSITO EM JULGADO (ADC 43, 44 E 54)
- A presunção de inocência não se esvazia progressivamente. Ela se mantém hígida desde a fase pré-processual até 1 segundo antes do trânsito em julgado. Não existem “graus de inocência”, ou se é, ou não.
- Apesar de a CADH prever que a presunção de inocência exista até a comprovação de culpa (isso ocorre com a prolação de acórdão condenatório no julgamento de recurso), nossa Constituição foi mais ampla e estendeu isso até o trânsito em julgado da sentença condenatória. Desse modo, observando-se o princípio de interpretação pro homine, a previsão da CF/88 é que deve prevalecer.
- O art. 283 do CPP prevê apenas duas hipóteses de restrição da liberdade: a) prisão em flagrante e cautelar; b) prisão-pena (que só se dá com o trânsito em julgado da condenação).
· O fato de existir um recurso (seja Resp ou RE; com efeito suspensivo ou sem) por si só obsta o trânsito em julgado. Logo, obsta a execução da pena imposta. 
· O art. 283 do CPP é constitucional!
· O art. 283 é mera reprodução de cláusula pétrea (art. 5º, LVII, CF) cujo núcleo essencial não pode ser restringido nem mesmo pelo poder constituinte derivado. 
· PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO
- É a ciência bilateral dos atos do processo (direito à informação) e a possibilidade de contrariá-los (direito de participação). Ou seja, é a discussão dialética dos fatos da causa.
· Daí a expressão utilizada pela doutrina de “audiência bilateral” (ou sua expressão em latim “audiatur et altera pars”).
- Quanto à participação da parte contrária, saímos do paradigma clássico no qual apenas deveria ser possibilitada essa participação para adentramos na concepção moderna da necessidade efetiva de participação (contraditório efetivo e equilibrado).
· Não basta assegurar ao acusado o direito de contraditório e reação em um plano formal, mas a obrigatoriedade de assistência técnica de um defensor no plano material (posto o direito de liberdade demandado na causa).
· Disso decorre a necessidade de respeito à paridade de tratamento (par conditio).
- No âmbito do inquérito policial, prevalece na doutrina e na jurisprudência de que observância do contraditório não é obrigatória.
- Quanto ao momento de formação da prova, podemos ter:Contraditório para a prova (contraditório real)
- As partes atuarão na formação do elemento de prova.
- Indispensável que a produção da prova se dê na presença do juiz e das partes.Contraditório sobre a prova (contraditório diferido)
- O contraditório se dará após a formação da prova.
- Não existe violação ao contraditório, porque o seu exercício apenas será diferido para momento posterior à decisão judicial que autorizou a produção da prova sem a manifestação da parte contrária.
· PRINCÍPIO DA AMPLA DEFESA
- A ampla defesa é tida como um direito (que privilegia o interesse do acusado) e, também, como uma garantia (que privilegia o interesse geral de um processo justo).
- A ampla defesa está diretamente ligada ao princípio do contraditório, pois a defesa garante o contraditório e por ele se manifesta. Afinal de contas, o exercício da ampla defesa só é possível em virtude de um dos elementos do direito ao contraditório (o direito à informação). E, além disso, a ampla defesa se exprime por intermédio do segundo elemento (direito de participação).
· Apesar de estarem relacionados, não se confundem. Tendo em vista o princípio do devido processo legal, o processo penal exige partes em posições antagônicas, em que uma delas necessariamente exerce a posição de defesa (ampla defesa), havendo a necessidade de que cada uma das partes tenha o direito de contrapor os atos da parte contrária (contraditório). Ou seja, o contraditório deve ser aplicado em relação a ambas as partes, ao passo que a ampla defesa diz respeito apenas ao acusado.
- A fim de efetivar a igualdade material, admite-se um tratamento formalmente desigual para o acusado. Ao acusado, portanto, são outorgados vários privilégios em detrimento da acusação (recursos privativos da defesa; proibição da reformatio in pejus; regra do in dubio pro reo; revisão criminal exclusivamente pro reo – privilégios esses reunidos no princípio do favor rei).
- A ampla defesa abrange o direito à:Defesa técnica (processual ou específica)
- Exercida por profissional da advocacia, com capacidade postulatória (seja advogado constituído, seja defensor público).
- É necessária, indisponível e irrenunciável.
· Não se admite processo penal sem que a defesa técnica seja exercida por profissional da advocacia, pois isso visa assegurara paridade de armas.
· Se o próprio acusado é profissional da advocacia (inscrito na OAB), poderá exercer sua própria defesa técnica.
· Isso também se aplica no âmbito do juizado especiais criminais, em que o réu deve se fazer representar por profissional da advocacia.
· A ausência desse profissional gera nulidade absoluta por afronta à ampla defesa.
- O réu tem direito de escolher o seu próprio defensor.
· Desdobramento disso é a necessidade de o juiz ordenar a intimação do réu para escolha de outro advogado se o defensor constituído original não puder assumir ou prosseguir no patrocínio da causa penal.
· A nomeação de defensor pelo juiz só ocorre nos casos em que o réu permaneça inerte na constituição de seu defensor.
· É possível que um mesmo advogado patrocine a defesa técnica de dois ou mais acusados (desde que não haja teses colidentes entre ambos).
- A defesa técnica não pode apenas estar constituída na causa penal, deve ser efetiva e plena.
· Caso a defesa técnica seja deficiente, o processo pode ser anulado. Caso falte a defesa técnica, o processo é absolutamente nulo (Súmula 523/STJ).
· Defesa efetiva não significa pedir a absolvição do acusado. Significa atuação para melhora da situação do acusado (como a busca por uma causa de diminuição de pena, atenuante ou benefício legal para o cumprimento da pena).Autodefesa (material ou genérica)
- É exercida pelo próprio acusado por meio do direito de audiência e do direito de presença.
· A audiência consiste no direito de o réu ser pessoalmente ouvido. Isso se materializa através do interrogatório.
· Daí o entendimento majoritário acerca da natureza jurídica do interrogatório: meio de defesa.
· A presença consiste na possibilidade de o réu acompanhar os atos da instrução. 
- É disponível.
· Ofensa a esse direito do acusado gera nulidade absoluta por afronta à ampla defesa.
· Sendo disponível, conclui-se que o comparecimento do réu aos atos processuais é, em princípio, um direito e não um dever.
· Como qualquer direito, não é absoluto. Assim, é possível a condução coercitiva, por exemplo, para audiência de reconhecimento (ato não protegido pelo direito à não autoincriminação).
- É possível apontar um terceiro desdobramento da autodefesa, consubstanciada na capacidade postulatória autônoma do acusado.
· Ou seja, em alguns momentos específicos o processo penal defere ao acusado capacidade postulatória autônoma (como na interposição de recursos.; habeas corpus; revisão criminal; pedidos na execução da pena).
- Para encerrar, temos doutrina (David Teixeira de Azevedo) que subdivide a ampla defesa no aspecto positivo (efetivo uso dos meios de produção de prova; certificação; esclarecimento; confrontação de elementos de prova) e negativo (não produção de elementos probatórios de elevado risco à defesa do réu).
· PRINCÍPIO DA PUBLICIDADE
- A publicidade decorre do princípio democrático, pois visa assegurar a transparência da atuação jurisdicional, oportunizando sua fiscalização pelas partes e por toda a sociedade.
- Ferrajoli diz ser uma garantia de segundo grau (ou “garantia de garantia”), ou seja, para fiscalizar se as garantias primárias estão sendo observadas (como o direito do contraditório e da ampla defesa), é indispensável que o processo se desenvolva em público (que a informação chegue até os destinatários e possa ser verificada).
· Por isso a afirmação de que a publicidade é um pressuposto de validade dos atos processuais.
- A publicidade se divide em ampla e restrita:Publicidade ampla
- São os atos praticados perante as partes, e, ainda, abertos a todo o público. Possibilita o controle social da atividade jurisdicional, reforçando a legitimidade do processo (servindo de freio e garantia contra a tirania judicial).
- É a regra no processo penal.Publicidade restrita
- Apesar de a publicidade ampla ser a regra no processo penal, como toda e qualquer garantia, não tem caráter absoluto.
- É possível a restrição da publicidade para defesa da intimidade, interesse social e imprescindibilidade à segurança da sociedade e do Estado.
- Esse tipo de publicidade é impropriamente chamada de “segredo de justiça”.
· Art. 520. Antes de receber a queixa, o juiz oferecerá às partes oportunidade para se reconciliarem, fazendo-as comparecer em juízo e ouvindo-as, separadamente, sem a presença dos seus advogados, não se lavrando termo.
· Brasileiro afirma que esse artigo não foi recepcionado na parte em que prevê que as partes estarão presentes à audiência de reconciliação sem a presença de seus advogados. Isso porque todos os atos do processo são realizados perante as pessoas diretamente interessadas e seus respectivos procuradores. 
- Nas hipóteses em que for decretado segredo de justiça nos autos, somente o próprio juiz que o decretou poderá afastá-lo. 
· Por esse motivo, CPI não tem poder jurídico de, mediante requisição, determinar a quebra de sigilo imposto a processos sujeito a segredo de justiça (MS 27.483).
 O que é publicidade ativa, passiva, mediata e imediata?
Resposta: Segundo Rogério Tucci, publicidade ativa são os atos do processo que involuntariamente são conhecidos do público, enquanto publicidade passiva consiste nas informações conhecidas pelo público por iniciativa própria. Imediata é a informação disponibilizada a todos os cidadãos, enquanto mediata é aquela que só se toma conhecimento mediante certidão, cópia ou por meio da imprensa.
· PRINCÍPIO DA BUSCA DA VERDADE
- Visão tradicional:
· Cível = prevalecia o entendimento de que, no âmbito cível, (em que geralmente se discutem direitos disponíveis) vigorava o chamado princípio dispositivo, em que as partes levam ao processo o material probatório (o juiz não influenciava na produção de provas). Ao final do processo o juiz julga o litígio segundo a verdade formal.
· Somente quando direitos indisponíveis estivessem em jogo é que se admitia que o juiz determinasse a produção de provas.
· Criminal = como um direito indisponível estava em discussão (liberdade de locomoção do acusado), o juiz seria adotado de amplos poderes instrutórios, podendo determinar a produção de provas em busca da verdade material/substancial/real. 
- Visão moderna: 
· Atualmente, a dicotomia entre verdade formal e material deixou de existir.
· Cível= como o processo é um meio efetivo de realização da justiça, quer seja o direito disponível, quer seja o direito indisponível, o juiz deve ser adotado de poder para determinar a produção de provas necessárias ao esclarecimento da verdade.
· Criminal = vigora o entendimento de que é impossível que se atinja uma verdade absoluta. Por mais robusta que seja a prova produzida, ela é incapaz de dar ao magistrado um juízo de absoluta certeza. O que vai haver é uma aproximação, maior ou menor, da certeza dos fatos.
- Nos juizados especiais criminais, fala-se na busca da verdade consensual, prevalecendo a vontade convergente das partes para solução da controvérsia judicial.
· PRINCÍPIO DA VEDAÇAO À AUTOINCRIMINAÇÃO
- O preso será informado de seus direitos, entre os quais o de permanecer calado (Art 5º, LXIII, CF). 
· A Constituição consagra o direito de permanecer calado, o qual é apenas uma das várias decorrências do nemo tenetur se detegere, segundo o qual ninguém é obrigado a produzir prova contra si mesmo.
· Esse princípio está previsto na CF, PIDCP e na CADH.
- É uma modalidade de autodefesa passiva (liga-se à ampla defesa, portanto), exercida pelo indivíduo por meio de um não fazer. Logo, veda-se o uso de qualquer medida de coerção do investigado em um processo de caráter sancionatório para obter uma prova que exija a colaboração dele e que possa ocasionar sua condenação.
 Quem é o titular desse direito?
Resposta: Doutrina majoritária entende que esse direito se presta a proteger não apenas quem está preso, mas também aquele que está solto, assim como qualquer pessoa a quem seja imputada a prática de um ilícito criminal. 
· André de Carvalho Ramos entende que até mesmo as pessoas jurídicas gozam desse direito.
- Não é válido, por isso, arrolar alguém como testemunhae querer forçá-la a responder sobre uma pergunta (em razão do dever de dizer a verdade) que possa incriminá-la.
· Por isso, não configura falso testemunho quando a testemunha, ainda que compromissada, deixa de revelar fatos que possam incriminá-la (HC 106.876/RN. 2ª Turma do STF).
 O sujeito precisa ser advertido desse direito? 
Resposta: Apesar de ninguém poder alegar o desconhecimento da lei, a Constituição foi expressa ao dizer que “será informado de seus direitos”, isso para evitar uma autoincriminação involuntária por força do desconhecimento da lei. Logo, deve haver prévia e formal advertência quanto ao direito ao silêncio, sob pena de ilicitude da prova colhida.
- O dispositivo constitucional assemelha-se ao famoso Aviso de Miranda do direito norte-americano (necessidade de o policial, no momento da prisão, ler para o preso e seus direitos).
· Por isso, tem-se tornado comum a entrega ao preso, no momento da prisão, de uma nota de ciência das garantias constitucionais. 
· Por isso o “interrogatório sub-reptício” ou “interrogatório travestido de entrevista” é manifestamente ilegal, pois não adverte o investigado do seu direito ao silêncio (como ocorreu no interrogatório por delegado de polícia durante o cumprimento de mandado de busca domiciliar, em que não informou esse direito ao indivíduo sujeito à medida).
· Assim, percebe-se que esse direito precisa ser formalmente advertido ao investigado, devendo constar expressamente no APF essa informação.
· Maria Thereza Moura afirma que se, apesar de não ter havido prévia advertência quanto ao direito ao silêncio no momento interrogatório, o preso silenciar ou exercer a autodefesa, sem produzir prova contra si mesmo, não há falar em ilicitude do ato, porquanto não houve prejuízo à defesa. No mesmo sentido, STJ (AgRg no HC 798.225/RS; j. 12/6/2023): “Só há nulidade pela falta de cientificação do acusado sobre o seu direito de permanecer em silêncio, em fase de inquérito policial, caso demonstrado o efetivo prejuízo”. 
- Esse direito é oponível ao Poder Público, devendo a autoridade policial ou judicial informar ao sujeito o seu direito ao silêncio. 
· No julgamento de HC, em que se alegava a ilicitude da prova juntada aos autos, consistente em entrevista concedida a jornal, na qual o acusado narrara o modus operandi de dois homicídios a ele imputados, sem ter sido previamente advertido de seu direito ao silêncio, reputou-se que a Constituição teria conferido dignidade constitucional ao direito ao silêncio, dispondo expressamente que o preso deve ser informado pela autoridade policial ou judicial da faculdade de manter-se calado. Consignou-se que o dever de advertir os presos e os acusados em geral de seu direito de permanecerem calados consubstanciar-se-ia em uma garantia processual penal que teria como destinatário precípuo o Poder Público. Concluiu-se, não haver qualquer nulidade na juntada da prova, entrevista concedida espontaneamente a veículo de imprensa.
 Quais os desdobramentos do direito de não produzir prova contra si mesmo?
Resposta: Temos cinco desdobramentos: Direito de ficar calado
- O direito ao silêncio é apenas uma das decorrências da vedação à autoincriminação.
- É uma forma de manifestação passiva da autodefesa.Direito de não ser constrangido a confessar a prática de crime
- Tem previsão expressa no PIDCP e CADH.Inexigibilidade de dizer a verdade
- Há doutrinadores que entendem que o acusado possui o direito de mentir (pois não há o crime de perjúrio no Brasil). Isso consiste na denominada “mentira defensiva”.
· Outra parte da doutrina entende que, apesar de inexistir o crime de perjúrio, não existe um direito à mentira, sendo apenas ela tolerada porque dela não pode resultar nenhum prejuízo ao acusado.
· Especial atenção deve ser dada às “mentiras agressivas”, quando o acusado imputa falsamente a terceiro inocente a prática do delito de sua autoria. O direito de não produzir prova contra si mesmo esgota-se na proteção do próprio réu, não servindo de suporte para que ele possa cometer outros delitos (nesse caso, responderá por eventual crime de calúnia ou denunciação caluniosa). 
· Também é considerado crime, portanto, a conduta de acusar-se, perante a autoridade, de crime inexistente ou praticado por outro (perceba que nessa situação não há que se falar em vedação à autoincriminação pois não estamos diante de um acusado da prática de ilícito).
- Não abrange, por certo, o direito de falsear a verdade quanto à identidade pessoal (configura crime de falsa identidade – vide Súmula 522/STJ).Direito de não praticar qualquer comportamento ativo que possa incriminá-lo
- Não se pode exigir um comportamento ativo do acusado, caso desse fazer possa resultar autoincriminação.
· Ou seja, sempre que a produção da prova pressupor uma ação por parte do investigado (Ex: acareação; reconstituição do crime; exame grafotécnico), indispensável será seu consentimento.
- Se a produção da prova exigir apenas uma cooperação passiva do acusado, não se fala em violação ao princípio. Ou seja, o direito de não produzir a prova contra si mesmo não existe quando o acusado for mero objeto de verificação (Ex: reconhecimento pessoal).Direito de não produzir nenhuma prova incriminadora invasiva
- A intervenção corporal/ investigação corporal/ ingerência humana (que é gênero) é medida de investigação que se realiza sobre o corpo das pessoas, sem a necessidade do seu consentimento (Ex: identificação datiloscópica; exame de DNA; exame de sangue; exame de material fecal, urina, saliva, fio de cabelo etc.).
- A intervenção corporal pode ser de duas espécies:
· Invasiva = essas pressupõem penetração no organismo humano, ou seja, invasão física do corpo (Ex: exame de sangue; ginecológico; endoscopia – geralmente utilizada para localização de drogas no corpo).
· Não invasiva = essas consistem na verificação corporal, ou seja, não há penetração no corpo humano, não implicam extração de parte dele (Ex: exame de matéria fecal; exame de fios de cabelos encontrados no chão).
· Perceba que o que vai determinar se a prova é invasiva ou não invasiva é a forma de coleta do material, pois a saliva pode servir para realização de um exame de DNA, mas o modo pelo qual foi obtida é que vai determinar se a prova é invasiva (Ex: coleta com o uso de cotonete diretamente na boca do investigado e sem sua autorização) ou não invasiva (Ex: saliva encontrada em um copo plástico descartado pelo próprio acusado).
· O exame de raio X deve ser considerado como prova não invasiva, pois não exige qualquer fazer por parte do investigado, tampouco constitui procedimento invasivo ou degradante que possa violar direitos fundamentais (HC 149.146/SP – 6ª Turma/STJ).
· Outro exemplo de prova não invasiva é a identificação datiloscópica.
- Se, após prévia advertência do direito de não produzir prova contra si mesmo, o sujeito consentir com a medida, a intervenção corporal (seja invasiva ou não invasiva) poderá ser realizada normalmente. 
· A Constituição não estabeleceu reserva de jurisdição para determinação das intervenções corporais, de modo que a autoridade policial poderá determiná-las, observando-se os critérios acima referidos.
· Se a intervenção corporal colocar em risco a integridade física ou psíquica do investigado (Ex: exame radiográfico em mulher grávida) ou, ainda, ofender a dignidade da pessoa humana, não se admite a medida (mesmo com a anuência do cidadão).
- A grande problemática, em verdade, reside nas situações em que não há o consentimento do suspeito, sendo necessário diferenciar as consequências jurídicas para os casos de provas invasivas e para os casos de provas não invasivas.
· Ausência de consentimento nas provas não invasivas = desde que não implique colaboração ativa do acusado, pode ser realizada normalmente (Ex: coleta de fio de cabelo encontrado no local de crime e realização de exame de DNA).
· Ausência de consentimento nas provas invasivas = nesse caso, em virtude da vedação da autoincriminação, a medida não pode ser adotada (Ex: extração de sangue do investigadopara realização de exame de DNA).
· Nesse caso, não é possível a produção forçada da prova contra a vontade do agente.
· Se, porém, a prova foi produzida, voluntária ou involuntariamente pelo acusado, nada impede que esses elementos sejam apreendidos pela autoridade policial e utilizados na realização de exame. Ou seja, quando se trata de material descartado pelo investigado, não há como invocar o princípio da vedação à autoincriminação.
 O direito à não autoincriminação é absoluto? 
Resposta: Assim como qualquer outro direito, ele não pode ser entendido como absoluto. Não se permite que qualquer das liberdades seja exercida de modo danoso à ordem pública e às liberdades alheias (princípio da convivência das liberdades). 
- Discute-se se seria possível reconhecer a incidência desse princípio quando um segundo delito fosse praticado para encobrir o primeiro:
· O direito de não autoincriminação não abrange a possibilidade de os acusados alterarem a cena de crime, inovando o estado de lugar, coisa ou de pessoa, para, criando artificiosamente outra realidade, levar peritos ou o próprio juiz a erro. Nesse caso, responde o agente pelo crime de fraude processual (art. 347, parágrafo único, CP).
· O direito de não autoincriminação não pode ser confundido com mero temor genérico do acusado sobre a revelação do crime por ele praticado, não sendo possível a prática de crime posterior com a finalidade de encobrir o primeiro.
· PRINCÍPIO DA PROPORCIONALIDADE
- Apesar de não estar previsto de maneira expressa na Constituição, está inserido no aspecto material do princípio do devido processo legal (substantive due process of law). 
· Gilmar Mendes ensina que a cláusula do devido processo legal deve ser entendida não só sob o aspecto meramente formal (procedural due process of law), que coloca restrições de caráter ritual à atuação do Poder Público (obediência ao rito processual), mas, sobretudo, em sua dimensão material (substantive due process of law), que restringe a edição de atos normativos revestidos de conteúdo arbitrário e irrazoável. 
· O devido processo legal em sua acepção material visa proteger os direitos e liberdades das pessoas contra qualquer tipo de legislação que se revele opressiva.
- O princípio da proporcionalidade em sede processual penal, portanto, se qualifica como “postulado básico de contenção dos excessos do Poder Público”.
- O princípio da proporcionalidade tem dois pressupostos, um formal e outro material:
· Pressuposto formal = consiste no princípio da legalidade. Significa dizer que os direitos exercitáveis durante o processo e as medidas restritivas a direitos fundamentais devem estar previstas em lei, evitando que o estado tenha atuações arbitrárias, a pretexto de aplicar o princípio da proporcionalidade.
· Pressuposto material = consiste no princípio da justificação teleológica. Significa dizer que o uso de uma medida cautelar precisa ter legitimidade constitucional e ser socialmente relevante.
- Por fim, são requisitos intrínsecos (também chamados de subprincípios da proporcionalidade) a adequação/idoneidade, necessidade e a proporcionalidade em sentido estrito. Resumidamente, pode-se dizer que uma medida é adequada se atinge o fim almejado; exigível se causar o menor prejuízo possível; e, finalmente, proporcional em sentido estrito se as vantagens que trará superarem as desvantagens.
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