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Direitos Humanos | Janaina Silva 
focusconcuros.com.br 1 
Curso de Reta Final 
 
 
Informações gerais: 
 
Cargo de Agente (Nível superior); 
Remuneração inicial de R$ 8.698,78; 
O total de vagas é de 1800; 
70 questões sobre “Conhecimentos específicos”; 
Conteúdo programático (noções de direitos humanos): 1 Teoria geral dos 
direitos humanos. 1.1 Conceitos, terminologia, estrutura normativa, 
fundamentação. 2 Afirmação histórica dos direitos humanos. 3 Direitos 
humanos e responsabilidade do Estado. 4 Direitos humanos na 
Constituição Federal. 5 Política Nacional de Direitos Humanos. 6 A 
Constituição brasileira e os tratados internacionais de direitos humanos. 
A data prevista para aplicação da prova é o dia 18 de outubro de 2020; 
Banca Cebraspe (Cespe/Unb). 
 
1. Teoria Geral dos Direitos Humanos 
 
1.1 Conceito: 
 
Para iniciarmos este Curso Reta Final de direitos humanos para a PC-DF é 
de suma importância, antes de tudo, entender o que são esses “famosos” 
direitos humanos. 
 
Os Direitos Humanos, nada mais são que direitos essenciais para que os 
seres humanos possam ter uma vida digna, assim, esses direitos formam 
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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2 
um conjunto de normas jurídicas nacionais e internacionais que buscam 
assegurar um patamar mínimo de dignidade para todos os seres humanos. 
 
Para o professor André de Carvalho Ramos os direitos humanos consistem 
em um conjunto de direitos considerado indispensável para uma vida 
humana pautada na liberdade, igualdade e dignidade. Os direitos humanos 
são os direitos essenciais e indispensáveis à vida digna1. 
 
Por isso, importante frisar que os direitos humanos são direitos inerentes a 
todos os seres humanos, independentemente de raça, sexo, nacionalidade, 
etnia, idioma, religião ou qualquer outra condição. 
 
Veja, não podemos afirmar que existe um rol predeterminado desse 
conjunto de direitos essenciais para uma vida digna, pois as necessidades 
humanas variam com o passar dos anos e com o contexto histórico no qual 
se inserem, por isso novos direitos humanos podem ser inseridos na lista 
desses direitos, e, em decorrência disso, serão protegidos. Assim, uma das 
principais características dos direitos humanos é a historicidade, ou seja, os 
direitos humanos não foram firmados em um único momento histórico, 
eles decorrem da evolução da sociedade, e, por isso, estão em constante 
evolução. 
 
Além disso, os direitos humanos fazem parte de um rol amplo e aberto 
(sempre é possível a descoberta de um novo direito humano), mas a título 
de exemplo, podemos citar o direito à vida, à liberdade, o direito ao 
trabalho e à educação, entre e muitos outros. Lembrando que: todos 
merecem esses direitos, sem discriminação! 
 
Falamos então que os direitos humanos representam valores essenciais, 
certo?! Mas onde esses direitos estão retratados? Já respondendo este 
questionamento, adianto – os direitos humanos estão explicitamente ou 
 
1 RAMOS, André de Carvalho. Curso de Direitos Humanos. 6ª edição. São Paulo: Editora Saraivajur, 2019, 
p. 29. 
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implicitamente retratados nas Constituições e em tratados internacionais. 
Por isso, a fundamentalidade dos direitos humanos pode ser formal, ou 
seja, estão protegidos em um rol de direitos de uma Constituição ou um 
tratado internacional, ou pode ser material, que mesmo não 
expressamente codificado é considerado direito humano e indispensável 
para a proteção da dignidade humana. 
 
Mesmo existindo diversos direitos humanos – como os direitos à liberdade, 
à igualdade, ao trabalho, à educação, à vida privada, entre outros – eles 
possuem em comum, de forma geral, quatro ideias-chaves, quais sejam: 
universalidade, essencialidade, superioridade normativa e reciprocidade. 
 
Assim, como ensina o Professor André de Carvalho Ramos2, a 
universalidade consiste no reconhecimento de que os direitos humanos 
são direitos de todos, sem discriminação de qualquer espécie. Já a 
essencialidade implica que os direitos humanos apresentam valores 
indispensáveis (essenciais) e que todos devem protegê-los. Além disso, os 
direitos humanos são superiores as demais normas, não se admitindo o 
sacrifício de um direito humano em benefício de outro direito dito inferior, 
por isso os direitos humanos possuem superioridade normativa. Por fim, a 
reciprocidade impõe que, por ser direito de todos, não há o dever de tão 
somente o Estado (agentes públicos) proteger esses direitos, mas também 
é dever da coletividade como um todo. 
 
Agora, vamos para o resumo: 
 
 
2 RAMOS, André de Carvalho. Curso de Direitos Humanos. 6ª edição. São Paulo: Editora Saraivajur, 
2019, p. 30. 
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4 
 
 Lembre-se que os Direitos Humanos são o conjunto de direitos 
essenciais e indispensáveis à vida digna. 
 
 Mas afinal, o que é dignidade humana? 
 
O estudo etimológico da palavra “dignidade” demonstra que ela advém de 
dignos, que ressalta aquilo que possui honra ou importância. 
 
Remontando ao passado, verifica-se que, já no século XIII, São Tomás de 
Aquino reconhece a dignidade humana, como a qualidade inerente a todos 
os seres humanos, o que separa o homem dos demais seres e objetos. 
 
Além disso, Kant3 afirma que “o homem – e, de uma maneira geral, todo o 
ser racional – existe com um fim em si mesmo, e não apenas como meio 
para o uso arbitrário desta ou daquela vontade. Assim, a dignidade 
constitui, na visão kantiana, um valor incondicional e incomparável. Para 
ilustrar isso, Kant contrapõe dignidade ao preço, trazendo que quando uma 
coisa tem preço, pode ser substituída por algo equivalente; por outro lado, 
a coisa que se acha acima de todo preço, e por isso não admite qualquer 
equivalência, compreende uma dignidade. Em resumo: as coisas possuem 
preço; os indivíduos (seres humanos) possuem dignidade. 
 
 
3 KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. 2003, p. 58. 
direitos 
humanos 
universais
essenciais superiores
recíprocos
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5 
Nesse sentido, dignidade humana é a ideia de que todo o ser humano tem 
direito de ser respeitado pelo Estado e pelos demais, pelo simples fato de 
sua humanidade. Sendo dever do Estado proteger a dignidade humana, 
respeitando-a (imposição de limites à ação estatal) e garantindo-a por 
meio do fornecimento de condições materiais ideais para o seu 
florescimento. 
 
Vale lembrar que a dignidade é um valor universal, não importando as 
diversidades socioculturais dos povos, como as suas diferenças físicas, 
intelectuais ou psicológicas ou sociais. Todas as pessoas são detentoras de 
igual dignidade! 
 
A dignidade possui dois pilares importantíssimos. A igualdade entre os 
seres humanos, ou seja, os homens devem ter os seus interesses 
igualmente considerados, independentemente de raça, gênero, capacidade 
ou outras características individuais. E a liberdade, a qual permite ao 
homem exercer plenamente os seus direitos existenciais, como, por 
exemplo, a liberdade interior, para sonhar, realizar suas escolhas, elaborar 
planos e projetos de vida, pensar e manifestar suas opiniões. 
 
Ingo Wolfgang Sarlet4 define muito bem o conceito de dignidade como 
sendo “a qualidade intrínseca e distintiva de cada ser humano que o faz 
merecedor do mesmo respeito e consideração por parte do Estado e da 
comunidade, implicando, neste sentido, um complexo de direitos e deveres 
fundamentais que assegurem a pessoa tanto contra todo e qualquer ato 
de cunho degradante e desumano, como venham a lhe garantir as 
condições existenciais mínimas para uma vida saudável, além de propiciar 
e promover sua participação ativa e corresponsávelnos destinos da própria 
existência e da vida em comunhão com os demais seres humanos”. 
 
Importante frisar que a dignidade é um valor que identifica o ser humano 
como tal, entretanto o conceito de dignidade possui mais que um 
 
4 SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da Pessoa Humana e Direitos Fundamentais na Constituição 
Federal de 1988. 2001, p. 60. 
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significado (é polissêmico), e dentre muitos doutrinadores não há uma 
concretude em sua definição. Por isso o conceito de dignidade é aberto, 
em permanente processo de desenvolvimento e construção, se inserindo 
na categoria dos denominados conceitos jurídicos indeterminados. 
 
Tanto nos diplomas internacionais quanto nacionais, a dignidade humana 
é inscrita como princípio geral ou fundamental, o que dá unidade 
axiológica aos sistemas jurídicos, fornecendo um substrato material para 
que os direitos possam florescer. 
 
No âmbito normativo, dentre outros artigos, a Constituição de 1988 
estabelece que um dos fundamentos do Estado Democrático de Direito é 
a “dignidade da pessoa humana” (art. 1, inciso III). 
 
Já no plano internacional, dentro outros documentos, a Declaração 
Universal dos Direitos Humanos de 1948 estabelece, já no seu preâmbulo, 
a necessidade de proteção da dignidade humana por meio da proclamação 
dos direitos elencados naquele diploma, estabelecendo, em seu artigo 1º, 
que “todos os seres humanos nascem livres e iguais, em dignidade e 
direitos”. 
 
Assim, a dignidade humana não se trata de um aspecto particular da 
existência, mas sim de uma qualidade inerente a todo o ser humano, sendo 
um valor que identifica o ser humano como tal. 
 
De acordo com o professor André de Carvalho Ramos5 existem dois 
elementos que caracterizam a dignidade humana: o elemento positivo e o 
elemento negativo. 
 
 
5 RAMOS, André de Carvalho. Curso de Direitos Humanos. 6ª edição. São Paulo: Editora Saraivajur, 2019, 
p. 80. 
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O elemento negativo consiste na proibição de se impor tratamento 
ofensivo, degradante ou ainda discriminação odiosa a um ser humano. Por 
isso a própria Constituição dispõe que “ninguém será submetido à tortura 
nem a tratamento desumano ou degradante” (art. 5º, III), e ainda determina 
que “a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e 
liberdades fundamentais” (art. 5º, XLI). 
 
Já o elemento positivo consiste na defesa da existência de condições 
materiais mínimas de sobrevivência a cada ser humano. Nesse sentido, a 
Constituição estabelece que a nossa ordem econômica tem “por fim 
assegurar a todos existência digna” (art. 170, caput). 
 
Agora, vamos para o resumo: 
 
 Lembre-se que, de forma geral, a dignidade humana é a ideia de que 
todo o ser humano tem direito de ser respeitado pelo Estado e pelos 
demais, pelo simples fato de sua humanidade. 
 
 Principais características dos Direitos Humanos: 
 
Os direitos humanos apresentam atualmente a nova centralidade do direito 
constitucional e também do direito internacional, o que os colocam em 
Dignidade 
humana 
é um conceito 
aberto
caracterizada 
por um 
elemento 
positivo e um 
negativo
igualdade e 
liberdade são 
seus pilares
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elevada posição hermenêutica em relação aos demais direitos, 
apresentando diversas características, entre elas: 
 
a) Universalidade: a abrangência desses direitos engloba todos os 
indivíduos, independentemente de sua nacionalidade, sexo, raça, credo ou 
convicção político-filosófica, ou seja, os direitos humanos destinam-se a 
todas as pessoas de todos os lugares. 
 
b) Indivisibilidade: Consiste no reconhecimento de que todos os direitos 
humanos possuem a mesma proteção jurídica, já que são essenciais para 
uma vida digna. Em razão disso, há o reconhecimento de que os direitos 
humanos apresentam uma unidade incindível em si, não sendo possível 
proteger apenas alguns dos direitos assegurados, devendo, portanto, o 
Estado investir na promoção e proteção de direitos de primeira dimensão 
(como, por exemplo, o direito à integridade física), como em direitos de 
segunda dimensão (como, por exemplo, o direito à saúde). 
 
c) Interdependência: consiste no reconhecimento de que todos os direitos 
humanos contribuem para a realização da dignidade humana, interagindo 
para a satisfação das necessidades essenciais do indivíduo. 
 
d) Não exaustividade (abertura dos direitos humanos): Consiste na 
possibilidade de expansão do rol de direitos humanos necessários a uma 
vida digna, assim o rol de direitos previsto na Constituição Federal, bem 
como em tratados internacionais é meramente exemplificativo, podendo 
ser reconhecidos novos direitos, na medida em que as necessidades sociais 
assim exijam. 
 
e) imprescritibilidade: Consiste no reconhecimento de que os direitos 
humanos não se perdem pelo decurso do tempo. 
 
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f) Inalienabilidade: Consiste na impossibilidade de se transferir os direitos 
humanos, seja a título gratuito, seja a título oneroso. Em razão disso não se 
pode atribuir dimensão pecuniária aos direitos humanos para fins de 
venda. 
 
g) irrenunciabilidade: Consiste na impossibilidade de o próprio ser 
humano – titular dos direitos humanos – abrir mão de sua condição 
humana e permitir a violação desses direitos. Logo, a título de exemplo, 
uma pessoa não poderá doar ou vender determinado órgão vital para ser 
transplantado no corpo de outrem, pois tal situação seria renunciar à 
integridade física, um direito humano fundado na dignidade da pessoa. 
 
h) proibição do retrocesso (efeito cliquet): Consiste na vedação da 
eliminação da concretização já alcançada na proteção de algum direito, 
admitindo-se somente aprimoramentos e acréscimos. Ou seja, uma vez 
assegurado um direito humano, ele não poderá ser suprimido. Proíbe-se 
que os Estados diminuam ou amesquinhem a proteção já conferida aos 
direitos humanos. 
 
Importante salientar que, a proibição do retrocesso não representa uma 
vedação absoluta a qualquer medida de alteração da proteção de um 
direito específico, por óbvio que não se pode suprimir um direito humano 
por completo, mas admite-se diminuição na proteção normativa ou fática 
desde que exista justificativa de estatura jusfundamental; que essa 
diminuição respeite o crivo da proporcionalidade; e que seja preservado o 
núcleo essencial do direito envolvido (que o mesmo não seja suprimido 
por completo). 
 
i) historicidade: os direitos humanos decorrem da formação histórica e 
surgem e se solidificam em decorrência da evolução da sociedade, estando 
eles em constante desenvolvimento. 
 
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Bom, agora que você já identificou as principais características dos direitos 
humanos, vamos para o esquema: 
 
1.2 Terminologia: 
 
Ao longo da sua trajetória de estudos para concursos públicos você ficou 
em dúvida sobre qual expressão utilizar para se referir aos direitos 
essenciais dos seres humanos? Ou ainda, pôde verificar que para fazer 
referência a essa categoria de direitos são utilizadas variadas expressões? 
Em caso positivo ou negativo, vamos lá! 
 
A doutrina para fazer referência aos direitos essenciais dos indivíduos 
emprega várias expressões, tais como “direitos fundamentais”, “direitos 
humanos”, “direitos do homem”, “direitos públicos subjetivos”, “liberdades 
públicas”, “direitos individuais”, “liberdades fundamentais”, “direitos 
humanos fundamentais”, “direitos fundamentais do homem” e “direitos 
naturais”. 
 
Até mesmo a própria Constituição Federal de 1988 repercute essa 
pluralidade terminológica, utilizando as expressões: “direitos humanos” 
Direitos 
Humanos
universais indivisíveis e 
interdependentes
rol não 
exaustivo
imprescritíveis, 
inalienáveis e 
irrenunciáveis
não podem 
retroceder
históricos
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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(art. 4º, II, e 7º), “direitos e garantias fundamentais” (Título II e art. 5º, § 1º), 
“direitos e liberdades constitucionais” (art. 5º, LXXI), “direitos e garantias 
individuais” (art. 60, § 4º, IV), “direitos e liberdades fundamentais” (art. 5º, 
XLI) e “direitos fundamentais da pessoa humana” (art. 17). 
 
No direito internacional, não é diferente. Vejamos, a título de exemplo, a 
Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem de 1948 adota, 
no seu preâmbulo, as locuções: “direitos do homem” e “direitos essenciais 
do homem”. Já a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, por 
seu turno, estabelece as expressões: “direitos do homem”, “direitos 
fundamentais do homem” e “direitos e liberdades fundamentais do 
homem”. 
 
Embora essas expressões sejam comumente empregadas como sinônimas, 
para o seu estudo é importante diferenciar o alcance das expressões 
direitos humanos e direitos fundamentais, vejamos: 
 
Direitos humanos: deveria ser empregada para fazer referência àquelas 
posições jurídicas que se reconhecem ao ser humano como tal, 
independentemente de sua vinculação com determinada ordem 
constitucional, e que, portanto, aspiram à validade universal, para todos os 
povos e tempos, de tal sorte que revelam um inequívoco caráter 
supranacional. De fato, os direitos humanos exprimem certa consciência 
ética universal, e por isso estão acima do ordenamento jurídico de cada 
Estado, sendo a expressão “preferida” nos documentos internacionais. 
 
Direitos fundamentais: essa expressão deveria ser reservada para aqueles 
direitos do ser humano reconhecidos e positivados na esfera do direito 
constitucional positivo de determinado Estado. 
 
Visto isso, você pôde observar que a distinção não remete ao conteúdo 
desses direitos, mas sim em relação ao plano de alcance, resumindo: 
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Direitos Humanos: Direitos universalmente aceitos na ordem internacional, 
independentemente de vinculação com determinada ordem constitucional 
(tratados e demais normas de direitos humanos no âmbito internacional). 
 
Direitos Fundamentais: Conjunto de direitos positivados e vinculados a 
ordem interna de determinado Estado (país). 
 
Importante ressaltar que para parte da doutrina6 essa distinção está 
ultrapassada, em razão da maior penetração dos direitos humanos no 
plano nacional, com a incorporação doméstica dos tratados, inclusive, no 
caso brasileiro, com a possibilidade de serem equivalentes à Emenda 
Constitucional; e em razão da força vinculante dos direitos humanos, graças 
ao reconhecimento da jurisdição de órgãos como a Corte Interamericana 
de Direitos Humanos. 
 
1.3 Estrutura normativa dos direitos humanos: 
 
Quanto a estruturação normativa dos direitos humanos, antes de tudo é 
importante relembrar que o direito se expressa por meio de normas 
jurídicas e, estas ultimas, são compostas de regras e princípios. 
 
 
 
As regras disciplinam uma determinada situação; quando ocorre essa 
situação, a regra tem incidência; quando não ocorre, não tem incidência. 
Assim, as regras são enunciados jurídicos tradicionais, que preveem uma 
situação fática e, se essa ocorrer, haverá uma consequência jurídica. Para 
as regras vale a lógica do tudo ou nada, quando duas colidem, fala-se em 
 
6 RAMOS, André de Carvalho. Curso de Direitos Humanos. 6ª edição. São Paulo: Editora Saraivajur, 2019, 
p. 53. 
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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“conflito” e no caso concreto somente uma delas será aplicada. No direito 
brasileiro podemos citar como exemplo de regra o disposto no artigo 121 
do código penal (matar alguém) – se um indivíduo mata alguém 
responderá pelas penalidades do citado artigo. 
 
Já os princípios são as diretrizes gerais de um ordenamento jurídico (ou 
de parte dele), sua abrangência é muito mais ampla que a das regras. Entre 
os princípios pode existir “colisão” e não conflito. E quando colidirem, não 
se excluirão. Assim, os princípios, segundo ensinamentos de Robert Alexy, 
são denominados de “mandados de otimização”, uma vez que impõem que 
“algo se realize na maior medida possível, dentro das possibilidades 
jurídicas e reais existentes”. No direito brasileiro podemos citar como 
exemplo o princípio do devido processo legal, esculpido no artigo 5º, inciso 
LIV da Constituição Federal, pelo qual ninguém será privado da liberdade 
ou de seus bens sem o devido processo legal. Esse é um princípio, e não 
há aqui definição de quais situações específicas ele será considerado, 
devendo ele ser utilizado para balizar uma infinidade de situações. 
 
Bom, agora que você já relembrou o que são regras e princípios, no que 
tange aos direitos humanos você deve tem em mente que a estrutura 
normativa dos Direitos Humanos é formada principalmente por um 
conjunto de princípios, ou seja, possui maior incidência de princípios do 
que de regras, por isso a estrutura normativa dos direitos humanos é 
aberta. 
 
 
 
 
 
 
 
1.4 Os fundamentos dos direitos humanos: 
•estrutura normativa 
aberta
Direitos 
Humanos
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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Você sabe qual é o fundamento dos direitos humanos? Em relação a esse 
assunto temos três principais teorias que tentam justificá-lo, as quais são: 
Teoria jusnaturalista, Teoria positivista e Teoria moralista ou de Perelman. 
 
 Fundamento Jusnaturalista: 
 
A teoria jusnaturalista fundamenta os direitos humanos em uma ordem 
superior universal, imutável e inderrogável. Por essa linha de pensamento, 
os direitos humanos fundamentais não são criação dos legisladores, 
tribunais ou juristas, e, consequentemente, não podem desaparecer da 
consciência dos homens. 
 
Por isso, os direitos humanos são um conjunto de normas vinculantes 
anteriores e superiores ao sistema de normas fixadas pelo Estado (direito 
posto). 
 
Na história já é possível identificar a influência do jusnaturalismo na 
Antiguidade, em que se afirmava que as leis dos homens não podem 
sobrepor-se às leis eternas dos deuses. Na idade média, podemos citar São 
Tomás de Aquino, o qual impunha que a lei humana deve obedecer à lei 
natural, esta última, fruto da razão divina, mas perceptível aos homens. 
 
No plano internacional, Hugo Grócio (século XVI) sustentava a existência 
de um conjunto de normas ideais, decorrente da razão humana. 
 
Há também a corrente jusnaturalista contratualista, que foi sedimentada 
pelos iluministas, em especial Locke e Rousseau, onde a razão é fonte de 
direitos inerentes ao ser humano, confirmando a prevalência dos direitos 
dos indivíduos em face do Estado. 
 
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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Além disso, essa corrente jusnaturalista é visível nas primeiras declarações 
de direitos: na Inglaterra, o Habeas Corpus Act (1679) e o Bill of Rights 
(1689); nos Estados Unidos, a Declaração da Virgínia (1776); e na França, a 
Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão (1789). 
 
Em resumo, e segundo André de Carvalho Ramos o “traço marcante da 
corrente jusnaturalista (de origem religiosa ou contratualista) de direitos 
humanos é o seu cunho metafísico, pois se funda na existência de um 
direito preexistente ao direito produzido pelo homem, oriundo de Deus 
(escola de direito natural de razão divina) ou da natureza inerente do ser 
humano (escola de direito natural moderno)”.7 
 
Além disso, é importante você entender que para essa teoria há uma crítica, 
já que os direitos humanos decorrem da evolução histórica da sociedade. 
A história mostra que os direitos humanos são direitos conquistados, sendo 
possível a consagração de novos direitos humanos, decorrentes da 
evoluçãoda sociedade. 
 
Em que pese o reconhecimento da historicidade dos direitos humanos, a 
fundamentação jusnaturalista é visível até hoje no próprio Supremo 
Tribunal Federal, como em documentos internacionais de direitos 
humanos, a exemplo da Declaração de Viena de 1993 e da Declaração 
Universal dos Direitos Humanos de 1948. 
 
 Fundamento Positivista 
 
Já a teoria positivista, de forte influência ao longo dos séculos XIX e XX, 
fundamenta a existência dos direitos humanos fundamentais na ordem 
normativa, enquanto legítima manifestação da soberania popular. Desta 
 
7 RAMOS, André de Carvalho. Curso de Direitos Humanos. 6ª edição. São Paulo: Editora Saraivajur, 2019, 
p. 85. 
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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16 
forma, somente seriam direitos humanos aqueles expressamente previstos 
no ordenamento jurídico positivado (direito posto). 
 
Assim, os direitos humanos se justificam graças a sua validade formal e sua 
previsão no ordenamento jurídico positivado, e, para serem exigíveis é 
necessária a sua prescrição em normas internas. 
 
Para essa teoria há também uma crítica, pois, os direitos humanos não são 
somente aqueles positivados no ordenamento jurídico, e se o fossem a 
proteção dos direitos humanos estaria enfraquecida, já que a imperfeição 
das regras legais ou constitucionais de respeito aos direitos humanos 
revela a manutenção de injustiças ou a criação de novas. 
 
 Fundamento Moralista 
 
Também chamado de Teoria de Perelman, fundamenta a existência dos 
direitos humanos na própria experiência moral de um determinado povo, 
estando relacionados diretamente aos valores morais da coletividade 
humana (formação de uma consciência social sedimentada). Acredita-se 
então, que o fundamento dos direitos humanos se encontra na consciência 
moral do povo, configurando o denominado “espíritu razonable”.8 
 
Para essa corrente, os direitos humanos são direitos subjetivos originários 
de princípios, e independem da existência de regras prévias, por isso, a 
teoria moralista impõe que há um conteúdo ético na fundamentação dos 
direitos humanos, que são reconhecidos através da consciência moral de 
necessidade alheia. 
 
Por fim, é importante que você entenda que nenhuma das teorias acima 
resumidas consegue explicar a incomparável importância dos direitos 
humanos fundamentais. Fato é que essas teorias se complementam e 
 
8 REIS, Jair Teixeira. Direitos Humanos. 4ª edição. São Paulo: LTr, 2014, p. 56-57. 
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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coexistem, pois, é somente através da formação de uma consciência social 
(fundamento moralista), principalmente baseada em valores atinentes a 
uma ordem superior, universal e imutável (fundamento jusnaturalista) que 
o Estado encontra substrato político e social para o reconhecimento dos 
direitos fundamentais, para assim, positivá-los (fundamento positivista). 
 
Agora que você já identificou as três principais teorias que tentam 
fundamentar os direitos humanos, vamos para o esquema: 
Assim, chegamos ao final da Teoria Geral sobre os direitos humanos, na 
sequência estudaremos um pouquinho sobre as fases precursoras da 
proteção atual (evolução histórica) desses direitos essenciais. Vamos lá! 
 
2. A afirmação histórica dos direitos humanos: 
 
Lembra que falamos que uma das principais características dos direitos 
humanos é a historicidade?! Então você se recorda que os direitos humanos 
decorrem da evolução da sociedade, assim sendo, conforme se passam os 
anos novos direitos e melhoramentos vão sendo concebidos. 
 
Fundamentos dos 
Direitos Humanos
Jusnaturalista
ordem superior, 
universal, imutável 
e inderrogável
Positivista
expressamente 
previstos no 
ordenamento 
jurídico positivado
Moralista
formação da 
consciência social 
de determinado 
povo
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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Em razão disso não existe um ponto exato que delimita o nascimento da 
disciplina dos direitos humanos, mas o que podemos concluir é que o cerne 
dos direitos humanos é a luta contra a opressão e busca do bem-estar do 
indivíduo, assim, podemos observar que o conteúdo dos direitos humanos 
vem se edificando desde o surgimento das primeiras comunidades 
humanas. 
 
Nesse contexto, a proteção atual desses direitos essenciais nem sempre foi 
a mesma, são mais de 28 séculos rumo à afirmação universal dos direitos 
humanos, que tem como cume a Declaração Universal dos Direitos 
Humanos de 1948. 
 
Por isso, nesse tópico iremos estudar as fases precursoras da 
universalização dos direitos humanos (que ainda é uma obra inacabada), 
ou seja, vamos estudar sobre os principais acontecimentos e documentos 
históricos que culminaram no processo de afirmação histórica dos direitos 
humanos. 
 
Vale ressaltar que, essas diversas fases conviveram, em sua época 
respectiva, com institutos ou posicionamentos que hoje são repudiados, 
tais como a escravidão, a perseguição religiosa, a exclusão das minorias, a 
submissão da mulher, a discriminação contra as pessoas com deficiências, 
o absolutismo, e outras formas de organização do poder e da sociedade 
ofensivas ao entendimento atual da proteção dos direitos humanos. 
 
Mas, mesmo assim, o estudo do passado é indispensável para detectar 
regras que já existiam em sistemas jurídicos, e que já expressavam o 
respeito a valores relacionados a concepção atual dos direitos humanos. 
 
Então vamos lá! 
 
 Idade Antiga (4.000 a. C a 476 d. C): 
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Na Suméria antiga (século XVIII a. C), mesmo diante da ausência de 
discussão sobre a limitação do poder do Estado, foi editado o famoso 
Código de Hammurabi, no qual 282 leis foram talhadas em uma rocha em 
letras cuneiformes. Esse código previa dentre outras normas, o direito à 
vida, à propriedade, à honra (em casos de injúria e difamação). Além disso, 
o código ficou famoso, pois impunha a reciprocidade no trato de ofensas, 
em que o ofensor deveria receber a mesma ofensa proferida. 
 
Na Pérsia, por volta do século VI a. C., temos o famoso Cilindro de Ciro, 
que foi uma declaração do Rei Persa, Ciro II, “O Grande”, em que foi 
permitido que os povos exilados da Babilônia regressassem às suas terras 
de origem, sendo considerada a primeira declaração de direitos humanos. 
 
Já na antiguidade clássica, temos a herança grega na afirmação dos 
direitos humanos, a qual é expressiva no que tange a participação política 
dos cidadãos (direitos políticos). O Século de Péricles (século V a.C.) 
testou a democracia direta em Atenas, com participação dos cidadãos 
homens da pólis grega nas principais escolhas da comunidade. Porém, vale 
lembrar que a democracia ateniense tinha seus limites, pois só podiam 
participar da Assembleia os cidadãos (homens livres, nascidos em Atenas e 
com mais de 18 anos), já as mulheres, os estrangeiros e os escravos não 
tinham direito a participação política. 
 
Sobre a “herança dos gregos” podemos citar também Platão que em sua 
obra “A República” (400 a. C.) defendeu a igualdade e a noção do bem 
comum, buscando definir o conceito de Justiça. E Aristóteles, na obra 
“Ética a Nicômaco” (367 a. C), na qual a felicidade é a finalidade última 
do ser humano, salientando a importância do agir com justiça, para o bem 
de todos da pólis, mesmo em face de leis injustas. 
 
Ainda na idade antiga, o direito romano teve sua contribuição para o 
processo de afirmação histórica dos direitos humanos, em que podemos 
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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citar a famigerada Lei das Doze Tábuas (462 a. C.), a qual versava sobre 
organização e procedimento judicial, normas para os inadimplentes, poder 
pátrio, sucessão e tutela, propriedade, servidões, delitos, direito público e 
direito sagrado, além dealguns assuntos complementares. Estabeleceu 
como regente das condutas a lei escrita (sedimentação do princípio da 
legalidade), consagrando vários direitos, entre eles o direito à liberdade e 
à personalidade jurídica. 
 
Sobre a contribuição dos romanos podemos citar também Marco Túlio 
Cícero, em sua obra “A república” (51 a. C.), na qual retoma a defesa da 
razão reta, salientando que a verdadeira lei é a lei da razão, inviolável 
mesmo em face da vontade do poder. Além de obra “De legibus” – Sobre 
as Leis (52 a. C), onde sustentou que, apesar das diferenças (raças, religiões 
e opiniões), os homens podem permanecer unidos caso adotem o “viver 
reto”, que evitaria causar o mal a outros. 
 
No plano da afirmação histórica dos direitos humanos a religião também 
contribuiu para esse processo, defendendo a igualdade espiritual. Em que 
pese ser notória a influência do Antigo e do Novo Testamento, bem como 
do Cristianismo, importante lembrar que eles conviveram no passado, com 
severas violações de direitos humanos, como a escravidão e a servidão. 
 
O Antigo Testamento (1000-1500 a. C.) preconiza a solidariedade e 
preocupação com o bem-estar de todos, anunciando também sobre a 
necessidade de respeito a todos, em especial aos vulneráveis (mulheres 
viúvas e órfãos). Já no Novo Testamento (Cristianismo) existem vários 
trechos da bíblia que pregam a igualdade e solidariedade com o 
semelhante. 
 
No âmbito da filosofia, Santo Agostino de Hipona (364 a 430 d. C.), 
maior representante da escola Patrística, centrou no homem e na questão 
de seu destino pessoal a sua grande preocupação, revelando-se a grande 
importância da valorização da dignidade humana. 
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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Em resumo, sobre a Idade Antiga e a afirmação histórica dos direitos 
humanos, vamos para o esquema: 
 
 
 Idade Média (476 d. C a 1.453): 
 
Na Idade Média Europeia, o poder dos governantes era ilimitado, ante a 
sua fundamentação na vontade divina, entretanto por volta do Século XI, 
surgem os primeiros movimentos de reivindicação de liberdades, em que 
podemos citar a Declaração das Cortes de Leão (1.188), a qual consistiu 
em uma manifestação que consagrou a luta dos senhores feudais contra a 
centralização e o nascimento futuro do Estado Nacional. 
 
Na área da filosofia, São Tomás de Aquino, em sua obra “Suma 
Teológica” (1.273) defendeu a igualdade dos seres humanos e a aplicação 
justa da lei. Para ele aquilo que é justo é aquilo que corresponde a cada ser 
humano na ordem social (justiça social). Assim, durante a Idade Média, 
atuou como defensor dos Direitos Humanos combatendo a discriminação 
(preconceito) e a violência, representando a Filosofia Escolástica. 
 
Idade Antiga
Suméria e 
Pérsia Antiga
Código de Hammurabi e
Cilindro de Ciro
Grécia Antiga "Século de Péricles", Platão e Aristóteles
Roma Antiga Lei das Doze Tábuas 
e Marco Tulio Cícero 
Religião
Antigo Testamento, Novo 
Testamento e Santo Agostinho de 
Hipona
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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Na sequência, como resultado dos movimentos reivindicatórios de 
liberdades, podemos citar a famosa Magna Carta (1215) na Inglaterra, a 
qual continha um catálogo de direitos dos indivíduos contra o Estado 
(mesmo que com caráter elitista). Trouxe a ideia de governo representativo, 
bem como os direitos de ir e vir em situação de paz; direito de ser julgado 
pelos seus pares (devido processo legal); acesso à justiça; e 
proporcionalidade entre crime e pena. Ressalta-se que a Magna Carta 
deixou implícito pela primeira vez na história política medieval que o rei se 
achava vinculado pelas próprias leis que editava. 
 
Em resumo, sobre a Idade Média e a afirmação histórica dos direitos 
humanos, vamos para o esquema: 
 
 Idade Moderna (1.453 a 1.789): 
 
No período compreendido entre os anos de 1.628 a 1.789, que permeiam 
a Idade Moderna, ocorreram as chamadas “revoluções liberais” - inglesa, 
americana e francesa. As respectivas Declarações de Direitos dessas 
revoluções marcaram a primeira clara afirmação histórica dos direitos 
humanos. 
 
a) Revolução Inglesa: 
 
A chamada “Revolução Inglesa” foi a mais precoce das revoluções liberais, 
pois tem como marco a Petition Of Right (1.628) e o Bill of Rights (1.689) 
que, sobretudo, consagraram a supremacia do Parlamento (em relação ao 
Idade Média
Documentos Declaração de Cortes de Leão e Magna Carta
Filosofia/Religião São Tomás de Aquino
Direitos Humanos | Janaina Silva 
focusconcuros.com.br 
23 
rei) e o império da lei (legalidade, o monarca estava subordinado às leis 
que editava). 
 
Nesse contexto, a Petition of Right (1.628), a qual representou uma 
Declaração de Liberdades Civis, foi marco no desenvolvimento dos direitos 
humanos, e objetivou limitar a arbitrariedade e os abusos do Rei, 
estabelecendo o dever do Rei de não cobrar impostos sem a autorização 
do Parlamento, bem como reafirmou que “nenhum homem livre podia ser 
detido ou preso ou privado dos seus bens, das suas liberdades e franquias, 
ou posto fora da lei e exilado ou de qualquer modo molestado, a não ser 
em virtude de sentença legal dos seus pares ou da lei do país (devido 
processo legal). 
 
Continuando, temos ainda a Lei do Habeas Corpus (Habeas Corpus Act 
1.679) que surgiu na Inglaterra e estabelecia que, por meio de reclamação 
ou requerimento escrito de algum indivíduo ou a favor de algum indivíduo 
detido ou acusado da prática de um crime, o lorde chanceler ou, em tempo 
de férias, algum juiz dos tribunais superiores poderia conceder o Habeas 
Corpus. No seu texto, havia ainda a previsão do dever de entrega do 
“mandado de captura” ao preso ou seu representante, representando mais 
um passo para banir as detenções arbitrárias (garantia processual penal). 
 
Comentando sobre a Lei do Habeas Corpus, Fábio Konder Comparato9 traz 
que a importância histórica do habeas corpus, consistiu no fato de que essa 
garantia judicial, criada para proteger a liberdade de locomoção, tornou-
se a matriz de todas as que vieram a ser criadas posteriormente, para a 
proteção de outras liberdades fundamentais. 
 
Por fim, após a chamada “Revolução Gloriosa”, a Declaração Inglesa de 
Direitos “Bill of Rights” (1689) reduziu de forma significativa o poder 
absoluto dos reis ingleses, constando nela, basicamente, a afirmação da 
vontade da lei sobre a vontade absolutista do rei (princípio da legalidade 
 
9 COMPARATO, Fábio Konder. A afirmação histórica dos direitos humanos. 12ª Edição. São Paulo: 
Editora Saraivajur, 2019,p.99. 
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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em sentido amplo). Esse documento também garantia a liberdade pessoal, 
a propriedade privada, a segurança pessoal, o direito de petição, a 
proibição de penas cruéis, e etc. Estabelecendo assim uma nova forma de 
organização do Estado, cuja função precípua é a proteção dos direitos da 
pessoa humana. 
 
b) Revolução Americana: 
 
Por sua vez, a “Revolução Americana” retratou o processo de 
independência das colônias britânicas da América do Norte (1776), e a 
criação da primeira Constituição do mundo, a Constituição norte-
americana de 1787, que foi emendada em 1.791. 
 
Em 1.776 foi editada a Declaração de Independência dos Estados Unidos 
(escrita em grande parte por Thomas Jefferson) que marcou o direito 
político de autodeterminação dos seres humanos, que são governados a 
partir de sua livre escolha. Essa Declaração estipulou, já no seu início, que 
“todos os homens são criados iguais, sendo-lhes conferidos pelo seu 
criador certos Direitos inalienáveis, entre os quais se contam a Vida, a 
Liberdade e a busca pela Felicidade, e que, para garantir estes Direitos, são 
instituídos Governos entre os Homens, derivando os seus justos poderes 
do consentimento dos governados. 
 
Na sequência foi criada a primeira Constituição do mundo, a Constituiçãonorte-americana de 1787, a qual não possuía um rol de direitos, e que 
somente passou a ter em 1791, quando foram aprovadas 10 emendas que 
introduziram um rol de direitos na Constituição norte-americana, dentro 
do qual estão os direitos à liberdade de religião, expressão, reunião e 
petição; direito de propriedade; proibição da escravidão, inviolabilidade de 
domicílio; garantias processuais, direitos políticos, entre outros. 
 
c) Revolução Francesa: 
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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O Estado francês antes da Revolução Francesa era ineficiente e incapaz de 
organizar a economia a fim de atender as necessidades de uma população 
cada vez maior. Essa situação, somada a crescente insatisfação popular 
culminou na autoproclamação de uma “Assembleia Nacional Constituinte”, 
em junho de 1789. 
 
Já em 12 de junho de 1789, iniciaram-se os motins populares em Paris que 
resultaram, em 14 de julho de 1789, na tomada da Bastilha, cuja queda é, 
até hoje, o símbolo maior da Revolução Francesa. 
 
Na sequência, em 27 de agosto de 1789, a Assembleia Nacional 
Constituinte adotou a “Declaração Francesa dos Direitos do Homem e 
do Cidadão”, que consagrou a igualdade e liberdade como direitos inatos 
a todos os indivíduos. O impacto na época foi imenso, pois aboliram-se os 
privilégios, direitos feudais e imunidades de várias castas, em especial da 
aristocracia de terras. Essa declaração foi inspirada nos pensamentos 
iluministas, bem como na própria Revolução Americana (1776), sendo 
muito importante, pois definiu os direitos individuais e coletivos dos 
homens como universais – é a primeira com vocação universal. 
 
Essa Declaração, símbolo da Revolução Francesa, proclamou os direitos 
humanos impondo que todos os homens nascem livres e com direitos 
iguais (influência jusnaturalista). É composta por 17 artigos, que acabaram 
sendo adotados como preâmbulo da Constituição Francesa de 1791 e que 
condensavam várias ideias, como, por exemplo: soberania popular; sistema 
de governo representativo; igualdade de todos perante a Lei; presunção de 
inocência; direito à propriedade; à segurança; liberdade de consciência, de 
opinião e pensamento; bem como o dever do Estado Constitucional de 
garantir os direitos humanos. 
 
Em resumo, sobre a Idade Moderna e a afirmação histórica dos direitos 
humanos, vamos para o esquema: 
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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 Idade Contemporânea (1.789 até os dias atuais): 
 
a) Socialismo e constitucionalismo social: 
 
Já no final do século XVIII, os jacobinos franceses (representantes da 
burguesia) defendiam a ampliação do rol de direitos da Declaração 
Francesa para abarcar também os direitos sociais (direitos de segunda 
dimensão), como o direito à educação e assistência social. 
 
Mesmo depois das revoluções liberais da idade moderna a miséria persistiu 
entre as camadas populares, e por isso foi percebida a necessidade da 
implementação dos direitos sociais aptos a garantir condições materiais 
mínimas de sobrevivência, surgindo assim os movimentos socialistas na 
Europa do século XIX. 
 
Entre os documentos que corroboraram para a afirmação dos direitos 
sociais, está a obra de Karl Marx, “A questão judaica” de 1843, que 
questionou os fundamentos liberais da Declaração Francesa de 1789, 
defendendo que o homem não é um ser abstrato, isolado das engrenagens 
sociais. Para Marx, os direitos humanos até então defendidos eram focados 
no indivíduo voltado para si mesmo, para atender seu interesse particular 
egoístico dissociado da comunidade. Assim, não seria possível defender 
Idade Moderna Revoluções Liberais
Americana "Petition of Right", "Habeas Corpus Act" e "Bill of Rights"
Inglesa
Declaração de 
Independência dos Estados 
Unidos e Constituição norte-
americana de 1787
Francesa
Declaração Francesa dos 
Direitos do Homem e do 
Cidadão
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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direitos individuais em uma realidade na qual os trabalhadores eram 
fortemente explorados. 
 
Nessa linha também é possível citar o Manifesto do Partido Comunista, 
em 1848, de Marx e Engels, no qual são defendidas novas formas de 
organização social, de modo a atingir o comunismo, forma de organização 
social na qual seria dado a cada um segundo a sua necessidade e exigido 
de cada um segundo a sua possibilidade. 
 
No plano político, houve várias revoluções malsucedidas, até o êxito da 
Revolução Russa em 1917, que, pelo seu impacto (foi realizada no maior 
país do mundo), estimulou novos avanços na defesa da igualdade e justiça 
social. 
 
No plano do constitucionalismo, houve a introdução dos chamados 
direitos sociais – que pretendiam assegurar condições materiais mínimas 
de existência – em diversas constituições, tendo sido pioneiras a 
Constituição do México (1917) – passou a garantir direitos individuais 
com fortes tendências sociais, a exemplo dos direitos trabalhistas – a 
Constituição de Weimar (1919) da Alemanha – previa direitos 
relacionados à vida social, religião e econômica - e, no Brasil, a 
Constituição de 1934 – previa diversos direitos sociais, a exemplo dos 
direitos trabalhistas. 
 
E, no plano internacional, ao término da Segunda Guerra Mundial (1919), 
foi criada a Organização Internacional do Trabalho (OIT), voltada à melhoria 
das condições dos trabalhadores, constituindo um dos precedentes 
históricos do processo de internacionalização dos direitos humanos. 
 
b) O início da internacionalização dos direitos humanos: 
 
 
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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Até a criação da OIT, em meados do século XX, poucos foram os diplomas 
de âmbito internacional que proclamaram direitos humanos, pois, até 
então, a proteção desses direitos essenciais permeavam os planos 
domésticos dos Estados (países). 
 
Contudo, a partir da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) inicia-se uma 
nova organização da sociedade internacional, face às barbáries decorrentes 
das grandes guerras. 
 
Nesse contexto começa-se o processo de internacionalização dos direitos 
humanos, que tem marco, a criação da Organização das Nações Unidas, 
por intermédio da Carta de São Francisco (Carta da ONU), no ano de 1945. 
 
A partir de então foi editada a Declaração Universal dos Direitos Humanos 
(1948) e diversos tratados internacionais de direitos humanos, tendo como 
consequência a criação de uma estrutura global de proteção dos direitos 
humanos. 
 
Em resumo, sobre a Idade Contemporânea e a afirmação histórica dos 
direitos humanos, vamos para o esquema: 
 
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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 Para finalizar este tópico sobre a afirmação histórica dos direitos 
humanos, é de suma importância que você tenha observado que, ao longo 
da história, a contribuição de todos os eventos e documentos que 
ensejaram a atual proteção dos direitos humanos ocorreu por meio de 
quatro premissas, são elas: 
 
indícios de respeito à dignidade humana e igualdade entre os seres 
humanos; 
indícios de reconhecimento de direitos fundados na própria existência 
humana; 
reconhecimento da superioridade normativa mesmo em face do Poder do 
Estado; 
e reconhecimento de direitos voltados ao mínimo existencial. 
 
3. Direitos humanos e responsabilidade do Estado 
 
Conceito: 
 
Idade 
Contemporânea
Socialismo Karl Marx e Engels
Política Revolução Russa
Documentos
Constuição Mexicana 
(1.917); Alemã (1.919) 
e Brasileira (1.934)
Plano 
Internacional
OIT, Carta da ONU e 
DUDH
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A responsabilidade do Estado é a imputação a este último de efeitos do 
ordenamento jurídico, quando sucede determinado acontecimento (ilícito). 
Assim a responsabilidade do Estado na seara dos Direitos Humanos surge 
quando da omissão ou ação do Estado em relação a atos atentatórios a 
esses direitos, acarretando ao ente violador o dever de repararos prejuízos 
decorrentes de sua conduta. 
 
A responsabilidade do Estado em face de violação de uma norma de 
direitos humanos é objetiva, ou seja, responde independentemente de 
culpa, bastando apenas a comprovação do nexo causal entre a conduta e 
o dano. 
 
3.2 Proteção dos Direitos Humanos: 
 
 
3.3 Responsabilidade internacional do Estado: 
 
O Brasil, ao ratificar tratados internacionais de direitos humanos, dada a 
teoria geral da responsabilidade internacional do Estado, tem a obrigação 
internacional de respeitar e garantir direitos humanos devendo zelar que 
os atos do poder executivo, as decisões do poder judiciário e as normas 
constitucionais legais sejam compatíveis com os direitos elencados nesses 
tratados. 
 
Proteção dos 
Direitos Humanos
âmbito doméstico
Constituição Federal
demais Leis brasileiras
âmbito 
internacional
Sistema Global (ONU)
Sistema Interamericano (OEA)
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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Quando ocorre uma violação de direitos humanos impõe-se 
primeiramente a responsabilidade interna do Estado (primária), entretanto 
quando há omissão ou demora na solução do litígio o Estado pode ser 
responsabilizado internacionalmente. Por isso a responsabilização 
internacional do Estado é subsidiária, ou seja, só caberá quando o Estado 
falhou internamente. 
 
Para que um Estado seja responsabilizado internacionalmente faz-se 
necessária a existência de um comportamento em violação de um dever 
internacional, sempre imputável a um ou mais Estados, denominado ilícito 
internacional (ação ou omissão); um dano físico ou moral; e a omissão ou 
demora interna na solução do litígio. 
 
3.3.1 Finalidades da Responsabilização: 
 
a) Preventiva (coagir os Estados a observar as obrigações assumidas); 
 
b) Repreensão (busca reparar atos ilícitos praticados pelos Estados); 
 
c) Limitativa (busca impor limites à atuação violadora de direitos humanos 
por parte dos Estados). 
 
3.3.2 Sujeitos: 
 
a) Estado (sujeito ativo); 
 
b) Pessoas ou comunidades atingidas pela violação (sujeito passivo). 
 
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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Atente-se que a responsabilidade sempre é do Estado-União, não 
importando o ente federativo que deu ensejo a violação. 
 
3.3.3 Consequências: 
 
Na proteção aos direitos humanos busca-se a responsabilização 
internacional do Estado a fim de reparar o dano sofrido pelo indivíduo. A 
consequência maior dessa responsabilização é a reparação, ou seja, toda e 
qualquer conduta do Estado infrator para eliminar as consequências do 
fato internacionalmente lícito, o que compreende uma série de atos, dentre 
eles: 
 
a) Indenização; 
 
b) Pedido de desculpas; 
 
c) Admissão da responsabilidade internacional do Estado; 
 
d) Garantia de não repetição; 
 
e) Mudanças legislativas; 
 
3.4 A Competência da Justiça Federal nas hipóteses de grave violação 
de direitos humanos: 
 
 
Incidente de Deslocamento de Competência (IDC) 
 
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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A famosa Emenda Constitucional nº 45/2004 também introduziu um novo 
§5º no artigo 109 da Constituição Federal, vejamos: 
 
Art. 109, § 5º - Nas hipóteses de grave violação de direitos humanos, o 
Procurador-Geral da República, com a finalidade de assegurar o 
cumprimento de obrigações decorrentes de tratados internacionais de 
direitos humanos dos quais o Brasil seja parte, poderá suscitar, perante o 
Superior Tribunal de Justiça, em qualquer fase do inquérito ou processo, 
incidente de deslocamento de competência para a Justiça Federal. 
 
A partir disso, para assegurar o cumprimento das obrigações decorrentes 
de tratados internacionais de direitos humanos no Brasil, ficou constituído 
o IDC (Incidente de Deslocamento de Competência), com seis elementos 
principais, a saber: 
 
1) legitimidade exclusiva de propositura do Procurador-Geral da República; 
 
2) competência privativa do Superior Tribunal de Justiça, para conhecer e 
decidir, com recurso ao STF (recurso extraordinário); 
 
3) abrangência cível ou criminal dos feitos deslocados, bem como de 
qualquer espécie de direitos humanos (abarcando todas as gerações de 
direitos) desde que se refiram a casos de “graves violações” de tais direitos. 
 
4) permite o deslocamento na fase pré-processual (inquérito policial ou 
inquérito civil público) ou já na fase processual. 
 
5) relaciona-se ao cumprimento de obrigações decorrentes de tratados de 
direitos humanos celebrados pelo Brasil. 
 
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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6) fixa a competência da Justiça Federal e do Ministério Público Federal 
para atuar no feito deslocado. 
 
O IDC decorre da internacionalização dos direitos humanos e, em especial, 
do dever internacional assumido pelo Estado brasileiro de estabelecer 
recursos internos eficazes e de duração razoável. Além disso, o 
deslocamento da competência deverá ser deferido quando: 
 
i) ocorrer grave violação aos direitos humanos; 
 
ii) estiver evidenciada uma conduta das autoridades estaduais reveladora 
de falha proposital ou por negligência, imperícia, imprudência na condução 
de seus atos, que vulnerem o direito a ser protegido, ou ainda que revele 
demora injustificada na investigação ou prestação jurisdicional; 
 
iii) existir o risco de responsabilização internacional do Brasil, por 
descumprimento de suas obrigações internacionais de direitos humanos. 
 
Atente-se, não basta que ocorra uma “grave violação de direitos humanos”, 
é necessário que a conduta da autoridade estadual revele comportamento 
reprovável que coloque em risco as obrigações internacionais de direitos 
humanos assumidas pelo Brasil. 
 
Além disso, o deferimento do deslocamento do feito para a Justiça Federal 
será definido de acordo com as demais peculiaridades do caso, 
observando-se todas as demais regras constitucionais e legais de 
competência, por exemplo, em caso de crime doloso contra a vida, a 
competência do Tribunal do Júri Estadual será deslocada para o Tribunal 
do Júri Federal. 
 
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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Sobre o IDC, vamos ao esquema: 
 
 
 
4. Direitos Humanos na Constituição Federal: 
 
Agora vamos estudar sobre a Carta de 1988 e suas principais implicações 
na esfera dos direitos humanos. Primeiramente é bom que você saiba que 
a CF/88 demarca, no âmbito jurídico, o processo de democratização do 
Estado brasileiro, já que consolidou a ruptura com o regime autoritário 
militar, instalado em 1964, fato este que ensejou considerável impacto na 
esfera dos direitos fundamentais. A Carta Magna de 1988 coloca-se entre 
as Constituições mais avançadas do mundo no que diz respeito ao campo 
dos direitos e garantias fundamentais. 
 
Ela introduziu avanço na consolidação legislativa das garantias e direitos 
fundamentais e na proteção de setores vulneráveis da sociedade brasileira. 
A partir dela, os direitos humanos ganham relevo extraordinário. 
 
Ela é uma constituição cidadã, pois teve ampla participação popular em sua 
elaboração e especialmente porque se volta decididamente para a plena 
realização da cidadania. E na esfera dos direitos humanos, a CF/88 
IDC
quem propõe é o PGR
quem decide é o STJ
em casos de grave violação 
de direitos humanos
se deferido, o feito é 
deslocado para a JF
evita 
responsabilização 
internacional do 
Brasil
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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possibilitou um progresso significativo no reconhecimento de obrigações 
internacionais no âmbito dos direitos humanos. 
 
Fundamentos e objetivos da República Federativa do Brasil: 
 
O artigo 1º da Constituição Federal estabelece os fundamentos da 
República Federativa do Brasil, nos seguintes termos: 
 
Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos 
Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado 
Democrático de Direito etem como fundamentos: 
 
I - a soberania; 
II - a cidadania 
III - a dignidade da pessoa humana; 
IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; 
V - o pluralismo político. 
 
Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de 
representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição. 
 
Somente pela leitura do artigo 1º da CF/88 você já pode concluir que os 
fundamentos da República convergem para a proteção dos direitos 
humanos, que são indispensáveis para o Estado Democrático de Direito 
brasileiro. 
 
A soberania, a cidadania, os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa 
e o pluralismo político fundamentam a República, e são importantíssimos 
na proteção e implementação dos direitos humanos. 
Direitos Humanos | Janaina Silva 
focusconcuros.com.br 37 
 
Em que pese esses fundamentos, para o nosso estudo o mais importante é 
o fundamento da dignidade da pessoa humana. Você deve lembrar que o 
núcleo fundamental dos direitos humanos é a própria dignidade humana, 
a qual é qualidade intrínseca e distintiva de cada ser humano, que o 
protege contra todo tratamento degradante e discriminação odiosa, bem 
como assegura condições materiais mínimas de sobrevivência. Trata-se de 
atributo que todo indivíduo possui, e indispensável para uma vida digna, 
pautada na liberdade e na igualdade. 
 
Assim, pode-se concluir que a pessoa é fundamento da República 
Federativa do Brasil, impondo-se o valor da dignidade da pessoa humana 
como núcleo básico e informador de todo o ordenamento jurídico, como 
critério e parâmetro de valoração para orientar a interpretação e 
compreensão do sistema constitucional. 
 
Assim, seja no âmbito internacional, seja no âmbito interno, a dignidade da 
pessoa humana é princípio que unifica e centraliza todo o sistema 
normativo, assumindo especial prioridade. 
 
Então, lembre-se que além de outros, a dignidade da pessoa humana é 
fundamento da República. Vamos ao esquema: 
 
Fundamentos da 
República
soberania
cidadania
dignidade da pessoa humana
valores sociais do trabalho e 
da livre iniciativa
pluralismo político
convergem para 
a proteção dos 
direitos 
humanos
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Em relação aos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil, 
o artigo 3º da CF/88 dispõe: 
 
Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: 
 
I - construir uma sociedade livre, justa e solidária; 
 
II - garantir o desenvolvimento nacional; 
 
III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais 
e regionais; 
 
IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, 
idade e quaisquer outras formas de discriminação. 
 
Nessa linha, verifica-se também que os objetivos fundamentais da 
República Federativa do Brasil se relacionam com a proteção de direitos 
humanos, pois são finalidades da República a construção de uma 
sociedade livre, justa e solidária; o desenvolvimento nacional; a erradicação 
da pobreza e a marginalização e redução das desigualdades sociais e 
regionais; e ainda a promoção do promover o bem de todos, sem 
preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas 
de discriminação. 
 
Esses objetivos valem como base para as prestações positivas que venham 
a concretizar a democracia econômica, social e cultural, a fim de efetivar na 
prática a dignidade da pessoa humana. Por isso, é dever do Estado 
brasileiro guiar suas condutas com base nesses objetivos para o fim de 
obter uma sociedade livre, justa e solidária, atacando a pobreza e 
desigualdades. 
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39 
 
 
 
 Princípio da prevalência dos direitos humanos nas relações 
internacionais: 
 
A Constituição Federal de 1988 estabeleceu em seu artigo 4º, inciso II, que 
a República Federativa do Brasil deve reger as suas relações internacionais 
com base no “princípio da prevalência dos direitos humanos”. 
 
A Carta de 1988 foi a primeira das Constituições brasileiras a elenca-lo 
como princípio fundamental a reger o Estado nas relações internacionais. 
Nesse sentido, explica a professora Flávia Piovesan10 que “a prevalência dos 
direitos humanos, como princípio a reger o Brasil no âmbito internacional, 
não implica apenas o engajamento do País no processo de elaboração de 
normas vinculadas ao Direito Internacional dos Direitos Humanos, mas sim 
a busca da plena integração de tais regras na ordem jurídica interna 
brasileira. Implica, ademais, o compromisso de adotar uma posição política 
contrária aos Estados em que os direitos humanos sejam gravemente 
desrespeitados”. 
 
10 PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos e o direito constitucional internacional. 18ª edição. São Paulo: 
Editora Saraivajur, 2018, p. 118. 
Objetivos da 
República
construir uma sociedade livre, 
justa e solidária
garantir o desenvolvimento 
nacional
erradicar a pobreza e a 
marginalização e reduzir as 
desigualdades sociais e regionais
promover o bem de todos, sem 
preconceitos
convergem para a 
proteção dos 
direitos humanos
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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Além disso, com o respaldo da prevalência dos direitos humanos nas suas 
relações internacionais, o Brasil reconhece a existência de limites e 
condicionamentos à sua soberania estatal. Assim, a soberania do Estado 
brasileiro está submetida a regras jurídicas, tendo como parâmetro 
obrigatório a prevalência dos direitos humanos. Em resumo, rompe-se com 
a concepção tradicional de soberania estatal absoluta, reforçando a sua 
flexibilização em prol da proteção dos direitos humanos. 
 
Importante mencionar também que o Ato das Disposições Constitucionais 
Transitórias (ADCT) em seu artigo 7º estabelece o dever do Brasil de 
propugnar pela formação de um tribunal internacional dos direitos 
humanos, reforçando ainda mais esse perfil favorável da CF/88 aos direitos 
humanos. 
 
Em resumo, o princípio da prevalência dos direitos humanos instituído pela 
CF/88 passou a situar o homem como destinatário do direito internacional. 
Mas não se esqueça, existem mais princípios que regem as relações 
internacionais do Brasil, sendo eles: 
 
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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Abertura da Constituição aos Direitos Humanos: 
 
No que tange aos Direitos Humanos, a Constituição de 1988, trouxe 
robusto rol desses direitos em seu texto. Essas normas são obrigatórias e 
superiores as demais, independentemente do grau de abstração que 
possuam, já que são direitos essenciais para todos os indivíduos. Ademais, 
a constituição elenca, como fundamento da República, a dignidade 
humana (art. 1º, III). 
 
Os direitos humanos encontram-se espaçados pela Constituição, e os 
princípios fundamentais (artigos. 1º ao 4º) revelam a grande preocupação 
do legislador constituinte em adequar o texto constitucional brasileiro à 
realidade internacional dos Direitos Humanos. 
 
Além disso, a enumeração de direitos e garantias dispostas na CF/88 não é 
exaustiva, uma vez que o seu artigo 5º, §2º, ela prevê o princípio da não 
Princípios que regem as 
relações internacionais 
do Brasil
independência nacional
prevalência dos direitos humanos
autodeterminação dos povos
não intervenção
igualdade entre Estados
defesa da paz
solução pacífica dos conflitos
repúdio ao terrorismo e ao racismo
cooperação entre povos para o progresso 
da humanidade
concessão de asilo político
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exaustividade dos direitos fundamentais, também denominado abertura 
da Constituição aos direitos humanos, dispondo que os direitos nela 
previstos não excluem outros decorrentes do regime, princípios da 
constituição e em tratados celebrados pelo Brasil. Em resumo, podemos 
dizer que os direitos humanos não se esgotamnaqueles previstos no texto 
constitucional, devendo ser aplicados e protegidos aqueles também 
elencados em tratados internacionais ratificados pelo Brasil. 
 
Classificação dos direitos humanos adotada pela Constituição Federal 
de 1988: 
 
A Constituição de 1988 dividiu os direitos fundamentais, com base no seu 
Título II, denominado “Dos Direitos e Garantias Fundamentais”, em cinco 
categorias, quais sejam: a) direitos e deveres individuais e coletivos (art.5º); 
b) direitos sociais (art. 6º ao 11); c) direitos de nacionalidade (art. 12 e 13); 
d) direitos políticos (art. 14 ao 16); e e) partidos políticos (art. 17). 
 
Lembrando que essa enumeração não é exaustiva, pois o artigo 5º, §2º da 
Constituição Federal prevê o princípio da não exaustividade dos direitos 
fundamentais, dispondo que os direitos previstos não excluem outros 
decorrentes do regime e princípios da Constituição, além dos que estão 
mencionados no restante do texto da Constituição e em tratados de 
direitos humanos celebrados pelo Brasil. 
 
Importante frisar que o texto da CF/88 inova ao alargar a dimensão dos 
direitos e garantias, incluindo no catálogo de direitos e garantias 
fundamentais não apenas os direitos civis e políticos, mas também os 
sociais. É nessa linha que analisando o texto constitucional podemos 
verificar que a Constituição acolhe a indivisibilidade e interdependência 
dos direitos humanos, já que não há direitos fundamentais sem que os 
direitos sociais sejam respeitados. Por isso, o valor da liberdade se conjuga 
com o valor da igualdade, não havendo como divorciar os direitos de 
liberdade dos direitos de igualdade. 
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Bom, quanto aos direitos humanos na Constituição Federal de 1988, vamos 
ao resumo: 
 
 
 
5. Política Nacional de Direitos Humanos: 
 
Atualmente, os direitos humanos ainda não se concretizaram para todos os 
brasileiros, já que muitos não possuem direitos básicos, como acesso à 
educação fundamental, saúde de qualidade, moradia, segurança, entre 
outros. Por isso, podemos dizer que no Brasil a desigualdade social impera 
de forma impactante no cotidiano de muitos brasileiros, o que pode ser 
observado pela má classificação do Brasil em um dos indicadores mais 
respeitados sobre a existência de uma vida digna, que é o Índice de 
Desenvolvimento Humano (IDH). 
 
O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é uma unidade de medida 
utilizada para aferir o grau de desenvolvimento de uma determinada 
sociedade nos quesitos de educação, saúde e renda. Nesse sentido, o IDH 
é uma referência numérica que varia entre 0 e 1. Quanto mais próximo de 
Classificação dos 
direitos humanos na 
CF/88
direitos e deveres 
individuais e coletivos 
(art. 5º)
os direitos individuais 
são de aplicação 
imediata (art. 5º, §1º) e 
clásulas pétreas (art. 
60, §4º, IV)
direitos sociais (art. 6º a 
11)
direitos de nacionalidade 
(art. 12 e 13)
direitos políticos (art. 14 e 
16)
partidos políticos (art.17)
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zero, menor é o indicador para os quesitos de saúde, educação e renda. 
Quanto mais próximo de 1, melhores são as condições para esses quesitos. 
O indicador educação refere-se à quantidade média de anos de estudo de 
uma população. Na variável saúde, avalia-se basicamente a taxa de 
expectativa de vida dos cidadãos de cada país participante. E, por fim no 
quesito renda, mede-se o valor médio do rendimento dos cidadãos. 
 
O Brasil, em 2019/2020, ficou em 79º lugar (de 189 países), com índice de 
0.761, o que contrasta com o quilate econômico geral do País (uma das 10 
maiores economias do mundo). 
 
Nessa linha, diante da desigualdade social que assola o Brasil desde os 
primórdios, há a necessidade de uma política pública de direitos humanos 
ativa, para que todos os brasileiros possam ter acesso aos seus direitos 
essenciais, e para que, ao menos, consigamos equiparar o desenvolvimento 
econômico do Brasil com qualidade de vida para todos os seus habitantes. 
 
Fato é que quando existe uma política ativa na promoção dos direitos 
humanos há o aumento dos índices de desenvolvimento humano. Para que 
isso ocorra, ou seja, para a concretização de uma política pública de 
promoção dos direitos humanos o primeiro passo é a elaboração de 
programas nacionais de direitos humanos. Essa orientação consta da 
Declaração e Programa de Ação da Conferência Mundial de Direitos 
Humanos de Viena (1993), organizada pelas Nações Unidas que 
recomendou aos Países que fizessem um plano de ação nacional para 
promover e proteger os direitos humanos. 
 
Seguindo a orientação da Conferência Mundial, o Brasil adotou, até hoje, 
três programas de direitos humanos, os quais datam de 1996, 2002 e 2009. 
Atualmente, está vigente o III Programa Nacional de Direitos Humanos 
(PNDH-3), aprovado pelo Decreto nº 7.037, de 2009. 
 
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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Em resumo, os Programas Nacionais de Direitos Humanos são mecanismos 
da Política Nacional de Direitos Humanos. Já a Política Nacional de Direitos 
Humanos é o instrumento que busca a promoção ativa de direitos 
humanos, estabelecendo o patamar e orientando as ações governamentais 
quanto à efetivação dos Direitos Humanos. Assim todas as ações 
relacionadas com essa política deverão ser exercidas respeitando as 
diretrizes do Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH). Conforme 
abordado acima, o Brasil desenvolveu três programas nacionais de direitos 
humanos visando consolidar a Política Nacional de Direitos Humanos: 
 
 
 
 
Importante ressaltar, que a sigla PNDH é utilizada pelos documentos 
oficiais brasileiros para se referir ao Programa Nacional de Direitos 
Humanos e não a Política Nacional de Direitos Humanos. 
 
Programas Nacionais de Direitos Humanos (PNDH): 
 
Como foi estudado acima, a orientação de elaborar programas de direitos 
humanos consta da Declaração e Programa de Ação da Conferência 
Mundial de Direitos Humanos de Viena (organizada pela ONU) de 1993, 
que recomendou a cada Estado que fizesse um plano de ação nacional de 
Programas 
Nacionais 
de Direitos 
Humanos
PNDH2 
de 2002
PNDH3 
de 2009
PNDH1 
de 1996
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46 
promoção e proteção dos direitos humanos. Assim sendo, o PNDH é 
resultado de compromissos internacionais assumidos pelo Brasil em 
relação à temática dos direitos humanos. 
 
No Brasil, de acordo com o artigo 23 da Constituição Federal de 1988, a 
competência administrativa de realizar políticas públicas de 
implementação dos direitos humanos é comum a todos os entes federados 
(plano federal, estadual e municipal), em razão disso, é possível termos 
programas de direitos humanos no plano federal, estadual e municipal. 
 
Em relação aos Programas Nacionais de Direitos Humanos, a missão 
principal deles é dar visibilidade aos problemas referentes aos direitos 
humanos no Brasil e, simultaneamente, estipular e coordenar os esforços 
para a superação das dificuldades e implementação dos direitos. 
 
Assim, pode ser observado nos PNDHs uma dupla lógica: a lógica de 
identificação dos principais obstáculos à promoção e defesa dos direitos 
humanos, bem como a lógica da execução, a curto, médio e longo prazos, 
de medidas de promoção e defesa desses direitos. 
 
Além disso, como bem ensina André de Carvalho Ramos11 “o PNDH não 
possui força vinculante em si, pois é mero Decreto Presidencial editado à 
luz do artigo 84, IV, da Constituição, visando fiel execução das leis e normas 
constitucionais. Porém, serve como orientação para as ações 
governamentais, podendo ser cobrado de determinado agente do governo 
federal os motivos pelos quais sua conduta (ação ou omissão) é 
incompatível com o Decreto que instituiu o PNDH. Quanto as ações que 
incumbem aos Poderes Legislativo, Judiciário e ao Ministério Público, o 
PNDH é, novamente, apenas um referencial”.11 RAMOS, André de Carvalho. Curso de Direitos Humanos. 6ª edição. São Paulo: Editora Saraivajur, 
2019, p. 551. 
Direitos Humanos | Janaina Silva 
focusconcuros.com.br 47 
Resumindo, o PNDH é orientação para as ações governamentais, e, como 
consequência, para a Política Nacional dos Direitos Humanos. 
 
 
a) I Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH1-1996): 
 
Esse PNDH foi o primeiro do Brasil e terceiro do mundo, tendo sido criado 
em 13 de maio de 1996, por intermédio do Decreto Presidencial nº 
1.904/1996. O Decreto dispôs em seu art. 1º, sua meta de realizar um 
diagnóstico da situação dos direitos humanos no país e medidas para a sua 
defesa e promoção. 
 
Mas, antes da edição do Decreto Presidencial, é importante ressaltar que a 
elaboração desse PNDH contou com a articulação do governo e sociedade 
civil, na forma de consulta e debate prévio mediante seminários regionais 
e conferência nacional. 
 
Instituído no governo do Ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso, o 
PNDH1 voltou-se à garantia de proteção dos direitos civis, com especial 
PNDH
é resultado de compromissos 
internacionais assumidos pelo 
Brasil
a competência administrativa para 
criá-lo é da União, dos Estados e 
dos Municípios
sua missão é dar visibilidade aos 
problemas e estipular e coordenar 
esforços para superá-los
não possui força vinculante em si, 
mas serve como orientação para 
as ações governamentais
faz parte da Política 
Nacional de Direitos 
Humanos
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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foco no combate à impunidade e à violência policial, adotando ainda, como 
meta a adesão brasileira a tratados de direitos humanos. Além disso, eram 
objetivos desse PNDH1: 
 
i) a identificação dos principais obstáculos à promoção e defesa dos diretos 
humanos no Brasil; 
ii) a execução, a curto, médio e longo prazos, de medidas de promoção e 
defesa desses direitos; 
iii) a implementação de atos e declarações internacionais, com a adesão 
brasileira, relacionados com direitos humanos; 
 
iv) a redução de condutas e atos de violência, intolerância e discriminação, 
com reflexos na diminuição das desigualdades sociais; 
v) a observância dos direitos e deveres previstos na Constituição, 
especialmente os dispostos em seu art. 5°; 
vi) a plena realização da cidadania. 
 
As ações relativas à execução e ao apoio do PNDH deveriam ser prioritárias, 
de acordo com o artigo 3º do Decreto que o instituiu, e a responsabilidade 
de coordená-lo ficou a encargo do Ministério da Justiça, com a participação 
e apoio dos órgãos da Administração Pública Federal. 
 
Sobre os avanços obtidos nos seis anos de vida do PNDH-1, podemos citar 
a adoção de leis sobre: 
 
i) reconhecimento das mortes de pessoas desaparecidas em razão de 
participação política (Lei nº 9.140/95), pela qual o Estado brasileiro 
reconheceu a responsabilidade por essas mortes e concedeu indenização 
aos familiares das vítimas; 
ii) a transferência da justiça militar para a justiça comum dos crimes 
dolosos contra a vida praticados por policiais militares (Lei nº 9.299/96); 
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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iii) a tipificação do crime de tortura (Lei 9.455/97); 
iv) e a proposta de emenda constitucional sobre a reforma do Poder 
Judiciário, na qual se incluiu a chamada “federalização” dos crimes de 
direitos humanos (incidente de deslocamento de competência). 
 
 
 
b) II Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH2 - 2002): 
 
Já o PNDH2 foi aprovado pelo Decreto Presidencial nº 4.229 de 13 de maio 
de 2002 no final do segundo mandato do Ex-Presidente Fernando 
Henrique Cardoso na mesma linha do PNDH-1, mas agora com ênfase nos 
direitos sociais em sentido amplo. 
 
O PNDH2 também foi fruto de seminários regionais, com ampla 
participação de órgãos governamentais e de entidades da sociedade civil 
(até mesmo por meio de consulta pública na internet). O PNDH-2 possuía 
518 tipos de ações governamentais. 
 
Os objetivos gerais do 2º Programa Nacional de Direitos Humanos foram 
dispostos no artigo 2º do Decreto nº 4.229/2002, sendo eles: 
 
PNDH1
instituído pelo Decreto nº 1.904/1996 do 
Governo FHC 
meta de realizar um diagnóstico e medidas 
para defesa e promoção dos direitos 
humanos
voltou-se à garantia de proteção dos direitos 
civis
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i) a promoção da concepção de direitos humanos como um conjunto de 
direitos universais, indivisíveis e interdependentes, que compreendem 
direitos civis, políticos, sociais, culturais e econômicos; 
ii) a identificação dos principais obstáculos à promoção e defesa dos 
diretos humanos no País e a proposição de ações governamentais e não-
governamentais voltadas para a promoção e defesa desses direitos; 
iii) a difusão do conceito de direitos humanos como elemento necessário 
e indispensável para a formulação, execução e avaliação de políticas 
públicas; 
iv) a implementação de atos, declarações e tratados internacionais dos 
quais o Brasil é parte; 
v) a redução de condutas e atos de violência, intolerância e discriminação, 
com reflexos na diminuição das desigualdades sociais; e 
vi) a observância dos direitos e deveres previstos na Constituição, 
especialmente os inscritos em seu art. 5º. 
 
O acompanhamento da implementação do PNDH2 era de 
responsabilidade da Secretaria de Estado dos Direitos Humanos do 
Ministério da Justiça, com a participação e o apoio dos órgãos da 
Administração Pública Federal. 
 
Esse PNDH, além de mencionar o direito à vida, liberdade e outros direitos 
civis, o PNDH-2 lançou ações específicas referentes aos direitos sociais, 
como o direito à educação, à saúde, à previdência e a assistência social, ao 
trabalho, à moradia, a um meio ambiente saudável, à alimentação, à cultura 
e ao lazer, assim como propostas voltadas para a educação e sensibilização 
de toda a sociedade brasileira para a sedimentação de uma cultura de 
respeito aos direitos humanos. 
 
Atente-se que enquanto o PNDH1 se concentrou nos direitos civis, o 
PNDH2 preferiu focar em temas sociais e de grupos vulneráveis, como os 
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direitos dos afrodescendentes, dos povos indígenas, de orientação sexual, 
consagrando assim, o multiculturalismo. 
 
 
 
 
c) 3º Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH3 – 2009): 
 
Finalmente, em 2009, foi aprovado o 3º Programa Nacional de Direitos 
Humanos, já quase no final do segundo mandato do governo do 
Presidente Lula. Vale ressaltar que o PNDH3 é o que ainda está em vigor, 
os anteriores foram revogados. 
 
Como os anteriores, o PNDH3 também foi resultado de um processo de 
consulta e discussão, que foi finalizado na 11ª Conferência Nacional dos 
Direitos Humanos em dezembro de 2008, com participação da sociedade 
civil e do poder público. Vale ressaltar que o documento final da 
Conferência não foi totalmente seguido pelo Governo Federal, mas serviu 
de base aos trabalhos coordenados pela antiga Secretaria Especial de 
Direitos Humanos (SEDH), que levaram à elaboração do PNDH-3. Assim, o 
Decreto nº 7.037, de 21 de dezembro de 2009 oficializou o programa. 
 
O PNDH3 é organizado em Eixos Orientadores, os quais são subdivididos 
em diretrizes, que são segmentadas em objetivos estratégicos, que por sua 
vez são subdivididos em ações programáticas. Para você entender melhor, 
veja o esquema: 
PNDH2
instituído pelo Decreto nº 4.229/2002 
do Governo FHC 
voltou-se à garantia de proteção dos 
econômicos, sociais e culturais
focou em temas sociais e de grupos 
vulneráveis
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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Sobre os Eixos Orientadores, que ao total são seis, eles centralizam grandes 
áreas de preocupação na promoção e implementação dos direitos 
humanos, vejamos: 
 
 
Ei
xo
s 
O
rie
ta
do
re
s
I - Interação democrática entre Estado e 
sociedade civil
II - Desenvolvimentoe Direitos Humanos
III - Universalizar direitos em um 
contexto de desigualdades
IV - Segurança Pública, Acesso à Justiça 
e Combate à Violência
V - Educação e Cultura em Direitos 
Humanos
VI - Direito à Memória e à Verdade
Eixos 
Orientadores • Total: 6
Diretrizes • total: 25
Objetivos 
Estratégicos • total: 82
Ações 
Programáticas • total: 521
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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Vale lembrar que cada um desses Eixos Orientadores está subdividido em 
Diretrizes, mas antes de elencarmos as Diretrizes, vamos estudar sobre a 
abrangência de cada Eixo Orientador: 
 
Eixo Orientador I - Interação democrática entre Estado e sociedade 
civil: 
 
Os Direitos Humanos constituem condição para a prevalência da dignidade 
humana, e, por isso, devem ser promovidos e protegidos por meio do 
esforço conjunto do Estado e da sociedade civil. É nessa linha, que o Eixo 
Orientador I traz suas diretrizes, objetivando com a implementação delas 
melhorar a interação entre a sociedade e o Estado, cabendo a sociedade 
civil exigir, pressionar, cobrar, criticar, propor e fiscalizar as ações do Estado. 
 
 
 
 
Essa interação é realizada por intermédio de acordos e dissensos, debates 
de ideias e pela deliberação em torno de propostas, sendo imprescindível 
ao pleno exercício da democracia. 
 
Então, esse Eixo Orientador é uma das finalidades do PNDH-3, que é dar 
continuidade à integração e ao aprimoramento dos mecanismos de 
participação existentes, bem como criar novos meios de construção e 
monitoramento das políticas públicas sobre Direitos Humanos no Brasil. 
 
Nesse sentido, aperfeiçoar a interlocução entre Estado e sociedade civil 
depende da implementação de medidas que garantam à sociedade maior 
participação no acompanhamento e monitoramento das políticas públicas 
em Direitos Humanos, num diálogo plural e transversal entre os vários 
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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atores sociais e deles com o Estado. Para isto, torna-se necessário ampliar 
o controle externo dos órgãos públicos por meio de ouvidorias, monitorar 
os compromissos internacionais assumidos pelo Estado brasileiro, realizar 
conferências periódicas sobre a temática, fortalecer e apoiar a criação de 
conselhos nacional, distrital, estaduais e municipais de Direitos Humanos, 
garantindo-lhes eficiência, autonomia e independência. 
 
A adoção de tais medidas dispostas no Eixo Orientador I visa fortalecer a 
democracia participativa, na qual o Estado atua como instância republicana 
da promoção e defesa dos Direitos Humanos e a sociedade civil como 
agente ativo de sua implementação. Assim, no Eixo Orientador I, temos três 
diretrizes, sendo elas: 
 
Atente-se que cada Diretriz é ainda subdividida em objetivos estratégicos, 
que por sua vez são subdivididos em ações programáticas (linhas de ações). 
Cada ação programática incumbe a um ou mais órgãos governamentais do 
dever de realização da conduta. Há, então, possibilidade de 
monitoramento das ações, cobrando-se os órgãos responsáveis e evitando 
que o PNDH3 seja mais uma carta de intenção sem maiores resultados. 
 
Eixo Orientador II - Desenvolvimento e direitos Humanos: 
 
Eixo Orientador I 
Interação democrática entre 
Estado e sociedade civil
Diretriz 1
Interação democrática entre 
Estado e sociedade civil como 
instrumento de fortalecimento da 
democracia participativa
Diretriz 2
Fortalecimento dos Direitos 
Humanos como instrumento 
transversal das políticas públicas 
e de interação democrática
Diretriz 3
Integração e ampliação dos 
sistemas de informações em 
Direitos Humanos e construção 
de mecanismos de avaliação e 
monitoramento de sua efetivação
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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O Eixo Orientador II recomenda que o desenvolvimento garanta a livre 
determinação dos povos, o reconhecimento de soberania sobre seus 
recursos e riquezas naturais, respeito pleno à sua identidade cultural e a 
busca de equidade na distribuição das riquezas. Nesse sentido, o 
desenvolvimento deve ser tido como liberdade e seus resultados centrados 
no bem-estar social e, por conseguinte, nos direitos do ser humano, sendo 
essenciais para o desenvolvimento as liberdades e os direitos básicos como 
alimentação, saúde e educação. 
 
No caso do Brasil, por muitos anos o crescimento econômico não levou à 
distribuição justa de renda e riqueza, mantendo-se elevados índices de 
desigualdade. Em razão disso, as ações de Estado voltadas para a conquista 
da igualdade socioeconômica requerem ainda políticas permanentes, de 
longa duração, para que se verifique a plena proteção e promoção dos 
Direitos Humanos. 
 
Além disso, é necessário que o modelo de desenvolvimento econômico 
tenha a preocupação de aperfeiçoar os mecanismos de distribuição de 
renda e de oportunidades para todos os brasileiros, bem como incorpore 
os valores de preservação ambiental. 
 
O Eixo ainda traz que a noção de desenvolvimento está sendo amadurecida 
como parte de um debate em curso na sociedade e no governo, 
incorporando a relação entre os direitos econômicos, sociais, culturais e 
ambientais, buscando a garantia do acesso ao trabalho, à saúde, à 
educação, à alimentação, à vida cultural, à moradia adequada, à 
previdência, à assistência social e a um meio ambiente sustentável. Assim, 
esse capítulo do PNDH-3 propõe instrumentos de avanço e reforça 
propostas para políticas públicas de redução das desigualdades sociais 
concretizadas por meio de ações de transferência de renda, incentivo a 
economia solidária e ao cooperativismo, a expansão da reforma agrária, ao 
fomento da aquicultura, da pesca e do extrativismo e da promoção do 
turismo sustentável. As diretrizes que englobam esse Eixo Orientador II 
reflexem seus objetivos, vejamos: 
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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Atente-se que cada Diretriz é ainda subdividida em objetivos estratégicos, 
que por sua vez são subdivididos em ações programáticas (linhas de ações). 
Cada ação programática incumbe a um ou mais órgãos governamentais do 
dever de realização da conduta. 
 
Eixo Orientador III - Universalizar direitos em um contexto de 
desigualdades: 
 
No Brasil, ao longo das últimas décadas, os Direitos Humanos passaram a 
ocupar uma posição de destaque no ordenamento jurídico. O País avançou 
decisivamente na proteção e promoção do direito às diferenças. Porém, o 
peso negativo do passado continua a projetar no presente uma situação 
de profunda iniquidade social. 
 
Em razão disso, o acesso aos direitos fundamentais continua enfrentando 
barreiras estruturais, resquícios de um processo histórico, até secular, 
marcado pelo genocídio indígena, pela escravidão e por períodos 
ditatoriais, práticas que continuam a ecoar em comportamentos, leis e na 
realidade social. 
Eixo Orientador II 
Desenvolvimento e Direitos 
Humanos
Diretriz 4
Efetivação de modelo de 
desenvolvimento sustentável, 
com inclusão social e econômica, 
ambientalmente equilibrado e 
tecnologicamente responsável, 
cultural e regionalmente diverso, 
participativo e não discriminatório
Diretriz 5
Valorização da pessoa humana 
como sujeito central do processo 
de desenvolvimento
Diretriz 6
Promover e proteger os direitos 
ambientais como Direitos 
Humanos, incluindo as gerações 
futuras como sujeitos de direitos
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Visando a real efetivação dos direitos humanos à todas as pessoas, o 
PNDH-3 orienta-se pela transversalidade, para que a implementação dos 
direitos civis e políticos transitem pelas diversas dimensões dos direitos 
econômicos, sociais, culturais e ambientais. Caso contrário, grupos sociais 
afetados pela pobreza, pelo racismo estrutural e pela discriminação 
dificilmente terão acesso a tais direitos. 
 
O PNDH-3, em seu Eixo Orientador III, aponta para a continuidadee 
ampliação do acesso às políticas de erradicação da miséria e da fome, 
quanto àquelas preocupadas com a moradia e saúde, pois são 
fundamentais para garantir o respeito à dignidade humana. 
 
Seus objetivos estratégicos estão direcionados à promoção da cidadania 
plena, preconizando a universalidade, indivisibilidade e interdependência 
dos Direitos Humanos, que são condições para sua efetivação integral e 
igualitária. Além disso, o acesso aos direitos de registro civil, alimentação 
adequada, terra e moradia, trabalho decente, educação, participação 
política, cultura, lazer, esporte e saúde, deve considerar a pessoa humana 
em suas múltiplas dimensões de ator social e sujeito de cidadania. 
 
Já as ações programáticas formuladas visam enfrentar o desafio de eliminar 
as desigualdades, levando em conta as dimensões de gênero e raça nas 
políticas públicas, desde o planejamento até a sua concretização e 
avaliação. 
 
Além disso, incluem-se nas recomendações deste Eixo as chamadas “ações 
afirmativas”, que constituem medidas especiais e temporárias que buscam 
remediar um passado discriminatório. 
 
No rol de movimentos e grupos sociais que demandam políticas de 
inclusão social encontram-se crianças, adolescentes, mulheres, pessoas 
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idosas, lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, pessoas com 
deficiência, pessoas moradoras de rua, povos indígenas, populações negras 
e quilombolas, ciganos, ribeirinhos, varzanteiros e pescadores, entre 
outros. 
 
Assim, definem-se, neste capítulo, medidas e políticas que devem ser 
efetivadas para reconhecer e proteger os indivíduos como iguais na 
diferença, ou seja, para valorizar a diversidade presente na população 
brasileira para estabelecer acesso igualitário aos direitos fundamentais. 
Suas diretrizes caminham nesse sentido, vejamos: 
 
 
Atente-se que cada Diretriz é ainda subdividida em objetivos estratégicos, 
que por sua vez são subdivididos em ações programáticas (linhas de ações). 
Cada ação programática incumbe a um ou mais órgãos governamentais do 
dever de realização da conduta. Há, então, possibilidade de 
monitoramento das ações, cobrando-se os órgãos responsáveis e evitando 
que o PNDH3 seja mais uma carta de intenção sem maiores resultados. 
 
Eixo Orientador IV - Segurança Pública, Acesso à Justiça e Combate à 
Violência: 
Eixo Orientador III 
Universalizar direitos em um 
contexto de desigualdades
Diretriz 7
Garantia dos Direitos Humanos 
de forma universal, indivisível e 
interdependente, assegurando a 
cidadania plena
Diretriz 8
Promoção dos direitos de 
crianças e adolescentes para o 
seu desenvolvimento integral, de 
forma não discriminatória, 
assegurando seu direito de 
opinião e participação
Diretriz 9 Combate às desigualdades estruturais
Diretriz 
10
Garantia da igualdade na 
diversidade
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A realidade brasileira segue sendo gravemente marcada pela violência e 
por severos impasses estruturais na área da segurança pública. Problemas 
antigos, como a ausência de diagnósticos, de planejamento e de definição 
formal de metas, a desvalorização profissional dos policiais e dos agentes 
penitenciários, o desperdício de recursos e a consagração de privilégios 
dentro das instituições, as práticas de abuso de autoridade e de violência 
policial contra grupos vulneráveis e a corrupção dos agentes de segurança 
pública, demandam reformas tão urgentes quanto profundas. 
 
Por isso, resumidamente, o Eixo Orientador IV aponta para a necessidade 
de ampla reforma no modelo de polícia e propõe o aprofundamento do 
debate sobre a implantação do ciclo completo de policiamento às 
corporações estaduais. Prioriza também a transparência e participação 
popular, instando ao aperfeiçoamento das estatísticas e à publicação de 
dados, assim como à reformulação do Conselho Nacional de Segurança 
Pública. Contempla a prevenção da violência e da criminalidade como 
diretriz, ampliando o controle sobre armas de fogo e indicando a 
necessidade de profissionalização da investigação criminal. 
 
Não obstante, apresenta propostas para que o Poder Público se aperfeiçoe 
no desenvolvimento de políticas públicas de prevenção ao crime e à 
violência, reforçando a noção de acesso universal à Justiça como direito 
fundamental, e sustentando que a democracia, os processos de 
participação e transparência, aliados ao uso de ferramentas científicas e à 
profissionalização das instituições e trabalhadores da segurança, assinalam 
os roteiros mais promissores para que o Brasil possa avançar no caminho 
da paz pública. 
 
Com ênfase na erradicação da tortura e na redução da letalidade policial e 
carcerária, confere atenção especial ao estabelecimento de procedimentos 
operacionais padronizados, que previnam as ocorrências de abuso de 
autoridade e de violência institucional, e confiram maior segurança a 
policiais e agentes penitenciários. 
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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Reafirma a necessidade de criação de ouvidorias independentes em âmbito 
federal e, inspirado em tendências mais modernas de policiamento, 
estimula as iniciativas orientadas por resultados, o desenvolvimento do 
policiamento comunitário e voltado para a solução de problemas, 
elencando medidas que promovam a valorização dos trabalhadores em 
segurança pública. Contempla, ainda, a criação de sistema federal que 
integre os atuais sistemas de proteção às vítimas e testemunhas, 
defensores de Direitos Humanos e crianças e adolescentes ameaçados de 
morte. 
 
Também como diretriz deste Eixo é proposta a reforma da Lei de Execução 
Penal a fim de introduzir garantias fundamentais e novos regramentos para 
superar as práticas abusivas, hoje comuns. Além disso, recomenda que as 
penas privativas de liberdade sejam a última alternativa, propondo a 
redução da demanda por encarceramento e estimulando novas formas de 
tratamento dos conflitos, como as sugeridas pelo mecanismo da Justiça 
Restaurativa. 
 
Reafirma-se a centralidade do direito universal de acesso à Justiça, com a 
possibilidade de acesso aos tribunais por toda a população, com o 
fortalecimento das defensorias públicas e a modernização da gestão 
judicial, de modo a garantir respostas judiciais mais céleres e eficazes. 
Destacam-se, ainda, o direito de acesso à Justiça em matéria de conflitos 
agrários e urbanos e o necessário estímulo aos meios de soluções pacíficas 
de controvérsias. 
 
Com isso, o Eixo Orientador IV encerra os seus objetivos em sete diretrizes, 
quais sejam: 
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Atente-se que cada Diretriz é ainda subdividida em objetivos estratégicos, 
que por sua vez são subdivididos em ações programáticas (linhas de ações). 
Cada ação programática incumbe a um ou mais órgãos governamentais do 
dever de realização da conduta. 
 
Eixo Orientador V - Educação e Cultura em Direitos Humanos: 
 
Esse Eixo Orientador visa a formação de nova mentalidade coletiva para o 
exercício da solidariedade, do respeito às diversidades e da tolerância. 
Como processo sistemático e multidimensional que orienta a formação do 
sujeito de direitos, seu objetivo é combater o preconceito, a discriminação 
e a violência, promovendo a adoção de novos valores de liberdade, justiça 
e igualdade. 
 
Eixo Orientador IV 
Segurança Pública, 
Acesso à Justiça e 
Combate à 
Violência
Diretriz 11 Democratização e modernização do sistema de segurança pública
Diretriz 12 Transparência e participação popular no sistema de segurança pública e justiça criminal
Diretriz 13
Prevenção da violência e da criminalidade e 
profissionalização da investigação de atos 
criminosos
Diretriz 14
Combate à violência institucional, com ênfase 
na erradicação da tortura e na redução da 
letalidade policial e carcerária
Diretriz 15 Garantia dos direitos das vítimasde crimes e de proteção das pessoas ameaçadas
Diretriz 16
Modernização da política de execução penal, 
priorizando a aplicação de penas e medidas 
alternativas à privação de liberdade e melhoria 
do sistema penitenciário
Diretriz 17
Promoção de sistema de justiça mais 
acessível, ágil e efetivo, para o conhecimento, 
a garantia e a defesa de direitos
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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Na educação básica, a ênfase do PNDH-3 é possibilitar, desde a infância, a 
formação de sujeitos de direito, priorizando as populações historicamente 
vulnerabilizadas. A troca de experiências entre crianças de diferentes raças 
e etnias, imigrantes, com deficiência física ou mental, fortalece, desde cedo, 
sentimento de convivência pacífica. Conhecer o diferente, desde a mais 
tenra idade, é perder o medo do desconhecido, formar opinião respeitosa 
e combater o preconceito, às vezes arraigado na própria família. Para isso 
se propõe mudanças curriculares, incluindo a educação transversal e 
permanente nos temas ligados aos Direitos Humanos e, mais 
especificamente, o estudo da temática de gênero e orientação sexual, das 
culturas indígena e afro-brasileira entre as disciplinas do ensino 
fundamental e médio. 
 
Já no ensino superior, as metas previstas visam a incluir os Direitos 
Humanos, por meio de diferentes modalidades como disciplinas, linhas de 
pesquisa, áreas de concentração, transversalização incluída nos projetos 
acadêmicos dos diferentes cursos de graduação e pós-graduação, bem 
como em programas e projetos de extensão. Além disso, sobre a educação 
não formal em Direitos Humanos, o PNDH-3 propõe inclusão da temática 
de Educação em Direitos Humanos nos programas de capacitação de 
lideranças comunitárias e nos programas de qualificação profissional, 
alfabetização de jovens e adultos, entre outros. 
 
O Eixo Orientador V também aborda sobre a educação continuada em 
Direitos Humanos que deve estar disponível em todo o serviço público, 
especialmente entre os agentes do sistema de Justiça de segurança pública, 
já que são fundamentais para consolidar o Estado Democrático e a 
proteção do direito à vida e à dignidade, garantindo tratamento igual à 
todas as pessoas e o funcionamento de sistemas de Justiça que promovam 
os Direitos Humanos. 
 
Por fim, aborda-se o papel estratégico dos meios de comunicação de 
massa, no sentido de construir ou desconstruir ambiente nacional e cultura 
social de respeito e proteção aos Direitos Humanos. Daí a importância 
primordial de introduzir mudanças que assegurem ampla democratização 
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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desses meios, bem como de atuar permanentemente junto a todos os 
profissionais e empresas do setor (seminários, debates, reportagens, 
pesquisas e conferências), buscando sensibilizar e conquistar seu 
compromisso ético com a afirmação histórica dos Direitos Humanos. 
 
Nesse sentido, o Eixo Orientador V é formado por 5 diretrizes, lembrando 
que essas diretrizes se subdividem em Objetivos Estratégico, que por sua 
vez se subdividem em Ações Programáticas. As diretrizes são as seguintes: 
 
 
Eixo Orientador VI - Direito à Memória e à Verdade: 
 
A investigação do passado é fundamental para a construção da cidadania. 
Estudar o passado, resgatar sua verdade e trazer à tona seus 
acontecimentos caracterizam forma de transmissão de experiência 
histórica, que é essencial para a constituição da memória individual e 
coletiva. 
 
Eixo Orientador V 
Educação e cultura 
em Direitos 
Humanos
Diretriz 18 
Efetivação das diretrizes e dos princípios da política 
nacional de educação em Direitos Humanos para 
fortalecer uma cultura de direitos
Diretriz 19
Fortalecimento dos princípios da democracia e dos 
Direitos Humanos nos sistemas de educação básica, 
nas instituições de ensino superior e nas instituições 
formadoras
Diretriz 20 Reconhecimento da educação não formal como espaço de defesa e promoção dos Direitos Humanos
Diretriz 21 Promoção da Educação em Direitos Humanos no serviço público
Diretriz 22
Garantia do direito à comunicação democrática e ao 
acesso à informação para consolidação de uma 
cultura em Direitos Humanos
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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O Brasil ainda processa com dificuldades o resgate da memória e da 
verdade sobre o que ocorreu com as vítimas atingidas pela repressão 
política durante o Regime de 1964. A impossibilidade de acesso a todas as 
informações oficiais impede que familiares de mortos e desaparecidos 
possam conhecer os fatos relacionados aos crimes praticados e não 
permite à sociedade elaborar seus próprios conceitos sobre aquele 
período. 
 
A história que não é transmitida de geração a geração torna-se esquecida 
e silenciada. O silêncio e o esquecimento das barbáries geram graves 
lacunas na experiência coletiva de construção da identidade nacional. 
Resgatando a memória e a verdade, o País adquire consciência superior 
sobre sua própria identidade, a democracia se fortalece. As tentações 
totalitárias são neutralizadas e crescem as possibilidades de erradicação 
definitiva de alguns resquícios daquele período sombrio, como a tortura, 
por exemplo, ainda persistente no cotidiano brasileiro. 
 
As violações sistemáticas dos Direitos Humanos pelo Estado durante o 
regime ditatorial são desconhecidas pela maioria da população, em 
especial pelos jovens. A radiografia dos atingidos pela repressão política 
ainda está longe de ser concluída, mas calcula-se que pelo menos 
cinquenta mil pessoas foram presas somente nos primeiros meses de 1964; 
cerca de vinte mil brasileiros foram submetidos a torturas e cerca de 
quatrocentos cidadãos foram mortos ou estão desaparecidos. Ocorreram 
milhares de prisões políticas não registradas, cento e trinta banimentos, 
quatro mil, oitocentos e sessenta e duas cassações de mandatos políticos, 
uma cifra incalculável de exílios e refugiados políticos. 
 
Nesse sentido, as ações programáticas desse eixo orientador têm como 
finalidade assegurar o processamento democrático e republicano de todo 
esse período da história brasileira, para que se viabilize o desejável 
sentimento de reconciliação nacional. E, também, para se construir 
consenso amplo no sentido de que as violações sistemáticas de Direitos 
Humanos registradas entre 1964 e 1985, bem como no período do Estado 
Novo, não voltem a ocorrer em nosso País, nunca mais. 
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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Assim, esse último Eixo Orientador é formado por três diretrizes, sendo 
elas: 
 
Pessoal, aqui finalizamos o estudo dos Eixos Orientadores e Diretrizes que 
compõem o 3º Programa Nacional de Direitos Humanos, lembrando que 
dentro de cada uma dessas Diretrizes existem variados Objetivos 
Estratégicos e Ações Programáticas que ensejam recomendações de ações 
para a persecução das metas estabelecidas pelo PNDH3. 
 
Por fim, vale ressaltar que o PNDH3 não é uma política exclusiva de um 
órgão da Administração Pública, mas envolve uma articulação 
interinstitucional de diversos órgãos para que possa ser executado. Em 
relação aos Planos de Ação de Direitos Humanos, o PNDH-3 estipulou que 
esses Planos de Ação passaram a ser bianuais. 
 
Assim, a terceira versão do Programa Nacional de Direitos Humanos – 
PNDH-3 representa mais um passo largo nesse processo histórico de 
consolidação das orientações para concretizar a promoção dos Direitos 
Humanos no Brasil. 
 
Eixo Orientador VI 
Direito à memoria e 
à verdade
Diretriz 23 
Reconhecimento da memória e da verdade 
como Direito Humano da cidadania e dever do 
Estado
Diretriz 24 Preservação da memória histórica e construção pública da verdade
Diretriz 25
Modernização da legislação relacionada com 
promoção do direito à memória e à verdade, 
fortalecendo a democracia
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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6. A Constituição brasileira e os tratados internacionais de direitos 
humanos:Conceito e terminologia: 
 
Na doutrina e na própria Constituição Federal variadas são as terminologias 
utilizadas para se referir aos “tratados internacionais”. A CF/88 utiliza os 
termos: “tratados internacionais”, “convenção internacional”, “atos 
internacionais”, “acordos internacionais” e “compromissos internacionais”. 
 
Sobre esse assunto, a Convenção de Viena sobre Direito dos Tratados 
cristalizou a prática dos Estados em considerar esses termos acima 
mencionados como sinônimos, como se vê no seu art. 2º, 1, a: (...) “tratado 
significa um acordo internacional concluído por escrito entre Estados e 
regido pelo Direito Internacional, quer conste de um instrumento único, 
quer de dois ou mais instrumentos conexos, qualquer que seja a sua 
denominação específica”. 
 
Nesse sentido, quando abordamos esses conceitos, estamos nos referindo 
a acordos internacionais juridicamente obrigatórios e vinculantes 
pactuados entre Estados. Os tratados internacionais constituem a principal 
fonte de obrigação do Direito Internacional. 
 
Bom, mas sobre os tratados internacionais, qual é o procedimento para que 
eles sejam incorporados internamente e, com isso se tornem obrigatórios 
e vinculantes no plano internacional e doméstico? É sobre isso que 
falaremos a seguir. 
 
6.2 Incorporação dos Tratados Internacionais: 
 
 Teoria da Junção de Vontades ou Teoria dos Atos Complexos: 
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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Para que o Estado brasileiro possa ser parte em um tratado internacional, 
e com isso vincular-se a suas disposições é necessário um procedimento 
complexo. Sobre isso, a Constituição de 1988 dispôs que a participação 
brasileira na formação do Direito Internacional é da União (art. 21, I), mas 
para a formação da vontade brasileira em celebrar tratado internacional e 
para a sua incorporação é exigido um procedimento que une a vontade 
concordante dos Poderes Executivo e do Legislativo (art. 84, VIII e 49, I). 
 
Nesse sentido, o artigo 85, inciso VIII da CF/88 estabelece que é de 
competência do Presidente da República celebrar tratados, convenções e 
atos internacionais, estando sujeito a referendo do Congresso Nacional. 
Além disso, o artigo 49, inciso I, complementa, dispondo que é da 
competência exclusiva do Congresso Nacional resolver definitivamente 
sobre tratados, acordos ou atos internacionais que acarretem encargos ou 
compromissos gravosos ao patrimônio nacional. 
 
Resumindo, para que o Brasil possa celebrar um tratado internacional é 
necessária a participação dos dois poderes na formação da vontade, fato 
esse que consagrou a chamada “teoria da junção de vontades ou teoria 
dos atos complexos”. 
 
 
 
Assim, como veremos a seguir, para que um tratado internacional seja 
incorporado ao ordenamento jurídico brasileiro é necessária a união de 
vontades do Poder Executivo e do Poder Legislativo. 
vontade do 
Poder Legislativo
Vontade do 
Poder Executivo
união de 
vontades apta à 
celebrar tratado 
internacional
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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Fases de incorporação dos Tratados Internacionais: 
 
O procedimento que une as vontades concordantes do Poder Executivo e 
do Poder Legislativo celebração de tratado internacional, é subdividido em 
quatro fases. São elas: a) assinatura internacional; b) aprovação congressual 
(Decreto Legislativo); c) ratificação e depósito; e d) Promulgação (Decreto 
Presidencial). 
 
Passemos à análise das quatro fases: 
 
a) assinatura internacional: é iniciada as negociações do teor do futuro 
tratado, que são consideradas atribuição do Chefe de Estado (Presidente). 
Com a assinatura, o Estado manifesta sua predisposição em celebrar, no 
futuro, o texto do tratado. Há a possibilidade de adesão a textos de 
tratados já existentes, dos quais o Brasil não participou da negociação. 
 
Importante frisar que, em geral, a assinatura internacional não vincula o 
Estado brasileiro, sendo necessário o referendo do Congresso Nacional. 
 
Finda a assinatura, cabe ao Poder Executivo (Presidente) encaminhar o 
texto assinado do futuro tratado ao Congresso, no momento em que julgar 
oportuno. 
 
b) aprovação congressual (ou Decreto Legislativo): lembrando que, em 
relação à necessidade de aprovação pelo Congresso Nacional, tal premissa 
tem fundamento legal no artigo 49, inciso I, a e artigo 84, inciso VIII ambos 
da Constituição Federal. Assim, após a fase de assinatura o Presidente 
encaminha mensagem ao Congresso Nacional solicitando a aprovação 
congressual do texto do futuro tratado. 
 
Direitos Humanos | Janaina Silva 
focusconcuros.com.br 69 
O trâmite da segunda fase é iniciado pela Câmara dos Deputados, onde a 
mensagem presidencial é encaminhada para as Comissões para análise da 
constitucionalidade, e, após a aprovação no plenário da Câmara, o projeto 
é apreciado no Senado. Aprovado o texto do tratado no Congresso 
Nacional, é publicado um Decreto Legislativo no Diário do Congresso 
Nacional. 
 
Ressalta-se que não há previsão legal de prazo, a rapidez vai depender da 
conveniência política. 
 
Além disso o Congresso Nacional pode opor emendas ao texto do tratado 
(a reserva é o ato unilateral pelo qual o Estado, no momento da celebração 
final, manifesta seu desejo de excluir ou modificar o texto do tratado). Caso 
o Presidente não concorde com tais ressalvas, sua única opção é não 
ratificar o tratado. 
 
Aprovado o texto do tratado no Congresso Nacional fica o Presidente da 
República autorizado a celebrar em definitivo o tratado por meio da 
ratificação ou ato similar. 
 
Atente-se que, após a aprovação pelo Congresso Nacional, as disposições 
do tratado ainda não obrigam o Estado brasileiro, pois é necessária a 
ratificação ou adesão e o depósito do instrumento no órgão internacional 
responsável. 
 
c) ratificação e depósito: Após a aprovação do Congresso Nacional, 
querendo, o Presidente da República pode celebrar o tratado em definitivo. 
A aprovação do Congresso Nacional é uma autorização para que o Estado 
se obrigue internacionalmente. De posse dessa autorização, é feito o 
depósito do tratado internacional assinado pelo Presidente da República, 
que será anexado ao tratado firmado, junto ao órgão responsável. 
 
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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A partir da ratificação e do depósito, o tratado internacional passa a 
vincular o Estado no cenário internacional. 
 
Lembrando que, dependendo do tratado, é exigido um número mínimo de 
ratificações ou lapso temporal para que o tratado passe a viger 
internacionalmente. 
 
d) Promulgação (ou Decreto Presidencial): Para que se dê validade no 
âmbito interno, deve ser editado o Decreto pelo Presidente da República e 
referendado pelo Ministro das Relações Exteriores (também chamado de 
Decreto de Promulgação, Decreto Executivo ou Decreto Presidencial). A 
promulgação do tratado internacional internamente consiste na 
transformação do tratado internacional em lei interna do país. 
 
Não há prazo para sua edição e até lá o Brasil está vinculado 
internacionalmente, mas não internamente. Caso o Presidente não 
promulgue o Decreto Executivo brevemente esse fato pode ensejar 
responsabilização internacional do Brasil. 
 
Sobre a incorporação dos tratados internacionais no direito interno 
brasileiro, vamos ao esquema: 
 
6.3 Hierarquia normativa dos Tratados Internacionais de Direitos 
Humanos: 
 
Presidente 
assina o tratado 
internacional 
(não vincula o 
Brasil)
Congresso 
Nacional 
aprova e 
promulga o 
Decreto 
Legislativo
Presidente 
ratifica e 
deposita no 
órgão 
internacional
(vincula o 
Brasil)
Presidente 
promulga o 
Decreto 
Executivo 
(torna-se Lei 
interna)
Direitos Humanos | Janaina Silva 
focusconcuros.com.br 71 
Bom, de modo geral, aprendemos nos tópicos anteriores que para que o 
Estado brasileiro possa celebrar um tratado internacional são necessárias 
as vontades concordantesdos Poderes Legislativo e Executivo. 
Aprendemos também que é exigido um procedimento complexo que passa 
por quatro fases até o teor do tratado internacional vincular o Brasil 
internamente. 
 
A partir disso, quando o tratado internacional se torna Lei interna no Brasil 
qual será a hierarquia normativa dessa Lei? Para entendermos isso é 
necessário estudarmos a “Teoria do Duplo Estatuto dos Tratados 
Internacionais de Direitos Humanos”. 
 
Nesse sentido, após todo trâmite de internalização dos tratados 
internacionais dentro da ordem doméstica, sabemos que o tratado vincula 
o Estado assim como qualquer outra lei que componha nosso 
ordenamento jurídico. 
 
Em relação aos tratados internacionais incorporados em geral esses 
possuem estatuto normativo interno equivalente ao da lei ordinária federal. 
Essa é a hierarquia ordinária ou comum dos tratados em geral: equivalência 
à lei ordinária federal. 
 
Entretanto, os tratados internacionais de direitos humanos possuem 
tratamento diferenciado. Até a edição da Emenda Constitucional nº 45 
de 2004 havia intenso debate doutrinário sobre a posição hierárquica dos 
tratados internacionais de direitos humanos, especialmente em virtude do 
disposto no artigo 5º, § 2º, da Constituição (princípio da não exaustividade). 
 
Tal caos sobre a hierarquia normativa dos tratados de direitos humanos 
pode ser resumido em quatro posições de maior repercussão: 
 
a) natureza supraconstitucional, em face de sua origem internacional; 
Direitos Humanos | Janaina Silva 
focusconcuros.com.br 72 
b) natureza constitucional (forte apoio doutrinário); 
c) natureza equiparada à lei ordinária federal (majoritária no STF de 1988 a 
2008); 
d) natureza supralegal (acima da lei e inferior à Constituição, voto solitário 
de Min. Sepúlveda Pertence, no RHC 79.785/RJ). 
 
Apesar da diversidade de posições o posicionamento do STF até 2008 foi 
o seguinte: o tratado de direitos humanos possuía (não possui mais) 
hierarquia equivalente a lei ordinária federal, como todos os demais 
tratados incorporados. 
 
Assim, em face desse caos e da resistência do STF em reconhecer a 
hierarquia constitucional dos tratados de direitos humanos, o movimento 
de direitos humanos buscou convencer o Congresso Nacional a aprovar 
Emenda Constitucional contendo tal reconhecimento. 
 
Foi, então, aprovada a EC nº 45/2004, que introduziu o §3º no artigo 5º da 
CF/88 e fomentou a “Teoria do Duplo Estatuto dos Tratados Internacionais 
de Direitos Humanos”, que estudaremos a seguir. 
 
Teoria do Duplo Estatuto dos Tratados Internacionais de Direitos 
Humanos: 
 
Sobre essa Teoria, temos o artigo 5º, § 3º da Constituição Federal (que foi 
incluído pela Emenda Constitucional nº 45, de 2004), no sentido de que: 
 
§ 3º Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que 
forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, 
por três quintos dos votos dos respectivos membros, serão equivalentes 
às emendas constitucionais. 
 
Direitos Humanos | Janaina Silva 
focusconcuros.com.br 73 
Assim, com a inclusão do §3º no artigo 5º da Constituição Federal no ano 
de 2004, foi consagrada a Teoria do Duplo Estatuto (atualmente adotada 
pelo STF). Essa Teoria estabelece que: 
 
a) os tratados internacionais de direitos humanos que forem aprovados 
pelo rito do artigo 5º, §3º possuem natureza constitucional (são 
equivalentes às Emendas Constitucionais); 
 
b) os demais tratados internacionais de direitos humanos que sejam 
anteriores ou posteriores a EC nº 45/2004 e que tenham sido aprovados 
pelo rito comum (maioria simples, turno único em cada Casa do Congresso 
Nacional) possuem natureza supralegal, ou seja, estão abaixo da 
constituição, mas acima de toda e qualquer Lei. 
 
Em razão disso que essa teoria se chama “Teoria do Duplo Estatuto”, pois 
a depender do rito de aprovação o tratado internacional de direitos 
humanos terá natureza constitucional ou supralegal. 
 
Atente-se que o rito do art. 5º, §3 é facultativo, cabe ao Congresso Nacional 
decidir sobre o quórum de aprovação e turnos de votação. 
 
Em decorrência dessa Teoria temos três entendimentos importantes, 
vejamos: 
 
i) as leis (inclusive as leis complementares) e atos normativos são válidos 
se forem compatíveis, simultaneamente, com a Constituição e com os 
tratados internacionais de direitos humanos incorporados; 
 
ii) cabe ao Poder Judiciário realizar o chamado controle de 
convencionalidade nacional das leis, utilizando os tratados de direitos 
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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humanos como parâmetro supralegal ou mesmo equivalente à emenda 
constitucional; 
 
iii) os tratados incorporados pelo rito especial previsto no artigo 5º, §3º, da 
CF/88 passam a integrar o bloco de constitucionalidade restrito, podendo 
servir de parâmetro para avaliar a constitucionalidade de uma norma 
infraconstitucional qualquer. 
 
A título de curiosidade, o primeiro tratado que o Congresso Nacional 
aprovou conforme o procedimento do 3º do artigo 5º da Constituição 
Federal foi a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e 
seu Protocolo Facultativo, assinados em Nova York, em 30 de março de 
2007. 
 
Para resumir a Teoria do Duplo Estatuto, vamos ao esquema: 
 
Um ponto importante sobre a Teoria do Duplo Estatuto, é que a partir da 
implementação da mesma (o STF reconhece essa Teoria) o Pacto 
natureza constitucional
tratados de direitos 
humanos aprovados 
pelo Congresso 
Nacional, em dois 
turnos, por três 
quintos dos 
respectivos membros
Convenção sobre os 
Direitos das Pessoas 
com Deficiência e seu 
Protocolo Facultativo
natureza supralegal
tratados de direitos 
humanos aprovados 
pelo rito ordinário 
(maioria simples)
PIDCP, PIDESC, 
Pacto de São José da 
Costa Rica, etc.
Direitos Humanos | Janaina Silva 
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Internacional de Direitos Civis e Políticos (PIDCP) e o Pacto de San José da 
Costa Rica, ambos de 1992, passam a ter status hierárquico supralegal. 
 
Salienta-se que ambos os tratados impõem a proibição da prisão civil, 
excetuando os casos relativos a mandados de autoridade judiciária 
competente expedidos em virtude de inadimplemento de obrigação 
alimentar (pensão alimentícia). 
 
Entretanto, no Brasil resistia a possibilidade de prisão civil do depositário 
infiel (art. 652 do Código Civil). Assim, o “status” normativo supralegal dos 
tratados internacionais de direitos humanos citados, tornou inaplicável a 
legislação infraconstitucional com eles conflitante, seja ela anterior ou 
posterior ao ato de adesão. 
 
Em razão disso, partindo da interpretação do Pacto de São José da Costa 
Rica e do PIDCP, documentos internacionais que possuem força normativa, 
o Supremo Tribunal Federal editou uma Súmula Vinculante nº 25, em 2009, 
prevendo expressamente que “É ilícita a prisão civil de depositário infiel, 
qualquer que seja a modalidade de depósito”. 
 
 
 
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